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FILOSOFIA GERAL AULA 10 METAFÍSICA 2 – TEOLOGIA RACIONAL Nem a alma, princípio dos fenômenos da vida e do pensamento, nem a matéria, princípio dos fenômenos extensos e sensíveis, bastam para se explicar a si próprias. Logo, têm a sua razão suficiente noutro ser; e a metafísica não termina a sua obra antes de chegar a determinar este ser primeiro, e a reduzir assim a multiplicidade infinita das coisas à unidade absoluta de um só princípio, razão última de toda a existência e de toda a possibilidade que chamamos Deus. Este é o objeto TEOLOGIA RACIONAL ou TEODICEIA. OBJETO, MÉTODO E DIVISÃO DA TEODICEIA. 1. Definição. Teodiceia é a ciência de Deus unicamente pelo lume da razão. Distingue-se da Teologia, que se ocupa de Deus com o auxílio da razão esclarecida pela fé. São os três elementos essenciais que formam para nós a ideia de Deus: Ser absoluto existente por si e independentemente de todo o outro ser. Ser perfeito que contém em si a plenitude de todas as outras perfeições. Causa primeira e razão última de toda a existência e de toda a possibilidade. 2. Método. Simultaneamente experimental e racional. Deve partir da observação dos fatos, para firmar-se no terreno do real e do concreto, e servir-se da razão para se elevar até ao infinito e absoluto. 3. Com relação a Deus podem tratar-se três questões que esgotam todo o conhecimento que dele podemos adquirir. Existe? Que é? Que faz? A estas perguntas correspondem três Partes da Teodiceia: EXISTÊNCIA, NATUREZA E ATRIBUTOS, RELAÇÕES DO MUNDO COM DEUS. PRIMEIRA PARTE - EXISTÊNCIA DE DEUS INTRODUÇÃO. NECESSIDADE E POSSIBILIDADE DA DEMONSTRAÇÃO 1. Será necessário, e será possível demonstrar a existência de Deus? - Ontologicamente Deus é sem dúvida a primeira verdade, do mesmo modo que é o primeiro princípio de todo o ser existente ou possível; mas logicamente para nós ele não será a primeira verdade conhecida. 2. A razão humana será capaz de demonstrar a existência de Deus? - Grandes filósofos de todo os séculos afirmam que a razão humana tem ao mesmo tempo a necessidade e a possibilidade de demonstrar a existência de Deus. 3. Quais são as cinco vias que possibilitam responder estas questões? "Cinco vias que provam a existência de Deus em Santo Tomás de Aquino" em: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/cinco-vias-que-provam-existencia-deus-santo-tomas-.htm https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/cinco-vias-que-provam-existencia-deus-santo-tomas-.htm "Comumente se diz que Santo Agostinho cristianizou Platão, assim como Aquino cristianizou Aristóteles. Como este, Aquino parte do sensível para chegar ao inteligível como processo de conhecimento. Assim, o filósofo cristão distingue cinco vias para caracterizar o conhecimento e provar a existência de Deus. Vejamos quais são: 1. Primeiro motor imóvel: esta primeira via supõe a existência do movimento no universo. Porém, um ser não move a si mesmo, só podendo, então, mover outro ou por outro ser movido. Assim, se retroagirmos ao infinito, não explicamos o movimento se não encontrarmos um primeiro motor que move todos os outros; 2. Primeira causa eficiente: a segunda via diz respeito ao efeito que este motor imóvel acarreta: a percepção da ordenação das coisas em causas e efeitos permite averiguar que não há efeito sem causa. Dessa forma, igualmente retrocedendo ao infinito, não poderíamos senão chegar a uma causa eficiente que dá início ao movimento das coisas; 3. Ser Necessário e os seres possíveis: a terceira via compara os seres que podem ser e não ser. A possibilidade destes seres implica que alguma vez este ser não foi e passou a ser e ainda vem a não ser novamente. Mas do nada, nada vem e, por isso, estes seres possíveis dependem de um ser necessário para fundamentar suas existências; 4. Graus de Perfeição: a quarta via trata dos graus de perfeição, em que comparações são constatadas a partir de um máximo (ótimo) que na verdade contém o verdadeiro ser (o mais ou menos só se diz em referência a um máximo); 5. Governo Supremo: a quinta via fala da questão da