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Práticas de Linguagens Projetos de Vida e Sociedade (141)

Material de leitura sobre o conto de Ondjaki: traz breve ficha do autor, trechos de "Nós matámos o Cão Tinhoso", questões de compreensão e análise (narrador, discursos, memória e emoções em sala de aula) com respostas e orientações.

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O escritor Ondjaki nasceu em Luanda, em 1977. 
Publicou romances, poemas e contos que já foram 
traduzidos para diversos idiomas. Faz parte da União 
dos Escritores Angolanos. O autor também se dedica ao 
cinema e ao teatro, sendo coprodutor do documentário 
Oxalá cresçam pitangas — histórias de Luanda, de 2006. 
Mantém um blog, em que publica poemas e alguns de 
seus contos.
Leonardo Cendamo/Getty Im
ag
es
 Ondjaki. Disponível 
em: www.kazukuta.
com/ondjaki/
ondjaki.html. 
Acesso em: 20 jul. 
2020.
Acesse o site oficial 
do escritor para 
saber mais sobre ele.
FICA A DICA
16 Releia o seguinte trecho:
A camarada professora levantou-se, veio devagar para perto de mim, ficou quietinha. Como 
se quisesse me dizer alguma coisa com o corpo dela ali tão perto. Aliás, ela já tinha dito, ao me 
escolher para ser o último a fechar o texto, e eu estava vaidoso dessa escolha, o último normal-
mente era o que lia já mesmo bem. Mas naquele dia, com aquele texto, ela não sabia que em 
vez de me estar a premiar, estava a me castigar nessa responsabilidade de falar do Cão Tinhoso 
sem chorar.
— Camarada professora — interrompi numa dificuldade de falar. — Não tocou para a saída?
a. O modo de narrar, como você estudou anteriormente, relaciona-se ao que o narrador dese-
ja mostrar e evidenciar. Que tipos de discurso são utilizados no excerto acima? Explique.
b. No conto, é possível “ouvir” a voz do narrador como personagem. Por que a voz do perso-
nagem aparece para os demais apenas nesse momento do conto? Ela está relacionada com 
as emoções descritas ao longo da narração? 
17 Por meio do relato das memórias desse personagem, é possível conhecer um pouco do com-
portamento dos meninos e meninas que compunham essa sala de aula em Luanda. O que 
ficamos sabendo deles? 
18 Releia o trecho a seguir para responder à questão.
Foi no tempo da oitava classe, na aula de português.
Eu já tinha lido esse texto dois anos antes mas daquela vez a estória me parecia mais bem con-
tada com detalhes que atrapalhavam uma pessoa só de ler ainda em leitura silenciosa – como 
a camarada professora de português tinha mandado. Era um texto muito conhecido em Luanda: 
“Nós matámos o Cão Tinhoso”. 
Eu lembrava-me de tudo: do Ginho, da pressão-de-ar, da Isaura e das feridas penduradas do Cão 
Tinhoso. Nunca me esqueci disso: um cão com feridas penduradas. Os olhos do cão. Os olhos da 
Isaura. E agora de repente me aparecia tudo ali de novo. Fiquei atrapalhado.
 De acordo com o narrador, o texto “Nós matámos o Cão Tinhoso” era muito conhecido por 
todos em Luanda. Que palavras e expressões o narrador utiliza para mostrar o impacto 
dessa história sobre ele? Justifique com exemplos do texto. Há um encaminhamento de resposta nas 
Orientações específicas deste Manual.
19 A narração das memórias apresenta um movimento de aproximação do passado, a fim de 
lembrar o que foi vivido, e vinculação com o tempo presente, ao pensar sobre o vivido. Que 
informações o trecho a seguir apresenta sobre o passado e o presente do narrador? 
Na oitava classe, era proibido chorar à frente dos outros rapazes. 
20 O narrador, quando começa a leitura em sala, introduz um segundo plano narrativo. Qual 
seria? Por que considerou importante inserir esse novo plano? Há um encaminhamento de resposta nas 
Orientações específicas deste Manual.
 
