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FAEL Organização de Conteúdos Acadêmicos Maria de Lourdes Mazza de Farias EQUIPE EADCON Coordenador Editorial William Marlos da Costa Assistentes de Edição Ana Aparecida Teixeira da Cruz Janaina Helena Nogueira Bartkiw Lisiane Marcele dos Santos Programação Visual e Diagramação Denise Pires Pierin Kátia Cristina Oliveira dos Santos Monica Ardjomand Rodrigo Santos Sandro Niemicz William Marlos da Costa EQUIPE UNITINS Coordenação Editorial Maria Lourdes F. G. Aires Assessoria Editorial Marinalva do Rêgo Barros Gerente de Divisão de Material Impresso Katia Gomes da Silva Revisão Digital Katia Gomes da Silva Projeto Gráfico Irenides Teixeira Katia Gomes da Silva Ilustração Geuvar S. de Oliveira Capas Igor Flávio Souza A questão de gênero é uma constante preocupação nas minhas reflexões. A Língua Portuguesa tem se utilizado e se expressado de maneira conven- cional, deixando-nos presos “ao monopólio masculino da língua e produção do conhecimento” (GOSZ, 1990, p. 332). Isso significa considerar que a escola tem colaborado com a sociedade na construção de padrões de conduta social que correspondem às representações dominantes do que é ser mascu- lino e feminino. Falar que essas representações existem significa dizer que as pessoas determinam, para cada uma dessas categorias, suas características, seus padrões de conduta e o espaço que lhes corresponde na sociedade. Procurei refletir na redação do texto essas questões, com o objetivo de aumentar o debate sobre o papel secundário do gênero feminino na nossa língua. Trata-se, na verdade, de um convite às alunas e aos alunos a expe- rimentarem aquilo que Peter Mclaren se refere como o “atravessar de fron- teiras simbólicas”. Espero que essa experiência nos ajude a colocar em discussão o quanto as mulheres têm sido silenciadas, evadidas, não referenciadas nos modos de representação verbal dominantes construídos na nossa língua. Não seria diferente com o currículo. Bom proveito! Prof.ª Maria de Lourdes Mazza de Farias EMENTA Currículo, cultura e sociedade. Seleção e organização dos conteúdos curriculares na Educação Infantil: as diretrizes curriculares e o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Abordagem pedagógica dos conteúdos na creche e na pré-escola. Planejamento e avaliação do currículo na Educação Infantil. Seleção e organização dos conteúdos nos anos iniciais do Ensino Fundamental: os Parâmetros Curriculares Nacionais. Formação dos educadores e sua atuação no processo curricular. Abordagem pedagó- gica dos conteúdos nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Planejamento e avaliação do currículo no Ensino Fundamental. OBJETIVOS Refletir sobre o conceito de currículo, enfocando os aspectos ideo- lógicos e culturais que o compõem. Compreender as tendências que acompanharam o surgimento e o desenvolvimento do currículo escolar no Brasil. Estabelecer relações entre as propostas curriculares e a melhoria da qualidade do ensino. Propor e examinar alguns programas de ensino articulados ao currículo escolar. CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS O campo do currículo no Brasil: origem e desenvolvimento Conceituações do Currículo Teorias do Currículo Currículo, ideologia e cultura EMENTA Currículo, cultura e curriculares na Educaçã Curricular Nacional par conteúdos na creche e n na Educação Infantil. Se do Ensino Fundamental dos educadores e sua at gica dos conteúdos nos e avaliação do currículo OBJETIVOS Refletir sobre o lógicos e cultura Compreender a desenvolviment Estabelecer rela da qualidade d Propor e exam currículo escola CONTEÚDOS PROGRA O campo do cu Conceituações Teorias do Curr Currículo, ideol FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 259 A seleção cultural do currículo: complexidade da aprendizagem escolar, os códigos curriculares, relações entre o currículo, a escola e a sociedade A proposta curricular a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n. 9394/96: Os Parâmetros Curriculares Nacionais As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil e os anos iniciais do Ensino Fundamental Avaliação Curricular BIBLIOGRAFIA BÁSICA ESTEBAN, M. T. (Org.). Escola, currículo e avaliação. São Paulo: Cortez, 2003. GÓMEZ, A. I. Pérez; SACRISTAN, Gimeno. O currículo: os conteúdos do ensino ou uma análise prática? Compreender e Transformar o Ensino. Porto Alegre: Artmed, 2000. SILVA, Tomaz Tadeu. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do Currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR LOPES, Alice Casimiro; MACEDO, Elizabeth. Currículo: debates contemporâ- neos. São Paulo: Cortez, 2002. MOREIRA, Antônio F. B. Currículos e programas no Brasil. 10. ed. Campinas: Papirus, 2003. SACRISTÁN, Gimeno J. O currículo: uma reflexão sobre a prática. 3. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000. YOUNG, Michael F. D. O currículo do futuro: da Nova Sociologia da Educação a uma teoria crítica do aprendizado. Campinas: Papirus, 2000. AULA 1 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 261 Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: conhecer a história e a teoria do currículo; entender que os estudos críticos do currículo apontam que a seleção cultural sofre determinações políticas, econômicas, sociais e culturais; entender que a questão central da discussão sobre currículo perpassa o processo de organização e seleção dos conteúdos trabalhados nas escolas. Para o bom acompanhamento desta aula, os alunos e as alunas deverão ter conhecimentos prévios de filosofia e história da educação. O currículo, na sua versão mais tradicional, sempre significou um elenco de disciplinas a serem ministradas aos alunos e às alunas. Assim constituído, sua postura era claramente voltada para a distinção entre as pessoas das classes altas e das classes baixas. Enquanto o povo tinha suas próprias formas de trans- mitir habilidades técnicas e artesanais necessárias para o trabalho, a nobreza dedicava-se ao estudo das “artes liberais”, que era mais voltado para a trans- missão do status hereditário do que para o exercício de profissões. 1.1 História e teoria do currículo No período que vai desde o descobrimento até o início do século XX, o ensino brasileiro sofreu decisiva influência no modo de ver o processo educacional, que, na verdade, é um modo de ver o mundo com uma resposta educacional, relacionada a essa nova visão. Nossa educação colonial, herdeira do espírito AULA 1 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS História do currículo no Brasil AULA 1 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 262 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS da contra-reforma, importado da metrópole, tinha uma postura marcada pelo obscurantismo místico, pela repulsa às ciências e às tecnologias e por qualquer ocupação que envolvesse habilidades manuais ou artesanais, ou seja, tarefas que lembrassem o trabalho escravo. Com o advento da Independência e da República, novas atividades econô- micas começaram a surgir, o que deu origem principalmente ao aparecimento de uma crescente classe média. Alguns grupos sociais passaram a pleitear uma estrutura educacional mais voltada à ciência, à tecnologia e às habilitações profissionalizantes. Após a Primeira Grande Guerra (1914-1918), a crise oriunda do debate de pensamentos entre as elites rurais e as classes intermediárias, traduziu-se em um acirrado conflito de idéias educacionais. De um lado, os defensores do ensino voltado à erudição, à importação de valores europeus e à cristalização das tradições. De outro, os defensores do ensino voltado à ciência e à tecnologia, favorecendo o desenvolvimento industrial e a urbanização do país. O tipo de ser humano que a educação se propunha a formar a partir do modelo colonial estava em conflito com as aspirações dos novos grupos sociais em ascensão. O exemplo histórico nos leva a consolidar a convicção de que o subsistema educacional se insere, de maneira intensamente comprometida, no sistema mais amplo que configura a sociedade de dado lugar e tempo,nos seus aspectos econômicos, na sua estrutura de poder e nos movimentos de mudança. A educação, portanto, é uma resposta das instituições escolares às exigên- cias da sociedade; à expectativa de alunos e alunas, também decorrentes das expectativas que seu meio social e familiar alimenta em relação a eles e elas; às disputas de posições dirigentes almejadas por diversos agrupamentos sociais; ao estágio do desenvolvimento produtivo de um povo, bem como ao tipo de sua organização econômica. Dessa forma, concluímos que qualquer postura educa- cional tem subjacente uma “visão de mundo”. O currículo é entendido como programa de ensino, conteúdos ou matriz curricular por muitos professores e professoras. Na realidade, existe uma plurali- dade de definições e cada uma pressupõe valores e concepções implícitas. A palavra curriculum, de origem latina, significa o curso, a rota, o caminho da vida ou das atividades de uma ou um grupo de pessoas. O currículo educa- cional representa a síntese dos conhecimentos e valores que caracterizam um processo social expresso pelo trabalho pedagógico desenvolvido nas escolas. Para Goodson (1996), o currículo é definido como um percurso a ser seguido e como conteúdo apresentado para estudo. Os primeiros estudos, de origem norte-americana, no campo do currículo, foram influenciados pelo modelo tecnicista de natureza prescritiva, baseados nas categorias de controle e eficiência social. AULA 1 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 263 Nesse sentido, destaca-se Ralph Tyler (1949), que mostra preocupação com o estabelecimento de objetivos educacionais e com a avaliação. O currículo era visto como uma atividade neutra, instrumento de racionalização da atividade educativa e controle do planejamento. Segundo Tyler, para o desenvolvimento de um currículo existem quatro tarefas fundamentais: a definição e seleção dos objetivos; a seleção e criação das experiências de aprendizagem; a organização das experiências para alcançar o máximo efeito cumulativo; a avaliação do currículo com vistas ao seu contínuo aproveita- mento” (TYLER citado por TABA, 1984). O pensamento de Tyler influenciou os estudos sobre currículo no Brasil e foi adotado como fundamento teórico na organização curricular do ensino na década de 70. A nova sociologia da educação busca discutir os aspectos internos da escola e a relação entre a educação e as desigualdades sociais. O desvelamento das implicações do currículo com a estrutura de poder político e econômico na socie- dade inseriu a problemática curricular no interior da discussão político-sociológica. Michael Apple, em Ideologia e Currículo (1982), colocou em destaque a relação entre a dominação econômica e cultural e o currículo escolar. Baseado na abor- dagem neomarxista, o autor trabalhou a noção de currículo oculto, buscando demonstrar como as escolas produzem e reproduzem a desigualdade social. A discussão sociológica do currículo, a crítica ao reducionismo e estruturalismo tem sido feita por autores como Young (1989), Apple (1989) e Silva (1988). Além da teoria crítica do currículo de natureza sociológica, os estudos nesse campo tiveram outros desdobramentos. Kemis (1996) tem assinalado a necessi- dade de uma reformulação da teoria do currículo com base na articulação teóri- co-prática. Stenhouse (1991) e Schwab (1983) sugerem o estudo do currículo em uma perspectiva processual e prática. Sacristán (1998) defende o modelo de interpretação que concebe o currículo como algo construído no cruzamento de influências e campos de atividades diferenciadas e inter-relacionadas, permi- tindo analisar o curso de objetivação e concretização do currículo em vários níveis, assinalando suas múltiplas transformações. Apple, (1982) utiliza o termo tradição seletiva “(...) a questão é a seletivi- dade, a forma que, de todo um campo possível de passado e presente, esco- lhem-se como importantes (...) significados e práticas, (...) outros são negligen- ciados e excluídos”. Saiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba mais AULA 1 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 264 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS Efetivamente, como assinala Forquim (1992, p. 35), “aquilo que as escolas transmitem da cultura é sempre uma escolha de elementos considerados social- mente válidos e legítimos”. Estudos críticos do currículo apontam que a seleção cultural sofre determi- nações políticas, econômicas, sociais e culturais. Nesse sentido, a seleção do conhecimento escolar não é um ato desinteressado e neutro, e sim resultado de lutas, conflitos e negociações. Assim, entende-se que o currículo é cultural- mente determinado, historicamente situado e não pode ser desvinculado da totalidade do social. Para Silva e Moreira (2000, p. 42) “... nas escolas não se aprendem apenas conteúdos sobre o mundo natural e social, adquire-se também consciência, (...) que comanda relações e comportamentos sociais”. Os estudos que analisam os efeitos do currículo para além da aquisição de conhecimentos formais se voltam para a concepção de currículo oculto e apontam que, por meio dele, são transmitidas ideologias, concepções de mundo pertencentes a determinados grupos hegemônicos na sociedade e que serve para reproduzir as desigualdades sociais. Para Silva (1995, p. 21), currí- culo oculto são (...) todos os efeitos de aprendizagem não intencionais que se dão como resultado de certos elementos presentes no ambiente escolar. A relevância desse conceito está na explicação que ele oferece para a compreensão de muitos aspectos que ocorrem no universo escolar. Silva (2000, p. 27) também acrescenta currículo oculto como “conjunto de atitudes, valores e comportamentos que não fazem parte explícita do currículo, mas que são implicitamente ‘ensinados’ por meio das relações sociais, dos rituais, das práticas e da configuração espacial e temporal da escola”. No campo do currículo, a literatura crítica tem argumentado a favor de uma teoria que leve em consideração a sua dimensão prática. Trata-se de uma pers- pectiva que busca compreender o currículo em ação, ou seja, os seus contextos de concretização, desde a prescrição até a efetivação nas salas de aulas. Sacristán (1998) aponta para essa perspectiva quando foca a atenção para os condicionantes administrativos, institucionais e pedagógicos que afetam o desenvolvimento do currículo nas escolas. A perspectiva teórico-prática ressalta as circunstâncias do trabalho docente com o conhecimento e com o processo de ensino-aprendizagem, contexto curri- cular complexo e problemático. Nesse sentido, afirma Sacristán (1998, p. 63): “aos microespaços sociais de ação, às responsabilidades de deliberação dos professores sobre seu próprio trabalho e a compreensão de como o currículo se converte em cultura real para professores e alunos”. AULA 1 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 265 Saiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba maisssSaiba maisSaiba mais 1.2 A seleção e organização dos conteúdos curriculares A questão central da discussão sobre currículo perpassa o processo de orga- nização e seleção dos conteúdos trabalhados nas escolas. Ao se discutir as escolhas feitas pelos professores e professoras, discute-se não só as opções, mas as concepções acerca de uma determinada sociedade e de como se percebe seu desenvolvimento. Segundo Santos e Moreira (1996, p. 33), “em parte, por meio do currículo, diferentes sociedades procuram desenvolver os processos de conservação, transformação e renovação dos conhecimentos historicamente acumulados”. Pensando na função do currículo, percebemos porque esse foco de discussão é tão significativo. A palavra currículo apresenta e aparece com dois sentidos claros no meio pedagógico: conhecimento escolar ou experiência de aprendizagem. Mesmo com enfoques diferentes, os dois sentidos estão presentes no currículo escolar, dessa forma, um completa o outro, visto que “todo currí-culo envolve apresentação de conhecimentos e inclui um conjunto de experiên- cias que visam a favorecer a assimilação e reconstrução desses conhecimentos” (SANTOS; MOREIRA, 1996, p. 35). Percebe-se que o currículo é uma construção social que está diretamente ligada a um momento histórico, a uma determinada sociedade e às relações que ela estabelece com o conhecimento. Assim, teremos nas diversas reali- dades uma pluralidade de objetivos acerca do que ensinar, no sentido de que os conteúdos propostos compõem um quadro bastante diversificado e ao mesmo tempo peculiar. Dessa maneira, o currículo é um processo histórico e por meio do social ele se estrutura, não sendo possível, de uma hora para outra, deixar para trás todas as experiências passadas. Ao percorrer o processo histórico do ensino no Brasil, não se pode ignorar que os conteúdos eram trabalhados nos diversos momentos AULA 1 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 266 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS nem como eram sua organização e seleção, compreendendo, assim, como eles interferem na atual realidade. Para pensar na questão do conteúdo, aponta-se uma frase de Sacristán (1998, p. 52): “sem conteúdo não há ensino, qualquer projeto educativo acaba se concretizando na aspiração de conseguir alguns efeitos nos sujeitos que se educam”. Falar de conteúdo a um tempo atrás parecia algo proibido. De certa maneira, até saiu do espaço escolar devido aos movimentos progressistas das últimas décadas, que via nisso uma maneira de reproduzir a cultura dominante. Porém, é importante pensar nesse conteúdo para que se possa falar de sua seleção, organização e como a cultura pode ou não ser reproduzida no cotidiano escolar. Para tanto, o conteúdo nos faz percorrer diversos momentos da história, principalmente aquele tradicional, o qual era visto como algo está- tico, nunca como um elemento que pode ser questionado e transformado. Nesse sentido, as idéias de Popkewitz (1995, p. 39) são fundamentais para entender o conceito de conteúdo do ensino como uma construção social e não lhe dar um significado estático nem universal: “A escolaridade e o ensino não tiveram sempre os mesmos conteúdos, nem qualquer um deles – a linguagem, a ciência ou o conhecimento – foi entendido da mesma forma através dos tempos.” Assim, é possível compreender que os conteúdos não são sempre os mesmos e, historicamente, eles são transformados mediante a realidade em que se está vivendo. Em cada época e sociedade a escola assume funções sociais diferentes, refletindo, dessa maneira, um olhar acerca do conhecimento e de cultura diferenciada. O processo de seleção e organização dos conteúdos é por si só um elemento de escolha e decisão, nenhuma dessas ações são neutras, pois elas regulam e distribuem o que se ensina. Para Sacristán (1998) é uma decisão política. No processo de seleção do que ensinar, podemos, segundo Santos e Moreira (1996), encontrar diversos estudos que discutem esse foco. De certa forma, todos apontam para a questão dos conflitos que permeiam esse processo, que se apre- senta por meio de lutas e negociações. Esse processo de seleção envolve um comprometimento político que visa a garantir a hegemonia de determinados saberes, perpetuando-se visões de mundo por meio de sua cultura. Sobre a organização, numa abordagem tradicional, está em questão o tipo de conhecimento, a sequência que pode ser ensinado e para quem pode. Para tal, leva-se em conta a estrutura lógica da disciplina e o nível de desenvolvimento cogni- tivo do aprendiz. Nesse sentido, todo conhecimento possui uma lógica, que só traduzindo em uma linguagem mais simples pode ser acessível a alunos e alunas. Em função disso, discute-se como o conhecimento se torna um conteúdo escolar, pensando nos mecanismos por meio dos quais a escola não apenas trans- mite saberes, mas também os produz (SANTOS; MOREIRA, 1996). Parece que o AULA 1 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 267 conhecimento discutido na escola é diferente ou tem função diferenciada daquele utilizado, estruturado e aplicado no nosso cotidiano. É presente na escola a idéia de que é preciso um conteúdo antes do outro, de maneira crescente. Assim, o saber da sociedade é diferente do saber escolar, no qual eles são recontextualizados. Segundo Santos e Moreira (1996, p. 33), “pode-se dizer que a organização do conteúdo curricular está relacionada com a produção dos saberes escolares”. Todo esse processo é delicado para ser pensado de maneira tão ampla, visto que cada realidade tem suas características particulares, porém nenhuma está isenta das relações que engendram nossa sociedade referente às lutas sociais nos mais diversos níveis. Nesse sentido, falar das escolhas dos professores e profes- soras, por meio dos processos de seleção e organização curricular, é buscar compreender um pouco desses caminhos pelos quais passam suas experiências e como elas se manifestam na realidade em que estão inseridas. 