Prévia do material em texto
ESTRUTURAS PSICANALÍTICAS AULA 6 Profª Juliana Santos 2 CONVERSA INICIAL Nesta etapa, apresentaremos a terceira estrutura clínica – a perversão. E é interessante pensar que, por mais que a psicanálise tenha cunhado o termo perversão para designar um campo de estudo clínico e uma estrutura psíquica, ainda se ouve, no dito popular, “você é um perverso” para adjetivar uma ação ou fantasia que imputa certa crueldade. A perversidade confere um sentido moral e religioso que a psicanálise, mesmo depois de um século, não conseguiu barrar do senso comum. A partir o século XIX, verifica-se um apelo jurídico ao discurso médico para intervir sobre a responsabilidade do sujeito, o qual visa encontrar resposta para uma “perversão” moral ou de ordem patológica. O médico responderá, então, falando de monomanias instintivas (Esquirol), de busca de excitação (Janet) e de parestesias (Krafft-Ebing), situa- nos Philippe Julien (2003), autor do livro Psicose, perversão e neurose. Já a perícia responderá a partir das classificações descritivas da perversão. Assim, para responder ao juiz, faz-se semiologia, recenseamento e nomenclatura (Julien, 2003, p. 102). Contudo, segundo Julien, ao se submeter à demanda do judiciário na tentativa de “proteger” a sociedade, a psiquiatria inibe o avanço da ciência das causas. Portanto, o avanço da psiquiatria foi em dar resposta, visto que a clínica não ficou reduzida à perícia. A ausência de demanda em pesquisas se dá pelo fato de que o perverso não é uma doença, mas trata-se de pessoas comuns em sua vida diária, cuja sexualidade pode levá-los à anormalidade. Krafft-Ebing, em 1887, trouxe o entendimento para sua época de que toda exteriorização do instinto sexual que não vai na direção da natureza, isto é, da reprodução, é perversa. Subverter o sentido da natureza é consentir com a violência da sexualidade, admitindo uma satisfação sexual de um e do outro. Assim, para o autor, as perversões se dividem em dois grupos: As perversões se dividem em dois grandes grupos: primeiro aquelas em que o objetivo da ação é perverso e é preciso pôr aqui o sadismo, o masoquismo, o fetichismo e o exibicionismo; em seguida aquelas em que o objeto é perverso, a ação o sendo quase sempre, em consequência: é o grupo da homossexualidade, da pedofilia, da gerontologia, da zoofilia e do autoerotismo. (Krafft-Ebing, 1887 citado por Julien, 2003, p. 103) 3 A psiquiatria parou até certo ponto aí, estando, por outro lado, salvaguardado o essencial: definir o punível e proteger o futuro, declara Julien. Freud, com a psicanálise, rompe a condenação dada à perversão. TEMA 1 – A PERVERSÃO Freud abordou a perversão em diversas perspectivas, a fim de contrapô- la à neurose e psicose. Contudo, ao estudar seus construtos teóricos e clínicos, deparamo-nos com conceitos tênues e de referências confusas no que tange a sua especificidade. Se comparada à neurose e psicose, parece que a perversão ficou à margem da teoria. E, pensando conforme a psicanálise nos ensina, podemos imaginar o quanto esse tema é revelador e traz à tona afetos sobre os quais “nada queremos saber”. Mas, desafiando-nos a pensar sobre a perversão, vemos que Freud, primeiramente, rompe a fronteira entre a perversão e normalidade. No texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud (1905) instaura um verdadeiro escândalo na sociedade ao declarar que toda criança é “polimorficamente perversa”, pois trata-se de uma plasticidade pulsional no que tange ao seu objeto, pois a sexualidade infantil, em sua gênese, tem uma libido das pulsões parciais com objetos pré-genitais (oral, anal, escópica). Nesse sentido, Freud afirma uma predisposição original e universal da sexualidade humana perversa. Desse modo, a perversão só poderia ser superada num tempo ulterior do genital, em que as pulsões parciais infantis se unificam numa só pulsão e passa a se dirigir a um objeto genital. Ainda nesse texto, Freud nos dá a formula determinante que demarca o destino para uma neurose e perversão; diz: "A neurose é, por assim dizer, o negativo da perversão" (Freud, 1905, p. 102). Joel Dor (1991) destaca, em seu livro Estruturas e clínica psicanalítica, a economia pulsional, na qual os sintomas neuróticos resultam sempre de um recalcamento dos componentes pulsionais da sexualidade, respondendo com os sintomas neuróticos, representados da seguinte forma por Freud: “[...] uma conversão de pulsões sexuais que deveriam ser chamadas perversas (no sentido amplo da palavra) se pudessem, sem se afastarem da consciência, encontrar uma expressão em atos imaginários ou reais". (Freud citado por Joel Dor, 1991, p. 33). 