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IESC INTEGRAÇÃO ENSINO SERVIÇO COMUNIDADE Maria Vitória de Sousa Santos PRONTUÁRIO ELETRÔNICO CONCEITO Os prontuários eletrônicos caracterizam-se por armazenar eventos ocorridos no processo assistencial em uma única organização de saúde, podendo ou não alimentar um registro eletrônico em saúde. São gerenciados por um software que amplia as possibilidades de cruzamento de dados e geração de informação. DIFICULDADES ADAPTATIVAS A magnitude desse desafio aumenta à m e d i d a q u e a i m p l e m e n t a ç ã o d e prontuários eletrônicos exige outras mudanças: 1. Familiarização dos profissionais ao novo fluxo de registro e às mudanças decorrentes no processo de trabalho; 2. Uniformização e integração dos diferentes modelos de prontuários com os sistemas de informação vigentes; 3. Criação ou adaptação de estrutura física de rede de comunicação e de hardware necessária, entre outras. VANTAGENS 1. Agilidade no acesso à informação; 2. Diminuição do retrabalho com preenchimento; 3. Possibilidade de coordenação do cuidado; 4. Integração dos vários sistemas de informações e com outros níveis do sistema; 5. Aplicação de lembradores e alertas (ferramentas de apoio clínico); 6. Redução na duplicidade de cadastros; 7. M o b i l i d a d e / a c e s s o v i a w e b e armazenamento. DESVANTAGENS 1. Dependência de boas taxas de conexão; 2. C a m p o s o b r i g a t ó r i o s n o preenchimento/tempo; 3. Menor confiabilidade do usuário; 4. N e c e s s i d a d e d e e q u i p e d e desenvolvimento para integração com demais sistemas da rede eletrônica de saúde; 5. N e c e s s i d a d e d e t r e i n a m e n t o e atualização; 6. Heterogeneidade dos conhecimentos de informática; 7. Custos iniciais de implantação. REGISTRO DE SAÚDE ORIENTADO POR PROBLEMAS (RESOAP) As informações das pessoas sobre o que s e n t e m e m r e l a ç ã o à s a ú d e s ã o “traduzidas” pelos profissionais por meio de abstrações, buscando-se transformar as queixas em sinais e sintomas ao se utilizarem termos técnicos. Dessa forma, elaboram-se hipóteses e estabelecem-se diagnósticos para poder cuidar da saúde das pessoas. Sendo assim, o ReSOAP busca: 1. Garantir a escuta qualificada (evitando que o profissional olhe mais para a tela/prontuário do que para os olhos da pessoa); 2. Otimizar o tempo; 3. Eliminar vícios de linguagem, termos técnicos e textos longos; 4. Dinamizar e democratizar o acesso à i n f o r m a ç ã o , g a r a n t i n d o m a i o r o r g a n i z a ç ã o e a g i l i d a d e n o s atendimentos; Vantagens: 1. Permite o acesso rápido aos dados básicos da pessoa; 2. Fornece dados contínuos sobre os problemas de saúde, acompanhando as diferentes consultas; 3. Possibilita a obtenção de dados para organizar medidas preventivas e; 4. Contribui para a formação contínua. É constituído por três componentes: 1. Dados Base: - Identificação da pessoa - nome pelo qual prefere ser tratada; - Escolaridade; - Hábitos saudáveis e nocivos; - Movimentos migratórios; - Composição do agregado familiar e identificação de recursos sociais; - Condições de habitação; - Antecedentes familiares e pessoais, com respectivos tratamentos; - História ginecológica e obstétrica nas mulheres; - Alergias; - Estado de imunização e realização de rastreios preconizados. 2. Notas Clínicas Progressivas: Maria Vitória de Sousa Santos - São os registros de cada consulta, organizados numa estrutura de quatro itens designada pelo acrônimo SOAP (Subjetivo, Objetivo, Avaliação e Plano). 3. Lista de Problemas: - É u m r e s u m o d o s p r o b l e m a s relevantes da pessoa. - Um problema pode ser considerado “tudo aquilo que preocupa o médico, o doente, ou ambos” ou tudo o que for importante nos cuidados da pessoa. - É uma componente dinâmica, devendo ser atualizada sempre que p r o b l e m a s s ã o r e s o l v i d o s o u identificados de novo. SOAP O SOAP deve ser utilizado pelo médico em todas as consultas com as pessoas atendidas, e seus principais objetivos são desenvolver um registro exato, breve e claro, contribuindo, assim, para um raciocínio e uma tomada de decisões com qualidade. 1. Subjetivo(S): Indica o motivo da consulta. Tudo aquilo que a pessoa traz na sua maneira de se expressar, com suas palavras. Segue-se a anamnese com esclarecimento e caracterização de e v e n t u a i s s i n t o m a s , q u e i x a s e s e n t i m e n t o s . P e r g u n t a r s o b r e mudanças no estado geral de saúde nos últimos 12 meses. Investigar sobre doenças e cirurgias passadas, levantar a lista de medicações em uso e as utilizadas recentemente, sempre com as doses, e perguntar sobre exames realizados e hábitos como uso de álcool, tabagismo, atividade física. No caso de reconsulta ou consultas de revisão, deve-se registrar a resposta aos tratamentos realizados e às intervenções feitas. No caso de visita domiciliar, deve-se incluir descrição da casa e do ambiente. As informações podem ser obtidas da pessoa, do seu acompanhante, de familiares ou mesmo de terceiros. 2. Objetivo(O): Tudo aquilo que pode ser observado pelo profissional. Aqui colocamos o exame físico, sinais vitais, exames de imagem, laboratoriais, comportamento, aspecto da casa (em VD), relação com companheiro durante a consulta. 3. Avaliação(A): Deve espelhar a avaliação que o médico faz dos problemas da pessoa identificados na consulta em questão. Também, sempre que aplicável, podem ser colocadas neste item hipóteses de diagnósticos e diagnósticos diferenciais. Apenas devem ser listados os problemas identificados e abordados na consulta em causa. 4. Plano(P): Deve estar contido o plano de atuação ou intervenção acordado entre médico e doente. Exames solicitados, referência a demais serviços, planos em equipe, educação em saúde, planos futuros. Registrar referenciações a outros prestadores, de documentos emitidos e consultas agendadas para reavaliação. Maria Vitória de Sousa Santos Observação: As notas e reflexões do médico sobre a pessoa e a sua circunstância, assim como eventuais falhas a corrigir na consulta seguinte também têm lugar no P. A coleta dos dados deve ser adequada, fugindo-se dos extremos (Informações em demasia pode ser pouco produtivo, pois se perdem fatos importantes e coletar menos informações do que é necessário pode implicar dados insuficientes). SISTEMAS DE CLASSIFICAÇÃO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE • A Classificação internacional de atenção primária (CIAP) foi desenvolvida para se trabalhar na metodologia SOAP e estruturada por episódio de cuidado, de maneira que permite codificar tanto o subjetivo (S), a avaliação (A) e o plano (P). • Como o objetivo em geral é registrar de forma numérica (resultado de exames complementares, biometria ou exames realizados na consulta), são dados naturalmente estruturados. • No episódio de cuidado, o motivo da consulta é a síntese do subjetivo, ao passo que o problema/condição é a síntese da avaliação, e a intervenção, a síntese do plano.MODELO Maria Vitória de Sousa Santos RASTREAMENTO DE SAÚDE E VACINAÇÃO DO ADULTO E DO IDOSO RASTREAMENTO DE DOENÇAS • Define-se rastreamento como a aplicação de testes em pessoas assintomáticas (em uma população definida) com o objetivo d e s e l e c i o n a r i n d i v í d u o s p a r a intervenções cujo benefício potencial seja maior do que o dano potencial. Assim, pretende-se reduzir a morbimortalidade atribuída à condição a ser rastreada. PREVENÇÃO DE DOENÇAS, PROMOÇÃO DA SAÚDE E RASTREAMENTO • O conceito de prevenção está ancorado em uma estrutura temporal linear que visa a impedir acontecimentos futuros indesejáveis. Em sentido estrito, significa evitar o desenvolvimento de um estado patológico, e em sentido amplo, inclui todas as medidas que limitam a progressão desse estado. Os conceitos em prevenção que merecem ser conhecidos pelos profissionais da APS para o manejo adequado das tecnologias e demandas do rastreamento são os seguintes: 1. Níveis de prevenção de Leavell e Clark: prevenção primária , prevenção secundária e prevenção terciária. 2. Prevenção quaternária (P4) que complementa os três níveis clássicos de prevenção, mas que deve permear todos os anteriores. 3. Prevenções redutiva e aditiva. 4. Estratégia preventiva de alto risco e abordagem populacional. NÍVEIS DE PREVENÇÃO DE LEAVELL E CLARK 1. Prevenção primária: Medidas que atuam antes do adoecimento e impedem a ocorrência de doenças. Inclui a promoção da saúde, a proteção inespecífica (nutrição, água potável, saneamento) e a proteção específica dirigida a uma determinada doença, por exemplo, imunização. 2. Prevenção secundária: Tem por objetivo detectar o adoecimento precocemente para tratá-lo com mais efetividade, maior brevidade, menor sofrimento e menores danos. Os protótipos da prevenção secundária são os rastreamentos e o diagnóstico (ou detecção) precoce. Este último visa a fomentar a conscientização e a percepção precoce dos sinais de problemas de saúde entre usuários e profissionais. 3. Prevenção terciária: Reabilitação em casos de doença ou lesão já estabelecida. Por exemplo, reabilitar um paciente com sequelas de acidente vascular cerebral (AVC). A prevenção terciária se confunde, necessariamente, com o próprio cuidado clínico aos já adoecidos. PREVENÇÃO QUATERNÁRIA • A P4 é a ação que pretende evitar os danos potenciais e a medicalização e x c e s s i v a d e c o r r e n t e s d o i n t e r v e n c i o n i s m o b i o m é d i c o , protegendo os pacientes de danos iatrogênicos e oferecendo alternativas eticamente aceitáveis a esses pacientes. PREVENÇÕES REDUTIVA E ADITIVA 1. Prevenção redutiva: É a ação que d i m i n u i r i s c o s e e x p o s i ç õ e s decorrentes dos modos de vida modernos, urbanos e industrializados, coletivos e/ou individuais. Portanto, trata-se de reduzir a exposição aos produtos químicos e tóxicos na a l i m e n t a ç ã o , r e d u z i r o multiprocessamento dos alimentos, reduzir o sedentarismo da vida urbana, reduzir os riscos e a contaminação q u í m i c a t ó x i c a a m b i e n t a l e ocupacional, diminuir a privação e a iniquidade socioeconômica; reduzir o estresse, a privação do sono, o cansaço excessivo, etc. - Exemplos: estimular atividade física rotineira, uma alimentação diversificada sem agrotóxicos e com o m í n i m o d e p r o d u t o s multiprocessados, reduzir o excesso de bebidas alcoólicas, o tabagismo, a obesidade, etc. 2. Preventiva aditiva: Consiste na introdução de um fator ou produto biotecnológico (físico ou químico) produzido artificialmente e aplicado nas pessoas ou no ambiente, que tem Maria Vitória de Sousa Santos por objetivo conferir proteção de algum evento mórbido futuro. - E x e m p l o s : V a c i n a s , r a s t r e a m e n t o s , t r a t a m e n t o s preventivos farmacológicos de fatores de risco (p. ex., reduzir o colesterol com a prescrição de estatinas). ESTRATÉGIA PREVENTIVA DE ALTO RISCO E ABORDAGEM POPULACIONAL 1. Estratégia de alto risco: Se dirige a um grupo restrito e selecionado de pessoas com alto risco de algum adoecimento. Há necessidade de se identificar e convidar as pessoas pertencentes ao grupo de alto risco para intervenções preventivas, não incluindo o restante da população considerada “normal”. 2. Abordagem populacional: Se dirige ao conjunto da população, sem distinguir entre grupos estratificados de risco. Visa a reduzir o risco de adoecimento em toda a população. Alguns exemplos são: - Introduzir uma lei ou norma sanitária - tal como proibir o fumo em locais fechados e públicos; - Aumentar os impostos sobre o tabaco; - Tornar o uso do cinto de segurança obrigatório e instituir lei seca no trânsito; - Proibir agrotóxicos e transgênicos, i n c e n t i v a r o c u l t i v o e a d i s s e m i n a ç ã o d e a l i m e n t o s orgânicos; - Outros exemplos clássicos são o tratamento da água potável e do esgoto. RASTREAMENTO • Rastreamento é a aplicação de testes ou procedimentos diagnósticos em pessoas assintomáticas com o propósito de dividi-las em dois grupos: aquelas sem a condição e aquelas com a condição a ser rastreada e que podem vir a ser b e n e f i c i a d a s p e l a i n t e r v e n ç ã o antecipada. No rastreamento, um exame pos i t ivo não impl ica fechar um diagnóstico. Outro teste confirmatório (com maior especificidade para a doença em questão) é necessário depois de um rastreamento positivo, para que se possa estabelecer um diagnóstico definitivo. - Exemplo: Mamografia sugestiva de neoplasia biópsia. Observação: Um exame de rastreamento d e v e t e r ó t i m a s e n s i b i l i d a d e e especificidade, para que resulte em pequenas taxas de falso-positivo e para que dê segurança de que a pessoa realmente não tem a doença quando o resultado for negativo. - Sensibilidade - capacidade de detectar indivíduos com aquela doença. - Especificidade - capacidade de excluir o diagnóstico nos casos dos não doentes. RISCOS O s r i s c o s d o s p r o c e d i m e n t o s d e rastreamento envolvem, além daqueles inerentes ao procedimento, alguns outros, tais como: 1. Falsa impressão de proteção para aquelas pessoas com teste negativo e que apresentam a condição rastreada (falso-negativos); 2. Sequência de exames diagnósticos em que o paciente será submetido até a confirmação da doença; 3. P a c i e n t e s e r r o n e a m e n t e c o m rastreamento positivo (falso-positivos); 4. Tratamento excessivo daqueles com anormalidades limítrofes; 5. Além da preocupação e ansiedade geradas nos pacientes que necessitam d e c o n f i r m a ç ã o d e e x a m e s d e rastreamento alterados. VIÉSES Maria Vitória de Sousa Santos 1. Viés de tempo de antecipação: Nesse tipo de viés, o profissional de saúde é iludido pela percepção temporal de que a pessoa que tem seu diagnóstico precoce vive mais. Desse modo, o diagnóstico precoce sempre aparentará que melhorou a sobrevida, mesmo quando a terapia é inútil. 2. Viés de tempo de duração : A p r e s e n t a o c o n c e i t o d e heterogeneidade no processo de desenvolvimento das doenças. Assim, existem doenças que são mais agressivas (evoluem rapidamente)e de pior prognóstico que outras; situação essa que ocorre entre pessoas ou grupos de pessoas. Desse modo, os programas de rastreamento tendem a selecionar casos menos agressivos e de melhor prognóstico. 3. Viés de sobrediagnóstico: Tem o poder de alterar a estatística ao produzir novas doenças que, caso seguissem um curso natural, não viriam a se desenvolver em entidades clínicas. Esse viés também amplifica ilusoriamente os supostos efeitos benéficos da intervenção. 4. Viés de seleção: O rastreamento tende a selecionar pessoas de maior esclarecimento e preocupadas com a saúde, produzindo um viés de seleção (como viés do voluntário saudável). Isso costuma acarretar resultados mais f a v o r á v e i s a o e x c l u i r g r u p o s populacionais de maior risco, aqueles que tendem a ter um estilo de vida menos saudável. Desse modo, o rastreamento pode favorecer a lei de cuidados inversos ao desviar a assistência clínica e os recursos sanitários dos indivíduos doentes para os saudáveis, dos idosos para os jovens e dos pobres para os ricos. RASTREAMENTO NA APS A APS tem papel fundamental na construção de programas de rastreamento, pois pode potencializar o seguimento das pessoas convidadas a participar do programa de forma longitudinal. Informações relevantes: • F a z e r e x a m e d e P a p a n i c o l a u regularmente a partir dos 25 anos de idade reduz a mortalidade associada a esse câncer. • Antes dos 25 anos, mesmo para mulheres com vida sexualmente ativa, os potenciais benefícios do rastreamento não superam os possíveis danos. • Mulheres imunossuprimidas requerem rastreamento desde o início da vida sexual ativa com maior intensidade (semestral no primeiro ano e, se normais, anual enquanto se mantiver a imunossupressão). • Para mulheres de 65 anos ou mais que nunca fizeram o citopatológico de colo uterino, dois exames negativos com intervalo de 1 a 3 anos são necessários para se interromper o rastreamento. • Mulheres que fizeram histerectomia total, ou seja, não têm mais colo uterino, Tipo de rastreamento Observação Colo de útero Mulheres sexualmente ativas Mama Entre 50 e 74 anos, bianual Cancer de colo e reto Pesquisa de sangue oculto nas fezes entre 50 e 75 anos Tipo de rastreamento Observação Dislipidemia em homens > 35 anos Dislipidemia em homens de 20 a 35 anos Pacientes com alto risco cardiovascular Dislipidemia em mulheres entre 20 e 45 anos Pacientes com alto risco cardiovascular Dislipidemia em mulheres > 45 anos Pacientes com alto risco cardiovascular HAS > 18 anos Homens e mulheres DM tipo II Se PA sustentada 135 x 90 mmhg Tabagismo Todos os adultos, incluindo gestantes Uso de álcool Rastreio e intervenção, todos os adultos, incluindo gestantes Obesidade Adultos Maria Vitória de Sousa Santos ou que nunca tiveram relações sexuais, não se beneficiam desse exame. CRITÉRIOS PARA UM PROGRAMA DE RASTREAMENTO Para a implantação de programas de rastreamento, o problema clínico a ser rastreado deve atender a alguns critérios, a seguir: 1. A doença deve representar um importante problema de saúde pública que seja relevante para a população, levando em consideração os conceitos de magnitude, transcendência e vulnerabilidade; 2. A história natural da doença ou do problema clínico deve ser bem conhecida; 3. Deve existir estágio pré-clínico (assintomático) bem definido, durante o q u a l a d o e n ç a p o s s a s e r diagnosticada; 4. O b e n e f í c i o d a d e t e c ç ã o e d o t r a t a m e n t o p r e c o c e c o m o rastreamento deve ser maior do que se a condição fosse tratada no momento habitual de diagnóstico; 5. Os exames que detectam a condição clínica no estágio assintomático devem estar d isponíve is , ace i táve is e confiáveis; 6. O custo do rastreamento e tratamento de uma condição clínica deve ser razoável e compatível com o orçamento destinado ao sistema de saúde como um todo; 7. O rastreamento deve ser um processo contínuo e sistemático. VACINAÇÃO Aplicação de um ou mais agentes (bactérias, vírus ou toxinas) para a est imulação do s istema imune. É considerada uma das medidas com maior custo-benefício na prevenção de doenças infecciosas. TIPOS DE VACINAS 1. Vacina atenuada: Vírus ou bactérias vivas que, após cultivados em meios adversos, perderam sua virulência, m a n t e n d o s u a c a p a c i d a d e imunogênica. - Ex emplo : S a r a m p o , r u b é o l a , caxumba, febre amarela (FA), varicela (VZ), BCG, rotavírus e VOP. 2. Vacinas inativadas: Administração de micro-organismos mortos para induzir a resposta imunológica. Não conferem imunidade duradoura, n e c e s s i t a n d o s e r r e p e t i d a s periodicamente durante toda a vida. - Exemplo: Hepatite A (HA), raiva, VIP, influenza e DTP. 3. Vacinas conjugadas: Fabricadas com fração de micro-organismos purificados (sacarídeos) ligados a proteínas, com capacidade de induzir memória imunológica. - E x e m p l o : V a c i n a c o n t r a Haemophilus influenzae tipo B (Hib), Pneumococo e meningococo. 4. Vacina recombinante: Produzida com micro-organismos geneticamente m o d i f i c a d o s , p e l a i n s e r ç ã o d o fragmento de DNA do antígeno em determinado micro-organismo para a produção de proteína imunogênica. - Exemplo: Hepatite B (HB). 5. Vacina combinada: Resulta da agregação de diferentes antígenos para proteção contra diferentes doenças que são administradas em uma mesma preparação. - Exemplo: Vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), penta, tetra viral. PRECAUÇÕES E CONTRAINDICAÇÕES 1. Não são contraindicações: reações locais leves após aplicação de vacina anterior, terapia antimicrobiana atual, estar em fase de convalescença de doença aguda, diarreia, infecções da via aérea superior, desnutrição, uso de corticoides por período inferior a 2 s e m a n a s e e m d o s e s n ã o imunodepressoras. 2. Deve-se postergar a vacinação em casos de doenças febris moderadas a graves. 3. Pacientes imunodeprimidos não devem receber vacinas vivas. 4. Crianças em uso de corticoides com dose ≥ 2 mg/kg/dia de prednisona ou equivalente, ou doses maiores de 20 Maria Vitória de Sousa Santos mg/dia em crianças acima de 10 kg e adultos, por mais de 2 semanas, não devem receber vacinas com agentes vivos antes de 1 mês após o término da corticoterapia. 5. E m c a s o s d e i m u n o d e p r e s s ã o secundária ao tratamento de câncer com quimioterapia e radioterapia, o paciente só pode realizar vacinas vivas atenuadas após 3 meses da cessação da imunossupressão e dependendo da sua situação clínica. 6. A contraindicação absoluta para a administração de uma vacina é ter uma história de reação alérgica grave (urticária generalizada, dificuldade r e s p i r a t ó r i a , e d e m a d e g l o t e , hipotensão ou choque) a um de seus componentes. EVENTOS ADVERSOS O surgimento de eventos adversos depende do: 1. Tipo de vacina (agente vivo e não vivo, uso de adjuvantes, conservantes, estabilizadores, antibióticos); 2. Do indivíduo (idade, imunidade); 3. D e f a t o r e s r e l a c i o n a d o s à administração (material, via e local de administração). Observação: Podem se manifestar algumas horas após a administração da vacina e persistir por 48 horas ou mais. Principais manifestações: 1. Locais: Dor, edema, eritema e enduração. 2. S i s t ê m i c o s : F eb r e , c h o r o inconsolável, episódio hipotônico- hiporresponsivo, convulsão, exantema, síncope, alergia e anafilaxia. CALENDÁRIO VACINAL DA CRIANÇA 1. Ao nascer: - Vacina BCG (Dose única) - Vacina Hepatite B (recombinante HB) 2. 2 meses: - Vacina adsorvida Difteria, Tétano, C o q u e l u c h e , H e p a t i t e B (recombinante) e Haemophilus influenzae B (conjugada) - (Penta) (1ª dose) - Vacina poliomielite 1, 2 e 3 (inativada) - (VIP) (1ª dose) - Vacina pneumocócica 10-valente (Conjugada) - (Pneumo 10) (1ª dose) - Vacina rotavírus humano G1P1 [8] (atenuada) - (VRH) (1ª dose) 3. 3 meses: - Vacina meningocócica C (conjugada) - (Meningo C) (1ª dose) 4. 4 meses: - Vacina adsorvida Difteria, Tétano, c o q u e l u c h e , H e p a t i t e B (recombinante) e Haemophilus influenzae B (conjugada) - (Penta) (2ª dose) - Vacina poliomielite 1, 2 e 3 (inativada) - (VIP) (2ª dose) - Vacina pneumocócica 10-valente (Conjugada) - (Pneumo 10) (2ª dose) - Vacina rotavírus humano G1P1 [8] (atenuada) - (VRH) (2ª dose) 5. 5 meses: - Vacina meningocócica C (conjugada) - (Meningo C) (2ª dose) 6. 6 meses: - Vacina adsorvida Difteria, Tétano, c o q u e l u c h e , H e p a t i t e B (recombinante) e Haemophilus influenzae B (conjugada) - (Penta) (3ª dose) - Vacina poliomielite 1, 2 e 3 (inativada) - (VIP) (3ª dose) - Vacina Influenza (1 ou 2 doses (anual) - Vacina Covid-19 (1ª dose) Observação: A vacina Covid-19 está recomendada com esquema de 03 doses (aos 06, 07 e 09 meses de idade). Caso não tenha iniciado e/ou completado o esquema primário até os 09 meses de idade, a vacina poderá ser administrada até 04 anos, 11 meses e 29 dias, conforme histórico vacinal, respeitando os intervalos mínimos recomendados (04 semanas entre a 1ª e 2ª dose; e 08 semanas entre a 2ª e 3ª dose). 7. 7 meses: - Vacina Covid-19 (2ª dose) 8. 9 meses: - Vacina Febre Amarela (atenuada) - (FA) (1 dose) - Vacina Covid-19 (3ª dose) 9. 12 meses: - Vacina pneumocócica 10-valente (Conjugada) - (Pneumo 10) (Reforço) Maria Vitória de Sousa Santos - Vacina meningocócica C (conjugada) - (Meningo C) (Reforço) - Vacina Sarampo, Caxumba, Rubéola (Tríplice viral) (1ª dose) 10. 15 meses: - Vacina adsorvida Difteria, Tétano e coqueluche (DTP) (1º reforço) - Vacina poliomielite 1 e 3 (atenuada) - (VOPb) (1º reforço) - Vacina adsorvida Hepatite A (HA - inativada) (1 dose) - Vacina Tetra viral (1 dose) 11. 4 anos: - Vacina adsorvida Difteria, Tétano e coqueluche (DTP) (2º reforço) - Vacina Febre Amarela (atenuada) (Reforço) - Vacina poliomielite 1 e 3 (atenuada) - (VOPb) (2º reforço) - Vacina varicela (monovalente) - (Varicela) (1 dose) 12. 5 anos: - Vacina Febre Amarela (atenuada) - (FA) (1 dose, caso a criança não tenha recebido as 2 doses recomendadas antes de completar 5 anos) - Vacina pneumocócica 23-valente - (Pneumo 23) (1 dose) —> Proteção contra infecções invasivas pelo pneumococo na população indígena 13. 9 e 14 anos: - Vacina HPV Papilomavírus humano 6, 11, 16 e 18 (HPV4 - recombinante) (Iniciar e completar o esquema de duas doses) Observação: Em casos de violência sexual, indivíduos de 9 a 45 anos que tenham sido totalmente vacinados com a HPV4 não precisam de doses adicionais. Aqueles com esquema incompleto, ou não iniciados, devem receber as doses restantes para completar o esquema recomendado (3 doses, com a 2ª dose após 2 meses da 1ª e a 3ª dose após 6 meses da 1ª). CALENDÁRIO VACINAL DO ADULTO 1. A qualquer tempo: - V a c i n a H e p a t i t e B ( H B - recombinante) (3 doses, de acordo com histórico vacinal) - Vacina Difteria e Tétano (dT) (3 doses, de acordo com histórico vacinal | Reforço a cada 10 anos ou a cada 5 anos em caso de ferimentos graves) - Vacina Febre Amarela (VFA - atenuada) (Dose única caso não tenha recebido nenhuma dose até os 5 anos ou reforçar, caso a pessoa tenha recebido uma dose da vacina antes de completar 5 anos de idade) Observação: Pessoas com 60 anos e mais, que nunca foram vacinadas ou sem comprovante de vacinação, o serviço de saúde deverá avaliar a pertinência e o risco X benefício da vacinação. - Vacina HPV Papilomavírus humano 6, 11, 16 e 18 (HPV4 - recombinante) Observação: Em casos de violência sexual, indivíduos de 9 a 45 anos que tenham sido totalmente vacinados com a HPV4 não precisam de doses adicionais. Aqueles com esquema incompleto, ou não iniciados, devem receber as doses restantes para completar o esquema recomendado (3 doses, com a 2ª dose após 2 meses da 1ª e a 3ª dose após 6 meses da 1ª). 2. 20 e 29 anos: - Vacina Tríplice viral (Duas doses). 3. 30 e 59 anos: - Vacina Tríplice viral (Uma dose - Verificar situação vacinal anterior). CALENDÁRIO VACINAL DA GESTANTE 1. A qualquer tempo: - V a c i n a H e p a t i t e B ( H B - recombinante) (Iniciar ou completar 3 doses, de acordo com histórico vacinal); - Vacina Difteria e Tétano (dT) (Iniciar ou completar 3 doses, de acordo com histórico vacinal | Reforço a cada 10 anos ou a cada 5 anos em caso de ferimentos graves); 2. 