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| p. 1 MARC 12 – “VIREI MOCINHA DE NOVO” (Sangramento uterino anormal - SUA) Objetivos: - Discutir sangramento vaginal na mulher adulta/idosa; - Esclarecer as causas de sangramento pós- menopausa; - Discutir SUA na fase adulta; - Propor o manejo clínico. 1. Sangramento uterino anormal (SUA) 1.1. Introdução - Ciclo menstrual normal: Frequência: 24-38 dias; ◦ Oligomenorreia: Ciclos com intervalos > 35 dias. Regularidade: Diferença máxima de 7 a 9 dias entre os ciclos mais curtos e os mais longos; ◦ A duração do ciclo corresponde ao número de dias a partir do 1º dia de um ciclo menstrual até o 1º dia do ciclo seguinte. Duração: Número de dias de sangramento em um único ciclo menstrual, sendo normal até 8 dias; Volume: Considera-se normal um volume que não interfira na qualidade de vida física, social, emocional e/ou material da mulher. ◦ A definição de pesquisa é um volume ≤ 80 mL de sangue perdido por ciclo. - Definição de SUA (segundo a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia [FIGO]): Distúrbios ou alterações na regularidade, no volume ou na frequência do ciclo menstrual. Alterações na regulação do ciclo: ◦ Sangramento irregular: Fases de ausência de sangramento que podem durar 2 ou mais meses, alternadas com escapes e episódios de sangramento uterino intenso; ◦ Ausência de menstruação (amenorreia): Ausência de sangramento em um período de 90 dias. Alterações na frequência: ◦ Sangramento uterino infrequente (oligomenorreia): 2 episódios, no máximo, em um período de 90 dias; ◦ Sangramento uterino frequente: > 4 episódios em um período de 90 dias. Alterações na duração: ◦ Sangramento menstrual prolongado: Período menstrual com duração > 8 dias; ◦ Sangramento menstrual encurtado: Período menstrual com duração < 2 dias. Distúrbios na intensidade: ◦ Sangramento menstrual intenso: Sangramento que interfere no dia a dia da paciente e que normalmente vem associado a outros sintomas, como dor pélvica; ◦ Sangramento menstrual intenso e prolongado (menorragia): Queixa menos comum nos consultórios; deve- se, porém, fazer uma ampla investigação, pois em geral as queixas provêm de diferentes causas. Sangramento intermenstrual (metrorragia): Ocorre entre ciclos bem definidos: ◦ Sangramento intermenstrual em meio aos ciclos: Ocorre entre ciclos regulares, sendo curto e de pouca quantidade; ◦ Sangramento pré-menstrual ou pós- menstrual: Sangramento cíclico, com duração de alguns dias, que pode ocorrer na fase folicular ou na fase lútea do ciclo, sendo de pequeno volume; ◦ Sangramento intermenstrual acíclico: Não segue o ciclo regular da mulher e não pode ser previsto. Pode ser indicativo de lesões benignas, como pólipos. OBS: Algumas referencia utilizam o termo “menorragia” como menstruação cíclica prolongada ou intensa (menstruação > 7 dias ou com perda sanguínea > 80 mL). | p. 2 OBS: SUA agudo x SUA crônico: SUA agudo (SUA-a): Episódio de sangramento uterino de volume, duração e/ou frequência anormais no período reprodutivo e na ausência de gestação, que requeira avaliação médica imediata. ◦ Há risco de vida à paciente. SUA crônico: Ocorrência de sangramento de origem endometrial, com frequência, regularidade, duração e/ou volume anormais, por, pelo menos, 6 meses. 1.2. Etiologias 1.2.1. Incidência de acordo com a faixa etária - Infância: Privação do estrogênio materno (na recém- nascida); Tumor ovariano; Os demais sangramentos genitais na infância não têm origem uterina (corpo estranho, traumatismo, infecção, sarcoma botrioide). - Adolescência (primeiros anos após a menarca): Anovulação (mais frequente) (imaturidade no eixo hipotálamo-hipófise-ovários); ◦ Ciclos menstruais irregulares. Coagulopatias (2ª causa mais importante nesta faixa etária); ◦ Ciclos menstruais regulares. Infecções; Complicações da gravidez. - Menacme (aproximadamente dos 20-40 anos): Anovulação (mais