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Avaliação Gramática - 2 EM - 3° Bimestre - Intercâmbio Adventista 26/06/2024 Texto base 1 Trecho da peça teatral Vestido de Noiva, de autoria de Nelson Rodrigues A memória de Alaíde em franca desagregação. Imagens do passado e do presente se confundem e se superpõem. As recordações deixaram de ter ordem cronológica. Apaga-se o plano da memória. Luz nas escadas laterais. Dois homens aparecem no alto das escadas, cada um empunhando dois círios; descem, lentamente. A luz os acompanha. Adaptado de: RODRIGUES, N. Teatro Completo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004, v. 1, p.31. Questão 1 PARA RESPONDER À QUESTÃO, LEIA O TEXTO BASE 1 A respeito do trecho: “descem, lentamente. A luz os acompanha”, assinale o que for incorreto. a É impossível identificar o sujeito com o qual deveria concordar o verbo “descem”, pois ele não aparece na oração. b A palavra “lentamente” é um advérbio que expressa o modo como se processou a ação “descem”. c O dramaturgo optou por separar o verbo de seu advérbio com vírgula a fim de destacar a modificação exercida sobre a ação. d Na oração “A luz os acompanha” o verbo permanece no singular por concordar com o sujeito, que é “A luz”. Texto base 2 Baiana brilha em programa de culinária na TV da Dinamarca Moqueca, feijoada e acarajé são as grandes estrelas do menu de um restaurante brasileiro em Copenhague, mas num programa da televisão dinamarquesa quem brilhou foi a baiana Jacira Mariete Berlowicz, que mora há 35 anos na Dinamarca. Jacira é a dona do restaurante "O Tempo" e ficou conhecida pelo público do país depois de participar da versão local do programa de televisão "Pesadelos na Cozinha". O restaurante foi aberto há três anos numa área central da capital dinamarquesa e lá ela frequentemente promove tardes do acarajé, que atraem centenas de pessoas. O programa de televisão foi exibido pela primeira vez em novembro passado e tem ajudado a atrair novos clientes, inclusive pessoas que vivem no interior da Dinamarca e que aproveitam o passeio em Copenhague para provar a culinária brasileira pela primeira vez. Mas, como ela conta, o convite para participar da produção a pegou de surpresa. (...) No restaurante, a clientela é simpática e curiosa sobre a culinária brasileira. Cerca de 70% dos fregueses são dinamarqueses e o restante são, principalmente, brasileiros e portugueses. O restaurante ainda não dá lucro nem rende o suficiente para pagar o salário de Jacira, mas ela não pretende desistir do negócio sem antes lutar muito pelo seu sonho. (...) Para levar o restaurante adiante, Jacira está seguindo alguns dos conselhos do apresentador do programa de televisão, Thomas Castberg, que é um chefe de cozinha famoso na Dinamarca. No programa, ele fez algumas críticas à administração e à decoração do restaurante, mas elogiou o talento gastronômico de Jacira, como ela conta: "Eu fiquei muito orgulhosa quando ele falou que gostou muito do meu tempero e que a comida brasileira era uma comida boa, cheia de sabor; também porque ele repetiu isso várias vezes. Não é que ele chegou e disse: 'eu gostei do seu tempero'. Ele falou isso muitas vezes, durante sete dias. E quando as câmaras estavam desligadas, ele estava na cozinha comendo. Significa que ele gostou mesmo, não é?" Adaptado de: https://www.cartacapital.com.br/internacional/baiana- brilha-em-programa-de-culinaria-na-tv-da-dinamarca, publicado em 07.03.2018, pela correspondente Margareth Marmori. Questão 2 PARA RESPONDER À QUESTÃO, LEIA O TEXTO BASE 2 No 1º período do 2º parágrafo foi empregado o verbo "haver" na expressão "...há três anos...", pois faz referência ao passado. Assinale o que for correto quanto ao uso do verbo "haver" nas frases abaixo. 01) Há muitos anos não provo uma boa comida baiana. 02) Segundo especialistas, haviam muitas diferenças entre a culinária baiana e a dinamarquesa. 04) Jacira sabe que há sempre uma solução para as dificuldades, pois está acostumada a lutar pelos seus sonhos. 08) A empresária não vai desistir, pois há lucros bem melhores. a 7 b 11 c 4 d 19 e 3 Texto base 3 Ser como todo mundo? (Roberto DaMatta*) Uma palavra resume a crise brasileira: a igualdade. 1 Conforme 2 tenho salientado no meu trabalho e nesta coluna, o Brasil não tem problemas com a desigualdade. Ele 3 ama de paixão as hierarquias e as gradações 4 que 5 estão em toda parte. Em nossas leis 6 sobram privilégios, penachos, recursos, isenções 7 ... Nossa formação nacional teve no escravismo, no patrimonialismo aristocrático e no compadrio das casas-grandes e nos grandes apartamentos dos “bairros nobres” de nossas cidades o seu centro e razão. Não é fácil ser igualitário com essa folha corrida. Sempre 8 fomos dinamizados 9 por elos pessoais oficializados e legais. Nosso projeto de vida funda-se no arrumar-se e no “ 10 subir na vida”. Alcançar o baronato — ser alguém —, “ 11 virar famoso” e, do alto da sua celebrização, ter direito a fazer tudo sem ser molestado pelo bando de caretas que, infelizmente, não são como nós. Saber com certeza quem é quem, 12 mapear 13 com precisão genealogias familísticas, poder dizer com um riso superior — “ 14 conheci Frank Sinatra 15 quando ele morava em Hoboken e era um merdinha” 16 ; 17 ou, “esse eu conheço!” — confirma a nossa ontologia segundo 18 a qual “conhecer” ou relacionar-se pessoalmente é um modo de estar num mundo ordenado por ricos e pobres, superiores e inferiores, homens e mulheres, brancos e negros, limpos e sujos. O modo de navegação social confirma um universo ordenado em camadas e é melhor você estar “por cima”. Nossa questão mais angustiante, o que eventualmente nos tira do sério, não é 19 saber 20 que tudo tem um dono, e dele receber ordens. Não 21 ! 22 É entrar numa sala 23 onde outras pessoas também aguardam na fila, e todos se olham com uma ofensiva indiferença porque ninguém sabe quem é quem. 24 No Brasil, a igualdade é vivida como uma ofensa ou um castigo. 25 O anonimato associado à cidadania nos perturba. Para nós, o maior castigo não é a prisão, é saber que somos iguais a todo mundo porque burlamos a lei que foi feita para todos, menos para nós. 26 Quando indiciados, viramos vítimas de uma maldosa igualdade republicana! No Brasil lido como Estado nacional, somos todos “cidadãos”. Mas no Brasil relacional da casa e das 27 amizades que nos impedem de dizer não, somos todos parentes e amigos. Não somos como todo mundo. 28 Saiu ao pai ou ao avô... Merece a nomeação. Ademais, é afilhado do presidente e tem “pinta” e “jeito” de alto funcionário: não vai fazer feio. A “ 29 aparência” 30 . 31 Eis um traço merecedor de um tratado de sociologia. Meu mentor harvardiano, Richard Moneygrand, dizia que a “ 32 luta das aparências” (e das recomendações e empenhos) é tão ou 33 mais importante do que a 34 luta de classes no Brasil... 35 — Logo vi que era “ 36 gentinha”... — Você viu o “jeito” dele (ou dela)? Descobri imediatamente quem era pelo modo como ele (ou ela) se sentou, comeu e falou. 37 — Você viu a roupa? Notou o sapato? Atinou para a sujeira das unhas? 38 — Eu até que tolero a pobreza, mas não me conformo com falta de limpeza. Um pobre precisa ser limpo. 39 Sobretudo se for preto... Nosso inferno não são os “ 40 palácios” onde poucos entram, todos se conhecem e sabem dos seus lugares, 41 mas os espaços abertos. 42 Sobretudo quando temos que esperar o sinal para caminhar e sentir como todo mundo! 43 — Eu sei que não sou e jamais vou ser todo mundo! — diz o magistrado do Tribunal Supremo. É justo nesse “todo mundo” que jaz, 44 como um 45 cadáver oculto, o 46 nosso problema. 