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D esigu aldade e poder Desigualdade e poder Igor José de Renó Machado Henrique Amorim Fabiana Sanches Grecco Leandro Galastri Cassiano Terra Rodrigues Glaydson José da Silva Área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas Ensino Médio Ig o r Jo sé d e R en ó M ach ad o • H en riq u e A m o rim Fab ian a S an ch es G recco • L ean d ro G alastri C assian o Terra R o d rig u es • G lay d so n Jo sé d a S ilva Manual do Professor Á rea d e Ciên cias H u m an as e Sociais A plicadas • En sin o M édio Desigualdade Igor José de Renó Machado Henrique Amorim Fabiana Sanches Grecco Leandro GalastriLeandro Galastri Cassiano Terra RodriguesCassiano Terra Rodrigues Glaydson José da SilvaGlaydson José da Silva Manual do Manual do Manual do ProfessorProfessorProfessor M ATERIA L D E D IV U LG AÇÃO − VERSÃO S U BM ETID A À A VA LIA ÇÃO CÓ D IG O D A C O LEÇÃO : 0 1 8 3 P 2 1 2 0 4 CÓ D IG O D A O BRA: 0 1 8 3 P 2 1 2 0 4 1 3 7 CAPA_OBJ2_CH_IGOR_SCIPIONE_PNLD_2021_VOL_5_MP.indd All PagesCAPA_OBJ2_CH_IGOR_SCIPIONE_PNLD_2021_VOL_5_MP.indd All Pages 4/13/21 8:18 PM4/13/21 8:18 PM 1a edição, São Paulo, 2020 Área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas Ensino Médio Desigualdade e poder Manual do Professor Igor José de Renó Machado Bacharel em Ciências Sociais, mestre em Antropologia e doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp-SP) Professor titular e coordenador do Laboratório de Estudos Migratórios (LEM) na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar-SP) Autor de livros didáticos para o Ensino Médio e de várias obras sobre migrações Henrique Amorim Bacharel em Ciências Sociais, mestre em Sociologia e doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp-SP) Professor do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Coordenador do Grupo de Pesquisa Classes Sociais e Trabalho (GPCT) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Autor de livros didáticos para o Ensino Médio Fabiana Sanches Grecco Bacharela, licenciada e mestra em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp-SP, Marília) Doutora em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp-SP) Experiência no ensino de Sociologia Leandro Galastri Licenciado em Ciências Sociais e mestre e doutor em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp-SP) Professor associado livre-docente na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp-SP) Cassiano Terra Rodrigues Bacharel, licenciado e mestre em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp-SP) Doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Professor do Departamento de Humanidades (IEFH) e coor- denador do grupo de estudos e do laboratório sobre Lógica, Epistemologia e Filosofia da Ciência no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Glaydson José da Silva Bacharel e licenciado em História pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp-SP, Franca) Mestre e doutor em História pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp-SP) Professor do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) FRÔNTIS_OBJ2_CH_IGOR_SCIPIONE_PNLD_2021_VOL_5_MP.indd 1FRÔNTIS_OBJ2_CH_IGOR_SCIPIONE_PNLD_2021_VOL_5_MP.indd 1 26/09/2020 16:2026/09/2020 16:20 2 Presidência: Paulo Serino Direção editorial: Lauri Cericato Gestão de projeto editorial: Heloisa Pimentel Gestão de área: Brunna Paulussi Coordenação de área: Carlos Eduardo de Almeida Ogawa Edição: Fabiana Lima, Patricia Silva Coelho e Tami Buzaite Planejamento e controle de produção: Vilma Rossi e Camila Cunha Revisão: Rosângela Muricy (coord.), Alexandra Costa da Fonseca, Ana Paula C. Malfa, Ana Maria Herrera, Carlos Eduardo Sigrist, Flavia S. Vênezio, Heloísa Schiavo, Hires Heglan, Kátia S. Lopes Godoi, Luciana B. Azevedo, Luís M. Boa Nova, Luiz Gustavo Bazana, Patricia Cordeiro, Patrícia Travanca, Paula T. de Jesus, Sandra Fernandez e Sueli Bossi Arte: Claudio Faustino (ger.), Erika Tiemi Yamauchi (coord.), Simone Zupardo Dias (edição de arte), Estúdio Select (diagramação), Texto e Forma (Manual do Professor) Iconografia e tratamento de imagens: Roberto Silva (coord.), Douglas Cometti (pesquisa iconográfica), Cesar Wolf (tratamento de imagens) Licenciamento de conteúdos de terceiros: Fernanda Carvalho (coord.), Erika Ramires e Márcio Henrique (analistas adm.) Cartografia: Mouses Sagiorato, Ericson Guilherme Luciano e Vespúcio Cartografia Design: Luis Vassallo (proj. gráfico, capa e Manual do Professor) Foto de capa: E+/Getty Images Todos os direitos reservados por Editora Scipione S.A. Avenida Paulista, 901, 4o andar Jardins – São Paulo – SP – CEP 01310-200 Tel.: 4003-3061 www.edocente.com.br atendimento@aticascipione.com.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua - CRB-8/7057 2020 Código da obra CL 719978 CAE 729670 (AL) / 729671 (PR) 1a edição 1a impressão De acordo com a BNCC. Envidamos nossos melhores esforços para localizar e indicar adequadamente os créditos dos textos e imagens presentes nesta obra didática. Colocamo-nos à disposição para avaliação de eventuais irregularidades ou omissões de créditos e consequente correção nas próximas edições. As imagens e os textos constantes nesta obra que, eventualmente, reproduzam algum tipo de material de publicidade ou propaganda, ou a ele façam alusão, são aplicados para fins didáticos e não representam recomendação ou incentivo ao consumo. Impressão e acabamento V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_002_LA.indd 2V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_002_LA.indd 2 26/09/2020 15:0026/09/2020 15:00 Caros estudantes, Esta coleção foi concebida tendo em vista importantes objetivos do novo Ensino Médio: estimular o desenvolvimento de habilidades e competências ca- pazes de auxiliar jovens cidadãos a compreender e agir no mundo de forma democrática, justa e inclusiva; mobilizar as disciplinas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas para auxiliar cada estudante em seu projeto de vida, servindo de instrumento e ferramenta para sua formação básica e também para sua vida futura, incluindo o campo profissional. Para atender a objetivos como esses, esta coleção foi pensada como uma ferramenta ao mesmo tempo facilitadora e instigante, centrada em torno da ideia de ação, da busca curiosa pelo conhecimento, de pedagogias ativas e do trabalho com projetos. A ação só faz sentido se mediada pela realidade social e cultural dos estu- dantes. Por isso, procuramos oferecer uma aprendizagem contextualizada, que integra os saberes e a experiência de vida dos jovens com os temas que serão estudados. Nossa intenção é que cada estudante se torne responsável pela pro- dução do próprio conhecimento. Estruturamos nossa coleção com base nas habilidades de cada uma das competências específicas das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e, por meio delas, trabalhamos também as competências gerais da BNCC. Essa forma de organização levou-nos a sistematizar o conhecimento de forma diferente, bus- cando uma nova estruturação dos saberes no Ensino Médio. Essa sistematiza- ção foi planejada também com base na apropriação interdisciplinar dos temas, de modo a oferecer múltiplas perspectivas sobre os assuntos abordados. Nos seis volumes desta coleção, vamos deparar com temas como as gran- des transformações que marcaram o mundo, a formação de territórios, as re- lações sociais, as configurações do mundo do trabalho, as diversas relações de desigualdade e de poder, além de analisar o desenvolvimento da ciência, da tecnologia e da cultura das sociedades humanas ao longo do tempo. Bons estudos! Os autores Apresenta•‹ o 3 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_003-010.indd3V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_003-010.indd 3 18/09/2020 11:3918/09/2020 11:39 Conheça seu livro Abertura Fornece um panorama dos assuntos que serão abordados no capítulo, destacando as relações entre eles. Ampliando Seção que aprofunda a abordagem de temas relevantes para o capítulo, muitas vezes dialogando com outras áreas do conhecimento. Cenário Nesta seção, há uma introdução aos conteúdos que serão trabalhados e as primeiras reflexões sobre eles. Este livro é composto de seis capítulos temáticos, cada um deles dividido em duas partes. A Parte 1: Conexões é dedicada ao trabalho teórico do conteúdo e à realização de atividades e vivências pontuais. Na Parte 2: Imersão você terá a possibilidade de ampliar o estudo dos quatro Temas do capítulo por meio de projetos. Aqui você encontra os objetivos do estudo e a pertinência desses temas para sua formação. Destaque para as competências e habilidades mobilizadas no capítulo. Reflexões Nesta seção, você vai conhecer, analisar, relacionar, explorar e comparar ideias e fatos a partir da leitura de textos de autores consagrados. 4 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_003-010.indd 4V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_003-010.indd 4 18/09/2020 11:3918/09/2020 11:39 Explorando Esta seção tem a função de consolidar, aprofundar e avaliar o andamento de seus estudos por meio de atividades de leitura, interpretação, análise, pesquisa, etc. Aprimorando o conhecimento Esta seção traz atividades do Enem e de vestibulares, auxiliando você a se preparar para essa etapa de sua vida. Conceito Este boxe apresenta os conceitos centrais do conteúdo estudado e as ideias relacionadas a eles, de modo a aprofundar sua compreensão. Dica Sugestões de livros, sites, filmes e vídeos que podem enriquecer seus conhecimentos sobre o conteúdo estudado. Perfil Neste boxe, destacam-se personalidades relacionadas aos temas apresentados. Nosso percurso até aqui Esta seção encerra o trabalho da Parte 2: Imersão. Nela, você vai refletir sobre o projeto e realizar uma autoavaliação. Ao longo dos capítulos, você também encontra a definição de alguns termos que talvez não conheça, com o objetivo de auxiliar no entendimento dos textos. 5 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_003-010.indd 5V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_003-010.indd 5 18/09/2020 11:3918/09/2020 11:39 O desenvolvimento da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) neste livro A Base Nacional Comum Curricular é o do- cumento oficial que estabelece os parâmetros dos currículos e das propostas pedagógicas das escolas públicas e particulares brasileiras da Educação Bási- ca, que inclui a Educação Infantil, o Ensino Funda- mental e o Ensino Médio. A BNCC procura garantir o direito à educação e ao desenvolvimento integral de todos os estudantes, de modo a contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, democrá- tica e inclusiva. As aprendizagens essenciais são definidas na BNCC por um conjunto de competências e habilidades, apre- sentadas a seguir. Você vai perceber que este livro foi pensado e desenvolvido para que você, de forma crí- tica e responsável, se aproprie de conhecimentos, ati- tudes e valores necessários para participar ativamente da sociedade. Nas páginas 7 a 10, você encontrará as Competên- cias Gerais da Educação Básica e as Competências Es- pecíficas e habilidades da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, destinadas à etapa do Ensino Médio. Nas páginas 11 a 13, estão as competências e habi- lidades das áreas de Ciências da Natureza e suas Tec- nologias e Linguagens e suas Tecnologias para o Ensino Médio que foram mobilizadas neste livro. LEGENDAS CECHS Competência específica de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas CECNT Competência específica de Ciências da Natureza e suas Tecnologias CELGG Competência específica de Linguagens e suas Tecnologias O Ensino Médio é a etapa final da Educação Básica. Uma de suas finalidades é preparar os jovens para o exercício da cidadania, para a construção de uma sociedade justa e democrática e para inserção no mundo do trabalho. Para conhecer o texto completo da BNCC, acesse o site: http://basenacionalcomum.mec.gov.br. Acesso em: 5 ago. 2020. G e tt y I m a g e s /i S to ck p h o to 6 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_003-010.indd 6V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_003-010.indd 6 9/22/20 5:40 PM9/22/20 5:40 PM 1. Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físi- co, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. 2. Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, in- cluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas. 3. Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural. 4. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artís- tica, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao en- tendimento mútuo. 5. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir co- nhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. 6. Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conheci- mentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. 7. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, ne- gociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promo- vam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuida- do de si mesmo, dos outros e do planeta. 8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreenden- do-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas. 9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhi- mento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza. 10. Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resili- ência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráti- cos, inclusivos, sustentáveis e solidários. Competências gerais da Educação Básica 7 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_003-010.indd 7V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_003-010.indd 7 18/09/2020 11:3918/09/2020 11:39 Competências e habilidades de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas para o Ensino Médio CECHS 1. Analisar processos políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais nos âmbitos local, regional, nacional e mundial em diferentes tempos, a partir da pluralidade de procedimentos epistemológicos, cientí- ficos e tecnológicos, de modo a compreender e posicionar-se criticamenteem relação a eles, considerando diferentes pontos de vista e tomando decisões baseadas em argumentos e fontes de natureza científica. (EM13CHS101) Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas lingua- gens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais. (EM13CHS102) Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, coo- perativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a nar- rativas que contemplem outros agentes e discursos. (EM13CHS103) Elaborar hipóteses, selecionar evidências e compor argumentos relativos a processos polí- ticos, econômicos, sociais, ambientais, culturais e epistemológicos, com base na sistematização de dados e informações de diversas naturezas (expressões artísticas, textos filosóficos e sociológicos, documentos histó- ricos e geográficos, gráficos, mapas, tabelas, tradições orais, entre outros). (EM13CHS104) Analisar objetos e vestígios da cultura material e imaterial de modo a identificar conheci- mentos, valores, crenças e práticas que caracterizam a identidade e a diversidade cultural de diferentes socie- dades inseridas no tempo e no espaço. (EM13CHS105) Identificar, contextualizar e criticar tipologias evolutivas (populações nômades e sedentárias, entre outras) e oposições dicotômicas (cidade/campo, cultura/natureza, civilizados/bárbaros, razão/emoção, material/virtual etc.), explicitando suas ambiguidades. (EM13CHS106) Utilizar as linguagens cartográfica, gráfica e iconográfica, diferentes gêneros textuais e tecno- logias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práti- cas sociais, incluindo as escolares, para se comunicar, acessar e difundir informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. CECHS 2. Analisar a formação de territórios e fronteiras em diferentes tempos e espaços, mediante a com- preensão das relações de poder que determinam as territorialidades e o papel geopolítico dos Estados-nações. (EM13CHS201) Analisar e caracterizar as dinâmicas das populações, das mercadorias e do capital nos di- versos continentes, com destaque para a mobilidade e a fixação de pessoas, grupos humanos e povos, em função de eventos naturais, políticos, econômicos, sociais, religiosos e culturais, de modo a compreender e posicionar-se criticamente em relação a esses processos e às possíveis relações entre eles. (EM13CHS202) Analisar e avaliar os impactos das tecnologias na estruturação e nas dinâmicas de grupos, povos e sociedades contemporâneos (fluxos populacionais, financeiros, de mercadorias, de informações, de valores éticos e culturais etc.), bem como suas interferências nas decisões políticas, sociais, ambientais, eco- nômicas e culturais. (EM13CHS203) Comparar os significados de território, fronteiras e vazio (espacial, temporal e cultural) em diferentes sociedades, contextualizando e relativizando visões dualistas (civilização/barbárie, nomadismo/se- dentarismo, esclarecimento/obscurantismo, cidade/campo, entre outras). (EM13CHS204) Comparar e avaliar os processos de ocupação do espaço e a formação de territórios, territo- rialidades e fronteiras, identificando o papel de diferentes agentes (como grupos sociais e culturais, impérios, Estados Nacionais e organismos internacionais) e considerando os conflitos populacionais (internos e exter- nos), a diversidade étnico-cultural e as características socioeconômicas, políticas e tecnológicas. 8 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_003-010.indd 8V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_003-010.indd 8 18/09/2020 11:3918/09/2020 11:39 (EM13CHS205) Analisar a produção de diferentes territorialidades em suas dimensões culturais, econômicas, ambientais, políticas e sociais, no Brasil e no mundo contemporâneo, com destaque para as culturas juvenis. (EM13CHS206) Analisar a ocupação humana e a produção do espaço em diferentes tempos, aplicando os princípios de localização, distribuição, ordem, extensão, conexão, arranjos, casualidade, entre outros que contribuem para o raciocínio geográfico. CECHS 3. Analisar e avaliar criticamente as relações de diferentes grupos, povos e sociedades com a natureza (produção, distribuição e consumo) e seus impactos econômicos e socioambientais, com vistas à proposição de alternativas que respeitem e promovam a consciência, a ética socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional, nacional e global. (EM13CHS301) Problematizar hábitos e práticas individuais e coletivos de produção, reaproveitamento e descarte de resíduos em metrópoles, áreas urbanas e rurais, e comunidades com diferentes características socioeconômicas, e elaborar e/ou selecionar propostas de ação que promovam a sustentabilidade socioam- biental, o combate à poluição sistêmica e o consumo responsável. (EM13CHS302) Analisar e avaliar criticamente os impactos econômicos e socioambientais de cadeias pro- dutivas ligadas à exploração de recursos naturais e às atividades agropecuárias em diferentes ambientes e escalas de análise, considerando o modo de vida das populações locais – entre elas as indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais –, suas práticas agroextrativistas e o compromisso com a sustentabilidade. (EM13CHS303) Debater e avaliar o papel da indústria cultural e das culturas de massa no estímulo ao consu- mismo, seus impactos econômicos e socioambientais, com vistas à percepção crítica das necessidades criadas pelo consumo e à adoção de hábitos sustentáveis. (EM13CHS304) Analisar os impactos socioambientais decorrentes de práticas de instituições governamen- tais, de empresas e de indivíduos, discutindo as origens dessas práticas, selecionando, incorporando e promo- vendo aquelas que favoreçam a consciência e a ética socioambiental e o consumo responsável. (EM13CHS305) Analisar e discutir o papel e as competências legais dos organismos nacionais e internacio- nais de regulação, controle e fiscalização ambiental e dos acordos internacionais para a promoção e a garantia de práticas ambientais sustentáveis. (EM13CHS306) Contextualizar, comparar e avaliar os impactos de diferentes modelos socioeconômicos no uso dos recursos naturais e na promoção da sustentabilidade econômica e socioambiental do planeta (como a adoção dos sistemas da agrobiodiversidade e agroflorestal por diferentes comunidades, entre outros). CECHS 4. Analisar as relações de produção, capital e trabalho em diferentes territórios, contextos e culturas, discutindo o papel dessas relações na construção, consolidação e transformação das sociedades. (EM13CHS401) Identificar e analisar as relações entre sujeitos, grupos, classes sociais e sociedades com cultu- ras distintas diante das transformações técnicas, tecnológicas e informacionais e das novas formas de trabalho ao longo do tempo, em diferentes espaços (urbanos e rurais) e contextos. (EM13CHS402) Analisar e comparar indicadores de emprego, trabalho e renda em diferentes espaços, esca- las e tempos, associando-os a processos de estratificação e desigualdade socioeconômica. (EM13CHS403) Caracterizar e analisar os impactos das transformações tecnológicas nas relações sociais e de trabalho próprias da contemporaneidade, promovendo ações voltadas à superação das desigualdades sociais, da opressão e da violação dos Direitos Humanos. (EM13CHS404) Identificar e discutir os múltiplos aspectos do trabalho em diferentes circunstâncias e con- textos históricos e/ou geográficos e seus efeitos sobre as gerações, em especial, os jovens, levando em consi- deração, na atualidade, as transformações técnicas, tecnológicase informacionais. 9 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_003-010.indd 9V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_003-010.indd 9 18/09/2020 11:3918/09/2020 11:39 CECHS 5. Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos. (EM13CHS501) Analisar os fundamentos da ética em diferentes culturas, tempos e espaços, identificando processos que contribuem para a formação de sujeitos éticos que valorizem a liberdade, a cooperação, a au- tonomia, o empreendedorismo, a convivência democrática e a solidariedade. (EM13CHS502) Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais. (EM13CHS503) Identificar diversas formas de violência (física, simbólica, psicológica etc.), suas principais víti- mas, suas causas sociais, psicológicas e afetivas, seus significados e usos políticos, sociais e culturais, discutindo e avaliando mecanismos para combatê-las, com base em argumentos éticos. (EM13CHS504) Analisar e avaliar os impasses ético-políticos decorrentes das transformações culturais, so- ciais, históricas, científicas e tecnológicas no mundo contemporâneo, e seus desdobramentos nas atitudes e nos valores de indivíduos, grupos sociais, sociedades e culturas. CECHS 6. Participar do debate público de forma crítica, respeitando diferentes posições e fazendo escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. (EM13CHS601) Identificar e analisar as demandas e os protagonismos políticos, sociais e culturais dos povos indígenas e das populações afrodescendentes (incluindo as quilombolas) no Brasil contemporâneo conside- rando a história das Américas e o contexto de exclusão e inclusão precária desses grupos na ordem social e econômica atual, promovendo ações para a redução das desigualdades étnico-raciais no país. (EM13CHS602) Identificar e caracterizar a presença do paternalismo, do autoritarismo e do populismo na política, na sociedade e nas culturas brasileira e latino-americana, em períodos ditatoriais e demo- cráticos, relacionando-os com as formas de organização e de articulação das sociedades em defesa da autonomia, da liberdade, do diálogo e da promoção da democracia, da cidadania e dos direitos humanos na sociedade atual. (EM13CHS603) Analisar a formação de diferentes países, povos e nações e de suas experiências políticas e de exercício da cidadania, aplicando conceitos políticos básicos (Estado, poder, formas, sistemas e regimes de governo, soberania etc.). (EM13CHS604) Discutir o papel dos organismos internacionais no contexto mundial, com vistas à elabo- ração de uma visão crítica sobre seus limites e suas formas de atuação nos países, considerando os aspectos positivos e negativos dessa atuação para as populações locais. (EM13CHS605) Analisar os princípios da declaração dos Direitos Humanos, recorrendo às noções de justiça, igualdade e fraternidade, identificar os progressos e entraves à concretização desses direitos nas diversas so- ciedades contemporâneas e promover ações concretas diante da desigualdade e das violações desses direitos em diferentes espaços de vivência, respeitando a identidade de cada grupo e de cada indivíduo. (EM13CHS606) Analisar as características socioeconômicas da sociedade brasileira – com base na análise de documentos (dados, tabelas, mapas etc.) de diferentes fontes – e propor medidas para enfrentar os proble- mas identificados e construir uma sociedade mais próspera, justa e inclusiva, que valorize o protagonismo de seus cidadãos e promova o autoconhecimento, a autoestima, a autoconfiança e a empatia. 10 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_003-010.indd 10V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_003-010.indd 10 18/09/2020 11:3918/09/2020 11:39 Ciências da Natureza e suas Tecnologias: competências específicas e habilidades presentes neste volume CECNT1: Analisar fenômenos naturais e pro- cessos tecnológicos, com base nas interações e relações entre matéria e energia, para propor ações individuais e coletivas que aperfeiçoem processos produtivos, minimizem impactos socioambientais e melhorem as condições de vida em âmbito local, regional e global. (EM13CNT103) Utilizar o conhecimento sobre as radiações e suas origens para avaliar as potencialidades e os riscos de sua aplicação em equipamen- tos de uso cotidiano, na saúde, no ambiente, na indústria, na agricultura e na geração de energia elétrica. (EM13CNT104) Avaliar os benefícios e os riscos à saúde e ao ambiente, considerando a composição, a toxicidade e a reatividade de diferentes ma- teriais e produtos, como também o nível de exposição a eles, posicionan- do-se criticamente e propondo soluções individuais e/ou coletivas para seus usos e descartes responsáveis. CECNT2: Analisar e utilizar interpretações so- bre a dinâmica da Vida, da Terra e do Cosmos para elaborar argumentos, realizar previsões sobre o funcionamento e a evolução dos seres vivos e do Universo, e fundamentar e defender decisões éticas e responsáveis. (EM13CNT202) Analisar as diversas formas de manifestação da vida em seus diferentes níveis de organização, bem como as condições ambientais favoráveis e os fatores limitantes a elas, com ou sem o uso de dispositivos e aplicativos digitais (como softwares de simulação e de realidade virtual, entre outros). (EM13CNT203) Avaliar e prever efeitos de intervenções nos ecossistemas, e seus impactos nos seres vivos e no corpo humano, com base nos mecanismos de manutenção da vida, nos ciclos da matéria e nas transformações e transfe- rências de energia, utilizando representações e simulações sobre tais fatores, com ou sem o uso de dispositivos e aplicativos digitais (como softwares de simulação e de realidade virtual, entre outros). (EM13CNT206) Discutir a importância da preservação e conservação da bio- diversidade, considerando parâmetros qualitativos e quantitativos, e avaliar os efeitos da ação humana e das políticas ambientais para a garantia da sustenta- bilidade do planeta. (EM13CNT207) Identificar, analisar e discutir vulnerabilidades vinculadas às vivências e aos desafios contemporâneos aos quais as juventudes estão expos- tas, considerando os aspectos físico, psicoemocional e social, a fim de desen- volver e divulgar ações de prevenção e de promoção da saúde e do bem-estar. CECNT3: Investigar situações-problema e ava- liar aplicações do conhecimento científico e tecnológico e suas implicações no mundo, utili- zando procedimentos e linguagens próprios das Ciências da Natureza, para propor soluções que considerem demandas locais, regionais e/ou glo- bais, e comunicar suas descobertas e conclusões a públicos variados, em diversos contextos e por meio de diferentes mídias e tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC). (EM13CNT302) Comunicar, para públicos variados, em diversos contextos, resultados de análises, pesquisas e/ou experimentos, elaborando e/ou inter- pretando textos, gráficos, tabelas, símbolos, códigos, sistemas de classificação e equações, por meio de diferentes linguagens, mídias, tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC), de modo a participar e/ou promover deba- tes em torno de temas científicos e/ou tecnológicos de relevância sociocultural e ambiental. (EM13CNT303) Interpretar textos de divulgação científica que tratem de temá- ticas das Ciências da Natureza, disponíveis em diferentes mídias, considerando a apresentação dos dados, tanto na forma de textos como em equações, gráficos e/ou tabelas, a consistência dos argumentos e a coerência das conclusões, visandoconstruir estratégias de seleção de fontes confiáveis de informações. 11 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_011-015.indd 11V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_011-015.indd 11 18/09/2020 11:4018/09/2020 11:40 CECNT3: Investigar situações-problema e ava- liar aplicações do conhecimento científico e tecnológico e suas implicações no mundo, utili- zando procedimentos e linguagens próprios das Ciências da Natureza, para propor soluções que considerem demandas locais, regionais e/ou glo- bais, e comunicar suas descobertas e conclusões a públicos variados, em diversos contextos e por meio de diferentes mídias e tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC). (EM13CNT304) Analisar e debater situações controversas sobre a aplicação de conhecimentos da área de Ciências da Natureza (tais como tecnologias do DNA, tratamentos com células-tronco, neurotecnologias, produção de tecno- logias de defesa, estratégias de controle de pragas, entre outros), com base em argumentos consistentes, legais, éticos e responsáveis, distinguindo diferentes pontos de vista. (EM13CNT305) Investigar e discutir o uso indevido de conhecimentos das Ciências da Natureza na justificativa de processos de discriminação, segregação e privação de direitos individuais e coletivos, em diferentes contextos sociais e históricos, para promover a equidade e o respeito à diversidade. (EM13CNT309) Analisar questões socioambientais, políticas e econômicas relativas à dependência do mundo atual em relação aos recursos não renová- veis e discutir a necessidade de introdução de alternativas e novas tecnologias energéticas e de materiais, comparando diferentes tipos de motores e proces- sos de produção de novos materiais. (EM13CNT310) Investigar e analisar os efeitos de programas de infraestru- tura e demais serviços básicos (saneamento, energia elétrica, transporte, tele- comunicações, cobertura vacinal, atendimento primário à saúde e produção de alimentos, entre outros) e identificar necessidades locais e/ou regionais em relação a esses serviços, a fim de avaliar e/ou promover ações que contribuam para a melhoria na qualidade de vida e nas condições de saúde da população. Linguagens e suas Tecnologias: competências específicas e habilidades presentes neste volume CELGG1: Compreender o funcionamento das diferentes linguagens e práticas culturais (artís- ticas, corporais e verbais) e mobilizar esses co- nhecimentos na recepção e produção de dis- cursos nos diferentes campos de atuação social e nas diversas mídias, para ampliar as formas de participação social, o entendimento e as possi- bilidades de explicação e interpretação crítica da realidade e para continuar aprendendo. (EM13LGG101) Compreender e analisar processos de produção e circu- lação de discursos, nas diferentes linguagens, para fazer escolhas funda- mentadas em função de interesses pessoais e coletivos. (EM13LGG102) Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, pre- conceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes mídias, ampliando suas possibilidades de explicação, interpretação e in- tervenção crítica da/na realidade. (EM13LGG103) Analisar o funcionamento das linguagens, para inter- pretar e produzir criticamente discursos em textos de diversas semioses (visuais, verbais, sonoras, gestuais). (EM13LGG104) Utilizar as diferentes linguagens, levando em conta seus funcionamentos, para a compreensão e produção de textos e discursos em diversos campos de atuação social. (EM13LGG105) Analisar e experimentar diversos processos de remidia- ção de produções multissemióticas, multimídia e transmídia, desenvol- vendo diferentes modos de participação e intervenção social. 12 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_011-015.indd 12V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_011-015.indd 12 18/09/2020 11:4018/09/2020 11:40 CELGG2: Compreender os processos identitá- rios, conflitos e relações de poder que permeiam as práticas sociais de linguagem, respeitando as diversidades e a pluralidade de ideias e posições, e atuar socialmente com base em princípios e valores assentados na democracia, na igualdade e nos Direitos Humanos, exercitando o autoco- nhecimento, a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, e combatendo precon- ceitos de qualquer natureza. (EM13LGG202) Analisar interesses, relações de poder e perspectivas de mundo nos discursos das diversas práticas de linguagem (artísticas, cor- porais e verbais), compreendendo criticamente o modo como circulam, constituem-se e (re)produzem significação e ideologias. CELGG3: Utilizar diferentes linguagens (artísti- cas, corporais e verbais) para exercer, com au- tonomia e colaboração, protagonismo e auto- ria na vida pessoal e coletiva, de forma crítica, criativa, ética e solidária, defendendo pontos de vista que respeitem o outro e promovam os Direitos Humanos, a consciência socioambien- tal e o consumo responsável, em âmbito local, regional e global. (EM13LGG302) Posicionar-se criticamente diante de diversas visões de mundo presentes nos discursos em diferentes linguagens, levando em conta seus contextos de produção e de circulação. (EM13LGG303) Debater questões polêmicas de relevância social, ana- lisando diferentes argumentos e opiniões, para formular, negociar e sus- tentar posições, frente à análise de perspectivas distintas. CELGG7: Mobilizar práticas de linguagem no universo digital, considerando as dimensões técnicas, críticas, criativas, éticas e estéticas, para expandir as formas de produzir sentidos, de engajar-se em práticas autorais e coletivas, e de aprender a aprender nos campos da ciência, cultura, trabalho, informação e vida pessoal e coletiva. (EM13LGG702) Avaliar o impacto das tecnologias digitais da informa- ção e comunicação (TDIC) na formação do sujeito e em suas práticas sociais, para fazer uso crítico dessa mídia em práticas de seleção, com- preensão e produção de discursos em ambiente digital. (EM13LGG703) Utilizar diferentes linguagens, mídias e ferramentas digi- tais em processos de produção coletiva, colaborativa e projetos autorais em ambientes digitais. Fonte: BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 5 ago. 2020. 13 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_011-015.indd 13V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_011-015.indd 13 18/09/2020 11:4018/09/2020 11:40 Sumário Introdução 15 CAPÍTULO 1 O que são e como surgiram os Estados nacionais? 16 PARTE 1: CONEXÕES Tema 1. Estado, dominação e poder ................................................... 19 Tema 2. Contratualismo: estado de natureza e estado civil ................................................................................................................. 22 Tema 3. Estado e política no século XX .......................................... 26 Tema 4. Para que serve a participação política?....................... 31 PARTE 2: IMERSÃO Exercendo a cidadania: o que acontece à sua volta? ......................................................................................................................... 34 CAPÍTULO 2 Por que algumas pessoas são vistas como mercadorias? 40 PARTE 1: CONEXÕES Tema 1. Origens da economia escravista moderna .............. 43 Tema 2. Regimes escravistas nas Américas ................................... 46 Tema 3. Resistência e movimento negro ........................................ 49 Tema 4. População indígena na América Latina ...................... 54 PARTE 2: IMERSÃO Resistência popular: passado e presente ........................................ 60 CAPÍTULO 3 Quem ganhou com a independência? 64 PARTE 1: CONEXÕES Tema 1. Dinâmicas da escravidão e atores sociais dos processos de independência ........................................................................67 Tema 2. A abolição resolve o problema de quem? ................ 72 Tema 3. A lenta substituição do trabalho escravo ............... 76 Tema 4. O racismo como instituição estruturante da sociedade brasileira ....................................................................................... 80 PARTE 2: IMERSÃO Reflexões sobre a branquitude................................................................... 84 CAPÍTULO 4 Qual é a relação entre autoritarismo, opressão e desigualdade? 88 PARTE 1: CONEXÕES Tema 1. Ditadura e desigualdade............................................................ 91 Tema 2. Fascismo e desigualdade social ........................................... 96 Tema 3. O que é o totalitarismo? ........................................................... 100 Tema 4. O neoliberalismo e a nova subjetividade .................. 104 PARTE 2: IMERSÃO Reconhecendo formas autoritárias de governo ........................ 109 CAPÍTULO 5 O que é a democracia e como preservá-la? 112 PARTE 1: CONEXÕES Tema 1. A ideia de democracia ................................................................. 115 Tema 2. Democracia e direitos humanos........................................ 119 Tema 3. Democracia e cidadania: direitos civis, políticos e sociais .................................................................................................... 123 Tema 4. A democracia no mundo: sistemas de governo.............................................................................................. 127 PARTE 2: IMERSÃO Compreendendo a democracia ................................................................ 132 CAPÍTULO 6 Qual é a democracia do Brasil? 136 PARTE 1: CONEXÕES Tema 1. Democracia e autoritarismo no Brasil ......................... 139 Tema 2. A democracia é sempre democrática? ........................ 144 Tema 3. Direitos sociais e desigualdade no Brasil ................... 147 Tema 4. Economia e mercado de trabalho .................................... 150 PARTE 2: IMERSÃO Formas de debate e democracia nas mídias sociais .............. 154 Referências bibliográficas 158 14 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_011-015.indd 14V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_011-015.indd 14 18/09/2020 11:4018/09/2020 11:40 Neste volume, vamos analisar o que é poder e a associação histórica que existe entre ele e os diversos tipos de desigualdade. Vamos refletir sobre problemas políticos e sociais e, igualmente, vislumbrar possibilidades de combatê-los, favorecendo nossos projetos de vida individual e coletivo. Iniciaremos nossa abordagem pelas origens das modernas relações de poder, que se estabelece- ram ao mesmo tempo que o capitalismo. Veremos como o capitalismo promoveu a mercantilização não apenas de coisas, mas também de pessoas. Estudaremos os aspectos que conectam o autoritarismo estatal (ditaduras militares e fascismos diversos) com as diferentes opressões (racismo, machismo, homofobia...) e com as desigualdades sociais (pobreza, deficit de moradias, analfabetismo...). Vamos analisar a importância dos valores democráticos para evitar ou diminuir esses problemas. Também articularemos algumas categorias centrais para as Ciências Humanas: tempo e espaço, territórios e fronteiras, indivíduo, natureza, cultura e ética – todas elas interligadas a discussões so- bre as relações sociais, políticas, de convivência democrática e com o meio ambiente. A competência geral 6 é a mais importante neste volume, pois nele trabalharemos mais direta- mente o exercício da cidadania, que possibilitará a você fazer escolhas e vislumbrar um projeto de vida com liberdade, autonomia e consciência crítica. Vamos mobilizar, por exemplo, as habilidades EM13CHS502, EM13CHS504, EM13CHS602 e EM13CHS605, relacionadas às competências específi- cas 5 e 6 de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, que têm como objetivo identificar e combater as diversas formas de injusti- ça, preconceito e violência e promover a participação no debate público de for- ma crítica, respeitando diferentes posições e fa- zendo escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e res- ponsabilidade. Introdu•‹o Neste volume você vai discutir importantes Temas Contemporâneos Transversais (TCTs) sugeridos pela BNCC, como trabalho, saúde, diversidade cultural, educação em direitos humanos e educação das relações étnico-raciais e ensino de história e cultura afro-brasileira, africana e indígena. Apenas instituições democráticas podem garantir os diferentes direitos da cidadania, promovendo igualdade política e social e oportunidades iguais para todos. C h in n a p o n g /S h u tt e rs to ck 15 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_011-015.indd 15V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc__Iniciais_011-015.indd 15 18/09/2020 11:4018/09/2020 11:40 CAP ÍTU LO 1 CAP ÍTU LO A política deve ser entendida em sua vinculação com o poder. Isso significa que não é possível refletir sobre a política sem considerar certas relações que se expressam de várias formas na sociedade: entre governantes e governados, entre soberanos e súditos, entre Estado e cidadãos, entre autoridade e obediência, entre os representantes do poder e as pessoas comuns. Por esse motivo, a política faz parte da vida de todas as pessoas. Qual é a origem do poder político em nossa sociedade? Por que o Estado existe e por que somos obrigados a obedecer às regras impostas por ele? A rainha Elizabeth II (1926-) discursa durante a Cerimônia de Abertura do Parlamento – que marca o início do ano parlamentar no Reino Unido. O Reino Unido é uma monarquia constitucional, em que o Poder Executivo é composto por um conselho de ministros. O primeiro-ministro é o chefe do Poder Executivo, a rainha é a chefe de Estado. Fotografia de 2019. Sessão deliberativa ocorrida em 3 de abril de 2020, no Senado Federal, em Brasília (DF). Durante essa sessão os senadores discutiram questões orçamentárias do país. O Senado, assim como a Câmara dos Deputados, faz parte do Poder Legislativo federal. H a n n a h M c K a y /W P A P o o l/ G e tt y I m a g e s Mateus Bonomi/AGIF/Agência France-Presse 16 O que são e como surgiram os Estados nacionais?11 E st a d o s n a ci o n a is ? O q u e s ã o e c o m o s u rg ir a m o s E st a d o s n a ci o n a is ? O q u e s 16 su rg ir a m o s E st a d o s n a ci o n a is ? O q u e s ã o e c o m o s u rg ir a m o s E st a d o s n a ci o n a is ? O q u e s ã o e c o m o s u rg ir a m o s E st a d o s n a ci o n a is ? O q u e s ã o e c o m V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 16V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 16 18/09/2020 11:4018/09/2020 11:40 V ic to r B u lla /S p u tn ik /B ri d g e m a n /F o to a re n a Milhares de estudantes e professores reunidos em manifestação ocorrida em 15 de maio de 2019, em São Paulo (SP), protestam contra cortes orçamentários que o governo federal queria impor à educação no país. Operários reunidos na fábrica Putilov, em Petrogrado (atual São Petersburgo, Rússia), para eleição dos membros do Soviete de Petrogrado durante a Revolução Russa. Fotografia de 1920. Não são apenas o Estado e as suas instituições que participam da política. As pessoas comuns, quando votam ou se organizam em grupos como sindicatos, partidos, associações estudantis e movimentos sociais, por exemplo, também estão exercendo seus direitos políticos. Por esse motivo, os tais direitos costumam ser os primeiros alvos de governos autoritários e ditatoriais. Milhares de estudantes e professores reunidos em manifestação ocorrida em 15 de maio de 2019, em São Paulo (SP), protestam contra cortes orçamentários que o governo federal queria impor àeducação no país. No século XX ocorreram importantes revoluções e as duas grandes guerras mundiais, eventos que moldaram o mundo e a política do século XXI. Apesar do avanço da democracia nas últimas décadas, podemos dizer que, sob vários aspectos, os direitos políticos dos cidadãos continuam ameaçados, tornando essencial o papel dos movimentos sociais e de outras formas de organização política no combate a essas ameaças. Nelson Almeida/Agência France-Presse 1717 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 17V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 17 18/09/2020 11:4018/09/2020 11:40 Cenário Capitalismo, Estado, poder O modo de produção capitalista desenvol- veu-se ao mesmo tempo que o Estado moder- no, em uma relação de dependência recíproca. O Estado moderno consolidou-se a partir do sé- culo XV, com o fim da época medieval europeia, quando passou a organizar-se como um conjun- to de instituições da burocracia governamental apoiado por uma força militar profissional. O Es- tado é caracterizado, assim, por formas de domí- nio que facilitam o governo de um determinado grupo sobre um determinado território. Essas formas de domínio apoiam-se em leis e regras sociais que são amparadas pela capacida- de dos governos de utilizar a força militar-policial para colocar suas políticas em prática. Essa capa- cidade de alcançar os próprios objetivos com o uso privilegiado da força e da violência pode ser chama- da de poder. Os demais grupos organizados em uma sociedade são capazes de resistir de forma mais ou menos eficaz para proteger ou viabilizar também os seus objetivos perante aquele que comanda o Estado, organizando, por exemplo, movimentos sociais populares. Rei Luís XII, da França, cavalgando com seu exército para atacar a cidade de Gênova (Itália), em 1507. Antes da profissionalização das Forças Armadas, a guerra era uma atividade reservada à nobreza. Litografia colorida a partir de miniatura de Jean Marot. é que o estudo delas se justifica de forma clara. A partir desse estudo, é possível compreender concretamente a importância do voto e de outras formas de participação política, assim como o interesse nos rumos da política regional, nacional e internacional. COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DA BNCC • Competências gerais da Educação Básica: 1, 4, 5 e 10. • Competências específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: 2 e 6. • Habilidades de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: EM13CHS204, EM13CHS602 e EM13CHS603. • Competência específica de Linguagens e suas Tecnologias: 2. • Habilidade de Linguagens e suas Tecnologias: EM13LGG202. • Competência de Ciências da Natureza e suas Tecnologias: 3. • Habilidade de Ciências da Natureza e suas Tecnologias: EM13CNT304. OBJETIVOS E JUSTIFICATIVAS Este capítulo tem como objetivo produzir uma reflexão sobre o Estado, a política, o poder político e as formas de participação política e social dos cidadãos. Pretende também incentivar a curiosidade a respeito da cidadania. Nele serão apresentadas as principais ideias e teorias políticas que estão nos fundamentos da construção dos Estados modernos e de suas instituições. Entender um pouco como se constituiu o pensamento político moderno e os Estados modernos nos permite entender, também, as resistências a essa forma de organização (como as que ocorreram em diferentes revoluções, por exemplo), os conflitos internacionais e, por fim, como se pode aperfeiçoar a própria participação democrática e cidadã e as formas de fazer política. Ao longo deste capítulo será apresentada uma ideia de política que procura deixar evidente como ela permeia a vida cotidiana de todos nós. Apenas compreendendo como as relações políticas envolvem tudo o que fazemos e somos em sociedade • Que tipo de ideias ajudaram a justificar e aperfeiçoar o Estado? • Atualmente, por que poder e Estado estão interligados? • Como as leis são constituídas e quais são as relações entre as leis e o Estado? • É útil interessar-se por política? Você acha que pode fazer política? De que maneira? • Você acha que as decisões políticas interferem em sua vida cotidiana? Por quê? P ri n t C o lle c to r/ G e tt y I m a g e s NÃO ESCREVA NO LIVRO Professor, no Manual você encontra orientações sobre estas atividades. E st a d o s n a ci o n a is ? O q u e s ã o e c o m o s u rg ir a m o s E st a d o s n a ci o n a is ? O q u e s su rg ir a m o s E st a d o s n a ci o n a is ? O q u e s ã o e c o m o s u rg ir a m o s E st a d o s n a ci o n a is ? O q u e s ã o e c o m o s u rg ir a m o s E st a d o s n a ci o n a is ? O q u e s ã o e c o m 18 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 18V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 18 18/09/2020 11:4018/09/2020 11:40 TEMA 1 Estado, dominação e poder Para entendermos a forma como os Estados e a política institucional funcionam no mundo contem- porâneo, é essencial recorrermos a dois pensadores muito importantes, ainda que ambos estejam bastante distanciados no tempo: o italiano Nicolau Maquiavel (1469-1527) e o alemão Max Weber (1864-1920). As ideias propostas por eles são fundamentais para com- preendermos as bases do pensamento político que resultou na organização dos Estados modernos como nós conhecemos. Os professores de Filoso� a e de História são indicados, priorita- riamente, para o trabalho deste segmento. O pensamento de Nicolau Maquiavel A obra principal de Nicolau Maquiavel é O príncipe, de 1513, na qual o autor descreve como um governan- te deveria agir para conseguir estabilidade no poder. Maquiavel foi um funcionário diplomático de Florença entre 1498 e 1512, e, na época em que escreveu seu livro, a Itália não era um país unificado, como o que vemos nos mapas atuais. A península Itálica, naquele período, abri- gava diversos territórios autônomos, cujos governantes se alternavam no poder em meio a sucessivas guerras. Em O príncipe, Maquiavel indica um conjunto de providências que um governante poderia implemen- tar para criar um Estado forte e durável diante do cenário de fragmentação e de disputas políticas que existia naquele momento. Desse modo, o príncipe poderia criar um principado forte e unificar territorial- mente toda a península Itálica. Maquiavel não viveu para ver esse sonho realizado. A Itália seria unificada como Estado-nação apenas em 1870. PARTE 1 CONEXÕES Itália: unidades político-territoriais –1454 40° N 10° L ZALICA AÚBLICA DE VENEZALICA ALICA ALICA AZAZZAAAAREEPÚEEE Ú REPÚBLICAA DE GÊNOVAVA 9 1 1 2222222 5 444 3 68 LICAREPÚBLLLL ENÇADE FLORENENENEN FL EPÚBLICAREE DE SIENAD REPÚBLICAAPÚ AAPÚ AAAA DE RAGUSA 7 SESTADOSSSS FÍCIOSPONTIFÍCFÍFÍCFÍCPO SSS OODUCADOOOOOOOOOOOO ADE SABOIAAA OOOODUCADOO ÃODDE MILÃODDD ÃO REINO DAS DUAS SICÍLIAS Mar Mediterrâneo Mar Tirreno Mar Jônico M ar A d riático 1 – Marquesado de Monferrato 2 – Condado de Asti 3 – Marquesado de Mântua 4 – República de Luca 5 – Ducado de Módena 6 – Ducado de Ferrara 7 – Ducado de Piombino 8 – Marquesado de Saluzzo 9 – Ventimiglia 0 135 km Fonte: elaborado com base em DUBY, Georges. Atlas histórico mundial: la historia del mundo en 317 mapas. Barcelona: Debate, 1987. p. 151. E ri c s o n G u ilh e rm e L u c ia n o /A rq u iv o d a e d it o ra E ri c s o n G u ilh e rm e L u c ia n o /A rq u iv o d a e d it o ra Itália: divisão política – atual Fonte: elaborado com base em U.S. CENTRAL INTELLIGENCE AGENCY. Italy: Administrative Divisions 2006. Perry-Castañeda Library Map Collection, University of Texas Libraries. 40° N 10° L M ar Adriático Mar Tirreno Mar Mediterrâneo Mar Jônico Turim Aosta VALE DA AOSTA PIEMONTE EMÍLIA-ROMANHA TOSCANA MARCAS ABRUZOS MOLISE CAMPÂNIA ÚMBRIA LÁCIO LOMBARDIA FRANÇA CROÁCIA SUÍÇA ÁUSTRIA BÓSNIA-HERZEGOVINA TRENTINO-ALTOÁDIGE FRIUL-VENEZA JÚLIA VÊNETO LIGÚRIA Milão Gênova Bolonha Florença Veneza Trieste Trento Ancona Perúgia Roma Cagliari VATICANO SARDENHA Áquila Campobasso Nápoles Bari Potenza APÚLIA BASILICATA CALÁBRIA SICÍLIA MALTA Catanzaro Palermo Limite regional Capital regional Limite internacional Capital de país 0 135 km ÁUSTRIA FRIUL-VENEZA 19 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 19V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 19 18/09/2020 11:4018/09/2020 11:40 Principais ideias Para Maquiavel, os príncipes, como todos os seres humanos, estariam expostos às circunstâncias aleatórias do destino, as quais o autor chamava de fortuna. A for- tuna poderia ser aproveitada de uma maneira melhor ou pior, conforme as qualida- des de cada um, a capacidade que tinha de agir no momento correto ou, ainda, de acordo com a própria virtude. Portanto, o príncipe poderia conduzir bem ou mal as oportunidades que se lhe apresentassem conforme ele fosse mais ou menos po- liticamente virtuoso, ou seja, à medida que ele soubesse agir com maior ou menor perspicácia (virtude), sempre mantendo-se atento ao seu objetivo: a consolidação e a reprodução do próprio poder. Uma das principais dificuldades que Maquiavel via para a consolidação do poder nos principados era a inexistência de exércitos nacionais permanentes e profissio- nais. Nos principados italianos era comum, à época, a contratação de milícias. Ou seja, os soldados eram contratados de forma particular para cumprir objetivos específicos, como golpes ou contragolpes, e tais exércitos eram imediatamente desmobilizados quando os objetivos do príncipe que os contratara eram atingidos, ficando este, por- tanto, desguarnecido militarmente. É a partir dessa constatação que Maquiavel deu início a uma das mais importantes questões da política moderna: a criação de exérci- tos profissionais e permanentes como garantia armada do poder do Estado. Esses exércitos permanentes eram, em termos gerais, forças armadas que deti- nham funções como as que conhecemos nas formas militares atuais, com carreiras profissionais para os seus integrantes e a missão principal de defender as fronteiras do país do qual fazem parte. Da crueldade e da piedade, e se é melhor ser amado que temido Reflex›es NÃO ESCREVA NO LIVROProfessor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. volúvel: aquele cujo ponto de vista muda a todo instante. Daí nasce uma controvérsia, qual seja: se é melhor ser amado ou temido. Pode-se responder que todos gostariam de ser ambas as coisas; po- rém, como é difícil conciliá-las, é bem mais se- guro ser temido que amado, caso venha a faltar uma das duas. Porque, de modo geral, pode-se dizer que os homens são ingratos, volúveis, fin- gidos e dissimulados, avessos ao perigo, ávidos de ganhos; assim, enquanto o príncipe agir com benevolência, eles se doarão inteiros, lhes ofe- recerão o próprio sangue, os bens, a vida e os filhos, mas só nos períodos de bonança, como se disse mais acima; entretanto, quando surgirem as dificuldades, eles passarão à revolta, e o príncipe que confiar inteiramente na palavra deles se ar- ruinará ao ver-se despreparado para os reveses. Pois as amizades que se conquistam a pagamento, e não por grandeza e nobreza de espírito, são me- recidas, mas não se podem possuir nem gastar em tempos adversos; de resto, os homens têm menos escrúpulos em ofender alguém que se faça amar a outro que se faça temer: porque o amor é mantido por um vínculo de reconhecimento, mas como os homens são maus, se aproveitam da primeira oca- sião para rompê-lo em benefício próprio, ao pas- so que o temor é mantido pelo medo da punição, o qual não esmorece nunca. MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Trad. Maurício Santana Dias. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010. p. 102. 1. Explique qual é a principal ideia que Maquiavel expõe no texto acima. De que modo essa ideia se relaciona às questões da política moderna? 2. Neste trecho, Maquiavel apresenta uma opinião particular sobre a natureza humana. Identifique qual é essa opinião e redija um texto argumen- tando se você concorda com ela e por quê. Dica A série Os Bórgias retra- ta as guerras entre os principados italianos da época do Renascimento por meio da história da família Bórgia – uma das mais influentes daquele período –, em especial, a partir da figura de Ro- drigo Bórgia – que se tornou o papa Alexan- dre VI – e de seus filhos, entre os quais, César Bórgia, nobre nomeado cardeal que se tornou príncipe e foi assesso- rado militarmente pelo próprio Maquiavel. Os Bórgias. Direção: Neil Jordan. Canadá, Irlan- da, Hungria: Showtime, 2011-2013 (1 487 min). Classificação indicativa: 16 anos. 20 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 20V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 20 18/09/2020 11:4018/09/2020 11:40 O pensamento de Max Weber Max Weber foi um pensador alemão que se destacou, assim como o francês Émile Durkheim (1858-1917) e o alemão Karl Marx (1818-1883), por desenvolver algumas das bases daquilo que depois se tornaria a Sociologia (como Ciência). O Estado nacional alemão é, ao mesmo tempo, a referência central e o pano de fundo das análises weberianas. Nos anos em que ele viveu, a Alemanha era relativa- mente recém-unificada – o que ocorreu no ano de 1871. O primeiro mapa abaixo representa o conjunto dos territórios germânicos antes da unificação alemã. De forma parecida com o caso da Itália, cada região delimitada possuía um governo autônomo. Os professores de Sociologia, de História e de Geogra� a são indica- dos, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. Principais ideias Para Weber, a política referia-se ao conjunto de esforços feitos com o objetivo de participar do po- der ou de influenciar a divisão do poder. Esse po- der pode ser exercido entre Estados ou no interior de um único Estado. O território é um dos ele- mentos essenciais do Estado. Já o Estado é definido como uma comunidade humana que, dentro dos limites de um determinado território, reivindica o monopólio do uso legítimo da violência física. Na prática, isso significa que somente o Estado pode utilizar legalmente a violência física para obri- gar as pessoas, ou os grupos sociais, a fazer ou deixar de fazer qualquer coisa. A violência seria o último nível de atuação do Estado para fazer cumprir as leis. Hoje em dia, por exemplo, o emprego da força é compreendido como tarefa dos diferentes tipos de polícia (federal, estadual, municipal) e das Forças Ar- madas (Exército, Marinha e Aeronáutica). Ainda que se mantenha, em última instância, pela força, o poder de um Estado precisa ser legí- timo, ou seja, ter uma razão, de modo a ser aceito pelas pessoas que o formam. Para Weber, há três ti- pos principais de dominação aceitos pela sociedade: • dominação tradicional – em que as pessoas obedecem ao governante por causa do costu- me, de seus antepassados, pela tradição, por fidelidade a uma família; • dominação carismática – em que as pesso- as obedecem ao governante por causa de uma devoção afetiva a ele ou por supostas capaci- dades sobrenaturais, de heroísmo, pelo poder intelectual ou de oratória; • dominação racional-legal (ou burocrática) – em que as pessoas obedecem ao governante porque as leis, a Constituição e as normas vi- gentes assim determinam. Alemanha: etapas da unificação – 1819-1871 10° L 50° N Berlim Munique Colônia HANNOVER BAVIERA OLDENBURGO MECKLEMBURGO PRÚSSIA SAXÔNIA WÜRTEMBERG PALATINADO ALSÁCIA-LORENA SCHLESWIG HOLSTEIN NASSAU HESSE HESSE K ASSEL HESSE TURÍNGIA PRÚSSIA Frankfurt DINAMARCA PAÍSES BAIXOS BÉLGICA FRANÇA LUXEMBURGO SUÍÇA RÚSSIA SUÉCIA ÁUSTRIA-HUNGRIA Mar do Norte Mar Báltico Incorporação em 1866 Território anexado em 1871 Confederação Germânica (1867-1871) Territórios conquistados da França (1871) Prússiaem 1815 (antes da unificação) SCHLESWIGSCHLESWIGSCHLESWIGSCHLESWIGSCHLESWIGSCHLESWIGSCHLESWIGSCHLESWIGSCHLESWIGSCHLESWIGSCHLESWIGSCHLESWIGSCHLESWIGSCHLESWIG 0 135 km Fonte: elaborado com base em DUBY, Georges. Atlas historique. Paris: Larousse, 1996. 50° N 10° L Mar Báltico Mar do Norte LUXEMBURGO POLÔNIA FRANÇA BÉLGICA SUÍÇA LIECHTENSTEIN PAÍSES BAIXOS ÁUSTRIA REPÚBLICA TCHECA ESLOVÁQUIA ESLOVÊNIA SARRE Berlim SCHLESWIG- -HOLSTEIN BREMEN BAIXA SAXÔNIA BRANDEMBURGO SAXÔNIA HESSE MECKLEMBURGO- -POMERÂNIA OCIDENTAL HAMBURGO RENÂNIA DO NORTE-VESTFÁLIA SAXÔNIA- -ANHALT TURÍNGIA RENÂNIA- -PALATINADO BAVIERA BADEN- -WÜRTEMBERG Stuttgart Munique Leipzig Dresden Wolfsburg Hannover Bremen DortmundEssen Düsseldorf Leverkusen Colônia Frankfurt Hamburgo Cidades principais Capital de país Mar Báltico -POMERÂNIA OCIDENTAL-POMERÂNIA OCIDENTAL-POMERÂNIA OCIDENTAL-POMERÂNIA OCIDENTAL 0 145 km Alemanha: divisão política atual Fonte: elaborado com base em ENCYCLOPEDIA Britannica. Germany, 9 set. 2020. Disponível em: www.britannica.com/place/ Germany. Acesso em: 11 set. 2020. R e p ro d u ç ã o /C o le ç ã o p a rt ic u la r Retrato de Max Weber, 1918. E ri c s o n G u ilh e rm e L u c ia n o /A rq u iv o d a e d it o ra E ri c s o n G u ilh e rm e L u c ia n o /A rq u iv o d a e d it o ra 21 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 21V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 21 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 1. A fotografia ao lado foi registrada na Copa do Mun- do de 1974. Em 22 de junho daquele ano, a Alema- nha Oriental venceu a Alemanha Ocidental por 1 a 0, terminando a fase inicial do torneio em primei- ro lugar no seu grupo e surpreendendo o mundo esportivo. Sim, havia uma Alemanha Oriental em 1974. Essa foi uma divisão territorial decorrente da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que fez par- te das alterações das fronteiras alemãs ocorridas no século XX. • Faça uma pesquisa sobre a história da Alemanha durante o século XX e identifique como e por que a Alemanha Oriental surgiu e, mais tarde, ruiu. Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta atividade.Explorando Franz Beckenbauer (à esquerda), capitão do time da Alemanha Ocidental, cumprimenta Bernd Bransch (à direita), capitão da Alemanha Oriental, antes do jogo da Copa do Mundo de 1974. Volksparkstadium, Hamburgo, na então Alemanha Ocidental, atual Alemanha. H e in ri ch S a n d e n /p ic tu re a lli a n c e /G e tt y I m a g e s TEMA 2 Contratualismo: estado de natureza e estado civil O contratualismo compreende teorias políticas que veem a origem da so- ciedade e o fundamento do poder político – o governo, o Estado, a soberania – como um contrato, ou seja, este seria resultado de um acordo entre a maioria dos indivíduos. Com esse acordo, os indivíduos põem fim ao estado de natureza, uma condi- ção que precede a existência de leis e de regras para comandar as pessoas. Esse fato demarcaria o início da política e da sociedade civil, portanto, do estado social. Há três autores fundamentais para compreendermos essa discussão: Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau. O pensamento de Thomas Hobbes Thomas Hobbes (1588-1679) foi um filósofo inglês que se tornou conhecido como um dos fundadores da Filosofia política e da ciência política modernas. Apesar de defender o poder absoluto do monarca em seu livro O Leviat‹ (1651), Hobbes o publicou em um período no qual a Inglaterra era, na realidade, uma repúbli- ca, governada por Oliver Cromwell, de 1649 a 1658, e por seu filho, Richard Cromwell, de 1658 a 1659. Os professores de Filoso�a e de História são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. Principais ideias Para Hobbes, a hipótese de estado de natureza se- ria equivalente a uma guerra de todos contra todos, pois, como não existiriam regras, cada um poderia fa- zer o que quisesse, inclusive ameaçar a sobrevivência de outras pessoas. Deste modo todos viveriam sob constante ameaça e, para sair dessa condição, deve- riam fazer um pacto político entre si. Para ele, a paz requer a instituição de um sobera- no absoluto, um governante com poder total sobre todas as questões, políticas, éticas e religiosas. NÃO ESCREVA NO LIVRO N a ti o n a l P o rt ra it G a lle ry D e A g o s ti n i/ G e tt y I m a g e s Retrato de Thomas Hobbes, de John Michael Wright, 1669-1670. Óleo sobre tela, 66 × 54 cm. National Portrait Gallery, Londres, Reino Unido. 22 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 22V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 22 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Trad. João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 59. (Coleção Os pensadores). O principal interesse das pessoas, segundo ele, não seria a li- berdade individual, mas sim a preservação da própria vida, o que se daria somente sob a proteção do soberano. Assim, cada um abdicaria de sua liberdade em troca da proteção de sua vida pelo soberano – que teria direito exclusivo do uso da força para a pre- servação da paz. Para isso, construir e comandar um exército permanente seria fun- damental. Segundo Hobbes, “os pactos sem a espada não passam de palavras, sem força para dar a menor segurança a ninguém”. Detalhe do frontispício da obra de Thomas Hobbes, Leviatã ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Gravura de Abraham Bosse, 1651. Na ilustração, o corpo do soberano é formado pelo conjunto dos súditos, simbolizando a transferência dos direitos e das liberdades deles para o soberano, em troca da manutenção da paz. Na mão esquerda dele, o cetro simboliza o poder absoluto. Na mão direita, a espada simboliza o poder militar. O pensamento de John Locke Formado em Oxford, o filósofo inglês John Locke (1632- -1704) é considerado o fundador do pensamento político liberal. A contribuição mais importante de Locke para a filosofia e a ciência política modernas é o Segundo tratado sobre o governo civil, de 1689. Principais ideias Segundo ele, no estado de natureza os seres humanos teriam vivido em um estado caracterizado pela igualdade e pela liberdade. Essa situação difere do estado de “guerra de todos contra todos” de Hobbes, sendo uma situação de relativa paz e harmonia. Porém, esse estado não estaria isento de inconvenientes, como a eventual violação da propriedade individual, seja a própria vida, seja a liberdade ou os bens materiais. Na ausência de leis, de justiça imparcial e de uma força para impor a justiça, poderiam ocorrer ameaças de uns contra os outros. Para superar esses inconvenientes, segundo Locke, os indivíduos uniram-se e estabeleceram livremente entre si o contrato social. Retrato de John Locke, de Sir Gotfrey Kneller, 1697. Óleo sobre tela, 76 × 64 cm. Coleção particular. R e p ro d u ç ã o /C o le ç ã o p a rt ic u la r Dica O filme Cromwell, o ho- mem de ferro retrata a tensão entre o rei Carlos I e o Parlamento inglês no contexto da Revolução Puritana, que resultou em uma guerra civil. Cromwell, o homem de ferro. Direção de Ken Huges. Reino Unido, 1970 (145 min). S te fa n o B ia n ch e tt i/ C o rb is /G e tt y I m a g e s Política Palavra de origem grega – vem de polis, que significa “cidade”. O termo foi cunhado a partir da atividade dos homens da polis, a cidade-Estado grega. Essa formação tinha um sentido próximo ao do que hoje chamamos de Estado. O filósofo grego Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), em sua obra Política, definiu o ser humano como “naturalmente um animal político, destinado a viver em sociedade”. Em princípio, a política refere-se às regras de organização da vida em coletividade e às formas que a comunidade cria para decidir sobre essas regras. Mas, também, designaa relação de diferentes grupos sociais com interesses conflitantes entre si e com o Estado. A política, como se pode perceber, não é só “coisa de políticos”. Conceito O pensamento de Jean-Jacques Rousseau Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) nasceu em Genebra, território que hoje pertence à Suíça. Filósofo do Iluminismo, suas ideias influenciaram de maneira importante os fundamentos da Revolução Francesa (1789), sendo considerado uma espécie de patrono da Revolução. 23 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 23V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 23 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 Retrato de Jean-Jacques Rousseau, de Maurice Quentin de La Tour, 1753. Pastel sobre papel, 47 × 38 cm. Museu de Arte e História, Genebra, Suíça. R e p ro d u ç ã o /M u s e u d e A rt e e H is tó ri a , G e n e b ra , S u íç a Da propriedade 27. Ainda que a terra e todas as criaturas in- feriores pertençam em comum a todos os homens, cada um guarda a propriedade de sua própria pes- soa; sobre esta ninguém tem qualquer direito, exceto ela. Podemos dizer que o trabalho de seu corpo e a obra de suas mãos são propriedade sua. Sempre que ele tira um objeto do estado em que a natureza o colocou e deixou, mistura nisso o seu trabalho e a isso acrescenta algo que lhe pertence, por isso o tornando sua propriedade. Ao remover este objeto do estado comum em que a natureza o colocou, através do seu trabalho adiciona-lhe algo que excluiu o direito comum dos outros homens. Sendo este trabalho uma propriedade inquestio- nável do trabalhador, nenhum homem, exceto ele, pode ter o direito ao que o trabalho lhe acrescen- tou, pelo menos quando o que resta é suficiente aos outros, em quantidade e qualidade. Desde que esse “trabalho” é propriedade in- discutível do trabalhador, nenhum outro homem pode ter direito ao que foi por ele incorporado, pelo menos quando houver bastante e igualmente de boa qualidade em comum para terceiros. LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo civil: ensaio sobre a origem, os limites e os fins verdadeiros do governo civil. (1689). Trad. Magda Lopes e Marisa Lobo da Costa. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 98. (Clássicos do pensamento político). Reflex›es Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. NÃO ESCREVA NO LIVRO Origem e fundamento da desigualdade entre os homens O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou- -se de dizer isto é meu e encontrou pessoas su- ficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, ar- rancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado aos seus semelhantes: “Defendei-vos de ouvir este impostor; estareis perdidos se esque- cerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém!”. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Círculo do livro, 1997. p. 87. v. II. 1. Identifique qual é a diferença entre as ideias dos dois autores sobre a propriedade privada. Qual delas é mais condizente com a sua opi- nião? Justifique. 2. É possível identificar diferenças também no signi- ficado que o trabalho possui para cada um des- ses filósofos. Alguma delas está de acordo com a sua concepção sobre o trabalho? Por quê? Principais ideias De forma diferente do que pensavam Hobbes, Locke e Maquiavel, Rousseau não achava que o ser humano é o mesmo em qualquer época e lugar. Para ele, os seres humanos seriam capazes de moldar a si mesmos e ao mundo em que vivem. O indivíduo, portanto, não seria o mesmo no estado de natureza e na sociedade civil, pois o contrato social o transformaria. No estado de natureza, o ser humano não seria egoísta e mau. Para Rousseau, a sociedade é que o corrompe. Segundo Rousseau, as pessoas abandonaram a vida em natureza gradualmente, formando laços sociais de interdependência. A partir disso, a apropriação privada dos frutos do trabalho coletivo é que teria fundado a sociedade. Como a terra não teria dono e seus frutos deveriam ser de todos, a invenção da propriedade privada e do acúmulo individual de bens é considerada um equívoco. É justamente por isso que, uma vez organizados em sociedade, os seres humanos precisaram definir regras para corrigir essa distorção inicial, estabelecendo a lei e a justiça a partir de decisões coletivas. Rousseau apresentou, assim, a ideia de soberania do povo, de toda a coletividade, e não de apenas um indivíduo ou de alguns indivíduos. Desse modo, soberania, para Rousseau, é a vontade do povo agindo como fator de- terminante das leis e do governo, que deve se submeter inteiramente às decisões da po- pulação. O governo é apenas uma instituição submissa à autoridade soberana do povo. 24 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 24V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 24 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 1. Observe a charge sobre o período em que o Reino Unido foi transformado em uma república, sob o comando de Oliver Cromwell. Ela está relacionada ao con- texto da Revolução Puritana (1642-1649), que opôs o rei Carlos I ao Parla- mento. Em 1647, durante a Guerra Civil Inglesa, Carlos I foi preso e, mais tarde, decapitado. Ocorreu um curto período republicano na Inglaterra, que perdurou até 1659. O contexto dessa guerra teve grande influência sobre o pensamento político de Thomas Hobbes e de John Locke. Professor, no Manual você encontra orientações sobre estas atividades.Explorando a) Faça uma pesquisa sobre a Revolução Puritana e identifique suas causas e consequências. b) Por que Oliver Cromwell é retratado utilizando as vestes e os símbolos de um rei nessa caricatura? c) Redija um texto explicando como os pensa- mentos de Hobbes e de Locke podem ter sido influenciados por esse processo histórico. 2. Observe, ao lado, uma charge que representa a divisão social estratificada na França à época da Revolução Francesa. Ilustração de 1789, representando os três estados na França absolutista: o terceiro estado carrega o clero e a nobreza nas costas. Autor desconhecido. Museu Carnavalet, Paris, França. W B I m a g e s /A la m y /F o to a re n a NÃO ESCREVA NO LIVRO a) Faça uma pesquisa sobre Girondinos, Jacobinos e as causas da revolução. b) Converse com os colegas sobre as contribuições da revolução para a mo- dificação da organização dos Estados nacionais no século XVIII e como seus princípios têm relação com o modo como os Estados democráticos se organizam atualmente. Charge de Rombout van den Hoeye. Nela, o chamado “Lorde Protetor” é retratado utilizando as insígnias de um rei. Gravura de 1654. Museu Britânico, Londres. Cromwell é retratado em sua armadura usando uma coroa e um manto de arminho. Ele segura a espada da justiça e a esfera da soberania. A cena ao fundo representa a decapitação do rei Carlos I, em Whitewall. Há cenas menores que são representações satíricas de uma coroação de Cromwell. A figura que simboliza a justiça aparece vendada. Na balança, a cabeça decapitada do rei Carlos I se mostra mais pesada que a esfera que representa a soberania. Reprodução/ The Trustees of the British Museum. Londres, Inglaterra 25 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 25V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 25 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 TEMA 3 Estado e política no século XX O Estado moderno é resultado de um processo histórico de aproximadamente três séculos. Durante a monarquia absolutista, sua primeira fase, surgiram a cobrança centralizada de impostos, a base da estrutura jurídica e ocorreu a formação de exércitos permanentes. As Revoluções Inglesa e Francesa foram emblemáti- cas em relação à superação do absolutismo e à constituição das formas liberais de Estado quesurgiram no século XIX. Por fim, no século XX, surgem as formas do moderno Estado democrático de direito. Esse modelo de trans- formação da organização política ocorreu em grande parte das nações europeias, mas nem todos os Estados do mundo nasceram da mesma forma. Ao longo do século XX, diversas guerras, revoluções e reações internas e externas foram moldando os Estados que temos no mundo hoje, no século XXI. Vamos destacar, brevemente, alguns dos processos mais importantes ocorridos ao longo do século XX que influenciaram profundamente o modo como os Estados se organizaram. Os professores de História e de Geogra�a são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. autocrata: aquele que governa de forma autoritária, absoluta, tirânica. Pancho Villa sentado na cadeira presidencial do México ao lado de Emiliano Zapata, que segura um sombreiro. Ao tomar o Palácio Nacional durante a Revolução Mexicana, nenhum deles tinha interesse no poder, eles retornaram às suas aldeias. Mais tarde, ambos foram assassinados. Fotografia de Augustín Victor Casasola, 1914. Soldados franceses em uma forja destruída por granadas na cidade de Reims, França, durante a Primeira Guerra Mundial. Fotografia de 1917, retocada com cores. Iniciou-se como grande movimento armado, em 1910, contra o autocrata general Porfirio Díaz (1830-1915), que governou o México entre 1876-1880 e, após um breve intervalo, entre 1884-1911. A revolução teve como principal causa a luta pela terra e pela reforma agrária. Seus maiores protagonistas foram os líderes camponeses Pancho Villa (1878-1923) e Emiliano Zapata (1879-1919). O processo da Revolução Mexicana terminou apenas no início da década de 1920, e algumas de suas conquistas, como a separação entre a Igreja e o Estado, a reforma agrária, o salário mínimo, o reconhecimento do direito dos indígenas sobre suas terras, foram, aos poucos, revertidas pelas classes dominantes mexicanas. Um dos mais importantes legados da Revolução Mexicana foi colocar em evidência as reivindicações dos povos indígenas e dos camponeses das Américas. O conflito envolveu as grandes potências de todo o mundo, que se organizaram em duas alianças opostas: a Tríplice Entente (Reino Unido, França e Império Russo; aliança a que, mais tarde, se juntaram também os Estados Unidos) e a Tríplice Aliança (Império Alemão, Império Austro-Húngaro e originalmente a Itália, que, no decorrer da guerra, mudou de lado; mais tarde, o Império Otomano também se uniu a ela). Motivada por rivalidades imperialistas, a guerra resultou na derrota dos impérios centrais, especialmente arrasadora para o Império Alemão. Os problemas da competição imperialista por colônias, mal resolvidos nesta guerra, e a imposição de indenizações a serem pagas pela Alemanha, já destruída, foram alguns dos motivos que contribuíram para o desencadeamento de um novo conflito mundial alguns anos depois: a Segunda Guerra Mundial. G a le ri e B ild e rw e lt /G e tt y I m a g e s Augustin Casasola/ullstein bild/Getty Images Século XX – Principais guerras e revoluções 1910-1920 Revolução Mexicana 1914-1918 Primeira Guerra Mundial 26 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 26V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 26 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 Lenin discursa para uma multidão na Praça Vermelha, em Moscou, Rússia, em 1919. Membros do 81o Esquadrão de Reconhecimento de Cavalaria dos Estados Unidos dirigem um tanque M24 por uma rua devastada próximo a Bolonha, Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Fotografia de 1945, retocada com cores. Grande movimento popular dos operários e camponeses russos que, liderados pelo Partido Bolchevique e por Vladimir Lenin (1870-1924), tomou o poder na Rússia em outubro de 1917, pondo fim ao Império Russo absolutista e autocrático e ao domínio de grandes proprietários e senhores de terra, instaurando o socialismo. A revolução resultou na criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1922, após o fim da guerra civil que se seguiu à tomada do poder pelos bolcheviques. A URSS desintegrou-se em 1991 devido ao acúmulo de problemas econômicos e políticos durante suas últimas décadas, restaurando-se o capitalismo em cada país que a compunha. Ao longo do século XX, países africanos, latino-americanos e asiáticos sob o colonialismo ocidental puderam contar, em formas e situações diferentes, com ajuda soviética em seus processos de libertação. Motivada por rivalidades imperialistas mal resolvidas na Primeira Guerra Mundial e pelo expansionismo nazifascista, o conflito opôs o Eixo (composto pela Alemanha nazista, a Itália fascista e o Império do Japão) aos Aliados (entre os quais a URSS, o Reino Unido, a França e os Estados Unidos). A China, que estava em guerra contra o Império do Japão desde 1937 – pois este último tentava anexar territórios chineses desde o início dos anos 1930 –, foi outro aliado central na guerra contra o Eixo. A Segunda Guerra Mundial terminou com a vitória dos Aliados e resultou na divisão do território alemão entre os vencedores, estabelecendo dois novos países: de um lado, uma Alemanha capitalista, a República Federativa Alemã (RFA), sob influência, especialmente, dos Estados Unidos; e, de outro, uma socialista, a República Democrática Alemã (RDA), sob influência da União Soviética. Berlim, capital da RDA, também foi dividida entre os vencedores e, mais tarde, em duas partes: Berlim Oriental, socialista, e Berlim Ocidental, capitalista. A China, por sua vez, onde os grupos opostos, nacionalistas e comunistas, haviam se aliado para expulsar os invasores japoneses, mergulhou em uma guerra civil ao final da Segunda Guerra. Imperialismo Entende-se como imperialismo uma política internacional de expansão e de domínio econômico de uma nação sobre outras, que pode resultar também em domínio territorial (ocupação militar) e ideológico. Em sua expressão contemporânea, os países capitalistas mais fortes procuram mercados e povos cujas forças de trabalho podem explorar. Além disso, poucos bancos e instituições financeiras privadas, oriundas das nações capitalistas mais avançadas, concentram o dinheiro do mundo todo em suas mãos, formando uma oligarquia financeira que tece uma densa rede de relações de dependência entre todas as instituições econômicas e políticas da sociedade contemporânea, além dos governos, das grandes empresas nacionais, dos bancos estatais, etc. A oligarquia, que monopoliza a maior parte do dinheiro disponível no mundo, promove a dominação de nações in- teiras e a exploração de um número cada vez maior de países pobres por um punhado de nações riquíssimas e muito fortes. Este conceito é um modo de interpretar, por exemplo, a relação dos Estados Unidos com a América Latina. Conceito Dica No livro Imperialismo, fase superior do capita- lismo, de Vladimir Le- nin, o autor apresenta uma minuciosa pesqui- sa sobre o desenvolvi- mento do capitalismo até atingir as caracterís- ticas que promoveram o surgimento do fenô- meno chamado de im- perialismo. LENIN, Vladimir I. Im pe rialismo, fase su perior do capitalis mo. Trad. José Eudes Baima Bezerra. Brasília: Nova Palavra, 2007. B e tt m a n n A rc h iv e G e tt y I m a g e s G a le ri e B ild e rw e lt /G e tt y I m a g e s 1917-1922 Revolução Russa 1939-1945 Segunda Guerra Mundial 27 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 27V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 27 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 Multidão recepciona as tropas comunistas após vitória sobre as forças nacionalistas em Pequim, China. Retratos de líderes comunistas chineses são mostrados no topo, sendo o do centro o de Mao Tsé-tung. Fotografia de 1949. A Revolução Chinesa foi um longo processo. Iniciou-se em 1911, com a proclamação de uma república governada por Sun Yat-sen (1866-1925) – que derrubou a dinastia Qing, que dominavaa China desde o século XVII. A república, porém, estava fragmentada e diversos grupos disputavam o poder. Entre eles os nacionalistas, com o Kuomintang, e os próprios comunistas, representados pelo Partido Comunista Chinês (fundado em 1921). Ela perdurou até 1949, quando a vitória definitiva do exército popular comunista, liderado por Mao Tsé-tung (1893-1976), derrotou os diversos grupos em conflito. A República Popular da China, dirigida por Mao Tsé-tung, foi proclamada em 1949 e organizada em moldes socialistas. Os grandes capitalistas e latifundiários, aliados do capital estrangeiro, e os estrangeiros invasores foram derrotados. A revolução realizou a reforma agrária, nacionalizou as grandes indústrias e combateu o analfabetismo. Após a morte de Mao Tsé-tung e a ascensão de Deng Xiaoping (1904-1997) ao poder, em 1978, devido às imensas crises e ao atraso no desenvolvimento econômico, em particular o industrial, o Partido Comunista Chinês autorizou a atividade de mercado baseada na propriedade privada, mas sob acompanhamento do Estado e apenas em determinadas regiões do país. 1911-1949 Revolução Chinesa A Revolução Cubana foi um processo de levante que teve dimensões crescentes. A tensão no país aumentou com a tentativa de um grupo revolucionário, liderado por Fidel Castro (1926-2016), de derrubar, com o ataque ao quartel do exército, em Moncada, em julho de 1953, a ditadura de Fulgêncio Batista (1901-1973), e ampliou-se, anos depois, com o estabelecimento da guerrilha revolucionária a partir de Sierra Maestra, em 1956, liderada por Fidel Castro e Ernesto Che Guevara (1928-1967). Apoiados por grupos de camponeses, trabalhadores urbanos e estudantes, os guerrilheiros, aos poucos, conquistaram muitas regiões do país, e a revolução terminou vitoriosa em 1o de janeiro de 1959. A terra foi coletivizada, o analfabetismo foi erradicado e o acesso a um sistema de saúde de qualidade (que se tornou o melhor da América Latina) foi universalizado. Hoje, com a economia sufocada pelo bloqueio econômico liderado pelos Estados Unidos (em vigor desde o final dos anos 1950), o povo cubano resiste em formas de vida modestas, mas estáveis. 1956-1959 Revolução Cubana Fidel Castro, na rede, fala a Vilma Espin (à esquerda de Castro), Celia Sanchez e outros revolucionários do Movimento 26 de Julho. Fotografia de Dickey Chapelle, de 1958, feita em Sierra Maestra, Cuba. Detalhe de foto em que Haydée participa de um painel de escritores latino-americanos realizado em Cuba, em 1968. Haydée Santamaría Cuadrado (1922-1980) foi uma revolucionária que se tornou uma das mais importantes mulheres cubanas após a re- volução. Santamaría e seu irmão, Abel, lutaram ao lado de Fidel Castro, na tentativa de tomar o quartel do exército em Moncada, em julho de 1953, evento que deu nome ao movimen- to de resistência do qual participariam depois: o Movimento 26 de Julho. Na ocasião, seu irmão e seu noivo foram capturados e tortu- rados pelo exército do ditador Fulgêncio Ba- tista. Haydée ficou sete meses presa. Juntou-se a Fidel Castro e Che Guevara na guerrilha de Sierra Maestra a partir de 1956. Após a vitó- ria da revolução, em 1959, fundou a Casa das Américas, organização de cultura que, entre outras atividades, contempla escritores com um dos mais antigos prêmios em literatura latino-americana. Pe rfil Galerie Bilderwelt/Getty Images D ic k e y C h a p e lle /W is c o n s in H is to ri c a l S o c ie ty Keystone Press/Alamy/Fotoarena 28 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 28V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 28 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 Polícia usa jatos de água para dispersar estudantes reunidos próximo à Assembleia Estadual na tentativa de impedir manifestações contra a prisão de um líder estudantil e o assassinato de outro durante a ditadura militar no Brasil. Na noite anterior, mais de oitenta pessoas haviam sido presas em uma ação que buscava coibir manifestações. Rio de Janeiro (RJ). Fotografia de 1968. Como fruto da tensão geopolítica entre o bloco capitalista (liderado pelos Estados Unidos) e o bloco socialista (liderado pela União Soviética), após a Segunda Guerra Mundial, o governo norte-americano apoiou grupos da elite econômica e antipopular de cada país sul-americano, promovendo uma série de golpes e de ditaduras militares na América do Sul, entre as quais as ditaduras chilena (1973-1990), argentina (1976-1983) e brasileira (1964-1985). Além de ser inegável a conexão entre esses golpes militares e os interesses do capitalismo estadunidense, também é fato que boa parte da população mais rica da América do Sul apoiou a subida dos militares ao poder. Grande número de movimentos civis da elite econômica da sociedade espalhou-se pelo continente a favor das intervenções militares. Propunham a ideia de que somente por meio de um governo forte e autoritário, ao estilo da hierarquia militar, poderia ser garantida a defesa contra uma suposta ameaça comunista. Muitos desses movimentos foram idealizados por setores da classe média, do empresariado, das oligarquias locais e, inclusive, da Igreja católica. Um dos principais receios era que o exemplo da Revolução Cubana pudesse se espalhar por países vizinhos. 1947-1991 Guerra Fria e ditaduras militares na América do Sul Os professores de História e de Geogra�a são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento, com a colaboração dos professores de Química e de Biologia. O século XX e o desenvolvimento de armas químicas As guerras do século XX viram desde cedo o de- senvolvimento das armas químicas, bem antes da famosa bomba atômica. Calcula-se que, desde o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, aproximada- mente 1,3 milhão de pessoas tenham sido vítimas de agentes químicos, deixando mais de 100 mil mortos. Agentes químicos intoxicam não só pessoas, mas também animais e plantas, tornando o ambiente inóspito quase instantaneamente. O exército alemão utilizou pela primeira vez essa estratégia de guerra em 1915, em um disparo de gás cloro contra as tropas alia- das. Foram 168 toneladas de gás, que deixaram mais de 15 mil vítimas feridas e mais de 5 mil mortos. Desde então, os soldados passaram a utilizar más- caras contra gases e, consequentemente, os exércitos passaram a produzir agentes químicos mais sofistica- dos. Durante a Segunda Guerra Mundial, os alemães desenvolveram o agente químico de guerra mais po- tente, o organofosforado, ou “o agente dos nervos”. A principal ação desse gás é a inibição da enzima acetilcolinesterase, que controla as quantidades do neurotransmissor acetilcolina e é fundamental no processo de transmissão dos impulsos nervosos. Ao impedir a degradação da acetilcolina pela acetilco- linesterase, os organofosforados causam a chamada síndrome colinérgica no organismo, provocando a dilatação das pupilas, confusões mentais, salivação excessiva, convulsões, asfixia e morte. As armas químicas também causam grandes da- nos ambientais, pois contaminam a água, o ar e o solo. Considerando seus impactos, em 1997, a Orga- nização das Nações Unidas (ONU), em parceria com a Organização para Proibição de Armas Químicas (OPAQ), proibiu o uso de armas químicas em guer- ras. Por outro lado, atualmente, os organofosforados são utilizados como pestici- das na agricultura, inclusive no Brasil. Soldados estadunidenses atingidos por gás tóxico no front ocidental, durante a Primeira Guerra Mundial, na batalha da Floresta de Argonne, França. Fotografia de 1918. Ampliando B e tt m a n n A rc h iv e /G e tt y I m a g e s organofosforado: composto orgânico formado por carbono e fósforo. B e tt m a n n A rc h iv e /G e tt y I m a g e s 29 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 29V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 29 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 1. Neste Tema, citamos algumasrevoluções que determinaram os rumos do século XX não apenas nos países em que ocorreram, mas no mundo inteiro. Organize-se em grupo com os colegas e escolham duas delas, pesquisando suas causas, os momentos principais e suas consequências. Descrevam, tam- bém, como estão esses países atualmente. 2. Na região da América do Sul, o golpe militar no Brasil, em 1964, derrubou e forçou ao exílio o presidente João Goulart (1919-1976). O golpe militar no Chile (1973), comandado pelo general Augusto Pinochet (1915-2006), der- rubou e assassinou o presidente Salvador Allende (1908-1973). • Pesquise sobre o programa de governos desses dois presidentes e compa- re-os. Em sua opinião, essas administrações eram democráticas e agiam em benefício da população? Por quê? Explorando Professor, no Manual você encontra orientações sobre estas atividades. Retrato de João Goulart, presidente do Brasil entre 1961 e 1964. Fotografia de 1962. Nova York, Estados Unidos. Salvador Allende, presidente do Chile entre 1970 e 1973, posa para fotografia com o poeta Pablo Neruda durante campanha presidencial em 1973. Fotograma do documentário Salvador Allende, de Patricio Guzmán, de 2004. Dica O documentário Jango re- trata a trajetória política de João Goulart, deposto nas primeiras horas de 1o de abril de 1964, e captura a eferves- cência política no Brasil na década de 1960, no âmbito da Guerra Fria. O filme narra detalhes do golpe e trata so- bre a resistência à ditadura. Jango. Direção de Silvio Ten- dler. Brasil: Caliban Produções Cinematográficas; Rob Filmes, 1984 (115 min). B a ch ra ch /G e tt y I m a g e s F a ra b o la /B ri d g e m a n I m a g e s /F o to a re n a NÃO ESCREVA NO LIVRO 30 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 30V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 30 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 TEMA 4 Para que serve a participação política? Há vários mecanismos que, junto ao exercício do voto e à eleição de nossos re- presentantes, podem aproximar a população da participação nas decisões políticas: consultas populares diretas, como referendos e plebiscitos, e discussões coletivas em espaços públicos com direito à participação de todos que quiserem. Normalmente, as pessoas participam desses fóruns públicos como integrantes de algum movimento político-social organizado. Após o fim da ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985), a abertura democráti- ca tornou possível aos cidadãos brasileiros organizarem-se politicamente, principal- mente após a promulgação da Constituição de 1988. Movimentos político-sociais vêm se organizando desde então e se tornando permanentes, porque permanente é a necessidade de defesa dos direitos dos cidadãos e das liberdades individuais em um país como o Brasil, onde as elites que concentram a riqueza nacional estão sempre prontas a agir de forma autoritária, alegando “nacionalismo” e “patriotismo”. Hoje existem no país várias organizações e movimentos que, graças aos direitos constitucionais de organização, promovem lutas pelas mais diferentes e importan- tes causas, como a reforma agrária, a reforma urbana, a preservação ambiental, a agroecologia, o antimachismo e em favor dos direitos das mulheres, o antirracismo e a antiLGBTQI+ fobia, para citar alguns dos mais importantes. referendo: tema ou questão levado à consulta pública, para que a população aceite ou rejeite uma matéria já pronta. plebiscito: tema ou questão levado à consulta pública antes que o Congresso tenha elaborado uma matéria a respeito. Exemplos de movimentos sociais: 1. Manifestação dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Valinhos (SP), 2020, em protesto contra a morte de um de seus integrantes, atropelado em uma manifestação; 2. Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) em São Paulo (SP), 2020, para cobrar a aceleração dos projetos de construção de habitações da prefeitura; 3. Manifestação do Movimento LGBTQI+ no Rio de Janeiro (RJ), 2018, contra a prefeitura da cidade, que proibiu uma Mostra sobre temática LGBT. 4. Manifestação do Movimento Negro em São Paulo (SP), 2019, em protesto contra a morte de um músico negro alvejado pelo exército no Rio de Janeiro. L u c ia n o C la u d in o /C ó d ig o 1 9 /F u tu ra P re s s D a n ilo M Y o s h io k a /F u tu ra P re s s B á rb a ra D ia s /F u tu ra P re s s R o b e rt o S u n g i/ F u tu ra P re s s Os professores de Filoso� a e de Sociologia são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. 1 3 4 2 31 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 31V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 31 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 Explorando Professor, no Manual você encontra orientações sobre estas atividades. tendência totalitária: propensão ao totalitarismo, termo que começou a ser utilizado para definir ditaduras de partido único durante as primeiras décadas do século XX, como o fascismo italiano. Para Hannah Arendt (1906- -1975), filósofa estudiosa do fenômeno, ele visa destruir os grupos e as instituições que formam as relações humanas, isolando-nos de nossas capacidades, das relações políticas e da vida pública. Com essa finalidade, combina uma ideologia que prescinde da verificação dos fatos e faz uso da experiência do terror, com a perseguição a inimigos reais e inventados. 