1.3 Pensando nas escolhas como elementos de identidade As escolhas dos profissionais da educação, ao desempenhar sua função, baseiam-se nas experiências como alunos e profissionais e no universo em que historica e socialmente esse profissional está inserido. Pensando assim, o currículo constitui significativo instrumento utilizado por diferentes sociedades, tanto para desenvolver os processos de conservação, transformação e renovação dos conhecimentos historicamente acumulados como para socializar as crianças e os jovens segundo valores tidos como desejáveis (SANTOS; MOREIRA, 1996, p. 38). Ao pensarmos nesses valores, os profissionais trabalham a partir do que acre- ditam ser importante para seus alunos aprenderem e experimentarem. Baseados em suas próprias experiências, o profissional da educação envolve seus alunos no que ele acredita ser o melhor para compor as aprendizagens na escola. Olhar para esses elementos tidos como pessoais pode até, de certa maneira, representar para o leitor como se eles dependessem unicamente do professor ou da professora. Alguns até dependem, porém esse profissional não está inse- rido em um espaço neutro, isento de lutas e disputas. Afinal, o currículo é uma prática social, é um elemento produzido e produtor de identidades. Segundo Silva (2001, p. 47), “um dos efeitos mais importantes das práticas culturais é o de produção das identidades culturais”. Assim, buscamos compreender identidade como um fenômeno produzido e não acabado dentro das práticas sociais, que são vistas como comuns em um determinado grupo social. Para pensar na possibilidade de uma identidade no espaço escolar, parte-se do princípio de que as pessoas na escola cons- tróem idéias e representações acerca das disciplinas e dos rituais que compõe esse universo. Uma definição de identidade: “relação de semelhança absoluta e completa entre duas coisas, possuindo as mesmas características essenciais”. AULA 1 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 268 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS Como afirma Silva (1999), se o currículo é documento de identidade, como pensar nas escolhas dos profissionais da escola deixando de lado essa questão? Pensar em identidade é pensar em dinamicidade e, no contexto escolar, é perceber que ela pode ser um elemento construído e estruturado em um grupo social com representações utilizadas para forjar sua identidade e identidades dos outros grupos sociais. No contexto específico das escolhas e referenciais que compõem o currículo, a identidade do fazer pedagógico é tratada como algo que está em diversos lugares, mas com características diferentes em cada lugar e, mesmo assim, dife- rentes entre si. Segundo Silva (2001, p. 48), “a identidade só faz sentido em uma cadeia discursiva de diferenças: aquilo que ‘é’ é inteiramente dependente daquilo que não ‘é’. Em outras palavras, a identidade e a diferença são cons- truídas na e pela representação, pois não existem fora dela”. Partindo dessa afirmação, a identidade é construída pelo própriogrupo, e não por um elemento que existe naturalmente. Para pensar na identidade em nossa realidade escolar, precisamos nos remeter às diversas realidades curriculares presentes nas escolas. Portanto, esse é um elemento inserido em um currículo escolar que está em constante trans- formação e dentro de uma guerra de forças na qual os sujeitos nem sempre percebem esse movimento ligado às relações estabelecidas de poder. Vimos que, no período que vai desde o descobrimento do Brasil até início do século XX, o ensino brasileiro sofreu decisiva influência no modo de ver o processo educacional, que, na verdade, é um modo de ver o mundo com uma resposta educacional relacionada a essa visão. Nesse estudo compreendemos que a educação, portanto, é uma resposta das instituições escolares: às exigências da sociedade; à expectativa de alunos e alunas, também decorrentes das expectativas que seu meio social e familiar alimenta, em relação a eles e elas; às disputas de posições dirigentes almejadas por diversos agrupamentos sociais; ao estágio do desenvolvimento produtivo de um povo, bem como ao tipo de sua organização econômica. 1. Segundo o texto, assinale a alternativa correta. a) Em todas as épocas e sociedades, a escola tem assumido a mesma função social, refletindo, dessa maneira, um mesmo olhar acerca do conhecimento e da cultura. O processo de seleção e organização dos AULA 1 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 269 conteúdos não é um elemento de escolha e decisão, pois essas ações são neutras, regulando e distribuindo o que se ensina. b) Em cada época e sociedade, a escola assume funções sociais diferentes, refletindo, dessa maneira, um olhar acerca do conhecimento e de cultura diferenciada. O processo de seleção e organização dos conteúdos é, por si só, um elemento de escolha e decisão, nenhuma dessas ações são neutras, pois elas regulam e distribuem o que se ensina. c) Em cada época e sociedade, a escola assume funções sociais diferentes, refletindo, dessa maneira, um olhar acerca do conhecimento e de cultura diferenciada. O processo de seleção e organização dos conteúdos é, por vezes, um elemento de escolha e decisão, as ações nem sempre são neutras, pois elas regulam e distribuem o que se ensina. d) Em todas as época e sociedades, a escola tem assumido a mesma função social, refletindo, dessa maneira, um mesmo olhar acerca do conhecimento e de cultura. O processo de seleção e organização dos conteúdos é, por vezes, um elemento de escolha e decisão; essas ações nem sempre são neutras, pois elas regulam e distribuem o que se ensina. 2. Faça uma síntese sobre as diversas teorias do currículo que aparecem no texto e destaque as diferenças entre elas. Procure mais exemplos, relacione as idéias do texto e tente identificá-las com as propostas da sua escola. 3. Analise, reflita e em seguida responda ao que se pede. A concepção convencional de currículo lista os conteúdos predetermi- nados para serem trabalhados pelas disciplinas. O que se aprende na escola é só os conteúdos disciplinares? A cultura escolar promove a construção de conhecimentos e significados que podem contribuir ou não com os processos de democratização da sociedade. Você concorda? Justifique sua resposta e depois discuta com seus colegas. Na atividade um, a alternativa (b) está correta, pois, segundo o texto, no processo de seleção do que se ensina, podemos encontrar diversos estudos que discutem esse foco e, de certa maneira, todos apontam para a questão dos conflitos que permeiam essas ações e que se apresentam como lutas e negocia- ções. Esses processos de seleção envolvem um comprometimento político que visa a garantir a hegemonia de determinados saberes, perpetuando-se visões de mundo por meio de sua cultura. É, portanto, uma decisão política. As demais alternativas estão erradas. AULA 1 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 270 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS A atividade dois é reflexiva, o que além de ajudar a discutir e interiorizar as teorias propostas, leva os alunos e as alunas a questionarem a sua prática. Na atividade três, devemos problematizar o currículo: quais são os critérios utilizados na seleção dos conteúdos? Com quais intencionalidades e interesses estão comprometidos? De que métodos se utilizam? Quais são os contextos políticos e socioculturais privilegiados nas práticas escolares e com que ponto de vista? Uma visão crítica do currículo, construída pelos sujeitos inseridos em um determinado contexto concreto de realidade, no qual fazem opções, planejam, organizam e desencadeiam fazeres, considera como conteúdos, tanto a realidade local – reflexo de um contexto sócio-histórico amplo – quanto o processo de ensino-aprendizagem proposto a partir do diálogo entre saberes popular e científico. APPLE, M. W. Repensando ideologia e currículo. In: MOREIRA, A. F.; SILVA, T. T. da. Currículo, cultura e sociedade. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2000. FORQUIN, J. C. Saberes escolares, imperativos didáticos e dinâmicas sociais. In: Teoria e Educação, Porto Alegre, 1992. v. 6. GOODSON, I. A construção social do currículo. Lisboa: Educa, 1996. MOREIRA, A. F.; SILVA, T. T. (Org.). Currículo, cultura e sociedade. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2000. POPKEWITZ, Thomas S. História do currículo, regulação social e poder. In: SILVA, T. T. da (Org.). O sujeito da educação: estudos foucautianos. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1995. SACRISTÁN, J. G. O currículo: uma reflexão sob a prática. 3. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. SANTOS, L. L. C. P.; MOREIRA, A. F. Currículo: questões de seleção e organi- zação do conhecimento. In: Caderno Idéias, n. 26, São Paulo: FDE, 1996. SILVA, T. T. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. ______. O currículo como fetiche: a poética e a política do texto curricular. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. Na próxima aula veremos as relações entre conhecimento, cultura e poder e quais as implicações para o campo do Currículo. AULA 2 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 271 Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: compreender as relações entre a cultura, o conhecimento e o poder no espaço escolar; entender o que é currículo oculto. Nas teorias mais tradicionais, o currículo é tido como um conjunto de fatos e conhecimentos escolhidos num em uma série de outros acumulados pela socie- dade para serem transmitidos aos alunos. Para que isso aconteça, basta pensar na escola como um lugar estático e no conhecimento como um elemento imutável. Dessa forma, a escola, o conhecimento e a cultura não recebem influências dos diversos aspectos políticos, sociais e econômicos que estão em nossa sociedade. Nesta aula, estudaremos a idéia de que a diferença cultural nos currí- culos só pode ser compreendida numa perspectiva relacional que problema- tize os sistemas de representação em que a diferença é construída, de modo a promover uma reflexão sobre como, ideologicamente, são representados grupos dominantes e subordinados em diversos espaços culturais formais e informais, entre eles o currículo. A produção sobre currículo tem freqüentemente mantido a centralidade da categoria conhecimento o que dificulta a percepção do currículo como espaço-tempo de produção cultural. 2.1 Currículo e cultura Os estudos acerca do currículo, na perspectiva cultural, apontam para discussões que nos proporcionam vislumbrar a compreensão das relações entre a cultura, o conhecimento e o poder no espaço escolar. AULA 2 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS Considerações sobre conhecimento, cultura e poder no currículo AULA 2 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 272 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS Os estudos culturais se compõem em um campo que compreende a cultura como uma prática de significação, centrado na linguagem e no discurso da cons- tituição social. Assim, “cultura é um campo de luta em torno da construção e da imposição de significadossobre o mundo social” (SILVA, 2001, p. 42). São signi- ficados que estão no interior das práticas sociais estruturadas e que na escola se constituem em campos de saber. Neles, os elementos ativos no processo escolar, isto é, os professores, professoras, alunos, alunas e estruturas educacionais, são importantes para compor os tempos e espaços escolares. Nesse sentido, alguns conhecimentos são tidos como o mais legítimos, como conhecimento oficial. Desse modo, para determinado grupo, esse conhecimento é tido como o ideal para ser trabalhado no espaço escolar, pois o conhecimento de outros grupos dificilmente chegará na escola. O currículo é visto como uma tradição seletiva (APPEL, 2000) de significações que envolvem a cultura e a identidade dos grupos sociais. Assim, podemos inserir na discussão o poder, que, a partir das análises pós-estruturalistas inspiradas em Foucault, é concebido como descen- tralizado, horizontal e difuso. Utiliza-se essa definição, porque é a mais próxima das teorias que dão suporte à compreensão do currículo como um elemento no espaço escolar que não está isento das lutas que envolvem o poder nos mais diversos tempos e espaços. Saiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba mais O currículo não é simplesmente uma montagem neutra de conhecimentos. Ele é produzido pelos conflitos, tensões e compromissos culturais, políticos e econômicos que organizam e desorganizam um povo. A partir disso, podemos iniciar nossa relação com o poder e as definições curriculares presentes na escola, partindo dos elementos que culturalmente estruturam e identificam um grupo social. O poder como um elemento descentralizado e horizontal aponta para que as escolhas nem sempre sejam elementos de domínio único de profes- sores e professoras, pois formas e conteúdos culturais funcionam como elementos distintivos de classe (APPEL, 2000). Ao ponderarmos sobre as questões educacionais, uma pergunta é inevitável; será que a escola é uma transmissora de conhecimentos ou de ideologias? A escola faz as duas coisas: tanto difunde os valores ideológicos da classe domi- nante como também tem a função de transmissão e socialização dos conheci- mentos historicamente acumulados. AULA 2 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 273 Outras questões importantes são colocadas. Muitos pais perguntam para nós, professoras e professores “por que o meu filho não consegue aprender nada na escola?” É comum os alunos estudarem muito para uma prova e acharem que internalizaram tudo, porém se avaliarmos eles sobre o mesmo conteúdo algum tempo depois, provavelmente, eles já terão esquecido tudo. Por exemplo, depois das férias, é sempre a mesma coisa, esquecem tudo o que “aprenderam no ano anterior”. Por que será que essas coisas acontecem? Essas perguntas poderão ser respondidas a partir do momento que anali- samos a verdadeira função da escola. Afirmamos, no início, que a escola é ao mesmo tempo transmissora de conhecimentos e difusora de valores ideoló- gicos. Vamos considerar que em uma sociedade dividida em classes há duas classes: a dos que trabalham, que é a maioria, e a dos que se apropriam do trabalho produzido por aqueles que trabalham. Assim, na sociedade capitalista, o trabalho está destinado às classes produtoras, às classes trabalhadoras. Quem se apropria desse trabalho é a burguesia. Da mesma forma, o conhecimento se produziu nas relações entre os seres humanos, nas relações sociais (de trabalho, familiar, cultural, etc.). Acontece que, nas sociedades típicas de exploração, como é o caso da sociedade capitalista, o produto do trabalho gerado pelos seres humanos nas suas relações mútuas é expropriado pela classe detentora do poder. Assim, o conhecimento é um meio de produção, visto que é apropriado pela classe dominante que o reelabora para transmiti-lo por meio de uma insti- tuição adequada: a escola. Para as relações de exploração serem capazes de se perpetuar na socie- dade, é indispensável que, ao transmitir o conhecimento elaborado para a classe trabalhadora, a burguesia o faça de modo seletivo. Isso quer dizer que nem todos aqueles que freqüentam a escola têm a possibilidade de se apropriar do conhecimento da mesma maneira e na mesma proporção. Na apresentação que se segue sobre o problema do ensino oficial, das rela- ções da escola com a sociedade que se estende aos problemas da democracia e às liberdades escolares, há, também, um ensaio de resposta às questões colo- cadas inicialmente. A escola, por conseguinte, tem um norte ideológico e, por isso, a questão do conteúdo escolar é importantíssima: questões como a da metodologia, da sua orientação em relação às correntes pedagógicas, entre outras. Se esses conteúdos são conservadores, irão intensificar, naturalmente, as discriminações sociais, sexuais e raciais, a divisão do trabalho, a importância da autoridade do professor ou da professora. Se são inovadores, irão ampliar o respeito à identidade de cada indivíduo, e a escola, seguramente, estará voltada para as necessidades dos alunos e alunas. Em uma sociedade dividida em classes como a nossa, ou seja, em que o trabalho é dividido fundamentalmente em manual e intelectual, ou entre AULA 2 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 274 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS o campo e a cidade, o ensino também aparece dividido como dois termos oposto. A escola, enquanto destinada aos interesses das classes dominantes, deixa de existir para as demais classes. Apenas as classes detentoras têm o direito a essa instituição específica. Somente há pouco tempo, no início da Revolução Industrial, começou a se converter em perspectiva, ou seja, em algo para toda a sociedade. As instituições para a formação do trabalhador só surgem com o apareci- mento da Revolução Industrial. A particularidade desse processo é que a estru- tura educativa das classes privilegiadas, consolidada durante muitos anos, esten- deu-se às classes subordinadas, levando-lhes o seu tipo de organização, a sua tradição e os seus métodos. É, portanto, no interior da sociedade histórica que podemos identificar a emergência da ideologia. A ideologia se constitui em representações por meio das quais os agentes sociais e políticos pensam em si próprios, nas institui- ções, nas relações de poder e nas relações de dominação. Essas representações explicam as formas da desigualdade, dos conflitos, da exploração e da domi- nação como sendo “naturais”, isto é, gerais e inevitáveis. Distingui-se o discurso ideológico exatamente pelo ocultamento da divisão, da diferença e da incoerência, na medida em que oferece a homens e mulheres a representação de uma sociedade homogênea, sem divisões e sem antago- nismos, ainda que, de fato, encontre-se totalmente dividida. As idéias e discursos dominantes de uma época, surgem no meio das classes privilegiadas desse período. A ideologia é a tentativa de conceber o universo do ponto de vista particular dessa classe. Essa forma de pensar tem por objetivo esca- motear as divisões sociais, isto é, a divisão do trabalho, a divisão entre as raças, a divisão entre os sexos, a divisão política, a divisão do conhecimento, etc. Quando falamos da nossa escola, isto é, da escola brasileira, ela se modi- ficou muito nas últimas décadas devido a vários elementos, entre eles as misturas sociais. Hoje em dia podemos notar que nas escolas encontramos o filho ou a filha do operário, a classe média e o burguês. Isso pode até nos dar a ilusão de que todo mundo tem as mesmas chances e as mesmas oportunidades educa- cionais. No entanto, o que podemos verificar é que isso não é verdadeiramente real, e se deve, sobretudo, a mecanismos ideológicos que são produzidos no interior da escola, cujo objetivo é eternizar as desigualdades e as diferenças de classes existentes na sociedade. Um desses mecanismos é aquilo que chamamos de currículo oculto. A imagem inicial que uma criança apresenta de si mesma, na maioria das vezes,lhe é dada por meio da escola, das relações com os colegas, professores e professoras e nas relações intergrupais e interpessoais que se produzem no espaço-escola. Portanto, é nesse ambiente que, repetidamente, a representação AULA 2 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 275 do fracasso ou do sucesso é introjetada pela criança desde o maternal. A maioria dos filhos dos trabalhadores não está preparada para ingressar e se desenvolver nessa escola tal qual ela é concebida. Entretanto, os filhos das elites, porque estão desde cedo, ainda no contexto familiar, já entraram, por exemplo, em relação com o conhecimento abstrato desvinculado da prática, e já aprenderam a privile- giar a linguagem verbal nas suas comunicações. As crianças de poder aquisitivo mais elevado já se habituaram a ser elogiadas toda vez que fazem um desenho bonito, cantam uma música ou dizem um versinho de maneira original, enquanto as crianças filhas de trabalhadores e trabalhadoras vivem em outra realidade e aprendem outras coisas. Assim sendo, quando essas crianças de procedência de classes diferentes entram no mundo da escola, encontram uma realidade que privilegia determinados valores como, por exemplo, a competição. A principal forma de trabalho na escola é a expressão da palavra na sua variante culta; em outras palavras, a forma de se expressar das elites. Essa forma trabalha os conteúdos de raciocínio abstrato totalmente desligados da prática, da realidade de alunos e alunas, etc. A criança da classe popular encontra nessa escola um professor ou professora que valoriza apenas um determinado código de comunicação, de comportamento e de valores. Percebe-se logo que essa escola, que de início parecia tão democrática, na verdade, não é. Vamos verificar que muitas professoras e professores, logo de saída, já formam uma opinião dos seus alunos e alunas. Ou ele(a) é “bom” ou é “mau”. O que nos preocupa é que raramente essa opinião muda ao longo do tempo. Sendo assim, as crianças que são mais valorizadas pela escola tendem a melhor se adequar e conseguir relativo sucesso, ao passo que as outras, que, aliás, são a maioria, acabam sendo eliminadas brutalmente e nada obtendo dessa escola. É desse modo que a marca do fracasso se manifesta de tal forma na maioria dessas crianças, fazendo elas passarem a se comportar de acordo com a expectativa que a instituição tem em relação a elas, ou seja, a de crianças “fracas”, malre- solvidas, com problemas, de péssimo rendimento e até mesmo incapazes. A escola, por conta disso, acaba reforçando para essas pessoas o mito de que são culpadas pelo seu próprio fracasso e, à medida que esses futuros trabalha- dores ingressam no exército de mão-de-obra disponível na exploração capita- lista, serão cada vez mais acomodados, achando que receberam da escola o que deveriam receber, pois são “inferiores” e “incapazes”. Professores e professoras, muitas vezes, formam um juízo negativo de seus alunos e alunas baseados nessas premissas que se manifestam de duas maneiras: objetiva e subjetivamente. De um lado, por meio das notas, conceitos e classificações e, de outro, por meio de comentários, mímicas de desagrado, impaciência, intransigência, desprezo e desrespeito que demonstram aos alunos e alunas. Não aspirarmos martirizar professores e professoras, mas tirar a culpa do sistema educacional, como um todo, pelo fracasso da maioria das nossas crianças é um equívoco. AULA 2 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 276 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS O que estamos querendo demonstrar com essas argumentações é que o currículo oculto usa como critério ideológico o “esforço pessoal”, ajudando, portanto, a preparar os alunos e alunas para serem dominados ou para serem dominantes no meio social em que vivemos. Por isso que, em uma sociedade cheia de competições como a nossa, a escola também tem esse perfil, pois nela só se dão bem os considerados “melhores”, e é nesse tipo de escola que os filhos das classes privilegiadas desvendaram muito cedo a sua “superioridade”, enquanto as outras classes descobriram sua “inferioridade”. Ao experimentar um método permanente de crítica e autocrítica das práticas escolares (currículo real e oculto), poderemos viver os conflitos e as diferenças como forma de desenvolvimento individual e social, além de construir um espaço constante de participação na elaboração do currículo. Os professores devem ficar atentos aos valores e conceitos que eles próprios incorporaram, pois eles determinam a seleção dos conteúdos, estratégias, a metodologia, as