4 No texto Pulsões e suas vicissitudes (1915), Freud aponta para dois destinos pulsionais que são característicos do processo perverso: a "inversão em seu contrário" e o "retorno sobre a própria pessoa". Desde aí, ele começa a orienta as suas investigações a buscar um mecanismo metapsicológico inaugural da perversão. O complexo de Édipo é pensado a partir da atribuição fálica à mãe, cujo efeito gira em torno da questão da diferença do sexo, que, para a criança, gera um enigma. Desse modo, a vivência edípica em seu desenvolvimento efetuará a elaboração da resposta ao sexo, quando o pênis deixa de ser um bem comum. Freud formula isso no texto A organização genital infantil, em que declara: No decurso dessa pesquisa, a criança chega à descoberta de que o pênis não é um bem comum a todos os seres que se lhe assemelham [...]. Sabemos como elas reagem às primeiras impressões provocadas pela ausência de pênis. Negam esta ausência e creem ver, apesar de tudo, um membro: lançam um véu sobre a contradição entre observação e preconceito; achando que ele ainda está pequeno e que crescerá dentro em pouco, chegam lentamente a esta conclusão, de um grande alcance afetivo: antes, em todo caso, ele estava aí com certeza, tendo em seguida sido retirado. A ausência de pênis é concebida como o resultado de uma castração e a criança encontra-se agora no dever de enfrentar a relação de castração com sua própria pessoa. (Freud, 1923, p. 85-86) A criança, contudo, não renuncia de bom grado a ausência fálica da mãe, pois trata-se de algo que deveria estar lá, mas está como falta. A falta fálica da mãe gera um confronto real com a diferença do sexo, o qual a criança não tem interesse algum em acolher. Com efeito, declara Dor (1991), o real desta diferença é precisamente aquilo que o remete a uma consequência insuportável – a dimensão imaginária de sua própria identificação fálica, que, em última análise, implica numa renúncia de gozo. É sob essa construção teórica que Freud estabelece o curso da economia psíquica, no qual se erige o arcabouço das estruturas psíquicas. Neste contexto, diante da ameaça de castração, o sujeito, em uma possibilidade, recalca e forma os sintomas neuróticos e, em outra possibilidade, só aceita a incidência da castração sob a reserva de continuamente transgredi-la, sendo esse o caso da perversão. A estrutura perversa se constitui sob dois polos: de um lado, pela angústia da castração; do outro lado, pela mobilização de processos defensivos destinados a contorná-la, descreve Dor (1991, p. 36). Sob o escopo do processo defensivo, Freud evidencia dois modos de organização do funcionamento 5 perverso, a fixação (e a regressão) e a denegação da realidade, sendo estes os dois mecanismos respectivamente constitutivos da homossexualidade e do fetichismo. Nesse sentido, Freud coloca a homossexualidade como uma resposta de defesa narcísica diante da castração, em que a criança fixaria efetivamente a representação de uma mulher provida do pênis no inconsciente, persistindo ulteriormente, de maneira ativa, o dinamismo libidinal. Dor (1991) chama atenção que, enquanto a homossexualidademasculina verte sobre a estrutura perversa, a homossexualidade feminina não deixa claro o mecanismo que a consente, pois a própria ideia de uma estrutura perversa em mulher ainda gera questionamentos. Todavia, o autor afirma que, de fato, a homossexualidade masculina inscreve-se em um dispositivo psíquico radicalmente diferente daquele que preside a homossexualidade feminina (1991, p. 36). Do ponto de vista clínico, o aspecto do fetichismo é um processo defensivo ainda mais complexo do que na homossexualidade. Ele se funda pela negação da realidade, pois trata-se de uma