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6º Seminário Ibero-Americano Arquitetura e Documentação 
Belo Horizonte/MG de 20 a 22 de novembro de 2019. 
 
 
EIXO TEMÁTICO 3 – A VIA CRÍTICA DO PATRIMÔNIO: 
TRAJETÓRIAS E PERSPECTIVA 
O PROJETO DE RESTAURO COMO FERRAMENTA DE RESGATE 
DA IDENTIDADE: 
Complexo Industrial Matarazzo em Antonina-PR 
DE CASTRO BURGOS, CAROLINA. (1); HELEN COT MARCOS, MICHELINE. (2)) 
 
 
1.Centro Universitário Curitiba – UNICURITIBA. Arquitetura e Urbanismo. 
Rua dos Palotinos, 116 ap 42 – Cristo Rei, Curitiba, Brasil. CEP: 80050-400 
caarol.burgos@hotmail.com 
2.Centro Universitário Curitiba – UNICURITIBA. Arquitetura e Urbanismo. 
Rua Chile, 1.678 - Rebouças - CEP 80220-181 
micheline.helen@gmail.com 
 
RESUMO 
A presente pesquisa visa apresentar uma proposta de restauro para o Complexo das Indústrias 
Matarazzo na cidade de Antonina, litoral do Paraná. As diversas mudanças tecnológicas provocadas 
pelo dinamismo da globalização, acabam gerando a desindustrialização de determinados setores e 
consequentemente, a sua desvalorização. Tal processo implica no abandono, deterioração e/ou 
demolição dessas edificações que possuem grande valor arquitetônico, pois sua grande maioria 
representa elementos da memória, identidade da construção e desenvolvimento das cidades. As 
edificações pertencentes a este complexo, caracterizadas como Patrimônio Industrial, foram 
reconhecidas como parte integrante do Patrimônio Cultural da cidade, tendo seu processo de 
tombamento concluído pelo Iphan em 2012. Há 40 anos em estado de abandono e depreciação, faz-
se necessário considerar que o Complexo Matarazzo é um dos poucos remanescentes da Arquitetura 
Industrial no Brasil, sendo de extrema importância a sua preservação, pois o impacto gerado por essa 
iniciativa possui desdobramentos positivos nos âmbitos social, cultural, educacional, econômico e 
ambiental. O projeto de Restauro apresentado nesta pesquisa, tem como intuito reconstituir esse 
antigo polo industrial, o qual possui suma importância para a historiografia comunitária, 
reincorporando-o no panorama atual da sociedade, suprindo as necessidades e demandas 
tecnológicas do local onde se encontra. Além disso, inseri-lo como parte do roteiro turístico-cultural da 
região. Para o desenvolvimento da pesquisa foram utilizados embasamentos bibliográficos, assim 
como análises de três estudos de caso, sendo um regional, outro nacional e por último um 
internacional, de forma a facilitar a compreensão da tipologia de projeto, e dessa maneira construir 
boas diretrizes projetuais para o local. A partir dos estudos e análises realizados neste trabalho, foi 
possível constatar a viabilidade da restauração das edificações do Complexo das Indústrias 
Matarazzo, implantando-se novas atividades, sendo proposta a restauração das edificações e a 
implementação de um museu das indústrias e do trabalho neste espaço, contribuindo para a 
conservação e preservação deste patrimônio, assim como para o desenvolvimento turístico, social, 
cultural e econômico da região. 
mailto:caarol.burgos@hotmail.com
 
 
 
 
Palavras-Chave: Patrimônio Industrial e Preservação; Restauro; Memória e Identidade; Indústrias 
Matarazzo. 
 
 
 
 
 