Pelo relato do menino, podemos saber que a história do Cão Tinhoso é um conhecimento partilhado por 
todos, pois todos ficaram tensos quando iniciada a leitura. Também conhecemos um momento partilhado 
na sala de aula, a movimentação da professora, a troca de olhares entre os estudantes, o medo da 
exposição, de demonstrar sensibilidade ou fraqueza diante de uma história triste, algo muito comum entre 
adolescentes de diversas culturas.
18. O narrador elenca os aspectos mais impactantes da história por meio da descrição de elementos centrais do todo, depois traz pontualmente: “pressão-
-de-ar”; “feridas penduradas”; “olhos do cão”; “Fiquei atrapalhado”.
19. Na oitava série, chorar diante dos colegas era “proibido”, ou seja, não era aceitável nem de bom tom, podia ser vexaminoso. Ao destacar com tamanha 
ênfase esse acordo tácito entre os estudantes daquela época, o narrador sugere que no presente é aceitável emocionar-se até as lágrimas diante de uma 
história muito triste. E isso diferencia esse narrador do presente daquele personagem de oitava série de tempos atrás. 
a. O discurso indireto, no qual o narrador nos conta o que se passava na sala de aula durante a leitura, e o discurso direto, quando o próprio narrador perguntou 
à professora se podia interromper a leitura. 
b. A voz do personagem aparece para os demais apenas no momento em que a professora solicita ao narrador-personagem que faça a leitura do trecho final do 
texto. Sua fala não corresponde às emoções daquele instante, porque chama a atenção da professora para algo muito concreto: o anúncio do término da aula. 
Por outro lado, essa preocupação é indício do seu desejo de fugir da situação constrangedora de chorar diante dos colegas. 
Verifique se os estudantes conseguem reconhecer essas diferenças nas formas de narrar. A escolha do 
discurso direto, indireto e indireto livre está relacionada à intencionalidade da narrativa; dar voz ou não 
aos personagens trata-se de uma estratégia de escrita bastante explorada por diversos escritores. 
Há um encaminhamento de resposta nas Orientações específicas deste Manual.
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Ondjaki faz parte um grupo de escritores de literatura africana de 
língua portuguesa contemporânea, ao lado de outros, como o angolano 
José Eduardo Agualusa (1960-) e o moçambicano Mia Couto (1955-). A 
escrita desses autores tem como objetivo mostrar um continente africa-
no distinto do que consta nos livros de História, que em geral carregam 
um viés eurocentrado.
Na obra Os da minha rua (2007), Ondjaki traz 22 histórias com 
lembranças de sua infância. É importante destacar que os relatos 
têm como base a memória da vida, dos amigos, dos parentes, dos 
professores, mas não são exatamente um retrato exato da realida-
de. O próprio autor afirmou isso em uma entrevista: “Penso que 
um livro é sempre uma transformação do real, em algo estetica-
mente novo, renovado”.
Nesse sentido, a obra muitas vezes é classificada como auto-
ficção ou como um livro de memórias, já que traz uma reelabora-
ção do que foi vivido. A partir disso, é importante notar que é 
bastante sutil a linha que separa a autobiografia da autoficção — 
termo cunhado em 1977 pelo escritor francês Serge Doubrovsky 
(1928-2017).
Vale destacar que ambos os gêneros se aproximam pelas marcas 
discursivas: narrador em primeira pessoa e narrador e personagem se 
integram. Além disso, é importante considerar o pacto entre leitor e obra 
com uma ideia de compartilhamento da memória, mas levando em conta 
que essas lembranças foram reelaboradas em um tempo presente. 
NÃO ESCREVA 
NESTE LIVRO.
EXPERIMENTAÇÃO
Neste momento, você vai retomar as memórias de infância para criar 
uma autobiografia ou uma autoficção. Pense nos eventos mais marcantes 
de sua vida e siga os passos a seguir. 
1 Faça um registro dos eventos de que se lembrou. Se quiser, elabore 
uma lista e destaque entre eles um ou dois acontecimentos que 
considera mais relevantes e inesquecíveis. 
2 Após a escolha dos fatos a serem contados, inicie a escrita do texto. 
Decida se quer se ater aos acontecimentos (autobiografia) ou se vai 
incluir invenções ou alterações (autoficção), lembrando-se de que a 
distinção entre os dois gêneros é sutil.
3 Finalizada a história, organize rodas de conversa com os colegas 
e o professor para o compartilhamento dos textos. O ideal é que 
organizem pequenos grupos formados por até quatro componentes e 
que cada componente apresente aos demais o texto que produziu.4 Por fim, os textos da turma podem ser organizados em um mural 
coletivo, para que todos tenham acesso às produções.
Lembre-se de registrar no diário de bordo como foi a experiência de 
produzir um texto baseado em uma memória pessoal e o que achou dos 
relatos dos colegas da turma.
MEMÓRIAS
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