recusa em reconhecer a diferença do sexo: a ausência do pênis na mãe. O mecanismo de denegação da realidade, é explicada em dois tempos: de um lado, a denegação da realidade propriamente dita, isto é, o sujeito percebe a realidade, mas a rejeita, no intuito de neutralizar a angústia da castração. Entretanto, a diferença do que ocorre na homossexualidade, em que há uma fixação da representação da mãe fálica, assume uma situação de compromisso. No caso do fetichismo, já que a mulher, na realidade, não tem pênis, o sujeito vai encarnar o objeto suposto faltar em outro objeto da realidade, assim o objeto fetiche é, na verdade, uma encarnação do falo. Pelas próprias palavras de Freud: "O fetiche é o substituto do falo da mulher (da mãe) no qual acreditou a criancinha e ao qual nós sabemos por que ela não quer renunciar" (Freud, 1927, p. 95). Joel Dor (1991) situa o objeto fetiche em três formas de mediar a castração: a) antes de tudo, o objeto fetiche permite a não renuncia ao falo; b) permite conjurar a angústia de castração e dela se proteger; c) permite finalmente escolher uma mulher como objeto sexual, visto que supostamente possuir o falo. 6 TEMA 2 – A ESTRUTURA PERVERSA NA DIALÉTICA EDIPIANA Aprendemos que a identificação fálica no início da vida é posta em questão com a intrusão do pai imaginário, que surge na fantasia da criança como o objeto fálico de desejo da mãe. O fato é que, através do surgimento do terceiro elemento, nessa relação dual mãe-bebê evidencia para a criança que o amor da mãe não é exclusivo dele, abrindo a expectativa de um desejo materno para além dele. Assim, a presença do terceiro elemento na imagem do pai se inscreve para a criança como rival, que disputa o desejo da mãe. Na estrutura perversa, o traço da rivalidade reaparece como um estereótipo do perverso, que está sempre desafiando o outro. E, paralelamente ao desafio do perverso, está a transgressão. Segundo Dor (1991), o que institui e, ao mesmo tempo, confronta o terreno rivalidade fálica imaginária é o surgimento irreversível da diferença dos sexos, pois, para a criança, trata-se de antecipar um universo de gozo novo que se apresenta por trás da figura paterna, um gozo que ela supõe interditado. Portanto, “é efetivamente com o sinal desta incidência que o perverso lança a sorte de sua própria estrutura. Permanecendo cativa deste êxtase do desejo, a criança pode aí sempre encontrar um modo definitivo em relação à função fálica” (Dor, 1991, p. 40). O perverso faz, então, da assunção à castração sua base, sem nunca admitir a falta que lhe comete. Assim, ele se aliena na falta não simbolizável, de dimensão inesgotavelmente psíquica, que efetua a denegação ou, ainda, renegação da castração da mãe. Contudo, a falta introduzida pela imagem do pai é justamente o que assegura ao perverso a mobilização do desejo em direção à possibilidade de uma nova dinâmica para a criança. Nessa perspectiva, a leitura que Lacan dá à questão da falta do Outro e à dialética do desejo na estrutura perversa deve ser buscada pela via da identificação ao falo. 2.1 A dialética do desejo É em torno do significante da falta no Outro, S(A), que a questão da perversão se impõe, como um ponto de báscula que se introduz no processo de da estruturação do sujeito. Nesse sentido, Joel Dor declara que será a sensibilidade da criança para abdicar do pai imaginário e acender ao pai 7 simbólico que determinará a sua constituição estrutural entre neurose e perversão. Assim, seguindo a explicação de Joel Dor, o pai aparece para a criança como tendo aquilo que a mãe deseja ou, pelo pressentimento do perverso, como sendo suposto ter o que a mãe é suposta a desejar junto a ele. Portanto, “esta atribuição fálica do pai é justamente o que o institui como pai simbólico, ou seja, o pai enquanto representante da Lei para a criança, portanto o pai enquanto mediação estruturante do interdito do incesto” (Dor, 1991, p. 41). Contudo, o perverso não quer saber nada da falta que a sombra do pai simbólico impõe para ele; desse modo, o sujeito denega a falta, isto é, não simboliza a falta no Outro. Dito de outro modo, a criança se encerra numa convicção contraditória, na qual, por um lado, a criança entreve que a mãe, que não tem o falo, deseja o pai porque ele o tem ou porque ele é o falo; por outro lado, se a mãe não tem, talvez ela pudesse ter? E, para isto, basta-lhe ser atribuído imaginariamente a atribuição fálica. O desejo da criança, declara Santos e Besset (2013), faz-se desejo encarnado pela mãe onipotente: por um lado, por razões de se sujeitar àquela que lhe satisfaz todas as necessidades, e, por outro lado, pelo capital de gozo que ela lhe assegura para além das necessidades. Nesse sentido, na estrutura perversa, o sujeito se identificará ao falo que faz da mãe um Outro onipotente. Lacan (1958) diz assim: Todo o problema das perversões consiste em conceber como a criança, em relação com a mãe, relação esta constituída na análise, não por sua dependência vital, mas pela dependência de seu amor, isto é, pelo desejo de seu desejo, identifica-se com o objeto imaginário desse desejo. Ne medida em que a própria mãe o simboliza no falo. (Lacan, 1958, p. 561) A identificação ao falo imaginário da mãe visa, então, restabelecer o gozo perdido pela inscrição do pai simbólico. Portanto, é em razão da sua economia de gozo que o perverso entra na dialética do desejo e se mantém imperativamente “fixado em sua gestão cega”, pela qual reafirma a sua lei do desejo como única. Assim, Dor (1991) destaca que é pela “lei do seu desejo” que podemos situar os diferentes expedientes do funcionamento perverso e os traços estruturais que o caracterizam: o desafio e a transgressão, sendo estas as duas saídas para o desejo perverso. 8 TEMA 3 – ENTRE AS NEUROSES E PERVERSÃO Os traços estruturais que caracterizam a perversão podem ser observados tanto na neurose obsessiva quanto na histeria. Contudo, a transgressão não se articula ao desafio da mesma maneira. Desse modo, para estabelecer um diagnóstico diferencial, é preciso que reconheçamos, de maneira específica, a relação do sujeito com o Outro. Portanto, é apenas na relação transferencial que sem tem essa resposta. Joel Dor evidencia a oposição entre neurose e perversão da seguinte forma: No perverso, a problemática da denegação se organiza de modo diferente. Enquanto na histeria e na neurose obsessiva, é a posse imaginária do objeto fálico que é desafiada, nas perversões, é fundamentalmente a Lei do pai. O desafio da Lei do pai, no perverso, situa-se essencialmente na vertente da dialética do ser. No obsessivo, como no histérico, o desafio concernindo à posse do objeto fálico se situa, em contrapartida, na alternativa do ter ou não ter. (Dor, 1991, p. 48) No entanto, no que concerne ao diagnóstico diferencial, para que ele seja operatório, ainda há de considerar o caráter imperativo, no qual o perverso faz intervir o seu desejo como única lei do desejo que ele reconhece, pois, no neurótico, o desejo se funda pela lei do desejo do Outro, que tem sua inauguração com a inscrição do significante do Nome-do-Pai. Na perversão, a lei do pai só é articulada para desafiá-la, por meio de tudo aquilo que ela impõe enquantosimboliza a falta. Joel Dor declara: Desafiando esta Lei, ele recusa, em definitivo, que a lei do seu desejo seja submetida à lei do desejo do outro. O perverso põe, então, em ação duas opções: de um lado, a predominância da lei do seu desejo como única lei possível do desejo; por outro lado, o desconhecimento da lei do desejo do outro como a que viria mediar o desejo de cada um. (Dor, 1991, p. 48) Assim, a lei do pai é posta pelo perverso como um limite que ele demonstra para, em seguida, ultrapassar. É dessa estratégia que o perverso efetivamente goza. Contudo, para isso, o sujeito perverso busca um cúmplice ou uma testemunha, imaginária ou real, que possa testemunhar o seu agir frente à castração. Nesse sentido, Dor evoca a passagem Jean Clavreul: É claro que é enquanto portador de um olhar que o Outro será o parceiro, isto é, antes de tudo o cúmplice, do ato perverso. Tocamos, aqui, no que distingue radicalmente a prática perversa, onde o olhar do outro é indispensável, porque necessário à cumplicidade sem a qual não existiria o campo da ilusão, e o fantasma perverso que não só se acomoda muito bem com a ausência do olhar do outro, mas