1.INTRODUÇÃO 
As aceleradas mudanças tecnológicas, promovem a desvalorização de determinados 
setores industriais e a desindustrialização em algumas regiões do país, provocando o 
fechamento de fábricas e manufaturas que um dia estiveram em plena potência. Esse 
processo implica no abandono e deterioração, ou até mesmo demolição dessas edificações 
que possuem grande valor arquitetônico, pois representam as diversas fases do 
desenvolvimento industrial brasileiro, assim como as relações histórico-culturais com a 
sociedade circundante. 
Constatada sua interferência nos processos antrópicos, a Arquitetura Industrial vem 
sendo reconhecida recentemente como área de interesse para estudos científicos, tratando 
a respeito da preservação da Arquitetura e da Arqueologia Industrial, com o intuito de 
compreender o tema como elemento precursor da Urbanização Brasileira. Nesse contexto 
percebe-se a necessidade de discutir a preservação do Patrimônio Industrial Brasileiro, visto 
que o mesmo é identificado como elemento de memória e identidade da construção das 
cidades como as conhecemos atualmente. O impacto educacional e cultural dessas 
iniciativas, tem se mostrado bastante promissor, promovendo desdobramentos positivos nos 
campos econômico, social e ambiental. 
Segundo a Carta de Nizhny, o Patrimônio Industrial abrange os vestígios da cultura 
industrial que possuem valor histórico, tecnológico, social, arquitetônico ou científico. 
Estes vestígios englobam edifícios e maquinaria, oficinas, fábricas,minas e 
locais de processamento e de refinação, entrepostos e armazéns, centros 
de produção, transmissão e utilização de energia, meios de transporte e 
todas as suas infra-estruturas, assim como os locais em que se 
desenvolveram atividades sociais relacionadas com a indústria, tais como 
habitações, locais de culto ou de educação. (Carta de Nizhny Tagil, TICCIH, 
2003). 
O objetivo principal dessa pesquisa é desenvolver um projeto arquitetônico de 
restauro para o Complexo Industrial Matarazzo, localizado na cidade de Antonina, no estado 
do Paraná, que há mais de 40 anos se encontra em estado de depreciação. Com o intuito 
de retomar a sua função e implementar nesse antigo polo um museu das indústrias e do 
trabalho, reincorporando-o no atual panorama cultural da sociedade, suas necessidades e 
demandas tecnológicas, assim como do local onde se encontra. 
 Por possuir grande potencial histórico, o tema evidencia sua relevância arquitetônica 
como elemento do Patrimônio, além de servir como ferramenta de construção da memória e 
identidade, assim como de desenvolvimento das cidades. A criação do Comitê Brasileiro 
para Preservação do Patrimônio Industrial reafirma o fato de que se faz necessário refletir 
 
 
 
 
sobre a preservação da tipologia industrial, vista a presença de inúmeros exemplares do 
Patrimônio Industrial em todas as regiões brasileiras, e que se encontram em crescente 
degradação e abandono. O Patrimônio Industrial é parte constituinte da vida da população, 
o que lhe confere valor identitário e através de seus estudos faz-se possível compreender o 
tipo de industrialização e tecnologia de uma época, assim como o modo de vida da classe 
trabalhadora correspondente (SILVA, 2006). A partir do século XX, os estudos sobre o tema 
ganham maior relevância, impulsionados pela Segunda Guerra Mundial e seu caráter 
destrutivo. Ocorre então uma valorização das características histórico-culturais das 
unidades produtivas, argumentando-se que suas estruturas não só eram parte integrante do 
Patrimônio Cultural como também deveria ser o centro de estudo de uma nova ciência que 
seria chamada de Arqueologia Industrial (MESQUITA; TEIXEIRA, 2009). 
 Portanto, essa pesquisa pretende analisar o complexo das Indústrias Matarazzo, que 
teve seu processo de tombamento como Patrimônio Cultural Edificado estabelecido no ano 
de 2012, sendo classificado como um importante exemplar arquitetônico na paisagem 
urbana da cidade de Antonina, a qual teve também seu centro histórico como foco da 
preservação pelos órgãos competentes. Tornar possível o resgate arquitetônico de um 
empreendimento, que ao longo dos anos tem feito parte da história e da memória da 
sociedade e proporcionar um novo desenvolvimento para a região, gerando assim, 
crescimento econômico, geração de empregos, e também trazendo reflexões e debates a 
respeito da educação patrimonial e sua importância para a preservação da identidade 
coletiva. 
 Segundo Rodrigues da Silva (2014), a memória individual e coletiva é construída a 
partir de elementos pessoais ou sociais com os quais é possível identificar uma relação 
única e personalizada. Dessa maneira, as relações sociais que são estabelecidas entre 
grupose elementos sociais comunitários apresentam características específicas que, muitas 
vezes, tem sua consolidação por vínculos afetivos ou profissionais, de articulação entre a 
cultura e a memória, a história e a sociedade. A iniciativa de se realizar o projeto de restauro 
do complexo Matarazzo poderá trazer benefícios não só sociais e econômicos para a 
região, mas também ambientais, pois possibilita poupar grande parte dos recursos e 
resíduos que seriam gerados para a demolição e execução de uma nova construção no 
local, assim como possíveis impactos que seriam causados no microclima da região. Além 
disso, fomentar discussões a respeito desse tema, suas possibilidades, e suas 
potencialidades resultará em uma visibilidade cada vez maior quanto a conservação e 
preservação do Patrimônio Cultural Urbano. 
 
