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AUDITORIA NO SETOR PÚBLICO Guilherme Corrêa Gonçalves Modelos Coso I e II Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer a aplicação do modelo Coso I na auditoria interna. Definir a aplicação do modelo Coso II na auditoria interna. Diferenciar o modelo Coso I do modelo Coso II no âmbito da auditoria interna. Introdução O controle interno, além de uma função administrativa, é uma atividade política adotada pelas organizações, com o propósito de diminuir os riscos, melhorar os processos e aproximá-las de seus objetivos. A sua principal função é fornecer à organização as melhores condições para que seus objetivos sejam alcançados. Isso se dá por meio da proteção aos ativos da empresa, da obtenção de informações necessárias e adequadas e da promoção da eficiência operacional. Nesse sentido, é primordial pesquisar e reconhecer os mecanismos que auxiliam na atuação dos controles internos. É o caso das proposições do Committee of Sponsoring Organizations of the Treadway Commis- sion (Coso), que, em 1992, publicou a primeira versão do guia Internal Control — Integrated Framework, mais conhecido como metodologia Coso de controle interno. Esta é largamente empregada como modelo internacional de referência para avaliação dos controles internos. Neste capítulo, você vai estudar a aplicação dos modelos Coso I e Coso II, as suas semelhanças e diferenças e de que modo eles se inserem nas organizações, de modo a apoiar as atividades de controle interno. 1 Coso I Em 1985, foi criada nos Estados Unidos a National Commission on Fraudulent Financial Reporting (Comissão Nacional sobre Fraudes em Relatórios Finan- ceiros), também conhecida como Treadway Commission. Essa comissão foi criada por iniciativa independente do setor privado, a fi m de estudar as causas da ocorrência de fraudes em relatórios fi nanceiros e contábeis e desenvolver recomendações para empresas públicas e seus auditores independentes e para as instituições educativas, conforme leciona Nakano (2009). Posteriormente, essa comissão se transformou em um comitê de organi- zações patrocinadoras, o Coso, uma entidade sem fins lucrativos dedicada à melhoria dos relatórios financeiros por meio da ética, da efetividade dos controles internos e da governança corporativa. Em 1992, o Coso publicou o guia Internal Control — Integrated Framework (Controle Interno — Estrutura Integrada), denominado de Coso Report e mais conhecido como metodologia Coso I, que se tornou referência mundial para o estudo e a aplicação dos controles internos (NAKANO, 2009). A abrangência e a importância dessa metodologia levaram as principais organizações internacionais, tanto do setor público quanto do setor privado, que editam orientações sobre controles internos, a revisarem suas orientações, de modo a incorporarem os conceitos e elementos introduzidos pelo Coso. Especificamente com relação às orientações dadas aos órgãos responsáveis pelos controles internos no setor público, o Comitê de Padrões de Contro- les Internos da International Organization of Supreme Audit Institutions (Intosai), em 2004, publicou o estudo denominado Guidelines for Internal Control Standards for the Public Sector, baseado no estudo do Coso Report, porém, contextualizando os conceitos e as diretrizes introduzidas pelo Coso às especificidades do setor público (NAKANO, 2009). Metodologia Coso I O manual da metodologia Coso I defi ne que o controle interno deve ser um procedimento constituído de cinco elementos básicos inter-relacionados, conforme apontado pelo Tribunal de Contas da União (BRASIL, 2019): ambiente de controle; avaliação e gerenciamento de riscos; atividades de controle; informação e comunicação; monitoramento. Além desses elementos, tratados como componentes de controle, o Coso I preconiza a integração dos controles por meio de uma estrutura tridimensional, Modelos Coso I e II2 conhecida como cubo do Coso, cujas dimensões compreendem os objetivos da organização, as unidades da organização e os componentes de controle (BRASIL, 2019), conforme mostra a Figura 1. Figura 1. Cubo do Coso I. Fonte: Adaptada de Nakano (2009). Monitoramento 1a dimensão: os objetivos 2 a dim ensão3a d im en sã o: co m po ne nt es d os co nt ro le s in te rn os Opera çõ es Relató rio s finance iro s Cum prim ento das r egra s Informação e comunicação Atividades de controle Avaliação de riscos Ambiente de controle U n i d a d e A U n i d a d e B A t i v i d a d e 1 A t i v i d a d e 2 Conforme se pode observar na figura, a primeira dimensão é composta pelos objetivos de processo, registro e conformidade. A segunda dimensão é formada pelas unidades administrativas que deverão ser avaliadas, e a ter- ceira, pelos cinco componentes de controle: ambiente de controle, avaliação de riscos, atividades de controle, processo de comunicação e monitoramento (BRASIL, 2019). O cubo tem como finalidade auxiliar na análise e melhorar a efetividade dos controles internos, ao fornecer subsídios para avaliação do sistema de controle e vinculá-los à consecução de objetivos nas três categorias descritas a seguir (BRASIL, 2019). 