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6º Seminário Ibero-Americano Arquitetura e Documentação Belo Horizonte/MG de 20 a 22 de novembro de 2019. EIXO TEMÁTICO 3 – A VIA CRÍTICA DO PATRIMÔNIO: TRAJETÓRIAS E PERSPECTIVA O PROJETO DE RESTAURO COMO FERRAMENTA DE RESGATE DA IDENTIDADE: Complexo Industrial Matarazzo em Antonina-PR DE CASTRO BURGOS, CAROLINA. (1); HELEN COT MARCOS, MICHELINE. (2)) 1.Centro Universitário Curitiba – UNICURITIBA. Arquitetura e Urbanismo. Rua dos Palotinos, 116 ap 42 – Cristo Rei, Curitiba, Brasil. CEP: 80050-400 caarol.burgos@hotmail.com 2.Centro Universitário Curitiba – UNICURITIBA. Arquitetura e Urbanismo. Rua Chile, 1.678 - Rebouças - CEP 80220-181 micheline.helen@gmail.com RESUMO A presente pesquisa visa apresentar uma proposta de restauro para o Complexo das Indústrias Matarazzo na cidade de Antonina, litoral do Paraná. As diversas mudanças tecnológicas provocadas pelo dinamismo da globalização, acabam gerando a desindustrialização de determinados setores e consequentemente, a sua desvalorização. Tal processo implica no abandono, deterioração e/ou demolição dessas edificações que possuem grande valor arquitetônico, pois sua grande maioria representa elementos da memória, identidade da construção e desenvolvimento das cidades. As edificações pertencentes a este complexo, caracterizadas como Patrimônio Industrial, foram reconhecidas como parte integrante do Patrimônio Cultural da cidade, tendo seu processo de tombamento concluído pelo Iphan em 2012. Há 40 anos em estado de abandono e depreciação, faz- se necessário considerar que o Complexo Matarazzo é um dos poucos remanescentes da Arquitetura Industrial no Brasil, sendo de extrema importância a sua preservação, pois o impacto gerado por essa iniciativa possui desdobramentos positivos nos âmbitos social, cultural, educacional, econômico e ambiental. O projeto de Restauro apresentado nesta pesquisa, tem como intuito reconstituir esse antigo polo industrial, o qual possui suma importância para a historiografia comunitária, reincorporando-o no panorama atual da sociedade, suprindo as necessidades e demandas tecnológicas do local onde se encontra. Além disso, inseri-lo como parte do roteiro turístico-cultural da região. Para o desenvolvimento da pesquisa foram utilizados embasamentos bibliográficos, assim como análises de três estudos de caso, sendo um regional, outro nacional e por último um internacional, de forma a facilitar a compreensão da tipologia de projeto, e dessa maneira construir boas diretrizes projetuais para o local. A partir dos estudos e análises realizados neste trabalho, foi possível constatar a viabilidade da restauração das edificações do Complexo das Indústrias Matarazzo, implantando-se novas atividades, sendo proposta a restauração das edificações e a implementação de um museu das indústrias e do trabalho neste espaço, contribuindo para a conservação e preservação deste patrimônio, assim como para o desenvolvimento turístico, social, cultural e econômico da região. mailto:caarol.burgos@hotmail.com Palavras-Chave: Patrimônio Industrial e Preservação; Restauro; Memória e Identidade; Indústrias Matarazzo. 1.INTRODUÇÃO As aceleradas mudanças tecnológicas, promovem a desvalorização de determinados setores industriais e a desindustrialização em algumas regiões do país, provocando o fechamento de fábricas e manufaturas que um dia estiveram em plena potência. Esse processo implica no abandono e deterioração, ou até mesmo demolição dessas edificações que possuem grande valor arquitetônico, pois representam as diversas fases do desenvolvimento industrial brasileiro, assim como as relações histórico-culturais com a sociedade circundante. Constatada sua interferência nos processos antrópicos, a Arquitetura Industrial vem sendo reconhecida recentemente como área de interesse para estudos científicos, tratando a respeito da preservação da Arquitetura e da Arqueologia Industrial, com o intuito de compreender o tema como elemento precursor da Urbanização