 
 
 
Dessa maneira, esse estudo busca compreender como o projeto de restauro desse 
antigo polo industrial, pode contribuir para o desenvolvimento social e econômico de uma 
região, através da sua readequação conforme as necessidades desse local. Sendo assim, 
esta pesquisa tem como objetivo geral viabilizar o projeto de restauro de tal edificação, 
retomando as características e funções originais, readequando-a às necessidades atuais do 
mundo contemporâneo e da região. Os objetivos específicos a serem atingidos são os 
seguintes: 
Apresentar conceitos e fundamentações de autores que tratam sobre assuntos como 
Patrimônio e Arquitetura, Arqueologia Industrial, Memória e Sociedade, Patrimônio e 
Identidade, entre outros; Discutir a respeito da relevância e da contribuição da Arquitetura 
Industrial para com a sociedade, os impactos provocados em seu entorno e na estrutura 
urbana como um todo; Reiterar o potencial da Arquitetura Industrial como elemento 
pertencente ao Patrimônio Cultural; Analisar o contexto e histórico das Edificações do 
Complexo das Indústrias Matarazzo em Antonina; Realizar levantamentos fotográficos e 
arquitetônicos, assim como diagnóstico do estado de conservação da Edificação; 
Compreender as técnicas e teorias da Restauração; Realizar análises de três Estudos de 
Caso da tipologia Industrial; Apresentar as possíveis vantagens que a implementação deste 
projeto de restauro possui. 
 Para o desenvolvimento desta pesquisa serão utilizados embasamentos teóricos de 
autores que discutem conceitos de Patrimônio Industrial e Industrialização Brasileira como 
Nizhny Tagil, Esterezilda Berenstein de Azevedo, Henrique Telles Vichnewski; Restauro, 
Preservação e Patrimônio, onde podemos destacar Françoise Choay, Cesare Brandi, 
Claudio Boitto, John Ruskin e Leonardo Barci Castriota; assim como reflexões a respeito de 
Memória e Identidade na Arquitetura tendo como base Maurice Halbwachs, Manuel Castells 
e Mário Chagas e Regina Abreu. 
2.CONCEITOS DE ARQUITETURA INDUSTRIAL 
O conceito de Arquitetura Industrial é compreendido pela produção arquitetônica 
decorrente do processo de industrialização. As características comuns da tipologia 
industrial, geralmente seguem um certo padrão que pode ser observado pela vedação em 
tijolos cerâmicos, estrutura de concreto, cobertura de telhas de barro possuindo inclinação 
de quatro ou duas águas dotadas de lanternins (conforme Figura 1), assim como seus 
volumes compactos, racionalistas e uniformes, e também pela disposição regular de seus 
blocos independentes, sendo na maioria de planta retangular, estabelecendo uma certa 
 
 
 
 
hierarquia entre edifícios e espaços abertos (adotando-se geralmente o eixo longitudinal 
como principal e os transversais como secundários). 
Figura 1 – Desenho Esquemático de Cobertura com Lanternim 
 