habilidades e as avaliações escolhidas. Às vezes, o próprio questionamento está impregnado de ideologia. Ainda sobre os currículos escolares, cabe enfatizar vários aspectos impor- tantes na transmissão do currículo oculto: os professores e professoras não têm assegurado o pleno conhecimento do novo currículo antes de sua implementação; muitos professores e professoras não têm uma posição crítica em relação ao currículo oculto; inúmeros professores e professoras não têm consciência dos direitos dos grupos oprimidos na sociedade; os currículos não são voltados para a transformação social, tendo em vista formar um cidadão consciente, crítico e participante; os currículos não são representantes dos grupos desprivilegiados, pessoas de raças diferentes, mulheres, etc.; os currículos excluem os valores culturais e históricos presentes no cotidiano; os currículos não ensinam os alunos e alunas a superar a situação de marginalidade, nem os conscientizam cultural e politicamente acerca desse assunto; a própria concepção dos currículos é ideológica, pois é fragmentária e desarticulada, não avançando, na prática, para uma verdadeira inter- disciplinaridade e transdisciplinaridade; os currículos valorizam o supérfluo, contribuindo para ampliar a margi- nalidade do conhecimento das mulheres, dos trabalhadores e das pessoas de raças não-brancas; AULA 2 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 277 os currículos são montados de forma a perpetuar e legitimar as desi- gualdades econômicas, as divisões de classe, gênero e raça, tanto nos empregos como nas riquezas; os textos didáticos falam sobre ideologia e não são, via de regra, traba- lhados criticamente por professores e especialistas. Dessa maneira, a escola está fundamentalmente implicada no fracasso escolar, na conservação da classe baixa no mesmo nível social e na fabricação de trabalhadores submissos e conformistas. A educação serve para reforçar e reproduzir as divisões e injustiças sociais, não se revelando, portanto, democrá- tica, apesar de enfatizar (só em nível de discurso) a permanência e o êxito no sistema escolar. Posto isso, chegamos a conclusão de que a seleção do conhe- cimento escolar é arbitrária, porque exclui as tradições culturais de classes e grupos subordinados para priorizar as memórias culturais dos grupos e classes dominantes. Tanto o currículo real, oficial (explícito) e o oculto (implícito) têm competências socializadoras, pois certos aprendizados e rituais escolares moldam e fabricam consciências. A escola corrobora para a divisão social, racial e sexual do trabalho, uma vez que o conhecimento escolar é distribuído de forma desigual entre os diferentes grupos e classes sociais. A distribuição dos currículos ocultos também é diferenciada de acordo com a classe social, sexo, raça ou etnia. Assim, dependendo dos grupos e classes sociais, demonstram-se diferentes atitudes e características de personalidade. O que queremos deixar evidente é que a escola efetivamente não tem desempenhado a sua função social, que é transmitir os conhecimentos historica- mente construídos, habilidades e valores como os de solidariedade, tolerância e respeito às diferenças. A escola tem sido, nesse sentido, muito mais reprodutora da ideologia das elites do que produtora e difusora do conhecimento. Urge, portanto, uma mudança de atitude, primeiramente de caráterideológico e, depois, de caráter pedagógico. Essa alteração implica uma modificação de postura que possa, efetivamente, encarar os filhos e as filhas de trabalhadores e trabalhadoras como um componente fundamental para o nosso desenvolvimento. É necessário que se reconheça o direito de adquirir conhecimentos e que o professor e a professora se despreconceituem em relação a esses alunos e alunas e percebam que é fundamental para o processo de transformação da nossa sociedade que os filhos e as filhas de trabalhadores e trabalhadoras tenham acesso, de forma crítica, ao saber elaborado da escola. É imperativo que haja uma alteração quanto à forma de se transmitir os conte- údos tanto pedagógico quanto ideológico. O próprio conteúdo deve mudar para atender às reais necessidades dos alunos e da sociedade na qual estão inse- ridos. O conteúdo transmitido não pode ser desligado da prática, mas sim partir da realidade, da vivência, da experiência dos educandos e das educandas. AULA 2 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 278 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS A escola deve ensinar, sobretudo, a pensar, raciocinar, desenvolver o juízo crítico, conhecer a realidade em que se vive e suas contradições. Aceitando que diferença não é inferioridade, uma nova pedagogia terá de ser formulada. Ela não sairá de gabinetes nem de cabeças iluminadas, mas da diversidade de idéias, saberes e experiências. O professor e a professora são induzidos continuamente a optarem: contra ou a favor dos alunos e alunas. Essa opção não implica somente uma visão pedagógica, mas, sobretudo, uma visão ideológica diferente. A ideologia do currículo oculto é uma faca de dois gumes, pois tanto pode levar à passividade como também à revolta. A revolta individual nós, professores e professoras, conhecemos bem: é aquele aluno ou aluna que depreda a escola, é anti-social, agressivo; freqüentemente, a raiz desses comportamentos está na maneira como a escola trata esse indivíduo. Sabemos que essa revolta pode ser canalizada de uma forma positiva, desde que o aluno tenha uma consciência crítica dos seus problemas: por que a escola funciona assim? A que interesses serve? Qual o papel dos trabalhadores e trabalhadoras no contexto da escola e da sociedade? Que sociedade temos? Que sociedade queremos? Nessa aula, tivemos a oportunidade de perceber que os estudos acerca do currículo, na perspectiva cultural, apontam para discussões que nos propor- cionam vislumbrar a compreensão das relações entre a cultura, o conhecimento e o poder no espaço escolar. Sendo assim, buscamos compreender a identidade como um fenômeno produzido e não acabado dentro das práticas sociais, que são vistas como comuns em um determinado grupo social. Para pensarmos na possibilidade de uma identidade no espaço escolar, partimos do princípio de que, na escola, as pessoas constroem idéias e representações acerca das disciplinas e dos rituais que compõe esse universo. 1. Ao analisarmos os problemas educacionais, podemos nos perguntar: será a escola uma transmissora de conhecimentos ou uma transmissora de ideologias? a) A escola, na verdade, é as duas coisas: se, por um lado, é uma difusora dos valores ideológicos da classe dominante, por outro, também tem como atribuição a transmissão de conhecimentos. b) A escola é apenas transmissora dos conhecimentos acumulados pela sociedade. AULA 2 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 279 c) A escola é apenas difusora dos valores ideológicos da classe dominante. d) A escola não legitima a divisão social, racial e sexual do trabalho, uma vez que o conhecimento escolar é distribuído de forma igualitária a todos. 2. No texto, há algumas afirmações que merecem ser discutidas. Selecionamos três delas para que você reveja, critique e debata. a) O que desejamos deixar evidente é que a escola efetivamente não tem desempenhado a sua função social, que é transmitir os conhecimentos historicamente construídos, habilidades e valores como de solidariedade, tolerância e respeito as diferenças. A escola tem sido, nesse sentido, muito mais reprodutora da ideologia das elites do que produtora e difu- sora do conhecimento. b) A escola está fundamentalmente implicada no fracasso escolar, na conservação da classe baixa no mesmo nível social e na fabricação de trabalhadores submissos e conformistas. A educação serve para reforçar e reproduzir as divisões e injustiças sociais, não se revelando, portanto, democrática, apesar de enfatizar (só em nível de discurso) a permanência e o êxito no sistema escolar. c) O conteúdo transmitido não deve ser desligado da prática, mas sim partir da realidade, da vivência, da experiência dos educandos e das educandas. A escola deve ensinar, sobretudo, a pensar, raciocinar, desen- volver o juízo crítico, conhecer a realidade em que se vive e suas contra- dições. Aceitando que diferença não é inferioridade, uma nova peda- gogia terá de ser formulada. Ela não sairá de gabinetes nem de cabeças iluminadas, mas da diversidade de idéias, saberes e experiências. 3. Com a leitura do texto, vimos que muitas vezes os professores e as profes- soras agem e repassam os conteúdos às crianças de acordo com as suas próprias representações (carregadas de ideologia). Dessa maneira, oferecem oportunidades diferentes para que se desenvolvam. Vamos agora fazer uma atividade para refletir um pouco sobre essas questões. a) Pense em seu cotidiano na escola e anote quais são as atividades que você propõe mais frequentemente às crianças. b) Reúna-se com colegas que trabalham com alunos da mesma faixa etária que os seus. Socializem suas anotações, comparem e reflitam. Vocês privilegiam as mesmas atividades ou apareceram propostas diferentes? Quais são as atividades que mais apareceram? Que conclusões vocês podem tirar depois de analisar as anotações do grupo? AULA 2 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 280 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS Na atividade um, a alternativa correta é a letra (a), a escola, na verdade, é as duas coisas: se, por um lado, é uma difusora dos valores ideológicos da classe dominante, por outro, também tem como atribuição a transmissão de conhecimentos. Por isso, a questão do conteúdo escolar é importantíssima: ques- tões como a da metodologia, a da sua orientação em relação às correntes peda- gógicas, entre outras. Se esses conteúdos são conservadores, irão reforçar, natu- ralmente, as discriminações sociais, sexuais e raciais, a divisão entre o trabalho intelectual e o braçal, a importância da autoridade do professor e da professora. Se são inovadores, irão desenvolver o respeito à identidade de cada indivíduo, e a escola, certamente, estará voltada para as necessidades dos alunos e alunas. Na atividade dois, você deve refletir sobre essas afirmações tomando, como base, alguns fatos conhecidos para chegar a uma conclusão. Na atividade três, a reflexão pessoal e em parceria sobre a sua prática pedagógica é fundamental para observar diferentes contextos, discutir e reela- borar sua prática. APPLE, M. W. Política cultural e educação. São Paulo: Cortez, 2000. SILVA, T. T. Teoria cultural e educação: um vocabulário crítico. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. ______. O currículo como fetiche: a poética e a política do texto curricular. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. Estudaremos os diferentes espaços da infância e do currículo, o que permitirá que redimensionemos nosso modo de ver as possibilidades físicas e ambientais que estabelecemos como as mais apropriadas para as crianças, esquecendo-nos, muitas vezes, que em outros espaços também acontecem encontros, desencon- tros, descobertas e trocas. Anotações AULA 3 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 281 Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: compreender que a organização dos tempos e espaços da infância não se limita somente à forma com que os adultos organizam o mundo. Para um bom entendimento dos conteúdostrabalhados nessa aula os alunos e as alunas deverão ter conhecimentos prévios de psicologia do desenvolvimento. Nesta aula, entenderemos por que as propostas curriculares precisam consi- derar a criança e sua heterogeneidade, de modo a criar espaços das crianças e não apenas para as crianças. Elas são sujeitos de direito e cultura. Essa idéia de direito à educação está vinculada à visão de que o desenvolvimento humano acontece a partir da interação com os outros e com o ambiente onde se vive. 3.1 As crianças não são mais como antigamente Nas conversas sobre infância sempre surge o assunto: as crianças não são mais como antigamente. E não são mesmo! O papel que desempenham, as expectativas em relação a elas, sua maneira de brincar e de se relacionar com o mundo; tudo isso está em constante transformação. Na Idade Média, período demarcador e regulador dos valores e da moral, a organização da escola era multietária, pois a escola medieval era indiferente à distinção e separação das idades, uma vez que não se destinava a educar a infância. A Igreja Católica que ocupava um importante espaço nas relações de poder e estabeleceu o término da infância aos sete anos, pois se entendia que a partir desse período se iniciava a idade da razão. Na época, não existia AULA 3 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS Currículo e infância AULA 3 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 282 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS uma preocupação com o tempo da infância, assim como não havia o conceito de adolescência nem o respeito às diferenças. A escola, no decorrer da história, legitima tal condição, uma vez que coloca a idade de sete anos como própria para a alfabetização. Ariès (1981) sugere que essas classificações das fases da vida têm certa correspondência com os fenômenos naturais e cósmicos: o número de planetas, os signos do zodíaco, as estações do ano, etc. Atualmente, vários organismos delimitam as idades da infância. A Convenção dos Direitos da Criança, adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas, em 20 de novembro de 1989, considera como criança “todo ser humano com menos de dezoito anos de idade”. Já o Estatuto da Criança e do Adolescente, no seu Artigo 2º, considera criança “a pessoa com até doze anos incompletos”. Ainda que seja fundamental reconhecermos a autoridade das convenções inter- nacionais e nacionais, sem dúvida, é o mundo do trabalho e da escola que acaba, em última instância, dando legitimidade para as diferentes idades. Nos seus modos de representação, as crianças manifestam e se apropriam de expressões que referenciam o mundo dos adultos, por exemplo, “quando eu crescer”, “gente grande”, como se isso fosse referência para demarcar os tempos e os espaços escolares. No entanto, é bom lembrar que a organização dos diferentes tempos e espaços da infância não se restringem somente à forma pela qual os adultos constituem o mundo. A creche, a pré-escola, o jardim de infância, as escolas infantis, os espaços de lazer, todos são lugares destinados à trajetória de socialização da criança, considerando sua idade e o nível econô- mico e cultural dos pais. Pensar sobre os diferentes espaços da infância permite redimensionar nosso modo de ver as possibilidades físicas e ambientais que estabelecemos como as mais apropriadas para as crianças, esquecendo-nos, muitas vezes, que em outros espaços também acontecem encontros, desencontros, descobertas e trocas. Nesse sentido, refletiremos se, de fato, os espaços construídos e plane- jados por nós adultos têm assegurado que as relações humanas sejam baseadas em sentimentos de respeito e solidariedade pela diversidade e pelas plurali- dades da infância. Sabemos que sozinha a escola não pode mudar o mundo, mas ela se movi- menta com o mundo e pode ajudar a mudá-lo. Não é preciso ir longe para saber que as experiências escolares transformam as pessoas e, por isso, é importante entender que o currículo escolar deve se constituir em um campo fundamental de debates que incorpora os diversos “fazeres” e as diferentes formas de “pensar” que ressoam no interior da escola. Nesse sentido, os estudos curriculares se tornam um poderoso componente de observação, reflexão e intervenção no espaço e no tempo escolar. É dessa forma que a escola pode compreender e assimilar os vínculos entre o que se vive no ambiente escolar e a comunidade na qual ela está inserida. Assim, a escola AULA 3 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 283 pode criar condições para romper os limites entre o que lhe é atribuído como “próprio” e aquilo que “pertence” ao conhecimento da sociedade. De um modo geral, o currículo tem sido pensado e constituído com os seguintes pontos: pressupostos e princípios da proposta educacional; objetivos; conteúdos; atividades e procedimentos de avaliação; espaço físico e recursos materiais. De forma didática, um currículo e seus elementos devem responder às seguintes questões: o quê? para quê? com quem ? onde? como educar? a favor de quem se educa? Os educadores e as educadoras que trabalham nesses níveis de ensino têm a responsabilidade de orientar as propostas curriculares para uma educação inclusiva, que reconheça e valorize as diferenças de gênero, raça, etnia, compe- tências físicas, mentais e as diferenças etárias, em permanente debate. A diferença etária na relação de professores e professoras com seus alunos e alunas se traduz na relação de adulto-criança. É preciso lembrar que a escola acolhe crianças – que têm uma história pessoal, familiar, social, cultural, e que são histórias diversas –, assim como a sociedade brasileira. As propostas curriculares precisam considerar a criança e sua heterogenei- dade de modo a criar espaços das crianças e não apenas para as crianças. As crianças são sujeitos de direito e cultura. Essa idéia de direito à educação está vinculada à visão de que o desenvolvimento humano acontece a partir da inte- ração com os outros e o ambiente onde se vive. 3.2 Crescimento, desenvolvimento e afetividade Nessa fase da vida a dimensão corporal, se desenvolve intensamente. O crescimento e o desenvolvimento ósseo, muscular, neurológico, acontecem por meio de uma escala crescente, e quanto mais oportunidades a criança tiver de se movimentar e explorar suas muitas possibilidades de ação, de preferência em contato com a natureza, melhor será seu desenvolvimento. No entanto, essa AULA 3 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 284 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS dimensão do corpo e da evolução da criança não se limita apenas a aspectos físicos e orgânicos. A afetividade também se entrelaça às experiências corporais das crianças e com quem elas se relacionam no seu universo social. Nas situações e nas relações cotidianas, aprendemos a reconhecer nossos afetos e como expressá-los. O modo como nossas manifestações de satisfação e frustração são acolhidas, nos ensinam sobre o lugar das emoções e dos afetos na sociedade em que vivemos, como também nos mostram nossa impor- tância no mundo. As representações se estruturam na criança por meio de uma relação mediada pelo outro. A linguagem permite a comunicação, mas é também uma ferramenta de organização do pensamento e um importante canal de trocas afetivas, possibilitando a sua constituição enquanto sujeito. A dimensão cogni- tiva se estrutura via linguagem, sendo um processo sociocultural. A capacidade de pensar e operar com conceitos é um processo, no qual, em um primeiro momento, a criança pensa por meio dos chamados conceitos cotidianos. O desenvolvimento das capacidades cognitivas acontece por intermédio das relações estabelecidas pelas crianças com outras crianças e com os adultos, em situações de interação com os objetos do mundo físico, social e cultural. As linguagens verbais (oral e escrita) e não-verbais (gesto, desenho, brinca- deiras de construção e de faz-de-conta) têm grande importância no desenvolvi- mento do pensamento e na formação da própria subjetividade da pessoa. As linguagensintegram um sistema de representação do real, do qual a criança se apropria e passa a elaborá-lo por meio de diversas atividades simbólicas, nas quais tudo está interligado, como o gesto, o desenho, a brincadeira e a escrita. Hoje, podemos dizer que existe um corpo de saberes e fazeres que possibi- litam tanto a construção social do conceito de infância como a constituição de insti- tuições de educação infantil e de pedagogias para educar e cuidar das crianças. É possível afirmar que os grandes temas em torno dos discursos políticos e técnicos sobre as pedagogias da Educação Infantil podem ser resumidamente definidos como: a existência de um discurso que institui um estatuto para a infância; a constituição e a organização de espaços sociais adequados para a educação e cuidado das crianças; a formação e o reconhecimento da necessidade de um profissional para atuar na educação infantil; a definição de valores para a socialização das crianças resultantes de algum tipo de compreensão sobre a educação; a criação de instrumentos de trabalho e alternativas de intervenções; AULA 3 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 285 a seleção de metodologias e de conteúdos; a produção de materiais didáticos e equipamentos educacionais; as decisões sobre a organização espacial; as discussões sobre os usos do tempo; a organização da vida cotidiana das instituições e das pessoas sob a forma de rotina. Ao longo dos séculos, vários discursos sobre vida, educação e infância vêm, pleiteando, na sociedade, o seu lugar como verdade absoluta, com a intenção de definir a natureza das crianças e a forma como elas devem ser cuidadas e educadas. Esta contradição pesa sobre a cabeça dos educadores e educadoras: por um lado, eles defendem a concepção de que é preciso assumir o papel de exercer sobre as crianças a transmissão das idéias, dos usos e dos costumes que lhes permitam melhor se adaptarem à sociedade; por outro lado, tem-se a idéia de que é melhor desenvolver as potencialidades e as suas aptidões para que elas tenham sucesso no futuro, desenvolvendo-se pessoalmente e criativamente. Dessas concepções, irão surgir diferentes projetos pedagógicos. Nessa aula, aprendemos que os educadores e as educadoras que trabalham nesses níveis de ensino têm a responsabilidade de orientar as propostas curri- culares para uma educação inclusiva, que reconheça e valorize as diferenças de gênero, raça, etnia, competências físicas, mentais e diferenças etárias, em permanente debate. Vimos também que o desenvolvimento das capacidades cognitivas acontece por intermédio das relações estabelecidas pelas crianças com outras crianças e com os adultos, em situações de interação com os objetos do mundo físico, social e cultural. 