Brasileira. Nesse contexto percebe-se a necessidade de discutir a preservação do Patrimônio Industrial Brasileiro, visto que o mesmo é identificado como elemento de memória e identidade da construção das cidades como as conhecemos atualmente. O impacto educacional e cultural dessas iniciativas, tem se mostrado bastante promissor, promovendo desdobramentos positivos nos campos econômico, social e ambiental. Segundo a Carta de Nizhny, o Patrimônio Industrial abrange os vestígios da cultura industrial que possuem valor histórico, tecnológico, social, arquitetônico ou científico. Estes vestígios englobam edifícios e maquinaria, oficinas, fábricas,minas e locais de processamento e de refinação, entrepostos e armazéns, centros de produção, transmissão e utilização de energia, meios de transporte e todas as suas infra-estruturas, assim como os locais em que se desenvolveram atividades sociais relacionadas com a indústria, tais como habitações, locais de culto ou de educação. (Carta de Nizhny Tagil, TICCIH, 2003). O objetivo principal dessa pesquisa é desenvolver um projeto arquitetônico de restauro para o Complexo Industrial Matarazzo, localizado na cidade de Antonina, no estado do Paraná, que há mais de 40 anos se encontra em estado de depreciação. Com o intuito de retomar a sua função e implementar nesse antigo polo um museu das indústrias e do trabalho, reincorporando-o no atual panorama cultural da sociedade, suas necessidades e demandas tecnológicas, assim como do local onde se encontra. Por possuir grande potencial histórico, o tema evidencia sua relevância arquitetônica como elemento do Patrimônio, além de servir como ferramenta de construção da memória e identidade, assim como de desenvolvimento das cidades. A criação do Comitê Brasileiro para Preservação do Patrimônio Industrial reafirma o fato de que se faz necessário refletir sobre a preservação da tipologia industrial, vista a presença de inúmeros exemplares do Patrimônio Industrial em todas as regiões brasileiras, e que se encontram em crescente degradação e abandono. O Patrimônio Industrial é parte constituinte da vida da população, o que lhe confere valor identitário e através de seus estudos faz-se possível compreender o tipo de industrialização e tecnologia de uma época, assim como o modo de vida da classe trabalhadora correspondente (SILVA, 2006). A partir do século XX, os estudos sobre o tema ganham maior relevância, impulsionados pela Segunda Guerra Mundial e seu caráter destrutivo. Ocorre então uma valorização das características histórico-culturais das unidades produtivas, argumentando-se que suas estruturas não só eram parte integrante do Patrimônio Cultural como também deveria ser o centro de estudo de uma nova ciência que seria chamada de Arqueologia Industrial (MESQUITA; TEIXEIRA, 2009). Portanto, essa pesquisa pretende analisar o complexo das Indústrias Matarazzo, que teve seu processo de tombamento como Patrimônio Cultural Edificado estabelecido no ano de 2012, sendo classificado como um importante exemplar arquitetônico na paisagem urbana da cidade de Antonina, a qual teve também seu centro histórico como foco da preservação pelos órgãos competentes. Tornar possível o resgate arquitetônico de um empreendimento, que ao longo dos anos tem feito parte da história e da memória da sociedade e proporcionar um novo desenvolvimento para a região, gerando assim, crescimento econômico, geração de empregos, e também trazendo reflexões e debates a respeito da educação patrimonial e sua importância para a preservação da identidade coletiva. Segundo Rodrigues da Silva (2014), a memória individual e coletiva é construída a partir de elementos pessoais ou sociais com os quais é possível identificar uma relação única e personalizada. Dessa maneira, as relações sociais que são estabelecidas entre grupose elementos sociais comunitários apresentam características específicas que, muitas vezes, tem sua consolidação por vínculos afetivos ou profissionais, de articulação entre a cultura e a memória, a história e a sociedade. A iniciativa de se realizar o projeto de restauro do complexo Matarazzo poderá trazer benefícios não só sociais e econômicos para a região, mas também ambientais, pois possibilita poupar grande parte dos recursos e resíduos que seriam gerados para a demolição e execução de uma nova construção no local, assim como possíveis impactos que seriam causados no microclima da região. Além disso, fomentar discussões a respeito desse tema, suas possibilidades, e suas potencialidades resultará em uma visibilidade cada vez maior quanto a conservação e preservação do Patrimônio Cultural Urbano. Dessa maneira, esse estudo busca compreender como o projeto de restauro desse antigo polo industrial, pode contribuir para o desenvolvimento social e econômico de uma região, através da sua readequação conforme as necessidades desse local. Sendo assim, esta pesquisa tem como objetivo geral viabilizar o projeto de restauro de tal edificação, retomando as características e funções originais, readequando-a às necessidades atuais do mundo contemporâneo e da região. Os objetivos específicos a serem atingidos são os seguintes: Apresentar conceitos e fundamentações de autores que tratam sobre assuntos como Patrimônio e Arquitetura, Arqueologia Industrial, Memória e Sociedade, Patrimônio e Identidade, entre outros; Discutir a respeito da relevância e da contribuição da Arquitetura Industrial para com a sociedade, os impactos provocados em seu entorno e na estrutura urbana como um todo; Reiterar o potencial da Arquitetura Industrial como elemento pertencente ao Patrimônio Cultural; Analisar o contexto e histórico das Edificações do Complexo das Indústrias Matarazzo em Antonina; Realizar levantamentos fotográficos e arquitetônicos, assim como diagnóstico do estado de conservação da Edificação; Compreender as técnicas e teorias da Restauração; Realizar análises de três Estudos de Caso da tipologia Industrial; Apresentar as possíveis vantagens que a implementação deste projeto de restauro possui. Para o desenvolvimento desta pesquisa serão utilizados embasamentos teóricos de autores que discutem conceitos de Patrimônio Industrial e Industrialização Brasileira como Nizhny Tagil, Esterezilda Berenstein de Azevedo, Henrique Telles Vichnewski; Restauro, Preservação e Patrimônio, onde podemos destacar Françoise Choay, Cesare Brandi, Claudio Boitto, John Ruskin e Leonardo Barci Castriota; assim como reflexões a respeito de Memória e Identidade na Arquitetura tendo como base Maurice Halbwachs, Manuel Castells e Mário Chagas e Regina Abreu. 2.CONCEITOS DE ARQUITETURA INDUSTRIAL O conceito de Arquitetura Industrial é compreendido pela produção arquitetônica decorrente do processo de industrialização. As características comuns da tipologia industrial, geralmente seguem um certo padrão que pode ser observado pela vedação em tijolos cerâmicos, estrutura de concreto, cobertura de telhas de barro possuindo inclinação de quatro ou duas águas dotadas de lanternins (conforme Figura 1), assim como seus volumes compactos, racionalistas e uniformes, e também pela disposição regular de seus blocos independentes, sendo na maioria de planta retangular, estabelecendo uma certa hierarquia entre edifícios e espaços abertos (adotando-se geralmente o eixo longitudinal como principal e os transversais como secundários). Figura 1 – Desenho Esquemático de Cobertura com Lanternim Fonte: Acervo do PROJETEEE, desenvolvido pelo Laboratório de Eficiência Energética em Edificações. UFSC. Fez-se possível constatar que as fábricas tiveram seu desenvolvimento como parte dos fenômenos da industrialização e da sua subsequente mecanização. Com a sua propagação, foram percebidas mudanças significativas nos modos de construir. Foi necessário explorar os recursos e tecnologias mais apropriados para essas novas necessidades. Não apenas o maquinário pertencente a essas sofreu modificações, como também a construção assumiu cada vez mais um viés mais pragmático e dessa maneira pôde se expressar como condição de artefato mais técnico e de acordo com as novas tecnologias vinculadas à Revolução Industrial (CALDAS;MOREIRA,2012) Essa tipologia de se trabalhar com apenas o estritamente necessário, influenciou concepções arquitetônicas de grandes arquitetos subsequentes, como Walter Gropius e Le Corbusier, que buscavam suas inspirações e enalteciam os edifícios fabris norte-americanos e demonstravam grande entusiasmo pela Era da Máquina. 