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Reumatologia – LES Ita med105 Pág 1 Lúpus Eritematoso Sistêmico - LES • Doença inflamatória crônica, autoimune, de etiologia pouco conhecida • Multifatorial (multissistêmica), com participação de fatores genéticos, epigenéticos, hormonais, ambientais e imunológicos. • Desequilíbrio do sistema imunológico e de produção de autoanticorpos • Formação de imunocomplexos que, ao se depositarem em vasos de pequeno calibre, resultam em vasculite e disfunção do local acometido. • Curso e prognóstico variáveis. • Evolui com períodos de exacerbação de atividade inflamatória, intercalados com remissão parcial ou completa. Epidemiologia • Distribuição universal - 3,4 milhões de pessoas ➢ Prevalência: 17 – 223 /100.000 • Maior prevalência em afrodescendentes • Prevalente em mulheres na idade reprodutiva – mulheres jovens ➢ Mulheres 10:1 homem • Em idosos e crianças também pode ocorrer, mantendo o predomínio do sexo feminino (3:1) • Mortalidade: 2-4 x mortalidade da população geral Reumatologia – LES Ita med105 Pág 2 Etiologia • Pré-disposição genética, fatores hormonais, imunológicos, ambientes, leva a perda da tolerância imunológica. • Alta prevalência em gêmeos monozigotos, parentes de primeiro grau • O papel patogênico dos hormônios baseia-se na hipótese de imunomodulação. Os estrógenos têm papel estimulador de várias células imunes, como macrófagos, linfócitos T e B. ➢ Estimula secreção de algumas citocinas (IL1 e adesão MHC). Fator ambiental: • Luz ultravioleta (UV) ➢ A exposição solar determina a apoptose de queratinócitos com subsequente expressão de moléculas como RNP, Ro, nucleossoma e fosfolipídeos nos corpúsculos apoptóticos, a secreção de citocinas (IL1, IL6, TNF-alfa, GM-CSF) com amplificação da resposta imune, além de promover a ativação de macrófagos e processamento de antígenos, o que desencadeia uma resposta inflamatória sistêmica. • Vírus são potentes estímulos para a ativação da resposta imune: Epstein-Barr (EBV), citomegalovírus (CMV), pelo Mycobacterium tuberculosis com o LES. • Algumas medicações como hidralazina e isoniazida, podem provocar sintomas similares ou atuar como gatilho para as manifestações da doença. • Tabagismo, fator ambiental mais associado ao desenvolvimento da LES, tbm reduz o efeito terapêutico da hidroxicloroquina. Patogenia • Defeito do sistema imune por perda da autotolerância. ➢ Quebra a homeostasia celular, produção anormal de autoanticorpos. ➢ Pode demorar anos para aparecerem os sintomas, ou não. • Distúrbios de regulação imune: ➢ Aumento da expressão de IFNα (períodos de atividade inflamatória) ➢ Redução do número e função das cél T citotóxicas e supressores em paralelo ao aumento do número de atividade dos linfócitos T CD4+ (helper) e ativação policlonal de cél B autorreativas (apoptose e defici. Complemento) ➢ Redução da expressão de IL2 e do número de cél T regulatórias ➢ Apoptose de neutrófilos (NETose) Reumatologia – LES Ita med105 Pág 3 Quadro clínico Manifestações gerais • Mal-estar • Anorexia e perda de ponderal • Fadiga • Febre de origem indeterminada (principalmente observada em crianças e adolescentes) • Linfoadenopatia generalizada ou localizada – predomínio cadeia cervical e axilar • Presença de hepato e/ou esplenomegalia Manifestações cutâneas • 70% dos pacientes no início da doença e em até 80-90% na sua evolução. Principais lesões cutâneas: lúpus cutâneo agudo, subagudo e discoide. • Lesão cutânea aguda: ➔ Rash malar (eritema em asa de borboleta) – altamente fotossensível ➢ Podem evoluir com hiperpigmentação, confundindo-se com cloasma gravídico ➔ Rash maculopapular (dermatite lúpica fotossensível) – ➢ Forma generalizada ➢ Erupção exantematosa ou morbiliforme generalizada ➔ Lúpus bolhoso e a necrose epidérmica tóxica – outras formas de lesões agudas, também fotossensíveis. • Lúpus cutâneo subagudo: ➔ Placas eritematosas escamativas em áreas expostas, com intensa fotossensibilidade ➢ Associado ao anticorpo anti-Ro (SS-A) ➢ descartar medicamentos. • Lesão discoide – pode ocorrer em Lupus cutâneo e sistêmico ➔ evolui deixando cicatriz central hipopigmentada com atrofia ➔ Identificada na face, couro cabeludo, pavilhão auricular e no pescoço. • Úlceras orais são indolores – observa-se no exame físico; Reumatologia – LES Ita