1. Eficiência e efetividade operacional: relacionada aos fins básicos da entidade, como os objetivos e as metas de desempenho e rentabilidade, bem como de segurança e qualidade dos ativos. 2. Confiança nos registros contábeis e financeiros: referente aos registros de todas as informações e transações reais. 3. Conformidade: com as leis e normas aplicáveis à entidade e à sua área de atuação. 3Modelos Coso I e II Desse modo, o Coso I é um modelo de referência para controles internos que utiliza o gerenciamento de riscos em sua base conceitual. Para aprimorar essa utilização e intensificar o foco no gerenciamento de riscos, em 2001, o Coso iniciou um projeto com essa finalidade e, em 2004, publicou o modelo Coso II, apresentado a seguir. 2 Coso II Como você pôde acompanhar até aqui, o Coso I se tornou referência para ajudar organizações a avaliar e aperfeiçoar seus sistemas de controle interno, incorporando essa estrutura em políticas, normas e regulamentos adotados para controlar melhor suas atividades, visando ao cumprimento dos objetivos estabelecidos. No entanto, a intensifi cação da preocupação com riscos fez com que o Coso encomendasse o desenvolvimento de uma estratégia para avaliar e melhorar o próprio gerenciamento de riscos. O resultado foi a publicação, em 2004, do modelo Enterprise Risk Management (ERM) — Integrated Framework (Gerenciamento de Riscos Corporativos — Estrutura Integrada), também conhecido como Coso ERM ou Coso II (BRASIL, 2019). Essa publicação ampliou o alcance dos controles internos e ofereceu um enfoque mais vigoroso e extensivo ao tema, agregando técnicas de gerencia- mento integrado de riscos, sem abandonar, mas incorporando, o que já fora preconizado no Coso I. Essa nova postura de prever e prevenir riscos inerentes aos processos da organização proporciona uma diminuição nas possibilidades de os riscos impedirem ou dificultarem o alcance dos objetivos organizacionais. Embora muitos objetivos sejam específicos a uma determinada organiza- ção, o modelo definiu quatro categorias de objetivos comuns a praticamente todas as organizações. Esses objetivos devem ser previamente fixados, para permitir a identificação e a análise dos riscos que poderão impactar as em- presas, formando uma base de conhecimento que buscará definir como esses riscos deverão ser gerenciados (BRASIL, 2019). Os objetivos são divididos nas quatro categorias descritas a seguir (BRASIL, 2019). 1. Estratégico: relacionado à sobrevivência, à continuidade e à sustenta- bilidade. Metas de alto nível, alinhadas e dando suporte à missão da organização. 2. Operacional: efetividade e eficiência na utilização dos recursos, me- diante operações ordenadas, éticase econômicas e adequada salvaguarda contra perdas, mau uso ou dano. Modelos Coso I e II4 3. Comunicação: confiabilidade da informação produzida e sua disponibi- lidade para a tomada de decisões e para o cumprimento das obrigações de accountability. 4. Conformidade: aderência às leis e regulamentações aplicáveis à entidade e obediência às normas, às políticas, aos planos e aos procedimentos da própria organização. Metodologia Coso II Quando o Coso publicou seu guia para o Coso II, teve como objetivo orientar as organizações no desenvolvimento de um processo de gestão de riscos e na aplicação de boas práticas sobre esse tema, o que incrementa os preceitos já estabelecidos no modelo Coso I. O modelo Coso II introduziu conceitos novos e interessantes ao modelo anterior, como: apetite ao risco, que se refere ao montante de risco que uma organização está disposta a aceitar na criação de valor para seus produtos, serviços e processos; e tolerância a riscos, que trata do nível de aceitação da organização aos riscos que poderão surgir na busca por alcançar seus objetivos. A Figura 2 apresenta os elementos que compõem o cubo do Coso II. Figura 2. Cubo do Coso II. Fonte: Adaptada de Brasil (2019). 