necessita 9 para ter êxito, se satisfazer na solidão do ato masturbatorio. Se o ato perverso se distingue sem equívoco do fantasma, será, então, nesta linha em que se inscreve o olhar do Outro que discerniremos a fronteira, olhar cuja cumplicidade é necessária para o perverso, enquanto é denunciador para o normal e para o neurótico. (Clavreul citado por Dor, 1991, p. 49) Desse modo, o perverso acessa o seu gozo, fazendo desencaminhar o Outro com relação às balizas e aos limites que o inscreve diante da lei, pois, para o sujeito perverso, é essa experiência de “devassidão”, isto é, da extração do Outro do sistema que importa. 3.1 O terceiro cúmplice O gozo perverso é, então, acessado através de sua estratégia de conciliar o impossível: de um lado, a prevalência da lei do seu desejo como única lei possível do desejo; do outro lado, o reconhecimento do desejo do outro como instância que vem mediar o desejo de cada um. Essencialmente, o interesse perverso é despertar a convicção de um terceiro de quem ela talvez “não o seja”, isto é, seu interesse não está em relação ao Outro, e, assim, em capturá-la. “O perverso é assim levado a colocar, primeiramente, a lei do pai (e a castração) como um limite existente, a fim de melhor demonstrar em seguida que ela talvez não seja, já que se pode sempre aceitar o risco de transpô-la” (Dor, 1991, p. 135). Portanto, a convocação do terceiro cúmplice é necessária para sustentar a assunção do gozo perverso, que remonta, de forma metonímica, a gênese da ordem inaugural que a fez nascer tanto quanto sustentou, a saber, a mãe. É, neste sentido, destaca Joel Dor, que o agir perverso somente pode assegurar- se de seu prêmio de gozo, por meio de um terceiro cúmplice, cuja presença e olhar lhe são indispensáveis. TEMA 4 – A MÃE FÁLICA O ponto fundamental no qual a estrutura perversa se ancora se encontra indubitavelmente na questão da identificação fálica, que se sustenta pela conjunção de dois fatores determinantes: a cumplicidade libidinal da mãe e a complacência silenciosa do pai. A cumplicidade materna manifesta-se no terreno da sedução, pois trata- se de uma cumplicidade erótica que se exprime sobretudo em suas respostas 10 às demandas eróticas da criança. “Respostas que a criança inevitavelmente recebe como testemunhos de reconhecimento e encorajamento”, pois, conforme declara Dor, é uma resposta que a criança encara como um verdadeiro chamado para o gozo, na medida em que mantém a atividade libidinal do filho junto à mãe. No entanto, este apelo sedutor permanece hipotecado com um pesado equívoco – o desejo da mãe concernente ao pai, pois o pai não deixa de aparecer como um verdadeiro intruso, e a mãe não confirma esse desejo. Assim, o apelo sedutor da mãe se organiza tanto nos registros de “dar-se a ver” quanto nos de “dar-se a entender”, que se traduz no momento crucial do Édipo, tornando-se um verdadeiro convite ao tormento para a criança. Ocorre que, por mais que a criança perceba uma autêntica incitação ao gozo, já que não estamos tratando de uma fantasia, na maioria das vezes, a mãe se silencia diante da questão do desejo que se supõe ao pai. É, então, na medida em que se instaura esta ambiguidade que a atividade libidinal da criança se desenvolve junto à mãe, pois, desde então, ela passa a se esforçar por seduzir cada vez mais, “na esperança de levantar esta dúvida em relação à intrusão paterna” (Dor, 1991, p. 52). Assim, diante da sedução materna que paralelamente coincide com uma interdição à mãe, a criança encontra cumplicidade na mãe para transgredir a lei do pai. E, por outro lado, o pai se mostra complacente, despossuindo, de bom grado, da representação de sua função simbólica. “Se, nesse caso, podemos falar da complacência silenciosa do pai, é em referência à aptidão que ele demonstra em delegar sua própria palavra através da palavra da mãe, com toda a ambiguidade que a coisa supõe” (Dor, 1991, p. 52). Portanto, a criança se aliena ao jogo de sedução materna, que coloca como plano de fundo a função simbólica do pai. A consequência deste processo é vista desde o ponto de vista clínico, no qual a mãe fálica está posta de forma definitiva na fantasia, sendo essa a gênese da ordem que funda o seu desejo. Desse modo, a imagem da mulher fálica o acompanhará a cada estratégia desejante a respeito das mulheres, dirá Joel Dor, “com o risco de procurar algumas vezes e encontrá-las, apesar de todos os obstáculos, na pessoa de outros homens” (Dor, 1991, p. 111). 