2 0 s e m a n a s d e g e s t a ç ã o e puérperas até 45 dias: - Vacina Difteria, Tétano, Pertussis (dTpa - acelular) (Uma dose a cada gestação). Maria Vitória de Sousa Santos SITUAÇÕES ESPECIAIS GESTANTES E LACTANTES • Vacinas compostas por agentes vivos apresentam riscos teóricos para o feto d u r a n t e a g r a v i d e z , s e n d o contraindicadas. Observação: Exceção a essa regra é a gestante não vacinada que reside em local próximo onde ocorreu confirmação de circulação de vírus da FA (epizootias, casos humanos e vetores na área afetada). Nesses casos, vacinar em qualquer idade gestacional (IG). • Vacinas contra a rubéola e a varicela podem ser administradas a mulheres em idade fértil, porém, elas devem evitar ficar grávidas por 4 semanas. • Toda gestante deverá receber uma dose da vacina adsorvida contra dTPa a partir da 20ᵃ semana de gestação. • Caso não tenham sido vacinadas na gestação, poderão realizar no período puerperal; porém, neste caso, não ocorrerá transferência de anticorpos da mãe para o feto, apenas se evitará que a mãe adoeça e possa ser uma fonte de infecção para o filho. • A gestante deve ser vacinada para a prevenção do tétano materno e neonatal. Para ser considerada imunizada, deve ter recebido três doses prévias de vacina contendo o toxoide tetânico, sendo a última no máximo há 5 anos – passado esse prazo, deverá fazer uma dose de reforço que poderá ser na forma da dTPa. • Se est iver com esquema vacinal incompleto, deve receber as doses para completá-lo, com intervalo de 60 dias (mínimo de 30 dias) – a primeira o mais precocemente possível. • Segundo o PNI, gestantes não vacinadas e que apresentam sorologias negativas para o vírus da hepatite B possuem indicação de vacinação em qualquer IG, independentemente da faixa etária. • A amamentação não contraindica nenhuma vacinação, exceto a da FA (Existe um risco teórico de transmissão desse vírus vacinal pelo leite materno). • Lactentes de crianças menores de 6 meses de vida, não vacinadas contra a FA, só deverão receber a vacina se residirem em local próximo onde ocorreu a confirmação de circulação do vírus (epizootias, casos humanos e vetores na área afetada). Deve-se suspender o aleitamento materno por 10 dias após a vacinação. IMUNODEPRIMIDOS • Pessoas com deficiência grave da imunidade não devem receber vacinas com agentes vivos. • R e c o me n d a - s e a a t u a l i z a ç ã o d o calendário vacinal e a aplicação de vacinas contra pneumococo e Hib o mais precocemente possível. - Com pelo menos 14 dias antes de esplenectomia, transplante de m e d u l a ó s s e a o u t e r a p i a imunossupressora para tratamento de câncer. • A eficácia das vacinas da HB em imunodeprimidos e nas pessoas com doenças renais crônicas está diminuída, por isso, são necessárias doses maiores e/ou um maior número de doses para a indução de anticorpos em níveis protetores. • A vacina HPV quadrivalente está disponível nos CRIEs para indivíduos imunodeprimidos (submetidos a t r a n s p l a n t e d e ó r g ã o s s ó l i d o s , transplantes de medula óssea, pacientes oncológicos ou com HIV/aids) que deverão receber esquema de 3 doses (0, 2 e 6 meses) para ambos os sexos, nas faixas etárias entre 9 e 45 anos. TRABALHADORES DA SAÚDE • Os profissionais de saúde, além das vacinas preconizadas para adultos pelo calendário básico, deverão receber as vacinas contra Hib, HB e VZ para os sem história prévia de doença ou vacinação; duas doses SCR. VIAJANTES • A FA é a única doença especificada no Regulamento Sanitário Internacional de 2005 para o qual os países podem exigir prova vacinal na entrada de seus viajantes. Maria Vitória de Sousa Santos • Houve alteração no regulamento no qu e s i t o p e r ío d o d e va l id ad e d o certificado e proteção fornecida pela vacinação contra infecção da FA, de 10 anos para toda a vida. • Recomenda-se a vacinação pelo menos 10 dias antes da viagem. • Há vários países com áreas endêmicas de sarampo, difteria, febre tifoide, hepatite A, cólera, raiva. Maria Vitória de Sousa Santos OBESIDADE CONCEITO • A obesidade é o acúmulo de gordura no corpo causado quase sempre por um consumo de energia na alimentação, superior àquela usada pelo organismo para sua manutenção e realização das atividades do dia-a-dia. MENSURAÇÃO • O acúmulo de gordura pode ser mensurado por meio do índice de massa corporal (IMC), calculado pela divisão do peso em quilogramas pelo quadrado da altura em metros. O IMC correlaciona-se com os fatores de risco à saúde e é utilizado para classificar o grau de obesidade. Observação: Com o aumento da idade, ocorrem modificações na composição corporal como diminuição de água corporal, massa óssea, massa muscular, redistribuição da gordura corporal e redução progressiva de altura. Legenda: Valores de IMC para pessoas acima de 60 anos. PROBLEMAS DE SAÚDE ASSOCIADOS A OBESIDADE O IMC, como medida de excesso de peso, tem mostrado uma correlação linear com: 1. Risco de doença cardiovascular (DCV); 2. Desenvolvimento de diabetes mellitus tipo 2 (DM2); 3. Hipertensão arterial sistêmica (HAS); 4. Doença da vesícula biliar. ANAMNESE 1. História do excesso de peso: idade de i n í c i o , m a i o r e m e n o r p e s o s alcançados; 2. História familiar de diabetes e obesidade; 3. T e n t a t i v a s a n t e r i o r e s d e emagrecimento; 4. Fatores precipitantes das recaídas; 5. Estilo de vida (comportamento alimentar e padrão de atividade física pessoal); 6. Expectativas relacionadas ao peso desejado. Observação: As consequências físicas são avaliadas pela presença de comorbidades, VALOR DO IMC CLASSIFICAÇÃO Menor que 22 Baixo peso De 22 a 27 Normal De 27 a 29,99 Sobrepeso Maior que 30 Obesidade Sistema orgânico/tipo de enfermidade Efeito sobre a saúde Câncer • Homens: câncer de esôfago, estômago, colorretal, fígado, vesícula biliar, pâncreas, próstata, rim, linfoma não Hodgkin, mieloma múlti-plo, leucemia • Mulheres: câncer de endométrio, cérvice uterina, ovário, mama, co-lorretal, fígado, vesícula biliar, rim, linfoma não Hodgkin, mieloma múltiplo Sistema cardiovascular • Aterosclerose, infarto do miocárdio, AVC Pele e fâneros • Acantose nigricante, marcas na pele, acne, furúnculos, hirsutismo, dermatite de pregas cutâneas, hiperceratose plantar, celulites, varizes Sistema endócrino • Resistência à insulina, DM2 Sistema gastrintestinal • Estetose hepática, doença da vesícula biliar Sistema musculoesquelético • Osteoartrose degenerativa, alterações na anatomia dos pés devido ao peso excessivo Sistema respiratório • AOS Sistema reprodutivo • Homens: declínio prematuro da testosterona, disfunção erétil • Mulheres: SOP Classificação IMC (kg/m2) Risco de comorbidades Baixo < 18,5 Baixo - maior risco de problemas clínicos Saudável 18,5-24,9 Risco normal Sobrepeso ≥ 25-29,9 Risco aumentado Obesidade I ≥ 30-34,9 Risco moderado Obesidade II ≥ 35-39,9 Risco intenso Obesidade III ≥ 40 Risco muito intenso Maria Vitória de Sousa Santos c o m o D M 2 , h i p e r t e n s ã o , D C V , osteoartrite, dislipidemia, apneia do sono e outros problemas clínicos. Na anamnese, devem-se buscar sintomas de: 1. Doenças endócrinas: Sintomas de hipotireoidismo, síndrome de Cushing, acromegalia. 2. Uso de medicamentos associados ao ganho de peso: antidiabéticos ( i n s u l i n a , s u l f o n i l u r e i a s , t i a z o l i d i n e d i o n a s ) , h o r m ô n i o s e s t e r o i d e s , a n t i p s i c ó t i c o s , estabilizadores do humor (lítio), antidepressivos (tricíclicos, paroxetina, m i r t a z a p i n a , i n i b i d o r e s d a monoaminoxidase), anticonvulsivantes ( v a l p r o a t o , g a b a p e n t i n a , carbamazepina), beta-bloqueadores. 3. T r a n s t o r n o s p s i q u i á t r i c o s : Depressão, estresse pós-traumático, ansiedade, transtorno do humor bipolar, uso de drogas, transtorno do Binge e bulimia são comumente associados à obesidade, e seu manejo deve ser providenciado. EXAME FÍSICO 1. IMC; 2. Peso; 3. Altura; 4. Pressão arterial; 5. Medida da circunferência abdominal; - Homens: normal < 94 cm; aumentada 94-102 cm; muito aumentada > 102 cm. - M u l h e r e s : n o r m a l < 8 0 c m ; a u m e n t a d a 8 0 - 8 8 c m ; m u i t o aumentada > 88 cm. No exame físico, devem-se buscar sinais de d o e n ç a s a s s o c i a d a s à o b e s i d a d e secundária: 1. Pele seca, fria e descamativa; 2. Cabelos finos e secos; 3. Voz rouca; 4. Madarose; 5. Edema duro; 6. Presença de bócio; 7. Obesidade centrípeta e com giba; 8. Presença de acantose nigricante; 9. Estrias purpúricas; 10. Aspecto facial característico de acromegalia com prognatismo e feições rudes, mãos grandes e com aumento dos tecidos moles. EXAMES COMPLEMENTARES • Em geral, é suficiente a medida de perfil lipídico, glicemia, teste dê tolerância a glicose e pressão arterial (PA). Quando existe suspeita de doenças causando a o b e s i d a d e , d e v e - s e p r o c e d e r à investigação apropriada. TRATAMENTO TRATAMENTO NUTRICIONAL 1. Dieta hipocalórica; 2. Dieta rica em vegetais; 3. Baixa ingestão de gorduras, açúcares e farinhas; TRATAMENTO COMPORTAMENTAL • Baseia-se em análise e modificações de c o m p o r t a m e n t o s d i s f u n c i o n a i s associados ao estilo de vida da pessoa. • O objetivo é implementar estratégias que auxiliem no controle do peso, reforçando a motivação e ajudando a evitar a recaída. - Automonitoramento: Registropor escrito realizado pela própria pessoa sobre o tipo e a quantidade dos al imentos ingeridos, incluindo horários, episódios compulsivos, fatores desencadeantes, pensamentos e sentimentos relacionados. - C o n t r o l e d o s e s t í m u l o s : Planejamento de estratégias que f a v o r e ç a m a m o d i f i c a ç ã o d e comportamentos disfuncionais. Ex.: Planejar as compras de alimentos, aumentar a atividade física, planejar a t iv idades novas em horár ios habituais de compulsão. - Maria Vitória de Sousa Santos - Resolução de problemas: Busca identificar estratégias que auxiliem a resolver os problemas diários relacionados ao peso e à adesão ao tratamento. Essas técnicas envolvem desde como lidar com situações estressantes até como participar de reuniões com amigos, como festas e jantares. A pessoa deve ser estimulada a testar e a discutir as estratégias. - R e e s t r u t u r a ç ã o c o g n i t i v a : Consiste em identificar crenças e pensamentos disfuncionais com relação ao peso e à alimentação. ATIVIDADE FÍSICA • O exercício físico promove benefícios a n t r o p o m é t r i c o s , m e t a b ó l i c o s , neuromusculares e psicológicos. Quando realizado de forma regular: 1. M e l h o r a a r e s i s t ê n c i a cardiorrespiratória, o perfil lipídico, o bem-estar geral, a energia. 2. Auxilia no controle do DM2. 3. Reduz riscos cardiovasculares, mesmo quando não ocorre perda de peso. 4. Autoestima, imagem corporal, humor, redução da ansiedade e depressão também são alterados de forma positiva. A recomendação atual é a prática de exercícios físicos: 1. 150 minutos de exercícios moderados por semana para a manutenção do peso e da saúde; 2. Mais de 150 minutos por semana para promover o emagrecimento e evitar a recuperação do peso. MEDICAMENTOS • Os medicamentos são auxiliares na redução de peso e que seu uso não substitui a reeducação alimentar associada à atividade física, assim como a necessidade de visitas regulares à equipe de saúde. • O uso de medicamentos para emagrecer é bem descrito em indivíduos maiores de 18 anos e com IMC maior do que 30 kg/ m2 ou com IMC entre 25 e 30 e comorbidades. Entre os medicamentos mais utilizados, estão: 1. Orlistate (120 mg 3x/dia utilizados com as refeições principais): Inibidor da lipase gástrica e pancreática, promove má absorção e reduz a a b s o r ç ã o d e g o r d u r a s e m aproximadamente 30%. Não apresenta risco cardiovascular, podendo ser usado em pacientes cardiopatas, assim como em crianças obesas acima de 12 anos como parte do manejo que inclui educação alimentar, exercício físico, suporte emocional. - Efeitos colaterais: Surgimento de gordura nas fezes, flatulência e diarreia, o que, muitas vezes, faz o p a c i e n t e d e s c o n t i n u a r o tratamento. Está contraindicado na gestação e em pacientes com má absorção crônica. 2. Liraglutida (0,6 mg em dose única diária em injeção subcutânea): É um hipoglicemiante, agonista do peptídeo 1 similar ao glucagon (GLP-1), que provoca atraso no esvaziamento gástrico e reduz a ingesta calórica por ação central. Reduz a glicemia e hemoglobina glicada, sendo uma boa opção para o uso em diabéticos, mas também pode ser utilizado em pessoas não diabéticas, e geralmente não causa hipoglicemia. - Efeitos colaterais: São náusea, vômitos, constipação, hipoglicemia, diarreia, fadiga, tontura, dor abdominal e aumento dos níveis de l i p a s e . S e u s p r i n c i p a i s inconvenientes são a administração parenteral e o alto custo. 3. Sibutramina (10 a 15 mg/dia): É um inibidor da recaptação da serotonina, da dopamina e da norepinefrina. Age aumentando a saciedade pós-ingestão e a taxa metabólica. Há relatos de melhora discreta nos níveis de colesterol HDL e triglicérides. - Efeitos colaterais: Disforia, cefaleia, boca seca, vertigem, alteração do paladar, insônia e dismenorreia, alterações da PA e da frequência cardíaca (FC), sendo que a maioria dos sintomas diminui com o tempo de uso. Devido aos Maria Vitória de Sousa Santos efeitos cardiovasculares, não deve ser usado em cardiopatas. 4. Bupropiona (100 a 400 mg/dia): Antidepressivo de uso combinado, dopaminérgico e noradrenérgico, unicíclico. Utilizado comumente como auxiliar no tratamento para cessação do tabagismo. - Efeitos colaterais: Insônia, boca seca e tremores; reduz o limiar para convulsões (há risco se houver história de crise convulsiva). 5. Metformina: É um medicamento do grupo das biguanidas que atua aumentando a sensibilidade à insulina nos tecidos periféricos, sobretudo no f ígado, diminuindo a produção hepática de glicose. Em mulheres com sobrepeso ou obesas com SOP, o uso de metformina (1.500 mg/dia) ajuda na redução de peso, reduzindo o IMC em 1 kg/m2. - Efeitos colaterais: Anorexia e sintomas gastrintestinais. 6. Topiramato (25 a 200 mg/dia): Anticonvulsivante. - Efeitos colaterais: Parestesias, alteração de paladar e disfunção cognitiva. 7. Lorcaserina (10 mg, duas vezes ao dia): É um agonista seletivo da recaptação de serotonina, que promove saciedade e reduz a ingesta de alimentos. - Efeitos colaterais: Cefaleia, tonturas, fadiga, náusea, boca seca, constipação. Em diabéticos, pode provocar hipoglicemia. CIRURGIA BARIÁTRICA • A cirurgia bariátrica é uma opção de tratamento para pessoas com obesidade mórbida que não obtiveram sucesso por, pelo menos, 2 anos com alteração de hábitos alimentares, atividade física, m e d i c a m e n t o o u t r a t a m e n t o s alternativos. • O objetivo da operação é induzir uma perda de peso substancial – 50 a 80% do excesso de peso – que diminua as comorbidades associadas à obesidade. CUIDADO A LONGO PRAZO • A recomendação é o acompanhamento de pelo menos 2 anos após a cirurgia. A avaliação deve incluir: 1. Monitoramento da ingesta nutricional e das deficiências minerais; 2. Monitoramento das comorbidades; 3. Revisão das medicações; 4. Avaliação e suporte nutricional; 5. Avaliação e suporte para atividade física; 6. Manejo das condições psicológicas. • A p ó s , o s p a c i e n t e s d e v e m s e r acompanhados anualmente para avaliar o status nutricional, a suplementação e o manejo de doenças crônicas. - A avaliação de deficiência nutricional consiste na avaliação da ingesta a d e q u a d a d e v i t a m i n a s e n a identificação de deficiências, como vitamina D, vitamina B12, tiamina, folato, ferro, zinco, cobre, selênio e cálcio. - O monitoramento anual pode variar conforme a diretriz consultada. Sugere-se a solicitação de hemograma completo, eletrólitos, glicose, perfil de ferro, vitamina B12, função hepática, albumina, perfil lipídico, vitamina D, tiamina, folato, zinco e cobre. Maria Vitória de Sousa Santos HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA CONCEITO • A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é uma condição clínica multifatorial caracterizada por níveis elevados e sustentados de pressão arterial – PA (PA ≥ 1 4 0 x 9 0 m m H g ) . A s s o c i a - s e , frequentemente, às alterações funcionais e/ou estruturais dos órgãos-alvo (coração, encéfalo, r ins e vasos sanguíneos) e às alterações metabólicas, com aumento do risco de eventos cardiovasculares fatais e não fatais . Fatores que podem interferir no valor da PA: 1. Tamanho do manguito; 2. Circunferência braquial; 3. Orientações pré-aferição; 4. Ambiente; 5. Aparelho; 6. Expectativa da pessoa. Fatores de risco associadas a HAS: 1. Sedentarismo; 2. Abuso de bebidas alcoólicas;3. Uso de contraceptivos hormonais; 4. Transtornos do sono; 5. História familiar; 6. Obesidade; 7. Tabagismo; 8. Estresse; 9. C o n d i ç õ e s s o c i o e c o n ô m i c a s desfavoráveis. CLASSIFICAÇÃO DA PA RASTREAMENTO • Devido à alta prevalência do problema, ausência de s intomas e ef icácia demonstrada no tratamento ao reduzir o risco de complicações, recomenda-se o rastreamento de todos os pacientes adultos para hipertensão, aferindo sua pressão arterial. • Todo adulto com 18 anos ou mais de idade, quando vier à Unidade Básica de Saúde (UBS) para consulta, atividades educativas, procedimentos, entre outros, e não tiver registro no prontuário de ao menos uma verificação da PA nos últimos dois anos, deverá tê-la verificada e registrada. Observação: O indivíduo deverá ser investigado para doenças arteriais se apresentar diferenças de pressão entre os membros superiores maiores de 20/10 mmHg para as pressões sistólica/ diastólica, respectivamente. TÉCNICAS DE AFERIÇÃO O p a c i e n t e d e v e s e n t a r - s e confortavelmente em um ambiente silencioso por 5 minutos, antes de iniciar as medições da PA. Certifique-se de que o paciente NÃO: - Está com a bexiga cheia; - Praticou exercícios físicos há, pelo menos, 60 minutos; - Ingeriu bebidas alcoólicas, café ou alimentos; - Fumou nos 30 minutos anteriores. Etapas: 1. O paciente deve estar sentado, com o braço apoiado e à altura do precórdio. 2. Determinar a circunferência do braço no ponto médio entre o acrômio e o olécrano. 3. Selecionar o manguito de tamanho adequado ao braço. 4. Colocar o manguito, sem deixar folgas, 2 a 3 cm acima da fossa cubital. 5. C e n t r a l i z a r o m e i o d a p a r t e compressiva do manguito sobre a artéria braquial. 6. Estimar o nível da PAS pela palpação do pulso radial.* 7. Palpar a artéria braquial na fossa cubital e colocar a campânula ou o diafragma do estetoscópio sem compressão excessiva.* 8. Inflar rapidamente até ultrapassar 20 a 30 mmHg o nível estimado da PAS obtido pela palpação.* 9. Proceder à deflação lentamente (velocidade de 2 mmHg por segundo).* PAS(mmHg) PAD(mmHg) Ótima ҕ120 < 80 Normal 120-129 80-84 Normal alta 130-139 85-89 Hipertensão estágio 1 140-159 90-99 Hipertensão estágio 2 160-179 100-109 Hipertensão estágio 3 > ou = 180 > ou = 110 Maria Vitória de Sousa Santos 10. Determinar a PAS pela ausculta do primeiro som (fase | de Korotkoff) e, depois, aumentar ligeiramente a velocidade de deflação.* 11. Determinar a PAD no desaparecimento dos sons (fase V de Korotkoff).* 12. Auscultar cerca de 20 a 30 mmHg abaixo do último som para confirmar seu desaparecimento e , depois p r o c e d e r , à d e f l a ç ã o r á p i d a e completa*. 13. Se os batimentos persistirem até o nível zero, determinar a PAD no abafamento dos sons (fase IV de Korotkoff) e anotar valores da PAS/ PAD/zero.* MAPA X MRPA A PA fora do consultório pode ser obtida a t r a v é s d a M A P A o u d a M R P A , r e s p e i t a n d o - s e s u a s i n d i c a ç õ e s e limitações. 1. MAPA: A primeira é feita por aparelhos validados que empregam o método oscilométrico. Afere a pressão por dezenas de vezes nas 24 horas, registrando o comportamento da pressão arterial durante o período do sono. 2. MRPA: É feita de preferência por manômetros digitais pelo próprio p a c i e n t e o u p o r f a m i l i a r e s . Recomendam-se três medidas pela manhã, antes do desjejum e da tomada de medicamento, e três à noite, antes do jantar, durante cinco dias, ou duas medidas em cada sessão durante sete dias. VANTAGENS DA MEDIDA DA PRESSÃO ARTERIAL FORA DO CONSULTÓRIO 1. Gerais: - Maior número de medidas obtidas; - Refletem as atividades usuais dos examinandos; - Pode identificar HA do avental branco e HA mascarada; - Maior engajamento dos pacientes com o diagnóstico e o seguimento. 2. МАРА: - Leituras noturnas; - Permite medições em condições de vida real; - Uso em pacientes com cognição prejudicada e nos raros casos de comportamento obsessivo; - Permite avaliar a variabilidade da PA em períodos curtos de tempo; - Evidência prognóstica mais robusta. 3. MRPA: - Baixo custo e amplamente disponível; - Medição em um ambiente domiciliar, que pode ser mais relaxado do que o do consultório; - Permite avaliar a variabilidade da PA no dia a dia; - Envolvimento do paciente na medição da PA; - Maior adesão ao tratamento. DESVANTAGENS DA MEDIDA DA PRESSÃO ARTERIAL FORA DO CONSULTÓRIO 1. MAPA: - Custo elevado; - Disponibilidade por vezes limitada; - Pode ser desconfortável. 2. MRPA: - Somente PA em repouso; - Potencial para erro de medição; - Não tem leitura noturna. Observação: Indivíduos com pressão anormal no consultório, devido à reação de alerta, e normal na MAPA ou MRPA, têm a s índrome do avental branco . Já , indivíduos com pressão normal no consultório e anormal na MAPA ou MRPA t ê m a d e n o m i n a d a h i p e r t e n s ã o mascarada. DIAGNÓSTICO • O diagnóstico da HAS consiste na média aritmética da PA maior ou igual a 140/90mmHg, verificada em pelo menos Maria Vitória de Sousa Santos três dias diferentes com intervalo mínimo de uma semana entre as medidas, ou seja, soma-se a média das medidas do primeiro dia mais as duas medidas subsequentes e divide-se por três. • A constatação de um valor elevado em apenas um dia, mesmo que em mais do que uma medida, não é suficiente para estabelecer o diagnóstico de hipertensão. Observação: Deve-se evitar verificar a PA em situações de estresse físico (dor) e emocional (luto, ansiedade), pois um valor elevado, muitas vezes, é consequência dessas condições. Observação: Recentemente, as novas Diretrizes da American Heart Association (AHA) mudaram a classificação da HAS e passaram a considerar hipertensos indivíduos com PA > 130x80 mmHg. (Essa recomendação é controversa). FLUXOGRAMA DE RASTREAMENTO E DIAGNÓSTICO DA HAS AVALIAÇÃO INICIAL DA PESSOA COM HAS A história e o exame físico de um paciente hipertenso devem ser obtidos de forma completa. 1. Anamnese: - Identificação: sexo, idade, raça e condição socioeconômica. - HDA: Duração conhecida de HAS e níveis pressóricos; adesão e reações adversas aos tratamentos prévios; sinais e sintomas sugestivos de insufic iência cardíaca; doença vascular encefálica; doença arterial periférica; doença renal; diabetes mellitus; indícios de hipertensão secundária; gota. - Investigação sobre diversos aparelhos e fatores de risco: Dislipidemia, tabagismo, sobrepeso e obesidade, sedentarismo, perda de peso, características do sono, função sexual, dificuldades respiratórias. - HPP: Gota, doença arterial coronária, insuficiência cardíaca. Nas mulheres, deve-se investigar a ocorrência de hipertensão durante a gestação, que é um fator de risco para hipertensão grave. - História familiar: A história f ami l iar p o s i t iva p ara HAS é usualmente encontrada em pacientes h i p e r t e n s o s . S u a a u s ê n c i a , especialmente em pacientes jovens, é um alerta para a possibilidade da p r e s e n ç a d e H A S s e c u n d á r i a . Pesquisar também história familiar de acidente vascular encefálico,doença arterial coronariana prematura (homens <55 anos, mulheres <65 anos); morte prematura e súbita de familiares próximos. - Perfi l psicossocial : Fatores ambientais e psicossociais, sintomas de depressão, ansiedade e pânico, rede familiar, condições de trabalho e grau de escolaridade. - A v a l i a ç ã o d e c o n s u m o alimentar: Incluindo consumo de sal, gordura saturada e cafeína. - Consumo de álcool: Consumo diário médio de 30 g de etanol, quantidade presente em duas doses de destilados, em duas garrafas de cerveja ou em dois copos de vinho, há aumento difuso e exponencial da pressão arterial em homens. Para mulheres, as quantidades de risco correspondem a metade destes valores. - Medicações em uso: Consumo de medicamentos ou drogas que podem Maria Vitória de Sousa Santos elevar a pressão arterial ou interferir em seu tratamento (corticosteroides, anti-inflamatórios, anorexígenos, antidepressivos, hormônios). A i n d a g a ç ã o s o b r e o u s o d e a n t i c o n c e p c i o n a i s h o r m o n a i s combinados não deve ser esquecida, dada a frequente associação entre seu uso e a elevação da pressão arterial. - Práticas corporais e atividade física. 2. Exame físico: - M e d i d a s a n t r o p o m é t r i c a s : Obtenção de peso e altura para cálculo do índice de massa corporal (IMC) e aferição da cintura abdominal (CA) - I n s p e ç ã o : F á c i e s e a s p e c t o s sugestivos de hipertensão secundária. Ex.: Cushing. - Medida da PA e frequência cardíaca: Duas medidas de PA, separadas por, pelo menos, um minuto, com paciente em posição sentada. Em pacientes com suspeita de hipotensão postural (queda de PAS ≥2mmHg e PAD ≥10mmHg) e/ou idosos, recomenda-se verificar a PA também nas posições deitada e em pé. - Pescoço: Palpação e ausculta das artérias carótidas, verificação de turgência jugular e palpação de tireoide. - Exame do precórdio e ausculta cardíaca: O sinais sugestivos de hipertrofia miocárdica: característica impulsiva do ictus, mas sem desvios da linha hemiclavicular até ocorrer dilatação ventricular, pela presença de quarta bulha e de hiperfonese da segunda bulha; ictus sugestivo de hipertrofia ou dilatação do ventrículo esquerdo: arritmias; terceira bulha: sinaliza disfunção sistólica do ventrículo esquerdo; quarta bulha: sinaliza presença de disfunção diastólica do ventrículo esquerdo, hiperfonese de segunda bulha em foco aórtico, além de sopros nos focos mitral e aórtico. - Exame do pulmão: Ausculta de estertores, roncos e sibilos. - Exame do abdômen: A palpação dos rins e a ausculta de sopros em área renal objet ivam detectar hipertensão secundária a r ins policísticos e obstrução de artérias renais. - Extremidades: Palpação de pulsos braquiais, radiais, femorais, tibiais posteriores e pediosos. A diminuição da amplitude ou retardo do pulso das artérias femorais sugerem coarctação da aorta ou doença arterial periférica. O exame dos pulsos periféricos avalia a repercussão da aterosclerose, por meio da presença de obstruções. Se houver diminuição acentuada e bilateral dos pulsos femorais, a medida da pressão arterial nos membros inferiores deve ser realizada para afastar o diagnóst ico de coarctação da aorta; avaliação de edema. - E x a m e d e f u n d o d o o l h o : Identificar estreitamento arteriolar, c r u z a m e n t o s a r t e r i o v e n o s o s patológicos, hemorragias, exsudatos e papiledema. Os achados de fundo de olho, como exsudatos e hemorragias retinianas e papiledema, indicam m a i o r r i s c o c a r d i o v a s c u l a r e h i p e r t e n s ã o a c e l e r a d a , respectivamente, condições que i n f l u e n c i a m d i r e t a m e n t e n a e s t r a t i f i c a ç ã o d o r i s c o e n a terapêutica. - Detectar déficits: Motores ou sensoriais no exame neurológico. 3. Avaliação laboratorial: - Eletrocardiograma; - Dosagem de glicose; - Dosagem de colesterol total; - Dosagem de colesterol HDL; - Dosagem de triglicerídeos; - Cálculo do LDL = Colesterol total - HDL- colesterol - (Triglicerídeos/5); - Dosagem de creatinina; - Anál i se de caracteres f í s i cos , elementos e sedimentos na urina (Urina tipo 1); - Dosagem de potássio; - Fundoscopia. ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO CARDIOVASCULAR Maria Vitória de Sousa Santos • Está amplamente estabelecida a relação causal, linear e contínua entre o aumento da pressão arterial (PA) e o risco de doença cardiovascular (DCV) em ambos os sexos, todas as idades e todos os grupos étnicos. • Assim, quantificar o risco do paciente hipertenso, ou seja, a probabilidade de determinado indivíduo desenvolver DCV em um determinado período de tempo é parte essencial do processo e pode nortear estratégias preventivas e de tratamento. F a t o r e s d e r i s c o c o e x i s t e n t e s n a hipertensão arterial: - Sexo masculino; - Idade: > 55 anos no homem e > 65 anos na mulher; - DCV prematura em parentes de 1° grau (homens < 55 anos e mulheres < 65 anos); - Tabagismo; - Dislipidemia: LDL-colesterol ≥100mg/ dL e/ou não HDL-colesterol 130 mg/dL e/ou HDL-colesterol ≤ 40mg/dL no homem e ≤ 46mg/dL na mulher e/ou TG > 150 mg/dL; - Diabetes melito; - Obesidade (IMC ≥ 30 kg/m2). Lesões em órgãos alvos: HIPERTENSÃO SECUNDÁRIA • Hipertensão secundária é a elevação da pressão arterial em consequência de outra condição patológica. Característ icas sugestivas de HAS secundária: 1. Início súbito da HAS antes dos 30 anos ou após os 50 anos. 2. HAS estágio II e/ou resistente à terapia. 3. Aumento da creatinina sérica. 4. Hipopotassemia sérica espontânea, m e n o r q u e 3 , 0 m e q / l (hiperaldosteronismo primário). 5. Exame de urina tipo 1 apresentando proteinúria ou hematúria acentuada. 6. Presença de massas ou sopros abdominais. 7. Uso de fármacos indutores do aumento da pressão arterial (anticoncepcional oral, corticoides, anti-inflamatórios não esteroides, descongestionantes nasais , supressores de apetite , antidepressivos tricíclicos, tetracíclicos e inibidores da monoamina oxidase). 8. T r í a d e d o f e o c r o m o c i t o m a : palpitações, sudorese e cefaleia em crise. 9. Acromegalia: aumento da língua, ganho de peso, hipersonolência, alterações de fácies e de extremidades. 10. Síndrome de Cushing: ganho de peso, hirsutismo, edema e fácies típicos. 11. Diminuição ou retardo da amplitude do pulso femural e dos membros superiores (coarctação da aorta). As causas de HAS secundária podem ser divididas em categorias: 1. Causas renais: rim policístico, doenças parenquimatosas. 2. Causas renovasculares: coarctação da aorta, estenose da artéria renal. 3. C a u s a s e n d ó c r i n a s : Feocromocitoma, hiperaldosteronismo primário, síndrome de Cushing, hipertireoidismo, hipotireoidismo, acromegalia. 4. Causas exógenas: drogas, álcool, tabagismo (especialmente em grandes quantidades), cafeína, intoxicação química por metais pesados. TRATAMENTO • O objetivo do tratamento é a manutenção de níveis pressóricos controlados conforme as características do paciente e tem por finalidade reduzir o risco de doenças cardiovasculares, diminuir a m o r b i m o r t a l i d a d e e m e l h o r a r a qualidade de vida dos indivíduos. Metas pressóricas: Maria Vitória de Sousa Santos 1. Paciente com baixo ou moderado risco cardiovascular: PAS <140 mmHg e PAD <90 mmHg. 2. Paciente com alto risco cardiovascular: PAS 120-129 mmHg e PAD <70-79 mmHg. NÃO MEDICAMENTOSO 1. Redução da ingestão de bebidas alcoólicas; 2. Substituição de anticoncepcionais hormonais orais por outros métodos contraceptivos; 3. Redução do peso;4. Controle do estresse; 5. Cessação do tabagismo; 6. Boa alimentação (Consumir dieta pobre em gordura, em especial saturada e rica em frutas, vegetais e laticínios com baixo teor de gordura); 7. Prática de exercícios físicos. TRATAMENTO MEDICAMENTOSO • A decisão de quando iniciar medicação anti-hipertensiva deve ser considerada avaliando a preferência da pessoa, o seu grau de motivação para mudança de estilo de vida, os níveis pressóricos e o risco cardiovascular. MONOTERAPIA • A monoterapia pode ser a estratégia anti- hipertensiva inicial para pacientes com HA estágio 1 com risco CV baixo ou com PA 130-139/85-89 mmHg de risco CV alto ou para indivíduos idosos e/ou frágeis. As classes de anti-hipertensivos consideradas preferenciais para o controle da PA em monoterapia inicial são: 1. DIU tiazídicos ou similares; 2. ВСС; 3. IECA; 4. BRA. TRATAMENTO COMBINADO • Deve-se considerar iniciar o tratamento com dois anti-hipertensivos naqueles pacientes cuja hipertensão arterial esteja em nível 2 ou 3 ou estágio 1 com risco cardiovascular de moderado a alto. O b s e r v a ç ã o : A p r e s s ã o - a l v o n o tratamento anti-hipertensivo não está claramente delimitada, mas se aceita que deva ser inferior a 140/90 mmHg em pacientes sem diabetes. Para estes, as diretrizes recomendam pressão inferior a 130/80 mmHg . Maria Vitória de Sousa Santos INDICAÇÕES DAS CLASSES MEDICAMENTOSAS PRINCIPAIS EFEITO ADVERSOS INFORMAÇÕES RELEVANTES 1. N ã o s e i n d i c a o u s o d e betabloqueadores como droga de primeira linha no tratamento da HAS. 2. A associação de IECAs com BRA deve ser evitada, pois aumenta a incidência de disfunção renal. 3. Uma pessoa hipertensa com crises f requentes de enxaqueca pode beneficiar-se do betabloqueador, já que, além do controle da pressão, pode Indicações Classe medicamentosa Insuficiência cardíaca Diuréticos, betabloqueadores, inibidores da enzima conversora de angiotensina ou antagonistas da angiotensina Ii, antagonistas de aldosterona. Pós-infarto do miocárdio Inibidores da enzima conversora da angiotensina, antagonistas da aldosterona. Alto risco para doença coronariana Betabloqueadores, inibidores da enzima conversora da angiotensina, bloqueadores dos canais de cálcio. Diabetes Inibidores da enzima conversora da angiotensina, antagonistas da angiotensina Il, bloqueadores dos canais de cálcio. Doença renal crônica Inibidores da enzima conversora da angiotensina, antagonistas da angiotensina Il. Prevenção da recorrência de acidente vascular encefálico (AVE) Diurético, inibidores da enzima conversora de angiotensina. em idosos Hipertensão sistólica isolada Diuréticos (preferencialmente) ou bloqueadores dos canais de cálcio. Classe farmacológica Efeitos adversos Diuréticos Hipopotassemia, hiperuricemia, intolerância à glicose, aumento do risco de aparecimento do diabetes mellitus, além de promover aumento de triglicerídeos em geral, dependendo da dose. Betabloqueadores Broncoespasmo, bradicardia, distúrbios da condução atrioventricular, vasoconstrição periférica, insônia, pesadelos, depressão psíquica, astenia e disfunção sexual. Antiadrenérgicos de ação central Antiadrenérgicos de ação Sonolência, sedação, boca seca, fadiga, hipotensão postural e disfunção sexual. Bloqueadores doscanais de cálcio Cefaleia, tontura, rubor facial - mais frequente com diidropiridínicos de curta duração - e edema de extremidades, sobretudo maleolar. Estes efeitos adversos, são, em geral, dose-dependentes. Mas Bloqueadores seletivos dos raramente, podem induzir a hipertrofia gengival. Os diidropiridínicos de ação curta provocam importante estimulação simpática reflexa, sabidamente deletéria para o sistema cardiovascular. Verapamil pode provocar depressão miocárdica e bloqueio atrioventricular, além da obstipação instenstinal. Vasodilatadores diretos Agentes que atuam no pela vasodilatação arterial direta promovem retenção hídrica e taquicardia reflexa. Inibidores da conversora de angiotensina (leca) Tosse seca, alteração de paladar e, mais raramente, reações de hipersensibilidade, com erupção cutânea e edema angioneurótico. Em indivíduos com insuficiência renal crônica, podem eventualmente, enzima agravar a hiperpotassemia. Em pessoas com hipertensão renovascular bilateral ou unilateral associada a rim único, podem promover redução da filtração glomerular com aumento dos níveis séricos da ureia e creatinina. Seu uso em pessoas com função renal reduzida pode causar aumento de até 30% da creatininemia, mas, a longo prazo, preponderá seu efeito nefroprotetor. Antagonistas de receptores de angiotensina Il Foram relatadas tontura e, raramente, reação de hipersensibilidade cutânea (Rash). As precauções para seu uso são semelhantes às descritas para os lecas. Maria Vitória de Sousa Santos oferecer profilaxia para as crises de enxaqueca. 4. Para pacientes negros, desde que não h a j a c o n t r a i n d i c a ç õ e s , d á - s e preferência para o uso de diuréticos e bloqueadores de canais de cálcio. 5. Em pessoas com diabetes melito (DM) ou doença renal crônica (DRC), os IECAs e os BRAs são a preferência devido ao seu efeito nefroprotetor. ÁRVORE DE DECISÃO FREQUÊNCIA DE ACOMPANHAMENTO E EXAMES A frequência de acompanhamento da pessoa hipertensa sugerida pelo Caderno de Atenção Básica é baseada no risco cardiovascular de base:18 1. Baixo risco cardiovascular (< 10% em 10 anos): consulta anual com médico e enfermeiro. 2. Risco moderado (10-20% em 10 anos): consultas semestrais com médico e enfermeiro. 3. Alto risco (> 20% em 10 anos): consulta a cada 4 meses. URGÊNCIA HIPERTENSIVA • Uma situação muito comum na APS é o médico ser chamado às pressas por algum membro da equipe para atender uma pessoa na sala de emergência. Quando chega, encontra um paciente assintomático, porém com pressão “muito alta”(180x110 mmHg). • Por mais que tal valor possa causar espanto, alguns estudos mostram que essa situação é comum em pacientes ambulatoriais e que na ausência de sinais objetivos de lesão de órgão-alvo, a pessoa pode ser manejada na APS com segurança. Quando a pessoa estiver na UBS com PA elevada, sem sintomas específicos de lesão de órgão-alvo, a proposta é: 1. Tranquilizar a pessoa e a equipe de atendimento. 2. Verificar o motivo de medida de pressão: algum sintoma específico? Rotina? Mediu em outro local e se assustou? 3. Tratar causas de elevação de PA, como dor e ansiedade, as quais são d e n o m i n a d a s p s e u d o c r i s e hipertensiva. 4. Checar adesão do paciente ao esquema de medicação anti-hipertensiva, se já for hipertenso crônico diagnosticado. 5. Solicitar medidas de pressão realizadas em outros cenários (p. ex., medidas domiciliares) para melhor avaliar o controle de PA e ajustar a medicação posteriormente, ou excepcionalmente já ajustar as medicações de uso contínuo. 6. Realizar registro adequado e relatório m é d i c o d o a t e n d i m e n t o p a r a s e g u i m e n t o c o m o m é d i c o d e referência do paciente. REFERENCIAMENTO 1. Hipertensão de difícil controle: Com, no mínimo, três medicações de classes diferentes em doses adequadas e após avaliar adesão. 2. H i pe r t e n s ã o s e c u n d á r i a : Dependendo da condição do serviço e da segurança clínica, o médico de ⑭ Maria Vitória de Sousa Santos família e comunidade pode iniciar a investigação na APS e referenciar em um segundo momento. 3. Emergências hipertensivas : Nesses diagnósticos, o papel do médico de família e comunidade é reconhecer a emergência, prestar os cuidados iniciais e referenciar a pessoa ao serviço de emergência. - Infarto agudo do miocárdio e síndromes coronarianas agudas, AVC isquêmico ou hemorrágico, dissecção de aorta, edema agudo de pulmão, encefalopatia hipertensiva e eclâmpsia. ERROS MAIS FREQUENTEMENTE COMETIDOS - Não realizar o diagnóstico de modo c o r r e t o , c o m a c o m p a n h a m e n t o longitudinal e diversas medidas de pressão, preferencialmente domiciliares. - Não abordar o contexto psicossocial da pessoa e investigar causas p a r a aumento d e ansiedade e estresse q u e podem levar ao aumento transitório da PA. - Não tirar dúvidas da pessoa sobre a pressão alta e sobre efeitos colaterais dos medicamentos. - Solicitar exames sem indicação, especialmente investigação mais complexa, como ecocardiograma e Holter. É comum solicitar a "dupla" creatinina e ureia por hábito da formação hospitalar, sendo que a ureia tem valor e m outros cenários, como o d e e m e r g ê n c i a , m a s n ã o n o acompanhamento de rotina de uma pessoa hipertensa. - Referenciar pessoas com pressão muito elevada, mas assintomáticas, a o pronto- socorro. - Prescrever medicamento s e m indicação para hipertensos leves ou para pessoas com elevação transitória d a pressão. Maria Vitória de Sousa Santos DIABETES MELLITUS CONCEITO • Caracterizado por hiperglicemia e d i s t ú r b i o s n o m e t a b o l i s m o d e carboidratos, proteínas e gorduras, resultantes de defeitos da secreção e/ou da ação da insulina. Habitualmente está associado à dislipidemia, hipertensão arterial e disfunção endotelial. TIPOS A classificação proposta pela Organização Mundial da Saúde e pela Associação A m e r i c a n a d e D i a b e t e s ( A D A ) , e recomendada pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), inclui quatro classes clínicas: 1. D M t i p o 1 ( D M 1 ) : P o d e s e r autoimune (Tipo 1A) ou, mais raramente, idiopático (Tipo 1B); d e s t r u i ç ã o d a s c é l u l a s b e t a pancreáticas, resultando em deficiência absoluta de insulina. 2. DM tipo 2 (DM2): Resultante de perda progress iva da secreção adequada de insulina pelas células beta, frequentemente antecedida pela resistência à insulina. 3. Outros tipos específicos de DM: MODY, doenças do pâncreas exócrino (pancreatite, neoplasia, fibrose cística, etc.), endocrinopatias (síndrome de C u s h i n g , a c r o m e g a l i a , feocromocitoma, hipertireoidismo, etc.), induzido por medicamentos ( g l i c o c o r t i c o i d e s , h o r m ô n i o s tireoidianos e outros), infecções (rubéola congênita, CMV), outras s índromes genét icas por vezes associadas ao DM (síndromes de Down, Klinefelter, Turner, Prader- Willi. 4. DM gestacional (DMG): Qualquer alteração glicêmica, de magnitude variável, com início ou diagnosticada durante a gestação, geralmente surgindo a partir da 24ª semana. Observação: Há ainda duas condições, referidas como pré-diabetes, que são a GJ alterada e a tolerância à glicose diminuída, nomeadas atualmente como r isco aumentado de diabetes. FATORES DE RISCO 1. DM tipo 1: - Infecções virais (rubéola congênita, enterovírus, parotidite e sarampo); - Deficiência de vitamina D; - Exposição precoce ao leite bovino e ao trigo; - História familiar (principalmente quando o pai é afetado). 2. DM tipo 2: - Idade > 45 anos. - Sobrepeso (IMC > 25). - O b e s i d a d e c e n t r a l ( c i n t u r a abdominal > 102 cm para homens e >88 cm para mulheres, medida na altura das cristas ilíacas). - Antecedente familiar (mãe ou pai) de diabetes. - Hipertensão arterial (> 140/90 mmHg). - Sedentarismo; - Tabagismo; - C o l e s t e r o l H D L < 3 5 e / o u triglicerídeos > 250. - História de diabetes gestacional. - Diagnóstico prévio de síndrome de ovários policísticos. - D o e n ç a c a r d i o v a s c u l a r o u cerebrovascular periférica definida. QUADRO CLÍNICO Os sinais e sintomas característicos que levantam a suspeita de diabetes são os “quatro P’s”: 1. Poliúria; 2. Polidipsia; 3. Polifagia; 4. Perda inexplicada de peso. Outros sintomas: 1. Cansaço e sono excessivo; 2. Visão embaçada; 3. Aumento do apetite; 4. Falta de energia; 5. Entre outros. Observação: Embora possam estar presentes no DM tipo 2, esses sinais são mais agudos no tipo 1, podendo progredir para cetose, desidratação e acidose metabólica, especialmente na presença de estresse agudo. Observação: No DM tipo 2, o início é insidioso e muitas vezes a pessoa não Maria Vitória de Sousa Santos a p r e s e n t a s i n t o m a s . N ã o i n - frequentemente, a suspeita da doença é feita pela presença de uma complicação tardia, como proteinuria, retinopatia, n e u r o p a t i a p e r i f é r i c a , d o e n ç a arteriosclerótica ou então por infecções de repetição. RASTREAMENTO • A probabilidade de apresentar diabetes ou um estado intermediário de glicemia depende da presença de fatores de risco. Observação: Em algumas circunstâncias, a diferenciação entre o diabetes tipo 1 e o tipo 2 não é simples. Podem ser solicitados níveis de anticorpos anti-GAD e avaliação da reserva de insulina pancreática por meio da medida de peptídeo-C plasmático. - Anticorpos positivos e peptídeo C abaixo de 0,9ng/ml sugerem o diagnóstico de diabetes tipo 1. - Anticorpos negativos e peptídeo C elevado sugerem diabetes tipo 2. DM TIPO 1 • O termo “tipo 1” indica o processo de destruição da célula beta que leva ao estágio de deficiência absoluta de insulina, quando a administração de insulina é necessária para prevenir cetoacidose. • Devido a sua fisiopatologia, os pacientes que recebem o diagnóstico em sua maioria são crianças e adolescentes, sendo uma quantidade muito inferior de adultos (Latent Autoimmune Diabetes of Adults) que desenvolve o DM tipo 1. • O diabetes tipo 1 é um distúrbio catabólico evidenciado por deficiência absoluta de insulina, nível sanguíneo alto de glicose e decomposição das gorduras e das proteínas do corpo. • A deficiência absoluta de insulina dos pacientes com DM tipo 1 significa que eles são especialmente suscetíveis a desenvolver cetoacidose. • Uma das ações da insulina é inibir a l ipólise (i . e. , decomposição das gorduras) e a liberação dos ácidos graxos livres (AGL) dos adipócitos. • Quando o hormônio está ausente, os pacientes entram em cetose quando esses ácidos graxos são liberados dos adipócitos e convertidos em cetonas no fígado. Sinais e sintomas da cetoacidose diabética: 1. Perda de apetite; 2. Sinais e sintomas de hiperglicemia; 3. Hálito de maçã podre; 4. Glicose maior que 240-300 mg/dL, mas pode acontecer com valores de glicose normais ou próximos do normal; 5. Dor abdominal; 6. Confusão mental; 7. Fraqueza exagerada; 8. Falta de ar e respiração profunda. DM TIPO 2 • Costuma ter início insidioso e sintomas mais brandos. • Manifesta-se, em geral, em adultos com longa história de excesso depeso e com história familiar de DM tipo 2. • Inicialmente, a resistência à insulina estimula um aumento de sua secreção, geralmente a um nível que causa hiperinsulinemia modesta, na medida em que as células β tentam manter o nível sanguíneo normal de glicose. • Com o tempo, a demanda aumentada de s e c r eçã o d e i n s u l i n a p r o v o c a esgotamento e falência das células β. Maria Vitória de Sousa Santos • Isso aumenta os níveis sanguíneos de glicose pós prandiais e, por fim, resulta na produção aumentada de glicose pelo fígado. Observação : Com a epidemia de obesidade atingindo crianças, observa-se um aumento na incidência de diabetes em jovens, até mesmo em crianças e adolescentes. Observação: A cetoacidose nesses casos é rara e, quando presente, em geral é ocasionada por infecção ou estresse muito grave. DIABETES GESTACIONAL • É um estado de hiperglicemia, menos severo que o diabetes tipo 1 e 2, detectado pela primeira vez na gravidez. Classificação: 1. Normal: GJ <92 mg/dL; 2. DM gestacional: >/=92 e </=125 mg/dL; 3. DM diagnosticado na gestação: >/ =126 mg/dL. DIAGNÓSTICO Os exames laboratoriais para confirmação do diagnóstico de DM1 incluem: 1. Glicemia aleatória >/=200 mg/dI; 2. Glicemia de jejum >/=126 mg / dI; 3. Hemoglobina glicada >/=6,5%; 4. Glicemia 2 horas após ingestão oral de 75 g de glicose >/=200 mg / dL. FLUXOGRAMA PARA RASTREAMENTO E DIAGNÓSTICO DE DM2 ANAMNESE 1. Identificação: Sexo, idade, raça e condição socioeconômica. 2. História atual: Duração conhecida do DM e controle glicêmico; sintomas (pol idipsia , pol iúria , pol i fagia , emagrecimento, astenia, prurido vulvar ou balanopostite, diminuição brusca da acuidade visual, infecções frequentes), apresentação inicial e evolução dos sintomas, estado atual. 3. Investigação sobre diversos aparelhos e fatores de risco: Dislipidemia, tabagismo, sobrepeso e obesidade, sedentarismo, perda de peso, características do sono, função sexual, dificuldades respiratórias. Queixas sobre infecções dentárias, da pele, de pés e do aparelho genito- urinário; úlcera de extremidades, parestesias, distúrbios visuais. 4. História pregressa: Infarto agudo do miocárdio (IAM) ou acidente vascular cerebral (AVC) prévios; intercorrências metabólicas anteriores (cetoacidose, hiper ou hipoglicemia etc.); passado cirúrgico e história gestacional. 5. História familiar: De diabetes mellitus (pais, filhos e irmãos), doença c a r d i o v a s c u l a r e o u t r a s endocrinopatias. 6. Perfil psicossocial: Hábitos de vida (incluindo uso de álcool e outras drogas), condições de moradia, t r a b a l h o , i d e n t i f i c a ç ã o d e vulnerabilidades, como analfabetismo e déficit cognitivo, potencial para autocuidado, rede de apoio familiar, entre outros. 7. Avaliação de consumo alimentar: Incluindo o consumo de doces e açúcar, sal, gordura saturada e cafeína. 8. Medicações em uso : Uso de medicações que alteram a glicemia ( t i a z í d i c o s , b e t a b l o q u e a d o r e s , corticosteroides, contraceptivos hormonais orais, por exemplo); tratamentos prévios e resultados. 9. Prática de atividade física. EXAME FÍSICO 1. M e d i d a s a n t r o p o m é t r i c a s : Obtenção de peso e altura para cálculo ↑ Maria Vitória de Sousa Santos do índice de massa corporal (IMC) e aferição da cintura abdominal (CA). 2. Exame da cavidade oral: Atenção p a r a a p r e s e n ç a d e g e n g i v i t e , problemas odontológicos e candidíase. 3. Medida da PA e frequência cardíaca: Duas medidas de PA, separadas por, pelo menos, um minuto, com paciente em posição sentada. 4. Pescoço : Palpação de t ireoide (quando DM tipo 1). 5. Exame dos pés: Lesões cutâneas (infecções bacterianas ou fúngicas), e s t a d o d a s u n h a s , c a l o s e deformidades. Avaliação dos pulsos arteriais periféricos e edema de m e m b r o s i n f e r i o r e s ; e x a m e neurológico sumário. 6. Exame de fundo do olho; 7. Ausculta cardíaca e pulmonar. ROTINA COMPLEMENTAR MÍNIMA 1. Glicemia de jejum e HbA1C; 2. C o l e s t e r o l t o t a l ( C T ) , H D L e triglicerídeos (TG); 3. Creatinina sérica; 4. Exame de urina tipo 1 e, se necessário, m i c r o a l b u m i n ú r i a o u r e l a ç ã o albumina/creatinina; 5. Fundoscopia. METAS GLICÊMICAS • É necessário manter a glicemia em níveis aceitáveis, que sejam capazes de reduzir os riscos de complicações da doença, mas que não aumentem muito o risco de desenvolvimento de hipoglicemia. Classificação do estado clínico do idoso: TRATAMENTO NÃO MEDICAMENTOSO • Todas as pessoas com DM, independente dos níveis glicêmicos, deverão ser orientados sobre a importância da adoção de medidas para MEV para a efetividade do tratamento. Consiste na adoção de hábitos de vida saudáveis: 1. Alimentação equilibrada; 2. Prática regular de atividade física; 3. Moderação no uso de álcool e abandono do tabagismo. TRATAMENTO MEDICAMENTOSO Fármacos e/ou insulina. 1. Sulfonilureias: A principal ação consiste em aumentar a liberação de insulina do pâncreas. Isso ocorre mediante ligação a um receptor de sulfonilureia de alta afinidade que está associado a um canal de potássio sensível ao ATP. A ligação de uma sulfonilureia inibe o efluxo de íons de potássio através do canal, com consequente despolarização celular. A despolarização faz com que os canais de cálcio regulados por voltagem sejam abertos, resultando em influxo de cálcio e liberação de insulina pré- f o r m a d a . E x : G l i b e n c l a m i d a , a c e t o e x a m i d a , t o l a z a m i d a , clorpropamida, etc. Observação: Não devem ser usados por pacientes com disfunção renal. 2. Biguanidas: As biguanidas atuam ao aumentar a sensibilidade à insulina. O alvo molecular das biguanidas parece ser a proteinocinase dependente de AMP (AMPPK [AMP-dependent protein kinase]. As biguanidas ativam a AMPPK, bloqueando a degradação dos á c i d o s g r a x o s i n i b i n d o a gliconeogênese e a glicogenólise hepáticas. Os efeitos secundários Saudável Comprometido Muito Comprometido Poucas comorbidade crônicas Estado funcional preservado Estado cognitivo preservado Múltiplas comorbidades crônicas* Comprometiment o funcional leve a moderado Comprometiment o cognitivo moderado Doença terminal** Comprometiment o funcional grave Comprometiment o cognitivo grave Maria Vitória de Sousa Santos incluem aumento da sinalização da insulina (isto é, atividade aumentada do receptor de insulina), bem como aumento da responsividade metabólica do fígado e do músculo esquelético. O efeito adverso mais comum consiste em leve desconforto gastrintestinal. Ex: Metformina. 3. Inibidores da alfa-glicosidase: As glicosidases — maltase, isomaltase, sacarase e glicoamilase — ajudam no processo de absorção através da clivagem dos carboidratos complexos, p r o d u z i n d o g l i c o s e . A o i n i b i r reversivelmente essas enzimas, os inibidores da alfa- glicosidase aumentam o tempo necessário para a absorção de carboidratos como amido, dextrina e dissacarídios. Esses fármacos também aumentam a área de superfície intestinal para absorção, visto que os carboidratos que teriam sido absorvidos na parte superior do intestino sofrem absorção— em quantidades menores — em toda a extensão do intestino delgado. Por conseguinte, esses fármacos ajudam a reduzir o pico pós-prandial da glicemia. Ex: Acarbose. 4. Análogos do GLP-1: Os agonistas do receptor de GLP-1 apresentam vários modos de ação que beneficiam pacientes com diabetes: aumenta a secreção de insulina pelas células do pâncreas, particularmente quando os níveis de glicose estão elevados; suprime a secreção de glucagon pelas células do pâncreas, retarda o esvaziamento gástrico (e, portanto, diminui a velocidade de entrada dos nutrientes da circulação); e diminui o apetite. Ex: Semaglutida, enexatida. 5. T i a z o l i d i n e d i o n a s ( T Z D ) : Melhoram o controle da glicemia, porque aumentam a sensibilidade dos tecidos periféricos à ação da insulina – fígado, músculos esqueléticos e gordura – possibi l i tando- lhes responder à insulina endógena com mais eficiência, sem aumentar a demanda imposta às células β que já se e n c o n t r a m d i s f u n c i o n a i s . E x : pioglitazona e a rosiglitazona. 