med105 Pág 4 • Alopecia difusa; • vasculite cutânea – lesões puntiformes palmoplantares, • purpúricas (MMII), • urticariformes, úlceras e necrose digital • Fenômeno de Reynaud – presença dos anticorpos anti_RNP • Necrose digital Manifestações articulares • Artralgia e/ou artrite – forte suspeita diagnostica ➢ Pode ser identificado no início da doença • Poliartrite simétrica aditiva – por vezes com rigidez matinal (semelhante a AR) • Artropatia de Jaccoud – acometimento inflamatório de tendão e ligamentos ➢ Desvio ulnar + “pescoço de cisne” • Diagnostico diferencial - AR Manifestações pulmonares • Pleurite – mais frequente (30 – 60%) • Derrame pleural (16 – 40%) • Sd do pulmão encolhido, pode ocorrer na doença, levando a instalação aguda/subaguda de dispneia em que existe redução dos volumes pulmonares frente à redução do diafragma, restringindo a função pulmonar. • Hemorragia alveolar difusa, determinando dispneia de início súbito, associada a tosse, hemoptise (presente em 50%), febre e infiltrados pulmonares difusos, reduzindo a hemoglobina. • Hipertensão pulmonar – primaria ou secundária a valvulopatia cardíaca, doença intersticial pulmonar ou embolia pulmonar (decorrente da associação com a SAF) • Pneumonite aguda e crônica são menos frequentes ➢ Descartar infecções Manifestações cardiovasculares • Pericardite – rara, podendo aparecer isoladamente ou associada a serosite generalizada, associada a pleurite. Os quadros podem se apresentar desde assintomáticos a tamponamento, • Miocardite sintomática – taquicardia persistente e sinais clínicos de insuficiência cardíaca aguda, geralmente com alterações no mapeamento cardíaco e enzimas musculares. • Endocardite de Libman-Sacks – vegetação verrucosas próxima as bordas valvares, habitualmente não produzem repercussão clínica. • Arterosclerose Manifestações renais • 74% dos pacientes com LES irão apresentar alguma manifestação renal • Hematúria (dismorfismo); cilindrúria; proteinúria Reumatologia – LES Ita med105 Pág 5 • Sd nefrítica ou nefrótica. ➢ Classe I e II – glomerulonefrites (GN) ➢ Classe III – GN focal, comprometimento total de glomérulos < 50% ➢ Classe IV (GN difusa), > 50% dos glomérulos ➢ Classe V – GN membranosa ➢ Classe VI – escleros glomerular • Sedimento urinário ativo – presença de hematúria, leucocitúria e cilindros celulares ➢ Proteinúria medida em 24h ➢ A redução da filtração glomerular, a proteinúria nefrótica e a presença de hipertensão arterial sistêmica (HAS) sugerem maior gravidade e pior prognóstico. Na impossibilidade de realização da biópsia renal, podemos inferir a provável classe histológica utilizando variáveis clínicas e laboratoriais, conforme proposto pelo consenso da SBR, ainda que exista uma certa imprecisão diagnóstica. GN apresenta períodos de atividade com rápida instalação e evolução, o que determina início imediato da fase de indução, com umaimunossupressão mais intensa. Na prática clínica, nem sempre é possível realizar a biópsia renal, sendo necessário iniciar o tratamento mais rápido possível. Manifestações hematológicas • Anemia de doença crônica – achado mais frequente • Leucopenia e linfopenia • Plaquetopenia pode ser a primeira manifestação da doença. • Clinicamente, observam-se petéquias ou equimoses, principalmente em MMII, além de fenômenos hemorrágicos. • Anemia hemolítica e Coombs +. ➢ Hiperesplenismo ➢ Insuficiência renal Manifestação neuropsiquiátrica Manifestações neuropsiquiátricas SNC SNP • Crises convulsivas (convulsões tônico- clônicas generalizadas) • Meningite asséptica • Cefaleia (incluindo enxaqueca e hipertensão intracraniana benigna) • Distúrbio de comportamento • Psicose • Doença cerebrovascular - Sd desmielinizante • Mielopatia • Desordem de movimento (coreia) • Polirradiculoneuropatia desmielinizante inflamatória aguda (Sd de guillain-Barré) • Desordens autonimicas • Mononeuropatia • Miastenia gravis • Neuropatia craniana • Plexopatia • Polineuropatia Reumatologia – LES Ita med105 Pág 6 • Estado confusional agudo • Desordens de ansiedade • Disfunção cognitiva • Alterações do humor Exames laboratoriais • A investigação de anticorpos auxilia no diagnóstico da doença • Exames realizados de acordo com a suspeita de acometimento. • Teste FAN (fator antinuclear) positivo em títulos altos, durante os períodos de atividade