2.1 PATRIMÔNIO INDUSTRIAL E PRESERVAÇÃO As primeiras conceituações a respeito de Arqueologia Industrial1 datam dos anos 50 do séc XX com a publicação de um artigo do pesquisador britânico Michel Rix, na revista The Amateur Historian em 1955, onde o autor apontava a condição geral de abandono dos bens industriais e destaca a necessidade de se lutar pela preservação de remanescentes físicos e documentação geral referente à história industrial da Inglaterra. 1 Arqueologia Industrial: Disciplina criada para estudo e compreensão dos assuntos relacionados ao Patrimônio Industrial. Fonte: Dicionário Houaiss Para compreensão do Patrimônio Industrial como elemento pertencente ao Patrimônio Cultural é preciso compreender o seu significado, que é descrito pelo IPHAN da seguinte forma: Enquanto o Decreto de 1937 estabelece como patrimônio “o conjunto de bens móveis e imóveis existentes no País e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico”, o Artigo 216 da Constituição conceitua patrimônio cultural como sendo os bens “de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira” (IPHAN,2017). Segundo Azevedo (2010), o Patrimônio Industrial possui valor marcante para a formação dos grandes centros urbanos, visto isso, faz parte do cotidiano, da memória e funciona como elemento de identidade de determinados grupos sociais, como ocorreu durante o período de ápice da industrialização no Brasil, conhecida como Revolução Industrial Brasileira, no período de 1930 a 1956 durante o governo de Getúlio Vargas. Dessa forma, pode-se entender o Patrimônio Industrial como um processo, como define Cristina Meneghello, ‘’É esse Patrimônio entendido como processo e como encontro e confronto entre homem, máquina e técnica, o que torna o Patrimônio Industrial tão peculiar’’. No período entre 1960 e 1980 houve grandes mudanças no meio urbano, diversos setores passaram por intensas transformações, surgindo também, novas demandas econômicas e sociais. Devido a isso, grande parte da infraestrutura criada para o desenvolvimento industrial se torna obsoleta diante de novos padrões e tecnologias. ‘’Aos primeiros sinais de substituição e desaparecimento dessas antigas estruturas [...] já havia uma preocupação com a necessidade e importância da preservação desse patrimônio’’ [...] (SCHICCHI, Maria Cristina) A importância da preservação da essência de edificações industriais está diretamente ligada a necessidade de compreender que a industrialização faz parte da construção e constante transformação do meio urbano como um todo. Pode –se compreender a sua interferência a partir do que o autor Jorge Custódio trata em sua publicação na Revista Património: “O significado da transformação ocorrida com a revolução industrial britânica e com sucessivas fases da industrialização é fundamental para a compreensão do mundo contemporâneo” (CUSTÓDIO,2015, p. 88). Dessa maneira, é possível notar que o ato de preservar acaba por auxiliar a entender a sociedade em que vivemos, podendo-se então implantar de forma progressiva diferentes formas de inserir a Educação Patrimonial, visto que desse modo haverão cada vez mais agentes difusores presentes no cotidiano de todos os indivíduos. O agente difusor do ambiente histórico é peça fundamental, pois é o indivíduo que atua frente à comunidade, produzindo efeitos positivos que podem se estender em diversas direções. Esse agente faz parte do ambiente físico e social em que a população está imersa e torna possível a instrumentalização adequada do quadro cronológico dos fatos e dados relativos e pertencentes à história. A educação Patrimonial é cada