6. I n i b i d o r e s d a e n z i m a dipeptidilpeptidase 4 (DDP4): As incretinas atuam estimulando a secreção de insulina pelas células β. As incretinas principais secretadas são GLP1 e polipeptídio insulinotrópico glicosedependente (GIP). A enzima DPP4 degrada rapidamente o GLP1 e o GIP. Os inibidores dessa enzima atuam por inibição enzimática e aumentam os níveis de GLP1 e GIP que, em seguida, aumentam a secreção de insulina. Além disso, a GLP1 ajuda a suprimir a secreção de glucagon. O primeiro fármaco oral desse grupo – sitagliptina – outros fármacos – saxagliptina e linagliptina. Maria Vitória de Sousa Santos TRATAMENTO DO DM2 COM MEDICAÇÕES DISPONÍVEIS NO SUS PROGNÓSTICO E COMPLICAÇÕES POSSÍVEIS • O diabetes mellitus (DM) não controlado pode provocar, a longo prazo, disfunção e f a l ê n c i a d e v á r i o s ó r g ã o s , especialmente rins, olhos, nervos, coração e vasos sanguíneos. • É considerado causa de cegueira, insuficiência renal e amputações de membros, sendo responsável por gastos e x p r e s s i v o s e m s a ú d e , a l é m d e substancial redução da capacidade de trabalho e da expectativa de vida. • As complicações do DM podem ser classificadas em complicações agudas (hipoglicemia, cetoacidose e coma hiperosmolar) e crônicas, como a retinopatia, a nefropatia, e a neuropatia diabéticas. Complicações: 1. Pé diabetico (difícil cicatrização); 2. Retinopatia; 3. Nefropatia; 4. AVC; 5. Cardiopatias; 6. Disfunção sexual; 7. Neuropatia; 8. Entre outros. Maria Vitória de Sousa Santos DISPEPSIA E DRGE DISPESIA • Dispepsia é conhecida popularmente como “má digestão”. É caracterizada pela presença recorrente ou persistente de dor ou desconforto epigástrico não relacionado ao uso de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) e acompanhado, ou não, de sensação de saciedade precoce, náuseas, vômitos, pirose, regurgitação e excessiva eructação. A dispepsia pode ser classificada em: 1. Dismotilidade; 2. Úlcera; 3. Refluxo. DIAGNÓSTICOS ETIOLÓGICOS Diagnósticos etiológicos possíveis, têm-se: 1. Dispepsia funcional (60% dos casos, sendo caracterizada por sintomas presentes por pelo menos 3 meses e ausência de alterações estruturais); 2. Úlcera péptica (Helicobacter pylori); 3. Doença do refluxo gastresofágico; 4. Câncer (raramente). CRITÉRIOS DE ROMA III PARA DISPEPSIA FUNCIONAL ANAMNESE • A história deve ser dirigida para a detecção de sinais de alerta e a presença de sintomas que sugiram diagnósticos diferenciais à síndrome dispéptica, como problemas cardíacos ou biliares. • É importante definir, também, a frequência dos sintomas e a correlação c o m h á b i t o s c o m o c o m e r demasiadamente, ingestão de bebidas alcoólicas ou alimentos específicos e tabagismo, uma vez que sintomatologia eventual é comum e não necessita de tratamento medicamentoso prolongado. Os sinais de alerta são: 1. S a n g r a m e n t o g a s t r i n t e s t i n a l significativo; 2. Disfagia progressiva; 3. Perda de peso involuntária; 4. Massa epigástrica; 5. Anemia ferropriva; 6. Vômitos persistentes; 7. Persistência dos sintomas após tratamento empírico com IBP e erradicação de H. pylori. Alguns medicamentos responsáveis por sintomas dispépticos: 1. Anti-inflamatórios não esteroides (AINE); 2. Antagonistas do cálcio; 3. Bifosfonados (osteoporose); 4. Biguanidas; 5. Corticoides; 6. Nitratos e teofilina. EXAME FÍSICO • Geralmente, o exame físico é normal ou com uma dor discreta na região epigástrica. A presença de massa abdominal pode ser indicativa de malignidade e deve ser investigada. EXAMES COMPLEMENTARES Os exames complementares relacionados à invest igação de d ispepsia e mais comumente usados são: 1. Endoscopia digestiva alta (EDA): A EDA é o padrão-ouro para o diagnóstico de lesões estruturais e c o n s e q u e n t e m e n t e d e c a u s a s específicas da dispepsia. Está indicada na abordagem inicial apenas naqueles que apresentarem sinais de alerta para a exclusão de doença orgânica grave. Maria Vitória de Sousa Santos - Para aqueles que serão submetidos à EDA, deverá ser suspenso o uso de IBP e antagonistas H2 2 semanas antes da realização do e x a m e ( B ) , p o i s e s s e s medicamentos podem diminuir a sensibilidade para detecção do H. pylori. 2. Testes para detecção de H. pylori: Para identificar infecção pelo H. pylori sem realização de EDA, as técnicas mais utilizadas são: - Teste respiratório com 13C ureia: A pessoa ingere uréia marcada com carbono-13 ou – 14, e alguns minutos depois são obtidas amostrar do ar exalado. Baseia-se na produção de urease (uma enzima que degrada a uréia) pela bactéria; - Exame sorológico: A sorologia detecta anticorpos IgG específicos para H. pylori. TRATAMENTO O tratamento não farmacológico consiste em: 1. Alimentação saudável; 2. Controle de peso; 3. Suspensão do tabagismo e alcoolismo; 4. Deve-se suspender anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), se possível; 5. Evitar desencadeantes associados a dispepsia e ingestão alimentar em grandes quantidades. TRATAMENTO FARMACOLÓGICO • Autotratamento com antiácidos sob demanda (p. ex., com hidróxido de magnésio + hidróxido de alumínio até seis colheres de sopa por dia) pode ser suficiente para muitos pacientes. • A estratégia inicial na dispepsia não investigada é o tratamento empírico com IBPs, que apresentou melhor resposta e custo- efetividade quando comparado aos antagonistas H2 e antiácidos. • “Testar e tratar” a infecção por H. pylori é mais efetivo do que a realização de EDA e reduz riscos e custos. • É a estratégia recomendada pelo National Institute for Health and Clinical Excellence (NICE) após falha terapêutica do IBP na dispepsia não investigada. • Há evidências de que a erradicação da bactéria aumenta a taxa de melhora dos sintomas e/ou diminui a sua recorrência nas principais causas de dispepsia. Medicamentos: A primeira escolha para erradicação de Helicobacter são: - IBPs 2x ao dia + amoxicilina 1.000 mg 2x ao dia + claritromicina 500 mg 2x ao dia por 14 dias. Observação:Substituindo-se amoxicilina por metronidazol 500 mg 2x/dia em caso de alergia à amoxicilina e reduzindo-se claritromicina para 250 mg 2x/dia. DRGE • Define-se por doença do refluxo gastresofágico (DRGE) a presença de sintomas, lesões teciduais, ou ambas as situações, resultantes de refluxo do conteúdo gástrico para o esôfago. Maria Vitória de Sousa Santos • A DRGE é uma afecção crônica, decorrente do fluxo retrógrado de parte do conteúdo gastroduodenal para o esôfago e/ou órgãos adjacentes a ele, acarretando um espectro variável de sintomas e/ou sinais esofagianos e/ou extraesofagianos, associados ou não a lesões teciduais. PATOGENIA • A patogenia está correlacionada à b a r r e i r a e x i s t e n t e n a j u n ç ã o esofagogástrica, que permite a passagem dos alimentos para o estômago e dificulta o refluxo do conteúdo gástrico para o esôfago, sendo influenciada por muitos fatores, um deles sendo o esfíncter esofágico inferior (EEI). • Localizado na porção inferior do esôfago, o EEI é constituído por musculatura lisa especial, capaz de manter uma pressão mais elevada do que a intragástrica. • Mantém, habitualmente, um tônus de 15 a 30 mmHg, que relaxa com a chegada da onda peristáltica desencadeada pela deglutição. • Contudo, o EEI também apresenta relaxamento transitório, independente d a d e g l u t i ç ã o e a s s o c i a d o , frequentemente, ao RGE. A ineficácia do mecanismo de barreira na junção esofagogástrica é o principal fator patogênico do RGE. As teorias dominantes para explicá-la são: 1. Relaxamento transitório do EEI sem a n o r m a l i d a d e a n a t ô m i c a concomitante. 2. Alteração anatômica da junção esofagogástr ica , provavelmente associada à hérnia hiatal. 3. Hipotonia do EEI, sem alteração anatômica associada. FATORES DE RISCO 1. Obesidade; 2. Refeições volumosas antes de deitar; 3. Gravidez; 4. Tabagismo; 5. Alcoolismo; 6. Idade avançada; 7. Pré disposição genética; 8. Uso de terapia hormonal; 9. Estresse; 10. Doença de chagas; 11. Atraso do esvaziamento gástrico; 12. Volume gástrico aumentado; 13. Hérnia de hiato (presença de secreção gástrica no estômago herniado, sem clareamento adequado). MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS 1. Azia; 2. Pirose (sensação de queimação retroesternal que se irradia do manúbrio do esterno à base do pescoço, podendo atingir a garganta); 3. Empanzinamento; 4. Regurgitação; 5. Eructações; Sintomas atípicos: 1. Esofagianas: Dor torácica sem evidência de enfermidade coronariana (dor torácica não cardíaca). 2. Pulmonares: Asma, tosse crônica, hemoptise, bronquite, bronquiectasia e pneumonias de repetição. 3. O t o r r i n o l a r i n g o l ó g i c a s : Rouquidão, pigarro (clareamento da garganta), laringite posterior crônica, sinusite crônica, otalgia. 4. Orais: Desgaste do esmalte dentário, halitose e aftas. SINAIS DE ALARME 1. > 45 anos; 2. Odinofagia; 3. Disfagia; 4. Sangramento; 5. Anemia, 6. Emagrecimento; 7. Náuseas; 8. Vômitos; 9. História familiar de câncer; 10. Hemorragia digestiva. COMPLICAÇÕES As complicações mais frequentemente relacionadas ao RGE são: 1. Esofagites leves, moderadas e graves, que variam suas c lass i f icações endoscópicas entre dois parâmetros internacionais: - Savary-Miller (grau 1 – leve; graus 2 e 3 – moderada; graus 4 e 5 – grave) - Los Angeles (grau A – leve; grau B – moderada; graus D e E – grave). Maria Vitória de Sousa Santos 2. Esôfago de Barrett (EB) - consiste na substituição do epitélio escamoso esofágico, em geral de sua posição distal, por epitélio colunar glandular contendo células calciformes; Pode evoluir para adenocarcinoma. 3. Estenose péptica; 4. Hemorragia. DIAGNÓSTICO • O diagnóstico do refluxo gastresofágico baseia-se principalmente na história de s i n t o m a s d e r e f l u x o ( p i r o s e e regurgitação >/ = 2x por semana por 4-8 semanas) e nos exames diagnósticos opcionais. EXAMES COMPLEMENTARES N a g r a n d e m a i o r i a d o s c a s o s , a investigação complementar deve ser solicitada nas seguintes condições: 1. Ausência de resposta ao tratamento. 2. Manifestações de alarme: disfagia, odinofagia, anemia, hemorragia digestiva e emagrecimento, história familiar de câncer, náuseas e vômitos, dor torácica, além de sintomas de grande intensidade e/ou de ocorrência noturna. 3. Sintomas crônicos (lembrar-se da possibilidade de EB). 4. N e c e s s i d a d e d e t r a t a m e n t o continuado. Os exames solicitados são: 1. Endoscopia digestiva alta e biópsia: É o método de escolha para o diagnóstico das lesões causadas pelo RGE. Sendo um exame essencialmente morfológico, identifica as alterações causadas pelo refluxo, presença de hérnia hiata l ou exc lui outras enfermidades. Ademais, possibilita r e a l i z a r b i ó p s i a d a m u c o s a , imprescindível para o diagnóstico de EB. A EDA é o método mais sensível e específico para o diagnóstico de esofagite erosiva, mas não de refluxo. Deve-se ressaltar que a ausência de alterações endoscópicas não exclui o diagnóstico de DRGE. 2. pHmetria prolongada de 24h: A pHmetria prolongada monitora por 24 h o r a s o p H i n t r a e s o f á g i c o , considerando-se haver RGE quando ocorrer queda do pH abaixo de 4. É utilizada para confirmar a presença de RGE em pessoas com sintomas persistentes e sem lesões esofágicas à endoscopia, com dor torácica não c a r d í a c a , c o m m a n i f e s t a ç õ e s pulmonares ou da via aérea superior associadas ao RGE e para monitorar a presença de refluxo em pessoas com sintomas refratários. É considerada como padrão-ouro para o diagnóstico da DRGE, mas a pHmetria é sujeita a críticas, pois tem demonstrado haver v a r i a ç õ e s s i g n i f i c a t i v a s n a sensibilidade do método. Ainda assim, trata-se do melhor procedimento para caracterizar RGE. Por meio da avaliação pHmétrica, é possível quantificar a intensidade da exposição da mucosa esofágica ao ácido. O refluxo é considerado patológico quando o pH intraesofágico se mantém abaixo de 4 por mais de 4% do tempo total da duração do exame. Indica-se a realização do exame de pHmetria de 24 horas para: - Pessoas com sintomas típicos de DRGE que não apresentam resposta satisfatória ao tratamento com inibidor da bomba de prótons (IBP) e nos quais o exame endoscópico não revelou dano à mucosa esofágica. Nesses casos, o exame deve ser realizado na vigência da medicação. - Pessoas com manifestações atípicas extraesofágicas sem presença de esofagite. 3. E s o f a g o m a n o m e t r i a : A esofagomanometria é o registro das pressões geradas no interior do esôfago. Não tem papel diagnóstico no RGE, mas é utilizada para avaliar a peristalse e a competência do EEI. A alteração mais característica é a redução da pressão de repouso do EEI a valores abaixo de 10 mmHg, sendo que valores abaixo de 6 mmHg têm alta especificidade para o diagnóstico da doença. Na prática clínica, recomenda- se solicitar manometria para orientar a Maria Vitória de Sousa Santos correta colocação dos sensores do equipamento usado para determinar a pHmetria e no pré-operatório de cirurgia antirrefluxo quando se necessita conhecimento prévio da atividade motora do esôfago. A principal indicação atualse refere à investigação de peristalse ineficiente do esôfago em pessoas com indicação de tratamento cirúrgico. 4. Exame radiológico contrastado do esôfago: O exame radiológico, embora seja muito difundido e apresente custo relativamente baixo, não está indicado na rotina de investigação da DRGE, pois apresenta baixa sensibilidade, em particular nos casos de esofagite leve. As principais informações que o exame radiológico pode oferecer se referem à avaliação da anatomia esofágica, como nas lesões estenosantes do esôfago, e alterações motoras pelo achado de ondas terciárias e espasmos do órgão. A indicação do método radiológico no diagnóstico da DRGE está restrita ao esclarecimento do significado da disfagia e da odinofagia. TRATAMENTO TRATAMENTO CLÍNICO • Com propósitos práticos, pode-se dividir a abordagem terapêutica em medidas comportamentais e farmacológicas, que d e v e r ã o s e r i m p l e m e n t a d a s concomitantemente em todas as fases da enfermidade. Medidas comportamentais no tratamento do refluxo gastresofágico: 1. Instruir a pessoa sobre RGE, por meio do método clínico centrado na pessoa, fornecendo-lhe material informativo/ ilustrativo de acordo com a realidade local do atendimento. 2. Elevar a cabeceira da cama (15 cm). 3. Moderar a ingestão dos seguintes alimentos, dependendo da correlação com os sintomas: gordurosos, cítricos, café, bebidas alcoólicas, bebidas gasosas, menta, hortelã, produtos à base de tomate, chocolate, chimarrão. 4. T e r c u i d a d o s e s p e c i a i s c o m medicamentos potencialmente “de risco”, como colinérgicos, teofilina, BCCs, alendronato de cálcio. 5. Evitar deitar-se nas 2 horas posteriores às refeições. 6. Evitar refeições copiosas. 7. Suspender o fumo. 8. Reduzir o peso corporal em obesos. TRATAMENTO FARMACOLÓGICO Vários fármacos podem ser utilizados no tratamento da DRGE. Maria Vitória de Sousa Santos IBPS • Atualmente, as medicações de primeira escolha são os IBPs, que inibem a produção de ácido pelas células parietais do estômago, reduzindo a agressão do esôfago representada pelo ácido. • O omeprazol é o IBP largamente empregado em nosso país, sendo fornecido gratuitamente pelo Ministério da Saúde para a população de baixa renda. • Os IBPs em dose plena devem constituir o tratamento de escolha inicial por período de 4 a 8 semanas. ANTAGONISTAS DOS RECEPTORES DE H2 • Os antagonistas dos receptores H2 da histamina e os procinéticos são considerados medicações de segunda escolha. • Eles atuam bloqueando os receptores da histamina existentes nas células parietais, reduzindo a secreção de ácido. • Os mais usados são a ranitidina, a famotidina, a cimetidina e a nizatidina. PROCINÉTICOS • Os procinéticos têm a propriedade de acelerar o esvaziamento gástrico, porém não exercem ação sobre os relaxamentos transitórios do EEI. • O s m a i s e m p r e g a d o s s ã o a metoclopramida e a domperidona, devendo ser indicados quando o componente de gastroparesia estiver presente. TRATAMENTO CIRÚRGICO O tratamento cirúrgico deve ser reservado para casos muito específicos, embora as indicações do tratamento cirúrgico da DRGE não complicada possam ser consideradas nas seguintes situações: 1. P e s s o a s q u e n ã o r e s p o n d e m satisfatoriamente ao tratamento c l ín ico , inc lus ive aquelas com manifestações atípicas, cujo refluxo foi devidamente comprovado. 2. Pessoas para as quais é exigido tratamento de manutenção com IBP, especialmente aquelas com menos de 40 anos de idade. 3. Casos em que não é possível a continuidade do tratamento de m a n u t e n ç ã o , p o r e x e m p l o , n a i m p o s s i b i l i d a d e d e a r c a r financeiramente com os custos do tratamento clínico em longo prazo. 4. A cirurgia antirrefluxo pode ser convencional ou laparoscópica, sendo, a m b a s , o p e r a ç õ e s d e fundoplicatura.2.Ambas as técnicas são equivalentes no que diz respeito ao desaparecimento dos sintomas, com base em observações por períodos de até 3 anos. H Maria Vitória de Sousa Santos ATENÇÃO À SAÚDE DO HOMEM POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO INTEGRAL À SAÚDE DO HOMEM (PNAISH) • A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) foi instituída por meio da Portaria n° 1.944, de 27 de agosto de 2009, e, destaca-se por ser um programa pioneiro dentre os países da América Latina, lançado após 20 anos de implantação do Sistema Único de Saúde no Brasil (SUS). Em que se visa abranger a faixa etária de 20 a 59 anos, melhorando a assistência oferecida aos homens por meio de ações de informação, proteção e promoção da saúde assim como tratamento e recuperação de agravos, além de uma mudança cultural no que diz respeito ao comportamento masculino nessa área Para alcançar seu objetivo, a PNAISH deve ser desenvolvida a partir de cinco (5) eixos temáticos: 1. Acesso e Acolhimento: Objetiva reorganizar as ações de saúde, por meio de uma proposta inclusiva, na qual os homens considerem os serviços de saúde também como espaços masculinos e, por sua vez, os serviços reconheçam os homens como sujeitos que necessitam de cuidados e acesso à saúde; 2. S a ú d e S e x u a l e S a ú d e Reprodutiva: Promove a abordagem às questões sobre a sexualidade masculina, nos campos psicológico, biológico e social. Busca respeitar o direito e a vontade do indivíduo de planejar, ou não, ter filhos; 3. Paternidade e Cuidado: Busca sensibilizar gestores (as), profissionais de saúde e a sociedade em geral sobre os benefícios da participação ativa dos homens no exercício da paternidade em todas as fases da gestação e nas ações de cuidado com seus (suas) filhos ( a s ) , d e s t a c a n d o c o m o e s t a participação pode contribuir a saúde, bem-estar e fortalecimento de vínculos saudáveis entre crianças, homens e suas (seus) parceiras (os); 4. D o e n ç a s p r e v a l e n t e s n a população masculina: Reforça a importância da atenção primária no c u i d a d o à s a ú d e d o s h o m e n s , facilitando e garantindo o acesso e a qualidade dos cuidados necessários para lidar com fatores de risco de doenças e agravos à saúde mais prevalentes na população masculina; 5. P r e v e n ç ã o d e V i o l ê n c i a s e Acidentes: Visa a conscientização sobre a relação significativa entre a população masculina e violências e a c i d e n t e s . P r o p õ e e s t r a t é g i a s preventivas na saúde, envolvendo profissionais e gestores de saúde e toda a comunidade. OBJETIVOS DA PNAISH Os objetivos da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem: 1. Promover a mudança de paradigmas no que concerne à percepção da população masculina em relação ao cuidado com a sua saúde e a saúde de sua família; 2. Captar precocemente a população masculina nas atividades de prevenção p r i m á r i a r e l a t i v a à s d o e n ç a s cardiovasculares e cânceres, entre outros agravos recorrentes; 3. Organizar, implantar, qualificar e humanizar, em todo o território brasileiro, a atenção integral à saúde do homem; 4. Fortalecer a assistência básica no cuidado com o homem, facilitando e garantindo o acesso e a qualidade da atenção necessária ao enfrentamento dos fatores derisco das doenças e dos agravos à saúde; 5. Capacitar e qualificar os profissionais da rede básica para o correto atendimento à saúde do homem; 6. Implantar e implementar a atenção à saúde sexual e reprodutiva dos homens, incluindo as ações de p l a n e j a m e n t o e a s s i s t ê n c i a à s disfunções sexuais e reprodutivas, com enfoque na infertilidade; 7. Ampliar e qualificar a atenção ao planejamento reprodutivo masculino; . Maria Vitória de Sousa Santos 8. Estimular a participação e a inclusão do homem nas ações de planejamento de sua vida sexual e reprodutiva, enfocando as ações educativas, inclusive no que toca à paternidade; 9. Garantir a oferta da contracepção cirúrgica voluntária masculina nos termos da legislação específica; 10. Promover a prevenção e o controle das doenças sexualmente transmissíveis e da infecção pelo HIV; 11. Garantir o acesso aos serviços especializados de atenção secundária e terciária; 12. Promover a atenção integral à saúde do homem nas populações indígenas, negras, quilombolas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, trabalhadores rurais, homens com deficiência, em situação de risco, e em situação carcerária, entre outros; 13. Estimular a articulação das ações governamentais com as da sociedade civil organizada, a fim de possibilitar o protagonismo social na enunciação das reais condições de saúde da população masculina, inclusive no tocante à ampla divulgação das medidas preventivas; 14. Ampliar o acesso às informações sobre as medidas preventivas contra os agravos e as enfermidades que atingem a população masculina; 15. Incluir o enfoque de gênero, orientação sexual, identidade de gênero e condição étnico-racial nas ações socioeducativas; 16. Estimular, na população masculina, o cuidado com sua própria saúde, visando à realização de exames preventivos regulares e à adoção de hábitos saudáveis; e 17. Aperfeiçoar os sistemas de informação de maneira a possibilitar um melhor monitoramento que permita tomadas de decisões. ÓTICA DE GÊNERO • Gênero se refere “[...] aos atributos, papéis ou funções sociais culturalmente legitimados para indivíduos do sexo m a s c u l i n o e d o s e x o f e m i n i n o , estabelecendo-os com determinados valores sociais diferentes e desiguais entre si”. • Essa categoria de análise pretende superar a diferenciação entre homens e mulheres baseada apenas em suas c a r a c t e r í s t i c a s b i o l ó g i c a s e s e fundamenta pelas marcas do socialmente construído, do caráter relacional e da dimensão de poder. POSSÍVEIS INADEQUAÇÕES DOS SERVIÇOS DE SAÚDE 1. Horário de funcionamento: O horár io de func ionamento das unidades de saúde pode colidir com o horário de trabalho dos homens, o que justificaria a sua ausência. 2. Dificuldades de acesso: Homens não são ausentes, mas sim invisíveis nos serviços de saúde. Os homens estão presentes, mas não percebidos pelos profissionais; não são considerados como sujeitos do cuidado de si ou de terceiros; e não são (ou eram) considerados um destino de políticas públicas. Sem uma estratégia efetiva ou uma mudança de postura para abordar os homens, é difícil reverter essa s i t u a ç ã o , c r i a n d o u m c i c l o d e invisibilidade: os homens vêm pouco ao serviço de saúde, os profissionais de saúde não aprendem como abordá-los, o sistema de saúde não os percebe como usuários e, finalmente, os homens continuam percebendo o serviço de saúde como um “não lugar”e continuam não vindo a consultas. BARREIRAS SOCIOCULTURAIS 1. Estereótipo do homem invulnerável; 2. Sem rede de apoio adequada; 3. Dicotomia = Unidade de saúde é um espaço feminino, ao passo que o bar é refúgio de socialização masculina. CAUSAS DE MORTES As doenças prevalentes na população masculina são: 1. Causas Externas (40,3% foram por homicídios, 30,0 % por acidentes de transporte, 7,4% por suicídios, sendo 22,3% por outras causas); 2. Doenças do Aparelho Circulatório (coronariopatias 40,5%, hipertensão Maria Vitória de Sousa Santos 18,7%, miocardiopatias 1,2%, e outras 39,6%); Homens entre 20-59 anos. 3. Tumores, (cerca de 43,2% de todos os tumores assinalados tem origem no a p a r e l h o d i g e s t i v o , a p a r e l h o circulatório e aparelho urinário); Homens a partir dos 50 anos. - As neoplasias que mais matam homens no Brasil são as de traqueia, brônquio ou pulmões, seguidos desde próstata e de estômago. Em relação às doenças do aparelho digestório, destaca-se as doenças do fígado, responsáveis pela maior parte das mortes entre homens de 25 a 59 anos e, em boa parte, relacionadas à doença alcoólica. Maria Vitória de Sousa Santos ATENÇÃO À SAÚDE DA POPULAÇÃO PRIVADA DE LIBERDADE PNAISP • A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade no Sistema Prisional (PNAISP) é uma política de saúde pública brasileira que foi implementada com o objetivo de garantir e promover a saúde integral da população carcerária. Promove a prevenção e o tratamento de doenças e condições de saúde, a promoção da saúde e a redução de danos. Observação: Entendem-se ainda por pessoa privada de liberdade no sistema prisional os indivíduos maiores de 18 anos custodiados em unidades prisionais. PRINCÍPIOS DA PNAISP 1. Respeito aos direitos humanos e à justiça social. 2. Integralidade da atenção à saúde da população privada de liberdade no conjunto de ações de promoção, proteção, prevenção, assistência, recuperação e vigilância em saúde, executadas nos diferentes níveis de atenção. 3. Equidade, em virtude de reconhecer as diferenças e singularidades dos sujeitos de direitos. 4. Promoção de iniciativas de ambiência humanizada e saudável, com vistas à garantia da proteção dos direitos dessas pessoas. 5. Corresponsabilidade interfederativa quanto à organização dos serviços segundo a complexidade das ações desenvolvidas, assegurada por meio da Rede Atenção à Saúde no território. 6. Valorização de mecanismos de participação popular e controle social nos processos de formulação e gestão de políticas para atenção à saúde das pessoas privadas de liberdade. DIRETRIZES GERAIS DA PNAISP As diretrizes gerais da PNAISP incluem: 1. Promoção da cidadania e inclusão das pessoas privadas de liberdade por meio da articulação com os diversos setores de desenvolvimento social, como educação, trabalho e segurança. 2. Atenção integral resolutiva, contínua e de qualidade às necessidades de saúde da população privada de liberdade no sistema prisional, com ênfase em atividades preventivas, sem prejuízo dos serviços assistenciais. 