5Modelos Coso I e II Na Figura 2, você pode observar, na parte superior, as quatro categorias de objetivos, estratégicos, operacionais, de comunicação e conformidade. Os oito componentes de gerenciamento de riscos corporativos estão representados nas linhas horizontais; são eles (CARVALHO NETO; PAPARIELLO, 2012): ambiente interno; definição dos objetivos; identificação de eventos; avaliação do risco; resposta ao risco; atividades de controle; informação e comunicação; monitoramento. Já as unidades da organização estão no lado direito do cubo, na terceira dimensão (CARVALHO NETO; PAPARIELLO, 2012): unidades de negócio; departamentos; divisões; setores, etc. Assim, por ser uma figura em três dimensões, o cubo permite visualizar como se dá a atuação do Coso II e permite focalizar os três conjuntos isola- damente e de forma relacionada. Essa representação ilustra a capacidade de manter o enfoque na totalidade do gerenciamento de riscos, cujos componentes são descritos a seguir (CARVALHO NETO; PAPARIELLO, 2012). Ambiente interno: fornece a base pela qual os riscos são identificados e abordados, segundo a filosofia de gerenciamento de riscos, o apetite ao ímpeto, a integridade e os valores éticos, além do ambiente em que estes estão inseridos. Definição dos objetivos: para que a administração possa identificar os eventos em potencial. Identificação de eventos: identificação dos acontecimentos internos ou externos que podem influenciar o cumprimento dos objetivos or- ganizacionais e devem ser identificados e classificados entre riscos e oportunidades. As oportunidades são canalizadas para os processos de estabelecimento de estratégias da administração ou de seus objetivos. Modelos Coso I e II6 Avaliação do risco: análise da probabilidade de impacto, como forma de determinar o modo pelo qual os riscos devem ser administrados. Resposta ao risco: evitar, aceitar, reduzir ou compartilhar, alinhando os riscos com a tolerância e com o apetite ao risco. Atividades de controle: políticas e procedimentos estabelecidos para assegurar que as respostas aos riscos sejam executadas com eficácia. Informação e comunicação: as informações relevantes são identifi- cadas, colhidas e comunicadas na forma e no prazo que permitam que as responsabilidades sejam cumpridas. Monitoramento: para manter a integridade e realizar as modificações necessárias, por meio de atividades gerenciais contínuas ou avaliações independentes, ou de ambas as formas. Esses oito componentes do gerenciamento de riscos representam o que é necessário para sistematizar e identificar um caminho para o alcance dos objetivos da organização. Esse processo é voltado para resultados por meio da mitigação de riscos. O cubo do Coso II representa o relacionamento entre objetivos e componentes; assim, a eficácia do gerenciamento de riscos depende da presença e do bom resultado desses oito componentes. Esses são os cri- térios definidos para verificar o grau de eficácia do gerenciamento de riscos corporativos da organização, conforme aponta Ferreira (2009). Como você já deve ter percebido, os modelos Coso I e Coso II guardam entre si algumas semelhanças e diferenças, que serão abordadas a seguir. 3 Diferenças entre os modelos Coso I e Coso II A adoção de estruturas de gerenciamento de riscos é cada vez mais presente em organizações públicas em todos os países. No Brasil, o TCU utiliza os modelos de referência Coso I e Coso II como ferramentas de avaliação do con- trole interno. O Poder Executivo federal, por meio da publicação da Instrução Normativa nº. 01/2016, da Controladoria Geral da União e do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, defi niu esses modelos de referência para avaliação de controle interno. O manual do Coso I define que o controle interno deve ser um procedimento constituído de cinco elementos básicos que se inter-relacionam. Já a estrutura do modelo Coso II, em vez de cinco, apresenta oito elementos básicos para o processo de avaliação do controle interno. A Figura 3 apresenta a comparação entre os cubos, destacando que a análise de riscos foi expandida de um para 7Modelos Coso I e II três elementos no Coso II, sendo complementada pelas seguintes atividades: identificação de eventos e resposta a riscos (BRASIL, 2019). Figura 3. Comparação entre os cubos do Coso I e do Coso II, com destaque para a expansão da análise de riscos de um para três componentes. Fonte: Adaptada de Brasil ([2019], documento on-line). É importante ressaltar que o Coso II é uma evolução do Coso I, abrangendo todo o escopo do modelo anterior e incorporando ferramentas