11 4.1 O fetiche O objeto fetiche é o paradigma da perversão. Ele funciona como um memorial que é posto no lugar da falta. Porém, ao cobrir a falta, marca-se, mais que tudo, a existência desse vazio, que é resultado de uma operação simbólica. Lacan, no seminário 4, A relação de objeto (1957), relança o olhar sobre o caso do pequeno Hans, para demostrar a reação de Hans diante a calcinha da mãe, apontando, desde aí, constituição do objeto fetiche. O essencial é o seguinte: as calças em si mesmas estão ligadas para Hans a uma reação de repulsa. Mais que isso, o pequeno Hans pediu que se escrevesse a Freud, dizendo que quando viu as calças, ele havia cuspido, caído no chão e depois fechara os olhos. É por causa desta reação que a escolha está feita: o pequeno Hans jamais será um fetichista. Se ele houvesse reconhecido, ao contrário, essas calças como seu objeto […] ficaria satisfeito com elas, e se teria tornado fetichista, mas como o destino quis outra coisa, o pequeno Hans fica repugnado pelas calças. Só que ele explica que, quando a mãe as usa, a coisa é outra. Aí elas não são mais repugnantes, em absoluto. Aí está toda a diferença. Ali onde elas poderiam se oferecer a ele como objeto, quando as calças estão ali em si mesmas, ele as rejeita. Elas só conservam sua virtude, se assim podemos dizer, estando em função, ali onde ele pode continuar a sustentar o engodo do falo. (Lacan, 1957, p. 359) Nesse sentido, observa-se que Lacan estabelece uma relação clara com a repugnância da calcinha, como uma recusa de tomá-la como objeto. Desse modo, segundo o autor, Hans não se posiciona como um fetichista. Contudo, a solução provisória para se proteger da mãe insaciável se dá pelo desenvolvimento de uma fobia. Assim, para Lacan, tanto o objeto fóbico e o objeto fetiche são soluções imaginárias na trama edípica para lidar com o horror da castração materna. Do lado da fobia, encontramos o “nada de saber” sobre a castração, pois trata-se do recalque nos termos freudiano, em que a eficácia do saber inconsciente é que fabrica o sintoma. Enquanto isso, no fetiche, a eficácia se manifesta pela constituição do objeto substitutivo que vela a verdade da castração.Nesse sentido, o objeto fetiche funciona como lembrança encobridora, cuja natureza é de variedade infinita, mas a ligação tem por via de regra o deslocamento do olhar para a falta do pênis. O objeto fetiche guarda, portanto, essa dupla vertente no inconsciente: por um lado, a recusa e por outro a afirmação da castração, constituindo no sujeito uma clivagem do eu. Por fim, Lacan (1957) afirma que o objeto fetiche não é o falo, “mas o véu por trás do qual se deixa desenhar a possibilidade de sua presença escondida”. 12 TEMA 5 – A IDENTIFICAÇÃO AO FALO NA PERVERSÃO E PSICOSE O sujeito, como enfatizamos ao longo desse estudo, é efeito de linguagem. Assim, a sua constituição estrutural deve ser pensada a partir da estrutura edípica, composta por quatro elementos (criança, mãe, falo e pai), pois é desde aí que cada sujeito internaliza o interdito, função da inscrição do Nome- do-Pai no Outro, cujo efeito é S(A). Assim, a lei do significante do Nome-do-Pai pode ser buscada como o agente discriminador da estrutura psíquica. Portanto, nos processos de estruturação da perversão e da psicose, ele também pode ser buscado no lugar em que esse significante fará significação para o sujeito. Joel Dor (1991) explica que é na diferença entre significante da lei e significação da lei que, de fato, podemos dizer que o perverso "escapa" à psicose. No perverso, mesmo que de forma radicalmente marginal, o significante da lei permanece relacionado à única instância que lhe garante seu caráter obrigatório, ou seja, pelo significante do Nome-do-Pai. A atribuição do falo à mãe só é possível, portanto, pela lógica do registro simbólico, no qual a criança, ao se confrontar com castração da mãe, isto é, a falta de pênis, concebe essa falta pela referência àquele que o tem. Desse modo, a atribuição fálica paterna surge no horizonte da interrogação fantasmática do perverso sobre a diferença dos sexos. Assim, a atribuição fálica paterna é estabelecida, mesmo que no limite, a preço de coexistir a atribuição contraditória do falo à mãe (Dor, 1991). Na psicose, a identificação fálica da criança persistira, pois o significante da lei não opera, portanto não efetua nenhuma significação sobre o Desejo da Mãe. Assim, nos termos lacanianos, a forclusão do Nome-do-Pai só ocorre pelo que ele evoca ou pelo que ele significa. Nesse sentido, Joel Dor sublinha que o psicótico tem, então, uma certa experiência da castração, mesmo que essa castração não tem, para ele, nenhuma inserção simbólica, visto que ela escapa a qualquer tentativa de simbolização. Dito de outro modo, a foraclusão do Nome- do-Pai não pode ser pensada como forclusão da castração, pois, na verdade, é por essa via que se pode supor que o psicótico toma conhecimento da castração. No caso das perversões, então, o significante do Nome-do-Pai substitui, na metáfora paterna, o significante do desejo da mãe. Contudo, o significante fálico somente se presta a essa substituição metafórica com algumas reservas, 13 pois ele estará se referido a uma atribuição paterna, ainda que seja no estado de suposição, considerando que o pai não soube dar provas disso. Essa ausência de prova, destaca Joel Dor, é o que induz à uma trajetória de "curto- circuito", que confere ao significante fálico uma referência ambígua. Nesse sentido, o perverso estará continuamente descobrindo um lugar onde ele permanece fundamentalmente “aquém da castração”. Por outro lado, o psicótico ficará alienado nesse lugar, aquém da castração, preso a uma identificação fálica. NA PRÁTICA Para demonstrar o modo como a estrutura perversa se presentifica na clínica, tomaremos um recorte de um caso clínico, de forma literal, apresentado por Paul Lemoine no livro Clínica lacaniana: casos clínicos do campo freudiano (1994) e nomeado como “O homem da caneta Bic”. O caso retratado é de um homem de vinte e oito anos que procurou atendimento porque desejava livrar-se de um sintoma incômodo: não conseguia fazer amor se não desenhasse, no peito da mulher, uns traços com uma caneta Bic. Ele chamava esses traços de “tatuagens”. Não eram desenhos realmente, mas traços quaisquer. Esse era o meio pelo qual a ereção, que sumia assim que ele a penetrava, podia se manter. Desse modo, declara Lemoine, as "tatuagens” tinham o valor de fetiche. O motivo dele, que deseja se libertar de seu sintoma, era, em grande parte, por causa das reações da mulher, que não cedia sem mal-estar a essas práticas extravagantes e que temia que elas pudessem atingi-la profundamente. "Faz meia hora que decidimos nos separar", começou o paciente no momento da primeira consulta – a esposa o acompanhava. A separação veio de fato a realizar-se só alguns anos depois. Logo, fica claro que essa necessidade de tatuagem tem sua origem numa fala da mãe. "Se eu perdesse um de meus filhos na multidão, eu o reconheceria pelo sinal no braço". Lemoine conta que isso se referia ao filho mais velho e ao caçula, porque o paciente estava desprovido de sinal (na pele). Todos os quatro estavam numa feira, tendo ele se perdido entre os carrinhos elétricos que se entrechocavam. Relata que, na primeira vez que aplicou a “tatuagem” no corpo, estava sentado junto de uma escrivaninha onde tinha, diante de si, uma jovem colegial, 14 na qual ele aplica, no peito e na coxa (zona mais erógena que o braço), um carimbo da fábrica do pai e vai ao pátio, onde sobe numa árvore, como Tarzan. Temia e desejava ser visto pelos operários do pai. Em seguida, volta para a sala e masturba-se. Essa prática passa a acompanhá-lo. Em outra época, mais adulto, ele se aplicou no escritório um carimbo de um chefe que lhe fazia medo, cujas inscrição era "Para classificar"; depois, foi ao banheiro e masturbou-se. Ele gozava não só dos carimbos cinzentos, mas coloria também seu corpo com pintura a óleo e traçava também desenhos. Um dos operários do pai, tatuado desde o serviço militar, tinha