frequente); Contracepção hormonal; Complicações da gravidez; Infecções; Endocrinopatias (p. ex., tireoidopatias); Pólipos; Miomas . - Perimenopausa (próximo aos 50 anos): Anovulação (proximidade do esgotamento dos folículos ovarianos); Pólipos; Miomas; Hiperplasia endometrial; Neoplasias (colo de útero e endométrio). - Pós-menopausa: Atrofia genital (vagina/endométrio) (mais frequente); Terapia hormonal; Neoplasia de endométrio. - Mnemônico “PALM-COEIN”: Designa as principais causas de SUA orgânica e não orgânica. * O grupo PALM são entidades orgânicas/estruturais, que são mensuráveis visualmente por meio de técnicas de imagem e/ou histopatologia. * O grupo COEIN está relacionado com entidades que não são definidas por imagem ou histopatologia. OBS: Sangramento uterino disfuncional (SUD): Pode ser causado por 3 categorias do mnemônico “PALM-COEIN”: (C)oagulopatias, (O)vulação e (E)ndometrial. Entretanto, o mais frequente são os distúrbios ovulatórios (hormonais). 1.2.2. Causas estruturais - Pólipos: Tumores epiteliais que podem estar localizados no endométrio ou no canal cervical. São mais comuns em mulheres na peri e pós-menopausa. ◦ O risco de malignidade ou de alterações pré-malignas em pólipos endometriais é muito baixo antes da menopausa. Frequentemente assintomáticos, mas podem causar manifestações clínicas, como aumento do volume menstrual, menstruações irregulares, sangramento pós- coito ou sangramento intermenstrual. Tipicamente benignos, mas podem ter características malignas ou atípicas. Se for grande, pode causar infertilidade. O diagnóstico pode ser feito por USG transvaginal, hidrossonografia, histeroscopia. | p. 3 Atualmente, indica-se a retirada dos pólipos diagnosticados mesmo quando assintomáticos, uma vez que a análise histológica é mandatória. - Adenomiose: Presença de glândulas endometriais e estroma endometrial em meio ao miométrio, promovendo sangramento com sintomas de dismenorreia. Multíparas tem mais chance de ter e é incomum na adolescência. A sintomatologia é variável e relaciona-se, essencialmente, com a profundidade do miométrio atingido. ◦ Formas superficiais (atinge 0,5 mm abaixo do endométrio) caracterizam-se por SUA; ◦ Na adenomiose profunda, além de SUA, também há sintomatologia dolorosa, com dismenorreia e dispareunia. O diagnóstico requer análise histopatológica. ◦ A USG transvaginal e/ou RM evidenciam imagens que são altamente sugestivas da patologia. - Leiomiomas/mioma/fibroma: Neoplasias benignas de células musculares lisas (fibromusculares) do miométrio, responsivas aos hormônios ovarianos. Seu desenvolvimento decorre da interação de hormônios esteroides, citocinas e mutações somáticas. O risco de desenvolver um mioma é 2,5x maior na mulher que tem histórico familiar em 1º grau de miomatose uterina. Entre mulheres negras, a incidência de miomatose uterina é de 2,9x em comparação com as brancas. O diagnóstico de leiomiomas pode ser sugerido por exame pélvico, com massa abdominal palpável, abaulamento ao toque vaginal. No entanto, são necessários exames de imagem pélvica para um diagnóstico mais preciso. ◦ Tais imagens podem ser obtidas por meio de USG, hidrossonografia, TC ou RM. Classificação de acordo com essa localização: ◦ Miomas intramurais: Aqueles que nascem no miométrio e permanecem nele, com dimensões de até 3,5 cm, espessura máxima da parede uterina normal. ◦ Miomas submucosos: Desenvolvem-se no miométrio próximo ao endométrio, projetando-se para a cavidade uterina, e podem se desenvolver assumindo aspecto nodular. Raramente, tornam-se pediculados, podendo prolapsar-se transcervicalmente, o denominado mioma parido. ▪ Os submucosos são os maisenvolvidos com o SUA, além de também apresentarem mais relação com infertilidade e perdas gestacionais. ◦ Miomas subserosos: Oriundos do miométrio adjacente à serosa, tendem a ser exofíticos, chegando a atingir grandes dimensões sem causar queixas. - Malignidade e hiperplasia: São classificadas nesta etiopatogenia mulheres com SUA em idade reprodutiva em quem se identifica hiperplasia endometrial atípica, sarcoma de estroma endometrial ou câncer de útero. Tem incidência aumentada em mulheres perimenopáusicas. Os fatores de risco para o adenocarcinoma do endométrio, incluem a obesidade, o diabetes, a hipertensão e qualquer condição de exposição prolongada aos estrogênios sem oposição de progestagênios. Devem ser suspeitados pela presença de sangramento, que ocorre na grande maioria das vezes no período após a menopausa. São diagnosticadas com análise histológica por biópsia adquirida por histeroscopia ou curetagem. 1.2.3. Causas não estruturais | p. 4 - Coagulopatias: Como doença de von Willebrand ou púrpura trombocitopênica. Por ocasião da anamnese, é importante buscar sintomas e fatores de risco para coagulopatias. A causa mais comum é a doença de von Willebrand (DVW), porém também devem ser citadas: hemofilia, disfunções plaquetárias, púrpura trombocitopênica e distúrbios de coagulação associados a doenças como hepatopatias e leucemia. Deve-se considerar a presença de coagulopatia congênita ou adquirida quando a história clínica revelar: ◦ Sangramento aumentado desde menarca; ◦ Pelo menos uma das seguintes condições: ▪ Hemorragia após o parto; ▪ Hemorragia relacionada a cirurgia; ▪ Sangramento aumentado associado a tratamento dentário. ◦ 2 ou mais das seguintes condições: ▪ Hematoma, pelo menos, 1x ao mês; ▪ Epistaxe, pelo menos, 1x ao mês; ▪ Sangramento gengival frequente; ▪ História familiar de sangramento. - Disfunções ovulatórias: Diferenciar se o SUA está sendo causado por alterações em ciclo ovulatório ou se decorre de anovulação: SUA em ciclo anovulatório: Pode decorrer de hiperprolactinemia, doenças tireoidianas, síndrome do ovário policístico (SOP). ◦ Podem ocorrer em qualquer fase da vida reprodutiva, mas são mais comuns nos seus extremos, logo após a menarca e no período da transição menopausal. ◦ Os ciclos anovulatórios na puberdade ocorrem devido à imaturidade do eixo hipotalâmico-hipofisário-ovariano (H- H-O), que gera um mecanismo de feedback inapropriado, e a ovulação não ocorre de maneira adequada. ◦ Já na transição menopausal, a anovulação ocorre por falência progressiva da função ovariana. ◦ Os sangramentos anovulatórios ocorrem devido ao fato de os níveis de estrogênio não serem capazes de manter o endométrio. SUA em ciclo ovulatório: ◦ Sangramento da ovulação: Escasso, frequente no fim da vida reprodutiva e coincide com o período da ovulação. ▪ Pode decorrer de ruptura folicular ou formação de trombos nas artérias superficiais do endométrio. ◦ Descamação irregular: Sangramento prolongado e abundante. É possível encontrar um endométrio misto, parte sob influência da progesterona do ciclo anterior e parte sob ação estrogênica do ciclo atual. Persistência do corpo lúteo: Leva a um atraso menstrual, seguido de perdas irregulares de sangue, dor hipogástrica ou na fossa ilíaca e presença de massa anexial. ◦ Confundida com gravidez ectópica. Ocorrem frequentemente nos extremos da idade reprodutiva: adolescência e transição para a menopausa. | p. 5 - Endometriais: Deve-se suspeitar de diagnóstico de exclusão em ciclos menstruais regulares, sugestivos de ovulação normal e sem outra causa definível. Indica uma desordem primária do endométrio, como alterações de hemostasia endometrial local, secundária à deficiência local de agentes vasoconstritores, excessiva ou acelerada lise do trombo endometrial (hiperfibrinólise) ou aumento de substâncias vasodilatadoras; ◦ Pode ainda ser decorrente de resposta inflamatória exacerbada, como na doença inflamatória pélvica. Inflamação (endometrites), sobretudo, infecciosas; ◦ Um exemplo importante é a infecção por clamídia. Difícil diagnóstico; A manifestação mais típica do SUA de etiologia primária endometrial é o excesso de fluxo menstrual (heavy menstrual bleeding); Geralmente, precisa de biópsia para confirmação; ◦ Diagnóstico de exclusão. Sangramento/ciclo regular; Em geral, o USG transvaginal não possui alterações. - Iatrogênicas: Decorrente do uso de medicamentos hormonais ou não hormonais e de contracepção intrauterina. Esteroides gonadais (p. ex., estrogênios, progestógenos, androgênios); ◦ Anticoncepcionais hormonais. Terapia relacionada com esteroides gonadais (p. ex., análogos de GnRH, inibidores da aromatase, moduladores seletivos de receptores de estrogênio, moduladores seletivos de receptores de progesterona); Anticoagulantes; Agentes sistêmicos que contribuem para distúrbios da ovulação (p. ex., aqueles que interferem no metabolismo da dopamina ou causam hiperprolactinemia); Dispositivos intrauterinos (DIU), tanto o DIU de cobre como o SIU de levonorgestrel; ◦ O DIU de cobre está relacionado com aumento do fluxo menstrual e índice maior de sangramento uterino frequente e prolongado, principalmente, nos 3 primeiros meses após a inserção. - Não classificadas: Existem várias etiologias adicionais que podem causar ou contribuir para SUA, mas estas têm sido mal definidas, inadequadamente examinadas e/ou são extremamente raras. Causas raras. Exemplos incluem malformação arteriovenosa e SUA causado por istmocele uterina secundária a uma cesariana de segmento inferior (“divertículo uterino”). Também inclui a hipertrofia miometrial e as alterações müllerianas. Essas causas não classificadas possuem alterações no USG transvaginal 1.3. Manifestações clínicas - Clinicamente, há vários padrões de sangramento resultantes. - Menorragia e metrorragia, sangramento pós- coito, dor pélvica. OBS: Sempre avaliar: Este sangramento vem do útero? Esta paciente está grávida? Qual a idade da paciente? | p. 6 1.4. Abordagem - Anamnese: Padrão de sangramento: Quantidade, frequência da troca de absorventes, presença de coágulos, duração dos ciclos menstruais, impacto na qualidade de vida da paciente. Pictorial Blood Assessment Chart (PBAC) - Sensibilidade de 86% e especificidade de 89%. - Calculado a partir das características dos absorventes usados pela mulher durante o período de sangramento. - Multiplica-se constante de: 1 em cada absorvente levemente encharcado; 5 se moderadamente encharcado; 20 se completamente encharcado. - No caso de tampões vaginais, utilizam-se constantes de 1, 5 e 10, respectivamente. - Para pequenos coágulos, usa-se constante de 1 e para os grandes de 5. - Ao final, somam-se os valores obtidos: Se apresentar um escore ≥ 100, representa perda sanguínea excessiva, isto é, acima de 80 mL. Sintomas sugestivos de anemia: Cefaleia, taquicardia, dispneia, tontura, fadiga; ◦ Cerca de 35% das mulheres com SUA apresentam anemia no momento do atendimento, sendo observados índices de hemoglobina abaixo de 10 g/dL em 13,7% dos casos. História sexual e reprodutiva: Uso de contracepção, ISTs, possibilidade de gravidez, desejo de futura gravidez, infertilidade conhecida, colpocitologias oncóticas prévias; Sintomas associados: Febre, dor pélvica, corrimento vaginal; Sintomas associados a causas sistêmicas: Aumento de peso, obesidade, hipotireoidismo, hiperprolactinemia, distúrbios hipotalâmicos e adrenais; Doenças crônicas: Coagulopatias, LES, insuficiência renal, insuficiência hepática, insuficiência cardíaca; Medicaçõesem uso: Contraceptivo hormonal, anticoagulantes, antipsicóticos, tamoxifeno; Antecedentes familiares: Coagulopatias, doenças tromboembólicas, câncer. - Exame físico: Sinais vitais: Pressão arterial, pulso; Palpação da tireoide; Abdome: Distensão, massas palpáveis, hepatomegalia; Pele: Petéquias, sinais de hirsutismo, cor das mucosas; Exame ginecológico: ◦ Examinar vulva, vagina, cérvice, uretra e ânus; | p. 7 ◦ Fazer toque bimanual do útero e anexos (avaliar volume uterino, palpação de anexos e outras alterações pélvicas); ◦ Exame especular para avaliar e quantificar o sangramento, além de identificar lesões cervicais, pólipos e miomas exteriorizando-se pelo orifício cervical. - Exames complementares: Beta-hCG (imperativa a exclusão de gravidez em toda paciente com SUA em idade reprodutiva); Hemograma completo (destaque para hemoglobina e hematócrito); TSH (em caso de suspeita de tireoidopatia); Prolactina (conforme história clínica); Tempo de atividade de protrombina (TAP), tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPA), fator de von Willebrand (se houver suspeita desta coagulopatia); USG transvaginal; Dosagens hormonais (se quadro clínico sugere endocrinopatias, como anovulação ou hiperandrogenismo); ◦ Ex: TSH, PRL, FSH, etc. Hidrossonografia (se indicada para estudo da cavidade uterina); Biopsia de endométrio (se houver indicação clínica); ◦ Métodos para biópsia: Pipelle, Novak, histeroscopia ou por meio de curetagem uterina; ◦ É útil em mulheres com mais risco para hiperplasia e malignidade endometrial, principalmente, as com idade > 40 anos, história de anovulação prolongada, diabetes e obesidade ou antecedentes familiares de câncer de endométrio, exposição prolongada a estrogênio isolado e uso de tamoxifeno. * Indicações de biópsia do endométrio. Histeroscopia (se indicação clínica) (padrão-ouro para avaliar cavidade endometrial). * USTV = Ultrassonografia transvaginal. Fluxograma da abordagem do SUA-a (agudo) | p. 8 Fluxograma para a propedêutica e o tratamento do SUA 1.5. Tratamento do SUA-a - Objetiva estabilizar a hemodinâmica (se for o caso); interromper o sangramento; e impedir a recorrência. - Deve ser realizado mesmo antes da confirmação etiológica, apenas excluindo gestação e sangramento de origem extrauterina (p. ex., vaginal e cervical), para que, após estabilização do quadro clínico e interrupção ou redução do sangramento, seja realizada a investigação diagnóstica para se determinar a etiologia primária do SUA e prevenir recorrência. - A abordagem inicial da paciente consiste em: Internação; Monitoramento dos sinais vitais; Reposição volêmica; Controle da diurese; Exame especular para confirmação da origem uterina do sangramento; Exclusão da presença de gestação (β-hCG sérica); Exames laboratoriais para avaliar anemia e coagulopatia (hematócrito, hemoglobina, contagem de plaquetas, coagulograma). 1.5.1. Tratamento não hormonal do SUA-a - Antifibrinolíticos: Ácido tranexâmico: Considerado o tratamento de 1ª linha, com redução da perda menstrual referida em 34-54%. Pode ser usado por vias oral e parenteral, de forma isolada ou associado a tratamentos hormonais. ◦ Posologia: A dose recomendada por VO é de 1,5-4 g/dia. Por via IV, em caso de necessidade de internação hospitalar, recomenda-se a dose de 10 mg/kg, a cada 8 h, também por 3 a 5 dias. ◦ Contraindicação: Apenas em casos de vasculopatia oclusiva aguda e histórico de hipersensibilidade aos componentes da fórmula. ◦ Efeitos colaterais comuns: Cefaleia, dores lombar e abdominal e fadiga. Ácido aminocaproico: Outra opção, porém, menos estudada. ◦ Posologia: Preferencialmente, por via IV, na dose de 4-5 g como “ataque” e 1 g/h como manutenção, por, no máximo, 24 h, reservado a casos de tratamento intra-hospitalar. Recomenda-se que o uso de antifibrinolíticos por via IV seja considerado em casos de SUA-a, preferencialmente, quando há instabilidade hemodinâmica. - AINEs: Pela inibição das prostaglandinas (PGE2 e PGF2), reduzem o sangramento uterino e aliviar o desconforto pélvico. Podem ser associados a antifibrinolíticos e tratamentos hormonais, tendo menos eficácia quando usados isoladamente. Os fármacos mais utilizadas são ácido mefenâmico, naproxeno, ibuprofeno, flurbiprofeno e diclofenaco. Efeitos colaterais comuns: Sintomas gastrointestinais, raramente graves. * Os 2 AINEs mais estudados para esta finalidade são o ácido mefenâmico e o naproxeno. 