de doença. Sua positividade não é específica para LES • C3, C4 e complemento hemolítico total – auxiliam no diagnostico e acompanhamento do paciente • Hemograma - anemia, leucopenia, trombocitopenia por atividade de doença e droga • Sedimentos urinários - proteinúria, hematúria, leucocitúria, cilindrúria • biópsia renal - classe histológica da nefrite • enzimas musculares – miosite • enzimas hepáticas - hepatite, toxicidade à droga • ressonância magnética - atividade do sistema nervoso central e infecção • eletroneuromiografia - neuropatia periférica Exames que refletem alterações inflamatórias são inespecíficos e incluem VHS e PCR. Nos lúpus, a PCR, em geral, não se eleva muito, exceto quando existe infecção associada. Reumatologia – LES Ita med105 Pág 7 Diagnostico diferencial O diagnóstico diferencial é amplo e depende das manifestações clínicas apresentadas, principalmente no início da doença, o que determina considerar: • Infecções: virais como citomegalovírus (CMV), Epstein-Barr (EBV), parvovírus B19, HIV, hepatite B e hepatite C, além de bacterianas como endocardite, tuberculose, sífilis e hanseníase. • Doenças autoimunes: artrite reumatoide – particularmente na fase inicial dos quadros articulares (verificar positividade de anti-CCP, fator reumatoide e radiografia das mãos); doença mista do tecido conectivo – por possuir manifestações que se sobrepõem ao LES (considerar títulos elevados de anti-RNP); síndrome de Sjögren – quando de manifestações extraglandulares que podem ser observadas no LES (verificar presença de xeroftalmia e xerostomia, além de positividade de anti-Ro e anti-La); vasculites sistêmicas primárias, doença de Behçet, doenças inflamatórias intestinais, dermatomiosite/polimiosite. • Outras doenças hematológicas: doenças linfoproliferativas, púrpura trombocitopênica idiopática (PTI), púrpura trombocitopênica trombótica (PTT), doença de Kikuchi, esclerose múltipla, entre outras. Diagnóstico Combinação de manifestações clínicas e alterações laboratoriais, desde que outras doenças sejam excluídas. • Para o final diagnóstico, é necessário que estejam presentes no mínimo 4 critérios, 1 clínico (do total de 11) e 1 imunológico (total de 6) • Alternativamente, a doença é considerada quando a nefrite é confirmada por biópsia na presença de FAN positivo ou anticorpo anti-dsDNA positivo • Atividade de doença – combinação de história clínica, exame físico, testes funcionais específicos e estudos sorológicos Prognostico – melhorou muito dos últimos anos para cá. Com sobrevida em 5 anos: 1950 - 50%; 2020 – 95%. Tratamento • Educação do paciente e de seus familiares sobre a provável evolução natural da doença e potencial gravidade dos acometimentos, além da presença de comorbidades e danos associados ao LES e/ou seu tratamento. • Medidas não terapêuticas: alimentação saudável (dieta restrita em sal e rica em cálcio), prática de exercícios físicos regularmente. • O tratamento medicamentoso requer a definição de que os sintomas apresentados são exclusivos da doença e não de complicações associadas, como infeccções. • Tratamento de todos os pacientes com LES é o uso dos antimaláricos, preferencialmente a hidroxicloroquina, que deve ser prescrita desde o diagnóstico independentemente da gravidade da doença. A baixa adesão pode ocorrer por receio de maculopatia. Pior prognostico: • Início infanto-juvenil • Etnia não caucasiana • Baixo nível socioeconômico. Reumatologia – LES Ita med105 Pág 8 • Recomendação é de que a pulsoterapia com esteroides para as condições com risco de vida seja feita com metilprednisolona 500 mg i.v. durante 3 dias, • Manifestações leves e/ou moderadas, além da hidroxicloroquina, está indicada a prednisona (doses entre 0,125 e 0,5 mg/kg/dia, com redução subsequente após 2 a 3 semanas para a menor dose possível), em associação com metotrexato, leflunomida e azatioprina (AZA) se necessário • Casos refratários, outros agentes imunossupressores e/ou imunomoduladores: micofenolato de mofetila (MMF) ou sódico (MS), a ciclofosfamida (CFM), dapsona, e a talidomida, esta última restrita às lesões cutâneas refratárias por causa dos efeitos adversos como a teratogenicidade e neuropatia axonal periférica. • IECA E BRA - recomendados como antiproteinúricos para todos os pacientes (exceto contraindicações)