vez mais necessária para inserir o passo de maneira a contribuir para o futuro (BARROS; BARROS; MARDEN, 2013, p.5). Através do processo de tombamento é possível determinar diretrizes para a preservação de determinados bens, sejam eles móveis ou imóveis, materiais ou imateriais, como no caso da cidade de Antonina, que passou por análises de suas edificações e manifestações culturais que possuem grande relevância e potencial histórico-cultural para a sociedade, determinando-os como patrimônio da cidade. Um dos locais que foi inserido nesse processo, foi o Complexo das Indústrias Reunidas Matarazzo, principal objeto de estudo desta pesquisa. 2.2 TEORIA DA RESTAURAÇÃO Define-se como restauração qualquer intervenção que seja voltada a dar novamente eficiência a um produto da atividade humana (BRANDI, 2004, p.25). De tal maneira, está baseada no respeito pela autenticidade material da obra, visando “conservar e revelar os valores estéticos e históricos do monumento e fundamenta-se no respeito pelo material original e aos documentos autênticos” (Carta de Veneza, 1964). A partir de uma visão mais contemporânea, o restauro visa revelar a condição atual da matéria original, diminuindo assim, seu ritmo de degradação, visando sua manutenção e permanência para a fruição das gerações futuras (CUNHA, 2010, p. 33). As Cartas Patrimoniais, como a Carta de Atenas e a de Veneza trouxeram discussões sobre o patrimônio, prevendo diretrizes para a preservação de bens móveis e imóveis. Com a difusão destes documentos, muitos outros exemplares semelhantes surgiram posteriormente, no entanto, é preciso pensar de maneira a contextualizar estes documentos para a realidade, sociedade e necessidades atuais. Devem ser respeitadas as leis e diretrizes vigentes de maneira a evitar a criação de falsos históricos, o que acabaria anulando a intenção inicial de sua preservação. Vários autores discutem as premissas que determinam a Teoria da Restauração e suas ramificações, porém é a partir disso que podem se determinar ferramentas que auxiliem no resgate da memória, identidade e história, não só de elementos arquitetônicos e materiais, como também do que se considera Patrimônio Imaterial. 2.3 O RESTAURO COMO FERRAMENTA DE RESGATE DA MEMÓRIA E IDENTIDADE Segundo John Ruskin em sua publicação denominada A Lâmpada da Memória, é preciso tornar a arquitetura atual, histórica e preservá-la como a mais preciosa herança das épocas passadas, portanto, o autor afirma que é possível considerar a Memória como a Sexta Lâmpada da Arquitetura, pois a partir do momento em que as edificações se tornam memoriais ou monumentais é que atingem uma perfeição verdadeira (RUSKIN, 1849). Por muito tempo se adotou a postura de lidar livremente com os artefatos arquitetônicos do passado, no sentido de adaptá-los às exigências do presente, sem que fossem impostos quaisquer tipos de limitações às alterações ou mesmo demolições. Essa conduta, no entanto, começa a sofrer mudanças no momento em que se estabelecem separações entre passado e presente, e por consequência, nos legados do passado, que passam então a ser objeto, não apenas de estudo sistemático, mas, também, de interesse de conservação. A arquitetura está diretamente ligada aos processos que interligam a memória histórico-cultural, de maneira que a transmitem através de sua matéria, teorias, ideologias e características de sua época, seus criadores, entre outros. Por meio de um fragmento escrito por Ruskin, é possível notar essa interação entre memória e arquitetura, ‘’[...] está próximo o dia em que nós admitiremos ter aprendido mais sobre a Grécia através de fragmentos esfacelados de suas esculturas do que de seus doces trovadores ou historiadores soldados.’’ (RUSKIN,1849). Quando se estabelecem reflexões a respeito do papel da memória dentro dos debates sobre Arquitetura, é possível refletir não apenas na memória que está presente na materialidade dos edifícios e dos tecidos urbanos, mas também a memória como instrumento ativo no interior dos processos mentais adotados pelos autores dos projetos (DE ALMEIDA, 2015). É possível exemplificar a influência da arquitetura para com a memória, de acordo com relato de Lina Bo Bardi durante a fase inicial de funcionamento do Sesc Pompéia em 1977: [...] as construções, aliadas à ambientação, estavam arraigadas na memória das pessoas que, familiarizadas, estabeleciam vínculos afetivos com aquela estrutura existente. As instalações fabris revelam sua força expressiva associada à sobriedade e solidez dos primeiros exemplares industriais [...] Pode-se determinar que o Restauro atua como ferramenta de resgate da memória e da identidade de um determinado patrimônio, sua época e sua sociedade, pois é através dele que é consolidada a preservação do Patrimônio Cultural, preservando-se por consequência o que se pode nomear como identidade cultural, que está intrinsecamente ligada a memória, como afirma Reinaldo Soares dos Santos em uma de suas publicações: A definição da própria identidade cultural implica em distinguir os princípios, os valores e os traços que a marcam, não apenas em relação a si própria, mas frente a outras culturas, povos ou comunidades. Memória e identidade estão interligados [...] A memória não pode ser entendida como apenas um ato de busca de informações do passado, tendo em vista a reconstituição deste passado. Ela deve ser entendida como um processo dinâmico da própria rememorização, o que estará ligado à questão de identidade (SANTOS, 2004, p. 60). Portanto, a partir destas questões, observa-se que a memória industrial torna-se também um fator determinante para a compreensão da memória cultural, na qual estão coexistindo os fatores materiais (empresas), imateriais (memória dos trabalhadores e da sociedade), tangíveis (maquinários e tecnologia) e intangíveis (o modo se fazer e a competência adquirida pela experiência) (SILVA, 2009). 3.RESULTADOS E ANÁLISES 3.1 PROPOSTA DE RESTAURO PARA O COMPLEXO DAS INDÚSTRIAS MATARAZZO DE ANTONINA. A proposta deste projeto está pautada no objetivo do Restauro de um Patrimônio Industrial de uma cidade histórica, portanto, além da retomada do caráter industrial pra edificação após seu restauro, é necessário debater em conjunto com a comunidade e o comércio da região, para que seja implantada uma tipologia de indústria, que favoreça as potencialidades que o local e seus moradores podem agregar para o complexo industrial. É imprescindível também, que essa função escolhida, possua alguma ligação com o turismo, de maneira a integrar a região do complexo à rota turística e cultural da cidade de Antonina. Para isso, serão analisados levantamentos colhidos por um profissional da região e investigações in loco, para que seja feita a escolha de um programa de necessidades adequado para este projeto. 3.1.1 O COMPLEXO DAS INDÚSTRIAS MATARAZZO EM ANTONINA E SEU CONTEXTO HISTÓRICO. Segundo documentos do Iphan, não existem dados exatos a respeito do início das obras do Complexo das Indústrias Reunidas Matarazzo em Antonina,porém seu funcionamento deu-se em 1910. Já em 1914 deram-se início as atividades no moinho de trigo, o que resultou em um período de crescimento para a cidade. Em 1916 começaram a funcionar também os moinhos de sal e açúcar. Além de realizar o processamento de produtos importados, a IRFM se destacava pela atividade de embarque e desembarque no Porto de Itapema, pois ao contrário do porto da cidade, o porto de Itapema permitia o acesso de embarcações de maior porte. As Indústrias Matarazzo foram por mais de meio século o maior difusor de empregos na cidade de Antonina, pois seu complexo industrial era formado de instalações industriais, ramal ferroviário próprio, armazém, residência para operários, escola, posto de puericultura, e o casarão que abrigava o Conde Francisco Matarazzo quando visitava tais instalações. (Figura 2) Figura 2 - Vistas entre o Complexo e o Casarão do Conde Fonte: Acervo do Iphan e Arquivo Municipal de Antonina (Adaptado) Devido a alguns fatores como a falta de investimentos, o aumento acelerado do número de embarcações e o consequente assoreamento dos canais da baia, em 1930 o Porto de Antonina entra em decadência, levando diversas empresas a fecharem suas portas, levando a cidade novamente a uma estagnação econômica. No ano de 1972, ocorreu o fechamento das Indústrias Matarazzo, e dois anos depois, em 1976 a desativação do ramal ferroviário Morretes-Antonina, que até hoje permanece dentro dos limites do terreno onde se encontra o Complexo Industrial Matarazzo. Figura 3 - Vista do Complexo no ano de 1920 Fonte: Arquivo Municipal de Antonina (Adaptado) Cerca de 30 anos após o encerramento das atividades no complexo, em 2003, parte das residências para operários e alguns barracões foram demolidos por um membro da família, Fernando Matarazzo, fato ilustrado abaixo na Figura 4. Figura 4 - Antes e Depois das Casas do Complexo que foram demolidas em 2003 Fonte: Arquivo Municipal de Antonina e Acervo do Iphan Na elaboração do Plano Básico Urbano de Antonina em 1982, Cyro Corrêa Lyra2 ressalta o valor histórico que parte do conjunto das Indústrias Matarazzo representa como raro exemplar da Arquitetura Industrial do séc XX e como documento de uma fase áurea da história paranaense, colocando-o como fundamental para preservação. Figura 5 - Área Total do Complexo das Indústrias Matarazzo Fonte: Arquivo Municipal de Antonina Grande parte das construções pertencente ao Complexo Industrial segue um estilo arquitetônico inspirado no Racionalismo Inglês do Séc XVIII e XIX, onde sua ornamentação é dada na ênfase da estrutura a qual é composta, o uso decorativo de materiais e texturas como ferro, pedras e tijolos cerâmicos. Um exemplo que abrange todas essas características do estilo industrial inglês, é a construção da Estação da Luz em São Paulo, conforme Figura 6. 2 Arquiteto e Urbanista responsável pela elaboração do Plano. Figura 6 - Estação da Luz, São Paulo Fonte: Archtrends Portobello 3.2 DIRETRIZES PROJETUAIS 3.2.1 ESTUDO DO TERRENO O terreno escolhido para esta proposta de projeto (delimitado pelo polígono na Figura 00) está localizado na Av. Matarazzo, nº 2489 no município de Antonina, litoral do Paraná. Possuindo aproximadamente 60.160,97 m² de área, o antigo Complexo das Indústrias Matarazzo, encontrase numa região entre o Centro Histórico em direção à Ponta da Pita, local onde tinha fácil acesso ao antigo Porto de Antonina, desativado na década de 1930. O seu entorno é pouco povoado, caracteriza-se por um abandono generalizado. Figura 7 - Vista Aérea do Complexo das Indústrias Matarazzo Fonte: Google Maps, 2018 Figura 8 - Planta de Implantação do Complexo Industrial Matarazzo Fonte: Acervo do Iphan (Adaptado) 3.2.2 CONCEITO Para realização da intervenção de restauro em edificações tombadas pelo Iphan, é imprescindível seguir algumas diretrizes apontadas pelo órgão, que regem todo o processo da sua restauração. O embasamento teórico utilizado para suprir tais exigências deste projeto será de documentações cedidas de seu processo de tombamento, assim como a linha de pensamento de Camillo Boito e as diversas discussões realizadas em conferências como a Carta de Veneza, a Carta de Amsterdã e a Carta de Quito. 3.2.3 LEVANTAMENTO MÉTRICO E FOTOGRÁFICO Por se tratar de um local de difícil acesso devido a eventual desinteresse por parte dos responsáveis pelo empreendimento, os levantamentos realizados durante o período de coleta de dados para o tombamento em 2009 pelo Iphan não puderam ser realizados com o aprofundamento e detalhamento necessário. Portanto, as análises desta pesquisa inicialmente estão pautadas nesse acervo coletado e em estimativas. O material de levantamento métrico disponível está constituído por Planta de Implantação (Figura 53), e Elevações de algumas edificações de destaque deste Complexo, como o antigo Armazém de Gêneros Alimentícios, as remanescentes Residências dos Operários, o Moinho de Trigo, o Empório e a Escola Ermelino Matarazzo, respectivamente. Figura 9 - Elevação Frontal do Armazém e Elevação das Casas dos Operários