1. Segundo o texto, de uma forma didática, um currículo e seus elementos devem responder às seguintes perguntas. a) O quê? Para quê? Com quem? Onde? Como educar? A favor de quem se educa? b) De quê? Com quê? Por quê? Onde? c) De que forma? Quando? Onde? Para que se educa? d) Para quê? Qual forma? Com quem? Como? 2. Nesta atividade, você irá trabalhar com um relato de situações de inte- ração adulto-criança. Você pode aproveitar observações realizadas nas AULA 3 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 286 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS suas atividades práticas. Escolha um episódio entre os que você observou e transcreva-o. Considere as verbalizações e as expressões faciais e corpo- rais dos participantes, permitindo que o leitor do relato possa visualizar a comunicação que está se processando. Faça dupla com um colega que tenha registrado uma situação que envolveu alguma criança com idade aproximada da criança que você observou. 3. Uma criança de três anos que freqüenta uma escola de Educação Infantil está sempre muito calada e raramente conta algo que aconteceu em casa ou mesmo na escola. Escreva um texto apontando como o professor deve agir para auxiliá-la a desenvolver sua oralidade, narrar um acontecimento ou criar histórias de faz-de-conta. Que tipo de interação ele deve estabelecer com essa criança? Que elementos mediadores poderá utilizar para isso? Na atividade um, a resposta correta é a alternativa (a). De uma forma didá- tica, um currículo e seus elementos devem responder às seguintes perguntas: O quê? Para quê? Com quem? Onde? Como educar? A favor de quem se educa? Os educadores e as educadoras que trabalham nesses níveis de ensino têm a responsabilidade de orientar as propostas curriculares para uma educação inclusiva que reconheça e valorize as diferenças de gênero, raça, etnia, compe- tências físicas, mentais e as diferenças etárias, em permanente debate. Na atividade dois e três, você deve comparar os relatos: o que eles têm em comum? No que eles se diferem? Apresente as suas conclusões aos demais e anote a síntese elaborada em conjunto, comparando as interações de adultos com crianças de diferentes idades e em situações diversas. ARIÈS, P. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. BRASIL. Estatuto da criança e do adolescente. Lei Federal n. 8.069. Promulgada em 13 de Julho de 1990. Curitiba: Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, 2000. Na próxima aula falaremos sobre a seleção e organização dos conteúdos curriculares na Educação Infantil. Também discutiremos as Diretrizes Curriculares e o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 287 Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: conhecer criticamente as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil; conhecer criticamente o Referencial Nacional para a Educação Infantil. Para o melhor acompanhamento dos conteúdos tratados nesta aula é neces- sária a leitura da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) no que se refere à Educação Infantil. A Resolução CEB n. 1, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, e o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil estão à disposição no portal do Ministério da Educação (<http://www.mec.gov.br>). Nesta aula, estudaremos a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB n. 9394/96), que trata da função da Educação Infantil e seu funciona- mento; o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (Resolução CEB 1/99), que orientam a organização das instituições que se dedicam a essa etapa de ensino. Tais diretrizes estabelecem exigências quanto às orientações curriculares e à elaboração dos projetos político-pedagógicos institucionais. 4.1 As Diretrizes Curriculares e o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil Vimos que a organização curricular expressa uma concepção de ser humano, de mundo, de ensino, de aprendizagem, de sociedade, de poder, de cultura, AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS Seleção e organização dos conteúdos curriculares na Educação Infantil AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 288 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS enfim, de vida e, em última instância, do papel da educação na sociedade. Nas propostas destinadas à Educação Infantil e aos primeiros anos do Ensino Fundamental, a organização curricular expressa, também, uma determinada visão de infância e o seu lugar no mundo. A Educação Infantil é dever e obrigação do Estado e responsabilidade polí- tica e social da sociedade e não apenas daqueles que vivenciam a realidade escolar, utilizando-se dos préstimos da escola ou exercendo nela suas funções profissionais. Cabe, portanto, ao Estado, à família e à sociedade responderem pela Educação Infantil, resguardando suas especificidades manifestadas na indissociabilidade das ações de educar, cuidar e brincar. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB n. 9394/96) firma a função da Educação Infantil e o seu funcionamento. Posteriormente, o Referencial Curricular Nacional paraa Educação Infantil (RCNEI, p. 27) define o brincar ao lado do educar e do cuidar, considerando que “nas brincadeiras, as crianças transformam os conhecimentos que já possuem anteriormente em conceitos gerais com os quais brincam”. Em função dessas premissas, o Conselho Nacional de Educação (CNE), por meio da Câmara de Educação Básica (CEB), definiu, em 1999, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (Resolução CEB 1/99), orientando a organização das instituições que se dedicam a essa etapa de ensino. Tais diretrizes estabelecem exigências quanto às orientações curriculares e elaboração dos projetos político- pedagógicos institucionais. Esse documento contempla os seguintes princípios: éticos: autonomia, responsabilidade, solidariedade e respeito ao bem comum; políticos: direitos e deveres do cidadão, exercício da criticidade e respeito à ordem democrática; estéticos: sensibilidade, criatividade, ludicidade e diversidade de manifestações artísticas e culturais. Ressaltam-se também aspectos organizacionais, como a adoção de metodo- logia do planejamento participativo e a afirmação da autonomia das escolas na definição da abordagem curricular a ser adotada. Para garantir o direito à Educação Infantil, são explicitadas as corresponsa- bilidades entre as três esferas governamentais (federal, estadual, municipal) e a família, consonantes com a legislação atual: Constituição Federal de 1988, inciso IV do art. 208; Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei n. 8069/90; Lei sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) n. 8080/90; Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS), n. 8742/93; AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 289 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) n. 9394/96; Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI/99); Plano Nacional de Educação (PNE), Lei n. 10172/01; Constituições Estaduais e Municipais; Planos Estaduais e Municipais de Educação; Política Nacional de Educação Infantil (2005). A legislação existente representa as conquistas da sociedade no sentido de assegurar os direitos da população infantil. No entanto, garantir os direitos das crianças é responsabilidade social. Sendo assim, a educação das crianças, além de direito social, constitui-se em direito humano, em condição de existência. Antes da LDB n. 9394/96, a Constituição Federal havia definido a Educação Infantil como sendo responsabilidade dos municípios, assim como a obrigatorie- dade de aplicar 25% dos orçamentos em educação. Entretanto, não houve defi- nições claras entre dependência administrativa e o financiamento dos níveis de ensino entre União, estados e municípios, gerando o que ficou conhecido como competências concorrentes. 4.2 Educação Infantil na LDB Com um capítulo próprio, a Educação Infantil recebe tratamento igual ao do Ensino Fundamental e Médio e é definida como primeira etapa da Educação Básica. Sua finalidade é desenvolver integralmente a criança, nos aspectos físico, psicológico, intelectual e social. Além disso, deve complementar à ação da família e da comunidade no desenvolvimento da criança, sendo, portanto, necessária a integração escola-família-comunidade. A avaliação da criança deve ser realizada sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao Ensino Fundamental. A Educação Infantil é oferecida em: creches ou entidades equivalentes para crianças de zero a 3 anos; pré-escolas para crianças de 4 a 5 anos. A abertura para o atendimento em entidades equivalentes a creches se justifica pela necessidade de reconhecer a realidade preexistente da nova legislação, na qual esse atendimento tem sido oferecido de maneira diversificada em entidades comunitárias, empresas públicas ou privadas, entidades filantrópicas ou confes- sionais e, ainda, em casas de família, como no caso das “mães crecheiras”. Os referenciais para a Educação Infantil foram feitos para orientar os projetos político-pedagógicos, subsidiando os diversos saberes e fazeres que circulam no dia-a-dia escolar. O documento instrui as ações educativas dos profissionais da Educação Infantil e define que, para desenvolver essas atividades, é preciso intencionalidade, sistematização e comprometimento com a integridade e o desenvolvimento das crianças. AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 290 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS Para a implementação do projeto político-pedagógico, os referenciais indicam que os educadores e educadoras devem desenvolver uma intenção educativa, organizando o ambiente onde atuam e planejando as situações de aprendizagem, seja sozinho, com seus pares ou envolvendo a participação das crianças. Mais importante do que a definição de áreas de conhecimento está a compreensão acerca do mundo infantil. Isso quer dizer que a criança deve ser o foco de todo o trabalho pedagógico para a tomada de decisões, planejamento, execução e avaliação das ações educativas desenvolvidas na escola. Os referenciais destacam, ainda, que a função das professoras e dos professores de Educação Infantil é mediar o processo de ensino-aprendizagem, propondo atividades e lançando desafios ajustados às características, poten- cialidades, expectativas, desejos e necessidades infantis. O referencial avalia- tivo adotado deve ser o da criança em relação a ela mesma, de modo que os professores e as professoras observem, registrem e reflitam continuamente, em caráter diagnóstico e processual, tudo o que ocorre com cada criança. Essa avaliação orientará as decisões pedagógicas, especialmente acerca de quais atividades poderão favorecer uma aprendizagem mais prazerosa e significativa para o desenvolvimento infantil, em seus aspectos individuais e sociais, assim, reforçando as especificidades biológicas, afetivas, emocionais, sociais, cultu- rais, lingüísticas, lúdicas e cognitivas das crianças. Ainda segundo os Referenciais Curriculares para a Educação Infantil, o currículo abrange um âmbito de interações, nas quais se entrecruzam processos e agentes diversos que compõem um verdadeiro e complexo tecido social. São as relações estabelecidas nesse contexto que moldam o que se pode chamar de currículo real, ainda que um currículo para a Educação Infantil necessite ter explícito em sua elabo- ração e desenvolvimento a concepção de crianças reais e diversas, que interagem com o meio em que vivem e aprendem a resolver problemas, especialmente em contato com outras crianças ou pelas informações que os adultos lhes oferecem. Os parâmetros de qualidade para a Educação Infantil especificam que as crianças desde que nascem são: cidadãos de direitos; indivíduos únicos, singulares; seres sociais e históricos; seres competentes e produtores de cultura; indivíduos humanos, parte da natureza animal, vegetal e mineral. E que, por sua vez, precisam ser cuidadas e educadas, o que implica: serem auxiliadas nas atividades que não puderem realizar sozinhas; serem atendidas em suas necessidades básicas físicas e psicológicas; terem atenção especial do adulto em momentos peculiares de sua vida. AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 291 Além disso, para que a sobrevivência das crianças estejam garan- tidas, seu crescimento e desenvolvimento sejam favorecidos e para que o cuidar/educar sejam efetivados, é necessário oferecer às crianças dessa faixa etária condições de usufruírem plenamente as possibilidades de apro- priação e de produção dos significados no mundo, da natureza e da cultura. As crianças precisam ser apoiadas em suas iniciativas espontâneas e incentivadas a: brincar; movimentar-se em espaços amplos e ao ar livre; expressar sentimentos e pensamentos; desenvolver a imaginação, a curiosidade e a capacidade de expressão; ampliar permanentemente os conhecimentos a respeito do mundo da natu- reza e da cultura, apoiadas por estratégias pedagógicas apropriadas; diversificar atividades, escolhas e companheiros de interação em creches, pré-escolas e centrosde Educação Infantil. Os parâmetros apontam ainda que a criança tem direito a: dignidade e respeito; autonomia e participação; felicidade, prazer e alegria; individualidade, tempo livre e convívio social; diferença e semelhança; igualdade de oportunidades; conhecimento e educação; profissionais com formação específica; espaços, tempos e materiais específicos. Diferentemente do referencial, que se constitui apenas em um documento orientador do trabalho pedagógico, as diretrizes têm caráter mandatório para todos os sistemas municipais e/ou estaduais de educação. A resolução que insti- tuiu essas diretrizes foi precedida por um parecer que trata de várias questões relativas à qualidade (Parecer CNE/CEB n. 22/98, de 17 de dezembro de 1998). Na relação adulto-criança, por exemplo, o parecer indica a proporção apresentada a seguir: 1 professor para 6 a 8 bebês de 0 a 2 anos; 1 professor para 15 crianças de 3 anos; 1 professor para 20 crianças de 4 a 5 anos. AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 292 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS O Conselho Nacional de Educação (CNE) também se ocupou da questão da formação dos professores que atuam com crianças de 0 até 6 anos. Em 1999, foram instituídas as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de docentes da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental, em nível médio, na modalidade Normal (Resolução CNE/CEB n. 2, de 19 de abril de 1999a), as quais se aplicam aos professores da Educação Infantil, das quatro primeiras séries do Ensino Fundamental, da Educação de Jovens e Adultos, da Educação nas Comunidades Indígenas e da Educação Especial. Considerando a dificuldade de contemplar, no mesmo documento, uma orientação para os cursos de formação de professores e professoras que trabalham com alunos e alunas tão diferentes quanto à faixa etária, contextos sociais e modalidades de ensino que freqüentam, o relatório que introduz esse documento traz uma concepção de formação atualizada, no que diz respeito aos fundamentos teóricos, abran- gente quanto à visão de educação, e coerente com os princípios de cidadania definidos nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. No ano seguinte, foram aprovadas as Diretrizes Operacionais para a Educação Infantil (Parecer CNE/CEB n. 04/00, de 16 de fevereiro de 2000), as quais deliberaram sobre a vinculação das instituições de Educação Infantil aos sistemas de ensino e sobre vários aspectos que afetam a qualidade do aten- dimento: proposta pedagógica, regimento escolar, formação de professores e outros profissionais, espaços físicos e recursos materiais. Essas diretrizes definem, também, a responsabilidade de avaliar, supervisionar e autorizar com validade limitada as instituições de Educação Infantil. Para definir parâmetros de qualidade à Educação Infantil, não é suficiente consultar a legislação específica para essa etapa de ensino, especialmente quando se trata de contemplar temas referentes à diversidade étnica, racial, de gênero ou as disparidades entre cidade e campo. As resoluções e os pareceres do CNE adquirem importância relevante ao tocarem em matérias ainda não suficientemente esclarecidas pela legislação anterior aplicáveis à educação das crianças de 0 até 5 anos. Em nível federal, cabe ao Ministério da Educação (MEC), visando definir e implementar a Política Nacional de Educação Infantil (BRASIL, 2005a): articular-se com secretarias estaduais e municipais, órgãos, organismos, organizações, áreas, programas, poderes Legislativo e Judiciário para propiciar uma gestão integrada e colaborativa entre os três níveis de governo e entre os diversos setores das políticas sociais; participar com o Conselho Nacional de Educação (CNE) da elaboração de pareceres, normas e regulamentações que vise ao cumprimento da legislação e considerem as necessidades identificadas na área; estabelecer diretrizes, objetivos, metas e estratégias para a área; AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 293 divulgá-la por meio de distribuição de documento impresso e disponibi- lizá-la na Internet; responsabilizar-se, juntamente com os sistemas de ensino, pela quali- dade da Educação Infantil; garantir o cuidado e a educação das crianças de 0 até 6 anos de idade e a promoção da qualidade nas instituições de Educação Infantil em âmbito nacional. Cabe ao Conselho Nacional de Educação, visando a garantir o cumpri- mento da legislação vigente no que diz respeito ao desenvolvimento da Educação Infantil em âmbito nacional e de acordo com a Lei n. 9.131/95: assessorar o Ministério da Educação no diagnóstico dos problemas rela- tivos à Educação Infantil; deliberar sobre medidas para aperfeiçoar os sistemas de ensino, especialmente no que diz respeito à integração dos seus diferentes níveis e modalidades; emitir pareceres sobre assuntos relativos à Educação Infantil por inicia- tiva de seus conselheiros ou quando solicitado pelo ministro de Estado da Educação; manter intercâmbio com os sistemas de ensino dos estados e do Distrito Federal; analisar e emitir pareceres sobre questões relativas à aplicação da legis- lação educacional no que diz respeito à Educação Infantil e à formação do professor para a área; examinar os problemas da Educação Infantil e da formação do professor que atua na área e oferecer sugestões para sua solução; analisar e emitir pareceres sobre os resultados dos processos de avaliação da Educação Infantil e dos cursos de formação do professor que atua na área; deliberar sobre as diretrizes curriculares propostas pelo Ministério da Educação; colaborar na preparação do Plano Nacional de Educação e acompa- nhar sua execução no âmbito de sua atuação; manter intercâmbio com os sistemas de ensino dos estados e do Distrito Federal, acompanhando a execução dos respectivos Planos de Educação. Cabe às secretarias de educação dos estados e do Distrito Federal, visando a definir e a implementar a política estadual para a área, em consonância com AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 294 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS a legislação vigente e com os princípios expressos na Política Nacional de Educação Infantil: articular-se com o Ministério da Educação, secretarias municipais, órgãos, organismos, organizações, áreas, programas, poderes Legislativo e Judiciário para propiciar uma gestão integrada e colaborativa entre os três níveis de governo e entre os diversos setores das políticas sociais em assuntos que dizem respeito à criança de 0 até 5 anos de idade (mudança conforme Lei n. 11.274, de 6 de fevereiro de 2006); estabelecer diretrizes, objetivos, metas e estratégias para a área; divulgá-la por meio de distribuição de documento impresso e disponibi- lizá-la na Internet; ampliar progressivamente, em colaboração com os sistemas municipais, o atendimento às crianças de 0 até 5 anos de idade, com objetivo de atingir toda a demanda em âmbito estadual; responsabilizar-se, juntamente com os sistemas municipais de ensino, pela qualidade da Educação Infantil, principalmente no que diz respeito à formação dos profissionais; garantir o cuidado e a educação das crianças de 0 até 5 anos de idade e a promoção da qualidade nas instituições de Educação Infantil em âmbito estadual; articular-se aos outros níveis (fundamental, médio e superior) e às moda- lidades de ensino (jovens e adultos, educação especial, educação indí- gena) do sistema educacional; articular-se com organizações representativas da sociedade civil: sindi- catos, movimentos sociais, ONGs, visando ao desenvolvimento e à progressiva consistência do campo da Educação Infantil. Para o desenvolvimento de uma Política de Educação Infantil é necessário que as Secretarias Estaduais de Educação e do Distrito Federal: incluam a Educação Infantil no Plano Estadual de Educação em conso- nância com a política local definida para a área; disponibilizem profissionais e recursos para exercer o apoio técnico e financeiro aosmunicípios; mantenham uma sistemática de coleta, análise, armazenagem e divul- gação de dados do seu sistema educacional, disponibilizando-os ao público em geral; desenvolvam metodologias para localizar e incorporar dados sobre insti- tuições e/ou redes que funcionam à margem do sistema educacional, visando à sua inclusão nas estatísticas nacionais, estaduais e municipais; AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 295 colaborem com a realização de estudos sobre o custo/criança atendida; acompanhem e avaliem de que forma a legislação e a política estadual vigentes estão sendo incorporadas pelo sistema e pelas instituições de Educação Infantil estaduais; credenciem e autorizem o funcionamento das instituições de Educação Infantil nos municípios que integram o Sistema Estadual de Ensino; credenciem, autorizem, supervisionem e avaliem o funcionamento das instituições de ensino para a formação dos profissionais de Educação Infantil vinculadas ao seu sistema, a fim de garantir que os conteúdos necessários a essa formação contemplem a faixa etária de 0 até 5 anos na íntegra, com especial atenção ao trabalho com bebês; realizem um programa de acompanhamento das instituições de Educação Infantil, auxiliando-as a estabelecer os planos e as metas para a melhoria permanente da qualidade do cuidado e da educação ofere- cida nos sistemas educacionais estaduais e municipais; adotem medidas, em articulação com os municípios, para assegurar que todas as instituições de Educação Infantil formulem e avaliem suas propostas pedagógicas com a participação da comunidade escolar, orientando-as nesse processo. Para garantir o cumprimento da legislação vigente no que diz respeito ao desenvolvimento da Educação Infantil em âmbito estadual, cabe aos conselhos estaduais de educação e do Distrito Federal: estabelecer normas e regulamentações para o credenciamento e o funcionamento das instituições de Educação Infantil; subsidiar a elaboração e acompanhar a execução do Plano Estadual de Educação no que diz respeito à Educação Infantil e à formação dos profissionais que atuarem na área; manifestar-se sobre questões relativas à Educação Infantil e à formação dos profissionais da área; assessorar a Secretaria de Educação no diagnóstico dos problemas e deliberar sobre medidas para aperfeiçoar a melhoria do cuidado e da educação da criança de 0 até 5 anos de idade; emitir pareceres sobre assuntos da área educacional por iniciativa de seus conselheiros ou quando solicitado pela Secretaria de Educação ou pelos sistemas municipais no âmbito do estado; articular-se com o CNE e os conselhos municipais de educação; analisar e emitir pareceres sobre questões relativas à aplicação da legis- lação educacional no que diz respeito à Educação Infantil e sua articu- lação com os outros níveis. AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 296 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS Em consonância com a legislação vigente e com os princípios expressos na Política Nacional e Estadual de Educação Infantil, cabe às secretarias municipais de educação, visando a definir e a implementar a política municipal para a área: articular-se com o Ministério da Educação, secretarias estaduais, órgãos, organismos, organizações, áreas, programas, poderes Legislativo e Judiciário para propiciar uma gestão integrada e colaborativa entre os três níveis de governo e entre os diversos setores das políticas sociais; estabelecer diretrizes, objetivos, metas e estratégias para a área no que se refere à organização, ao financiamento e à gestão do sistema educacional como um todo, à garantia das vagas demandadas pela população, à formação dos profissionais, ao credenciamento das insti- tuições de Educação Infantil única e exclusivamente para o cuidado e a educação das crianças de 0 até 5 anos de idade; divulgá-la por meio de distribuição de documento impresso e disponibi- lizá-la na Internet; articular-se com organizações representativas da sociedade civil: sindicatos, movi mentos sociais, organizações não-governamentais, visando ao desenvolvi mento e à progressiva consistência do campo da Educação Infantil; ampliar progressivamente o atendimento às crianças de 0 até 6 anos de idade para atingir toda a demanda em âmbito municipal; responsabilizar-se pela qualidade do atendimento nas instituições de Educação Infantil em âmbito municipal; articular-se aos outros níveis (Fundamental, Médio e Superior) e às modalidades de ensino (Jovens e Adultos, Educação Especial, Educação Indígena) do sistema educacional. Para o desenvolvimento de uma Política de Educação Infantil, em confor- midade com a legislação nacional, é necessário que as secretarias municipais de educação: incluam a Educação Infantil no Plano Municipal de Educação em conso- nância com a política local definida para a área; criem um setor de Educação Infantil, disponibilizando uma equipe de profissionais e recursos para exercer suas funções no município; mantenham uma sistemática de coleta, análise, armazenagem e divul- gação de dados do seu sistema educacional, disponibilizando-os ao público em geral; desenvolvam metodologias para localizar e incorporar dados sobre instituições e/ou redes de Educação Infantil que funcionam à margem AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 297 do sistema educacional, visando a sua inclusão nas estatísticas nacio- nais, estaduais e municipais; adotem medidas visando a garantir vagas no sistema educacional a todas as crianças até os 6 anos de idade residentes no município, de acordo com a demanda de suas famílias; apóiem financeira e/ou tecnicamente as instituições de Educação Infantil conveniadas, filantrópicas, confessionais e comunitárias para que atinjam padrões compatíveis com as exigências legais; realizem estudos sobre o custo/criança atendida; adotem medidas para suprir vagas em locais de alta vulnerabilidade e para populações em situação de risco social iminente; adotem medidas para garantir que o acesso às vagas respeite o critério de equidade social sempre que a demanda superar a oferta de matrí- culas nas instituições municipais de Educação Infantil; garantam a inclusão de crianças com necessidades educacionais especiais; não autorizem a matrícula de crianças com idade superior a 6 anos na Educação Infantil; não autorizem a matrícula de crianças com idade inferior a 5 anos (completos no início do respectivo ano letivo) no Ensino Fundamental; adotem medidas para garantir uma transição pedagógica adequada na passagem das crianças da Educação Infantil para o Ensino Fundamental; adotem medidas para não permitir que se realizem avaliações que levem à retenção de crianças na Educação Infantil; realizem programas municipais de formação de todos os profissionais de Educação Infantil de modo contínuo e articulado; articulem-se com as instituições formadoras a fim de garantir que os conteúdos necessários à formação dos profissionais de Educação Infantil contemplem a faixa etária de 0 até 5 anos, com especial atenção ao trabalho com bebês; autorizem apenas a contratação, nas instituições de Educação Infantil, de professores, diretores e coordenadores com a formação exigida; promovam a admissão de professores na rede pública somente por meio de concurso; implementem plano de cargos e salários para os profissionais da Educação Infantil; AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 298 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS promovam a habilitação exigida pela legislação para os profissionais que ainda não a possuem; promovam a formação continuada dos professores e de outros profissio- nais que atuam nas instituições de Educação Infantil; promovam o credenciamento das instituições de Educação Infantil de acordo com as normas e as regulamentações definidas pelos conselhos municipais de educação; realizem um programa de acompanhamento e avaliação do credencia- mento e do funcionamento de todas as instituições de Educação Infantil,auxiliando-as a estabelecer os planos e as metas para a melhoria perma- nente da qualidade do cuidado e da educação oferecida no sistema educacional municipal; garantam a supervisão de todas as instituições de Educação Infantil; adotem medidas para assegurar que todas as instituições de Educação Infantil formulem e avaliem suas propostas pedagógicas com a partici- pação da comunidade escolar; elaborem padrões de infra-estrutura para as instituições de Educação Infantil, de acordo com os parâmetros nacionais e com a Lei de Acessibilidade; adotem medidas para garantir que os imóveis onde funcionam as insti- tuições de Educação Infantil estejam em conformidade com os padrões municipais de infra-estrutura estabelecidos e de acordo com a Lei de Acessibilidade; garantam a gestão democrática com a implantação de conselhos nas instituições públicas de Educação Infantil, aprimorando as formas de participação da comunidade; garantam a alimentação escolar para as crianças atendidas nas institui- ções de Educação Infantil, públicas e conveniadas, complementando os recursos recebidos do governo federal, em caráter permanente; garantam o fornecimento anual e a reposição de materiais pedagógicos, livros, CDs e brinquedos para as instituições de Educação Infantil. Cabe aos Conselhos Municipais de Educação, visando a desenvolver ações específicas para garantir a normatização da legislação em âmbito municipal: estabelecer normas e regulamentações para o credenciamento e o funcionamento das instituições de Educação Infantil no âmbito do município, em consonância com a legislação e as diretrizes nacionais e estaduais; AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 299 subsidiar a elaboração e acompanhar a execução do Plano Municipal de Educação no que diz respeito à Educação Infantil e à formação dos profissionais que vão atuar na área; manifestar-se sobre questões relativas à Educação Infantil e à formação dos profissionais da área; assessorar a Secretaria de Educação no diagnóstico dos problemas e deliberar sobre medidas para aperfeiçoar a melhoria do cuidado e da educação da criança de 0 até 5 anos de idade; emitir pareceres sobre assuntos da área educacional por iniciativa de seus conselheiros ou quando solicitado pela Secretaria Municipal de Educação; analisar e emitir pareceres sobre questões relativas à aplicação da legis- lação educacional no que diz respeito à Educação Infantil e sua articu- lação com os outros níveis; articular-se com o CEE e o CNE. Resumindo as últimas três gerações de políticas educacionais, a Educação Infantil oferece conquistas enormes no sentido de ampliar a oferta de matrículas. Com a aprovação do FUNDEB, a educação infantil passa a contar com uma polí- tica de financiamento, o que até então não existia. Pesquisas nacionais indicam que o acesso a esse nível de educação tem efeito positivo no desempenho dos alunos em testes de proficiência. Araújo (2006) mostra que, no Brasil, as crianças que iniciam seus estudos já na pré-escola têm, em média, um desempenho escolar melhor. Além disso, o autor destaca que a grande maioria dos alunos que iniciam os estudos após a primeira série do Ensino Fundamental não chegam ao terceiro ano do Ensino Médio, devido ao alto índice de repetência para esse grupo. Klein (2006), a partir dos dados do SAEB de 2003, mostra uma associação positiva entre o desempenho em matemática e a entrada do aluno da 4ª série na pré- escola ou creche, mesmo após considerar as características relacionadas ao nível socioeconômico médio dos alunos que freqüentam as diferentes redes de ensino. Nesta aula, aprendemos que a legislação existente representa as conquistas da sociedade no sentido de assegurar os direitos da população infantil. No entanto, garantir os direitos das crianças é responsabilidade social. Sendo assim, a educação das crianças, além de direito social, constitui-se um direito humano em condição de existência. Além disso, para que a sobrevivência das crianças esteja garantida, seu crescimento e desenvolvimento sejam favorecidos e o cuidar/educar seja efetivado, é necessário oferecer às crianças dessa faixa etária condições de usufruírem plenamente das possibilidades de apropriação e de produção dos significados no mundo, da natureza e da cultura. AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 300 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS 1. Diferentemente do Referencial, que se constitui apenas em um documento orientador do trabalho pedagógico, as diretrizes têm caráter mandatório para todos os sistemas municipais e/ou estaduais de educação. A reso- lução que instituiu essas diretrizes foi precedida por um parecer que trata de várias questões relativas à qualidade (Parecer CNE/CEB n. 22/98, de 17 de dezembro de 1998). Na relação adulto-criança, por exemplo, o parecer indica a seguinte proporção. a) 1 professor para 6 a 8 bebês de 0 a 2 anos; 1 professor para 15 crianças de 3 anos e 1 professor para 20 crianças de 4 a 5 anos. b) 1 professor para 8 a 12 bebês de 0 a 2 anos; 1 professor para 15 crianças de 3 anos e 1 professor para 25 crianças de 4 a 5 anos. c) 2 professores para 6 a 8 bebês de 0 a 2 anos; 2 professores para 15 crianças de 3 anos e 2 professores para 20 crianças de 4 a 5 anos. d) 2 professores para 8 a 12 bebês de 0 a 2 anos; 2 professores para 15 crianças de 3 anos e 2 professores para 20 crianças de 4 a 5 anos. 2. Releia o texto a fim de fazer um fichamento. Identifique a idéia principal de cada parágrafo e transcreva-o utilizando suas próprias palavras. Identifique, também, as palavras-chave do texto, as definições, explicações ou exempli- ficações utilizadas e as registre. Para finalizar, selecione e anote frases ou idéias que mereçam ser discutidas e justifique suas escolhas. 3. Tomando como base a leitura do texto e suas experiências de vida, discuta sobre: as idéias de seus conhecidos e de alguns profissionais a respeito do a) currículo escolar; os diversos mitos, histórias e narrativas – que você certamente já ouviu b) – que buscam justificar a predominância ou escolha de um determi- nado conteúdo. Na atividade um, a alternativa correta é a letra (a), pois o Parecer CNE/ CEB n. 22/98, de 17 de dezembro de 1998, na relação adulto-criança, indica a seguinte proporção: 1 professor para 6 a 8 bebês de 0 a 2 anos; 1 professor para 15 crianças de 3 anos e 1 professor para 20 crianças de 4 a 5 anos. Na atividade dois, o texto contém muitas informações e, por isso, para aprovei- tá-las ao máximo, é importante estabelecer quais são as idéias principais, a visão geral do texto, isto é, o plano de exposição das idéias e as principais conclusões. AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 301 A atividade três tem como objetivo caracterizar o movimento de construção da prática curricular. Ouvir o outro: escolher e analisar falas significativas que revelem tanto a crítica quanto o senso comum sobre o currículo, buscando a construção de uma prática em que o diálogo é a fundamentação metodológica da organização institucional escolar está a serviço das demandas de alunos e alunas. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEB, 2006. v. 1 e 2. ______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular para Educação Infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998. ______. Secretaria de Ensino Fundamental. Educação Infantil – Parâmetros em Ação. Brasília: SEF, 1999. ______. MEC-SEESP. RCNI: estratégias e orientações para a Educação de crianças com NEE na Educação Infantil. Brasília: 2001. GHIRALDELLI JR., P. (Org.). Infância, escola e modernidade. São Paulo: Cortez, 1996. WALLON, H. Psicología e educación. Las aportaciones de la psicología a la renovación educativa. Madrid: Pablo del Rio, 1981. Na próxima aula, trataremos da abordagem pedagógica dos conteúdos nas creches e nas pré-escolas. Reafirmaremosque a brincadeira deve se constituir em um dos eixos da organização do trabalho pedagógico, especialmente nos dias de hoje, quando as crianças se acostumaram a se isolar em suas casas e vivenciam pouco as brincadeiras coletivas. Anotações AULA 4 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 302 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS AULA 5 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 303 Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: conhecer criticamente os eixos orientadores da construção das práticas pedagógicas na Educação Infantil; compreender que a brincadeira é uma das atividades fundamentais para o desenvolvimento das crianças; entender o papel mediador do professor e da professora na construção do conhecimento pela criança. Para o melhor acompanhamento dessa aula você deverá ter feito a leitura das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil e do Referencial Nacional para a Educação Infantil. Nessa aula, estudaremos as abordagens pedagógicas para os conteúdos nas creches e nas pré-escolas priorizando a formação pessoal e social (iden- tidade, autonomia, brincar, movimento e conhecimento de si e do outro) e o conhecimento do mundo (diferentes formas de linguagem e expressão, artes, música, linguagem oral e escrita, matemática, conhecimento da natureza e socie- dade). Destacaremos a importância de observar as brincadeiras das crianças como elementos de conhecimento delas quanto às suas maneiras próprias de pensar e agir sobre o mundo. Observar é um momento de ação. O fundamental é que os educadores e educadoras compartilhem das brincadeiras das crianças, propiciando-lhes espaço, tempo e artefatos adequados e convidativos para o brincar, e ajudando-as quando forem solicitados. AULA 5 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS Abordagem pedagógica dos conteúdos nas creches e nas pré-escolas AULA 5 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 304 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS 5.1 Direito de ser criança A construção de uma pedagogia para a Educação Infantil enfatiza o direito de ser criança, poder brincar, viver experiências significativas de forma lúdica e informal e o direito de ir à escola e aprender de forma mais sistematizada. Esse caminho busca a superação da dicotomia entre tratamento-assistência que ainda vigora em muitas instituições de ensino especializado. Assim, educar significa: propiciar contextos de cuidados, brincadeiras e aprendizagens dirigidas de forma integrada e que possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis de relação interpessoal, de ser e estar com os outros em uma atitude básica de aceitação, respeito, confiança e o acesso, pelas crianças, aos conhecimentos mais amplos da realidade social e cultural. Cuidar significa: ajudar o outro a se desenvolver como ser humano, valorizar e ajudar a desenvolver capacidades (RCEI, 1998, p. 23-24). Quando analisamos a Educação Infantil e o Currículo, devemos tomar a criança como ponto de partida da proposta pedagógica, compreendendo que para conhecer o mundo ela envolve o afeto, o prazer, o desprazer, a fantasia, o brincar, o movimento, a poesia, as ciências, as artes plásticas e dramáticas, a linguagem, a música e a matemática de forma integrada, pois a vida é algo que se experimenta por inteiro (FARIA ,1999). A organização e estruturação do Currículo na Educação Infantil compre- ende dois eixos de experiências: formação pessoal e social (identidade, autonomia, brincar, movimento e conhecimento de si e do outro); conhecimento do mundo (diferentes formas de linguagem e expressão, artes, música, linguagem oral, escrita e matemática, conhecimento da natureza e sociedade). Atualmente, como podemos refletir sobre uma proposta para a Educação Infantil que esteja apta a encarar as questões que afetam as relações entre a criança e a sociedade? Não devemos imaginar que seja possível a existência de um modelo único, adequado a todas as crianças e realidades, pois isso será contrário a tudo o que sabemos sobre as diferenças que constituem as crianças, famílias e educadores, fruto de suas diferentes inserções históricas e culturais na sociedade. Podemos e devemos, contudo, ponderar sobre alguns eixos orien- tadores da organização das práticas pedagógicas que necessitam ser priori- zados, no sentido de garantir às crianças a possibilidade de construírem seus conhecimentos de forma crítica, criativa e consistente. Diante das questões colocadas até aqui, apontamos dois grandes eixos a serem considerados: a brincadeira como atividade cultural que deve ser incor- porada ao currículo da Educação Infantil; o papel mediador do professor e da professora na idéia da construção do conhecimento em rede como orientadora do planejamento pedagógico e da seleção e tratamento dos conteúdos curriculares. AULA 5 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 305 Segundo Vygotsky (1987b), no princípio da vida da criança, suas ações sobre o mundo são motivadas pelo contexto perceptual e pelos objetos nele contidos. Contudo, quando se iniciam os jogos de faz-de-conta, há um novo e importante processo psicológico para a criança – o processo de imaginação – que lhe deixa se desprender das restrições impostas pelo ambiente imediato. A criança é agora capaz de modificar o significado dos objetos, transformando uma coisa em outra. Assim, o campo de significado se impõe sobre o campo perceptual. Esse processo tem implicações importantes no desenvolvimento da criança, particularmente naquilo que se refere à construção de significados sobre o mundo que a cerca. Existe uma ampliação da flexibilidade em usar os objetos, a partir da possibilidade de atribuir-lhes novos significados pelo processo de imagi- nação. Essa nova forma de operação com significados abre um novo campo de apreensão e invenção da realidade. Podemos afirmar que, para as crianças, um pedaço de madeira se torna um cavalo e com ele ela pode galopar para outros universos; pedrinhas viram comidinhas e com elas deliciosos e saborosos pratos são feitos; um pedaço de tecido consegue transformá-las em príncipes e princesas ou heróis e hero- ínas, conduzindo-as aos castelos, campos e outros tempos e lugares. Quando a criança cria sua narrativa de faz-de-conta, extrai os elementos de sua criação das experiências reais vividas anteriormente, combinando esses elementos ela produz algo novo. Essa capacidade de compor e combinar o antigo com o novo é a base da atividade criadora do ser humano (VYGOTSKY, 1987). O brincar é, portanto, uma das atividades fundamentais para o desenvol- vimento das crianças, pois, por meio das brincadeiras, elas podem ampliar algumas competências importantes, tais como: a atenção, a imitação, a memória, a imaginação, etc. Brincando as crianças descobrem e refletem sobre a reali- dade da cultura na qual vivem, incorporando e, ao mesmo tempo, questionando regras e papéis sociais. Isso quer dizer que nas brincadeiras as crianças podem extrapolar a realidade e transformá-la por meio da imaginação. Ainda que o jogo de faz-de-conta seja marcado pela dimensão fantasiosa, é preciso, segundo Vygotsky, argumentar que, ao lado do desprendimento possibilitado pela imagi- nação, encontra-se a subordinação às regras impostas pela realidade. A origem do processo do brincar se localiza naquilo que a criança conhece e vivencia; é apoiada nesse conhecimento que ela elabora e reelabora situa- ções de sua vida cotidiana; ajusta e cria novas realidades; exerce papéis que vivencia no cotidiano (filha) e também papéis que ainda não pode ser (mãe, pai, motorista de ônibus, professora, etc.); papéis que aspira ser (cantora, bombeiro, etc.) e papéis que a sociedade censura (ladrão, bêbado, etc.). Refletindo sobre suas relações com essas situações e papéis e os vivenciando, a criança toma consciência de si e do mundo, construindo significados sobre a realidade. AULA 5 • CURRÍCULOSE PROGRAMAS 306 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS Rocha (2000) aponta uma contradição vivenciada no processo de brincar. Essa contradição está na relação dialética entre o já dado e o novo, entre o vivido/conhecido e o imaginado. Para exemplificar essas relações contraditórias, podemos notar o uso dos artefatos pela criança: objetos usados de acordo com suas funções reais (panelinha para fazer comidinha) e objetos usados com novos significados (panelinha usada como tambor); ações concretas e literais (mexer com uma colher a comidinha imaginada) e ações substitutivas (vira a panelinha para baixo e bate com a colher, imitando o som do tambor). Essa flexibilidade se apoia no conhecimento, na vivência que a criança tem do objeto e na habi- lidade que ela possui para ignorar certas características, ao mesmo tempo em que deve considerá-las para que a ação substitutiva seja possível (um pedaço de pano não serviria como tambor, uma vez que não produziria som). Do mesmo modo, podemos identificar essas relações dialéticas entre o imaginado e o real: o convívio do “eu” real da criança com o “eu” dos papéis imaginados; papéis e relações já vividos e papéis e relações não vivenciados; ações repetidas e ações antecipadas/criadas; o uso da linguagem nas narrativas das circunstân- cias imaginadas, como falas dos papéis e sua utilização como instrumento de planejamento, de negociações, de explicitações, instruções; as formulações em tempo passado daquilo que se vai fazer no amanhã (“agora eu era cavaleiro”); o desenvolvimento do jogo em dois planos simultâneos: o tempo e o espaço físico real e o tempo e o espaço físico figurado. O processo de imaginação, estritamente pertinente ao brincar, é o alicerce de qualquer atividade criadora, sendo condição para a criação artística, cien- tífica e técnica. O universo da cultura é produzido pela atividade fecunda do ser humano que, por sua vez, não é uma capacidade inata, mas sim construída historicamente nas relações sociais. São essas construções que tornam vivas e constituem as relações do sujeito com o mundo e que permeiam a produção humana no campo das artes, das ciências e das técnicas. O processo de criação ocorre quando o sujeito imagina, combina e modi- fica a realidade. Assim sendo, não se reduz às grandes obra da humanidade ou às obras de arte, etc., mas se refere à capacidade do ser humano de imaginar, descobrir, combinar e ultrapassar a experiência imediata. Em se tratando da atividade criativa, imaginação e realidade constituem uma unidade dialética, relacionando-se reciprocamente e possibilitando a expansão e a transformação da experiência sensível do ser humano na sua relação com o mundo (VYGOTSKY, 1987a). Quanto mais plenas forem as experiências que as crianças vivenciam, mais probabilidade elas terão de desenvolver a imaginação e a criatividade em suas atividades, especialmente por meio de suas brincadeiras e, quanto mais possibilidades lhe forem apresentadas para ampliar sua imaginação, mais fecundas serão nas suas ações/interações com o mundo. O brincar é um processo histórico e socialmente construído, ou seja, as crianças aprendem a brincar com os diferentes membros de sua cultura, e suas AULA 5 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 307 brincadeiras são carregadas dos hábitos, valores e conhecimentos de seu grupo social. Os familiares ou indivíduos responsáveis pelos cuidados com os bebês lhes auxiliam a brincar desde cedo, quando, por meio dos vínculos afetivos constituídos, interagem com eles, criando diferentes situações que poderíamos identificar como o início desse processo. As conhecidas brincadeiras que os adultos costumam fazer, por exemplo, esconder e achar os próprios bebês ou objetos atrás de panos ou cobertas. Essas brincadeiras ajudam a estreitar as conexões afetivas adultos-bebês, além de auxiliar as crianças na elaboração da imagem mental do objeto ou pessoa distante, o que servirá de apoio para suas construções de sistemas de representação. Por meio da interação com os artefatos e brinquedos apresentados pelos adultos, a criança, desde pequena, entra em relação com as características e os usos sociais dos objetos, o que a ajuda a compreender as formas culturais de atividades do seu grupo social. Desse modo, as brincadeiras não devem ser vistas como algo biológico, que brota naturalmente, mas sim como uma apren- dizagem social, produto das relações entre os indivíduos de um mesmo grupo social. Esse modo de abordar a atividade infantil se baseia no ponto de vista da concepção histórico-cultural do desenvolvimento, que atribui à Educação Infantil uma função fundamental na organização e no planejamento de condições favo- ráveis ao desenvolvimento e à aprendizagem do processo do brincar. Temos visto na Educação Infantil diferentes formas de se conceber a brinca- deira. Uma delas é a concepção estruturalista e organicista do brincar, baseada em uma visão de natureza infantil biologicamente determinada, segundo a qual a brincadeira é vista como uma atividade natural e espontânea, originada na própria essência da criança. As práticas de Educação Infantil, baseadas nessa visão, encaram a brincadeira apenas como atividade recreativa, que permite que as crianças relaxem e liberem energias contidas. Nos métodos mais tradicionais, notamos a restrição ou o impedimento de seu acontecimento no ambiente escolar, pois é considerada um obstáculo para a aprendizagem; as oportunidades de brincar se limitam à hora do recreio e, quando possível, nos momentos de chegada e saída da instituição. Uma outra tendência, talvez a mais comum, é a utilização da brincadeira como instrumento didático. O brincar, nessa perspectiva, é concebido como preparação para a escolaridade futura, por meio da sua transformação em exercícios e treina- mentos. O educador ou a educadora usa a brincadeira para ensinar noções e habilidades, como cores, formas, partes do corpo, numerais, entre outras. Além disso, serve como forma de sedução e treinamento para a aprendizagem. Acreditamos que, por meio das atividades recreativas ou de brincadeiras instrucionais, as crianças podem ser favorecidas, tanto no aspecto lúdico, de diversão e prazer como no aspecto da aprendizagem, uma vez que se pode aprender muitas noções e habilidades por intermédio de brincadeiras, como “seu mestre mandou”, brincadeiras cantadas, brincadeiras de faz-de-conta de AULA 5 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 308 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS compra e venda, etc. Porém, é importante que o educador e ou a educadora saiba que as maiores contribuições do brincar ficam em segundo plano, sobre- tudo, naquelas brincadeiras que evidenciam apenas os objetivos instrucionais. Pensamos que a brincadeira deve se constituir em um dos eixos da orga- nização do trabalho pedagógico, especialmente nos dias de hoje, quando as crianças se acostumaram a se isolar em suas casas e vivenciam tão pouco as brincadeiras coletivas; seja pelas agendas cheias de atividades de formação (inglês, música, natação, etc.), seja pelo trabalho precoce ou simplesmente pelo medo da violência nas ruas. Sob o ponto de vista histórico-cultural, a inclusão da brincadeira nas práticas pedagógicas tem como objetivo desenvolver distintas formas de jogos e brincadeiras que cooperam para múltiplas aprendizagens e para o aumento da rede de significados construídos pelas crianças. Em meio a essas diversas modalidades de brincadeiras que podem acontecer nas creches e pré-escolas, fazemos referência: às brincadeiras de faz-de-conta orga- nizadas pelas próprias crianças; à difusão e à recriação das brincadeiras tradicio- nais da nossa história e cultura; aos jogos de construção e aos jogos educativos propiciadores de aprendizagens em diferentes áreas do saber. A brincadeira de faz-de-conta, corriqueira na faixa etária que envolve a Educação Infantil, mostra-se como atividade essencial, pois nela as crianças reconstroem suas experiências socioculturaise refletem criticamente sobre a realidade que vivem, desenvolvendo seus conhecimentos sobre si e sobre o mundo ao seu redor. Ao constituir suas brincadeiras as crianças fazem opções, negociam suas ações, organizam as situações, criam regras e se submetem a elas ou as nego- ciam e as reconstroem, simulam e representam diferentes papéis, ocupam posi- ções distintas nas relações de poder (ora mãe/pai, ora filho/filha, ora professor/ professora, ora aluno/aluna, ora herói/heroína, ora vilão/vilã, etc.), modificam os significados dos objetos, atribuindo-lhes novos nomes e funções. Por meio do faz-de-conta, as crianças aprendem a manusear os objetos e lidar com as situ- ações no plano mental, introduzindo-se no espaço das idéias e representações. Cabe aos educadores e às educadoras prepararem atividades de brincar de forma diversificada, proporcionando às crianças a possibilidade de elegerem diferentes opções e ordenar de forma pessoal suas ações e conhecimentos. O ambiente físico da creche ou da pré-escola precisa ser um convite à imaginação das crianças, devendo existir em todas as salas, por exemplo, um lugar arrumado para a brincadeira de faz-de-conta, contendo pinturas, pirucas, bonecas, roupas e acessórios, fantasias, utensílios domésticos de cozinha e lazer, objetos do mundo do trabalho, miniaturas de animais e tudo que as crianças e seus professores e professoras acharem importante. Uma idéia interessante, sobretudo para pequenos espaços, é organizar kits temáticos de brincadeiras, que podem ser caixa de teatro, baú ou cesto que tenham artefatos relacionados a um tema específico: escritório, médico, cabeleireiro, escola, parque, etc. Esses AULA 5 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 309 materiais precisarão ficar em um lugar acessível às crianças, para que elas possam escolher livremente os temas e as situações imaginárias que optaram desenvolver. Em se tratando do lugar onde os bebês ficam, é imprescindível que eles tenham acesso a artefatos e brinquedos variados, que possibilitem a exploração de características e propriedades distintas (sons, cores, formas, texturas, odores) e suas possibilidades associativas (empilhar, rolar, encaixar...). Além disso, é fundamental a presença de brinquedos, como bonecas, paninhos, mamadeiras, pratinhos e móveis para incentivar as primeiras ações de imitação de papéis sociais. Uma outra esfera do brincar que, em geral, se articula às brincadeiras de faz-de-conta, são os jogos de construção. Brincar com elementos da natureza, de construção, de sucata (areia, massa, argila, pedras, papel, folhas, flores, objetos com estruturas de encaixe próprios para a construção, etc.) possibilita a exploração dos predicados e características associativas dos objetos, assim como seus usos sociais e simbólicos. A brincadeira com regras também tem importante valor no desenvolvimento da criança, pois esse tipo de brincadeira tem início com os primeiros experi- mentos do brincar dos bebês e penetram no faz-de-conta, nos jogos e constru- ções. As normas demarcam um campo de ação a ser adotado, com base no qual as crianças regulam seu comportamento. Além das regras subentendidas nos jogos de faz-de-conta, é fundamental que a criança aprenda a brincar com regras explícitas. Os jogos que podem ajudar nesse sentido são: amarelinha, jogos com peteca ou bola, jogos de linguagem (adivinhas, trava-línguas, parlendas), jogos tradicionais como rodar pião, bola de gude, pular corda, soltar pipa e outros como dama, xadrez, dominó, quebra-cabeça, trilha e muitos outros jogos construídos nas diferentes culturas ou transformados/criados a partir dos já conhecidos. O que os educadores e educadoras devem fazer na hora das brincadeiras? Qual é a sua função? Primeiramente, é imperativo salientar a importância de observar as brincadeiras das crianças como elementos de conhecimento delas quanto às suas maneiras próprias de pensar e agir sobre o mundo. Observar é um momento de ação. O fundamental é que os educadores e educadoras compartilhem das brincadeiras das crianças, propiciando-lhes espaço, tempo e artefatos adequados e convidativos para o brincar, e ajudando-as quando forem solicitados. Muitas vezes, o educador ou a educadora é convidado a participar da brincadeira e a desempenhar um papel. A forma de participação do profes- sora ou da professora deve ser pautada na observação e na escuta cuidadosa das crianças e de como decidem o desenrolar da situação de faz-de-conta. É preciso que o educador ou a educadora não imponha seus desejos e vontades, pois ele ou ela poderá destruir a brincadeira. Por meio do respeito às decisões e escolhas das crianças, a educadora poderá ser uma participante (não uma orientadora) que busca enriquecer a brincadeira, trazendo novas indicações e relações que poderão ser estabelecidas. A chave para uma boa intervenção de AULA 5 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 310 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS educadores nas brincadeiras é a observação e o respeito pelas escolhas das crianças, o que só é possível pelo conhecimento do jogo da criança, do que e como brincam de sua cultura e de sua lógica própria. Dessa forma, se ambicionamos formar indivíduos criativos e construtores de sua própria história, torna-se indispensável compartilhar as brincadeiras com as crianças. Devemos colocar à sua disposição nossas vivências, as brincadeiras que conhecemos desde pequenos, combinando, assim, o novo e o velho, cons- truindo um presente mais rico. 5.2 O planejamento de projetos e a importância da mediação das professoras e dos professores Sob o ponto de vista histórico-cultural, o sujeito e o objeto de conhecimento se relacionam de forma dialética, não sendo, portanto, uma relação direta, linear, não há predominância de um sobre o outro, e sim uma relação entre eles, mediada por um outro sujeito (VYGOTSKY, 1991). Dessa maneira, o entendimento da relação epistemológica tem muito a acrescentar na organização curricular, especialmente, no que concerne à cons- trução do conhecimento, ao papel do professor e da professora e da criança na relação pedagógica. A compreensão de que a aprendizagem acontece desde que o indivíduo nasce, a partir de um processo em que o desenvolvimento e a aprendizagem se constituem mutuamente em uma unidade dialética, à medida que o sujeito interage com o mundo, confere à educação papel fundamental. Não se pode entender, então, segundo essa visão, que a Educação Infantil seria apenas um lugar de recreação, de cuidados ou de preparação para a aprendizagem futura, mas sim um espaço de construção de conhecimentos e de ampliação do universo simbólico das crianças. As formas mais tradicionais de educação apregoam a aquisição dos conte- údos de maneira regular e homeopática, com pequenas doses do mais simples para o mais complexo, sem excessos que alterariam todo o sistema. Percursos novos e diferentes precisam ser evitados. Os professores ou as professoras são sempre aqueles que sabem, o aluno e a aluna aprendem. O conteúdo é eterno e inquestionável. Atualmente, os ambientes de acesso à informação estão cada vez mais disponíveis (internet, TV, livros, jornais, revistas, etc.). Padecemos, desde a mais tenra idade, com o excesso de informações que nos invadem pela rede a todo momento. O complicado é escolher e incorporá-las de forma crítica. Como ponderar acerca da apreensão do conhecimento escolar em rede de maneira diferenciada, interdisciplinar e contextualizada? De que maneira o educador e a educadora infantil podem auxiliar nesse processo? AULA 5 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 311 Sob o ponto de vista histórico-cultural, o professor e a professora passam a atuar como mediadores ou mediadoras entre a criança e os conteúdos elabo- rados. Não é nem “observador(a) do amadurecimento da criança” nem aquele(a) cuja responsabilidade principal é apenas repassar informações a serem absor- vidas. Como mediador ou mediadora,precisa colocar a criança em contato com os diferentes conhecimentos ou as muitas formas de encontrá-los, e deve auxi- liar a processar esse conhecimentos criticamente. O professor ou a professora precisa, então, atuar como aquele(a) que possibilita a relação entre a criança e o conhecimento, indicando, a cada momento, suas possibilidades de interagir com outros campos do saber. Essa é uma das formas de se construir o conheci- mento em rede. O que implica, fundamentalmente, considerar o indivíduo que aprende como um ser envolvido em permanente transformação e que se modifica a cada nova interação. Essa concepção de construção do conhecimento em rede e do papel mediador do professor e da professora implica compreender que as crianças desenvolvem diversas estratégias de apreensão e de ação sobre o real, resultado das suas diferentes condições sociais e culturais, o que interfere na sua maneira de se desenvolver. Pela riqueza de pontos de vista e de experiências que podem ser trocadas, essas diversidades devem ser ponderadas e utilizadas como geradoras de novos conteúdos. É, principalmente, no espaço das dife- renças entre as crianças e entre as crianças e os adultos que se pode almejar que elas se capacitem para criticar, argumentar, transformar, criar e inventar. Vamos criar, portanto, condições para que as crianças construam linguagens e conhecimentos, digam suas próprias palavras, sintonizando sua voz como tantas outras presentes no espaço escolar. A organização de projetos interdisciplinares com as crianças pode ser consi- derada uma estratégia pedagógica importante para integrar os diversos conhe- cimentos curriculares, propiciando a criação do conhecimento em rede. As inte- rações da criança com os conteúdos trabalhados acontecerá na busca coletiva de informações em torno de um tema gerador de interesse do grupo. Sob essa perspectiva, a construção dos projetos precisa estar vinculada a conhecimentos que incorporem os fatos sociais que as crianças por ora viven- ciam ainda que sejam definidos e planejados pelas crianças e/ou pelos profes- sores e professoras. Essa forma de organizar os projetos de trabalho permite, ao contrário das atividades fragmentadas e em etapas, que a criança estabeleça relações entre as diferentes áreas de conhecimento e as realidades vividas na escola e na sua vida. Numa perspectiva interdisciplinar, os projetos de trabalho têm como finali- dade relacionar conhecimentos de diferentes áreas, de maneira a propiciar às crianças a possibilidade de fazer múltiplas relações, estendendo sua idéia sobre um determinado tema e até mesmo a formação de conceitos, costumes e valores culturais básicos para a vida em sociedade. AULA 5 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 312 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS Os projetos precisam partir das questões consideradas importantes para as crianças que deverão ser respondidas a partir do trabalho coletivo e mediado sempre pela professora. Por isso, é essencial que a escola esteja conectada com o que as crianças já sabem, com suas formas de apropriação dos conhecimentos e suas teorias diante dos temas a serem abordados. É bom lembrar que a memória, os relatos escritos e os trabalhos elaborados pelas crianças, como desenhos, murais, cartazes, fotos das atividades, etc., são registros fundamentais para o acompanhamento e a avaliação pelos profes- sores. Essa é uma forma de avaliação que pode prever novas trajetórias e é fundamental para o sucesso de um projeto de trabalho. Nos projetos de trabalho é essencial que as crianças, os professores e as professoras saibam pesquisar, interpretar e busquem o entendimento dos diversos problemas que os cercam. O que queremos dizer é que os professores e as professoras devem criar um clima de curiosidade e de prazer com o conheci- mento, de modo que as crianças se envolvam de forma apaixonada com as experiências, com os objetos e materiais pedagógicos utilizados. Segundo Hernandez (1998, p. 13), os projetos devem ser um convite a soltar a imaginação, a paixão e o risco por explorar novos caminhos que permitam que as escolas deixem de ser formadas por compartimentos fechados, faixas horárias fragmen- tadas, arquipélagos de docentes e passem a se converter em uma comunidade de aprendizagem, na qual a paixão pelo conheci- mento seja a divisa, e a educação de melhores cidadãos o hori- zonte ao qual se dirige. Para um melhor entendimento desse tema, vale reforçar algumas caracterís- ticas gerais dos projetos de trabalho, tais como: percurso por um tema problema que facilita a análise, a interpretação e a crítica; predominância da atitude de cooperação; o professor é um aprendiz e não um especialista; percurso que busca estabelecer conexões entre os fenômenos e que questiona a idéia de uma visão única da realidade; cada percurso é singular e é trabalhado com diferentes tipos de informações; o professor ensina a escutar e a aprender por meio da vivência com os outros; há diferentes formas de aprender o que o professor quer ensinar; há várias fontes de informação que não apenas professor; aproximação atualizada aos problemas das disciplinas e dos saberes; AULA 5 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 313 forma de aprendizagem em que se leva em conta que todas as crianças podem aprender e encontram um papel para desempenhar; não se esquecer de que a aprendizagem é vinculada ao fazer, à ativi- dade manual, à intelectual e a outras modalidades de atividades. Existem outras questões importantes para as práticas pedagógicas na Educação Infantil, como, por exemplo, o que é ser criança hoje. Por isso a impor- tância do diálogo e do trabalho constante com a linguagem. A linguagem não é apenas uma ferramenta de comunicação, ela constrói nossa forma de pensar no mundo e, portanto, constitui nossa identidade histórica e cultural. Ao concluir esse tópico, é importante reafirmar a convicção de que o conhe- cimento deve ser vivenciado no espaço escolar de forma prazerosa e que precisa ser vivido de forma apaixonada. Para que os conteúdos tenham significados na vida das pessoas, é essencial que a aprendizagem aconteça no experimento do encontro entre as crianças e entre elas e os adultos (educadores, famílias). Aprendemos com os livros, com a música, com a arte, com a linguagem, com as histórias e com as brincadeiras, mas são as crianças que podem nos ensinar a inverter a velha lógica, a transgredir as ordens, a não temer o novo, a refazer a história. Podemos também aprender com os poetas: Tenho um livro sobre águas e meninos Gostei mais de um menino que carregava água na peneira. A mãe disse que carregar água na peneira Era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água. O mesmo que criar peixes no bolso. O menino era ligado em despropósitos. Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos. A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que os vazios são maiores e até infinitos. Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito Porque gostava de carregar água na peneira Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira. No escrever o menino viu que era capaz de ser noviço, monge ou mendigo ao mesmo tempo. O menino aprendeu a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. E começou a fazer peraltagens. Foi capaz de interromper o voo de um pássaro botando ponto no final na frase. AULA 5 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 314 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela. O menino fazia prodígios. Até fez uma pedra dar flor! A mãe reparava o filho com ternura. A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta. Você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens E algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos. Manoel de Barros 5.3 Planejamento e avaliação docurrículo na Educação Infantil O planejamento é a atividade intencional pela qual se projetam fins e se esta- belecem meios para atingi-los. Por isso, o planejamento não é neutro, mas ideo- logicamente comprometido. Por esse motivo é importante a discussão a respeito do real significado social e político da ação que se está planejando. Deve-se perguntar sobre as determinações sociais que estão na base do problema a ser enfrentado, assim como deve-se discutir as suas possíveis consequências e seus comprometimentos. Segundo Cipriano Carlos Luckesi (1992, p. 115), (...) planejar, nas escolas em geral, tem sido um modo de opera- cionalizar o uso de recursos – materiais, financeiros, humanos, didáticos. (...) usualmente (com exceções no cotidiano escolar, é claro) essa semana de planejamento redunda no preenchi- mento de um formulário em colunas, no qual o professor deve fazer durante o ano letivo na disciplina ou área de estudos que trabalha. (...) Essa é uma forma de fazer do ato de planejar um ato neutro, como desejavam nossos ex-ministros e como desejam todos os que defendem uma perspectiva conservadora para a sociedade. Na contemporaneidade, os novos pressupostos da administração escolar trazem com a autonomia a indicação da gestão colegiada, com responsabili- dades compartilhadas entre escola e comunidade. Essa forma de gestão requer que se propicie espaços para a iniciativa e participação de todos os envolvidos no processo educativo. Essa participação, compromissos e responsabilidades, devem estar visivelmente enunciadas no plano da escola, que deve estabelecer a sua filosofia, sua finalidade, assim como seus principais objetivos devem ser reavaliados constantemente para adequá-los a realidade. A avaliação deveria ser compreendida como uma crítica do percurso de uma ação, seja ela curta, ou prolongada. Enquanto o planejamento dimensiona o que vai ser feito na escola, a avaliação fundamenta essa caminhada, visto que fornece elementos para a tomada de decisões. A avaliação funciona como um sistema de crítica do projeto que elaboramos na escola. AULA 5 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 315 Uma proposta de organização do trabalho pedagógico só estará completa ao anunciar sua compreensão sobre avaliação. Portanto, a maneira como os educadores e educadoras exercem suas avaliações sobre alunas e alunos indica, em último grau, a sua concepção de educação. Seja como uma educação repres- sora e bancária, em que o alunado é depositário do conhecimento e deve repro- duzi-lo, ou como uma educação progressista e democratizadora, voltada para o integral desenvolvimento do ser humano, de sua consciência crítica, de sua capa- cidade de ação e reação em sua criatividade. Nessa concepção, a avaliação não tem a função de aferir, conferir, classificar e aprovar/reprovar, eliminando aqueles que não chegaram aos padrões preestabelecidos. A avaliação tem a função de proporcionar ao professor e à professora uma melhor compreensão sobre a aprendizagem de alunos e alunas, verificando constantemente o trabalho pedagógico que oferece aos alunos(as), a fim de poder superar as dificuldades encontradas. Essa é a concepção considerada mais apropriada. Quando falamos da Educação Infantil, essa atitude avaliativa expressa a adoção de uma conduta que não apenas examine e registre os resultados obtidos pela criança a partir de ações conduzidas, mas que procura, funda- mentalmente, ser coerente à dinâmica do seu processo de desenvolvimento, a partir do acompanhamento permanente da ação da criança e da confiança na evolução do seu pensamento. Tal postura avaliativa e mediadora parte do princípio de que cada momento de sua vida representa uma etapa altamente significativa e antecede as próximas conquistas, devendo ser analisada no seu significado próprio e individual em termos de estágio evolutivo de pensamento e de suas relações interpessoais. A partir daí, poderemos abandonar listagens de comportamentos uniformes, padronizados e buscar estratégias de acompanha- mento da história que cada criança vai constituindo ao longo de sua descoberta do mundo. Esse acompanhamento deve ser no sentido de mediar a sua ação, favorecendo-lhe desafios, tempo, espaço e segurança em suas experiências (HOFFMANN, 1996). Esta proposta de avaliação reconhece o professor/adulto como um mediador. Isso quer dizer que a criança não deve apenas reproduzir os conteúdos que o professor ou a professora transmitiu, pois essa não é a única possibilidade de conhecimento. A relação com o conhecimento depende da relação que a criança constitui com as outras crianças (de diferentes idades), com os pais, professores, com o meio ambiente e com a cultura. Isso quer dizer que não há como avaliar uma criança apenas a partir das nossas experiências e expecta- tivas como adultos. Não basta, rechear listas, relatórios ou boletins, uma vez que isso tudo expressa a comparação à medição e à classificação das crianças. O registro da avaliação deve ser a memória da história vivida pela criança em um determinado período. Dessa forma, podem ser utilizados relatórios descritivos e portfólios, por exemplo. Os relatórios descritivos devem ser elaborados de maneira que AULA 5 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 316 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS ao mesmo tempo que refaz e registra a história do seu processo dinâmico de construção do conhecimento, sugere, encaminha, aponta possibilidades da ação educativa para pais, educadores e para a própria criança. Diria até mesmo que apontar cami- nhos possíveis e necessários para trabalhar com ela é o essen- cial em um relatório de avaliação, não como lições de atitudes à criança ou sugestões de procedimentos aos pais, mas sob a forma de atividades a oportunizar, materiais a lhe serem ofere- cidos, jogos, posturas pedagógicas alternativas na relação com ela. (HOFFMANN, 1996, p. 53, grifo nosso). Nessa proposta, todo o trabalho pedagógico será avaliado, repensado e alterado sempre que necessário. Não se trata de uma avaliação pronta, precisa e acabada, mas sim de uma avaliação em processo, que está preocupada com o avanço constante da criança em relação ao conhecimento. Nessa aula, aprendemos que quando analisamos a Educação Infantil e o Currículo devemos tomar a criança como ponto de partida da proposta peda- gógica, compreendendo que para conhecer o mundo ela envolve o afeto, o prazer, o desprazer, a fantasia, o brincar, o movimento, a poesia, as ciências, as artes plásticas e dramáticas, a linguagem, a música e a matemática de forma integrada, pois a vida é algo que se experimenta por inteiro. 1. Segundo o texto, a produção de projetos interdisciplinares pelas crianças pode ser considerada uma estratégia pedagógica: riquíssima de integração de diferentes conteúdos disciplinares, propiciadora de uma construção de conhecimento em rede. As diferentes interseções da criança com o conheci- mento se darão de acordo com a busca coletiva de informações em torno de um tema centralizador e de interesse do grupo. Dentro dessa perspectiva, a construção do conhecimento deve estar vinculada a: a) projetos que tenham como tema gerador ou aglutinador acontecimentos sociais que as crianças vivenciam no momento, ou eventos culturais que estejam previstos na programação da escola, ou que sejam decididos e planejados pelas crianças e/ou pelos professores e professoras; b) projetos previamente determinados e independentes; c) projetos livres e espontâneos; d) projetos fixos e centralizados no professor ou na professora. 2. O texto aponta dois grandes eixos a serem considerados: a brincadeira como atividade cultural que deve ser incorporada ao currículo da Educação Infantil; AULA 5 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 317 o papel mediador do professor e da professora na idéia da construção do conhecimento em rede como orientadora do planejamento pedagógico e da seleção e tratamento dos conteúdos curriculares.Pondere essas questões e escreva um pequeno texto com suas conclusões a respeito desses dois grandes eixos. 3. O processo de imaginação, estritamente pertinente ao brincar, é o alicerce de qualquer atividade criadora, sendo condição para a criação artística, cientí- fica e técnica. O universo da cultura é produzido pela atividade fecunda do ser humano que, por sua vez, não é uma capacidade inata, mas sim cons- truída historicamente nas relações sociais. São essas construções que tornam vivas e constituem as relações do sujeito com o mundo e que permitem a produção humana no campo das artes, das ciências e das técnicas. Pesquise em livros, revistas ou jornais exemplos de comunidades que educam as crianças em ambientes diferentes do espaço escolar. Depois, anote os resul- tados da pesquisa. Se encontrar figuras, você pode ilustrar seu registro. Na atividade um, a construção do conhecimento deve estar vinculada a projetos que tenham como tema gerador ou aglutinador acontecimentos sociais que as crianças estejam vivenciando no momento, ou eventos culturais que estejam previstos na programação da escola, ou que sejam decididos e plane- jados pelas crianças e/ou pelos professores e professoras. A construção de conhecimento pelas crianças levará à necessidade de uma divisão de tarefas e a busca de informações em diferentes fontes, o que suscitará a aprendizagem colaborativa e a produção do conhecimento em rede. Portanto a alternativa correta é a letra (a). BARROS, M. de. Exercícios de ser criança. Rio de Janeiro: Salamandra, 1999. BRASIL. Ministério da Educação. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998. FARIA, A. L. G.; PALHARES, M. S. (Org.). Educação Infantil Pós-LDB: rumos e desafios. Campinas: Autores Associados, 1999. HERNÁNDEZ, F.; VENTURA, M. A organização do currículo por projetos de trabalho: o conhecimento é um caleidoscópio. 5. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. HERNÁNDEZ, F. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. AULA 5 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 318 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS HOFFMANN, J. Avaliação: mito e desafio – uma perspectiva construtivista. 18. ed. Porto Alegre: Mediação, 1996. LUCKESI, C. C. Planejamento e Avaliação na Escola: articulação e necessária determinação ideológica. Série Idéias, n. 15. São Paulo: FDE, 1992. p. 115. ROCHA, M. S. P. de M. L. da. Não brinco mais: a (des)construção do brincar no cotidiano educacional. Ijuí: Unijuí, 2000. VYGOTSKY, L. S. Imaginación y el arte na infância. Cidade do México: Hispânicas, 1987a. ______. A formação social da mente. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1987b. ______. Pensamento e linguagem. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1991. Na próxima aula, trataremos da seleção e organização dos conteúdos nos anos iniciais do Ensino Fundamental e também da formação dos educadores e sua atuação no processo curricular. Anotações AULA 6 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 319 Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: perceber que as propostas pedagógicas são frutos de debates e de disputas de diferentes naturezas; compreender criticamente os Parâmetros Curriculares para o Ensino Fundamental; entender os padrões e critérios que definem o discurso pedagógico, bem como os processos de transformações por meio dos quais os discursos ou os conhecimentos das várias áreas vão sendo reorganizados e trans- formados, até se tornarem conhecimento escolar. Para melhor entendimento dos conteúdos dessa aula você deverá fazer a leitura cuidadosa dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental, que pode ser encontrado no site do MEC (<http://www.mec.gov.br>). Nessa aula, poderemos perceber que o exercício da cidadania exige o acesso de todos aos recursos culturais relevantes para a intervenção e a participação responsável na vida social: o domínio da língua falada e escrita; os princípios da reflexão matemática; as coordenadas espaciais e temporais que organizam a percepção do mundo; os princípios da explicação cientí- fica; as condições de fruição da arte e das mensagens estéticas; os domínios do saber tradicionalmente presentes nas diferentes concepções do papel da educação no mundo democrático, até outras exigências que se impõem no mundo contemporâneo. AULA 6 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS Seleção e organização dos conteúdos nos anos iniciais do Ensino Fundamental AULA 6 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 320 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS 6.1 Formação dos educadores e sua atuação no processo curricular Atualmente, ao debatermos as políticas públicas para o Ensino Fundamental, o que parece mais surpreendente não é o empenho do governo federal em imple- mentá-las, mas o seu baixo impacto na realidade escolar. Seria lícito arrazoar que, depois de definido um currículo nacional, selecionados os livros didáticos a serem adotados pelas escolas, treinados professores e professoras de forma mais funcional, com vistas à ampliação das competências consideradas fundamentais para o exercício da docência, acontecesse uma evolução na performance do sistema público do ensino básico, considerando que esse também é avaliado com base em preceitos definidos pelo próprio sistema. Assim, consideramos, nesse momento, que o que merece uma análise mais aprofundada é a própria consistência interna dessas políticas, uma vez que sua compatibilidade com os objetivos mais amplos de uma educação genuinamente democrática tem sido elemento de estudo e de reflexões em grande parte dos trabalhos acadêmicos no campo das políticas públicas. Ivor Goodson (1995), um dos estudiosos da história do currículo, enfatiza em seu livro Currículo: teoria e história a necessidade de se discutir as propostas curriculares ou o que é chamado de Currículo Prescrito, lembrando que aquilo “que está prescrito não é necessariamente o que é aprendido, e o que se planeja não é necessariamente o que acontece” (p. 78). Ponderando sobre a aceitação de certas idéias em um determinado contexto, o referido autor quer evidenciar a seriedade dos fatores e das relações de poder que permitiram a construção de uma determinada proposta. O que podemos perceber é que as propostas pedagógicas são resultado de debates e de disputas de diferentes naturezas também no campo do currículo. Logo, ainda que organizado por um grupo que compartilha dos mesmos ideais, um currículo representa sempre um consenso precário em torno de algumas idéias. Examinando com cuidado as novas propostas curriculares, podemos perceber que grande parte das idéias que elas contêm já vem sendo discutidas no campo do currículo há várias décadas. Por que, em um determinado momento histó- rico, uma determinada proposta ganha prestígio e se torna hegemônica? Isso acontece em função de vários fatores, por exemplo: se pessoas que pensam da mesma forma obtêm alguma posição na hierarquia de poder constituída, como um cargo público relevante no campo da educação, isso com certeza reforça a concepção de currículo que elas defendem, tornando-a uma proposta aceitável. Os Parâmetros Curriculares Nacionais foram organizados por um grupo, com a colaboração de intelectuais dos diferentes campos do saber. Os PCN inevitavelmente irão apresentar inconsistências ou divergências implícitas, mesmo que seus redatores tenham procurado atenuá-las ou suprimi-las. Os indivíduos que não concordaram, que se rebelaram contra sua orientação ou contra a forma como foram elaborados, estão atuando em outros lugares, sejam eles estaduais ou municipais, e articulando propostas mais compatíveis com suas idéias. Dessa AULA 6 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 321 forma, a pretensão a um projeto nacional, além de depender de todas as questões que discutimos em aula, configura-se quase como inviável, não porque vivemos em um país de dimensões continentais,mas porque o próprio processo de elabo- ração curricular só pode ser pensado em uma dinâmica constante de construção e reconstrução que se inviabiliza quando se cristaliza. Ao analisarmos os Parâmetros Curriculares, torna-se necessário fazer refe- rência a um artigo de Michael Apple (1994) intitulado A política do conhecimento oficial: faz sentido a idéia de um currículo nacional?. Temos que reconhecer que suas análises subsidiaram grande parte das publicações sobre essa temática. Em meio a várias considerações discutidas pelo autor, é essencial a referência que ele faz a um texto de Richard Johnson (1991) sobre um aspecto central na discussão dos currículos nacionais. Johnson aponta que essa idéia de coesão nacional em que se baseiam os currículos nacionais é completamente equivocada, pois parte do pressuposto que alunos e alunas de diferentes posições sociais e pertencentes a diferentes grupos sociais vivenciam o currículo da mesma maneira. Para Correia (1991, p. 2) “nem sempre [os PCN] produzem mudanças nas práticas pedagógicas e nas relações sociais estabelecidas entre os agentes implicados na ação educativa”. O autor ressalta, ainda, que as alterações como metodologias inovadoras exigiriam uma ruptura com práticas instaladas, tornan- do-se, portanto, indispensável analisar o grau e o poder de decisão dos agentes nela envolvidos. Nos processos de mudanças, suscitados nos e pelos órgãos centrais do sistema educativo, os professores e as professoras são tomados como consumidores(as) das mudanças e como agentes potenciais de resistência. Nos Parâmetros Curriculares para o Ensino Fundamental esse recurso de convencimento aparece no documento oficial, principalmente, no Documento Introdutório (1997). Primeiramente, são apresentados dados sobre a perfor- mance do sistema. Com base em dados estatísticos sobre taxa de promoção, repetência e evasão, são enfatizados os problemas das distorções idade/série e o baixo desempenho dos alunos, em relação às habilidades de leitura e de mate- mática. O documento procura, ainda, apresentar-se como um meio de superar as contradições dos currículos estaduais e municipais. Podemos destacar alguns progressos na parte que trata dos Princípios e fundamentos dos Parâmetros Curriculares Nacionais, no qual é afirmado o caráter inovador dos parâmetros por se fundamentar em recentes tendências no campo da educação. Vejamos. O exercício da cidadania exige o acesso de todos aos recursos culturais relevantes para a intervenção e a participação responsável na vida social: o domínio da língua falada e escrita; os princípios da reflexão matemática; as coordenadas espaciais e temporais que organizam a percepção do mundo; os princípios da explicação científica; as condições de fruição da arte e das mensa- gens estéticas; os domínios do saber tradicionalmente presentes nas diferentes concepções do papel da educação no mundo democrático, até outras tantas AULA 6 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 322 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS exigências que se impõem no mundo contemporâneo. Tais exigências apontam a relevância de discussões sobre a dignidade do ser humano, a igualdade de direitos, a recusa categórica de formas de discriminação e a importância da solidariedade e do respeito. Cabe ao campo educacional propiciar aos alunos as capacidades de vivenciar as diferentes formas de inserção sociopolítica e cultural. Hoje, mais do que nunca, apresenta-se para a escola a necessidade de se assumir como espaço social de construção dos significados éticos necessários e constituídos de toda e qualquer ação de cidadania (PCN, 1997). As deliberações tomadas pelo núcleo do sistema são reinterpretadas pelos fatores que se colocam nos diversos níveis intermediários, que no caso dos parâ- metros seriam representados pelos técnicos das secretarias estaduais e municipais de educação e de seus diversos órgãos regionais, chegando até as supervisoras ou coordenadoras pedagógicas das escolas, apesar de os parâmetros conside- rarem que elas não se apresentam como tábulas rasas, prontas para assimilar o que lhes é apresentado. Sendo elaborados de forma centralizada, os parâme- tros se confrontam com inovações singulares, gerando, muitas vezes, conflitos com as práticas em desenvolvimento nas escolas. Por um lado, os professores e professoras, mesmo quando concordam com suas propostas, buscam interpre- tá-las e adequá-las conforme o contexto institucional do local em que trabalham, o que faz em determinadas situações, adotarem formas diferenciadas entre si. Por outro lado, as inovações trazem indecisão e inquietação porque se propõem a romper com as práticas já cristalizadas. Portanto, é fundamental que os professores entendam os padrões e critérios que definem o discurso pedagógico, bem como os processos de transformações por meio dos quais os discursos ou os conhecimentos das várias áreas vão sendo reorganizados e transformados, até se tornarem conhecimento escolar. Assim, as propostas curriculares, como parte do processo de deslocamento de um discurso de uma área, se constituem no primeiro elo de uma cadeia de recontextualiza- ções sucessivas no processo de produção do conhecimento escolar, na qual interferem desde interesses editoriais até critérios pedagógicos. É importante destacar, também, que as experiências sociais são elementos definidores das práticas escolares e que uma proposta curricular, como os Parâmetros Curriculares Nacionais, será transformada de tal maneira no seu processo de implantação que pouca similaridade haverá entre suas propostas e o que é, de fato, feito nas escolas. O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB), elaborado nos anos 80 e respaldado posteriormente pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, estabelece como responsabilidade da União a avaliação do rendimento escolar em nível nacional. Para Franco e Bonamino (2001, p. 15), o objetivo do SAEB “é gerir e orga- nizar informações sobre a qualidade, a eqüidade e a eficiência da educação nacional”. No Ensino Fundamental, por meio de uma pesquisa por amostragem, AULA 6 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 323 o SAEB vem avaliando a performance escolar dos alunos e alunas matriculados na 4ª e 8ª séries das redes públicas e privadas. Popkewitz e Lindblad (2001), em um artigo sobre as estatísticas educacio- nais, demonstram que elas podem ser manipuladas, portanto podem ser boas ou ruins. Para os autores, o problema é que as estatísticas oferecem dados que são aceitos como espelhos da realidade. Para eles, na educação, a estatística tem função descritiva, mostrando número de alunos e alunas matriculados em cada nível e modalidade de ensino, taxas de repetência, índices de analfabetismo, etc. Eles afirmam que as estatísticas buscam expressar aspectos da população que precisam ser administrados, estabelecendo relações entre tipos de família, condi- ções econômicas, formação de profissionais e situação de fracasso escolar. Para os autores, o agrupamento das pessoas por meio de agregados estatís- ticos é uma forma de normalização. Os indivíduos são espalhados em grupos, a partir dos quais são monitorados e supervisionados. Dessa forma, “as estatís- ticas constroem classes de pessoas, inventários ou perfis de pessoas que podem ser geridas” (POPKEWITZ; LINDBLAD, 2001, p. 126). As estatísticas relacionam fracasso escolar com arranjos familiares, com poder econômico e com as possi- bilidades de acesso a bens culturais. E ainda, relacionam a educação com o número de alunos e alunas em sala, com a qualificação docente e com material disponível nas escolas. Para Bourdie (1998), as novas formas de inclusão propostas pelas reformas educacionais terminam por incluir excluindo. O autor aponta que a expansão do ensino e a permanência na escola de crianças e adolescentes que antes não tinham acesso à educação cria um novo fenômeno. A entrada dessa população na escola e a possibilidade de conquistarem umdiploma não oferece nenhum tipo de garantia de melhoria na sua qualidade de vida. O autor demonstra que na atual sociedade, em uma cultura exacerbada de consumo, sejam de bens materiais ou simbólicos, há uma intenção constante em se dar tudo a todos, “mas sob as espécies fictícias de aparência, do simulacro ou da imitação, como se fosse esse o único meio de reservar para uns a posse real e legítima desses bens exclusivos” (BOURDIE, 1998, p. 49). Então, podemos considerar que precisamos avaliar o sistema de ensino e construir políticas públicas para a educação, a partir das relações sociais com o conhecimento produzido historicamente e por quem vive o cotidiano escolar. 6.2 A formação dos educadores e educadoras e sua atuação no processo curricular Quando nos questionamos sobre a aquisição/construção dos saberes profis- sionais dos professores e das professoras, devemos ter em mente que tais saberes não se desenvolvem e solidificam no seu período de formação inicial, mas durante e, principalmente, no desempenho das suas atividades como docente. AULA 6 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 324 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS Ao desenvolver sua função, ao longo dos anos, o professor e a professora elaboram determinados saberes que só podem ser construídos a partir da própria experiência profissional. O constante trabalho com os conteúdos curriculares e disciplinares permitem aos professores e às professoras terem um conhecimento mais elaborado desses assuntos trabalhados. Um maior domínio tornam os profes- sores mais competente para lidar com os conhecimentos. Desse modo, eles estarão mais preocupado em procurar maneiras de incentivar seus alunos e alunas, inovar suas metodologias, propor novos questionamentos, relacionar conteúdos, ou seja, possibilitar um processo de ensino-aprendizagem mais eficaz. Geralmente, os professores e professoras iniciantes encontram maiores difi- culdades em relação aos saberes disciplinares e sua adequação, mas, com o tempo irão adquirir maior segurança para elaborar suas aulas, organizando os conteúdos em consonância com as reais demandas dos seus alunos e alunas. De acordo com Tardif (2005), no trabalho docente, professores e profes- soras incorporam diversos conhecimentos, como: saberes da formação profissional; saberes curriculares; saberes disciplinares; saberes experienciais. Para ele, esses saberes de ordem profissional são os transmitidos pelas insti- tuições de formação e se refletem na prática docente. Os saberes disciplinares têm especificidades, pois estão relacionados aos diversos “campos do conheci- mento, aos saberes de que dispõe a nossa sociedade, tais como se encontram nas universidades sob a forma de disciplinas, no interior de faculdades e de cursos distintos” (TARDIF, 2005, p. 38). Já os saberes curriculares dizem respeito aos discursos, objetivos, conteúdos e métodos, a partir dos quais a insti- tuição escolar categoriza e apresenta os saberes sociais definidos e selecionados por ela como modelo da cultura erudita e de formação para essa cultura, sob a forma de programas escolares que os professores devem aprender e aplicar (TARDIF, 2005, p. 38). O autor ainda observa que “o corpo docente não é responsável pela defi- nição nem pela seleção dos saberes que a escola e a universidade transmitem”. Isso ocorre porque esses [...] já se encontram consideravelmente determinados em sua forma e conteúdo, produtos oriundos da tradição cultural e dos grupos produtores de saberes sociais e incorporados à prática docente através das disciplinas, programas escolares, matérias e conteúdos a serem transmitidos (TARDIF, 2005, p. 40). Entretanto, à medida que os professores constroem os saberes da sua prática, vão incorporando os demais saberes em uma forma pessoal de ensino, validados pela experiência. AULA 6 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 325 Segundo Tardif (2005, p. 19), os conhecimentos da experiência são resultantes da experiência do professor e da professora e se incluem ao conjunto de saberes acumulados e adquiridos na prática do trabalho docente, servindo de referencial para sua orientação profissional. Eles e elas estão “[...] na confluência entre várias fontes de saberes provenientes da história de vida individual, da sociedade, da insti- tuição escolar, dos outros fatores educativos, das universidades, etc.” Os saberes de professores e professoras abordados por Tardif, são retomados por Gauthier (1998) ao oferecer um resumo de suas análises que apontam um elenco de conteúdos próprios para o ensino. O autor acredita que é indispensável um conhecimento teórico sobre o ensino e que uma parte desse conhecimento deve ser extraída da prática na sala de aula e comprovada pela pesquisa. Podemos entender, então, que a pesquisa tem a intenção de identificar os saberes utilizados pelos professores e professoras no seu trabalho pedagógico, permitindo a criação de um elenco de conhecimentos acerca da atividade docente, capaz de colaborar para a formação inicial e continuada de outros profissionais. Gauthier (1998, p. 29) concebe o ensino como a “mobilização de vários saberes que formam uma espécie de reservatório, no qual o professor se abastece para responder às exigências específicas de sua situação concreta de ensino”. O autor entende esse reservatório como: os saberes disciplinares; os saberes curricu- lares; os saberes da ciência da educação; os saberes da tradição pedagógica; os saberes experienciais e os saberes da ação pedagógica. Tardif (2005, p. 255) denomina esse modo de abordar a formação de profes- sores e professoras que privilegia os conhecimentos originários da experiência como “epistemologia da prática”, a qual ele especifica como “estudo do conjunto de saberes utilizados realmente pelos profissionais em seu espaço de trabalho coti- diano para desempenhar todas as suas tarefas”. Aqui, podemos nos reportar a outro autor que coloca a questão de forma similar quando afirma que a formação de professores não se constrói por acumulação (de cursos, de conhecimentos ou de técnicas), mas, sim, através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas de re(construção) permanente de uma identidade pessoal. Por isso é tão importante investir na pessoa e dar um estatuto ao saber da experiência (NÓVOA, 1997, p. 25). Com a intenção de concluir o pensamento dos autores quanto à educação desses profissionais, seria indispensável que tanto a formação inicial como a conti- nuada apresentassem, como prioridade, o desenvolvimento de uma atitude refle- xiva. Tomando como possibilidade essa perspectiva, os professores e as professoras teriam construído a capacidade de conduzir seu próprio desenvolvimento profis- sional, buscando “[...] competências e saberes novos ou mais profundos a partir de suas aquisições e de sua experiência” (PERRENOUD, 2002, p. 24). Para Gauthier (1998), de outro modo, os professores e professoras que são avaliados como eficientes, cuidam de forma particular do planejamento das atividades, AULA 6 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 326 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS buscando “atender às necessidades imediatas dos alunos” para chegar aos objetivos propostos. Conseqüentemente, esses profissionais procuram “alcançar outros fins e objetivos que não aqueles relativos aos resultados escolares”, o que poderia envolver o amparo de todas as diferenças entre alunos(as), em classe, que têm chegado na escola nos últimos anos, proporcionando-lhes um aprendizado efetivo e significativo. Nesse sentido, para esse autor, os professores e as professoras considerados eficientes, “conhecem a matéria de um modo que lhes permite planejar a criação de aulas que ajudarão os alunos a relacionar os conhecimentos novos com os que já possuem e que integram conteúdos de diferentes campos do conhecimento” (GAUTHIER, 1998, p. 202). Para tanto, realça que as atividades da aula devem ser preparadas com ante- cedência e escrita nítida, a fim de quepossam ser entendidas pelos alunos e alunas de forma mais clara, aplicando estratégias que possam provocá-los, de forma positiva, por meio das motivações chamadas pelo autor de “intrínsecas”. Gauthier (1998, p. 204) aponta dez meios pelos quais podemos estimular nossos alunos e alunas de maneira positiva, visando a um desempenho aceitável: adaptar a tarefa aos interesse dos alunos; incluir um pouco de variedade e de novidade; permitir que os alunos escolham ou tomem decisões de modo autônomo; fornecer aos alunos ocasiões para responder ativamente; proporcionar retroação imediata às respostas dos alunos; permitir que os alunos criem um produto acabado; incluir um pouco de fantasia e elementos de estimulação; incorporar às aulas situações lúdicas; prever objetivos de alto nível e questões divergentes; fornecer aos alunos ocasiões para interagir com outros. Para Gauthier (1998, p. 208), os profissionais eficientes, são aqueles que procuram fazer com que seus alunos se envolvam de forma ativa para recorrer a um conjunto de atividades de aprendizagem, tais como círculos de leitura, o trabalho individual, a aula expositiva sozinha ou com suporte audiovisual, a leitura silenciosa, o jogo, a conversa informal, etc. Outra questão colocada pelo autor faz referência à nitidez na exposição do conteúdo por parte de professores e professoras. Quando eles e elas “dão instruções claras, explícitas, redundantes e compreendidas por todos os alunos, eles se aplicam mais às suas tarefas durante o trabalho individual”. Por isso, o professor ou profes- sora deve apresentar um conteúdo claramente definido, o que implica “enfatizar os aspectos importantes do conteúdo, utilizar exemplos para explicar e avaliar a compre- ensão paulatinamente” (GAUTHIER, 1998, p. 216). Entretanto, o que se observa na prática é que os professores e professoras, em particular os mais novos na profissão, AULA 6 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 327 não conseguem trabalhar os conteúdos de maneira adequada, enfatizando os seus elementos mais importantes, pois ainda não dominam as capacidades indispensáveis à gestão da turma e não possuem a desenvoltura necessária para trabalhar com os conhecimentos empregados em sala de aula. É fundamental que o professor ou a professora mantenha uma certa familiaridade com os conhecimentos pedagógicos de sua disciplina, evidenciando mais eficiência em utilizar-se de perguntas com vistas a motivar os alunos e alunas, com a intenção de manter a sua atenção e, também, verificar se compreenderam as explicações. Outro fator que colabora para o professor saber se o método pedagógico utili- zado na explicação dos conteúdos está sendo positivo é a avaliação da fase de gestão da matéria. Para tanto, Gauthier (1998, p. 234) aponta que “as avaliações curtas e rápidas são superiores aos exames finais”. Nesse momento, os professores podem refletir a fim de perceber se a forma como trabalham o conteúdo em sala de aula está alcançando os resultados esperados. Embora que faça parte de um ambiente coletivo e que tenha possibilidade de refletir coletivamente sobre sua prática, compreende-se pelo exposto que, para atingir a eficiência profissional assinalada por Gauthier, o professor ou a profes- sora precisa estar em um processo contínuo de reflexão sobre sua própria prática pedagógica. Esse processo colabora para que o professor ou a professora compre- enda melhor seu trabalho, entendendo os resultados de suas decisões e ações em sala de aula, visando a aperfeiçoar o processo de ensino e aprendizagem, bem como seu desenvolvimento profissional. Quando nos reportamos à eficiência do professor e da professora em classe, ainda precisamos considerar qual é o conhecimento que o profissional tem do conteúdo pedagógico, ou seja, deve haver uma combinação entre o conhecimento da disciplina e a maneira de ensiná-la. Estamos falando do conhecimento que abarcar o entendimento sobre o que significa lecionar um tema particular, bem como o conhe- cimento sobre as metodologias necessárias para refazê-lo, quer dizer, a maneira de conceber e ordenar o conteúdo para torná-lo acessível para alunos e alunas. No andamento das aulas, os professores e as professoras observam de forma continuada, como componente do ensino, o entendimento ou não de seus alunos, avaliando também seu próprio desempenho por meio do processo de aprendizagem. Essa reflexão se faz a partir da experiência, analisando o processo de ensino e a aprendizagem que aconteceu e a partir desse entendimento, refaz a caminhada. Cada profissional concebe os conteúdos de ensino de uma maneira pessoal, implicando a forma como são escolhidos, configurados didaticamente e proble- matizados em sala de aula. Com o intuito de aperfeiçoar sua atuação em sala de aula, o professor ou a professora precisa considerar tanto o domínio do conteúdo quanto a reflexão epistemológica. Nesse sentido, torna-se indispensável que o AULA 6 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 328 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS Saiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba maisSaiba mais Nessa aula, aprendemos que a aquisição/construção dos saberes dos profes- sores e das professoras não se desenvolvem nem se solidificam no seu período de formação inicial, mas durante e, principalmente, no desempenho das suas atividades como docentes. Ainda que faça parte de um ambiente coletivo e que tenha possibili- dade de refletir coletivamente sobre sua prática, compreende-se pelo texto que, para atingir a eficiência profissional assinalada, o professor ou a professora precisa estar em um processo contínuo de reflexão sobre sua própria prática pedagógica. professor ou a professora tenha um profundo conhecimento dos conteúdos que ministra, bem como dos métodos capazes de favorecer uma melhor compre- ensão por parte dos alunos. Fonte: adaptado de Carvalho e Grigoli (2006). AULA 6 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 329 1. No texto, usamos os exemplos de Gauthier para apontar os meios pelos quais podemos estimular nossos alunos e alunas de maneira positiva, visando a melhora de seu desempenho. A partir do apontamentos de Gauthier, faça suas considerações e converse com seus colegas. Discuta quais meios você utilizaria para estimular a aprendizagem dos seus alunos. 2. Vamos refletir sobre o que estudamos nessa aula segundo os PCN (1997): O exercício da cidadania exige o acesso de todos aos recursos culturais relevantes para a intervenção e participação responsável na vida social: o domínio da língua falada e escrita; os princípios da reflexão matemática; as coordenadas espaciais e temporais que organizam a percepção do mundo; os princípios da explicação científica; as condições de fruição da arte e das mensagens estéticas; os domínios do saber tradicionalmente presentes nas diferentes concepções do papel da educação no mundo democrático e até outras tantas exigências que se impõem no mundo contemporâneo. Essas exigências apontam a relevância de discussões sobre a dignidade do ser humano, a igualdade de direitos, a recusa categórica de formas de discri- minação e a importância da solidariedade e do respeito. Cabe ao campo educacional propiciar aos alunos as capacidades de vivenciar as diferentes formas de inserção sociopolítica e cultural. Hoje, mais do que nunca, apre- senta-se para a escola a necessidade de se assumir como espaço social de construção dos significados éticos necessários e constitutivos de toda e qualquer ação de cidadania. Escreva um pequeno texto manifestando a sua opinião sobre a função social da escola em um processo de democratização da sociedade brasileira. 3. Para Bourdie (1998) as novas formas de inclusão propostas pelas reformas educacionais terminam por incluir excluindo. O autor aponta que a expansão do ensino e a permanência na escola de crianças e adolescentes que antes não tinham acesso à educação criam um novo fenômeno. A entrada dessapopulação na escola e a possibilidade de conquistarem um diploma não oferece nenhum tipo de garantia de melhoria na sua qualidade de vida. Você concorda com essa afirmação? Discuta essas idéias e faça uma síntese. Reafirmamos a importância do professor e da professora analisarem o ensino e a aprendizagem que ocorre em sala de aula e, a partir de então, reconstruir os eventos, as emoções e as práticas. AULA 6 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS 330 3º PERÍODO • PEDAGOGIA • FAEL/UNITINS APPLE, M. A Política do conhecimento oficial: faz sentido a idéia de um currículo nacional? In: MOREIRA, A. F. B.; SILVA, T. T. Currículo, cultura e sociedade. São Paulo: Cortez, 1994. BERNSTEIN, B. A estruturação do discurso pedagógico: classe, códigos e controle. Petrópolis: Vozes, 1996. BOURDIEU, P. Os excluídos do interior. In: NOGUEIRA, M. A.; CATANI, A. (Org.). Escritos de educação. Petrópolis: Vozes, 1998. CARVALHO, Célia Regina de; GRIGOLI, Josefa A. G. A Prática Pedagógica dos Professores das Séries Iniciais do Ensino Fundamental: uma Reflexão Sobre a Construção dos Saberes Necessários para o Exercício da Docência. 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Lutando em defesa da alma: a política do ensino e a construção do professor. Porto Alegre: Artes Médicas, 2001. ______; LINDBLAD, S. Estatísticas educacionais como um sistema de razão: relações entre governo da educação e inclusão e exclusão sociais. Educação & Sociedade, Campinas, v. 22, n. 75, p. 111-148, ago. 2001. PERRENOUD, P. A prática reflexiva no ofício de professor: profissionalização e razão pedagógica. Porto Alegre: Artmed, 2002. TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. 5. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2005. Na próxima aula, estudaremos o planejamento, a avaliação e a abordagem de conteúdos do currículo no Ensino Fundamental. Faremos também uma explanação sobre a extensão do Ensino Fundamental no contexto nacional. AULA 7 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS FAEL/UNITINS • PEDAGOGIA • 3º PERÍODO 331 Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: compreender a importância dos projetos de trabalho na abordagem dos conteúdos curriculares; compreender a importância do planejamento no cotidiano escolar; compreender que a avaliação é um processo de tomada de decisão que só tem sentido se estiver a serviço da aprendizagem dos educandos. Para o melhor acompanhamento dessa aula você deve retomar os conteúdos da aula cinco, que também tratam de planejamento e avaliação na educação. Nessa aula, veremos que o processo de ensino-aprendizagem ocorre em situa- ções concretas, internas e externas à escola. A aprendizagem não ocorre apenas na sala de aula, mas nela a metodologia de ensino-aprendizagem precisa ser intencional, ter finalidades, objetivos e atividades que possibilitem a construção/ desconstrução do conhecimento e da busca de novas formas de utilizá-lo. 7.1 Abordagem pedagógica dos conteúdos nos anos iniciais do Ensino Fundamental O grande número de propostas curriculares que norteiam o trabalho peda- gógico dos professores e das professoras de educação básica tem nos conte- údos acadêmicos tradicionais sua fonte central de organização dos conheci- mentos disciplinares. Já nos primeiros anos do Ensino Fundamental as crianças têm aulas de Matemática, Ciências, História, Artes e assim por diante. Ainda que todas essas AULA 7 • CURRÍCULOS E PROGRAMAS Planejamento e avaliação do currículo no Ensino Fundamental