1.5.2. Tratamento hormonal do SUA-a - Medicações hormonais são consideradas 1ª linha de tratamento para mulheres com SUA-a. - Anticoncepcionais combinados (ACOs): Recomendado para o tratamento de SUA-a na ausência de contraindicações aos estrogênios, podendo também ser utilizado como tratamento de manutenção após a estabilização do quadro agudo. As formulações mais estudadas e com mais evidência de sucesso terapêutico são as monofásicas, contendo etinilestradiol (EE), combinadas com progestagênios. | p. 9 - Progestagênios isolados em altas doses: Em casos de contraindicação aos estrogênios, progestagênios isolados são, especialmente, indicados. O uso oral de acetato de medroxiprogesterona (atualmente com disponibilidade limitada no Brasil) e de noretisterona também é validado para o tratamento de SUA-a, pelo mecanismo de inibição da proliferação endometrial. O sistema intrauterino (SIU) de levonorgestrel, o implante subdérmico de etonorgestrel e o acetato de medroxiprogesterona de depósito são formulações contendo progestagênios isolados que podem ser utilizadas como tratamento de manutenção para sangramento anormal, mas não são a 1ª linha para o manejo do quadro agudo. OBS: Coagulopatias e paciente em uso de anticoagulantes: São situações desafiadoras na condução do SUA-a por serem, muitas vezes, contraindicações ao uso de estrogênios. Avaliação multiprofissional é a mais recomendada. A desmopressina, por via intranasal, SC ou IV, pode ser utilizada em casos de SUA-a secundário à doença de von Willebrand. - Uma vez que o episódio de sangramento agudo seja controlado, considerar transicionar para tratamento de manutenção e encaminhar para avaliação ambulatorial. - Quando o atendimento ambulatorial não puder ser feito com brevidade, considerar manter a medicação por 3 ciclos, priorizando evitar a repetição do quadro. | p. 10 1.5.3. Tratamentos cirúrgicos - São considerados tratamentos de 2ª linha no SUA, reservados apenas para casos refratários ao tratamento clínico ou em SUA secundário a causas estruturais, sobretudo, leiomiomas submucosos e pólipos endometriais. - Tamponamento intracavitário: O uso de balões intrauterinos é conhecido na obstetrícia para sangramento pós-parto, sobretudo, o balão de Bakri, utilizado em casos de hipotonia uterina. ◦ A recomendação é de que o balão permaneça na cavidade uterina por 2 a 48 h, com reavaliação clínica contínua. Há relatos na literatura do uso de sonda Foley insuflada com água destilada ou soro fisiológico para controle de sangramentos agudos não relacionados ao período gestacional, sobretudo, em adolescentes com coagulopatias refratárias ao tratamento clínico, mostrando resultados promissores, por tratar-se de opção terapêutica de baixos custo e risco. ◦ A sonda sugerida é a de nº 26, com 30 mL de solução salina. ◦ Entretanto, faltam evidências robustas para recomendá-la de maneira rotineira. - Dilatação e curetagem/histeroscopia: Tem indicação reservada pelo risco de aderências e malformações arteriovenosas. É preciso ressaltar que a curetagem pode não abordar as lesões estruturais causadoras do sangramento, por serrealizada “às cegas”, devendo-se, quando possível, priorizar a histeroscopia por visualizar, de maneira mais adequada, a cavidade uterina e tratar lesões focais, como pólipos e miomas submucosos. - Ablação endometrial: Com o ressectoscópio, é possível realizar ablação endometrial, uma opção interessante, porém com escassez de dados em quadros agudos, sem evidências do melhor momento para sua indicação. O balão intrauterino e a radiofrequência são outras opções de ablação endometrial, contudo, nem todos os serviços no nosso país têm essas opções disponíveis. - Embolização de artéria uterina: Pode ser considerada na falha do tratamento clínico em mulheres com contraindicação a abordagens cirúrgicas ou em casos em que haja desejo de preservar a fertilidade. Há relatos de que essa possa ser talvez a opção terapêutica mais apropriada, quando são encontradas malformações arteriovenosas. - Histerectomia: Considerada a última opção em mulheres com SUA-a, geralmente, restrita a casos de falha ou contraindicação ao tratamento medicamentoso ou à gravidade do sangramento, ou, ainda, em decorrência de condição médica subjacente da paciente. Pode ser realizada por via laparotômica, laparoscópica ou vaginal. De fato, é a última opção e deve ser muito bem ponderada, principalmente, quando a mulher não tem prole constituída. 1.6. Tratamento do SUA crônico - Para essas pacientes, o objetivo é prosseguir a investigação diagnóstica e instituir o manejo dirigido à causa. - Pólipos: A polipectomia histeroscópica é uma opção eficaz e segura para diagnóstico e tratamento, com recuperação rápida e precoce retorno às atividades. Pequenos pólipos (< 0,5 cm) podem ser removidos ambulatorialmente. Pólipos maiores (> 0,5 cm) podem ser removidos em bloco pela ressecção da base de implantação da lesão com eletrodo monopolar ou bipolar. O tratamento conservador (observação) é reservado para pacientes assintomáticos com baixo risco de malignidade e nos quais o pólipo provavelmente regredirá, como em pacientes na pós-menopausa e naqueles com um único pólipo < 10 cm de diâmetro. - Adenomiose: Geralmente, é tratada com histerectomia. Porém, estudos mostram que os sintomas podem ser controlados com terapias | p. 11 supressivas semelhantes às utilizadas para SUA sem alteração estrutural, tais como: ◦ Contraceptivos combinados; ◦ Progestagênios; ◦ Sistema intrauterino (SIU) liberador de levonorgestrel. ◦ Em especial quando há desejo de manter a capacidade reprodutiva. - Leiomioma uterino: O manejo deve ser individualizado com base na dor da paciente, gravidade do SUA, idade e desejo de gestação e/ou preservação uterina. Conduta expectante: Indicada para pacientes que: ◦ São assintomáticas ou tem sintomas leves a moderados; ◦ Não desejam intervenção; ◦ Tem sintomas de perimenopausa. Tratamento medicamentoso: Podem ser utilizados medicamentos para parar o sangramento e para diminuir o tamanho do mioma. ◦ Cessar sangramento: ▪ Antagonistas do GnRH com terapia hormonal adicional; ▪ Ácido tranexâmico; ▪ SIU liberador de levonorgestrel de 52 mg. ▪ Hormônios esteroides contraceptivos, incluindo contraceptivos hormonais combinados e pílulas só de progestágeno. ◦ Cessar sangramento e diminuir o tamanho: ▪ Agonistas do GnRH com ou sem terapia hormonal adicional. Podem ser utilizados antes da cirurgia para diminuir o tamanho do mioma e facilitar a retirada. ▪ Moduladores seletivos do receptor de progesterona. Abordagem cirúrgica: Depende, principalmente, do componente submucoso ou intramural. ◦ Miomectomia: Indicada para pacientes que desejam preservar o útero, mas nem sempre pode ser feita. Pode ser realizada durante a gravidez ou no momento da cesariana. ◦ Abordagem histeroscópica é o tratamento de eleição para miomas submucosos sintomáticos. ◦ Abordagem laparoscópica deve ser considerada para tumores subserosos ou grandes intramurais. ◦ A minilaparotomia ou a minilaparotomia assistida por laparoscopia pode ser uma alternativa à miomectomia laparoscópica, pois pode estar associada a uma sutura mais fácil do miométrio. ◦ Considerar miomectomia abdominal (laparotomia abdominal) se: ▪ Leiomioma intramural múltiplo que pode exigir múltiplas incisões ou pode não ser facilmente localizado. ▪ Leiomiomas muito grandes ou útero muito grande. ◦ Histerectomia: Indicada na impossibilidade de realização de miomectomia ou quando não há desejo de preservar a fertilidade. ▪ Pode ser realizada por via vaginal, laparoscópica ou laparotômica. ◦ Embolização da artéria uterina (EAU): Pode ser feita em alguns casos de miomas uterinos com desejo de preservação da fertilidade, e também em casos de adenomiose severa. ◦ Ablação endometrial: Pode ser considerada para controlar os sintomas hemorrágicos se a cavidade uterina não estiver significativamente distorcida e não houver desejo de gravidez futura. ◦ Miólise (ablação térmica por radiofrequência de leiomioma): Considerar como uma alternativa à miomectomia ou histerectomia para pacientes selecionadas com miomas intramurais ou subserosos sintomáticos que desejam preservar o útero, mas não desejam fertilidade futura. ◦ Considerar a cirurgia de USG focalizado guiada por ressonância magnética (RM). - Malignidade e hiperplasia: Nesses casos, se realizada biópsia e essa mostrar hiperplasia com atipia ou câncer endometrial, o tratamento indicado é a histerectomia. Entretanto, a paciente deve ser encaminhada para oncologia ginecológica para avaliar a possível histerectomia (com | p. 12 estadiamento para adenocarcinoma) e a necessidade de outros tratamentos. - Causas estruturais: Tratamento hormonal: ◦ Estrogênio e progestagênio combinados: As formulações monofásicas contendo 30-35 mcg de etinilestradiol são as mais estudadas, mas as mais diversas apresentações de COCs são efetivas. ▪ Outras rotas (adesivo transdérmico, anel vaginal) são provavelmente tão efetivas quando as opções orais, podendo ser superiores quando há indicação de evitar o metabolismo de primeira passagem. ◦ Progestagênio oral cíclico ou contínuo: Os progestágenos orais de uso contínuo são efetivos no tratamento do SUA, reduzindo em até 87% o sangramento e promovendo amenorreia em grande percentual de mulheres. As formulações citadas na literatura são: ▪ Acetato de medroxiprogesterona oral (2,5 a 10 mg ao dia); ▪ Noretisterona (2,5 e 5 mg ao dia); ▪ Acetato de megestrol (40 e 320 mg ao dia); ▪ Progesterona micronizada (200 e 400 mg ao dia); ▪ Desogestrel (75 mg ao dia). ◦ Progestagênio injetável: Não há evidências conclusivas do uso do progestagênio injetável de depósito no SUA, porém há estudos mostrando que pode promover amenorreia em até 24% das mulheres, sugerindo que seja uma boa opção para mulheres com sangramento aumentado. ◦ Sistema uterino liberador de levonorgestrel: O levonorgestrel liberado continuamente (20 mcg/dia) pelo SIU-LNG é a medida mais efetiva para prevenir o sangramento menstrual intenso, levando à redução de 71% a 95% na perda sanguínea ao promover atrofia endometrial. Tratamento não hormonal: ◦ AINES: Podem ser usados isoladamente ou como terapia adjuvante de algum tratamento hormonal, reduzindo de 10 a 52% a quantidade de sangramento. ◦ Antifibrinolíticos (ácido tranexâmico): Desde seu lançamento no mercado, foi prescrito para mulheres com hemofilia, DVW, trombastenia de Glanzmann e SUA, com bons resultados. Porém, ainda há questionamentos quanto a dose e contraindicações. ▪ Pode ser utilizado por mulheres com intenção de gestar, mas não por mulheres com risco aumentado de tromboembolismo. OBS: Tratamentodo SUA-crônico: Sem causa específica definida: Com causa específica definida: | p. 13 Referências: - FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Sangramento uterino anormal. Protocolo FEBRASGO de Ginecologia, nº 28, 2021. - FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Diagnóstico e tratamento do sangramento uterino anormal agudo. Protocolos FEBRASCO de ginecologia, nº 80, 2021. Disponível em: <https://sogirgs.org.br/area-do-associado/Diagnstic o-e-tratamento-de-sangramento-uterino-anormal- agudo-2021.pdf>. - HOFFMAN, B. et al. Ginecologia de Williams. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013. - LASMAR, R. Tratado de ginecologia. 1. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. https://sogirgs.org.br/area-do-associado/Diagnstico-e-tratamento-de-sangramento-uterino-anormal-agudo-2021.pdf https://sogirgs.org.br/area-do-associado/Diagnstico-e-tratamento-de-sangramento-uterino-anormal-agudo-2021.pdf https://sogirgs.org.br/area-do-associado/Diagnstico-e-tratamento-de-sangramento-uterino-anormal-agudo-2021.pdf