Fonte: Acervo Iphan Figura 10 - Elevação Frontal do Empório e Elevação Frontal das Casas de Operários, o Escritório e ao fundo o Moinho de Trigo Fonte: Acervo Iphan Através da análise das elevações, pode-se afirmar que as edificações possuem características bem evidentes da tipologia industrial Manchesteriana, estilo arquitetônico difundido ao longo do mundo durante os séculos XIX e XX. 3.2.4 DIAGNÓSTICO DA EDIFICAÇÃO As edificações encontram-se em degradação desde a interrupção de suas atividades da década de 1972, portanto há 46 anos expostas a todo tipo de intempéries, proliferações biológicas, perda de superfície, demolições, entre outros. Não é possível afirmar se foram feitas ao longo de todos esses anos algum tipo de intervenção preventiva com a finalidade de sua conservação, porém alguns pontos específicos parecem ter sofrido mais com o tempo do que outros. Figura 11 - Estado Atual Armazém de Gêneros Alimentícios, Residência de Operários, Escritório e Moinho Fonte: Acervo da Autora Parte da edificação do antigo Escritório (Figura 58) é utilizado como uma lanchonete, já a edificação do Empório serve como abrigo para moradores de rua. Como já citado anteriormente, devido a impossibilidade de visitar o empreendimento, a análise do estado atual de conservação das edificações foi feita de maneira estimada e a partir de levantamentos fotográficos e análises de registros documentados pelo Arquivo Municipal de Antonina. Figura 12 - Estado Atual do Antigo Empório (esquerda) e Estado Atual do Moinho de Trigo (direita) Fonte: Acervo da Autora Figura 13 - Complexo das Indústrias Matarazzo em 1920 Fonte: Arquivo Municipal de Antonina (Adaptado) Figura 14 - Levantamento Arquitetônico e Registros Antigos do Complexo Fonte: Acervo do Iphan e Arquivo Municipal de Antonina (Adaptado) Figura 15 - Levantamento Arquitetônico e Registros Antigos do Complexo Fonte: Acervo do Iphan e Arquivo Municipal de Antonina (Adaptado) Figura 16 - Levantamento Arquitetônico e Registros Antigos do Complexo Fonte: Acervo do Iphan e Arquivo Municipal de Antonina (Adaptado) 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir dos conceitos apresentados e dos questionamentos propostos nesta monografia, fica evidente a necessidade que a sociedade possui em aprofundar suas medidas de educação patrimonial, para que o indivíduo possa colaborar com a manutenção dos bens materiais e imateriais que estão integrados com seu entorno e seu cotidiano, de geração a geração. Em relação aosmateriais de revestimento, sua tipologia de plantas livres e funcionais, pôde-se notar que a reinserção deste tipo de edificações, fazem em seu local, atraindo visitantes e incentivando-os a contribuir com o legado dessas edificações que marcaram de alguma forma a história, seja ela da cidade, da arquitetura ou da sociedade como um todo. Além disso, as soluções utilizadas para reascender essas edificações implicam em melhorias nos quesitos sociais, culturais, econômicos e educacionais. As contribuições que as diferentes tipologias da arquitetura trazem para o contexto global, alerta ainda mais para a necessidade de manter-se viva essa essência, de acordo com estratégias e diretrizes adequadas a cada caso, visando uma preservação verdadeira da identidade e memória desses espaços e servindo de canal de comunicação de uma educação patrimonial e museológica inclusiva. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Eneida De. Arquitetura e memória. Pós- revista do programa de pós-graduação em arquitetura e urbanismo da fauusp, São Paulo, v. 22, n. 38, p. 58-77, dez. 2015. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/posfau/article/view/112352>. Acesso em: 29 ago. 2018. AZEVEDO, E.B. Patrimônio Industrial no Brasil. São Paulo: USJT arq.urb, - número 3/ primeiro semestre de 2010. Disponível em: http://www.usjt.br/arq.urb/numero_03/2arqurb3-esterezilda.pdf Acesso em: 17 ago.2018. BARROS, Júlio Cesar Victoria; BARROS, Alzira Costa Rodrigues; MARDEN, Sanzio. 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