3. Controle e/ou redução dos agravos mais frequentes que acometem a população privada de liberdade no sistema prisional. 4. Respeito à diversidade étnico-racial, às limitações e às necessidades físicas e mentais especiais, às condições socioeconômicas, às prát icas e concepções culturais e religiosas, ao gênero, à orientação afetiva e à identidade de gênero. 5. Intersetorialidade para a gestão integrada e racional e para a garantia do direito à saúde. OBJETIVOS DA PNAISP 1. Geral: - Busca-se garantir o acesso das pessoas privadas de liberdade no sistema prisional ao cuidado integral no SUS; 2. Específicos: - Promover o acesso das pessoasprivadas de liberdade à Rede de Atenção à Saúde, visando ao cuidado integral; - G a r a n t i r a a u t o n o m i a d o s profissionais de saúde para a realização do cuidado integral das pessoas privadas de liberdade; - Qualificar e humanizar a atenção à saúde no sistema prisional por meio de ações conjuntas das áreas de saúde e da justiça; - Promover as relações intersetoriais com as políticas de direitos humanos, afirmativas e sociais básicas, bem como as de Justiça Criminal; - Fomentar e fortalecer a participação no controle social. PRINCIPAIS AÇÕES DA PNAISP 1. Garantir o acesso à Rede de Atenção à Saúde no território com mais agilidade, equidade e qualidade. Maria Vitória de Sousa Santos 2. Promover ações para promoção de doenças e prevenção de doenças t r a n s m i s s í v e i s , d o e n ç a s n ã o t r a n s m i s s í v e i s e d o s a g r a v o s decorrentes do confinamento. 3. Melhorar as ações de vigilância sanitária na alimentação e nas condições de higiene dentro das unidades prisionais e para garantir a salubridade ambiental. 4. Operar estendendo e aprofundando as ações de todos os programas do Ministério da Saúde. 5. Atuar na prevenção do uso de álcool e de drogas e na reabilitação de usuários. 6. Garantir medidas de proteção, como a vacinação para hepatites, influenza e outras do calendário de adultos. 7. Garantir ações de promoção de saúde bucal (ex.: palestras, escovação e avaliação bucal) e tratamento. 8. Garantir o acesso aos programas de saúde mental, gerais e específicos. 9. Garantir aquisição e repasse de medicamentos da farmácia básica às equipes de Saúde e distribuição de insumos (preservativos, absorventes, entre outros) para as pessoas presas. 10. Multiplicar as unidades básicas de saúde prisional e promover o seu funcionamento na lógica do SUS. EQUIPES DE ATENÇÃO BÁSICA PRISIONAL • Os serviços serão formados por equipes de atenção básica prisional (EABP), que organizarão a saúde intramuros na perspectiva da promoção da saúde, prevenção de agravos, tratamento e seguimento, permitindo que essa população, mediante regulação do SUS, tenha acesso aos serviços de urgências e emergências, à atenção especializada e hospitalar na rede extramuros, sempre que houver necessidade de atenção de maior complexidade. Os serviços e equipes serão definidos de acordo com os seguintes critérios: 1. Número de pessoas privadas de liberdade por unidade prisional; 2. Vinculação dos serviços de saúde a uma unidade básica de saúde no território; 3. Existência de demandas referentes à saúde mental. TIPOS DE EQUIPES DE ATENÇÃO BÁSICA NO SISTEMA PRISIONAL (EABP) 1. EABP I: - C o n t a c o m u m m é d i c o , u m e n f e r m e i r o , u m t é c n i c o d e e n f e r m a g e m o u a u x i l i a r d e enfermagem, um cirurgião dentista e um técnico ou auxiliar de saúde bucal. - Essa equipe deverá atender até 100 pessoas privadas de liberdade e cumprir carga horária mínima de seis horas semanais. 2. EABP II: - C o n t a c o m u m m é d i c o , u m enfermeiro, um técnico ou auxiliar de enfermagem, um cirurgião dentista, um técnico ou auxiliar de saúde bucal, um psicólogo, um assistente social e um profissional de nível superior dentre as seguintes ocupações: fisioterapia, psicologia, assistência social, farmácia, terapia ocupacional, nutrição ou enfermagem. - Essa equipe deverá atender de 101 a 500 pessoas privadas de liberdade e cumprir o mínimo de 20 horas semanais, ficando a cargo do gestor a distribuição da carga horária de cada profissional, não podendo ser inferior a 10 horas semanais. Observação: Às EABP I e II poderá ser acrescentada uma equipe de saúde mental, a depender do perfil epidemiológico da Unidade Prisional. Esta equipe de saúde mental consiste em, no mínimo, um médico psiquiatra (ou médico com experiência em saúde mental) e dois profissionais selecionados entre as seguintes ocupações: f i s ioterapia , psicologia, assistência social, farmácia, terapia ocupacional ou enfermagem . 3. EABP III: - Terá o mesmo perfil da EABP II acrescida, necessariamente, da equipe de saúde mental. - Essa equipe deverá atender de 501 a 1200 pessoas privadas de liberdade e cumprir o mínimo de 30 horas semanais, ficando a cargo do gestor a Maria Vitória de Sousa Santos distribuição da carga horária de cada profissional, não podendo ser inferior a 10 horas semanais. Observação: Os estados, o Distrito Federal e os municípios que aderirem à PNAISP, cadastrarem suas EABP no Sistema de Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (SCNES) e habilitarem no Sistema de Apoio à Implementação de Políticas de Saúde - SAIPS estarão aptos a receber o incentivo financeiro de custeio mensal, que será transferido pelo Fundo Nacional de Saúde aos Fundos Estaduais e Municipais de Saúde. PRINCÍPIOS DA ATENÇÃO PRIMÁRIA NA POPULAÇÃO PRISIONAL 1. Acesso; 2. Integralidade; 3. Coordenação do cuidado; 4. Longitudinalidade; PROBLEMAS ESPECÍFICOS 1. Tuberculose (baixa ventilação, baixa incidência solar e superlotação); 2. Medicações psicotrópicas (demanda por benzodiazepínicos, assim como na comunidade, é bastante alta); 3. Simulação (simulação de sintomas mentais e neurológicos, especialmente alucinações e crises convulsivas —> obter medicação com potencial real ou esperado de abuso e/ou de efeito hipnótico, para uso próprio ou comércio entre os demais detentos); 4. C o m p o r t a m e n t o s d i s r u p t i v o s (autolesão, destruição de canos das celas, sujar-se de fezes ou causar incêndios); 5. Tabagismo; 6. Questões legais (O médico pode ter de se manifestar e até provocar o sistema judiciário por questões de saúde que podem interferir na capacidade de cumprimento da pena pela pessoa). Maria Vitória de Sousa Santos MANEJO DAS ANEMIAS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA CONCEITO • A anemia é definida pela OMS quando a Hb é inferior a 13 g/dL em homens, 12 g/ dL em mulheres e 11 g/dL para crianças e gestantes, sendo assim, a anemia é a diminuição da massa eritrocitária. HEMOGRAMA É o exame que avalia as principais linhagens de células do sangue: hemácias, leucócitos e plaquetas. 1. Hematócrito: É o percentual do sangue que é ocupado pelos eritrócitos. Um hematócrito de 45% significa que 45% do sangue é composto por eritrócitos. Os outros 55% são água e substâncias diluídas. Praticamente metade de nosso sangue é composto por eritrócitos. A falta de eritrócitos prejudica o transporte de oxigênio, já o excesso deixa o sangue muito espesso, atrapalhando seu fluxo e favorecendo a formação de coágulos. 2. Hemoglobina: Mede a quantidade de hemoglobina, uma proteína das hemácias, em uma amostra de sangue, o que indica a capacidade do sangue de transportar oxigênio para os tecidos. Na prática, a dosagem de hemoglobina acaba sendo a mais precisa na avaliação de uma anemia. 3. Volume globular médio (VCM): Mede o tamanho das células. Um VCM elevado indica eritrócitos macrocíticos, ou seja, grandes. VCM reduzidos indicam células microcíticas, isto é, de tamanho diminuído. Com esse dado podemos diferenciar os vários tipos de anemias. Por exemplo, anemias por carência de ácido fólico cursam com hemácias grandes, enquanto que anemias por fa l ta de ferro se apresentam com hemácias pequenas. Existem também as anemiascom h e m á c i a s d e t a m a n h o n o r m a l . Interessante: o alcoolismo é uma causa de VCM aumentado (macrocitose) sem anemia. 4. Concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM): Dosa a concentração de hemoglobina dentro da célula. 5. Hemoglobina corpuscular média (HCM): É o peso da hemoglobina dentro dos eritrócitos. Observação: Os dois últimos tem significados semelhantes, quando têm pouca hemoglobina, as células são ditas hipocrômicas. Quando têm muita, são hipercrômicas. 6. RDW: É um índice que avalia a diferença de tamanho entre as hemácias. Quando este está elevado significa que existem muitas hemácias de tamanhos diferentes circulando. Isso pode indicar hemácias com problemas na sua morfologia. É muito comum RDW elevado, por exemplo, na carência de ferro, onde a falta deste elemento impede a formação da hemoglobina normal, levando à formação de uma hemácia de tamanho reduzido. CLASSIFICAÇÃO Com base no tamanho celular, as anemias têm sua classificação em: 1. Microcíticas (VCM < 80 fL): Ferropriva, ta lassemia, anemia sideroblástica e anemia de doença crônica. 2. Macrocíticas megaloblásticas (VCM > 100 fL): Devido à deficiência de vitamina B12 ou de ácido fólico e r e l a c i o n a d a s c o m f á r m a c o s (zidovudina, metotrexato, ácido valproico, entre outros). 3. M a c r o c í t i c a s n ã o megaloblásticas : A lcool ismo, hepatopat ia , h ipot ireoidismo e síndromes mielodisplásicas. Maria Vitória de Sousa Santos 4. Normocíticas (VCM entre 80-100 fL): Ferropriva, anemia de doença crônica e de causas hemolíticas e não hemolíticas. QUADRO CLÍNICO ANEMIA FERROPRIVA Causas de anemia Ferropriva: 1. Mulheres gestantes (principalmente nas gemelares); 2. Aleitamento materno; 3. Fluxo fisiológico menstrual excessivo, com a visualização de coágulos; 4. Uso do dispositivo intrauterino de cobre (DIU); 5. Câncer de endométrio; 6. Pessoas submet idas à c i rurg ia bariátrica (deficiência de ferro após o procedimento); 7. Hemorragia digestiva alta (HDA) e baixa (HDB); 8. Indivíduos com doença celíaca, doença de Crohn, espru tropical, ressecção e tuberculose intestinal apresentam má absorção duodenojejunal ao ferro; 9. Consumo abusivo de bebidas alcoólicas —> gastrite —> úlcera gástrica —> varizes esofágicas —> perda de sangue; 10. Câncer de cólon. Deve-se investigar a presença de: 1. Palidez; 2. Visão de moscas volantes; 3. Zumbidos; 4. Dores de cabeça; 5. Anorexia; 6. Perda do paladar; 7. Dor na língua; 8. Perda de pelos ou cabelos; 9. Diminuição do rendimento intelectual; 10. Sonolência; 11. Fraqueza, cansaço, letargia, estado anímico (irritabilidade, tristeza, apatia); 12. Dispneia progressiva aos exercícios físicos; 13. Palpitações, angina, síncope; 14. Dor nas pernas; 15. Perda da libido; 16. Hemorragia. Observação: Se a anemia for acentuada, evolui com distúrbios alimentares (pica), pelo desejo incontrolável da ingesta de alimentos crus como macarrão e arroz, ou substâncias específicas não nutritivas, tais como terra ou gelo. ANEMIA DE DOENÇA CRÔNICA Causas de anemia crônica: 1. Colagenoses; 2. Infecções crônicas; 3. Doenças neoplásicas. Deve-se investigar a presença de: 1. Taquicardia; 2. Cansaço; 3. Palpitações; 4. Taquipneia. ANEMIA MEGALOBLÁSTICA • São anemias derivadas da deficiência de Vit b12 e ácido fólico. Os sintomas da deficiência de vitamina B12 ou de ácido fólico que devem ser pesquisados estão ligados à má absorção dos alimentos ricos nessas substâncias, como a carne, o leite, os ovos, os queijos e os vegetais folhosos verde-escuros, respectivamente. Causas de anemia megaloblástica: 1. Dieta vegetariana rigorosa (diminuição de vitamina B12); 2. Alcoolismo (aumenta o risco de deficiência de ácido fólico); Maria Vitória de Sousa Santos 3. U s o c r ô n i c o d e m e t f o r m i n a , biguanidas, omeprazol, colchicina e neomicina (associam-se ao déficit de vitamina B12); 4. Uso de nticonvulsivantes (fenitoína, fenobarbital, primidona), metotrexato, trimetoprima, contraceptivos orais e diuréticos poupadores de potássio - levam a deficiência de ácido fólico; 5. Pessoas submetidas à gastrectomia (déficits de vitamina B12 e ácido fólico). A carência de vitamina B12 pode provocar: 1. Insônia; 2. Problemas neurológicos de parestesia associada à neuropatia periférica; 3. Propriocepção diminuída; 4. Déficit de memória; 5. Transtornos psiquiátricos, incluindo irritabilidade, depressão, demência e, raramente, psicoses. Observação: Os achados da deficiência de ácido fólico são os mesmos da vitamina B12, porém não há sintomas neurológicos. EXAME FÍSICO Deve-se realizar exame físico completo. 1. Avaliação geral: Além de aferir os sinais vitais, observar o aparente estado de saúde física, mental, nutricional e de hidratação, para poder marcar a falta do desenvolvimento estatural e muscular, comuns nas anemias. 2. Linfonodos: Os aumentos devem ser examinados relacionando seus achados à suspeição de doenças hematológicas. 3. C a b e ç a : O aparecimento da “face d o r o e d o r ” , e m virtude de alterações no desenvolvimento d o s o s s o s e n o t a m a n h o e desalinhamento dos dentes incisivos, é característico da talassemia. No crânio, bossas com proeminência dos ossos frontal e parietal com o maxilar aumentado indicam β-talassemia. 4. O l h o s : N a r e g i ã o o c u l a r , o descoramento da mucosa é observado na anemia grave, e a esclera poderá estar ictérica. No fundo de olho as alterações são de rara importância diagnóstica, e a retinopatia grave é denominada manchas de Roth . Papi le de ma relacionado apenas à anemia pode ocorrer e regride com a sua correção. 5. B o c a : N a cavidade oral, a l í n g u a despapilada, lisa (mais visível nos c a n t o s ) , e d e m a c i a d a , encarnada (com aspecto de carne bovina) é denominada glossite atrófica. É dolorosa e provoca odor ruim. Nos lábios, aparecem sinais de maceração, além de fissuras no ângulo da boca, denominadas estomatite ou queilite angular. 6. Pele, anexos e m u c o s a s : C o m uma luz adequada, d e p r e f e r ê n c i a natural, inspeciona- se idealmente toda a pele e as mucosas. A incidência de palidez é melhor observada no descoramento da palma das mãos, mucosas da boca, conjuntiva, lábios e leito ungueal, muito embora tenha baixa sensibilidade. A palma das mãos torna-se pálida. As máculas acrômicas circunscritas, caracterizadas pela alteração da cor da pele no vitiligo, poderão ser observadas nos portadores de anemia perniciosa. As lesões vásculo-sanguíneas e pigmentadas, as petéquias e equimoses aparecem em consequência da anemia aplástica, da c o a g u l o p a t i a e d a s l e u c e m i a s consequentes da plaquetopenia. A queda de cabelos pode ocorrer na anemia ferropriva; no entanto, o aparecimento precoce de cabelos grisalhos e finos sugere anemia perniciosa. No exame das unhas, a cor rosada do enchimento capilar é pálida. A coiloníquia, unhas adelgaçadas de anticonvulsivantes Maria Vitória de Sousa Santos lâminas côncavas com extremidades elevadas semelhantes a uma colher, denota o sinal clássico e tardio presente na anemia megaloblástica, perniciosa e na ferropriva de longa data. As úlceras localizadas nas extremidades das pernas, em torno dos maléolos (que se apresentam com má cicatrização e cronicidade), são típicas de indivíduos com anemia falciforme. Dactilite, (tambémconhecida como síndrome mão-pé) é uma manifestação inicial da anemia falciforme. 7. A p a r e l h o c a r d i o v a s c u l a r e p u l m o n a r : O s a c h a d o s s ã o proporcionais ao tempo de evolução da a n e m i a . N o s c a s o s a g u d o s , manifestações importantes surgem com taquicardia reflexa e hipotensão postural com lipotímia, acometendo com maior frequência os idosos. As pessoas referem dispneia, taquicardia e hipotensão postural. A fluidez do sangue periférico em geral resulta no aparecimento de sopro cardíaco sistólico ejetivo no foco pulmonar e no ápice, sendo observado tanto em repouso como após os exercícios. 8. Aparelho gastrintestinal: No abdome, a úlcera péptica é por vezes assintomática ou associada com dor à palpação, à defesa e à rigidez da sua parede. Na palpação de massas, investigar a possibilidade de tumor. A circunferência volumosa ascítica é oriunda, entre outras causas, da cirrose d e c o r r e n t e d o u s o d e á l c o o l , direcionando o raciocínio para anemia por doença hepática. Considerar a realização do toque retal para descartar carcinoma colorretal e perda de sangue devido às hemorroidas. 9. Aparelho genital: O exame das mamas, genitais feminino e masculino não poderão ser negligenciados, buscando-se alterações que justifiquem tanto a anemia como as neoplasias silentes. O priapismo surge como uma d a s c o m p l i c a ç õ e s d a a n e m i a falciforme. 10. Aparelho neurológico: Na anemia por deficiência de vitamina B12, é importante verificar o tônus, a força m u s c u l a r , a s e n s i b i l i d a d e , a coordenação e os reflexos. Déficits da s e n s i b i l i d a d e v i b r a t ó r i a e d a propriocepção são manifestações precoces de disfunção do sistema nervoso central (SNC). A falta de coordenação muscular durante os movimentos voluntários, sinal de Babinski e espasticidade são sinais tardios. EXAMES COMPLEMENTARES • Solicitar apenas o hemograma é insuficiente para a abordagem inicial das anemias, que deve ter em conjunto a contagem de reticulócitos e o esfregaço de sangue periférico. Maria Vitória de Sousa Santos TRATAMENTO DA ANEMIA FERROPRIVA As orientações gerais são: 1. Dieta adequada, com a ingesta de carnes vermelhas e frutas ricas em vitamina C, que aumentam a absorção de ferro. 2. Evitar o consumo de alimentos ou medicamentos que possam inibir a absorção de ferro. 3. Aleitamento materno em RN normal deve ser encorajado e priorizado pelo menos até o 6° mês, obedecendo à suplementação de ferro entre 6 e 18 meses, de acordo com o preconizado pelo Ministério da Saúde (MS). Os principais compostos disponíveis para o tratamento oral são: 1. Sulfato ferroso (3 a 6 mg/kg/dia, em duas a três tomadas para crianças; para adultos, o recomendado são 120 a 180 mg de ferro elementar por dia); Observação: A resposta ao tratamento ocorre pelo aumento de reticulócitos, em 4 a 7 dias, com pico no 10o dia. Com uma adequada reposição, um aumento de pelo menos 2 g/dL na Hb deve ocorrer em 2 a 3 semanas de tratamento, mas o VCM continuará baixo por 2 a 3 meses. Em 2 meses, a Hb e o Ht voltam ao normal. Observação: Após a correção da anemia ferropriva, a suplementação é mantida, em crianças, por 3 a 4 meses (ou por mais 2 meses, quando houver a normalização da h e m o g l o b i n a ) ; p a r a a d u l t o s , a recomendação é tratar por 4 a 6 meses. Observação: O sulfato ferroso é melhor absorvido se ingerido em jejum ou 1 a 2 horas antes das refeições, com fruta ou suco cítrico (conter vitamina C – p. ex., laranja, limão – favorece a absorção do ferro no intestino). 2. Fumarato ferroso; 3. Gluconato ferroso; 4. Ferro quelato glicinato; 5. Ferripolimaltose. TRATAMENTO PARENTERAL DA ANEMIA FERROPRIVA O tratamento parenteral com ferro deve ser reservado aos casos de: 1. Intolerância ou refratariedade à via oral (VO); 2. M á a b s o r ç ã o p o r d o e n ç a gastrintestinal; 3. Incapacidade de manter as reservas de ferro em pós-bariátricos; 4. Doentes fazendo hemodiálise. Observação: Esse tratamento deve ser evitado em portadores de insuficiência hepática, em gestantes com menos de 12 semanas e na amamentação. TRATAMENTO DA DEFICIÊNCIA DE VITAMINA B12 • As principais fontes de vitamina B12 são as carnes, os ovos e o leite (a dieta deve ser reforçada para todos os indivíduos). Os estoques têm longa duração, mas, se a perda diária ocorrer entre 3 a 5 mg sem qualquer absorção, a deficiência pode levar mais de 3 anos. É confirmada com níveis abaixo de 200 pg/mL O tratamento está indicado nas pessoas com: 1. Absorção enteral diminuída; 2. Doença hereditária 3. Anemia perniciosa comprovada. • Embora existam evidências de que a reposição oral traga bons resultados, o tratamento tradicional é por via parenteral, existindo vários esquemas posológicos eficazes, que variam de acordo com a apresentação clínica. 1. Para crianças, a dose típica é de 50 a 100 µg de vitamina B12 10° ; Maria Vitória de Sousa Santos intramuscular, 1 vez por semana, até que a deficiência seja corrigida. Se for necessário tratamento por toda a vida, aplicar 1 vez por mês.37 2. Para os adultos, a dose é de 1.000 µg/dia de vitamina B12 IM, por 7 dias, seguidos de 1.000 µg por semana, por 3 semanas, e, após, 1.000 µg/mês indefinidamente, se a condição clínica não puder ser c o r r i g i d a . O a u m e n t o d o s reticulócitos ocorre em 5 a 7 dias, e em 2 meses se observa uma melhora do quadro hematológico. A d e g e n e r a ç ã o n e u r o l ó g i c a é reversível se tratada com pouco tempo de evolução, idealmente em menos de 6 meses. A correção da deficiência pode causar hipocalemia aguda, ou seja, o monitoramento da queda de potássio é obrigatório, e a suplementação deve ser instituída, quando necessária . Algumas p e s s o a s p o d e m d e s e n v o l v e r hipocalemia durante a semana inicial do tratamento, uma vez que há uma absorção marcada de potássio durante a produção de células sanguíneas novas, mas é improvável que seja clinicamente significativa. A injeção de vitamina B12 é dolorosa e deve ser aplicada na região glútea, via IM, ou subcutânea (SC), e nunca por via intravenosa (IV). TRATAMENTO DA DEFICIÊNCIA DE ÁCIDO FÓLICO 1. As principais fontes de ácido fólico são os vegetais folhosos verdes escuros, frutas cítricas, cereais, grãos, nozes e carnes. Os estoques têm duração de 4 a 5 meses. A deficiência é confirmada com níveis abaixo de 5 ng/mL. 2. O tratamento tanto para crianças como adultos se faz com 5 mg, 1 vez ao dia, por 1 a 4 meses, ou até a normalização dos níveis terapêuticos. 3. O aumento dos reticulócitos ocorre em 5 a 7 dias, e a melhora hematológica, em 2 meses. Efeitos adversos, como discreto rubor, rash cutâneo, distensão abdominal, entre outros, podem ocorrer. 4. Na suspeita de deficiência combinada de ácido fólico e vitamina B12, deve-se sempre suplementar as duas vitaminas, pois a administração apenas de ácido fólico na presença de deficiência de vitamina B12 levará à piora progressiva do quadro neurológico. Há evidências de que o uso de ácido fólico no período pré-concepcional e durante o primeiro trimestre da gravidez pode prevenir os defeitos do tubo neural do feto. TRATAMENTO DA ANEMIA DE DOENÇA CRÔNICA • O tratamento da anemia de doença crônica é direcionado para a causa de base, como nas doenças inflamatórias, nas neoplasias e nas infecções crônicas. Na doença renal, porém, deve-se considerar o uso da eritropoetina como otimização da respostahematológica. # Maria Vitória de Sousa Santos POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE VOLTADAS PARA A POPULAÇÃO NEGRA INTRODUÇÃO • A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) é um compromisso firmado pelo Ministério da Saúde no combate às desigualdades no Sistema Único de Saúde (SUS) e na promoção da saúde da população negra de forma integral, considerando que as iniquidades em saúde são resultados de injustos processos socioeconômicos e culturais – em destaque, o vigente racismo – que corroboram com a morbimortalidade das populações negras brasileiras. • Essa política tem como marca: o reconhecimento do racismo, das desigualdades étnico-raciais e do r a c i s m o i n s t i t u c i o n a l c o m o determinantes sociais das condições de saúde, com vistas à promoção da equidade em saúde. • A p o l í t i c a t a m b é m r e a f i r m a a s responsabilidades de cada esfera de gestão do SUS– governo federal, estadual e municipal– na efetivação das ações e na articulação com outros setores do governo e da sociedade civil, para garantir o acesso da população negra a ações e serviços de saúde, de forma oportuna e humanizada, contribuindo para a melhoria das condições de saúde desta população e para redução das iniquidades de raça/cor, gênero, identidade de gênero, orientação sexual, geracionais e de classe. DIRETRIZES GERAIS I. Inclusão dos temas Racismo e Saúde da População Negra nos processos de formação e educação permanente dos trabalhadores da saúde e no exercício do controle social na saúde; II. Ampliação e fortalecimento da participação do Movimento Social Negro nas instâncias de controle social das políticas de saúde, em consonância c o m o s p r i n c í p i o s d a g e s t ã o participativa do SUS, adotados no Pacto pela Saúde; III. Incentivo à produção do conhecimento científico e tecnológico em saúde da população negra; IV. Promoção do reconhecimento dos saberes e práticas populares de saúde, incluindo aqueles preservados pelas religiões de matrizes africanas; V. Implementação do processo de monitoramento e avaliação das ações pertinentes ao combate ao racismo e à redução das desigualdades étnico- raciais no campo da saúde nas distintas esferas de governo; VI. Desenvolvimento de processos de informação, comunicação e educação, q u e d e s c o n s t r u a m e s t i g m a s e p r e c o n c e i t o s , f o r t a l e ç a m u m a identidade negra positiva e contribuam para a redução das vulnerabilidades. OBJETIVOS 1. Geral: - Promover a saúde integral da população negra, priorizando a redução das desigualdades étnico- raciais, o combate ao racismo e discriminação nas instituições e serviços do SUS. 2. Específicos: 1. Garantir e ampliar o acesso da população negra residente em áreas urbanas, em particular nas regiões periféricas dos grandes centros, às ações e aos serviços de saúde; 2. Garantir e ampliar o acesso da população negra do campo e da f l o r e s t a , e m p a r t i c u l a r a s populações quilombolas, às ações e aos serviços de saúde; 3. I n c l u i r o t e m a C o m b a t e à s Discriminações de Gênero e Orientação Sexual, com destaque para as interseções com a saúde da população negra, nos processos de formação e educação permanente dos trabalhadores da saúde e no exercício do controle social; 4. Identificar, combater e prevenir situações de abuso, exploração e violência, incluindo assédio moral, no ambiente de trabalho; 5. Aprimorar a qualidade dos sistemas de informação em saúde, por meio Maria Vitória de Sousa Santos da inclusão do quesito cor em todos os instrumentos de coleta de dados adotados pelos serviços públicos, os conveniados ou contratados com o SUS; 6. Melhorar a qualidade dos sistemas de informação do SUS no que tange à coleta, processamento e análise dos dados desagregados por raça, cor e etnia; 7. Identificar as necessidades de saúde da população negra do campo e da floresta e das áreas urbanas e ut i l i zá- las como cr i tér io de planejamento e definição de prioridades; 8. Definir e pactuar, junto às três esferas de governo, indicadores e metas para a promoção da equidade étnico-racial na saúde; 9. Monitorar e avaliar os indicadores e a s m e t a s p a c t u a d o s p a r a a promoção da saúde da população n e g r a v i s a n d o r e d u z i r a s iniquidades macrorregionais, regionais, estaduais e municipais; 10. Incluir as demandas específicas da população negra nos processos de regulação do sistema de saúde suplementar; 11. Monitorar e avaliar as mudanças na cultura institucional, visando à garantia dos princípios antirracistas e não discriminatório; 12. Fomentar a realização de estudos e pesquisas sobre racismo e saúde da população negra. QUESITO COR/RAÇA O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) pesquisou as cores mais declaradas pela população e definiu um sistema de classificação com cinco categorias: 1. Branca; 2. Preta; 3. Parda; 4. Amarela; 5. Indígena. • O Ministério da Saúde, por meio da sua Portaria no 344, de 1o de fevereiro de 2017 (ver Anexo D), adota o critério da autodeclaração, ou seja, o(a) próprio(a) usuário(a) define qual é a sua raça/cor, com exceção dos casos de recém- nascidos, óbitos ou diante de situações em que o usuário estiver impossibilitado, cabendo aos familiares ou responsáveis a declaração de sua cor ou pertencimento étnico-racial. • A autodeclaração remete à percepção de cada um em relação à sua raça/cor, o que implica considerar não somente seus traços físicos, mas também a origem étnico-racial, aspectos socioculturais e construção subjetiva do sujeito. • Declarar a sua raça/cor é importante para a construção de políticas públicas, pois permite que os sistemas de i n f o r m a ç ã o d o S U S c o n s o l i d e m indicadores que traduzem os efeitos dos fenômenos sociais e das desigualdades s o b r e o s d i f e r e n t e s s e g m e n t o s populacionais. DOENÇAS GENÉTICAS OU HEREDITÁRIAS MAIS COMUNS DA POPULAÇÃO NEGRA 1. Anemia falciforme — Doença hereditária, decorrente de uma mutação genética ocorrida há milhares de anos, no continente africano. A doença, que chegou ao Brasil pelo tráfico de escravos, é causada por um g e n e r e c e s s i v o , q u e p o d e s e r encontrado em frequências que variam de 2% a 6% na população brasileira em geral, e de 6% a 10% na população negra. 