ordem e finalidade que a suprema inteligência governa todas as coisas (já que no mundo há ordem!), dispondo-as de forma organizada racionalmente, o que evidencia a intenção da existência de cada ser. Todas essas vias têm em comum o princípio de causalidade, herdado de Aristóteles, além de partirem do empírico, ou seja, de realidades concretas e de um mundo hierarquicamente ordenado. Vale também notar como Tomás de Aquino concebe o homem. Para ele, o homem é um ser intermediário. É composto de corpo (matéria) e alma (forma) sem as quais nada significa, isto é, nada é isoladamente. Assim, o homem é um ser intermediário entre os seres de forma mais elementar, como os minerais, as plantas e os animais, e os seres mais perfeitos como os anjos e Deus. O homem possui as características dos anteriores a ele e também dos procedentes na hierarquia do universo. Entretanto, o conhecimento de Deus se faz por analogia, seguindo uma vida de negação que afasta dele todo elemento criatural. Mas somente isto redundaria num agnosticismo. E não se conhece Deus imediatamente como numa contemplação direta com a essência divina, mas somente através de um saber analógico em que todos os nomes não predicados, explícita ou implicitamente de modo negativo, Lhe aplicam tal sentido analógico, o que evidencia a distância infinita entre o Criador e as criaturas e também justifica os enunciados que de Deus fazemos (Deus é Bom, Infinitamente Sábio, etc.). Essa doutrina da analogia que inclui semelhança e comparação se opõe à da iluminação; esta propõe um contato imediato com Deus. O abandono da Iluminação divina – experiência interna – pela analogia – experiência externa – acarretou suas consequências e dificuldades, a saber: em primeiro lugar, as criaturas semelhantes a Deus por serem causadas por Ele (causa equívoca) devem conter seus efeitos. Desse modo, a causa contém em si os seus efeitos; em segundo lugar, nada é univocamente predicável de Deus e das criaturas, o que de acordo com o dito acima (causa equívoca) seus efeitos também o são. A univocidade se enquadra em categorias e é a relação para a equivocidade, enquanto Deus não se encaixa em nenhuma categoria. Ele é simplesmente; e em terceiro lugar, alguns predicados não são enunciados do modo puramente equívoco de Deus, já que para Aquino, uma equivocação pura é um termo que, por simples causalidade, é empregado para designar coisas diversas. O tautológico não se relaciona com as coisas e se assim fosse, não teríamos dele conhecimento algum; e por último, que os predicados positivos são anunciados analogicamente de Deus e das criaturas. Em nossas predicações, o ser compete primeiro às criaturas e depois a Deus. E não o contrário, porque não há relações entre estes. Designamos Deus a partir do que deparamos nas criaturas de modo infinito (nas relações, ocorre o inverso, já que o predicado é anterior à natureza de qualquer substância). Portanto, Santo Tomás de Aquino atribui a predicação de Deus e da criatura, somente por analogia, evidenciando entre eles uma distância infinita da qual nenhum conceito transpõe, já que Deus transcende infinitamente a criatura.” (João Francisco P. Cabral Colaborador Brasil Escola). SEGUNDA PARTE NATUREZA E ATRIBUTOS DE DEUS CAPÍTULO I OS ATRIBUTOS DIVINOS EM GERAL 1. Depois da questão da existência de Deus, surge a questão da sua natureza. Deus existe; mas o que é? Quais são os seus atributos? Poderemos conhecê-los? A mesma via da causalidade e da contingência que nos permitiu afirmar a necessidade de Deus nos levará ao caminho que conduz às suas perfeições. Certas perfeições relativas da criatura, que supõem essencialmente limite ou mudança (ex. número, extensão, movimento), pelo fato de serem finitas, devem ser excluídas de Deus. Pelo contrário, os atributos em que o limite émeramente acidental, como a inteligência, a liberdade, a vida, e em geral, o ser, porque em si e absolutamente são perfeições devem ser afirmados de Deus sem limites nem restrição. 3. Os atributos e os atos de Deus identificam-se com a sua essência para formarem com ela uma só e infinita perfeição. Deus, ato puro de um modo infinito. Deus é Inteligência, Poder, Bondade, infinitas. 4. A inteligência, a bondade, as diversas perfeições, que afirmamos de Deus, são aplicadas por via de analogia. CAPÍTULO II ATRIBUTOS METAFÍSICOS Os atributos metafísicos são os que pertencem a Deus enquanto Ser absoluto. São: a simplicidade, a infinidade, a unidade, a imutabilidade, a eternidade, e a imensidade. Deduzem- se a priori da necessidade de Deus. 1. - Simplicidade de Deus. A simplicidade consiste na ausência de composição. Deus é metafisicamente simples, porque é o Ser necessário. 2. - Infinidade de Deus. Possui esta perfeição em toda a sua plenitude. Deus é infinito, quer dizer, possui a plenitude do ser. A perfeição infinita é positivamente concebível e, por consequência, o ser que possui toda a perfeição verdadeira, também a deve possuir: 3. - Unidade de Deus. A unidade é o atributo em virtude do qual não existe nem pode existir senão um só Deus. Os seres finitos são vários. Deus, pelo contrário, é absolutamente único. 4. - Imutabilidade de Deus. A imutabilidade é a perfeição pela qual Deus permanece necessariamente idêntico a si mesmo sem mudança nem variação alguma. O Ser infinito possui necessariamente toda a perfeição em grau infinito, é por isso mesmo incapaz de progresso ou de retrocesso, de adquirir o que não tem ou de perder o que tem; é, pois, necessariamente imutável, imóvel, como se exprime Aristóteles. 5. - Eternidade de Deus. A eternidade é a posse plena e simultânea da vida, sem princípio nem fim como a definiu Boécio. O ser infinito exclui necessariamente todo o limite, de qualquer natureza e ordem que seja. Deus é Aquele que é. 6. - Imensidade de Deus. A imensidade é a perfeição infinita pela qual Deus, sem ser extenso, nem ocupar nenhum espaço, pois é absolutamente simples, preenche todos os espaços pela sua presença, pela sua onipotência ou pela sua ação efetiva. Deus está em toda parte. CAPÍTULO III ATRIBUTOS MORAIS Os atributos metafísicos se limitam a dar-nos a conhecer a Deus como ser e substância absolutos. Os atributos morais revelam-no como pessoa moral, dotada de inteligência, de liberdade e de bondade. Como prova nós partimos do homem, único ser moral que conhecemos. Os atributos morais reduzem-se a três e correspondem às nossas três faculdades: A inteligência perfeita, que compreende a onisciência e a sabedoria infinita; O amor perfeito, que compreende a bondade, a santidade, a justiça e a felicidade absolutas; 1. - O homem conhece um pouco de quase tudo, Deus conhece tudo de todos. Portanto Deus é infinitamente inteligente, onisciente; sabe o que é, o que foi, o que será. 2. - O amor é o movimento da vontade para o bem conhecido. Deus que introduziu no coração do homem o amor, não pode deixar de possuí-lo. Deus é amor 3. - Onipotência e liberdade de Deus. O homem é dotado de força e energia limitadas. Deus também possui estes atributos, porém a força é ilimitada. Deus é todo poderoso. 4. A nossa liberdade é imperfeita: pode extraviar-se e querer o mal. Deus é plena e perfeitamente livre, sem restrição nem abusos possíveis. Deus é livre. Numa palavra que compreenda tudo, expressa na Sagrada Escritura: “Ego sum qui sum” – Eu sou aquele que sou. Aristóteles diria que é a perfeição infinita, o ato puro. TERCEIRA PARTE RELAÇÕES DO MUNDO COM DEUS Provada a existência de Ser Infinito, resta explicar as suas relações com o mundo finito. CAPÍTULO I - A CRIAÇÃO Criar é tirar uma coisa do nada, é produzir sem o concurso de matéria preexistente, afirma a Escolástica. Só Deus pode criar: porque, sendo, por assim dizer, infinita a distância do não-ser ao ser, só um poder infinito pode vencê-la. A ação da criatura limita-se, quando muito, a modificar mais ou menos as substâncias preexistentes. Afirmamos somente que Deus, existindo desde toda a eternidade, fez, por meio de um ato da sua vontade livre e onipotente, que o mundo, que até então não existia, começasse a existir. CAPÍTULO IV A PROVIDÊNCIA A Providência pode definir-se: a ação constante que Deus exerce sobre as criaturas para conservá-las e dirigir por meio da sua sabedoria e bondade ao seu fim, segundo a ordem que estabeleceu pela criação: a conservação e o governo de Deus no mundo. 1. Conservação. A conservação do mundo pode deduzir-se da natureza e dos atributos de Deus. A conservação é como diz Descartes, uma criação continuada. 2. Governo. Dá-se por meio da sua bondade e sabedoria. Dispõe todas as coisas segundo um plano eterno, e provê às necessidades das criaturas para atingir o seu fim. CAPÍTULO V O PROBLEMA DO MAL A existência do mal no mundo é um fato. Como conciliar a existência do mal com a Providência divina? Como pode um Deus infinitamente bom ser autor do mal, ou ainda permiti-lo? 1. Natureza do mal. Metafisicamente o bem e o ser são rigorosamente idênticos. Existe entre eles uma diferença de relação. O ser considera-se absolutamente; o bem é o ser considerado sob o ponto de vista relativo, isto é, como conveniente a alguém ou a alguma coisa. O mal, por ser oposto ao bem, é metafisicamente não-ser, e por consequência, não pode existir em si, mas somente de mistura com o ser CONCLUSÃO DA TEODICEIA Depois de termos demonstrado a existência de Deus, analisado os seus atributos divinos e determinado as relações que existem entre a criatura e o Criador, ainda é preciso dizer uma palavra a respeito dos nossos deveres para com este soberano Senhor de todas as coisas. Uma explicação mais completa sobre o mistério do mal nos é fornecido pela Teologia que afirma que só a fé desvenda satisfatoriamente o problema do mal. Com efeito, o mal sob todas as suas formas existe no mundo em proporção muito maior do que os fins úteis que a razão lhe pode assinalar. Mas a fé diz-nos que se deu uma grande prevaricação da parte de inumeráveis espíritos e de todo o gênero humano. Desde então os destinos da natureza racional, que segundo os planos de Deus deviam desenvolver-se no meio da alegria, desenrolam-se na dor. O amor infinito rechaçado e desprezado assim o quer. Uma dor divina paira sobre o mundo. Essa dor, que a natureza de Deus não podia sofrer, foi abraçada por uma Pessoa divina na sua mesma realidade, e o mundo resgatado deve ter, queira ou não, a sua parte nas dores do seu Chefe e do seu Redentor. Nisto está a sua salvação, e nisso está também a sua nobreza. CAPÍTULO ÚNICO A RELIGIÃO NATURAL Em geral, a Religião é o conjunto de deveres do homem para com Deus. Divide-se em religião natural e sobrenatural ou positiva. A primeira determina os deveres da criatura para com o Criador com o auxílio da razão. A segunda inspira-se, ademais, nas luzes da fé e da revelação. Trataremos aqui apenas da primeira. Concluímos pois que temos para com Deus deveres muito positivos e rigorosos, cujo conjunto forma o que se chama com razão a moral religiosa, ou "religião natural”. 2. O conjunto dos atos pelos quais cumprimos os nossos deveres para com Deus constitui o culto. Ora, sendo o homem composto de alma, e corpo, e estando além disso, destinado por natureza a viver em sociedade, segue-se que o culto que deve a Deus é interno, externo e público, segundo os atos da religião forem puramente espirituais, se manifestarem exteriormente, ou forem cumpridos em nome da sociedade. Estudemos sucessivamente estas três formas de culto. ART. I. — Culto interno O ato religioso por excelência é a oração, visto ser a expressão natural das relações da alma com Deus, na qual se resume todo o culto. A oração pode definir-se: a elevação daalma para Deus a fim de adorá-lo, render-lhe graças e solicitar o seu perdão e a sua assistência. ART. II. — Culto externo Não basta prestar a Deus culto interno por meio dos atos íntimos das faculdades da nossa alma. É necessário também manifestar no exterior esses atos e esses sentimentos por sinais sensíveis, tais como as palavras, os gestos e as atitudes. Estas manifestações constituem precisamente o culto externo. ART. III. — Culto público O culto público é o que a sociedade tributa a Deus por intermédio dos seus representantes. Este culto é obrigatório por várias razões, visto ser o homem essencialmente sociável, deve, como tal, prestar homenagem a Deus, e perante Ele proclamar a sua absoluta dependência.