Prévia do material em texto
CONVERSA DE CONVERSA DE SOCIÓLOGOS O sociólogo estadunidense Thorstein Veblen (1857-1929) foi pioneiro em anali- sar a prática de consumo nos Estados Unidos. Seu livro A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das instituições, publicado em 1899, tornou-se um clássi- co da Sociologia. Seu pensamento envolve várias categorias teóricas. Interessa-nos, aqui, o que ele chama de emulação pecuniária. Trata-se de uma imitação do comportamen- to, por parte dos indivíduos de baixa renda, de maneira consciente ou não, das práticas de consumo das classes sociais privilegiadas. Veblen defendeu a ideia de que os indivíduos se comparam tendo como referência os bens materiais, o que, segundo o autor, produziria consequências negativas. Primeiro, porque nem sem- pre as pessoas de baixa renda conseguem adquirir mercadorias utilizadas pelas classes médias e ricas. Segundo, porque, mesmo que consigam, não alcançam o prestígio social que almejam. É o caso do que Veblen chama de “novo-rico”: mes- mo que a pessoa possa comprar um automóvel caro ou roupas de grife, ela pode não ter conquistado o que as elites sociais chamam de “bom gosto”. Atualmente, os sociólogos compreendem o consumo de maneira menos rígi- da. Para o sociólogo britânico Colin Campbell (1940-), as pessoas, ao comprarem determinados bens de consumo, constroem a compreensão de si mesmas e uma identidade própria. Os estudos sociológicos, hoje, convergem nesse sentido: ao comprar determi- nadas roupas, calçados e acessórios, o indivíduo elabora a própria identidade e os próprios valores, ao mesmo tempo que informa aos outros quem ele é. Grupos de pessoas com interesses em comum consomem os mesmos produtos a fim de formar subculturas ou subsociedades, as chamadas tribos urbanas, para usar a expressão do sociólogo francês Michel Maffesoli (1944-). As identidades e as tribos são diversas: nerds, góticos, punks, hippies, emos, rappers, grunges, funkeiros, metaleiros, hip-hoppers, skatistas, rastafáris, como também “patricinhas” e “mauricinhos”. As tribos urbanas criam em seus inte- grantes o sentimento de pertencer a um grupo social, a uma coletividade, reti- rando o indivíduo da solidão e do isolamento. Além disso, elas expressam valores culturais e estéticos próprios, permitindo a diferença em uma sociedade que se quer padronizada. VEBLEN, Thorstein. A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das instituições. Tradução de Olívia Krähenbühl. São Paulo: Nova Cultural, 1985. CAMPBELL, Colin; BARBOSA, Livia (org.). Cultura, consumo e identidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. Tradução de Maria de Lourdes Menezes. Rio de Janeiro: Forense- -Universitária, 2000. ■ Considerando as reflexões sociológicas de Colin Campbell e Michel Maffesoli sobre a importância do consumo para a formação de identi- dades e subculturas no interior de determinada sociedade, reúna-se com um colega e, juntos, busquem informações sobre três tribos ur- banas que se destacam na experiência de adolescentes e jovens da cidade em que vocês moram. Incluam, também, imagens desses gru- pos. Para cada uma dessas tribos urbanas, apresentem e expliquem, de modo sintético: a) o nome e as influências culturais presentes em sua origem; b) as características visuais mais comuns entre seus integrantes – como estilo de roupas, acessórios e cabelos; c) os principais interesses culturais que seus integrantes compartilham; d) as atitudes e as preferências políticas e sociais que podem ser asso- ciadas a essa subcultura. 23 V6_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap1_018a037_LA.indd 23V6_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap1_018a037_LA.indd 23 9/2/20 3:50 PM9/2/20 3:50 PM CONTRACULTURA Você sabe o que significa “cultura”, palavra tão presente no nosso dia a dia? De acordo com a Antropologia, cultura é o conjunto de ideias, crenças, valores e códi- gos comportamentais próprios de um grupo social, de comunidades ou de socieda- des. Tudo que é comportamento aprendido é cultural. As comunidades indígenas brasileiras têm sua cultura, assim como os habitantes das cidades, sendo um equí- voco a hierarquização das culturas. O american way of life pode ser considerado uma cultura. Viver em condomínios nos subúrbios, usar o carro como meio de transporte e consumir excessivamente bens duráveis e não duráveis são atos que formam um padrão comportamen- tal, uma cultura, assim como a maneira de divertir-se, vestir-se e alimentar-se. O american way of life inclui ainda valores do capitalismo liberal, como a livre- -iniciativa empresarial. Nos anos 1950, todo esse conjunto de valores estava conjugado ao tradicionalis- mo social. Ou seja, tratava-se de uma sociedade conservadora, em que as classes médias e ricas mantinham seus filhos sob rígido controle. Em certo momento, mui- tos jovens rebelaram-se contra o conservadorismo e o autoritarismo, estabelecen- do valores próprios que negavam a cultura dominante do american way of life. Eles criaram uma contracultura, um novo estilo de vida. Os historiadores citam a geração beat como o pontapé inicial da contracultura. Completamente incomodados com o tradicionalismo e o conservadorismo da so- ciedade em que viviam, os escritores dessa geração negavam os valores sociais vigentes e criticavam o conformismo em seus livros. Em 1957, Jack Kerouac (1922- -1969), o mais conhecido desses escritores, publicou o livro On the Road, em que narra sua viagem de sete anos cruzando os Estados Unidos. O livro tornou-se refe- rência para um estilo de vida que influenciou muitos jovens do país. Além dos escritores, surgiram artistas que negavam os modelos tradicionais da época e, por essa razão, tornaram-se ídolos de muitos jovens. Um deles foi Elvis Presley (1935-1977) – sua maneira de cantar e dançar subverteu os valores con- servadores e desafiou preconceitos. Outro artista que rompeu com os valores conservadores da década de 1950 foi o ator de cinema James Dean (1931-1955). Ele tornou-se ídolo dos jovens depois de atuar no filme Rebel without a Cause (em tradução livre, “Rebelde sem cau- sa”; lançado em português como Juventude transviada), de 1955, no qual interpreta um jovem rebelde em conflito com os pais, represen- tando as inquietações e as angús- tias da juventude da época. comportamento aprendido todos os comportamentos humanos são invenções sociais e são transmitidos por meio da linguagem. Trata-se de invenção coletiva, e não de herança genética. A maneira como nos relacionamos em sociedade, nos alimentamos, nos vestimos, nos divertimos, entre outros comportamentos que aprendemos, é cultural. livre-iniciativa empresarial liberdade garantida aos indivíduos para realizar empreendimentos econômicos. É considerada essencial no modelo de economia capitalista. KEROUAC, Jack. On the Road: pé na estrada. Tradução, introdução e posfácio de Eduardo Bueno. Porto Alegre: L&PM, 2004. Ao cantar, Elvis Presley, que iniciara a carreira na década de 1950, mexia os quadris, as pernas, os braços e as mãos de uma maneira que desafiava os valores tradicionais vigentes. Ao mesmo tempo que rompia com padrões do comportamento masculino, sua dança era carregada de sensualidade. Nesta cena do filme O seresteiro de Acapulco (1964), dirigido por Richard Thorpe, Elvis aparece dançando ao estilo que o consagrou. akg-images/Album/Fotoarena 24 V6_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap1_018a037_LA.indd 24V6_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap1_018a037_LA.indd 24 9/2/20 3:50 PM9/2/20 3:50 PM