2. Diabetes mellitus (tipo II) — Esse tipo de diabetes se desenvolve na fase adulta e evolui causando danos em todo o organismo. É a quarta causa de morte e a principal causa de cegueira adquirida no Brasil. Essa doença atinge com mais frequência os homens negros (9% a mais que os homens brancos) e as mulheres negras (em torno de 50% a mais do que as mulheres brancas). 3. Hipertensão arterial — A doença, que atinge 10% a 20% dos adultos, é a causa direta ou indireta de 12% a 14% de todos os óbitos no Brasil. Em geral, a hipertensão é mais alta entre os homens e tende ser mais complicada em negros, de ambos os sexos. Maria Vitória de Sousa Santos 4. Deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase — Afeta mais de 200 milhões de pessoas no mundo. Apresenta frequência relativamente alta em negros americanos (13%) e populações do Mediterrâneo, como na Itália e no Oriente Médio (5% a 40%). A falta dessa enzima resulta na destruição dos glóbulos vermelhos, levando à anemia hemolítica e, por ser um distúrbio genético ligado ao cromossomo X, é mais frequente nos meninos.SAÚDE DA POPULAÇÃO NEGRA • Os indicadores de saúde, quando cruzados com as caracter ís t icas socioeconômicas, revelam a importante relação entre saúde, seus determinantes sociais e a organização do sistema de saúde. • De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2008, a população negra representava 67% do público total atendido pelo SUS, e a branca 47,2%. • A maior parte dos atendimentos concentra-se em usuários(as) com faixa de renda entre um quarto e meio salário mínimo, distribuições que evidenciam que a população de mais baixa renda e a população negra são, de fato, SUS- dependentes. • Como resultado, tem-se uma constante de maiores exposições a todas as carências estudas pela população de raça/cor preta ou parda e pelas pessoas com menores rendimentos. Entre os dados que revelam a posição desfavorável dos negros em diversos aspectos da saúde medidos pela PNS e t a m b é m p o r o u t r a s p e s q u i s a s e indicadores do Ministério da Saúde, destacam-se: 1. Acesso aos serviços: A proporção de pessoas que consultaram um médico nos últimos 12 meses é maior entre as pessoas brancas (74,8%) do que entre pretas (69,5%) e pardas (67,8%). A proporção de pretos (38,2%) e pardos (39,2%) que se consultaram com um dentista nos últimos 12 meses é menor do que a de pessoas brancas (50,4%). Das pessoas que tiveram algum medicamento receitado no último a t e n d i m e n t o d e s a ú d e , 8 2 , 5 % c o n s e g u i r a m o b t e r t o d o s o s medicamentos prescritos. A proporção de pessoas de cor branca que obteve todos os medicamentos foi maior (84,2%) que a observada entre as pessoas de cor parda (80,4%) e preta (81,1%). 2. Saúde da mulher: A PNS 2013 estimou que 60% das mulheres brasileiras, de 50 a 69 anos de idade, realizaram exame de mamografia nos últimos dois anos anteriores à pesquisa. Esse cuidado com a saúde foi mais observado entre as mulheres brancas (66,2%) e com ensino superior completo (80,9%). As menores proporções foram observadas entre as mulheres pretas (54,2%), pardas (52,9%) e sem instrução ou com ensino fundamental incompleto (50,9%). 3. Sífilis em gestantes: Em 2013, as maiores taxas de detecção de sífilis em gestantes foram observadas na raça/ cor preta (17/100 mil nascidos vivos), na indígena (6,7/100 mil nascidos vivos) e na parda (6,6/100 mil nascidos vivos). 4. Mortalidade materna: De acordo com dados notificados no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do total de 1.583 mortes maternas em 2012, 60% eram de mulheres negras e 34% de brancas (MS/SVS/CGIAE). 5. Medicamentos e internações: Embora a PNS 2013 tenha revelado desigualdades no acesso, também mostrou que pretos e pardos utilizam mais dos serviços públicos de saúde para ter acesso a medicamentos e internações: A proporção de pessoas negras – pretas (35,6%) e pardas (36,7%) – que conseguiu obter pelo m e n o s u m d o s m e d i c a m e n t o s receitados no serviço público de saúde foi maior que a observada por pessoas de cor branca (30,2%). Já entre aqueles que conseguiram obter no Programa Farmácia Popular pelo menos um dos medicamentos receitados, a proporção Maria Vitória de Sousa Santos de pretos (25,3%) foi maior do que a de brancos (22,1%) e pardos (21%). PANORAMA ATUAL DA SITUAÇÃO DE SAÚDE Ao se comparar as taxas de mortalidade pelos três grandes grupos de carga de doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS), observa-se padrão semelhante em ambos os sexos: • P r e d o m í n i o d a s d o e n ç a s n ã o transmissíveis na raça/cor branca, das doenças transmissíveis na indígena, e das causas externas em homens negros, principalmente pardos. • Em geral, os homens apresentaram taxas de mortalidade mais altas para os três grandes grupos de carga de doença em todas as categorias de raça/cor. • No que se refere ao grupo de causas externas, o risco de morte dos homens foi 3,3 vezes maior que o das mulheres na raça/cor branca, 2,8 vezes maior na indígena e de 6,3 vezes maior na negra. • Entre as principais causas de morte, as doenças cerebrovasculares prevaleceram como a principal causa de morte entre a população negra em 2012, assim como para todos os grupos populacionais, sendo a segunda e a terceira causas de morte entre pardos e pretos o infarto de miocárdio e o diabetes mellitus, respectivamente. • No tocante à morbidade por doenças transmissíveis prioritárias, a tuberculose representa um sério problema de saúde pública e tem relação direta com a pobreza. • Entre 2004 e 2013, a taxa de incidência foi maior na população indígena, seguida pela população preta. • Quanto à hanseníase, observa-se predominância nas populações preta, parda e indígena em relação às outras categorias (amarela e branca). • Já em relação à dengue, dados apontam maiores percentuais de óbitos em negros no Brasil, mais especificamente nas regiões Norte e Nordeste. DOENÇA DE CHAGAS • Estima-se que existam, no País, aproximadamente 4,6 milhões de pessoas infectadas, predominando os casos crônicos decorrentes da infecção por via vetorial em décadas passadas. • Em 2013, foram registrados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) 163 casos de DCA. Destes, 19% sem informação sobre raça/cor. • E n t r e o s 8 1 % c o m e s s e c a m p o preenchido, 86% correspondiam à raça/ cor negra (83% em pretos e 3% em pardos), 13% à branca e 1% à indígena. • A Taxa de Mortalidade por doença de Chagas segundo raça/cor é maior na população negra (3,47 e 2,15/100 mil habi tantes em pretos e pardos , respectivamente), seguida pela branca (1,99/100 mil habitantes), e menor entre indígenas (0,81 /100 mil habitantes). HIV/AIDS • De 2004 a 2013, observa-se tendência de discreta redução de casos de AIDS registrados na raça/cor branca e de aumento na parda. • Em 2013, a maior taxa de detecção de AIDS foi registrada em homens de raça/ cor preta (18,8/100 mil habitantes), seguida da branca (16,5/100 mil hab.) e da parda (15,5/100 mil hab.). • Entre as mulheres, a maior taxa de detecção foi registrada na raça/cor preta (12,3/100 mil habitantes), seguida da parda (8/100 mil habitantes) e da branca (7,1/100 mil habitantes). • Em 2013, a maior taxa de mortalidade por AIDS registrou-se em homens pretos (12,5/100 mil habitantes), seguidos de brancos (7,9/100 mil habitantes) e pardos (7,1/100 mil habitantes). • Com relação às mulheres, a maior taxa de mortalidade foi observada na raça/cor preta. HEPATITE A • No Brasil, a taxa de incidência da hepatite A aumentou até 2005, passando a cair a partir de 2006, atingindo 3,2 casos/100 mil habitantes em 2013. • N e s s e a n o , c o n s i d e r a n d o - s e a s notificações com o registro de raça/cor, os pardos concentraram a maioria dos casos (64,6%), vindo em seguida os brancos (25%), pretos (5,8%) e indígenas (3,9%). Maria Vitória de Sousa Santos • Em 2013, as taxas de incidência foram de 23,5/100 mil habitantes em indígenas, 3,7/100 mil habitantes em pardos, 1,9/100 mil habitantes em pretos e 1,4/100 mil habitantes em brancos. JUVENTUDE NEGRA – CAUSAS EXTERNAS – VIOLÊNCIA • De acordo com a PNS, a proporção de pessoas que se envolveram em acidente de trânsito com lesões corporais no Brasil foi de 3,1%, em 2013. • Esse percentual foi maior entre os homens, registrando 4,5%, sendo 3,6% da cor preta e 3,4% da cor parda, enquanto entre os brancos esse percentual foi de 2,7%. • Já em acidentesde trabalho, a proporção de pessoas de 18 anos ou mais de idade q u e s e e n v o l v e r a m f o i predominantemente de homens; no quesito raça/cor, a proporção foi de 4,6% para pretos, 3,7% para pardos e 2,9% para branca. • A maioria dos homicídios é praticada por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados. • Ao distribuir esses dados de homicídios de jovens negros nos 12 meses do ano, calcula-se mais de 1.900 mortes de jovens negros por mês. • Ou seja, 64 a cada dia, quase 3 a cada hora, ou aproximadamente 1 homicídio a cada 20 minutos atingindo jovens negros do sexo masculino, majoritariamente moradores das periferias e áreas metropolitanas dos centros urbanos. DISCRIMINAÇÃO NOS SERVIÇOS DE SAÚDE • De acordo com a PNS, em 2013 havia 146,3 milhões de pessoas de 18 anos ou mais de idade no Brasil, e, destas, 10,6% (15,5 milhões) afirmaram que já se sentiram discriminadas ou tratadas de maneira pior que as outras pessoas no serviço de saúde, por médico ou outro profissional de saúde. • Das pessoas que já se sentiram discriminadas no serviço de saúde, destacaram-se: as mulheres (11,6%); as pessoas de cor preta (11,9%) e parda (11,4%), e as pessoas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto (11,8%). • A expressiva maioria das pessoas negras não possui plano de saúde (78,8%), e menor acesso à saúde significa maior exposição a riscos. • Pessoas com menores rendimentos, sem acesso à educação e em condições de moradia precárias por falta de acesso a serviços básicos também se mostram mais expostas onde a grande maioria é negra. Maria Vitória de Sousa Santos MANEJO DAS TONTURAS E VERTIGENS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA TONTURA • A tontura é um sintoma transitório subjetivo descrito pelo paciente de modo inespecífico como uma sensação de vertigem, desmaio iminente (pré- síncope), desmaio e desequilíbrio. Tontura é a percepção errônea de movimento, o que resulta em sensação de perturbação do equilíbrio corporal. Quando essa ilusão de movimento apresenta um caráter rotatório (sensação de rotação do seu próprio corpo ou do ambiente ao redor), é chamada de vertigem. Os quatro padrões clássicos de tonturas são: 1. Vertigem: Sensação de movimento ilusório. O paciente pode descrever a sensação de que as coisas ao seu redor estão se movendo ou que seu corpo está se movendo, quando na verdade está parado. 2. P r é - s í n c o p e : S e n s a ç ã o d e desfalecimento. Pacientes descrevem como sensação de desmaio iminente. 3. Desequilíbrio: Sensação de que o controle sobre seus movimentos e equilíbrio está prejudicado. No desequilíbrio, não há sensação de movimento ilusório (vertigem) ou sensação de desfalecimento (pré- síncope). 4. Hiperventilação : Apresenta a descrição mais vaga entre todos os padrões e, em geral, é descrita como a sensação de “cabeça vazia”, ou sensação de estar desconectado do ambiente. Observação: O padrão sindrômico vertigem é o que está relacionado mais diretamente à queixa “tontura”. VERTIGEM CAUSAS Podem decorrer de situações que alteram a precisa interação dos diversos estímulos que orientam o equilíbrio corporal, incluindo disfunções nos sistemas: - Vestibular (maioria); - Cardiovascular; - Nervoso central; - Visual; - Proprioceptivo; - Sanguíneo; Observação: Há um consenso entre os estudos de que as três causas mais comuns de vertigem são a VPPB (42%), a neurite vestibular (40%) e a doença de Ménière (10%). As causas de vertigem são classificadas genericamente como: 1. Centrais (tronco encefálico, cerebelo e córtex cerebral): - Esclerose múltipla; - Tumor do ângulo pontocerebelar; - Epilepsia vestibular; - Enxaqueca basilar/vestibular; - Infarto ou hemorragia do tronco cerebral; - Ataxia episódica familiar; - Atrofia cerebelar; - Infarto ou hemorragia cerebelar; - Malformação de Arnold-Chiari; - Entre outras. 2. P e r i f é r i c a s - m a i s c o m u m (acometimento da orelha interna e dos nervos vestibulares): - Neurite vestibular; - Doença de Ménière; - Vestigem postural fóbica; - Vertigem posicional paroxística benigna (VPPB); - Labirintopatias; - Tumores do ângulo pontocerebelar; Maria Vitória de Sousa Santos - Doenças de generativas; - Processos infecciosos; - Esclerose múltipla; - Entre outros. VERTIGEM PAROXÍSTICA POSICIONAL BENIGNA 1. Conceito: VPPB é caracterizada pelo aparecimento de vertigem rotatória com duração menor que 1 minuto, e desencadeadas por movimentos da cabeça, como deitar-se e levantar-se da cama e inclinar a cabeça para trás ou para frente. Trata-se de um quadro autolimitado, que pode durar de algumas semanas até alguns meses. 2. Quadro clínico: A apresentação clínica da VPPB é a de crises de vertigem com duração menor do que um minuto Inicialmente, os sintomas são mais fortes, levando o paciente a sentir náuseas, vômitos e a evitar movimentos que desencadeiem sintomas. 3. Fisiopatologia: A fisiopatologia da VPPB envolve a formação de pequenos cristais de carbonato de cálcio (otólitos) na endolinfa dentro do utrículo, que migram para os canais s e m i c i r c u l a r e s e e s t i m u l a m mecanicamente os receptores das células ciliares. As informações equivocadas transmitidas a partir dessas células, quando processadas no SNC e integradas aos demais estímulos do corpo, geram a sensação de vertigem, de nistagmo e de náuseas percebidos pela pessoa. NEURITE VESTIBULAR 1. Conceito: É a inflamação do nervo vestibular, que conecta o ouvido interno ao cérebro. Quando esse nervo fica inflamado, ele perturba a maneira como a informação normalmente seria interpretada pelo cérebro, causando s i n t o m a s q u e p o d e m a p a r e c e r subitamente. 2. Etiologia: Não se sabe qual é a causa d a n e u r i t e v e s t i b u l a r , m a s fisiopatologicamente se trata de uma inflamação do nervo vestibular que não apresenta perda auditiva. Algumas teorias falam em possível reativação do vírus herpes simples tipo 1 (HSV-1), de infecções virais, da oclusão vascular ou de mecanismos autoimunes. 3. Quadro Clínico: Trata-se de um quadro de vertigem espontânea e prolongada, podendo durar algumas semanas, na qual as crises são intensas e duradouras. A apresentação típica é uma crise aguda de vertigem intensa, comumente ao acordar. O sintoma piora com movimentos da cabeça e a s s o c i a - s e a f o r t e s s i n t o m a s autonômicos, como sudorese, palidez, náusea e vômitos. Não há sintomas auditivos. Deve-se suspeitar de neurite v e s t i b u l a r e m p a c i e n t e s q u e apresentem vertigem associada a desequilíbrio com tendência de queda sempre para o mesmo lado (lado acometido), nistagmo horizonto- torsional espontâneo. Observação: Casos em que tanto o nervo vestibular quanto o labirinto estejam comprometidos podem cursar com comprometimento da audição e zumbidos, sendo definidos como labirintite. MÉNIÈRE 1. Conceito: Condição rara com crises espontâneas e recorrentes de vertigem e perda auditiva, sensação de plenitude na orelha acometida e zumbido, sintomas que não necessariamente estão presentes ao mesmo tempo no paciente. 2. Etiologia: É desconhecida e a resposta autoimune é sugerida como a possível patogênese da doença, podendo ocorrer uma perda auditiva nurosensorial súbita. Outras prováveis causas são rupturas de membranas, aumento da pressão e deslocamento mecânico dos órgãosperiféricos como sáculo por acúmulo de endolinfa, infecções virais e doença autoimune, além de várias outras teorias que já foram relatadas. 3. Quadro clínico: Crises de vertigem com duração ao redor de 20 minutos, perda auditiva de baixa frequência, flutuação dos sintomas de aura (plenitude, perda auditiva, zumbido). Maria Vitória de Sousa Santos CINETOSE • É uma vertigem benigna, com história bem delimitada pela exposição ao fator desencadeante, que é a hiperestimulação do sistema vestibular, ocasionada, em geral, por movimentação em viagens de carro, avião ou barco. VESTIBULOPATIAS CENTRAIS 1. Enxaqueca – (migrânea vestibular): uma porção considerável de pacientes c o m m i g r â n e a e a u r a ( ~ 3 0 % ) experimentam sintomas de vertigem durante as crises. Tais sintomas podem tanto aparecer na fase da aura quanto persistir durante a fase da cefaleia, concomitantemente. As crises de vertigem variam de minutos a horas e, em geral, se associam a outros s i n t o m a s p r o d r ô m i c o s ( f o t o e fonofobia). Quando o problema se encontra ainda na fase diagnóstica, deve-se afastar a possibilidade de vertigens com duração prolongada, como neurite vestibular ou síndrome de Ménière. 2. Insuficiência vertebrobasilar: Condição que leva a um quadro de vertigem de padrão central e é uma das causas mais lembradas por médicos como causa de vertigem. Contudo, é um problema raro e relacionado de forma direta à doença aterosclerótica. A apresentação clínica mais comum dos pacientes com insuficiência vertebrobasilar é diminuição do nível de consciência, hemiparesia ou quadriplegia assimétrica e sintomas pseudobulbares, como disartria, disfagia e disfonia. Vertigem estará presente apenas nos casos em que a oc lusão aconteça no segmento proximal da artéria. Pacientes com i n s u f i c i ê n c i a v e r t e b r o b a s i l a r levantarão a suspeita de acidente vascular cerebral (AVC) ou ataque isquêmico transitório (AIT). PRÉ-SÍNCOPE • Síncope é definida como a perda abrupta, completa e temporária da consciência, associada à impossibilidade de manter o tônus postural (queda), com remissão rápida e espontânea. • N ã o d e v e t e r s i n t o m a s c l í n i c o s associados com outras causas de perda da consciência, como convulsão e trauma craniencefálico (TCE). • Pré-síncope, também chamada lipotímia, refere-se aos sintomas que precedem a síncope, como sensação de cabeça vazia, desequilíbrio e alterações visuais (visão tunelizada, visão escurecendo) e var iáve is graus de a l teração de consciência, porém sem a sua completa perda. Tipos: 1. A síncope vasovagal é a mais comum de todas e geralmente relacionada, mesmo pelo paciente, a fatores estressores desencadeantes, como calor excessivo, dor e momentos de ansiedade (p. ex., ao realizar um procedimento médico). Em casos em que a história não esteja tão clara, pode ser o principal diagnóstico de exclusão, após investigadas outras causas de síncope. 2. A hipotensão ortostática é também uma causa comum e está relacionada à queda brusca da pressão arterial (PA) ao levantar da posição deitada ou sentada e pode ser causada por uma combinação de fatores, como idade a v a n ç a d a , c a l o r e x c e s s i v o , desidratação, neuropatia autonômica, períodos prolongados deitado e medicamentos diversos. SÍNDROME DA HIPERVENTILAÇÃO • A descrição que os pacientes fazem destes quadros é bastante vaga, como “sensação de cabeça vazia”, “como se meu corpo não estive ali”. • Geralmente, a sensação dura alguns minutos e é acompanhada por sintomas físicos, como amortecimentos em face e Maria Vitória de Sousa Santos extremidades, dor no peito, incômodo na barriga. • A base fisiológica está na alcalose metabólica causada pela hipocapnia (pCO2 – 25 mmHg) decorrente da hiperventilação. • Isso leva a uma vasoconstrição das arteríolas e, consequentemente, a um hipofluxo cerebral. • Em geral, situações de sofrimento psíquico e transtornos mentais podem originar hiperventilação. DESEQUILÍBRIO • O desequilíbrio se caracteriza por sensação de instabilidade postural, em que não há sintomatologia de vertigem ou de pré-síncope. • O equilíbrio depende da ação integrada de um conjunto de órgãos e sistemas, em que estão incluídos o sistema vestibular, a m u s c u l a t u r a e s q u e l é t i c a , a propriocepção, a audição e a visão. • Portanto, a origem do problema pode estar ligada à disfunção de algum desses elementos ou do SNC (tronco cerebral e cerebelo), que recebe e integra os dados enviados por esses órgãos. • Assim, é evidente a existência de uma relação direta entre as causas mais comuns de desequilíbrio e problemas associados com o envelhecimento. • Entre as causas comuns, podem-se citar: fraqueza da musculatura de MMII ou da musculatura postural, baixa acuidade v i s u a l e / o u a u d i t i v a , m a u c o n d i c i o n a m e n t o f í s i c o , u s o d e determinadas medicações (sobretudo se mais de quatro classes), doenças da coluna cervical, neuropatia periférica e disfunção vestibular. ANAMNESE Durante a anamnese, é necessário que se encontrem informações relevantes, como: 1. Tempo de duração do sintoma. 2. Fatores desencadeantes ou situação em que o sintoma ocorre (movimentação da cabeça, viagem de carro, situação de estresse intenso). 3. S intomas assoc iados (náuseas , vômitos, perda auditiva, dificuldade de andar, déficits neurológicos). 4. Perda da consciência. 5. Uso de medicações para a tontura, ou que possam ser causa da queixa (hipoglicemiantes em excesso, ou anti- hipertensivos). 6. Quedas. 7. F a t o r e s d e r i s c o p a r a d o e n ç a cardiovascular (DCV). 8. Fatores de risco para queda. O desequilíbrio em geral tem causas m u l t i f a t o r i a i s p a r a o r g a n i z a r a investigação clínica tais causas são d iv id idas em fa tores intr ínsecos , extrínsecos e comportamentais: 1. Fatores intrínsecos: História prévia de quedas, idade, sexo feminino, uso de m e d i c a m e n t o s p s i c o a t i v o s , a n t i a r r í t m i c o s e h i p o t e n s o r e s , condições clínicas que comprometam a marcha e o equilíbrio, sedentarismo, medo de cair, déficit cognitivo, nutricional, visual e funcional. 2. Fatores extrínsecos: Qualquer fator relacionado ao ambiente ao redor pode ser considerado como fator extrínseco. Precariedade de calçadas e vias Maria Vitória de Sousa Santos públicas são fatores predisponentes a quedas que estão além do alcance do clínico. Contudo, dentro do domicílio, podem haver superfícies escorregadias, escadas sem apoio e obstáculos que ponham o paciente em risco de queda, b e m c o m o c a l ç a d o s e r o u p a s inadequados. 3. Fatores comportamentais: Pessoas muito inativas e pessoas muito ativas apresentam um risco maior de queda, devido a maior fragilidade, no primeiro caso, e à maior exposição a situações que podem culminar em queda, no segundo. EXAME FÍSICO • O exame físico é valioso na avaliação da queixa de tontura. NISTAGMO Em pacientes que apresentem nistagmo ao exame, a direção do nistagmo pode ajudar a compreender qual canal semicircular está acometido. 1. Nistagmos torsionais que apontam p a r a c i m a ( + c o m u n s ) : E s t ã o relacionadosao canal semicircular posterior, sendo aqueles no sentido horár io provocados pelo canal esquerdo, e os anti-horários, pelo canal direito à localização. 2. Nistagmos horizontais e torsionais que apontam para baixo: Correspondem ao acometimento dos nistagmos com o c a n a l s e m i c i r c u l a r a n t e r i o r e s e m i c i r c u l a r h o r i z o n t a l , respectivamente. TESTE DE IMPULSÃO DA CABEÇA • Nesse teste, o paciente deve ser posicionado sentado de frente para o examinador, que deve segurar a cabeça do paciente com ambas as mãos e movê- la lateralmente para ambos os lados em um ângulo de 35 a 45°, pedindo para que o paciente fixe o olhar entre os olhos do examinador. Após sentir que a sua cabeça está relaxada, o examinador impulsiona a sua cabeça para um dos lados, sendo que o resultado esperado é que o olhar do paciente não se desvie do ponto fixo. Caso o olhar do paciente seja desviado para o lado que a cabeça foi impulsionada, este será o lado acometido e o teste será considerado positivo para lesão do nervo vestibular, confirmando o quadro de neurite vestibular. DIX-HALLPIKE A manobra de Dix-Hallpike tem sido empregada como exame definitivo para a VPPB. Os passos necessários para a sua correta realização são: 1. Pedir autorização à pessoa para realizá-la. 2. Explicar à pessoa sobre como a manobra é feita, sendo que ela poderá causar os mesmos sintomas de vertigem no paciente (ele não pode ser pego de surpresa pela tontura). 3. Posicionar a pessoa sentada na maca, de forma que, ao deitá-la, sua cabeça fique pendente para o lado de fora da maca. 4. Posicionar-se atrás do paciente e lateralizar a cabeça dele a 45º para a direita e estendendo-a a 20º para trás. 5. Após posicionar corretamente a cabeça, peça para que o paciente se deite na maca. Sustente sua cabeça para que o paciente não se machuque. 6. Mantenha-o na posição de decúbito dorsal com a cabeça lateralizada a 45º e estendida a 20º durante um minuto. 7. A manobra será positiva caso os sintomas referidos pelo paciente sejam desencadeados durante o exame. 8. Caso o paciente não tenha apresentado nenhum sintoma, após um minuto, volte o paciente à posição inicial do exame, lateralize sua cabeça para o lado oposto e repita a manobra. Maria Vitória de Sousa Santos 9. Caso a manobra seja positiva, você terá encontrado o lado acometido. OUTROS 1. Avaliação de quedas e desequilíbrio: - Avaliação Multifatorial para Risco de Quedas. 2. Pré-síncope: - F o c a r o e x a m e n o s i s t e m a cardiovascular, procurando dados que indiquem doença mais grave, como valvopatias e insuficiência cardíaca (IC) descompensada. - Aferir a PA e a frequência cardíaca (FC). 3. Hipotensão postural: - Prova da hipotensão postural: Para esse exame, deve-se colocar o paciente em decúbito dorsal por pelo menos 5 minutos, e aferir sua PA. Depois, o paciente deve ficar em pé por três minutos, e sua PA deve novamente ser aferida. Caso aconteça: 1. queda da PAS > 20 mmHg; 2. queda da PAD > 10 mmHg; ou PAS < 90 mmHg, o exame é considerado positivo. 4. Síndrome da hiperventilação: - Testar a reprodução dos sintomas por meio da respiração forçada - O examinador deve respirar profunda e rapidamente com a pessoa, sem parar. Se o paciente começar a sentir os mesmos sintomas relatados, o teste pode ser considerado positivo. EXAMES COMPLEMENTARES • Raramente, exames complementares serão necessários na avaliação da tontura. Para alguns pacientes, pode-se solicitar: - Eletrocardiograma (ECG); - Exames laboratoriais são de pouco valor. - Exames de imagem só devem ser solicitados na suspeita de vertigem de causa central, rara no contexto da atenção primária à saúde (APS). - A audiometria pode ser útil em pacientes com queixa de perda auditiva. TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO MANOBRAS DE REPOSIÇÃO CANALICULAR • O tratamento da VPPB deve ser feito por m e i o d a m a n o b r a d e r e p o s i ç ã o canalicular, que tem por objetivo mover os otólitos circulantes nos canais semicirculares em direção ao utrículo, cessando, assim, com os sintomas e resolvendo o problema. Para a realização da manobra de Epley, você deverá começar pelos mesmos passos da manobra de Dix-Hallpike, seguindo para os passos que complementam a manobra: 1. Pedir autorização ao paciente para realizá-la. 2. Explicar ao paciente sobre como a manobra será realizada, orientando que ela poderá causar os mesmos sintomas de vertigem no paciente (ele não pode ser pego de surpresa pela tontura). 3. Posicionar o paciente sentado na maca, de forma que, ao deitá-lo, sua cabeça fique pendente para o lado de fora da maca. Maria Vitória de Sousa Santos 4. Posicionar-se atrás do paciente e lateralizar a cabeça dele a 45º para o lado acometido e estendê-la a 20º para trás. 5. Após posicionada corretamente a cabeça, peça para que o paciente se deite na maca. Sustente sua cabeça para que o paciente não se machuque. 6. Mantenha-o na posição de decúbito dorsal com a cabeça lateralizada a 45º e estendida a 20º durante 1 minuto. 7. Gire a cabeça do paciente para o lado oposto, mantendo-a lateralizada a 45o por 1 minuto. 8. Continue o giro da cabeça para o mesmo sentido do passo anterior, agora girando todo o corpo do paciente, que deverá terminar a manobra em decúbito lateral, com a cabeça ainda lateralizada a 45o e fletida a 20o. O paciente estará nesta fase com a face voltada para o chão. 9. Durante a manobra, é comum que o paciente se sinta tonto. Diga que será passageiro, orientando para que, caso aconteça, ele mantenha os olhos fechados, a fim de aliviar o mal-estar. 10. Volte o paciente à posição inicial. TRATAMENTO FARMACOLÓGICO • Em momentos de crise, podem ser usados medicamentos sedativos, com o intuito de aliviar os sintomas, porém alguns cuidados devem ser tomados. • Medicamentos para supressão dos vômitos e antivertiginosos, como benzodiazepínicos, anticolinérgicos (escopolamina) e anti-histamínicos (cinarizina, flunarizina, dimenidrinato e prometazina), não devem ser dados por um período maior do que 3 dias, para evitar prejuízos à compensação central, importante para a resolução do quadro. • Para cinetose, o dimenidrinato é uma opção segura e eficaz, inclusive para crianças, bem como a clorfeniramina. • A betaistina, na dose de 16 mg, em três doses diárias, consegue reduzir a frequência e a severidade das crises de alguns pacientes com doença de Ménière, sendo usada como profilaxia. • O tratamento da migrânea vestibular procura seguir as recomendações para o tratamento das migrâneas com aura clássica. USO CRÔNICO DE ANTIVERTIGINOSOS E SUAS CONSEQUÊNCIAS • Essa é uma situação comum decorrente da falta de aprofundamento diagnóstico e da limitação do arsenal terapêutico do clínico, que trata todas as “tonturas” como “labirintites”. • O primeiro problema encontrado é que a maioria dos casos de vertigem, como visto, são condições benignas e que melhoram com o passar do tempo, devido à neuroadaptação natural do SNC. Maria Vitória de Sousa Santos • Contudo, essa neuroadaptação só ocorrerá se o paciente experienciar as crises de tontura que o acometem, mas como os antivertiginosos são efetivos em suprimir os estímulos vestibulares, a oportunidade da neuroadaptação ficacomprometida, o quadro do paciente cronifica e ele passa a acreditar que, caso fique sem usar o seu antivertiginoso, as crises voltarão. • O segundo problema encontrado decorre dos efeitos adversos de longo prazo desses medicamentos. • A relação entre o uso crônico de antivertiginosos e o parkinsonismo induzido por medicamentos é bastante consistente. • Dessa forma deve-se evitar fazer uso dessas medicações, limitando seu uso como terapia abortiva ao menor tempo possível, bem como encorajar os pacientes que as utilizam cronicamente a descontinuá-las. Maria Vitória de Sousa Santos MANEJO DA DIARREIA E CONSTIPAÇÃO NA APS CONSTIPAÇÃO • Constipação é um sintoma definido pela ocorrência de fezes endurecidas, esforço excessivo no ato evacuatório, evacuações infrequentes, sensação de evacuação incompleta e até mesmo demora excessiva no banheiro. EPIDEMIOLOGIA • É um problema mais comum em mulheres (37,2%, contra 10,2% nos homens), em pessoas não brancas, com mais de 65 anos, que possuem baixa renda, com baixo nível socioeducacional e em pessoas que não praticam atividades físicas. CLASSIFICAÇÃO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL A constipação pode ser classificada em: 1. Primária: Também chamada de funcional, é a causa mais comum de consulta em ambulatórios de APS. Suas principais causas são dietéticas e de estilo de vida, como o baixo consumo de fibras e o sedentarismo, além de distúrbios de motilidade idiopáticos do cólon. 2. Secundária: Quando é associada a alguma condição patológica ou ao uso de medicamentos. ROMA III Critérios de Roma III para diagnóstico de constipação funcional: 1. Dois ou mais dos seguintes achados: - Esforço presente em pelo menos 25% das evacuações; - Fezes endurecidas ou fragmentadas em pelo menos 25% das evacuações; - Sensação de esvaziamento incompleto em pelo menos 25% das evacuações; - Sensação de obstrução ou bloqueio anorretal em pelo menos 25% das evacuações; - Manobras manuais para facilitar pelo menos 25% das evacuações (p. ex., manobras digitais para evacuar, apoio pélvico ou vaginal); - M e n o s d e t r ê s e v a c u a ç õ e s espontâneas por semana. 2. Fezes amolecidas são raras na ausência de uso de laxativos; 3. Critérios para SII não estão presentes. GRUPOS FISIOPATOLÓGICOS A constipação funcional pode ser dividida em três grupos fisiopatológicos que frequentemente se encontram sobrepostos, os quais são de difícil distinção na avaliação clínica. 1. Trânsito intestinal normal, porém apresentando dificuldades para o ato evacuatório; 2. Trânsito intestinal lento; 3. Disfunção do assoalho pélvico, o c o r r e n d o i n c o o r d e n a ç ã o d a musculatura pélvica e esfincteriana, bloqueio anorretal e necessidade de esforço evacuatório. SINAIS DE ALARME Alertas vermelhos na avaliação da constipação intestinal em adultos: 1. Início recente em pacientes com idade maior que 50 anos; 2. Anemia ferropriva sem fator causal conhecido; 3. Sangramento retal; 4. Presença de sangue oculto nas fezes; 5. História familiar de câncer colorretal, DII ou doença celíaca; 6. Perda de peso involuntária; 7. Febre; 8. Dor abdominal intensa; 9. Tenesmo. ANAMNESE Deve-se questionar sobre: 1. Hábitos de vida e dietéticos; 2. Inatividade física; 3. H á b i t o d e i n i b i ç ã o d o r e f l e x o evacuatório; 4. Uso continuado de laxantes; Maria Vitória de Sousa Santos 5. Sensação de esvaziamento retal incompleto, associada com uso de força excessiva para extrusão das fezes e manobras manuais frequentes para desimpactação direcionam para alterações obstrutivas/mecânicas anorretais, que incluem doença de Hirschprung, estreitamento anal, câncer, prolapso retal, retoceles ou disfunções do assoalho pélvico.10 6. História psicossocial e familiar deve ser abordada – sintomas depressivos, de ansiedade, transtornos alimentares, somatizações, traumas na infância e abuso físico e sexual podem estar associados à constipação. EXAME FÍSICO O exame físico deve ser direcionado pelos achados da anamnese e com o objetivo de detectar causas secundárias e alertas vermelhos: 1. O exame abdominal comumente revela dor (fraca e sem dor à descompressão) e distensão abdominal, mesmo nas constipações funcionais crônicas. 2. Fecalomas localizados em regiões mais altas do intestino também podem ser palpados e são representados por massas endurecidas, móveis, em topografia intestinal e indolores. 3. O peso e o estado nutricional devem s e r o b s e r v a d o s p a r a r e g i s t r a r emagrecimento e desnutrição. 4. A palidez mucosa é um sinal indireto d e a n e m i a e d e v e s e m p r e s e r investigada. O exame anorretal é realizado com o paciente em decúbito lateral esquerdo e pode trazer importantes informações: 1. A inspeção em repouso e dinâmica (com manobra de Valsalva) identifica fissuras agudas e crônicas, escoriações, hemorroidas externas ou prolapsos retais, que podem ser causadas pela constipação ou podem produzir dor que leve à constipação crônica. 2. P o d e m - s e i d e n t i f i c a r c a u s a s infecciosas, como herpes genital ou abscessos perianais, além de fístulas. 3. Durante o exame, ao solicitar que a pessoa realize a contração anal (como se fosse defecar), a observação de assimetria na abertura do ânus ou a sua abertura excessiva denotam distúrbio neurológico que altera a função esfincteriana. 4. O toque retal pode revelar massas, úlceras ou fecalomas; em homens, o exame também pode revelar aumento do tamanho da próstata. EXAMES COMPLEMENTARES • Os exames complementares devem ser realizados para avaliação de uma possível causa secundária apenas quando a anamnese e o exame físico levantarem alguma suspeita específica. Alguns exames podem identificar causas secundárias de constipação e são indicados nos casos em que a anamnese e o exame físico forem sugestivos de alguma etiologia específica: 1. Hemograma completo (anemia, que pode sugerir neoplasias); 2. Glicose em jejum (diabetes); 3. Pesquisa de sangue oculto nas fezes (sangramento oculto, neoplasias); 4. Hormônio estimulante da tireoide (TSH) (hipotireoidismo); 5. Potássio sérico (hipocalemia); 6. Cálcio sérico (hipercalcemia); 7. Exame comum de urina e creatinina sérica (doença renal). Observação: Quando houver suspeita de estreitamento colônico (por aderências, doença inf lamatória intest inal ou diverticulose) ou suspeita de megacólon congênito ou adquirido, o enema opaco é o exame de preferência para investigação. E x i s t e m a l g u n s e x a m e s b a s t a n t e específicos que são utilizados para avaliação do trânsito colônico e do funcionamento da musculatura do assoalho pélvico: trânsito colônico, teste da expulsão de balão, manometria anorretal, ressonância magnética pélvica dinâmica e defecografia. TRATAMENTO O tratamento da constipação funcional crônica envolve: 1. Educação para a saúde; 2. Mudanças de estilo de vida. - A necessidade de evacuar não deve ser ignorada e pode-se estimular a # Maria Vitória de Sousa Santos regularização do hábito intestinal encorajando a pessoa a permanecer sentada no vaso sanitário por alguns minutos diariamente,sobretudo após refeições e pela manhã, aproveitando o reflexo gastrocólico. - Aumento da ingestão de fibras e líquidos, além de manutenção de atividade física regular. 3. Uso de laxativos (para pacientes que n ã o r e s p o n d e r a m a s c o n d u t a s anteriores). - Encontram-se melhores evidências d e q u e a l a c t u l o s e , o polietilenoglicol e o psyllium podem aumentar a frequência ou reduzir a consistência das fezes. Os agentes laxativos podem ser utilizados de forma intermitente, por períodos de alguns dias intercalados com intervalos sem medicamentos, ou de forma crônica. ERROS COMETIDOS 1. Realizar exames complementares indiscriminadamente e na avaliação inicial da pessoa constipada, mesmo na ausência de s inais e s intomas sugestivos de causas secundárias. 2. Não avaliar a possibilidade de uma causa secundária, considerando a pessoa como constipada funcional sem pesquisa adequada de sinais e sintomas. 3. Subestimar ou negligenciar a presença dos alertas vermelhos, não oferecendo a investigação necessária. 4. Deixar de instruir a pessoa sobre o tempo de melhora que é necessário quando da instituição de medidas comportamentais e dietéticas. Muitas pessoas podem se desestimular pela ausência de evacuações regulares em curto prazo e desistirem do tratamento ou se automedicarem. 5. Tratar apenas com laxantes, sem estimular o consumo de fibras e líquidos e a prática de atividades físicas e hábitos de evacuação. 6. D e i x a r d e a b o r d a r p r o b l e m a s psicossociais associados. 7. Deixar de realizar anamnese e exame f í s i c o a d e q u a d o s e m p e s s o a s hiperutilizadoras, diagnosticando a constipação crônica funcional sem antes descartar alertas vermelhos ou causas secundárias. DIARREIA • Um aumento de volume das fezes acompanhado por diminuição da sua consistência e maior número de evacuações configura um quadro de diarreia. CLASSIFICAÇÃO DA DIARREIA 1. Diarreia aguda: Presença de três ou mais fezes diminuídas de consistência e aquosas em um período de 24 horas. As infecções virais, principalmente por rotavírus, são responsáveis por 75 a 90% dos casos. Maria Vitória de Sousa Santos 2. Disenteria: Diarreia sanguinolenta, presença de sangue visível e muco (gleras). 3. Diarreia persistente: Episódios de diarreia durando mais de 14 dias. 4. Diarreia crônica: Duração maior do que 30 dias. ANAMNESE Para a diarreia aguda questionar sobre: 1. Avaliar o início do quadro; 2. Frequência das evacuações e a quantidade de fezes; 3. Caráter das fezes (biliar, sanguinolento ou mucoide); 4. Presença associada de vômitos ou de febre; 5. História médica prévia; 6. Uso de medicamentos; 7. Estado atual de saúde da pessoa, como a presença de imunossupressão e comorbidades; 8. Presença de dicas epidemiológicas, como viagens recentes e epidemias atuais, etc. Para a diarreia crônica questionar sobre: 1. Forma de início do quadro de diarreia (congênito, abrupto, gradual); 2. Frequência das crises de diarreia (contínua, intermitente); 3. Duração dos sintomas; 4. Fatores epidemiológicos (história de v iagem, exposição a a l imentos contaminados, história de membros da famíl ia apresentando o mesmo quadro); 5. Características das fezes (aquosas, sanguinolentas ou gordurosas); 6. Presença ou não de incontinência fecal; 7. Presença ou não de outros sintomas: dor abdominal, perda de peso, rash cutâneo, vômitos, fadiga, dores articulares e úlceras na cavidade oral; 8. P r e s e n ç a d e p e r d a d e p e s o (objetivamente mensurada); 9. Fatores agravantes (p. ex., dieta e estresse); 10. Fatores atenuantes (p. ex., dieta e medicações); 11. Análise de exames e de tratamentos prévios; 12. Investigação de causas iatrogênicas de diarreia (cirurgias, medicações e exposição à radioterapia), bem como de diarreia factícia; 13. Investigação de doenças sistêmicas ( h i p e r t i r e o i d i s m o , D M , imunodeficiências, etc.); 14. Caracterização das fezes é fundamental para a diferenciação do tipo de diarreia c r ô n i c a . A s s i m , n a s f o r m a s inflamatórias e secretórias, observa-se a presença de fezes pastosas associadas a muco ou sangue, ao passo que, na disabsort iva, há esteatorreia e passagem de fezes claras, fétidas e v o l u m o s a s p e l a a m p o l a r e t a l . Entretanto, em casos mais leves, essas alterações podem estar ausentes SINAIS DE ALERTA Alertas vermelhos de doença orgânica: 1. Início dos sintomas em indivíduos > 50 anos de idade; 2. Presença de sangue nas fezes; 3. Perda de peso não intencional; 4. História familiar de câncer colorretal; 5. Presença de sintomas noturnos. EXAME FÍSICO DIARREIA AGUDA . Maria Vitória de Sousa Santos O aspecto mais importante a ser avaliado na diarreia aguda é o nível de hidratação dos indivíduos. Os principais sinais de desidratação que devem ser identificados são: 1. P r o l o n g a m e n t o d o t e m p o d e reperfusão capilar; 2. Redução do turgor da pele; 3. Alteração do padrão respiratório; 4. Reperfusão capilar prolongada; 5. Olhos fundos; 6. Mucosas secas; 7. Extremidades frias; 8. Pulsos fracos; 9. Ausência de lágrimas; 10. Taquicardia; 11. Fontanelas deprimidas; 12. Mau estado geral. • Deve-se, ainda, aferir a temperatura corporal, com o intuito de investigar a presença de febre associada, e mensurar o peso, sobretudo na avaliação de crianças (comparação entre as medidas obtidas antes e depois da reidratação) é um método-padrão para o diagnóstico da desidratação nessa população. • Além disso, deve-se avaliar pulso, f r e q u ê n c i a c a r d í a c a , f r e q u ê n c i a respiratória e pressão arterial. • No exame abdominal, deve-se focar em alterações dos ruídos hidroaéreos, presença de distensão, presença de massa ou de dor à palpação, bem como defesa e sinal de descompressão súbita. DIARREIA CRÔNICA O exame físico na avaliação da diarreia crônica é , na maior ia das vezes , inespecífico ou inalterado. No entanto, em alguns casos, pode sugerir importantes pistas para o diagnóstico etiológico, como: 1. Presença de úlceras orais; 2. Sinais de aterosclerose grave; 3. Linfadenomegalia; 4. Sinais de disautonomia; 5. R a s h c u t â n e o , r u b o r o u hiperpigmentação da pele. O exame físico deve incluir: 1. Peso; 2. Altura; 3. Perímetro cefálico; 4. Padrão gráfico de crescimento. Observação: Os sinais de deficiências nutricionais devem ser investigados, como a dermatite perianal, na deficiência de zinco, e alguma deformidade nas pernas, na deficiência de vitamina D. Observação: O abdome pode apresentar distensão nas síndromes de má absorção ou excesso de crescimento bacteriano no intestino, ou pode ser muito sensível em um estado inflamatório. O exame do reto também é importante e pode revelar doença perianal na DII, por exemplo, ou perda de tecido subcutâneo da região na doença celíaca e em outros estados de desnutrição. EXAMES COMPLEMENTARES 1. Diarreia aguda: A coprocultura deve ser solicitada apenas em casos graves, inflamatórios e com presença de sangue, e em casos de diarreia persistente ou em vigência de um surto. O exame parasitológico de fezes, é raramente recomendado, sendo restrito a situaçõesde persistência dos sintomas por mais de 2 semanas. Exames laboratoriais podem ser úteis na avaliação da desidratação grave. 2. Diarreia crônica: O valor dos exames de imagem para os casos de d i a r r e i a c r ô n i c a é l i m i t a d o . Radiografias abdominais podem Maria Vitória de Sousa Santos apresentar constipação ou dilatação do intestino delgado. A tomografia computadorizada ou a ressonância magnética podem ser úteis na DII, pois podem mostrar engrossamento do intestino. O teste respiratório com hidrogênio expirado pode evidenciar a má absorção de carboidratos. A endoscopia pode ser útil para revelar acúmulo de vilosidades duodenais e linfócitos intraepiteliais na doença celíaca ou na DII. TRATAMENTO • No atendimento à pessoa que apresenta um quadro de diarreia, o primeiro passo é definir o grau de desidratação para se escolher o plano de tratamento mais adequado. TRATAMENTO DA DIARREIA CRÔNICA • Deve ser realizado de acordo com a sua possível causa. • Além disso, são fundamentais as medidas de reidratação, de combate à desnutrição e de reposição das vitaminas e dos sais minerais, para melhora dos sintomas, ou pelo menos para o suporte à criança enquanto se realizam as intervenções diagnósticas e terapêuticas necessárias. VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA • A diarreia aguda não consiste em doença de notificação compulsória nacional, em vigência de diagnóstico de casos isolados, ao contrário do que ocorre em suspeita de surtos. • Assim, na suspeita de um surto de doença diarreica transmitida por alimento, com a ocorrência de, no mínimo, dois casos de diarreia aguda semelhantes após a ingesta do mesmo alimento ou de água de mesma origem, é importante lembrar-se sempre de realizar a notificação. ERROS MAIS FREQUENTEMENTE COMETIDOS 1. Não classificar adequadamente a diarreia, não perguntando sobre sintomas que indicam maior gravidade, como sangue ou muco nas fezes; 2. Não avaliar adequadamente o estado de hidratação, nem os sinais de alerta vermelho para desidratação; 3. N ã o i n i c i a r i m e d i a t a m e n t e o tratamento para desidratação; Maria Vitória de Sousa Santos 4. Não propor o plano de hidratação mais adequado para o grau de desidratação; 5. Não enfatizar, durante a orientação da receita de soro caseiro, a necessidade de precisão nas medidas corretas dos solutos, sal e açúcar, em situações em que não se dispõe dos sachês nas unidades; 6. Fazer uso de antieméticos em pacientes com vômitos esporádicos; 7. Fazer uso inadequado de antibióticos; 8. Não caracterizar adequadamente o tipo de diarreia crônica que acomete uma determinada pessoa, sem dar a atenção devida aos sinais de alerta vermelho para doença orgânica; 9. Não referenciar a pessoa, quando necessário, para o especialista focal mais adequado, de acordo com as hipóteses diagnósticas mais plausíveis para um determinado quadro de diarreia crônica. Medidas para prevenção dos episódios de diarreia e de promoção da saúde: 1. Estimular o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade e complementado até 2 anos de idade. 2. Usar alimentos com valor nutricional adequado e sem contaminação. 3. Ingerir apenas água filtrada ou fervida. 4. Estimular políticas governamentais de saneamento básico. 5. Educar sobre a lavagem adequada dos alimentos. 6. Orientar a respeito da lavagem correta das mãos. 7. Informar sobre a imunização contra o rotavírus. Maria Vitória de Sousa Santos PARASITOSES INTESTINAIS CONCEITO • Parasitoses intestinais são doenças cujos agentes etiológicos são helmintos ou protozoários que, em pelo menos um dos períodos do ciclo evolutivo, se localizam no aparelho digestório do homem. A via oral-fecal é a principal fonte de infecção, b e m c o m o á g u a o u a l i m e n t o s contaminados. • Estão nitidamente relacionadas com pobreza, condições precárias de saneamento básico e de moradia, má qualidade da água consumida e baixo grau de escolaridade da população. AGENTES ETIOLÓGICOS Os parasitas que mais comumente causam parasitoses intestinais são: 1. Giardia lamblia; 2. Ascaris lumbricoides; 3. Trichuris trichiura; 4. Ancylostoma duodenale. Observação: Os menos prevalentes são as parasitoses causadas por Strongyloides stercoralis e Enterobius vermicularis. Observação: Taenia solium e Taenia saginata apesar da baixa prevalência, são importantes devido às graves complicações do complexo teníase/cisticercose. TRANSMISSÃO E CICLO DE VIDA 1. Ascaridíase e tricuríase: Sua transmissão pode ocorrer através de alimentos vegetais mal lavados (hortaliças), terra contaminada e água não tratada (ausência de rede de distribuição e de coleta), entre outros fatores em que ocorra exposição ao meio ambiente contaminado. O paras i ta adul to habi ta o t rato gastrintestinal (TGI), produz ovos, que são eliminados através das fezes para o meio ambiente, onde requerem período de maturação para se tornem infectantes. 2. Giardíase: A transmissão ocorre pelo contato entre humanos (oral-fecal), mesmo em ambientes saneados, também podendo ocorrer por água contaminada, visto que a eliminação do parasita infectante ocorre desde o momento de eliminação das fezes. 3. Enterobíase: A transmissão se dá pelo contato interpessoal. As fêmeas adultas depositam ovos na região p e r i a n a l , c a u s a n d o c o m o sintomatologia o prurido. Os ovos podem ser transmitidos diretamente para os contatos da pessoa infectada, indiretamente através de poeiras, alimentos ou roupas contaminados, e também pode haver a retroinfestação, com a migração das larvas para as regiões superiores do intestino. 4. E s t r o n g i l o i d í a s e e ancilostomíase: São transmitidas pela penetração da larva filarioide através da pele, chegando aos pulmões e, destes, ao TGI, onde se desenvolve o indivíduo adulto. As formas adultas liberam larvas não infectantes que, no meio externo, podem tornar-se infectantes ou indivíduos adultos de v ida l ivre , com capacidade de acasalamento, mantendo o ciclo de infestação. Animais domésticos (gatos e cachorros), além do homem, podem ser reservatórios deste parasita. 5. Amebíase: A transmissão ocorre pela ingesta de água e/ou alimentos contaminados por dejetos contendo cistos do protozoário. 6. Teníase: A teníase ocorre por ingesta de carne crua ou mal passada de animais com cisticercose, seja ela por Maria Vitória de Sousa Santos cisticerco de T. saginata (carne de vaca) ou cisticerco de T. solium (carne de porco). Fatores econômicos, culturais (hábitos alimentares) e religiosos tendem a expor certos grupos de indivíduos em maior ou menor grau, como o uso de carne crua. A cisticercose humana ocorre quando o h o m e m s e t o r n a h o s p e d e i r o intermediário após a ingesta de ovos de T. solium. Após 1 a 3 dias da ingestão de ovos, ocorre liberação dos embriões no duodeno e jejuno. As larvas alcançam a circulação sanguínea e se fixam em diversos tecidos. A teníase é u m f a t o r i m p o r t a n t e p a r a o aparecimento da cisticercose humana, havendo inter-relação estreita entre teníase e cisticercose. O homem adquire cisticercose pela ingestão de ovos de T. solium por meio de alimentos contaminados, uso de água de irrigação e em área de criação de porcos. Outra fonte importante de contaminação são os manipuladores de alimentos, e o próprio portador de teníase, em razão de maus hábitos de h i g i e n e , t a m b é mp o d e autocontaminar-se. 7. Esquistossomose: É adquirida pelo c o n t a t o p e l e e m u c o s a s e m consequência do contato humano com águas de lagoas contendo formas infectantes do S. mansoni (larvas cercárias). Quando a larva cercária penetra na pele ou mucosa do homem, atinge a circulação sanguínea e se instala preferencialmente no fígado até atingir a fase adulta do verme, d e s l o c a n d o - s e p a r a o s v a s o s mesentéricos no intestino grosso e delgado, iniciando a postura de ovos pelas fezes, que são eliminados em l a g o a s . O s o v o s n a á g u a s e transformam em miracídios que, em contato com o caramujo Biomphalaria, fazem ciclo intermediário no intestino do animal, transformando-se em larvas cercárias que penetram no ser humano, e o ciclo se reinicia. A transmissão da doença depende da presença do homem infectado, excretando ovos do helminto pelas fezes, e dos caramujos Biomphala ria que vivem em água- doce, que atuam como hospedeiros intermediários, liberando larvas infectantes (cercárias) do verme nas coleções hídricas utilizadas pelos seres humanos. FATORES DE RISCO 1. Condições de higiene precárias; 2. Nível socioeconômico; 3. Escolaridade da população; 4. Crianças (2-6 anos) que frequentam creches. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS 1. Diarreia (aquosa, mucoide, aguda, persistente, intermitente); 2. Dor abdominal (desconforto vago a cólicas); 3. Dispepsia; 4. Anorexia; 5. Astenia; 6. Vômitos; 7. Flatulência; 8. Emagrecimento; 9. Distensão abdominal 10. Prurido anal (casos de enterobíase oxiuríase); 11. Eliminações de vermes (ascaridíase). Observação: As parasitoses podem causar, nas crianças, como morbidade associada, o déficit pôndero-estatural e a anemia ferropriva. O b s e r v a ç ã o : P o d e s e r f e i t o u m diagnóst ico di ferencial com vírus (rotavírus) e bactérias (E. coli e clostrídio), em especial devido à sintomatologia de diarreia aguda e demais manifestações gastrintestinais e sintomas gerais. COMPLICAÇÕES 1. Ascaridíase: Obstrução intestinal, perfuração intestinal, volvo, colecistite, pancreati te , abscesso hepático, m a n i f e s t a ç õ e s p u l m o n a r e s ( b r o n c o s p a s m o , h e m o p t i s e , pneumonite – síndrome de Löefler –, eosinofilia importante). 2. Tricuríase: Anemia severa, em grandes infestações, e o decorrente atraso no desenvolvimento de crianças, em condições crônicas. 3. Giardíase: Síndrome de má absorção. Biomphalaria Maria Vitória de Sousa Santos 4. E n t e r o b í a s e : V u l v o v a g i n i t e s , salpingites, infecções devido às escoriações provocadas pela coçadura, granulomas pélvicos. 5. Estrongiloidíase: Síndrome de má absorção, síndrome de Löefler. Em imunocomprometidos, em uso de corticoides ou com desnutrição grave: edema pulmonar, superinfecção, infecção oportuníst ica. Formas sistêmicas: sepse. 6. A n c i l o s t o m í a s e : A n e m i a , h i p o p r o t e i n e m i a ( i n s u f i c i ê n c i a cardíaca, anasarca), hemoptise, pneumonite (quando larvas migram para os pulmões). 7. Amebíase: Granulomas (amebomas) no intestino grosso, abscesso hepático, abscesso cerebral, abscesso pulmonar, c o l i t e f u l m i n a n t e , e m p i e m a , pericardite. 8. Teníase/cisticercose: Quando há ingesta, pelo homem, de ovos da tênia adulta, os embriões podem migrar para o SNC, causando a neurocisticercose, sendo considerada a mais grave das infecções parasitárias do sistema nervoso humano, podendo causar convulsões, hipertensão intracraniana, cefaleia e meningite. A cisticercose pode localizar-se também no globo ocular, causando cegueira, e no tecido muscular , causando cãibras . A neurocisticercose é considerada a causa i so lada mais comum de epilepsia. 9. Esquistossomose: A partir da penetração das larvas cercárias na pele ou nas mucosas e todo o ciclo realizado na circulação sanguínea, fígado, intestino, a doença apresenta a forma aguda, e a crônica, a partir de 120 dias do início do ciclo. A forma aguda se c a r a c t e r i z a p o r d i a r r e i a s sanguinolentas, e a fase crônica pode apresentar a forma hepatoesplênica, que pode causar cirrose, aumento do f í g a d o e b a ç o ; e m s i t u a ç õ e s descompensadas, ascite. Pode causar também hipertensão porta, com o aparecimento de varizes esofágicas que podem provocar hemorragia digestiva alta, além de anemia. DIAGNÓSTICO 1. História clínica; 2. Exame parasitológico das fezes (Recomenda-se a coleta de pelo menos três amostras de fezes em dias s e p a r a d o s - c o n s e c u t i v o s o u alternados); 3. Hemograma (eosinofilia). PREVENÇÃO 1. Prevenção primária: Envolve medidas de saneamento básico, armazenamento e coleta de lixo adequada, higiene pessoal, de animais domésticos e de alimentos, além de medidas de educação para a saúde. 2. Prevenção secundária e terciária: Inclui programa de desparasitação periódica para populações vulneráveis, tendo em vista a alta prevalência de enteroparasitoses nestas populações. 3. Quimioterapia preventiva: A OMS defende uma estratégia de controle global contra helmintíases mais p r e v a l e n t e s , e n f a t i z a n d o a quimioterapia preventiva voltada para comunidades de alto risco, em combinação com educação em saúde e melhoria de saneamento sempre que os recursos permitirem. Recomenda-se nesse caso a quimioterapia preventiva c o m t r a t a m e n t o p a r a 7 5 % d a população escolar: - Prevalência acima de 50% – tratar todas as crianças duas vezes por ano. - Prevalência < 50% e > 20% – tratar todas as crianças uma vez por ano. 4. Prevenção quaternária: Deve-se evitar uso excessivo e desnecessário de medicamento em populações que não Maria Vitória de Sousa Santos p e r t e n ç a m à q u e l a s c u j o s c o n d i c i o n a n t e s p a r a a s enteroparasitoses se façam presentes, bem como evitar realização excessiva de exames para d iagnóst ico e confirmação de tratamento nas p o p u l a ç õ e s v u l n e r á v e i s , c u j a s prevalências das enteroparasitoses são altas. TRATAMENTO • Recomenda-se o uso de antiparasitários periodicamente em crianças a partir dos 2 anos de idade. Observação: Para crianças menores de 2 anos utiliza-se o me mebendazol. mun Maria Vitória de Sousa Santos RESFRIADO COMUM E GRIPE INFECÇÕES DE VIAS AÉREAS SUPERIORES As IVAS incluem: 1. Rinossinusite; 2. Amigdalite; 3. Nasofaringite (resfriado comum); 4. Faringite; 5. Faringoamigdalite; 6. Epiglotite e laringite. Observação: Em geral, são de etiologia viral apresentam boa evolução e são autolimitados; entretanto, como são frequentes na população, podem resultar em maior procura por atendimento nas unidades de saúde, absenteísmo à escola ou ao trabalho. RESFRIADO COMUM 1. Introdução: O resfriado comum é a principal causa de IVAS e caracteriza a inflamação da mucosa nasofaríngea em decorrência de infecção viral. 2. Agentes etiológicos: Há mais de 200 tipos de vírus que podem causar sintomas de resfriado comum, sendo os mais prevalentes os rinovírus, os coronavírus e a influenza. Entre os menos prevalentes estão o vírus s inc ic ia l respiratór io (VSR) , a parainf luenza, o adenovírus, o enterovírus e o metapneumovírus. 3. Período de incubação: O resfriado comum pode acontecer em qualquer estação do ano. O períodode incubação varia de 24 a 72 horas. O episódio infeccioso tem duração de 3 a 14 dias em pessoas imunocompetentes. O período de maior infectividade inicia com os sintomas, e a transmissão pode persistir por até 2 semanas. 4. Quadro clínico : Os s intomas dependem da resposta imune da pessoa com a doença e incluem congestão e obstrução nasal (mais frequentes), febre baixa ou sensação de febre, tosse seca, dor de garganta (“garganta arranhada”), espirros e mal- estar. A febre é incomum nos adultos, mas pode surgir em crianças. A secreção nasal, em geral, é clara, mas p o d e s e r p u r u l e n t a , n ã o necessariamente significa infecção bacteriana secundária (rinossinusite bacteriana) ou indica necessidade de prescrição de antibióticos. Os vírus do resfriado comum podem causar rinossinusite viral aguda, na qual a dor/desconforto facial em pressão acompanha os sintomas nasais. A tosse seca ocorre em decorrência do gotejamento pós-nasal ou pela limpeza da garganta. 5. Complicações: As complicações são i n c o m u n s e m p e s s o a s i m u n o c o m p e t e n t e s e i n c l u e m : rinossinusite bacteriana, pneumonia bacteriana secundária, bronquite, exacerbação da asma (rinoviroses) e otite média aguda. A rinossinusite bacteriana pode ser suspeitada quando houver persistência dos sintomas nasais por mais de 10 dias ou piora dos sintomas após um período inicial de melhora. 6. DD: Os principais diagnósticos diferenciais são: rinite alérgica, rinossinusite viral aguda, gripe, faringoamigdalite por estreptococo beta-hemolítico do grupo A (EBHGA), de Lancefield. GRIPE 1. Introdução: A gripe é uma infecção aguda nas vias aéreas superiores (VAS) (faringoamigdalite), que também pode causar infecção nas vias aéreas inferiores (VAI). 2. Agente etiológico: O vírus da influenza (Myxovirus influenzae) é um RNA vírus com comportamento sazonal, mais prevalente no inverno, sendo definido por três tipos principais A, B e C. O tipo A é nomeado de acordo com as glicoproteínas de superfície c e l u l a r : h e m a g l u t i n i n a e neuraminidase e é o responsável por epidemias e pelas grandes pandemias. O tipo B é responsável por epidemias. O tipo C causa infecções respiratórias brandas. Os vírus da influenza são a l tamente mutáveis , ocorrendo pequenas variações nas glicoproteínas de superfície ao longo do tempo (antigenic drifts). As mutações podem comprometer a habilidade do sistema Maria Vitória de Sousa Santos imune em combatê-los. Por isso, anualmente, são coletadas amostras virais em unidades sentinelas no mundo inteiro, incluindo o Brasil, para composição das vacinas com vírus circulantes. 3. Período de incubação: O período de incubação é de 1 a 4 dias, e o período de infectividade inicia em 12 a 24 horas a partir da exposição com o aumento d a r e p l i c a ç ã o v i r a l e , consequentemente, da resposta imune humoral e celular. 4. Quadro clínico: A síndrome gripal inicia com febre alta subitamente (37,8-41°C), dor de garganta ou tosse seca acompanhada de pelo menos um dos sintomas: mialgia, cefaleia ou dor a r t i c u l a r , c o m d u r a ç ã o d e , aproximadamente, 7 dias, podendo estender-se por mais dias, dependendo da imunidade da pessoa com a doença. A febre é o sintoma mais importante e dura em torno de 3 dias. Os sintomas respiratórios ficam mais evidentes com a progressão da doença e se mantêm por 3 a 5 dias, após o desaparecimento da febre. Os sintomas podem estar a c o m p a n h a d o s d e h i p e r e m i a conjuntival e gastrintestinais (náuseas, vômitos, diarreia e inapetência), eventualmente, em crianças. 5. Fatores de risco para complicações da influenza: - População indígena; - Gestantes; - Puérperas até 2 semanas após o parto; - Crianças ≤ 2 anos; - Adultos ≥ 60 anos; - P e s s o a s c o m p n e u m o p a t i a s (incluindo asma); - Pessoas com DCVs (excluindo HAS); doenças hematológicas (incluindo anemia falciforme); - Pessoas com distúrbios metabólicos (incluindo DM); - P e s s o a s c o m t r a n s t o r n o s neurológicos e do desenvolvimento que possam comprometer a função respiratória ou aumentar o risco de aspiração (disfunção congênita, lesões medulares , epi leps ia , paralisia cerebral, síndrome de D o w n , A V C o u d o e n ç a s neuromusculares); - Pessoas com imunossupressão (medicamentos, neoplasias, HIV/ Aids); - P e s s o a s c o m n e f r o p a t i a s e hepatopatias. Observação: Em geral, o curso clínico da síndrome gripal é autolimitado, sem complicações e não exige notificação à vigilância epidemiológica. A persistência da febre por mais de 3 dias, a desidratação o u a e x a c e r b a ç ã o d o s s i n t o m a s gastrintestinais indicam piora do quadro clínico. 6. Complicações: Síndrome respiratória aguda grave (SRAG), pneumonia bacteriana secundária (Streptococcus pneumoniae, Staphylococcus aureus, Haemophilus influenzae), otite média (crianças), rinossinusite, miosite (creatinofosfocinase ≥ 2-3 vezes o valor d e r e f e r ê n c i a ) , r a b d o m i ó l i s e , e n c e f a l i t e , m i e l i t e t r a n s v e r s a , meningite asséptica, síndrome de Guillan-Barré (SGB), miocardite e pericardite (raras). 7. Sinais de piora do estado clínico: - Persistência ou agravamento da febre por mais de 3 dias; - Miosite comprovada por CPK (≥ 2-3 vezes); - Alteração do sensório; - Desidratação; - Em crianças, exacerbação dos sintomas gastrintestinais. 8. DD: Resfriado comum, infecção por VSR, enterovírus, parainfluenza, rinossinusite viral aguda e bacteriana, faringoamigdalite por EBHGA, de Lancefield, primoinfecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), sífilis secundária. DIAGNÓSTICO ANAMNESE Uma abordagem centrada na pessoa pode auxiliar o médico de família e comunidade a explorar sobre a saúde da pessoa e as informações clínicas referentes à IVAS: Maria Vitória de Sousa Santos 1. Início, duração e progressão dos sintomas: - Início súbito e progressão rápida dos sintomas respiratórios, duração além da estimada, não melhora ou piora dos sintomas com tratamento podem indicar gravidade ou ocorrência de complicações. 2. Sinais de obstrução das VAS: - Estridor inspiratório com agitação (irritabilidade) ou em repouso. - Cianose com agitação ou em repouso. - Diminuição do murmúrio vesicular. - R e t r a ç õ e s d a m u s c u l a t u r a intercostal, subcostal ou uso de musculatura acessória para auxiliar na respiração. - Posição ancorada (em tripé) e boca aberta com mento hiperestendido para facilitar a respiração. 3. Febre aferida ou relatada: - A febre ≥ 37,8°C de início súbito associada a outros sintomas respiratórios, como com a tosse, pode auxiliar na predição clínica para influenza em adultos e crianças. - Surgimento de febre ≥ 39°C, ou recorrência de febre no resfriado comum, pode indicar rinossinusite bacteriana. 4. Presença de: - Obstrução nasal, coriza e espirros. - Dor de garganta (tipo): Sensação de garganta “arranhada”/Sensação de garganta “inchada” com odinofagia. - Tosse (tipo): Tosse seca estimulada por gota pós-nasal ou para limpeza da garganta; Tosse paroxística; Tosse rouca “latido de cachorro”; T o s s e p r o d u t i v a ( s e c r e ç ã o proveniente das VAI); Rouquidão. 5. Estado vacinal e uso de substâncias/ m e d i c a m e n t o s p o t e n c i a l m e n t e anafiláticos: - A incidência de IVAS graves, como laringite por caxumba ou sarampo, crupe/epiglotite por Haemophilus influenzae, é maior em pessoas não vacinadas. - Ingestão de alimentos, corantes ou medicamentos podem causar anafilaxia e obstruçãodas vias aéreas (VAs) não relacionada à infecção respiratória. 6. Identificação dos fatores de risco para complicações das IVAS: - Por exemplo, vírus causadores do resfriado comum podem causar exacerbação da asma ou da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). A identificação dos fatores de vulnerabilidade também está incluída nesse item. EXAME FÍSICO 1. Inicia com a observação da pessoa com sintomas respiratórios das IVAS. 2. Estado geral, o nível de consciência, a fácies, a postura adotada, a fala, a FR, a presença de sintomas (tosse, coriza ou espirros) e a hidratação podem ser observados no momento em que a pessoa ou familiar/cuidador está relatando a história. 3. No exame físico das pessoas com resfriado comum, pode ser constatado eritema/edema da mucosa nasal e hiperemia orofaríngea sem mais a l t e r a ç õ e s n o s m o v i m e n t o s respiratórios ou na ausculta pulmonar. 4. Adenopatia cervical anterior em crianças. 5. Na síndrome gripal e na laringite aguda, podem ser observados sinais semelhantes aos do resfriado comum. Hiperemia conjuntival pode estar presente na gripe, assim como a febre é mais alta e o estado geral é pior. 6. Em pessoas com síndrome gripal, é importante verificar, no exame físico, sinais de SRAG, como: dificuldade respiratória (tiragem intercostal, batimento de asa de nariz em crianças, u s o d e m u s c u l a t u r a a u x i l i a r r e s p i r a t ó r i a e / o u t a q u i p n e i a ) , hipotensão, desidratação (turgor da pele) e alteração na ausculta pulmonar. 7. Na ausculta pulmonar, pode haver murmúrio ves icu lar d iminuído indicando redução do volume de ar corrente devido à diminuição do Maria Vitória de Sousa Santos calibre das vias aéreas ou estertores indicando provável infecção pulmonar. EXAMES COMPLEMENTARES 1. Testes rápidos (detectar v í rus respiratórios e bactérias em pessoas com IVAS); 2. Culturas das secreções nasais para vírus ou bactérias em IVAS na APS. TRATAMENTO RESFRIADO COMUM • Adultos com sintomas leves de resfriado comum não necessitam de tratamento medicamentoso sintomático. Observação: A replicação viral ocorre em baixas temperaturas (~33-37°C). Assim, um aumento leve da temperatura corporal pode ser um fator inibidor da replicação viral. A tosse remove as secreções das vias aéreas, por isso, não é recomendado suprimi-la. • Apesar de não haver evidência científica de benefício das medidas de suporte não medicamentosas (hidratação e limpeza nasal com água ou solução salina), elas podem ser úteis na recuperação e no alívio dos sintomas e não causam danos. • As pessoas com IVAS podem ser afastadas do trabalho ou escola para diminuir a transmissibilidade da virose. • O pico de transmissibilidade ocorre junto com o pico de replicação viral e o aumento da carga viral em 2 a 3 dias do início dos sintomas. Dessa forma, geralmente, o afastamento é feito por 5 a 7 dias. GRIPE A s s e g u i n t e s m e d i d a s d e v e m s e r recomendadas para todas as pessoas infectadas: 1. Lavar as mãos com água e sabão. 2. Evitar tocar olhos, nariz ou boca após contato com superfícies. 3. Evitar sair de casa enquanto estiver em período de transmissão da doença (até cinco dias após o início dos sintomas). 4. Evitar entrar em contato com outras pessoas suscetíveis. 5. Evitar aglomerações e ambientes fechados (manter os ambientes ventilados). 6. Repousar, ter alimentação balanceada e ingerir bastante líquido. • O Ministério da Saúde (MS) recomenda tratamento com medicamento antiviral (oseltamivir) para pessoas com síndrome gripal com fatores de risco, a fim de d i m i n u i r a p r o b a b i l i d a d e d e complicações. - A dose recomendada é de 75 mg duas vezes ao dia, por cinco dias, para adultos. • Pessoas com síndrome gripal sem fatores de risco para complicações e ausência de sinais de piora do estado clínico podem ser acompanhadas na APS e receber tratamento sintomático, se necessário. • Pessoas com fatores de risco ou com sinais de piora do estado clínico têm i n d i c a ç ã o d e i n i c i a r m e d i c a ç ã o sintomática, oseltamivir e de solicitação de radiografia torácica ou outros exames conforme avaliação clínica. • C o m o , e m g e r a l , e x a m e s complementares não estão prontamente disponibilizados na APS, a pessoa pode s e r r e f e r e n c i a d a p a r a o p r o n t o atendimento, devendo ser reavaliada em 48 horas. Recomenda-se referenciar à emergência hospitalar pessoas com sinais de SRAG. Os sinais de síndrome respiratória aguda grave são: - Síndrome gripal e dispneia ou presença de um dos sinais de gravidade: - Saturação de SpO2 < 95% em ar ambiente; - Sinais de desconforto respiratório ou aumento da FR avaliada de acordo com a idade; - Piora nas condições clínicas de doença de base; - Hipotensão em relação à PA habitual do paciente; - Pessoa de qualquer idade com quadro de IRpA durante período sazonal. ATIVIDADES PREVENTIVAS E DE EDUCAÇÃO As ações preventivas têm como objetivos: 1. Evitar casos novos de IVAS; 2. Reduzir a transmissão viral, na presença de doença; Maria Vitória de Sousa Santos 3. E v i t a r a p r e s c r i ç ã o e o u s o desnecessário de medicamentos/ p r o c e d i m e n t o s ( p r e v e n ç ã o quaternária). • A vacina contra influenza sazonal é e fet iva na prevenção da doença reduzindo em mais de 60% sua ocorrência. Maria Vitória de Sousa Santos Maria Vitória de Sousa Santos POLITICA NACIONAL DE ATENÇÃO INTEGRAL À SAÚDE DA MULHER (PNAISM) INTRODUÇÃO • A situação de saúde envolve diversos aspectos da vida, como a relação com o meio ambiente, o lazer, a alimentação e as condições de trabalho, moradia e renda. • No caso das mulheres, os problemas são agravados pela discriminação nas relações de trabalho e a sobrecarga com as responsabilidades e com o trabalho doméstico. Outras variáveis como raça, etnia e situação de pobreza realçam ainda mais as desigualdades. SAÚDE DA MULHER E O ENFOQUE DE GÊNERO • Levando em consideração que as históricas desigualdades de poder entre homens e mulheres implicam num forte impacto nas condições de saúde destas últimas, as questões de gênero devem ser c o n s i d e r a d a s c o m o u m d o s determinantes da saúde na formulação das políticas públicas. • O gênero delimita campos de atuação para cada sexo, dá suporte à elaboração de leis e suas formas de aplicação. • Partindo-se desse pressuposto, é imprescindível a incorporação da perspectiva de gênero na análise do perfil epidemiológico e no planejamento de ações de saúde, que tenham como objetivo promover a melhoria das condições de vida, a igualdade e os direitos de cidadania da mulher. EVOLUÇÃO DAS POLÍTICAS DE ATENÇÃO À SAÚDE DA MULHER • No Brasil, a saúde da mulher foi incorporada às políticas nacionais de saúde nas primeiras décadas do século XX, sendo limitada, nesse período, às demandas relativas à gravidez e ao parto. • No âmbito do movimento feminista bras i le i ro , esses programas são v i g o r o s a m e n t e c r i t i c a d o s p e l a perspectiva reducionista com que tratavam a mulher, que tinha acesso a alguns cuidados de saúde nociclo gravídico-puerperal, f icando sem assistência na maior parte de sua vida. • Em 1984, o Ministério da Saúde elaborou o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), marcando, sobretudo, uma ruptura conceitual. • O novo programa para a saúde da mulher incluía ações educativas, preventivas, de diagnóstico, tratamento e recuperação, englobando a assistência à mulher em clínica ginecológica, no pré- natal, parto e puerpério, no climatério, em planejamento familiar, DST, câncer de colo de útero e de mama, além de outras necessidades identificadas a partir do perfil populacional das mulheres. • Nesse balanço são apontadas ainda várias lacunas como atenção ao c l i m a t é r i o / m e n o p a u s a ; q u e i x a s ginecológicas; infertilidade e reprodução a s s i s t i d a ; s a ú d e d a m u l h e r n a a d o l e s c ê n c i a ; d o e n ç a s c r ô n i c o - degenerativas; saúde ocupacional; saúde mental; doenças infectocontagiosas e a inclusão da perspectiva de gênero e raça nas ações a serem desenvolvidas. • Em 2003, a Área Técnica de Saúde da Mulher identifica ainda a necessidade de articulação com outras áreas técnicas e da proposição de novas ações, quais sejam: atenção às mulheres rurais, com d e f i c i ê n c i a , n e g r a s , i n d í g e n a s , presidiárias e lésbicas e a participação nas discussões e atividades sobre saúde da mulher e meio ambiente. PNAISM • A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher foi elaborada pela Área Técnica de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde em 2004, a partir da necessidade deste Ministério de contar com diretrizes técnico-políticas para a atenção à saúde das mulheres no país. • O documento da PNAISM incorpora, num enfoque de gênero, a integralidade e a promoção da saúde como princípios norteadores e busca consolidar os avanços no campo dos direitos sexuais e reprodutivos, com ênfase na melhoria da atenção obstétrica, no planejamento reprodutivo, na atenção ao abortamento inseguro e aos casos de violência doméstica e sexual. Além disso, amplia as ações para grupos historicamente Maria Vitória de Sousa Santos alijados das políticas públicas, nas suas especificidades e necessidades. OBJETIVOS 1. Objetivos Gerais: - Promover a melhoria das condições de vida e saúde das mulheres brasileiras, mediante a garantia de direitos legalmente constituídos e ampliação do acesso aos meios e serviços de promoção, prevenção e assistência e recuperação da saúde em todo o território brasileiro. - Contribuir para a redução da morbidade e mortalidade feminina no Brasil, especialmente por causas evitáveis, em todos os ciclos de vida e n o s d i v e r s o s g r u p o s populacionais, sem discriminação de qualquer espécie. - Ampliar, qualificar e humanizar a atenção integral à saúde da mulher no Sistema Único de Saúde. 2. Objetivos Específicos: - Ampliar e qualificar a atenção clínico-ginecológica, inclusive para as portadoras de infecção pelo HIV e outras DST. - E s t i m u l a r a i m p l a n t a ç ã o e implementação da assistência em planejamento reprodutivo para homens e mulheres, adultos e adolescentes, no âmbito da atenção integral à saúde. - Promover a atenção obstétrica e neonatal, qualificada e humanizada, i n c l u i n d o a a s s i s t ê n c i a a o a b o r t a m e n t o e m c o n d i ç õ e s i n s e g u r a s , p a r a m u l h e r e s e adolescentes. - Promover a atenção às mulheres e adolescentes em situação de violência doméstica e sexual. - Promover, conjuntamente com o Departamento Nacional de DST/ Aids, a prevenção e o controle das doenças sexualmente transmissíveis e da infecção pelo HIV/Aids na população feminina. - Reduzir a morbimortalidade por câncer na população feminina. - Implantar um modelo de atenção à saúde mental das mulheres sob o enfoque de gênero. - Implantar um modelo de atenção à saúde mental das mulheres sob o enfoque de gênero. - Implantar e implementar a atenção à saúde da mulheres no climatério. - Promover a atenção à saúde das mulheres idosas. - Promover a atenção à saúde das mulheres negras. - Promover a atenção à saúde das trabalhadoras do campo e da cidade. - Promover a atenção à saúde das mulheres indígenas. - Promover a atenção à saúde das mulheres em situação de prisão. - Fortalecer a participação e o controle sociais na definição e implementação das políticas de atenção integral à saúde das mulheres.