complementares. Na sua criação, foi deixada clara a intenção de incorporar e aprimorar o modelo de controle interno Coso I, em vez de substituí-lo (BRASIL, 2019). A principal diferença a se constatar nos elementos dos modelos Coso I e Coso II é a abordagem do risco, que, no Coso II, passa a abranger três com- ponentes, constituindo-se de: identificação de eventos, avaliação de riscos e respostas ao risco. Além disso, o controle interno, para oferecer segurança razoável para que os objetivos das empresas sejam alcançados, necessita seguir as recomendações dos modelos juntamente com a participação da alta administração. Portanto, a fixação de objetivos claros, adicionada ao Coso II, é um requisito primordial para o processo eficaz de controle interno e para a gestão de riscos (CARVALHO NETO; PAPARIELLO, 2012). Modelos Coso I e II8 A gestão de riscos é o processo que permeia toda a organização, desde a alta administração, passando pelos gestores até os demais colaboradores. Ela é aplicada no estabelecimento da estratégia e projetada para identificar possíveis eventos que possam afetar a instituição. Além disso, ela serve para gerenciar os riscos para que eles possam ser mantidos dentro do apetite de risco estabelecido, com vistas a fornecer segurança razoável quanto ao alcance dos objetivos organizacionais (CARVALHO NETO; PAPARIELLO, 2012). Nesse sentido, o processo de gestão de riscos, previsto no Coso II, é aplicável na realização das atividades operacionais, administrativas e de suporte. Porém, o ideal seria que ele fosse aplicado também nas atividades de planejamento voltadas à definição das estratégias das organizações. Isso fica mais evidente quando se observa que a perspectiva do cubo do Coso II relativa aos objetivos inclui um novo tipo de objetivo a ser assegurado e que não era listado no Coso I: os objetivos estratégicos (BRASIL, 2019) O gerenciamento de riscos garante a implementação de um processo com objetivos preestabelecidos, que estejam alinhados à missão organizacional, de forma consistente com o apetite por riscosdeterminado pela organização. Portanto, o modelo Coso II, ao orientar a aplicação de um processo de gestão de riscos, incorpora e aprimora o modelo Coso I pela inclusão de componentes e elementos adicionais que asseguram a realização de todas as atividades necessárias (BRASIL, 2019). Como você pôde observar, no modelo Coso II, em comparação com o modelo Coso I, a gestão de riscos, além de ser um processo que permeia todas as unidades e os processos organizacionais, passa a ser realizada desde a alta administração da entidade, envolvendo os gestores de todos os escalões, até os colaboradores do nível mais operacional. Desse modo, ela é aplicada no estabelecimento do planejamento estratégico e projetada para que todos os envolvidos possam identificar eventos que podem afetar os objetivos organizacionais e, dessa forma, consigam gerenciar riscos, de modo a mantê-los dentro do que foi definido como o seu apetite de risco. Esse processo de gestão de riscos deve ser aplicado na realização tanto das atividades do dia a dia quanto nas atividades mais estratégicas, que envol- vem o planejamento da organização. Essas definições ficam mais evidentes 9Modelos Coso I e II quando se compara a perspectiva do cubo do COSO II, relativa aos objetivos estratégicos, com o que era listado no Coso I. BRASIL. Tribunal de Contas da União. Critérios gerais de controle interno na administração pública: um estudo dos modelos e das normas disciplinadoras em diversos países. Brasília: TCU, 2019. Disponível em: https://portal.tcu.gov.br/lumis/portal/file/fileDo- wnload.jsp?fileId=8A8182A15A4C80AD015A4D5CA9965C37. Acesso em: 14 jan. 2020. BRASIL. Tribunal de Contas da União. Modelos de referência de gestão corporativa de riscos. [2019]. Disponível em: https://portal.tcu.gov.br/planejamento-governanca-e- gestao/gestao-de-riscos/politica-de-gestao-de-riscos/modelos-de-referencia.htm. Acesso em: 14 jan. 2020. CARVALHO NETO, A. A.; PAPARIELLO, B. M. Curso de avaliação de controles internos. 2. ed. Brasília: TCU: Instituto Serzedello Corrêa, 2012. FERREIRA, A. R. A avaliação de riscos para seleção de fiscalizações no Tribunal de Contas da União. Brasília: TCU, 2009. NAKANO, V. M. COSO I: estudo do processo de fiscalização de obras no TCU. Brasília: TCU, 2009. Disponível em: https://portal.tcu.gov.br/lumis/portal/file/fileDownload.jsp ?fileId=8A8182A24F0A728E014F0AEC598D6E66. Acesso em: 14 jan. 2020. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Modelos Coso I e II10