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REVISTA DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA 45, 2001 29 Eduardo Wagner A noção de potência de um ponto em relação a uma circunferência é importante no estudo da Geometria, pois são muitas as aplicações em problemas que tratam de relações métricas entre secantes e tangentes a uma circunferência. Infelizmente, este tema está, em geral, ausente dos livros didáticos atuais do ensino médio. Como a Geometria plana ficou restrita ao conteúdo da 8a série, tópicos interessantes e úteis não são mais ensinados e este artigo pretende abordar um deles. Definição Seja C uma circunferência de centro O e raio R. Se um ponto P está a uma distância d de O, definimos a potência do ponto P em relação à circunferência C por: Pot(P) = d2 − R2 . Pela definição apresentada, se P é exterior a C, sua potência é um número positivo; se P pertence a C, sua potência é zero e, se P é interior a C, sua potência é negativa. Passemos então a investigar as propriedades desse conceito. Teorema São dados uma circunferência C e um ponto P. Se uma reta passa por P e corta C nos pontos A e B, então o produto PBPA⋅ é constante. Prova: Seja O o centro de C e R o seu raio. Seja P um ponto não pertencente a C com PO = d. Consideremos uma secante PAB e o ponto M, médio de AB. Façamos MA = MB = m e, observando que OM é perpendicular a AB, podemos escrever: POTÊNCIA DE UM PONTO EM RELAÇÃO A UMA CIRCUNFERÊNCIA 30 SOCIEDADE BRASILEIRA DE MATEMÁTICA a) se P é exterior a C, =⋅ PBPA =+− ))(( mPMmPM =− 22 mPM −+= 22 OMPM =+− )( 22 OMm ).(22 PPotRd =− P A M R B O b) se P é interior a C, ).P(PotRd )OMm(OMPM mPM )PMm)(PMm(PBPA =− =+−+ =− =+−−=⋅− 22 2222 22 P A M R B O Se P pertence à circunferência, então ou A ou B coincide com P, um dos dois segmentos tem comprimento zero e a potência de P é também igual a zero. Na realidade, o fato que o produto PA ⋅ PB é constante para qualquer secante passando por P é conhecido desde a antigüidade, mas o termo “potência” foi utilizado pela primeira vez por Jacob Steiner (1796–1863), matemático suíço que deu uma enorme contribuição ao desenvolvimento da Geometria. Observamos ainda que, se P é exterior à circunferência e se PT é tangente em T, decorre da definição (e do teorema de Pitágoras) que Pot(P) = PT2 . É claro que o conjunto dos pontos que possuem determinada potência em relação a uma circunferência C é uma outra circunferência concêntrica com C. Vamos então investigar qual é o conjunto dos pontos que possuem mesma potência em relação a duas circunferências dadas. Problema Determinar o lugar geométrico dos pontos que possuem mesma potência em relação a duas circunferências dadas. REVISTA DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA 45, 2001 31 Consideremos duas circunferências (não concêntricas) de centros A e B e raios R e r, respectivamente. Seja AB = 2d e seja M o ponto médio de AB. Tomemos um ponto P que tenha mesma potência em relação às duas circunferências e seja H a projeção de P sobre AB como mostra a figura a seguir. Seja ainda PM = m e α a medida do ângulo HMP ˆ . Se P tem mesma potência em relação às duas circunferências, então 2222 rPBRPA −=− , ou seja, 2222 rRPBPA −=− . P α A M H B A lei dos cossenos nos triângulos PMA e PMB fornece α++= cos2222 mddmPA e α−+= cos2222 mddmPB . Subtraindo, temos α=− cos422 mdPBPA , ou seja, MHABdmrR ⋅=α=− 2cos422 . Portanto, MH = R2 − r2 2AB é constante e, dessa forma, o ponto H é fixo sobre AB. Assim, o lugar geométrico de P é a reta perpendicular a AB passando por H. Logo, o conjunto dos pontos que possuem mesma potência em relação a duas circunferências é uma reta perpendicular à reta que contém os dois centros e é chamada de eixo radical das duas circunferências. É interessante observar que, se as duas circunferências forem secantes, o eixo radical contém os pontos de interseção e, se as circunferências forem tangentes, o eixo radical contém o ponto de tangência. 