 
Fonte: Acervo do PROJETEEE, desenvolvido pelo Laboratório de Eficiência Energética em 
Edificações. UFSC. 
Fez-se possível constatar que as fábricas tiveram seu desenvolvimento como parte 
dos fenômenos da industrialização e da sua subsequente mecanização. Com a sua 
propagação, foram percebidas mudanças significativas nos modos de construir. Foi 
necessário explorar os recursos e tecnologias mais apropriados para essas novas 
necessidades. Não apenas o maquinário pertencente a essas sofreu modificações, como 
também a construção assumiu cada vez mais um viés mais pragmático e dessa maneira 
pôde se expressar como condição de artefato mais técnico e de acordo com as novas 
tecnologias vinculadas à Revolução Industrial (CALDAS;MOREIRA,2012) 
Essa tipologia de se trabalhar com apenas o estritamente necessário, influenciou 
concepções arquitetônicas de grandes arquitetos subsequentes, como Walter Gropius e Le 
Corbusier, que buscavam suas inspirações e enalteciam os edifícios fabris norte-americanos 
e demonstravam grande entusiasmo pela Era da Máquina. 
2.1 PATRIMÔNIO INDUSTRIAL E PRESERVAÇÃO 
As primeiras conceituações a respeito de Arqueologia Industrial1 datam dos anos 50 
do séc XX com a publicação de um artigo do pesquisador britânico Michel Rix, na revista 
The Amateur Historian em 1955, onde o autor apontava a condição geral de abandono dos 
bens industriais e destaca a necessidade de se lutar pela preservação de remanescentes 
físicos e documentação geral referente à história industrial da Inglaterra. 
 
1 Arqueologia Industrial: Disciplina criada para estudo e compreensão dos assuntos relacionados ao Patrimônio 
Industrial. Fonte: Dicionário Houaiss 
 
 
 
 
Para compreensão do Patrimônio Industrial como elemento pertencente ao 
Patrimônio Cultural é preciso compreender o seu significado, que é descrito pelo IPHAN da 
seguinte forma: 
Enquanto o Decreto de 1937 estabelece como patrimônio “o conjunto de 
bens móveis e imóveis existentes no País e cuja conservação seja de 
interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história 
do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, 
bibliográfico ou artístico”, o Artigo 216 da Constituição conceitua patrimônio 
cultural como sendo os bens “de natureza material e imaterial, tomados 
individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à 
ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade 
brasileira” (IPHAN,2017). 
Segundo Azevedo (2010), o Patrimônio Industrial possui valor marcante para a 
formação dos grandes centros urbanos, visto isso, faz parte do cotidiano, da memória e 
funciona como elemento de identidade de determinados grupos sociais, como ocorreu 
durante o período de ápice da industrialização no Brasil, conhecida como Revolução 
Industrial Brasileira, no período de 1930 a 1956 durante o governo de Getúlio Vargas. Dessa 
forma, pode-se entender o Patrimônio Industrial como um processo, como define Cristina 
Meneghello, ‘’É esse Patrimônio entendido como processo e como encontro e confronto 
entre homem, máquina e técnica, o que torna o Patrimônio Industrial tão peculiar’’. 
No período entre 1960 e 1980 houve grandes mudanças no meio urbano, diversos 
setores passaram por intensas transformações, surgindo também, novas demandas 
econômicas e sociais. Devido a isso, grande parte da infraestrutura criada para o 
desenvolvimento industrial se torna obsoleta diante de novos padrões e tecnologias. ‘’Aos 
primeiros sinais de substituição e desaparecimento dessas antigas estruturas [...] já havia 
uma preocupação com a necessidade e importância da preservação desse patrimônio’’ [...] 
(SCHICCHI, Maria Cristina) 
A importância da preservação da essência de edificações industriais está 
diretamente ligada a necessidade de compreender que a industrialização faz parte da 
construção e constante transformação do meio urbano como um todo. Pode –se 
compreender a sua interferência a partir do que o autor Jorge Custódio trata em sua 
publicação na Revista Património: “O significado da transformação ocorrida com a revolução 
industrial britânica e com sucessivas fases da industrialização é fundamental para a 
compreensão do mundo contemporâneo” (CUSTÓDIO,2015, p. 88). Dessa maneira, é 
possível notar que o ato de preservar acaba por auxiliar a entender a sociedade em que 
vivemos, podendo-se então implantar de forma progressiva diferentes formas de inserir a 
Educação Patrimonial, visto que desse modo haverão cada vez mais agentes difusores 
presentes no cotidiano de todos os indivíduos. 
 
 
 
 
O agente difusor do ambiente histórico é peça fundamental, pois é o 
indivíduo que atua frente à comunidade, produzindo efeitos positivos que 
podem se estender em diversas direções. Esse agente faz parte do 
ambiente físico e social em que a população está imersa e torna possível a 
instrumentalização adequada do quadro cronológico dos fatos e dados 
relativos e pertencentes à história. A educação Patrimonial é cada vez mais 
necessária para inserir o passo de maneira a contribuir para o futuro 
(BARROS; BARROS; MARDEN, 2013, p.5). 
 Através do processo de tombamento é possível determinar diretrizes para a 
preservação de determinados bens, sejam eles móveis ou imóveis, materiais ou imateriais, 
como no caso da cidade de Antonina, que passou por análises de suas edificações e 
manifestações culturais que possuem grande relevância e potencial histórico-cultural para a 
sociedade, determinando-os como patrimônio da cidade. Um dos locais que foi inserido 
nesse processo, foi o Complexo das Indústrias Reunidas Matarazzo, principal objeto de 
estudo desta pesquisa. 
2.2 TEORIA DA RESTAURAÇÃO 
Define-se como restauração qualquer intervenção que seja voltada a dar novamente 
eficiência a um produto da atividade humana (BRANDI, 2004, p.25). De tal maneira, está 
baseada no respeito pela autenticidade material da obra, visando “conservar e revelar os 
valores estéticos e históricos do monumento e fundamenta-se no respeito pelo material 
original e aos documentos autênticos” (Carta de Veneza, 1964). A partir de uma visão mais 
contemporânea, o restauro visa revelar a condição atual da matéria original, diminuindo 
assim, seu ritmo de degradação, visando sua manutenção e permanência para a fruição das 
gerações futuras (CUNHA, 2010, p. 33). 
As Cartas Patrimoniais, como a Carta de Atenas e a de Veneza trouxeram 
discussões sobre o patrimônio, prevendo diretrizes para a preservação de bens móveis e 
imóveis. Com a difusão destes documentos, muitos outros exemplares semelhantes 
surgiram posteriormente, no entanto, é preciso pensar de maneira a contextualizar estes 
documentos para a realidade, sociedade e necessidades atuais. Devem ser respeitadas as 
leis e diretrizes vigentes de maneira a evitar a criação de falsos históricos, o que acabaria 
anulando a intenção inicial de sua preservação. Vários autores discutem as premissas que 
determinam a Teoria da Restauração e suas ramificações, porém é a partir disso que podem 
se determinar ferramentas que auxiliem no resgate da memória, identidade e história, não 
só de elementos arquitetônicos e materiais, como também do que se considera Patrimônio 
Imaterial. 
2.3 O RESTAURO COMO FERRAMENTA DE RESGATE DA MEMÓRIA E 
IDENTIDADE 
 
 
 
 
Segundo John Ruskin em sua publicação denominada A Lâmpada da Memória, é 
preciso tornar a arquitetura atual, histórica e preservá-la como a mais preciosa herança das 
épocas passadas, portanto, o autor afirma que é possível considerar a Memória como a 
Sexta Lâmpada da Arquitetura, pois a partir do momento em que as edificações se tornam 
memoriais ou monumentais é que atingem uma perfeição verdadeira (RUSKIN, 1849). 
Por muito tempo se adotou a postura de lidar livremente com os artefatos 
arquitetônicos do passado, no sentido de adaptá-los às exigências do presente, sem que 
fossem impostos quaisquer tipos de limitações às alterações ou mesmo demolições. Essa 
conduta, no entanto, começa a sofrer mudanças no momento em que se estabelecem 
separações entre passado e presente, e por consequência, nos legados do passado, que 
passam então a ser objeto, não apenas de estudo sistemático, mas, também, de interesse 
de conservação. 
A arquitetura está diretamente ligada aos processos que interligam a memória 
histórico-cultural, de maneira que a transmitem através de sua matéria, teorias, ideologias e 
características de sua época, seus criadores, entre outros. Por meio de um fragmento 
escrito por Ruskin, é possível notar essa interação entre memória e arquitetura, ‘’[...] está 
próximo o dia em que nós admitiremos ter aprendido mais sobre a Grécia através de 
fragmentos esfacelados de suas esculturas do que de seus doces trovadores ou 
historiadores soldados.’’ (RUSKIN,1849). 
Quando se estabelecem reflexões a respeito do papel da memória dentro dos 
debates sobre Arquitetura, é possível refletir não apenas na memória que está presente na 
materialidade dos edifícios e dos tecidos urbanos, mas também a memória como 
instrumento ativo no interior dos processos mentais adotados pelos autores dos projetos 
(DE ALMEIDA, 2015). 
 É possível exemplificar a influência da arquitetura para com a memória, de acordo com 
relato de Lina Bo Bardi durante a fase inicial de funcionamento do Sesc Pompéia em 1977: 
[...] as construções, aliadas à ambientação, estavam arraigadas na memória 
das pessoas que, familiarizadas, estabeleciam vínculos afetivos com aquela 
estrutura existente. As instalações fabris revelam sua força expressiva 
associada à sobriedade e solidez dos primeiros exemplares industriais [...] 
 Pode-se determinar que o Restauro atua como ferramenta de resgate da memória e 
da identidade de um determinado patrimônio, sua época e sua sociedade, pois é através 
dele que é consolidada a preservação do Patrimônio Cultural, preservando-se por 
 
 
 
 
consequência o que se pode nomear como identidade cultural, que está intrinsecamente 
ligada a memória, como afirma Reinaldo Soares dos Santos em uma de suas publicações: 
A definição da própria identidade cultural implica em distinguir os princípios, 
os valores e os traços que a marcam, não apenas em relação a si própria, 
mas frente a outras culturas, povos ou comunidades. Memória e identidade 
estão interligados [...] A memória não pode ser entendida como apenas um 
ato de busca de informações do passado, tendo em vista a reconstituição 
deste passado. Ela deve ser entendida como um processo dinâmico da 
própria rememorização, o que estará ligado à questão de identidade 
(SANTOS, 2004, p. 60). 
Portanto, a partir destas questões, observa-se que a memória industrial torna-se 
também um fator determinante para a compreensão da memória cultural, na qual estão 
coexistindo os fatores materiais (empresas), imateriais (memória dos trabalhadores e da 
sociedade), tangíveis (maquinários e tecnologia) e intangíveis (o modo se fazer e a 
competência adquirida pela experiência) (SILVA, 2009). 
3.RESULTADOS E ANÁLISES 
3.1 PROPOSTA DE RESTAURO PARA O COMPLEXO DAS INDÚSTRIAS MATARAZZO 
DE ANTONINA. 
A proposta deste projeto está pautada no objetivo do Restauro de um Patrimônio 
Industrial de uma cidade histórica, portanto, além da retomada do caráter industrial pra 
edificação após seu restauro, é necessário debater em conjunto com a comunidade e o 
comércio da região, para que seja implantada uma tipologia de indústria, que favoreça as 
potencialidades que o local e seus moradores podem agregar para o complexo industrial. É 
imprescindível também, que essa função escolhida, possua alguma ligação com o turismo, 
de maneira a integrar a região do complexo à rota turística e cultural da cidade de Antonina. 
Para isso, serão analisados levantamentos colhidos por um profissional da região e 
investigações in loco, para que seja feita a escolha de um programa de necessidades 
adequado para este projeto. 
3.1.1 O COMPLEXO DAS INDÚSTRIAS MATARAZZO EM ANTONINA E SEU 
CONTEXTO HISTÓRICO. 
Segundo documentos do Iphan, não existem dados exatos a respeito do início das 
obras do Complexo das Indústrias Reunidas Matarazzo em Antonina,porém seu 
funcionamento deu-se em 1910. Já em 1914 deram-se início as atividades no moinho de 
trigo, o que resultou em um período de crescimento para a cidade. Em 1916 começaram a 
funcionar também os moinhos de sal e açúcar. Além de realizar o processamento de 
 
 
 
 
produtos importados, a IRFM se destacava pela atividade de embarque e desembarque no 
Porto de Itapema, pois ao contrário do porto da cidade, o porto de Itapema permitia o 
acesso de embarcações de maior porte. 
As Indústrias Matarazzo foram por mais de meio século o maior difusor de empregos 
na cidade de Antonina, pois seu complexo industrial era formado de instalações industriais, 
ramal ferroviário próprio, armazém, residência para operários, escola, posto de puericultura, 
e o casarão que abrigava o Conde Francisco Matarazzo quando visitava tais instalações. 
(Figura 2) 
Figura 2 - Vistas entre o Complexo e o Casarão do Conde 
 
Fonte: Acervo do Iphan e Arquivo Municipal de Antonina (Adaptado) 
Devido a alguns fatores como a falta de investimentos, o aumento acelerado do 
número de embarcações e o consequente assoreamento dos canais da baia, em 1930 o 
Porto de Antonina entra em decadência, levando diversas empresas a fecharem suas 
portas, levando a cidade novamente a uma estagnação econômica. No ano de 1972, 
ocorreu o fechamento das Indústrias Matarazzo, e dois anos depois, em 1976 a desativação 
do ramal ferroviário Morretes-Antonina, que até hoje permanece dentro dos limites do 
terreno onde se encontra o Complexo Industrial Matarazzo. 
Figura 3 - Vista do Complexo no ano de 1920 
 
Fonte: Arquivo Municipal de Antonina (Adaptado) 
 
 
 
 
Cerca de 30 anos após o encerramento das atividades no complexo, em 2003, parte 
das residências para operários e alguns barracões foram demolidos por um membro da 
família, Fernando Matarazzo, fato ilustrado abaixo na Figura 4. 
Figura 4 - Antes e Depois das Casas do Complexo que foram demolidas em 2003 
 
Fonte: Arquivo Municipal de Antonina e Acervo do Iphan 
Na elaboração do Plano Básico Urbano de Antonina em 1982, Cyro Corrêa Lyra2 
ressalta o valor histórico que parte do conjunto das Indústrias Matarazzo representa como 
raro exemplar da Arquitetura Industrial do séc XX e como documento de uma fase áurea da 
história paranaense, colocando-o como fundamental para preservação. 
Figura 5 - Área Total do Complexo das Indústrias Matarazzo 
 
Fonte: Arquivo Municipal de Antonina 
Grande parte das construções pertencente ao Complexo Industrial segue um estilo 
arquitetônico inspirado no Racionalismo Inglês do Séc XVIII e XIX, onde sua ornamentação 
é dada na ênfase da estrutura a qual é composta, o uso decorativo de materiais e texturas 
como ferro, pedras e tijolos cerâmicos. Um exemplo que abrange todas essas 
características do estilo industrial inglês, é a construção da Estação da Luz em São Paulo, 
conforme Figura 6. 
 
 
 
 
 
2 Arquiteto e Urbanista responsável pela elaboração do Plano. 
 
 
 
 
Figura 6 - Estação da Luz, São Paulo 
 
Fonte: Archtrends Portobello 
3.2 DIRETRIZES PROJETUAIS 
3.2.1 ESTUDO DO TERRENO 
O terreno escolhido para esta proposta de projeto (delimitado pelo polígono na 
Figura 00) está localizado na Av. Matarazzo, nº 2489 no município de Antonina, litoral do 
Paraná. Possuindo aproximadamente 60.160,97 m² de área, o antigo Complexo das 
Indústrias Matarazzo, encontrase numa região entre o Centro Histórico em direção à Ponta 
da Pita, local onde tinha fácil acesso ao antigo Porto de Antonina, desativado na década de 
1930. O seu entorno é pouco povoado, caracteriza-se por um abandono generalizado. 
Figura 7 - Vista Aérea do Complexo das Indústrias Matarazzo 
 
Fonte: Google Maps, 2018 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 8 - Planta de Implantação do Complexo Industrial Matarazzo 
 
Fonte: Acervo do Iphan (Adaptado) 
3.2.2 CONCEITO 
Para realização da intervenção de restauro em edificações tombadas pelo Iphan, é 
imprescindível seguir algumas diretrizes apontadas pelo órgão, que regem todo o processo 
da sua restauração. O embasamento teórico utilizado para suprir tais exigências deste 
projeto será de documentações cedidas de seu processo de tombamento, assim como a 
linha de pensamento de Camillo Boito e as diversas discussões realizadas em conferências 
como a Carta de Veneza, a Carta de Amsterdã e a Carta de Quito. 
3.2.3 LEVANTAMENTO MÉTRICO E FOTOGRÁFICO 
Por se tratar de um local de difícil acesso devido a eventual desinteresse por parte 
dos responsáveis pelo empreendimento, os levantamentos realizados durante o período de 
coleta de dados para o tombamento em 2009 pelo Iphan não puderam ser realizados com o 
aprofundamento e detalhamento necessário. Portanto, as análises desta pesquisa 
inicialmente estão pautadas nesse acervo coletado e em estimativas. O material de 
levantamento métrico disponível está constituído por Planta de Implantação (Figura 53), e 
Elevações de algumas edificações de destaque deste Complexo, como o antigo Armazém 
de Gêneros Alimentícios, as remanescentes Residências dos Operários, o Moinho de Trigo, 
o Empório e a Escola Ermelino Matarazzo, respectivamente. 
 