com ele uma relação particular: iam urinar juntos num muro da fábrica. Era uma maneira, pensava, de se virilizar, e conservou dessas práticas um forte erotismo uretral. De modo que, tendo percebido operários tatuados, já adulto, vai urinar num mictório e depois volta para olhá-los com admiração. A recordação de infância que evoca quase sempre é de uma cena em que, tendo ele ficado no leito até tarde, sua empregada, que arrumava a cama do irmão caçula, lhe diz: "Se você borrar na cama, vou lambuzar você." E o caçula acrescentou: "Eu vou pintar você com minhas tintas." Tatuando-se, ele se identifica com a mulher, com a sua submissão no ato sexual e finalmente com a mãe, de quem ele, assim, obtém o amor, por estar marcado como os irmãos. Tatuar-se, segundo ele, é aviltar-se para ser amado: "Aviltar-me no amor é submeter-me e tentar reviver... Sou castrado e tenho tatuagens, o que me assimila às mulheres." A tatuagem, para ele, tem a mesma necessidade de qualquer outro objeto no fetichista. É sua necessidade que lhe faz temer a cura: Se elimino as tatuagens, tenho medo de não ter mais sexo. Por isso é que procuro um sexo não importa onde, até na máquina fotográfica, por exemplo. Como compreender que o primeiro sexo que eu recuso é o que tenho verdadeiramente? Se me amarro na tatuagem é para procurar o gozo. Ele não é coisa de homem, pois que minha mãe me fez compreender que eu não podia ter gozo com o meu sexo masculino, era proibido. Portanto, a parir do que estudamos e conforme confirma Lemoine, a prática da tatuagem era um verdadeiro rito para evitar o confronto com a angústia. FINALIZANDO • A perversão, na psicanálise, trata-se de uma estrutura clínica, cujo mecanismo específico é a denegação, que opera sob dois polos: de um 15 lado, pelo horror da castração no Outro; e por outro lado, pela mobilização de processos defensivos destinados contornar a falta no Outro. • Contudo,é em torno do significante da falta no Outro, S(A), que a questão da perversão se impõe, como um ponto de báscula que se introduz no processo de estruturação do sujeito. Nesse sentido, será a sensibilidade da criança de abdicar do pai imaginário e acender ao pai simbólico que determinará a sua constituição estrutural entre neurose e perversão. • No que concerne ao diagnostico diferencial, para que ele seja operatório, ainda há de considerar o caráter imperativo, no qual o perverso faz intervir o seu desejo como única lei do desejo que ele reconhece, pois, enquanto neurótico, o desejo se funda pela lei do desejo do Outro, que tem sua inauguração com a inscrição do significante do Nome-do-Pai. Na perversão, a lei do pai só é articulada para desafiá-la através de tudo aquilo que ela impõe enquanto simboliza a falta. • O apelo sedutor da mãe se organiza tanto nos registros de “dar-se a ver” quanto nos de “dar-se a entender”, que se traduz no momento crucial do Édipo, tornando-se um verdadeiro convite ao tormento para a criança. Ocorre que, por mais que a criança perceba uma autêntica incitação ao gozo, já que não estamos tratando de uma fantasia, na maioria das vezes, a mãe se silencia diante da questão do desejo que se supõe ao pai. • A diferença entre significante da lei e significação da lei é que, de fato, podemos dizer que o perverso "escapa" à psicose. No perverso, mesmo que de forma radicalmente marginal, o significante da lei permanece relacionado à única instância que lhe garante seu caráter obrigatório, ou seja, pelo significante do Nome-do-Pai. 16 REFERÊNCIAS DOR, J. Estruturas e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Taurus-Timbre, 1991. _____. Estruturas e perversão. Porto Alegre: Arte Médicas, 1991. FREUD, S. Três ensaios sobre a sexualidade. In: _____. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1995. v. 6. LACAN, J. O Seminário, livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: Zahar, 1995. Lemoine, P. O homem da caneta Bic, in Clínica Lacaniana, casos clínicos do campo freudiano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. SANTOS, A. B. dos R.; BESSET, V. L. A perversão, o desejo e o gozo: articulações possíveis. Estudos de Psicologia, Campinas, v. 30, n. 3, p. 405- 413, nov. 2013.