1. Você se interessa por política? Leia a seguir o trecho de um texto do jurista e professor de Direito Dalmo de Abreu Dallari sobre o desinteresse político. De- pois, reúna-se com os colegas e responda às questões. Desinteresse político: a quem interessa? Quando alguém diz que não se interessa por política, acreditando que pode cuidar exclusivamente de seus interesses particulares e que estes nada têm a ver com as atividades políticas, está revelando falta de consciência. Na realidade não existe quem não sofra as consequências das decisões de governo, que são essencialmente políticas. Manter-se alheio à política é uma forma de dar apoio antecipado e incondicional a todas as decisões do governo, o que é, em última análise, uma posição política. Por aí se vê o engano de quem acredita que pode manter-se fora da política, sem nenhuma relação com ela. [...] O desinteresse pregado por motivos táticos é baseado na intenção de afastar o povo das decisões políticas. Os grupos de tendência totalitária, que desejam de- cidir sozinhos, sem interferência do povo, procuram desestimular a participação política. Através de um trabalho de propaganda tentam difundir a ideia de que o povo não pode e não quer perder tempo com problemas políticos. Paralelamente à divulgação de ideias visando desestimular a participação po- lítica, os grupos que tomam um governo e querem evitar que o povo exija pro- cedimentos democráticos e honestos costumam forçar a mudança das leis para concentrar em suas mãos a maior soma possível de poderes. DALLARI, Dalmo de Abreu. O que Ž participa•‹o pol’tica. São Paulo: Brasiliense, 2010. p. 84-85. (Coleção Primeiros passos). • De acordo com o texto, qual seria o resultado de nos mantermos alheios à política? Você concorda com o ponto de vista do autor? Reúna-se em grupo com os colegas e debatam essa questão. Eles têm opiniões semelhantes ou diferentes da sua? Procure amparar seus argumentos em experiências concre- tas e ouça os colegas com atenção e respeito. 2. Além do voto em eleições que ocorrem a cada dois anos, que outras formas de participação política podemos exercer? Como podemos participar de de- cisões que dizem respeito à vida de todos? Em grupo, realize uma pesquisa sobre esse tema. Cada grupo deve apresentar e discutir suas conclusões com a turma. 3. Em grupo, escolham um movimento político-social importante no Brasil. Façam uma pesquisa sobre o movimento escolhido, procurando entender como ele surgiu e qual o motivo desua luta. Ao final, pro- duzam um relatório escrito que apresente as con- clusões da pesquisa. As discussões públicas têm impacto direto em nossa vida cotidiana. G re e n ch a s e /S h u tt e rs to ck NÃO ESCREVA NO LIVRO 32 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 32V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 32 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 1. (UEL-PR 2019). As reflexões liberais tenderam a acentuar, até o século XIX, a compreensão de que o Estado era a expressão da Razão. Nesta forma de compreensão liberal, é correto afirmar que o Estado: a) deveria intervir na economia, uma vez que a liberdade de negociar reconduziria a socieda- de ao princípio do “homem como lobo do homem”, destacado por Rousseau. b) atingiria seu maior grau de eficiência se coman- dado pelas classes industriais, em detrimento das demais frações que compõem a burguesia, isto é, proprietários de terra e comerciantes. c) seria a instância a partir da qual as desigualda- des formais entre os indivíduos se transforma- riam em igualdade real entre os homens. d) tenderia a desaparecer, na medida em que o sis- tema produtivo dividisse as riquezas produzidas pelas classes sociais, como expressão da Razão. e) representaria os interesses do conjunto da so- ciedade, pairando, portanto, acima das clas- ses sociais e de suas demandas específicas. 2. (Enem 2017) Plebiscito e referendo são consultas ao povo para decidir sobre matéria de relevância para a nação em questões de natureza constitucional, legislativa ou administrativa. A principal distinção entre eles é a de que o plebiscito é convocado previamente à criação do ato legislativo ou administrativo que trate do assunto em pauta, e o referendo é convocado posteriormente, cabendo ao povo ratificar ou rejeitar a proposta. Am- bos estão previstos no art. 14 da Constituição Federal. Plebiscitos e referendos. Disponível em: www.tse.jus.br. Acesso em: 29 jan. 2015 (adaptado). As formas de consulta popular descritas são exem- plos de um tipo de prática política baseada em: a) colégio eleitoral. b) democracia direta. c) conselho comunitário. d) sufrágio representativo. e) autogestão participativa. 3. (Uece-CE 2019) O Estado Moderno pode ser cor- retamente definido como a) um conjunto de instituições cuja função prin- cipal é dar sustentação aos governos sucessiva- mente eleitos. b) um lugar constituído por pessoas escolhidas segundo o poder das famílias tradicionais e de sua filiação religiosa. c) o poder do governo de um país de decidir, conforme sua vontade, quem são as pessoas autorizadas a fazer justiça de acordo com os julgamentos que achar mais corretos. d) uma comunidade humana que pretende, com êxito, o monopólio do uso legítimo da força física dentro de um território. 4. (UFSC-SC 2018) Sobre direitos humanos e mino- rias e com base na charge de Angeli, é correto afirmar que: Disponível em: <rodigorbennett.blogspot.com.br/2013/-4/ charge-do-dia_13.html>. Acesso em 24 out. 2017. 01) o reconhecimento dos direitos de diferentes grupos sociais serve à homogeneização da sociedade. 02) o multiculturalismo diz respeito a reivindica- ções de grupos culturais diversos. 04) as demandas por reconhecimento visam corri- gir injustiças sofridas por grupos minoritários. 08) no Brasil, os direitos das minorias são garan- tidos do ponto de vista da cidadania formal, mas não do ponto de vista da cidadania real. 16) de acordo com o autor da charge, movimen- tos sociais que defendem o multiculturalis- mo já possuem representação suficiente na política brasileira. 32) minorias sociais são definidas por meio de critérios puramente numéricos. 64) direitos humanos são universais e, portanto, independem de debates políticos e culturais. 02+04+08=14. Professor, no Manual você encontra orientações sobre estas atividades. Aprimorando o conhecimento NÃO ESCREVA NO LIVRO R e p ro d u ç ã o /U F S C , 2 0 1 8 33 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 33V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 33 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 Exercendo a cidadania: o que acontece à sua volta? O pressuposto deste projeto é a necessidade de estimular o interesse cons- ciente pela situação política e social e instigar a participação nas dimensões pú- blicas da sociedade em que vivemos, seja nos âmbitos local e regional, seja nos âmbitos nacional e internacional. Tal interesse, bem como o acesso às formas de concretizá-lo, é o fundamento de qualquer sociedade democrática. Na etapa atual da sua vida, é importante que você procure incluir de alguma forma, entre suas atenções cotidianas, o desenvolvimento mais amplo da sua esfera cidadã. Uma maneira inicial de contribuir para isso é tomar consciência dos princi- pais fenômenos políticos e econômicos (portanto, sociais, em sentido amplo) que fazem parte de sua realidade e que determinam a sua vida e o seu futuro. A cidadania foi historicamente constituída por um conjunto de três partes que se consolidaram se- paradamente ao longo dos séculos XIX e XX: a civil, a política e a social. • O elemento civil é aquele composto pelos di- reitos que conformam as liberdades individuais, como os de ir e vir, de liberdade de imprensa, de liberdade de pensamento, de fé, o direito à justiça e à propriedade privada. • O elemento político é o direito de participar no exercício do poder político, seja como candidato eleito, participante de uma instituição investida de tal poder, seja como eleitor. • O elemento social é formado pelo conjunto dos direitos que asseguram um mínimo de bem-estar material e de nível cultural a cada cidadão e o pro- tegem da pobreza extrema e da ignorância formal. São os direitos sociais propriamente ditos, garantidos pelos serviços públicos de educação, saúde, subvenção à habitação digna e proteção contra o desemprego por meio de políticas de renda mínima. Os direitos sociais são os mais complexos de se atingir por meio de um pacto social satisfatório, principalmente em países com um histórico secular de pobreza e de concen- tração de renda como o Brasil. Justamente por isso, precisamos va- lorizar ainda mais o direito à participação na vida política e social de modo consciente. E isso não pode acontecer sem que sejamos esti- mulados a conhecer melhor os processos que moldam o nosso en- torno político e econômico. Afinal, o que está sendo decidido neste momento pelo Congresso Nacional, pelos prefeitos, governadores, pelo presidente da República e demais políticos, pelas grandes em- presas nacionais e estrangeiras, pode mudar a sua vida para sempre. Este projeto pode ser desenvolvido em conjunto pelos professores de Filoso� a, Geogra� a, História e Sociologia. Brasil: jovens e participação política: formas de participação de 16 a 25 anos – 2018 Fonte: elaborado com base em JOVENS têm mais interesse em participar da política, mostra pesquisa. Folha de S.Paulo, São Paulo, 18 set. 2018. Disponível em: https://www1.folha.uol. com.br/poder/2018/09/jovens-tem-mais-interesse-em-atuar-na- politica-mostra-pesquisa.shtml. Acesso em: 7 maio 2020. B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra 53% 39% 34% 29% 27% 10% 5% Já, ao menos uma vez na vida Compartilhou notícias e opiniões sobre a cidade e o país onde vive nas redes sociais Fez trabalho voluntário Assinou petições ou abaixo-assinados Participou de algum movimento social Participou de manifestações ou protestos Fez campanha como ativista para promover uma causa Foi filiado ou colaborou com algum partido político Promulgada em 1988, a Constituição do Brasil garante direitos civis, políticos e sociais a todos os cidadãos. Na fotografia de 2016, uma jovem segura a Constituição. Pomerode (SC). G lo b a l_ P ic s /i S to ck U n re le a s e d /G e tt y I m a g e s PARTE 2 IMERSÌO 34 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 34V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd34 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 Questão mobilizadora A proposta deste projeto é contribuir para aproximar você e os colegas das discussões sobre a conjuntura política e econômica em seus diversos níveis de ex- pressão (local, regional, nacional e internacional). A questão mobilizadora procura responder qual é o grau de interesse dos estudantes da escola nos debates políticos atuais e buscar modos de engajar os jovens a agir perante a realidade. Para analisar isso, você e os colegas farão uma pesquisa de opinião. Depois, criarão uma lista de fontes confiáveis com material informativo sobre os principais temas de interesse dos estudantes levantados por meio dessa pesquisa. Metodologia Neste projeto, você deve considerar os seguintes objetivos práticos: • Avaliar o grau de interesse e de participação da comunidade da escola a respei- to de temas ligados às atualidades políticas, econômicas e sociais e os principais meios de informação utilizados. Para tanto, será utilizada a pesquisa conheci- da como survey, um tipo de pesquisa quantitativa. Ela é usada para coletar dados, informações e opiniões de determinados grupos de indivíduos (neste caso, os colegas da escola). Caso o grupo entrevistado seja estatisticamente representativo, os resultados encontrados podem ser extrapolados para todo o conjunto de um estudo. A ferramenta mais usada nesse tipo de pesquisa é o questionário estruturado, que apresenta questões fechadas, na forma de alternativas. No modelo de questionário, a seguir, incluiremos uma pergunta final aberta, para ampliar as possibilidades de obtermos as informações dese- jadas do público-alvo. • Compilar materiais informativos, destinados aos estudantes, como forma de complementar as fontes de informação e de análise da conjuntura política, nacional e internacional, am- pliando o debate dentro da comunidade. • Contribuir para a formação de cidadãos mais conscientes a respeito da realidade contempo- rânea, considerando, também, que tais recur- sos são fundamentais para ampliar o estudo da grande área das humanidades, atendendo inclusive aos desafios intelectuais das etapas seguintes da trajetória estudantil, como o Exa- me Nacional do Ensino Médio (Enem), a uni- versidade e o mercado de trabalho. Em que grau você e os colegas estão informados sobre as decisões políticas, econômicas e sociais que estão alterando a vida de cada um e da escola onde estudam? Quais são os principais interesses dos estudantes da escola nos temas ligados à política, à economia e à sociedade? Quais os principais meios de informação e de debate sobre esses temas usados pela comunidade da qual fazem parte? A pesquisa de opinião fornece informações sobre o público-alvo e direciona melhor as intervenções que podem ser propostas. V e c to ri u m / S h u tt e rs to c 35 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 35V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 35 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 Produto final O produto final deste projeto será uma relação de fontes informativas sobre questões atuais, que pode ser produzida em meio físico ou eletrônico, des- de que possa ser compartilhada. Será necessário co- nhecer e descrever cada fonte selecionada, formando um interessante banco de dados. Esse material poderá contribuir para a sua formação e a dos colegas nos temas relativos à política e atualidades, servindo também como um estímulo inicial para aqueles que ainda não demostram interesse por questões da vida pública. Etapas 1 Montar os grupos Para iniciar o projeto, será preciso organizar grupos de até cinco pessoas. 2 Definir o público-alvo da pesquisa A ideia é que o levantamento seja realizado junto aos estudantes de outras turmas do Ensino Médio da escola em que você estuda. Cada grupo pode ficar res- ponsável por uma parte dos entrevistados, e a com- pilação das informações pode ser feita em conjunto com toda a turma. 3 Elaborar os questionários Na terceira etapa, a turma deverá elaborar e prepa- rar os questionários. O levantamento deverá ser feito por meio da distribuição de folhas impressas. Em vez de solicitar aos colegas que respondam por e-mail ou algum outro meio eletrônico, indicamos a distribuição do questionário impresso nas salas, com a anuência, supervisão e colaboração dos professores. Dessa for- ma, o processo será mais eficaz, já que os questioná- rios serão respondidos prontamente e, logo depois, re- colhidos por vocês. Na sequência, os grupos poderão lê-los e analisar o resultado. A seguir, sugerimos algumas questões para com- por o questionário, que deverá ser complementado pela turma. Material necessário • computadores, com programa editor de texto e acesso à internet, para formulação dos questionários, pesquisa e elaboração da lista de fontes; • impressora e papel. Modelo de questionário Meios de informação e principais interesses sobre a conjuntura nacional e internacional 1. Normalmente, como você fica sabendo das notícias em geral? (Pode ser assinalada mais de uma alternativa.) a) ( ) Você assiste na televisão. b) ( ) Você ouve no rádio. c) ( ) Você lê em jornais e revistas impressos. d) ( ) Você lê/assiste/ouve na internet. 2. Em relação a assuntos de atualidade política e econômica, por qual(is) dos temas abaixo você se interessa mais? (Pode ser assinalada mais de uma alternativa.) a) ( ) Política regional. b) ( ) Política nacional. c) ( ) Economia regional. d) ( ) Economia internacional. 3. Você costuma conversar com os colegas e amigos sobre atualidades relativas a quaisquer dos assuntos da questão anterior? a) ( ) Sempre. b) ( ) Às vezes. c) ( ) Nunca. 4. Há algum evento ou processo político e econômico recente a respeito do qual você gostaria de saber mais? Qual? (Resposta livre.) A questão 1 tem como finalidade indicar o tipo de linguagem (escrita e/ou visual) mais adequada a ser empregada na confecção do material informativo, assim como os meios de informação mais utilizados pelos estudantes. Já a questão 2 tem como objetivo identificar com mais precisão os temas de interesse dos colegas, para elaborar um tipo de material infor- mativo que seja mais interessante para eles. A ques- tão 3 tenta medir, em grau aproximativo, a frequência com que os colegas se ocupam de tais temas no co- tidiano deles. Já a questão 4 é uma pergunta aber- ta, que poderá auxiliá-los a selecionar livros, artigos, podcasts, vídeos, filmes, sites, programas de rádio, jor- nais e revistas que podem, inclusive, ser indicados por vocês no produto final. 4 Divulgação da pesquisa de opinião Alguns membros de cada grupo podem ficar res- ponsáveis por essa etapa de divulgação, explicando a pesquisa e seus objetivos aos professores e colegas. ( ) ) ) ( ) V( ) V( ) V ( ) V( ) V( ) V ( ) V( ) V( ) V ( ) P( ) P( ) P ( ) P( ) P( ) P ( ) E( ) E( ) E ( ) E( ) E( ) E ( ) S( ) S( ) S ( ) À( ) À( ) À ( ) N( ) N( ) N 36 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 36V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 36 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 Vocês podem, ainda, indicar ao público em que data será realizada a pesquisa, que método usarão, e, se possível, explicar como irão divulgar os resultados do levantamento. 5 Aplicação dos questionários Para facilitar a operação e, ainda, para que todos os grupos possam analisar os resultados da pesquisa em um mesmo período, recomenda-se que todos os envolvidos no projeto apliquem os questionários na mesma data. 6 Análise dos resultados da pesquisa de opinião Cada grupo deverá ficar responsável pela análise dos resultados dos questionários que aplicou. Em se- guida, deve sistematizar os dados coletados em tabe- las ou gráficos. É possível calcular os percentuais de cada resposta, primeiro, considerando a amostragem que cada grupo obteve. Depois, pode-se avaliar a possibilidade de criarum quadro geral com os resultados unificados, de to- dos os grupos participantes do projeto. Com os dados gerais da turma e os específicos de cada grupo, será possível iniciar a seleção, a prepara- ção e a elaboração da relação de fontes informati- vas sobre questões atuais, cujo conteúdo deverá corresponder aos resultados da pesquisa de opinião. Se, por exemplo, a maior parte dos alunos responder que se informa por meio da internet a respeito de po- lítica nacional e internacional, o material informativo deverá privilegiar fontes que atendam a essas caracte- rísticas. Do mesmo modo, o questionário informará a Divulgar e explicar a intenção da pesquisa aos colegas é uma forma de incentivá-los e conscientizá-los sobre a importância do trabalho que está sendo realizado. vocês os temas sobre os quais os estudantes desejam se informar mais. 7 Compilação das fontes e divulgação dos resultados Para descobrir quais fontes devem ser indicadas, cada grupo poderá iniciar a pesquisa a partir de mí- dias impressas e eletrônicas em geral; programas em formato podcast sobre história, conjuntura e relações internacionais; livros e artigos que correspondam às curiosidades mais comuns dos colegas sobre eventos e processos políticos e econômicos contemporâneos, de acordo com as respostas obtidas na questão 4 do questionário. Com a ajuda do professor, selecionem fontes de informação consideradas confiáveis. Não se deixem enganar pelas fake news! Além disso, vocês podem incorporar à lista ma- terial cultural e de interesse geral, desde que sejam assuntos correlatos ao tema em questão (sociedade, política, economia, atualidades). Escrevam breves descrições sobre cada uma das fontes indicadas, informando o que pode ser acessado em cada material e curiosidades sobre elas. Não se preocupem em esgotar a lista indicando todos os materiais existentes. A ideia é que os colegas sejam estimulados a ampliar, pela própria iniciativa, os temas apresentados no material produzido pela turma. Para facilitar o trabalho, cada grupo pode ficar res- ponsável por um tema e buscar fontes relacionadas a ele. Depois, o material de toda a turma pode ser compilado. Uma opção interessante é que o material criado possa ser compartilhado virtualmente, por meio de um site ou blog, por exemplo. Mas nada impede que vocês elaborem uma revista informativa, que possa ser entregue aos colegas, ou um painel para ser exposto na escola. Cabe à turma decidir a melhor opção, den- tro de suas possibilidades. Além de indicar as fontes, vocês poderão com- partilhar também os resultados da pesquisa de opi- nião que foi realizada, para que os demais estudantes possam conhecer um pouco mais a comunidade em que estão inseridos. É importante chamar a atenção de todos para o fato de que se preocupar com a vida pública é uma das bases do exercício da cidadania. Uma possibilidade é divulgar o quadro geral dos resultados unificados da pesquisa de opinião feita por vocês em um mural ou em qualquer outro meio de comunicação disponível na escola. J u li a T im /S h u tt e rs to c k 37 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 37V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 37 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 O que são liberdades políticas? As liberdades políticas andam de mãos dadas com a democracia: um Estado só pode ser considerado democrático se garante liberdades políticas aos seus cidadãos. Trazemos a definição de liberdades políticas segundo Amartya Sen – escritor de livros como Desenvolvimento como Li- berdade, prêmio Nobel de Economia e um dos cria- dores do IDH. Para o autor, as liberdades políticas “Consistem nas oportunidades que as pessoas têm para determinar quem deve governar e com base em que princípios, além de incluírem a possi- bilidade de fiscalizar e criticar as autoridades, de ter liberdade de expressão política e uma imprensa sem censura.” A existência das liberdades políticas permi- te que os cidadãos participem do governo de seu país, estado ou município, colaborando para a dis- cussão, formulação e implementação de políticas, decidindo prioridades e valores a serem seguidos. Assim, percebemos que as liberdades políticas podem – e, em uma demo- cracia, devem – ir muito além do direito de votar e ser votado. Elas também incluem o direito a • Participar efetivamente das decisões e definições de prioridades: atra- vés de audiências públicas, consultas populares, colaborando para ela- boração de leis de iniciativa popular, comunicando-se com os seus representantes através de ferramentas como a Pauta Participativa, entre outros; • Fiscalizar o trabalho dos representantes: acessando o portal da trans- parência de seu município, acompanhando os votos de seus candida- tos, participando dos conselhos municipais da sua cidade, utilizando a lei de acesso à informação, entre outras possibilidades; • Expressar ideias políticas e insatisfações, ter sua voz ouvida: con- tatando diretamente os representantes, através de manifestações e protestos públicos, nas redes sociais, em canais tradicionais de mídia e demais meios de comunicação. ENRICONI, Louise. Liberdade política: temos autonomia para agir? Politize!, 14 set. 2017. Disponível em: https://www.politize.com.br/liberdade-politica-temos-autonomia-para-agir. Acesso em: 21 maio 2020. 1. Você concorda que, no Brasil, os cidadãos têm liberdade política? Por quê? 2. Você participa ou conhece alguém que participa ativamente da vida pública do município ou da comunidade onde você vive, sem exercer cargo político? 3. Em sua opinião, manifestações e protestos públicos têm o poder de alterar a opinião dos governantes e o rumo da política de um país? 4. A internet e as redes sociais são meios efetivos de se manifestar politicamen- te? As nossas ações no mundo virtual podem influenciar a realidade política de um país? Reflex›es Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. A consciência política faz parte da nossa cultura. Ela não se expressa somente pelo voto, mas também por meio das outras formas com que fazemos valer nossos direitos e nossa liberdade de tomar decisões conscientes e de participar da vida pública em prol do bem comum. Na imagem, jovem votando nas eleições de 2016. Rio de Janeiro (RJ). NÃO ESCREVA NO LIVRO L u c ia n a W h it a k e r/ P u ls a r Im a g e n s 38 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 38V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 38 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 Por meio das atividades do projeto proposto, será possível construir maneiras criativas de manter e aprofundar o interesse pelo estudo das questões políticas e sociais da conjuntura contemporânea, com grande proveito para o desenvolvimen- to de uma formação integral. Se a turma optou pela elaboração de um site ou blog, é possível continuar atua- lizando as informações e ampliando suas possibilidades. Esse pode ser um modo interessante de manter-se constantemente atento aos acontecimentos do mundo contemporâneo e de informar também a comunidade da qual fazem parte. Além de compartilhar as informações com os colegas, a turma pode criar gru- pos de estudo para debater temas contemporâneos. Conversar sobre questões so- ciais e promover o debate também é uma atitude política! Avalie como foi sua participação na construção e execução deste projeto. • Como foi realizar a pesquisa na escola? Os resultados encontrados correspon- dem ao que vocês esperavam? • Você acha que está mais bem informado sobre a conjuntura política e social após ter realizado esse projeto? • Quais foram os maiores aprendizados durante o desenvolvimento dessas atividades? • Como foi desenvolver o trabalho em grupo? Houve a colaboração de todos? Como vocês solucionaram possíveis conflitos? Autoavalia•‹o Nosso percurso atŽ aqui Professor, no Manual você encontra orientações sobre estaseção. Alunos do curso técnico de Administração integrado ao 2o ano do Ensino Médio pesquisam na biblioteca. Município de Pontes e Lacerda (MT), 2018. L u c ia n a W h it a k e r/ P u ls a r Im a g e n s NÃO ESCREVA NO LIVRO 39 V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 39V5_CIE_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016a039.indd 39 18/09/2020 11:4118/09/2020 11:41 CAP ÍTU LO A escravização moderna de africanos e indígenas nas Américas fez com que esses povos, por séculos, fossem obrigados a resistir a todo tipo de exploração e desumanização. Os processos de libertação dos escravizados e das colônias da América tiveram suas diferenças, mas todos contaram com importantes rebeliões da população negra e indígena contra o sistema vigente. Ainda assim, o escravismo deixou marcas profundas nas sociedades que se formaram com base nesse tipo de exploração. Escravos no porão, de Johann Moritz Rugendas. c. 1827-1835. Gravura, 29,5 × 35,4 cm. Coleção particular. As pessoas escravizadas faziam a travessia presas, amontoadas como carga no porão dos navios, sem nenhuma higiene e com alimentação precária. A situação desumana fazia com que muitos não sobrevivessem. Batalha de São Domingos, de January Suchodolski, 1845. Museu do Exército Polonês, Varsóvia. A pintura retrata o conflito entre os escravizados de São Domingos, atual Haiti, e as tropas francesas. O Haiti tornou-se, em 1804, a primeira colônia da América Latina a conquistar sua independência e a ser governada pela população negra. Por que algumas pessoas são vistas como mercadorias?22 M ic h a e l G ra h a m -S te w a rt /B ri d g e m a n I m a g e s /F o to a re n a R e p ro d u ç ã o /M u s e u d o E x é rc it o P o lo n ê s , W a rs za w a , P o lô n ia 40 P o r q u e a lg u m a s p e ss o a s sã o v is ta s co m o m e rc a d o ri a s? P o r q u e a lg u m a s P o r q u e a lg u m a s p e ss o a s sã o v is ta s co m o m e rc a d o ri a s? P o r q u e a lg u m a s p e ss o a s sã o v is ta s co m o m e rc a d o ri a s? P o r q u e a lg u m a s p e ss o a s sã o v is ta V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 40V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 40 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 Estátua do britânico Edward Colston, comerciante de escravizados no século XVII, é derrubada por manifestantes durante protesto ligado ao movimento Black lives matter, em Bristol, Inglaterra, em 2020. Manifestações antirracistas e a favor do movimento negro ganharam repercussão mundial no ano de 2020, após a morte do afro-americano George Floyd, nos Estados Unidos, vítima do uso de violência policial excessiva. Grupo de indígenas carregando a Constituição Federal no Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília (DF), em 2017. O Acampamento Terra livre é um encontro que reúne, anualmente, milhares de indígenas brasileiros, de diversos povos, em Brasília (DF). É um evento pacífico, em que as principais lideranças se reúnem com os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário para levar suas reivindicações, principalmente em relação ao direito a terra. Conhecer os fundamentos históricos e sociais da colonização e da escravidão é o ponto de partida para compreender fatos atuais, como a discriminação, o preconceito, o racismo e a desigualdade, principalmente no Brasil. Ao mesmo tempo, esse conhecimento fornece as bases para a reflexão crítica de sujeitos e cidadãos que reconhecem a importância de se empenharem no enfrentamento e na superação dessas questões, que seguem prejudicando eticamente, e atrasando historicamente, a nossa sociedade. Como a herança colonial e a do escravismo se manifestam e influenciam as relações econômicas, políticas e sociais até os dias de hoje? as relações econômicas, políticas e sociais até os dias de hoje? F á b io N a s c im e n to /M N I Keir Gravil/Reuters/Fotoarena 41 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 41V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 41 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 Cenário P o r q u e a lg u m a s p e ss o a s sã o v is ta s co m o m e rc a d o ri a s? P o r q u e a lg u m a s P o r q u e a lg u m a s p e ss o a s sã o v is ta s co m o m e rc a d o ri a s? P o r q u e a lg u m a s p e ss o a s sã o v is ta s co m o m e rc a d o ri a s? P o r q u e a lg u m a s p e ss o a s sã o v is ta Escra vidão, racismo, antirracismo A escravidão no Brasil, além de originar uma histó- ria nacional de grande concentração da propriedade da terra nas mãos de poucos, como permanece até hoje, deixou-nos como herança outro grave problema social: o racismo, prática da discriminação de pessoas em virtu- de do tipo de cabelo, da cor da pele e de características de fenótipo. O racismo não é apenas uma questão subjetiva, visto que estrutura a organização de nossa sociedade com base no preconceito e no ódio. É disseminado de forma ide- ológica, às vezes de maneira clara, às vezes de maneira disfarçada. Pretos e pardos são, comprovadamente, as pessoas mais pobres do Brasil, sujeitos às piores condições de saneamento, educação e saúde. Historicamente, os povos originários das Américas e seus descendentes estive- ram também sujeitos à escravidão, ao racismo e a suas consequências sociais. No Brasil, os grupos indígenas enfrentam – e resistem a – um genocídio de séculos, seja pela exploração de sua força de trabalho, seja pelo interesse de latifundiários em roubar suas terras. Os indígenas de outros países da América Latina enfrentam – e também resistem a – problemas semelhantes. OBJETIVOS E JUSTIFICATIVAS Neste capítulo o objetivo é estudar a formação da economia escravista moderna após os “descobrimentos” e refletir sobre o estabelecimento das relações comerciais entre o tráfico de escravizados, as monoculturas e a exploração mineral das Américas e seu papel na Revolução Industrial. Pretende-se também analisar como estruturas sociais racistas emergem da escravidão negra e indígena nas Américas. O foco da discussão serão os processos de escravidão no Brasil e nos Estados Unidos. Nesta sequência, estudaremos a constituição dos movimentos e das resistências à escravidão e ao racismo por afrodescendentes e indígenas do Brasil e dos outros países da América Latina. Este capítulo justifica-se por produzir uma reflexão acerca da constituição das estruturas sociais e ideológicas racistas em nosso presente. Pretende-se ainda incentivar a reflexão sobre como a valorização dos direitos humanos e da cidadania pode ajudar a construir uma sociedade mais democrática, de combate às discriminações raciais. COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DA BNCC • Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 3, 4, 6, 7, 8 e 9. • Competências específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: 1, 3, 5 e 6. • Habilidades de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: EM13CHS102, EM13CHS302, EM13CHS304, EM13CHS306, EM13CHS502, EM13CHS503, EM13CHS601, EM13CHS603 e EM13CHS605. • Competências específicas de Ciências da Natureza e suas Tecnologias: 2 e 3. • Habilidades de Ciências da Natureza e suas Tecnologias: EM13CNT203, EM13CNT206, EM13CNT302, EM13CNT305 e EM13CNT309. • Que tipo de ideias justificam – ainda hoje – fatos como a escravidão e o racismo? • Por que os mais pobres são os mais submetidos à miséria e os menos assistidos pelo Estado? • Você acha que o racismo interfere em sua vida cotidiana? Por quê? • Na condição de cidadão, o que você pode fazer contra o racismo? Professor, no Manual você encontra orientações sobre estas atividades. J u a n C a rl o s T o rr e s /N u rP h o to /G e tt y I m a g e s População indígena de Bogotá protestando contra projeto do presidente colombiano Iván Duque que beneficia a agroindústria e a mineraçãoe ameaça os territórios indígenas. NÃO ESCREVA NO LIVRO 42 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 42V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 42 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 PARTE 1 CONEXÕES TEMA 1 Origens da economia escravista moderna Os professores de História, de Geogra�a e de Sociologia são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. Navegações portuguesas – século XV OCEANO ATLÂNTICO OCEANO PACÍFICO OCEANO PACÍFICO OCEANO ÍNDICO AMÉRICA ÁFRICA ÁSIA OCEANIA EUROPA 0° 0° Equador Trópico de Câncer Trópico de Capricórnio Círculo Polar Ártico M er id ia n o d e G re en w ic h Porto Seguro PORTUGAL ESPANHA Arq. de Cabo Verde Cabo BojadorI. da Madeira Ceuta Arq. dos Açores Moçambique Cabo da Boa Esperança Melinde Calicute Cochim Lisboa OCEANO GLACIAL ÁRTICO Bartolomeu Dias (1488) Vasco da Gama (1495) Pedro Álvares Cabral (1500) 0 3460 km Mercantilismo O capitalismo mercantil marcou a transição do mo do de produção feudal para o modo de produção capitalista in- dustrial. A política mercantilista e a expansão comercial favoreceram e, ao mesmo tempo, foram favorecidas pela consolidação dos Estados nacionais e das Monarquias ab- solutistas. Apenas a estrutura do Estado nacional poderia providenciar os recursos humanos e o material necessário à gigantesca e perigosa tarefa das navegações. Desenvol- veram-se juntos, dessa forma, o Estado centralizado ab- solutista e os grandes capitalistas comerciais. O princípio básico do mercantilismo era que, quanto mais metais pre- ciosos um país tivesse, mais poderoso ele seria. Conceito Fonte: elaborado com base em ALBUQUERQUE, Manoel M. de et al. Atlas hist—rico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: FAE, 1986. p. 112-113. O capitalismo que nascia no século XVI teve como bases de apoio o Estado e o comércio internacional. A estrutura feudal foi o motivo central para que os co- merciantes europeus se esforçassem em buscar o co- mércio em territórios distantes. Dividindo os reinos em feudos, o sistema tornava difícil a comercialização inter- na a partir de certa escala. Em momento histórico subsequente, o reforço do poder central do Estado e o consequente enfraqueci- mento do poder dos senhores feudais levaram à unifi- cação e à expansão dos mercados internos, permitindo o desenvolvimento da classe burguesa, o surgimento dos Estados modernos e o aparecimento da doutrina econômica mercantilista. As Grandes Navega•›es Observe, a seguir, as rotas das navegações portuguesas no século XV, empre- endidas por Pedro Álvares Cabral, Vasco da Gama e Bartolomeu Dias. Ao longo do século XVI, com o início da colonização das Américas, a migração for- çada de africanos pelo oceano Atlântico, por traficantes que os vendiam como escravi- zados, foi adquirindo grandes proporções. A principal causa desse sombrio fenômeno foi a demanda das colônias espanhola e portuguesa por mão de obra para a agricultura de exportação e a extração de minérios. V e s p u c io C a rt o g ra fi a /A rq u iv o d a e d it o ra 43 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 43V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 43 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 O tráfico de africanos para o Brasil No início do povoamento, até 1590, os portugueses utilizavam majoritariamen- te escravizados indígenas para trabalhar nas lavouras de cana-de-açúcar, principal produto de exportação da colônia. Com o tempo, os escravizados africanos, por serem considerados fisicamente mais fortes para o trabalho, menos propensos à fuga – uma vez que não conheciam o território como os indígenas, que já viviam no continente – e explorados em um comércio lucrativo, passaram a ser preferidos pelos donos das plantações e engenhos. O Brasil se tornou o maior importador de escravizados africanos do século XVI até 1850. As condições nas quais os cativos africanos eram trazidos nos navios negreiros eram as piores possíveis. Antes de serem jogados no porão do navio, os africanos tinham o símbolo do traficante a que pertenciam marcado com ferro em brasa em sua pele. Ao longo dos séculos XVI e XVII, os navios portugueses levavam cerca de quinhentos africanos em cada viagem. Con- tudo, no século XIX, já existiam navios a vapor, que se incumbiam dessa tarefa. Estes, embora levassem um número menor de africanos escravizados (pois havia necessidade de espaço para as máquinas a vapor), eram mais velozes e escapavam com mais facilidade da fiscalização inglesa contra o tráfico negreiro. A civilização inca A civilização inca era constituída por um conjunto de povos que vivia, desde antes da chegada dos espanhóis, em uma extensa região da América do Sul, mais ou menos o que corresponde hoje aos territórios do Peru, do Equador e de partes do Chile e da Bolívia. Na época pré-colonial, o campesinato andino chegou a tornar produtivas mais de quarenta espécies vegetais, por meio de práticas como seleção, especia- lização e cruzamento. Por toda a região dos Andes peruanos, cultivavam-se mi- lho, batata, quinoa, vagem, pimenta, batata-doce, abóbora, cabaça, mandioca, amendoim, abacate e algodão. Segundo Favre, apesar da boa produtividade, uma pequena alteração no re- gime de chuvas, por exemplo, ou alguma instabilidade na temperatura poderia estragar toda uma plantação. Por isso, os incas desenvolveram diferentes técnicas de conservação e estocagem, cuja inovação mais importante foi a desidratação Ampliando Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. Os professores de Geogra�a e de História são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento, em colaboração com os professores de Biologia. Dica O filme Quanto vale ou é por quilo? estabelece uma comparação entre o tráfico de escravizados africanos e organizações atuais que captam recursos junto ao governo e empresas privadas, empreendendo uma so- lidariedade de fachada. Quanto vale ou é por quilo? Direção de Sérgio Bian- chi. Brasil, 2005 (110 min). Pessoas escravizadas, amontoadas e acorrentadas, sendo transferidas para o porão do navio negreiro rumo à América. Gravura de autor desconhecido, século XIX. Coleção particular. B ri d g e m a n I m a g e s /F o to a re n a FAVRE, Henry. A civilização inca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987. 44 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 44V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 44 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 1. Leia o texto a seguir sobre a chegada dos europeus ao continente americano e os povos indígenas já existentes. Depois, faça as atividades em dupla. [...] A história da conquista, e a da colônia, foram profundamente influenciadas pela história indígena anterior – por exemplo, pela distribui- ção diferencial da população pré-colombiana. As colônias escravistas baseadas no tráfico africano se desenvolveram em vazios demográficos rela- tivos como o Brasil e o Sul do que hoje são os Estados Unidos [...]. Onde existia uma densa população indígena, praticando uma agricultura estável e produtiva, mesmo com a catástrofe demográfica dos séculos XVI e XVII (até 1650 aproximadamente), a coloni- zação se apoiou na manutenção – modificada, como é evidente – da comunidade aldeã de raízes pré- -colombianas e na exploração da força de trabalho do índio dentro e fora das comunidades, por mais que posteriormente a mestiçagem e outros fatores viessem complicar o quadro colonial. Outrossim, as violentas lutas de classes que denominamos habitu- almente “reformas liberais”, travadas no século XIX, Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta atividade. Explorando NÃO ESCREVA NO LIVRO e que deram origem às estruturas contemporâneas dos países da Indo-América – México, Guatemala, El Salvador, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia... – são incompreensíveis sem referência a um elemento agrário indígena e mestiço que remete, em maior ou menor medida,a realidades geradas no passado pré- -colombiano, embora depois tenham sido profunda- mente transformadas e às vezes desfiguradas. CARDOSO, Ciro F. América pré-colombiana. São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 111-112. a) O que ocorreu com a população nativa com a chegada dos espanhóis? b) Façam uma pesquisa sobre a civilização inca que os espanhóis encontraram na América do Sul no século XVI, descrevendo sua organiza- ção social. Compare suas formas de proprieda- de da terra com as formas que os espanhóis impuseram. c) Convidem outra dupla de colegas e debatam sobre quais seriam os problemas indígenas que se originaram na colonização espanhola e re- fletem na população atualmente. Fonte: elaborado com base em DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2003. O ImpŽrio Inca OCEANO ATLÂNTICO OCEANO PACÍFICO Trópico de Capricórnio 0° 60° O Quito Chan Chan Cuzco Tiahuanaco Equador AMÉRICA CENTRAL AMÉRICA DO SUL Rio Amazonas Área do Império Inca Capital de império Cidade 0 775 km dos tubérculos (processo de submissão alternada entre o calor do Sol e o gelo das altitudes); dessa forma, as sobras da produção conservavam-se por muitos anos. O milho, por sua vez, era um alimento especial por seu alto valor energético e de fácil armazena- mento. Por isso, à medida que o Império Inca se expandia, seu cultivo era estimulado pelos manda- tários para atender à demanda crescente do Esta- do. O milho, por suas características, era requisita- do pelas autoridades e diversas variedades desse vegetal eram cultivadas pelos incas, formando um sistema alimentar que influenciou profundamente a cultura de populações indígenas americanas. V e s p u c io C a rt o g ra fi a /A rq u iv o d a e d it o ra 45 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 45V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 45 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 TEMA 2 Regimes escravistas nas Américas Os professores de Sociologia e de História são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. A escravidão no Brasil A escravidão compõem a maior parte da história dos trabalhadores brasileiros. Afinal, foram mais de trezentos anos de escravização de indígenas e africa- nos, somando-se o período colonial e o imperial. Tra- ta-se de um regime de utilização forçada do trabalho humano que serviu para o acúmulo de riquezas nas mãos dos senhores, donos de seres humanos trans- formados em mercadoria. Essa concentração de ri- queza que teve origem com o trabalho escravo, assim como o racismo e a discriminação de pessoas negras, permanece no Brasil atual, como sombria herança do passado. Antes de chegar ao Brasil, os africanos eram presos em planícies do interior da África, levados até o lito- ral, onde permaneciam em cercados ou galpões por semanas à espera de um navio negreiro para serem transportados. Ao embarcar, eram jogados no porão com mais trezentas ou quinhentas pessoas. Assim confinados, iniciavam a travessia do oceano Atlântico, que durava de um mês a cinquenta dias. Muitos mor- riam durante essa sofrível travessia. No litoral brasileiro, os cativos eram desembarca- dos e vendidos aos fazendeiros que os haviam enco- mendado. Havia tráfico também no interior do terri- tório, pois os escravizados eram deslocados do campo para as cidades, das regiões açucareiras do nordeste do Brasil para as áreas de mineração no centro-oeste e, mais tarde, para as lavouras de café do sudeste. Em cada região de trabalho, o uso de castigos físicos siste- máticos era o principal mecanismo de controle e “dis- ciplinamento” dessas milhares de pessoas. Durante os séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, uma vez desembarcados, vendidos e distribuídos, os africanos escravizados eram utilizados nos latifúndios de cana- -de-açúcar e plantações de café, na mineração de ouro e diamantes e no trabalho doméstico na casa dos senhores. Os escravizados que desempenhavam tarefas domésticas para seus donos tinham as áreas de serviço delimitadas em relação aos ambientes domés- ticos dos proprietários (ou seja, áreas “sociais” e “de serviço”, separação que existe até hoje nos elevadores de edifícios de classes média e alta). Para o trabalho nas plantações dos latifúndios, nos engenhos de açúcar e nas minas, era necessária uma grande quantidade de trabalhadores escravizados. O dia a dia desses trabalhadores era sujeito às mais variadas violências, sem contar o definhamento por exaustão e doenças. Os castigos e as punições físicas eram diversos: tronco, chicotadas, imobilização com correntes, ganchos no pescoço. A vida de um escra- vizado, quando começava a trabalhar nas lavouras do Brasil, não passava, em média, de cinco anos. No úl- timo quarto do século XIX, a expectativa de vida de um escravizado ao nascer aqui variava em torno de 19 anos (a de um brasileiro não escravizado era de 27 anos). Ainda assim, o Brasil foi o último país das Amé- ricas a abolir a escravidão, em 1888. Anúncio de compra e venda de pessoa escravizada, em jornal de 1879. A escravidão nos Estados Unidos Quando os europeus chegaram à América do Norte, o território já era habitado por centenas de grupos ou nações indígenas. Para ter ideia, havia mais de trezentas línguas diferentes. De acordo com Leandro Karnal, em História dos Estados Unidos, “Esses po- vos indígenas, como cherokees, iroqueses, comanches, apaches, dakota, iowa, missouri, entre muitos outros, povoavam o território da costa do Atlântico até à do Pacífico”. A ocupação desse território por colonos ingleses era justificada por eles mes- mos como um direito “dado por Deus”. Os colonos expulsavam os indígenas de KARNAL, Leandro et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2007. p. 53-55. R e p ro d u ç ã o /C o le ç ã o p a rt ic u la r 46 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 46V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 46 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 suas terras porque acreditavam nesse “direito”. Também capturavam e ven- diam esses indígenas como escravos. Karnal afirma que “Em 1708, por exem- plo, na Carolina do Sul havia 1 400 es- cravos índios”. Tal como na América do Sul, a escravização de africanos passou a predominar nas colônias inglesas da América do Norte. O lucrativo tráfico de africanos cada vez mais começou a fornecer a mão de obra para as fazen- das dos Estados Unidos. Em 1787, a Constituição dos Esta- dos Unidos deixou a cada estado da Federação a decisão de abolir ou não a escravidão em seu território, prescre- vendo o fim do tráfico de escravizados para 1808. Nas décadas seguintes, os estados do norte e do centro do país eli- minaram a escravidão, mas no sul a abolição prejudicaria a economia de mo- noculturas para exportação. Ali, em vez de desaparecer, a escravidão começou a crescer. Após a Guerra Civil Americana (1861-1865) ou Guerra de Secessão, que libertou todos os escravizados, os estados do sul implantariam um regime de segregação racial. De 500 mil na época da independência, em 1776, o total de escravizados já era aproximadamente 4 milhões em 1860, quase 14% da população total dos Estados Unidos. A Revolução Industrial inglesa, que se iniciou no final do século XVIII, havia ampliado a demanda por algodão para a manufatura de tecidos. Os principais for- necedores dessa matéria-prima eram os estados do sul dos Estados Unidos. Houve várias formas de resistência por parte dos escravizados, como sabotagem do trabalho, fugas, incêndios provocados nas fazendas, assassinatos e insurreições. Assim, o temor da reação dos negros acabou se convertendo em novo motivo para manter a situação exatamente como estava. A mentalidade escravagista aca- bou sendo acolhida também pelas pessoas brancas pobres do sul. Elas defendiam a manutenção da escravidão porque a cor da pele era a única coisa que as fazia ter direitosmelhores que os dos negros. Segregação racial nos Estados Unidos O apartheid estadunidense consistiu em um conjunto de leis que implementavam a se- gregação racial no país. Os negros dos estados do sul não podiam votar, estudar ou ter quaisquer condições igualitárias com os brancos. Havia segregação em escolas, biblio- tecas, parques públicos, banheiros, transporte público e restaurantes, restando sempre os piores lugares aos negros. Quem ousasse questionar essa situação era preso ou até mesmo morto. Essas leis só foram completamente eliminadas em 1968, após vários anos de mobilização pelos direitos civis, que custaram a vida de líderes, como Martin Luther King e Malcom X. A mobilização trouxe visibilidade a movimentos de resistência, como os Panteras Negras. Conceito Dica O filme 12 anos de escra- vidão é uma adaptação da autobiografia de So- lomon Northup, negro livre nascido no estado de Nova York que foi sequestrado em 1841 e vendido como escravo. Nessa condição, ele tra- balhou em plantações no estado de Louisiana por doze anos antes de sua libertação. 12 anos de escravidão. Direção de Steve Mc- Queen. Estados Unidos, 2013 (134 min). R e g e n c y E n te rp ri s e s /R iv e r R o a d E n te rt a in m e n t Cartaz do filme 12 anos de escravidão. Pessoas escravizadas em plantação de algodão em Savannah, na Geórgia, Estados Unidos, c. 1860. B e tt m a n n A rc h iv e /G e tt y I m a g e s 47 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 47V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 47 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 Os jacobinos negros Entre todas as numerosas insurreições de es- cravos, ocorridas desde a Antiguidade clássica até os tempos modernos, somente uma foi vitoriosa: a insurreição dos escravos da colônia francesa de São Domingos, iniciada em 1791, no território onde hoje se localiza a República do Haiti. [...]. Algumas causas objetivas favoreceram a eclosão do movimento rebelde e seu triunfo. A colônia francesa, então a mais próspera do continente americano, graças à produção açucareira, concen- trava meio milhão de escravos, em sua maioria africanos, num território de cerca de trinta mil quilômetros quadrados. Esse formidável contin- gente era dez vezes maior do que o dos bran- cos de origem francesa – senhores e auxiliares imediatos. [...]. As ideias da Revolução Francesa foram acolhidas pelas mentes receptivas da lide- rança dos escravos rebelados, os jacobinos negros, como os denomina C. L. R. James. Principalmente pelo mais notável líder da rebelião – Toussaint L’Ouverture. Este concebeu o projeto de fazer da ilha de São Domingos um país independen- te que se aliaria à França revolucionária em pé de igualdade e se converteria num baluarte das ideias mais avançadas no continente america- no. O projeto não vingou e Toussaint terminou sua vida tragicamente. Mas a independência do Haiti se formalizou em 1803, depois que os ex- -escravos derrotaram tropas francesas, inglesas e espanholas. O heroísmo dos combatentes negros e a habilidade militar de seus comandantes fizeram do Haiti a primeira colônia liberta da opressão estrangeira na América Latina. GORENDER, Jacob [Orelha do livro]. In: JAMES, C. L. R. Os jacobinos negros. São Paulo: Boitempo, 2007. 1. Em um mapa da América Latina, localize a ilha de São Domingos, identificando quais países ocupam atualmente seu território. 2. Quais são as ideias principais que você iden- tifica no texto acima? Para responder, busque informações sobre a Revolução Haitiana. 3. Escreva um resumo da pesquisa que você fez, mencionando as causas da revolução, os prin- cipais acontecimentos e suas consequências. 4. Com a ajuda do professor, organize um debate em sala de aula para discutir as pesquisas da turma. Reflexões Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. NÃO ESCREVA NO LIVRO 1. Observe e analise a imagem abaixo. Que relações é possível estabelecer entre essa imagem e a situação das pessoas negras na sociedade brasileira atual? O que mudou? O que pode ser considerado como herança de nosso passado escravocrata? Professor, no Manual você encontra orientações sobre estas atividades. Explorando NÃO ESCREVA NO LIVRO 2. Você já ouviu falar em racismo recreativo? Para saber mais sobre esse tema, acesse o vídeo Humor perverso e racismo. Depois, converse com os colegas e o professor sobre o depoimento que você viu e sobre a ex- plicação do professor e jurista Adilson Moreira. Humor perverso e racismo. Canal Preto. Brasil, 2019. (5 min 36 s). Disponível em: https://youtu. be/DGg6WolKgOs. Acesso em: 29 jun. 2020. Registro de uma senhora branca com seus escravizados na Bahia, c. 1860. Foto de autoria desconhecida feita na Bahia. R e p ro d u ç ã o /C o le ç ã o p a rt ic u la r 48 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 48V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 48 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 TEMA 3 Resistência e movimento negro Os professores de Sociologia, de História e de Geogra�a são indicados, prio- ritariamente, para o trabalho deste segmento. Desenho representando a população pobre nas ruas de Salvador, no contexto da Revolta dos Malês, de François- Auguste Biard, 1862. Fonte: O Exército na história brasileira. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército/Odebrecht, 1998. v. II. A sociedade brasileira foi e continua sendo cons- truída principalmente pelo trabalho de braços não brancos, majoritariamente negros. Esse grupo possui uma história de luta e resistência que começa justa- mente com sua escravização. Neste tópico, vamos co- nhecer melhor a resistência e a luta negra. Nos períodos da colônia e do império, do século XVI ao XIX, os escravizados resistiram ao cativeiro e lutaram contra ele de diferentes maneiras, conforme relata João José Reis em Dicionário da escravidão e liberdade: [...] a revolta coletiva representou a forma mais radical de contestação da escravidão. Não que toda revolta almejasse a destruição do regime escravocrata. Muitas buscaram apenas corrigir excessos de tirania senhorial, diminuir até um limite tolerável a opres- são, reivindicando benefícios específicos – às vezes a reconquista de ganhos perdidos – ou punindo feitores e senhores particularmente tirânicos. Enquanto o qui- lombo foi uma forma de resistência coletiva que atra- vessou toda a longa história da escravidão no Brasil, as revoltas foram mais comuns no século XIX. REIS, João José. Revoltas escravas. In: SCHWARCZ, Lilia M.; GOMES, Flávio (org.). Dicionário da escravidão e liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 411-418. A origem comum africana reforçava a identidade coletiva entre os escravizados, assim como a própria disposição para revoltas. Os escravizados crioulos (ne- gros nascidos no Brasil), por sua vez, não eram passivos. Fugiam, formavam quilombos, rebelavam-se; de acordo SŽculos XX e XXI Após o fim oficial da escravidão no Brasil em 13 de maio de 1888, não houve no país um regime ofi- cial de segregação dos negros, como nos Estados Unidos (até meados da década de 1960) e na Áfri- ca do Sul (até meados da década de 1990). Mas, na prática, o racismo ainda é bastante presente no Bra- sil e segue espalhando preconceito e discriminação contra pretos e pardos e promovendo a segregação e a exclusão dessa parte da população em relação às possibilidades de estudo e emprego, além de maiores taxas de mortalidade. Por isso, por todo o século XX e até agora no século XXI, vários movimentos negros, culturais e políticos, continuam se organizando e lutando no país por justiça e igualdade e desempenhando papel vital na batalha pela construção da democracia no Brasil. Algumas conquistas importantes resultaram dessa luta: a Lei n. 12 711, de 2012 – que assegura a reserva de 50% das vagas nas universidades e nos institutos federaispara estudantes de escolas públi- cas e estudantes que se autodeclarem pretos, pardos ou indígenas; e a Lei n. 7 716, de 1989 – que prevê a detenção de um a cinco anos para o crime de dis- criminação racial (em estabelecimentos privados ou públicos, ofensas, agressões), além de proibir a mani- festação de ideias nazistas. com Reis: “com o declínio da população escrava africa- na depois do fim do tráfico em 1850, os crioulos intensi- ficariam sua participação em revoltas escravas, especial- mente nos últimos anos do regime escravocrata”. Em janeiro de 1835 ocorreu a mais famosa revolta dos escravizados na Bahia, conhecida como Revolta dos Malês. O nome “malê” vem de muçulmano, por- que havia vários líderes muçulmanos na revolta, muitos alfabetizados e instruídos no idioma árabe. No levante, aproximadamente seiscentos escravizados e libertos combateram nas ruas de Salvador – ou seja, foi uma re- volta urbana. Os re- voltosos foram der- rotados pelas forças coloniais e punidos com a morte, chi- cotadas, prisão e/ou deportação. R e p ro d u ç ã o /B ib lio te c a M u n ic ip a l M á ri o d e A n d ra d e , S P 49 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 49V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 49 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 Discriminação racial no Brasil Em 2019, no Brasil, os brancos eram 42,7% da população; os pretos, 9,4%; e os pardos, 46,8%, de acordo com a PNAD do IBGE. Observe os dados abaixo. A desigualdade racial ainda se faz presen- te em nosso país? IBGE. Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio. 2019. Disponível em: https:// sidra.ibge.gov.br/tabela/6408#resultado. Acesso em: 27 jul. 2020. Fonte: elaborados com base em IBGE. Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil. Estudos e Pesquisas. Informa•‹o demogr‡fica e socioecon™mica, n. 41. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/ liv101681_informativo.pdf. Acesso em: 29 jun. 2020. Mercado de trabalho: cargos gerenciais (%) – 2018 0 10 20 30 40 50 60 70 80 68,6 29,9 % Ocupados por brancos Ocupados por pretos ou pardos Distribuição de renda (%) – 2018 0 5 10 15 20 25 30 35 32,9 15,4 3,6 8,8 Inferior a US$ 5,50/dia Inferior a US$ 1,90/dia Pessoas abaixo da linha da pobreza % Brancos Pretos ou pardos Violência: taxa de homicídios, por 100 mil jovens* – 2017 TotalHomensMulheres Brancos Pretos ou pardos 34,0 98,5185 63,5 5,2 10,1 Quantidade de homicídios Educação: taxa de analfabetismo* (%) – 2018 Urbano Rural Total 3,1 11,0 3,9 20,76,8 9,1 Brancos Pretos ou pardos Porcentagem de analfabetos Representação política: deputados federais eleitos (%) – 2018 Pretos ou pardos Brancos e outros 24,4 75,6 Pessoas em ocupações informais por regiões* (%) – 2018 52,0 57,8 51,7 61,0 37,1 40,7 32,5 39,1 27,3 34,1 Norte Centro-Oeste Sudeste Sul Nordeste 34,6 47,3 Brasil Brancas Pretas e pardas * Pessoas de 15 a 29 anos de idade. * Pessoas de 15 anos ou mais de idade. * Pessoas de 14 anos ou mais de idade. B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra 50 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 50V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 50 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 Democracia racial no Brasil Reflex›es Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. NÃO ESCREVA NO LIVRO Movimento negro nos Estados Unidos Assim como você aprendeu anteriormente sobre importantes momentos do processo de escravidão nos Estados Unidos, vai conhecer agora características cen- trais da história do movimento negro naquele país. Desde o fim da Guerra de Secessão até meados da década de 1960, vigorou nos Estados Unidos, principalmente nos estados do sul do país, um sistema de segrega- ção que proibia negros de frequentar as mesmas escolas dos brancos, os mesmos lugares públicos, os mesmos espaços nos ônibus, além de reproduzir diferenças so- ciais, como maior pobreza e analfabetismo entre os negros. Em 1955, no estado do Alabama, a atitude de Rosa Parks – uma mulher negra que se recusou a ceder seu lugar no ônibus a um homem branco – desencadeou um intenso processo de luta por direitos civis que culminou com a abolição formal do sistema estadunidense de apartheid em 1964. Alguns dos principais líderes negros que conduziram essa luta foram o pastor pro- testante Martin Luther King (1929-1968), o militante islâmico pelos direitos dos afro- -americanos Malcom X (1925-1965) e os fundadores ativistas do Partido dos Panteras Negras Huey Newton (1942-1989), Bobby Seale (1936-) e Angela Davis (1944-). O professor doutor Kabengele Munanga (1940-), um antropólogo brasileiro-congolês, é uma das principais referências na questão do racismo na so- ciedade brasileira. Abaixo, veja alguns trechos de uma entrevista concedida por ele. A luta pela mudança, da transformação da so- ciedade, demora muito. Já tivemos no Brasil algu- mas conquistas, sobre a questão da igualdade en- tre branco, negro, indígenas e outros diferentes e isso foi luta de gerações do movimento negro que vem desde Zumbi dos Palmares até agora. [...] As palavras são importantes, mas a luta se faz com políticas e essas políticas estão sendo destru- ídas. A consciência está lá, o discurso está lá, mas não as políticas públicas, que estão sendo destru- ídas por uma conjuntura onde parece que não se entendeu [a necessidade dessas políticas] [...] A gente se pergunta o que está por trás disso, porque a questão para mim não é ser de direita ou ser de esquerda, a questão importante é saber como se viver em uma sociedade que tem proble- mas, onde você deve construir políticas sociais [...] A luta pela liberdade não tem preço. A única saída é a população se mobilizar para defender seus direitos, para que esse retrocesso não acon- teça mais e que possamos recuperar o que está sendo perdido rapidamente, construindo mais do que o que já foi feito [...]. MILENA, Lilian. Carta Maior, 15 maio 2019. Disponível em: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Direitos-Humanos/ Kabengele-Munanga-o-antropologo-que-desmistificou-a- democracia-racial-no-Brasil/5/44091. Acesso em: 30 jun. 2020. 1. Qual é a principal preocupação do professor Munanga? Por quê? 2. Observe novamente os dados apresentados na página 50 sobre a representação política de pre- tos e pardos no Parlamento e considere a pas- sagem do texto em que Munanga diz: “a luta se faz com políticas e essas políticas estão sendo destruídas”. De que forma é possível estabelecer alguma relação entre as duas mensagens? Kabengele Munanga, doutor em Antropologia e professor da Universidade de São Paulo (USP). Fotografia de 2006. R o g é ri o C a s s im ir o /F o lh a p re s s 51 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 51V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 51 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 Ampliando Martin Luther King, ou “Dr. King”, como ficou conhecido entre os militantes, foi um pastor pro- testante defensor dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Inspirado no método da não violência de Gandhi, lutou contra o racismo, por mais empregos e melhores salários para os negros e foi ativamente contra a Guerra do Vietnã. Ele era conhecido por sua excelente retórica e por pro- ferir frases que ficaram famosas ao longo da his- tória, como a emblemática “Eu tenho um sonho” (“I have a dream”). Veja a seguir algumas de suas famosas falas. Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. Os professores de História e de Sociologia são indicados, prioritariamente,para o trabalho deste segmento. M a ti ld e C a m p o d o n ic o / A P P h o to /G lo w I m a g e s Ativista Angela Davis em comício da Universidade da República de Montevidéu, no Uruguai, em 2019. Angela Davis nasceu em 1944 no estado do Alabama, Estados Unidos. Militante dos Panteras Negras e do Partido Comunista dos Estados Unidos, foi acusada de envolvimento em um atentado que terminou com a morte de um juiz. Em agosto de 1970, seu nome foi incluído na lista dos dez fugitivos mais procurados pelo FBI. Após meses escondida, a ativista e intelectual foi presa, e o mundo inteiro enga- jou-se na campanha conhecida como Libertem Angela Davis. Após dezoito me- ses, ela foi inocentada de todas as acusações. Filósofa marxista é, hoje, professora emérita da Universidade da Califórnia e ícone na luta mundial pelos direitos civis. Pe rfil Dica Os contos do livro Olhos d’água abordam a pobreza e a violência urbana que atingem a população feminina afro-brasileira. A autora busca expor as difíceis condições enfrentadas pela comunidade afro-brasileira, sobretudo a situ- ação das mulheres. Os contos apresentam personagens em di- ferentes contextos que compar- tilham as mesmas dificuldades e dilemas sociais e existenciais. EVARISTO, Conceição. Olhos d’á- gua. Rio de Janeiro: Pallas, 2014. O Partido dos Panteras Negras foi criado na dé- cada de 1960, nos Estados Unidos, para defender os moradores dos bairros negros da violência policial e denunciar o racismo na sociedade. Eram socialistas e defendiam a resistência armada contra a opressão e a perseguição por parte dos brancos ricos e da polícia. Também lutavam por melhores condições sociais para os afro-americanos e foram contra a Guerra do Vietnã. H u lt o n A rc h iv e / G e tt y I m a g e s “Eu tenho um sonho: que meus quatro filhos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, e sim por seu caráter.” 23 de agosto de 1968, na Marcha de Washington pelo Trabalho e pela Liberdade. “Creio que a verdade desarmada e o amor incondicional terão a últi-ma palavra na realidade. É por isso que o bem temporariamente derro-tado é mais forte que o mal triunfante.” 10 de dezembro de 1964, no discurso de aceitação do Prêmio Nobel da Paz em Oslo, Noruega. “Não sei o que acontecerá agora, se virão dias difíceis. Mas realmente não me importa, porque estamos no cimo da montanha. Como qualquer um, gostaria de viver uma vida longa. A longevidade tem seu lugar. Mas agora isso não me preocupa. Quero apenas fazer a vontade de Deus. [...]” 3 de abril de 1968, no templo do bispo Charles Mason em Memphis, Tennessee (um dia antes de ser morto). G e tt y I m a g e s 3 de abril de 1968, no templo do bispo Charles Mason em Memphis, Tennessee (um dia antes de ser morto). Martin Luther King, ou “Dr. King”, como ficou conhecido entre os militantes, foi um pastor pro- testante defensor dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Inspirado no método da não violência de Gandhi, lutou contra o racismo, por mais empregos e melhores salários para os negros e foi ativamente contra a Guerra do Vietnã. Ele era conhecido por sua excelente retórica e por pro- ferir frases que ficaram famosas ao longo da his- tória, como a emblemática “Eu tenho um sonho” (“I have a dream”). Veja a seguir algumas de suas famosas falas. “Eu tenho um sonho: que meus quatro filhos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, e sim por seu caráter.” 23 de agosto de 1968, na Marcha de Washington pelo Trabalho e pela Liberdade. “Creio que a verdade desarmada e o amor incondicional terão a últi-ma palavra na realidade. É por isso que o bem temporariamente derro- “Creio que a verdade desarmada e o amor incondicional terão a últi-ma palavra na realidade. É por isso que o bem temporariamente derro- ma palavra na realidade. É por isso que o bem temporariamente derro- “Creio que a verdade desarmada e o amor incondicional terão a últi- 10 de dezembro de 1964, no discurso de aceitação do Prêmio Nobel da Paz em Oslo, Noruega. “Não sei o que acontecerá agora, se virão dias difíceis. Mas realmente não me importa, porque estamos no cimo da montanha. Como qualquer um, gostaria de viver uma vida longa. A longevidade tem seu lugar. Mas agora isso não me preocupa. Quero apenas fazer a vontade de Deus. [...]” 3 de abril de 1968, no templo do bispo Charles Mason em Memphis, Tennessee ”). Veja a seguir algumas de suas H u lt o n A rc h iv e / G e tt y I m a g e s “Não sei o que acontecerá agora, se virão dias difíceis. Mas realmente não me importa, porque estamos no cimo da montanha. Como qualquer um, gostaria de viver uma vida longa. A longevidade tem seu lugar. Mas agora isso não me preocupa. Quero apenas fazer a vontade de Deus. [...]” 3 de abril de 1968, no templo do bispo Charles Mason em Memphis, Tennessee Martin Luther King, em 28 de agosto de 1963, quando proferiu um dos seus discursos mais emblemáticos, na Marcha pelo Trabalho e pela Liberdade, em Washington, Estados Unidos. PARA LEMBRAR: as frases mais famosas de Martin Luther King. Estad‹o, 4 abr. 2018. Disponível em: https://internacional.estadao.com.br/blogs/radar-global/para-lembrar-as-frases-mais-famosas-de- martin-luther-king. Acesso em: 30 jun. 2020. 52 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 52V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 52 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 1. Leia o texto a seguir. Negro Cosme (1800-1842) Cosme Bento das Chagas nasceu em Sobral, CE, por volta de 1800. Nasceu livre e vivia de peque- nos expedientes, sabia ler e escrever. [...] Quando a Balaiada estourou em dezembro de 1838, ele se encontrava preso na capital, não par- ticipando da insurreição até o final de 1839. [...] À frente dos quilombolas, lutava para pôr fim à escravidão, junto com líderes como o índio Ma- troá, o vaqueiro Raimundo Gomes e o artesão de cestos Manoel Ferreira dos Anjos, o Balaio. Cosme liderava um exército de escravos for- mado principalmente de africanos, visto que no Maranhão tinha um grande contingente de ne- gros naquela época. Cosme organizou um grande quilombo em Lagoa Amarela e nele fundou uma escola. Negro Cosme contava com um exército de aproximadamente três mil homens. [...] Cosme foi enforcado em Itapicuru Mirim en- tre os dias 19 e 25, provavelmente em 20 de se- tembro de 1842, transformando-se em símbolo da luta contra escravidão. HERÓIS de todo o mundo. Disponível em: http://antigo. acordacultura.org.br/herois/heroi/negrocosme. Acesso em: 30 jun. 2020. a) Faça uma pesquisa em dupla sobre o levante popular brasileiro conhecido como Balaiada, identificando seus principais líderes e os grupos sociais envolvidos. b) Explique quais foram as causas da Balaiada e como a insurreição foi vencida. c) Na sua opinião, é possível comparar os proble- mas sociais que ajudaram a provocar a Balaiada com os problemas sociais que existem atual- mente no Brasil? 2. Leia o trecho a seguir, sobre o feriado de 20 de no- vembro, o Dia da Consciência Negra. Dia Nacional da Consciência Negra O Dia Nacional da Consciência Negra homena- geia e resgata as raízes do povo afro-brasileiro e é comemorado no Brasil no dia 20 de novembro. Esta data foi restabelecida pelo projeto lei núme- ro 10.639, no dia 9 de janeiro de 2003, porque coincide com o dia 20 de novembro de 1695, dia Professor, no Manual você encontra orientações sobre estas atividades. Explorando NÃO ESCREVA NO LIVRO da morte de Zumbi dos Palmares, grande líder da resistência negra e da luta pela liberdade [...]. Este dia é dedicado de modo especial à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira e sobre a influência do povo africano na formação cultural do nosso país. Desde o Brasil colônia até a atualidade a influência dos negros africanos foram muitas, sobretudo nos aspectos religiosos, políti- cos, sociais e gastronômicos.Ao longo da nossa história, as crenças, as danças, o vocabulário, a culinária, o folclore e tantas outras coisas, foram sendo incorporadas à nossa cultura. [...] Temos no país uma lei que obriga as escolas a ensinarem temas relativos à história dos povos africanos em seu currículo. Nas últimas décadas tivemos muitos avanços na área da educação, com o declínio do analfabetismo e aumento da escola- rização e da escolaridade média, mas há muito que ser feito para alcançar níveis melhores de qualida- de, eficiência e rendimento do ensino compatível com as necessidades atuais e futuras para o mer- cado de trabalho e o exercício da cidadania para a população jovem negra. No ensino fundamental, a escolaridade dos brancos é de 6,7 anos e dos ne- gros é de 4,5 anos, ou seja, os negros saem da es- cola antes do tempo para ajudar a família na renda familiar. No ensino superior, nem as cotas raciais fizeram crescer de forma significativa o acesso de negros e pardos às universidades brasileiras. Há ainda muito que se fazer para oferecer aos afro-brasileiros pleno acesso aos seus direitos hu- manos fundamentais, à liberdade de expressão e à igualdade racial. Para que ocorram significativas mudanças é necessário um esforço em conjunto das esferas federais, estaduais e municipais, as- sim como dos movimentos sociais e da sociedade civil como um todo. ROSS, Rosemary de. HOJE na História, 20 de novembro – Dia Nacional da Consciência Negra. GŽledes, 2012. Disponível em: https://www.geledes.org.br/hoje-na-historia-20-de-novembro- dia-nacional-da-consciencia-negra/?gclid=EAIaIQobChMI38LKg__ k6gIVkYORCh1TwQo7EAAYASAAEgIuhfD_BwE. Acesso em: 27 jul. 2020. a) Você tem conhecimento, participa ou já ouviu falar de algum movimento negro? b) Busque informações sobre movimentos negros culturais e políticos ativos no Brasil e observe quais são suas principais pautas. Depois, escreva um breve texto argumentando o que, em sua opinião, significa a data de 20 de novembro para a luta antirracismo no Brasil. 53 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 53V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 53 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 TEMA 4 População indígena na Amér ica Latina A América Latina possui uma enorme população indígena que se mantém em luta para conquista e manutenção de seus direitos civis, políticos e sociais. O país com maior proporção de indígenas é a Bolívia, nosso vizinho, com mais de 62% de sua população; em seguida vem a Guatemala, na América Central, com mais de 40% de sua população; depois há outro vizinho, o Peru, com 24% de sua população; e, por fim, o México, na América do Norte, com 15% de indíge- nas em sua população. A esse conjunto de países com relevante população indígena local podemos dar tam- bém o nome de Indo-América. Os professores de História, de Geogra� a e de Sociologia são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. Fonte: elaborado com base em em RECONHECIMENTO e acesso aos direitos indígenas aumentam, mas profunda desigualdade persiste. Amazônia: notícia e informação, 2 out. 2014. Disponível em: https://amazonia.org. br/2014/10/reconhecimento-e-acesso-aos-direitos- ind%C3%ADgenas-aumentam-mas-profunda- desigualdade-persiste; O DADO: o quanto é importante a presença indígena na América Latina? Somos Ibero-América, 17 dez. 2019. Disponível em: https://www.somosiberoamerica. org/pt-br/temas/indigenas-pt-br/o-dado-o-quanto-e- importante-a-presenca-indigena-na-america-latina. Acesso em: 30 jun. 2020. Existem cerca de 826 povos indígenas na América Latina Aproximadamente 45 milhões de pessoas H e m is /A la m y/ Fo to ar en a 8,3% da população da América Latina é indígena Indígenas Huaorani em Tena, Equador, em 2018. AmŽrica Latina: popula•‹o ind’gena Ð 2010 0° 80° O OCEANO PACÍFICO OCEANO ATLÂNTICO Equador Trópico de Capricórnio Trópico de Câncer Porcentagem de indígenas em relação à população total População total MÉXICO 15,1% 17 milhões HONDURAS 7% 537 mil PANAMÁ 1,8% 113 mil VENEZUELA 2,7% 725 mil COLÔMBIA 3,4% 1,6 milhão GUATEMALA 41% 5,9 milhões BRASIL 0,5% 900 mil EL SALVADOR 0,2% 14,5 mil NICARÁGUA 8,9% 520 mil COSTA RICA 2,4% 105 mil EQUADOR 7% 1 milhão PERU 24% 7 milhões BOLÍVIA 62,2% 6,2 milhões PARAGUAI 1,8% 113 mil URUGUAI 2,4% 77 mil ARGENTINA 2,4% 955 mil CHILE 11% 1,8 milhão 0 940 km V e s p u c io C a rt o g ra fi a /A rq u iv o s d a e d it o ra 54 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 54V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 54 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 Resistência dos povos originários Há três países da Indo-América que nas últimas décadas têm apresentado importantes lutas indíge- nas: México, Bolívia e Equador. Em 1994, em Chiapas, no México, um movimento armado de camponeses indígenas chamado Exército Zapatista de Libertação Nacional ocupou seis cida- des da região e permanece resistindo até hoje contra o Exército mexicano. O povo dessas regiões apoia os zapatistas e governa em conjunto. O nome do movi- mento é inspirado em Emiliano Zapata, líder da Revo- lução Mexicana de 1911. O objetivo do movimento zapatista é manter em pauta a urgência por transfor- mações que melhorem a vida da população empobre- cida do México, bem como realizar a Reforma Agrária. Na Bolívia, ao longo das décadas de 1990 e 2000, as comunidades indígenas travaram importantes lutas contra as grandes corporações capitalistas internacio- nais que tentaram privatizar recursos naturais, como a água e o gás natural. Os povos originários bolivianos mantêm sua resistência pela terra e pelo reconheci- mento de seus sistemas de autogoverno, por meio de uma rede de organizações sociais, indígenas, sindicais e políticas, das quais a mais destacada nos últimos anos tem sido o Movimento para o Socialismo – Ins- trumento Político pela Soberania dos Povos (MAS- -IPSP), liderado por Evo Morales. Morales destacou-se na década de 1980 como um dos principais líderes do campesinato indígena de seu país. Venceu três eleições consecutivas e foi presidente da Bolívia de 2006 a 2019. De orientação socialista, a ênfase de seus governos foi a implementação da refor- ma agrária e a nacionalização de setores estratégicos da economia boliviana, como a produção de gás na- tural. Enfrentou as tentativas de influência dos Estados Unidos e das grandes corporações capitalistas na polí- tica interna da Bolívia e resistiu a elas. Durante seus go- vernos, a pobreza na Bolívia foi reduzida de 36,7% para 16,8%. Em meio a muitas controvérsias, foi deposto da Presidência em novembro de 2019. No Equador, em 1986, foi formada a Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), que congregou as nacionalidades quéchua da região andina e as nacionalidades da Amazônia equatoriana. Entre 1995 e 1996, formou-se um novo movimento indígena popu- lar, o Movimento de Unidade Plurinacional Pachakutik – Novo País– palavra que se refere a um mito andino sobre o “retorno dos bons tempos” – (MUPP-NP). Entre 1990 e 2006, houve no país cinco levantes indígenas contra po- líticas econômicas neoliberais, e três presidentes foram depostos. Em 2008, uma nova Constituição assimilou avanços nos direitos econômicos, sociais e culturais do povo equatoriano, graças às lutas populares indígenas. Placa em território zapatista em Oventic, Chiapas, México, em 2003. Na placa, lê-se “Este é um território zapatista. Aqui manda o povo e o governo obedece.” D a n ie l A g u ila r/ R e u te rs /F o to a re n a Manifestação indígena contra o aumento do preço do combustível em Quito, Equador, em 2019.Rodrigo Buenda/AFP 55 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 55V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 55 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 A realidade peruana Reflex›es Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção.NÃO ESCREVA NO LIVRO gamonalismo: regime de propriedade da terra em que predominavam os gamonales, latifundiários peruanos da região serrana (próximo à cordilheira dos Andes). Eles exploravam a força de trabalho do camponês indígena local em um regime de servidão, o que lembrava as relações de trabalho no campo da Idade Média europeia (dependência pessoal em relação ao dono da fazenda, obrigação de trabalhar nas terras dele durante parte da semana, pagamento de tributos a ele em produtos de cultivo, entre outros). 1. O texto acima se refere à situação de pobreza e abandono em que os milhões de campone- ses indígenas viviam em 1928. Explique qual é a relação que Mariátegui estabelece entre a “questão indígena” em seu país e a propriedade da terra. 2. O Peru faz fronteira com o Brasil pela Floresta Amazônica e possui relevante população de as- cendência indígena (com grande participação das etnias andinas quéchua e aimará). O texto acima apresenta um pouco da situação social do Peru no início do século XX. Em trios, façam uma pesquisa sobre a situa- ção do Peru no início dos séculos XX e XXI, dando destaque para a questão da desigual- dade social. Identifiquem as semelhanças e as diferenças de cada época. Depois, reúnam-se com a turma e reflitam se a desigualdade ain- da pode ter relação, ou não, com a concentra- ção fundiária. Camponesa peruana utilizando técnicas naturais de tingimento para colorir lã de alpaca em Cusco, Peru, em 2019. A lã de alpaca é um recurso muito utilizado na região para a fabricação de têxteis. A questão indígena nasce de nossa economia. Tem suas raízes no regime de propriedade da ter- ra. [...] O gamonalismo inevitavelmente invalida toda lei ou ordenamento de proteção indígena. O fazendeiro, o latifundiário, é um senhor feudal. Contra sua autoridade, favorecida pelo ambiente e pelo hábito, a lei escrita é impotente. O traba- lho gratuito está proibido por lei e, no entanto, o trabalho gratuito, e até o trabalho forçado, sobre- vivem no latifúndio. [...] o novo exame do pro- blema indígena, por isso, se preocupa [...] com as consequências do regime de propriedade agrária. [...] A suposição de que o problema indígena é um problema étnico se nutre do repertório mais envelhecido das ideias imperialistas. O concei- to de raças inferiores serviu ao ocidente branco para sua obra de expansão e conquista. [...] A nova colocação consiste em procurar o problema indígena no problema da terra. [...] a cada dia se impõe, com maior evidência, a convicção de que esse problema não pode encontrar sua solução com uma fórmula humanitária. Não pode ser uma consequência de um movimento filantrópico. A solução do problema do índio tem que ser uma solução social. MARIÁTEGUI, José Carlos. Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. São Paulo: Expressão Popular, CLACSO, 2010. p. 53-55. M a rk G re e n /S h u tt e rs to ck 56 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 56V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 56 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 E no Brasil? No Brasil, a população indígena autodeclarada compõe cerca de 0,5% do total, o que corresponde a aproximadamente 800 mil pessoas. Embora relativamente pequena, dividem-se entre cerca de 246 etnias e grupos populacionais muito va- riados entre si, cujos interesses e lutas são estratégicos para a vida de todos os outros habitantes do país, pois têm relação com a preservação ambiental, o uso responsável de nossos recursos naturais, a valorização dos direitos humanos e o incentivo a formas de vida que promovem a tolerância e o respeito à diversidade étnica em nosso extenso território. Os indígenas estão espalhados em, aproximadamente, setecentas terras indí- genas (TI), que ocupam 13% do território do Brasil. A maioria delas fica na Ama- zônia Legal, área com ocorrência do bioma que envolve nove estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país. Para sobreviver, as comunidades indígenas pre- cisam da conservação ambiental, por isso acabam se tornando um obstáculo para as empresas privadas que buscam desmatar e explorar os recursos naturais disponíveis no restante do bioma. As terras indígenas são territórios para usufruto das comunidades tradicionais da região, conquistadas como um direito previsto na Constituição brasileira, que estabelece ainda a Fundação Nacional do Índio (Funai) como principal órgão go- vernamental para cuidar de suas questões. Porém, cen- tenas de indígenas já foram mortos nos últimos vinte anos em virtude do ataque das corporações privadas às suas terras. A função da Funai é iden- tificar, demarcar e monito- rar os territórios indígenas e prestar apoio e proteção social aos grupos. Por ser um órgão público, depen- de do orçamento federal para manter sua estrutura e seus funcionários; além dis- so, está sujeita à corrupção por interesses econômicos, pressões políticas, chanta- gens e ameaças de latifundiários e corporações que querem acesso a essas terras para atividades como garimpo de grande porte, extração de madeira e obtenção de pastagem. A situação torna-se ainda pior com a falta de fiscalização do governo federal e a anuência de políticos que apoiam e defendem essas corporações e os latifundiá- rios, pois ambos ameaçam os indígenas diretamente. A atividade de empresas privadas provoca desmatamento, contaminação do solo e dos rios, morte de animais e poluição do ar, o que também ameaça a vida dos indígenas que vivem próximo às áreas de exploração. Dica O documentário, produ- zido pelo Centro de Infor- mação das Nações Unidas para o Brasil (Unic Rio), foi gravado na Reserva Indí- gena de Dourados e em diversas aldeias do estado Mato Grosso do Sul, onde a situação territorial pro- voca uma série de abusos dos direitos humanos, afe- tando principalmente os Guarani e os Kaiowá. Guarani e Kaiowá: pelo direito de viver no Tekoha. Direção de Natalia da Luz. Brasil, 2017 (22 min). Indígenas protestam pela demarcação de território indígena pataxó e tupinambá em Brasília (DF), em 2019. Na faixa, lê-se “Nossos direitos não começam em 1988. Demarcação já!”, em referência à Constituição Federal Brasileira, promulgada em 1988, que passou a prever a garantia, o respeito e a proteção à cultura das populações originárias. Andre Coelho/AFP 57 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 57V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 57 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 1. Leia atentamente os textos a seguir. A maior violência contra os povos indígenas é a destruição de seus territórios, aponta relatório do Cimi Os povos indígenas do Brasil enfrentam um substancial aumento da grilagem, do roubo de madeira, do garimpo, das invasões e até mesmo da implantação de loteamentos em seus territó- rios tradicionais, explicitando que a disputa cres- cente por estas áreas atinge um nível preocupan- te, já que coloca em risco a própria sobrevivência de diversas comunidades indígenas no Brasil. [...] No último ano foram registrados 109 casos de “invasões possessórias, exploração ilegal de re- cursos naturais e danos diversos ao patrimônio”, enquanto em 2017 haviam sido registrados 96 casos. Nos nove primeiros meses de 2019, dados parciais e preliminares do Cimi contabilizam, até o lançamento do relatório, 160 casos do tipo em terras indígenas do Brasil. [...] CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO (Cimi). A maior violência contra os povos indígenas é a destruição de seus territórios, aponta relatório do Cimi. Disponível em: https://cimi.org. br/2019/09/a-maior-violencia-contra-os-povos-indigenas-e-a- apropriacao-e-destruicao-de-seus-territorios-aponta-relatorio-do- cimi. Acesso em: 30 jun. 2020. Cercar e trazer o boi: pecuária bovina ilegal na Amazônia brasileira Em julho e agosto de 2019, grande parte do mundo assistiu em choque enquanto áreas imensas da Amazônia brasileira ardiam em chamas. Váriosfatores contribuíram para isso, mas a maioria des- ses incêndios fez parte de um processo mais amplo pelo qual a floresta amazônica é convertida ilegal- mente em áreas de pastagem de bovinos. Dados do governo indicam que 63% da área desmatada da Amazônia brasileira entre 1988 e 2014 foi trans- formada em pasto. [...] Esse processo frequentemente é realizado por criadores de bovinos, grileiros – indivíduos que se apropriam ilegalmente de terras, ou para uso Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta atividade. Explorando NÃO ESCREVA NO LIVRO próprio ou para venda a outros, com fins lucrativos – ou, ainda, por pessoas contratadas por eles. [...] Desde a chegada ao poder do presidente Jair Bolsonaro, em janeiro de 2019, alguns pecuaris- tas e grileiros intensificaram seus esforços para se apropriar ilegalmente de terras em áreas protegi- das e criar bovinos nelas. [...] ANISTIA INTERNACIONAL. Cercar e trazer o boi: pecuária bovina legal na Amazônia brasileira. Disponível em: https://anistia. org.br/wp-content/uploads/2019/11/cercar-e-trazer-o-boi- amr-19.1401.2019.pdf. Acesso em: 30 jun. 2020. Os povos Indígenas no Brasil continuam lutando! Há muito tempo os povos indígenas estão lutan- do para garantir seus direitos. O direito à terra, o direito à saúde e à educação. [...] Os índios lutaram e conquistaram o direito [...] de ter suas terras protegidas, com as florestas, os rios e as caças para se alimentarem. Esse direito fi- cou escrito na maior lei do Brasil que é a Constitui- ção Federal de 1988. [...] O artigo 231 da Constituição fala sobre o direito dos índios: “São reconhecidos aos índios sua organi- zação social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradi- cionalmente ocupam, competindo à União demarcá- -las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”. HUTUKARA ASSOCIAÇÃO YANOMAMI. Os povos Indígenas no Brasil continuam lutando! Disponível em: https://www. socioambiental.org/sites/blog.socioambiental.org/files/blog/ pdfs/jornal_yekuana_10.pdf. Acesso em: 30 jun. 2020. a) Em duplas, identifiquem os principais argumen- tos de cada texto e estabeleçam uma relação entre eles. b) Expliquem como a expansão agropecuária com- promete ao mesmo tempo a biodiversidade e a vida de povos nativos. c) Identifiquem quais são as dificuldades para se fazer cumprir o que consta na Constituição fe- deral em relação aos direitos indígenas. Segundo a Constituição, uma das principais garantias à autonomia dos indígenas é seu território, o que signifi- ca garantir que esses povos tenham o direito de existir e manter seu modo de vida como é, ou seja, o direito de reproduzir seus costumes, suas línguas e seu modo de produzir e de viver. Sendo assim, a demarcação das ter- ras indígenas e das Unidades de Conservação Ambiental significa uma segurança mínima e uma medida funda- mental não só para preservar o meio ambiente, mas também para garantir a vida das comunidades locais. 58 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 58V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 58 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 Aprimorando o conhecimento NÃO ESCREVA NO LIVRO 1. (Fuvest-SP 2018) A imagem representa a morte de Atahualpa, o último imperador inca, em 1533, após a conquista espanhola comandada por Fran- cisco Pizarro. Professor, no Manual você encontra orientações sobre estas atividades. 2. (UFP-RS 2019) É praticamente um consenso histo- riográfico a interpretação de que onde houve escravi- dão, houve resistência. Os escravos jamais se confor- maram com a perda da liberdade e as rebeliões repre- sentaram a principal forma de resistência coletiva. Sobre o tema, responda: qual foi a maior revolta de cativos no Brasil, liderada por escravos muçulma- nos, tendo a participação de africanos e crioulos, escravos e libertos, atingindo mobilização de cerca de 600 revoltosos? a) Revolta de João Congo. b) Revolta de Nazaré das Farinhas. c) Levante dos Malês. d) Insurreição do Haiti. e) Revolta de Carrancas. 3. (Famerp-SP 2019) Apenas em 1865, ano do término da Guerra Civil, algumas questões que estavam presentes no período colonial e na Independência (como a escravidão) seriam parcialmente resolvidas. Par- cialmente porque, como é lógico notar, o fim da escravidão em 1865 não significou o fim do racis- mo ou da violência contra os negros. Leandro Karnal. Estados Unidos: a formação da nação, 2015. A afirmação de que “o fim da escravidão em 1865 não significou o fim do racismo ou da violência contra os negros” pode ser exemplificada a) pela conquista da paridade salarial entre trabalha- dores negros e brancos somente no início do sé- culo XX e pelas denúncias de racismo ainda hoje. b) pelo alistamento obrigatório de negros na Pri- meira Guerra Mundial e pela proibição de práti- cas segregacionistas somente após esse conflito. c) pelo surgimento, no século XIX, de sociedades ra- cistas e pelas lutas dos negros, na segunda meta- de do século XX, pela obtenção de direitos civis. d) pela existência, no século XIX, de calçadas ex- clusivas para os brancos e pela aprovação legal, somente no início do século XX, da igualdade no tratamento racial. e) pela persistência, até a Segunda Guerra, de for- mas de trabalho análogas à escravidão e pela restrição legal à contratação de negros, ainda hoje, nas grandes empresas. Luis Montero. Os funerais do inca Atahualpa. Óleo sobre tela, 1865-1867. R e p ro d u ç ã o /F U V E S T, 2 0 1 8 Analise as quatro afirmações seguintes a respeito da empresa e da conquista colonial espanhola no Peru e da representação presente na imagem. I. A conquista foi favorecida pelo conflito in- terno entre os dois irmãos incas, Atahualpa e Huáscar, aproveitado pelas forças espanholas lideradas por Francisco Pizarro. II. A produção agrícola das plantations escravis- tas constituiu-se na base econômica do vice- -reinado do Peru, controlado pelos espanhóis. III. Do lado esquerdo da pintura, há uma movi- mentação conflituosa, na qual as mulheres incas são contidas por guardas espanhóis, con- trastando com a expressão ordenada e solene do lado direito, composto por religiosos e au- toridades espanholas em torno do corpo do imperador inca. IV. A pintura revela o resgate de elementos histó- ricos importante para a construção do ideário nacionalista no século XIX, no processo pós- -independência e de formação do Estado na- cional peruano – mas retrata os personagens indígenas com trajes e feições europeus. Estão corretas apenas as afirmações a) I, II e III. b) II, III e IV. c) I, III e IV. d) I e II. e) III e I. 59 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 59V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 59 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 Resistência popular: passado e presente A escravidão moderna acompanhou o nascimento do capitalismo e foi uti- lizada em um sistema generalizado de produção de lucros por meio da explo- ração mortal do trabalho de outras pessoas, transformadas em mercadorias. Essas pessoas, nas Américas, foram majoritariamente os grupos indígenas origi- nários e os africanos aqui trazidos à força – e seus descendentes. Neste momento de sua vida é importante dedicar-se ao desenvol- vimento mais amplo de sua esfera cidadã. Uma maneira inicial de con- tribuir para isso é tomar consciência de problemas sociais, como a desi- gualdade, o racismo e o preconceito, que fazem parte da sua realidade e que certamente vão determinar sua vida e a das gerações futuras. Este projeto pode ser desenvolvido em conjunto pelos professores de Filoso�a, de Geogra�a, de História e de Sociologia. Como se expressaram e se expressam a resistência e a luta contra a escravidão e contra as heranças da escravidão? Questão mobilizadora A questão deste projeto propõe identificar as heranças da escravidão na história do país e na sociedade atual, para entender melhoras formas de resistência ao legado desse passado. Assim, o objetivo será analisar um evento histórico ou atu- al sobre uma luta popular contra a escravidão ou sobre as diversas formas de discriminação racial, social e econômica. Metodologia O método que utilizaremos nesta pesquisa será a revisão bibliográfica, que consiste no levantamen- to e na coleta de estudos, dados e informações sobre o tema escolhido para o projeto. Trata-se de uma fer- ramenta fundamental para o método científico. No trabalho a ser desenvolvido, utilizaremos essa técnica para levantar informações a respeito do mo- vimento social escolhido pelo grupo, relativo a al- gum outro movimento social que já existiu ou ainda existe no Brasil, procurando saber mais sobre suas ca- racterísticas, suas motivações, suas repercussões, etc. Como fonte de pesquisa, usem livros, revistas científicas e o material disponível na internet. Para pesquisar em livros e revistas científicas, utilizem a biblioteca da escola ou a biblioteca da região e, com base nesses materiais, façam as anotações de pesquisa e organizem-nas. Manifestante de ato antirracista na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 2020. J o rg e h e ly v e ig a /S h u tt e rs to ck PARTE 2 IMERSÃO 60 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 60V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 60 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 Reflexões Seiscentos dias sem Marielle [...] Começa a se afirmar um poder que vem da organização autônoma de mães e familiares de vítimas da violência estatal, estudantes negros e pobres, moradores das periferias, religiosos progressistas, educadores e comunicadores populares, artistas e agentes culturais, trabalhadores de serviços públicos que lidam na ponta com demandas da cidadania, defensores dos direitos humanos e do meio ambiente, ativistas urbanos e muitos outros coletivos. [...] Tais experiências também começam a se lançar para a ocupação do sistema político, como fez Marielle. Na manhã de 15 de março de 2018, o dia seguinte ao assassinato, milhares de Marielles brotaram no chão da Cinelândia, em frente à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde o corpo da nossa irmã era velado. Eu estava lá e vi isso acontecer. A multidão tinha o rosto de Marielle. Ali estava exposto o símbolo gigante que ganhou o mundo porque consubs- tancia uma linguagem universal. Marielle, imortal, é um chamado de coragem. [...] O Brasil não é o mesmo depois dessa voz que não cala nas quebradas. CAROLINA, Áurea. Seiscentos dias sem Marielle. Outras Palavras, 4 nov. 2019. Disponível em: https:// outraspalavras.net/movimentoserebeldias/seiscentos-dias-sem-marielle. Acesso em: 1o jul. 2020. 1. Pesquise quem foi Marielle Franco e por que sua participação política era importante para a população da periferia do Rio de Janeiro. 2. Organize-se em grupo com seus colegas e reflitam sobre o que significa dizer que “a multidão tinha o rosto de Marielle”. 3. Qual é a importância dos representantes políticos que se engajam na luta pelos direitos das populações marginalizadas? Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. NÃO ESCREVA NO LIVRO Produto final O produto final é um seminário, ou seja, uma apresentação de 15 minutos para os colegas em sala de aula, sobre um evento histórico ou movi- mento social específico que trate de lutas popu- lares contra a escravidão e as diversas formas de resistência contra a herança desse passado. Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro, foi assassinada em 14 de março de 2018, junto com seu motorista, Anderson Gomes, no carro em que estavam. Na foto, Marielle em 2016. Material necessário • computadores ou celulares com programa editor de texto e acesso à internet para realizar as pesquisas e fazer o resumo delas; • biblioteca da escola ou outra biblioteca acessível (bairro, cidade); • projetor, se disponível, ou apenas a lousa, para a apresentação do seminário. R e p ro d u ç ã o /M íd ia N in ja Etapas 1 Montar os grupos e iniciar a pesquisa Antes de iniciar a pesquisa, será preciso organizar grupos de até cinco pessoas. Cada grupo deve esco- lher um evento histórico ou movimento social dife- rente para garantir mais oportunidades de aprender sobre os diversos movimentos populares. O grupo deve levantar dados, fatos e informações variadas. O ideal é fazer uma busca geral por termos e depois refinar a pesquisa. A pesquisa deve considerar a etapa histórica estudada neste capítulo, ou seja, des- de o “descobrimento” até a época atual. É importante que cada grupo justifique os motivos de sua escolha. Uma pesquisa mais detalhada pode contar com ferramentas de busca de artigos acadêmicos, por exemplo o Google Acadêmico (disponível em: https://scholar.google.com.br. Acesso em: 1o jul. 2020). Pesquisar imagens sobre o evento escolhido é muito importante, pois elas trazem informações que apontam com clareza evidências que nem sempre 61 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 61V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 61 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 aparecem nos textos. Imagens em diferentes mídias (fotografias, pinturas, grafites, vídeos, instalações, entre outras) enriquecem e complementam o material textual, tornando a apresentação mais interessante e sugestiva. 2 Sistematizar a pesquisa A partir dos dados levantados, sistematizem as informações. Analisem quais dados consideram os mais importantes. Depois, façam resumos com os elemen- tos principais. Esses resumos posteriormente serão essenciais para a apresentação aos colegas. Se optarem por usar imagens e vídeos, separem os mais interessantes. Em caso de vídeos, elejam trechos significativos e que enriqueçam o trabalho. O trabalho em equipe requer organização para que cada etapa seja conduzida de forma harmoniosa. 3 Preparar o seminário Finalizados a pesquisa e os resumos, cada grupo vai preparar seu seminário. A apresentação deve conter informações importantes sobre o evento histórico escolhido, como: • os grupos sociais envolvidos; • a origem do evento ou do fato; • as motivações dos participantes; • os princípios que defendiam ou defendem; • as reivindicações dos integrantes; • os resultados das reivindicações defendidas; • outros elementos que o grupo considere importante apresentar. Caso optem por utilizar imagens na apresentação, selecionem o material com antecedência, separando apenas o que realmente será utilizado. Se houver vídeo, marquem o início e o fim dos trechos que serão exibidos – por exemplo, de 1 min 20 s a 2 min 35 s. Ia k o v F il im o n o v /S h u tt e rs to c k 62 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 62V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 62 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 4 Apresentar o seminário A forma de apresentação é essencial para completar um bom trabalho de seminário. Vocês podem combinar um ensaio antes da apresenta- ção: os membros do grupo podem treinar entre si para acertar tudo e até mesmo aperfeiçoar o que puder ser aperfeiçoado. É interessante escrever algumas informações básicas na lousa (um pequeno roteiro do que será apresentado), usar imagens no projetor ou apresentar vídeos curtos. Não se esqueçam do cuidado com a precisão das informações: devem ser historiograficamente confiáveis (no caso de eventos passados), rigorosas e com pluralidade de fontes de informação. O seminário deve ser objetivo, concentrando-se nos elementos essenciais e mostrando argumentos e dados compreensíveis. Neste projeto, vocês se dedicaram ao exame de questões extremamente impor- tantes que exigem mudanças urgentes na direção de uma sociedade mais justa e democrática, em que todos tenham seus direitos respeitados. Assim, vale a pena pensar em construir maneiras criativas de manter e aprofun- dar o interesse pelo estudo das questões e dos temas pesquisados e apresentados no seminário. Vocêspodem, por exemplo, criar um grupo de estudos sobre o tema ou pensar na elaboração de um site ou um blog a fim de continuarem atualizando as informa- ções e ampliando suas possibilidades. Nosso percurso atŽ aqui Depois que todos os grupos apresentarem os resultados de suas pesquisas, con- verse com os colegas de grupo sobre o que foi possível aprender com esta atividade. Analisem se foram claros e objetivos na apresentação e se conseguiram entender as informações que os demais grupos quiseram transmitir. Depois, individualmente, avalie como foi a sua participação na construção e na execução deste projeto: • Como foi realizar a pesquisa? Os resultados encontrados correspondem ao que você esperava? • Você considera que, após a realização do projeto, passou a conhecer melhor a história de grupos de resistência e luta por mais direitos e menos desigualdades? • Quais foram seus maiores aprendizados durante o desenvolvimento das ati- vidades? • Como foi desenvolver o trabalho em grupo? Houve colaboração de todos? Caso tenha ocorrido algum conflito, como vocês o solucionaram? Autoavaliação Professor, no Manual você encontra mais orientações sobre esta seção. NÃO ESCREVA NO LIVRO F e rn a n d o F a v o re tt o /C ri a r Im a g e m 63 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 63V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 63 18/09/2020 11:4218/09/2020 11:42 CAP ÍTU LO As experiências transatlânticas dos europeus nos séculos XVI e XVII marcaram de forma permanente a vida das populações das Américas e a de milhões de africanos escravizados que foram trazidos para o “Novo Mundo”. Inaugurou-se aí um longo período caracterizado pela violência colonial contra as populações negras e indígenas. No Brasil, os africanos escravizados foram mão de obra no campo e na cidade, nas mais diversas tarefas. A mão de obra escrava foi, inicialmente, o motor econômico das metrópoles europeias e, em sequência, das economias locais, após os diferentes processos de independência que se espalharam por toda a América e pelo Caribe. Mercado de escravos, aquarela de Henry Chamberlain, 1821. Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo (SP). A obra representa a venda de escravizados no Rio de Janeiro. Mulher negra sentada de frente, de Félix Vallotton, 1911. Óleo sobre tela, 81 cm × 65 cm. Representação de Tereza de Benguela ([s/i]-1770), mulher negra que viveu no Vale do Guaporé (MT) e foi líder do quilombo de Quariterê, onde viviam centenas de pessoas. Ela comandou a estrutura política, econômica e administrativa da comunidade, além de organizar uma eficiente força de defesa para impedir que as pessoas voltassem à escravidão. Quem ganhou com a independ•ncia?33 R e p ro d u ç ã o /P in a c o te c a d o E s ta d o d e S ã o P a u lo , S ã o P a u lo , S P R e p ro d u ç ã o /C o le ç ã o p a rt ic u la r 64 Q u e m g a n h o u c o m a i n d e p e n d • n ci a ? Q u e m g a n h o u c o m a i n d e p e n d • n ci a Q u e m g a n h o u c o m a i n d e p e n d ê n ci a ? Q u e m g a n h o u c o m a i n d e p e n d ê n ci a ? Q u e m g a n h o u c o m a i n d e p e n d ê n ci a ? Q u e m g a n h o u c o m a i n d e p e n d ê n ci V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 64V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 64 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 Ato contra o racismo e a favor da democracia na cidade de São Paulo (SP), em 2020. Fotografia histórica representando o embarque de imigrantes suíços no Porto de Gênova, Itália, para o Brasil, no ano de 1898. A imigração marcou profundamente a vida social, política e econômica do Brasil. Além da importância econômica, os imigrantes foram considerados parte do projeto de construção da identidade nacional, por meio do processo de branqueamento social. A inclusão da população negra nesse processo foi ignorada, legando aos ex-escravizados a miséria e a marginalidade. Esse processo não buscou integrar a população negra na sociedade, sendo, portanto, uma das causas do racismo estrutural que ainda hoje caracteriza o Brasil. No Brasil, a abolição foi um lento processo que envolveu diferentes atores, principalmente os escravizados. O país foi a última nação a abolir a escravidão, em 1888. Ainda antes da abolição, o Brasil começou a receber imigrantes de diferentes lugares do mundo. Esse fluxo aumentou significativamente nas décadas seguintes, com a necessidade de substituição, em larga escala, da mão de obra escravizada pela do trabalho livre. T ia g o Q u e ir o z/ E s ta d ã o C o n te ú d o Reprodução/Coleção particular 65 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 65V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 65 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 Cenário Q u e m g a n h o u c o m a i n d e p e n d ê n ci a ? Q u e m g a n h o u c o m a i n d e p e n d ê n ci a Q u e m g a n h o u c o m a i n d e p e n d ê n ci a ? Q u e m g a n h o u c o m a i n d e p e n d ê n ci a ? Q u e m g a n h o u c o m a i n d e p e n d ê n ci a ? Q u e m g a n h o u c o m a i n d e p e n d ê n ci Capitalismo e escravidão A escravidão moderna, rela- cionada ao período da expansão marítima europeia, marcou pro- fundamente as sociedades nas quais se desenvolveu. O racismo – talvez a mais grave consequên- cia da escravidão – evidencia a perversidade que atravessou a vida de gerações sucessivas e ain- da se faz presente nos dias atuais. Ao longo de sua existência como instituição, independente- mente de onde tenha ocorrido, a escravidão moderna significou opressão e violência em uma escala sem precedentes. Expe- riências de diversas realidades apontam diferenças, mas também similaridades, nos processos de escravização e de abolição nas Américas. Compreender tais processos é fundamental para desenvol- ver a consciência crítica e participar das lutas por uma sociedade verdadeiramente democrática, capaz de garantir direitos iguais a todas as pessoas, independentemen- te de suas características individuais. OBJETIVOS E JUSTIFICATIVAS Este capítulo tem como objetivo propiciar uma compreensão de uma relação nem sempre clara: a escravidão na América e, em especial, no Brasil e o surgimento do capitalismo. Ao analisarmos as experiências escravistas do Brasil, do sul dos Estados Unidos e do Caribe, particularmente de Cuba, colocamos em paralelo processos de independência política e de abolição do escravismo nessas nações. Ao abordarmos, também, a substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre e o que podemos chamar de sequelas da escravização negra na América, possibilitamos o entendimento de problemas estruturais atuais na sociedade brasileira, como o racismo, a exclusão social e a territorialização dos espaços físicos e sociais da população negra. COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DA BNCC • Competências gerais da BNCC: 1, 8, 9 e 10. • Competências específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: 1, 2, 4 e 5. • Habilidades de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: EM13CHS102, EM13CHS103, EM13CHS105, EM13CHS106, EM13CHS201, EM13CHS402, EM13CHS501, EM13CHS502, EM13CHS503 e EM13CHS504. • Competências específicas de Linguagens e suas Tecnologias: 1, 2, e 7. • Habilidades de Linguagens e suas Tecnologias: EM13LGG101, EM13LGG102, EM13LGG103, EM13LGG202 e EM13LGG703. • Você já sofreu ou conhece alguém que sofreu algum tipo de discriminação? • Você acha que existe racismo no Brasil? Professor, no Manual você encontra orientações sobre estas atividades. Manifestação contra o racismo e o genocídio da população negra, em Niterói (RJ), em 2020. Os atos que ocorreram nesse ano foram inspirados pelo movimento Black Lives Matter [Vidas Negras Importam], iniciado nos Estados Unidos, também em 2020, após um policial branco matar George Floyd, um homem negro,asfixiado. L u is A lv a re n g a /G e tt y I m a g e s NÃO ESCREVA NO LIVRO 66 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 66V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 66 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 PARTE 1 CONEXÕES TEMA 1 Dinâmicas da escravidão e atores sociais dos processos de independência A ideia de que um ser humano possa ser considerado propriedade de alguém e tratado como mercadoria, podendo ser vendido, comprado, trocado, hipotecado e alugado, só pode causar profunda indignação, em qualquer lugar ou época. O ex-diplomata brasileiro Alberto da Costa e Silva, autor de extensa obra sobre a história da África e da escravidão promovida pelos portugueses, ao tratar dos rela- tos biográficos de escravizados faz uma afirmação contundente: “Não se estuda o escravismo sem emoção e sem um sentimento de vergonha e remorso”. A maioria das sociedades humanas, em diferentes lugares do mundo, conheceu experiências com a exploração do trabalho escravizado, contudo, somente algumas podem ser entendidas como genuinamente escravistas: Grécia e Roma clássicas, por um lado, e, por outro, a escravidão colonial das Américas, do “Novo Mundo”: sul dos Estados Unidos, Caribe e Brasil. É importante distinguir sociedades escravis- tas daquelas nas quais há escravizados. Você sabe qual é a diferença entre escravis- mo e escravidão? A escravid‹o ao longo do tempo Tanto no mundo oriental como no mundo greco- -romano antigo, ainda que a violência da escravidão te- nha sido denunciada, sua existência como algo legítimo e natural nunca foi colocada em questão. A escravidão foi uma das formas de trabalho compulsório na Anti- guidade, vivenciada ao longo de séculos, de modo mais sistemático, no mundo grego e no mundo romano, entre os séculos III a.C. e II d.C. Alguns exemplos são a escravidão por dívidas, o clientelismo e a servidão. A escravidão antiga, contudo, não se baseava numa oferta abundante de mão de obra escravizada que era comercializada, mas sim numa oferta de mão de obra que supria necessidades de trabalho em contextos ur- banos ou não. No mundo antigo, o indivíduo escravi- zado era propriedade de seu senhor, que exercia ple- nos poderes sobre o seu corpo e sobre o seu trabalho. SILVA, Alberto da Costa e. Escravidão e Liberdade. (prefácio). In: SCHWARCZ, Lilia (org). Dicionário da escravidão e liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 14. Fotografia de mulher negra “brincando” com criança em Petrópolis (RJ), em 1899. Os professores de História e de Geogra�a são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. R e p ro d u ç ã o /G . E rm a k o ff C a s a E d it o ri a l L td a . 67 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 67V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 67 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 Por muito tempo, estudiosos da escravidão antiga viram nessa instituição uma necessidade para o desenvolvimento social. A escravidão moderna buscou se jus- tificar na escravidão antiga pelo lugar de prestígio que a cultura do mundo clássico ocupava nas sociedades modernas e também pela normalização da escravidão pe- los preceitos cristãos. Autores gregos e romanos, bem como o conjunto dos livros da Bíblia, comu- mente foram utilizados para legitimar a naturalidade das modernas práticas es- cravistas, que, embora tenham sido historicamente criticadas, só em meados do século XVIII passaram a ser questionadas, colocando a abolição no horizonte so- cial de expectativas. O direito romano, que primeiro sistematizou essas práticas, foi atualizado para a realidade da escravidão no “Novo Mundo”, principalmente pelos portugueses. Ainda que tenha diferido em diversos lugares e épocas (adaptando-se a contex- tos históricos e situações específicas – minas, fazendas de café, ambientes domés- ticos, etc.) e convivido com experiências de liberdade, a escravidão foi a forma mais cruel de obter mão de obra, partindo da premissa de que a exploração do trabalho era um direito, com base na propriedade do indivíduo escravizado. A primeira escravidão e as origens do capitalismo Chama a atenção falar de uma “primeira escravidão” nas Américas, mas isso se justifica pelo fato de tratarmos neste tópico do conceito de segunda escravidão, proposto em 1988 pelo historiador Dale W. Tomich. Para o autor, a primeira es- cravidão teria ocorrido no “Novo Mundo”, no período compreendido entre 1520 e 1800, tendo se desenvolvido em um contexto feudal tardio, de um capitalismo ainda incipiente. A incorporação, além-mar, de novos espaços produtivos promovida pela ex- pansão comercial e colonial de países da Europa ocidental, o fornecimento de matérias-primas para a Europa e a necessidade de mão de obra nos domínios do “Novo Mundo” integrariam as Américas numa economia fundada sobre as bases do trabalho escravo, vinculada à escravidão colonial, à expansão dos mercados e à ascensão do capitalismo. No capitalismo ainda incipiente dos séculos XV e XVI, a prosperidade e o crescimento da economia dos Estados europeus voltou-se a práticas mercanti- listas. O lucro oriundo da expansão marítima promoveu o desenvolvimento do comércio, por meio da exploração das colônias com mão de obra escravizada e de um mercado mundial em vias de integração. A formação do capitalismo europeu por meio de processos transatlânticos relacionou-se diretamente à escravização de africanos nas Américas, o que colo- cou a escravidão negra (particularmente a segunda) no cerne da modernidade. Isso possibilitou a conexão do “Velho Mundo” e do “Novo Mundo” em uma perspectiva ampla, de longa duração e com dimensões políticas, econômicas e sociais globais. Cuba, Brasil e o sul dos Estados Unidos tornaram-se “polos dinâmicos” de uma verdadeira expansão da escravidão, cuja finalidade consistia em atender à demanda mundial de plantations de algodão (sul dos Estados Unidos), café (Brasil) e cana-de- -açúcar (Cuba), que modificariam de forma importante os padrões de produção e consumo e um mercado global. TOMICH, Dale W. Through the Prism of Slavery Labor, Capital, and World Economy [Pelo prisma da escravidão: trabalho, capital e economia mundial]. São Paulo: Edusp, 2012. Segunda escravidão Proposto pelo historiador Dale W. Tomich, o argu- mento central desse con- ceito reside no fato de que a escravidão, entre os sécu- los XVI e XIX, não foi uma instituição regular, e que, entre os séculos XVIII e XIX, mudanças importantes no mundo, como a Revolução Industrial inglesa, reordena- ram o mercado mundial. De acordo com o autor, a industrialização não signi- ficou o fim automático da escravidão, pelo contrário, atuou em benefício de sua intensificação e difu- são, conferindo uma nova configuração à escravidão americana. O conceito de segunda escravidão tem sido utili- zado, particularmente, por historiadores que aborda- ram regimes escravistas nas Américas ao longo do século XIX – Cuba, Brasil e sul dos Estados Unidos, em contextos de aumento das plantations nesses países. Conceito 68 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 68V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 68 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 Litografia que representa a economia de plantation de algodão no Mississípi, Estados Unidos, de Currier e Ives, 1884. Coleção particular. O processo que levou ao desenvolvimento do capitalismo conviveu com a conti- nuidade e o crescimento do tráfico atlântico, com diferentes processos de indepen- dência nas Américas e com discursos abolicionistas. As colônias das potências europeias, nas quais se organizaram as grandes planta- tions, produziam artigos primários para exportação para um mercado cada vez maior. A possessão da terra de nada servia sem o trabalho humano que dela pudesse extrair dividendos, o que fez da escravidão uma instituição econômica importante para o capitalismo emergente, que sacrificoumilhões de vidas em benefício do aumento da produção e dos interesses mercantis. O trabalho escravo não foi, contudo, a primeira opção, e o seu fim se deu, sobretu- do, pelos custos de sua manutenção, que nunca se resumiu somente ao suprimento dos escravizados. Já o trabalho assalariado livre, embora economicamente mais inte- ressante, não era uma possibilidade efetiva nos inícios da colonização. A população europeia disponível não era suficiente para as demandas das grandes áreas de cultivo de cana-de-açúcar,, tabaco, algodão e café nas Américas. Ainda assim, antes da es- cravidão africana, houve a experiência fracassada da escravização indígena e a servi- dão de brancos pobres europeus deportados para as Américas. O autor Eric Williams (1911-1981), historiador e estadista de Trinidad e Tobago, ressaltou: No cultivo de produtos como a cana-de-açúcar, algodão e tabaco, [...] em uni- dades maiores, o dono de escravos [...] pode fazer uso mais proveitosos da terra do que o pequeno agricultor ou proprietário lavrador. Para tais produtos agrícolas, os lucros enormes podem bem suportar a despesa maior proporcionada pelo trabalho escravo ineficiente. Onde todo o conhecimento requerido é simples [...], a escravi- dão é essencial, até o momento em que, pela importação de novos recrutas e pela procriação, a população atinja o ponto de saturação e a terra disponível já esteja distribuída. Quando tal etapa é atingida, e somente então, as despesas da escra- vidão, em forma de custo e manutenção de escravos, produtivos e improdutivos, excedem o custo de trabalhadores assalariados. WILLIAMS, Eric. Capitalismo e escravid‹o. Rio de Janeiro: Companhia Editora Americana, 1975. p. 10-11. Pela lógica dos colonizadores, a escravidão negra era economicamente mais viável e atendia, de forma mais efetiva, às grandes demandas. A necessidade de mão de obra foi, assim, promotora de um tráfico transatlântico que deslocou para as Américas milhões de africanos escravizados. R e p ro d u • ‹ o /C o le • ‹ o p a rt ic u la r 69 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 69V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 69 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 Projetos de independência no Brasil e nos Estados Unidos: escravizados, homens livres pobres e o papel das elites Nas Américas de diferentes colonizações – britâ- nica, hispânica, portuguesa, francesa, holandesa –, a mescla entre indígenas, africanos e europeus colocou em cena diferentes atores e interesses nos processos de independência e abolicionismo, ainda que em mo- mentos distintos e nem sempre de forma conjugada, como ocorreu nos Estados Unidos. Nesse cenário, Cuba se diferenciou, pois a abolição da escravidão se deu em 1886 e a independência depois, em 1898. Em duas colônias europeias, Estados Unidos e Bra- sil, os debates em torno do escravismo e da escravidão tiveram lugar importante no projeto de independên- cia, mas os encaminhamentos foram diferentes. Ainda assim, no século XIX, ambas as colônias conheceram movimentos e reações separatistas que confrontaram interesses de uma economia baseada em manufaturas e na industrialização, no caso dos Estados Unidos, e a economia agrária, no caso do Brasil. Nos Estados Unidos, o debate em torno da abolição da escravidão ganhou fôlego a partir da independência, em 1776, com a contestação à dominação inglesa. A Declaração de Independência, contudo, não significou a abolição e, tampouco, a cidadania aos libertos. O período compreendido entre a Independência (1776) e a Guerra Civil ou Guerra de Secessão (1861- -1865) foi marcado por guerras e eventos na Europa e nas Américas. A independência americana afetou a In- glaterra, a França absolutista e outros países europeus, e também influenciou outros processos de indepen- dência na América. Movimentos abolicionistas e antiescravistas se in- tensificaram, sobretudo, no contexto da Guerra Civil dos Estados Unidos, em reação a movimentos separa- tistas – nesse período, a região sul do país declarou-se independente da região norte. Por conta disso, até o fim do separatismo, a região norte invadiu a região sul. Nes- sa guerra, o sul escravista intentava preservar a escravi- dão (ameaçada com a eleição de Abraham Lincoln, em 1861), proclamando-se independente do norte e fun- dando os Estados Confederados da América. No Brasil, embora em menor proporção, no contexto imediata- mente anterior, podemos identificar dois movimentos separatistas: a Confederação do Equador (1824) e a Revolução dos Farroupilhas (1835-1845). Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, a abo- lição da escravidão colocou em questão a permanên- cia ou não da mão de obra escrava. Nos Estados Uni- dos, a abolição foi imposta pela vitória do norte na Guerra Civil. Já no Brasil, a abolição foi fruto de uma conjunção de fatores que envolveu o confronto de escravizados, homens livres, libertos e pobres e as elites escravocra- tas. Os conflitos raciais podem ser demarcados pela vinda da família real para o Brasil (1808), quando Na- poleão confrontou a Inglaterra, em princípios do sé- culo XIX, e impôs um bloqueio comercial, em 1806, entre os ingleses e o continente, atacando países euro- peus e forçando a transferência da Corte portuguesa para o Brasil. Em ambos os países, contudo, a abolição foi marcada por fortes embates raciais. Representação de negro muçulmano, por Jean-Baptiste Debret, c. 1834. Litografia, 49 cm × 34 cm. Coleção particular. Os escravizados sempre buscaram meios de resistir à escravidão. Os negros muçulmanos conhecidos por Malês, por exemplo, promoveram uma revolta em 1835. R e p ro d u ç ã o /C o le ç ã o p a rt ic u la r 70 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 70V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 70 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 Muitos historiadores e sociólogos investigam a escra- vidão no Brasil, buscando compreender a transformação de suas dinâmicas e explicar seu caráter estruturante. O sociólogo e historiador Luiz Felipe de Alen- castro (1946-) apontou uma importante diferença semântica, isto é, de significado, entre escravidão e escravismo. Segundo o especialista, a escravidão configurou-se como a possibilidade jurídica de um sujeito ser proprietário de outro sujeito destituído de direitos. Escravismo, contudo, se referia a um sistema em que a propriedade escrava era dominante, isto é, uma estrutura social fundada nas relações sociais entre senhor e escravizado, sendo essas relações ge- neralizadas por toda a sociedade. Portanto, o Brasil, o sul dos Estados Unidos e o Caribe são exemplos de sociedades escravistas, ou seja, são regiões onde a escravização fundamentou as relações sociais. Por isso, em uma sociedade escravista, todas as instâncias da vida humana (a moral, a cultura, a eco- nomia, a política, as mentalidades, a vida privada) são determinadas em alguma medida pela existência da mecânica escravista. A escravidão pode até existir em uma sociedade não escravista – existiram escravizados em Paris e em Lisboa, mas em pouquíssima quantida- de, insuficiente para a constituição de um verdadei- ro sistema social. Por outro lado, em toda sociedade escravista, as relações de escravidão são generalizadas, permeando todas as dimensões da vida social. Explorando Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta atividade. NÃO ESCREVA NO LIVRO 1. Considerando o conteúdo trabalhado neste Tema, observe os gráficos e responda à questão abaixo. Dica Veja o vídeo com a explicação de Luiz Felipe de Alencastro sobre a diferença entre escravidão e escravismo. Luiz Felipe de Alencastro: a diferença entre escravidão e escravismo. Contracondutas, 2018. Disponível em: http://www. ct-escoladacidade.org/contracondutas/seminarios/seminario-primeiro-ciclo/luiz-felipe-de-alencastro-escravismo-ontem-e- hoje/. Acesso em: 19 jun. 2020. Brasil: rendimentomédio real por cor ou raça – 2017 0 500 1 000 1 500 2 000 2 500 3 000 R ea is ( R $) Cor ou raça 1 516 2 615 Pretos e pardosBrancos Brasil: homicídios por cor ou raça – 2017 0 10 000 20 000 30 000 40 000 50 000 14 734 48 524 Não negros Negros N ú m er o d e h o m ic íd io s Cor ou raça Fontes: elaborados com base em IBGE. Síntese de Indicadores Sociais 2018. Rio de Janeiro, IBGE, 2018. p. 29. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101629.pdf; IPEA. Atlas da violência 2019. Fórum brasileiro de Segurança Pública. p. 49. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/arquivos/downloads/6537-atlas2019.pdf. Acesso em: 12 ago. 2020. B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra • Você acredita que a sociedade brasileira atual continua marcada pelas conse- quências de séculos de escravismo? Elabore um texto justificando o seu posicio- namento. 71 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 71V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 71 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 TEMA 2 A abolição resolve o problema de quem? Entre o fim do século XVIII e o último quartel do século XIX, todas as nações ameri- canas tinham abolido a escravidão, em processos distintos e, como vimos, nem sempre acompanhados por processos de independência. No Brasil, similar ao que ocorrera no Caribe, o fim do tráfico atlântico conduziu a um processo que levou à abolição. Após a independência, as elites econômicas brasileiras, fortemente implicadas na manutenção do sistema de trabalho escravo nas grandes propriedades, se opuseram sistematicamente às pressões pela abolição do tráfico negreiro, sobretudo pela In- glaterra. Mas o custo do trabalho escravo era cada vez maior, o que, além de tornar difícil a sua manutenção, foi um dos fatores que levaram à abolição. Muitos fazendei- ros, inclusive do Nordeste e do Sul do país, eram favoráveis à abolição; outros eram contrários, visto que o fim da escravatura implicava uma mudança completa de sua organização senhorial e o fim de seus privilégios. A influência do ideário de países europeus do século XVIII sobre escravidão e liber- dade, que marcaram os movimentos abolicionistas da Revolução do Haiti (1791-1804), das colônias inglesas do Caribe (1834) e da Guerra Civil americana (1861-1865), também ecoou no Brasil, particu- larmente o pensamento liberal. O liberalismo europeu, que nascera da crítica bur- guesa ao absolutismo e aos abusos da autoridade real, conduzindo à universalidade suas ideias de liberdade, igualdade e direito à propriedade, no Brasil assumiu, pri- meiramente, o caráter de crítica ao poder colonial dos portugueses pelos principais agentes da economia, os grandes proprietários de terras e escravizados – subju- gados aos interesses econômicos de Portugal. Assim, o ideal liberal, adaptado à realidade brasileira e da Améri- ca, influenciou diferentes movimentos revolucionários e abolicionistas. No Brasil, o imaginário em torno da abolição centrou historicamente nas elites o protagonismo em relação aos papéis desempenhados no processo abolicionista. Tal imaginário fez da Lei Áurea (1888) uma concessão hu- manitária em relação aos escravizados, desconsiderando que a abolição atendia, sobretudo, a interesses de uma adequação do Brasil à economia capitalista mundial. Essa adequação, porém, não deve apagar os movi- mentos de resistência dos escravizados e sua luta pela emancipação, que envolveu fugas individuais e coletivas sistemáticas, o abandono das plantações, a criação de quilombos, ataques a feitores e senhores e rebeliões im- portantes, como a Revolta dos Malês (1835), em Sal- vador (BA), e a Revolta de Manuel Congo (1838), em Vassouras (RJ). Os professores de História e de Geogra�a são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. Retrato de Luís Gama, sem data. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro (RJ). Luiz Gama (1830-1882) era um rábula (pessoa que tinha autorização para trabalhar como advogado, contudo, sem diploma) nos tribunais judiciários da província de São Paulo. Foi um abolicionista negro contundente, res- ponsável pela libertação de mais de 500 escravizados. Intelectual, poeta, jornalista, autor de sátiras sociais e políticas e advogado, foi crítico das elites defensoras da escravidão, sobretudo clérigos e magistrados, rompendo as barreiras impostas a um homem negro no século XIX. Filho de uma quitandeira livre, Luiza Mahin, e de um fi- dalgo baiano de ascendência portuguesa, ainda criança, com a idade de 10 anos, fora vendido para escravização pelo próprio pai (1840), alfabetizando-se aos 17 anos, ain- da na condição de escravizado, por intermédio de um estudante residente na casa de seu senhor. Como escravizado e, posteriormente, liberto, passou pelas cidades do Rio de Janeiro (RJ), de Santos (SP) e de Campi- nas (SP), até radicar-se em São Paulo (SP), onde se tornou figura importante do abolicionismo paulista. Foi autor do livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859) e de inú- meros poemas, artigos, cartas e máximas. Intitulou-se e ficou conhecido como Orfeu de Carapinha, denomina- ção que fazia referência a suas origens africanas. Pe rfil R e p ro d u ç ã o /F u n d a ç ã o B ib lio te c a N a c io n a l, R io d e J a n e ir o , R J . 72 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 72V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 72 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 Uma das frentes em que se travou o combate pela abolição foi parlamentar. O trecho a seguir faz parte de um debate ocorrido por ocasião da apre- sentação do Projeto Rio Branco, que resultou na chamada Lei do Ventre Livre (1871), uma entre várias outras leis que antecederam a abolição da escravidão no Brasil. Cenas da aboli•‹o Diz-se que direito aos es- cravos nascituros não existe ainda; porque não se firma na posse atual” dizia um deputa- do; “mas senhores”, apelava, “se na verdade não há ainda o fato material do nascimento e da posse efetiva e real do fruto do ventre, há, sem dúvida, um direito adquirido a esse fruto, tão rigoroso quanto ao do pro- prietário da árvore aos frutos que ela pode produzir...” Con- trariando o direito dos senho- res aos “frutos” que, mesmo eventualmente, seus escravos lhes dariam, concluía o deputado, o gover- no estaria “desapropriando o cidadão daquilo que é legalmente de seu domínio” e, portanto, deveria “indenizá-lo previamente, na forma da Constituição. MENDONÇA, Joseli Nunes. Cenas da aboli•‹o: escravos e senhores no Parlamento e na Justiça. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001. p. 24. 1. Reúnam-se em grupos e debatam sobre o tex- to anterior. Depois, façam uma pesquisa sobre uma das leis a seguir. • Lei de 1831. A lei declarava livres todos os escravizados vindos de fora do Império. Dis- ponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/ fed/lei_sn/1824-1899/lei-37659-7-novebro- 1831-564776-publicacaooriginal-88704-pl. html. • Lei Eusébio de Queirós, de 1850. A Lei Eusébio de Queirós estabelecia medidas de repressão ao tráfico negreiro. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM581.htm. • Lei dos Sexagenários, de 1885. Essa lei isen- tava escravizados com 60 anos (ou mais) de prestação de serviços. Disponível em: https://web.archive.ogweb/20140202192039/ http://legis.senado.gov.br/legislacao/Lista Publicacoes.action?id=66550. • Lei Áurea, de 1888. Essa lei declarou ex- tinta a escravidão no Brasil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccvil_03/leis/lim/ LIM3353.htm. Acesso em: 12 ago. 2020. Agora, elaborem um texto buscando responder: a) Qual é a relação da lei escolhida com os an- seios e expectativas de melhorias sociais? Houve interesses políticos e econômicos para a lei ser decretada?b) Que debates influenciaram a lei escolhida? Quais eram os polos sociais envolvidos e que argumentos apresentavam para sua defesa? c) A lei analisada foi obedecida? Qual foi o seu impacto na sociedade? Reflexões NÃO ESCREVA NO LIVROProfessor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. Crioulos, de Johann Moritz Rugendas, c. 1835. Litografia, 47 cm × 57 cm. Coleção particular. R e p ro d u ç ã o /C o le ç ã o p a rt ic u la r Ao processo de abolição atribuíram-se várias causas – demográficas, econômicas, sociais e políticas. Mas pode-se dizer que todas convergiram, em diferentes níveis, para um mesmo fim, do mesmo modo que também convergiram vários caminhos explicativos das motivações da abolição: • A atuação parlamentar, por meio de uma legislação que promovia a emanci- pação, criando dispositivos para que os cativos pudessem pleitear a liberdade. • O resultado da revolta e dos movimentos de escravizados e libertos, mas também de pessoas livres e pobres (que não eram nem senhores nem escravos) e ilustra- das, que defendiam a causa abolicionista. • O resultado de embates travados na imprensa nacional. • A pressão de movimentos de trabalhadores livres, de organizações abolicionis- tas e de mobilizações populares. 73 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 73V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 73 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 Qual foi o destino das populações negras no pós-abolição? Na década de 1880, os debates em torno da escravidão envolveram políticos do Partido Liberal e do Partido Conservador, jornalistas, intelectuais e represen- tantes da elite escravista, confrontando os que eram favoráveis e os que eram contrários à abolição. Duas principais vertentes orientavam o debate: os eman- cipacionistas – que defendiam uma extinção gradual do trabalho escravo – e os abolicionistas – que defendiam um prazo determinado para o fim do tra- balho escravo. Muitas questões informavam os termos desses debates: Em caso de uma eventual abolição, qual seria o destino dos liberados do cativeiro? Que lugar ocupariam na sociedade? Como seria a sua integração? Seriam cidadãos e ci- dadãs iguais aos brancos em direitos? Que tipo de relação se estabeleceria com seus ex-proprietários? Em que trabalhariam? Como se lidaria com o trabalho, sobretudo na lavoura? Haveria indenização para os senhores? Como preparar a nação para o trabalho livre? Como “controlar” a população de ex-escravizados após a libertação? A abolição da escravidão no Brasil se deu por meio de um processo len- to e gradual, que teve de lidar, a todo momento, com interesses dos grandes proprietários rurais senhores de escravizados e do Estado e, como aponta a historiadora Wlamyra Ribeiro de Albuquerque, o “acirramento cotidiano das tensões entre os partidários da abolição e seus adversários”. O medo das elites brancas de como reagiriam os libertos também foi um im- portante vetor de discussões. Assim, os debates em torno da abolição e das ques- tões relacionadas a sua proclamação mobilizaram vários setores da sociedade. Passado o 13 de maio de 1888, contudo, os rumos tomados pelas elites bra- sileiras não envolveram a integração social das populações negras emancipa- das, deixadas à margem da nova organização social, que envolvia o trabalho livre e assalariado. Essa questão leva a considerar quais foram os significados da liberdade para os negros emancipados. Para o sociólogo Florestan Fernandes, os senhores de escravizados não foram responsabilizados pela manutenção e pela segurança dos libertos, deixando de prepará-los às novas formas de organização social e de trabalho. ALBUQUERQUE, Wlamyra Ribeiro de. Movimentos sociais abolicionistas. In: SCHWARCZ, Lilia (org). Dicionário da escravidão e liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 332. FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Editora Globo, 2008. v. I, p. 28. A abolição da escravidão e o surgimento das favelas: a territorialização da população negra Desde o século XIX, o crescimento populacional brasileiro não se fizera acompanhar do atendimento às demandas por habitação. A abolição da escra- vidão alargou e tornou exponencial um déficit habitacional que, a partir de en- tão, incorporou à população pobre – branca, negra, mestiça – um contingente enorme da população negra de ex-escravizados. Ampliando Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. Dica Para saber mais sobre Luiz Gama, assista ao vídeo do canal Tempo História. Nele, há di- versas entrevistas com pesquisadores e espe- cialistas que retratam a história do jornalista e o contexto histórico da época. Tempo e História – Luiz Gama. Tempo História. Disponível em: https:// w w w.youtube .com/ watch?v=oWMIsr2Tckk. Acesso em: 12 ago. 2020. 74 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 74V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 74 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 Explorando Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta atividade. NÃO ESCREVA NO LIVRO 1. Associar antigas senzalas e quilombos às favelas contemporâneas é comum aos estudiosos e tam- bém aos artistas, em poemas e canções. Pensando nessa relação, procure as letras das canções “Boa esperança”, de Emicida (2015), e “Das senzalas, as favelas”, de Zeca Brasil e Getúlio Marques (1997). Depois, identifique a crítica das duas músicas e relacione-as às questões a seguir. a) Em quais níveis se dá a associação entre antigas senzalas e quilombos e favelas? Por quais motivos? b) Quais foram e quais poderiam ter sido os per- cursos das populações de ex-escravizados no contexto pós-abolição no Brasil? c) Com base nas respostas às questões anteriores, quais outros exemplos relacionados à desigual- dade racial você identifica em seu cotidiano? Durante o longo período da escravidão, coube aos senhores provisionarem habitação para a po- pulação escravizada, que comumente era alojada em senzalas. Depois da abolição, providenciar es- paços de habitação para a população negra não foi alvo da preocupação do Estado brasileiro. Nas grandes cidades, atribuiu-se o surgimento de algumas favelas (como o Morro da Providência, no Rio de Janeiro) ao fluxo dessa população, cuja relati- va liberdade consistia em ir e vir sem prestar contas a seus senhores ou ser alvo da perseguição de um capi- tão do mato. À esquerda, o Morro da Providência, primeira favela do Rio de Janeiro (RJ), no início do século XX, c. 1920; à direita, o Morro da Providência atualmente, no século XXI, em 2019. Essa não é a única explicação para o surgimento de favelas, mas pode-se afirmar que a territorialização im- posta aos negros, que rumaram para essas localidades formando enormes comunidades foi um importante fator da segregação racial no Brasil ao definir territó- rios a partir de relações sociais e espaciais de exclusão. O pós-abolição definiu e circunscreveu o lugar geo- gráfico das populações negras na cidade: dali emergiu uma sociedade profundamente marcada pela raciali- zação e pela exclusão. Um reflexo disso nos dias atuais é a ocupação majoritária das periferias urbanas por populações afrodescendentes. Is m a r In g b e r/ P u ls a r Im a g e n s R e p ro d u ç ã o /C o le ç ã o p a rt ic u la r 75 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 75V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 75 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 TEMA 3 A lenta substituição do trabalho escravo A segunda metade do século XIX, mesmo antes da abolição da escravidão, em 1888, representou um período de profundas mudanças no Brasil, enten- dido como de transição do trabalho escravo para o trabalho assalariado. Esse também foi um período de importantes transformações socioeconômicas no campo e na cidade. Os debates em torno da abolição também se voltaram para a substituiçãodo trabalho escravo. Como realizar a transição de um tipo de trabalho para outro? Com os trabalhadores nacionais livres e libertos? Com estrangeiros? Já em meados do século XIX ocorreu uma queda importante do número de trabalhadores escravizados, sobretudo pela diminuição do tráfico negreiro transatlântico de 1850 e pelo aumento de seu preço – problemas que não se resolviam com o tráfico interprovincial. Esse movimento antecedeu e se deu conjuntamente com o crescimento do comércio internacional, entre o Brasil e os países europeus, no qual produtos como o café eram altamente valorizados. A produtividade e a circulação do café foram beneficiadas pelas inovações tec- nológicas nas lavouras, pelo surgimento das ferrovias e pela utilização de navios a vapor transatlânticos. A cultura do café, baseada no sistema escravista, demandava uma mão de obra que começava a se escassear com as políticas que dificultavam o tráfico negreiro, o que foi potencializado pela abolição. Nas décadas que antecederam o 13 de maio, o preço dos escravizados aumentou significativamente. Estado de São Paulo: diminuição da população escravizada nos anos que antecederam a abolição Popula•‹o Ano Total Escravizada (A) Livre (B) % (A/B) 1836 284 312 78 013 206 299 37,82% 1854 417 149 117 731 299 418 39,32% 1874 837 354 156 582 680 772 23,0% 1886 1 221 380 106 665 1 114 715 9,57% Fonte: elaborado com base em FRANÇA, Thiago de Novaes. A substituição da mão de obra escrava e a opção pela Grande Imigração no Estado de São Paulo, Dissertação (Mestrado em Economia) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2008. p. 92 apud SPINDEL, 1979, p. 68. Os professores de História e de Geogra�a são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. Dica As ferrovias foram um dos símbolos do pro- gresso no século XIX, contribuindo para o fluxo interno de pes - soas e mercadorias en- tre as províncias e para o mercado agroexpor- tador. O transporte flu- vial não dava conta do escoamento da produ- ção agrícola. Nesse sen- tido, a construção das ferrovias complemen- tou as necessidades do sistema de navegação fluvial, em um proces- so que envolveu traba- lhadores escravizados e livres. Um estudo de caso desse processo pode ser lido em: SOUZA, Robério Santos. “Se eles são livres ou escravos”: escravidão e trabalho livre nos can- teiros da estrada de ferro de São Francis- co (Bahia, 1858-1863). Salvador: EDUFBA, 2011. Disponível em: http:// repositorio.unicamp.br/ jspui/bitstream/REPO SIP/280990/1/Souza_ RoberioSantos_D.pdf. Acesso em: 12 ago. 2020. 