 
 
 
 
Figura 9 - Elevação Frontal do Armazém e Elevação das Casas dos Operários 
 
Fonte: Acervo Iphan 
Figura 10 - Elevação Frontal do Empório e Elevação Frontal das Casas de Operários, o Escritório e 
ao fundo o Moinho de Trigo 
 
 
Fonte: Acervo Iphan 
Através da análise das elevações, pode-se afirmar que as edificações possuem 
características bem evidentes da tipologia industrial Manchesteriana, estilo arquitetônico 
difundido ao longo do mundo durante os séculos XIX e XX. 
3.2.4 DIAGNÓSTICO DA EDIFICAÇÃO 
 As edificações encontram-se em degradação desde a interrupção de suas atividades 
da década de 1972, portanto há 46 anos expostas a todo tipo de intempéries, proliferações 
biológicas, perda de superfície, demolições, entre outros. Não é possível afirmar se foram 
feitas ao longo de todos esses anos algum tipo de intervenção preventiva com a finalidade 
de sua conservação, porém alguns pontos específicos parecem ter sofrido mais com o 
tempo do que outros. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 11 - Estado Atual Armazém de Gêneros Alimentícios, Residência de Operários, Escritório e 
Moinho 
 
Fonte: Acervo da Autora 
Parte da edificação do antigo Escritório (Figura 58) é utilizado como uma lanchonete, 
já a edificação do Empório serve como abrigo para moradores de rua. Como já citado 
anteriormente, devido a impossibilidade de visitar o empreendimento, a análise do estado 
atual de conservação das edificações foi feita de maneira estimada e a partir de 
levantamentos fotográficos e análises de registros documentados pelo Arquivo Municipal de 
Antonina. 
Figura 12 - Estado Atual do Antigo Empório (esquerda) e Estado Atual do Moinho de Trigo (direita) 
 
Fonte: Acervo da Autora 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 13 - Complexo das Indústrias Matarazzo em 1920 
 
Fonte: Arquivo Municipal de Antonina (Adaptado) 
Figura 14 - Levantamento Arquitetônico e Registros Antigos do Complexo 
 
Fonte: Acervo do Iphan e Arquivo Municipal de Antonina (Adaptado) 
Figura 15 - Levantamento Arquitetônico e Registros Antigos do Complexo 
 
 
Fonte: Acervo do Iphan e Arquivo Municipal de Antonina (Adaptado) 
 
 
 
 
 
Figura 16 - Levantamento Arquitetônico e Registros Antigos do Complexo 
 
Fonte: Acervo do Iphan e Arquivo Municipal de Antonina (Adaptado) 
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS 
A partir dos conceitos apresentados e dos questionamentos propostos nesta 
monografia, fica evidente a necessidade que a sociedade possui em aprofundar suas 
medidas de educação patrimonial, para que o indivíduo possa colaborar com a manutenção 
dos bens materiais e imateriais que estão integrados com seu entorno e seu cotidiano, de 
geração a geração. Em relação aosmateriais de revestimento, sua tipologia de plantas 
livres e funcionais, pôde-se notar que a reinserção deste tipo de edificações, fazem em seu 
local, atraindo visitantes e incentivando-os a contribuir com o legado dessas edificações que 
marcaram de alguma forma a história, seja ela da cidade, da arquitetura ou da sociedade 
como um todo. Além disso, as soluções utilizadas para reascender essas edificações 
implicam em melhorias nos quesitos sociais, culturais, econômicos e educacionais. 
 As contribuições que as diferentes tipologias da arquitetura trazem para o contexto 
global, alerta ainda mais para a necessidade de manter-se viva essa essência, de acordo 
com estratégias e diretrizes adequadas a cada caso, visando uma preservação verdadeira 
da identidade e memória desses espaços e servindo de canal de comunicação de uma 
educação patrimonial e museológica inclusiva. 
 
 
 
 
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