47 Pois como ser como todo mundo se mamãe nos criou para ser ministro? 48 Como ser como todo mundo se a nossa família tem origem nobre? 49 Empobrecemos 50 , mas “temos berço”. Como, então, seguir as normas de urbanidade deste nosso mundourbano? 51 — Não entro em fila! Não tenho paciência para esperas imbecis. Pago a um criado para tanto. Tenho que cuidar do meu projeto político socialista, que é urgente e está atrasado. Como é que eu vou ter tempo para ser como os outros? A República proclamada sem um viés igualitário 52 só tem a perna da liberdade. 53 A da 54 igualdade que, ao lado da fraternidade, 55 regularia o seu caminho, nasceu 56 atrofiada e até hoje permanece torta. A liberdade de gritar, de confrontar, é reveladora. 57 Só grita quem pode, e calar é sinal de juízo e respeito. 58 Hoje assistimos às tramas para impedir a realização da igualdade que, para muitos poderosos, foi longe demais igualando quem deveria estar acima da lei. 59 — Como ser como todo mundo numa sociedade marcada por privilégios? Qual a fórmula do viver democrático e igualitário? 60 Aprenda a dizer não a si mesmo. É nesse abrir-se para ser como todo mundo que está o espírito igualitário. A alma da democracia. *Roberto DaMatta é antropólogo e colunista dos jornais O Estado de São Paulo e O Globo. (Texto adaptado do original e disponível em . Acesso em 30 ago. 2017) Vocabulário Ontologia: Parte da filosofia que trata do ser enquanto ser, isto é, do ser concebido como tendo uma natureza comum que é inerente a todos e a cada um dos seres (Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Curitiba: Positivo, 2010) Questão 3 PARA RESPONDER À QUESTÃO, LEIA O TEXTO BASE 3 Assinale o que for correto quanto ao emprego de elementos linguísticos no texto. 01) Na referência 3, o verbo “ama” é transitivo direto, sendo “de paixão” um adjunto adverbial de modo. 02) Na referência 6, a forma verbal “sobram” encontra-se no plural para manter a concordância com o sujeito da sentença “Em nossas leis”. 04) A locução verbal “tenho salientado” (referência 2) remete a um evento iniciado no passado, mas com alcance até o presente. 08) A expressão “com precisão” (referência 13) é equivalente semanticamente a um advérbio de modo, caracterizando o processo verbal indicado por “mapear” (referência 12). 16) A expressão “por elos pessoais oficializados e legais.” (referência 9) exerce função sintática de agente da passiva em relação ao processo verbal “fomos dinamizados” (referência 8). a 24 b 26 c 28 d 29 e 31 Texto base 4 Geração Z mudará o mundo 1 Acabou o egoísmo, o narcisismo selfie, a obsessão pelo consumo e a passividade que isso acarreta. Há uma 2 geração que quer salvar o mundo, mas ainda não sabe como. Nasceu ou cresceu em plena recessão, em um mundo fustigado pelo terrorismo, índices de desemprego galopantes e uma sensação apocalíptica provocada pelas mudanças climáticas. 3 São mais realistas que seus irmãos mais velhos, indicam todas as consultorias de marketing (sempre preocupadas com seus futuros consumidores). São a geração Z, o grupo demográfico nascido entre 1994 e 2010, que representa 25,9% da população mundial. Os especialistas já analisam todos os traços de sua personalidade. Deixando de lado os riscos e a evidente frivolidade de atribuir uma letra e um só rosto a um espectro de dois bilhões de pessoas, há alguns elementos que podem ser extraídos das múltiplas pesquisas. Especialmente em contraposição a seus predecessores, os chamados millennials (ou Geração Y), que as marcas ainda vivem obcecadas em decifrar. Fundamentalmente porque são um grupo de 80 milhões de pessoas nos EUA e pouco mais de oito milhões na Espanha, que em 2025 representará – de acordo com prognóstico da consultoria Deloitte – 75% da força de trabalho do mundo. O potencial produtivo e de consumo dos millennials já é algo tangível (somente nos EUA têm uma capacidade de compra equivalente a 112 bilhões de reais). 4 Para as empresas, no entanto, a aventura com seus irmãos mais novos consiste agora em decodificá-los no laboratório. 5 A teoria do consumo diz que o segmento populacional dos 18 aos 24 anos é o mais influente. As gerações anteriores e as posteriores sempre querem se parecer com ele. É a referência estética. Os Z – assim chamados por virem depois das gerações X e Y – começam a posicionar-se no topo dessa pirâmide de influência, e em cinco anos a terão dominado. Essa geração 6 já não se conforma em ser sujeito passivo de marcas e publicações, deseja produzir seus conteúdos. E consegue através do YouTube, onde as novas celebridades surgidas nessa mídia já 7 são mais populares do que as da indústria do entretenimento tradicional 63% contra 73% segundo o Cassandra Report, um dos relatórios mais utilizados pelas grandes empresas para sondar os gostos da juventude). Ou 8 por meio de aplicativos como o Vine (para vídeos em loop) e 9 plataformas on- line como o Playbuzz, a guinada do popular site de histórias virais Buzzfeed, onde agora os conteúdos são postados pelos usuários, que já somam 80 milhões por mês, segundo o Google Analytics. O tempo livre está cada vez mais direcionado para as vocações profissionais (blogs, desenho de moda, fotografia...) e as comunidades se formam em torno disso. 10 A escritora Luna Miguel destaca esse modo de trabalhar em rede, apesar de alertar para o fato de ser cedo para analisar uma geração que ainda compartilha muitos códigos com a anterior. “São figuras importantes, mas ajudam os demais e criam comunidade. A solidariedade será um valor importante. 11 Não querem mais ser o artista jovem e incomum. Até os ‘nativos da Internet’ soam como algo velho, é uma questão quase genética. Um exemplo seria Tavi Gevinson, que desde os 13 anos tem um dos blogs mais importantes do mundo”, afirma, referindo-se à multifacetada e influente blogueira e editora norte-americana, nascida em 1996, um dos ícones da geração Z. A tendência também se estende à educação e aos novos canais de acesso. Para Anne Boysen, consultora em estratégia e especialista em questões geracionais da empresa After the Millennials, grande parte da aprendizagem se dá fora da sala de aula. “Essa geração usa o YouTube de forma periódica para sua lição de casa, o que indica que quer um maior grau de personalização na educação. 12 Se não gostam do enfoque de seu professor, ou não o entendem, buscarão alguém online que o explique melhor”, afirma. O mundo, tal qual deixaram seus antecessores, não lhes parece um lugar habitável. VERDÚ, Daniel. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2015/05/02/sociedad/1430576024_6 84493.html>. [Adaptado]. Questão 4 PARA RESPONDER À QUESTÃO, LEIA O TEXTO BASE 4 De acordo com o texto, é correto afirmar que: 01) as formas verbais sublinhadas em “São mais realistas” (referência 3) e “Se não gostam do enfoque” (referência 12) estão no plural em concordância com a noção de conjunto de pessoas expressa pela palavra “geração” (referência 2). 02) as construções “São mais realistas que seus irmãos mais velhos” (referência 3) e “são mais populares do que as da indústria do entretenimento tradicional” (referência 7) expressam a ideia de comparação de superioridade sem desvio da variedade padrão escrita da língua portuguesa. 04) em “Essa geração já não se conforma em ser sujeito passivo” (referência 6) e “Não querem mais ser o artista jovem e incomum” (referência 11), os termos sublinhados indicam que as situações expressas em cada frase ocorriam no passado, mas que os jovens da geração Z não desejam que continuem a ocorrer. 08) em “por meio de aplicativos como o Vine” (referência 8) e “plataformas on-line como o Playbuzz” (referência 9), o vocábulo sublinhado nas duas ocorrências introduz uma exemplificação. a 3 b 4 c 8 d 9 e 15 Texto base 5 Questão 5 PARA RESPONDER À QUESTÃO, LEIA O TEXTO BASE 5 Com base na leitura do texto e de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que: a trata-se de um anúncio para uma campanha pelo desarmamento. b um tiro pode ocasionar até 4700 vítimas. c em “Quem brinca com fogo, se dá mal”, o termo“se” não desempenha a função de índice de indeterminação do sujeito. d em “Quem brinca com fogo, se dá mal”, podemos substituir a palavra “fogo” por “arma” sem prejuízo ao sentido do anúncio. Texto base 6 Canção do vento e da minha vida O vento varria as folhas, O vento varria os frutos, O vento varria as flores... E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De frutos, de flores, de folhas. Manuel Bandeira Questão 6 PARA RESPONDER À QUESTÃO, LEIA O TEXTO BASE 6 Tanto o verbo varrer quanto o adjetivo cheia regem complementos. Observe a presença ou a ausência de preposição nesses dois casos e responda. 01) Varrer é um verbo transitivo indireto, o que pressupõe uma ação indireta do eu lírico sobre as coisas que o circundam. 02) O termo vento é sujeito do verbo varrer que se liga diretamente aos seus complementos. 04) O valor semântico da preposição de em “cheia de...” é o de qualidade, caráter. 08) Os complementos do adjetivo cheia – frutos, flores, folhas – ligados a ele com o auxílio da preposição de exercem a função sintática de complemento nominal. 16) A função sintática dos complementos do verbo varrer é a de objeto direto. a 22 b 24 c 26 d 27 e 30 Texto base 7 Um terço dos brasileiros desconfia da ciência (Mariana Varella) Karl Popper, nascido em 1902, na Áustria, foi um dos maiores filósofos da ciência do século 20. 1 Ficou muito conhecido 2 por questionar os 3 preceitos positivistas da época, que viam na observação o 4 caminho para se chegar ao 5 conhecimento científico. Para Popper, 6 a pura 7 observação dos fenômenos não era suficiente para garantir que determinada situação se repetiria sempre. Em 8 um de seus exemplos mais célebres, 9 o filósofo afirmou que, mesmo 10 observando milhares de 11 cisnes brancos, era impossível assegurar que todos os cisnes são brancos, pois bastaria surgir 12 um único 13 cisne negro para derrubar o preceito. 14 Assim, observações particulares não poderiam ser generalizadas, e a simples observação de 15 um fenômeno não provaria sua verdade absoluta. Era preciso primeiro formar 16 uma hipótese baseada, também, na intuição, para depois comprovar sua consistência por meio do método científico. O mundo mudou muito desde a época do filósofo. Hoje, basta 17 uma pessoa relatar um fenômeno nas redes sociais para que 18 ele seja considerado fato. Estabelecer relações de causa e efeito com base em histórias pessoais não é novidade, mas a velocidade com que 19 elas se espalham atualmente é surpreendente. 20 Se 21 antes apenas os conhecidos da tia do vizinho ficavam sabendo que a senhora supostamente teria se curado de câncer de estômago com um chá, 22 agora a história pode atingir milhares de pessoas em pouco tempo. E fazer um tremendo estrago, gerando não apenas curiosidade acerca do “medicamento”, mas dando origem a toda sorte de boatos e questionamentos. [...] A pesquisa Wellcome Global Monitor 2018, feita pelo Instituto Gallup e divulgada no primeiro semestre de 2019, representa o maior estudo mundial sobre a forma como as pessoas pensam a ciência e os principais desafios da área da saúde. 23 Os pesquisadores entrevistaram 140 mil pessoas, entre elas mil brasileiros com mais de 15 anos. No ranking dos 144 países participantes, o Brasil ocupa apenas a 111.ª posição entre os que mais confiam na ciência. Para 35% dos brasileiros, a ciência não merece confiança, e 1 em cada 4 pessoas acha que a produção científica não contribui para o país. Para a matemática, filósofa e professora Tatiana Roque, coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 24 as pessoas não veem o resultado da contribuição científica em sua vida cotidiana, já que muitos cientistas costumam se isolar e têm dificuldade de comunicação. “Ultimamente, há um nítido aumento da 25 preocupação dos cientistas em se comunicar melhor com a sociedade, mas ainda é um movimento incipiente”, afirma Roque. Sem conhecer os resultados das pesquisas científicas e com pouco ou quase nenhum contato 26 com quem a produz, 27 a população não vislumbra 28 seus benefícios e tampouco desenvolve uma relação de confiança com a ciência. Por outro lado, 29 a necessidade de mostrar resultados pode comprometer a autonomia, essencial para que a ciência prospere. Foi a liberdade em relação ao Estado e à indústria que permitiu o desenvolvimento de pesquisas e das próprias ciências. Se houvesse apenas ciências aplicáveis, 30 o que seriam das Humanas ou de pesquisas que não pudessem ser diretamente aplicadas? [...] Religião Se cientistas e aqueles que 31 propagam o pensamento científico falham em comunicar a importância da ciência, a religião, por sua vez, estabelece uma relação de proximidade com seus seguidores. A Wellcome Global Monitor mostrou que 75% dos brasileiros escolhem sua religião quando 32 esta discorda da ciência. Considerando que apenas 4% dos entrevistados disseram não ter religião, é possível afirmar que a maioria dos brasileiros confia mais na 33 religião do que na 34 ciência quando há discordância entre 35 ambas. 36 “O papel das igrejas amplia-se no vácuo deixado pelas políticas sociais, que vêm 37 abandonando, desde os anos 1990, a ideia de proteção, de seguridade coletiva, de direitos do cidadão. Se não podem acreditar nos valores sociais, só lhes restam os valores individuais, apoiados pela família tradicional e pela igreja conservadora. Não acho que a religião seja um empecilho [para acreditar na ciência]. O que ocorre hoje é que há um modo de praticar a religião que estende sua influência a domínios que não costumavam ser da religião, e sim da política”, conclui Roque. 37 Portanto, não basta ensinar ciência nas escolas, embora isso seja muito importante. 38 É necessário que as pessoas percebam sua importância, que sintam seus benefícios no dia a dia, aprendam a desenvolver o pensamento científico e a confiar nele. 39 Isso não implica, obviamente, refutar outros saberes e formas de conhecimento; ao contrário, o excesso de autoconfiança por parte daqueles que estudam e fazem ciência pode afastar 40 ainda mais as pessoas que não dominam o conhecimento científico. Em um momento em que a desinformação e os boatos ganham as redes sociais e a internet ganha em velocidade galopante, a ciência pode e deve ser vista como aliada na 41 luta contra a desinformação. (Texto adaptado de: https://drauziovarella.uol.com.br/coluna-2/um- tercodos-brasileiros-desconfia-da-ciencia-coluna/. Acesso em: 07 dez 2020.) Questão 7 PARA RESPONDER À QUESTÃO, LEIA O TEXTO BASE 7 Assinale o que for correto. 01) As expressões sublinhadas em “observação dos fenômenos” (ref. 7) e “luta contra a desinformação” (ref. 41) são complementos nominais. 02) As expressões sublinhadas em “preceitos positivistas” (ref. 3), “conhecimento científico” (ref. 5), “cisnes brancos” (ref. 11) e “cisne negro” (ref. 13) funcionam como adjetivos. 04) As expressões “antes” (ref. 21) e “agora” (ref. 22) contrapõem dois momentos temporais. 08) Em “Ficou muito conhecido por questionar os preceitos positivistas da época” (ref. 1), o sujeito é oculto. a 3 b 7 c 11 d 15