76 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 76V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 76 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 Do ponto de vista econômico, esse tipo de mão de obra tinha um custo alto e prévio, caracterizado por pagamento desde a obtenção até a manutenção dos es- cravizados. Já no trabalho livre e assalariado, o pagamento pelos serviços prestados sempre poderia ser feito posteriormente. Outro fator importante foi que o valor representado pelo escravizado diminuía à medida que este envelhecia, ao passo que o trabalhador livre poderia ser substituído sistematicamente. A redenção de Cam, pintura de Modesto Brocos, 1895. Óleo sobre tela, 199 cm × 166 cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro (RJ). A obra ilustra as teorias de branqueamento da população do final do século XIX. Fonte: elaborado com base em SOARES, Rodrigo Goyena. Estratificação profissional, desigualdade econômica e classes sociais na crise do Império. Notas preliminares sobre as classes imperiais. Revista Topoi, Rio de Janeiro, v. 20, n. 41, p. 480, 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/ topoi/v20n41/2237-101X- topoi-20-41-0446.pdf. Acesso em: 27 jul. 2020. Do ponto de vista social, o projeto de imigração “bran- ca” para a substituição do trabalho escravo foi encaminhado pelas elites brasileiras e teve início antes da abolição. Nesse momento, houve com um relativo movimento migratório para o Brasil, de povos europeus que, sem perspectivas em seus países, buscavam melhores opções e oportunidades em um país que passava a necessitar de mão de obra. A percepção social da população negra como inferior e incivilizada (e que, portanto, não deveria fazer parte do projeto de integração social) direcionou os encaminha- mentos favoráveis à imigração europeia. Eles eram apoia- dos em teorias sociais desenvolvidas nos Estados Unidos e na Europa, que consideravam os negros inferiores biológica e culturalmente em relação aos brancos. Os imigrantes brancos, ao contrário, se integrariam so- cialmente melhor, podendo fazer parte do projeto nacional brasileiro, atuando na constituição do mercado de trabalho e na constituição de um mercado consumidor. Além disso, aos olhos das elites brasileiras, eles poderiam contribuir para o “branqueamento” da população. Desse modo, pode-se dizer, também, que a substituição do trabalho escravo pelo trabalho assalariado foi orientada por questões raciais. 0 200 1822 1825 1830 1835 1840 1855 1850 1855 1860 1865 1870 1875 1880 1885 1890 400 600 800 1 000 1 200 1 400 1 600 1 800 2 000 P re ço Ano Brasil: evolução do preço de homens e mulheres, entre 20 e 25 anos, escravizados (em mil-rŽis*) Ð 1822-1888 B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra *Moeda portuguesa entre o século XV e o início do século XX. R e p ro d u ç ã o /M u s e u N a c io n a l d e B e la s A rt e s , R io d e J a n e ir o , R J 77 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 77V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 77 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 Os imigrantes no Brasil Em momentos distintos, o Brasil recebeu imigrantes de diferentes locais do mundo – e de diversas nacionalidades, como italianos, por- tugueses, espanhóis, alemães e japoneses (destinados, sobretudo, às províncias de São Paulo, Rio de Janeiro e da região Sul). As motivações da vinda desses imigrantes em geral foram muito parecidas: fugiam de situações nas quais imperava o desemprego, a imensa pobreza e a falta de opções, geradas pelas crises agrícolas ou pelos novos processos de produção industrial, assim como por perseguições políticas e religiosas. Ainda nos anos finais do século XIX, em decorrência das pressões para o fim da escravidão, o colonato já se apresentava como uma nova opção. Os imigrantes eram remunerados por ganhos provenientes da venda do café e, também, com um salário fixo anual. Parte da política de atração dos imigrantes consistia na ofer- ta de lotes de terras para que aqui se estabelecessem. O co- lonato possibilitou a transição para o trabalho livre assalariado nas grandes lavouras. Cartaz, sem data, que convida os italianos a emigrar para o Brasil, anunciando a partida de navios do porto de Gênova. Em tradução livre, lê-se: “Venham construir os seus sonhos com a família. Um país de oportunidade. Clima tropical e abundância. Riquezas minerais. No Brasil, vocês poderão ter o seu castelo. O governo dá terras e utensílios a todos”. colonato: sistema de exploração de grandes propriedades entre diversos colonos, encarregados de cultivar determinada área e entregar parte da produção ao proprietário, conservando outra parte para seu próprio consumo. Explorando Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta atividade. NÃO ESCREVA NO LIVRO 1. Os imigrantes partiam de suas cidades de origem para regiões portuárias, às vezes muito distantes, e a partir delas embarcavam em condições bastante precárias em direção ao Brasil. Ao chegarem aos portos brasileiros, passavam por inspetorias de imigração e partiam para diferentes localidades. O imigrante estrangeiro, quando chegava ao Brasil, ingressava em redes de uma sociedade que se expandia e se transformavaeconômica e socialmente, industrializan- do-se e ampliando sua atividade agrícola. As imigrações envolvem processos de deslocamento e sempre são determinadas por alguma motivação. Leia o trecho a seguir, sobre as imigrações para o Brasil. Observe também as imagens e, depois, faça o que se pede. Imigração italiana No exterior as condições tornavam-se mais propícias à imigração para o Bra- sil. Os Estados Unidos, que durante o século XIX tinham absorvido quase toda corrente imigratória, começavam a dificultar a entrada de novos imigrantes. De outro modo, as transformações políticas ocorridas na Itália com a Unificação provocaram uma emigração em massa das populações rurais. Entre 1873 e 1887, mais de sessenta mil pequenas propriedades foram tomadas pelo fisco por falta de pagamentos de impostos, e, entre 1881 e 1901, o número de propriedades perdi- das pelos “contadini” elevava-se a mais de duzentos mil. O pauperismo atingia as zonas rurais que se tornavam focos de imigração. O imigrante italiano adaptou-se melhor à lavoura do que os suíços e alemães. COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia ˆ Repœblica: momentos decisivos. 6. ed. São Paulo: Editora Unesp, 1999. p. 327. R e p ro d u ç ã o /C o le ç ã o p a rt ic u la r contadini: em italiano, “camponeses”, “agricultores”. M a zu r Tr a v e l/ S h u tt e rs to ck 78 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 78V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 78 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 • Com a ajuda do professor, reúnam-se em trios e busquem na internet relatos documentais de grupos que tenham imigrado para o Brasil. Esses documen- tos podem ser textuais ou imagéticos. Com base nesses documentos, elaborem uma apresentação para a turma considerando as seguintes questões: a) Qual era a origem desses imigrantes? b) Quais foram as suas motivações? c) Quais eram as suas expectativas em relação ao Brasil ou à região a qual se destinavam? d) Quais foram as impressões desses imigrantes ao chegarem a seus desti- nos? Quais foram as suas experiências? Operários italianos em fábrica de tecelagem em São Paulo (SP), em 1910. Embarque de imigrantes italianos para o Brasil, 1910. Desembarque de imigrantes no porto de Santos (SP), 1907. R e p ro d u ç ã o /M u s e u d a I m ig ra ç ã o , S ã o P a u lo , S P R e p ro d u ç ã o /M u s e u d a I m ig ra ç ã o , S ã o P a u lo , S P R e p ro d u ç ã o /M u s e u d a I m ig ra ç ã o , S ã o P a u lo , S P M a zu r Tr a v e l/ S h u tt e rs to ck 79 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 79V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 79 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 TEMA 4 O racismo como instituição estruturante da sociedade brasileira De modo similar ao que ocorrera nos Estados Unidos e em Cuba, no Brasil a experiência com a escravidão também foi estruturante, caracterizando de forma importante a sociedade no que se refere às relações raciais. Entre os estudiosos das questões raciais, na atualidade, o conceito de raça não é entendido como referente a uma realidade natural ou biológica, como fora no racismo científico do século XIX. Raça, contudo, é um conceito fundante da mo- derna sociedade brasileira. Para o sociólogo Antônio Sérgio Alfredo Guimarães, a modernidade brasileira é recente e é demarcada pelos sociólogos e cientistas políticos, geralmente, com a Revolução de 1930. Nesse momento, segundo o autor, o Brasil inventou para si uma tradição e uma ideia de povo. Se em relação ao Império (1823-1889), a Primeira República procurou moder- nizar o Brasil através da adoção de novas instituições, da europeização dos costu- mes [...] e do incentivo à emigração européia [...], em continuidade com aquele, manteve uma nacionalidade ostensivamente polarizada, marcada pela enorme distância entre brancos e pretos, civilizados e matutos. Foi apenas a partir de 1930, principalmente com o Estado Novo (1937-1945) e a Segunda República (1945-1964), que o Brasil ganhou definitivamente um “povo”, ou seja, inventou para si uma tradição e uma origem. GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. A questão racial na política brasileira (os últimos quinze anos). Tempo soc., São Paulo, v. 13, n. 2, p. 121-142, 2001. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0103-20702001000200007. Acesso em: 27 jul. 2020. Essa origem foi inventada a partir da ideia de uma civilização miscigenada, que teria resultado da mescla de diferentes culturas. A partir de então, a questão nacional para o Brasil era como tornar-se moderno e a quem incluir em seu projeto de moder- nidade. Quem comporia a nação? Quem seria incluído e quem seria excluído? Movimentos nas artes e na sociedade refletiram essas preocupações. Na eco- nomia, a indústria e a urbanização eram incentivadas, datando desse período o fim da imigração sistemática, que, como vimos, tinha substituído o trabalho es- cravo. A maioria da população de origem negra, por um lado, e de europeus, por outro, separadamente não permitia às elites das primeiras décadas do século XX a garantia de uma identidade nacional. É desse contexto que data a ideia de democracia racial como solução para os conflitos nacionais, fazendo emergir uma identidade nacional articuladora de diferentes outras identidades – individuais, de grupo e coletivas, todas elas, per- passadas pela questão racial. A democracia racial mascarou os conflitos raciais no Brasil desde então, como vimos no Capítulo 2 deste livro. Por que identidade negra? No contexto brasileiro, de um país fortemente marcado pelo racismo que, ora se expressa de forma explícita, ora de forma velada, a pergunta em questão é muito importante – e a resposta a ela também. Os professores de História, de Geogra�a e de Sociologia são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. 80 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 80V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 80 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 Quando perguntam “por que identidade negra?” ou “por que identidade in- dígena?” e “por que questões similares não se aplicam àqueles que não se inse- rem nem em um grupo nem em outro?”, torna-se necessário considerar algumas especificidades. A identidade negra surge como o resultado de um longo processo histórico, iniciado com as primeiras relações de caráter mercantilista de europeus com o continente africano. A relação se desenvolveu com o tráfico negreiro, a escravi- zação e a colonização do continente africano. Desse modo, falar de identidade negra implica referir a uma identidade de povos que passaram por uma história que outros não passaram. Como afirma o professor Kabengele Munanga (1940-), Essa história a conhecemos bem: esses povos foram sequestrados, captura- dos, arrancados de suas raízes e trazidos amarrados aos países do continente americano, o Brasil incluído, sem saber por onde estavam sendo levados e por que motivo estavam sendo levados. Uma história totalmente diferente da his- tória dos emigrados europeus, árabes, judeus e orientais que, voluntariamente, decidiram sair de seus respectivos países, de acordo com a conjuntura econô- mica e histórica interna e internacional que influenciaram suas decisões para emigrar. Evidentemente, eles também sofreram rupturas que teriam provocado alguns traumas, o que explicaria os processos de construção das identidades particulares como a “italianidade brasileira”, a identidade gaúcha etc. Mas em nenhum momento a cor de sua pele clara foi objeto de representações nega- tivas e de construção de uma identidade negativa que, embora inicialmente atribuída, acabou sendo introjetada, interiorizada e naturalizada pelas próprias vítimas da discriminação racial. MUNANGA, Kabengele. Algumas considerações sobre a diversidade e a identidade negra no Brasil. In: RAMOS, Marise Nogueira et al. Diversidade na educação: reflexões e experiências.Brasília: Secretaria de Educação Média e Tecnológica, 2003. p. 37. Os povos africanos foram coletivamente designados como negros, incorpo- rando uma identidade coletiva à qual se associaram ideias de uma desigualdade natural em relação aos demais. Essa ideia foi afirmada e reafirmada por religiosos, filósofos e cientistas que, a fim de classificar as sociedades humanas entre “raças inferiores” e “raças superiores”, criaram as bases do racismo científico e da raciali- zação das relações sociais. Associar características intelectuais e morais de forma negativa a pessoas ou grupos sociais por conta da sua cor acarreta, consequentemente, sua discrimina- ção e exclusão, caracterizando uma conduta racista. Reconhecer a miscigenação e a diversidade não nos torna inclusivos. Devemos saber identificar e combater o racismo, o preconceito e a discriminação se, de fato, desejamos uma sociedade mais justa, inclusiva, equânime e cidadã. Dica As experiências sobre discriminação e racismo que abordamos neste capítulo serão sempre enriquecidas se analisadas de forma comparativa. A seguir sugerimos uma aná- lise comparativa de casos. ANDREWS, George Reid. O negro no Brasil e nos Estados Unidos. São Paulo: Lua Nova, 1985. p. 52-56. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttex t&pid=S0102-64451985000200013. Acesso em: 9 set. 2020. 81 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 81V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 81 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 Cuba Nas festas de certo violinista e compositor branco, os negros tinham de observar da rua, pois não lhes era permitida a entrada. Nos carnavais, os músicos eram quase todos negros, mas os grupos de foliões desfilavam separadamente, segundo fossem africanos “boçais”, mulatos ou brancos. Na plateia dos teatros, pessoas de cor tinham lugares reservados em bancos no fundo da sala; no palco, personagem negra era ator de cara pintada. Os bailes eram segregados, se bem que havia negros entre os músicos, assim como a servir acepipes ou a espiar das janelas. Mandava- -se observar com rigor uma resolução, de 1854, que exigia permissão de autoridade superior da Ilha para casamentos entre pessoas brancas e de cor [...]. Por ocasião de uma campanha para promover o casamento formal de gente que vivia em concubinato, um ho- mem se recusou a casar com sua parceira alegando haver grande diferença entre eles: ele era branco e ela, parda. O exemplo que mais me fascina é uma or- denança municipal de 1856, que mandava o seguinte: Explorando Professor, no Manual você encontra orientações para esta atividade. NÃO ESCREVA NO LIVRO 1. As imagens e os textos a seguir descrevem momentos diferentes e situações similares de preconceito em contextos e lugares distintos. Analise esses documentos e, depois, faça o que se pede. Estados Unidos O jovem negro Cecil Williams toma água em um bebedouro, em cuja placa se lê “Somente brancos”. A fotografia histórica – feita em Edisto, Carolina do Sul, em 1956 – é um registro do movimento por direitos civis nos Estados Unidos. Gravura que representa dois membros da organização Klu Klux Klan segurando armas, autoria desconhecida, c. 1860. A organização surgiu no contexto da Guerra Civil dos Estados Unidos e é composta de extremistas que prezam pela supremacia branca. Dorothy Counts, aos 15 anos, foi a primeira estudante negra a se matricular na Harry Harding High School em Charlotte, no estado da Carolina do Norte, Estados Unidos. Em seu primeiro dia de aula, foi xingada e atingida por lixo. Fotografia histórica de Douglas Martin, em 4 de setembro de 1957. “quando se encontrem dois indivíduos na rua, cederá a calçada o que estiver à esquerda, a menos que sejam de distintas castas, em cujo caso cederá sempre a de cor à branca. CHALHOUB, Sidiney (prefácio). In: MATA, Iacy Maya. Conspirações da raça de cor: escravidão, liberdade e tensões raciais em Santiago de Cuba (1864-1881). Campinas: Editora da Unicamp, 2015. p. 21. Brasil A concepção espiritualista de uma alma da mesma natureza em todos os povos, tendo como consequên- cia uma inteligência da mesma capacidade em todas as raças, apenas variável no grau de cultura e passível, portanto, de atingir mesmo num representante das ra- ças inferiores, o elevado grau a que chegaram as raças superiores, é uma concepção irremissivelmente conde- nada em face dos conhecimentos científicos modernos. RODRIGUES, Raymundo Nina. As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisa Social, 2011. p. 1. • Em grupos, analisem os documentos anteriores e reflitam sobre eles. Depois, elaborem um texto bus- cando responder à seguinte questão: “De que forma o racismo ainda é presente na nossa sociedade?”. Se possível, pesquisem notícias atuais relacionadas ao racismo nos três países indicados anteriormente. B e tt m a n n A rc h iv e /G e tt y I m a g e s A rc h iv e P h o to s /G e tt y I m a g e s R e p ro d u ç ã o /N e e m a F in e A rt G a lle ry , C h a rl e s to n , E s ta d o s U n id o s 82 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 82V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 82 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 Fonte: http://www.historiailustrada.com.br/2014/04/ raras-fotografias-escravos-brasileiros.html Aprimorando o conhecimento NÃO ESCREVA NO LIVRO 1. (UFRGS-RS 2020) Com relação às dimensões po- líticas, econômicas e sociais da escravidão, na for- mação do Estado brasileiro no século XIX, conside- re as seguintes afirmações. I. A proibição do tráfico de africanos, colocada em prática em 1850, ocasionou um aumento do fluxo interno de escravizados, oriundos da região norte, para atender a demanda de mão de obra nas lavouras cafeeiras do sudeste. II. As ameaças internacionais de grupos e entida- des abolicionistas motivaram esforços de defe- sa do regime escravista, articulando interesses comuns de setores da elite brasileira com co- merciantes da América hispânica e dos Esta- dos Unidos. III. A dinâmica do mercado externo e o desenvol- vimento do capitalismo industrial tornaram consensual, na elite política imperial, o apoio ao fim da escravidão, aproximando Luzias e Saquaremas, durante a chamada “grande con- ciliação”, ocorrida no Segundo Reinado. Quais estão corretas? a) Apenas I. b) Apenas II. c) Apenas III. d) Apenas I e II. e) I, II e III. 2. (UPE 2018) Observe a imagem abaixo: Essa rara imagem do Brasil no século XIX aponta para uma sociedade a) industrial, composta por valores da alta burguesia. b) livre, na qual a escravidão não era mais uma rea- lidade. c) desigual, ainda pautada por estruturas conser- vadoras. d) militarizada, voltada para valores da hierarquia da guerra. e) harmoniosa, demonstrando o bom convívio en- tre diferentes grupos. 3. (UPF-RS 2019) É praticamente um consenso histo- riográfico a interpretação de que onde houve es- cravidão, houve resistência. Os escravos jamais se conformaram com a perda da liberdade e as rebe- liões representaram a principal forma de resistên- cia coletiva. Sobre o tema, responda: qual foi a maior revolta de cativos no Brasil, liderada por escravos muçulma- nos, tendo a participação de africanos e crioulos, escravos e libertos, atingindo mobilização de cerca de 600 revoltosos? a) Revolta de João Congo. b) Revolta de Nazaré das Farinhas. c) Levante dos Malês. d) Insurreição do Haiti. e) Revolta de Carrancas. Professor, no Manual você encontra orientações sobre estas atividades. Foto da Fazenda Quititi, no Rio de Janeiro, 1865. 83 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 83V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 83 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 Reflexões sobre a branquitude Lígia Fonseca Ferreira, doutora, professora e pesquisadora formadaem Letras. Este projeto pode ser desenvolvido em conjunto pelos professores de Filoso�a, de Geogra�a, de História e de Sociologia, com a colaboração do professor de Língua Portuguesa. O que é a branquitude? De onde vem essa ideia e qual é o seu papel nas relações sociais? O pressuposto deste projeto é entender o con- ceito de branquitude e suas implicações na vida das pessoas. Em um país marcado por conflitos raciais, no qual o racismo é uma instituição estruturante da so- ciedade, é impossível estudar a escravidão como algo restrito a um passado remoto e distante. Ainda que não se aplique a seres humanos e não tenha fundamentação biológica, raça é um conceito que orienta práticas sociais e que tem implicações importantes e diretas na vida das pessoas que, com frequência, são hostilizadas em decorrência de traços físicos, como cor de pele, textura do cabelo, formato do nariz e da boca, e outros fenótipos. A discrimina- ção que fundamenta essa hostilização tem origem na crença de que há uma hierarquia entre as raças que deve estabelecer o lugar social de cada uma de- las na sociedade. Para a pesquisadora Lígia Ferreira, O racismo vem junto com a escravidão e a aboli- ção não aboliu nada. [...] No século XIX, para se poder escravizar o negro ou índio era preciso se provar que essas duas catego- rias não eram compostas por pessoas. [...] São vários estigmas sobre o negro, vemos isso claramente na literatura brasileira, vemos esses estigmas disseminados que atingem a população ne- gra como um todo, até os dias de hoje. Tivemos estigmas do homem e da mulher negra, sempre relacionados à barbárie. Por muito tempo eram considerados preguiçosos, que não tinham ca- pacidade de criar artes, ciência, letras, filosofia. FERREIRA, Lígia Fonseca. 130 anos da abolição, sob inspiração de Luiz Gama. [Entrevista cedida a] Marcelo Chaves e Andrea Delmiro Oliveira. Revista do Arquivo Público do Estado de São Paulo, São Paulo, 2018. Disponível em: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/ revista_do_arquivo/07/especial_01.php. Acesso em: 28 ago. 2020. No caso das sequelas da escravidão, compreender que o preconceito e o racismo se ligam às condições desfavoráveis de parte significativa da população ne- gra no Brasil, hoje, é parte do caminho rumo a uma sociedade mais democrática e com uma cidadania mais plural. Nesse sentido, entender o que é branqui- tude e quais são suas implicações na sociedade atual e na vida das pessoas nos ajuda a trilhar melhor esse caminho. Vamos lá! Questão mobilizadora Como questão mobilizadora deste projeto, você e seus colegas deverão refletir sobre a seguinte questão: Metodologia Para realizar este projeto, utilizaremos a metodo- logia de revisão bibliográfica. A revisão bibliográfica nos permite mapear informações e estudos sobre certo assunto com base em trabalhos em desenvolvimento ou já realizados. Nesse caso, pensaremos na nossa trajetória esco- lar e nas experiências de vida. Você, provavelmente, já se deparou com ideias preconceituosas e discrimi- natórias em relação a cor dos indivíduos, sobretudo, negros. Atualmente, fala-se em identidade(s) negra(s), mas e sobre identidade(s) branca(s)? Você já ouviu fa- lar do conceito de branquitude? Antes de iniciar a sequência deste projeto, recorra- mos, então, a uma definição de branquitude. Nesse sentido, a psicóloga social Lia Vainer Schuc- man afirma que […] a braquitude é entendida […] como uma construção sócio-histórica produzida pela ideia fa- laciosa de superioridade racial branca, e que resulta, nas sociedades estruturadas pelo racismo, em uma PARTE 2 IMERSÃO S ilv ia C o s ta n ti /A rq u iv o p e s s o a l 84 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 84V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 84 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 posição em que os sujeitos identificados como brancos adquirem privilégios sim- bólicos e materiais em relação aos não brancos. SCHUCMAN, Lia V. Entre o “encardido”, o “branco” e o “branquíssimo”: raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistana. 2012. Tese (Doutorado) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-21052012-154521/ publico/schucman_corrigida.pdf. Acesso em: 20 ago. 2020. Portanto, o objetivo deste projeto é propor uma compreensão ampla sobre a branquitude e seus refle- xos na sociedade, buscando situar o lugar que ocupa na construção das estruturas de poder e no estabelecimen- to das desigualdades raciais. A intenção é que as experi- ências pessoais, além dos levantamentos bibliográficos, também subsidiem você para o desenvolvimento deste projeto e para a reflexão das questões indicadas. Essas reflexões deverão ser construídas em grupo e, com a turma, discutidas coletivamente. Cada grupo deve se dedicar a um dos temas apresentados na etapa 2 e, depois, elaborar um texto e apresentar seus posicio- namentos para o restante da turma. Produto final O produto final deve ser a elaboração de um texto e a apresentação de se- minário com as suas considerações para a turma, para que, em conjunto, vocês analisem cada tema proposto. Etapas 1 Montar os grupos Para iniciar o projeto, será preciso organizar grupos de até cinco pessoas. As- sim, ao longo do desenvolvimento, as tarefas poderão ser divididas entre todos os componentes, tanto durante a pesquisa como para a elaboração e apresentação dos resumos. 2 Escolher um dos temas para pesquisar Para realizar a revisão bibliográfica, você e seu grupo devem escolher um dos te- mas abaixo e, com base na descrição, buscar por artigos científicos, livros, pesquisas em desenvolvimento e outros conteúdos científicos para analisar a temática. Tema I: Bases do conceito de branquitude. Quais foram essas bases? Os fundamentos da branquitude se desenvolveram no contexto da expansão comercial e colonial europeia dos séculos XVI e XVII e no contexto do Imperialismo e novos domínios coloniais do século XIX (ver o Capítulo 4 poderá ajudar no de- senvolvimento deste tema). A partir do contato de europeus brancos com povos originários da América, da África, da Ásia e, posteriormente, da Oceania, definiram-se as bases de segregação entre brancos e não brancos. O processo de exploração precisava ser justificado e, para isso, estabeleceu-se a hierarquia em relação a níveis de civilização, aspectos estéticos, intelectuais e morais que classificavam os brancos como superiores aos não brancos. O trabalho em grupo exercita o diálogo e a empatia, além de possibilitar a troca de vivências. Aproveitem essa oportunidade para refletir sobre as experiências dos colegas. Material necessário • computadores, com programa de edição de texto e acesso à internet; • impressora e papéis. Monkey Business Images/Shutterstock 85 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 85V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 85 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 Tema II: Conceito de branquitude. Como esse conceito pode ser definido? Foi sobretudo a partir de referenciais desqualifica- dores em relação aos não brancos no século XIX (par- ticularmente os negros), caracterizados como “bárba- ros” e “incivilizados”, que se desenvolveu o conceito de branquitude. Reflita sobre a questão proposta e desenvolva o trabalho com base nela. Tema III: Como o conceito de branquitude pode ser utilizado para entender as relações sociais? Que exemplos concretos da realidade brasileira podem ser dados como ilustração? O conceito de branquitude pautou-se na ideia de superioridade dos brancos em relação aos não brancos, particularmente em relação aos negros. Isso levou, em diferentes lugares do mundo, a uma organização social que não promoveu a integração dos povos negros. A branquitude construiu estruturas de poder nas quais as desigualdades raciais se estabeleceram, pautadasna ideia de privilégio dos brancos em relação aos não brancos. 3 Assistir ao vídeo Antes de iniciar a pesquisa, os grupos devem as- sistir ao vídeo da professora Lia Vainer Schucman, considerando os temas e as questões acima propos- tos e, também, a questão do respectivo grupo. Anote os apontamentos para pesquisar e discutir em grupo posteriormente. Ao assistir à palestra e ao vídeo, observe e reflita sobre as questões a seguir. • Qual é a diferença entre brancura e branquitude? • Qual é o conceito e estatuto da ideia de raça no século XIX? • Qual foi o papel da ciência na perpetuação da ideia de branquitude na sociedade? • Pensando na ideia de que o diferente é o outro, o branco é a norma social? • Quais são as características do racismo no Brasil? • Quais são as características da branquitude no Brasil? • Como funciona a branquitude? • Segundo as pesquisas da autora, o que pode ser entendido como privilégio branco? Palestra da Professora Lia Vainer Shucman: O lu- gar do branco nas relações raciais brasileiras. MPSP Notícia, 2015. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=IgrU7kw2UrE. Acesso em: 12 ago. 2020. 4 Realizar pesquisas Individualmente, cada estudante poderá consultar a tese indicada a seguir, de Lia Schucman, e, além dela, buscar por informações e fontes que o ajude no tra- balho. • SCHUCMAN, Lia V. Entre o “encardido”, o “branco” e o “branquíssimo”: raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistana. 2012. Tese (Doutorado) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012. Disponível em: https:// www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde- 21052012-154521/publico/schucman_corrigida.pdf. Acesso em: 12 ago. 2020. Você e seu grupo podem buscar informações adi- cionais em bibliotecas físicas e digitais, além de revistas de divulgação sobre o tema e, até mesmo, bancos de teses e dissertações de universidades públicas, visando responder às questões específicas de cada tema. Abai- xo, algumas indicações de bibliotecas digitais e banco de teses para pesquisa. • Google Acadêmico. Disponível em: https:// scholar.google.com.br/ . • Scielo. Disponível em: https://scielo.org/. • Biblioteca digital da Universidade de Campinas (Unicamp). Disponível em: http://www.bibliotecadigital. unicamp.br/. Acesso em: 12 ago. 2020. 5 Discutir em grupo e elaborar o texto Reunidos, os participantes de cada grupo devem discutir os apontamentos realizados sobre o vídeo e os resultados de suas pesquisas. Selecionem autores e iden- tifiquem seus argumentos, posicionamentos e lacunas argumentativas. Reflitam se concordam, ou não, e esta- beleçam relações entre eles. Depois, produzam um texto que sintetize essas discussões e seus posicionamentos. 6 Apresentar o trabalho Em sala de aula, cada grupo deve apresentar seus resultados em formato de seminário e discutir os textos produzidos. Avaliem, junto ao professor, uma forma de disponibilizar as cópias dos textos, de forma física ou digital (por meio da nuvem ou grupos em redes sociais, por exemplo). 86 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 86V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 86 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 BURACO Em 4 de março de 2010, por ocasião das discus- sões do Supremo Tribunal Federal, o historiador Luiz Felipe de Alencastro – Professor de História do Brasil na Universidade de Paris IV e represen- tante da Fundação Cultural Palmares –, defendeu as ações afirmativas destinadas à reserva de vagas nas universidades públicas para pessoas pretas e pardas. A partir de 2010, os pretos e pardos passa- ram a formar a maioria do país, ainda assim, nesse período, apenas 5,6% de jovens pretos ou pardos tinham Ensino Superior completo. Leia um trecho do parecer de Alencastro apre- sentado ao Supremo Tribunal Federal e responda às questões a seguir. Parecer sobre a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, ADPF/186, apresentado ao Supremo Tribunal Federal Na realidade, nenhum país americano praticou a escravidão em tão larga escala como o Brasil. Do total de cerca de 11 milhões de africanos deportados e chegados vivos nas Américas, 44% (perto de 5 mi- lhões) vieram para o território brasileiro num perío- do de três séculos (1550-1856). O outro grande país escravista do continente, os Estados Unidos, prati- cou o tráfico negreiro por pouco mais de um século (entre 1675 e 1808) e recebeu uma proporção muito menor –, perto de 560.000 africanos –, ou seja, 5,5% do total do tráfico transatlantico. No final das con- tas, o Brasil se apresenta como o agregado político americano que captou o maior número de africanos e que manteve durante mais tempo a escravidão. ALENCASTRO, Luiz Felipe de. ADPF 186 – Reserva de vagas com base em critérios étnico-racial (Cotas) no processo de seleção para ingresso em Instituição Pública de Ensino Superior. Brasília: STF, 2010, p.1. Disponível em: http://www.stf.jus.br/ arquivo/cms/processoAudienciaPublicaAcaoAfirmativa/anexo/ stf_alencastro.doc. Acesso em: 28 ago. 2020. 1. Em grupo, elaborem um texto argumentativo sobre o tema “Igualdade de oportunidades”. Considerem o texto anterior e o vídeo a seguir, a partir dos 50 minutos, como base para reflexão. • Audiência Pública Cotas Raciais – 04/03/10 – (3/4). Brasil: STF, 2010. Disponí- vel em: https://www.youtube.com/watch?v= nTMnaDQ5TXM. Acesso em: 28 ago. 2020. 2. Com o auxílio do professor, apresentem as con- siderações do grupo para a turma e discutam os aspectos considerados mais relevantes. IBGE. Censo Demográfico 2010. Estatísticas de Gênero. Rio de Janeiro: IBGE, 2010. Disponível em: https://www.ibge. gov.br/apps/snig/v1/?loc=0&cat=-1,4,47,48,128&ind=4699. Acesso em: 28 ago. 2020. Reflexões NÃO ESCREVA NO LIVROProfessor, no Manual você encontra orientações para esta seção. Espera-se que, ao fim do projeto, seja possível ela- borar respostas qualificadas, baseadas em argumentos sólidos, para as questões iniciais propostas. Respostas e argumentos que possam contribuir socialmente para uma cidadania mais plural e uma sociedade mais democrática. Nosso percurso até aqui Professor, no Manual você encontra orientações para esta seção. Ao final deste projeto reflita com seus colegas. • A respeito das questões iniciais, quais eram os seus conhecimentos e posicio- namentos? Eles mudaram após as atividades e debates? • Você já se sentiu beneficiado ou prejudicado em alguma situação por causa da cor de sua pele? Como você reagiu? • Em uma sociedade caracterizada pela desigualdade social, que reflete, conse- quentemente, a desigualdade de oportunidades, pode-se falar em meritocracia? Autoavalia•‹o NÃO ESCREVA NO LIVRO 87 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 87V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap3_064-087.indd 87 18/09/2020 11:4318/09/2020 11:43 CAP ÍTU LO O que são ditadura, fascismo e totalitarismo? Neste capítulo, você vai conhecer as principais características de regimes autoritários constituídos no século XX e suas influências no século XXI. Isso é fundamental para perceber que as formas autoritárias de governo são uma ameaça constante à democracia de qualquer país. Entre 1964 e 1985, o Brasil viveu sob um regime militar em que vários Atos Institucionais suprimiram direitos constitucionais, instaurando perseguição política, censura e repressão aos que eram contrários à ditadura. Charge do cartunista iraniano Mana Neyestani, de 2013, satirizando a liberdade de expressão por meio do uso da violência do Estado. Na ditadura militar, os direitos humanos são desprezados e violados pelas próprias autoridades do Estado. Charge de Carlos Latuff, de 2008, que faz referência à Operação Condor, instituída na América do Sul durante os anos 1970. Formada pela aliança entre Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, e com apoio dos Estados Unidos,o objetivo da Operação Condor era perseguir os opositores às ditaduras estabelecidas nesses países. Qual é a relação entre autoritarismo, opressão e desigualdade? 44 Mana Neyestani/Acervo do artista C a rl o s L a tu ff /A c e rv o d o c a rt u n is ta 88 Q u a l é a r e la çã o e n tr e a u to ri ta ri sm o , o p re ss ã o e d e si g u a ld a d e ? Q u a l é a r Q u a l é a r e la çã o e n tr e a u to ri ta ri sm o , o p re ss ã o e d e si g u a ld a d e ? Q u a l é a r e la çã o e n tr e a u to ri ta ri sm o , o p re ss ã o e d e si g u a ld a d e ? Q u a l é a r e la çã o e n V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 88V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 88 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 O neoliberalismo preconiza que tudo esteja sob o poder do capital privado e seja comercializado como mercadoria, com a intervenção pública e estatal mínima sobre os negócios. A ilustração simboliza o poder do capital, que agarra com seus tentáculos todos os setores de produção, os serviços e as instituições. Adolf Hitler durante visita a Munique, na Alemanha, em 1929. O totalitarismo é uma ditadura de intenso caráter ideológico em que o governante concentra em sua pessoa as leis e o próprio Estado: líder único, partido único e pensamento único. O totalitarismo na Alemanha nazista reuniu todas as características de um regime totalitário. O fascismo defende a monopolização do poder político e é centrado no culto ao chefe, na exaltação da nacionalidade, no desprezo pelas liberdades individuais e na oposição ao socialismo e ao comunismo. Mesmo com a derrota desses regimes na Segunda Guerra Mundial, o fascismo ainda inspira movimentos antidemocráticos pelo mundo. O neoliberalismo surgiu no século XX como um conjunto de preceitos econômicos que se propõe a fortalecer as economias capitalistas e aumentar a produtividade dos mercados nacionais e mundial. Os resultados desses processos aumentam as desigualdades sociais e a população mais pobre é a mais prejudicada. H u lt o n A rc h iv e /G e tt y I m a g e s nuvolanevicata/Shutterstock 89 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 89V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 89 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 Cenário Q u a l é a r e la çã o e n tr e a u to ri ta ri sm o , o p re ss ã o e d e si g u a ld a d e ? Q u a l é a Q u a l é a r e la çã o e n tr e a u to ri ta ri sm o , o p re ss ã o e d e si g u a ld a d e ? Q u a l é a r e la çã o e n tr e a u to ri ta ri sm o , o p re ss ã o e d e si g u a ld a d e ? Q u a l é a r e la çã o e Autoritarismo e antidemocracia Em geral, falamos de autoritarismo para abordar todos os tipos de regimes antidemocráticos. Se a autoridade po- lítica é transmitida de baixo para cima, temos democracia. Caso contrário, constitui-se o autoritarismo que res- tringe a autonomia dos partidos políti- cos, dos sindicatos e dos grupos politi- camente organizados. Em princípio, regimes autoritários são caracterizados pela ausência de eleições periódicas e do Parlamento. Caso haja eleições e as casas parlamentares existam (como a Câmara dos Depu- tados e o Senado), isso ocorre por formalidade, já que o predomínio do Poder Executivo é inquestionável. Em um regime autoritário, a oposição é anulada ou bastante dificultada. Em- bora os grupos de oposição sejam impedidos de atuar, há outros que mantêm sua autonomia e influência sobre o governo –são os grupos que apoiam o regime autoritário e apresentam resistência à participação da população mais pobre na política, pois são compostos de membros que representam as camadas mais ricas da sociedade. OBJETIVOS E JUSTIFICATIVAS: Este capítulo tem como objetivo apresentar a relação entre os principais tipos de governos autoritários do século XX e as opressões e as desigualdades que eles provocaram. Estudaremos as ditaduras militares latino-americanas e como elas contribuíram para aprofundar as desigualdades sociais. Discutiremos o fascismo – sua definição, origens sociais e as classes sociais mobilizadas. Também serão abordadas as origens e as características do totalitarismo na Alemanha nazista. Por fim, estudaremos o neoliberalismo e suas características econômicas e políticas. Como sistema econômico que se propõe a promover o desenvolvimento e a produtividade da economia, verificaremos como as políticas neoliberais aceleram a concentração da renda ao mesmo tempo que contribuem para a diminuição da participação política popular e democrática. COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DA BNCC • Competências gerais da Educação Básica: 1, 2, 7 e 9. • Competências específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: 1, 5 e 6. • Habilidades de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: EM13CHS101, EM13CHS103, EM13CHS501, EM13CHS503, EM13CHS602, EM13CHS603, EM13CHS605 e EM13CHS606. • Competência específica de Ciências da Natureza e suas Tecnologias: 1. • Habilidades de Ciências da Natureza e suas Tecnologias: EM13CNT103 e EM13CNT104. • Por que, afinal, surge o autoritarismo? • Por que é comum que uma parcela mais rica da população apoie o autoritarismo? • Como o autoritarismo se apresenta na prática dos governos atuais? Professor, no Manual você encontra orientações sobre estas atividades. Manifestação em favor da democracia, contra a ditadura militar, na cidade de Curitiba (PR), em 2019. E rn a n i O g a ta /C ó d ig o 1 9 /F u tu ra P re s s NÃO ESCREVA NO LIVRO 90 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 90V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 90 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 PARTE 1 CONEXÕES Os professores de História e de Sociologia são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. TEMA 1 Ditadura e desigualdade Podemos definir ditadura como um governo centralizador e autoritário, que se apoia nas For- ças Armadas e que não tem legitimidade. Nor- malmente, é representada por um chefe político que governa de acordo com os interesses de um grupo social minoritário pertencente à elite eco- nômica do país. É comum que seja instalada por um golpe de Estado. Em uma ditadura, os debates públicos são proibidos ou fortemente restringidos, a imprensa é censurada e os poderes do Estado (Legislativo e Judiciário) perdem sua independência diante do Executivo. A existência dos partidos políticos também é proibida ou estritamente controlada e a prática da oposição política é reprimida ou banida por completo. Além disso, não há garantia de respeito aos direitos humanos. O documento marco na história dos direitos humanos é a Declaração Universal dos Direitos Humanos proclamada pela Assembleia Geral da ONU em 10 de dezembro de 1948. Na foto de 1948, Eleanor Roosevelt, ex-primeira-dama dos Estados Unidos, segura a versão em inglês dessa declaração. Como presidente da Comissão dos Direitos Humanos da ONU, ela foi decisiva na formulação e aprovação desse documento. Ditaduras na América Latina As ditaduras militares acontecem quando as Forças Armadas de um país to- mam o poder apoiadas em seu poderio bélico. Esse tipo de ditadura foi comum na América do Sul durante as décadas de 1960 e 1970. Nos países indicados no mapa a seguir, as ditaduras foram implantadas por golpes militares apoiados pelas camadas mais ricas de sua população e incentivadas pelo governo dos Estados Unidos. Dica No site das Nações Uni- das você encontra mais in formações sobre os Di- reitos Humanos, incluin- do a versão completa em português da De- claração Universal dos Direitos Humanos. O que são direitos huma- nos? Nações Unidas Brasil. Disponível em: https://na coesunidas.org/direitos humanos/. Acesso em: 21 jul. 2020. Direitos Humanos Após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945),criou-se a Organização das Na- ções Unidas (ONU) que tinha entre suas responsabilidades a de viabilizar um fórum para o desenvolvimento e a adoção de instrumentos internacionais de Direitos Humanos. Fundados sobre o respeito pela dignidade e valor de cada indivíduo, os direitos humanos são universais, inalienáveis (ou seja, que não se pode tomar ou retirar de alguém), indivisíveis, inter-relacionados e interdependentes. Ninguém pode ser privado desses direitos, mas eles podem ser limitados em situações espe- cíficas – por exemplo, se uma pessoa é considerada culpada de um crime em um processo legal diante de um tribunal, o direito dela à liberdade pode ser limitado. Os direitos humanos são direitos que devem ser garantidos absolutamente a todas as pes- soas, independentemente de nacionalidade, etnia, gênero, classe social, religião, posição polí- tica ou qualquer outra condição. Eles estabelecem, entre outras coisas, as garantias jurídicas universais contra atos de governos que ferem os princípios da dignidade humana. Conceito F P G /G e tt y I m a g e s 91 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 91V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 91 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 A partir de metade da década de 1970, estabeleceu-se uma colaboração entre os Serviços de Inteligência das ditaduras da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, denominada Operação Condor, com o objetivo de trocar informações e ar- ticular as repressões internas. A operação foi assessorada tecnicamente pelos Esta- dos Unidos e consistia-se em espionagem, perseguição, sequestros, tortura e assassi- natos de todos que fossem considerados opositores ou suspeitos de oposição aos respectivos regimes. América Latina: ditaduras militares – décadas de 1950 a 1970 OCEANO ATLÂNTICO OCEANO PACÍFICO Trópico de Capricórnio Equador 50º O 0º Trópico de Cânce r BRASIL 1964 VENEZUELA 1952 URUGUAI 1973 PARAGUAI 1954 ARGENTINA 1966 1976 CHILE 1973 PERU 1965EQUADOR 1972 COLÔMBIA 1952 1957 PANAMÁ 1964 1989 REPÚBLICA DOMINICANA 1965 CUBA 1952 GUATEMALA 1954 1960 1967-1969 NICARÁGUA 1979-1989 EL SALVADOR 1980-1990 BOLÍVIA 1967 SURINAME 1980 GUIANA 1964 GRANADA 1983 T 0 1 480 km P o rt a l d e M a p a s /A rq u iv o d a e d it o ra Ditadura e desigualdade social no Brasil No Brasil, a ditadura se iniciou com um golpe civil-militar em 1o de abril de 1964. Com a instauração do regime militar, iniciou-se no país um longo período de arrocho salarial, concentração de renda e subserviência ao grande capital in- ternacional. O Brasil teve cinco “presidentes-generais” até o regime militar termi- nar oficialmente em 15 de março 1985. Ao longo de 21 anos, a ditatura militar no país teve diferentes fases e foi um período marcado também pela falta de liberdade e pelo uso de tortura contra opositores políticos. Motivações do golpe de Estado no Brasil A partir de 1963, o governo do presidente João Goulart (1919-1976), que per- durou de 1961 a 1964, preparava as Reformas de Base cujos objetivos eram ate- nuar as desigualdades sociais no Brasil. Principal bandeira daquele governo, esse projeto previa, entre outras coisas, as reformas agrária, urbana, universitária e bancária. A reforma mais emblemática era a agrária e serviria para distribuir de maneira mais justa a terra entre os milhões de trabalhadores do campo, mas deveria, primeiro, desapropriar latifúndios dominados pelas classes mais ricas do país. Outras medidas das Reformas de Base eram: a ampliação do direito de voto aos analfabetos e o controle das atividades econômicas das empresas multinacio- nais para evitar que os lucros obtidos com força de trabalho e recursos brasileiros fossem inteiramente enviados para o exterior. O apoio popular à João Goulart – conhecido também como Jango – em gran- des comícios dos quais participava assustou as elites econômicas do país e as clas- ses média e alta. Além disso, alarmou os comandantes militares, sempre atentos a uma suposta “ameaça comunista” em tempos de Guerra Fria (1947-1991) e de sucesso da Revolução Cubana (1959). Por esses motivos, o movimento político- -militar deflagrado em 31 de março de 1964 foi, na verdade, um golpe civil-militar, Fonte: elaborado com base em MONDE DIPLOMATIQUE. El atlas historico: historia cr’tica del siglo XX. Buenos Aires: Fundación Mondeplo, 2011. p. 56-57. Dica O documentário O dia que durou 21 anos reve- la a existência de docu- mentos secretos e grava- ções originais que com- provam a participação dos Estados Unidos no Golpe de 1964 no Brasil. O dia que durou 21 anos. Direção de Camilo Tavares. São Paulo: Pequi Filmes, 2013 (78 min). Cartaz do filme O dia que durou 21 anos, de Camilo Tavares. R e p ro d u ç ã o /N e w S ta r 92 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 92V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 92 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 pois foi apoiado pelas classes média e alta (contrariadas com a organização política dos operários urbanos e trabalhadores rurais) e contou com a ajuda financeira e logística dos Estados Unidos. Leia, a seguir, o trecho de um ensaio sobre a influência da política internacional no golpe de Estado de 1964. Depois, responda às questões. O golpe militar de 64 como fenômeno de política internacional O governo de João Goulart, quando caiu, con- tava com 76% da opinião pública a seu favor, elevado índice de popularidade, não obstante a formidável campanha que as oposições interna e externa promoveram, com o objetivo de o de- sestabilizar. E o embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, ao comentar a “Marcha da Famí- lia com Deus e pela Liberdade”, realizada no Rio de Janeiro como manifestação de apoio ao levan- te militar, observou que “a única nota triste foi a participação obviamente limitada das classes baixas”, ou seja, a ausência de trabalhadores. Com efeito, o golpe de Estado no Brasil, instiga- do e sustentado pela comunidade dos homens de negócios e pelos proprietários de terras, consti- tuiu nitidamente um episódio de luta de classes, a refletir o aguçamento tanto no nível nacional quanto internacional dos antagonismos sociais e políticos que atingiram, a partir da Revolução Cubana, uma gravidade inaudita na América La- tina [...]. Assim, embora o presidente Kennedy adotas- se [...] a diretriz de não reconhecer governos que não obedecessem às normas do regime democrá- tico-representativo, sua administração foi a que mais incentivou as Forças Armadas [...] a par- ticipar da política interna de seus respectivos países mediante “ações cívicas” e contra in- surreição, inaugurando um ciclo de golpes de Estado no Cone Sul. E o presidente [Lindon] Johnson, sem vacilações, deu-lhe continuação. BANDEIRA L. A. Moniz. O golpe militar de 64 como fenômeno de política internacional. In: TOLEDO, Caio Navarro de (org.). 1964: visões críticas do golpe – democracia e reforma do populismo. Campinas: Editora da Unicamp, 1997. p. 95-96. 1. Com base na leitura do texto, reflita: a) O que é possível dizer a respeito da opinião de diferentes grupos sociais da população em relação ao governo de João Goulart? b) Identifique a contradição apresentada no texto sobre a postura internacional dos Es- tados Unidos em relação aos governos sul- -americanos. 2. Faça uma pesquisa, na internet ou em uma bi- blioteca, sobre a participação dos Estados Uni- dos em regimes ditatoriais na América Latina e responda: a) Quais eram os interesses dos Estados Uni- dos em promover as ditaduras na América do Sul? b) Quais foram as formas de participação esta- dunidense nesses golpes militares? Reflex›es NÃO ESCREVA NO LIVROProfessor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. Os tanques do exército brasileiro em frente ao Palácio Laranjeiras, no Rio de Janeiro (RJ), em 1o de abril de 1964, durante o golpe militar quelevou à derrubada do presidente João Goulart por membros das Forças Armadas brasileiras e a um regime militar liderado por Humberto Castelo Branco (1897-1967). A rq u iv o /A F P 93 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 93V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 93 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 Os anos de chumbo Entre 1964 e 1969, uma série de Atos Institucionais (AI) foi baixada pela ditadura para controlar e reprimir a vida política no país. Os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica baixaram o AI-1, em 9 de abril de 1964, cujo objetivo era reforçar o Poder Executivo e diminuir as possibilidades de atuação do Congresso. Em 17 de outubro de 1965, o AI-2 instituiu a eleição indireta para presidente da República e o vice-presiden- te, que passariam a ser escolhidos pela maioria absoluta do Congresso Nacional. O AI-3, em fevereiro de 1966, estabeleceu o mesmo para o nível dos estados, cujos governadores passariam a ser eleitos pelas respectivas Assembleias. Em outubro do mesmo ano, o Congresso Nacional foi fechado por um mês, após vários deputa- dos terem sido cassados. Nessa conjuntura, foi editado o AI-4, com o objetivo de reconvocar o Congresso Na- cional extraordinariamente, apenas para que os depu- tados fossem obrigados a aprovar a nova Constituição, instaurada em 1967. Nesse cenário político, a oposição começou a se reorganizar. Formou-se uma articulação entre líderes. O movimento estudantil foi às ruas protestar, junto aos setores progressistas da Igreja católica e da classe média. Em 25 de junho, no Rio de Janeiro (RJ), ocorreu a passeata dos 100 mil contra a ditadura. Os traba- lhadores operários também se organizaram em pro- testos, por meio de duas fortes greves nas cidades de Contagem (MG) e Osasco (SP). [...] a greve de Contagem começou quando 1 700 operários da Siderúrgica Belgo-Mineira paralisaram o trabalho e tomaram seus diretores como reféns. Em uma semana, havia 15 mil trabalhadores parados, exigindo um aumento salarial de 25%. Após cerca de dez dias, um acordo pôs fim ao movimento. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2003. p. 478. Em Osasco, no mês de julho, a metalúrgica Cobras- ma foi ocupada pelos trabalhadores, que foram em se- guida reprimidos por forte aparato militar e tiveram seu sindicato fechado pela ditadura. Ameaçada por esse clima de indignação e protesto, a ditadura revidou. O ditador Costa e Silva (1899-1969) baixou o AI-5, o mais repressivo dos Atos Institucionais. O ato conferia poder ao presidente da República para intervir em estados e municípios e suspender direitos políticos, mas seu principal objetivo era suspender o habeas corpus, ou seja, suspender o direito do cidadão de ter sua liberdade assegurada contra abusos de po- der e prisões arbitrárias, por exemplo. A partir do AI-5, nenhum cidadão brasileiro estava mais protegido em suas liberdades individuais e garantias constitucionais. O AI-5 foi um golpe dentro do Golpe e durou até 1979. O fim da ditadura brasileira O governo do general Ernesto Geisel (1907-1996), de março de 1974 a 1979, iniciou um processo lento em di- reção à redemocratização, concluído apenas 11 anos de- pois, com o fim da ditadura militar e a posse do primeiro presidente civil em mais de 20 anos, José Sarney (1930-). A liberalização da ditadura seguiu, a partir de então, um processo difícil, com vários avanços e recuos ins- titucionais. A ditadura permitiu eleições legislativas já em 1974, em que a oposição, representada pelo MDB, Fonte: elaborado com base em SALOMÃO, Lucas. Comissão Nacional da Verdade responsabiliza 377 por crimes durante a ditadura. Brasília: G1, 10 dez. 2014. Disponível em: http://g1.globo.com/ politica/noticia/2014/12/ comissao-da-verdade- responsabiliza-377-por-crimes- durante-ditadura.html. Acesso em: 13 ago. 2020. Brasil: Comissão Nacional da Verdade: conclusões sobre a repressão e tortura durante a ditadura – 1964-1970 B an co d e im ag e n s/ A rq u iv o d a e d it o ra Conclusões sobre a repressão e tortura durante a ditadura Mortos e desaparecidos na ditadura 434 210 desaparecidos 191 mortos 33 corpos localizados Militares que a ditadura perseguiu 6 591 3 340 da Aeronáutica 2 214 da Marinha 800 do Exército 237 das polícias estaduais 94 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 94V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 94 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 1. Leia os textos e analise o gráfico a seguir. Depois, desenvolva as atividades propostas. Explorando Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta atividade. NÃO ESCREVA NO LIVRO “Milagre econômico” e desigualdade social: o contraste da ditadura Apesar do crescimento acelerado na economia brasileira durante a ditadura militar, houve aumento na concentração de renda do país. [...] Um dos argumentos utilizados por defen- sores do regime militar é o “milagre econômico”, período conhecido pelo grande avanço da econo- mia do Brasil que, entre 1968 e 1973, cresceu, em média, mais de 10% ao ano. Só em 1973, o produ- to Interno Bruto (PIB) do Brasil avançou 14%, o maior ritmo já alcançado. Entretanto, o que o PIB não é capaz de mostrar é que a distribuição de renda ao longo desses seis anos ocorreu de forma desigual. [...] “Para que o reajuste do salário mínimo fosse alterado, os militares limitaram o direito à greve e lideranças sindicais passaram a ser per- seguidas”, explicou Pedro Paulo Bastos, professor e pesquisador da Unicamp. “Entre 1964 e 1967, o salário mínimo caiu em torno de 35%.” ROVAROTO, Isabela. “Milagre econômico” e desigualdade social: o contraste da ditadura. Exame, 31 mar. 2019. Disponível em: https://exame.com/economia/milagre-economico-e- desigualdade-social-o-contraste-da-ditadura/ #:~:text=Apesar%20do%20crescimento%20acelerado%20 na,concentra%C3%A7%C3%A3o%20de%20renda%20do%20 pa%C3%ADs&text=S%C3%B3%20em%201973%2C%20o%20 Produto,o%20maior%20ritmo%20j%C3%A1%20al%C3%A7ando. Acesso em: 21 jul. 2020. Os militares e a corrupção Outra percepção recorrente é a de que no período da ditadura não havia corrupção. “Vários estudos já comprovaram que existia corrupção e era mais fácil que esses malfeitos ocorressem porque não havia investiga- ção” [...] a relação promíscua entre interesses privados e órgãos públicos foi aprimorada nesse período. Pedreira Campos é autor do livro Estranhas cate- drais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil- -militar, 1964-1988, que analisa mais profundamen- te essa relação. “Houve vários casos de corrupção na ditadura, principalmente no período da abertura conseguiu resultados significativos, com cerca de 59% de votos válidos para o Senado e 48% para a Câmara Federal. A partir de 1978, na região do ABC paulista, uma série de greves de trabalhadores metalúrgicos começaram a acontecer. As manifestações ocorreram em protesto con- tra as perdas salariais causadas pela política econômica da ditadura e pela reivindicação da liberdade democrática. [...] Os metalúrgicos estiveram à frente dos mo- vimentos, que abrangeram também outros setores. Em 1979, cerca de 3,2 milhões de trabalhadores en- traram em greve no país. Houve 27 paralisações de metalúrgicos que abrangeram 958 mil operários; ao mesmo tempo, ocorreram vinte greves de professores que reuniram 766 mil assalariados. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2003. p. 499-500. Durante o governo do general Figueiredo (1979- -1985), o processo de abertura continuou, dado o grau de pressão e organização dos setores populares, de trabalhadores e de parte da classe média intelectual. Em 1979, foi aprovada a Lei da Anistia, que permitiu aos exilados políticos a volta ao país, porém, ao mes- mo tempo, também anulou e perdoou os crimes co- metidos pela ditadura (como a prática sistemática da tortura e de assassinatos).Em 1984, o movimento das Diretas J‡! não conquistou as eleições diretas para pre- sidência e o Congresso terminou por escolher a chapa de dois civis para assumir a presidência e a vice-presi- dência a partir de março de 1985. Foram eles: Tancredo Neves (1910-1985) e José Sarney, respectivamente. Fonte: elaborado com base em IPEA. Salário mínimo real. Ipeadata, ago. 2020. Disponível em: goo.gl/96BZwC. Acesso em: 18 ago. 2020. Sa lá ri o m ín im o r ea l ( R $ ) Anos 1958 1963 1968 1973 1978 1983 1988 1993 1998 2003 2008 2013 2018 400 600 800 1 000 1 200 Golpe Militar (1964) Plano Real (1994) Fim da Ditadura (1985) 1o Governo Lula (2003) Brasil: sal‡rio m’nimo real Ð 1958-2018 B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra 95 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 95V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 95 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 TEMA 2 Os professores de História e de Sociologia são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. Fascismo e desigualdade social Não é possível falar de fascismo sem fazer refe- rência aos regimes políticos fascista italiano e nazista alemão ocorridos na primeira metade do século XX. Na época, a Itália, a Alemanha e o Japão formaram um trio ideológico que, por causa de seus planos ex- pansionistas, deram início à Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Aqui, vamos abordar as características do fascismo italiano. No Tema 3, falaremos sobre o totalitarismo alemão. Caracter’sticas do fascismo O fascismo pode ser considerado um fenômeno internacional. Algumas expli- cações sobre as origens do fascismo se relacionam com momentos agudos de crise do capitalismo e com a necessidade que os capitalistas tiveram de reforçar o seu domínio econômico sobre a sociedade. Para que isso ocorresse de modo efetivo e sem contestações, propagavam-se movimentos e ideologias que prezavam pelo enfraquecimento – ou até mesmo a extinção – das instituições democráticas, sob a justificativa de defender valores tradicionais e conservadores, como: • família – apenas em seu modelo patriarcal, ou seja, dominada exclusivamen- te pela figura masculina; • Deus – apenas por meio de interpretações tendenciosas e autoritárias dos textos religiosos; • pátria – apenas como um grupo nacional homogêneo onde todos devem pensar da mesma forma. Nesse desfile, Benito Mussolini (1883-1945) está sentado à direita de Adolf Hitler (1889-1945). O encontro ocorreu em 18 de junho de 1940, em Munique, na Alemanha. O regime nazista estava no apogeu, tendo conquistado diversas vitórias em batalhas na Europa ocidental. envolvendo agentes do estado que foram acusados de se apropriar de recursos públicos”. A ausência de notícias sobre corrupção no período tem também outra explicação. O Brasil viveu sob um regime de censura que foi estabelecida nos meios de comunicação que estavam orientados a publicar notí- cias que fossem favoráveis ao governo. E é por conta dessa propensão a maquiar a realidade que notícias denunciando escândalos de corrupção não estampa- vam a manchete dos jornais. “Um cenário como esse é ideal para a prática da corrupção, os indícios in- dicam que havia mais corrupção naquele período”, completa Pedreira Campos. SANZ, Beatriz; MENDONÇA, Heloísa. O lado obscuro do “milagre econômico” da ditadura: o boom da desigualdade. São Paulo: El Pa’s, 28 nov. 2017. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/29/ economia/1506721812_344807.html. Acesso em: 21 jul. 2020. a) Elabore um comentário explicando de que forma o primeiro texto se relaciona com o gráfico. b) Com base na leitura dos textos e na observação do gráfico, que relação é possível estabelecer entre a ditadura, a desigualdade social e a cor- rupção? c) Reúna-se em grupo para pesquisar, na internet ou em uma biblioteca, sobre a desigualdade social e a corrupção nos regimes militares na América do Sul. Depois, cada grupo deve apre- sentar o resultado da pesquisa para a turma e, com a ajuda do professor, realizar um debate sobre os resultados. E v e re tt C o lle c ti o n /S h u tt e rs to ck 96 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 96V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 96 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 Esses movimentos exploram e potencializam, também, os preconceitos, o ma- chismo, o racismo e a homofobia, arraigados e estimulados na mentalidade de parte da população, mas se voltam principalmente para os setores pequeno-burgueses, ou de classe média, que se veem como as principais vítimas das crises econômicas e sociais. Ou seja, para os grupos mais ricos da sociedade, é útil fomentar movimen- tos e ideologias conservadoras e antidemocráticas, para que seu controle econômi- co sobre a população seja mantido e reforçado em momentos de crise. De modo geral, o fascismo defende a monopolização da representação política centrada no culto e na idealização do chefe, na exaltação da nacionalidade, no despre- zo pelas liberdades individuais e na oposição frontal ao socialismo e ao comunismo. Uma vez no poder, o chefe fascista mobiliza as massas em organizações total- mente favoráveis ao regime, ataca e aniquila as oposições usando a violência e o terror, persegue os meios de comunicação que tentam ser independentes e faz uma intensa propaganda ideológica do próprio governo difundindo mentiras em massa e controlando a educação e as informações que podem ou não ser divulgadas. Fascismo italiano Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Itália atravessava forte crise eco- nômica, social e política. O desemprego aumentava nas cidades e a miséria crescia nas áreas rurais. Essa situação gerava constantes greves e levantes de trabalhadores operários, além de ocupação de terras pelos camponeses. Neste contexto, os grupos políticos de esquerda (socialistas, comunistas e anar- quistas) ganhavam mais expressão. Para combatê-los, surgiram os grupos paramili- tares de direita, comandados por militares que haviam servido na Primeira Guerra Mundial. Esses grupos – entre os quais os chamados camisas-negras – eram for- mados por jovens das elites e da classe média. Benito Mussolini (1883-1945) se tornou o chefe principal desses grupos cujo objetivo era reprimir violentamente os protestos da população mais pobre e impedir o crescimento dos partidos políticos que a representava. Em 1922, os grupos fascistas realizaram a chamada “marcha sobre Roma”, pres- sionando o rei italiano Vitor Emanuel III (1869-1947) a nomear Mussolini como parte do governo. Após uma reforma eleitoral que ajudou os interesses do Partido Nacional Fascista e de uma eleição suspeita em 1924, os fascistas conquistaram dois terços dos lugares no Parlamento e iniciaram seu projeto dita- torial: toda forma de oposição ao governo foi proibida e os líderes oposicionistas foram mor- tos ou presos. Assim, Mussolini governou a Itá- lia durante mais de 20 anos (1922-1943) e con- duziu o país (que ainda sofria as consequên- cias da Primeira Guerra Mundial) para mais uma guerra de destruição nacional. Mussolini posa para a revista Signal, publicada pelos nazistas, em 1940. Gramsci em Moscou, Rússia, em meados de 1930. Junto com amigos intelectuais e militantes, fundou, em 1919, a revista L’Ordine Nuovo [A Nova Ordem], que tratava da cultura, das lutas e dos problemas dos trabalhadores italianos, além de criticar duramente o fascismo. Antonio Gramsci (1891- 1937) foi jornalista, político e filósofo italiano. Mili- tante do Partido Socia- lista, em 1921 foi um dos fundadores do Partido Comunista da Itália, mais tarde Partido Comunis- ta Italiano (PCI). Entre os anos de 1919 e 1920, perío- do em que os operários italianos ocuparam as fá- bricas em protesto contra a crise social provocada pelo capitalismo do pós- -guerra na Itália,Gramsci organizou cursos e deu aulas para os trabalhado- res. Em 1924, ele foi eleito deputado pelo PCI. Em 1926, preso pelo regime fascista de Benito Mus- solini, foi condenado a 20 anos de prisão por um tribunal especial fascista. Enquanto esteve preso, ele escreveu sua principal obra, Cadernos do cárcere, que contém uma das mais profundas teorias políticas do século XX. Com gra- ves problemas de saúde, Gramsci morreu em abril de 1937, quando se encon- trava sob liberdade condi- cional vigiada. Perfil C u lt u re C lu b /G e tt y I m a g e s L a s k i D if fu s io n /G e tt y I m a g e s 97 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 97V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 97 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 Fascismo e desigualdade No âmbito de uma crise econômica profunda e de longa duração, a desigualda- de social se acentua. Deste cenário, resulta a radicalização dos movimentos popula- res da classe trabalhadora e, em contrapartida, o desenvolvimento de movimentos políticos de direita, como as Tropas de Choque do nazismo, por exemplo, que re- crutaram, entre 1930 e 1932, um exército de 300 mil homens entre os desemprega- dos alemães. Na Itália, a crise econômica e social provocada pela guerra criou condições favoráveis ao fascismo que surgia, pela primeira vez, enquanto movimento organi- zado. Mussolini, em 1914, fundou o jornal II Popolo d’Italia, que viria a ser o principal órgão de comunicação fascista e uma das principais organizações defensoras da participação da Itália na Primeira Guerra, que durou de 1914 a 1918. Em 1915, a Itália entrara ao lado de França, Inglaterra e Rússia contra a Alemanha e o Império Austro-Húngaro. O jornal e o movimento de Mussolini foram financiados por grandes empresá- rios italianos, como o Giovanni Agnelli, dono da empresa Fiat na época – durante a Primeira Guerra, a empresa multiplicou seu capital em dez vezes. Empresas siderúrgicas e químicas também ampliaram seus capitais, uma vez que suas produções se direcionaram à guerra. Em razão dessa concentração do mercado em gran- des empresas, as pequenas faliram, seus donos empo- breceram e, consequentemente, seus empregados fo- ram demitidos. A inflação aumentou e a moeda desva- lorizou criticamente: entre 1914 e 1920, a perdeu 80% de seu valor. A inflação e o desemprego impactaram a vida dos trabalhadores e da classe média. Com o aumento da desigualdade social, acentuou-se o descontentamento e a insegurança da população. Após 1918, Mussolini começou a reunir os ex-sol- dados desempregados no movimento fascista, sob o pretexto de que os grandes inimigos internos da Itália eram a democracia e o socialismo. A crise e a desigual- dade social, provocadas pela guerra e pela concentra- ção da riqueza italiana nas mãos dos grandes capitalis- tas do país, criaram condições para que o movimento fascista crescesse e recebesse o apoio das diferentes camadas da população. Em 1922, havia apoio de ban- queiros, industriais, comerciantes, ex-soldados, de ope- rários desempregados e da classe média empobrecida. No final de 1922, Mussolini chegou ao poder liderando o movimento fascista, que apresentava duas características principais: sua base de militantes e simpati- zantes era, predominantemente, de pessoas de classe média; e seu suporte finan- ceiro e estrutural provinha dos mais ricos empresários italianos. Assim, explorando a profunda desigualdade causada pela crise econômica do pós-Primeira Guerra, o movimento fascista conseguiu se fortalecer, ganhando o apoio dos grandes capita- listas, principalmente para reprimir a organização e os protestos dos trabalhadores, chegando ao governo da Itália. Capa de caderno de exercício escolar italiano, de 1941. O material didático ilustra Mussolini, ao fundo, e meninos marchando com rifles. D e A g o s ti n i/ G e tt y I m a g e s 98 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 98V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 98 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 1. Leia os textos a seguir e procure debater o conteúdo com os colegas antes de responder às questões propostas. Sobre a teoria do fascismo [...] O movimento fascista em geral surge em meios pequeno-burgueses, do lum- pemproletariado e dos setores da oligarquia fundiária. [...] O fascismo somente se converte em uma força capaz de chegar ao poder e nele permanecer quando atrai o interesse e o apoio do grande capital. [...] O movimento fascista pode cumprir o papel de regenerador do capitalismo porque expressa exatamente os temores, os desejos, as ambições e os valores pequeno-burgueses [...]. Esses valores [...] permitem justificar a repressão ao comunismo e à revolução [...]. O Estado fascista, por sua vez, é o resultado da fusão deste movimento pequeno- -burguês com os grandes capitalistas. [...] Além disso, o fascismo favorece de maneira especial os monopólios, ao estimular todos os fatores responsáveis pela concentração econômica e centralização financeira, e ao subordinar a classe trabalhadora a condi- ções negativas de negociação econômica que facilitam a superexploração da força de trabalho e, consequentemente, a realização de altas taxas de lucro que se revertem em favor do grande capital, do monopólio, e do processo de concentração, como um todo. SANTOS, Theotonio dos. Socialismo ou fascismo: o novo caráter da dependência e o dilema latino-americano. Florianópolis: Insular, 2018. p. 86-90. A economia política do fascismo O fascismo [...] tende a vir à tona em conjunturas econômicas difíceis (como a brasileira atualmente [...]) de crise (desemprego, precarização do trabalho, queda da renda e aumento da pobreza) que penaliza a maioria da sociedade, especial- mente os grupos e camadas que [...] mudam para pior o seu status social. É prin- cipalmente nessa parte da população, atingida pela crise de modo particular [...] que o fascismo pode proliferar e recrutar seus apoiadores. [...] O fascismo apelará a esse grupo de “perdedores” frustrados com um con- junto de ideias e sentimentos difusos e confusos, como explicação para a situação desfavorável em que se encontram – ignorando e obscurecendo as razões e contra- dições mais profundas [...] que levaram à crise. [...] o fascismo traz um apelo fortemente emocional contra o “outro”: imigran- tes, minorias étnicas (como ciganos), judeus, comunistas, homossexuais, negros, nordestinos no caso do Brasil, mulheres independentes e/ou feministas (misogi- nia), vagabundos e marginais de todo tipo, moradores de rua, sem teto, sem-terra etc. Tudo misturado, o “outro” é o responsável (culpado) direto, ou indireto, pela situação desfavorável vivida pelo indivíduo, o perigo a ser combatido – devendo ser negado liminarmente e, se possível, ser eliminado simbólica e/ou fisicamente. [...] E, para coroar, apresenta soluções simplórias (e perigosas) para problemas complexos[...]. Exemplo: propor que a população adquira armas, como resposta à insegurança e criminalidade. FILGUEIRAS, Luiz. A Economia Política do fascismo. Le Monde Diplomatique Brasil, 14 ago. 2018. Disponível em: https://diplomatique.org.br/a-economia-politica-do-fascismo. Acesso em: 21 jul. 2020. a) Quais são as semelhanças e as diferenças em relação aos aspectos do fascismo citados nos dois textos? b) Você identifica discursos de cunho fascista no seu cotidiano? Discuta esse as- sunto com os colegas, dando exemplos e sugerindo soluções que poderiam ser adotadas para combater ideias fascistas. Explorando Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta atividade. NÃO ESCREVA NO LIVRO lumpemproletariado: conceito marxista que designa grupos de pessoas que, em condições de crise social e sem consciência de classe, tornam-se suscetíveis às ideologias reacionárias. oligarquia: governo exercido por um pequeno número de pessoas que fazem parte do mesmo partido político, classe, família, grupo ou corporação.pequeno-burguês: classe média. difuso: neste contexto, de contornos imprecisos, sem limites precisos. Dica O livro Introdução ao fascismo debate, com linguagem acessível, as variações do conceito de fascismo. Aborda sua definição relativa ao contexto histórico de seu surgimento, às formas como foi inter- pretado à época, e tam- bém debate a situação atual das controvérsias em torno do fascismo. KONDER, Leandro. In- trodução ao fascismo. São Paulo: Expressão Po- pular, 2009. 99 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 99V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 99 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 TEMA 3 Os professores de História e de Sociologia são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. O que é o totalitarismo? O totalitarismo é um tipo de ditadura que surgiu e se desenvolveu no período entre as duas guerras mundiais (1918-1939). Há distintas definições conceituais do totalitarismo. De modo geral, é possível dizer que se trata de uma ditadura intensa- mente ideológica, combinada com a perseguição a opositores (ou suspeitos) pela polícia política. Por meio de uma prática de terror e intimidação, o totalitarismo também zela pela manutenção do discurso e pensamento “correto”, para validar e justificar seus atos. O regime totalitário destrói as instituições políticas, instala o partido único e dissemina a propaganda oficial pró-regime. Em uma perspectiva mais ampla, historicamente o totalitarismo se refere aos seguintes regimes: • Fascismo – ditadura de Benito Mussolini na Itália, entre 1922-1943. • Stalinismo – ditadura de Josef Stalin (1878-1953) na União Soviética, entre 1924-1953. • Nazismo – ditadura de Adolf Hitler na Alemanha, entre 1933-1945. Em regimes totalitários, o líder governante concentra em sua pessoa as leis e o próprio Estado. Trata-se de líder único, partido único, pensamento único. Entre os historiadores não há consenso de que o fascismo italiano e o stalinismo soviético se enquadram nessa definição. A maioria concorda, entretanto, que o caso contem- porâneo mais completo de totalitarismo ocorreu no nazismo alemão. Caracter’sticas do totalitarismo O totalitarismo almeja controlar a vida da população em todas as dimensões. Seja no aspecto privado, seja no aspecto público, o Estado possui poder total para decidir não apenas o que a população não pode fazer, mas também o que ela é obrigada a fazer em nome do regime. Isso significa que, sob o totalitarismo, não bas- ta ficar calado, é necessário ser declaradamente a favor do regime. Isso implica fazer parte, obrigatoriamente, do partido governante, que é o único partido permitido. O Estado, o partido e o ditador se fundem em uma única entidade. Todo o poder se concentra na figura do ditador e se constrói um culto quase religioso à sua pes- soa. Ele adquire as características de um mito vivo, sua vontade particular se torna lei e prega o nacionalismo exacerbado e o “patriotismo” como únicas formas de superar os problemas da nação. O líder totalitário usa intensamente a propaganda como forma de conso- lidar a ideologia oficial. Toda a mídia é controlada e proibida de veicular o que não for do interesse do Estado. O cinema e as artes não são apenas censurados, mas obrigados a produzir criações que façam a propaganda ofi- cial. As escolas são proibidas de ensinar a pensar criticamente. Um pensamen- to único, aquele da ideologia da dita- dura, é o que deve ser ensinado. A diretora Leni Riefenstahl filmou o Congresso do Partido Nazista em Nuremberg para seu filme O triunfo da vontade (1935). O filme é conhecido como uma das maiores obras de propaganda ideológica da história e se valeu de técnicas cinematográficas de teor emocional para glorificar o regime. Alemanha, cerca de 1935. R o g e r V io lle t/ G e tt y I m a g e s 100 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 100V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 100 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 Qualquer forma de oposição não apenas é proibida, mas perseguida e aniquilada. Grupos específicos da população são falsamente apontados e denunciados como “inimigos da pátria” em operação de propaganda do governo para mani- pular e enganar a opinião pública. No caso do nazismo, por exemplo, os “inimigos” escolhidos foram os judeus, comunis- tas, ciganos, homossexuais e outras minorias. Um dos principais pilares do totalitarismo é o terror policial. Passa-se a impressão de que todos estão constantemente sob vigilância. Qualquer um pode ser denunciado ou considerado como opositor, ou “inimigo da pátria”, e ser eliminado. Provas não são necessárias, visto que a própria escolha do “inimigo” é uma invenção do poder totali- tário. Normalmente as polícias secretas são o principal agente desse tipo de terror. Nazismo: contexto histórico Após o fim da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha considerou injustas e hu- milhantes as imposições do Tratado de Versalhes (1919). Mesmo com a econo- mia destruída, o país foi desmilitarizado e condenado a pagar pesadas indenizações de guerra para França e Inglaterra. A crise econômica provocou na Alemanha uma agitação popular e operária que se desdobrou em uma revolução socialista, a chamada Revolução Alemã (1918-1923). Mesmo sendo derrotada pela polícia e pelo exército, essa revolução provocou fortes re- ceios nas classes média e alta, pois pouco antes, a revolução socialista havia sido vitoriosa na Rússia e isso colocava à prova a sobrevivência do capitalismo na Alemanha. Em 1929, a forte recessão mundial após a quebra da bolsa de Nova York apro- fundou a crise europeia e, em um cenário de enfraquecimento do movimento ope- rário e socialista, houve o crescimento de propostas autoritárias em vários países do mundo. Principalmente na Europa, ideologias desse tipo se espalharam com a consolidação do regime fascista na Itália, em 1922. Nesse contexto, o Partido Nazista e seu principal membro (e, mais tarde, líder), Adolf Hitler, exploraram o ressentimento causado na população alemã pela derrota na guerra e a crise econômica. Hitler conseguiu aumentar sua popularidade usan- do forte retórica patriótica e nacionalista. Ele tinha também a seu favor a ação das temidas Schutzstaffel (“Tropas de Proteção”, em português) – conhecidas pela sigla SS –, que perseguiam e procuravam eliminar pessoas não conformistas de seu ideal de sociedade alemã e as minorias étnicas. Ascensão do nazismo ao poder Atraindo a maioria da população alemã para um ideal supostamente patriótico, mas fundamentalmente autoritário, discriminatório, preconceituoso e violento, Hitler chegou ao poder em 1933, após o Partido Nazista receber grande votação e se tornar maioria no Parlamento, momento em que o presidente Hindenburg (1847-1934) sofreu pressões para nomear Hitler como chanceler (chefe de governo). Fortemente apoiado pelas classes ricas da Alemanha, Hitler promoveu o militarismo e a agressividade na po- lítica internacional. Em nome da “superioridade racial”, invadiu territórios de países vizi- nhos, como a Áustria (1938) e a Tchecoslováquia (1939). Após ter sido levada ao colapso na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e passar por uma fracassada experiência social e econômica na república de Weimar (1919-1933), devido ao nazismo, a Alemanha foi conduzida à completa destruição após perder a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Os professores de História e de Sociologia são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. Nazistas apontam armas para mulheres e crianças judias que se rendem, após o levante do Gueto de Varsóvia, em 1943, quando a população judaica confinada no gueto tentou resistir ao transporte forçado para os campos de concentração. U n iv e rs a l H is to ry A rc h iv e /U n iv e rs a l Im a g e s G ro u p /G e tt y I m a g e s Dica Publicado em 1949, o livro 1984 narra uma história deficção que descreve as caracterís- ticas de uma sociedade totalitária de um futuro imaginado. Trata-se de uma crítica aos regimes totalitários da época, mas que provou ser vi- sionária também em re- lação aos mecanismos de controle da socieda- de contemporânea. ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Capa do livro 1984, de George Orwell. R e p ro d u ç ã o /E d it o ra C o m p a n h ia D a s L e tr a s 101 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 101V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 101 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 Bomba atômica de plutônio Bomba atômica de hidrogênio Bomba atômica As pesquisas nucleares estadunidenses tiveram início durante a Segunda Guerra Mundial devido à suspeita de que a Alemanha estaria tentando fabricar uma bomba atômica. O presidente Franklin Roose- velt (1882-1945) criou então a comissão de estudos que daria origem ao Projeto Manhattan, do qual resultaram as bombas atômicas que destruíram, em 1945, as cidades japonesas Hiroshima e Nagasaki. [...] Ficou determinado assim que, em qualquer conflito futuro entre forças convencionais condu- zido como uma luta pela sobrevivência nacional, a capacidade industrial, mais que qualquer outro fator, seria decisiva. Que um conflito desse tipo não tenha se seguido ao resultado de 1945 é conse- Ampliando Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. O professor de História é indicado, prioritariamente, para o trabalho desse segmento, com a colabora- ção dos professores de Química e de Física. quência de um esforço paralelo feito pelos Estados Unidos durante os anos de sua realização industrial sem precedentes para produzir uma alternativa ao modo de guerrear na frente de batalha, a bomba atômica. Essa arma foi a culminação de um processo de desenvolvimento tecnológico iniciado quinhen- tos anos antes que buscou transferir a demanda da energia necessária para fins militares dos músculos do homem e do animal para uma força acumulada. A busca começara com a descoberta da pólvora. KEEGAN, John. Uma história da guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 280. O gigantesco potencial de destruição da bomba atômica se origina no núcleo do átomo. Os esque- mas a seguir ilustram esse processo. B a n c o d e i m a g e n s / A rq u iv o d a e d it o ra B a n c o d e i m a g e n s / A rq u iv o d a e d it o ra ogiva: é a parte afilada de um corpo cilíndrico que encapsula, no caso, armas nucleares. O poder provém da energia confinada em cada átomo de urânio que, ao ser liberada, é 100 milhões de vezes maior que a de uma reação química. O bombardeamento das partículas de urânio comprime o núcleo de plutônio, que implode, para depois explodir, liberando toda a energia da bomba. 1. A reação em cadeia quando um nêutron colide com o núcleo do átomo de urânio 235. 2. O átomo de urânio 235 passa a urânio 236, altamente instável. 3. O urânio 236 divide-se, liberando radiação de alta energia e mais nêutrons. 4. Estes nêutrons colidem com outros átomos de urânio 235 que liberam mais energia e mais nêutrons, causando um efeito de fissão. 1. Antes da explosão Em uma ogiva estão a carga explosiva, uma bomba atômica e isótopos de hidrogênio. 2. Detonação A explosão da carga desencadeia na reação nuclear. 3. Fissão A explosão detona a bomba e fornece o calor e a pressão necessários para a fissão. 4. Fusão Uma mistura de deutério e trítio se funde em uma reação termonuclear liberando energia. Fonte: elaborado com base em RAATZ, Luiz et. al. Da corrida nuclear à ameaça atômica 2.0. São Paulo. Estad‹o, 29 ago. 2019. Disponível em: https://www.estadao.com.br/infograficos/internacional,da-corrida-nuclear-a-ameaca-atomica-20,1027403. Acesso em: 18 ago. 2020. P e te r H e rm e s F u ri a n /S h u tt e rs to ck RDS-1 O poder provém da energia confinada em cada átomo de urânio que, ao de vezes maior que a de uma reação química. partículas de urânio comprime o O átomo de urânio 235 passa a , altamente instável. O urânio 236 divide-se, liberando radiação de alta energia e mais Estes nêutrons colidem com outros P e te r H e rm e s F u ri a n /S h u tt e rs to ck 102 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 102V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 102 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 1. O texto a seguir apresenta o filme Arquitetura da Destruição (1989), de Peter Cohen, assim como a relação que o nazismo estabeleceu com a Arte. Leia com atenção e, depois, responda ao que se pede. Arquitetura da Destruição Documentário desvenda a relação de Hitler e seus aliados com a arte Considerado um dos melhores estudos sobre o nazismo, o filme Arquitetura da Destruição lembra que chamar Adolf Hitler de artista medíocre não elimina os estragos causados por sua estratégia de conquista universal [...]. O documentário traça um panorama sobre a tra- jetória de Hitler e de alguns de seus mais próximos colaboradores com a arte. Muito antes de chegar ao poder, o líder nazista sonhou em tornar-se artista. Ele produziu várias gravuras que posteriormente foram utilizadas como modelo em obras arquitetô- nicas. A produção sueca de 1989 destaca ainda a im- portância da arte na propaganda, que por sua vez teve papel fundamental no desenvolvimento do na- zismo em toda a Alemanha. Numa época de grave crise, no período entre guerras, a arte moderna foi apresentada como de- generada, relacionada ao bolchevismo e aos judeus. Para os nazistas, as obras modernas distorciam o valor humano e, na verdade, representavam as de- formações genéticas existentes na sociedade. O regime, em oposição, defendia o ideal de be- leza como sinônimo de saúde e consequentemente com a eliminação de todas as doenças que pudes- sem deformar o “corpo” do povo. Era um discurso biológico condizente com as concepções estéticas de uma raça ariana. Nasce assim uma “medicina nazista” que valoriza o corpo, o belo e estava disposta a erradicar os males que pudessem afetar essa obra [...]. ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO: documentário desvenda a relação de Hitler e seus aliados com a arte. TV Brasil, 17 dez. 2015. Disponível em: https://tvbrasil.ebc.com.br/ciclos-de-cinema/episodio/ arquitetura-da-destruicao. Acesso em: 22 jul. 2020. a) Se for possível, assista ao documentário citado e faça uma pesquisa, na internet ou na biblioteca, sobre a propaganda nazista. Depois, com base na leitura do texto, na pesquisa e (se possível) no documentário, elabore um texto argumen- tativo abordando os seguintes itens: • Em qual contexto histórico nasceu o totalitaris- mo alemão? • Quais as características ideológicas dele? • Qual é a relação entre a arte e a propaganda nazista? • Qual era o principal argumento utilizado pelo nazismo para construir seu ideal de sociedade e por que esse tipo de argumento é muito pe- rigoso? 2. Como vimos no Tema 1 deste capítulo, embora não tenham sido regimes de tipo totalitário, as ditaduras militares na América do Sul possuíram traços comuns ao totalitarismo. Na ditadura bra- sileira, por exemplo, a propaganda e a publicidade também eram utilizadas para enaltecer o regime ditatorial, bem como para construir a ideia de um inimigo comum, associado a valores negativos e depreciativos. Refletindo sobre isso e consideran- do as particularidades históricas, analise o cartaz abaixo e responda às questões a seguir. a) O cartaz enfatiza a luta contra o comunismo. Por que ele era considerado um “inimigo do país”? b) Que diferenças você apontaria entre o papel da propaganda nazista e da propaganda utilizada durante o golpe de 1964 no Brasil? Explorando Professor, no Manual você encontra orientações sobre estas atividades. NÃO ESCREVA NO LIVRO Propaganda anticomunista utilizada no Brasil na época do golpe de 1964. R e p ro d u ç ã o /A rqu iv o d a e d it o ra 103 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 103V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 103 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 TEMA 4 Os professores de História, de Geogra�a e de Sociologia são indicados, prio- ritariamente, para o trabalho deste segmento. O neoliberalismo e a nova subjetividade O neoliberalismo é uma doutrina econômica que defende a privatização de empresas públicas e serviços estatais; o abandono de políticas públicas de bem-es- tar social (como saúde e educação públicas e gratuitas); a privatização de universi- dades públicas, instituindo o pagamento de mensalidades; e o fim de praticamente quase todos os direitos trabalhistas historicamente conquistados, como a carteira de trabalho assinada, o salário mínimo, o 13o salário, as férias remuneradas e as li- cenças maternidade e paternidade. Justificando essas medidas, os argumentos de seus teóricos e defensores são de que o Estado deve intervir o mínimo possível na economia, cortando seus próprios gastos com serviços públicos (comportando-se ele próprio como empresa, ou seja, como um Estado gerencial e enxuto) e isentando os empresários de encargos tra- balhistas e impostos. O pressuposto de que seus defensores partem é o de que uma sociedade com características neoliberais seria livre para produzir maior desenvolvimento e mais riqueza e isso, ao final, beneficiaria a todos. Além disso, a doutrina neoliberal defende a transferência da responsabilidade das principais decisões sobre os rumos da economia de um país para o mercado, distanciando as pessoas comuns da participação cidadã nas deliberações políticas. Um dos principais intelectuais que formularam essa doutrina foi Friedrich von Hayek (1899-1992). Na obra O caminho da servidão (1944), ele ataca o planejamen- to econômico estatal, a ação dos sindicatos e as organizações sociais. O primeiro país latino-americano a adotar o neoliberalismo como política eco- nômica foi o Chile, sob o governo do ditador Augusto Pinochet (1915-2006), res- ponsável pela morte do presidente eleito Salvador Allende (1908-1973) e governou o país desde o golpe militar, de 1973 até 1990. Entre 1975 e 1976, Pinochet ado- tou um tratamento de choque neoliberal na economia chilena, assessorado pelos Chicago Boys – grupo de jovens economistas ultraliberais e ex-alunos de Milton Friedman (1912-2006), um dos maiores defensores do liberalismo e professor na Uni- versidade de Chicago (Estados Unidos). Eles opunham-se a qualquer nacio- nalização ou regulação de atividades econômicas e prescreviam a privatiza- ção abrangente da economia e de ser- viços essenciais. Peter Winn (1942-) os descreve da seguinte forma: “Como a ditadura de Pinochet, os Chicago Boys eram agressivos, ideológicos e auto- confiantes, dispostos a impor remé- dios cruéis ao povo chileno ‘para seu próprio bem’”. WINN, Peter. A revolução chilena. São Paulo: Editora Unesp, 2010. p. 189. Charge de Iotti, 2009. Acervo do cartunista. Margaret Thatcher foi a primeira mulher a ocupar um cargo de primeira ministra na Europa. Fotografia de 1979. Margaret Thatcher (1925- -2013) foi primeira-minis tra do Reino Unido entre 1979 e 1990 e ficou conhecida como “a dama de ferro”, porque implementou du- ras medidas neoliberais em seu país (como várias privatizações) e impôs der rotas históricas às rei- vindicações do sindica- lismo britânico. Thatcher também conduziu a In- glaterra contra a Argenti- na na Guerra das Malvinas (abril-junho de 1982), que terminou com a rendição dos argentinos. Pe rfil B e tt m a n n A rc h iv e /G e tt y I m a g e s Io tt i/ A c e rv o d o c a rt u n is ta 104 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 104V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 104 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 Neoliberalismo e empreendedorismo Outro princípio bastante acionado do pensamento neoliberal é o do empreen- dedorismo ou do “indivíduo empreendedor”. Segundo tal princípio, a própria rela- ção empregado-empregador estaria ultrapassada, pois todos poderiam ser “empre- sários de si mesmos”, proprietários ou prestadores de algum serviço – nesse âmbito, o sucesso ou o fracasso econômico dependeria do esforço individual de cada um. Os professores de História e de Sociologia são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. Neoliberalismo do Chile tem grande apelo entre seres totalit‡rios Milton Friedman, da Universidade de Chica- go, mentor dos “Chicago boys”, que disseminam o neoliberalismo econômico nos países precários como o nosso, disse que uma economia livre só tem sentido em sociedades democráticas e livres. No entanto, esse neoliberalismo tem grande ape- lo entre os seres totalitários que transformam as reformas econômicas neoliberais em verdadeiros golpes de Estado de governantes ocultos que go- vernam sem mandato, os técnicos que implemen- tam as medidas que as efetivam [...]. O Chile é apresentado, na propaganda engano- sa do neoliberalismo, como país em que as duras medidas que o caracterizam acabam resultando em crescimento econômico e modernização em benefí- cio de todos. O protesto das ruas diz que não. [...]. Diferentes setores da sociedade são atingidos desigualmente pela economia e pela política eco- nômica. [...] Aqui no Brasil, no Chile e em todas as partes em que a sociedade se tornou cobaia do crescimentismo neoliberal, foi-o no lugar do desenvolvimento econômico e social. [...] A alquimia dos agentes e cúmplices do neoli- beralismo não se revela apenas nas informações estatísticas sobre as desigualdades [...] o IBGE anunciou que, em 2018, 1 milhão de pessoas havia caído abaixo do nível de pobreza, as que ganham no máximo R$ 9,30 por dia. Desde 2015, a cada ano, 1 milhão de pessoas têm sido transferidas para o estrato mais baixo da inferioridade social. [...] Em 2004, tendo que participar de um semi- nário da FAO em Santiago do Chile, fui designado [...] para fazer também uma visita a um projeto so- cial da Igreja Católica em Concepción. Ali, a indús- tria pesqueira e a indústria naval haviam sido du- ramente atingidas pela economia neoliberal da di- tadura militar. A pobreza estendera-se pela região. O programa social que visitei durante um dia inteiro era um programa de educação comple- mentar, alimentação e orientação de crianças no mais das vezes abandonadas [...]. Muitas delas “caíram” na prostituição infantil e se tornaram mantenedoras do que sobrara da família. Um dos casos que analisei em detalhe foi o de um me- nino de 12 anos, de nome Felipe. Seu principal amigo e colega de trabalho era seu cavalo, com o qual trabalhava diariamente na catação de ferro- -velho para sustentar, em primeiro lugar, seu pró- prio cavalo; em segundo lugar, sua avó; e, com o que sobrava, a si mesmo. A política econômica da prosperidade meramente visual da capital do país cancelara o futuro das crianças que visitei. [...]. MARTINS, José de Souza. Neoliberalismo do Chile tem grande apelo entre seres totalitários. Valor Econ™mico, 22 nov. 2019. Disponível em: https://valor.globo.com/eu-e/coluna/jose-de- souza-martins-neoliberalismo-do-chile-tem-grande-apelo-entre- seres-totalitarios.ghtml. Acesso em: 22 jul. 2020. 1. Identifique os principais argumentos desenvol- vidos pelo autor ao apresentar suas opiniões sobre o neoliberalismo. 2. Com base nos argumentos do autor e nos seus conhecimentos sobre o neoliberalismo, escreva uma breve análise sobre o grafite acima. Reflex›es NÃO ESCREVA NO LIVROProfessor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. Grafite do artista britânico Banksy, no Brooklyn, Nova York, Estados Unidos. 2018. Leia o texto a seguir sobre o neoliberalismo no Chile e analise a imagem com atenção. J o s h u a G e y e r/ A c e rv o d o f o tó g ra fo 105 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 105V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd105 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 A competitividade individualista entre as pessoas, que decor- re desse estímulo à fé no próprio “sucesso” a qualquer custo, tem construído novos tipos de relações prejudiciais entre as pessoas em sociedade. Além disso, tem contribuído para a disseminação dos chamados “empresários de si mesmos”, iludidos pela expec- tativa de consumo, alienados do meio ambiente natural e susce- tíveis a seitas que renovam constantemente suas ilusões, apesar de constantemente se depararem com uma sociedade assenta- da em profundas desigualdades e exclusão social. Como vimos, alguns intelectuais consideram o neoliberalismo como o único caminho para o crescimento econômico no século XXI. Para outros, como o cientista político Reginaldo Moraes, “a falência da utopia neoliberal é algo previsível, do ponto de vista lógi- co. E para milhões de seres humanos no planeta, já é algo dolorosa- mente constatado e vivenciado”. MORAES, Reginaldo. Neoliberalismo: de onde vem, para onde vai? São Paulo: Editora Senac, 2001. p. 137. A distorção do que é de fato ser um empreendedor tem maquiado o trabalho precário, no qual o trabalhador perde direitos básicos e garantias. Charge de Toni D’Agostinho de 2020. Leia os textos a seguir sobre as implicações da doutrina neoliberal na vida dos indivíduos. Em seguida, reúna-se com os colegas e responda às questões. Texto 1 Como o sucesso político do neoconservadorismo dificilmente pode ser atribuído às suas realizações econômicas globais (seus fortes resultados negativos em termos de desemprego, de crescimento sofrível [...]) vários comentadores têm atribuído sua ascensão a uma mudança geral das nor- mas e valores coletivos que tinham hegemonia, ao menos nas organiza- ções operárias e em outros movimentos sociais dos anos 50 e 60, para um individualismo muito mais competitivo como valor central numa cultura empreendimentista que penetrou em muitos aspectos da vida. HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 2017. p. 161. Texto 2 O neoliberalismo [...] estende a lógica do mercado muito além das fronteiras estritas do mercado, em especial produzindo uma subjetividade “contábil” pela criação de concorrência sistemática entre os indivíduos. [...]. Em outras pala- vras, a racionalidade neoliberal produz o sujeito de que necessita ordenando os meios de governá-lo para que ele se conduza realmente como uma entidade em competição e que, por isso, deve maximizar seus resultados, expondo-se a riscos e assumindo inteira responsabilidade por eventuais fracassos. “Empresa” é também o nome que se deve dar ao governo de si na era neoliberal. DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016. (Estado de sítio). p. 30 e 325. 1. Identifique o argumento central de cada uma das passagens e explique o que há em comum entre elas em relação à definição do neoliberalismo. 2. Com base no seu cotidiano, exemplifique situações em que o impacto do neoliberalismo sobre a vida das pessoas é perceptível. Reflex›es NÃO ESCREVA NO LIVROProfessor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. Dica O documentário Pri- vatizações: a distopia do capital trata das pri- vatizações na década de 1990 que chegam ao Brasil com a ascen- são do neoliberalismo mundial, principalmen- te durante os governos de Fernando Collor de Mello (1990-1992) e Fer- nando Henrique Cardo- so (1995-2003). Privatizações: a disto- pia do capital. Direção de Sílvio Tendler. Brasil: Caliban, 2014 (56 min). To n i/ A c e rv o d o c a rt u n is ta 106 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 106V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 106 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 Concentração da renda aumenta no país, aponta estudo do IBGE [...] Em 2017, o PIB brasileiro avançou 1,1%, mes- ma taxa de 2018, ou seja, andou de lado [...] Nesse período, o rendimento médio de 30% da população que ganha até R$ 951 – menos do que um salário mínimo, de R$ 998 –, [...] teve queda no rendimento médio mensal. Já a população mais rica, com ganho médio de R$ 27,7 mil ao mês, registrou aumento de 8,4%, sinal de aumento da concentração de renda. [...] Segundo o estudo [Pesquisa Nacional por Amos- tra de Domicílios Contínua (Pnad) – do IBGE], 72,4% da renda média domiciliar per capita dos trabalhadores brasileiros foi proveniente de alguma forma de trabalho em 2018 [...]. Já a participação de aposentadorias e pen- são é crescente, passando de 18,3% para 20,5% no mes- mo período. A fatia do bolsa família complementando a renda média mensal encolheu de 15,9%, em 2012, para 14,9%, em 2014, e para 13,7%, em 2018. “Se pen- sar que os programas so- ciais estão relacionados às famílias mais pobres, essa redução acaba refletindo na perda do rendimen- to familiar”, comentou a técnica [Adriana Be rin - guy, coordenadora de Tra- balho e Rendimento do IBGE]. PINHEIRO, Gabriel; HESSEL, Rosana. Concentração da renda aumenta no país, aponta estudo do IBGE. Correio Braziliense, 17 out. 2019. Disponível em: www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2019/10/17/ internas_economia,798352/concentracao-da-renda-aumenta-no-pais- aponta-estudo-do-ibge.shtml. Acesso em: 30 maio 2020. Número de brasileiros abaixo da linha da pobreza para de crescer, mas ainda soma 52 milhões [...] [O] Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísti- ca (IBGE) aponta que, no ano passado, 25,3% da popu- lação brasileira estava abaixo da linha da pobreza [...]. O valor equivale a aproximadamente R$ 420 mensais, ou cerca de 44% do salário mínimo vigente em 2018. [...] O IBGE destaca, nesse contingente, os empre- gados sem carteira de trabalho assinada (23,4%) e os trabalhadores domésticos (24,2%), como proporção de pessoas [com trabalho, mas] com rendimentos domi- ciliares per capita inferiores a US$ 5,50 PPC por dia. [...] O estudo aponta que no ano passado, dentre as crianças (0 a 14 anos), 42,3% estavam abaixo da li- nha considerada, enquanto para idosos (60 anos ou mais), esse percentual era de 7,5%. Já dentre pessoas de cor ou raça preta ou parda, o percentual era de 32,9%, ante 15,4% de pessoas de cor ou raça branca. ROSAS, Rafael; SARAIVA, Alessandra; SCHINCARIOL, Juliana. Número de brasileiros abaixo da linha da pobreza para de crescer, mas ainda soma 52 milhões. Valor Econ™mico, 6 nov. 2019. Disponível em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2019/11/06/numero-de- brasileiros-abaixo-da-linha-da-pobreza-para-de-crescer-mas-ainda- soma-52-milhoes.ghtml. Acesso em: 22 jul. 2020. a) Que relação se pode fazer entre programas sociais públicos e o fenômeno da concentração de renda? b) Quais são as pessoas que, embora trabalhando, não conseguem sair da linha da pobreza? Por que você acha que isso acontece? c) Compare os textos ao gráfico e localize na pirâ- mide de rendimentos o contingente de crianças abaixo da linha de pobreza. Por que você acha que isso acontece no Brasil? 1. Analise o gráfico, leia os textos e, depois, responda às questões propostas. Explorando Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta atividade. NÃO ESCREVA NO LIVRO renda per capita: Consiste na divisão da renda nacional – Produto Nacional Bruto (PNB) subtraído dos gastos de depreciação do capital e os impostos indiretos – pela sua população, o que dá uma “média” de renda por pessoa. Por vezes o PIB (Produto Interno Bruto) é usado no lugar do PNB. PPC: Paridade de Poder de Compra, indicador que permite comparar diferentes moedas, em geral, usando o dólar por base. Fonte: elaborado com base em CALEJON, Cesar. Concentração de renda e a desigualdade como escolha política: o cenário brasileiro nunca foi tão ruim. Jornal GGN, 22 out. 2019. Disponível em: https://jornalggn.com.br/artigos/concentracao-de-renda-e-a- desigualdade-como-escolha-politica-o-cenario-brasileiro-nunca-foi-tao-ruim-por-cesar-calejon/. Acesso em: 18 ago. 2020. Brasil: distribuição de renda e riqueza mensal − 2019 B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra A: 58 pessoas + R$ 660 bilhões B: 1 430 pessoas +R$ 5 milhões C: 14 300 pessoas + R$ 1 milhão D: 142 500 pessoas + R$ 188.925 E ou (Top 1%): 1 4 milhão pessoas + R$ 36.762 F ou (Top 10%): 14 milhões pessoas + R$ 7.425 G ou (MID 40%): 57 milhões pessoas + R$ 2.178 H ou (Bottom 50%): 71 milhões pessoas + R$ 1.122 I ou (Indigentes): 23 milhões pessoas R$ 0,00 107 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 107V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 107 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 Aprimorando o conhecimento NÃO ESCREVA NO LIVRO 1. (Fuvest-SP 2020) Documentos da Agência Central de Inteligência Americana (CIA) mostram que o Brasil quis liderar a Operação Condor e só não conseguiu porque enfren- tou resistência de outros países membros – Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia. [...] Os documen- tos da CIA fazem parte do Projeto de Desclassificação Argentina (The Dirty War, 1976-1983), do governo americano, e incluem mais de 40 mil páginas. Duas dezenas delas fazem menções ao Brasil [...]. Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo. Abril\2019. A respeito da Operação Condor, é correto afirmar: a) Ainda que tivesse um alvo comum de repressão política, ela não implicava o alinhamento auto- mático dos regimes ditatoriais de cada país. b) Ao encontrar resistência dos demais países que dela participavam, o Brasil passou a criticar pu- blicamente suas ações. c) Em vista da oposição norte-americana à iniciati- va, a cooperação entre os países membros não foi implantada. d) O governo ditatorial paraguaio assumiu a posi- ção de liderança no acordo firmado entre seus países fundadores. e) Limitou-se à troca de informações sobre os opositores políticos que buscaram exílio em cada um desses países. 2. (PUCRS-RS 2015) Analise as afirmativas sobre os totalitarismos nazista e fascista do período entre guerras, preenchendo os parênteses com F (falso) ou V (verdadeiro). ( ) Os movimentos totalitários combatiam o li- beralismo e o marxismo, contra os quais opu- nham o discurso nacionalista. ( ) Tanto o nazismo quanto o fascismo recebe- ram amplo apoio dos estratos mais pobres da população. ( ) Ao contrário do nazismo, o fascismo, uma vez no poder, não criou um mecanismo estatal especializado em propaganda. ( ) A questão racial foi mais enfatizada pelo dis- curso nazista do que pelo fascismo. ( )( )( )( ) ( )( )( )( ) ( )( )( )( ) ( )( )( )( ) ( ) O nazismo e o fascismo foram fenômenos políticos restritos à Alemanha e à Itália, não exercendo influência em outros países do Ocidente. O correto preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é: a) V – F – F – V – F b) V – V – F – V – F c) F – V – V – F – V d) F – F – F – V – V e) V – F – V – F – F 3. (UFRGS-RS 2019) Leia o trecho abaixo, sobre a his- tória do neoliberalismo. Não é novidade que, a partir do momento em que a neoliberalização foi violenta e repentinamente im- posta em partes do sul global, nas décadas de 1970 e 1980, seja por conquista imperial, golpes de Estado internos, exigência do Fundo Monetário Internacio- nal (FMI) ou alguma combinação destes, o trabalho foi amordaçado e o capital, posto à solta. [...] De um lado, as indústrias estatais são privatizadas, proprie- tários estrangeiros são atraídos, a retenção de lucros é assegurada; de outro, as greves são criminalizadas e os sindicatos, limitados, por vezes até declarados ilegais. ROWN, Wendy. Cidadania Sacrificial: neoliberalismo, capital humano e políticas de austeridade. Rio de Janeiro: Zazie Edições, 2018. p. 24. Considerando a história contemporânea, o texto aborda algumas práticas associadas à emergência de regi- mes neoliberais pelo globo, ao longo das últimas décadas. Assinale a alternativa que indica algumas dessas práticas. a) A estatização de empresas privadas, a extensão das redes de proteção social e o controle social dos lucros das grandes corporações. b) A ampliação dos direitos democráticos, a crítica às políticas de austeridade e a introdução de re- formas sociais em larga escala. c) A privatização de empresas públicas, a preca- rização das relações laborais e a introdução de políticas de austeridade em larga escala. d) A defesa do nacionalismo econômico, a quebra de grandes monopólios corporativos e o enfra- quecimento do sistema de seguridade social. e) A criminalização da superexploração do traba- lho, a ampliação do setor de serviços e a demo- cratização das rendas nacionais. ( )( )( )( ) Professor, no Manual você encontra orientações sobre estas atividades. 108 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 108V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 108 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 Reconhecendo formas autoritárias de governo Vimos neste capítulo como formas autoritárias de governo se apresentam na sociedade dos séculos XX e XXI. Além do funcionamento básico e dos tipos de opressões da ditadura militar, do fascismo, do totalita- rismo vivenciados a partir do século XX, você aprendeu também que o neoliberalismo é, na prática, uma políti- ca econômica autoritária que pode gerar consequências desastrosas sobre a vida social e privada dos indivíduos. Com o crescimento de movimentos de cunho fascis- ta e autoritário em todo o mundo nas últimas décadas, é importante que você aprenda a reconhecer os indícios que servem de alerta para possíveis retrocessos antide- mocráticos e se posicione criticamente diante de gover- nos e/ou grupos que promovam políticas e/ou ideias como a exclusão de minorias do debate público, o fim das instituições representativas do povo, o fim das polí- ticas públicas que visam diminuir a desigualdade social, e o confronto com os direitos garantidos pela constitui- ção e pelos os direitos humanos. Questão mobilizadora A questão mobilizadora deste projeto procura motivar a pesquisa para reconhe- cer e caracterizar, de forma precisa, governos autoritários atuais ou da história recente. Metodologia A metodologia deste projeto é o estudo de caso, que é uma técnica de pes- quisa utilizada para aprofundar e explorar certos acontecimentos, oferecendo novos subsídios para novas investigações. Nesta pesquisa, você desenvolverá um estudo descritivo com enfoque qua- litativo sobre as formas autoritárias de governos ao longo dos séculos XX e XXI que não foram apresentados no capítulo. Para que o estudo de caso seja realizado é necessário fazer um levantamento de informações sobre o tema por meio de pesquisa em fontes confiáveis na internet ou em bibliotecas. Quais são outros exemplos de governos autoritários nos séculos XX e XXI e como são suas características de autoritarismo? Essas características estão presentes em países democráticos? A tirinha, do personagem Armandinho, cita o artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e foi publicada em 10 de dezembro de 2014 por ocasião do Dia Internacional dos Direitos Humanos. Promulgada pela ONU em 1948, a declaração é uma conquista de todos. A rm a n d in h o , d e A le x a n d re B e ck /A c e rv o d o c a rt u n is ta 109 PARTE 2 IMERSÌO Este projeto pode ser desenvolvido em conjunto pelos professores de Filoso�a, de Geogra�a, de História e de Sociologia. V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 109V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 109 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 Etapas 1 Montar os grupos A turma deve se dividir em grupos de cinco pessoas e cada grupo deve escolher um exemplo histórico de regime autoritário para pesquisar. 2 Esboçar a pesquisa A pesquisa deve se dedicar a analisar um caso es- pecífico selecionado entre os exemplos históricos de governos autoritários ao longo dos séculos XX e XXI que não foram estudados nestecapítulo. O grupo deve levantar uma hipótese e formular questões, lembrando que, além do caráter descritivo, Produto final O produto final deste projeto é um seminário, ou seja, uma apresentação de cerca de quinze minutos para os colegas em sala de aula sobre um caso de governo autoritário (atual ou do passado recente) analisando se as características desse autoritarismo estão presentes em governos atuais considerados democráticos. Material necessário • computadores com programa de editor de texto e acesso à internet; • um projetor, se disponível, ou apenas a lousa ou outro material para a apresentação a critério do grupo. Leia o texto a seguir sobre o autoritarismo na América Latina e, depois, desenvolva as atividades propostas. Reflexões NÃO ESCREVA NO LIVROProfessor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. O fantasma do autoritarismo latino-americano A última onda de aparições do fantasma do au- toritarismo emergiu após a eleição de governos de esquerda na América Latina, no início dos anos 2000. Não, não me refiro ao comportamento su- postamente antidemocrático de líderes como Hugo Chávez na Venezuela, acusado de proto-ditador pela mídia conservadora e seus ouvintes bene- fi ciários (elites econômicas) ou iludidos (classe média conservadora). Refiro-me sim às recentes tentativas (algumas efetivas) de golpes contra presidentes reformistas ou revolucionários que têm adotado políticas de redistribuição de riqueza e maior assertividade no cenário internacional. Na Venezuela, Chávez foi removido tempora- riamente do poder em 2002, num golpe militar que contou com o apoio dos grandes grupos em- presariais (Fedecámaras) e midiáticos. [...] Ago- ra [2012], foi a vez do Paraguai. [...] Atrás do golpe, a disputa entre uma oligarquia agrária e movimentos camponeses pela principal riqueza do país: a terra. [...] para os grupos dominantes da América Latina (incluindo seus parceiros no exterior), a democracia é mera conveniência e artifício retó- rico. Quando o presidente eleito é de direita, os grupos dominantes defendem a democracia de fato e em princípio. Quando o presidente eleito é de esquerda, os grupos dominantes defendem a democracia em princípio, mas apoiam de fato os golpes de Estado. FILOMENO, Felipe Amin. O fantasma do autoritarismo latino-americano. Outras Palavras, 25 jun. 2012. Disponível em: https://outraspalavras.net/sem-categoria/o-fantasma-do- autoritarismo-latino-americano/. Acesso em: 22 jul. 2020. 1. De acordo com o texto, de que tipo de autori- tarismo o autor está falando? 2. O texto aponta uma importante razão para o golpe em um dos casos, que pode também ser aplicada para outros golpes de direita. Qual é? o estudo tem como finalidade levantar informações sobre as características das situações e dos eventos que serão pesquisados. Você aplicará o que aprendeu neste capítulo, ca- racterizando o autoritarismo, contudo, será preciso fazer também um levantamento bibliográfico mais amplo para a pesquisa. Além disso, é importante que nesta etapa o grupo tenha em mente que o estudo de caso deste projeto é de tipo único e representativo, isto é, o objeto dele se assemelha a outros casos ao considerarmos suas características. 3 Desenhar a pesquisa Nesta etapa, o grupo deve se guiar por questões que vão ajudar a definir o caminho da pesquisa. 110 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 110V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 110 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 Neste caso, você pode se guiar por perguntas iniciais básicas como: • O que define esse regime como autoritário? • Como esse regime autoritário surgiu? • Quais grupos o apoiaram? Por quais motivos? • Esse tipo de regime ainda persiste nesse país? 4 Preparar e coletar os dados Levante o máximo que puder de informações, in- cluindo fontes diversas, como documentos, artigos acadêmicos, livros, jornais, revistas, imagens, carica- turas, textos literários, músicas e outras que possam conter informações relevantes. 5 Organizar, analisar e comparar Agora é preciso sistematizar e compreender as infor- mações coletadas, lendo e resumindo as principais carac- terísticas autoritárias encontradas – esse resumo é essen- cial para a elaboração do seminário. Durante o processo, o grupo deve analisar e comparar as informações, con- siderando o que aprendeu sobre governos autoritários. 6 Preparar o seminário O seminário deve apresentar o governo autori- tário estudado, considerando aspectos como: quais eram os grupos sociais que o compunham (ou com- põem), a origem, as motivações, as justificativas e/ou “camuflagens” que esses grupos deram para o auto- ritarismo, etc. O seminário deve ser objetivo (se concentrar nos elementos essenciais) e claro (com argumentos e da- dos compreensíveis). É indispensável um ensaio, um “treino” anterior, para que cada membro do grupo acerte adequadamente todos os detalhes e fique res- ponsável por uma parte da apresentação. 7 Apresentar o seminário Antes da apresentação, é interessante escrever as informações básicas na lousa, preparar uma apresen- tação de slides, usar imagens no projetor (se houver) ou apresentar vídeos curtos sobre o tema. Não se es- queçam de tomar cuidado com a precisão das infor- mações: devem ser confiáveis e rigorosas do ponto de vista historiográfico. O estudo de caso de um tema relevante que se mantém vivo nas sociedades contemporâneas é importante para reconhecer critica- mente traços e formas de autoritarismo em governos atuais. Apesar de tradicional, a apresentação de seminários é um modo interessante de fazer com que todos tornem-se protagonistas du- rante o processo de aprendizagem. Por meio da apresentação de um seminário é possível ensinar seus colegas sobre aquilo que aprendeu durante a pesquisa, como também aprender com eles. Nosso percurso atŽ aqui Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. Enquanto os colegas fazem suas apresentações, anotem os problemas verifica- dos e as qualidades alcançadas nelas. Quando todos os grupos tiverem apresenta- do, discutam coletivamente sobre o que foi possível aprender com essa atividade. • Como você avalia a sua participação no grupo? • Você considera que foi claro e objetivo no seminário? Se não foi em algum mo- mento, qual foi o motivo? • Todos entenderam o que seu grupo quis transmitir? • Você considera que passou a identificar as características do autoritarismo? Autoavaliação Estudar e reconhecer, com mais detalhes, diferentes regimes autoritários, ao longo dos séculos XX e XXI, nos permite ter uma visão crítca e um papel mais atuante enquanto cidadãos responsáveis. NÃO ESCREVA NO LIVRO Igor Alecsander/E+/Getty Images 111 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 111V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 111 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 CAP ÍTU LO Este capítulo busca explicitar e compreender as características básicas da democracia nas sociedades modernas. Você vai conhecer as origens e os precedentes teóricos da democracia, bem como as condições para que exista uma democracia efetiva. Vamos examinar a relação entre a democracia e os direitos de cidadania – que garantem o seu exercício. Esses direitos formam um conjunto de liberdades civis, políticas e sociais que constam na Constituição e que devem ser observados por qualquer governo eleito no Brasil. Trabalhadores em campanha por eleições diretas no Brasil, em São Paulo (SP), em 1984. 55O que é a democracia e como preservá-la? G ilb e rt o S o a re s /F u tu ra P re s s Juca Martins/Olhar Imagem Manifestação do movimento “ditadura nunca mais”, na cidade de Porto Alegre (RS), em 2019. 112 O q u e é a d e m o cr a ci a e c o m o p re se rv á -l a ? O q u e é a d e m o cr a ci a e c o m o p r O q u e éa d e m o cr a ci a e c o m o p re s e rv á -l a ? O q u e é a d e m o cr a ci a e c o m o p re s e rv á -l a ? O q u e é a d e m o cr a ci a e c o m o p re s e rv á -l a ? O q u e é a d e m o cr V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap5_112-135.indd 112V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap5_112-135.indd 112 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 De acordo com dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), coletados durante o Censo de 2010, cerca de 11,4 milhões de pessoas (6% da população) viviam em aglomerados subnormais. O IBGE identificou 6 329 favelas em todo o país, localizadas em 323 dos 5 565 municípios brasileiros. Vista aérea da favela São Remo, em São Paulo (SP), em 2020. No plebiscito realizado no Brasil em 1993, o presidencialismo venceu o parlamentarismo por larga vantagem. Dos 67 milhões de eleitores que foram às urnas, 37,1 milhões escolheram o presidencialismo, enquanto 16,5 milhões apoiaram o parlamentarismo. Fotografia tirada em Brasília (DF), em 1993. A articulação entre os direitos humanos e os direitos da cidadania é base indispensável a qualquer Estado que pretenda constituir uma democracia plena. Porém, nem sempre vivemos uma democracia integral. Veremos também formas de regimes democráticos nas sociedades contemporâneas – que variam principalmente entre o parlamentarismo e o presidencialismo. No Brasil atual, temos o presidencialismo, mas em nossa história já houve momentos de parlamentarismo. Cesar Diniz/Pulsar Imagens It a m a r M ir a n d a /E s ta d ã o C o n te ú d o 113 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap5_112-135.indd 113V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap5_112-135.indd 113 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 Cenário O q u e é a d e m o cr a ci a e c o m o p re se rv á -l a ? O q u e é a d e m o cr a ci a e c o m o p r O q u e é a d e m o cr a ci a e c o m o p re s e rv á -l a ? O q u e é a d e m o cr a ci a e c o m o p re s e rv á -l a ? O q u e é a d e m o cr a ci a e c o m o p re s e rv á -l a ? O q u e é a d e m o cr Democracia: liberdades e cidadania O pensame nto democrático moderno é herdeiro do contratualismo, formulado por pensadores como John Locke e Jean-Jacques Rousseau. Por definição, a própria democracia oferece as condições necessá- rias para a efetiva realização e proteção dos direitos humanos. Você já pensou na importância desses di- reitos para a manutenção da democracia? Qual é a re- lação entre um sistema democrático e o respeito aos direitos humanos? Além do direito de votar, a sociedade democrática deve construir uma trama de direitos que concretizem os direitos humanos. Essa trama forma o conjunto de direitos da cidadania – composta de direitos civis, po- líticos e sociais. Como formar, então, uma sociedade que possa ser considerada plenamente demo- crática? Como podemos participar dessa construção, sabendo evitar ideias e propos- tas que, muitas vezes, falando em nome da democracia, defendem o autoritarismo? Converse com os colegas sobre as seguintes questões: OBJETIVOS E JUSTIFICATIVAS Este capítulo tem como objetivo estudar a ideia de democracia, seus tipos e suas formas de existência nas sociedades contemporâneas, bem como as maneiras da participação popular na política. Os valores democráticos, bem como as oscilações no exercício democrático dos poderes políticos no Brasil, têm sido questões prementes na história nacional, desde o fim oficial da escravidão e a proclamação da República; portanto, este capítulo apresentará os fundamentos teóricos básicos deste tema. Para isso, discutiremos a relação entre democracia e direitos humanos – quem participa da democracia e para quem existe a democracia – a fim de evidenciar o papel fundamental deste regime político para manutenção da justiça social. Estudaremos a relação entre a democracia e o conjunto de direitos da cidadania, os direitos civis, políticos e sociais; e a história do surgimento e consolidação de cada uma das dimensões dos direitos. Por fim, discutiremos as formas gerais dos sistemas de governo parlamentarista e presidencialista como formas concretas da relação entre democracia e divisão dos poderes nas sociedades modernas. COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DA BNCC • Competências gerais da Educação Básica: 1, 4, 9 e 10. • Competências específicas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: 1, 5 e 6. • Habilidades de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: EM13CHS101, EM13CHS103, EM13CHS501, EM13CHS503, EM13CHS602, EM13CHS605 e EM13CHS606. • Competências específicas de Ciências da Natureza e suas Tecnologias: 2 e 3. • Habilidades de Ciências da Natureza e suas Tecnologias: EM13CNT202, EM13CNT207, EM13CNT303 e EM13CNT310. • O que é a democracia? • Quais são as condições necessárias para garantir a existência da democracia? • Nós vivemos em um país democrático? • Todas as democracias são iguais? Por quê? Professor, no Manual você encontra orientações sobre estas atividades. A Constituição Federal de 1988 implementou direitos básicos, liberdades civis e estabeleceu deveres do Estado, a fim de garantir o sistema de governo democrático. Fotografia de 2019. NÃO ESCREVA NO LIVRO ra fa p re s s /S h u tt e rs to ck 114 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap5_112-135.indd 114V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap5_112-135.indd 114 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 PARTE 1 CONEXÕES TEMA 1 A ideia de democracia As ideias de John Locke (1632-1704) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) aju- daram a fundamentar o que se desenvolveu posteriormente nas teorias modernas da democracia. Rousseau, principalmente, pode ser considerado o grande teórico da democra- cia moderna. Ele defendeu a ideia da soberania popular contra o autoritarismo das monarquias vigentes, atribuindo ao povo o poder de fazer as leis, por meio do consenso, da participação e da discussão de todos no processo. Assim, o Estado que Rousseau idealizou adquire também as características de uma república, porque o regime democrático, sustentado pela soberania popular, colocava-se então contra o despotismo monárquico. Ou o Estado seria uma repú- blica ou não seria sequer um Estado, mas sim o domínio privado deste ou daquele indivíduo que se apoderou dele e o governa por meio da força. Democracia e participa•‹o popular Ao longo do século XIX e início do século XX, a discussão sobre a democracia se desenvolveu em torno das duas principais doutrinas políticas do período: de um lado, o liberalismo e, de outro, o socialismo. De modo geral, o pensamento liberal valori- zou a democracia representativa, e o pensamento socialista, a democracia direta, ou seja, por meio da participação popular ativa – apesar de, em pouco tempo, passar a prevalecer um sistema autoritário e burocrático de partido único na maior parte dos países do chamado “socialismo real”. A história do pensamento socialista é conhecida pelo comprometimento com todas as formas de democracia direta. Formas de democracia direta, comumente efetivada por meio de plebiscitos e referendos, têm sido adotadas atualmente, com maior ou menor protagonismo, em alguns países de Estado capitalista liberal, bem como em experiências de perfil político anticapitalista na América Latina, como Venezuela (a partir de 1999), Bolívia (entre 2006 e 2019) e a região controlada pelo Movimento Zapatista de Libertação Nacional, no estado de Chiapas, no sul do México (a partir de 1994). Na Venezuela, um plebiscito aprovou as emendas constitucionais propostas pelo presidente da República, Hugo Chávez (1954-2013), em dezembro de 2007. Em janeiro de 2009, um referendo na Bolívia aprovou a nova Constituição que definia o Estado como plurinacional a partir daquele momento, reconhecendo a pluralidade das etnias na- cionais indígenas. Na região mexicana de Chiapas, controladapelo Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), o cos- tume é que as comunidades sejam periodicamente consulta- das sobre as medidas administrativas dos conselhos locais. Os professores de História e de Filoso�a são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. despotismo: forma de governo em que o poder absoluto se concentra na figura de um único governante. plebiscito: consulta pública prévia à ação do Congresso para criar algum ato legislativo. referendo: consulta pública para que a população aceite ou rejeite um ato já proposto. Os professores de História e de Sociologia são indica- dos, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. Zapatistas em celebração ao 20o aniversário da insurgência indígena em Oventic, território zapatista no México, em 2013. Na bandeira, lê-se: “Democracia, liberdade e justiça (EZLN)”. S T R IN G E R M E X IC O /R e u te rs /F o to a re n a 115 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap5_112-135.indd 115V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap5_112-135.indd 115 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 Concepção liberal e democracia representativa Para a tradição liberal, deve haver liberdade individual na relação com o Estado, ou seja, liberdades civis e políticas (embora estas nem sempre sejam estendidas a todos os cidadãos). A única forma de democracia compatível com o Estado liberal é a democracia representativa. Na democracia representativa ou parlamentar, o dever de fazer leis é atribuído a um corpo limitado de representantes, eleitos pelos cidadãos com direitos políti- cos garantidos. Os cidadãos participam do poder escolhendo seus representantes por meio do voto. Essa participação no poder político sempre foi característica do regime democrático. Na concepção liberal de democracia, ela se dá por meio de um dos tipos de li- berdade reivindicada e conquistada contra o absolutismo monárquico. É a manifes- tação da liberdade, que vai além do direito de exprimir a própria opinião, do direito de associação ou de religião. Constitui, portanto, no exercício do direito político: de votar e de ser votado. Na concepção liberal, só existe democracia onde forem reconhecidos alguns direitos fundamentais de liberdade, que tornam possível a participação política, que deve ser guiada pela autonomia e determinação de cada indivíduo. Esse direito político deve ser, enfim, resultado e expressão de todas as outras liberdades. A democracia representativa é hoje o modelo adotado na maior parte do mundo. Algumas de suas características são: • Sufrágio universal, que consiste no direito ao voto a todos os cidadãos. No Brasil, o voto é obrigatório entre 18 e 70 anos de idade; e opcional entre 16 e 18 anos e depois dos 70 anos; • Igualdade de todos perante a lei e observância da Constituição; • Mandatos por tempo definido, sendo que, no Brasil, o tempo para cargos do Executivo e da maioria do Legislativo é de quatro anos, exceto para senadores, que é de oito anos. Concepção socialista e democracia direta Para a tradição socialista em geral, em suas diferentes versões, a democracia também é o elemento central. O desenvolvimento e a consolidação das bases po- pulares do Estado sempre foram o objetivo proposto pelos teóricos do socialismo. Porém, comparada à tradição do individualismo liberal, a compreensão do proces- so democrático no pensamento socialista é diferente. Se no liberalismo o sufrágio universal é o elemento final no processo de demo- cratização, para o pensamento marxista, por exemplo, ele é apenas o ponto de par- tida. Para essa vertente do pensamento socialista, o desenvolvimento do processo democrático ocorre de duas maneiras: • Pela crítica ao tipo de democracia que se limita a ser representativa, propondo a adoção de práticas de democracia direta, ou seja, com participação popular; • Pela reivindicação do controle popular, não apenas político, mas também eco- nômico, constituindo uma espécie de democracia econômica. Jovem votando nas eleições de 2014, em São Paulo (SP). Até 1994, os votos eram coletados em papel e contabilizados manualmente. Hoje, os votos são coletados e computados por meio da urna eletrônica. Ben Tavener/Anadolu Agency/Getty Images marxismo: ideias embasadas no pensamento do filósofo Karl Marx (1818-1883), que desenvolveu a teoria do socialismo. 116 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap5_112-135.indd 116V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap5_112-135.indd 116 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 COGGIOLA, Osvaldo. Escritos sobre a Comuna de Paris. São Paulo: Xamã, 2002. p. 12. Essa democracia econômica e social funcionaria com base na constituição de conselhos populares, que exerceriam uma espécie de “autogoverno” da população e uma “autogestão” da economia. Nesse caso, a proposta socialista mais comum, exer- cida em alguns lugares e momentos históricos, é o Conselho de operários, campo- neses e soldados, cuja ideia – atualizada – seria a formação de órgãos deliberativos coletivos com a presença de representantes dos principais grupos de trabalhadores. Comuna de Paris – 1871 A Comuna de Paris foi uma revolução popular na qual os trabalhadores assumiram o controle da cidade, em um momento de crise econômica e social provocada pela derrota francesa para a Alemanha – na Guerra Franco-Prussiana, iniciada em 1870. O Comitê Central da Guarda Nacional – formada basicamente por populares armados – constituiu o novo governo em Paris, em março de 1871. De acordo com Osvaldo Coggiola, “no dia-a-dia, os batalhões da Guarda Nacional e uma multipli- cidade de organismos e coletivos que surgiam levavam à prática as determinações da Comuna (inclusive uma União de Mulheres criada em 8 de abril, que teve um papel fundamental na defesa da Comuna e no início da construção de um ensino laico e universal)”. Na revolução da Comuna de Paris, Karl Marx classificou essa nova forma de democracia como “autogoverno dos produtores”, baseando-se na identificação de características específicas desse governo. O novo Estado instituído, ainda que como experiência efêmera (entre março e maio de 1871), apresentava quatro diferenças principais em relação à democracia representativa: 1. Ao contrário da democracia representativa, que se baseia na separação dos poderes Executivo e Legislativo, a Comuna uniu as funções executiva e legislativa no trabalho de um único órgão, que não era parlamentar. 2. Os comunards (participantes da Comuna de Paris) estenderam o sistema elei- toral para todas as partes do aparato estatal, como o exército, a magistratura e a burocracia. A partir de então, todos os cargos e funções públicas passaram a ser submetidos a eleições. 3. Na democracia representativa, são eleitos legisladores para cargos irrevogáveis enquanto durar o mandato; já a Comuna elegia conselheiros por sufrágio universal nos diversos bairros de Paris, com mandatos revogáveis a qualquer momento em que seu desempenho não estivesse de acordo com a vontade dos eleitores. 4. O novo Estado da Comuna planejava a descentralização política, transferindo as decisões mais importantes para as chamadas comunas rurais. Estas enviariam re- presentantes para uma assembleia nacional central, que seria encarregada apenas de poucas, mas importantes funções, sempre executadas por funcionários comunais. Barricada na esquina dos bulevares Voltaire e Richard- -Lenoir, durante a Comuna de Paris, o primeiro governo operário da história, fundado, em 1871, na capital francesa, por ocasião da resistência popular ante a invasão por parte do Reino da Prússia. Fotografia de 1871. R e p ro d u • ‹ o /C o le • ‹ o p a rt ic u la r 117 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap5_112-135.indd 117V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap5_112-135.indd 117 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 Democracia representativa e democracia direta Como vimos no exemplo da Comuna de Paris, na perspectiva da democracia direta, o controle político e econômicopassa a ser exercido diretamente pelos tra- balhadores reunidos em conselhos populares. A ideia é expandir esses conselhos populares a todos os lugares da sociedade em que haja decisões importantes a tomar. O conjunto deles formaria uma federação, que seria o próprio Estado. Na sociedade capitalista organizada segundo princípios liberais, por outro lado, há um deslocamento do poder real das instituições do Estado para as grandes cor- porações e grandes empresas. Isso gera um abuso de poder que o cidadão co- mum não consegue controlar por meio dos recursos tradicionais da democracia representativa, em cujas instituições ele está indiretamente representado. Assim, o objetivo da prática da democracia, que é justamente coibir os abusos e excessos do poder, fica então distorcido. Explorando Professor, no Manual você encontra orientações sobre estas atividades. NÃO ESCREVA NO LIVRO 1. Faça uma pesquisa detalhada sobre a Comuna de Paris. Identifique qual era o seu sistema de representação política, a motivação para seu surgimento e as conse- quências dessa organização no período em que ocorreu. 2. Em dupla, reúnam as informações coletadas, discutam e elaborem um breve texto argumentando se, na opinião de vocês, a Comuna de Paris favorecia efeti- vamente a participação popular. Louise Michel vestindo o uniforme da Guarda Nacional Francesa, após as batalhas de 1871. O retrato foi publicado na revista BIZ, na Alemanha, em 1904. Louise Michel (1830-1905) foi uma professora francesa que defendeu fervorosamente as causas anarquistas. Re- jeitou as reformas parlamentares e acreditou na organiza- ção política das classes mais pobres. Na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), durante o cer- co alemão à cidade de Paris, Louise trabalhou no serviço francês de ambulância. Em 1871, lutou ao lado da Guarda Nacional defendendo a Comuna de Paris. Com a derrota da Comuna, Louise Michel foi condena- da à prisão. Após quase dez anos na cadeia, em 1880, foi libertada por uma anistia. Retomou sua militância e, por proferir palestras por toda a França, foi presa novamente por três anos acusada de incitar levantes populares. Viveu em Londres até 1896, depois, retornou à França para mili- tar pelas causas socialistas até sua morte. Pe rfil u lls te in b ild /u lls te in b ild /G e tt y I m a g e s Dica Em 1871, o povo de Paris, relegado à miséria e à explo- ração, agravadas pela recente derrota na guerra contra os alemães, revolta-se contra a República recém-ins- talada por Adolphe Thiers (1797-1877), presidente da Terceira República. Com apoio da Guarda Nacional, os communards fundaram um governo popular, coletivi- zaram a produção, reformaram o sistema educacional e entregam o poder ao povo. O sonho, que durou poucos meses, tornou-se pesadelo quando as tropas do governo de Thiers invadiram Paris, deixando um saldo de 30 mil mortos, entre homens, mulheres e crianças. O drama histórico La Com- mune (Paris, 1871) encena os eventos da Comuna de Paris em estilo documental. La Commune (Paris, 1871). Direção de Peter Watkins. França, 2000 (345 min). Cartaz do filme La Commune. 1 3 P ro d u c ti o n s /L a S e p t- A rt e /L e M u s é e d ’O rs a y 118 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap5_112-135.indd 118V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap5_112-135.indd 118 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 TEMA 2 Democracia e direitos humanos Hoje, podemos dizer que a condição mínima para o bom funcionamento de uma democracia é a organização de eleições periódicas transparentes, honestas e que garantam a expressão política de todos os cidadãos aptos. Para isso, é central o respeito aos direitos humanos. A própria democracia oferece, por definição, o quadro geral necessário para a efetiva realização e proteção dos direitos humanos. O item 3 do artigo 21o da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) define a articulação necessária entre direitos humanos e democracia: A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos; e deve exprimir-se através de eleições honestas realizadas periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que conser- ve a liberdade de voto. ONU. Assembleia Geral das Nações Unidas. Declaração Universal dos Direitos Humanos. 1948. Rio de Janeiro: UNIC/Rio, 2009. p. 11. Disponível em: https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2018/10/ DUDH.pdf. Acesso em: 2 jul. 2020. Há mais dois instrumentos legais internacionais da Organização das Nações Unidas (ONU) aplicados para a defesa da democracia: o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos e o Pacto Interna- cional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. O primeiro visa garantir pilares democráticos, como direitos políticos e liberdades civis; o segundo preconiza a distribuição equitativa de riquezas e o igual e justo acesso aos direitos civis e políticos. Ambos foram aprovados pela Assembleia Geral das Nações Unidas em dezembro de 1966. Por meio desses instrumentos, a ONU se propõe a ajudar os Esta- dos-membros a criar instituições e costumes democráticos e a cumprir os compromissos assumidos e relativos ao desenvolvimento social, à de- mocracia e aos direitos humanos. Propõe, ainda, algumas características que devem ser mantidas pelos países para atingir tais objetivos, como: • a liberdade de associação, de expressão e de opinião; • o acesso popular ao exercício do poder político, conforme o Estado de Direito; • o sufrágio universal livre, periódico e secreto; • a independência da justiça; • a liberdade, a independência e a pluralidade dos meios de comunicação social. Entretanto, o exercício dos direitos humanos enfrenta vários obstáculos. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) se es- força para solucionar esses problemas por meio de serviços de cooperação técnica internacional. Na prática, isso significa ajudar nações a realizar reformas jurídicas e institucionais que favoreçam a proteção aos direitos humanos, a autonomia dos grupos mais fragilizados da sociedade, e a execução de campanhas de mobilização, convencimento da opinião pública e educação para os direitos humanos. Entre as medidas práticas para alcançar tais objetivos, está a preparação e o aumento da capacidade dos parlamentares no quesito de proteção dos direitos humanos, além do apoio a campanhas de sensibilização e a grupos organizados da sociedade civil, como fundações, organizações não governamentais, órgãos de categorias profissionais, etc. Os professores de História e de Sociologia são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. Charge de Arionauro, do acervo do cartunista. Arionauro/Acervo do cartunista 119 V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap5_112-135.indd 119V5_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap5_112-135.indd 119 18/09/2020 11:4418/09/2020 11:44 Segundo estudo do Unicef, seis em cada dez crianças brasileiras viviam na pobreza em 2018. Fotografia de 2020, São Paulo (SP). UNICEF Brasil. Pobreza na infância e na adolescência. 2018. Disponível em: https:// unicef.org/brazil/sites/unicef. org.brazil/files/2019-02/ pobreza_infancia_ adolescencia.pdf. Acesso em: 2 jul. 2020. IBGE. Coordenação de População e Indicadores Sociais. Rio de Janeiro, 2019. p. 59. Disponível em: https:// biblioteca.ibge.gov.br/ visualizacao/livros/liv101678. pdf. Acesso em: 2 jul. 2020. Os professores de Geogra�a e de Sociologia são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento, com a colaboração de professores de Biologia. Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta seção. Direito à alimentação O artigo 25o da Declaração Universal dos Direitos Humanos prevê, entre ou- tras condições para uma vida digna, o direito à alimentação adequada. Em 2014, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Brasil tinha, finalmente, saído