32 SOCIEDADE BRASILEIRA DE MATEMÁTICA ER ER Logo, quando duas circunferências são secantes ou tangentes, a construção do eixo radical (ER) é imediata. Mas como obter o ER quando duas circunferências não têm ponto comum? Vejamos uma solução. Dadas as circunferências A e B de centros A e B, respectivamente, tracemos uma circunferência C de centro C, qualquer, que seja secante às duas primeiras. Na figura, a circunferência C cortou a circunferência A nos pontos D e E, e cortou B em F e G. A reta DE é eixo radical entre A e C e a reta FG é eixo radical entre B e C. ER A B CE D F G P Assim, o ponto P, interseção de DE com FG, tem mesma potência em relação às três circunferências e é chamado de centro radical de A, B e C. Logo, P pertence ao eixo radical das circunferências A e B e, para desenhá-lo, basta conduzir por P uma reta perpendicular a AB. Resolvido o problema de construir o eixo radical entre duas circunferências, vamos ver como este conceito aparece na Geometria Analítica. Na Geometria Analítica Utilizando um sistema de coordenadas com mesma escala nos dois eixos, a equação de uma circunferência C, de centro (x0 , y0 ) e raio R é (x − x0 )2 + (y − y0 )2 = R2 . REVISTA DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA 45, 2001 33 Consideremos, então, a função P(x,y) = (x − x0 )2 + (y − y0 )2 − R2 , onde x0 e y0 são números reais e R é um real positivo. A expressão (x − x0 )2 + (y − y0 )2 representa o quadrado da distância do ponto (x, y) ao ponto (x0 , y0 ) e, portanto, P(x,y) é a potência do ponto (x, y) em relação à circunferência C. Assim, P(x,y) = 0 para todo ponto (x, y) pertencente a C, P(x,y) < 0 para todo ponto (x, y) interior a C e P(x,y) > 0 para todo ponto (x, y) exterior a C . Consideremos agora o problema clássico de obter os pontos de interseção de duas circunferências dadas por suas equações. Para tornar o texto mais ameno, vamos trabalhar em um exemplo. Problema Determinar os pontos de interseção das circunferências x2 + y2 −16x −10y + 39 = 0 e 09222 =−−+ yyx . A solução tradicional (e eficiente) deste problema consiste em igualar as duas equações para obter uma outra mais simples, sem os termos do segundo grau. Sabemos que, ao fazer isso, a nova equação contém as soluções do sistema original. A igualdade 92391016 2222 −−+=+−−+ yyxyxyx implica em 2x + y − 6 = 0 . O que significa essa equação? Repare que a igualdade acima é satisfeita para os pontos que possuem mesma potência em relação às duas circunferências e, portanto, 2x + y − 6 = 0 é precisamente a equação do eixo radical delas. Para obter os pontos de interseção das duas circunferências, fazemos a interseção de uma delas com o eixo radical de ambas. Concluindo o problema, da equação de ER temos y = −2x + 6 e, substituindo na equação da segunda circunferência x2 + (6 − 2x)2 − 2(6 − 2x) − 9 = 0 . Resolvendo, encontramos 1=x e x = 3, e os pontos de interseção são (1, 4) e (3, 0). A distância entre o incentro e o circuncentro de um triângulo É interessante o fato de que, em qualquer triângulo, o raio da circunferência circunscrita não é menor que o dobro do raio da circunferência inscrita. Esse resultado, aparentemente difícil de 34 SOCIEDADE BRASILEIRA DE MATEMÁTICA demonstrar, decorre imediatamente da fórmula que dá a distância entre o incentro e o circuncentro de um triângulo, como veremos a seguir. Na figura a seguir, I e O são o incentro e o circuncentro do triângulo ABC. Os raios das circunferências inscrita e circunscrita são r e R, AD é bissetriz do ângulo CAB ˆ e, conseqüentemente, D é o ponto médio do arco BC.Ainda, DE é um diâmetro, IF é perpendicular a AC e IB está contido na bissetriz do ângulo CBA ˆ . Seja α a medida dos ângulos DAB ˆ , CAD ˆ e CBD ˆ e β a medida dos ângulos CBI ˆ e ABI ˆ . Observe que (em relação às medidas) DBI ˆ = CBD ˆ + CBI ˆ = α + β e DIB ˆ = ABI ˆ + DAB ˆ = α + β. Logo, BD = ID. Da semelhança dos triângulos IFA e BDM vem IF IA = DM DB , ou seja, DM DB = r IA . O triângulo BDE é retângulo em B; logo, BD2 = ID2 = 2R ⋅ DM e, portanto, IA r R BD DM R ID DM RID 222 === . O B E M A F I C D Daí, rRIDIA 2=⋅ . Fazendo OI = d, vamos calcular a potência do ponto I em relação à circunferência circunscrita ao triângulo ABC. Pot(I) = d2 − R2 = − IA ⋅ ID = −2Rr . Ou seja, d = R2 − 2Rr , que é a fórmula que dá a distância entre o incentro e o circuncentro de um triângulo em função dos raios das circunferências inscrita e circunscrita, obtida pela primeira vez por Euler. Quanto ao fato que citamos no início desta seção, observe que devemos ter R2 − 2Rr ≥ 0 , o que implica R ≥ 2r . Repare ainda que a igualdade só ocorre quando o incentro coincidir com o circuncentro, ou seja, quando o triângulo for equilátero. Print_button: Index_button: