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<p>TRADUZIDO DO INGLÊS:</p><p>The Ten Commandments: Manual for the Christian Life.</p><p>Jochem Douma</p><p>Título do original em holandês: De Tien Geboden: Handreiking voor Chistelijk leven ©1992 by</p><p>Uitgeveij Van den Berh Kamen.</p><p>Traduzido do original por Dr. Nelson D. Kloosterman, EUA, ©1996.</p><p>P&R Publishing Company, P.O.</p><p>Box 817, Phillipsburg, New Jersey 08865-0817.</p><p>Direitos de publicação em língua portuguesa cedidos à Editora CLIRE por Jochem Douma e Nelson</p><p>D. Kloosterman.</p><p>© 2019 Editora CLIRE – Centro de Literatura Reformada.</p><p>Rua São João, 473 – São José, Recife-PE.</p><p>1.a edição em português – 2019</p><p>É proibida a reprodução total ou parcial desta publicação por quaisquer meios sem a autorização por</p><p>escrito do editor, exceto citações em resenhas.</p><p>CONSELHO EDITORIAL:</p><p>Ademir Souza</p><p>Adriano Gama</p><p>Jim Witteveen</p><p>Kenneth Wieske</p><p>Waldemir Magalhães</p><p>PRODUÇÃO EDITORIAL</p><p>Editor: Waldemir Magalhães</p><p>Tradutor: Wadislau Martins Gomes</p><p>Revisores: Gerson Júnior, Waldemir Magalhães</p><p>Designer: Heraldo Almeida</p><p>Sumário</p><p>1. PREFÁCIO À EDIÇÃO EM PORTUGUÊS</p><p>2. PREFÁCIO À EDIÇÃO ORIGINAL EM HOLANDÊS</p><p>3. PREFÁCIO À EDICÃO EM INGLÊS</p><p>4. O PRÓLOGO DOS DEZ MANDAMENTOS</p><p>1. A Declaração da Aliança</p><p>2. Deus | Libertação | Vida Santa</p><p>3. Do Antigo ao Novo Testamento</p><p>4. Não Uma Teologia da Libertação</p><p>5. O Pessoal e o Negativo</p><p>6. Dez Mandamentos — Duas Tábuas</p><p>7. Regras de Interpretação</p><p>5. O PRIMEIRO MANDAMENTO</p><p>1. Há Outros deuses?</p><p>2. O Primeiro Mandamento: Uma Escolha</p><p>3. Com Um Coração Íntegro</p><p>4. Mágicas e Bruxarias</p><p>5. O Único Deus e o Sofrimento</p><p>6. O Único Deus e as Muitas Religiões</p><p>7. Libertação</p><p>6. O SEGUNDO MANDAMENTO</p><p>1. O Lugar Singular do Segundo Mandamento</p><p>2. O Significado de Uma Imagem</p><p>3. Por Que Não Imagens?</p><p>4. A Espiritualidade de Deus e a Proibição de Imagens42</p><p>5. A Imagem do Próprio Deus</p><p>6. O Homem Como Imagem de Deus</p><p>7. Não Imagens Cultuais, mas Artes Visuais</p><p>8. Bênção e Maldição</p><p>9. Campanhas Iconoclastas</p><p>10. Imagens Hoje</p><p>11. Formas Rígidas</p><p>12. Imagens Mentais</p><p>7. O TERCEIRO MANDAMENTO</p><p>1. Pronunciando o Nome</p><p>2. Nome e Revelação</p><p>3. O Nome de Jesus Cristo</p><p>4. A Imprecação Moderna</p><p>5. Tomando o Nome de Deus em vão por meio da Exibição de Poder</p><p>6. O Juramento: Significado e Distorções</p><p>7. Um Conceito Errado de Juramento</p><p>8. A Seriedade dos Juramentos</p><p>9. Dificuldades Com o Juramento Oficial</p><p>10. Desonrando a Reputação de Deus</p><p>11. O Falar é Prata, mas o Silêncio, algumas vezes, é Ouro</p><p>12. O “Lançar Sorte” e o Terceiro Mandamento</p><p>13. O Que Dizer de Provérbios 16.33?</p><p>14. Não o Terceiro, mas o Décimo Mandamento</p><p>8. O QUARTO MANDAMENTO</p><p>1. Dificuldades</p><p>2. Celebrando o Shabbath</p><p>3. Cumprindo o Shabbath</p><p>4. A Distorção do Shabbath</p><p>5. Mais Uma Distorção</p><p>6. Avaliação Preliminar</p><p>7. Um Dia ou Todos os Dias?</p><p>8. Cerimonial e/ou Moral?</p><p>9. O “Descanso” de Hebreus 4</p><p>10. Mais Uma Vez: As Dificuldades</p><p>11. Textos das Epístolas do Apóstolo Paulo</p><p>12. Do Shabbath Judaico para o Domingo</p><p>13. O Provisório e O Permanente</p><p>14. Não Superestimar Diferenças Confessionais</p><p>15. A Celebração do Domingo</p><p>16. Guardando o Nosso Domingo</p><p>17. O Trabalho aos Domingos</p><p>18. Mais Alguns Comentários</p><p>9. O QUINTO MANDAMENTO</p><p>1. Ambos, Pai e Mãe</p><p>2. O Papel dos Pais</p><p>3. Paternidade e Liberdade</p><p>4. O Mandamento Com Uma Promessa</p><p>5. Paternidade e Disciplina</p><p>6. Honrar os Pais</p><p>7. Honrar os Pais e Escolher uma Esposa</p><p>8. Limites e Formas de Obediência</p><p>9. Outras formas de Autoridade</p><p>10. Formas Diferentes, Palavras Diferentes</p><p>11. Autoridade e poder</p><p>12. Crise de Autoridade e Administração do Sofrimento</p><p>13. A Autoridade do Estado</p><p>14. Podemos ler Romanos 13 de Modo Diferente?</p><p>15. O Direito de Revolução234</p><p>16. Desobediência Civil</p><p>10. O SEXTO MANDAMENTO</p><p>1. Respeito pelas Coisas Vivas</p><p>2. Respeito Pela Vida Humana</p><p>3. Liberdade, Vida e Louvor</p><p>4. Reverência Pela Vida?</p><p>5. Nenhuma Morte Ilícita</p><p>6. Aborto</p><p>7. Eutanásia</p><p>8. Suicídio</p><p>9. Homicídio por Negligência</p><p>10. Atingindo o Âmago da Questão</p><p>11. O Longo Alcance do Mandamento: “O Próximo”</p><p>12. Autodefesa</p><p>13. Pena de Morte</p><p>14. Guerra</p><p>11. O SÉTIMO MANDAMENTO</p><p>1. Um Crime Contra a Propriedade?</p><p>2. Um Campo de Visão Ainda Maior</p><p>3. Homem e Mulher</p><p>4. O Propósito do Casamento</p><p>5. Planejamento Familiar Responsável</p><p>6. Inseminação artificial</p><p>7. Fertilização In Vitro</p><p>8. “Por Causa da Impureza”</p><p>9. Prazer Sexual</p><p>10. Na Rota da Maturidade</p><p>11. A Escolha de Um Cônjuge e a Preparação Para o Casamento</p><p>12. Sexo Fora do Casamento?</p><p>13. Homossexualidade</p><p>14. Adultério e Divórcio</p><p>15. Divórcios permissíveis</p><p>16. Divórcio Sem Novo Casamento</p><p>17. Abstenção com Liberdade</p><p>12. O OITAVO MANDAMENTO</p><p>1. Sequestro</p><p>2. “Roubando” O Coração</p><p>3. Injustiça Social</p><p>4. Pesos, Medidas, Mercado e Dinheiro</p><p>5. Ser Um Mordomo</p><p>6. Propriedade Privada</p><p>7. Trabalho</p><p>8. Mordomia e Generosidade</p><p>9. Desfrutando da Prosperidade Sem Um “Gosto Amargo”</p><p>10. Forçado a Roubar?</p><p>13. O NONO MANDAMENTO</p><p>1. No Tribunal</p><p>2. Formas de Faltar com a Verdade</p><p>3. Quem é Meu próximo?</p><p>4. A Mentira é Persistente</p><p>5. Três Tipos de Mentira</p><p>6. Devemos Rejeitar a Mentira Por Necessidade?</p><p>7. Circunstâncias Extremas</p><p>8. O Que é Cortesia, O Que é Hipocrisia?</p><p>9. Segredo e Encobrimento</p><p>14. O DÉCIMO MANDAMENTO</p><p>1. Não são dois mandamentos</p><p>2. Unicamente nossa atitude interior?</p><p>3. Não “apontarás” teu desejo para...</p><p>4. A cobiça é um fogo voraz</p><p>5. Um vasto território</p><p>6. Não perca sua liberdade</p><p>7. Propaganda e jogos de azar</p><p>8. O bom desejo e a autarcia</p><p>9. Indo mais além</p><p>15. APÊNDICE: O USO DA ESCRITURA NA ÉTICA</p><p>1. 1. A possibilidade de usar a Escritura na Ética</p><p>2. 2. O método de usar a Escritura na ética</p><p>16. ÍNDICE DE REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>PREFÁCIO À EDIÇÃO EM PORTUGUÊS</p><p>Este livro que você tem em mãos é um excelente testemunho do legado que</p><p>teólogos reformados têm deixado para o estudo da ética cristã ao longo dos</p><p>séculos. Discursar sobre os Dez Mandamentos como síntese da ética cristã</p><p>tem sido uma prática cristã presente desde a Patrística, sendo expandida</p><p>pela Idade Média; mas foi na Reforma, principalmente entre os</p><p>Reformados, que essa tradição se tornou mais expandida. Nos catecismos</p><p>reformados compostos nos séculos XVI e XVII existe uma ampla discussão</p><p>sobre os Dez Mandamentos, desenvolvendo gradativamente a compreensão</p><p>ética desse conjunto de regras.</p><p>De maneira mais sintética no Catecismo de Heidelberg (1563), mas de</p><p>forma mais ampla no Catecismo Maior de Westminster (1647), os Dez</p><p>Mandamentos são vistos não apenas em seus aspectos negativos ou</p><p>proibitivos (“não terás”, “não farás”, “não dirás”, etc.), mas também em</p><p>seus aspectos positivos (tudo o que cada mandamento exige). Por isso é</p><p>que, em suas perguntas e respostas sobre a Lei de Deus, o Catecismo Maior</p><p>de Westminster faz uma distinção entre o que o mandamento proíbe e o que</p><p>ele exige para que fique claro para o leitor que a excelência da ética cristã</p><p>não está em não fazer com o próximo o que não gostamos que se faça</p><p>conosco (presente em outros sistemas éticos antigos), mas em fazer com o</p><p>próximo o que queremos que façam conosco (Mt 7.12). Essa regra áurea é</p><p>anunciada pelo Senhor Jesus Cristo e a Fé Reformada tem dado destaque a</p><p>esse aspecto positivo da lei.</p><p>É muito triste o fato de que muitos evangélicos têm desprezado o lugar</p><p>precioso que os Dez Mandamentos ocupam na ética cristã. Não só a</p><p>história, mas o próprio texto sagrado dá destaque ao Decálogo (“Dez</p><p>Palavras”) como o cerne da ética prescrita por Deus. Nos dois lugares do</p><p>cânon em que os Dez Mandamentos são proferidos (Êxodo 20 e</p><p>Deuteronômio 5), eles estão no princípio do restante da legislação dada a</p><p>Israel. Em outras palavras, eles funcionam como o espírito por trás dos</p><p>demais mandamentos. Tanto o Antigo (Jr 7.9-10; Os 4.2) quanto o Novo</p><p>Testamento (Mt 19.17-19; Rm 13.9; 1Tm 1.9-10) repetem vários dos Dez</p><p>Mandamentos como testemunho de sua importância enquanto resumo da</p><p>Lei. Além disso, o registro do Decálogo em tábuas de pedra é um símbolo</p><p>de uma Lei que é perene e não muda. Essa perpetuidade da Lei ajuda-nos a</p><p>entender a história bíblica como um todo: as repetidas transgressões do</p><p>povo, a necessidade de alguém que nos resgate da maldição da Lei, e as</p><p>exortações contínuas a uma vida santa.</p><p>Esses três</p><p>nosso</p><p>futuro e dizer como devemos organizar nossa vida em termos desse futuro,</p><p>então certamente deverão ser incluídos nessa categoria. Se não, entretanto,</p><p>ainda que tenhamos outras razões para criticar a acupuntura, a zonaterapia e</p><p>coisas semelhantes, não podemos alegar que elas vêm “do domínio do</p><p>diabo”. Se um clarividente pode resolver um crime, ou se um técnico</p><p>aplicando tratamentos não ortodoxos pode minimizar a dor de alguém,</p><p>então podemos ver tais coisas como habilidades especiais que podem ser</p><p>usadas para uma boa finalidade. Nesse caso, elas nada têm a ver com falsa</p><p>profecia.</p><p>É claro que uma atitude errada bem poderia chegar a ser expressa na</p><p>busca de ajuda dessas formas de tratamento. Você pode ir de um médico a</p><p>outro especialista e para alguém cujos tratamentos não ortodoxos não sejam</p><p>cobertos por um plano de saúde, recusando-se a colocar sua vida nas mãos</p><p>de Deus, talvez recusando enfrentar a morte. Mas esse tipo de atitude pode</p><p>estar presente em qualquer tipo de tratamento.</p><p>A fim de distinguir cuidadosamente essas áreas, poderíamos tirar</p><p>proveito hoje de uma antiga distinção usada por Gisbert Voetius. Ele falou,</p><p>primeiro, de magia bona, referindo-se à arte de saber as propriedades</p><p>escondidas de coisas naturais. Usando esse conhecimento, aqueles que têm</p><p>entendimento mais profundo das coisas naturais podem conseguir</p><p>resultados maravilhosos. Mesmo que essas coisas pareçam sobrenaturais,</p><p>são fenômenos da natureza. Em termos dessa magia bona, os teólogos</p><p>holandeses W. Geesink e K. Schilder escreveram com apreço sobre o</p><p>fenômeno da clarividência, por exemplo. Não importa quanto desses</p><p>fenômenos permaneçam sem explicação, não estamos lidando com algo</p><p>oculto em qualquer sentido da palavra, argumentou Geesink.18</p><p>Depois, Voetius mencionou a magia vana, ou divertida, a mágica não</p><p>verbal. Esse tipo de mágica não é necessariamente mau, pois o mágico aqui</p><p>é um artista que treina as habilidades de produzir truques com movimentos</p><p>das mãos, com agilidade e ilusão. Não há forças ocultas envolvidas, mas o</p><p>poder que opera é a destreza manual.</p><p>Finalmente, Voetius definiu a magia superstitiosa, a mágica</p><p>supersticiosa que devemos definitivamente rejeitar. Aqui estão envolvidos</p><p>os pecados condenados em Deuteronômio 18 e em Levítico 19, os quais já</p><p>discutimos anteriormente.19</p><p>O Único Deus e o Sofrimento</p><p>Nas suas explicações do primeiro mandamento, o Catecismo de Heidelberg</p><p>requer que o cristão se submeta, com toda humildade e paciência, somente a</p><p>Deus (Pergunta 94). Hoje, essas palavras parecem fora de contexto, pois</p><p>implicam na aceitação de que o nosso sofrimento vem da mão de Deus.</p><p>Zacarias Ursino, um dos autores do catecismo, comenta que devemos</p><p>obedecer a Deus quando suportamos adversidades, sem murmurar contra</p><p>ele por causa de nossa dor, mas, em vez disso, confiando que ele nos</p><p>ajudará.20 O que Ursino afirma é veementemente rejeitado hoje. Muitos</p><p>insistem em dizer que o sofrimento não vem de Deus, e que deveríamos</p><p>resistir a todo sofrimento. Em vez de suportar com paciência nosso</p><p>sofrimento, não precisamos mais suportá-lo. A atitude recomendada hoje</p><p>não é a aceitação do sofrimento, mas sim a rejeição dele.</p><p>Nós rejeitamos esse ponto de vista como sendo absolutamente</p><p>antibíblico.21 Contudo, deveríamos dizer algo mais sobre isso em conexão</p><p>com o primeiro mandamento. Se o que a sociedade atual está reivindicando</p><p>sobre o sofrimento for verdadeiro, então não é mais tão claro como</p><p>poderemos continuar confessando que todas as coisas são de Deus, por</p><p>meio dele e para ele, isto é, de, por e para o único Deus. Ao lado de Deus,</p><p>aquele que dispensa somente o bem aos homens, muitos colocam o diabo</p><p>como fonte de doenças e de outras misérias. Ou, se o diabo não mais existe</p><p>na nossa teologia, então o acaso reina ao lado de Deus. Acaso significa que</p><p>há coisas sobre as quais nem mesmo Deus tem controle. Hoje, muitas</p><p>pessoas afirmam que Deus se sujeita ao sofrimento humano e luta contra o</p><p>sofrimento, mas não no sentido de que ele esteja acima do sofrimento como</p><p>aquele que o envia e o remove. Ao lado de Deus está o diabo ou o acaso,</p><p>que interagem de modo que a miséria que cada um produz não está sob o</p><p>total controle de Deus.</p><p>Essa visão, obviamente, conflita com o primeiro mandamento. Sem</p><p>dúvida, os que defendem essa visão não pretendem adorar o diabo ou o</p><p>acaso ao lado Deus. Não há ídolos diante dos quais os homens desejam se</p><p>prostrar, pois eles os desprezam. Mas o simples fato de colocar ao lado de</p><p>Deus o diabo, o acaso ou qualquer outro poder que limite sua absoluta</p><p>soberania e ação, nos coloca em conflito com o primeiro mandamento.</p><p>Nesse ponto, não estamos longe do politeísmo pagão, com seus deuses para</p><p>cada ocasião e lugar — um deus da guerra e um deus da paz, um deus da</p><p>morte e um deus da vida.22 Um deus acaricia seus adoradores, outro deus os</p><p>golpeia. E essa é a solução pagã para a existência do problema do</p><p>sofrimento; o doce e o amargo simplesmente não podem emanar da mesma</p><p>fonte.</p><p>A Escritura, porém, ensina algo bem diferente sobre Deus. De fato, o</p><p>sofrimento vem das mãos de Deus. Quando alguém cai em pecado, Deus</p><p>começa a executar a sentença. Muitos são atingidos pela maldição de Deus,</p><p>de modo que problemas, dificuldades e morte são a sua recompensa (Gn</p><p>2.17; 3.16-19). Deus pôs inimizade entre a “semente da mulher” e a</p><p>“semente da serpente”, e predisse a vitória final da “semente da mulher”,</p><p>pois só Deus pode decidir sobre essas coisas (Gn 3.15). Com exceção da</p><p>família de Noé, ele aniquilou a raça humana inteira no dilúvio e enviou</p><p>pragas sobre o Egito e sobre Israel (Gn 6.7; Êx 3.20; Dt 4.27; 28.20-68).</p><p>Contudo, assim como Deus envia sofrimento para punir o pecado ou para</p><p>provar o seu povo sem necessariamente puni-lo (Dt 8.6; Jó 1-42; Hb 12.6;</p><p>Tg 1.2-4; Ap 3.19), da mesma forma ele pode remover o sofrimento. O</p><p>Senhor resgata seu povo porque ele é Deus misericordioso que não</p><p>abandona nem desampara Israel, não se esquece da sua aliança com os pais</p><p>(Dt 4.31).</p><p>Como tudo isso se encaixa permanece sendo um enigma para nós.23 Por</p><p>um lado, confessamos que a causa do sofrimento e da morte não pode ser</p><p>atribuída a Deus. Ele odeia o mal e a morte. A fonte de toda miséria não</p><p>pode ser encontrada nele. Ainda assim, por outro lado, Deus reina sobre o</p><p>mal e a morte. Ele pode enviar ambas as coisas. Ele concede não só</p><p>alimento, mas também fome; não apenas vida, mas também doença e morte</p><p>(Dt 32.24; 1Sm 2.5-10).24 Contudo, mesmo aquilo que não entendemos,</p><p>podemos confessar. De acordo com o primeiro mandamento, cremos que há</p><p>um só Deus no princípio e no fim de todas as coisas, cuja onipotência</p><p>podemos experimentar como conforto. Não é o acaso, mas Deus quem reina</p><p>sobre tudo em todo lugar.</p><p>Faremos bem, então, em confessar o excelente resumo do Catecismo de</p><p>Heidelberg. Ele explica com duas palavras: devemos nos submeter a Deus</p><p>em humildade e paciência. A humildade nos inclina a falar um pouco mais</p><p>modestamente acerca do mal e do sofrimento, considerando primeiro não</p><p>Deus ou acaso, mas a nós mesmos. “Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa</p><p>mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte” (1Pe 5.6). A</p><p>paciência nos enche de coragem, pois, Tiago nos diz como Jó foi paciente e</p><p>como o Senhor o abençoou depois de suportar o sofrimento. Deus é rico em</p><p>misericórdia e compaixão (Tg 5.11).</p><p>O Único Deus e as Muitas Religiões</p><p>Outra questão merece discussão por causa de sua relevância: será que</p><p>muçulmanos, budistas, hindus ou devotos de outras religiões servem a um</p><p>deus diferente do Deus da Bíblia? De fato, essa questão tem sido levantada</p><p>ao longo da história, mas ela suscita maior urgência quando os muçulmanos</p><p>se aproximam de nós e os hindus praticam a sua religião diante de nós.</p><p>Quantas vezes não ouvimos as pessoas dizerem que servem ao mesmo Deus</p><p>— alguns o chamam Deus; outros, Alá; e ainda outros, Shang-ti. Assim</p><p>como acontece com o termo “água”, saber, os de língua inglesa a chamam</p><p>de water, outros a chamam de ajer ou tirta ou banju, mas todos se referem à</p><p>mesma coisa, do mesmo modo se dá com o termo “Deus”, isto</p><p>é, as</p><p>palavras e os nomes são diferentes, mas todos temos em vista o ser</p><p>supremo.25</p><p>Não podemos concordar com essa conclusão. O abismo intransponível</p><p>entre a fé cristã e outras religiões pode ser identificado de diversas formas,</p><p>mas, em nossa opinião, o meio mais claro é fazendo uma pergunta sobre a</p><p>questão central na Escritura: “Que pensais vós do Cristo? De quem é</p><p>filho?” (Mt 22.42). Se o vemos como um profeta entre muitos outros, uma</p><p>das muitas manifestações do ser supremo neste mundo, então é inevitável e</p><p>necessário que coloquemos o cristianismo em igualdade com outras</p><p>religiões. Por que Jesus seria singular, se há também Maomé que reivindica</p><p>para si um lugar ao lado de Abraão, de Moisés e de Jesus como (o maior)</p><p>profeta? Entretanto, se Jesus não é um profeta que está no mesmo nível dos</p><p>demais profetas, mas o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16.13-17), então,</p><p>colocar o cristianismo ao lado de outras religiões é absolutamente</p><p>impossível. O mesmo se pode dizer do judaísmo, embora ele se baseie no</p><p>Antigo Testamento. Aqueles que se comprometem com o judaísmo negam</p><p>que Jesus é o Messias, o qual é um com o Pai, e de uma forma</p><p>absolutamente única (Jo 1.1,3,14; 10.30; Rm 9.5). Essa unidade entre o</p><p>Filho e o Pai tem consequências na leitura do primeiro mandamento. Não</p><p>mais podemos falar de Yahweh, de Deus, exceto como o Pai de Jesus</p><p>Cristo. Sua unidade indissolúvel torna impossível preencher o sentido da</p><p>palavra “Deus” de outro modo senão como Cristo o preencheu.</p><p>Com base nessa unidade, Cristo pode dizer que ninguém vem ao Pai</p><p>senão por intermédio dele (Jo 14.6). Ele revelou o Pai a nós (Jo 1.18).</p><p>Somente nele há redenção, pois há apenas um nome dado entre os homens</p><p>pelo qual importa que sejamos salvos (At 4.12). Se alguém confessa essa</p><p>verdade, não se surpreenderá com a ousada declaração do apóstolo Paulo de</p><p>que seus leitores, antes da conversão, não reconheciam Cristo como Deus</p><p>porque estavam servindo deuses que, em essência, não o eram (Gl 4.18). Os</p><p>efésios, que outrora viviam sem Deus (Ef 2.12) e eram alienados da vida</p><p>com Deus, só tiveram a vida transformada quando conheceram Cristo (Ef</p><p>4.18,20). Com toda sua sabedoria, o mundo não conheceu a Deus, uma vez</p><p>que esse conhecimento depende da revelação por meio do Espírito de Deus</p><p>(1Co 1.21; 2.10-16). Os pagãos podem ser bastante religiosos, como Paulo</p><p>francamente reconheceu (At 17.22-28). Mas isso não nega o fato de que as</p><p>nações sem Cristo estão andando em seus próprios caminhos e só podem</p><p>ser libertas da idolatria por meio da conversão ao Deus verdadeiro (At</p><p>14.15-16).</p><p>Esse contraste marcante entre a fé cristã e outras religiões poderia ser</p><p>mal-entendido se as concebermos como uma aversão aos não-cristãos.</p><p>Tácito cometeu esse erro quando atribuiu aos cristãos o ódio contra a raça</p><p>humana.26 Isso, porém, conflitaria diretamente com o amor exigido pelo</p><p>primeiro mandamento, como já vimos. Além disso, o objetivo do</p><p>Evangelho de Cristo é alcançar todas as nações do mundo inteiro.</p><p>A fé cristã é considerada como um jugo pesado ou como uma</p><p>compulsão externa, ou como uma forma de discriminação, apenas quando</p><p>alguém não consegue entender que a confissão exclusiva inerente ao</p><p>primeiro mandamento visa produzir libertação. Infelizmente, a conduta de</p><p>muitos cristãos durante a história não conseguiu dar testemunho dessa</p><p>libertação. Em nome de Jesus, grandes injustiças têm sido perpetradas. Mas</p><p>todas essas falhas não alteram o fato de que o Evangelho traz libertação.</p><p>Somos conduzidos para fora da escravidão da vida sem Deus pela</p><p>“benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos” (Tt</p><p>3.4-7).</p><p>Libertação</p><p>Isso nos leva a uma observação final. Quando se ouve o primeiro</p><p>mandamento, escuta-se nele a libertação da qual o Prólogo dos Dez</p><p>Mandamentos dá testemunho. Yahweh exige a pessoa na sua totalidade, e,</p><p>no entanto, nesse compromisso total da pessoa para com Deus reside sua</p><p>grande liberdade. Aquele que serve a Yahweh viverá debaixo de sua</p><p>bênção, mas aquele que serve a ídolos definhará na escravidão.</p><p>Vejamos, primeiro, a idolatria “primitiva”. Para o egípcio, para o</p><p>babilônio e para o cananeu, o perigo espreitava por todos os lados. Uma</p><p>árvore, um animal, uma pedra, um rio, um mar, uma tempestade, um</p><p>relâmpago, um vizinho hostil, etc. — eram poderes divinos perigosos</p><p>escondidos por toda parte e em todas as coisas. A qualquer momento</p><p>poderia ocorrer uma catástrofe. Um muro de medo os cercava. Ações</p><p>específicas, encantamentos prescritos e rituais especiais eram necessários</p><p>para neutralizar as hostes de perigos. Mágica, exorcismo e sacrifícios eram,</p><p>então, o meio de pacificar os deuses.27</p><p>Contra isso está a confissão de que Deus é o único Criador dos céus e da</p><p>terra, o único que deve ser adorado e temido. Assim, uma pedra é apenas</p><p>uma pedra, uma árvore é apenas uma árvore, uma pessoa é apenas uma</p><p>pessoa, e até mesmo um anjo nada mais é do que um servo diante do qual</p><p>ninguém precisa se curvar (Ap 22.8-9). Pois o mundo inteiro, incluindo</p><p>tudo que pode despertar medo, está sujeito àquele que quer ser nosso Pai</p><p>em Jesus Cristo. E com essa confissão, toda corrente que escraviza uma</p><p>pessoa a alguma coisa criada — não importa o que seja — está, em</p><p>princípio, rompida.</p><p>Muitos têm feito a observação de que todo o desenvolvimento da</p><p>tecnologia teria sido inimaginável à parte da fé cristã. Se há poderes divinos</p><p>em uma árvore, seria perigoso cortá-la. Se “a mãe terra” é uma deusa, a</p><p>indústria de minérios jamais teria se desenvolvido. Fosse o raio, de alguma</p><p>forma, divino, o para-raios jamais teria sido inventado. Mas essas e muitas</p><p>outras possibilidades surgem diante de nós quando o mundo e todas as</p><p>coisas não mais despertam medo, mas tornam-se apenas o mundo natural</p><p>que Deus criou para nosso uso.28</p><p>Talvez seja proveitoso debater sobre a teoria cristã da origem da</p><p>tecnologia.29 Mas uma coisa é certa: a raça humana e o mundo são capazes</p><p>de atingir seu pleno potencial somente quando lidamos com as coisas assim</p><p>como elas são, isto é, criadas por Deus para não serem rejeitadas, desde que</p><p>as usemos com ações de graças a Deus (1Tm 4.4). Deve ter soado bastante</p><p>libertador para os crentes de Corinto ouvir de Paulo que até mesmo as</p><p>comidas sacrificadas a ídolos e vendidas nos mercados podem ser</p><p>adquiridas e comidas porque a terra e tudo o tudo o que nela existe</p><p>pertencem ao Senhor (1Co 10.25-27). O amor a Deus lança fora todo medo</p><p>e capacita para o genuíno desenvolvimento da vida.</p><p>Esse desenvolvimento do mundo tem se espalhado rapidamente, e</p><p>poucas pessoas hoje se curvam diante de ídolos. Mas quanto mais essas</p><p>nações “cristianizadas” progridem, menos ações de graças prestam ao</p><p>Senhor que lhes deu o mundo para que exercessem mordomia nele. O</p><p>mundo atual é emancipado, enquanto a humanidade continua escravizada à</p><p>sua sofisticada tecnologia. Nunca nos livraremos dos ídolos, se realmente</p><p>não nos convertermos ao único Deus verdadeiro. Novas formas de</p><p>escravidão aparecem. O homem moderno, altamente desenvolvido, não</p><p>sabe mais o que fazer com as coisas que inventou, incluindo suas armas</p><p>nucleares. No campo da tecnologia biomédica, ele se encontra no limiar de</p><p>descobertas que talvez, de início, encha-o de alegria, mas que, depois, o</p><p>aterrorizará.</p><p>Se idolatrarmos a tecnologia e deixarmos de fazer o que honra a Deus e</p><p>promove o bem-estar do nosso próximo, aprenderemos o que significa a</p><p>escravidão. Não dominaremos as coisas criadas, mas as coisas criadas nos</p><p>dominarão. É isto o que acontece quando utilizamos de modo errado as</p><p>boas dádivas de Deus: elas assumem a forma de ídolos. O ouro é um</p><p>exemplo desses dons, mas ele tem o poder de escravizar os homens ao</p><p>poderoso deus Mamom. O governo não é um dom menor, mas se o poder é</p><p>exercido de modo errado, muitas pessoas serão vítimas de um Estado</p><p>totalitário que, semelhantemente ao antigo Moloque, nunca se satisfaz com</p><p>sacrifícios humanos.</p><p>O jovem Karl Marx escreveu que uma pessoa só é livre quando anda</p><p>com os seus próprios pés, e isso só acontece quando ela se torna</p><p>independente, ou seja, quando se torna sujeito da sua existência.</p><p>Uma</p><p>pessoa que vive do favor de outra, vê a si mesma como um ser dependente.</p><p>E eu vivo pelo favor de outro, disse Marx, não sei se devo a ele apenas a</p><p>perpetuação de minha vida, mas também se ele criou minha vida — isto é,</p><p>quando minha vida não é minha própria criação.30</p><p>Essa é uma observação feita por uma pessoa decaída da presença de</p><p>Deus. Frequentemente, tais pessoas têm uma visão acurada em relação aos</p><p>ídolos dos outros. Karl Marx enxergou melhor do que os cristãos de seus</p><p>dias a indescritível miséria que pode acompanhar, nas suas palavras, “a</p><p>dança ao redor do bezerro de ouro” — uma economia dirigida pela busca de</p><p>lucro e poder. Mas ele falhou em ver o tipo de escravidão na qual ele</p><p>mesmo jogou grande parte do mundo com seu egoísmo ateu, enquanto</p><p>nações poderosas seguiram-no na convicção de que esse era o caminho</p><p>genuíno para a liberdade.</p><p>Para estar livre de ídolos, você precisa viver com Deus.31 De outra</p><p>forma, você permanece na escravidão. Não faz diferença se alguém se</p><p>ajoelha aterrorizado diante de imagens de divindades ou se confia em sua</p><p>própria arrogância. Ou se glorifica a Deus ou entroniza uma criatura (Rm</p><p>1.21-32). O homem só é livre quando se dispõe a viver pela graça; caso</p><p>contrário, ele se curva como um escravo oprimido pelos poderes deste</p><p>mundo.</p><p>9 Se isso fosse verdade, então não poderíamos falar de monoteísmo (há um só Deus e não existem</p><p>outros deuses), mas de henoteísmo (para Israel não há senão um Deus, enquanto que as nações têm</p><p>seus próprios — e reais — deuses).</p><p>10 Ocasionalmente, no Antigo Testamento, encontramos expressões que nos dão a impressão de</p><p>henoteísmo. Por exemplo, Noemi diz a Rute que Orfa retornou a seu povo e a seus deuses (Rt 1.15).</p><p>Jefté diz ao rei amonita: “Não é certo que aquilo que Quemos, teu deus, te dá consideras como tua</p><p>possessão?” (Jz 11.24). E a companhia de Saul incluía pessoas que disseram a Davi: “Vai, serve a</p><p>outros deuses” (1Sm 26.19). Isso, no entanto, não quer dizer que os que falaram desse modo fossem</p><p>henoteístas. Admitir o fato de que outros creram em deuses estranhos e que alguns (Rute e Jefté) se</p><p>expressaram na linguagem deles é muito diferente de aceitar a realidade concreta desses deuses. Nem</p><p>pode um verso como Sl 82.1 (“Deus assiste na congregação divina; no meio dos deuses, estabelece o</p><p>seu julgamento”) ser tomado como evidência de henoteísmo no Antigo Testamento. Com base em</p><p>uma analogia com Êx 21.6; 22.8-9; 22.28; 1Sm 2.25; Sl 58.1, devemos interpretar os “deuses” de Sl</p><p>82.1 como uma referência aos juízes.</p><p>11 Cf. E. L. Smelik, De ethiek in de vercondiging, 3.a ed., Nijkerk, 1917, p. 84-85. Hendrikus</p><p>Berkhof mostra que o conceito de “poder”no Novo Testamento não tem apenas um tom negativo</p><p>(como em Rm 8.38-39; 1Co 15.24; Ef 2.1-3; Cl 2.15), mas também pode ser usado de modo positivo.</p><p>“Diversas tradições humanas, a maldição da vida terrena como sendo condicionada pelos corpos</p><p>celestes, moralidade, regras fixas religiosas e éticas, a administração da justiça e a ordem do estado</p><p>— todos esses podem ser tiranos em nossa vida, mas nada são em si mesmos” (Christ and the</p><p>Powers, trad. de John H. Yoder, Scottdale, 1977, p. 29. O mesmo pode ser dito sobre aqueles</p><p>elementos que identificamos como “poderes” que podem escravizar a humanidade.</p><p>12 Subjacente a essas forças existentes, podemos presumir a obra sedutora de espíritos satânicos. K.</p><p>J. Popma (Levensbeschouwing, Amsterdam, 1962), 5, p. 216) baseia essa posição em 1Co 10.21 (o</p><p>“cálice do Senhor” é contrastado com a “mesa dos demônios”), e em Dn 10.20-21 (onde espíritos</p><p>nacionais ou anjos podem exercer poder [no mau sentido da palavra poder] sobre nações inteiras).</p><p>13 A palavra hebraica Elohim pode significar tanto “deus” quanto “deuses”. Em consequência,</p><p>teoricamente a tradução do primeiro mandamento poderia ser: “Não terás outro deus diante de mim”.</p><p>A palavra elohim pode até mesmo significar “deusa”. E, teoricamente, alguém também poderia</p><p>traduzir: “Não terás outra deusa junto a mim”. Sobre isso, J. L. Koole observa que existe essa</p><p>possibilidade no primeiro mandamento: “O fato de que o Deus de Israel não tolerava nenhuma deusa</p><p>junto a ele é algo extraordinário no antigo mundo oriental. Os cananeus adoravam seu Baal e sua</p><p>Astarote (Jz 2.13). Assim, no antigo mundo oriental, as deidades masculinas vinham sempre</p><p>acompanhadas de deidades femininas; as narrativas que abriam a história do mundo sempre</p><p>começam com um par de deidades que eram os ancestrais de outros deuses e deusas, e, finalmente, da</p><p>própria humanidade. Mas o primeiro mandamento põe Israel em uma posição excepcional entre seus</p><p>vizinhos; o Deus de Israel não apenas não tolerava outro deus, mas também não tolerava outra deusa</p><p>diante dele. Crer em um Deus que é Deus-em-si-mesmo e, portanto, não uma divindade incompleta,</p><p>conduz a mais profunda reverência e a mais completa admiração na presença desse Deus único que</p><p>não precisa de nada, e nem de ninguém, para ser ele mesmo” (De Tien Geboden, p. 32-33). Koole</p><p>mostra que as características “maternais” de Deus não devem ser negligenciadas em nossa confissão</p><p>sobre Deus, pois, então, não mais teríamos defesa “contra a mariolatria, cuja visão da Virgem Mãe</p><p>compensa uma suposta deficiência em nossa visão de Deus”.</p><p>14 Cf. Sigmund Freud, “Das Unbehagen in der Kultur”, Gesammelte Werke, London, 1948, 14, p.</p><p>467-68. Freud cita o dito de Tertuliano: credo quia absurdum (“Creio porque é absurdo”).</p><p>15 A discussão em questão envolve a palavra hebraica tamin (“completa, sem corrupção”) e a</p><p>expressão hebraica betom-lebab (“com totalidade, plenitude de coração”), junto com a palavra grega</p><p>teleios (“perfeito, completo”).</p><p>16 Sobre a frase “quando a mulher viu Samuel” (1Sm 28.12), o comentário oficial no Dutch</p><p>Statenvertaling diz: “que era um espírito na forma de Samuel que ela fez aparecer pela sua arte</p><p>maligna. Jesus Siraque está profundamente enganado quando escreve que, após Samuel ter morrido,</p><p>ele profetizou e predisse a morte de Saul. W. Geesink discorda desse comentarista da Bíblia, e está</p><p>convencido de que a Escritura certamente não considera o fenômeno espiritualista de Endor como</p><p>“obra do diabo”. Geesink insiste que “o que a mulher diz a Saul deve ser explicado com base na sua</p><p>‘clarividência’. Em seu estado de sonambulismo, ela viu uma alucinação de um velho homem com</p><p>seu manto, o qual ela tinha visto, mais de uma vez, andando nas ruas de Ramá. Nessa situação, ela</p><p>falou a Saul com a voz de Samuel, o qual ela, como clarividente, havia reconhecido” (Van’s Heeren</p><p>ordinantiën, 2.a ed., Kampen, 1925, 3.330-31).</p><p>17 É difícil distinguir entre espiritismo, agouro e feitiçaria. No espiritismo, as pessoas creem que</p><p>vivos podem se comunicar com os mortos sob certas circunstâncias. O agouro pode se referir a uma</p><p>tentativa de predizer o futuro das pessoas ou eventos futuros. Feitiçaria é a tentativa de fazer</p><p>acontecer efeitos especiais e extraordinários (como curas), especialmente por meio de encantamentos</p><p>e de gestos rituais.</p><p>18 K. Schilder escreveu isso em Wat is de hemel?, 2.a ed., Kampen, 1954, p. 128-29. Ele menciona a</p><p>clarividência e diz: muitos indivíduos parecem ter uma imediata certeza sobre alguma coisa que</p><p>acontece à distância, uma certeza muito remota e excepcional para as vias de conhecimento</p><p>ordinárias e cotidianas. Tudo no domínio do assim chamado “oculto”, conquanto que façam uso de</p><p>potencialidades presentes na Criação de Deus, nada mais é do que um emprego normal daquilo que</p><p>Deus colocou na Criação. Em muitos casos, a intenção com a qual operam as pessoas que estão</p><p>dentro dos chamados círculos ocultos com tais potencialidades divinamente concedidas pode estar</p><p>errada, e as pessoas podem buscar essas coisas com propósitos egoístas, de modo que, por isso, tais</p><p>usos são merecedores de condenação; contudo, estamos lidando aqui com coisas que pertencem à</p><p>natureza”. Muitas pessoas, continua Schilder, caracterizam esse fenômeno “por causa de seu mistério</p><p>inerente, ainda que falacioso, como nada menos que a obra do diabo”. Para ler as observações de</p><p>Geesink, cf. Van’s Heeren ordinatiën, 2.a</p><p>ed., Kampen, 1925, 3.306-31.</p><p>19 G. Voetius, Disputatines selectae, Utrecht, 1699, 3, p. 539ss. Antigos comentaristas viam mágica</p><p>no sentido de Dt 18 como um pacto com o diabo. A conexão feita entre a mágica e o diabo teria sido</p><p>influenciada pelo fato de Paulo ter chamado Elimas, o mágico, de “filho do diabo” (At 13.10).</p><p>Voetius, em Disputationes seletae, 3.544, B. Bekker, em “Catechisatie over den Heidelbergschem</p><p>Catechismus” e De Friesche Godgeleerddheid , Amsterdam, 1693, p. 277, menciona que,</p><p>historicamente, a palavra grega nekromantes (o que consulta os mortos) tem sido erroneamente</p><p>associada com negromantes (praticantes de magia-negra). A magia-negra envolve associação com o</p><p>diabo.</p><p>20 The Commentary of Dr. Zacharias Ursinos on the Heidelberg Catechism, trad. de G. W. Wiliard,</p><p>Phillipsburg, 1852, p. 516.</p><p>21 Cf. J. Douma, Rondom de dood, Kampen, 1984, p. 30-38.</p><p>22 J. C. de Moor, Uw God is mijn God , Kampen, 1983, p. 84, mostra que os politeístas na antiga</p><p>Ugarit separavam deuses para a guerra e para a paz, para a morte e para a vida.</p><p>23 Para uma discussão mais extensa sobre esse enigma, cf. J. Douma, Random de dood, Kampen,</p><p>1984, p. 36-38. Em suas decisões doutrinais sobre a Trindade, a igreja primitiva tomou cuidado de</p><p>não criar uma separação entre um Deus Criador (ao qual o mal pode ser atribuído, como fez Marcião)</p><p>e um Deus Redentor (do Novo Testamento). A relevância da Trindade (cuja unidade enfatizamos</p><p>aqui) para o nosso assunto tem sido percebida também por outros. Embora dificilmente possamos</p><p>concordar com o desenvolvimento dessa posição, essa observação é feita por W. Harrelson em The</p><p>Ten Commandments and Human Rights, Philadelphia, 1980, p. 60, 61.</p><p>24 Da mesma forma, J. C. de Moor, Uw God mijn God, Kampen, 1983, p. 84. Na conclusão de seu</p><p>ensaio histórico crítico sobre a crise do politeísmo na Antiga Idade do Bronze, e sobre o movimento</p><p>gradual na direção da confissão do monoteísmo de Yahweh, ele adverte contra a multiplicação de</p><p>deuses-ideias: o deus do movimento feminista e o deus dos homossexuais, o deus da África negra e o</p><p>deus de muitos brancos da África branca. “Estou convicto”, escreve Moor, “de que a Igreja não pode</p><p>tolerar isso absolutamente [...]. Pois, então, estaríamos trocando a unicidade da essência de Deus em</p><p>favor da multiplicidade” (p. 82-83). Parece-nos difícil encontrar assa “unicidade” se nos associarmos</p><p>a de Moor, permitindo-nos o uso da uma metodologia crítica na reconstrução dos dados bíblicos.</p><p>25 J. H. Bavink, “Her Eerste Gebod”, em Sinaï en Ardjoeno, ed. Th. Delleman, Aalten, 1946, p. 23.</p><p>26 Tacitus, Annales, 15.44.</p><p>27 A. Maillot, Le Décalogue, Paris, 1976, p. 26-27.</p><p>28 Cf., por exemplo, A. Kuyper, Pro rege, Kampen, 1911, 1.123-76, e A. Th. van Leeuwen,</p><p>Christianity in World History, 4.a ed., 1966, p. 324 — 330.</p><p>29 F. H. von Meyenfeldt, Tien een, Hilversum, 1978, 1, p. 78ss; C. J. Dippel, “Halve waarheid”,</p><p>Wending 14, 1959-60, p. 62-63; e J. Douma, Christelijke ethick, capita selecta, Kampen, 1981, 1.25.</p><p>30 Citado por J. M. Lockman, Wegweisong der Freiheit, Gütersloh, 1979, p. 28.</p><p>31 A. Maillot, Le Décalogue, 28.</p><p>O SEGUNDO MANDAMENTO</p><p>Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que</p><p>há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da</p><p>terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR</p><p>teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à</p><p>terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço</p><p>misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os</p><p>meus mandamentos. (Êx 20.4-6)</p><p>O Lugar Singular do Segundo Mandamento</p><p>Quando o Decálogo prossegue com: “Não farás para ti imagem de</p><p>escultura”, está dando outro mandamento. Assim, nós não concordamos</p><p>com a posição Católica Romana e Luterana que vê esse mandamento como</p><p>parte do primeiro. O que entendemos ser dois mandamentos separados, eles</p><p>entendem como um único, de modo que, na numeração deles, esses dois</p><p>mandamentos constituem o primeiro mandamento. Então, para manter dez</p><p>mandamentos, eles dividem o décimo mandamento em dois. Não</p><p>poderíamos seguir essa posição, porque a divisão do décimo mandamento é</p><p>artificial, como veremos na discussão desse mandamento. Tal divisão é,</p><p>também, desnecessária, uma vez que o segundo mandamento (em nossa</p><p>enumeração) tem um lugar singular. Enquanto o primeiro mandamento</p><p>rejeita todos os outros deuses para que só Yahweh permaneça, o segundo</p><p>rejeita todas as formas erradas pelas quais as pessoas desejam cultuar</p><p>Yahweh. O primeiro mandamento se opõe aos deuses estranhos, o segundo</p><p>se opõe a toda forma de adoração a Yahweh “autodeterminada” pelo</p><p>homem. Se alguém volta as suas costas aos ídolos, ainda assim deve</p><p>aprender a curvar-se adequadamente diante do Deus de Israel. É possível se</p><p>livrar de todos os ídolos religiosos, mas em seu lugar não se pode colocar</p><p>uma imagem de Yahweh. Alguém pode não servir a outros deuses; mas o</p><p>Senhor, por sua vez, não quer ser servido de outra maneira senão como a</p><p>que ele ordenou. Em suma: o primeiro mandamento aponta para o</p><p>verdadeiro Deus, o segundo, para a verdadeira religião.</p><p>A pertinência dessa diferença entre o primeiro e o segundo</p><p>mandamentos é confirmada por outros textos do Antigo Testamento. Lemos</p><p>em Deuteronômio 4.15-18 que aos israelitas não era permitido fazer</p><p>qualquer imagem esculpida ou fundida na forma de animais, pássaros ou</p><p>peixes (pense na linguagem do segundo mandamento!), porque, quando a</p><p>Lei foi proclamada em Horebe, eles não viram qualquer forma de Yahweh.</p><p>Quando a nação de Israel erigiu o bezerro de ouro ao pé do monte Horebe,</p><p>pretendia reproduzir uma imagem do Senhor. “Este, recebendo-as das suas</p><p>mãos, trabalhou o ouro com buril e fez dele um bezerro fundido. Então,</p><p>disseram: São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do</p><p>Egito” (Êx 32.4). Ao redor do bezerro e do altar que estava diante dele, os</p><p>israelitas celebraram “festa ao SENHOR” (Êx 32.5). A ideia de tomar um</p><p>bezerro — ou melhor, um novilho — surgiu da idolatria pagã. Baal era</p><p>cultuado na forma de um boi, símbolo de poder. Mas essa noção pagã foi</p><p>usada nesse caso para fazer uma imagem de Yahweh. Os israelitas não</p><p>pretendiam rejeitar o Senhor e servir a outros deuses; eles apenas queriam</p><p>ter Yahweh entre eles de uma forma especial; porém, uma forma proibida</p><p>pelo segundo mandamento.</p><p>O mesmo pode ser dito do novo culto que Jeroboão instituiu em Dã e</p><p>em Betel. Os dois bezerros de ouro (imagens de touros) deveriam servir</p><p>como imagem do Senhor. Após a divisão do reino, Jeroboão não queria que</p><p>o povo ficasse viajando para o templo de Yahweh, em Jerusalém. Queria</p><p>eliminar a necessidade de peregrinação a Jerusalém, fazendo duas estátuas</p><p>de touros, das quais se pudesse dizer: “[...] vês aqui teus deuses, ó Israel,</p><p>que te fizeram subir da terra do Egito!” (1Rs 12.28). Essa foi exatamente a</p><p>mesma linguagem falada a Israel no caso do bezerro de ouro, em Horebe!</p><p>Mais tarde, quando Acabe introduziu o deus estranho, Baal, entre as</p><p>Dez Tribos, isso foi visto como um passo a mais no caminho da apostasia:</p><p>“Como se fora coisa de somenos andar ele nos pecados de Jeroboão, filho</p><p>de Nebate, tomou por mulher a Jezabel, filha de Etbaal, rei dos sidônios; e</p><p>foi, e serviu a Baal, e o adorou” (1Rs 16.31). Poderíamos dizer que Acabe</p><p>foi do pecado contra o segundo mandamento ao pecado contra o primeiro</p><p>mandamento. Seguindo a Jeroboão, ele continuou com o culto a Yahweh,</p><p>porém um culto “autodeterminado” pelo homem; mas pelo menos</p><p>permaneceu no culto ao Senhor. Contudo, seguindo a Jezabel, ele</p><p>acrescentou outro deus, Baal. Contra essa vileza ainda maior, Elias travou</p><p>sua grande batalha no monte Carmelo.</p><p>Uma terceira narrativa também merece nossa atenção: a de Mica,</p><p>durante o período dos juízes. Mica erigiu um tipo de “capela” em suas</p><p>terras para abrigar uma imagem esculpida e outra fundida e, para seu culto</p><p>particular, contratou um levita para servir como sacerdote. Aqui, também,</p><p>não foi a imagem de um ídolo, mas uma imagem de Yahweh. Por que,</p><p>então, ele foi chamado Mica, que significa “Quem</p><p>é Yahweh?”? E por que</p><p>sua mãe desejaria para ele a bênção de Yahweh? (Jz 17.2). O que Mica</p><p>iniciou aqui alcançou, depois, um lugar central na vida da tribo de Dã. Essa</p><p>adoração cultual de Yahweh obteve um caráter ainda mais proeminente,</p><p>uma vez que sacerdotes da descendência de Moisés eram contratados (Jz</p><p>18.30). O pecado contra o segundo mandamento não se limitou a um único</p><p>incidente, mas contaminou uma tribo inteira de Israel. O fato que 100 anos</p><p>depois Jeroboão achou um lugar para a sua adoração do bezerro em Dã está</p><p>longe de ser um acidente!</p><p>Até hoje, arqueólogos jamais encontraram uma imagem ou símbolo que</p><p>parecesse representar Yahweh. Mas seria difícil concluir, a partir disso, que</p><p>Israel não tenha continuado a transgredir o segundo mandamento. Os</p><p>arqueólogos também não encontraram imagens de Baal em redutos</p><p>israelitas, mas ninguém tem dúvidas sobre a enorme aceitação do culto a</p><p>Baal em Israel.32 Assim, ao lado do culto a deuses estranhos, a honra a</p><p>imagens de Yahweh exerceu grande influência. Multidões desfilavam diante</p><p>de imagens (1Rs 12.30); muitos se tornavam devotas de tais ídolos (Os</p><p>4.17) e os beijavam (Os 13.2). Tudo isso para alcançar o favor de Yahweh.</p><p>O povo nutria a convicção de que, uma vez que tivessem Yahweh do seu</p><p>lado, poderia tranquilamente aguardar o Dia de Yahweh (Am 5.14,18).33</p><p>O primeiro e o segundo mandamentos lidam com diferentes assuntos: o</p><p>primeiro lida com o culto aos ídolos, e o segundo, com o culto ao Senhor</p><p>“autodeterminado” pelo homem. Não negamos, então, a íntima conexão</p><p>entre eles. Os ídolos não eram adorados à parte de imagens, e imagens de</p><p>Yahweh inevitavelmente se tornaram “outros deuses”. Portanto, não é de se</p><p>admirar que, no Antigo Testamento, imagens de Yahweh e de ídolos fossem</p><p>mencionadas juntas.34 Pense nas imagens que Jeroboão fez. Elas podem até</p><p>ter sido feitas para serem imagens de Yahweh, mas o próprio Yahweh as via</p><p>como “ter outros deuses”, e o resultado era que os israelitas lhe viravam as</p><p>costas (1Rs 14.9)!35</p><p>O Significado de Uma Imagem</p><p>Quando refletimos sobre a relevância do segundo mandamento,</p><p>inevitavelmente enfrentamos a questão de se ainda precisamos ser</p><p>advertidos contra o “fazer imagens”. Quando Paulo andou pela cidade de</p><p>Atenas, ficou impressionado com a quantidade de imagens que viu,</p><p>levando-o a proclamar: “Sendo, pois, geração de Deus, não devemos pensar</p><p>que a divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra, trabalhados pela</p><p>arte e imaginação do homem” (At 17.29). Mas qualquer um que ande pelas</p><p>nossas cidades modernas não poderia evangelizar desse modo, pois não</p><p>encontraria tais imagens.36 Elas desapareceram de nossos parques e</p><p>mercados e mesmo de nossas casas. Se você quiser ver imagens, terá de</p><p>visitar um museu. Imagens esculpidas e forjadas pertencem a uma era</p><p>distante, e não há indícios de que isso venha a mudar.</p><p>Contudo, sabemos que as pessoas não mudaram muito desde que Deus</p><p>deu sua Lei no Sinai. O mal continua tão presente quanto antes, mesmo que</p><p>seja expresso de maneiras diferentes. Assim, por que não pode o segundo</p><p>mandamento indicar um pecado tão relevante como antes, mesmo que esse</p><p>pecado se manifeste de maneiras diferentes de tempos atrás? A fim de</p><p>responder a essa questão, devemos primeiro deixar claro a razão pela qual</p><p>Deus não quer que façamos representação dele. Que inclinação pecaminosa</p><p>levou Israel a desobedecer, a ponto de Yahweh resistir a isso com o segundo</p><p>mandamento?</p><p>Somente poderemos entender a resposta a essa questão quando</p><p>soubermos a função de uma imagem para os povos que viviam nos tempos</p><p>antigos, ou o que, de fato, uma imagem representa para os milhões de</p><p>pagãos no mundo atual. Tal imagem está longe de ser um objeto morto de</p><p>madeira, de pedra ou de ouro, mas é uma coisa viva, uma vez que acredita-</p><p>se que a deidade está presente nela. Crê-se que assim como a alma habita o</p><p>corpo, assim também a deidade habita na imagem. Os pagãos sabem que a</p><p>deidade não é idêntica à imagem. Qualquer um que adore o sol, a lua e as</p><p>estrelas, e faz imagens deles, certamente sabe que esses “deuses habitam em</p><p>cima”. Ele vê esses deuses no céu. Quando Paulo realizou milagres em</p><p>Listra, a multidão gritou: “Os deuses, em forma de homens, baixaram até</p><p>nós” (At 14.11). Até os pagãos pensavam que seus deuses viviam no alto.</p><p>Mas enquanto, por um lado, os deuses estão distantes, por outro lado, eles</p><p>estão próximos, em suas imagens. As imagens representam as deidades.</p><p>Alguém que tenha uma imagem encontra a própria deidade nela. O poder da</p><p>deidade é concentrado e canalizado por meio da imagem.</p><p>Frequentemente, é feita a comparação com a eletricidade. A alta</p><p>voltagem é perigosa. Assim, também, o poder divino. A alta voltagem é</p><p>fatal se não a podemos controlar. Da mesma forma, a imagem da deidade</p><p>funciona como um transformador: a traiçoeira alta voltagem é reduzida a</p><p>fim de poder ser utilizada com menor risco.</p><p>Pode-se mostrar de outra maneira que esse culto à imagem envolve</p><p>poder divino. Uma imagem de uma deidade não deve ser comparada a uma</p><p>fotografia precisa. Poder-se-ia pensar que essa comparação seja válida com</p><p>respeito a imagens de deidades em forma humana. Algumas pessoas</p><p>imaginam seus deuses em forma humana e, portanto, é lógico que as</p><p>representem em imagens que lembrem a forma humana. Contudo, esse</p><p>elemento da semelhança humana não é essencial a uma imagem de uma</p><p>deidade. A imagem pode muito bem assemelhar-se a um pássaro, um</p><p>animal ou um peixe. O texto do segundo mandamento adverte contra fazer</p><p>imagens, independente de sua forma; as formas que ele menciona incluem</p><p>criaturas em cima nos céus (sol, lua, estrelas) ou no ar (pássaros), embaixo</p><p>na terra (árvores ou animais), ou nas águas (peixes). No contexto da história</p><p>de Israel, podemos pensar nas imagens de touros feitas por Arão e por</p><p>Jeroboão. Nenhum deles pensava que Yahweh tivesse a forma de um touro.</p><p>Nem as suas imagens pretendiam ter uma semelhança fotográfica, mas</p><p>apenas o controle do poder de Yahweh. Precisamente, eles viam uma opaca</p><p>representação desse poder no forte touro com sua fertilidade.</p><p>Poderíamos dar mais exemplos do mesmo fenômeno. Fontes</p><p>extrabíblicas mostram diversas imagens de Vênus exibindo muitos seios.</p><p>Isso indica que as pessoas não estavam tentando mostrar sua semelhança</p><p>com os homens, mas representar seu poder. Lembre-se do transformador de</p><p>eletricidade. Arão e Jeroboão estavam colocando nas imagens seu</p><p>entendimento do poder com o qual Yahweh os havia retirado do Egito; o</p><p>poder da fertilidade vem ao alcance dos adoradores de Vênus. Suas</p><p>características sexuais exageradas não pretendiam ser uma representação</p><p>fotográfica exata, mas, certa e acuradamente, representavam seu poder.</p><p>Os pagãos não podem viver sem tais imagens. A larva ardente (para</p><p>usar uma analogia) permanece perigosa até que endureça. Um</p><p>endurecimento similar ocorre quando uma imagem é feita para permitir o</p><p>contato entre um deus e seus adoradores. Sem tais imagens, eles não</p><p>enxergam o seu deus, pois elas significam a presença desse deus. O</p><p>contrário também é verdade: se as pessoas não têm uma imagem de seu</p><p>deus, então o poder desse deus não pode ser representado, e elas são</p><p>desprovidas de suas bênçãos. Em outras palavras, a imagem é indispensável</p><p>para proporcionar o contato entre os deuses e seus adoradores.37</p><p>Naturalmente, manipular a imagem e seus poderes divinos requer muito</p><p>cuidado. Um sistema de rituais e cerimônias se faz necessário a fim de</p><p>receber dos deuses a bênção desejada. Desde que essas ações fossem</p><p>realizadas da maneira correta, as pessoas garantiam a presença dos deuses</p><p>do seu lado. A imagem com seus rituais tornavam os deuses maleáveis.</p><p>Por Que Não Imagens?</p><p>Com base nesse conhecimento sobre a imagem de uma deidade, podemos</p><p>facilmente responder à questão de por que o Senhor proibiu o fazer</p><p>imagens. Gostaríamos de destacar três aspectos:</p><p>1. Fazer uma imagem de Yahweh é não entender sua Liberdade. Uma</p><p>imagem tenta fazer compreensível aquele que é incompreensível. Mas,</p><p>dessa forma, o artesão está tentando controlar Deus, quando o contrário é</p><p>que é verdade:</p><p>Yahweh controla o homem e não permite que ele mesmo</p><p>seja controlado. Alguém pode usar um ritual bem elaborado diante de uma</p><p>imagem para conseguir que Yahweh faça o que se deseja, mas isso jamais</p><p>será bem sucedido.</p><p>Um exemplo claro disso é encontrado na narrativa de 1 Samuel 4. Os</p><p>israelitas haviam sofrido uma grande derrota nas mãos dos filisteus. A fim</p><p>de resgatá-los de sua miséria, trouxeram a arca da Aliança para o campo.</p><p>Yahweh estava entronizado entre os querubins, e somente se ele estivesse</p><p>próximo, a vitória estaria garantida. A arca chegou, juntamente com os</p><p>sacerdotes, os quais podiam dar as instruções necessárias para o cuidado</p><p>com a arca. As pessoas receberam a chegada da arca com gritos de alegria</p><p>tão entusiásticos que a terra tremeu. Os filisteus ficaram com medo: “Os</p><p>deuses vieram ao arraial. E diziam mais: Ai de nós!” (1Sm 4.3-8). Mas, em</p><p>vez de conseguir a vitória, Israel sofreu sua segunda derrota e, até mesmo, a</p><p>arca foi levada como saque pelos filisteus. A própria arca, feita sob a ordem</p><p>de Yahweh, tornou-se não mais do que uma caixa de madeira, tão logo o</p><p>Senhor não quis mais estar associado a ela. Ele se assenta entronizado entre</p><p>os querubins dessa arca quando lhe apraz (cf. Ez 1 e 10). Se Israel havia</p><p>pecado e se recusado a se converter como Yahweh havia prescrito, então é</p><p>certo que a tentativa de torná-lo propício por meio de manipulações pagãs</p><p>não iria funcionar.</p><p>Agora, se isso se aplica à arca, feita sob a ordem de Deus, certamente</p><p>será verdadeiro a respeito de qualquer imagem que as pessoas possam erigir</p><p>para seu próprio culto a Yahweh. Uma imagem é simplesmente uma</p><p>maneira de tentar controlar Deus com uma coleira: “Faze-nos deuses que</p><p>vão adiante de nós”, disse o povo a Arão. E, assim, Yahweh tornou um</p><p>embaixador em cadeias, uma imagem em grilhões.38 Entretanto, a Escritura</p><p>interia mostra claramente que o processo é precisamente o oposto. O</p><p>Senhor escolheu livremente a seu povo (Dt 7.7-8; Am 9.7) e determinou a</p><p>maneira que seu povo deveria andar. Ele pode até mesmo colocar em risco</p><p>o futuro de Israel, quando este se afasta do caminho fazendo imagens</p><p>esculpidas (Êx 32.8-10; Dt 9.12-14). O Senhor se recusa a viver dessa</p><p>forma com Israel. Ele é diferente de todos os outros deuses, e isso deve</p><p>ficar claro no relacionamento que ele estabeleceu entre si mesmo e seu</p><p>povo.</p><p>2. Fazer uma imagem de Yahweh é não entender sua Majestade.</p><p>Quando fez seu pacto conhecido a Israel, o Senhor falou do monte Sinai</p><p>enquanto este ardia em fogo “até ao meio dos céus, e havia trevas, e nuvens,</p><p>e escuridão”. Israel não viu forma nenhuma de Yahweh; havia somente uma</p><p>voz (Dt 4.11,12). Em contraste com tal majestade está o fazer imagens</p><p>como “obra de mãos de homens, madeira e pedra, que não veem, nem</p><p>ouvem, nem comem, nem cheiram” (Dt 4.28). Uma imagem é a criação de</p><p>um artesão, mas não é um deus (Os 8.6; 13.2, 14.4). As pessoas se curvam</p><p>diante daquilo que seus próprios dedos fizeram. Embora feitas de ouro e</p><p>prata, no dia do juízo os homens lançarão suas imagens às toupeiras e aos</p><p>morcegos, enquanto estes fogem pelas pedras e pelos rochedos em face do</p><p>terror de Yahweh e ante o som de sua majestade (Is 2.20-21).</p><p>Além disso, o culto a uma imagem evoca ridículo e sarcasmo. “Com</p><p>quem comparareis a Deus? Ou que coisa semelhante confrontareis com</p><p>ele?” Certamente, é ridículo quando um artesão é contratado para fazer</p><p>imagens, pregando-as a uma base para que não caiam! (Is 40.18; 41.7).</p><p>Parte daquilo que os homens retiram da floresta é usado para alimentar o</p><p>fogo a fim de cozinhar ou se aquecer, e o resto eles usam para fazer</p><p>imagens para adorar e fazer petições: “Livra-me, porque tu és o meu deus!”</p><p>(Is 44.15-20).39 Em contraste com esses deuses feitos de blocos de madeira,</p><p>Yahweh se apresenta em sua majestade como Criador do mundo (Is 40.12-</p><p>17). Ninguém se compara a ele. “[...] antes de mim deus nenhum se formou,</p><p>e depois de mim nenhum haverá” (Is 43.10-11).</p><p>Na Escritura, essa majestade de Deus é demonstrada pela metáfora da</p><p>escuridão na qual ele se encontra (Dt 4.11; 5.23; 1Rs 8.12), ou da luz</p><p>inacessível na qual ele habita (1Tm 6.16). Escuridão e luz são</p><p>completamente opostas, mas expressam a mesma ideia: Deus é tão</p><p>majestoso que não pode ser alcançado pelo entendimento humano. Como</p><p>poderia Israel jamais pensar em fazer uma imagem dele? As trevas ao redor</p><p>de Yahweh são tão impenetráveis quanto a luz divina é ofuscante para os</p><p>olhos humanos. Todo ser humano está descoberto e nu aos seus olhos (Hb</p><p>4.13), mas o contrário não é verdadeiro: Deus não está descoberto e nu ante</p><p>os olhos humanos.40 Por isso, Israel estava zombando da majestade de Deus</p><p>quando fez uma imagem de Yahweh e ousou declarar sobre ela: “Este é teu</p><p>deus que te tirou da terra do Egito”.</p><p>3. Fazer uma imagem de Yahweh é não entender seu Pacto. Não se pode</p><p>fazer imagens por causa da Liberdade de Yahweh, não se pode fazer</p><p>imagens por causa da Majestade de Yahweh, e não se pode fazer imagens</p><p>por causa do Pacto que Yahweh fez com Israel. A ligação entre Yahweh e</p><p>seu povo não precisa ser estabelecida por meio de imagens, pois ela já está</p><p>estabelecida pelo pacto. A liberdade e a majestade de Yahweh não</p><p>significam que ele é inacessível e que age caprichosamente — algo que</p><p>Israel então teria de “neutralizar” por meio do controle do poder divino</p><p>mediante uma imagem de Yahweh. Yahweh fez um pacto consigo mesmo</p><p>de fidelidade a Israel. Não precisamos olhar muito longe para saber o que</p><p>ele faz. O mandamento não está no céu ou além do mar para que Israel</p><p>possa dizer: “Porque este mandamento que, hoje, te ordeno não é</p><p>demasiado difícil, nem está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres:</p><p>Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga e no-lo faça ouvir [...] Nem</p><p>está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós além do mar que no-</p><p>lo traga e no-lo faça ouvir [...] Pois esta palavra está mui perto de ti, na tua</p><p>boca e no teu coração, para a cumprires” (Dt 30.11-14; cf. Rm 10.6-9).</p><p>Yahweh não é tangível para Israel, como são os ídolos aos quais se</p><p>devotam os pagãos, mas, por outro lado, não há Deus tão próximo ao seu</p><p>povo como Yahweh é próximo de Israel.41 Eles não veem uma forma, mas</p><p>ouvem a sua voz. Ele fez conhecido o seu pacto, e eles puderam saber que</p><p>seus mandamentos — recebidos em obediência — trariam prosperidade a</p><p>Israel (Dt 4.12-14; 5.29; 6.24).</p><p>Assim, não é apenas sua majestade, mas também sua intimidade com</p><p>Israel que torna o fazer imagens tão reprovável. Por isso, o Senhor também</p><p>“vingará a si mesmo” se o pacto entre ele e seu povo for quebrado pelo</p><p>culto a imagens. O texto do segundo mandamento coloca as palavras desta</p><p>maneira: “Eu sou o Deus que vindica a si mesmo”. Em vez da tradução</p><p>“que vindica a si mesmo” (el qanna’), algumas versões traduzem essa</p><p>expressão por “Deus zeloso” [ou ciúme]. Certamente, o elemento do</p><p>“ciúme” está presente; mas essa tradução é muito limitada porque,</p><p>considerando o que se segue no texto, Yahweh é também el qanna’ em</p><p>relação àqueles que guardam seus mandamentos. Ele é zeloso quando pune</p><p>e quando demonstra seu favor. Em ambos os casos, ele vindica a si mesmo</p><p>como o Deus do pacto. Ele é zeloso no sentido de “ciúme” de uma pessoa</p><p>que fere seu amor fazendo imagens dele. Elas verão isto: o pecado dos pais</p><p>é visitado nos filhos, netos e bisnetos. Mas Yahweh é também zeloso</p><p>quando somos fiéis a ele. E, nesse caso, ele vindica a si mesmo</p><p>demonstrando seu favor por um tempo inimaginável às futuras gerações</p><p>daqueles que amam e guardam seus mandamentos.</p><p>A religião “autodeterminada” pelo homem desperta o sentimento de</p><p>“ciúme” em Yahweh, tanto quanto o ciúme é despertado no marido que vê</p><p>sua esposa amar outro homem (Nm 5.14). O amor que Yahweh dedica é</p><p>desprezado. Em vez de receber vida como um dom pactual, os homens</p><p>buscam segurança para a vida por meio de culto às imagens. Fé e</p><p>obediência no âmbito do pacto são opostas a toda atitude pagã que sempre</p><p>luta ferozmente nos rituais com imagens para permanecer no controle.</p><p>A Espiritualidade de Deus e a Proibição de Imagens42</p><p>Não podemos deixar passar</p><p>despercebido o fato de que nossa explicação</p><p>acerca da proibição de imagens difere do que é encontrado em antigos</p><p>comentários sobre o segundo mandamento. Em breves palavras, as</p><p>explicações anteriores eram mais ou menos assim: não podemos fazer</p><p>imagens de Deus porque ele é não-físico e não-material. Deus é espírito e,</p><p>portanto, invisível. Um espírito não tem carne e ossos (Lc 24.39), assim,</p><p>como poderia alguém fazer uma representação dele? Antigos comentaristas</p><p>apelavam diretamente para João 4.24 para provar a proibição de imagens</p><p>(“Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e</p><p>em verdade”), para 1 Timóteo 6.16 (o Senhor dos senhores é “o único que</p><p>possui imortalidade, que habita em luz inacessível, a quem homem algum</p><p>jamais viu, nem é capaz de ver”), e para Deuteronômio 4.15 (“pois</p><p>aparência nenhuma vistes no dia em que o SENHOR, vosso Deus, vos falou</p><p>em Horebe, no meio do fogo”).</p><p>Seria incorreto dizer que esses e outros textos-prova semelhantes nada</p><p>têm a ver com o segundo mandamento. Em nossa própria explicação,</p><p>também já recorremos aos textos de Deuteronômio 4.15 e 1 Timóteo 6.16.</p><p>Além disso, seria igualmente incorreto dizer que Deus pode ser retratado</p><p>como físico e material. Isso contradiria o que a igreja tem ensinado,</p><p>corretamente, sobre esse assunto. O homem foi criado do pó da terra (Gn</p><p>1.7), mas Deus, não. A Bíblia diz que o Verbo se fez carne (Jo 1.14) e que</p><p>Deus se revelou em carne (1Tm 3.16), então a boa exegese exige que</p><p>confessemos que o eterno Pai, Filho e Espírito Santo sejam não-físicos. Em</p><p>contraste com os pais segundo a carne, nós servimos ao Pai dos espíritos</p><p>(Hb 12.9). Assim, quando alguns comentaristas insistem que não podemos</p><p>retratar Deus de nenhum modo terreno, material e físico, eles têm o</p><p>testemunho da Escritura.43</p><p>Isso não é contradito quando lemos que Deus tem ouvidos, olhos, boca,</p><p>face, mãos, braços e pés. De fato, o ponto central não é exatamente se Deus</p><p>possui esses órgãos ou membros, mas que ele ouve, vê, manifesta amor ou</p><p>ira, cria ou destrói (com suas mãos), se aproxima ou se afasta (com seus</p><p>pés), e expressões semelhantes. O que importa não é se ele tem uma mão</p><p>semelhante a dos homens, mas o que ele faz com sua mão. Alguém já disse</p><p>que, em relação à Yahweh, nenhum órgão humano jamais foi mencionado</p><p>que não tivesse uma atividade ou função externa, como cabelo, bochechas,</p><p>ossos e sangue.44 Não podemos atribuir-lhe um corpo, mas devemos</p><p>entender essas expressões de semelhanças humanas (antropomorfia) como</p><p>provas indubitáveis de como o exaltado Yahweh lida intimamente com seu</p><p>povo, quer ele venha ao povo com bênção quer com maldição. Quando os</p><p>homens seguem seus princípios iníquos e depois dizem: “O SENHOR não o</p><p>vê; nem disso faz caso o Deus de Jacó”, então sua resposta é: “O que fez o</p><p>ouvido, acaso, não ouvirá? E o que formou os olhos será que não enxerga?”</p><p>(Sl 94.7-9).</p><p>Nenhuma imagem de Yahweh pode ser feita, entre outras razões, porque</p><p>ninguém viu qualquer forma dele em Horebe. Mas ele descreve a si mesmo</p><p>para tornar claro o quanto ele leva a sério o seu pacto com Israel. Ele pode</p><p>genuinamente amar, e isso ocorre quando ele fez resplandecer seu rosto</p><p>(Nm 6.25; Sl 31.16); e ele pode genuinamente se irar quando ele esconde</p><p>sua face (Dt 31.17). Qualquer um que entenda o que ouvidos, olhos, mãos e</p><p>pés, um olhar amável ou um olhar irado podem fazer, facilmente entenderá</p><p>a linguagem antropomórfica usada para descrever Yahweh.</p><p>Mas, mesmo que possamos concordar com os mais antigos intérpretes</p><p>do segundo mandamento, que diziam que Deus não é físico e, portanto, não</p><p>pode ser retratado, há ainda outra razão para colocar um ponto de</p><p>interrogação nessa explicação parcial sobre o segundo mandamento e nas</p><p>conclusões erradas que eles frequentemente derivaram da espiritualidade de</p><p>Deus.</p><p>Qualquer explicação do segundo mandamento que se baseia somente na</p><p>espiritualidade de Deus é parcial. Já vimos, claramente, que o fazer imagens</p><p>nem sempre envolve a representação humano-física da deidade.45</p><p>Considere a imagem dos touros feitos por Arão e por Jeroboão. Eles não</p><p>estavam interessados em fazer uma “imagem exata” de Yahweh, mas</p><p>queriam manipular seu poder. Não pretendiam tornar visível aquele que é</p><p>invisível, mas tornar compreensível aquele que é incompreensível. Esse</p><p>ponto tem sido enfatizado em recentes exegeses; fazer imagens de Yahweh</p><p>é atacar sua liberdade e seu pacto. Ele não permitirá ser confinado em uma</p><p>imagem, nem permitirá que os homens estabeleçam outro caminho que ele</p><p>não tenha estabelecido no pacto.</p><p>Além da parcialidade das explicações mais antigas sobre o segundo</p><p>mandamento, somos também surpreendidos pelas conclusões errôneas</p><p>frequentemente inferidas da espiritualidade de Deus. O “espiritual” é,</p><p>geralmente, visto como único e superior, e o material, como inferior. O que</p><p>é importante não é ver, mas pensar. Deus é espírito, e aquele que o adora</p><p>tem de adorá-lo em espírito e em verdade. Muitos explicam esse verso de</p><p>João 4 de modo que o culto “espiritual” a Deus consiste de um culto interior</p><p>em contraste com o culto exterior. Os esforços internos do coração são mais</p><p>importantes do que o labor externo, que pode ser visto com nossos olhos.</p><p>Deus deve ser adorado de modo espiritual, de acordo com sua natureza não-</p><p>física e espiritual.</p><p>Em primeiro lugar, essa interpretação “espiritual” torna o segundo</p><p>mandamento somente uma tautologia, tão autoevidente que deixa claro por</p><p>que há, no Antigo Testamento, tão feroz advertência contra o fazer</p><p>imagens.46</p><p>Segundo, essa abordagem imediatamente conduz a uma visão dualista</p><p>do homem, na qual o espírito se encontra mais perto de Deus do que o</p><p>físico.47 O pensamento vence a visão. Com os olhos do espírito nos</p><p>aproximamos mais de Deus do que com os olhos do corpo. Mas esse tipo de</p><p>descrição é errado. A escuridão que cerca Yahweh ou mesmo a luz com a</p><p>qual ele se reveste torna-o inacessível a quaisquer órgãos humanos.</p><p>Devemos aplicar isso à totalidade da revelação. A distância entre Criador e</p><p>criatura não pode ser alcançada pelos nossos olhos nem pelo nosso</p><p>entendimento. Coisas que os olhos não viram e que não penetraram no</p><p>coração (entendimento) do homem, Deus tem preparado para aqueles que o</p><p>amam (1Co 2.9).</p><p>Em terceiro lugar, a explicação “espiritual” do segundo mandamento</p><p>facilmente despreza e suprime todas as passagens da Escritura que nos</p><p>falam sobre o que fazer para se ter um “vislumbre” de Deus. Yahweh</p><p>apareceu em forma humana a Abraão em meio às árvores de terebinto de</p><p>Manre (Gn 18.1). Em Peniel, Jacó declarou que ele tinha visto Deus face a</p><p>face (Gn 32.30). Moisés, Arão, Nadabe, Abiú e 70 anciãos de Israel viram a</p><p>Deus e comeram e beberam (Êx 24.11). Yahweh falou aos profetas em</p><p>visões e sonhos, mas falou face a face com Moisés, a quem foi permitido</p><p>ver a forma de Yahweh (Nm 12.6-8).48 O mesmo é verdade no Novo</p><p>Testamento. Todo aquele que viu Jesus Cristo, viu o Pai (Jo 14.8-9). Cristo</p><p>é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a Criação (Cl 1.15).</p><p>Paulo sustenta a visão de que devemos refletir a glória de Cristo e de que</p><p>por ele, que é espírito, seremos transformados de glória em glória (2Co</p><p>3.17-18). Isso diz respeito a ver — um ver que, em termos do contexto de 2</p><p>iPhone 12</p><p>iPhone 12</p><p>Coríntios 3.7-11, ultrapassa a visão de Moisés.49 Agora vemos em parte,</p><p>então veremos face a face (1Co 13.12).</p><p>Obviamente, certos limites foram impostos à nossa visão. Moisés viu</p><p>muito, mas Yahweh lhe disse: “Não me poderás ver a face, porquanto</p><p>homem nenhum verá a minha face e viverá”. Foi-lhe permitido ver apenas</p><p>as costas de Deus (Êx 33.20-23).50 Um grande abismo permanece entre</p><p>Criador e criatura. Nós o veremos não como ele vê a si mesmo. Mas esse</p><p>tipo de restrição rege não apenas nossos olhos. Jamais sondaremos Deus</p><p>com nosso entendimento no mesmo grau de profundidade que ele sonda a si</p><p>mesmo (Rm 11.23; 1Co 2.11). Ambas as atividades humanas, ver e pensar,</p><p>têm seus limites, mas ambas têm também suas respectivas promessas. Nada</p><p>podemos perceber pelo nosso ouvir e ver, a menos que Deus se revele.</p><p>O</p><p>pensamento não ultrapassa a visão, não importando quão “espiritual” isso</p><p>possa parecer. Temos muito para ver e para pensar quando aprendemos o</p><p>que significa ouvir a Palavra de Deus. Aquele que ouve também verá. Isso</p><p>já é verdade, agora, com respeito ao poder eterno e à divindade de Deus, os</p><p>quais podem ser apreendidos a partir da sua Palavra, por meio do</p><p>entendimento, desde a Criação do mundo — uma combinação maravilhosa</p><p>de visão e entendimento! (Rm 1.19-21). Fundamentados em suas</p><p>promessas, se perseverarmos em fé, poderemos chegar a ver muito mais</p><p>acerca do próprio Deus.</p><p>À luz disso, podemos dizer que o pecado de Israel não consistia de</p><p>querer ver (algo de) Yahweh — pois até Moisés queria isso — mas de</p><p>buscar satisfazer seus anseios de ver e de tocar, de maneira desobediente e</p><p>obstinada.</p><p>Em Quarto lugar, é incorreto procurar pelo significado da</p><p>“espiritualidade” de Deus apenas em seu aspecto não-físico. Não é correto</p><p>retratar Deus física ou materialmente.51 Isso não significa, contudo, que</p><p>Deus exista como um ser amorfo. Nós lemos a respeito de seu “aspecto” ou</p><p>“forma” (hebraico: temuna). Em Horebe, Israel não viu aparência ou forma</p><p>de Yahweh; mas isso não quer dizer que Yahweh não tenha aparência ou</p><p>forma (cf. Nm 12.8).52 À parte disso, entretanto, quando lemos que Deus é</p><p>espírito, isso inclui, certamente, a mensagem de que Deus é poder. Em</p><p>contraste com carne, como carne fraca, espírito indica poder divino.</p><p>Considere Isaías 31.3: “Pois os egípcios são homens e não deuses; os seus</p><p>cavalos, carne e não espírito”. Espírito caracteriza Deus assim como carne</p><p>caracteriza a criatura. Assim, “espírito” se refere ao poder doador da vida</p><p>em contraste com a fraqueza e mortalidade da carne. O contraste, assim,</p><p>não é com o físico (como em Lc 24.39; Cl 2.5; Hb 12.9), mas com o que é</p><p>fraco e carnal, com o que é breve e transitório.</p><p>Essa interpretação nos ajuda a discernir o sentido correto de João 4.24.</p><p>Ao ser indagado pela mulher samaritana acerca do local de Adoração – se</p><p>no monte Gerezim ou em Jerusalém, Jesus respondeu que esse tempo já</p><p>havia passado. Jesus diz à mulher samaritana, a qual falava sobre a</p><p>adoração a Deus no monte Gerizim nem em Jerusalém, que esse tempo</p><p>passou. “Deus é espírito” e isso significa que ele concedeu novo poder</p><p>porque o Messias traria um fim à adoração no antigo templo. A adoração a</p><p>Deus deve ser feita “em espírito e em verdade”, em comunhão com o poder</p><p>doador de vida do Messias e em comunhão com a verdade que o Messias</p><p>proclama.</p><p>Desse modo, o contraste não é entre o culto “visual” em Gerizim e em</p><p>Jerusalém e o culto “interior” que Jesus veio trazer. O contraste é, antes,</p><p>entre o ministério transitório do templo e o permanente poder doador de</p><p>vida de Cristo. Aquele que está ligado a esse poder — ou, em outras</p><p>palavras, aquele que está “em Cristo” — pode adorar a Deus em qualquer</p><p>lugar do mundo. Esse culto tem tanto um lado externo quanto tinha o</p><p>ministério do templo. Ajoelhar-se, cantar, reunir-se em edifícios de igrejas,</p><p>tudo isso tem — como o ministério do templo — tangibilidade e</p><p>localidade.53 Mas é o poder recriador de Deus que, em Cristo, concede um</p><p>caráter universal e permanente ao culto, para que algo inteiramente novo</p><p>apareça.</p><p>Essa incomum e melhor exegese de João 4.24 ensina-nos quão</p><p>cuidadosas devem ser nossas conclusões com respeito ao caráter</p><p>“espiritual” não-externo do nosso culto a Yahweh e a Cristo. É claro que a</p><p>religião pode se degenerar em pura externalidade. Yahweh não tem prazer</p><p>nesse tipo de religião (por exemplo, Is 58.3-14; Mq 6.6-8). Isso não</p><p>significa, porém, que ele, assim, rejeite todo culto formal, como ofertas e</p><p>cerimônias (por exemplo, dias de jejum) — coisas que o próprio Deus</p><p>instituiu.</p><p>A Imagem do Próprio Deus</p><p>Imagens de ídolos e de Yahweh não podem ser feitas. Mas isso não quer</p><p>dizer que o culto de Israel não tivesse imagens. Podemos compreender o</p><p>conceito de “imagem” em um sentido mais amplo para incluir o tabernáculo</p><p>e o templo, a arca, a estola sacerdotal e a serpente de bronze. Tudo isso</p><p>ocupava um lugar divinamente ordenado na história de Israel. Entretanto,</p><p>sua função era evidentemente muito diferente das imagens de ídolos</p><p>inventadas pelos homens. Estas eram feitas para ajudar o povo a manipular</p><p>o poder da deidade. Yahweh jamais permitiu tal uso dos santos edifícios e</p><p>objetos.</p><p>Sob a ordem de Deus, Moisés fez uma serpente de bronze para conter</p><p>uma praga de serpentes entre os israelitas no deserto. Aquele que olhasse</p><p>para a serpente erguida receberia cura da picada mortal (Nm 21.6-9). Não</p><p>há aqui nada que indique uma imagem dedicada ao uso cultual, procissão</p><p>ou culto com ritos pagãos. O mero ato de olhar para a serpente era o meio</p><p>simples, divino e abençoado, ordenado por Deus, para receber a cura. Mais</p><p>tarde, quando se começou a cometer idolatria com o uso dessa serpente,</p><p>Ezequias conduziu uma campanha iconoclasta contra as pedras sagradas e</p><p>os pilares consagrados, a qual incluiu a destruição da serpente de bronze</p><p>(2Rs 18.4). Nenhum objeto permanece santo se utilizado de maneira pagã.</p><p>Já vimos isso em conexão com a arca, a qual Yahweh tinha escolhido</p><p>como seu trono, mas que abandonara quando Israel tentou usá-la como uma</p><p>“caixa mágica” para garantir vitória sobre os filisteus (1Sm 4). Podemos</p><p>dizer o mesmo com respeito à estola sacerdotal, que era um meio legítimo</p><p>que Israel usava para consultar o Senhor (Êx 28.29-39; 1Sm 2.28; 23.9-12;</p><p>30.7-8). Mas quando Gideão e Mica fizeram uma estola sacerdotal (Jz 8.24-</p><p>27; 17.5-13), estavam a serviço da idolatria. Todo Israel cometeu idolatria</p><p>adúltera com a estola sacerdotal de Gideão (Jz 8.27), e a conduta de Mica é</p><p>um exemplo de que, naqueles dias, muitos faziam o que era certo aos seus</p><p>próprios olhos (Jz 17.6). O uso adequado da estola sacerdotal excluía</p><p>mágicas de todo tipo e, quando ela era consultada, seu uso foi sempre</p><p>acompanhado de oração (1Sm 14.41; 23.10; 30.8).54</p><p>Também não se poderia restringir Deus no templo. Salomão declarou</p><p>isso na dedicação do santuário: “Mas, de fato, habitaria Deus na terra? Eis</p><p>que os céus e até o céu dos céus não te podem conter, quanto menos esta</p><p>casa que eu edifiquei” (1Rs 8.27-53). Depois, quando Judá, confiantemente,</p><p>presumiu que poderia permanecer na sua própria terra por causa da</p><p>presença do templo no seu meio (“[...] templo do SENHOR, templo do</p><p>SENHOR, templo do SENHOR é este”), suas palavras nada mais foram do que</p><p>sons vazios emitidos por um povo que havia pervertido a justiça, oprimido</p><p>as viúvas e os órfãos, derramado sangue inocente e andado após outros</p><p>deuses (Jr 7.3-7).</p><p>A glória de Yahweh deixou o templo quando Judá quebrou o pacto e foi</p><p>levado em cativeiro (Ez 1 e 10). A nação deve se sentir segura sob a sombra</p><p>de um santuário, mas deveria aprender que Yahweh não admite ser</p><p>restringido, nem mesmo no seu lugar de habitação escolhido, se Israel se</p><p>tornar infiel ao pacto. O Antigo Testamento aprecia cerimônias, mas</p><p>condena rituais que pretendem garantir salvação automática, ex opere</p><p>operato. O cerne do andar com Yahweh não estava no uso adequado de</p><p>lugares ou rituais, mas na prática da fé e da obediência.</p><p>O Homem Como Imagem de Deus</p><p>Nesse contexto, deveríamos considerar a importância do homem como</p><p>imagem de Deus.55 Não é fácil identificar precisamente o que isso significa.</p><p>Muitas interpretações têm sido propostas, e a literatura sobre esse assunto é</p><p>vasta. Em nossa opinião, chegar a uma boa explicação da frase “o homem</p><p>como imagem de Deus” requer que comecemos com o que já temos</p><p>aprendido sobre o significado geral de uma imagem. Temos visto que, em</p><p>uma imagem de uma deidade, a deidade é representada.56 Estamos lidando</p><p>aqui não com uma boa semelhança, mas com a presença do poder da</p><p>deidade. Por que não aplicar isso ao homem como imagem de Deus no</p><p>mundo recentemente criado? Ele se tornou representante e meio pelo qual</p><p>Deus quis exercer seu poder na terra.</p><p>Essa opinião encontra um paralelo no Novo Testamento, quando este</p><p>nos ensina sobre a imagem de Deus. Lemos que Cristo é a imagem de Deus</p><p>(2Co 4.4; Cl 1.15). Isso é verdadeiro</p><p>em um sentido muito especial, pois</p><p>nele habita toda a plenitude de Deus (Cl 1.19; 2.9). Isso não se poderia</p><p>dizer, e não é dito, referindo-se a um mero homem. O elemento da</p><p>“habitação” é, certamente, um ponto de comparação. Referências à imagem</p><p>de Deus, quer em Adão quer em Cristo, dizem respeito ao divino poder</p><p>visto na terra. Em ambos os casos, as referências não significam que Adão</p><p>ou Cristo se pareçam com Deus (o Pai), mas que, em suas ações e em sua</p><p>autoridade, eles refletem o próprio Deus. Quando Filipe pediu a Jesus que</p><p>lhe mostrasse o Pai, recebeu esta resposta: “Filipe, há tanto tempo estou</p><p>convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como</p><p>dizes tu: Mostra-nos o Pai?” (Jo 14.9). A partir das palavras e obras de</p><p>Jesus, Felipe poderia ter concluído quem é o Pai.</p><p>Encontramos uma expressão semelhante à “imagem de Deus” na frase</p><p>“templo de Deus”, aplicada à congregação (1Co 3.16), ou “templo do</p><p>Espírito Santo”, aplicada a nós (nosso corpo) pessoalmente (1Co 6.19). Em</p><p>ambos os casos, lemos que o Espírito Santo habita em nós. Essa habitação</p><p>divina nos torna imagens ou templos de Deus. Esse dom é ao mesmo tempo</p><p>uma obrigação. Se o Espírito Santo habita na congregação e em nós</p><p>pessoalmente, então ele deseja que seu poder nos controle para que não</p><p>vivamos em iniquidade.</p><p>Parece-me que devemos relacionar tudo isso a Gênesis 1.26-28, onde</p><p>lemos acerca da criação do homem segundo a imagem de Deus. O</p><p>significado primário e decisivo disso, então, é que Deus deseja habitar no</p><p>homem e quer que seu poder se irradie no mundo por meio dele. Os autores</p><p>do Catecismo de Heidelberg chegaram à conclusão sobre o âmago da</p><p>matéria quando usaram diversas referências do Novo Testamento para</p><p>delinear o que significa dizer que o homem é criado à imagem de Deus. O</p><p>homem é criado “em verdadeira justiça e santidade, de modo que ele</p><p>pudesse conhecer corretamente a Deus, o seu Criador, amá-lo de coração, e</p><p>viver com ele em eterna felicidade para o louvar e glorificar” (Pergunta 6).</p><p>Para que o homem fizesse isso, Deus o criou à sua semelhança: exaltado</p><p>sobre o animal, dotado de entendimento e vontade, e, portanto na posição</p><p>de exercer domínio sobre a Criação de Deus. Deus dotou o homem com</p><p>diversas capacidades (entendimento, vontade, um corpo singular) que</p><p>precisava para se portar como imagem de Deus. Assim, nessas capacidades</p><p>ele encontra condições para ser a imagem de Deus. Sem entendimento, não</p><p>se pode levar o mundo ao seu pleno desenvolvimento; sem entendimento,</p><p>não se pode louvar a Deus de maneira consciente, pessoal.</p><p>Contudo, essas condições para ser a imagem de Deus não são a própria</p><p>imagem de Deus. Não podemos dizer que, porque o homem não é um mero</p><p>animal, mas um ser racional, ele é a imagem de Deus. Devemos nos</p><p>lembrar do que aprendemos anteriormente sobre o tabernáculo, a arca, o</p><p>templo, a estola e a serpente de bronze. O que é uma arca, se Deus não</p><p>estiver mais entronizado nela? O que é um templo, se Deus se afastar dele?</p><p>Somos confrontados aqui com a importante questão de saber se, depois</p><p>da Queda em pecado, o homem perdeu a imagem de Deus. Podemos dizer</p><p>que os incrédulos ainda são a imagem de Deus? Temos de responder essa</p><p>questão negativamente, mesmo que nosso “não” seja não qualificado. É um</p><p>“não, mas [...]”.</p><p>Primeiro, deixe-nos dizer algo sobre nosso “não”. Uma vez que a</p><p>imagem de Deus não é determinada por qualidades “naturais” (o</p><p>entendimento, o potencial para exercer domínio, etc.), mas pela relação</p><p>entre o homem e Deus, a Queda do homem teve sérias consequências.</p><p>Quando a ira de Deus repousa sobre o homem, dificilmente podemos dizer</p><p>que seu Espírito continua a habitar nele. Ser a imagem de Deus é, antes de</p><p>tudo, uma questão religiosa. Assim como Yahweh pode retirar-se do</p><p>templo, assim também ele pode deixar o homem, o qual foi criado como seu</p><p>templo e sua imagem.</p><p>Portanto, podemos afirmar que a imagem de Deus é restaurada no</p><p>homem quando Deus, já no Paraíso, mostra sua graça em Jesus Cristo. A</p><p>promessa do descendente da mulher (Gn 3.15) tem efeito imediato. Adão,</p><p>Abel, Sete, Enos, Enoque, Noé, e o os demais poderiam ser novamente a</p><p>imagem de Deus no seu caminhar com ele. O que é decisivo é que o homem</p><p>ande de novo nos passos de Deus, de modo que ele seja, para fazer eco com</p><p>o Catecismo de Heidelberg em sua expressão emprestada de Efésios 4.24 e</p><p>de Colossenses 3.10, um novo homem, vivendo em justiça e santidade e,</p><p>assim, refletindo a justiça e a santidade de Deus neste mundo. Ser a imagem</p><p>de Deus não é uma qualidade de ser humano. Mesmo crentes tementes a</p><p>Deus não podem dizer: “Uma vez crente, sempre imagem de Deus”. Davi</p><p>orou por um coração limpo e por um espírito inabalável, acrescentando:</p><p>“Não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito” (Sl</p><p>51.11). Ele poderia ter dito: “Deixe-me permanecer a tua imagem”. Ser a</p><p>imagem de Deus é um dom com instruções. Ser recriado em justiça e</p><p>santidade significa: “Santos sereis, porque eu, o SENHOR, vosso Deus, sou</p><p>santo” (Lv 19.2 e textos paralelos).57</p><p>Certamente, devemos acrescentar algo ao que já dissemos, para evitar</p><p>parcialidade. É o não crente ainda uma imagem de Deus? “Não”, deve ser a</p><p>resposta. Mas esse “não” é não qualificado. É um “não, mas [...]”. Pois</p><p>considere mais uma vez a arca da aliança. Mesmo que a arca, enquanto</p><p>estava na terra dos filisteus, não fosse mais o trono de Yahweh, ele não a fez</p><p>em pedaços como lenha para o fogo. Fica claro que os filisteus deveriam</p><p>manter suas mãos longe da arca, uma vez que Yahweh ainda queria estar</p><p>associado a ela. O mesmo é verdade e em maior grau em relação ao</p><p>homem. A arca, o tabernáculo e o templo eram fenômenos temporários,</p><p>mas não podemos dizer o mesmo acerca da relação entre Deus e o homem.</p><p>O mero fato de que os homens decaíram de Deus não significa que não</p><p>podemos falar da imagem de Deus neles. Não importando quão separados</p><p>de Deus e do seu serviço o homem esteja, ele permanece sendo um templo.</p><p>O templo pode estar vazio, mas isso não nos dá o direito de denegri-lo ou de</p><p>destruí-lo. A Escritura diz algo mais: “qualquer que derramar o sangue do</p><p>homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem</p><p>segundo a sua imagem” (Gn 9.6). Isso foi dito depois do Dilúvio, com</p><p>respeito ao homem em geral ou à humanidade. Desse mesmo modo, Tiago</p><p>adverte contra amaldiçoar outras pessoas, porque elas foram criadas à</p><p>semelhança de Deus (Tg 3.9).</p><p>Nem sempre é tão fácil atingir o equilíbrio adequado em nossas</p><p>perspectivas sobre o homem como a imagem de Deus. A discussão sobre a</p><p>aplicação das diversas distinções acerca da imagem de Deus deixa isso</p><p>duplamente claro.58</p><p>Contudo, quando analisamos as diversas questões éticas, tanto o “não”</p><p>quanto o “não, mas [...]” se tornam importantes. Pense a respeito de temas</p><p>como aborto e eutanásia. Podemos dizer que, aquele que atacar a vida</p><p>humana, ataca a imagem de Deus. Não faz diferença se, no caso da</p><p>eutanásia, estamos cooperando para a morte de um crente ou de um não</p><p>crente. Ambos os casos envolvem pessoas, as quais têm uma qualidade</p><p>especial, a qualidade que nos dá uma direção para nossa conduta em relação</p><p>a elas. Considere, também, a área da ética social, um campo no qual nossa</p><p>apreciação da natureza humana é crucial. É o homem, no sentido coletivo,</p><p>uma peça impessoal na engrenagem de uma grande máquina estatística, ou</p><p>uma criatura singular, criada à imagem de Deus? Não é relevante para nós</p><p>se ele está ou não se portando como imagem de Deus; o que importa é que</p><p>Deus quer que ele se porte como sua imagem, porque o homem foi criado</p><p>dessa maneira, e somente dessa maneira. Assim, não escolhemos uma</p><p>perspectiva sobre a natureza humana que veja o homem como um grão em</p><p>um monte de areia, ainda que ele aja como tal no meio da multidão.</p><p>Igualmente, rejeitamos a sedução do liberalismo quando propõe um homem</p><p>autônomo o qual, em seu desenvolvimento pessoal, deve ser deixado o mais</p><p>livre possível. Essa perspectiva também nos impede de sustentar a doutrina</p><p>do homem como imagem de Deus. O homem não é autônomo, mas</p><p>chamado a servir a Deus e ao</p><p>próximo, porque foi criado à imagem de Deus</p><p>— inteiramente singular, mas junto com outras pessoas singulares – a fim</p><p>de formar uma comunidade genuína que é mais do que a soma de suas</p><p>partes individuais.</p><p>Uma vez mais, a realidade de que muitas pessoas se recusam a ser a</p><p>imagem de Deus não deve nos impedir de apelar para a criação do homem à</p><p>imagem de Deus e de avaliá-lo e de tratá-lo segundo esse padrão. A vida</p><p>não redimida permanece sendo uma vida divinamente criada. Nossa</p><p>perspectiva em relação àqueles que vivem como não crentes não pode inibir</p><p>nosso respeito por eles como pessoas.</p><p>Não Imagens Cultuais, mas Artes Visuais</p><p>O segundo mandamento proíbe fazer imagens no sentido de imagens de</p><p>deuses. Israel era proibido de se curvar diante de tais imagens e de servi-las,</p><p>como o texto do segundo mandamento declara. Essa linguagem deveria nos</p><p>ajudar a entender que o que é proibido aqui são as imagens cultuais e não</p><p>toda imagem que os homens podem entalhar na madeira, forjar em metal,</p><p>esculpir em pedra ou modelar no barro. Jacó erigiu um pilar memorial no</p><p>túmulo de Raquel (Gn 35.20), e Samuel ergueu um monumento para marcar</p><p>o triunfo de Israel sobre os filisteus (1Sm 7.12). Uma pedra memorial foi</p><p>colocada para confirmar um pacto, por exemplo, entre Jacó e Labão (Gn</p><p>31.45), e entre Yahweh e Israel em Horebe, onde doze pedras</p><p>correspondentes às doze tribos foram colocadas (Êx 24.4). Em todos esses</p><p>casos, o hebraico usa o termo masseba. Essa mesma palavra é usada</p><p>também para aquelas “pedras sagradas” que Israel e Judá cultuaram de</p><p>modo idólatra nos seus lugares altos (cf. 2Rs 17.10; 2Cr 14.3).59 Observe,</p><p>então, que imagens não eram indistintamente proibidas; dependia do</p><p>propósito por trás do uso delas.</p><p>Mesmo o tabernáculo e o templo gozavam dos benefícios das artes</p><p>visuais. O candelabro era decorado com cálices em forma de flor, amêndoas</p><p>e botões (Êx 25.31-40). Sinos dourados e romãs foram fixados nas vestes</p><p>do sumo sacerdote (Êx 28.33,34). Poderíamos mencionar também os</p><p>querubins. Nós os associamos, especialmente, com a arca da aliança (Êx</p><p>25.18-22), mas eles apareciam à parte da arca para decorar as paredes do</p><p>templo e os umbrais das portas (1Rs 6.29,32,35). Qual era exatamente a sua</p><p>aparência é algo que desconhecemos, embora lemos que tinham asas, pés e</p><p>faces (1Rs 6.24-26; 2Cr 3.18), e a combinação de faces de homem e de leão</p><p>(Ez 41.18,19).</p><p>Encontramos grandes quadros, retratos de figuras semelhantes a animais</p><p>circulando o mar de bronze, o qual repousava sobre doze touros (1Rs</p><p>7.25,44), e dois leões esculpidos junto ao trono de Salomão, no alto de uma</p><p>série de seis degraus guardados por doze leões que correspondiam às doze</p><p>tribos (1Rs 10.19,20).</p><p>É interessante notar que, Flávio Josefo (c. A.D. 37-100) criticou</p><p>Salomão por permitir imagens desses animais. Josefo escreveu sobre o</p><p>indigno fim da vida de Salomão; mas, disse Josefo, muito antes disso,</p><p>Salomão havia falhado em guardar a Lei quando permitiu que artesãos</p><p>fundissem estátuas de bronze de touros e de leões para circundar seu</p><p>trono!60 Certamente, esse ponto de vista não era compartilhado por todos,</p><p>uma vez que, segundo os antigos rabinos, a representação de animais era, na</p><p>verdade, permitida. Contudo, na maior parte das vezes, eles não se</p><p>esqueciam de proibir a representação de pessoas.61 Podemos notar que, no</p><p>Antigo Testamento, raramente lemos sobre fazer representações de</p><p>pessoas.62 Um dos efeitos da proibição de imagens de deidades era a</p><p>hesitação quanto a retratar seres humanos, mesmo com outros propósitos</p><p>que não estavam associados ao culto. Entre as nações ao redor de Israel,</p><p>havia um número de reis que contratavam artistas para pintar seus triunfos</p><p>sobre nações inimigas. Mas em nenhum lugar lemos que os reis de Israel e</p><p>de Judá tivessem feito isso. Antes, somos informados de que suas histórias,</p><p>incluindo todos os seus atos de bravura, foram escritos (por exemplo, 1Rs</p><p>15.23; 16.5,27).</p><p>Aquilo que era possível escrever, aparentemente não deveria ser</p><p>cinzelado em pedra. É muito fácil cair na idolatria com a imagem de um ser</p><p>humano. Talvez não possamos imaginar isso, senão com dificuldade,</p><p>porque achamos estranho que pessoas cultuem imagens de madeira, ouro ou</p><p>pedra. Mas em um mundo onde tais imagens exerciam poderosa atração, a</p><p>linha entre imagens cultuais e não cultuais era muito tênue. A adoração de</p><p>imagens cultuais poderia facilmente ser transferida para imagens não</p><p>cultuais.</p><p>Entretanto, o que aparece de modo bem claro em tudo isso é que a</p><p>proibição de imagens cultuais não se aplica às artes visuais. Artes eram</p><p>usadas no templo e fora dele (por exemplo, no palácio de Salomão). Nossa</p><p>informação sobre tudo isso é escassa, o que implica em explicações</p><p>divergentes. Alguns têm dito que os dons artísticos de Israel foram</p><p>expressos primariamente em narrativas e representações poéticas,</p><p>intimamente ligadas à fé de Israel como fonte de forma e de estilo únicos.63</p><p>Abraham Kuyper argumentou que Israel fora escolhido para ser o melhor da</p><p>religião e triunfo do reino de Deus, mas não de sua arte. Por isso, Hirão, rei</p><p>de Tiro, foi arrolado para ajudar a construir o templo de Salomão. E esse</p><p>Salomão, continua Kuyper, “em quem, sobretudo, se achava a sabedoria de</p><p>Deus, não apenas sabia que Israel estava atrasado em termos de arquitetura</p><p>e que precisava de ajuda de fora, mas demonstrou publicamente por suas</p><p>ações que ele, como rei dos judeus, não se envergonhava de modo nenhum</p><p>da vinda de Hirão, o que ele entendia como uma ordem natural de Deus”.64</p><p>Em sua discussão quanto à relação entre Cristo e cultura, Klaas Schilder</p><p>observa que a ausência de arte visual entre os judeus deve ter sido uma</p><p>grave deficiência aos olhos de Jesus Cristo, pois ela denunciava um erro de</p><p>interpretação do segundo mandamento.65</p><p>Aqui não é o lugar de nos determos extensivamente nessa discussão tão</p><p>abrangente. Em relação à nossa explicação do segundo mandamento, é</p><p>suficiente dizer que não importando quão esparsas devem ter sido as artes</p><p>visuais em Israel — o que deve ter-se originado da má interpretação do</p><p>segundo mandamento — em todo caso, essa forma de arte não é condenada</p><p>pelo segundo mandamento.</p><p>Bênção e Maldição</p><p>O segundo mandamento traz consigo uma bênção e uma maldição. Alguém</p><p>que se entrega a servir imagens verá a consequência desse pecado entre os</p><p>seus descendentes: os pecados dos pais serão visitados nos filhos, netos e</p><p>bisnetos. Quando uma pessoa alcança uma idade avançada, ele pode ter não</p><p>somente filhos, mas também netos e bisnetos. Essa pode ser uma bênção</p><p>genuína, mas também uma real maldição. Pois, se o cabeça da família se</p><p>afasta de Yahweh para adorar imagens, ele verá quão desastrosamente sua</p><p>desobediência influenciará sua posteridade. Sua família inteira é tragada por</p><p>sua religião “autodeterminada”. Seu pecado se torna um tropeço para eles.</p><p>Yahweh leva extremamente a sério o mal de servir a ídolos e adorar</p><p>imagens. A casa dos ímpios não permanecerá; seu nome será erradicado (Sl</p><p>109.13). Sobre isso, lembre-se dos reis de Israel que, de pai para filho,</p><p>seguiram nos passos de Jeroboão, ao ponto de o Senhor erradicar essa</p><p>família da face da terra.</p><p>Esse é um aspecto. Mas, paralelo à punição, há também a bênção, e bem</p><p>generosa. Por todo um inimaginável número de gerações, Deus mostrará</p><p>seu favor àqueles que lhe são fiéis e guardam os seus mandamentos. Por</p><p>que Davi honrou o mandamento e as ordenanças de Deus, sua casa</p><p>continuou por gerações, mesmo que seus descendentes fossem punidos</p><p>pelos pecados de Salomão (1Rs 11.34,38,39). Alguns anos depois, quando</p><p>Ezequias caiu fatalmente enfermo, ele recebeu cura e pôde viver mais 15</p><p>anos, devido, em parte, ao servo de Yahweh, Davi (2Rs 20.6). A fidelidade</p><p>do Senhor ao seu pacto com Israel tem expressão nas bênçãos que ele</p><p>concede, muito depois da morte de patriarcas e de reis, aos seus</p><p>descendentes, mesmo quando, por causa do pecado desses descendentes, há</p><p>razão para descontinuar tais bênçãos.66 O rei de Judá, Jeorão, fez o que era</p><p>mau perante os olhos de Yahweh, e, ainda assim Yahweh não quis destruir</p><p>Judá, de</p><p>movimentos da história nos são apresentados dentro de uma</p><p>estrutura pactual na exposição do Dr. Douma sobre o Prólogo dos Dez</p><p>Mandamentos. A outorga da Lei no Sinai é vista como o código de uma</p><p>aliança (Dt 5.2-4), onde Deus é o centro da aliança e o seu caráter é a</p><p>medida de moralidade. Esse código é dado, primeiramente, porque Deus é</p><p>Senhor. Isto é, a grandeza e santidade do Criador são suficientes para nos</p><p>ordenar a viver santamente (Ex 19; Hb 12). O soberano Senhor é quem</p><p>institui o pacto e as condições desse pacto. Não somos nós que fazemos</p><p>Deus o Senhor de nossa vida; é ele quem se apresenta como Senhor e nos</p><p>faz seu povo. Uma visão da glória de Deus é pré-requisito para uma reposta</p><p>de temor e obediência (crer e observar). Mas, infelizmente, a história do</p><p>povo Judeu é uma história de transgressão dessa Lei.</p><p>Por isso, em segundo lugar, o Decálogo também é apresentado ao povo</p><p>porque Deus é Redentor. Observe como o Prólogo dos Dez Mandamentos</p><p>recorda a libertação do povo de Deus do Egito, antes mesmo de apresentar a</p><p>legislação propriamente dita. A iniciativa redentora de Deus precede a sua</p><p>ação legislativa. O Êxodo do Egito é o evangelho colocado no cabeçalho da</p><p>Lei, assim como as epístolas paulinas primeiro apresentam o que Deus fez</p><p>em Cristo antes de nos exortar a um comportamento condizente no poder do</p><p>Espírito. Isso significa que a aliança de Deus com o seu povo é um pacto de</p><p>graça e os mandamentos não nos devem ser penosos (1 Jo 5.3).</p><p>Isso explica, em terceiro lugar, que os Dez Mandamentos surgem</p><p>também porque Deus é Legislador. A liberdade que Deus nos concede tem</p><p>limites que são benéficos para nós (assim como a água é um limite benéfico</p><p>para o peixe); sinais de trânsito não devem ser vistos como meros sinais</p><p>proibitivos, mas prioritariamente devem ser visto como algo que provê</p><p>ordem e segurança no trânsito. Quando o povo de Deus entende que os Dez</p><p>Mandamentos funcionam como norma de vida, e que suas regras funcionam</p><p>como resumos de um conjunto de implicações éticas, então entendemos o</p><p>deleite da liberdade cristã e a profundidade da ética bíblica.</p><p>Douma nos deu uma excelente exposição da Lei de Deus, e agora temos</p><p>o privilégio de tê-la em português. Minha oração é que você se deleite na</p><p>Lei do Senhor: “Quanto amo a tua lei! É a minha meditação, todo o dia!”</p><p>(Sl 119.97).</p><p>— Heber Carlos de Campos Júnior</p><p>23 de março, 2019</p><p>PREFÁCIO À EDIÇÃO ORIGINAL EM</p><p>HOLANDÊS</p><p>Fico feliz em ver minha exposição sobre os Dez Mandamentos,</p><p>originalmente publicada em três volumes separados, aparecer agora em um</p><p>único volume. Evidentemente, continua havendo interesse nestes</p><p>comentários sobre os Dez Mandamentos, mesmo depois de os volumes</p><p>separados terem sido impressos diversas vezes.</p><p>Estou consciente de que estou atrás de uma longa fila de outros</p><p>escritores que produziram estudos sobre essas regras fundamentais e sobre</p><p>seu significado abrangente para o povo de Deus da Antiga e da Nova</p><p>alianças. Muitos encontraram nesses preceitos a base para a ética cristã,</p><p>convencidos de que Jesus Cristo não deixou de lado esses mandamentos,</p><p>mas, antes, ensinou-os em sua completa profundidade. O Sermão do Monte</p><p>e os Dez Mandamentos não estão em oposição entre si. Por isso, um</p><p>comentário sobre os Dez Mandamentos pode contribuir para nossa reflexão</p><p>concernente à maneira como devemos viver hoje.</p><p>Os três volumes separados chegaram a ser chamados de “ética em</p><p>miniatura”. Embora seja verdade que nem todos os problemas éticos podem</p><p>ser tratados apenas à luz dos Dez Mandamentos, podemos afirmar, porém,</p><p>que, nesses mandamentos repousam os pontos fundamentais e necessários</p><p>para a nossa relação com Deus e com o nosso próximo. Vejo-os como “um</p><p>manual para a vida cristã”, como indica o subtítulo do livro.</p><p>Meus agradecimentos ao Professor J. P. Lettinga, cujas “Notes on the</p><p>Hebrew Text of the Ten Commandments” puderam ser incluídas também</p><p>nesta edição (edição holandesa). Elas foram elaboradas para os leitores que</p><p>têm algum conhecimento da gramática hebraica. Contudo, acredito que</p><p>mesmo sem tal conhecimento, os leitores em geral poderão tirar proveito</p><p>delas.</p><p>Agradeço também ao Sr. Barend Meijer pelo cuidado com que leu os</p><p>diversos manuscritos antes de serem publicados.</p><p>O Sr. Joost Smit compilou os índices que enriqueceram</p><p>consideravelmente o uso do livro como uma obra de referência.</p><p>Com exceção de algumas pequenas correções, o texto desta edição em</p><p>um único volume é praticamente igual ao da última edição em três volumes.</p><p>— J. Douma,</p><p>Kampen, junho de 1992.</p><p>PREFÁCIO À EDICÃO EM INGLÊS</p><p>O Professor Dr. J. Douma (pronuncia-se Dau-ma) é um ministro das Igrejas</p><p>Reformadas da Holanda e, desde 1970, tem sido professor de Ética na</p><p>Theological University in Kampen, Holanda. O Dr. Douma escreveu uma</p><p>série de 15 volumes intitulada Moral Reflection (Reflexões Morais), na qual</p><p>ele discute diversos assuntos fundamentais e atuais na área de ética. Esses</p><p>assuntos incluem aborto, casamento e sexualidade, o estilo cristão de vida,</p><p>homossexualidade, ambiente e tecnologia, responsabilidade política e</p><p>armamento nuclear. Três desses 15 volumes constituem um comentário</p><p>sobre os Dez Mandamentos, os quais foram combinados para formar este</p><p>único volume.</p><p>O Dr. Douma é respeitado internacionalmente por sua inteligente e</p><p>cuidadosa aplicação da Escritura, dos credos da igreja e da história da igreja</p><p>em relação aos problemas morais contemporâneos. Neste volume, ele nos</p><p>oferece um comentário bastante atual sobre os Dez Mandamentos, que</p><p>serve hoje como um manual de vida cristã.</p><p>Na edição original, o Dr. Douma inicia cada capítulo com uma tradução</p><p>do texto hebraico do Prólogo ou do mandamento, feito por seu amigo J. P.</p><p>Lettinga, professor emérito de Línguas Semíticas da Theological University</p><p>in Kampen. (O Professor Lettinga é autor de uma gramática hebraica muito</p><p>usada hoje na Europa). O Dr. Douma incluiu, como um apêndice a cada um</p><p>dos três volumes iniciais e a este único volume, as “Notas sobre o Texto</p><p>Hebraico dos Dez Mandamentos”, do Professor Lettinga, as quais oferecem</p><p>ao leitor um valioso tratamento acadêmico do texto hebraico e de sua</p><p>tradução. Nós optamos oferecer apenas a tradução inglesa do material do</p><p>Professor Lettinga do Prólogo e de cada mandamento, omitindo a suas</p><p>explicações técnicas.</p><p>Finalmente, a tradução inglesa inclui um Apêndice, intitulado “O Uso</p><p>da Escritura na Ética”, o qual não aparece no original holandês. Este útil</p><p>ensaio complementar poderia ser estudado com muito proveito antes da</p><p>leitura do comentário dos Dez mandamentos, uma vez que nele o Dr.</p><p>Douma expõe seus princípios e métodos hermenêuticos, distinguindo quatro</p><p>maneiras válidas pelas quais a Bíblia pode ser usada em reflexões morais.</p><p>Esta tradução independente e autorizada do original holandês fez grato</p><p>uso, em diversos pontos, do trabalho preliminar de tradução de R. Koat.</p><p>Barbara Lerch e Tom Notaro, da P&R Publishing Company, igualmente,</p><p>merecem nossa apreciação pelo entusiasmo e persistência demonstrados no</p><p>cuidado com o presente manuscrito, ao longo de todo o caminho percorrido</p><p>até a sua publicação.</p><p>— Nelson D. Kloosterman</p><p>Mid-America Reformed Seminary</p><p>Dyer, Indiana</p><p>U.S.A</p><p>O PRÓLOGO DOS DEZ MANDAMENTOS</p><p>Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da</p><p>servidão. (Êxodo 20.2)</p><p>A Declaração da Aliança</p><p>Qualquer comentário dos Dez Mandamentos deve lidar com seu Prólogo ou</p><p>Preâmbulo, uma vez que ele, claramente, é parte integrante das palavras que</p><p>Deus falou quando proclamou o Decálogo no monte Horebe. Os judeus</p><p>ortodoxos atribuíram tanto valor a essas palavras, que fizeram delas o</p><p>primeiro mandamento. Isso, porém, é um equívoco, pois não há nelas</p><p>nenhum mandamento. Antes, Deus começa os mandamentos nas palavras</p><p>subsequentes: Não terás outros deuses diante de mim (Êx 20.3). Além</p><p>disso, a fim de totalizar dez mandamentos, os judeus precisam combinar</p><p>diversos mandamentos. Do mesmo modo que os Católicos Romanos e os</p><p>Luteranos, os judeus combinaram em um só mandamento aqueles que nós</p><p>consideramos como o primeiro e o segundo mandamentos,</p><p>novo, por causa do seu servo Davi (2Rs 8.19).</p><p>Esses exemplos nos ajudam a entender que a bênção e a maldição</p><p>divinas não são tão automáticas, que o adágio: “Tal pai, tal filho (e neto)” se</p><p>aplique automaticamente ao estilo de vida de uma geração a outra.</p><p>Certamente é verdade que o mal exerce grande influência. Quando um pai</p><p>se afasta de Yahweh, é um milagre que seu filho caminho certo. Antes, é</p><p>óbvio que, sob a influência de um pai, o filho também se afastará do</p><p>Senhor. Não é acidental que tal maldição esteja ligada a esse mandamento.</p><p>Um pai em Israel deve estar plenamente consciente do que significa, para</p><p>ele e para seus descendentes, abandonar Yahweh pela prática de uma</p><p>religião idólatra e “autodeterminada” pelo homem. Roubar e mentir são</p><p>coisas sérias, mas alguém que abandone Yahweh arrisca seu próprio nome e</p><p>futuro. Felizmente, o contrário também é verdadeiro: um bom caminhar</p><p>com o Senhor exerce também uma poderosa influência. Pais tementes a</p><p>Deus põe um selo em seus filhos. Certamente, a graça não é herdada, mas a</p><p>linha da fidelidade de Deus pôde ser traçada em Israel através de muitas</p><p>gerações.</p><p>Portanto, podemos falar claramente de uma ação simultânea da bênção e</p><p>da maldição. Mas isso não quer dizer que elas atuem automaticamente. Se</p><p>um pai cai em pecado, isso não passa, necessariamente, para seus filhos. E,</p><p>se um pai anda no caminho dos mandamentos de Yahweh, isso não é</p><p>garantia de que seus filhos farão o mesmo. O piedoso Josafá teve um filho</p><p>ímpio, Jeorão (1Rs 22.43; 2Rs 8.16-18), e lemos, igualmente, que o rei</p><p>Josias, temente a Deus, foi sucedido por três filhos e um neto ímpios (2Rs</p><p>22 e 23).</p><p>Por isso, o Senhor rejeitou o provérbio bastante comum no tempo de</p><p>Ezequiel: “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se</p><p>embotaram” (Ez 18.2). Esse provérbio não era se aplicava ao caso, uma vez</p><p>que a regra era: “a alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18.4,20). Poderia</p><p>acontecer que um pai justo tivesse um filho que matasse e roubasse, que</p><p>adorasse desprezíveis imagens de ídolos, e que devesse morrer. Mas esse</p><p>filho poderia, por sua vez, ter um filho que visse a conduta ímpia do seu pai</p><p>e se recusasse a imitá-lo (Ez 18.5-17). As consequências coletivas do</p><p>pecado do pai, com o qual ele envenenou sucessivas gerações de sua família</p><p>e as colocou sob a ira do Senhor, não elimina a responsabilidade pessoal</p><p>dos filhos, netos e bisnetos.</p><p>O provérbio popular no meio de Israel nos dias de Ezequiel parece ser</p><p>um protesto contra a maldição prevista no segundo mandamento: se nossos</p><p>pais pecarem, nós iremos pagar por isso! Mas a história não é determinista.</p><p>Assim, Ezequiel teve de dizer a Israel: se os seus pais pecarem, você poderá</p><p>evitar o seu pecado! O Senhor pune o culpado e não tem prazer na morte do</p><p>ímpio, antes, deseja a sua conversão (Ez 18.23).</p><p>Assim, a maldição prometida no segundo mandamento jamais pode ser</p><p>usada para desculpar os filhos que argumentam que estão sofrendo o juízo</p><p>pelo que os pais fizeram. Por outro lado, essa maldição contém uma séria</p><p>advertência aos pais: considerem a destruição que seu pecado pode causar,</p><p>não apenas em sua própria vida, mas na vida de sua família!</p><p>Campanhas Iconoclastas</p><p>O que o segundo mandamento significa hoje? Antes de responder a essa</p><p>questão, seria útil dizer algo sobre a aplicação desse mandamento no curso</p><p>da história.</p><p>Sabemos das campanhas iconoclastas durante os reinados de Ezequias e</p><p>de Josias em Judá (2Rs 18.4; 23.4-20). A pregação dos profetas deu uma</p><p>significativa contribuição para a purificação do culto de Israel, de modo que</p><p>as imagens praticamente desapareceram de Israel. A falta de imagens no</p><p>culto de Israel impressionou os romanos. Quando Pompeu conquistou</p><p>Jerusalém em 63 a.C. e entrou no templo, ficou chocado pelo fato de ali não</p><p>haver imagens de Yahweh. O historiador romano Tácito escreveu: “Desse</p><p>momento em diante se tornou do conhecimento público que o templo não</p><p>abrigava nenhuma imagem de deidade e que era um lugar desocupado, um</p><p>segredo vazio”.67</p><p>A igreja primitiva também se colocou veementemente contra o culto a</p><p>imagens. Ela estava envolvida em uma grande luta contra o paganismo e</p><p>suas imagens. Sua rejeição do culto às imagens era absoluta. Quando os</p><p>pagãos defenderam seus cultos com o argumento de que não adoravam a</p><p>imagem, mas o que a imagem representava, Agostinho achou a explicação</p><p>inaceitável.68 O Sínodo de Elvira (c. 306) proibiu a colocação de imagens e</p><p>de murais pintados nas igrejas.</p><p>Mas a situação mudou. O cristianismo se tornou a religião oficial do</p><p>Estado, e os planos para destruir os ídolos pagãos e suas imagens poderiam</p><p>ser abandonados. O pensamento pagão, entretanto, não foi vencido.</p><p>Especialmente entre o povo comum havia o desejo de se ter imagens cristãs</p><p>que substituíssem as que haviam perdido ao deixar o paganismo. Antes,</p><p>essas pessoas oravam para a deusa virgem Minerva; agora, poderiam orar</p><p>para a virgem Maria. Antes, o enfermo se refugiava em Apolo; agora, São</p><p>Sebastião poderia conceder a cura. Antes, a imagem de Pã era levada ao</p><p>campo de batalha; agora, o mesmo poderia ser feito com uma imagem de</p><p>Cristo. Antes, as imagens de deuses eram beijadas nos templos; agora, as</p><p>pessoas queriam fazer o mesmo na igreja com as imagens de Cristo e dos</p><p>santos.69 Tal como os pagãos costumavam crer, pensava-se que todas essas</p><p>imagens eram capazes de realizar milagres. Os mortos eram ressuscitados,</p><p>os enfermos eram curados, os demônios eram expelidos, as cidades eram</p><p>protegidas, e as vitórias estavam garantidas. Assim como a imagem de</p><p>Artemis havia caído do céu (At 19.35), assim o cristianismo havia obtido</p><p>suas imagens “não feitas por mãos humanas” (chamado de acheiropoiêta).</p><p>A oposição à honra de imagens não estava ausente. Os iconoclastas (lit.</p><p>“quebradores de imagens”) surgiram em resposta aos iconodules (lit.</p><p>“adoradores de imagens”). O édito do imperador Leão III (O Isauro), em</p><p>726, proibiu a confecção de imagens religiosas. Sua luta contra os árabes</p><p>teria sido influenciada por essa perspectiva. Os maometanos, que</p><p>praticavam uma religião que se opunha a imagens, achavam um solo fértil</p><p>para o proselitismo sempre que a igreja caía em idolatria!70 A voz judaica,</p><p>também, ressoou nesses dias com a acusação de que o culto de imagens</p><p>cristãs era um desprezo ao Antigo Testamento.71</p><p>O contexto da disputa entre adoradores de imagens e iconoclastas foi</p><p>agitado e influenciado por motivos políticos. O imperador com seus</p><p>exércitos enfrentaram os Papas Gregório II e Gregório III, que gozaram de</p><p>grandes poderes na Itália e não compartilhavam os pontos de vistas</p><p>imperiais quanto a imagens. O Sínodo de Constantinopla (754), convocado</p><p>pelo imperador Constantino V, mais uma vez condenou o culto de imagens;</p><p>mas essa condenação não permaneceria em vigor por muito tempo. Sob a</p><p>imperatriz Irene, que foi viúva de Leão IV e regente antes de Constantino</p><p>VI, a situação foi completamente revertida. O segundo Concílio de Niceia</p><p>(787) tomou uma decisão que deixaria sua marca sobre a idolatria pelos</p><p>séculos seguintes: veneração era um dever com respeito a representações de</p><p>Cristo, Maria, anjos e santos, a cruz, os quatro Evangelhos, e assim por</p><p>diante, juntamente com incensos e velas, enquanto que a verdadeira</p><p>adoração seria atribuída somente a Deus (a natureza divina). Veneração</p><p>(proskunesis) foi, portanto, distinguida de adoração (latreia).72</p><p>Isso, porém, não resolveu a questão quer no Leste, onde o imperador</p><p>vivia, quer no Oeste, onde por esse tempo Carlos Magno comandava o</p><p>território dos francos. O bispo de Roma certamente participou do Concílio</p><p>de Niceia, mas a igreja dos francos tinha sido excluída. Em seu Libri</p><p>Carolini, Carlos Magno condenou a decisão de Niceia, o que também foi</p><p>feito pelo grande Sínodo de Frankfurt (794). Essas condenações nada mais</p><p>seriam do que as últimas convulsões na luta contra o culto de imagens. Do</p><p>décimo primeiro século em diante, toda resistência foi esmagada.73</p><p>Quais os tipos de argumento que as pessoas utilizaram em favor do</p><p>culto às imagens? Provavelmente essas pessoas não pensaram</p><p>profundamente</p><p>sobre isso. A crença das massas na realização de milagres</p><p>forneceu mais ímpeto do que defesas teológicas. Para o teólogo João</p><p>Damasceno (séculos VII/VIII), a encarnação de Cristo serviu de argumento</p><p>poderoso a favor do culto de imagens. Qualquer um que negue a encarnação</p><p>de Cristo despreza a própria matéria divinamente criada. Para João</p><p>Damasceno, a Encarnação serviu não apenas para legitimar a representação</p><p>de Cristo, mas também para justificar diversas expressões litúrgicas</p><p>associadas com Cristo (Maria, os santos, e coisas semelhantes). O culto de</p><p>imagens é requerido. Ver a Palavra de Deus é superior a ouvi-la; a imagem</p><p>ilumina a Palavra.74.</p><p>João Damasceno estendeu a relação entre o Pai e o Filho, o qual é a</p><p>imagem do Pai, para a relação entre Cristo e a imagem de Cristo. Teve até</p><p>mesmo a audácia de dizer: “Eu via a imagem de Deus em forma humana e</p><p>minha alma foi salva”. De modo bastante adequado, seus oponentes</p><p>teológicos tomaram uma posição diferente. O Sínodo de Constantinopla</p><p>(754) declarou que era impossível representar a pessoa singular de Cristo</p><p>em suas duas naturezas (Deus e homem). Mesmo os santos não poderiam</p><p>ser apropriadamente representados por uma matéria inferior. O perigo de</p><p>cair em idolatria seria muito grande.75 Uma vez que o culto de imagens foi</p><p>completamente aceito, a teologia providenciou a distinção entre a honra</p><p>atribuída a Deus e a honra atribuída à imagem. Uma familiar distinção foi</p><p>inventada, entre latreia (adoração pertencente somente a Deus),</p><p>huperdouleia (honra atribuída a imagens de Maria) e douleia (honra</p><p>atribuída a imagens de santos).</p><p>Claramente, tais cultos vão além do uso de imagens como meros meios</p><p>visuais de instrução planejados para o iletrado, o leigo. Acerca dessa visão</p><p>sobre imagens, um dos Papas escreveu para apoiar um bispo que resistia a</p><p>adoração de imagens. Quando o bispo Sereno de Marselha liderou uma</p><p>campanha iconoclasta, o Papa Gregório I (590-604) escreveu-lhe uma carta</p><p>louvando Sereno por seu zelo na proibição do culto de imagens. Entretanto,</p><p>o Papa acrescentou: “Julgamos que você não deve destruir as imagens”.</p><p>Pois pinturas são permitidas na igreja “para que aqueles que não sabem ler,</p><p>olhando para as paredes, leiam o que não pode ler nos livros”.76 Assim,</p><p>aqui, as imagens funcionam como “livros para os leigos”, planejadas não</p><p>para o culto, mas para a instrução religiosa.</p><p>Vimos, contudo, que as imagens não ficaram restritas ao uso na</p><p>instrução religiosa, e que, de fato, a imagem era cultuada quando as pessoas</p><p>se ajoelhavam, beijavam, queimavam incenso e velas diante dela, quando</p><p>ela era carregada em procissão, e quando as pessoas curvavam a cabeça em</p><p>sua honra.</p><p>Não havia, então, razão de ser para o segundo mandamento nessa época</p><p>da história da igreja? Infelizmente, esse mandamento recebeu pouca ou</p><p>nenhuma atenção. R. H. Charles chamou o segundo mandamento de “uma</p><p>pedra de tropeço” para a Idade Média. As pessoas tinham três opções:</p><p>manter o segundo mandamento no texto da Bíblia, mas explicá-lo em nota</p><p>marginal; eliminar o mandamento do texto, colocando-o completamente em</p><p>nota marginal; ou, simplesmente, eliminá-lo por completo do Decálogo. R.</p><p>H. Charles escreve que a última opção se tornou a prática na Igreja</p><p>Ocidental desde o décimo primeiro século.77</p><p>Talvez essa seja a maior prova de quão difícil é conciliar imagens, em</p><p>qualquer forma “cristã”, com o texto do segundo mandamento.</p><p>Na época da Reforma, uma renovada e ampla atenção foi dada ao</p><p>segundo mandamento. Infelizmente, os iconoclastas que promoveram</p><p>confusão em centenas de catedrais católico-romanas e em outras igrejas,</p><p>não proporcionaram essa louvável demonstração de atenção. De fato,</p><p>podemos entender essas suas ações. Em sua exposição do segundo</p><p>mandamento, Bastingius (1554-1595) disse que a campanha iconoclasta de</p><p>1556 simplesmente tinha de se espalhar entre os cidadãos que viam seus</p><p>amigos, pais, filhos e irmãos sendo tão vergonhosamente tratados. Mas isso</p><p>deveria ter sido feito, antes, pelo governo, diz Bastingius. Ele teve de</p><p>reconhecer que muitos dos participantes das campanhas iconoclastas não</p><p>tinham sido instruídos na verdade.78 Mais apropriadamente, consideramos</p><p>que a mais louvável demonstração de consideração dada ao segundo</p><p>mandamento é a distinção feita desde muitos séculos entre o primeiro e o</p><p>segundo mandamentos.79 A combinação deles possibilita mais facilmente a</p><p>negligência do segundo mandamento, como se fosse mero apêndice ao</p><p>primeiro. A distinção entre eles obriga a pessoa a avaliar criticamente todo</p><p>uso de imagens.</p><p>É lastimável que cristãos Reformados e Luteranos não tenham</p><p>concordado sobre essa matéria. Não precisamos lamentar a oposição que</p><p>Lutero fez à iconoclastia em Wittenberg, mas é lamentável que ele buscasse</p><p>manter imagens como “livros para os leigos”. Quando, no “Dia do Senhor</p><p>35”, o Catecismo de Heidelberg toma uma posição contra o culto de</p><p>imagens, ele está rejeitando, entre outras coisas, a prática católico-romana.</p><p>Mas quando se opõe aos “livros para os leigos” (Pergunta 98),</p><p>considerando-os igualmente intoleráveis, o Catecismo de Heidelberg tem</p><p>em vista a posição de Lutero.</p><p>Imagens Hoje</p><p>A proibição de imagens é relevante ainda hoje? A resposta será afirmativa</p><p>conquanto não nos fixemos, cegamente, no culto de imagens de madeira, de</p><p>pedra ou de ouro. Nossa interpretação do segundo mandamento argumenta</p><p>que, por trás do fazer imagens, está uma perspectiva. Muitos creem que, por</p><p>meio de uma imagem, podem controlar o poder divino. Imaginam que</p><p>podem confinar os deuses em imagens de maneira que, automaticamente,</p><p>possam desfrutar dos favores dessas divindades em seu benefício. Assim, a</p><p>imagem dá forma a uma imagem mental; e não se pode erradicar essa</p><p>imagem mental por meio de uma campanha iconoclasta. A diferença entre</p><p>idolatria (culto de imagens) e ideolatria (culto de imagens mentais) é de</p><p>apenas uma letra. Desse modo, não há senão um pequeno passo da antiga</p><p>adoração de imagens para o moderno culto “autodeterminado” pelo homem,</p><p>no qual Deus é adorado de modo diferente daquele que ele ordenou em sua</p><p>Palavra.</p><p>Antes, porém, de discutirmos essa última observação, desejamos tecer</p><p>breves comentários sobre o culto segundo a vontade humana, ou</p><p>“autodeterminado” pelo homem, que emprega a mais tangível e concreta</p><p>forma de uma imagem.</p><p>Missionários entre os pagãos ainda lidam com esse fenômeno. Centenas</p><p>de imagens de ídolos têm sido coletadas e destruídas por missionários</p><p>durante o seu trabalho missionário. A. C. Kruyt conta como missionários</p><p>são frequentemente criticados por isso. Muitos os acusam de terem mente</p><p>fechada, de terem visão curta e de fanatismo tolo. Ora, artefatos de história</p><p>cultural humana devem ser preservados e conservados talvez em museus.</p><p>Mas Kruyt, corretamente, observa que esses missionários removem ídolos</p><p>em favor de almas viventes, cujo bem-estar é muito mais importante do que</p><p>museus. Quando um pagão dava um passo decisivo para seguir a Jesus, ele</p><p>também queria se separar radicalmente dos caminhos antigos. Isso só pode</p><p>acontecer pelo “fogo”. O convertido desejará ver que aquilo em que ele</p><p>antes confiava é passado. Os antigos caminhos são abandonados; e agora</p><p>ele só pode andar para frente, rumo ao novo caminho. A acusação de que os</p><p>missionários têm “visão curta” é injusta, pois os “diretores de museus não</p><p>podem se queixar da falta de cooperação da parte dos missionários para</p><p>aumentar suas coleções. E principalmente porque as sensibilidades</p><p>fundamentais dos convertidos jamais devem ser feridas”.80</p><p>Mesmo em nossos dias, a imagem não desapareceu do uso litúrgico.</p><p>Para muitos na igreja Católica Romana, a imagem nada mais tem a dizer,</p><p>mas esse não é ainda o pensamento da própria igreja. Na Constituição da</p><p>Liturgia Sagrada, o Segundo Concílio Vaticano declarou, em 1963: “A</p><p>prática de se colocar imagens sagradas nas igrejas para que sejam veneradas</p><p>pelos fiéis deve ser mantida. Contudo, seu número deva ser moderado e sua</p><p>posição relativa deva refletir certa ordem. Pois, de outra forma, o povo</p><p>cristão pode achá-las incongruentes e estimular</p><p>devoção de ortodoxia</p><p>duvidosa”.81 Embora mude a quantidade, o princípio permanece o mesmo: o</p><p>culto de imagens. O que o Segundo Concílio de Niceia (787) declarou foi</p><p>confirmado pelo Concílio de Trento (1563)82 e permanece em vigor até hoje</p><p>na Igreja Católica Romana. As pessoas podem fazer todos os tipos de</p><p>distinções, tal como entre culto (latreia) e adoração (douleia), ou</p><p>argumentar que Cristo, Maria e os santos no céu podem ser honrados por</p><p>meio de imagens. Mas o que foi verdadeiro nos séculos passados continua</p><p>verdadeiro hoje: “Não olhe para o que dizem, mas para o que fazem”.83 As</p><p>distinções se desdobram em prática. A questão usada para perguntar: por</p><p>que as pessoas fazem peregrinações para lugares distantes a fim de</p><p>encontrar Maria, se elas têm estátuas de Maria em suas próprias cidades?84</p><p>Podemos, ainda hoje, fazer a mesma pergunta. O número de peregrinações</p><p>tem diminuído, mas quantidade não é um ponto decisivo aqui. Enquanto as</p><p>pessoas ainda mantêm procissões e peregrinações, para demonstrar honra a</p><p>imagens, o segundo mandamento será transgredido. Mesmo que não sejam</p><p>imagens de Yahweh, elas, não obstante, são imagens que têm um poder</p><p>especial na mente das pessoas, prometendo acesso especial às bênçãos</p><p>celestiais.</p><p>Há alguma diferença no caso de imagens que funcionam meramente</p><p>como “livros para os leigos”? Sem dúvida, é impróprio colocar todas as</p><p>imagens sob a mesma categoria e declará-las todas condenáveis. Qualquer</p><p>um com um pouco de conhecimento sobre as catedrais francesas, por</p><p>exemplo, entenderá que, particularmente, a extensa área esculpida no</p><p>exterior das igrejas teve um claro propósito pedagógico. Encontramos</p><p>nessas igrejas as mais importantes histórias do Antigo e do Novo</p><p>Testamentos gravadas em pedra. Durante a Idade Média, as massas eram</p><p>iletradas, mas, por meio dos retratos e murais, as pessoas poderiam ainda</p><p>obter um limitado entendimento das histórias bíblicas. Talvez pudéssemos</p><p>iPhone 12</p><p>iPhone 12</p><p>comparar essas pessoas com os nossos filhos, os quais são capazes de</p><p>apreender um pouco das figuras de seus livros de histórias da Bíblia.</p><p>Mas “laicato” no sentido de pessoas iletradas não existe mais. Todo</p><p>mundo pode aprender a ler a Bíblia. É tarefa da igreja promover — por</p><p>meio da pregação, da catequese e de outras instruções — a leitura</p><p>independente da Sagrada Escritura. Ilustrações e imagens podem estimular</p><p>essa leitura, mas não podem ser jamais um substituto dela, se é que</p><p>queremos evitar o cultivo do “laicato” no sentido de crentes imaturos. Por</p><p>isso, não é adequado equiparar imagens a “livros para os leigos” e, com o</p><p>propósito de instruir o laicato, dar espaço para imagens dentro ou fora do</p><p>edifício da igreja.</p><p>Não há, definitivamente, lugar para imagens na igreja? Isso seria ir</p><p>longe demais, uma vez que uma simples cruz e um vitral colorido são</p><p>representações. Ninguém imagina que essas coisas devam ser cultuadas ou</p><p>que sirvam de “livros para os leigos”. Elas são decorativas e lembram-nos</p><p>de que não estamos assentados em um auditório comum, mas em um</p><p>edifício de igreja.</p><p>Um belo vitral, uma pia batismal decorativa, um órgão (de modo</p><p>especial, um órgão sendo bem tocado), e outros itens de decoração</p><p>colocados de modo responsável no edifício de uma igreja pode, como Kruyt</p><p>colocou, “elevar nosso pensamento”.85 Arquitetura, pintura, música, vitrais</p><p>e esculturas gozam hoje de um lugar consideravelmente mais modesto na</p><p>igreja do que na Idade Média. Mas poderíamos ser ingratos, por causa de</p><p>um medo injustificado de tudo o que é “externo”, se minimizássemos sua</p><p>contribuição estética a um edifício de uma igreja bem como à sua liturgia.</p><p>O que é decisivo é que a pregação da Palavra e a resposta da</p><p>congregação seja o centro da adoração. Já mencionamos diversas vezes que</p><p>a pregação viva pode ser contrastada com imagens fixas. Uma imagem fixa</p><p>as coisas, pois é para isso que é feita. Em um sermão, as coisas são menos</p><p>fixas86 e, se um pregador diz algo errado ou incompleto em um domingo, no</p><p>próximo domingo ele pode corrigir ou completar. Mas, se algo é fixado em</p><p>vidro ou pedra na igreja, as pessoas terão de olhar aquilo por muito tempo.</p><p>Em relação a isso, o teólogo holandês H. M. Kuitert menciona a famosa</p><p>estátua de Cristo esculpida pelo escultor dinamarquês Thorwaldsen, uma</p><p>estátua feita para uma igreja, mas agora guardada no museu Thorwaldsen,</p><p>em Copenhagen. Kuitert jamais viu uma mais inexpressiva e irritante</p><p>estátua do que essa superficial, “elegante” e artificial reprodução de Cristo</p><p>(ele tem essa opinião a despeito do alto valor que a ela tem sido atribuído</p><p>nos sermões de muitos ministros).87 Concordar ou não com isso, não é</p><p>importante. Uma vez que a ideia de se poder fazer alguma representação de</p><p>Cristo é controversa, seria melhor não fazê-la nem colocá-la na igreja.</p><p>Porém, há várias representações de Cristo. Podemos comparar as</p><p>deprimentes representações do Cristo sofredor com as lagrimosas</p><p>expressões tão frequentemente encontradas na arte religiosa. Contudo, seria</p><p>bom se ambas permanecessem fora do prédio da igreja.</p><p>A arte religiosa deve ser desenvolvida, mas ela se desenvolve melhor</p><p>fora das paredes da igreja. Rembrandt foi, à sua maneira, um intérprete da</p><p>Escritura, mas não se deve fazer da Bíblia de Rembrandt uma Bíblia de</p><p>púlpito. As artes religiosas refletem a história da exegese, mas é diferente</p><p>da pregação viva da Palavra de Deus. O argumento de que o sermão</p><p>também forma imagens, e que essas imagens serão sempre defeituosas, é,</p><p>certamente, correto. Uma implicação clara desse argumento é que coleções</p><p>de sermões escritos dificilmente sobreviveriam uma geração. Como meios</p><p>ordenados por Deus para instruir os cristãos (Catecismo de Heidelberg, Dia</p><p>do Senhor 35, Pergunta 98), a pregação viva da Palavra de Deus sempre</p><p>exige a correção de nossas imagens, as quais devem ser submetidas ao crivo</p><p>da imagem que Deus deu de si mesmo e de seu culto na Sagrada Escritura.</p><p>Artes tais como desenho, pintura e escultura devem ser praticadas sob o</p><p>crivo da “imagem” biblicamente estabelecida. Quanto à questão sobre o que</p><p>pode e o que não pode ser representado, responderíamos que a arte pode</p><p>retratar qualquer coisa que a Escritura nos mostre. Ninguém jamais viu a</p><p>Deus como ele existe em sua fulgurante majestade. Mas Abraão o viu em</p><p>forma humana, acompanhado por dois anjos (Gn 18.2-16; 19.1). Ezequiel e</p><p>Daniel também viram em visões alguém “semelhante a um homem” (Ez</p><p>1.26) e “o Ancião de Dias [...] sua veste era branca como a neve, e os</p><p>cabelos da cabeça, como a pura lã” (Dn 7.9). Artistas como Dürer e</p><p>Rembrandt, assim como aqueles que ilustram Bíblias (para crianças), não</p><p>transgrediram limites estabelecidos pelo segundo mandamento quando</p><p>transportaram suas impressões da evidência da presença de Deus que aos</p><p>crentes dos tempos bíblicos era permitido ver. Apreciar esse tipo de arte é</p><p>diferente de cultuar as imagens que isso produz.</p><p>Formas Rígidas</p><p>Imagens fixam mais do que palavras, pois estas podem ser corrigidas. Mas,</p><p>mesmo sem estátuas ou pinturas em uma igreja, muitas coisas podem</p><p>conflitar com o segundo mandamento.</p><p>Considere, por exemplo, a liturgia, que pode ter uma qualidade tal que</p><p>se assemelhe a um “culto de imagem”. Estamos, aqui, lidando com</p><p>extremos. Visto que muitos se opõem ao lugar central reservado à pregação</p><p>na liturgia, eles saem em busca de novas formas e práticas litúrgicas</p><p>destinadas a facilitar o “contato” com Deus. A imagem desapareceu, mas os</p><p>rituais e cerimônias retornaram a fim de dar nova vida a uma igreja, que, de</p><p>outra forma, estaria morta. Mas, mesmo em uma igreja onde, em um bom</p><p>estilo reformado, as pessoas desejam que a pregação ocupe um lugar</p><p>central, as coisas podem desandar. Somente determinada versão da Bíblia;</p><p>somente as melodias de Genebra; nenhum hino; particulares estilos de</p><p>pregação; tudo isso também pode limitar nosso “contato” com Deus a</p><p>hábitos que podem se tornar formas rígidas. A pregação viva da Palavra de</p><p>Deus e a fé correspondente não são mais os elementos centrais do culto,</p><p>mas, sim, as velhas e habituais formas e sons que fazem o povo</p><p>se sentir</p><p>seguro. Imagens fixam mais do que palavras, mas isso não significa que a</p><p>palavra e o sermão necessariamente evitarão a degeneração da adoração em</p><p>algo mecânico.</p><p>Com isso, não estamos dizendo que o culto pode ocorrer sem formas</p><p>fixas. Já vimos que a interpretação errada de João 4.24 pode exagerar na</p><p>espiritualização do culto a Deus. Ouvir e ver andam juntos; o olho não é</p><p>mais importante do que o ouvido. O problema é que tanto o olho quanto o</p><p>ouvido devem atender ao que Deus diz em sua Palavra. O culto a Deus não</p><p>é simplesmente uma questão interna do coração, mas também envolve</p><p>aspectos externos. O teólogo holandês J. R. Wiskerke pergunta se “nosso</p><p>costume litúrgico de nos ajoelharmos apenas em ocasiões especiais</p><p>(casamento, ordenação de um ministro), visto de um ponto de vista</p><p>histórico, não surge de uma indiferença quando ao ‘meramente externo’,</p><p>uma minimização que pode ser atribuída a um contraste não escriturístico</p><p>entre coisas ‘internas’ e ‘externas’ no culto”.88 Usar formas, contudo, pode</p><p>se degenerar em formalismo. Quando isso ocorre, alguma coisa deu errada</p><p>internamente. Chegar-se a Yahweh com oferendas queimadas era uma</p><p>ordem do Antigo Testamento, mas se Israel pensasse que com isso tivesse</p><p>terminado o culto, então tais sacrifícios se tornavam inúteis. Aí, o povo</p><p>ouviria outra mensagem: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o</p><p>que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e</p><p>andes humildemente com o teu Deus” (Mq 6.8). A religião</p><p>“autodeterminada” pelo homem é acompanhada, frequentemente, de grande</p><p>apresentação: muita exposição pública (Mt 6.5), abundância de palavras</p><p>(Mt 6.7), um conjunto de preceitos (Mt 23.3-5; Cl 2.20-23). Por trás desses</p><p>preceitos havia muita coisa que era boa, tanto que o Senhor Jesus pôde</p><p>dizer aos seus discípulos: “Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles [fariseus]</p><p>vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não</p><p>fazem” (Mt 23.3). O fanatismo religioso é, geralmente, muito hipócrita e</p><p>despido de poder. As formas são vazias porque o coração se desviou de</p><p>Deus.</p><p>Em si mesmas, as formas não são erradas, pois não há culto sem formas.</p><p>O culto sacrificial do Antigo Testamento terminou, mas, ainda que não haja</p><p>templo, nós ainda precisamos de edifícios de igrejas com cultos bem</p><p>ordenados, com tempo determinado para os cultos com todas as coisas</p><p>seguindo a uma ordem bem estruturada. Mesmo um regimento de igreja que</p><p>regule a vida comum das igrejas não é uma forma de adoração de imagem,</p><p>contanto que promova o livre desenvolvimento das igrejas e não sirvam de</p><p>camisa de força em relação a elas.</p><p>As formas fixas não são erradas; muito menos as formulações fixas. O</p><p>Credo Apostólico tem perdurado por mais de 1.000 anos e ainda serve</p><p>como um breve sumário da nossa fé cristã. Até mesmo os documentos mais</p><p>extensos surgidos predominantemente em tempos quando a igreja teve de</p><p>dizer aquilo que estava de acordo e aquilo que não estava de acordo com a</p><p>Sagrada Escritura, ainda mantêm o seu significado como confissões de fé</p><p>nas quais as igrejas encontram unidade. Sem dúvida, uma “imagem” do</p><p>Deus triúno surge de tais confissões. Se essa imagem corresponde à imagem</p><p>que Deus dá de si mesmo em sua Palavra, então é uma boa confissão,</p><p>mesmo que tenha 1.000 anos de existência. Não fosse esse o caso, então</p><p>deveríamos nos livrar da confissão ou alterá-la. O falso confessionalismo é</p><p>culto de imagem porque exalta a confissão acima da Escritura e torna os</p><p>escritos humanos, “por mais santos que esses homens tenham sido, de igual</p><p>valor com as Escrituras divinas” (Confissão Belga, Artigo 7).</p><p>Alguns dizem que o dogma limita a liberdade de Deus. Qualquer um</p><p>que fixe um dogma, as doutrinas da igreja, supostamente tem a audácia de</p><p>dizer: “Quem é Deus, quem é Cristo, o que é o Batismo, o que é a Ceia do</p><p>Senhor, o que é julgamento final, e assim por diante”, o que, então, significa</p><p>que assumimos uma certeza injusta para com Deus e seus segredos. Assim,</p><p>não devemos falar com tanta certeza sobre o que não podemos, nem deixar</p><p>vago aquilo que é claro na Palavra de Deus. Em sua confissão, a igreja não</p><p>disse: “não é assim que Deus se qualifica, esta é a imagem dele que temos</p><p>construído”. Antes, em momentos críticos em sua história, a igreja tem</p><p>lançado fora o que eram, de fato, imagens de Deus. Ela tem respondido às</p><p>heresias dizendo: ”Deus não é como você o retrata, pois ele se revelou na</p><p>Escritura de modo diferente que você o representa”. Em vez de fazer</p><p>imagens de Deus, a igreja tem despedaçado imagens por meio de sua</p><p>confissão. À parte de uma iconoclastia espiritual, formular dogmas não faz</p><p>nenhum sentido.89</p><p>Imagens Mentais</p><p>Em suas Institutas, João Calvino afirmou que o entendimento humano é</p><p>uma oficina onde ídolos são continuamente fabricados. O fato de que esses</p><p>ídolos, subsequentemente, dão forma a imagens de madeira ou de pedra é</p><p>secundário. O espírito do homem gera a imagem idólatra, e suas mãos dão à</p><p>luz.90 Se alguém está realmente interessado na relevância do segundo</p><p>mandamento, não deve se limitar às imagens de ídolos mencionadas no</p><p>mandamento, mas deve se perguntar se, à parte de materiais como madeira,</p><p>pedra ou pintura, se está construindo imagens mentais erradas de Deus.</p><p>Pois, assim, estaríamos fazendo exatamente o que os artesãos faziam no</p><p>mundo do Antigo Testamento: representando Deus segundo seu próprio</p><p>entendimento.</p><p>Encontramos esse tipo de ausência de imagens já no Antigo testamento.</p><p>O Salmo 50 nos dá um exemplo disso. O povo de Israel estava se</p><p>desgastando na tarefa de trazer seus sacrifícios. Não havia falta de</p><p>religiosidade ali! (Sl 50.8). Mas essa religiosidade era acompanhada de</p><p>impiedade, pois o povo se associava a ladrões, tolerava os adúlteros, e</p><p>espalhava a blasfêmia. Aparentemente, as pessoas pensavam que isso era</p><p>perfeitamente aceitável. Imaginavam que Deus fosse exatamente como eles</p><p>(Sl 50.21). Aqui, de novo, somos confrontados justamente com o pecado</p><p>original contra o segundo mandamento: uma pessoa dirige a própria vida,</p><p>imaginando que Deus concede automaticamente a sua aprovação. Em vez</p><p>de crer que Deus criou o homem à sua imagem — para que ele possa exigir</p><p>um estilo de vida piedoso e santo — o homem criou Deus à sua imagem,</p><p>pronto para servir as suas próprias ambições.</p><p>Nós já fornecemos exemplo disso quando discutimos o culto</p><p>inadequado e a heresia. Mas as coisas podem estar erradas também além</p><p>das paredes da igreja, e a heresia nem sempre é expressa em palavras.</p><p>Podemos trabalhar com uma figura mundana de Deus quando oprimimos e</p><p>matamos nosso próximo enquanto imaginamos que Deus não tenha olhos</p><p>nem ouvido. Isso foi o que os ímpios descritos no Salmo 94 fizeram: “O</p><p>SENHOR não o vê; nem disso faz caso o Deus de Jacó” (v. 7). Facilmente</p><p>podemos justificar qualquer pecado, e se não o pudermos, podemos sempre</p><p>alegar discriminação — por exemplo, conduta homossexual ou outra forma</p><p>de expressão sexual fora do casamento. Em tais casos, as pessoas usam</p><p>expressões extremamente eloquentes para descrever Deus, falando dele</p><p>como sendo solidário com toda a humanidade, envolvendo toda a</p><p>humanidade em seu amor. Pode-se perguntar por que o apóstolo Paulo teve</p><p>o trabalho de levar o povo à fé com o argumento de que o Senhor tem de ser</p><p>temido (2Co 5.11) — ou por que o escritor da Carta aos Hebreus diz que é</p><p>coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo (Hb 10.31). Assim, sem usar</p><p>nossas mãos, podemos ainda assim fazer uma imagem de Deus. Podemos</p><p>imaginar Deus como um simpático Papai Noel, o qual não é, realmente,</p><p>tudo o que deseja uma criança desobediente.</p><p>Podemos tornar Deus mais amigável do que ele realmente é, mas</p><p>também menos amigável do que ele é. Retratamos Deus à nossa semelhança</p><p>não apenas quando falamos de modo agressivo com o nosso próximo, mas</p><p>também quando expressamos nossa altivez religiosa ao falar do pecado e da</p><p>condenação eterna. Assim, tornamos Deus à imagem de um homem mau,</p><p>alguém que tem prazer na morte do ímpio e que deseja ver mais gente no</p><p>inferno do que no céu. Criamos uma “imagem” de um deus sem coração.</p><p>Não mais o conhecemos como o Pai de Jesus Cristo, o qual é graciosos,</p><p>cheio de compaixão, paciente e amoroso, que justifica o ímpio (Rm 4.5), e</p><p>que simplesmente exige fé da parte daqueles que buscam salvação (At 8.37;</p><p>16.30-31).</p><p>O segundo mandamento se aplica hoje tanto quanto os outros nove.</p><p>Enquanto o entendimento humano continuar a ser a oficina onde as imagens</p><p>de Deus são fabricadas segundo a nossa imaginação, somos convocados</p><p>pelo segundo mandamento a voltar à Palavra de Deus — a imagem que,</p><p>continuamente, destruirá e lançará fora as imagens de Deus e do seu culto.</p><p>Devemos, continuamente, voltar ao testemunho. A maldição também se</p><p>aplica ainda hoje, e, para aqueles que não falam conforme a Palavra de</p><p>Deus, não haverá o raiar do dia (Is 8.20).</p><p>32 A. Kruyswijk, “Geen gesneden beeld”, Franeker, 1962, p. 91.</p><p>33 A. Kruyswijk, “Geen gesneden beeld”, Franeker, 1962, p. 142-43, 234.</p><p>34 A. Kruyswijk, “Geen gesneden beeld”, Franeker, 1962, p. 67.</p><p>35 Cf., também, At 7.41 e 1 Co 10.7, onde a história envolvendo o bezerro de ouro narrada em</p><p>Êxodo 32 é descrita como “[oferecendo] sacrifícios ao ídolo” e como “idolatria”.</p><p>36 Isso não se aplica ao Brasil, onde o catolicismo romano e as religiões afro-brasileiras, sincretistas,</p><p>enchem de imagens os templos, os “terreiros”, e até as praças, as praias e outros espaços públicos. –</p><p>N. do T.</p><p>37 H. M. Kuitert, “Het Tweede Gebod”, em De thora in de thora, Aalten, 1967, 1, p. 70. Sobre o</p><p>significado da imagem, cf., também, J. L. Koole, De Tien Geboden, 2.a ed., Kampen, 1983, p. 53ss, e</p><p>A. Kruyswijk, “Geen gesneden beeld”, Franeker, 1962, p.28ss. Kruyswijk menciona os cultos a</p><p>animais feitos no Egito, nos quais os deuses eram exibidos com corpos humanos e com cabeças de</p><p>animais. Por exemplo, Orua tinha a cabeça de um falcão; Tod tinha a cabeça de um íbis; e Anubis</p><p>tinha a cabeça de um chacal. “A representação de um deus em forma de um animal, ou tendo</p><p>somente a cabeça de um animal, servia não como um retrato, mas como um pictograma. Assim,</p><p>sempre que Anubis era exibida com a cabeça de um chacal, a declaração feita era: esta é a deidade</p><p>manifestada no chacal” (p. 46).</p><p>38 F. H. von Meyenfeldt, Tien Tegem een, 1, Hilversum, 1978, p. 99.</p><p>39 G. von Rad, Old Testament Theology, 1, New York, 1962, p. 217, observa: “Tem sido</p><p>corretamente afirmado que a brilhante caricatura em Isaias não reflete, em nenhum sentido, à</p><p>sinceridade da prática cultual pagã”. Em outras palavras, quando se zomba das imagens, como Isaías</p><p>fez aí, o adorador dessas imagens não se reconhece na caricatura. Isso é certo, mas não faz da</p><p>mensagem de Isaías uma caricatura racionalista. Em relação a isso, lembro-me de ter visto algo em</p><p>um programa da televisão germânica, em 1984: papuanos do interior da Nova Guiné viram pessoas</p><p>brancas pela primeira vez cerca de 50 anos atrás, as quais haviam descido em sua região com um</p><p>maravilhoso pássaro (avião). Cheios de medo e tremendo diante de seus deuses, eles se tornaram</p><p>familiares com os exploradores viajantes e sua tecnologia. Cinquenta anos depois, eles viram vídeos</p><p>mostrando o que acontecera. Da mesma forma que eles haviam ficado aterrorizados 50 anos antes,</p><p>eles, agora, riam incontrolavelmente a respeito do medo que então os assaltara e às suas famílias.</p><p>Ninguém poderia argumentar que o riso dos papuanos caricaturasse seu passado! Quando o medo se</p><p>dissipa, há espaço para o humor sobre uma antiga tolice. Exatamente o mesmo é verdadeiro sobre o</p><p>israelita crente que permite a Yahweh que o instrua. Imagens se tornam embotadas (Hc 2.18; 1Co</p><p>12.2), não importando quão “espiritualmente” essas imagens tenham sido experimentadas pelos</p><p>adoradores de ídolos.</p><p>40 J. R. Wiskerke, “Deescholastieke verminking van de aanschouwing van God”, De Reformatie 41,</p><p>1965/66, p. 324.</p><p>41 A. Kruywijsk, “Geen gesneden beeld”, Franeker, 1962, p, 230.</p><p>42 O modo como o Dr. Douma aborda esse tema suscita várias questões de ordem teológico-doutrinal</p><p>e confessional que têm sido debatidas ao longo da história da igreja. A mais relevante delas talvez</p><p>seja a que trata da “forma” de Deus. Apesar de a discussão possuir algum valor, cremos que ela não</p><p>é, em seus pormenores, conclusiva. Optamos por manter esse tópico para preservar a integridade da</p><p>obra original do autor. – N. do E.</p><p>43 Sobre esse ponto, cf. N. H. Gootjes, De Geestelijkheid von God, Franeker, 1984, p. 187ss.</p><p>44 A. Kruyswijk, “Geen gesneden beeld”, Franeker, 1962, p 166, citando F. Michaeli.</p><p>45 Seria impróprio argumentar que o desejo de se chegar a uma representação da deidade não</p><p>estivesse presente. A frase: “[...] aparência nenhuma vistes no dia em que o SENHOR, vosso Deus, vos</p><p>falou em Horebe” não é uma advertência supérflua. Sabemos também de fontes extrabíblicas da</p><p>conexão entre imagens e representação. Um hino ao deus Egípcio Amun-Ra diz assim: “Tu que</p><p>apareceste a nós, não conhecemos tua forma. Tu te mostras-te em nossa face, mas não conhecemos</p><p>teu corpo [...]. Tu, cujo ser ninguém conhece e de quem não existe imagem feita por artesão [...] o</p><p>Grande Escondido, cuja imagem nenhum homem conhece” (citações feitas por J. C. de Moor, Uw</p><p>God is mijn God, Kampen, 1983, p. 18-19).</p><p>46 H. M. Kuitert, “Het Tweede Gebod”, p. 67.</p><p>47 J. R. Wiskerke, De strijd om de sleutel der kennis, Groningen, 1978, 117ss.</p><p>48 O. Palmer Robertson faz o seguinte comentário sobre essa questão: “[...] é dito a respeito de</p><p>Moisés: “E ele verá a semelhança [ou forma] do Senhor da Aliança”. Em outro lugar, a Escritura diz</p><p>que homem nenhum pode ver a Deus e continuar vivo (Êx 33.18,19). Mas Moisés, como profeta,</p><p>verá a forma de Deus. Essas afirmações não são contraditórias. Moisés não verá a natureza essencial</p><p>de Deus. Mas ele verá a forma que manifestará a natureza do Deus invisível ao entendimento do</p><p>homem mortal. Essa experiência de Moisés o coloca numa categoria distinta de todos os outros</p><p>profetas. Ele é único na história do profetismo em Israel, e por indicação de Deus ocupa uma posição</p><p>de proeminência que ninguém mais haverá de ocupar.” (O Cristo dos Profetas, Editora Clire, 1.a ed.,</p><p>2016, p. 59). – N. do E.</p><p>49 J. R. Wiskerke, “De scholastieke verminking van de aanschouwing van God”, p. 341: “Nós</p><p>veremos o invisível sem a restrição notada no relato sobre Moisés, o qual ‘permaneceu firme como</p><p>quem vê aquele que é invisível’ (Hb 11.27). Assim, ver a Deus é muito diferente do que uma mera</p><p>possibilidade; constitui a essência de uma promessa que Deus certamente cumprirá”.</p><p>50 B. Bekker, “Catechisate over den Heidelbergschen Catechismus”, em De Friesche</p><p>Godgeleerdheid, Amsterdam, 1963, p. 287.</p><p>51 N. H. Gootjes, De geestijkheid van God, p. 187ss, não concorda com a afirmação de Wiskerke de</p><p>que a confissão da espiritualidade de Deus nada tem a ver com a questão de se Deus é não-físico.</p><p>Sobre isso, J. R. Wiskerke é realmente enfático: “Ao descrever Deus como espírito, devemos [...] nos</p><p>afastar radicalmente de toda definição de espiritual como não-físico ou imaterial” (De strijd om de</p><p>sleutel der kennis, 154). Em nossa opinião, esse afastamento é desnecessário conquanto sustentemos,</p><p>contraposto a essa visão dualista do homem, que a totalidade das pessoas, incluindo seu</p><p>entendimento, é material. Em contraste ao homem como ser material está o Criador, a quem as</p><p>categorias material e física não se aplicam, precisamente porque, como espírito, ele criou todas as</p><p>coisas. Portanto, concordamos com a crítica de Gootjes. Ele entende que a espiritualidade de Deus</p><p>significa “que Deus, que concede vida como Criador e Redentor, é não-físico” (p. 192). Entretanto,</p><p>instruídos por Wierkerke e outros, elevaríamos a cláusula subordinada de Goodijes a uma cláusula</p><p>principal: Por espiritualidade de Deus entendemos que Deus, o qual é não físico, concede vida como</p><p>Criador e Redentor.</p><p>52 A. Kruswijk, “Geen gesneden beeld”, p. 179. B. Holwerda, em Oudtestamentische voordrachten:</p><p>Exegese Oude Testament (Deuteronomium), Kampen, 1957, 3, p. 48, reconhece que o fato e os</p><p>limites do antropomorfismo não deve “nos tentar a pensar acerca de Deus como não tendo forma”.</p><p>Para Goodjes, em De geestelijkheide</p><p>van God, p. 203, “Nossa definição da espiritualidade de Deus</p><p>significa que cremos que Deus não tem corpo, mas não significa que não tenha forma”. Em nossa</p><p>opinião, Goodjes está correto em sua crítica (p. 203-204) da descrição de Kruyswijk acerca de Deus</p><p>como tendo uma “forma espiritual antropomórfica”. Tal descrição está muito próxima de atribuir</p><p>forma humana a Deus.</p><p>53 Para essa exegese de João 4.24, e para a discussão do falso dilema entre interno e externo</p><p>(incluindo a crítica da visão de Calvino e de outros), leia, especialmente, Wiskerke, De strijd om de</p><p>sleutel der kennis, p. 99ss, 130ss.</p><p>54 A. Kruyswijk, “Geen gesneden beeld”, p. 115.</p><p>55 A palavra hebraica para “imagem” não é pesel, mas selem e demut. A palavra selem também pode</p><p>significar uma imagem de ídolo, como em 1Rs 11.18, por exemplo. No Novo Testamento, a palavra</p><p>usada é eikon, a qual também pode se referir a uma imagem de ídolo, como em 1Co 11.7 e Ap 13.14.</p><p>56 A ideia do homem como representante de Deus no contexto da interpretação da frase “homem à</p><p>imagem de Deus” encontra muita adesão. Para informação bibliográfica, cf. C. Westermann, Genesis,</p><p>Neukirchen, 1974, p. 209ss. Cf., também, K. Schilder, Heidebergstche Catechismus, Goes, 1947, 1,</p><p>p. 255, 263ss; G. C. Berkouwer, Man: The Image of God, Grand Rapids, 1962, p. 114-15; A.</p><p>Kruyswijk, “Geen gesneden beeld”, p. 192ss.</p><p>57 Cf. A. Kruyswijk, “Geen gesneden beeld”, p. 208: “A essência da imagem de Deus reside na</p><p>representação de Deus obtida na manifestação da vida santa, em justo e santo exercício do domínio</p><p>sobre a natureza, que procede de nossa relação com Deus como seus filhos”. Ele também se refere ao</p><p>Salmo 51.12 (p. 207).</p><p>58 O que temos em mente aqui é a distinção entre a imagem de Deus no sentido lato (o homem como</p><p>criatura elevada acima do animal, tendo entendimento, vontade, etc.) e a imagem de Deus no sentido</p><p>restrito (o homem vivendo diante de Deus em verdadeiro conhecimento, justiça e santidade). Para</p><p>uma análise detalhada e uma importante crítica dessa discussão, cf. K. Schilder, Heidelberg</p><p>Catechismus, Goes, 1947, 1, p. 290 ss. Emil Brunner distingue entre a imagem formal de Deus (o</p><p>homem é responsável diante de Deus e sempre responde em liberdade, não importando quão errada</p><p>essa resposta possa ser) e o conteúdo material da imagem de Deus (a resposta correta, a qual o</p><p>homem dá, entretanto, só pela graça de Jesus Cristo); para essa discussão, cf. a sua Dogmatics, vol. 2:</p><p>The Christian Doctrine of Creation and Redemption, Philadelphia, 1952, p. 55-61, 75-78. Nós,</p><p>certamente, fazemos distinção, mas Emil Brunner a faz incorretamente, em nossa opinião. As</p><p>estruturas que caracterizam a imagem de Deus se tornam, para Brunner, a própria imagem de Deus.</p><p>Com essa construção, não é de se surpreender que, por definição, o homem deve ser incapaz de</p><p>perder a imagem de Deus.</p><p>59 A distinção era feita entre a comemorativa masseba, usada em conexão com um memorial, uma</p><p>vitória militar e a ratificação de um pacto, e a masseba cultual, usada nos “altos” para práticas</p><p>idólatras. (Cf. A. Kruyswijk, “Geen gesneden beeld”, p. 95-105).</p><p>60 Flávio Josefo, Antiguidades 8.7.5.</p><p>61 Cf. Strack-Billerbeck, Kommentar zum Newen Testament aus Talmud and Midrasch, Munich,</p><p>1956, 4/1, p. 384ss, com respeito a “The Attitude of the Ancient Synagogue Toward the Non-Jewish</p><p>Worls”. Não é incomum se ter profunda reserva acerca de estátuas (p. 391).</p><p>62 Ez. 23.14 apresenta uma alegoria sobre “homens pintados na parede”. Talvez devêssemos</p><p>entender isso como uma referência ao costume babilônico de decorar templos e palácios dessa forma,</p><p>e não a um costume que se originou em Judá (Cf. A. Noordzij, Ezechiël, 2.a ed., Kampen, 1956, p.</p><p>250).</p><p>63 G. von Rad, Old Tetament Theology, 1, p. 364-65.</p><p>64 A. Kuyper, Lectures on Calvinism, Grand Rapids, 1931, p. 161. A opinião de Kuyper é regida pela</p><p>noção de que o “casamento entre religião e arte” representa “um estágio mais baixo da religião”, o</p><p>qual precisou de uma fase subsequente quando os símbolos seriam repostos pela adoração “em</p><p>espírito e verdade”. Nessa fase, “o puramente espiritual irrompe a nuvem do simbólico” (p. 147).</p><p>Observe aqui, de novo, como a religião é espiritualizada. Kuyper usa Hirão, rei de Tiro, para ilustrar</p><p>sua premissa de que Israel era singular por causa de sua religião, enquanto que as outras nações</p><p>haviam recebido, “segundo ordem de Deus”, a vocação para desenvolver suas capacidades estéticas.</p><p>A contribuição de Hirão em relação ao artesanato com o bronze do templo foi significativo, mas</p><p>observe que o artesanato em ouro foi aparentemente cuidado por artistas israelenses. Além disso, a</p><p>mãe de Hirão era uma israelita (1Rs 7.14; 2 Cr 2.13-14). “Hirão herdou a competência técnica de seu</p><p>pai que era natural da cidade de Tiro e (podemos presumir com segurança) a inclinação israelita de</p><p>sua mãe. Salomão encontrou nele exatamente o homem de que precisava” (C. van Gelderen, De</p><p>Boeken der Koningen, Kampen, 1951, 1, p. 131). Quanto a essas razões, a noção de Kuyper nos</p><p>parece duvidosa. Lembre-se também dos artesãos israelitas, Bezalel e Aoliabe, os quais construíram</p><p>o tabernáculo (Êx 31.1-11).</p><p>65 K. Schilder, Christ and Culture, Winnipig, 1977, p. 24-25.</p><p>66 Mais de uma vez, intérpretes têm feito conexão da conversão em massa dos judeus, esperado com</p><p>base em Rm 11.24-32, com a fidelidade de Deus que se estende a “um número inimaginável de</p><p>gerações”. Quando a essa visão, cf. J. van der Kemp, De Christen geheel em alm eigendom van</p><p>Christus, Rotterdam, 1737, p. 696; e J. Vermeer, De Leere der Waarheid. Oefeningen over den</p><p>Heidelbergschen Catechismus, 2.a ed., Nijkerk, 1857, 2, p. 19.</p><p>67 Tacitus, Historiae 5.9 (“Inde vulgatum nulla intus deum effigie vacuam sedem et inania arcana”).</p><p>68 Citado por R. H. Charles, The Decalogue, Edimburgo, 1926, p. 39.</p><p>69 Esses exemplos foram citados por K. D. Smidt, em Grundriss der Kircherngeschichte, 5.a ed.,</p><p>Göttingen, 1967, p. 29-30.</p><p>70 L. D. Terlaak, Geschiedenis van de Kerk, 2.a ed., Kampen, 1963, 3, p. 38. O Islã rejeita toda</p><p>representação direta da Criação. As mesquitas eram decoradas apenas com textos e desenhos</p><p>elaborados (arabescos).</p><p>71 H. G. Beck, “Geschichte der orthodoxen Kirchen in byzantischen Reich”, em De Kirche in ihrer</p><p>Geschicht, ed. B. Moeller , Gottingen, 1980, D1, p. 69.</p><p>72 Cf. H. J. D. Denzinger e A. Schönmetzer (eds.), Enchiridion symbolorum, 3.a ed., 600ss.</p><p>73 K. Heussi, Kompendium der Kirchengeschichte, 10.a ed., Tübingen, 1949, p. 173.</p><p>74 Cf. H. G. Beck, “Geschichte der orthodoxen Kirchen in byzantischen Reich”, p. 73.</p><p>75 H. G. Beck, “Geschichte der orthodoxen Kirchen in byzantischen Reich”, p. 74; K. D. Schmidt,</p><p>em Grundriss der Kirchengeschichte, p. 184, argumenta que as raízes da luta contra as imagens não</p><p>foram encontradas no monofisismo, uma posição que insiste que Cristo é somente divino (assim, tem</p><p>uma única natureza, não uma natureza divina e uma humana), e, portanto, não pode ser representado.</p><p>Cf., também, H. von Campenhausen, “Die Bilderfarge als theologisches Problem der alten Kirche”,</p><p>Zeitschrift für Theologie und Kirche 49, 1952, p. 33ss.</p><p>76 Migne, PL 77, 1027, 1128: “nam quod legentibus scriptura, hoc idiots praestat pictura” (pois o</p><p>que a Escritura assegura àqueles que podem ler, as pinturas assegurem aos leigos). Não achamos a</p><p>expressão literal “nos livros”, atribuída por Calvino a Gregório, o Grande (Intitutas, 1.11.5, libri</p><p>idiotarum), em nenhum dos escritos de Gregório.</p><p>77 R. H. Charles, The Decalogue, p. 68 — 71. O texto do segundo mandamento aparece no</p><p>Catecismo Romano (1566), um documento formulado por ordem do Concílio de Trento, mas foi</p><p>omitido logo após em muitos dos livretos escritos para instrução catequética. A Igreja Ortodoxa</p><p>Oriental manteve o texto do segundo mandamento e se considerou submissa ao mandamento,</p><p>entendendo o termo imagem como referente a imagens entalhadas (pedra), permitindo, assim, o culto</p><p>de ícones (painéis com pinturas representando Cristo e os santos). A controvérsia do oitavo século</p><p>sobre imagens foi preeminentemente uma luta contra o culto de ícones.</p><p>As pessoas tinham em vista</p><p>não tanto as imagens esculpidas quanto as imagens pintadas. O patriarca Cirilo de Constantinopla</p><p>(Cyril Lukaris), o qual era simpatizante da Reforma, declarou em sua confissão de 1631, com</p><p>referência ao segundo mandamento: “Não devemos servir à criatura, mas somente ao Criador dos</p><p>céus e da terra, e adorar somente a ele. Fica claro que não rejeitamos as pinturas, as quais são nobres</p><p>ilustração e arte. Até mesmo permitimos a quem o queira, que tenha retratos de Cristo e dos santos.</p><p>Mas detestamos a adoração e o culto delas como proibidos pelo Espírito Santo na Sagrada Escritura,</p><p>a fim de que não se adore, em ignorância, as cores, artesanatos e criaturas, em vez de o Criador”.</p><p>Quanto ao texto em inglês desta confissão, cf. “The Confessinos of Cyril Lukaris”, trad. N. H.</p><p>Gootjes (publicação particular).</p><p>78 H. Bastingius, Verclaringe op den catechisne der christelicker religie, 2.ª ed., ed. F. L. Rutgers,</p><p>Amsterdam, 1893, p. 506-7. Nos mais velhos comentários reformados sobre o segundo mandamento,</p><p>os autores repetidamente mencionam a tarefa do governo de remover as imagens das igrejas. Naquela</p><p>época, as pessoas ainda consideravam ser tarefa do governo, tal como nos dias de Ezequias e de</p><p>Josias, intervir na vida da igreja com o propósito de reformá-la. Para uma discussão mais detalhada</p><p>sobre isso, cf. J. Douma, Politieke verantwoordelijkheid, Kampen, 1984, p. 98ss.</p><p>79 Sobre a história da numeração dos Dez Mandamentos durante o tempo da Reforma, cf. B. Reicke,</p><p>Die zehn Worte in Geschichte unt Gegenwart, Tübingen, 1973, p. 12ss. No Catecismo Maior e no</p><p>Breve Catecismo, escritos por Lutero, você não encontrará a parte do segundo mandamento que lida</p><p>com imagens. O Grande Catecismo não trata da sanção e da bênção, mas provê, logo após, uma</p><p>exposição separada do que aparece no mandamento. O luterano Conrad Dieterich, em sua</p><p>Instituitiones catecheticae (1640), discorda da numeração reformada dos mandamentos iniciais, vê a</p><p>proibição de imagens como um apêndice do primeiro mandamento e defende a omissão dessa</p><p>proibição nos Dez Mandamentos (alinhado totalmente com a Idade Média), e propõe manter imagens</p><p>como “livros para os leigos”.</p><p>80 A. C. Kruyt, “Het Tweede Gebog”, em Sinaï en Ardjoeno, ed. Th. Delleman, Aalten, 1946, p. 65.</p><p>81 Vatican Council II: The Conciliar and Post-Conciliar Documents, Collegville, 1984, p. 35.</p><p>82 Cf. H. J. D. Denzinger, Enchiridion symbolorum, 984ss.</p><p>83 P. van der Hagen, De Heydelbergsche Catechismus, Amsterdam, 1743, p. 180.</p><p>84 P. van der Hagen, De Heydelbergsche Catechismus, Amsterdam, 1743, p. 389.</p><p>85 A. C. Kruyt, “Het Tweede Gebod”, p. 69.</p><p>86 H. M. Kuitert, “Het Tweede Gebod”, p. 80-81; cf., também, E. L. Smelik, De etiek in de</p><p>verkonding, 3.a ed., Nijkerk, 1967, p. 90.</p><p>87 H. M. Kuitert, “Her Tweede Gebod”, p. 81.</p><p>88 J. R. Wiskerke, De strijd om de sleutel der kennis, p. 108.</p><p>89 J. Koopmans, em De Tien Geboden, Nijkerk, 1946, p. 25, vê no dogma “nada mais do que a</p><p>rejeição do culto de imagens, um a iconoclastia espiritual”, e encontra no dogma um sumário da</p><p>“doutrina da Escritura, de modo que Deus é crido e servido de acordo com sua Palavra”.</p><p>90 J. Calvino, Institutas, 1.11.8, referindo-se à mente humana como “idolorum fabrica”, dizendo</p><p>pouco depois: “mens igitur idolum gignit, manus parit”.</p><p>O TERCEIRO MANDAMENTO</p><p>Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão, porque SENHOR não</p><p>terá por inocente o que tomar o seu nome em vão [lit. aqueles que</p><p>abusam do seu nome]. (Êx 20.7)</p><p>Pronunciando o Nome</p><p>Ao considerar o significado do terceiro mandamento, seria bom lembrar que</p><p>essa proibição contra o abuso do nome de Deus envolve, antes de tudo, o</p><p>pronunciar esse nome. O nome Yahweh (SENHOR) não deve ser pronunciado</p><p>de modo leviano ou com intenções dolosas. Fazer mau uso desse nome quer</p><p>dizer, entre outras coisas, tomá-lo injustamente em nossos lábios. Em</p><p>diversas ocasiões, lemos na Bíblia que certos nomes também não poderiam</p><p>ser pronunciados: “do nome de outros deuses nem vos lembreis, nem se</p><p>ouça de vossa boca” (Êx 23.13; Sl 16.4). Os nomes dos baalins deveriam</p><p>ser removidos da boca de Israel: “Da sua boca tirarei os nomes dos baalins,</p><p>e não mais se lembrará desses nomes” (Os 2.17).</p><p>Esses versos estão falando sobre os nomes de ídolos. Mas o nome de</p><p>Yahweh também pode ser usado de modo errado. Um voto pode ser</p><p>proferido empregando uma frase como: “Tão certo como vive o SENHOR” (Jr</p><p>4.2); contudo, o nome pode ser mal usado com as mesmas palavras (Jr 5.2).</p><p>O que é proibido não é simplesmente pronunciar o nome de Yahweh.</p><p>Onde quer que encontremos na Escritura o tetragrama — as quatro letras</p><p>constituintes do nome sagrado, YHWH — esse nome é sagrado demais para</p><p>que o levemos aos nossos lábios, como alegam os judeus ortodoxos. De</p><p>fato, mesmo o nome de ídolos como Astarote, Quemos e Milcom são</p><p>mencionados na Escritura com certa hesitação (por exemplo, 2Rs 23.13), a</p><p>não ser com o propósito específico para o qual eles são usados. Quando</p><p>uma parte da história é narrada, o nome de Deus pode aparecer ao lado dos</p><p>nomes de ídolos, tal como Baal e Yahweh na história do profeta Elias no</p><p>monte Carmelo (1Rs 18.20-39). Mas o que se proíbe é que os homens</p><p>tomem os nomes de ídolos com o propósito de adorá-los. Israel também</p><p>deveria ter cuidado em usar o nome do verdadeiro Deus.</p><p>Podemos resumir esses erros que certamente levam ao abuso do nome</p><p>de Yahweh:</p><p>1. O nome de Deus é tomado em vão na feitiçaria. Os feiticeiros</p><p>invocam o nome do Senhor a fim de conclamar seu auxílio. Chamam pelo</p><p>nome do Senhor a fim de exercer controle sobre ele por meio de</p><p>encantamento. As enfermidades podem ser retiradas, os inimigos</p><p>neutralizados e o futuro predito, se as pessoas exercerem controle sobre</p><p>nomes que contenham poderes secretos. A literatura oriental está cheia de</p><p>encantamentos mágicos.91</p><p>Certamente, devemos observar a ausência de tais tipos de encantamento</p><p>na Bíblia. Feiticeiros e exorcistas não deveriam ser tolerados em Israel (Dt</p><p>18.10-14). Evidentemente, o perigo de se cair na feitiçaria estava longe de</p><p>ser uma mera possibilidade. Encontramos um claro exemplo disso no Novo</p><p>Testamento. Os sete filhos de um homem chamado Ceva, sumo sacerdote</p><p>judeu, tentaram expulsar espíritos usando o nome de Jesus. Sem dúvida,</p><p>eles teriam visto como em nome de Jesus Paulo havia curado enfermos e</p><p>expulsado maus espíritos. Sem crerem no nome de Jesus nem terem sido</p><p>batizados em seu nome, esses exorcistas judeus itinerantes tentaram fazer o</p><p>mesmo que Paulo estava fazendo. Usaram o nome de Jesus em seus</p><p>encantamentos de exorcismo, esperando que a mera menção de seu nome</p><p>liberasse poderes secretos que pudessem usar para expulsar maus espíritos.</p><p>Mas falharam. Foram atacados por um homem possesso por um espírito</p><p>mau e forçados a fugir. Esse evento causou tão profunda impressão que o</p><p>medo caiu sobre o povo e o nome do Senhor foi magnificado (At 19.13-17).</p><p>Em contraste com o infrutífero abuso desse nome, vemos o nome sendo</p><p>exaltado.</p><p>O Senhor exerce grandes poderes, mas ele jamais permitirá que os</p><p>homens insinuem qualquer segredo sobre o uso de seu nome. Eles podem</p><p>realizar milagres usando seu nome, mas apenas com sua autorização. Deus</p><p>realizou muitas obras portentosas por meio das mãos de Paulo (At 19.11),</p><p>enquanto a feitiçaria tenta usar o nome de Deus por ambição egoísta. Em</p><p>contraste com Paulo, o qual agia sob a ordem de Deus, feiticeiros e</p><p>exorcistas são, na verdade, intrusos que desejam controlar as forças divinas</p><p>a fim de colocar sob seu próprio poder a vida, a morte e o futuro. O terceiro</p><p>mandamento condena os usurpadores, mas dá boas-vindas aos que, de</p><p>modo receptivo, desejam depender da revelação e dos poderes concedidos</p><p>do alto.</p><p>2. O nome de Deus é tomado em vão na falsa profecia. Falsos profetas</p><p>declaram: “Assim diz o SENHOR”, quando, de fato, não foram enviados por</p><p>ele (Dt 18.22; 1Rs 22.11; Jr 14.15; Ez 13.6). Não é sem razão que essa falsa</p><p>profecia é rotulada ou categorizada como adivinhação (Jr 29.8-9; Ez 13.9;</p><p>21.19). A profecia procede da Palavra de Yahweh; a adivinhação procede</p><p>iPhone 12</p><p>das próprias predições e se torna falsa profecia quando pretende ser feita em</p><p>nome de Yahweh. Isso, também, é um uso vazio, vão, do nome “Yahweh”.</p><p>3. O nome de Deus é tomado em vão no falso juramento. Palavras</p><p>enganosas ganham força quando se usa o nome de Yahweh na fórmula de</p><p>um juramento: “tão certo como vive o SENHOR” (por exemplo, Jr 5.2 e Zc</p><p>5.4). Isso torna o nome do Senhor em um instrumento a serviço da mentira.</p><p>Pessoas ímpias não hesitam em usar o nome de Deus a fim de transmitir</p><p>uma mentira como se fosse verdade. Isso também constitui uma clara</p><p>violação do terceiro mandamento: “[...] nem jurareis falso pelo meu nome,</p><p>pois profanaríeis o nome do vosso Deus. Eu sou o SENHOR” (Lv 19.12).</p><p>Nome e Revelação</p><p>Até aqui, temos discutido sobre pronunciar o nome do Senhor. É notável</p><p>que o terceiro mandamento não diga: “Não tomarás o meu nome em vão”.</p><p>Enquanto que, no mandamento anterior, Deus fala de si mesmo na primeira</p><p>pessoa, aqui, no terceiro mandamento, ele fala na terceira pessoa. Por que</p><p>ele usa, aqui, a terceira pessoa? A razão deve ser a de chamar a atenção para</p><p>o nome “Yahweh”. Por isso é que o nome é expressamente mencionado.</p><p>Não é, simplesmente, “Não tomarás o meu nome em vão”; mas: “Não</p><p>tomarás o nome de Yahweh, teu Deus, em vão”. A questão é alguém tomar</p><p>o seu precioso nome em vão.</p><p>Mas tomar o nome do Senhor em vão, certamente, não se limita a</p><p>pronunciar de modo impróprio o nome do Senhor. Estaremos aquém do que</p><p>a Escritura diz sobre a transgressão do terceiro mandamento se nos</p><p>restringirmos aos erros acima relacionados. O nome do Senhor pode ser</p><p>tomado em vão, mesmo sem ser mencionado.</p><p>Podemos facilmente demonstrar que isso é verdade. No contexto do</p><p>Antigo Testamento, incluído no nome das pessoas está a totalidade do seu</p><p>ser. Quando o livro de Gênesis fala de gigantes como “homens de renome”,</p><p>indica apenas que eles são assim chamados por causa do seu grande poder</p><p>como gigantes (Gn 6.4). Quando Salomão desfrutou de grande nome entre</p><p>todas as nações ao seu redor, seu nome foi atribuído à sua insuperável</p><p>sabedoria (1Rs 4.31). Aqui, “nome” não se refere a como eram chamados,</p><p>mas ao que eram em si mesmos. Atacar seus nomes significava não levar a</p><p>sério a força dos gigantes ou a sabedoria de Salomão. Assim foi que Simei</p><p>atacou o nome de Davi. Davi também era um homem de renome dentro e</p><p>fora de Israel (1Sm 18.30). Ele havia sido ungido pelo Senhor para ser rei</p><p>(2Sm 19.21). Mas o que fez Simei? Em vez de honrar a Davi, ele saiu</p><p>depreciando seu nome. Ele tornou Davi, que era um vigilante (por causa de</p><p>seus esforços contra a casa de Saul), em um “velhaco”, uma pessoa</p><p>“imprestável”. Ele estava amaldiçoando Davi. O hebraico usa aqui uma</p><p>palavra para “amaldiçoar” que contém a ideia de declarar alguém uma</p><p>nulidade, um indigno.92 Segundo Simei, Davi deveria ser confrontado pelo</p><p>Senhor (cujo nome Simei teria invocado): “Fora daqui, fora, homem de</p><p>sangue, homem de Belial” (2Sm 16.7). O estado de Davi mudou de um</p><p>“peso-pesado” para um “peso-pena”. Algo semelhante ocorreu</p><p>anteriormente com Abimeleque, o qual foi amaldiçoado pelos cidadãos de</p><p>Siquém: “Quem é Abimeleque [...] para que o sirvamos?” (Jz 9.8). Sua</p><p>reputação é calcada aos pés. Diz-se dele que é indigno de receber honra.</p><p>Com esse entendimento, podemos agora focalizar no nome do Senhor.</p><p>Quem é o Senhor? O que ele faz? Então, qual é o seu nome ou reputação?</p><p>Seu nome é sua revelação nas obras da Criação e da Redenção. O poeta do</p><p>Salmo 8, sob a impressão da Criação de Deus e do lugar do homem entre as</p><p>criaturas, começa e termina com: “Ó SENHOR, SENHOR nosso, quão</p><p>magnífico em toda a terra é o teu nome!” (Sl 8.1,9). Direcionando nosso</p><p>olhar da criatura para os céus e a terra, prestando especial atenção ao lugar</p><p>do homem no universo, percebe-se quão pesado e significante é, realmente,</p><p>o nome do Senhor. Percebe-se também que, um ataque a uma das criaturas</p><p>de Deus, é um ataque ao nome do Senhor. Quem zomba do pobre insulta</p><p>seu Criador (Pv 17.5). Não se deve amaldiçoar um surdo ou colocar pedra</p><p>de tropeço diante de um cego (Lv 19.14). Tais ações também violam o</p><p>terceiro mandamento.</p><p>Yahweh fez um nome para si mesmo como Criador; ele fez o mesmo</p><p>como Redentor e Defensor do seu povo Israel. Precisamente por isso, ele se</p><p>fez conhecido pelo nome de YHWH. Essas quatro letras significam “EU SOU</p><p>O QUE SOU” (Êx 3.14), isto é, eu existo como Salvador e Libertador, eu</p><p>realizo o que digo, eu cumpro o que prometo. As promessas que fiz aos</p><p>antepassados, cumpro-as agora. Eu “realizarei” em obras as minhas</p><p>palavras, assim como tirei meu povo do Egito e os trouxe para a Terra da</p><p>Promessa.</p><p>Yahweh passou diante de Moisés no monte Horebe como o Senhor</p><p>misericordioso e gracioso, longânimo e cheio de bondade e de verdade (Êx</p><p>34.6). Toda a obra de salvação demonstra isso. “Ele os salvou por amor do</p><p>seu nome, para lhes fazer notório o seu poder” (Sl 106.8). Seu nome é sua</p><p>força (Sl 54.1); seu nome é declarado em suas maravilhosas obras (Sl 75.1).</p><p>Sob esse fundamento, o Senhor pode requerer que esse povo reverencie</p><p>o seu nome. Anjos e homens são convocados para dar ao Senhor a glória</p><p>devida ao seu nome (Sl 29.2; 66.2; 96.8). “Glória” é a tradução da palavra</p><p>hebraica kabod, que significa “peso, carga”.93 O nome do Senhor é um</p><p>“peso pesado”. Assim, devemos reconhecer seu grandioso poder e dar-lhe o</p><p>louvor devido à sua majestade.94 O oposto seria minimizar o nome do</p><p>Senhor, subestimar, desprezar e zombar do seu nome. Seria tratar algo</p><p>“pesado” como se fosse “leve”. O dar “glória” seria substituído por</p><p>maldição e blasfêmia.</p><p>iPhone 12</p><p>Considere, por exemplo, o filho de uma mulher israelita e de um pai</p><p>egípcio que entrou em luta com um israelita no campo (Lv 24.10-23). No</p><p>combate corpo a corpo que se seguiu, aquilo que havia no coração do</p><p>homem veio à sua boca: sua natureza egípcia. Ele blasfemou o nome do</p><p>Senhor, amaldiçoando-o. Nessa altura, ele disse o nome “Yahweh”, mas</p><p>havia mais do que isso envolvido aí. Ele blasfemou e amaldiçoou o Nome.95</p><p>Ambas as palavras hebraicas aqui utilizadas significam, praticamente, a</p><p>mesma coisa. A palavra “maldição” é, novamente, a palavra que vimos</p><p>anteriormente: “declarar que alguém é insignificante e desprezível”. De tão</p><p>irado que estava com seu oponente israelita, esse meio-egípcio e meio-</p><p>israelita não hesitou em usar o nome de Deus. Ele não pronunciou</p><p>simplesmente o Nome, mas o jogou na lama. Ele disse coisas sobre Deus</p><p>que eram exageradamente absurdas. Na Escritura, esse é exatamente o</p><p>caráter de “amaldiçoar”. Transeuntes observando a luta, chocados com tal</p><p>linguagem blasfema, trouxeram o homem até Moisés. Depois de Deus ter</p><p>sido consultado, o homem foi apedrejado até a morte.96 Ao mesmo tempo, a</p><p>lei foi anunciada a ambos, o estrangeiro e o nativo israelita: “Aquele que</p><p>blasfemar o nome do SENHOR será morto” (Lv 24.16).97</p><p>Tal como o homem de Levítico 24 desprezou o Senhor, assim fez o</p><p>general do rei assírio, o qual, ao ouvir o povo próximo do muro de</p><p>Jerusalém, disse: “Não vos engane Ezequias, dizendo: O SENHOR nos</p><p>livrará. Acaso, os deuses das nações livraram cada um a sua terra das mãos</p><p>do rei da Assíria? [...] Acaso, livraram eles a Samaria das minhas mãos?</p><p>Quais são, dentre todos os deuses destes países, os que livraram a sua terra</p><p>das minhas mãos, para que o SENHOR livre a Jerusalém das minhas mãos?”</p><p>(Is 36.18-20). Isso foi, corretamente, visto como difamação e blasfêmia</p><p>contra o Deus vivo (Is 37. 4,6). O Senhor foi rebaixado a uma deidade de</p><p>segunda categoria, isto é, não poderia fazer mais do que os deuses das</p><p>nações vizinhas que haviam sido calcadas aos pés pelo rei da assíria.</p><p>Não foram somente os estrangeiros que blasfemaram e zombaram do</p><p>Senhor; o próprio povo de Deus fez isso também. Mesmo que o Senhor</p><p>tivesse realizado muitos sinais no deserto, ainda assim o povo de Israel</p><p>escarneceu do Senhor (Nm 14.11). Quando os israelitas estavam</p><p>plenamente alegres, satisfeitos com a abundância de comida e de bebida,</p><p>voltaram-se para outros deuses e desprezaram o Senhor (Dt 31.20). Em</p><p>tempos de prosperidade,</p><p>os ímpios dizem que não existe Deus e, desse</p><p>modo, desprezam o Senhor que, aparentemente, não irá requerer nenhuma</p><p>prestação de contas (Sl 10.3-11,13). As riquezas induzem alguém a</p><p>perguntar levianamente: quem é o Senhor? Mas a pobreza pode ter o</p><p>mesmo efeito quando os pobres atacam o nome de Deus por causa de sua</p><p>pobreza (Pv 30.8-9). O pecado da blasfêmia é cometido por qualquer um</p><p>que despreze a palavra de Deus e que viole seus mandamentos (Nm</p><p>15.30,31). Isso acontece quando alguém conhece o nome de Deus, sua</p><p>revelação, está plenamente consciente de que Deus tem o direito de</p><p>prescrever a Lei para o seu povo e, ainda assim, permanece impassível.</p><p>Há ainda outra consequência: quando Israel despreza Yahweh, isso dá</p><p>motivos para os pagãos blasfemarem contra o Deus de Israel. A maneira</p><p>como Davi tratou do caso de Bate-Seba e de Urias deu ocasião aos inimigos</p><p>do SENHOR para lançar escárnios sobre ele (2Sm 12.14). Sendo disperso por</p><p>entre as nações em seu cativeiro, Israel profanou o nome do Senhor porque</p><p>as nações disseram: “São estes o povo do SENHOR, porém tiveram de sair da</p><p>terra dele” (Ez 36.20-32). E nós também dizemos: ele demonstrará que tem</p><p>um nome, e que esse nome reflete quem ele é: “Salvador e Libertador!”.</p><p>Dos exemplos dados, podemos ver, de modo suficiente e claro, que</p><p>blasfemar e amaldiçoar o nome de Yahweh não se limita a pronunciar</p><p>inadequadamente esse nome. A questão é mais profunda e o assunto é mais</p><p>abrangente do que isso. Não se trata necessariamente de que alguém</p><p>mencione o nome do Senhor, mas daquilo que ele pensa, fala e age</p><p>insanamente contra Deus — isso é que constitui a essência da maldição e da</p><p>blasfêmia.</p><p>O Nome de Jesus Cristo</p><p>No Novo Testamento, encontramos uma confirmação e uma ampliação do</p><p>que encontramos no Antigo Testamento. Jesus Cristo glorificou seu Pai e</p><p>revelou seu nome àqueles que o Pai retirou do mundo e lhe deu (Jo 17.4,6).</p><p>O que a palavra kabod representa para o Antigo Testamento, doxa</p><p>representa para o Novo: o peso, a grandeza e a honra devida ao nome de</p><p>Deus. Cristo exibe essa honra em relação a seu Pai.</p><p>Ao mesmo tempo, entretanto, Cristo fez muito mais. Como o Filho do</p><p>Pai, ele revelou o nome do Pai de tal maneira que pôde dizer: “Quem me vê</p><p>a mim vê o Pai” (Jo 14.9). Em Cristo, o próprio Pai está diante de nós. Por</p><p>isso, não podemos falar adequadamente sobre o nome do Senhor — nesse</p><p>caso, sobre o terceiro mandamento — sem levar em consideração o nome</p><p>de Jesus Cristo. Cristo e o Pai são um (Jo 10.30,38). Ninguém vem ao Pai a</p><p>não ser por intermédio dele (Jo 14.6). Incluído no nome do Senhor está o</p><p>fato de que ele agirá como Salvador de seu povo. E essa salvação foi</p><p>concedida por meio de Jesus Cristo. Nossa salvação não reside em nenhum</p><p>outro, pois entre os homens na terra há um só nome dado pelo qual</p><p>devamos ser salvos (At 4.12). A ele foi dado um nome acima de todo nome</p><p>(Fp 2.9-11). Por isso, glória e honras também são devidas a ele (Jo 1.14;</p><p>5.23; 16.5; 1Co 2.8; Ap 5.12-14).</p><p>Além da “glorificação” do Nome, o Novo Testamento lida também com</p><p>a blasfêmia contra esse Nome. A besta do mar que faz guerra contra os</p><p>santos e a multidão que se ajunta a ela, blasfemam contra o nome de Deus</p><p>(Ap 13.5-9). Isso é um ataque ao poder e à majestade de Deus. Tal conduta</p><p>caracteriza também aqueles que se recusam a se converter a despeito das</p><p>pragas que Deus envia sobre eles (Ap 16.9,11). Contudo, pela sua atitude e</p><p>conduta os crentes também podem trazer descrédito ao nome de Deus. Um</p><p>estilo de vida ímpio da parte de cristãos pode dar ocasião a que estranhos</p><p>blasfemem contra a palavra de Deus (Tt 2.5).</p><p>O próprio Cristo advertiu sobre uma forma particular de blasfêmia, a</p><p>saber, a blasfêmia contra o Espírito Santo. Quando Jesus curou um homem</p><p>possesso de demônio, o qual estava cego e mudo, os fariseus insistiram com</p><p>veemência que essa era uma obra do diabo. Jesus contradisse essa</p><p>afirmação e disse: “Por isso, vos declaro: todo pecado e blasfêmia serão</p><p>perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será</p><p>perdoada. Se alguém proferir alguma palavra contra o Filho do Homem,</p><p>ser-lhe-á isso perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não</p><p>lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no porvir” (Mt 12.31,32).</p><p>Essa forma particular de blasfêmia deve ser entendida, em nossa</p><p>opinião, como má interpretação voluntária e atribuição ao diabo daquilo</p><p>que, de fato, é obra do Espírito Santo. Muitos veem com os próprios olhos a</p><p>obra do Espírito Santo de modo tão claro que não podem negá-la, mas</p><p>preferem atribuir a obra do Espírito Santo ao diabo! Deus perdoa pecados,</p><p>sim, até mesmo os pecados cometidos contra o Filho do Homem, mas</p><p>blasfemar contra o Espírito Santo é ir longe demais.</p><p>Encontramos algo semelhante em Hebreus 10.26-31. Se calcássemos</p><p>aos pés o Filho de Deus, desprezando como impuro o mesmo sangue do</p><p>pacto pelo qual fomos santificados, estaríamos ultrajando o Espírito da</p><p>graça. Aqui, de novo, vemos a combinação de obstinação (pecado</p><p>intencional, cf. o v. 26) e declaração autoconsciente de que o que é santo é,</p><p>na verdade, impuro. Novamente, devemos observar que ultrajar o Espírito</p><p>está intimamente relacionado à obra do Filho. Alguém ultraja o Espírito de</p><p>graça, o que quer dizer, o Espírito de Jesus Cristo. Toda blasfêmia contra o</p><p>Espírito Santo é dirigida contra a obra do Filho, tanto em Mateus 12 quanto</p><p>em Hebreus 10. Daí se vê, claramente, quão séria coisa é quando o nome de</p><p>Jesus Cristo é desprezado. Se alguém tomar o que constitui sua “glória” e,</p><p>de modo intransigente, a rebaixar declarando ser do diabo, ou impura, está</p><p>blasfemando de modo imperdoável.</p><p>A Imprecação Moderna</p><p>Vamos considerar agora o significado do terceiro mandamento para hoje.</p><p>Comecemos fazendo novamente referência ao uso do Nome. Não</p><p>simplesmente ao uso do nome “Yahweh”, mas também ao uso dos nomes</p><p>“Deus”, “Jesus” ou “Cristo”, ou o uso de expressões que invocam o juízo de</p><p>Deus. Esse tipo de imprecação é característica de nossa época. No trabalho,</p><p>no rádio e na televisão, em inúmeros contextos envolvendo pessoas,</p><p>ouvimos profanações.</p><p>Esse pecado é antigo. Não há nenhum século em que esse pecado não</p><p>seja profundamente lastimado pelos piedosos. Na época da Reforma, H.</p><p>Bullinger observou que não havia nenhum governo que punisse a</p><p>imprecação ou a blasfêmia. Desde o começo do mundo até o presente, se</p><p>queixa Bullinger, “nunca se blasfemou tanto quanto hoje em dia”. Pouco</p><p>tempo depois, J. H. Alstedt observou que era comum entre as pessoas que</p><p>confessavam o nome de Cristo expressões como “meu Deus” e “meu</p><p>Jesus”. No passado, líderes piedosos de igrejas se queixavam de que os</p><p>mais jovens estariam usando linguagem de deixar qualquer um de “cabelo</p><p>em pé”. Parece que foram da “mera” imprecação à profanação. Assim, não</p><p>há nada novo debaixo do sol. O mundo cristão de outrora e a sociedade</p><p>secular de hoje têm, ambas, testemunhado muitas imprecações. O passado e</p><p>o presente se igualam nesse ponto.98</p><p>Para formar um julgamento a respeito desse tipo de imprecação,</p><p>devemos entender que estamos lidando aqui, de modo geral, com algo</p><p>diferente dos exemplos bíblicos de imprecação. Na Bíblia, alguém que</p><p>tenha amaldiçoado e blasfemado contra Deus, o fez deliberadamente. Isso</p><p>não ocorreria de modo acidental, mas, antes, em sua linguagem, ele</p><p>expressamente desdenhava do Deus de Israel. De fato, algo semelhante</p><p>pode ocorrer hoje quando muitos blasfemam contra Deus. Nesse caso, o</p><p>perpetrador também está conscientemente atacando a honra de Deus. Do</p><p>ponto de vista da lei civil, uma sociedade democrática que respeita a</p><p>liberdade de religião dificilmente pune as blasfêmias públicas. Esse tipo de</p><p>ideal requer uma sociedade na qual tanto o governo quanto os cidadãos</p><p>ainda defendam publicamente a honra de Deus. Mas quando esse não é o</p><p>caso, os regulamentos legislativos contra a blasfêmia rapidamente se</p><p>tornam letra morta. É claro que isso não diminui a seriedade da blasfêmia</p><p>contra Deus. Pode ser difícil fazer valer penalidades civis contra a</p><p>blasfêmia, mas esse fato não reduz o mal moral do pecado.</p><p>As profanações</p><p>modernas, entretanto, não são intencionalmente</p><p>blasfemas. As pessoas usam o nome de Deus e de Jesus Cristo como</p><p>interjeições ou exclamações em circunstâncias de choque, de surpresa ou de</p><p>ira. Usam esses nomes para reforçar suas palavras. Nesse último exemplo,</p><p>ouvimos um eco pálido — especialmente quando as pessoas clamam pelo</p><p>juízo divino — do que na Bíblia é chamado de autocondenação: “Deus faça</p><p>‘isso ou aquilo’ comigo se [...]”. Isso significa: “Deus me puna com terrível</p><p>punição, se o que estou dizendo não for verdade”, ou “se não acontecer o</p><p>que estou dizendo”. Nos tempos antigos, essa terrível punição era</p><p>simbolizada quando duas pessoas faziam um pacto e usavam um voto para</p><p>confirmá-lo. Encontramos uma ilustração disso em Jeremias 34.18. Quando</p><p>um pacto era confirmado, uma vaca era cortada em duas partes. Quem</p><p>quebrasse esse pacto deveria morrer tal como essa vaca, “só que de modo</p><p>pior”! Vemos esse tipo de confirmação de um pacto em Gênesis 15.9-21,</p><p>quando Deus fez o pacto com Abraão.</p><p>A moderna profanação é ainda apenas um eco da imprecação bíblica.</p><p>As pessoas mencionam Deus, mas sem realmente pensar sobre ele. Na</p><p>Bíblia, a imprecação tinha significado religioso, mas hoje isso é tão</p><p>secularizado que as pessoas usam a palavra “Deus” sem pretender dizer</p><p>alguma coisa sobre Deus. Para muitos que fazem isso, Deus está morto —</p><p>alguém a quem ninguém mais profere insultos.</p><p>Muitos pagãos, hoje, continuam a temer seus deuses, e não</p><p>“praguejam”, isto é, não usam seus nomes como interjeição. Usam-no</p><p>apenas nas suas orações e se limitam a usá-los como interjeição porque têm</p><p>medo de serem punidos por causa da maldição que os ameaça pelo uso</p><p>indevido desses nomes.99 É triste observar, mas precisamente no</p><p>cristianismo — ou melhor, em um cristianismo que não é mais vibrante —</p><p>imprecar se tornou algo comum. Um cristianismo que não mais é vibrante</p><p>rapidamente se torna um paganismo contemporâneo. O temor do Senhor e</p><p>de Cristo não existe mais. As pessoas simplesmente continuam usando</p><p>esses nomes, podendo ir do uso comum até ao uso profano.</p><p>Por meio da argumentação de que o praguejar moderno é diferente da</p><p>imprecação na Bíblia, nós não camuflamos o mal do qual fomos advertidos</p><p>por Bullinger, ou pelos folhetos de grupos contra a blasfêmia, ou por muitos</p><p>pregadores ainda hoje. É impossível aceitar esse praguejar moderno. Temos,</p><p>na verdade, de expressar nossas emoções e, ocasionalmente, queremos</p><p>acrescentar força às nossas palavras; mas se isso requerer imprecação, então</p><p>estaremos lidando com algo mais do que com um vocabulário pobre. Não</p><p>estaremos lidando com um mero “pecadinho”, uma ofensa trivial que está</p><p>“na borda da consciência moderna”.100 Mesmo que o praguejar moderno</p><p>não seja uma demonstração autoconsciente de descrença, é, não obstante,</p><p>um sintoma muito claro de descrença. Aqueles que têm virado suas costas</p><p>para Deus usam o seu nome em vão, com toda naturalidade. E essa é a</p><p>nossa primeira preocupação, a qual é muito mais profunda do que lutar</p><p>contra o que é mero sintoma. Como cristãos, ficamos “arrepiados” a cada</p><p>invocação do juízo de Deus, e com o uso comum do nome de Deus no</p><p>vocabulário das pessoas. Tal praguejamento não reside na “borda da</p><p>consciência moderna”, mas, antes, nos dispõe, com uma lembrança</p><p>recorrente, a batalharmos por Deus. Não no sentido de: “Por que você está</p><p>atacando minhas convicções religiosas?”, mas, mais profundo do que isso:</p><p>“Não é o nome do Criador de sua própria vida que você está usando de</p><p>maneira tão leviana?”. Não estamos dizendo que sempre se tenha de</p><p>responder com essas mesmas palavras. Antes, o que insistimos é que</p><p>devemos estar dispostos a responder. Será que nós simplesmente</p><p>“sacudimos os ombros” ao ouvir a imprecação de alguém, ou podemos</p><p>perceber por trás das palavras de alguém expondo seu vazio interior por</p><p>meio desse vocabulário e a quem poderíamos dizer mais do que,</p><p>simplesmente, que sua profanação nos ofende?</p><p>A seguir, apresentaremos algumas sugestões para se iniciar uma</p><p>conversa sobre a questão da profanação do nome de Deus:</p><p>a. Fale sempre com simplicidade, com autocontrole e não muito</p><p>emocionalmente, sendo ponderado no uso de sua própria linguagem.</p><p>b. Não seja apressado em criticar quando alguém usar o que você</p><p>considera ser uma linguagem imprecatória.</p><p>c. Não seja rápido em ameaçar com a punição mencionada no terceiro</p><p>mandamento.</p><p>d. Você pode desarmar alguém que estiver praguejando intencionalmente,</p><p>usando uma reação como: “Se você tivesse dito a mesma coisa de</p><p>modo diferente, sem praguejar, eu estaria mais disposto a ouvir”.</p><p>e. Você pode estimular a reflexão de alguém que, por hábito, sem</p><p>intenção maliciosa, usa o nome de Deus inadequadamente, dizendo:</p><p>“Você diria isso da mesma forma se tivesse de escrever”.101</p><p>Essas são excelentes sugestões para se iniciar uma conversa sobre</p><p>imprecações. Mas, precisamos também aproveitar uma oportunidade para ir</p><p>além dos sintomas da imprecação até a verdadeira enfermidade: a doença</p><p>do coração separado de Deus.</p><p>Até aqui temos discutido coisas sobre “os de fora”, pessoas que</p><p>imprecam estando separadas de Deus e do seu serviço. Mas, infelizmente, a</p><p>imprecação é mais frequente hoje entre crentes — não apenas durante</p><p>acessos de ira, quando eles perdem o controle de si mesmos, mas também</p><p>na conversa do dia a dia quando eles se esquecem ou não pensam que a</p><p>imprecação “respeitável” é ainda imprecação. O nome de Deus pode ser</p><p>usado com confiança na oração, no louvor e nas conversas quando</p><p>realmente estivermos falando com ou sobre Deus. Mas, assim como alguém</p><p>veste uma roupa especial e em boas condições, assim também é que se deve</p><p>usar o nome de Deus e de Cristo.102 Por isso devemos advertir aos cristãos,</p><p>mais do que “aos de fora”, acerca do abuso do nome de Deus em</p><p>imprecações. Se falharmos em usar do nome de Deus moderadamente, se</p><p>simplesmente o usamos quer seja ou não relevante em nossa conversa,</p><p>como então deixaremos claro para “os de fora” o que significa o temor e o</p><p>respeito pelo nome de Deus? Não devemos seguir os judeus que,</p><p>definitivamente, se recusavam a pronunciar o nome de Deus. Mas podemos</p><p>aprender deles que esse nome não é um utensílio de uso diário e que não</p><p>devemos usá-lo dessa maneira.</p><p>A primeira das sugestões mencionadas acima é que nós mesmos</p><p>devemos ser ponderados em nossa linguagem. O respeito pelos nomes de</p><p>Deus deveria nos manter longe da vulgar imprecação. As pessoas ao nosso</p><p>redor podem entender que não temos base nenhuma para criticar suas</p><p>invocações descuidadas do juízo de Deus, se permitirmos que a expressão</p><p>“dane-se” saia dos nossos lábios. Palavras como “inferno!” e “droga!”</p><p>possuem o mesmo efeito negativo. Entenda, por favor, que não estamos</p><p>fazendo uma lista do que pode ou não pode ser dito. Estamos,</p><p>simplesmente, descrevendo o estilo de nossa linguagem. Se alguém leva a</p><p>sério o nome de Deus, fará tudo o que for possível para evitar trazer</p><p>descrédito ao nome dele. Linguagem profana temperada com ameaça deixa-</p><p>nos mal preparados para a luta contra a imprecação.</p><p>Tomando o Nome de Deus em vão por meio da Exibição de Poder</p><p>Hoje, quando falamos sobre o terceiro mandamento, pensamos prontamente</p><p>no tipo de imprecação que usa o nome de Deus e de Cristo de maneira</p><p>imprópria. Acabamos de discutir o fenômeno da imprecação secularizada.</p><p>Nos tempos antigos, os pagãos não faziam imprecação desse modo, nem o</p><p>fazem hoje. Nem os israelitas o fizeram, uma vez que seu temor e tremor</p><p>diante do Deus de Israel eram muito grandes. Era quase impossível que o</p><p>nome do Senhor fosse reduzido a um clichê ou que fosse usado como uma</p><p>interjeição ou uma exclamação. Mas, como vimos, havia outras formas de</p><p>abuso do nome de Deus. O Nome foi profanado na feitiçaria, na falsa</p><p>profecia e no falso voto. Até que ponto isso existe hoje?</p><p>Juntamente com os ídolos de madeira e de pedra, os encantamentos</p><p>mágicos desapareceram de nosso mundo atual.103 Nós simplesmente rimos</p><p>do moderno “abracadabra”. O mágico com seus truques, fazendo o papel do</p><p>antigo feiticeiro, é um substituto inocente para os antigos magos religiosos</p><p>que</p><p>identificando,</p><p>então, do terceiro ao décimo mandamentos, como fazem os Cristãos</p><p>Reformados. Esperamos demonstrar, na nossa exposição do segundo</p><p>mandamento, que essa combinação é inadequada. Nesse ponto, diremos,</p><p>simplesmente: não faça do Prólogo um mandamento distinto, mas lhe dê</p><p>especial atenção.</p><p>Por quê? Porque o Prólogo dos Dez Mandamentos ajuda a esclarecer o</p><p>fato de que, no Decálogo, possuímos uma declaração do pacto que Deus fez</p><p>com Israel, no Sinai. Como lemos em Deuteronômio 4.13, o Senhor fez</p><p>conhecido o seu pacto: Então, vos anunciou ele a sua aliança, que vos</p><p>prescreveu, os dez mandamentos, e os escreveu em duas tábuas de pedra. A</p><p>partir de fontes extrabíblicas, sabemos que, durante esse período, outras</p><p>nações também usavam tábuas para estabelecer alianças. Além disso, há</p><p>também claras similaridades entre o que encontramos nos Dez</p><p>Mandamentos, como um documento pactual, e aquilo que encontramos em</p><p>outros documentos. Por exemplo, um rei hitita teria iniciado seu tratado</p><p>pactual feito com os seus súditos desta forma: “Assim diz o rei Sol</p><p>Mursilis, o grande rei, o rei da terra de Hati [...]” Isso nos faz lembrar da</p><p>magnífica introdução da aliança com Israel: “Eu sou o SENHOR, teu Deus</p><p>[...]”. Um grande rei apresenta-se aos seus súditos. O tratado pactual hitita</p><p>continuaria descrevendo os favores concedidos pelo grande rei aos seus</p><p>vassalos. Igualmente, lemos que Yahweh libertou Israel do Egito, da casa da</p><p>servidão. O soberano hitita prosseguiria estipulando as obrigações que seus</p><p>súditos deveriam cumprir. Da mesma forma, encontramos no Decálogo —</p><p>com seu repetido “Não” — os regulamentos que Israel teria que observar</p><p>para ser fiel ao pacto com Yahweh.</p><p>Deus | Libertação | Vida Santa</p><p>Vejamos um pouco mais detalhadamente os três elementos acima</p><p>mencionados.</p><p>Em primeiro lugar, Deus se apresenta em sua Majestade. Sua revelação</p><p>no Sinai foi acompanhada de trovões e relâmpagos – “Ao amanhecer do</p><p>terceiro dia, houve trovões, e relâmpagos, e uma espessa nuvem sobre o</p><p>monte, e mui forte clangor de trombeta, de maneira que todo o povo que</p><p>estava no arraial se estremeceu” (Êx 19.16). Os israelitas foram convocados</p><p>para uma reunião no monte flamejante que adentrava o próprio céu, a fim</p><p>de ouvir as palavras de Deus: “a fim de que aprenda a temer-me todos os</p><p>dias que na terra viver e as ensinará a seus filhos” (Dt 4.10). Eles deveriam</p><p>honrar a esse Deus (Sl 24.7,9; 29.1-2; 96.6-10). A honra de um filho em</p><p>relação ao pai e a de um servo em relação ao seu senhor. Assim Deus</p><p>poderia dizer: “Se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor,</p><p>onde está o respeito para comigo?” (Ml 1.6). Tal mensagem não é menos</p><p>válida para a igreja do Novo Testamento. A Igreja, segundo o escritor de</p><p>Hebreus, não tem chegado a um monte físico tomado de chamas, envolto</p><p>em trevas e cercado de ventos tempestuosos, mas foi chamada para servir a</p><p>Deus com a mesma honra e respeito, “porque o nosso Deus é fogo</p><p>consumidor” (Hb 12.18-21,29).</p><p>Em segundo lugar, observamos que Deus se apresenta como o grande</p><p>Libertador. No Prólogo do Decálogo, ele não se assemelha a um despótico</p><p>rei hitita que se impõe sobre seus vassalos. A conclamação, que Israel tema</p><p>e honre a Deus, assume um papel especial. No Prólogo, Deus se apresenta</p><p>como o Senhor, Yahweh, que tirou Israel do Egito, da casa da servidão.</p><p>Por essa razão, ele é chamado Yahweh. Esse nome significa “Eu sou o</p><p>que sou”; o que quer dizer: Eu sou Aquele que salva e liberta, que cumpre</p><p>as promessas feitas aos pais Abraão, Isaque e Jacó. Deus se comprometeu</p><p>mediante juramento feito a Abraão, prometendo fazer numerosa a sua</p><p>descendência e torná-la uma bênção para todas as nações da terra (Gn</p><p>22.15-18). Quando se apresentou a Moisés, Deus trouxe esse pacto à</p><p>memória. O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó se compadecia quando os</p><p>descendentes de Abraão estavam sendo oprimidos no Egito. Demonstrou</p><p>quem ele era: o ativo Deus agente que mostrou a Faraó e a Israel que</p><p>cumpria as suas promessas. Deus ouviu o clamor de Israel no Egito e</p><p>lembrou-se da sua aliança com Abraão, Isaque e Jacó. Viu como os</p><p>israelitas estavam sendo oprimidos e o que lhes estava sendo feito (Êx 2.23-</p><p>25).</p><p>O pacto, estabelecido muito tempo antes com os patriarcas, estava</p><p>sendo renovado no Sinai. A nação tinha sido libertada do Egito e sabia</p><p>quem era o Deus que a havia libertado: Eu sou o SENHOR, teu Deus, que</p><p>cumpre suas promessas.</p><p>Essa libertação se evidencia mais claramente quando nos lembramos de</p><p>que Yahweh redimiu os israelitas apesar deles. Eles se tornaram obstinados</p><p>quando sua libertação não ocorreu com a rapidez que desejavam (Êx 5.21-</p><p>23; 6.9) e voltaram-se contra Moisés quando pararam à margem do Mar</p><p>Vermelho:</p><p>Disseram a Moisés: Será, por não haver sepulcros no Egito, que nos</p><p>tiraste de lá, para que morramos neste deserto? Por que nos trataste</p><p>assim, fazendo-nos sair do Egito? Não é isso o que te dissemos no</p><p>Egito: deixa-nos, para que sirvamos os egípcios? Pois melhor nos fora</p><p>servir aos egípcios do que morrermos no deserto (Êx 14.11-12).</p><p>Esse tipo de mentalidade ocorreria repetidamente no deserto: “Rebeldes</p><p>fostes contra o SENHOR, desde o dia em que vos conheci” (Dt 9.24). O</p><p>desejo de retornar às panelas do Egito era, muitas vezes, maior do que o</p><p>desejo de entrar na Terra Prometida. No Sinai, foi necessária a intervenção</p><p>de Moisés para impedir Deus de destruir seu povo. Mas vemos imediata e</p><p>claramente por que Yahweh poupou seu povo. Eis como Moisés intercedeu:</p><p>“Orei ao SENHOR, dizendo: Ó SENHOR Deus! Não destruas o teu povo e a</p><p>tua herança, que resgataste com a tua grandeza, que tiraste do Egito com</p><p>poderosa mão. Lembra-te dos teus servos Abraão, Isaque e Jacó; não</p><p>atentes para a dureza deste povo, nem para a sua maldade, nem para o seu</p><p>pecado, para que o povo da terra donde nos tiraste não diga: Não tendo</p><p>podido o SENHOR introduzi-los na terra de que lhes tinha falado e porque os</p><p>aborrecia, os tirou para matá-los no deserto. Todavia, são eles o teu povo e a</p><p>tua herança, que tiraste com a tua grande força e com o braço estendido”</p><p>(Dt 9.26-27). O pacto, do qual os Dez Mandamentos são o conteúdo, é o</p><p>pacto da graça, e a libertação da escravidão do Egito é um livramento</p><p>imerecido!</p><p>Em terceiro lugar, Deus se apresenta como o Legislador. O Prólogo é</p><p>seguido pelos Dez Mandamentos,1 aos quais os israelitas deveriam seguir.</p><p>Mas, à luz do que havia acontecido antes, esses mandamentos adquirem um</p><p>caráter muito especial. Os mandamentos seguem o Evangelho da libertação</p><p>imerecida. Não são mandamentos de um déspota que ordena a sua lei no</p><p>sentido de “obedeça e se cale”, pois esses são os mandamentos de Yahweh,</p><p>o Libertador, o qual deseja que seu povo permaneça livre. Primeiro ocorre o</p><p>Êxodo para a libertação e, depois, a entrega da Lei. Aqui, liberdade e</p><p>limites convergem. Para sua própria subsistência, um peixe permanece</p><p>limitado à água, um elemento que lhe é próprio. Semelhantemente, os</p><p>homens são livres — como peixes na água e aves no ar — apenas quando</p><p>atendem à Lei de Deus. Em sua epístola, Tiago caracteriza a Lei de Deus</p><p>como a “lei da liberdade” (Tg 1.25).</p><p>Nesse contexto, podemos mencionar Deuteronômio 6.20-25 como uma</p><p>passagem especialmente relevante. Nas gerações subsequentes, quando um</p><p>filho perguntasse ao pai: ”Que significam os testemunhos, e estatutos, e</p><p>juízos que o SENHOR, nosso Deus, vos ordenou?”, o pai deveria contar,</p><p>primeiro, a história da libertação da escravidão no Egito, antes de falar dos</p><p>mandamentos. O propósito de guardar os mandamentos é bastante claro: “O</p><p>SENHOR nos ordenou cumpríssemos todos estes estatutos e temêssemos o</p><p>SENHOR, nosso Deus, para o nosso perpétuo bem, para nos guardar em vida,</p><p>como tem feito até hoje” (Dt 6.24; cf. 20-25). Para aquele que guarda a Lei,</p><p>tudo vai bem. Este é um tema recorrente (Dt 4.40; 10.13; 12.28, para</p><p>mencionar apenas algumas referências). Como alguém já disse, “a lei é a</p><p>melodia cujas notas consistem de viver em alegria diante do Senhor”.2</p><p>Poemas foram compostos para o louvor da lei (Sl 19; 119).</p><p>Metaforicamente falando, não é trovão,</p><p>pretendiam manipular os poderes divinos. Mas, assim como a idolatria</p><p>é possível sem imagens de madeira ou de pedra, assim também a mágica é</p><p>possível sem feiticeiros e adivinhos. Lembre-se do rei Saul, o qual, ainda</p><p>que tivesse banido os médiuns e os adivinhos (1Sm 28.3), ainda assim foi</p><p>severamente condenado por Samuel por ter poupado o rei Agague e lançado</p><p>mão do seu despojo: “Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a</p><p>obstinação é como a idolatria” (1Sm 15.23). Alguém pode banir os</p><p>feiticeiros da terra e ainda assim ser controlado pelo espírito de feitiçaria</p><p>(rebelião, obstinação). Saul trilhou seus próprios caminhos e revestiu sua</p><p>conduta de piedade invocando o nome do Senhor em diversas ocasiões</p><p>relacionadas a esse incidente (1Sm 15.20-25).</p><p>Esse tipo de feitiçaria reaparece sempre que dizemos que alguma coisa é</p><p>a vontade de Deus quando, de fato, não é. Isso é o que fazemos para ter</p><p>aquilo o que nós queremos, usando o nome de Deus para dar forças aos</p><p>nossos planos. Mencionar o Nome, afinal, aumenta nosso poder. As</p><p>pessoas, então, devem nos seguir, pois temos Deus do nosso lado.</p><p>Frequentemente isso vem acompanhado de boas intenções. Muitos</p><p>imaginam que estão prestando um serviço a Deus enquanto são, à</p><p>semelhança de Saulo, perseguidores da igreja de Cristo (1Tm 1.13; Fp 3.6).</p><p>Cruzadas foram organizadas usando-se o slogan: “É a vontade de</p><p>Deus”. Técnicas cruéis de inquisição, usadas durante e depois da Idade</p><p>Média, foram revestidas do nome de Deus. Muitas pessoas têm sido</p><p>lançadas, injustamente, fora das igrejas enquanto se invoca o nome de</p><p>Deus. Muitos têm conhecido as consequências de se resistir aos “agentes”</p><p>do poder eclesiástico. Essa resistência tem sido rejeitada, sempre com</p><p>facilidade, usando-se o argumento de que tais pessoas estariam se opondo a</p><p>Deus. Ostentação de poder em vestes de piedade é algo de “peso”, pois faz</p><p>a submissão a esse poder parecer tão virtuosa quando a verdadeira</p><p>humildade cristã. Frequentemente — como regra geral — a reforma é vista</p><p>como “revolução”. Opor-se às tradições que vêm de longa data é opor-se ao</p><p>que, para muitos, tem alcançado o brilho da aprovação divina.</p><p>O abuso do nome de Deus que estamos identificando aqui ocorre não só</p><p>nas cruzadas e nas divisões da igreja. Cada crente deve perguntar a si</p><p>mesmo se ele está realmente comunicando a vontade de Deus ou se está</p><p>simplesmente impondo sua própria vontade e usando o nome de Deus para</p><p>atingir esse objetivo. Os pais devem levar isso em consideração quando</p><p>educam seus filhos, os quais percebem facilmente a diferença entre uma</p><p>autoridade genuína e uma autoridade fingida. Eles devem deixar claro aos</p><p>seus filhos quem Deus é; não devem se proteger usando o nome de Deus de</p><p>maneira que ele venha a ser visto como um “bicho-papão”.</p><p>A exibição de poder fingindo controlar Deus pode se evidenciar nas</p><p>orações ou nos longos discursos nos quais o nome de Deus é</p><p>incessantemente mencionado. Jesus advertiu sobre esses excessos verbais,</p><p>dizendo que os pagãos criam que dessa maneira seriam ouvidos (Mt 6.7;</p><p>nos comentários antigos isso era chamado de battologia pharisaica, isto é, o</p><p>excesso de palavras usado pelos fariseus nas suas orações exibicionistas). O</p><p>que nos impressiona acerca do ensino do próprio Jesus sobre oração é a sua</p><p>sobriedade e simplicidade. Rezar o rosário com a repetição da “Ave Maria”</p><p>e do “Pai Nosso” 15 vezes não acrescenta poder à oração, assim como o uso</p><p>de “Senhor”, “Deus”, “Pai”, “Soberano”, etc. Comunicar o Evangelho pelo</p><p>rádio ou televisão requer um uso sóbrio do nome de Deus. É ruim quando</p><p>alguém desliga a transmissão não por causa de rejeição (o que é sempre</p><p>uma possibilidade!), mas por causa de irritação com “Jesus isso”, “Jesus</p><p>aquilo”. Não há qualquer profundidade nisso, e a repetição torna o santo</p><p>Nome em um clichê, mesmo que a pessoa que ora tenha a boa intenção de</p><p>enfatizar a alegria da mensagem aos seus ouvintes.</p><p>Se alguém disser o nome de Deus com tanta frequência que caia na</p><p>repetição, não o está tratando com reverência. Mas isso não quer dizer que</p><p>tais orações contradizem a Bíblia. É diferente da falsa profecia, algo que</p><p>ocorre hoje como ocorria nos dias do Antigo Testamento. Apresentar</p><p>alguma coisa como se fosse a palavra de Deus quando, realmente, não o é, e</p><p>fundamentar isso com: “Assim diz o Senhor”, ocorre não menos</p><p>frequentemente hoje do que nos dias do Antigo Testamento. Por exemplo,</p><p>podemos considerar sobre qual o tipo de profecia estamos ouvindo quando</p><p>o nome de Deus está ligado à luta contra a proliferação de armas nucleares.</p><p>Os profetas nos asseguram de que o reino de paz, no qual as espadas serão</p><p>transformadas em arados e as lanças em podadeiras (Is 2.4; Mq 4.3), exige a</p><p>eliminação das armas nucleares, o que é possível, ainda que seja feito de</p><p>modo unilateral. Muitos insistem que é aqui onde a linha divisória entre a fé</p><p>e a descrença deve ser traçada. Ou fazemos o que Deus requer de nós</p><p>(acabar com as guerras, acabar com as armas nucleares, acabar com o</p><p>militarismo), ou cooperaremos com o suicídio do mundo. Muitos não se</p><p>convencem pela resposta de que a questão das armas nucleares não seja</p><p>assim tão simples, pois essa resposta é imediatamente descartada como</p><p>incredulidade. Devemos nos opor firmemente a essa “politização” do</p><p>Evangelho (chamada por Doroty Sölle: “o maior movimento religioso</p><p>moderno”) e a essa caricatura do que a Escritura supostamente ensina sobre</p><p>fé e incredulidade. O slogan “É a vontade de Deus” pode ser, facilmente,</p><p>um uso idólatra do nome de Deus tanto quando é usado contra armas (veja</p><p>o pensamento pacifista e do desarmamento nuclear unilateral) como quando</p><p>é usado em favor de uma causa (veja o exemplo das cruzadas e das</p><p>“bênçãos” oficiais de armas militares).</p><p>O Juramento: Significado e Distorções</p><p>Além de considerar as formas de feitiçaria e de falsa profecia, devemos</p><p>também dar atenção aos juramentos e suas distorções. O juramento ainda é</p><p>comum na nossa sociedade, não importando quão secularizada ela tenha se</p><p>tornado. Tentativas de eliminá-lo não têm ainda sido bem sucedidas,</p><p>embora, desde a Revolução Francesa, o juramento tenha perdido sua</p><p>proeminência. Junto com o juramento, alguém pode empregar uma</p><p>promessa ou declaração que não invoque o nome de Deus. Esse tipo de</p><p>promessa ou declaração carrega as mesmas consequências, de modo que, no</p><p>caso de perjúrio, são aplicadas as mesmas punições do juramento. A</p><p>escolha entre um juramento e uma promessa se tornou apenas uma questão</p><p>de preferência pessoal.104</p><p>Mesmo que o juramento não seja o único instrumento usado em</p><p>ocasiões cerimoniais ou judiciais, tais como a posse em um cargo oficial ou</p><p>uma confirmação da verdade em um tribunal, ele ainda goza de um lugar</p><p>proeminente em nossa sociedade. Nessas condições, podemos traçar uma</p><p>linha contínua do Antigo e Novo Testamentos até os dias de hoje. As</p><p>formas de juramento solene sofreram mudanças. Por exemplo, não mais</p><p>colocamos a mão sob a coxa de outrem (Gn 24.2-9; 47.29)105 nem</p><p>levantamos nossas mãos aos céus (Gn 14.22; Ap 10.5-7), mas,</p><p>simplesmente, levantamos a mão direita106 e dizemos: “eu juro”.107 Mas a</p><p>substância envolvida em um juramento solene é a mesma que encontramos</p><p>na Bíblia.</p><p>O que é, então, um voto? O voto é um juramento com um apelo ao</p><p>nome de Deus, o qual serve de testemunha de que a pessoa está falando a</p><p>verdade ou de que pretende cumprir uma promessa.108 Observe a dupla</p><p>aplicação do juramento. Ele é usado para confirmar que a pessoa fala “a</p><p>verdade, toda a verdade e nada além da verdade”, e assume o caráter de</p><p>compromisso, como no caso de alguém que assume um cargo oficial. Neste</p><p>último caso, alguém confirma sob juramento que exercerá o cargo segundo</p><p>os regulamentos vigentes. Dizendo isso em termos derivados do Latim, há</p><p>votos declaratórios e votos promissórios. Nós prestamos juramento</p><p>declaratório em um tribunal para confirmar a validade de nossas</p><p>declarações. Um voto promissório é jurado por presidentes, congressistas,</p><p>juízes, oficiais militares, e semelhantes. Esse voto os obriga ao exercício</p><p>cuidadoso de seu ofício ou convocação.</p><p>Esse duplo uso do juramento é encontrado no Catecismo de Heidelberg,</p><p>na Pergunta 101, que ensina que o voto confirma “fidelidade e verdade”. A</p><p>pergunta 101 menciona também outra dualidade: um juramento pode ser</p><p>requerido pelo governo ou pela “necessidade”. O primeiro é bastante claro,</p><p>mas o que se quer dizer por “necessidade”? Um estudo das Institutas de</p><p>Calvino (2.8.27) provê uma resposta. Ele distingue entre juramentos</p><p>públicos e privados. O voto público é prestado diante de oficiais</p><p>governamentais ou superiores (por exemplo, no caso de militares). Mas é</p><p>permitido também o juramento assumido por um indivíduo em relação a</p><p>outro indivíduo. Calvino dá um exemplo. Se o seu irmão o acusa de quebrar</p><p>uma promessa, e você não pode provar a sua inocência porque ele não está</p><p>disposto a se deixar convencer por nenhum argumento, então sua reputação</p><p>pode estar em jogo devido à obstinação dele. Nesse caso você pode, por</p><p>meio de um juramento, apelar para o julgamento de Deus. Como exemplos</p><p>bíblicos de votos entre pessoas privadas, Calvino aponta para Jacó e Labão</p><p>(Gn 31.53), para Boaz, o qual confirmou sob juramento a sua intenção de se</p><p>casar com Rute (Rt 3.13), e para Obadias, a quem Elias, da mesma forma,</p><p>prometeu que se encontraria com Acabe e que não desapareceria — algo</p><p>que poderia custar a vida a Obadias (1Rs 18.15).</p><p>Uma análise desses exemplos bíblicos de juramentos privados (que</p><p>poderia ser ampliada com muitos outros) mostra-nos que não é tão fácil</p><p>categorizá-los sob o conceito de “necessidade”. Esses são, na verdade,</p><p>votos privados, mas nem sempre feitos em situações de necessidade. Tais</p><p>situações não são tanto casos de “necessidade”, mas de “emergência”.109</p><p>Podem ocorrer situações onde, além dos juramentos requeridos de nós pelo</p><p>governo (Calvino chama esses juramentos mais seguros, pois lidam com</p><p>ministros públicos de Deus), sejam necessários outros juramentos entre</p><p>indivíduos. Esse tipo de emergência pode ocorrer, por exemplo, na lavratura</p><p>de um contrato onde nenhum oficial do governo exerce autoridade sobre as</p><p>partes a fim de registrar a promessa ou voto.</p><p>Aparentemente, Calvino ainda tinha um pouco de dificuldade em</p><p>relação a aceitar os votos privados, uma vez que, na primeira edição das</p><p>Institutas, ele tratou apenas dos votos públicos. Desde os dias de Calvino, a</p><p>ênfase veio a cair de modo mais pesado sobre esse tipo de juramento. Hoje,</p><p>Juramentos e contratos são muito mais bem regulamentados. Algumas</p><p>coisas que antes podiam ser feitas em particular (pactos, contratos, etc.),</p><p>hoje em dia é mais regulamentado pela legislação.</p><p>Terá isso resultado do fato de que o voto entre pessoas privadas tenha</p><p>caído em desuso? Dificilmente poderíamos afirmar isso, especialmente</p><p>quando observamos o exemplo dado por Calvino. Pode acontecer ainda</p><p>hoje que, na igreja (veja que Calvino falava de um irmão!), a reputação de</p><p>alguém seja atacada por rumores que não podem ser provados nem</p><p>desmentidos. A pessoa em questão pode apenas apelar a Deus como</p><p>testemunha de sua inocência. Suponha que esse tipo de situação cause uma</p><p>grande tensão na congregação, porque uma acusação (que talvez tenha toda</p><p>aparência de verdade) foi feita com a consequente negação por parte da</p><p>pessoa envolvida; em tal situação, não seria útil para o acusado a</p><p>confirmação de sua negação com um juramento? Sim deveria ser sim, e Não</p><p>deveria ser não, especialmente, na igreja (Mt 5.37); mas o que deveria ser,</p><p>frequentemente não é — e, infelizmente, até na igreja. Neste mundo,</p><p>marcado pelo pecado, confusão e caos, seria o juramento um meio de</p><p>“prender” as pessoas à sua palavra? Ou pode se prestar a essa função</p><p>também na igreja? Em nossa opinião, a resposta é sim, também na igreja.</p><p>Se a questão que está se prolongando por muito tempo pode ser calada por</p><p>meio da confirmação mais clara possível por parte do acusado acerca de sua</p><p>inocência diante de Deus, de modo que a questão não possa mais ser</p><p>levantada, então será uma bênção. Deveríamos, na verdade, insistir que esse</p><p>tipo de juramento seja mais usado no ambiente eclesiástico em situações de</p><p>necessidade.110 Naturalmente, tais juramentos não seriam mais “privados”,</p><p>uma vez que teriam de ser declarados na presença de oficiais da igreja.</p><p>A partir disso, entendemos que o juramento é algo muito importante.</p><p>Podemos falar, junto com o Catecismo de Heidelberg, sobre um propósito</p><p>duplo. Alguém que jure justamente honra a Deus e promove o bem-estar de</p><p>seu próximo.</p><p>Consideremos, então, a honra que damos a Deus. Alguém que jure, o</p><p>faz em termos de alguém maior do que ele mesmo, a quem pode apelar com</p><p>o objetivo de pôr um fim na contenda (Hb 6.16).111 Quem mais poderia ser</p><p>senão Deus, o qual conhece o coração e todas as suas intenções (Sl 139.1-</p><p>6), e quem está em posição de nos punir por qualquer juramento falso? Ao</p><p>fazer um juramento, confessamos nossa fé: ninguém, incluindo nós</p><p>mesmos, pode ser o julgador de nossas palavras, senão o próprio Deus. Por</p><p>isso, deveríamos decidir conscientemente se queremos fazer um juramento</p><p>ou uma declaração, se for possível fazer uma escolha. Fazendo isso, não</p><p>estamos dizendo que votos e juramentos não sejam importantes, mas,</p><p>certamente, deveria nos entristecer o fato de que muitos se recusam a</p><p>empregar os meios do juramento, dados por Deus. Ao apelar a ele, nós o</p><p>honramos — com uma honra que, nos tempos de Israel, Deus se recusou a</p><p>dividir com outros deuses (Dt 6.13-15; Js 23.7-8). O que vigorava naquele</p><p>tempo vigora hoje também: devemos jurar em nome do Senhor e dar a ele</p><p>honra e louvor, pois ele é nosso Deus (Dt 10.20-21).</p><p>Prestar juramento também promove o bem do nosso próximo. Já</p><p>mencionamos que o voto é um instrumento contratual. A sociedade que</p><p>respeita o juramento dificilmente é perturbada. Nesse tipo de sociedade, as</p><p>pessoas ainda rechaçam a mentira e despendem energia em levar a sério</p><p>seus cargos oficiais ou vocações. Um governante juramentado está “preso”</p><p>aos direitos que os que lhe são sujeitos estabeleceram em uma constituição,</p><p>a fim de que a administração não seja exercida com tirania. Médicos</p><p>juramentados têm o compromisso de cuidar dos seus pacientes. Oficiais</p><p>juramentados têm o dever de preservar o Estado. Espera-se que um avalista</p><p>de propriedade juramentado avalie honestamente. Por meio de um</p><p>juramento diante de um tribunal, as testemunhas são impedidas de declarar</p><p>culpado o inocente ou de inocentar o culpado. Pelo juramento, somos</p><p>colocados diante da própria face de Deus. A reverência por Deus tem</p><p>consequências saudáveis para a sociedade.</p><p>Em contraste com essas consequências saudáveis que fluem dos votos</p><p>justos, considere o mal resultante do perjúrio e do juramento falso. A</p><p>Escritura adverte sobre esse tipo de juramento porque ele constitui um</p><p>sacrilégio ao nome de Deus (Lv 19.12). Entre os pagãos, também, o</p><p>perjúrio é visto como erro grave. Descobrimos que, ocasionalmente, era</p><p>visto como sendo de tal natureza que as punições humanas eram</p><p>inadequadas. O imperador Tibério (A.D. 14-37) comentou, nesse contexto,</p><p>que um crime contra os deuses somente deveria ser punido pelos deuses.</p><p>Durante a Idade Média, eram as autoridades eclesiásticas que puniam o</p><p>perjúrio. À medida que o secularismo se instalou, o perjúrio perdeu seu</p><p>status de pecado grave contra Deus; não obstante, os códigos legais</p><p>continuaram a prescrever punição para o perjúrio como falta grave de</p><p>engano ou de fraude. O juiz é enganado e o próximo é defraudado. As</p><p>sociedades mais democráticas impõem penas contundentes pelo perjúrio,</p><p>incluindo multas pesadas e até prisão.</p><p>Os motivos para o perjúrio não precisam ser em defesa própria. Alguém</p><p>pode, simplesmente, estar tentando proteger um membro da família ou um</p><p>amigo de uma acusação de uma má ação. Mesmo em tais casos, o perjúrio</p><p>continua sendo perjúrio. O cristão que levanta sua mão em um voto deve</p><p>entender que tal gesto invoca o testemunho de Deus. Se ele perjura, não está</p><p>se arriscando simplesmente a ser preso; ele não está meramente enganando</p><p>o juiz ou apenas injuriando seu próximo; antes, ele está diante de Deus. O</p><p>Catecismo de Heidelberg corretamente</p><p>confessa, no Dia do Senhor 37, que</p><p>nós atraímos a punição de Deus se juramos falsamente.</p><p>Sobretudo, fica claro que não devemos fazer juramentos desnecessários.</p><p>De fato, isso não poderia acontecer se um juiz exigisse um juramento de</p><p>nós. Isso ocorre quando, em nossa conversa diária, invocamos o nome de</p><p>Deus com o propósito de enfatizar. “Que os céus me ajudem” e “Deus me</p><p>ajude” são fórmulas feitas para dar peso às nossas palavras. Mas querer dar</p><p>mais peso às nossas palavras invocando o nome de Deus como testemunha</p><p>rebaixa o seu nome. Quanto mais usamos juramentos, mais facilmente</p><p>surgem mentiras. Temos de usar o juramento com moderação. O governo</p><p>pode requerer um juramento de nós, e o nosso ambiente de trabalho e</p><p>vocação pode ser o lugar de um juramento, mas além desses, o juramento</p><p>deve permanecer algo muito especial. O caráter excepcional e sério do</p><p>juramento corresponde à preciosidade do nome de Deus.</p><p>Um Conceito Errado de Juramento</p><p>O juramento deve continuar sendo algo especial. Mas não deveríamos ir</p><p>mais além e eliminar completamente o voto? A Escritura não aponta nessa</p><p>direção?</p><p>São bem conhecidos os grupos que, ao longo da história, têm rejeitado</p><p>completamente o voto. Entre outros, poderíamos mencionar os Essênios, os</p><p>Catarenses, os Albigenses, os Hussitas, os Anabatistas e os Quakers. Nosso</p><p>interesse é motivado pelo fato de que essas pessoas apelam, em defesa das</p><p>suas posições, para o Sermão do Monte e para Tiago 5.12. Será que seu</p><p>argumento é tão convincente que deveríamos, de fato, evitar completamente</p><p>os votos? Contra sua posição, levantamos as seguintes objeções.</p><p>Primeiro, no Sermão do Monte, Jesus disse de modo claro que ele não</p><p>veio para anular a Lei e os Profetas, mas, precisamente, para cumpri-los (Mt</p><p>5.17-20). Já vimos, a partir de muitas referências na Lei e nos Profetas, que</p><p>o Senhor considerou ser questão de honra quando as pessoas faziam</p><p>juramentos em seu nome (cf. Is 45.23; Jr 4.2; 12.16). Desse modo, podemos</p><p>questionar, legitimamente, se o juramento justo está sob a consideração de</p><p>Mateus 5 e de Tiago 5.</p><p>Segundo, sabemos que Jesus foi submetido a um juramento. Quando</p><p>Caifás lhe ordenou: “Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o</p><p>Cristo, o Filho de Deus”, então Jesus lhe respondeu afirmativamente (Mt</p><p>26.63,64). Além disso, Jesus e Paulo frequentemente empregavam enfáticas</p><p>afirmações e asseverações que iam além de um simples sim ou não (Mt</p><p>5.18,26; juntamente com as muitas vezes que Jesus usou o amém, “na</p><p>verdade”; Rm 1.9; 2Co 1.23; 11.31; Gl 1.20; Fp 1.8, onde Paulo chama</p><p>Deus por testemunha e se coloca diante de sua face). E mais ainda. Lemos a</p><p>respeito de um anjo que, com mão levantada, jurou por Deus (Ap 10.5-7). A</p><p>isso acrescentamos Hebreus 6.13-20, que fala do juramento usado entre</p><p>pessoas (v. 16: “Pois os homens juram pelo que lhes é superior, e o</p><p>juramento, servindo de garantia, para eles, é o fim de toda contenda”).</p><p>Todas essas referências indicam que dificilmente poderíamos interpretar a</p><p>crítica de Jesus aos juramentos ser uma proibição absoluta de todo e</p><p>qualquer juramento.</p><p>Terceiro, o texto de Mateus 5.33-37 contém mais uma observação que</p><p>nos impede de concluir que o que Jesus está ensinando aqui seja uma</p><p>absoluta proibição dos juramentos. Na verdade, Jesus está refutando tanto o</p><p>casuísmo judeu quanto a superficialidade dos juramentos. Muitos não</p><p>estavam fazendo uso do juramento de modo espiritual, mas com</p><p>“esperteza”. Um juramento invocando o nome de Yahweh tinha de ser</p><p>cumprido, mas, a fim de escapar do rigor de tal exigência, as pessoas</p><p>juravam “pelos céus”, “pela terra”, “por Jerusalém”, ou “pela minha</p><p>cabeça”. Quando juravam por essas “autoridades”, não precisavam ter</p><p>compromisso com a verdade — pelo menos assim imaginavam. Foi contra</p><p>esse uso enganoso do juramento que Jesus proferiu as seguintes palavras:</p><p>“de modo algum jureis; nem pelo céu, por ser o trono de Deus; nem pela</p><p>terra, por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser cidade do</p><p>grande Rei; nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo</p><p>branco ou preto. Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não”.</p><p>Assim, quando Jesus e Tiago dizem que não podemos jurar de modo</p><p>nenhum, devemos entender essa declaração enfática no seu contexto: “de</p><p>modo algum jureis; nem pelos céus [...] nem pela terra [...] nem por</p><p>Jerusalém [...] nem jures pela tua cabeça. Seja, porém, a tua palavra: Sim,</p><p>sim; não, não [...] O que disso passar vem do maligno”. Jesus não está</p><p>dizendo: Não jure por Deus. Mas, ele está rejeitando todo tipo de juramento</p><p>que pretende enganar alguém.</p><p>Quarto, temos de considerar a diferença entre governo eclesiástico e leis</p><p>civis. Mesmo que fosse o caso de o juramento jamais ser usado na igreja</p><p>(uma reivindição que não podemos defender com base na Escritura),</p><p>permanece aberta a questão de o que pode ocorrer no mundo. Qualquer um</p><p>que faça do Sermão do Monte um código de lei para o mundo precisará</p><p>instituir um novo sistema judiciário, abolir o divórcio, e se livrar do serviço</p><p>militar. Assim, não é por acaso que os Anabatistas se retraem da vida</p><p>pública, recusando cargos oficiais e o serviço militar. As leis de “não-</p><p>governo” (Lc 22.25,26), ou de “não-resistência”, e o uso do simples sim ou</p><p>não se tornam leis em seu “reino eclesiástico”,112 para onde se refugiam do</p><p>mundo imerso no pecado. Contudo, não podemos nos retirar do mundo. O</p><p>ofício público, a espada do governo, e até mesmo o uso do nome de Deus</p><p>diante dos juízes são coisas boas para o mundo. Temos de distinguir entre</p><p>políticas secular e espiritual, cada qual com suas responsabilidades, mas</p><p>ambas a serviço de Deus.113</p><p>Alguém que diga que é possível se ter uma boa sociedade sem a</p><p>instituição do juramento está, simplesmente, trocando realismo por</p><p>idealismo. Em um mundo paradisíaco, não seria necessário o juramento;</p><p>mas nós vivemos em um mundo caído, no qual é bom que, em momentos</p><p>críticos da nossa vida, homens pecaminosos sejam confrontados com a</p><p>seriedade do que estão prestes a dizer (juramento declaratório) ou do que</p><p>estão prestes a fazer (juramento promissório).</p><p>A Seriedade dos Juramentos</p><p>Qualquer pessoa que afirmasse que os juramentos frequentemente provêm</p><p>da boca de ímpios, estaria, obviamente, correta. Mas, a partir disso, concluir</p><p>que não podemos mais levar o juramento a sério, seria um erro. Acabamos</p><p>de observar a distinção entre as áreas de responsabilidade eclesiástica e</p><p>civil. O juiz civil não pode investigar se alguém possui uma fé genuína em</p><p>Deus e se pode, de fato, jurar honestamente. Mas ele pode, certamente,</p><p>lembrar alguém da seriedade do juramento e da possibilidade de punição</p><p>pelo perjúrio.</p><p>Um bom exemplo do significado de juramento com apelo a ídolos é</p><p>encontrado nos primeiros comentários sobre o terceiro mandamento, feitos</p><p>no período pós-reforma. A questão discutida tratava de se contratos com</p><p>pessoas que serviam a ídolos e que faziam juramentos em nome de seus</p><p>deuses eram permitidos. Considere, por exemplo, as organizações coloniais</p><p>antigas, como a Companhia das Índias Ocidentais, que mantiveram contatos</p><p>com todos os tipos de pessoas e fecharam diversos contratos e tratados com</p><p>elas. Ainda que os antigos colonizadores fizessem votos de juramento</p><p>diante do Deus da Bíblia, as pessoas de outras nações invocavam Alá e</p><p>outros deuses. Será que os cristãos poderiam participar de tais contratos?</p><p>Isso não entraria em conflito com o terceiro mandamento? Como poderá um</p><p>crente participar de um tratado em que uma parte invoca a Deus e a outra</p><p>parte, um ídolo?</p><p>Essas são questões claras, às quais os antigos também tiveram de dar</p><p>respostas igualmente claras. Eles demonstraram com exemplos bíblicos</p><p>que, de fato, tais tratados podiam ser feitos. Não fez Isaque um tratado com</p><p>Abimeleque, rei dos filisteus, e selaram o acordo com um juramento</p><p>cerimonial? (Gn 26.31). Não fez Abraão o mesmo com Labão, ainda que</p><p>não tenham jurado no nome do mesmo Deus? (Gn 31.51-54).</p><p>Entretanto, esses antigos teólogos não se satisfizeram com um tratado</p><p>feito sob o fundamento de tão poucos versos bíblicos. Mostraram,</p><p>também,</p><p>que era necessário realizar esses acordos. Naturalmente, não era permitido,</p><p>em Israel, jurar por nenhum outro nome senão o do verdadeiro Deus. Eram</p><p>impostas as mais severas penalidades à invocação de deuses estranhos. O</p><p>que não era permitido em Israel, contudo, era, por contraste, permitido</p><p>como necessário nas relações com o resto do mundo. Considere o que L.</p><p>Danaeus escreveu: “Temos em comum com os incrédulos tudo o que</p><p>pertence a esta vida: luz, água, terra, tratados, contratos, comércio e</p><p>cidades, guerra e paz”.114 Se isso é assim, então algumas coisas devem ser</p><p>regulamentadas em comum. E, se alguém deseja legislar sobre essa matéria,</p><p>então é necessário um juramento. Se uma parte faz um juramento em nome</p><p>do seu falso deus, esse pecado será seu, mas nós a lembraremos de que fez</p><p>esse voto perante seu deus.</p><p>A recusa anabatista quanto ao juramento não se adequa ao terceiro</p><p>mandamento. Na verdade, não somos do mundo, mas vivemos no mundo.</p><p>Não podemos tolerar, na igreja, aqueles que vivem em imoralidade sexual</p><p>ou pessoas avarentas e caloteiras, ou mesmo idólatras (1Co 5.9-11). Se, em</p><p>questões civis, temos de tratar seriamente um voto jurado em nome de um</p><p>ídolo, então, certamente, temos também de jurar em nome de Deus, mesmo</p><p>que a outra parte ignore a Deus no resto de sua vida. Esse pecado é seu.</p><p>Mas é dever dos juízes — crentes ou incrédulos — respeitar, na</p><p>administração da justiça, o juramento e suas consequências.</p><p>Dificuldades Com o Juramento Oficial</p><p>Rejeitamos a posição anabatista de que não há espaço para o juramento e</p><p>para o serviço em um cargo governamental. Mas, com isso, não negamos</p><p>que o juramento oficial feito pelo cristão pode gerar dificuldades.</p><p>Considere, como exemplo, o político. Ele jura fidelidade à Constituição</p><p>e promete, sob juramento, cumprir fielmente sua função. Mas tanto a</p><p>Constituição quanto outras leis ou regulamentos poderão lhe apresentar</p><p>escolhas, as quais irão contra suas convicções cristãs. Como poderia ele</p><p>votar em relação a uma lei sobre o domingo que ignore o quarto</p><p>mandamento? Qual deveria ser sua posição com respeito a uma moralidade</p><p>libertina na área de casamento e sexualidade? Deveria ele cooperar</p><p>subsidiando diversas formas de expressão cultural anticristã? Como político</p><p>cristão, não seria inevitável ser envolvido pelo mal, de modo que a</p><p>perspectiva anabatista esteja correta no desejo de que os crentes se</p><p>mantenham fora da política?</p><p>Nesse ponto, temos de fazer uma cuidadosa distinção. Quando alguém</p><p>jura manter-se fiel à Constituição, ele não está declarando que concorda</p><p>com cada ponto dessa Constituição ou com todas as leis decorrentes dela.</p><p>Se tivesse de ser assim, ninguém seria capaz de fazer tal juramento ou</p><p>promessa. Qualquer conjunto de leis padece de consentimento unânime, e,</p><p>mesmo com respeito à Constituição, um cristão pode insistir, corretamente,</p><p>que as questões em pauta podem ser formuladas de modo diferente. Na</p><p>esfera política, ele pode lutar por uma alteração fundamental de um sistema</p><p>de governo ou pela mudança de determinado conjunto de leis. Contudo, seu</p><p>juramento oficial o obriga a respeitar as leis em vigor. Enquanto essas leis</p><p>estiverem em vigor, ele precisa se ater a elas com fidelidade.</p><p>Impedir a implementação de tais leis e ordenanças o colocaria em</p><p>conflito com seu juramento oficial. Ele pode, certamente, empregar todos os</p><p>seus esforços contra a introdução de leis que, segundo suas convicções,</p><p>conflitam com a vontade de Deus. Isso está inteiramente de acordo com seu</p><p>voto oficial, o qual requer não apenas fidelidade às leis, mas também o</p><p>desempenho fiel do seu cargo. Um legislador ou membro de um parlamento</p><p>que vota “não” está, também, votando segundo as prerrogativas do seu voto</p><p>oficial. Mas se você vota contra a legalização da venda de pornografia e,</p><p>sendo voto vencido, não pode, após a lei permitindo tais vendas ser</p><p>aprovada, tomar como responsabilidade sua retirar esse material das lojas</p><p>que promovem sua venda. Não importando quão moralmente justificáveis</p><p>tais estratégias possam parecer, há uma lei que as proíbe. O juramento</p><p>oficial feito pelos políticos requer que eles se pautem também pelas leis</p><p>más.</p><p>As dificuldades geradas pelo juramento oficial se tornam</p><p>intransponíveis somente quando as leis e ordenanças adotadas compelem o</p><p>político a participar da impiedade e da criminalidade. O juramento oficial</p><p>obriga a algo mais do que “ordens são ordens e ponto final”, no sentido</p><p>empregado por Adolf Hitler. O juramento oficial não requer obediência</p><p>cega e, precisamente porque invocamos o nome do Senhor nesse juramento,</p><p>entendemos que ele é o mais alto Juiz do bem e do mal, a quem devemos</p><p>render absoluta obediência. Assim, não estamos dizendo que os termos</p><p>cristianismo e política indicam conceitos que não podem ser combinados. O</p><p>que estamos dizendo é que, ocasionalmente, pode acontecer que eles não</p><p>sejam mais compatíveis. Alguém pode fazer, confiantemente, um voto de</p><p>fidelidade às constituições da maioria dos estados democráticos, mas o voto</p><p>de fidelidade a Hitler se tornou um sacrilégio contra o nome de Deus. É</p><p>bom que nós, nos países democráticos, nos perguntemos frequentemente se</p><p>o exercício de nosso cargo ainda permite que invoquemos o nome de Deus.</p><p>A Escritura nos ensina claramente que juramos com risco de dano próprio</p><p>(Sl 15.4). E devemos entender que estamos isentos de juramentos que</p><p>injuriem a honra de Deus ou do nosso próximo.115 Quando afetar nosso</p><p>juramento oficial, isso requererá que nos demitamos do cargo.</p><p>Desonrando a Reputação de Deus</p><p>Temos considerado o significado moderno do terceiro mandamento em</p><p>termos de se pronunciar o nome de Deus. Vimos que a imprecação moderna</p><p>é um pecado contra o terceiro mandamento, mesmo que a qualidade da</p><p>moderna imprecação seja diferente daquela que encontramos na Bíblia.</p><p>Depois, vimos que os antigos pecados do uso abusivo do nome de Deus na</p><p>feitiçaria, na falsa profecia e no perjúrio, são tão relevantes hoje como</p><p>sempre foram. Mas o que dizer sobre a apresentação de imprecação na</p><p>Bíblia, em que o nome de Deus não é usado do modo moderno como uma</p><p>palavra de maldição, mas de ridicularização e desprezo? Isso reside no</p><p>âmago da imprecação na Bíblia: o nome de Yahweh tem grande peso, mas</p><p>tanto em Israel quanto fora dele, as pessoas não levam o nome de Deus a</p><p>sério ou zombam dele, tratando-o com leviandade.</p><p>O velho pecado permanece. Ele não é menos relevante nem menos</p><p>frequente do que o tipo de maldição de que falamos anteriormente. Para</p><p>entender isso, cada cristão deve começar por si mesmo. Provavelmente, não</p><p>usamos o nome de Deus como palavra de maldição. Considerando que</p><p>atualmente o juramento caiu em desuso, jurar em falso é também algo que</p><p>não ocorre com frequência. Nesse caso, que valor tem o nome do Senhor</p><p>para nossa vida e nossa relação com os outros?</p><p>Ainda não chegamos ao final desse tema quando rejeitamos todo tipo de</p><p>teólogos que desonram a Deus ou mesmo blasfemam contra seu nome. Por</p><p>exemplo, podemos objetar contra a “teologia da morte de Deus” porque</p><p>essa teologia desonra a Deus. Podemos nos opor àqueles que negam a</p><p>doutrina da eleição divina, uma vez que não estão dando a Deus a honra que</p><p>lhe é devida como absoluto doador de toda graça. Podemos protestar contra</p><p>a má representação de nossa redenção por meio do derramamento do</p><p>sangue de Cristo no Gólgota, porque em toda teologia liberal seu nome é</p><p>denegrido: o Filho de Deus nada mais é do que um bom exemplo. Podemos</p><p>discordar completamente daqueles que negam a ressurreição dos mortos e</p><p>do Juízo Final, os quais argumentam que estamos lidando apenas com</p><p>simples expressões de linguagem mítica. Todas essas reivindicações</p><p>injuriam a reputação e a honra de Deus como Criador de um novo mundo,</p><p>no qual aqueles que o seguiram na terra estarão fisicamente presentes; e lhe</p><p>é retida a honra de ser o Juiz que excluirá muitos desse paraíso, para</p><p>sempre. Muito propriamente, rejeitamos todos esses erros e, muito</p><p>corretamente, os primeiros reformados que trataram da ética observaram</p><p>que heresia é a transgressão do terceiro mandamento.116</p><p>Mas isso ainda não</p><p>exaure a preocupação ortodoxa com o terceiro mandamento! A convicção</p><p>ortodoxa deve se revestir de um estilo de vida cristão preocupado com a</p><p>honra de Deus.</p><p>O quanto estamos aquém disso, pode ser ilustrado aqui de duas formas.</p><p>O Catecismo de Heidelberg declara que Deus se ira contra aqueles que,</p><p>naquilo que está ao seu alcance, não se opõem nem proíbem imprecações e</p><p>juramentos (Pergunta 100). Isso é óbvio; pois, se ele é Deus e seu nome é</p><p>usado levianamente, ele espera que seus filhos defendam o seu nome.</p><p>Infelizmente, e com frequência, estamos com mais medo da ira dos nossos</p><p>vizinhos do que da ira de Deus.</p><p>Uma segunda maneira que poderia nos tornar mais modestos é</p><p>encontrar na Bíblia as passagens que falam sobre a imprecação de maneira</p><p>santa. Por exemplo, Paulo diz: “Se alguém não ama o Senhor, seja anátema”</p><p>(1Co 16.22). Ele também exclama: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo</p><p>vindo do céu vos pregue outro evangelho que vá além do que vos temos</p><p>pregado, seja anátema” (Gl 1.8). Essas expressões “fortes”, tais como as</p><p>que aparecem também nos salmos imprecatórios (Sl 35; 109; 137), não</p><p>devem sair dos nossos lábios com leviandade. Muitos comentaristas nos</p><p>advertem sobre isso.117 Mas não devemos deixar de perguntar o que há por</p><p>detrás dessas imprecações. Que atitude subjazia às imprecações de Paulo?</p><p>Estaria ele cheio de ódio contra certas pessoas? Certamente que não, uma</p><p>vez que o mesmo apóstolo escreveu: “abençoai os que vos perseguem,</p><p>abençoai e não amaldiçoeis” (Rm 12.14). Enquanto é o nosso nome e nossa</p><p>honra que estão envolvidos, Paulo requer que suportemos o agravo, mas</p><p>quando se trata da honra de Deus e de Jesus Cristo é algo completamente</p><p>diferente. O apóstolo pode estar tão inflamado de paixão pela honra de</p><p>Deus que pronuncia a mais severa condenação sobre os que desonram a</p><p>majestade de Deus.</p><p>Essa atitude de Paulo e de outros é muito instrutiva, especialmente para</p><p>hoje. Paulo entendeu o que o amor pelo próximo exigia e fez mais do que</p><p>uma simples referência a isso. Mas recusou-se a identificar Deus como uma</p><p>extensão do cooperativismo e da solidariedade humana. Deus possui um</p><p>nome único e uma honra única que devem permanecer exaltados, mesmo</p><p>quando isso leva à uma contundente condenação dos seus inimigos. Essa</p><p>honra singular deve permanecer no centro de nossa consciência, não como</p><p>algo incidental, como sendo útil para o nosso culto privado, mas como</p><p>dever primário na vida cristã. Louvor e oração não são ornamentos, mas</p><p>constituem a fundamento para o exercício de nosso papel neste mundo.</p><p>Abraham Kuyper observou corretamente que, na Escritura, raramente</p><p>somos chamados para demonstrar nossa gratidão a Deus fazendo alguma</p><p>coisa, realizando algum trabalho, ou entregando alguma coisa a ele. Antes,</p><p>a ênfase recai sobre ser algo para o Senhor, a saber, que exaltemos,</p><p>honremos, louvemos e glorifiquemos o seu nome. O Salmo 116.12,13 provê</p><p>a melodia de toda a revelação: “Que darei ao SENHOR por todos os seus</p><p>benefícios para comigo? Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome</p><p>do SENHOR”. A religião não deve ser reduzida à moralidade, Kuyper</p><p>continua, e, com profunda convicção, deveríamos fazer eco com ele.118 Na</p><p>verdade, não podemos honrar a Deus enquanto deixamos nosso próximo</p><p>passar necessidade; e não injuriamos menos a sua honra quando ele aparece</p><p>apenas em nossos programas de ação social.</p><p>Podemos ainda colocar a coisa desta forma: obediência ao terceiro</p><p>mandamento requer honestidade em nossa vida. O Catecismo de</p><p>Heidelberg declara que temos de usar o nome santo de Deus com respeito e</p><p>reverência com o fim de que o confessemos e cultuemos corretamente e de</p><p>que ele seja glorificado em todas as nossas palavras e obras (Pergunta 99).</p><p>Essa seriedade é expressa no nosso uso da Bíblia,119 na intensidade das</p><p>nossas orações e, também, na formulação dos nossos planos. Quer</p><p>comamos, quer bebamos, quer façamos qualquer outra coisa, façamos tudo</p><p>para a glória de Deus (1Co 10.31). De outra forma, fazemos injustiça ao</p><p>peso do seu nome.</p><p>Fica claro que devemos, individualmente, dar a Deus a honra que lhe é</p><p>devida, mas isso é verdadeiro, também, para a igreja como um corpo.</p><p>Quando recorremos à história da igreja, vemos que coisas terríveis</p><p>ocorreram e que nada tinham a ver com honrar o nome de Deus, mas tinha</p><p>tudo a ver com a blasfêmia contra seu nome. Podem surgir situações</p><p>semelhantes às que surgiram em Israel. “Os de fora” blasfemam o nome de</p><p>Deus, mas, infelizmente, há ocasiões em que a própria igreja desonra a</p><p>reputação de Deus e põe argumentos na boca de estranhos para desprezar o</p><p>nome de Deus e de Jesus Cristo. Temos visto que o pecado contra o Espírito</p><p>Santo é um ataque feito por pessoas que já pisaram em solo sagrado e,</p><p>consequentemente, em plena consciência e de modo intransigente,</p><p>identificaram aquilo que procedia do Espírito Santo como vindo do diabo.</p><p>Esse é um pecado cometido por estranhos à fé, mas não pelos verdadeiros</p><p>crentes. Assim como nos exemplos de imprecações na Bíblia, aqui também</p><p>devemos ser cuidadosos em pronunciar certos julgamentos. Certamente,</p><p>devemos tentar abrir os olhos das pessoas que, em sua confusão</p><p>psicológica, imaginam que cometeram o pecado contra o Espírito Santo.</p><p>Alguém que tenha cometido o pecado contra o Espírito Santo estará tão</p><p>endurecido no pecado que não derramará lágrimas por causa de sua</p><p>percepção da situação nem buscará a saída de sua miséria. Embora devamos</p><p>ser compassivos quanto a pacientes psiquiátricos, não devemos sucumbir ao</p><p>outro extremo de identificar o pecado contra o Espírito Santo como um</p><p>fenômeno psiquiátrico. A Bíblia adverte quanto a esse pecado como algo</p><p>que pode ocorrer dentro da igreja.</p><p>O Falar é Prata, mas o Silêncio, algumas vezes, é Ouro</p><p>Em contraste com a blasfêmia está a confissão do nome de Deus. Uma</p><p>confissão não pode ocorrer sem palavras. Mesmo assim, há momentos em</p><p>que o silêncio é ouro. Os antigos comentaristas falavam de confissão</p><p>intempestiva, a confissão fora de tempo, quando alguém deseja defender o</p><p>nome de Deus, mas em um tempo inoportuno. Esses são momentos quando</p><p>seria melhor não pronunciar o nome de Deus, pois ele seria ridicularizado e</p><p>lançado na lama. Não devemos dar aos outros uma oportunidade para</p><p>ridicularizar a verdade por causa de nossa confissão inoportuna.</p><p>Esse sábio conselho é baseado na Escritura.120 O livro de Provérbios diz:</p><p>“O que repreende o escarnecedor traz afronta sobre si; e o que censura o</p><p>perverso a si mesmo se injuria” (Pv 9.7). O Sermão do Monte ensina: “Não</p><p>deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas,</p><p>para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem” (Mt 7.6).</p><p>Será que não devemos, então, defender o nome de Deus em toda</p><p>oportunidade? Pedro não diz que devemos estar sempre preparados para dar</p><p>razão da esperança que há em nós? (1Pe 3.15). Não lembra Paulo a Timóteo</p><p>de que ele deve pregar a palavra, convencer e repreender a tempo e fora de</p><p>tempo? (2Tm 4.2). Certamente, precisamos de bons argumentos para</p><p>justificar o silêncio oportuno acerca do nome de Deus.</p><p>Falar é prata; mas, ainda assim, o silêncio, algumas vezes, é ouro.</p><p>Considere o próprio Cristo, o qual permaneceu calado diante do sumo</p><p>sacerdote e diante de Pilatos (Mt 26.63; 27.14). Há ocasiões quando</p><p>defendemos a honra de Deus ficando calados. Se a menção do nome de</p><p>Deus puder dar a alguém uma arma para ridicularizar o nome do Senhor e</p><p>sua obra, então nosso silêncio pode comunicar tanto quanto muitos volumes</p><p>escritos.</p><p>Isso não é menos relevante hoje do que foi antes. Em muitos debates —</p><p>mencionaremos como exemplos a oposição ao aborto e ao estilo de vida</p><p>homossexual — é, frequentemente, difícil conseguir dizer uma palavra.</p><p>Especialmente quando mencionamos o nome de Deus, a resistência</p><p>aumenta. No secularizado mundo Ocidental, podemos ainda pensar como</p><p>quisermos acerca desses assuntos, mas temos cada vez menos liberdade de</p><p>expressar ou de demonstrar nossas convicções. Algumas vezes, são</p><p>organizados painéis de discussão que lhe deixam com o seguinte</p><p>questionamento: “Devo aceitar</p><p>um convite para participar dele?”. Poderão</p><p>surgir situações nas quais você venha a ser objeto de ardente ódio e nas</p><p>quais a blasfêmia venha a ser aplaudida. A questão, então se torna</p><p>relevante: “Fui prudente ao aceitar o convite?”. Que nós mesmos sejamos</p><p>acusados de discriminação, não é tão sério; mas quando as pessoas</p><p>começam a zombar de Deus, isso pode “fechar as portas” para nós. O falar</p><p>é prata, mas o silêncio, às vezes, é ouro. Muitas dessas situações foram</p><p>preditas pelo próprio Cristo. Se alguém lançar pérolas aos porcos, esses</p><p>animais se voltarão contra tal pessoa, pois não podem comer tal comida. E</p><p>eles dilacerarão aqueles que puseram essa comida à sua frente.</p><p>A mensagem que devemos dar é preciosa. Confessar o nome de Deus</p><p>deve continuar sendo a nossa intenção primordial. Devemos sempre estar</p><p>preparados para entregar a Palavra de Deus às pessoas sem nos</p><p>importarmos se isso agrada ou não. Essa Palavra é mais importante do que</p><p>qualquer outra coisa. Mas, ocasionalmente, deveremos nos perguntar se</p><p>nossa palavra poderia causar dano à Palavra de Deus. Nesse ponto, a</p><p>questão não é o que nos agrada ou agrada às pessoas, mas se aquilo que</p><p>iríamos falar agradaria a Deus. Devemos exercitar esse tipo de cuidado que</p><p>nos faz usar o nome de Deus com cautela. Algumas vezes teremos de ser</p><p>tão cuidadosos que nem sequer o mencionaremos.</p><p>O silêncio pode ser uma questão de prudência; mas, infelizmente, é</p><p>muitas vezes uma questão de preguiça. Um cristão que sempre fica em</p><p>silêncio não é cristão. O falar é prata, mas o silêncio, às vezes, é ouro. Não</p><p>praticaremos o silêncio adequado, a menos que sejamos obrigados a falar.</p><p>Só então o nosso silêncio não será uma negação e a nossa cautela não será</p><p>covardia.</p><p>O “Lançar Sorte” e o Terceiro Mandamento</p><p>Em relação ao terceiro mandamento, finalmente, gostaríamos de discutir</p><p>sobre uma questão que hoje raramente é mencionada nesse contexto, mas</p><p>que já foi muito discutida: o lançamento de sortes. Este comentário estaria</p><p>incompleto se ignorássemos essa questão, porque os debates sobre esse</p><p>tema, em nossa opinião, nunca chegaram a uma resposta adequada.</p><p>Qual é o problema, então? Antigos comentaristas insistiram que o</p><p>lançamento de sortes era, na verdade, uma forma de oração. Referiam-se a</p><p>Provérbios 16.33: “A sorte se lança no regaço, mas do SENHOR procede toda</p><p>decisão”. Qualquer pessoa que lançasse sortes — assim argumentavam —</p><p>estaria pedindo a Deus que lhe desse uma decisão. Temos de estar</p><p>conscientes da seriedade do lançamento de sortes, escreveu Voetius: “Trazer</p><p>alguém tão próximo da face de Deus dessa forma não pode ser feito senão</p><p>com temor e tremor. Em todo caso, é absolutamente inadequado, empregar</p><p>tais meios em jogos. Violaria o temor e a reverência a Deus”.121 Assim, o</p><p>uso de dados foi condenado. O lançamento de sortes é uma forma de oração</p><p>e não podemos utilizar dados em jogos de sorte ou azar.</p><p>Em relação ao lançamento de sortes, nossos antigos pais costumavam</p><p>falar sobre a providência imediata de Deus. Por meio de sua providência</p><p>imediata, Deus rege questões que surgem inteira e diretamente dele, sem a</p><p>intervenção humana, à parte de qualquer explicação causal natural</p><p>humanamente discernível. Eventos “ordinários” não ocorrem à parte de</p><p>Deus, mas nesses casos, estaríamos lidando com a providência mediata de</p><p>Deus. Quando uma pedra se choca contra uma vidraça e a quebra, nós</p><p>podemos explicar o vidro estilhaçado em termos de uma causa natural. Nós</p><p>jogamos a pedra contra a janela e sabíamos de antemão qual seria o</p><p>resultado. Mas isso não é verdadeiro em relação à sorte. Quando rolamos os</p><p>dados, o resultado nos será sempre uma completa surpresa. O resultado do</p><p>lançamento dos dados não é determinado por causas naturais, assim</p><p>pensavam essas pessoas. Nem o resultado depende da perícia humana.</p><p>Assim, a conclusão é óbvia: se nem causas naturais nem causas humanas</p><p>entram em cena, o resultado só pode proceder de Deus. Um cristão jamais</p><p>pensaria em identificar um ídolo ou o diabo como a causa do resultado.</p><p>Assim, se Deus é a causa, então a sua expectativa de um resultado o levará</p><p>tão próximo da presença dele que a única atitude adequada será expressar</p><p>temor e reverência. Quem jamais pensaria em usar dados em um jogo!</p><p>Desde então, temos usado dados em nossos jogos sem pensar duas</p><p>vezes. Dificilmente imaginaríamos que alguém pudesse considerar isso</p><p>como tomar o nome de Deus em vão. Mas, então, que contra-argumento</p><p>temos a oferecer contra essa linha de pensamento? Ninguém pode negar que</p><p>nossos pais refletiram seriamente sobre essas questões, incluindo o jogo.</p><p>Assim, não podemos ignorar tão prontamente os seus argumentos. Em</p><p>nossa opinião, os seguintes argumentos são suficientes para justificar um</p><p>ponto de vista diferente sobre o uso de dados daquele mantido por alguns</p><p>antigos comentaristas reformados:</p><p>1. O resultado do lançamento de dados é determinado por leis naturais</p><p>tanto quanto o é a vidraça estilhaçada. A única diferença é que, enquanto</p><p>podemos predizer a última, não podemos predizer o primeiro. Se</p><p>tivéssemos condições de considerar todos os fatores relacionados ao</p><p>lançamento de dados, seríamos capazes de determinar o resultado. Não</p><p>podemos fazer isso e, desse fato, surge o elemento surpresa do resultado.</p><p>Mas o fato de que nós não podemos determinar o resultado não nos permite</p><p>negar o padrão e a regularidade naturais de todo o processo.</p><p>Em outras palavras, quando falamos da providência de Deus, não</p><p>devemos dizer que no caso da quebra do vidro da janela ele esteja operando</p><p>mediatamente e que no caso do lançamento de sorte (e do lançamento do</p><p>dado) ele esteja operando imediatamente. A palavra natural é inteiramente</p><p>adequada em relação ao jogo de dados. Nesse caso, não estamos mais</p><p>“próximos de Deus” de modo que isso exija temor e tremor especiais.</p><p>2. Seguir a linha de pensamento dos antigos comentaristas também não</p><p>exclui os perigos. Johannes à Marck, por exemplo, afirmou que nenhuma</p><p>causa natural poderia ser encontrada “para as várias estações e padrões</p><p>atmosféricos”. Quando uma tempestade libera sua fúria, poderíamos dizer</p><p>que a providência imediata de Deus está operando.122 Desde a sua época, as</p><p>coisas mudaram; temos hoje o serviço nacional de pesquisas atmosféricas</p><p>relatando sobre altas e baixas temperaturas responsáveis por possíveis</p><p>tempestades. Muitas coisas que as pessoas costumavam pensar que eram</p><p>dirigidas imediatamente pela mão de Deus parecem hoje ser governadas</p><p>pela providência mediata de Deus. Muitas outras coisas podem ser</p><p>explicadas com base nas causas e nos resultados naturais mais do que as</p><p>pessoas costumavam pensar. Mas será que a chuva e a seca foram</p><p>removidas da mão de Deus porque não vemos mais sua mão agindo</p><p>imediatamente nessas circunstâncias? Um fazendeiro pode ser grato às</p><p>reportagens sobre o tempo porque, assim, ele pode organizar melhor o seu</p><p>trabalho. Mas ele não deveria, por isso, crer que a lida diária da vida</p><p>estivesse menos na mão de Deus do que deveria? A distinção entre</p><p>providência imediata e mediata oferece perigo ao dividir a vida em duas</p><p>partes: em certas ocasiões você está mais perto de Deus e, em outras, mais</p><p>distante. Somos tomados de temor e tremor quando o céu se enche do eco</p><p>dos trovões, mas não mostramos nenhum traço de temor e tremor quando</p><p>colhemos o grão com nossas máquinas, ou quando empregamos as leis</p><p>naturais da física, ou quando exercitamos nossas capacidades em um jogo</p><p>mental.</p><p>3. Deus está envolvido em todas as coisas. Nele vivemos, e nos</p><p>movemos, e existimos (At 17.28). Em tudo podemos tentar descobrir suas</p><p>leis e, então, agradecer-lhe pelas bênçãos do para-raios e da vacina contra a</p><p>pólio. E o que é verdadeiro em relação às coisas grades, é igualmente</p><p>verdadeiro em relação às pequenas. Podemos divertir nossos filhos e a nós</p><p>mesmos com jogos. Mas, sem a surpresa proporcionada pelo elemento do</p><p>acaso, tal diversão seria inimaginável. Por isso, precisamos de dados para</p><p>alguns jogos de mesa e tabuleiro e do fator de escolha ao acaso nos jogos de</p><p>computador. O elemento surpresa talvez seja o fator</p><p>mais significativo em</p><p>alguns jogos — ele ainda é necessário para conferir emoção ao jogo.</p><p>Diversas doses de imprevisibilidade proporcionam a instigação necessária</p><p>para uma forma saudável de relaxamento diário. Esse fator de</p><p>imprevisibilidade é tanto “natural” quanto calculável. Deve ser usado,</p><p>também, como algo inteiramente normal. Crianças não estão orando, mas,</p><p>simplesmente, brincando quando vão de olhos vendados em busca de</p><p>presentes pendurados em uma corda. Elas estão lidando com o mesmo tipo</p><p>de sorte de quando lançam dados. Um é tão emocionante, tão natural e tão</p><p>inocente quanto o outro.</p><p>O Que Dizer de Provérbios 16.33?</p><p>Quando estudamos o que a Bíblia diz sobre o lançamento de sortes, então</p><p>fica claro o quão incorreto é equiparar simples sorte com oração. Considere</p><p>Atos 1.23-26, onde está escrito que, entre Barsabás e Matias, este último foi</p><p>escolhido por sorte. O texto diz: “E, orando, disseram: Tu, Senhor, que</p><p>conheces o coração de todos, revela-nos qual destes dois tens escolhido”</p><p>(At 1.24). Somente depois de pedir a orientação especial do Senhor, a sorte</p><p>foi lançada. Em termos do ponto de vista dos primeiros reformados, não</p><p>teria essa oração sido supérflua, uma vez que o lançamento de sorte já era</p><p>uma espécie de oração? Nesse sentido, podemos dizer que lançar sorte</p><p>tornou-se oração. Mas o lançar sorte não é automaticamente uma oração,</p><p>porém, por meio da oração, o ato de lançar sorte se torna um ato sagrado.</p><p>O que observamos em Atos 1 aparece em diversos lugares na Escritura.</p><p>Lançar sorte não é, em si mesmo, um ato sagrado, mas se torna sagrado por</p><p>causa de algo mais. Jônatas teve sua inocência provada por meio do</p><p>lançamento de sorte após a oração de Saul (1Sm 14.41). Lemos</p><p>frequentemente que a sorte foi lançada “a mando do SENHOR” (por exemplo,</p><p>Nm 26.52-56; 33.54; 36.2; Js 13.6; 21.3; Is 34.17; Ez 45.1), ou “diante do</p><p>SENHOR” (por exemplo, Js 18.6-10; 1Sm 10.19). A sorte não era apenas</p><p>lançada, pois o povo tinha de se “santificar para amanhã”, como no caso de</p><p>Acã, relatado em Josué 7. Assim, podemos dizer que, na Bíblia, o</p><p>lançamento de sorte não é, em si, um ato sagrado, mas que se torna sagrado</p><p>somente quando o Senhor quer usá-lo e quando ele tem sido santificado</p><p>pela oração.</p><p>Na Bíblia, nos deparamos também com o lançamento de sorte sem</p><p>referência a uma atividade sagrada.123 Podemos pensar sobre Provérbios</p><p>1.14 (dividir o espólio) e sobre o Salmo 22.19 (dividir as vestes). Ambos os</p><p>textos se referem, claramente, ao uso abusivo da sorte, mas isso não</p><p>implica, necessariamente, que a sorte não pode ser usada como forma</p><p>legítima de divisão de propriedade honradamente adquirida. Haveria, então,</p><p>um uso cotidiano da sorte, semelhante ao que era usado para divisão de</p><p>partes de uma herança, sem ter de haver uma oração prévia. Assim, não é o</p><p>lançamento de sortes em si mesmo, mas o contexto no qual ela ocorre, que</p><p>pode fornecer um caráter sagrado ao lançamento de sortes.</p><p>Mas o que dizer, então, de Provérbios 16.33? “A sorte se lança no</p><p>regaço, mas do SENHOR procede toda decisão”. Não é o lançamento de</p><p>sortes algo muito especial? Podemos responder a essa questão levando em</p><p>consideração um verso similar. Provérbios 16.1 diz: “O coração do homem</p><p>pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do SENHOR.”. Uma</p><p>vez que a resposta é do SENHOR, deveríamos caracterizar a preparação do</p><p>coração (semelhante ao lançamento de sorte) como “buscar o testemunho</p><p>divino”? Pensar é o mesmo que orar? E se pensar não é orar, por que, então,</p><p>lançar sortes, quando o resultado de ambos, lançar sortes e pensar, reside</p><p>em Deus?</p><p>Nossos pais viram em Provérbios 16.33 um texto muito especial. E nós,</p><p>depois de haver colocado nossa posição, gostaríamos de acrescentar:</p><p>precisamente porque lançar sortes é algo tão normal é que Provérbios 16.33</p><p>está na Bíblia; lançar sortes é tão normal quanto se preparar para a batalha</p><p>(Pv 21.31), pensar sobre as coisas a serem ditas (Pv 16.1,9), por os pés no</p><p>caminho (Pv 20.24), observar a grama e a vegetação crescerem para os</p><p>homens e para os animais (Sl 104.14), ver o que é apenas um pardal cair ao</p><p>solo ou um fio de cabelo cair da cabeça (Mt 10.29-30). Mas mesmo em</p><p>todas essas coisas normais — incluindo lançar sortes — podemos ver a</p><p>direção de Deus. Sua providência abrange todas as coisas, até mesmo o</p><p>resultado do lançamento de dados. A sorte é simplesmente lançada no</p><p>regaço; e, especialmente, se esse ato “simples” ocorre em um jogo, talvez se</p><p>imagine que Deus não esteja envolvido nisso. Mas o menor detalhe de</p><p>nossa vida está em sua mão. Do mesmo modo que sem ele não podemos dar</p><p>um passo sequer, não podemos falar uma sílaba e não podemos engolir um</p><p>pedaço de pão, assim também não há resultado de sorte sem Deus. O cristão</p><p>não deve separar da providência de Deus nem mesmo o mais ordinário dos</p><p>detalhes da vida.</p><p>Esse conhecimento contém um chamado: “Portanto, quer comais, quer</p><p>bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus”</p><p>(1Co 10.31). Mesmo quando alguém esteja envolvido em um jogo que</p><p>normalmente emprega o fator da imprevisibilidade por meio do uso de</p><p>dados, um fator que mantém a emoção e o elemento surpresa nesse jogo,</p><p>que faça isso como um cristão. Fazer algo para a glória de Deus, entretanto,</p><p>não significa que alguém pense conscientemente nele e constantemente</p><p>esteja em oração. Quando comemos ou bebemos, dirigimos um carro,</p><p>trabalhos com eletricidade, ou relaxamos divertindo-nos com um jogo,</p><p>muitas vezes não estamos pensando em Deus enquanto agimos. Mas,</p><p>certamente, todas as coisas em nossa vida devem ser feitas visando um</p><p>único objetivo: a glória de Deus.</p><p>Não o Terceiro, mas o Décimo Mandamento</p><p>O lançamento de sortes, portanto, não é uma forma de oração; e o uso de</p><p>dados em um jogo, em uma divisão de partes de uma herança e em diversas</p><p>outras coisas, não pode ser proibido com base no terceiro mandamento.</p><p>Mas, ao dizermos isso, não negamos que a sorte pode ser mal utilizada.</p><p>Milhares de pessoas são aprisionadas pela ganância e cobiça quando se</p><p>envolvem em atividades que só podem existir com o jogo de azar. Não</p><p>podemos separar jogos de azar de cassinos, loterias e sorteios de grandes</p><p>prêmios mediante pequena aplicação de dinheiro. Mas, aqui, estamos</p><p>lidando com temas que têm de ser discutidos em conexão com o décimo</p><p>mandamento, e não com o terceiro. O uso errado do risco em diversos jogos</p><p>de sorte será discutido quando chegarmos ao mandamento: “não</p><p>cobiçarás”.124</p><p>91 J. J. Stamm e M. E. Andrew, The Ten Commandments in Recent Research, London, 1967, p. 89.</p><p>92 No seu Lexicon in Veteris Testamenti Libros, Grand Rapids, 1951, Koehler-Baumgartner nos diz</p><p>que a expressão hebraica significa, no qalal, “ser desprezado”, “insignificante”; e, no piel, significa:</p><p>“declarar insignificante”.</p><p>93 Cf. William L. Holladay, A Concise Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament, Grand</p><p>Rapids, 1971, verbete “kabod”.</p><p>94 C. Trimp, “De heerlijkheid van God (1)”, De Reformatie 54, 1978/79, p. 100.</p><p>95 Os exegetas judeus insistem que esse episódio envolveu o falar o nome de Yahweh e, para isso, os</p><p>judeus apelam para o texto que contém a proibição de até mesmo pronunciar o Nome. Do mesmo</p><p>modo, a Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento) traduz a frase “nomeou o nome”</p><p>(eponomasas to anomaI), provavelmente influenciada pelos exegetas judeus acima mencionados.</p><p>Com base nos versos 15-16, é argumentado que pronunciar o nome “Elohim” é menos sério do que</p><p>dizer o nome “Yahweh”. Para uma refutação dessa exegese, cf. o comentário sobre essa passagem</p><p>feito por K. Piro e A. Clamer, La Saint Bible: Lévitique, Paris, 1946, e as notas que dali se seguem.</p><p>96 Uma questão pode ser levantada: por que Deus teve de ser consultado sobre essa matéria, quando</p><p>ambos, o terceiro mandamento e a maldição por sua transgressão, já eram conhecidos? (Êx 20.7;</p><p>21.15). Mas o episódio de Lv 24 envolvia um estrangeiro. Além disso, as instruções subsequentes</p><p>(regulamentos pertinentes ao assassinato e à punição de injúria) indicam que esses regulamentos que</p><p>vigoravam para os israelitas vigoravam</p><p>também para os estrangeiros (Cf. Lv 24.22: “Uma e a mesma</p><p>lei havereis, tanto para o estrangeiro como para o natural; pois eu sou o SENHOR, vosso Deus”).</p><p>97 Logo após este verso, temos as palavras que, em concordância com exegetas como A. Noordzij</p><p>(Leviticus, trad. Raymond Togtman, Bible Student’s Comentary [Grand Rapids, 1982], 246; cf. nota</p><p>de rodapé 36) e outros, gostaríamos de traduzir como se segue: “Qualquer que amaldiçoe seu deus</p><p>arcará com o seu pecado” (Lv 24.15; observe o vocábulo “deus” com inicial minúscula). Seria já</p><p>digno de nota que um estrangeiro tratasse seu deus com desprezo. Ele estaria mostrando que nada</p><p>para ele seria sagrado. Mas como ele estaria blasfemando contra um ídolo, ele não seria punido em</p><p>Israel. Talvez devesse ser punido por “seu deus”. Contudo, se um israelita ou um não-israelita</p><p>blasfemasse contra o Senhor, o Deus de Israel, então ele mereceria a morte. Em contraste com a</p><p>nossa visão, há intérpretes que entendem que a frase “Aquele que blasfemar o nome do Senhor” se</p><p>refere exclusivamente ao Deus de Israel (observe a inicial maiúscula do vocábulo “Senhor”). De fato,</p><p>essa é a tradução preferida pela maioria das traduções. Assim, é de se surpreender que essas versões</p><p>mantenham o pronome possessivo seu na expressão “seu Deus”.</p><p>98 H. Bullinger, Huijs-boeck, Amsterdam, 1607, p. 44; J. H. Alstedt, Theologia catechetica,</p><p>Hanover, 1622, p. 566; P. van der Hagen, De Heydelbergsche Catechismus, Amsterdam, 1743, p.</p><p>403; B. Smytegelt, Des Christens eenige troost, Leiden, 1747, p. 516.</p><p>99 A. C. Kruyt, “Her Derde Gebod”, em Sinai en Ardjoeno, ed. Th. Delleman, Aalten, 1946, p. 84,</p><p>85. A situação é diferente entre os Maometanos. O nome “Alá” se tornou vazio devido à repetição.</p><p>Usando esse nome nas frequente e infindáveis repetições da confissão: “Só Alá é Deus e Maomé o</p><p>seu profeta”, as pessoas facilmente usam o nome de Alá de modo frívolo no dia a dia (p. 85).</p><p>100 M. Lockman, Wegweisung der Freiheit, Gütersloh, 1979, p. 49. Lockman usa uma palavra de</p><p>Lutero, “Puppensünden”, que este obteve de seu confessor, von Staupitz. Von Staupitz pretendia</p><p>descrever esses pecados “menores” em contraste com as transgressões pesadas como amaldiçoar os</p><p>pais, a blasfêmia pública ou o adultério (Lutero, Weimarer Ausgabe Tischreden, no. 6669).</p><p>101 Essas sugestões, reproduzidas aqui quase que literalmente, são dadas por B. Roolvink, We vloeky</p><p>verliest, uma publicação da Alliance Against Cursing, Veenendaal, 1977, p. 23.</p><p>102 Essa símile vem de J. H. Alstedt, Theologia catechetica, p. 566.</p><p>103 O autor está se referindo à sua experiência com um mundo extremamente secularizado. A</p><p>ultramodernidade, contudo, trouxe de volta o misticismo com suas feitiçarias e encantamentos e,</p><p>mesmo que nos países mais sofisticados eles tenham valor mais estético, ainda assim fazem usos de</p><p>imprecações. Em países como o Brasil, a cultura do catolicismo misturado com o espiritismo e com a</p><p>nova cultura “evangélica” torna a imprecação mais comum e fácil. – N. do T.</p><p>104 Para a história do voto, cf. J. J. de Waal Malefijt, De eed ter beslissingvan het geding, Utrecht,</p><p>1907, p. 66ss. Os filósofos Kant e Fichte, entre outros, consideraram o voto como sendo inferior à</p><p>dignidade de um homem.</p><p>105 Colocar a mão sob a coxa de alguém — isto é, próximo ao órgão de procriação — é mencionado</p><p>somente nessas duas passagens; ambas as vezes em situação de expectativa de morte. Em seu</p><p>comentário sobre Gênesis, Claus Westrmann diz: “Aquele que está enfrentando a morte assegura sua</p><p>última vontade com um voto na fonte de vida” (Gn 12-36: A Commentary, trad. John J. Scullion,</p><p>Minneapolis, 1985, p. 384).</p><p>106 Talvez o ato de se levantar a mão mostrando dois dedos levantados tenha a ver com as duas</p><p>testemunhas (Deus e a pessoa que presta o voto). Outras formas de fazer votos incluem colocar uma</p><p>mão na Bíblia outra na cruz. Um judeu geralmente faz um voto tendo a cabeça coberta. Cf. W.</p><p>Geesink, Gereformeerd ethich, Kampen, 1931, 1, p. 303, e o artigo escrito por P. J. Verdam sobre</p><p>“Votos” em Christelijke encyclopaedie, 2a. ed., Kampen, 1957, vol. 2.</p><p>107 Nos Estados Unidos é dito: “Juro, assim me ajude o Senhor”; entre os alemães, a forma comum</p><p>era: “Hialpi mer sva Freijer [o nome de algum deus]”, em que a deidade era convocada para ajudar</p><p>da promessa de alguém de dizer a verdade e de não ajudar o perjuro. A palavra hialpi é a origem do</p><p>“assim me ajude o Senhor” do voto americano. Cf. W. Geesink, Gereformeerde ethick, 1, p. 302. A</p><p>sugestão feita por alguns de que help possa significar “ajude-me a morrer”, constituindo assim uma</p><p>automaldição (lembre-se da fórmula bíblica: “Faça Deus isso comigo se [...]”), não encontra apoio</p><p>nos dicionários da Idade Média e do período posterior.</p><p>108 Desde os tempos de Jerônimo, três critérios foram formulados no pensamento moral cristão: (1)</p><p>veritas in mente, que significa que uma pessoa deve ter um espírito verdadeiro; (2) ius in iurante, que</p><p>significa que a pessoa que presta o voto deve possuir a capacidade de discernimento; assim, nenhuma</p><p>criança ou pessoa mentalmente incompetente poderia assumir um voto; e (3) iustita in objecto, que</p><p>significa que o sujeito, ou a matéria, envolvido no voto deve ser moralmente legítimo e não constituir</p><p>conflito com a religião ou com a moral.</p><p>109 João Calvino, Institutas, 2.8.27.</p><p>110 Nas Institutas, Calvino diz que os juramentos privados não devem ser condenados, conquanto</p><p>sejam usados “quae sobrir, cancte, reverenter necessariis rebus” (sobriamente, com intento santo,</p><p>reverentemente e em circunstâncias de necessidade). Observe, em circunstâncias de necessidade (e</p><p>não apenas de emergência).</p><p>111 Por isso, os juramentos na Bíblia que são feitos com um apelo especial a pessoas têm sido</p><p>sempre difíceis de interpretar. Por exemplo, o juramento “Pela vida de Faraó (Gn 42.15), feito por</p><p>José a Faraó. Outros incluem: “Ah! Meu senhor [Eli], tão certo como vives” (1 Sm 1.26), ou “Tão</p><p>certo como tu vives, ó rei, [Saul]” (1 Sm 17.55). Plenamente em acordo com o que outros têm escrito</p><p>sobre esses exemplos, William Perkins insistiu que José ou havia pecado jurando dessa maneira, ou</p><p>havia apenas usado uma linguagem mais forte que não deve ser tomada como um juramento (Alle de</p><p>werken, Amsterdam, 1659, 3.1.205).</p><p>112 Cf. W. Balke, Calvin and the Radical Anabaptists. Os Anabatistas se refugiam em uma mini-</p><p>igreja (“ecclesiola”), a qual, na verdade, constitui um miniestado (“imperiolum”).</p><p>113 Em relação a isso, lembre-se da Confissão Belga, a qual no Artigo 30 trata sobre a política da</p><p>igreja, e no Artigo 36, sobre o governo civil e suas políticas.</p><p>114 L. Danaeus, Ethice Christian, Geneva, 1577, p. 161; A. Rivetus, Praelectiones in cap. XX Exodi,</p><p>em Opera theologica, Rotterdam, 1651, p. 1288ss. Cf., também, W. Amesius, Medulla theologica,</p><p>Amsterdam, 1641, 2.10.34; B. de Moor, Compendium, Leiden, 1763, 2.765.</p><p>115 O que está em pauta nessa conexão é a iustitia in obiecto, a legitimidade do que o juramento se</p><p>propõe. Leia o comentário anterior sobre os três critérios de Jerônimo para a validade de juramentos.</p><p>Herodes, por exemplo, foi obrigado a quebrar sua promessa jurada, o que o levou a decapitar João</p><p>Batista.</p><p>116 W. Geensing, Van’s Heeren ardinabtiën, 2.ª ed., Kapens, 1925, 3, p. 393.</p><p>117 Por exemplo, D. Knibbe, De leere der Gereformeerde Kerk, volgens de order van de</p><p>Heydelbergsche Cathechismus, Leiden, 1751, p. 758, registra quatro observações: (1) Os Salmos</p><p>imprecatórios não procedem de ódio, mas do zelo pela honra de Deus. (2) O salmista recebeu uma</p><p>revelação especial. (3) Essas são expressões proféticas. (4) Elas envolvem os inimigos de Deus e do</p><p>seu povo. No Catechiastie van den Heydelbergschen Catechismus, de Voetuis, ed. A. Kuyper,</p><p>Rotterdam, 1891, 2, p. 814, é feita esta questão: “Por que não oramos contra todo governo papal ou</p><p>islâmico?”. Resposta: “Porque eles não se mostram declaradamente como absolutos inimigos e</p><p>perseguidores da Palavra e da igreja do Senhor”.</p><p>118 A. Kuyper, E voto Dordraceno, 3.a ed., Kampen, 1892-95, 3, p. 360-61. Cf., também, J. Douma,</p><p>De onmisbaarheid van de</p><p>personele ethieck, 2.a ed., Groningen, 1971, p. 15ss.</p><p>119 Não entraremos em detalhes aqui, mas simplesmente mencionaremos três pontos que aparecem</p><p>nos primeiros e nos mais modernos comentários sobre o terceiro mandamento:</p><p>A sortilegia biblica: uma pessoa abre a Bíblia ao acaso e considera o verso em que primeiro bate os</p><p>olhos como a resposta divina para um problema.</p><p>O uso impróprio de um verso: por exemplo, “provai todas as coisas e retende o que é bom” em</p><p>termos de comida e de bebida para a alimentação diária.</p><p>Usar versos bíblicos para palavras cruzadas e coisas semelhantes: pense, por exemplo, acerca da</p><p>Olimpíada da Bíblia realizada em Jerusalém em 1964, citada por alguém como “tomar o nome de</p><p>Deus em vão”.</p><p>Devemos condenar o uso superficial de versos bíblicos, mas podemos condenar absolutamente o uso</p><p>da Bíblia para palavras cruzadas e competições? Se tais coisas aprofundam o conhecimento da</p><p>Escritura, gostaríamos de saber qual o princípio que requer sua condenação.</p><p>120 Para a discussão de Alsted sobre o assunto, cf. Theologia casuum, Hannover, 1630, p. 263ss.</p><p>121 G. Voetius, Disceptatio de lusu aleae, Ultrecht, 1660, p. 105. Em relação a esta seção sobre</p><p>lançamento de sortes e o terceiro mantamento, o leitor interessado pode consultar seus artigos</p><p>publicados em De Reformatie 53, 1977-78, 749ss; e De Reformatie 54, 1978-79, p. 22ss.</p><p>122 Johannes à Marck, Het merch der Christene Got-geleertheit, Rotterdam, 1740, p. 258.</p><p>123 Cf. Joh. Lindblom, “Lot-casting in the Old Testament”, Vetus Testamentum, 12, 1962, p. 164-78.</p><p>124 É surpreendente que os primeiros comentaristas reformados tenham proibido o lançamento de</p><p>sortes, mas não tenham proibido as apostas. Nas apostas, as partes que discordam sobre certa matéria</p><p>prometem uma a outra algo que beneficiará aquele cuja opinião se provar correta (esta é a opinião de</p><p>W. Geesink, Van’s Heeren ordinantiën, 4.343). Em uma aposta, uma parte pode ter vantagem sobre a</p><p>outra por meio de um conhecimento superior à sua disposição. Pense, por exemplo, sobre a aposta de</p><p>Sansão com os filisteus (Jz 14). É precisamente essa demonstração de ingenuidade em uma aposta</p><p>que a tornou (em contraste com o lançamento de sortes) aceitável ao povo reformado. Apostar,</p><p>entretanto, poderia ir além dos limites “se a matéria envolver ocorrências além da habilidade ou do</p><p>conhecimento humano, mas diretamente dependente da providência de Deus, pois em tais casos</p><p>estaria testando Deus, colocando limites à sua santidade (Sl 78.41); ou se aquilo que foi mutuamente</p><p>prometido perde suas qualidades honrosas porque alguém pretende obter lucro pessoal por meio da</p><p>perda sofrida pelo seu oponente, pois isso seria uma maneira ilegítima de aquisição de propriedade”</p><p>(Geesink, Van; Heeren ordinantiën, 4.344).</p><p>O QUARTO MANDAMENTO</p><p>Lembra-te do dia de sábado,125 para o santificar. Seis dias trabalharás e</p><p>farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu</p><p>Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua</p><p>filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o</p><p>forasteiro das tuas portas para dentro; porque, em seis dias, fez o</p><p>SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia,</p><p>descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou.</p><p>(Êxodo 20.8-11)</p><p>Guarda o dia de sábado, para o santificar, como te ordenou o SENHOR,</p><p>teu Deus. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo</p><p>dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem</p><p>tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva,</p><p>nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o</p><p>estrangeiro das tuas portas para dentro, para que o teu servo e a tua</p><p>serva descansem como tu; porque te lembrarás que foste servo na terra</p><p>do Egito e que o SENHOR, teu Deus, te tirou dali com mão poderosa e</p><p>braço estendido; pelo que o SENHOR, teu Deus, te ordenou que</p><p>guardasses o dia de sábado. (Dt 5.12-15)</p><p>Dificuldades</p><p>Nenhum mandamento tem causado mais controvérsia acerca de sua</p><p>interpretação como o quarto mandamento. Diversas questões precisam ser</p><p>respondidas. Eis algumas delas: quando o Shabbath foi instituído: na</p><p>Criação (Gn 2.2-3) ou depois da saída de Israel do Egito? Seria o Shabbath,</p><p>como dia de descanso, algo peculiar à nação de Israel, ou esse mandamento</p><p>é válido da mesma forma para os dias de hoje? Foi o Shabbath judaico</p><p>substituído pelo domingo, ou nossa observância do domingo é desconectada</p><p>do quarto mandamento?</p><p>Seria bom se pudéssemos traçar uma linha desde o Éden até hoje.</p><p>Alguns intérpretes insistem em que o Shabbath foi instituído no Paraíso,</p><p>guardado pelos patriarcas, repetido como mandamento no Sinai, e</p><p>transposto por Cristo do dia sábado para o dia de domingo, e, portanto,</p><p>observado com base no quarto mandamento desde o início da igreja do</p><p>Novo Testamento.126</p><p>Mas a questão não é assim tão simples. Podemos identificar pelo menos</p><p>quatro dificuldades nessa argumentação.</p><p>Em primeiro lugar, chama a nossa atenção o fato que nos deparamos</p><p>com o Shabbath do Antigo Testamento, pela primeira vez, em Êxodo 16.</p><p>Há alguns elementos em determinados textos da Escritura que apontam para</p><p>uma semana de sete dias. Por exemplo, na narrativa sobre o casamento de</p><p>Jacó com Lia, somos informados a respeito de uma festa com a duração de</p><p>uma semana (Gn 29.27-28). Mas isso não é o mesmo que dizer que, nessas</p><p>ocasiões, a festa terminasse com um Shabbath. Não havia Shabbath nesse</p><p>tempo, ou ele simplesmente não foi mencionado? Os patriarcas viveram</p><p>nesse longo período do Éden ao Sinai. Isso levanta uma questão: se estamos</p><p>lidando com uma ordenança da Criação, por que é que nada lemos a</p><p>respeito do dia do Shabbath durante esse período? Alguns intérpretes</p><p>tentam encontrar uma origem ou, pelo menos, traços de um Shabbath fora</p><p>de Israel, na terra da Babilônia, entre os cananeus, entre os queneus, e</p><p>outros, mas sem sucesso.127</p><p>Isso nos leva diretamente à segunda dificuldade: será que é assim tão</p><p>evidente que, em Gênesis 2.2-3, Deus ordenou a observância do Shabbath</p><p>já no Paraíso? Estritamente falando, nada mais encontramos além do fato de</p><p>que Deus descansou no sétimo dia, e assim abençoou e santificou esse dia.</p><p>A passagem, na verdade, fala de descanso — o descanso do Senhor — mas</p><p>não sobre o Shabbath como um descanso prescrito para o homem. Não seria</p><p>o caso de que somente mais tarde, no Sinai, foi feita uma ligação com o que</p><p>o próprio Senhor havia feito após o sexto dia da obra da Criação? Um</p><p>evento passado se tornou o fundamento para a observância do Shabbath.</p><p>Em Êxodo 20, esse fundamento é o descanso do Senhor no sétimo dia, logo</p><p>depois da obra da Criação. Em Deuteronômio 5, esse fundamento é a</p><p>redenção que Deus operou ao tirar o seu povo do Egito. Aquilo que Yahweh</p><p>um dia fez para si mesmo com respeito ao sétimo dia (santificou esse dia,</p><p>isto é, deu a esse dia um caráter diferente do dos outros dias), agora ele</p><p>ordena a Israel.</p><p>Em terceiro lugar, o Shabbath não é explicitamente mantido no Novo</p><p>Testamento. Não lemos em nenhum lugar que o Shabbath deve ser</p><p>observado pela igreja cristã em conformidade com o quarto mandamento.</p><p>Lemos, sim, que diversas vezes os discípulos ou uma congregação se reuniu</p><p>no domingo (“no primeiro dia da semana”, Jo 20.19,26; At 20.7), e que</p><p>nesse dia também os cristãos de Corinto deveriam separar uma oferta para a</p><p>congregação de Jerusalém (1Co 16.2). Sabemos também que João recebeu</p><p>o Espírito na ilha de Patmos, no “dia do Senhor” (Ap 1.10), algo que nos</p><p>leva a pensar imediatamente no domingo como o dia da ressurreição de</p><p>Cristo.</p><p>Mas será que isso significa que o domingo substituiu o Shabbath</p><p>judaico? Não é um exagero afirmar que Cristo mudou o dia do Shabbath</p><p>judaico para o dia de domingo, quando não encontramos nenhuma</p><p>referência a isso em nenhum lugar do Novo Testamento?</p><p>O que devemos fazer com as cartas de Paulo que deixam a impressão de</p><p>que não precisamos mais observar um dia especial de descanso? Não</p><p>podemos valorizar um dia mais do que o outro, diz Paulo (Rm 14.5). Ele</p><p>condena o costume dos gálatas de</p><p>observar “dias e meses e anos” (Gl 4.10).</p><p>E até mesmo chama a guarda de dias de festa, luas novas e Shabbath de</p><p>“sombra das coisas que haviam de vir” (Cl 2.16,17). Não indica tudo isso</p><p>que o Shabbath israelita já passou como uma sombra, uma vez que a sua</p><p>realidade chegou com Cristo?</p><p>Em quarto lugar, alguém pode argumentar que, desde o princípio, a</p><p>igreja do Novo Testamento observou o domingo com base no quarto</p><p>mandamento, mas há muitos indícios de que a igreja dos primeiros séculos</p><p>não procedeu assim. Antes do segundo século, não encontramos nada que</p><p>sugira que os crentes descansaram do trabalho no domingo. Temos a</p><p>impressão, por exemplo, de que as pessoas se reuniam pela manhã e no</p><p>final da tarde no domingo, enquanto usavam o intervalo entre as reuniões</p><p>para o labor diário.128</p><p>Em 321 A.D., sob o domínio do imperador Constantino, o domingo foi</p><p>proclamado dia de descanso. Certamente, esse foi um evento marcante, mas</p><p>o seu impacto sobre os séculos subsequentes não pode ser demasiadamente</p><p>valorizado. Porém, seria um erro pensar que essa decisão conduziu a um</p><p>novo Shabbath com estrita prescrição de descanso. Constantino permitiu</p><p>que os fazendeiros trabalhassem aos domingos porque esse era,</p><p>frequentemente, o melhor dia para semear e plantar. Na opinião de</p><p>Constantino, não se poderia deixar passar uma oportunidade adequada</p><p>oferecida pela propícia providência de Deus.129</p><p>A instituição do domingo como dia de descanso também não significou,</p><p>para o imperador cristão, que daí por diante as atividades eclesiásticas</p><p>deveriam se concentrar no domingo. Sozomenos, um historiador grego da</p><p>igreja, relata que, até o quinto século, os cristãos não tinham um tempo</p><p>específico ou uma maneira uniforme de reunir as igrejas. Algumas se</p><p>reuniam no dia do Shabbath judaico, outras, no domingo.130</p><p>As discordâncias sobre o caráter do descanso dominical continuaram. O</p><p>Concílio de Orleans (538) prescreveu descanso do trabalho agrícola aos</p><p>domingos, mas viam os regulamentos que regiam matérias como viajar aos</p><p>domingos, preparo de refeição, tarefas relacionadas ao lar ou cuidado</p><p>pessoal, como pertencente mais à superstição judaica do que como</p><p>observância cristã do Dia do Senhor.131</p><p>Quando pesquisamos a história da igreja, vemos que, por muitos</p><p>séculos, não há indicação de que o domingo tenha sido observado “com</p><p>base no” quarto mandamento.132 Certamente, encontramos a conexão entre</p><p>o Shabbath judaico e o domingo ao longo dos primeiros séculos, mas foi</p><p>somente na Idade Média que tal conexão foi explicitamente argumentada</p><p>em escritos teológicos.</p><p>Esses quatro pontos podem ser resumidos na seguinte questão: foi o</p><p>Shabbath judaico transformado no domingo? Não são o Shabbath judaico e</p><p>o domingo tão distintos, a ponto de não poderem ser adequadamente</p><p>equiparados?</p><p>Celebrando o Shabbath</p><p>Antes de responder a essa questão, precisamos saber o que era,</p><p>precisamente, o Shabbath. A posição amplamente difundida é a de que o</p><p>Shabbath era uma instituição opressiva, da qual fomos, felizmente,</p><p>desobrigados depois da vinda de Cristo. Qualquer um que defenda essa</p><p>posição tem de enfrentar diversos fatos, tanto do Antigo como do Novo</p><p>Testamento, que indicam a ideia oposta. Analisemos alguns deles.</p><p>Ao israelita, era ordenado que descansasse no Shabbath a fim de que se</p><p>revigorasse (Êx 23.12). Fazia isso imitando o próprio Deus, de quem se diz</p><p>que descansou no sétimo dia, depois da obra da Criação, “e tomou alento”</p><p>(Êx 31.17).</p><p>Quando lemos a repetição do quarto mandamento encontrada em</p><p>Deuteronômio, as instruções para se observar o Shabbath são</p><p>fundamentadas na saída de Israel do Egito. Israel deve se lembrar que foi</p><p>escravo no Egito e, em contraste com essa escravidão, deve agora</p><p>experimentar o Shabbath como “um dia de libertação”. Até mesmo os</p><p>servos devem desfrutar desse dia para o completo descanso. Em Israel, os</p><p>escravos desfrutavam do verdadeiro significado da liberdade do extenuante</p><p>labor diário por meio da bondade de seus senhores, os quais se lembravam</p><p>de que foram oprimidos no Egito. O Shabbath era uma comemoração da</p><p>libertação.</p><p>Isso fica ainda mais evidente na explicação do Shabbath como uma</p><p>comemoração semanal do êxodo: da mesma forma que a igreja comemora a</p><p>ressurreição de Cristo, não apenas anualmente, na Páscoa, mas também a</p><p>cada domingo, assim também Israel comemorava, além da festa da Páscoa,</p><p>a celebração semanal do êxodo.133 O Shabbath era, portanto, uma festa de</p><p>comemoração da libertação. Esse tipo de comemoração dificilmente poderia</p><p>ser opressivo, se o Shabbath fosse comemorado de acordo com sua intenção</p><p>original.</p><p>Em perfeita harmonia com essa compreensão, está o Salmo intitulado:</p><p>“Cântico para o dia do sábado [Shabbath]” (Sl 92) e a descrição desse dia</p><p>como deleitoso (Is 58.13).</p><p>Essa ênfase do Antigo Testamento ocorre também no Novo Testamento.</p><p>Quando Jesus realizou várias obras no Shabbath, muitos reagiram a ele com</p><p>espanto e resistência. Cristo e seus discípulos fizeram coisas que não eram</p><p>“permitidas” no Shabbath (Mc 2.24). Quando, em um Shabbath, seus</p><p>discípulos estavam famintos, Jesus permitiu que eles colhessem espigas (Mt</p><p>12.1-8). Em um Shabbath, ele curou um homem que tinha a mão mirrada</p><p>(Mc 3.2-5), uma mulher encurvada que estava enferma há 18 anos (Lc</p><p>13.11-17), um homem hidrópico (Lc 14.2-4), e alguém que estivera doente</p><p>havia 38 anos (Jo 5.5-9). Tudo isso era proibido pelos escribas e fariseus,</p><p>mas o próprio Jesus julgou que essas atividades se harmonizavam</p><p>perfeitamente com o quarto mandamento. Ele acusou seus oponentes de</p><p>hipocrisia. Afinal, será que eles, em um Shabbath, hesitariam em</p><p>desprender seu boi ou seu jumento da manjedoura para levá-los a beber</p><p>água? Por que, então, não libertar uma filha de Abraão das garras de</p><p>Satanás nas quais estava presa por 18 anos? (Lc 13.15-16). Se, em um</p><p>Shabbath, aqueles líderes religiosos não hesitariam em resgatar um a ovelha</p><p>ou um boi de uma cova — quanto mais valor tem uma pessoa do que um</p><p>boi ou uma ovelha? (Mt 12.11-12; Lc 14.5). Se eles permitiam que alguém</p><p>fosse circuncidado no Shabbath, por que estariam eles irados contra Jesus</p><p>por haver restaurado completamente uma pessoa em um Shabbath? (Jo</p><p>7.23).</p><p>O que Jesus estava fazendo no Shabbath certamente conflitava com a</p><p>interpretação judaica da Lei, na forma como a encontramos na conhecida</p><p>halacha, a coleção de preceitos legais e regras de jurisprudência</p><p>estabelecidas e registradas pelos escribas, as quais serviam como modelos</p><p>autoritativos de interpretação e aplicação da Lei de Moisés. Mas as ações de</p><p>Jesus não conflitavam com a Lei em si. Pelo contrário, o que ele fez no</p><p>Shabbath e o que ele disse sobre o Shabbath correspondia plenamente</p><p>àquela alegria e restauração características do dia do Shabbath prescrito no</p><p>Antigo Testamento. Os escribas e os fariseus, os quais com suas centenas de</p><p>regulamentos tinham deturpado o significado daquele dia, foram</p><p>repreendidos por Jesus quando ele disse: “O sábado foi estabelecido por</p><p>causa do homem e não o homem por causa do sábado” (Mc 2.27).</p><p>Esse verso, bastante conhecido, não deve ser interpretado para se dizer</p><p>que todos estavam livres para usar o Shabbath como lhes aprouvesse. Mas</p><p>esse dito de Jesus torna claro que o Shabbath é um dom e uma bênção para</p><p>o homem, sendo, portanto, algo diferente de um regulamento legal cujo</p><p>objetivo reside simplesmente em uma estrita observância.134 O Shabbath</p><p>não foi estabelecido para colocar uma camisa de força nas pessoas, como se</p><p>fosse uma lista de “faça” e “não faça”, mas foi estabelecido, sim, para ser</p><p>comemorado sem grandes empecilhos. Assim como acontece com outros</p><p>mandamentos, Jesus “soprou o pó de sobre a Lei”, aqui também, de modo</p><p>muito especial, ele restaurou o quarto mandamento ao seu brilho e beleza</p><p>originais.</p><p>Cumprindo o Shabbath</p><p>As palavras de Jesus, de que o Shabbath foi feito para o homem e não o</p><p>homem para o Shabbath, são importantes para a nossa discussão e não</p><p>podem ser interpretadas apenas para dizer que o único propósito do</p><p>Shabbath é nosso descanso. Ao israelita, era permitido “recuperar seu</p><p>fôlego”, juntamente</p><p>mas orvalho, o que caracteriza a Lei</p><p>dada em Horebe. No frontispício da Lei não há ênfase na restrição, mas sim</p><p>a preocupação de impedir que alguém que tenha sido liberto caia</p><p>novamente em escravidão.</p><p>A isso devemos acrescentar a observação de que a vida segundo a Lei é</p><p>uma vida santa. De modo especial, o livro de Levítico mostra claramente</p><p>que essa vida santa está intimamente ligada à libertação da escravidão no</p><p>Egito. Nesse livro da Bíblia, vemos o Prólogo dos Dez Mandamentos</p><p>regularmente repetido, frequentemente relacionado com a exortação: “vós</p><p>sereis santos, porque Eu sou santo” (Lv 11.45; 19.2; 23.31-33). O que</p><p>significa isso, concretamente? Indica que Israel não pode se comportar</p><p>como o povo do Egito, nem muito menos como os povos de Canaã para</p><p>onde foi conduzido (Lv 18.3). Yahweh separou Israel das nações para que</p><p>fosse povo de sua propriedade (Lv 20.26). O próprio Yahweh é santo, o que</p><p>significa que ele é completamente diferente de todos os “outros deuses”; da</p><p>mesma forma, seu povo não mais poderia viver segundo o estilo de vida do</p><p>Egito, a terra da qual havia sido retirado. Israel deveria viver de modo</p><p>diferente em todas as dimensões da vida, um estilo diferente do encontrado</p><p>no Egito ou entre os povos pagãos de Canaã. Desfrutar liberdade significa</p><p>viver a antítese. A um Deus separado pertence um povo separado: “reino de</p><p>sacerdotes e nação santa” (Êx 19.6).</p><p>Do Antigo ao Novo Testamento</p><p>Os três elementos marcantes do Prólogo dos Dez Mandamentos</p><p>mencionados acima se tornam ainda mais evidentes quando nos movemos</p><p>do Antigo para o Novo Testamento. Moisés, o mediador da antiga aliança</p><p>no Sinai, dá lugar ao Senhor Jesus, o Mediador da nova — e melhor —</p><p>aliança (Hb 8.6; 9.15; 12.24). Fundamentalmente, a melhor aliança não é</p><p>outra aliança, nem mesmo no que diz respeito aos Dez Mandamentos.</p><p>Consideramos em outro lugar a validade intrínseca dos Dez Mandamentos.3</p><p>Juntamente com Calvino, insistimos que a aliança com Israel não difere</p><p>em “essência e substância” da aliança do Novo Testamento, mas que</p><p>diferem apenas quanto à administração. A nova aliança não é mais</p><p>estabelecida apenas com uma nação (Israel), mas estende-se aos crentes e a</p><p>seus descendentes de todas as nações do mundo (At 2.39; Rm 9.24-26; Ef</p><p>2.11-22). Além disso, as práticas do culto associadas a sacerdotes,</p><p>sacrifícios de animais e dias de festas findaram quando essas “sombras”</p><p>foram reconsideradas e as suas realidades vieram com Cristo (Cl 2.16-17;</p><p>Hb 5-10).4 Devido a essas e outras mudanças, não é mais possível falar</p><p>sobre os Dez Mandamentos sem relacioná-los à obra de Jesus Cristo. Com</p><p>ele, eles recebem uma interpretação mais abrangente e profunda do que</p><p>aquela que foi dada ao pé do monte Sinai.</p><p>Isso deve nos impressionar quando lemos o Prólogo dos Dez</p><p>Mandamentos. Mostramos antes que, em primeiro lugar, Deus se apresenta</p><p>no Prólogo em toda a sua Majestade. Sujeito a essa majestade está não só</p><p>Israel, mas o mundo todo. Isso era verdadeiro também quando Yahweh</p><p>estabeleceu seu pacto com Israel no Sinai, pois, mesmo lá, ele declarou que</p><p>toda a terra lhe pertencia (Êx 19.5). Porém, à luz do Novo Testamento,</p><p>vemos melhor como todas as coisas são dele, por meio dele e para ele (Rm</p><p>11.36), e como ele é digno de receber glória, honra e poder de todas as</p><p>nações (Ap 4.11; 21.26). Vemos também como toda autoridade foi dadas a</p><p>Cristo no céu e na terra (Mt 28.18), e que diante dele todo joelho tem de se</p><p>dobrar e toda língua confessar que “Jesus Cristo é Senhor para a glória de</p><p>Deus Pai” (Fp 2.10-11).</p><p>Além disso, o que o Prólogo diz sobre Deus como o grande Libertador</p><p>recebe um significado mais profundo no Novo Testamento. Já no Antigo</p><p>Testamento, a impressionante libertação da escravidão do Egito tinha um</p><p>significado mais amplo. Jeremias anunciou que viria o dia quando o povo</p><p>não mais diria: “Tão certo como vive o SENHOR, que fez subir os filhos de</p><p>Israel do Egito; mas: Tão certo como vive o SENHOR, que fez subir os filhos</p><p>de Israel da terra do Norte e de todas as terras para onde os tinha lançado.</p><p>Pois eu os farei voltar para a sua terra, que dei a seus pais” (Jr 16.14-15).</p><p>Mas a grande libertação realizada por meio de Jesus Cristo seria superior a</p><p>qualquer outra libertação. A antiga Páscoa é reconsiderada pela nova, pois o</p><p>próprio Cristo se tornou o Cordeiro do sacrifício pascal (1Co 5.7). A</p><p>libertação da escravidão do Egito se tornou nosso livramento do poder das</p><p>trevas, da escravidão do pecado, para que pudéssemos receber um lugar no</p><p>reino de Cristo (Cl 1.13; 1Pe 2.9).</p><p>Aqui também, o caráter gracioso desse livramento deve nos</p><p>impressionar: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem</p><p>de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef</p><p>2.8,9). Assim como Israel não escapou da escravidão do Egito pelo seu</p><p>próprio esforço, da mesma forma o grande livramento realizado por Cristo</p><p>deve ser considerado imerecido. Mais uma vez, as antigas promessas dadas</p><p>a Abraão se cumprem. Em Cristo, Deus demonstrou sua misericórdia a</p><p>Abraão e aos seus descendentes para todo o sempre (Lc 1.55) e lembrou-se</p><p>do juramento que havia feito a Abraão (Lc 1.73). Aquilo que Deus declarou</p><p>uma vez a Abraão — “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn</p><p>12.3) — alcança agora seu pleno cumprimento naqueles que creem em</p><p>Cristo. A esse respeito, as distinções entre judeus e gentios não mais</p><p>existem, nem entre escravo e livre, nem entre macho e fêmea. Todos eles</p><p>são um em Cristo, e qualquer pessoa que pertence a Cristo é filho de</p><p>Abraão e herdeiro segundo a promessa (Gl 3.7-14,28-29).</p><p>Em terceiro ligar, devemos observar que o Deus que se apresenta como</p><p>o Legislador, o faz como nosso Libertador em Cristo de modo mais</p><p>explícito do que sob a antiga aliança. Apelando para as misericórdias de</p><p>Deus, Paulo convoca-nos a apresentar nossa vida a Deus em sacrifício vivo</p><p>(Rm 12.1). Fomos escolhidos a fim de viver santa e imaculadamente diante</p><p>de Deus (Ef 1.4). Deus nos criou em Cristo para as boas obras as quais ele,</p><p>de antemão, preparou para quer andássemos nelas (Ef 2.10). Primeiro vem</p><p>o Evangelho; depois, a Lei. Os homens devem permanecer firmes em sua</p><p>liberdade e não se permitir cair em novo jugo de escravidão (Gl 5.1).</p><p>Devemos despedir-nos da vida antiga e pecaminosa e não nos deixarmos</p><p>seduzir pelos desejos de outrora quando ainda não conhecíamos coisa</p><p>melhor. Pois, como é santo aquele que nos chamou, assim também devemos</p><p>ser santos em nosso andar, como Pedro diz, fazendo uso de um verso do</p><p>Antigo Testamento: “Sede santos porque eu sou santo” (1Pe 1.15-16).</p><p>Esse santo modo de viver também se coloca em contraste com o modo</p><p>de viver mundano, do qual fomos libertados. Temos de ser imaculados e</p><p>sem mancha, filhos que vivem piedosamente no meio de uma geração</p><p>corrupta e perversa, como estrelas brilhando no mundo de trevas (Fp 2.15).</p><p>A libertação do Egito, ou da casa da escravidão de qualquer pecado, requer</p><p>uma antítese visível no estilo de vida entre o antes e o agora.</p><p>Não Uma Teologia da Libertação</p><p>Escrever sobre os Dez Mandamentos é escrever sobre os mandamentos do</p><p>Senhor e sobre sua Lei, os quais não perderam sua relevância na nova</p><p>aliança. Mas não podemos discutir apropriadamente sobre essa lei sem falar</p><p>também, continuamente, sobre liberdade e libertação. O Prólogo nos</p><p>adverte contra o erro de transformar o Decálogo em um conjunto de</p><p>prescrições usado para manter-nos escravos. Antes, os mandamentos são</p><p>regras de vida para um povo liberto, que deve não ser tolo o bastante para</p><p>cair outra vez em escravidão.</p><p>Além disso, poder-se-ia escrever sobre a libertação do Egito e sobre os</p><p>Dez Mandamentos dados em conexão com esse livramento, de modo a nos</p><p>conduzir por um caminho errado. Temos em mente a moderna Teologia da</p><p>Libertação. No centro dessa teologia está a libertação das diversas injustiças</p><p>sociais. Assim como Israel deixou o Egito, assim também a humanidade</p><p>oprimida deve derrubar seus diversos opressores. Grupos oprimidos devem</p><p>fugir da escravidão do apartheid, do capitalismo, da sociedade patriarcal,</p><p>dos costumes heterossexuais,</p><p>com seus empregados, com os estrangeiros e com seus</p><p>animais. Nesse dia, ele estaria “livre” para festejar. Mas o Shabbath envolve</p><p>mais do que isso. O Shabbath foi feito para o homem, mas Yahweh fala</p><p>dele como seu Shabbath (Êx 31.13; Lv 19.3,30; Is 56.4; Ez 20.10). Tanto</p><p>em Êxodo quanto em Deuteronômio, o texto do quarto mandamento fala</p><p>sobre “o sábado do Senhor, teu Deus”. Claramente, o Shabbath era um dia</p><p>para ser preenchido com louvores ao Senhor (Sl 92) e, de modo muito</p><p>especial, com o exercício da comunhão. Sacrifícios extras eram trazidos no</p><p>Shabbath (Nm 28.9-10), e eram feitas santas convocações no Shabbath (Lv</p><p>23.7-8; Is 1.13). Observar o Shabbath do Senhor significa honrar o</p><p>santuário de Yahweh (Lv 19.30; 26.2).</p><p>Aparentemente, o descanso estava relacionado com as santas</p><p>assembleias e o louvor a Yahweh. Frequentemente, essas coisas são</p><p>mencionadas em conjuto. O sétimo dia tem de ser um completo Shabbath:</p><p>“Seis dias trabalhareis, mas o sétimo será o sábado do descanso solene,</p><p>santa convocação; nenhuma obra fareis; é sábado do SENHOR em todas as</p><p>vossas moradas”(Lv 23.3; Nm 28.25).135</p><p>O Shabbath era um dia para se ouvir a Palavra de Yahweh. Quando a</p><p>mulher sunamita buscou o homem de Deus (Elias) por causa da morte de</p><p>seu filho, seu marido lhe perguntou por que fazia isso nesse dia em</p><p>particular, uma vez que não era “dia de Festa da Lua Nova nem sábado”</p><p>(2Rs 4.23). Podemos inferir que o dia do Shabbath judaico era um dia para</p><p>se consultar o profeta e, nesse contexto, a Palavra de Deus.</p><p>Mais tarde, provavelmente durante o Exílio, a sinagoga veio a existir</p><p>como lugar de culto. Por isso, lemos que Jesus costumava ir à sinagoga no</p><p>dia do Shabbath (Lc 4.16). Em Lucas 4.16-21 e em Atos 13.14-41, temos</p><p>uma ideia do culto sinagogal no Shabbath. Uma porção da Lei e dos</p><p>Profetas era lida e, depois, dava-se oportunidade para um sermão</p><p>extemporâneo. Jesus regularmente fez uso de oportunidades como essas</p><p>para instruir seus ouvintes (Mc 1.21; 6.2; Lc 6.6; 13.10).</p><p>Vemos que, no Shabbath, o povo cultuava ao Senhor e buscava sua</p><p>Palavra. Certamente, era um dia santo. Contudo, esse entendimento pode</p><p>facilmente levar a uma compreensão equivocada, se separarmos a palavra</p><p>“descanso” de “santificação” (no sentido de “manter santo”). Por exemplo,</p><p>as pessoas dizem que o domingo deve ser não apenas um dia de descanso,</p><p>mas também um dia para ser santificado por meio de ir à igreja e fazer</p><p>coisas semelhantes. Mais tarde responderemos à questão de se é possível se</p><p>fazer tal reivindicação acerca do domingo; mas, de qualquer forma, essa</p><p>distinção não se aplica ao Shabbath. Guardar o santo Shabbath significa,</p><p>em primeiro lugar, simplesmente que devemos separar o sétimo dia dos</p><p>outros seis dias por meio do descanso, isto é, “não fazendo nenhum</p><p>trabalho”. O israelita deveria manter o santo Shabbath cessando todo</p><p>trabalho nesse dia (Jr 17.24). O dia era profanado (não santificado) quando</p><p>se realizava trabalhos no Shabbath (Êx 31.14). De fato, o texto do quarto</p><p>mandamento é bastante claro: “Lembre-se (observe) o dia do Shabbath para</p><p>o santificar“ — e daí segue-se a proibição de se trabalhar no sétimo dia.</p><p>Guardar o santo Shabbath é visivelmente expresso no descanso, embora</p><p>devamos admitir imediatamente que é um descanso no dia consagrado ao</p><p>Senhor, como o mandamento diz. Guardar o Shabbath como dia santo</p><p>significa não pensar somente em si. O Shabbath é uma alegria para o</p><p>homem, mas o homem encontra sua mais profunda alegria no Senhor.</p><p>A Distorção do Shabbath</p><p>Como foi possível, então, que o Shabbath fosse experimentado por muitos</p><p>israelitas como um peso, e que no tempo de Jesus tivesse havido muitos</p><p>conflitos entre ele e os escribas? A resposta a essa questão envolve tanto</p><p>uma distorção grosseira quanto uma distorção refinada com relação ao</p><p>Shabbath.</p><p>Primeiro, consideremos a distorção grosseira. Para muitas pessoas, era</p><p>extremamente difícil não trabalhar uma vez por semana a fim de se</p><p>consagrar especialmente ao Senhor. Nos dias de Amós, os mercadores se</p><p>queixavam dizendo: “Quando passará a Festa da Lua Nova, para vendermos</p><p>os cereais? E o sábado, para abrirmos os celeiros de trigo, diminuindo o efa,</p><p>e aumentando o siclo, e procedendo dolosamente com balanças</p><p>enganadoras” (Am 8.5). Por causa do lucro, muitos dificilmente</p><p>descansavam no Shabbath. Eles pisavam no Shabbath enquanto cuidavam</p><p>de seus negócios no dia santo do Senhor, e não hesitariam em explorar seus</p><p>labores nesse e em outros dias semelhantes (Is 58.3), mesmo que isso não</p><p>correspondesse ao que o quarto mandamento exige acerca do descanso dos</p><p>empregados.</p><p>Nos dias de Neemias, a situação não era diferente. No Shabbath, as</p><p>pessoas trabalhavam nos lagares de vinho e transportavam sacos de grãos e</p><p>muitos outros bens para Jerusalém, enquanto os mercadores e vendedores</p><p>ficavam às portas da cidade durante a noite toda ansiosos para entrar na</p><p>cidade no Shabbath (Ne 13.15-22).</p><p>Esse tipo de transgressor, naturalmente, entrará em conflito com o</p><p>quarto mandamento, e também com outros mandamentos. Aqueles que são</p><p>gananciosos entram em conflito tanto com o oitavo e décimo mandamentos</p><p>quanto com o quarto mandamento. Não há razão para dizer que o quarto</p><p>mandamento exigia muito do israelita, de modo que a transgressão desse</p><p>mandamento fosse mais óbvia que a transgressão dos outros mandamentos.</p><p>Toda a Lei é a Lei da liberdade. Mas a Lei não é experimentada dessa</p><p>forma por quem tem a mente escravizada, que busca seu próprio bem-estar,</p><p>e não a honra de Deus e o bem do seu próximo.</p><p>Contudo, a transgressão do quarto mandamento possui um caráter</p><p>especial. Devemos nos impressionar com o fato de que Deus agregou</p><p>grande significado à obediência a esse mandamento em particular (por</p><p>exemplo, Êx 35.1-3; Is 58.13-14). Isso não deveria nos surpreender, porque</p><p>o Shabbath é chamado um sinal da aliança entre Yahweh e seu povo (Êx</p><p>31.12-17; Ez 20.20). Qualquer pessoa pode discernir a partir do Shabbath</p><p>que havia uma aliança entre o Senhor e Israel.</p><p>O Shabbath claramente expressa a bênção que Yahweh concedeu a</p><p>Israel. Assim como Deus descansou da obra da Criação, do mesmo modo</p><p>ele permitiu que Israel descansasse, por haver sido libertado da escravidão</p><p>do Egito. O dia do Shabbath mostrou quem era Israel: um povo escolhido e</p><p>libertado por Yahweh, o qual poderia estar seguro de seu providencial</p><p>sustento para a vida que não dependia de exercício laborioso.</p><p>Isso fica mais evidente quando consideramos os chamados Ano do</p><p>Shabbath e o Ano de Jubileu. A cada sete anos, a terra deveria repousar,</p><p>significando que o campo não seria semeado e a vide não seria podada (Lv</p><p>25.1-7). A cada 50 anos (o ano depois de sete vezes sete), não era apenas a</p><p>terra que desfrutava de descanso, mas também qualquer habitante de Israel</p><p>que perdera alguma porção de terra deveria ser-lhe restituída, a fim de que o</p><p>escravo com sua família pudessem retornar às suas posses e à herança de</p><p>seus ancestrais (Lv 25.8-19). Aqui, novamente, vemos quão intimamente o</p><p>Shabbath está relacionado com liberdade!</p><p>Observar o Shabbath, juntamente com todas as suas implicações de se</p><p>guardar o Ano do Shabbath e o Ano do Jubileu, parece ter um grande</p><p>“peso”. A guarda do Shabbath era a prova para saber se o povo confiava em</p><p>si mesmo ou confiava sua vida ao SENHOR. Alguém que quisesse manter o</p><p>controle de seus próprios afazeres consideraria a interrupção dos negócios</p><p>durante o dia do Shabbath como se fosse algo penoso. A observância do dia</p><p>do Shabbath exige fé. Onde a fé for destruída, o Shabbath é igualmente</p><p>destruído. Alguém que viole o Shabbath quebra a aliança. Por isso, é</p><p>compreensível que a violação do Shabbath pudesse até ser identificada com</p><p>a razão pela qual Israel sofreu calamidades (Ne 13.18; Ez 20.13).</p><p>Mais Uma Distorção</p><p>Há, porém, uma maneira mais sofisticada de se distorcer o Shabbath. Essa</p><p>distorção se veste com as roupas da piedade. Estamos nos referindo à</p><p>distorção dos fariseus.</p><p>Segundo a interpretação dos fariseus, a breve expressão “não farás</p><p>nenhum trabalho” contida no quarto mandamento, era muito vaga. O que,</p><p>exatamente,</p><p>significa “trabalho” e como alguém pode estar certo de que não</p><p>é culpado de realizar nenhuma obra no Shabbath?</p><p>Na Mishnah, a qual contém as tradições orais e os “preceitos dos</p><p>anciãos” desde o cativeiro da Babilônia, encontramos não menos de 39</p><p>tipos de trabalho proibido. A Mishnah data da primeira metade do século II</p><p>A.D.; mas, com base naquilo que sabemos dos Evangelhos, podemos</p><p>concluir com certeza que Jesus e seus discípulos viveram em uma atmosfera</p><p>de Shabbath como essa descrita na Mishnah. Com grande precisão, os</p><p>escritores discorrem sobre questões relativas a semear, arar, segar, debulhar,</p><p>tecer e fiar, sem mencionar a tecedura de dois tecidos, costurar duas peças,</p><p>escrever duas letras do alfabeto, extinguir ou acender fogo, carregar um</p><p>objeto de um lugar para outro, e muitas outras formas de trabalho. Trabalhar</p><p>no Shabbath era proibido; mas alguém que tecesse um só tecido, costurasse</p><p>uma só peça e escrevesse uma só letra do alfabeto, ainda não estava</p><p>trabalhando. Na literatura judaica, encontramos permissão para matar um</p><p>piolho no Shabbath, mas não uma pulga, uma vez que a pulga é um tipo de</p><p>predador.136</p><p>Sem dúvida, subjacente ao extensivo trabalho dos escribas estava um</p><p>bem fundado respeito pelo Shabbath. Podemos imaginar que eles queriam</p><p>apresentar regras claras, para que o caráter singular do povo judeu</p><p>encontrasse expressão em um estilo de vida consistente com a Lei de</p><p>Moisés. Quão fácil era para Israel, sob a influência helenismo depois do</p><p>cativeiro na Babilônia, onde já haviam perdido sua independência política,</p><p>perder também sua identidade espiritual! Assim, é compreensível que o</p><p>sinal do pacto entre Yahweh e Israel — o Shabbath — recebesse tal</p><p>escrutínio.</p><p>Sabemos, porém, das desastrosas consequências. Não era a Escritura,</p><p>mas a tradição dos “anciãos” que possuía autoridade. Em um detalhado</p><p>casuísmo, não é possível aplacar a ira de alguém pelo Shabbath quando</p><p>uma espiga é colhida no campo. Qualquer pessoa que colha uma espiga está</p><p>trabalhando, e quem quer que debulhe essa espiga com as mãos, no</p><p>Shabbath, como Jesus fez, estaria realizando um trabalho que poderia</p><p>esperar até o dia seguinte. Alguém que apanhasse seu colchão e fosse</p><p>embora, depois de ter sido curado, se tornaria culpado de profanação do</p><p>Shabbath porque estaria carregando um peso de um lugar para outro, no</p><p>Shabbath (Jo 5.9,10).</p><p>Já vimos como Jesus condenou tal casuísmo.137 Embora isso possa ser</p><p>revestido de piedade, não deixa de ser uma forma de hipocrisia. Muitas</p><p>vezes aquilo que proibimos a outros (permissão para trabalhar, por</p><p>exemplo), permitimos a nós mesmos. E o que mais se poderia esperar? O</p><p>legalismo vive em tensão com o desenvolvimento normal da vida e, cedo ou</p><p>tarde, naufraga nas reais e exigentes demandas das nossas práticas diárias.</p><p>O Shabbath foi feito para o homem, não o homem para o Shabbath. A</p><p>proibição de Jeremias no nome do Senhor contra carregar um peso dentro</p><p>dos portões de Jerusalém (Jr 17.19-22), uma proibição do trabalho</p><p>cotidiano, é muito diferente da proibição de se carregar uma cama — coisa</p><p>que o homem que havia sido curado por Jesus poderia fazer com grande</p><p>alegria! Aqueles fariseus que proibiram tal atividade estavam destruindo a</p><p>celebração do Shabbath. Essa atitude dos fariseus tirava do Shabbath a</p><p>característica de gratidão pela libertação. A gratidão teve de dar lugar à</p><p>obediência perfeccionista; a liberdade foi trocada por nova escravidão; o</p><p>descanso foi arruinado por uma consciência perturbada.</p><p>Nem precisamos argumentar que essa interpretação legalista estava</p><p>fundamentada “em algum lugar” da Lei de Moisés com todos os seus</p><p>“restritos” regulamentos declarados como característicos da antiga aliança.</p><p>A Lei mosaica, de fato, exigia uma observância cuidadosa do Shabbath,</p><p>mas nada dizia a respeito de um casuísmo amplo. Ela fala claramente sobre</p><p>deixar de lado o trabalho diário. A construção do tabernáculo teve de parar</p><p>(Êx 31.13-17). Arar e colher eram atividades proibidas, mesmo durante os</p><p>primeiros dias dessas atividades (Êx 34.21); comércio e transporte de bens</p><p>eram igualmente proibidos (Am 8.4-6; Jr 17.21). Não era permitido a</p><p>nenhum membro da casa acender um fogo para cozinhar ou assar (Êx 35.3),</p><p>e ajuntar madeira para fazer fogo também era proibido (Nm 15.32-36).138</p><p>Além disso, havia uma diferença entre o descanso do Shabbath e o</p><p>descanso exigido em outros dias de festa. O sétimo dia era um Shabbath</p><p>completo, um dia no qual “nenhuma obra” poderia ser feita, enquanto que o</p><p>descanso nos outros dias de festa se limitava a não realizar “nenhuma obra</p><p>servil” (compare Lv 23.3 com 23.7-8,21,25,35). Com relação à instituição</p><p>da Páscoa, lemos que, no primeiro e no sétimo dias da Festa dos Pães</p><p>Asmos, “nenhuma obra” poderia ser feita, exceto o que se deveria preparar</p><p>para ser comido pelos participantes da Páscoa (Êx 12.16). Mas mesmo esse</p><p>trabalho de preparar comida era proibido no Shabbath (lembre-se da</p><p>proibição de se acender um fogo). A frase “nenhuma obra servil”,</p><p>aparentemente, permitia um pouco mais em certos dias de festa como, por</p><p>exemplo, preparar comida e bebida. Assim, a categoria de “nenhuma obra”</p><p>incluía todo o trabalho envolvido na ocupação de alguém e na casa de</p><p>alguém, tal como arar, colher, preparar alimentos, acender um fogo e</p><p>apanhar lenha para o fogo, enquanto que a categoria de “nenhuma obra</p><p>servil” dizia respeito ao trabalho fora de casa.</p><p>Com essas duas categorias, resumimos todos os regulamentos</p><p>encontrados na Lei de Moisés. E mesmo com toda essa informação, ainda</p><p>não temos a impressão de que as atividades do Shabbath eram como uma</p><p>“camisa de força”, governada sempre por aquilo que o povo de Israel era</p><p>proibido de fazer. Pelo contrário, podemos imaginar que o Shabbath era</p><p>algo muito positivo para a vida do israelita,139 e de modo nenhum era</p><p>enfadonho.</p><p>Aqui estão mais duas provas que confirmam o fato de que, no Antigo</p><p>Testamento, as pessoas não passavam o dia de braços cruzados. Em um</p><p>Shabbath, Josué levou o povo a rodear Jericó sete vezes, depois disso a</p><p>cidade ruiu (Js 6.15-20). Aparentemente, a mulher sunamita estava</p><p>acostumada, como vimos, a visitar o homem de Deus no Shabbath (2Rs</p><p>4.23); essa viagem exigia que ela andasse mais de 32 quilômetros! A</p><p>proibição em Êx 16.29 que impedia Israel, quando estava à caminho de</p><p>Canaã, de sair do arraial no Shabbath não foi, aparentemente, um</p><p>regulamento perpétuo que posteriormente exigiu que o israelita ficasse em</p><p>casa. Mais tarde, os fariseus se preocuparam com a extensão da “jornada de</p><p>um Shabbath”, mas isso não encontra base no Antigo Testamento.</p><p>Finalmente, poderíamos mencionar que o sacerdote Joiada não hesitou em</p><p>executar o seu plano contra a rainha Atalia em um Shabbath, uma vez que</p><p>esse dia aumentava a chance de sucesso (2Rs 11; 2Cr 22.10-23.15).</p><p>Avaliação Preliminar</p><p>Façamos uma pausa nesse ponto para uma avaliação preliminar.</p><p>Começamos resumindo diversos argumentos que tornam difícil equiparar o</p><p>Shabbath do quarto mandamento ao domingo moderno. Depois, tentamos</p><p>deixar claro o que a Escritura diz sobre a celebração, a observação e a</p><p>violação do Shabbath. Com base nesses comentários, cremos que estamos</p><p>corretos em delinear a conclusão de que há uma correspondência</p><p>fundamental entre o Shabbath judaico e o domingo. Os pontos de</p><p>concordância entre esses dois dias, que apresentaremos a seguir, parecem</p><p>óbvios.</p><p>1. Ambos os dias possuem um caráter especial. O Shabbath judaico está</p><p>ligado tanto ao descanso de Deus depois do sexto dia da Criação como à</p><p>libertação do povo de Israel do Egito. O domingo é chamado de “O Dia do</p><p>Senhor” para comemorar o dia da ressurreição140 do Senhor Jesus Cristo.</p><p>2. Ambos os dias são dias de festa, uma vez que há salvação a ser</p><p>comemorada. A libertação da escravidão do Egito, comemorada no</p><p>Shabbath judaico, encontra sua extensão e expansão na libertação da</p><p>escravidão do pecado conquistada pela ressurreição de Cristo, comemorada</p><p>no domingo.</p><p>3. Em ambos os dias, o culto ocupa um lugar central. As “santas</p><p>assembleias” e as reuniões nas sinagogas são comparáveis às reuni��es de</p><p>culto</p><p>em nossas igrejas modernas.</p><p>4. Assim como o Shabbath foi feito para o homem, para este descansar</p><p>e celebrar uma festa, assim também o domingo foi feito para o homem. O</p><p>descanso que podemos desfrutar no domingo e a libertação por meio de</p><p>Cristo que podemos comemorar são tão essenciais para o caráter desse dia</p><p>como o eram para o Shabbath. O descanso do Antigo Testamento não era</p><p>desconectado do culto, e o culto do Novo Testamento não é desconectado</p><p>do descanso. A ênfase pode diferir (como veremos mais adiante), mas,</p><p>quanto aos elementos essenciais, há surpreendente similaridade.</p><p>5. Há semelhanças, também, em termos da violação do Shabbath</p><p>judaico e do domingo. Em cada época, tem havido pessoas escravizadas ao</p><p>seu trabalho, pessoas que não podem deixar de trabalhar em dias de festa.</p><p>Não faz diferença se estamos falando sobre violar o Shabbath ou o</p><p>domingo. Qualquer pessoa que não seja capaz de se alegrar na Lei de Deus</p><p>porque não pode vencer suas preocupações terá problemas tanto com o</p><p>domingo quanto com o Shabbath.</p><p>A distorção do Shabbath devido ao casuísmo dos fariseus é uma</p><p>imagem espelhada de diversos casuísmos relacionados ao que podemos</p><p>fazer ou não fazer no domingo. O Evangelho — seja com respeito ao êxodo</p><p>do Egito ou à redenção de Cristo — pode ser transformado em uma Lei.</p><p>Portanto, quando o domingo foi, repetidamente, amarrado e preso nas</p><p>cadeias do casuísmo, isso ocorreu não porque a igreja guardou o domingo</p><p>“com base no quarto mandamento” e foi compelida, desse modo, a</p><p>raciocinar casuisticamente em termos do “Antigo Testamento”. Antes, o</p><p>casuísmo do domingo surgiu porque a igreja não compreendeu o Evangelho</p><p>do quarto mandamento. E isso, segundo as próprias instruções de Cristo</p><p>sobre o Shabbath, é ainda mais condenável.</p><p>Temos de lidar ainda com aquelas quatro dificuldades mencionadas</p><p>inicialmente. Mas as coisas que já temos dito sobre a celebração,</p><p>observância e violação do Shabbath e do domingo nos capacitam a evitar</p><p>uma dificuldade ainda maior: se não podemos celebrar o domingo com base</p><p>no quarto mandamento porque ele é, supostamente, mera instituição da</p><p>igreja (depois de Constantino, o Grande), e porque é suposto que suas</p><p>características diferem de modo radical do Shabbath, então não estamos</p><p>lidando com nove em vez de dez mandamentos? Já manifestamos nossa</p><p>convicção de que os Dez Mandamentos também é válido para a igreja de</p><p>Cristo.141 Não precisamos abrir mão desse ponto de partida agora quando</p><p>tratamos do quarto mandamento, se o Shabbath e o domingo se parecem</p><p>tanto um com o outro como temos exposto acima.</p><p>Um Dia ou Todos os Dias?</p><p>Podemos oferecer um pouco mais de dimensão e de profundidade à nossa</p><p>discussão, se compararmos nossa perspectiva com a de João Calvino com</p><p>respeito à questão Shabbath/domingo. Segundo ele, o Shabbath foi dado</p><p>por três razões: (1) representar o descanso espiritual. (2) preservar a ordem</p><p>eclesiástica, e (3) prover descanso para os trabalhadores.</p><p>Essa sequência já é bastante reveladora! Alguém poderia pensar que a</p><p>terceira razão apresentada por Calvino deveria ter sido alistada em primeiro</p><p>lugar, não apenas porque os trabalhadores deveriam desfrutar de descanso,</p><p>mas porque todos deveriam descansar. O Shabbath foi dado para que tanto</p><p>servos quanto senhores pudessem “recobrar seu fôlego”, assim como</p><p>Yahweh fez após seis dias de trabalho. Essa ênfase é primária no quarto</p><p>mandamento e corresponde ao dito de Jesus sobre o Shabbath ter sido feito</p><p>para o homem.</p><p>Mas Calvino enfatiza algo mais no quarto mandamento. Segundo ele,</p><p>descansar no sétimo dia representa descanso espiritual, o descanso de que</p><p>os crentes desfrutam de suas obras “más” a fim de permitir que Deus</p><p>trabalhe neles.</p><p>Calvino vê o Shabbath como um sinal ensinando a Israel que Deus era</p><p>seu santificador: “Se nossa santificação consiste em mortificar nossa</p><p>própria vontade, então uma íntima correspondência aparece entre o sinal</p><p>externo e a realidade interna”.142 Assim como Israel deveria observar</p><p>“externamente” um completo descanso no sétimo dia, também nós devemos</p><p>descansar “internamente”, diz Calvino, por meio da mortificação da nossa</p><p>própria vontade permitindo que Deus trabalhe em nós. Para Calvino, o</p><p>Shabbath não era primariamente algo externo, um sinal externo, uma figura</p><p>ou sombra que se foi com a vinda de Cristo. Afinal, Cristo é o corpo, a</p><p>substância, a plena realidade, e com sua aparição foi posto um fim àquelas</p><p>sombras do Antigo Testamento (Cl 2.16,17). Cristo não se satisfaz mais</p><p>com um único dia, mas com nada menos do que a totalidade de nossa vida.</p><p>“Distante deve estar, portanto, dos cristãos a supersticiosa observância de</p><p>dias”.143</p><p>Isso não significaria que Calvino se opunha a qualquer observância de</p><p>um dia especial de descanso? Não, uma vez que Calvino menciona três</p><p>razões pelas quais foi o Shabbath foi dado. E, segundo Calvino, não</p><p>podemos restringir as duas últimas razões à antiga dispensação das</p><p>sombras. Qualquer um que defenda que o Shabbath passou, diz Calvino,</p><p>não tem completa compreensão da matéria. Devemos nos lembrar de que</p><p>Deus decretou um dia específico para Israel se reunir e ouvir a Lei, e para</p><p>realizar certos ritos cerimoniais. Além disso, os trabalhadores devem</p><p>desfrutar do descanso do seu labor.</p><p>Quando chegamos a resolver as implicações de tudo isso, somos,</p><p>novamente, atingidos pela dificuldade apresentada por Calvino com o fato</p><p>de que somente um dia seja reservado para o culto. Se alguém lhe</p><p>perguntasse por que não nos reunimos diariamente, a fim de “remover todas</p><p>as distinções de dias”, Calvino responderia: “Tomara que, de fato, isso se</p><p>[nos] concedesse! A sabedoria espiritual era digna de que se lhe reservasse</p><p>diariamente uma porçãozinha de tempo. Mas, se pela fraqueza de muitos</p><p>não se pode conseguir que se realizem reuniões diárias, e a norma da</p><p>caridade não permite exigir mais, por que não obedecemos à norma que a</p><p>nós é imposta pela vontade de Deus?”144</p><p>Pusemos a palavra “fraqueza” em itálico. Calvino usou esse termo em</p><p>outros lugares ao escrever sobre o domingo. Por exemplo, ele escreveu em</p><p>seu Catecismo, de 1545, que devido à nossa fraqueza, Deus ordenou apenas</p><p>um dia para nossa meditação nas suas obras. De fato, Deus poderia ter</p><p>designado mais do que um dia, mas, devido à nossa fraqueza, e</p><p>principalmente devido à fraqueza da sociedade pública, temos apenas um</p><p>dia.145 Essa é a razão por que, em suas Institutas, Calvino escreve que ele</p><p>mesmo não está limitado ao número sete. Para ele, certamente, os crentes</p><p>poderiam se reunir em mais de um dia por semana.146</p><p>Contudo, sobre esse ponto em particular, nós discordamos de Calvino.</p><p>Repetidamente, quando ele discute o Shabbath, nas Institutas, em seu</p><p>Catecismo e até mesmo no sermão sobre a passagem de Deuteronômio,</p><p>surge essa questão da nossa fraqueza: não temos senão um Shabbath por</p><p>semana, um domingo por semana — mas, na verdade, deveria haver mais.</p><p>Quanto a isso, somos levados a levantar uma questão: o que o fato de haver</p><p>apenas um dia reservado por semana tem a ver com nossa fraqueza? Como</p><p>podemos insistir tão fortemente nesse ponto, se sabemos que o próprio</p><p>Deus descansou um só dia e concedeu isso a Israel como exemplo? Não</p><p>argumentaríamos que já no Paraíso a humanidade tenha experimentado o</p><p>Shabbath (veja acima); mas, se assumirmos a posição de Calvino, então, no</p><p>Paraíso, a raça humana — até então sem pecado ou fraqueza — teria</p><p>observado cada dia como Shabbath! Afinal, não depende o argumento de</p><p>Calvino dessa relação entre nossa fraqueza pecaminosa e o fato de o</p><p>Shabbath ser “somente” um dia por semana e não em todos os dias de nossa</p><p>vida?</p><p>Em nossa opinião, estamos lidando aqui com a espiritualização do</p><p>Shabbath. Essa aproximação espiritualizada não se satisfaz com a</p><p>manifestação “externa” do Shabbath e se move rapidamente de um dia</p><p>“comum” de descanso para sete dias de descanso de nossas obras “más”. O</p><p>descanso comum que podemos desfrutar a fim de “recuperar o fôlego” é de</p><p>importância secundária ou mesmo terciária (como para Calvino). Somente</p><p>quando relacionamos o dia com ir à igreja é que falamos</p><p>de nossa fraqueza</p><p>como a razão para se ter apenas um dia por semana.</p><p>Agora, não há objeção quanto à busca de um significado mais amplo</p><p>para o quarto mandamento. Fazemos isso com outros mandamentos</p><p>também, imitando as próprias instruções de Cristo no Sermão do Monte.</p><p>Assim, por que não se falar dos outros dias da nossa vida quando esse</p><p>mandamento lida com apenas um dia? Nosso ponto é: quando entendemos o</p><p>descanso externo do Shabbath meramente como figura do descanso interno,</p><p>falhamos em compreender o significado pleno do quarto mandamento. O</p><p>descanso físico “ordinário”, pelo qual “recuperamos o fôlego” e damos</p><p>lugar ao louvor a Deus, é, em si mesmo, um deleite espiritual. A essência</p><p>espiritual não reside em algum lugar além do nosso descanso físico, mas</p><p>exatamente nele. Descansar de seu trabalho diário e, generosamente,</p><p>permitir que seus empregados descansem como você, já é mortificar nossa</p><p>vontade e permitir a obra de Deus em nós. Esse tipo de Shabbath é um</p><p>deleite e não, simplesmente, uma figura externa desse deleite.</p><p>Além disso, se cada dia devesse ser um Shabbath ou um domingo, isso</p><p>eliminaria a “textura” especial que Deus deu aos dias da semana. Temos</p><p>seis dias para trabalhar e fazer toda a nossa obra, e isso é também servir a</p><p>Yahweh. O Shabbath não é o único “lugar” onde as pessoas desfrutam de</p><p>comunhão com Deus em uma existência que, de outra forma, seria</p><p>monótona. Cada dia reserva sua própria plenitude, seu próprio deleite para a</p><p>pessoa que sabe que está a serviço de Deus — os dias são, certamente,</p><p>diferentes, mas nem por isso são dias “mais fracos”! Essa variedade</p><p>encontrada nos dias ordinários e extraordinários é resultado não de nossa</p><p>fraqueza pecaminosa, mas de uma criação estabelecida por Deus.147</p><p>Cerimonial e/ou Moral?</p><p>O que Calvino disse sobre o Shabbath externo e a mortificação interna de</p><p>nossa vontade se baseia em uma antiga tradição teológica. Nessa tradição,</p><p>foi feita uma distinção entre o significado literal e o significado alegórico</p><p>de expressões bíblicas. Quando Raabe pendurou um cordão escarlata na</p><p>janela de sua casa no muro de Jericó (Js 2.21), a cor vermelha foi</p><p>considerada muito importante porque apontava para o derramamento do</p><p>sangue de Cristo. Quando a Escritura fala dos 318 servos de Abraão (Gn</p><p>14.14), esse número foi entendido como tendo o propósito de trazer uma</p><p>mensagem especial. A linguagem comum da narrativa bíblica teria uma</p><p>intenção espiritual mais profunda e, portanto, deveria ser interpretada não</p><p>de forma literal, mas alegórica (figurada).</p><p>Na verdade, Calvino não seguiu essa aproximação alegórica da</p><p>Escritura. Sua interpretação foi sóbria, pois ele seguiu estritamente o texto</p><p>sem dar lugar às numerosas especulações ardilosas desse tipo de exegese</p><p>que busca um significado mais profundo no texto. Mas, com relação ao</p><p>Shabbath, Calvino permaneceu com essa antiga tradição, como podemos</p><p>facilmente demonstrar.</p><p>Essa linha de interpretação nos remete à Agostinho, por exemplo.</p><p>Observamos os outros nove mandamentos, diz Agostinho, segundo o</p><p>sentido comum com que foram ordenados; mas devemos interpretar o</p><p>quatro mandamento figuradamente. O descanso externo do Shabbath, na</p><p>verdade, significa o descanso interno identificado por Jesus com as</p><p>seguintes palavras: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e</p><p>sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Nosso Shabbath é interno,</p><p>em nosso coração, disse Agostinho.148</p><p>A interpretação oferecida pelo grande pensador medieval Pedro</p><p>Lombardo e por Tomás de Aquino é diferente; eles entenderam que o</p><p>descanso do Shabbath significava não apenas descanso para a nossa alma,</p><p>mas também o descanso de Cristo no sepulcro (no dia de sábado logo após</p><p>a sexta-feira, o dia da sua crucificação). Essa interpretação facilmente leva à</p><p>perspectiva de que o descanso do Antigo Testamento cessou</p><p>completamente, uma vez que Cristo ressuscitou de seu descanso</p><p>experimentado no túmulo.</p><p>Esse significado não literal tem a grande vantagem de permitir a</p><p>construção de uma parede de princípios entre a guarda do Shabbath e a</p><p>celebração do domingo e de outros dias de festas cristãs. O judaísmo</p><p>continuaria a existir juntamente com o cristianismo, sendo necessário</p><p>explicar, de vez em quando, como o Shabbath judaico difere dos dias de</p><p>descanso e de outras festas da igreja cristã.149</p><p>Mas eis a questão: não foi a interpretação alegórica que levou ao</p><p>desaparecimento do quarto mandamento da consciência da igreja cristã? Se</p><p>tudo consiste no descanso da alma, então qual o significado de se descansar</p><p>do trabalho cotidiano? O quarto mandamento ainda vigora? Esse tipo de</p><p>questão surge naturalmente quando ouvimos Agostinho afirmar que os</p><p>outros nove mandamentos se aplicam em seu sentido natural, enquanto que</p><p>essa abordagem não mais se aplica ao quarto mandamento.</p><p>Contudo, a igreja jamais fez essa afirmação sobre o quarto</p><p>mandamento. Após uma difundida incerteza nos primeiros séculos, a igreja</p><p>associou a guarda do domingo ao quarto mandamento. Em relação a isso,</p><p>outra distinção surgiu juntamente com (na verdade, dentro de) a distinção</p><p>entre literal e figurado: a distinção entre moral e cerimonial. Esses termos</p><p>nem sempre teve o mesmo significado ao longo da história da igreja, mas</p><p>em termos de consequência prática essas palavras significam basicamente o</p><p>seguinte: o termo moral se refere a tudo que permaneça obrigatório no</p><p>quarto mandamento, enquanto que cerimonial se refere ao que pertence ao</p><p>aspecto veterotestamentário do quarto mandamento que, portanto, não é</p><p>obrigatório hoje.</p><p>A distinção empregada por Tomás de Aquino foi muito influente nos</p><p>últimos séculos. Ele distinguiu quatro significados do quarto mandamento:</p><p>2. O sentido literal, mais tarde classificado como moral e cerimonial: o</p><p>moral consistia no fato de que o quarto mandamento prescreve um dia</p><p>de descanso das atividades físicas e mentais. O que aprendemos do</p><p>quarto mandamento tem uma “razão natural”; cerimonial se refere ao</p><p>fato de que o descanso prescrito no quarto mandamento recai sobre o</p><p>Shabbath.</p><p>3. O sentido alegórico, que, igualmente, tem um caráter cerimonial: o</p><p>descanso no Shabbath aponta para o descanso de Cristo no sepulcro.</p><p>4. O sentido moral: mais uma vez, é usado o conceito de moral e, desta</p><p>vez, em um sentido mais profundo: devemos deixar nossos pecados e</p><p>descansar nosso espírito em Deus. Isso envolve não um descanso</p><p>“externo”, mas o descanso de nossos pecados e nosso descanso em</p><p>Deus.</p><p>5. O sentido anagógico, o qual tem um caráter cerimonial: o descanso do</p><p>Shabbath prefigura algo futuro, a saber, provar e desfrutar da presença</p><p>de Deus (o “fruitio Dei”) na casa do Pai, os céus.150</p><p>Essas distinções empregadas por Aquino não são muito claras. O que,</p><p>precisamente, significa “cerimonial”? Na pequena seção que Aquino</p><p>dedicou à essa questão, o conceito aparece com pelo menos três sentidos.</p><p>Primeiro, o fato de que o Shabbath ocorria em um sábado é chamado de</p><p>cerimonial. Isso significa simplesmente que era assim no Antigo</p><p>Testamento, mas já não o é agora. Mas logo em seguida, o Shabbath é</p><p>chamado de cerimonial porque era uma sombra do descanso de Cristo no</p><p>túmulo. Aqui, “cerimonial” tem um sentido similar ao que atribuímos ao</p><p>sangue, aos sacerdotes e aos sacrifícios do Antigo Testamento: eles</p><p>constituem uma sombra do sangue de Cristo, seu sacerdócio e seu</p><p>sacrifício. Mas isso é bem diferente de descrever a observância do Shabbath</p><p>no dia de sábado como algo cerimonial. O fato de que o Shabbath ocorria</p><p>no dia de sábado não apontava para a vinda de Cristo, mas apontava para o</p><p>passado, para a obra criadora de Deus (e para o êxodo de Israel). Além</p><p>disso, o que a guarda do Shabbath tem a ver com o descanso de Cristo no</p><p>sepulcro? Como pode o júbilo do Shabbath ser um exemplo da</p><p>“humilhação” de Cristo?151</p><p>Diferente ainda é a ênfase dada ao termo cerimonial quando Aquino fala</p><p>do sentido anagógico. Nesse contexto, o Shabbath aponta para o futuro,</p><p>para nosso descanso celeste e para a expectativa de desfrutar da vida com</p><p>Deus. Mas por que deveria ele ser chamado de cerimonial? Da mesma</p><p>maneira,</p><p>o domingo aponta para o descanso celestial. Ainda assim,</p><p>certamente essa antecipação não é razão para descrever nem o Shabbath</p><p>nem o domingo como cerimoniais.152</p><p>Portanto, o termo “cerimonial” não é tão claro. Por isso, propomos</p><p>substituir os termos moral e cerimonial por outros conceitos mais simples, a</p><p>saber, provisório e permanente. Com esses termos poderíamos, então,</p><p>adequadamente dizer que a observância do Shabbath (no dia de sábado, isto</p><p>é, no sétimo dia) era provisória, porque, depois que Cristo veio, a igreja</p><p>passou a guardar outro dia (isto é, o primeiro dia). Ao mesmo tempo,</p><p>poderíamos dizer que o quarto mandamento contém elementos</p><p>permanentes, os quais são tão obrigatórios para a igreja do Novo</p><p>Testamento como o eram para o Israel do Antigo Testamento. Retomaremos</p><p>a discussão dessa distinção na seção a seguir.</p><p>5. O “Descanso” de Hebreus 4</p><p>Antes de abordar as dificuldades que identificamos no começo deste</p><p>capítulo, precisamos, primeiro, discutir sobre Hebreus 4 — um capítulo</p><p>frequentemente citado para mostrar que o Shabbath do Antigo Testamento</p><p>era provisório. A despeito de quão significativo esse capítulo se torna para</p><p>aquilo que Aquino chamou de “sentido anagógico do Shabbath”, essa</p><p>passagem não oferece para nós nenhuma resposta definitiva com respeito ao</p><p>Shabbath e ao domingo.</p><p>O capítulo 4 de Hebreus nos fala do descanso de Deus no sétimo dia.</p><p>Esse descanso tem um significado fundamental, pois parece conter uma</p><p>promessa para a humanidade. Foi permitido ao homem entrar nesse</p><p>descanso. Mas a proclamação dessas boas novas não terá efeito se não for</p><p>recebida com fé. Lembre-se dos israelitas no deserto. Por causa de sua</p><p>desobediência, eles não entraram no lugar de descanso, a terra de Canaã.</p><p>Hebreus 4 cita o Salmo 95.11 com respeito a isso, onde Yahweh diz: “Por</p><p>isso, jurei na minha ira: não entrarão no meu descanso”.</p><p>Mas, com isso, Deus não encerrou o assunto; pois, em vista do fato de</p><p>que outros eram esperados para entrar no descanso divino, o Senhor fixou</p><p>outro dia, quando falou por meio de Davi muitos anos antes: “Ele é o nosso</p><p>Deus, e nós, povo do seu pasto e ovelhas de sua mão. Hoje, se ouvirdes a</p><p>sua voz, não endureçais o coração, como em Meribá, como no dia de</p><p>Massá, no deserto” (Sl 95.7,8). Se Josué os tivesse trazido ao descanso da</p><p>terra de Canaã, Deus não teria falado acerca de outro dia posterior, como o</p><p>escritor de Hebreus conclui: “Portanto, resta um repouso [gr.: sabbatismos]</p><p>para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no descanso de Deus,</p><p>também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus das suas” (Hb</p><p>4.9,10).</p><p>A partir desse argumento, vemos, claramente, que o referido descanso</p><p>era um descanso provisório. O povo de Deus deveria esperar o verdadeiro</p><p>descanso do Shabbath. O cumprimento desse descanso não se tornou</p><p>realidade nos dias de Israel. E, assim como Israel falhou em descansar por</p><p>causa de sua desobediência, o mesmo resultado recairia sobre os</p><p>destinatários de Hebreus, se, seguindo o exemplo de desobediência de</p><p>Israel, eles falhassem em buscar entrada nesse descanso (Hb 4.11).</p><p>A questão do dia do Shabbath está apenas indiretamente presente nessa</p><p>passagem. A ênfase recai mais sobre os lugares onde haverá Shabbath do</p><p>que sobre dias do Shabbath. Frequentemente poderíamos traduzir a palavra</p><p>“descanso” por “lugar de descanso”. Isso se refere à Canaã e aos céus.</p><p>Quando lemos que Deus fixou outro dia (Hb 4.7), o que se tem em mente</p><p>não é outro dia de descanso, mas outro descanso. Em vez de ser o descanso</p><p>trazido por Josué, um descanso celestial seria concedido ao povo de Deus.</p><p>Aquino e outros, apropriadamente, atribuíram um sentido “anagógico”</p><p>ao Shabbath. Por isso podemos apelar para Hebreus 4. O descanso do</p><p>Shabbath apontava adiante para o descanso celestial como o descanso</p><p>definitivo. Seu erro, porém, foi que, com base nessa observação correta,</p><p>inadequadamente denominaram o Shabbath de descanso cerimonial, como</p><p>se esses elementos previstos fossem algo especificamente</p><p>veterotestamentário. O domingo também aponta para a entrada no lugar de</p><p>descanso de Deus, assim como o pão e o vinho apontam para a Ceia que</p><p>breve desfrutaremos com Cristo. Contudo, essa apresentação nada diz sobre</p><p>se o dia do Shabbath e o quarto mandamento são ainda obrigatórios.</p><p>5. Mais Uma Vez: As Dificuldades</p><p>Na avaliação preliminar feita acima, concluímos que não há diferença entre</p><p>Shabbath e domingo. Se isso estiver correto, então podemos celebrar o</p><p>domingo em termos do quarto mandamento. O que quer que tenha sido</p><p>mudado na transição do Shabbath para o domingo, o quarto mandamento</p><p>continua, igualmente aos outros nove, sendo válido para a igreja hoje como</p><p>mandamento.</p><p>Devemos, agora, defender essa afirmação das objeções apresentadas no</p><p>início deste capítulo. Mencionamos quatro dificuldades.</p><p>A primeira dificuldade envolve a instituição do Shabbath. Antes de</p><p>Êxodo 16 (com sua narrativa sobre o maná e o Shabbath), nada</p><p>encontramos sobre a guarda do Shabbath. Isso se harmoniza com Ezequiel</p><p>20.10-12, isto é, que Yahweh deu seus preceitos e ordenanças a Israel no</p><p>deserto, com esse acréscimo especial: “Também lhes dei os meus sábados,</p><p>para servirem de sinal entre mim e eles” (Ez 20.12). Semelhantemente,</p><p>lemos em Neemias, o qual menciona a entrega da Lei no Sinai desta forma:</p><p>“O teu santo sábado lhes fizeste conhecer; preceitos, estatutos e lei, por</p><p>intermédio de Moisés, teu servo, lhes mandaste” (Ne 9.14).</p><p>Colocar as coisas dessa forma não significa que o Shabbath era</p><p>desconhecido de Israel antes de Êxodo 16. Quando lemos essa passagem da</p><p>Bíblia, logo temos a impressão a partir de alguns versos (por exemplo, o v.</p><p>29: “Considerai que o SENHOR vos deu o sábado”) de que o Shabbath já era</p><p>bem conhecido nesse tempo. Em minha opinião, não resolveremos isso,</p><p>completamente, por meio da exegese. Contudo, levando em conta todas as</p><p>informações, parece correto falar de um Shabbath dado a Israel, e incorreto</p><p>vê-lo como uma instituição humana, dada no princípio (após a Criação), a</p><p>qual se tornou, depois, limitada a Israel. O Shabbath é descrito como sinal</p><p>do pacto entre Yahweh e Israel (Êx 31.12-17; Ez 20.20).</p><p>Mas, mesmo que isso esteja correto, isto é, que a instituição do</p><p>Shabbath não foi um dia de descanso universalmente conhecido e prescrito,</p><p>isso não significa que estamos livres de cumprir o quarto mandamento. Nem</p><p>todas as coisas começadas com Israel findam com ele. Em Abraão, todas as</p><p>famílias da terra foram abençoadas. Por que, então, não poderia também o</p><p>dom dos Dez Mandamentos, incluindo o dia de descanso dado a Israel,</p><p>beneficiar toda a humanidade?</p><p>Ocasionalmente, alguns sugerem que os Dez Mandamentos já fossem</p><p>aplicados desde princípio da Criação. O que foi proclamado no Sinai é</p><p>visto, meramente, como repetição do que o homem já sabia em seu coração</p><p>desde a Criação. Em nossa opinião, esse argumento não nos ajuda muito.</p><p>Haveria Dez Mandamentos antes da Queda, ou seria melhor dizer que antes</p><p>da Queda (assim como depois) havia um só grande mandamento: amar a</p><p>Deus e amar ao próximo com a nós mesmos? Este último é mais acurado,</p><p>de modo que poderíamos entender que o único mandamento foi desdobrado</p><p>em numerosos preceitos. Por exemplo, considere a proibição no Paraíso de</p><p>se comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. No Sinai, essa</p><p>proibição foi desdobrada nos Dez Mandamentos.</p><p>Seria estranho se antes do Sinai não houvesse nada que nos lembrasse</p><p>do quarto mandamento. Esse mandamento, assim como os demais</p><p>mandamentos, lida com um aspecto do grande mandamento. Certamente,</p><p>esse aspecto estava presente de modo particular desde o princípio, não</p><p>estava? Os homens reservavam tempo para invocar o nome do SENHOR (Gn</p><p>4.26). O culto mencionado no quarto mandamento estava presente desde o</p><p>princípio.</p><p>Isso, porém, não exige que insistamos que a forma de culto prescrita no</p><p>Sinai por Yahweh para o seu povo tenha sido a mesma de antes. A essência</p><p>do quarto mandamento é permanente, mas sua expressão foi aprendida a</p><p>partir do Sinai. A humanidade sempre reservou tempo para cultuar a Deus,</p><p>mas, com base na</p><p>informação bíblica, não é certo que a humanidade tenha</p><p>guardado um Shabbath. Encontramos refêrencia a isso pela primeira vez em</p><p>Êxodo 16.</p><p>Embora pareça ser provável que os homens começaram a observar o</p><p>Shabbath no período do Sinai, essa reivindicação de modo nenhum</p><p>restringe a validade do quarto mandamento à nação de Israel. Certamente,</p><p>uma exigência não precisa ter sido proclamada no tempo da Criação para</p><p>ser aplicada a todos os tempos e pessoas, precisa?</p><p>Por isso, não nos preocupamos com a segunda dificuldade que está</p><p>indissoluvelmente ligada com a primeira. Naturalmente, é verdade que</p><p>Gênesis 2.2,3 não indica claramente que Deus tenha ordenado a observância</p><p>do Shabbath já no Paraíso. Lemos, sim, que Deus descansou no sétimo dia e</p><p>que ele abençoou e santificou esse dia. Também não é logicamente</p><p>sustentável relacionar essa “santificação” divina do sétimo dia com a</p><p>conduta humana de santificação do Shabbath. Mas tal conexão não é,</p><p>necessariamente, requerida.153</p><p>Com respeito à atividade de Yahweh, podemos dizer que ele não só</p><p>abençoou o sétimo dia, mas também o santificou para si mesmo,</p><p>diferenciando o sétimo dia dos seis anteriores como um dia especial</p><p>dedicado a ele. “A obra está concluída! A Criação está pronta. Não se trata</p><p>de um universo de ficção científica habitado por seres estranhos com</p><p>poderes bizarros”. Deus descansou de seu trabalho. Para o primeiro</p><p>homem, “em minha opinião, não foi um dia de descanso. Será que nesse</p><p>ponto da existência ele já trabalhava seis dias por semana? É claro que não.</p><p>Ele apenas havia entrado no cenário e dado uma olhada ao redor. E,</p><p>imediatamente, podia usufruir da obra completa de seu Criador”.154</p><p>Deus separou o sétimo dia para si mesmo. “Santificar” significa “por à</p><p>parte”. E o que Deus fez, ele depois direcionou os israelitas a fazerem</p><p>também, de modo que eles “puseram à parte” o dia do Shabbath.</p><p>Gênesis 2, de fato, apresenta o Shabbath como o descanso de Deus, mas</p><p>não um dia de descanso para a humanidade. Isso nos permite manter a</p><p>posição defendida acima quando tratamos da primeira dificuldade.</p><p>O texto do quarto mandamento também não diz que o Shabbath foi</p><p>instituído na Criação. Ele declara, simplesmente, que o Shabbath é baseado</p><p>no descanso de Deus após completar sua obra de Criação. Nem podemos</p><p>argumentar que o “memorial” do Shabbath deve ser uma lembrança do que</p><p>foi instituído na Criação. Isso porque a palavra “lembrança” é precisamente</p><p>a mesma usada em Deuteronômio para a “lembrança” de que Israel havia</p><p>sido escravo no Egito. Portanto, a instituição do Shabbath não precisa ter</p><p>ocorrido por ocasião da Criação.</p><p>Se o Shabbath não foi instituído na Criação, o quarto mandamento não</p><p>é, também, somente um costume tipicamente judeu, cuja validade está</p><p>restrita ao antigo Israel. A fim de defender a relevância universal do quarto</p><p>mandamento para a igreja e para o mundo, não precisamos invocar a ajuda</p><p>da “razão natural”. Com base nessa razão, alguns têm argumentado que</p><p>todas as pessoas têm um conhecimento inato com respeito à necessidade de</p><p>um ocasional dia de descanso. Por exemplo, Abraham Kuyper sugeriu um</p><p>argumento sobre “as cheias e vazantes da maré do sagrado número sete”, na</p><p>qual “o fluxo do tempo se apresenta diante de nós, uma vez que a harmonia</p><p>entre o ritmo da vida divina, antes e depois da Criação, é mantida dessa</p><p>maneira especial”. Sabemos muito pouco sobre esse ritmo sagrado que</p><p>Deus criou na natureza humana, e entre os assírios e babilônicos, que</p><p>“viviam junto ao berço da nossa raça humana”, constatamos menos do que</p><p>Kuyper, presumivelmente, sabia.155 As investigações científicas nada têm</p><p>descoberto que sugira um tipo de Shabbath originado na Criação que</p><p>pudesse ser conhecido de todos os homens, se apenas pensassem</p><p>cuidadosamente a respeito disso.</p><p>Insistimos, mais uma vez, que não precisamos depender desse tipo de</p><p>argumento a fim de considerar a validade universal do quarto mandamento.</p><p>Por que não poderia um mandato dado depois da Criação, ao povo de</p><p>Abraão, se tornar tão universalmente relevante a ponto de abarcar o nosso</p><p>domingo?</p><p>5. Textos das Epístolas do Apóstolo Paulo</p><p>Aqui chegamos à terceira dificuldade: no Novo Testamento, o quarto</p><p>mandamento não é expressamente mantido. Além disso, encontramos textos</p><p>nas epístolas de Paulo que poderiam dar a impressão de que a obrigação de</p><p>observar dias especiais (assim, também, um dia de descanso de acordo com</p><p>o quarto mandamento) já foi abolida.</p><p>Proponentes de ambos os lados da questão terão de admitir a presença</p><p>de diversas dificuldades exegéticas nesses versos, problemas que têm</p><p>conduzido a contínua discordância sobre a questão do Shabbath e do</p><p>domingo. Mas, com base no que está claro tanto no Antigo Testamento</p><p>quanto no Novo Testamento ofereceríamos a seguinte resposta à objeção</p><p>levantada contra a relação entre o domingo e o quarto mandamento com</p><p>base nos textos paulinos.</p><p>Em primeiro lugar, é verdade que no Novo Testamento não há menção</p><p>explícita da permanência do quarto mandamento, mas o contrário não é</p><p>menos verdadeiro. Referimo-nos, antes, à estranha situação em que nove</p><p>dos dez mandamentos seriam ainda válidos e apenas o quarto mandamento</p><p>teria um significado espiritual para a igreja do Novo Testamento.</p><p>Em segundo lugar, vimos como Jesus resistiu à farisaica perversão do</p><p>Shabbath, sem nada dizer contra o próprio quarto mandamento. Pelo</p><p>contrário, ele se apegou a esse mandamento e deixou claro que se tratava de</p><p>um mandamento para nosso deleite. Dessa sua declaração, de que o</p><p>Shabbath foi feito para o homem e não o homem para o Shabbath, podemos</p><p>concluir que o Shabbath deve ter sido algo mais do que um mandamento</p><p>puramente cultual (direcionado para a adoração). Essa era a perspectiva dos</p><p>Judeus. Consideraram-no não em termos de alegria e de liberdade, mas em</p><p>termos de “descanso” como um ato puramente religioso, com</p><p>consequências meritórias se alguém se mantivesse próximo das inúmeras</p><p>regras que salvaguardavam a observância do Shabbath. Mas o Shabbath</p><p>sobre o qual Jesus falou parece bem diferente. Será que esse Shabbath —</p><p>um dom, um dia em que o refrigério e o louvor a Deus andam de mãos</p><p>dadas — foi instituído apenas para a antiga e não para a nova dispensação?</p><p>Em terceiro lugar, devemos determinar a quem Paulo está se opondo</p><p>quando ele faz observações relativistas e mesmo degradantes sobre a guarda</p><p>de dias especiais. Assim como foi importante para nós indagar a respeito da</p><p>perspectiva sobre o Shabbath a que Jesus se opunha, também aqui é</p><p>importante vermos a interpretação das palavras de Paulo. Contra quem e</p><p>sobre o que Paulo está discutindo? Analisemos de modo mais acurado as</p><p>passagens a seguir.</p><p>1. A primeira passagem é Romanos 14.5: “Um faz diferença entre dia e</p><p>dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem definida</p><p>em sua própria mente”. Será que isso envolve o Shabbath como o</p><p>conhecemos a partir do quarto mandamento?</p><p>O contexto (Rm 14.1-4) discute a questão de comer ou não comer, e</p><p>junto com isso ele, aparentemente, fala sobre dias nos quais o povo jejua ou</p><p>não jejua. Paulo considera isso um assunto secundário. Existia diferença de</p><p>opiniões na Igreja de Roma quanto aos dias de jejum. Alguns membros</p><p>distinguiam um dia de outro, enquanto que outros membros consideravam</p><p>iguais todos os dias. Dessa forma, eles não deveriam condenar uns aos</p><p>outros, disse Paulo. “Quem distingue entre dia e dia para o Senhor o faz; e</p><p>quem come para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não</p><p>come para o Senhor não come e dá graças a Deus” (Rm 14.6).</p><p>Visto que o comer e o não comer estavam tão intimamente ligados a</p><p>dias, deveríamos entender que a diferença de opinião da igreja de Roma era</p><p>sobre dias de jejum. Isso é completamente diferente de entender que, nesse</p><p>contexto, Paulo tenha feito um pronunciamento sobre o dia do Shabbath, o</p><p>qual, pelo menos no seu sentido apropriado, não deveria ser um dia de</p><p>jejum, mas de festa.</p><p>Além disso, poderíamos perguntar se, considerando o domingo como</p><p>um dia especial, separado, estaremos honrando mais aquele dia do que</p><p>outro? No Novo</p><p>Testamento, lemos sobre o domingo como o “Dia do</p><p>Senhor”. Isso aponta para algo especial, uma coisa que deve ser</p><p>comemorada. Mas será que tal dia deve ser visto, sob essa perspectiva,</p><p>como superior aos outros dias? Podemos dizer que, em Cristo, todos os dias</p><p>são santos enquanto que o domingo é ainda um dia especial para a</p><p>celebração de tudo o que possuímos em Cristo?156</p><p>2. Em sua carta aos Gálatas, a afirmação de Paulo com respeito à</p><p>observância de dias, meses, estações e anos é mais veemente do que na</p><p>epístola aos Romanos (Gl 4.10). Aqui, a ênfase dada pelo apóstolo Paulo é</p><p>ainda maior, como se cada um fosse livre para escolher, tal como no caso do</p><p>jejum apresentado em Romanos 14.</p><p>Em vista da sequência “dias e meses e estações e anos”, o termo “dias”,</p><p>certamente, deve se referir ao dia do Shabbath semanal. Além disso, Paulo</p><p>fala de “meses” (por exemplo, as festas de lua nova, Nm 10.10; 28.11-13),</p><p>as “estações” (a grande festa da Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos), e</p><p>finalmente, os “anos” (referindo-se aos anos do Shabbath e ao Jubileu).</p><p>Aparentemente, Paulo discute aqui mais do que a simples observância de</p><p>dias de jejum, como ocorre em Romanos 14. Conquanto Paulo tivesse sido</p><p>mais brando, uma vez que ele não apresentou nenhuma distinção entre dias,</p><p>aqui ele é bem mais enfático. É o Evangelho de Cristo que está em jogo. Os</p><p>gálatas estavam sendo ameaçados por doutrinas judaizantes que exigiam a</p><p>volta da circuncisão e a observância completa do sistema de “dias, meses,</p><p>estações e anos” do ritual judaico.</p><p>Certamente teria sido estranho se o Shabbath não tivesse sido</p><p>mencionado nesse contexto! O Shabbath, como é aqui descrito, era um laço</p><p>indissolúvel na heresia dos judaizantes, uma vez que se recusavam a deixar</p><p>o que de fato tinha sido abolido. Paulo não está fazendo aqui um julgamento</p><p>isolado sobre o Shabbath (ou sobre o quarto mandamento), mas discutindo</p><p>o Shabbath no contexto de coisas tais como circuncisão e todo o ciclo anual</p><p>de festas judaicas. O ciclo festivo, com todos seus rituais, foi estabelecido</p><p>pelos judaizantes como condição indispensável para participação na</p><p>salvação de Jesus, o Messias. Esse tipo de salvação buscava seu fundamento</p><p>na Lei interpretada em um sentido judaizante e não na justiça que provém</p><p>da fé (Gl 3.10-14).157 Essa opinião dos judaizantes teria sido fatal para a</p><p>igreja cristã. Por isso, teve de ser radical e completamente abandonada.</p><p>Na prática, isso significou o fim da observância do Shabbath como dia</p><p>semanal de descanso no sentido judaico. O que Paulo diz aos gálatas</p><p>parece-nos uma declaração suficiente de que o Shabbath judaico cessou.</p><p>Mas será que isso nos dá o direito de dizer “adeus” ao quarto</p><p>mandamento naquilo que ele diz a respeito de um dia de descanso semanal?</p><p>O princípio sobre a qual se fundamenta o “Dia do Senhor” é algo decisivo</p><p>para que se responda a essa questão. Se esse princípio é, realmente, o dia de</p><p>Cristo e a justificação pela fé, então o domingo permanece dentro dos</p><p>parâmetros do quarto mandamento — e esse dia significa uma quebra com</p><p>o tipo de Shabbath contra o qual Paulo argumenta em sua epístola aos</p><p>Gálatas.</p><p>3. A situação dos colossenses foi, também, um tanto diferente. Aqui</p><p>Paulo estava envolvido em uma luta contra falsos mestres que haviam</p><p>estabelecido exigências ascéticas judaicas. “Não manuseies isto, não proves</p><p>aquilo, não toques aquiloutro” (Cl 2.21). Nesse contexto, eles vieram não</p><p>apenas com exigências sobre comer e beber, mas também sobre “dia de</p><p>festa, ou lua nova, ou sábados”. Seu erro lembra aquele dos judaizantes,</p><p>mas na sequência de Colossenses 2, são mencionados elementos que não</p><p>são fáceis de explicar no contexto judaico (especialmente o culto a anjos em</p><p>2.18). Provavelmente, estamos lidando aqui com uma religiosidade legalista</p><p>ascética de um ramo judaico-pagão.</p><p>Aqui, também, o Shabbath é mencionado. Ninguém pode condenar os</p><p>membros da igreja “por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua</p><p>nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam</p><p>de vir; porém o corpo é de Cristo” (Cl 2.16,17). O uso do plural “sábados” é</p><p>possível e não faz diferença alguma. Paulo poderia estar pensando sobre</p><p>todos os Shabbath (incluindo, portanto, os anos do Shabbath e o Ano de</p><p>Jubileu); em qualquer caso, não há razão para se excluir, aqui, a referência</p><p>ao Shabbath semanal.</p><p>Assim como em Gálatas 4.10, não há dúvida de que Paulo está</p><p>rejeitando a exigência de se observar os dias de Shabbath [cerimonial]. Esse</p><p>tipo de Shabbath é incluído quando ele descreve jejuns e festas como</p><p>“sombras” das coisas que haveriam de vir, enquanto Cristo é a “substância”.</p><p>O termo “sombras” não se refere, primariamente, a “uma tipologia</p><p>messiânica diferenciada em relação às prescrições do Novo Testamento”.158</p><p>Antes, a expressão pretende, no geral, dizer o seguinte: o que encontramos</p><p>em Israel em termos de atividades e prescrições religiosas retratava, “em</p><p>forma de rascunho”, o que Cristo concederia à sua igreja. As “sombras”</p><p>estão, de fato, relacionadas “à substância”: do mesmo modo que a sombra</p><p>mostra o contorno da realidade, assim também Cristo já era visível nos</p><p>preceitos e mandamentos do Antigo Testamento. Mas agora que ele veio,</p><p>não é mais possível percorrer os velhos caminhos da circuncisão e da</p><p>guarda do Shabbath, e muito menos estabelecer essas coisas como</p><p>condições para se determinar a religião verdadeira e genuína.</p><p>Cristo é o cumprimento da circuncisão. Essa sombra desapareceu; mas,</p><p>precisamente por isso, algo diferente tomou o lugar do sacramento do</p><p>Antigo Testamento, algo que, como a circuncisão, significa e sela o pacto: o</p><p>batismo. Cristo é o cumprimento do Shabbath. Essa sombra também</p><p>desapareceu, mas em seu lugar surge algo que, assim como o Shabbath,</p><p>celebra a libertação. Qualquer pessoa que queira manter o quarto</p><p>mandamento sem acompanhar o tempo da história da redenção tem de se</p><p>apegar ao Shabbath judaico. Mas, dessa maneira, tal pessoa não</p><p>compreenderá sequer um lampejo da verdadeira e libertadora intenção do</p><p>quarto mandamento. Pois essa libertação pressupõe um Shabbath que vem</p><p>depois de Cristo, diferente daquele que veio antes dele.</p><p>Uma sombra “das coisas por vir” desaparece quando as coisas por vir se</p><p>tornam realidade. A “substância” (Cristo) surgiu, de modo que as sombras</p><p>se desvaneceram.159</p><p>Dias de festa e jejuns eram conhecidos, também, na igreja do Novo</p><p>Testamento. Mas esses não eram mais sombras de algo por vir, mas, sim,</p><p>sinais de que já tinha vindo. As sombras da Circuncisão, da Páscoa e do</p><p>Shabbath deram lugar aos sinais do Batismo, da Ceia do Senhor e do</p><p>Domingo.</p><p>5. Do Shabbath Judaico para o Domingo</p><p>Levou algum tempo antes que o Shabbath judaico160 fosse substituído pelo</p><p>domingo ao longo da história da igreja. Por isso, precisamos comentar mais</p><p>detidamente sobre a quarta dificuldade mencionada no começo deste</p><p>capítulo: se a igreja cristã, durante o primeiro século de sua existência, não</p><p>relacionou a observância do domingo com o quarto mandamento, isso não</p><p>sugere que devemos fazer o mesmo? Não será melhor dizer que observamos</p><p>o domingo como uma ordenança eclesiástica em vez de uma ordenança</p><p>divina?</p><p>Em nossa opinião, não devemos superestimar as dificuldades</p><p>relacionadas a esse desenvolvimento histórico. É verdade que a observância</p><p>do domingo não foi instituída pelo próprio Cristo, pessoalmente, ou pelos</p><p>seus apóstolos. A esse respeito, não é uma ordenança divina, uma vez que a</p><p>observância do domingo obteve validade pública por meio de regulamentos</p><p>promulgados pela igreja e pelo Estado.</p><p>A guarda do domingo é, então, uma ordenança eclesiástica. Contudo,</p><p>foi, certamente, uma ordenança inevitável por causa do Espírito Santo, o</p><p>qual tem conduzido a igreja a toda a verdade. A reivindicação exercida</p><p>sobre a vida e o pensamento cristãos pela ressurreição de Cristo</p><p>simplesmente implica que os crentes deveriam, do modo mais natural, usar</p><p>o domingo para celebrar a ressurreição de Cristo. A transição do dia do</p><p>Shabbath judaico para o domingo não foi arbitrária, mas fluiu da autoridade</p><p>daquele que</p><p>chamou a si mesmo de Senhor do Shabbath e que o cumpriu.</p><p>Por isso, o tesouro do quarto mandamento não poderia, de modo nenhum,</p><p>permanecer atado ao Shabbath judaico, mas exigiu a celebração de outro</p><p>dia, a saber, o Dia do Senhor.</p><p>Portanto, a instituição da guarda do domingo não pode ser rejeitada</p><p>como mera ordenança eclesiástica que surgiu a partir de considerações</p><p>históricas. Não há um versículo específico no Novo Testamento que</p><p>evidencie para nós a mudança do dia do Shabbath judaico para o domingo.</p><p>Somente o biblicismo, com seu desejo de ter um versículo para cada coisa,</p><p>faz disso um problema. Há muitas outras coisas que carecem de um</p><p>versículo bíblico específico e particular, como o batismo infantil, mas nem</p><p>por isso deixam de ter fundamento bíblico. Frequentemente, se delineia um</p><p>paralelo para fixar o cânon da Bíblia. A igreja não reconheceu</p><p>imediatamente todos os livros que compõem a Bíblia. Mas, eventualmente,</p><p>ela o fez, e isso não “meramente” com base em sua própria autoridade, mas</p><p>em virtude do testemunho dos próprios livros bíblicos, por meio da obra do</p><p>Espírito Santo.</p><p>Com base no ensino do Novo Testamento, podemos dizer que, desde o</p><p>princípio, o domingo foi honrado entre os crentes. Foi o dia da ressurreição</p><p>de Cristo e, por isso, foi conscientemente chamado de “o Dia do Senhor”</p><p>(Ap 1.10). Desde os primórdios, os escritores cristãos seguiram essa forma</p><p>de expressão. Podemos mencionar aqui o Didache (c. 100 A.D.) e um</p><p>testemunho ainda mais convincente, o de Inácio, o qual escreveu em sua</p><p>Carta aos Magnésios que os cristãos “não mais observam o Shabbath [no</p><p>sétimo dia], mas dirigem sua vida na direção do Dia do Senhor [no primeiro</p><p>dia], no qual sua vida é refrigerada por ele mesmo e por sua morte”. Em</p><p>Justino Mártir (c. 150 A.D.), pela primeira vez, encontramos o termo</p><p>domingo sendo empregado como referência ao dia quando todos na cidade e</p><p>nos campos se reuniam no mesmo lugar. Dionísio de Corinto (c. 170 A.D.)</p><p>fala do santo Dia do Senhor. Tertuliano (c. 200 A.D.) nos informa que, para</p><p>os cristãos, o domingo é um dia de alegria. Em outro lugar, ele diz que os</p><p>pagãos não celebrariam o Dia do Senhor ou Pentecostes, com medo de</p><p>serem confundidos com cristãos.</p><p>Tais expressões indicam, claramente, que a guarda do domingo [o</p><p>Shabbath neotestamentário] entre os cristãos deve ter sido muito difundida!</p><p>Nos dias de Tertuliano, a guarda do domingo era uma marca distintiva dos</p><p>cristãos.161</p><p>É bem verdade que nesses e em outros documentos semelhantes,</p><p>raramente lemos que os cristãos deixassem de lado o seu trabalho diário.</p><p>Somente em Tertuliano lemos uma observação sobre não trabalhar no</p><p>domingo.162</p><p>É óbvia a conclusão de que, onde a guarda do domingo é mencionada, é,</p><p>naturalmente, colocada uma marca sobre todo o dia. “Observar” o dia</p><p>incluía mais do que ir às reuniões da igreja entre os períodos do trabalho</p><p>diário. Isso está de acordo com o que o Concílio de Laodiceia (c. 360)</p><p>prescreveu: os cristãos não devem viver segundo os padrões judaicos e,</p><p>portanto, devem trabalhar no dia de sábado; mas devem respeitar o</p><p>domingo, e, como cristãos, devem deixar de trabalhar nesse dia, se possível.</p><p>Nos primeiros escritos cristãos, onde o assunto do domingo é discutido,</p><p>os autores (como Papias, Marcião e Eusébio) frequentemente distinguiram o</p><p>domingo do Shabbath judaico.163 Assim, o domingo era visto como sendo</p><p>instituído em contraposição ao dia desse Shabbath. É interessante notar que</p><p>esses autores omitiram qualquer sugestão de que a guarda do domingo</p><p>estivesse em concordância com o quarto mandamento. Por que essa</p><p>omissão?</p><p>Acreditamos que há pelo menos duas razões para isso — explicações</p><p>que já temos sugerido. Primeiro, a veemente oposição entre cristãos e</p><p>judeus ao longo desse período resultou em uma aversão quanto a relacionar</p><p>a guarda do domingo com o preceito da lei “judaica”. Os cristãos se</p><p>separaram radicalmente do judaísmo, e isso deixou pouco espaço para a</p><p>distinção entre o Shabbath judaico e a validade permanente do quarto</p><p>mandamento.</p><p>Uma segunda razão — que apenas fortalece a primeira — reside na</p><p>interpretação alegórica do Antigo Testamento: a letra do quarto</p><p>mandamento deve dar lugar ao sentido espiritual que se pensava haver por</p><p>trás da letra. Essa perspectiva foi defendida não somente por Agostinho</p><p>(como dissemos acima), mas já a encontramos na literatura dos primeiros</p><p>séculos: depois da primeira vinda de Cristo, devemos descansar todos os</p><p>dias, em um sentido espiritual, de nossas obras más; o descanso do dia do</p><p>Shabbath era uma sombra do descanso de Cristo no sepulcro. O sentido</p><p>mais profundo do quarto mandamento foi expresso em palavras durante os</p><p>primeiros séculos da igreja cristã.164</p><p>Não devemos seguir os escritores cristãos primitivos nesse ponto, como</p><p>temos tentado demonstrar. É legítimo indagar sobre o sentido profundo, mas</p><p>é incorreto permitir que a interpretação e a aplicação do quarto mandamento</p><p>sejam limitadas a esse sentido profundo. Felizmente, a igreja do Novo</p><p>Testamento refletiu sobre o quarto mandamento mais detalhadamente, de</p><p>modo que junto com o provisório, também o aspecto permanente recebesse</p><p>atenção.</p><p>Embora a igreja primitiva não tenha adotado inicialmente uma visão</p><p>sólida com respeito ao quarto mandamento, em um ponto de crucial</p><p>importância ela estava definitivamente correta: ela recebeu o domingo como</p><p>um dia de alegria, exatamente como era a intenção original do Shabbath.</p><p>Mais tarde, a igreja entendeu que essa celebração jubilosa exigia libertação</p><p>do trabalho diário (algo que está em plena concordância com o quarto</p><p>mandamento) era algo totalmente não-relacionado com a “fé judaizante”.</p><p>Não precisamos censurar a igreja primitiva.165 Depois do rompimento</p><p>com o judaísmo, ela teve de construir muita coisa nova. Ela vivia em um</p><p>mundo onde, como minoria oprimida, não estava em situação de proclamar</p><p>o domingo como dia de descanso. Os judeus tinham seu Shabbath, mas os</p><p>cristãos ainda não tinham o domingo como dia de descanso. Somente</p><p>quando imperadores cristãos chegaram ao poder, é que foi possível tomar</p><p>uma medida dessas. Assim como, no Egito, Israel não podia observar o</p><p>Shabbath, mesmo que já nessa época tivesse familiaridade com a</p><p>observância do Shabbath, assim também a igreja dificilmente poderia</p><p>guardar o domingo como um dia de repouso durante aqueles primeiros</p><p>séculos, mesmo que já tivesse o entendimento adequado sobre ele, na</p><p>Escritura.</p><p>5. O Provisório e O Permanente</p><p>Como havíamos prometido, precisamos dizer, ainda, algo sobre o provisório</p><p>e o permanente, especialmente o que diz respeito à transição do dia do</p><p>Shabbath judaico para o domingo.</p><p>Os termos provisório e permanente nos parecem melhores do que</p><p>cerimonial e moral. Precisamos explicar melhor essa questão.</p><p>Podemos dizer, certamente, que Cristo é o cumprimento do Shabbath e</p><p>que, como celebração da libertação do Egito, o Shabbath era “sombra” do</p><p>que agora temos em Cristo, o qual é a sua “substância”. Cristo, o nosso</p><p>cordeiro pascal, foi imolado (1Co 5.7) e, portanto, o Shabbath como</p><p>instituição que olhava para o êxodo e para o Egito, é passada. No domingo,</p><p>o nosso olhar se volta para a ressurreição de Cristo.</p><p>Cremos que isso seja permanente tanto em relação ao Shabbath judaico</p><p>quanto ao domingo. O Shabbath olhava para o descanso de Deus no final de</p><p>sua obra de Criação. Isso se aplica também ao domingo cristão, como um</p><p>dia de descanso a cada sete dias.</p><p>Além disso, podemos dizer, especialmente à luz de Hebreus 4, que o</p><p>Shabbath semanal era um sinal do Shabbath eterno. Isso também se aplica</p><p>ao domingo. O descanso definitivo de nossas obras, semelhante ao descanso</p><p>de Deus de sua obra de Criação, não está ainda ao nosso alcance (Hb 4.9-</p><p>10). Tanto o Shabbath quanto o domingo, são sinais que apontam para essa</p><p>verdade.166</p><p>Entre os elementos provisórios que perderam espaço depois da vinda de</p><p>Cristo, estão os seguintes:</p><p>1. Observar o Shabbath no dia de sábado, como já expusemos.</p><p>2. Observar todo o ciclo dos Shabbath (incluindo anos de Shabbath e</p><p>Anos de Jubileu), o qual estava tão entrelaçado com a existência</p><p>de Israel</p><p>como nação teocrática e separada, que o desaparecimento de Israel</p><p>significou também o fim da possibilidade prática de sua legislação (com</p><p>seus regulamentos pertinentes ao trabalhado da terra, liberação de terras,</p><p>libertação de escravos, e daí por diante). O texto do quarto mandamento fala</p><p>apenas do dia de descanso semanal, o qual obteve uma maior abrangência</p><p>tipológica teocrático-israelita no ciclo dos Shabbath.167</p><p>3. A sanção da pena capital ligada à transgressão do mandamento do</p><p>Shabbath (Nm 15.32-36, a narrativa do homem que apanhava lenha no</p><p>Shabbath). Essa sanção também nos leva para dentro da esfera de um povo</p><p>separado, totalmente dedicado a Yahweh, uma nação para a qual as</p><p>disciplinas “civis” e “eclesiásticas” coincidiam. Isso não mais se aplica</p><p>hoje.168 Voltaremos a esse ponto mais adiante.</p><p>4. Diversas concretizações com respeito a coisas não permitidas no</p><p>Shabbath. Já vimos que o número de regulamentos na legislação mosaica</p><p>que abrangiam o Shabbath era muito pequeno. Contudo, aqueles que</p><p>possuímos nos levam a pensar mais prontamente sobre o Antigo Testamento</p><p>como um período de imaturidade durante o qual era cabível a formulação de</p><p>cuidadosas proibições, enquanto que o Novo Testamento é caracterizado</p><p>como um período de liberdade (Gl 4.1-5).</p><p>5. Não Superestimar Diferenças Confessionais</p><p>Antes de discutir a observância e celebração do domingo, gostaríamos de</p><p>considerar diversas diferenças existentes entre cristãos com respeito à</p><p>questão do Shabbath e do domingo. Essas diferenças podem ser superadas,</p><p>simplesmente, com uma leitura de duas confissões intimamente</p><p>relacionadas. Comparemos o que duas confissões reformadas, O Catecismo</p><p>Maior de Westminster (1648) e o Catecismo de Heidelberg (1563) dizem</p><p>sobre o domingo.</p><p>Lemos no Catecismo Maior de Westminster (Pergunta 117):</p><p>O Sábado, ou Dia do Senhor, deve ser santificado por meio de um santo</p><p>descanso por todo aquele dia, não somente de tudo quanto é sempre</p><p>pecaminoso, mas até de todas as ocupações e recreios seculares que são</p><p>lícitos em outros dias; e em fazê-lo o nosso deleite, passando todo o</p><p>tempo (exceto aquela parte que se deve empregar em obras de</p><p>necessidade e misericórdia) nos exercícios públicos e particulares do</p><p>culto de Deus. Para este fim havemos de preparar o nosso coração, e,</p><p>com toda previsão, diligência e moderação, dispor e convenientemente</p><p>arranjar os nossos negócios seculares, para que estejamos mais livres e</p><p>mais prontos para os deveres desse dia.169</p><p>O Catecismo de Heildelberg dá uma resposta, no Dia do Senhor 38, à</p><p>questão do que Deus nos ordena no quarto mandamento:</p><p>Primeiro, que o ministério do evangelho e as escolas cristãs sejam</p><p>mantidos, e que eu, especialmente no Dia de Descanso [Shabbath], seja</p><p>diligente em ir à igreja de Deus para ouvir a Palavra de Deus, participar</p><p>dos sacramentos, invocar publicamente ao Senhor e praticar a caridade</p><p>cristã para com os necessitados. Segundo, que em todos os dias da minha</p><p>vida eu cesse as minhas más obras, deixe o Senhor operar em mim por</p><p>seu Espírito Santo e, assim, começar nesta vida o descanso eterno. 170</p><p>As diferenças são marcantes. O Catecismo maior de Westminster</p><p>focaliza o descanso do trabalho diário, tal como o texto do quarto</p><p>mandamento. O Catecismo de Heidelberg silencia quanto a esse descanso, e</p><p>prefere focalizar a atenção em algo que deve ocorrer todo dia: o descanso</p><p>“espiritual”, a saber, das nossas obras malignas. Isso constitui uma</p><p>interpretação do quarto mandamento totalmente alinhada com a</p><p>interpretação não literal de Calvino que discutimos anteriormente. O que o</p><p>Catecismo de Heidelberg enfatiza não é o descanso do labor ordinário</p><p>(mesmo que esse descanso esteja contido na expressão “o Dia de</p><p>Descanso”, a qual explica a palavra “Shabbath”), mas o fato de se ir à</p><p>igreja.</p><p>Algumas pessoas têm resumido a diferença entre esses dois catecismos</p><p>da seguinte forma: no Catecismo Maior de Westminster, o descanso do</p><p>trabalho diário é um fim religioso em si mesmo, enquanto que no Catecismo</p><p>de Heidelberg ele é, meramente, um meio para o objetivo religioso de se ir à</p><p>igreja. Contudo, essa caracterização não nos parece totalmente acurada, pois</p><p>o Catecismo Maior de Westminster também vê o descanso como um meio:</p><p>devemos empregar “todo o tempo” para “exercícios públicos e particulares</p><p>do culto de Deus”! Portanto, podemos dizer, de modo mais apropriado, que</p><p>o Catecismo Maior de Westminster dá atenção tanto ao descanso quanto ao</p><p>exercício de adoração, e que o Catecismo de Heidelberg dirige sua atenção</p><p>à frequência dominical no culto e ao descanso “espiritual”.</p><p>Em todo o protestantismo da Europa, Inglaterra e América, levantaram-</p><p>se polêmicas contundentes sobre a questão do Shabbath, tão acirradas que</p><p>às vezes a separação foi inevitável.171 Muitos seguiram o ramo puritano</p><p>inglês (por exemplo, os teólogos holandeses Walaeus e Voetius). Eles criam</p><p>que o descanso do Shabbath continuava no descanso do domingo. Outros</p><p>(por exemplo, Gomarus e, depois dele, Cocceius, ainda mais veemente)</p><p>enfatizaram o caráter judaico e provisório do Shabbath, pelo que o descanso</p><p>do Shabbath veio a ser considerado diferente do descanso no domingo.</p><p>Contudo, as divisões eram evitadas, em grande parte porque os diversos</p><p>pontos de vista aproximaram mais uns dos outros do que causaram</p><p>separação, especialmente quando se tratava da prática da guarda do</p><p>domingo. Organizar os cultos dominicais nas igrejas era difícil sem o</p><p>descanso no domingo, não importando o ponto de vista adotado. Mesmo</p><p>aqueles que não concordavam que tanto o descanso quanto a adoração</p><p>fossem extensões do princípio do quarto mandamento, acreditavam que, na</p><p>prática, o descanso e o culto se uniam. Onde quer que as pessoas separem</p><p>um dia para o culto (em casa ou na igreja), o trabalho regular tinha de ser</p><p>interrompido.</p><p>As divisões da igreja na Holanda foram evitadas porque o Sínodo de</p><p>Dort tomou uma decisão moderada sobre o assunto. Nesse sínodo, os</p><p>teólogos ingleses se queixaram da negligência do domingo, tal como</p><p>puderam testemunhar com seus próprios olhos na cidade de Dordrecht.</p><p>Ainda assim, o sínodo não fez um pronunciamento estritamente puritano.</p><p>Na verdade, não fez nenhum pronunciamento, mas concordou em firmar um</p><p>compromisso com a ajuda dos professores que atendiam ao sínodo, vindos</p><p>das igrejas da Província de Zeeland, os quais discutiam sobre esse assunto</p><p>nesse tempo.172</p><p>A organização das palavras do “Dia do Senhor 38” do Catecismo de</p><p>Heidelberg evitou outra divisão eclesiástica, pois ambas as partes poderiam</p><p>apelar para ela! Aqueles que, no espírito dos puritanos, lutaram pelo</p><p>descanso no domingo poderiam mostrar a referência ao domingo como</p><p>Shabbath e dia de descanso; aqueles que defendiam firmemente o caráter</p><p>cerimonial do descanso requerido pelo quarto mandamento poderiam, com</p><p>igual justificação, citar as passagens relacionadas com “o descanso das</p><p>nossas más obras”, encontradas no Novo Testamento.</p><p>Instruídos pelo passado, devemos ser cuidadosos hoje para evitar</p><p>exageros das diferenças envolvendo o Shabbath judaico e o domingo</p><p>cristão. Alguém pode se apegar à visão (como nós) de que o “Dia do Senhor</p><p>38” do Catecismo de Heidelberg evidencia certa lacuna nesse ponto, porque</p><p>suas formulações refletem timidamente o quarto mandamento. O aspecto</p><p>“cerimonial” surge mais agudamente nesse Dia do Senhor do que o aspecto</p><p>“moral” — para se usar mais uma vez esses termos infelizes. Ele não fala</p><p>diretamente sobre o descanso do labor diário. Por outro lado, o Catecismo</p><p>Maior de Westminster também mostra fraquezas. Esse catecismo, de fato, é</p><p>bem negativo quanto a atividades de recreação, porque todo o dia deve ser</p><p>usado para culto público e privado, com exceção do tempo necessário para</p><p>trabalhos de necessidade e de misericórdia. Dessa forma, o dia é,</p><p>certamente, pleno de “espiritualidade”, tanto que é deixada pouca</p><p>oportunidade para se fazer o que também é característico do domingo:</p><p>“recuperar o fôlego” por meio de genuíno descanso físico.</p><p>Contudo, não há grande diferença entre esses dois Catecismos. Ambos</p><p>começam com</p><p>a validade do quarto mandamento. A questão começa a ficar</p><p>mais séria quando afirmamos que o quarto mandamento foi deixado de</p><p>lado, cortando a conexão entre o domingo e o quarto mandamento. Nunca</p><p>surgiu uma contenda sobre a diferença entre os dois Catecismos, pois essas</p><p>diferenças são muito pequenas e consistem não mais do que em diferentes</p><p>ênfases na interpretação do quarto mandamento.</p><p>Algo semelhante pode ser dito com respeito à polêmica entre Gomarus e</p><p>Waleus, na qual há diversos pontos de diferença no contexto do argumento</p><p>comum de que o quarto mandamento permanece sendo válido ainda hoje.</p><p>Mas não foi esse o caso na contenda entre Cocceius e Hoombeek, pois</p><p>Cocceius rejeitou a validade do quarto mandamento, dizendo ser ele</p><p>totalmente cerimonial.173</p><p>O ponto de partida confessional correto é que o quatro mandamento</p><p>ainda hoje é válido. Mas com respeito à maneira pela qual o Shabbath</p><p>judaico e o domingo cristão são relacionados, e as consequências disso para</p><p>a nossa guarda do domingo, as diferenças continuarão existindo.</p><p>5. A Celebração do Domingo</p><p>Há alguns anos, o teólogo holandês A. van Selms escreveu que, em média,</p><p>10.000 famílias, somente na Holanda, eram afetadas por sérias disputas</p><p>sobre o que era e o que não era permitido no domingo. Pelo seu cálculo,</p><p>haveria meio milhão de disputas por ano; os técnicos em estatísticas podem</p><p>nos dizer quantas cargas emocionais estão atreladas a esse número. Talvez,</p><p>hoje, esse número tenha diminuído, uma vez que a reflexão sobre o caráter</p><p>especial do domingo ocupa a atenção de um menor número de pessoas do</p><p>que ocupava na época em que Selms escreveu seu livreto. Mas podemos</p><p>assegurar que, mesmo hoje, surgem disputas quando as famílias discutem</p><p>sobre o que pode e o que não pode ser feito no domingo.</p><p>Em nosso ponto de vista, há questões menos importantes que ocasionam</p><p>disputas. Disputamos sobre grandes questões como fé em Deus e em Jesus</p><p>Cristo, amor ao próximo, casamento e sexualidade, paz e segurança. Por</p><p>que não sobre a observância do domingo? Podemos culpar os puritanos,</p><p>cuja perspectiva da observância do Shabbath, supostamente “prejudica”</p><p>nossos filhos e os aliena da igreja à medida que crescem. Mas isso não seria</p><p>honesto. Muitas disputas surgiram porque desfrutar do domingo no sentido</p><p>bíblico não é fácil. “Rea severa est verum gaudium”(verdadeira alegria é</p><p>coisa séria).</p><p>Desfrutar do domingo de acordo com o quarto mandamento pressupõe</p><p>algumas realidades importantes.</p><p>Deleite pressupõe que somos capazes de abrir mão das nossas</p><p>preocupações diárias. Isso envolve não só nosso labor ocupacional, mas</p><p>todo labor, incluindo aquele relacionado à organização de nosso tempo livre</p><p>fora das horas de trabalho dos demais dias da semana. Milhares de membros</p><p>de igreja têm problemas com isso. Isso envolve a maneira de celebrarmos</p><p>nossa liberdade. Não deveríamos ser escravos do nosso trabalho nem dos</p><p>nossos hobbies, mas, frequentemente, o somos.</p><p>O deleite pressupõe algo em que podemos desfrutar da presença de</p><p>outras pessoas. Quando o Shabbath era adequadamente celebrado, todo</p><p>mundo procedia de igual maneira: todos descansavam — membros da</p><p>família, escravos, animais e o estrangeiro. Ao homem livre não era</p><p>permitido fazer seus escravos trabalharem, e, como extensão do Shabbath, o</p><p>Ano do Jubileu era o tempo para a libertação de todos os escravos. Em</p><p>nenhum lugar dos Dez Mandamentos fica claro que não deva haver</p><p>discriminação social. O domingo deve ser uma reflexão sobre isso, também.</p><p>O deleite não é uma atividade individual, mas requer a celebração coletiva</p><p>de nossa libertação por meio de Cristo. Isso também está longe de ser uma</p><p>coisa fácil no domingo, isto é ser e agir como uma comunhão de santos.</p><p>O deleite pressupõe que nos devotemos ao Senhor no domingo. O</p><p>domingo, tal como o Shabbath, é para o homem. Mas, ao mesmo tempo, é o</p><p>Dia do Senhor, um dia para fazer aquilo que não conseguimos muito</p><p>facilmente fazer nos outros dias, isto é, ir à igreja, orar junto com a família,</p><p>cantar, e conversar sobre a devoção que nosso Senhor requer de nós.</p><p>Todas essas atividades tornam o domingo diferente em caráter de, por</p><p>exemplo, “um sábado de folga”. Podemos desfrutar dos nossos feriados e</p><p>nossas férias porque eles nos ajudam a “recuperar o fôlego”, como o</p><p>domingo o faz. Mas em termos da combinação de “descanso” e de</p><p>“consagração”, desfrutamos do domingo de modo diferente de um feriado.</p><p>Esse deleite especial envolve problemas, é claro. Cada um de nós sabe, por</p><p>experiência, que a autonegação requer que devotemos o domingo a Deus,</p><p>dessa maneira, não estaremos ocupados conosco mesmos.</p><p>Com base em todas essas observações, deveria ficar claro que além de</p><p>ser um dom divino, o desfrutar do domingo é também um mandado divino.</p><p>Isso nos leva à questão concernente a como guardamos o domingo. Como</p><p>passamos o dia? Podemos determinar o que pode e o que não pode ser feito</p><p>no domingo, ou todas as formas de casuísmo são proibidas aqui?</p><p>5. Guardando o Nosso Domingo</p><p>Em sua Church Dogmatics, Karl Barth escreveu algumas coisas excelentes</p><p>sobre o domingo como dia de festa. No domingo, nós celebramos o fato de</p><p>que somos livres de nós mesmos porque somos livres para Deus. Podemos</p><p>experimentar o dia como um exercício de fé, no qual negamos a nós</p><p>mesmos. Entretanto, mesmo que Barth use a palavra exercício, ele treme de</p><p>medo ante qualquer casuísmo quanto ao domingo. Ele cita William Ames, o</p><p>qual proibia qualquer andança (exceto para ir e voltar da igreja). Barth</p><p>criticou, também, a arbitrariedade com a qual Ames determinava o que</p><p>eram “obras de necessidade” permissíveis no domingo. Um médico pode</p><p>trabalhar em favor do seu próximo, assim como os funcionários públicos e</p><p>os militares, cuja tarefa era cuidar da segurança nacional. Mas um</p><p>fazendeiro não podia usar o domingo para colheita ou semeadura, mesmo se</p><p>sua lavoura inteira estivesse ameaçada pelo mau tempo.174</p><p>Sem concordar com Ames quanto ao que pode e não pode ser feito no</p><p>domingo, cremos que os comentários de Barth sobre esse ponto é injusto.</p><p>Ele condena fazer distinção entre princípios norteadores com respeito ao</p><p>que pode e ao que não pode ser feito no domingo. Mas ele mesmo indica</p><p>direcionamentos. A celebração do domingo como um dia para o Senhor, diz</p><p>ele, requer que se evite toda sorte de trabalho e todas as atividades que</p><p>exigem grandes planejamentos (e, por isso mesmo, impróprias).175</p><p>Como pode Barth dar a si mesmo esses direcionamentos e negar a</p><p>outros o privilégio de concretizar os seus? Com sua observação sobre toda</p><p>sorte de trabalho no domingo, Barth está, na verdade, argumentando</p><p>segundo o mesmo princípio que Ames e outros, que usam a distinção entre</p><p>trabalho necessário e não necessário. Para decidir sobre quais os tipos de</p><p>recreação que são permissíveis no domingo, Barth explica concretamente o</p><p>que ele entende: para celebrar o domingo como o Dia do Senhor, não se</p><p>pode dormir até tarde na manhã do domingo ou passear no campo.</p><p>A preocupação de Barth é compreensível. A concretização de princípios</p><p>não pode se tornar um jugo pesado, porque o domingo é um dia de festa.</p><p>Além disso, não se terá celebrado o domingo se apenas se fez o que “pode”</p><p>ser feito e se evitou o que “não pode” ser feito. Não podemos fazer com o</p><p>domingo o que os fariseus fizeram com o Shabbath.</p><p>Para Barth, uma prova infalível de que alguém estava guardando ou não</p><p>o domingo era se, sinceramente, considerava (e de que modo) o domingo</p><p>como um verdadeiro dia de deleite.176 Podemos concordar, de coração, com</p><p>o que Barth diz aqui. Deus é quem, em última instância, julga nossa</p><p>observância do domingo; nós somente podemos julgar a aparência externa.</p><p>Além disso, a aparência externa pode variar. Nem todas as pessoas fazem as</p><p>coisas da mesma maneira no domingo, ainda que, a despeito de tais</p><p>diferenças, talvez falemos da mesma celebração “espiritual” do domingo.</p><p>Não temos uma uniformidade na observância do domingo, e nem</p><p>devemos lutar por isso. Se buscássemos tal uniformidade, logo cairíamos</p><p>em um casuísmo exagerado como o de Ames e de muitos outros.177 Hoje,</p><p>isso significaria</p><p>e de coisas semelhantes. Os negros na África</p><p>do Sul, os pobres na América do Sul, mulheres e homossexuais, todos</p><p>querem ser libertados. Teólogos vêm, então, em seu auxílio com a</p><p>mensagem de que Deus é o grande Libertador, aquele que liberta os homens</p><p>de toda sorte de escravidão. Para eles, esse é motivo do êxodo na Bíblia!</p><p>Sem dúvida, liberdade é uma palavra importante em relação à</p><p>interpretação do Prólogo e dos Dez Mandamentos. Assim, nós também</p><p>usaremos essa palavra com frequência de agora em diante. A Lei de Moisés</p><p>tem implicação social para estrangeiros, escravos, órfãos e viúvas (por</p><p>exemplo, Dt 15 e 24). Qualquer pessoa que tenha sido libertada do Egito</p><p>deve entender como um estrangeiro e um escravo devem ser tratados. Mas,</p><p>por essa mesma razão, fazer do Decálogo a Carta Magna da libertação pode</p><p>ser totalmente unilateral (e sua aplicação bastante inaceitável também).5 Por</p><p>quê? Porque esse equívoco eleva a libertação humana à posição de tema</p><p>principal do Decálogo. O Prólogo não diz: “Vocês são os libertos que Eu</p><p>libertei do Egito, da casa da servidão”, mas: “Eu sou o SENHOR, teu Deus,</p><p>que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão”. Ou seja, o SENHOR é o</p><p>tema principal do Decálogo. Isso é confirmado quando, imediatamente após</p><p>o texto dos Dez Mandamentos (de acordo com o texto de Dt 5),</p><p>encontramos o cerne da questão: o temor do Yahweh. “[...] para que temas</p><p>ao SENHOR, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos que</p><p>eu te ordeno, tu, e teu filho, e o filho de teu filho, todos os dias da tua vida;</p><p>e que teus dias sejam prolongados. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de</p><p>todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Dt 6.2,5).</p><p>Quando cita esse texto, Jesus chama este de o primeiro e grande</p><p>mandamento (Mt 22.38). Assim, colocar a liberdade humana como o ponto</p><p>central implica em uma interpretação antropocêntrica do Decálogo em vez</p><p>de uma interpretação teocêntrica.</p><p>O respeito por Deus é algo singular, com sua própria expressão de fé, de</p><p>gratidão e de louvor. Os primeiros quatro mandamentos não foram postos</p><p>primeiros por acidente. A Teologia da Libertação não é verdadeira teo-</p><p>logia, porque enfatiza demais a libertação humana e enfatiza menos a</p><p>condição indispensável para a verdadeira libertação: completa rendição a</p><p>Deus. Lemos na Bíblia precisamente o oposto. Pedro estava familiarizado</p><p>com o jugo pesado que servos e escravos tinham de carregar. Sem presumir,</p><p>porém, que tivessem de se desvencilhar desse jugo, Pedro partiu da</p><p>premissa de que seus leitores já haviam obtido liberdade. Eles eram</p><p>chamados a viver como homens livres e a servir a Deus com sua liberdade</p><p>(1Pe 2.13-20).</p><p>Além disso, não devemos interpretar a libertação do Egito como um</p><p>contexto político-social de oposição entre os que têm e os que não têm, ou</p><p>entre os que governam e os que são governados. Se tivesse sido uma</p><p>questão político-social, por que razão os outros milhares de escravos que</p><p>viviam no Egito naquela época também não foram libertados? Além do</p><p>mais, já vimos que, se fosse deixado à sua escolha, os israelitas jamais</p><p>teriam deixado o Egito. As panelas de carne, o pão e o peixe, e todos os</p><p>melões (Êx 16.3 e Nm 11.5-6) eram mais atraentes do que os “riscos”</p><p>relacionados com a confiança em Yahweh!</p><p>Qualquer pesquisa sobre o ponto principal do livro do Êxodo terá de</p><p>apontar mais do que a simples resistência a um despótico Faraó e seu</p><p>jugo de escravidão.</p><p>No tempo em que Israel ainda estava no Egito, José — que não era um</p><p>escravo, mas um príncipe — ansiava pela terra de Canaã, fazendo um</p><p>juramento de que seus ossos seriam levados para lá quando Deus, um dia,</p><p>usasse de misericórdia para com o povo de José (Gn 50.24,25). E Moisés,</p><p>que desfrutava da mesma posição proeminente na corte de Faraó, preferiu</p><p>sofrer junto com o povo de Deus a desfrutar dos prazeres transitórios do</p><p>pecado. Considerou o opróbrio de Cristo como superior aos tesouros do</p><p>Egito (Hb 11.24-26).</p><p>O êxodo do Egito não pode servir como modelo para os diversos</p><p>movimentos de libertação, mas serve, antes, como o modelo da verdadeira</p><p>liberdade que reside nas promessas de Deus, da escravidão do pecado e do</p><p>êxodo para fora dessa servidão por meio de Cristo. Qualquer pessoa que</p><p>ignore esses aspectos oferecerá uma mera análise superficial do êxodo de</p><p>Israel do Egito. Ele chorará com os israelitas acerca da escravidão (Êx</p><p>2.23), mas logo se queixará do deserto quando verificar que liberdade e pão</p><p>estão intrinsecamente ligados à fé e à obediência a Deus.</p><p>Finalmente, a Teologia da Libertação não pode ser nosso guia quanto à</p><p>vida de santidade, à qual o Decálogo nos convoca. Liberdade é uma</p><p>vocação, mas não deve ser usada para dar lugar à carne (Gl 5.13). Não</p><p>importa se alguém é escravo ou livre, o que importa é guardar os</p><p>mandamentos de Deus (1Co 7.17-19). Tanto o rico quanto o pobre, livre ou</p><p>escravo, podem estar ao lado da besta do anticristo e, portanto, estar sob</p><p>condenação (Ap 13.8; 14.16-20; 19.18). Sim, devemos defender o pobre,</p><p>mas qualquer um que argumente — mesmo que esses argumentos estejam</p><p>revestidos das “vestes santas” da teologia — que permita ao pobre se</p><p>insurgir contra o rico à medida que buscam seus direitos por meios</p><p>revolucionários, não está falando mais acerca da liberdade sobre a qual</p><p>Pedro tratou (veja acima). Qualquer um que defenda a livre expressão</p><p>sexual, que negue que o casamento é uma ordenança divina, e que defenda</p><p>o direito a um estilo de vida homossexual, pode até estar falando de</p><p>liberdade, mas não do tipo de liberdade cristã que a Bíblia associa a um</p><p>estilo de vida santo e modesto. Embora sejam chamadas de Teologias da</p><p>Libertação, o que elas realmente têm a ver com teologia se não mais falam</p><p>biblicamente sobre Deus e seu povo santo?</p><p>O Pessoal e o Negativo</p><p>A tudo isso, devemos acrescentar que o Decálogo é dirigido ao israelita na</p><p>segunda pessoa do singular. Colocando de modo mais simples, o Prólogo</p><p>diz: “Eu sou o SENHOR, teu [singular] Deus, que te [singular] tirei da terra do</p><p>Egito, da casa da servidão”. Podemos traduzir os mandamentos da mesma</p><p>forma: Não terás [singular] outros deuses diante de mim; Não farás</p><p>[singular] para ti imagem de escultura; Não tomarás [singular] o nome do</p><p>SENHOR, teu Deus, em vão; Lembra-te [singular] do dia de sábado</p><p>[Shabbath], para o santificar; Honra teu [singular] pai e tua mãe; Não</p><p>matarás [singular]; Não adulterarás [singular]; Não furtarás [singular]; Não</p><p>dirás [singular] falso testemunho; Não cobiçarás [singular].</p><p>Yahweh estabeleceu uma aliança com seu povo, mas se esse povo livre</p><p>desejasse permanecer livre, cada um, pessoalmente, teria de entender sua</p><p>responsabilidade. Toda ética social fracassará se fechar os olhos à</p><p>responsabilidade pessoal. Podemos aprovar toda sorte de tratado para</p><p>mudança social, e até mesmo esperar que os homens sejam libertos por</p><p>meio dele, mas será pura ilusão. O mal reside na estrutura (também), mas é</p><p>arquitetado no coração humano. Toda pessoa tem uma relação especial com</p><p>Deus. Assim como cada indivíduo será julgado pessoalmente no juízo final</p><p>(2Co 5.10), assim também cada um é responsabilizado pessoalmente diante</p><p>da Lei. Ninguém pode transferir responsabilidade pessoal para outros.6 Se</p><p>“todos” quiserem se levantar contra o que Yahweh diz, então ele nos</p><p>adverte: “Não seguirás [singular] a multidão para fazeres mal” (Êx 23.2).</p><p>Esse tipo de advertência esclarece o sentido real da liberdade. Os homens</p><p>são livres quando obedecem a Deus, mesmo se isso os leva ao isolamento</p><p>social.</p><p>Em conexão com essa questão de “liberdade”, gostaríamos de</p><p>mencionar algo sobre o caráter negativo dos mandamentos. Oito vezes</p><p>ouvimos: “Não”, e os dois outros mandamentos (o quarto e o quinto)</p><p>indicam claramente, por meio de sua instrução positiva, que certas coisas</p><p>são proibidas. Em vista de tantas formulações negativas, é possível, ainda,</p><p>falar de uma Lei da liberdade? Não perdemos a liberdade da qual o Prólogo</p><p>dá testemunho, assim que chegamos aos mandamentos?</p><p>Podemos, certamente, deduzir das formulações negativas que o homem</p><p>é pecador, inclinado a transgredir</p><p>que não seria permitido passear ou dirigir aos domingos,</p><p>tricotar ou fazer crochê, ver televisão, e daí por diante. O que é justo é justo.</p><p>O que é certo para um é certo para outro — especialmente para evitar</p><p>ofensa, como as pessoas dizem. Esse, sim, é um bom princípio (Rm 14.13),</p><p>e, ocasionalmente, pode ser necessário, por causa de nosso próximo, se</p><p>abster de uma atividade que em outra circunstância seria lícita. Dessa</p><p>forma, estaríamos fazendo isso por causa de sua fraqueza e não de sua</p><p>força.</p><p>O mesmo Paulo que escreveu sobre “não ofender” advertiu acerca da</p><p>imaturidade (Gl 4.1-11) e acerca de uma série de preceitos do tipo “não</p><p>manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro” (Cl 2.21). Nós,</p><p>também, devemos nos preocupar com esse perigo, pois, de outra forma,</p><p>restringiremos a liberdade cristã que permite diferentes maneiras de guardar</p><p>o domingo.</p><p>Entretanto, mesmo que não haja uniformidade na celebração do</p><p>domingo, há, entretanto, uniformidade no fato que todos buscamos</p><p>obedecer ao mesmo mandamento. Algumas observações tornará isso mais</p><p>claro.</p><p>O domingo não pode ser um dia de trabalho, pois o mandamento requer,</p><p>claramente, que cessemos todo labor nesse dia. Esse descanso comunitário</p><p>do povo de Deus, por si mesmo, confere um grau de uniformidade à guarda</p><p>do domingo.</p><p>Porque estamos celebrando o domingo, nosso descanso do trabalho</p><p>diário inclui a cessação de todas as atividades de diversão. Para muitas</p><p>pessoas, cuidar da casa ou do gramado é uma forma de relaxamento pessoal</p><p>a ser desfrutada em um dia de folga, mas isso dificilmente poderia ser</p><p>considerado uma boa forma de guardar o domingo.</p><p>Ir à igreja é outra forma pela qual os cristãos mostram comportamento</p><p>uniforme no domingo. Seguir o princípio de que não deveríamos nos</p><p>esquecer de nos reunir (Hb 10.23) confere um formato claro ao nosso</p><p>domingo. Isso é especialmente verdadeiro quando esse princípio envolve ir</p><p>à igreja duas vezes todo domingo.</p><p>Se estivermos celebrando o dia de Cristo, então nossa celebração sincera</p><p>excluirá quaisquer outras coisas em nosso calendário, como eventos</p><p>esportivos, compromissos escolares, viagens à passeio, etc. Não precisamos</p><p>pegar nossa trena para medir as distâncias percorridas no domingo. Depois</p><p>de celebrar o domingo com a família, alguém pode ter de viajar de volta</p><p>para casa a fim de iniciar cedo o trabalho na segunda-feira. Contudo,</p><p>parece-nos evidente que, a fim de nos concentrarmos na adoração a Deus na</p><p>igreja, precisaremos de suficiente descanso para que o tipo de viagem que</p><p>realizamos no sábado não atrapalhe nossa agenda para o domingo.</p><p>Devemos usufruir do domingo, tanto quanto possível, entre irmãos e</p><p>irmãs da fé. O domingo é um dia de festa que nos afasta da companhia de</p><p>quem não festeja conosco. Essa é a razão pela qual é inimaginável para</p><p>alguns de nós celebrarmos o domingo e, ao mesmo tempo, voluntariamente,</p><p>nos misturarmos publicamente com os “estranhos” a Deus, como em um</p><p>estádio de futebol, na praia ou em um shopping. O domingo é um dia para a</p><p>comunhão dos santos e, por isso, devemos evitar situações nas quais nos</p><p>sintamos como crentes isolados. Agindo dessa maneira, não estaremos nos</p><p>separando do mundo (lembre-se de que o dia seguinte é segunda-feira), mas</p><p>estaremos celebrando uma festa que não está à nossa disposição em todos</p><p>os dias. É apropriado à festiva atmosfera do domingo que dediquemos</p><p>nosso tempo com nossos irmãos participantes da festa e não com aqueles</p><p>que não se preocupam em participar dela.</p><p>Seríamos conduzidos a vários casuísmos morais se fôssemos discutir</p><p>quando precisamente deve começar ou terminar a observância do domingo.</p><p>Da meia-noite de sábado à meia-noite de domingo? Do nascer até o pôr do</p><p>sol? Do início da noite do sábado ao início da noite do domingo (alinhados,</p><p>assim, com o Shabbath judaico)? Muita tinta já foi usada no passado para</p><p>responder a essas e outras perguntas semelhantes, sem que se chegasse a um</p><p>consenso.</p><p>Além disso, é bom que reflitamos sobre o fato de que o domingo é um</p><p>dia especial. Para todas as outras festas em nossa experiência de vida, nos</p><p>preparamos e deixamos as coisas prontas com antecedência. Deveríamos</p><p>fazer isso também em relação ao domingo. Por isso, começamos a nos</p><p>preparar no sábado para o domingo, para que possamos chegar à igreja</p><p>descansados e prontos. Desfrutar do domingo adequadamente requer mais</p><p>do que se dispor a ir uma ou duas vezes à igreja. Entre os cultos, e depois</p><p>deles, ainda é domingo, de modo que devemos nos perguntar,</p><p>apropriadamente, se gastar toda a tarde do domingo vendo televisão condiz</p><p>com a celebração do domingo. Deixaremos de lado, por enquanto, a questão</p><p>sobre quão proveitoso pode ser assistir televisão nas tardes e noites de</p><p>outros dias, para nos concentrarmos na seguinte questão: que tipo de</p><p>celebração dominical estaremos buscando, se esperarmos que a</p><p>programação da televisão a providencie para nós? Já dissemos que não é</p><p>correto proibir assistir televisão aos domingos. Por isso, sugerimos que</p><p>poderia ser uma questão de estilo enriquecer a celebração do nosso domingo</p><p>seguindo a prática de não ligar a televisão nesse dia. Isso poderia ser um</p><p>bom exercício da autonegação implicada na fé, para usar mais uma vez a</p><p>caracterização do domingo oferecida por Barth!</p><p>Domingo é dia de consagração e de descanso. Esse descanso não existe</p><p>em função de qualquer coisa como ir à igreja, orar, cantar, fazer devocionais</p><p>em família, e tudo mais que seja relacionado com o “espiritual”.</p><p>Infelizmente, uma observância exageradamente “espiritual” do domingo</p><p>tem causado dano generalizado, especialmente, entre crianças e jovens que</p><p>são deixados sem nada para fazer, exceto as atividades consistentes com o</p><p>tipo de “descanso” que se espera deles.</p><p>Pense, por exemplo, a respeito das atividades específicas prescritas por</p><p>Richard Baxter: levantar bem cedo na manhã de domingo; orar em</p><p>particular; fazer a devocional em família; ir à igreja (e não dormir no culto);</p><p>depois de retornar para casa, enquanto o almoço ainda não está pronto, orar</p><p>em particular e rever as coisas ditas na pregação; desfrutar de um almoço</p><p>festivo com conversas sobre o amor de nosso Redentor ou algo que seja</p><p>adequado ao domingo; depois do almoço, reunir a família para ler um salmo</p><p>ou para cantar ou instruir; ir à igreja mais uma vez; voltar para casa e reunir</p><p>a família para invocar o Senhor em oração, cantar e revisar o sermão;</p><p>depois, jantar, mas não muito (tal como no meio do dia); após o jantar,</p><p>perguntar às crianças e aos empregados o que aprenderam durante o dia;</p><p>cantar um salmo e concluir com oração; e terminar o dia com pensamentos</p><p>santos!178</p><p>Mencionamos anteriormente as atividades espirituais prescritas pelo</p><p>Catecismo Maior de Westminster. Encontramos em Baxter uma expressão</p><p>disso. Mas lembremo-nos que outrora as pessoas não tinham tantas</p><p>oportunidades para a educação dos filhos como temos hoje na cultura</p><p>ocidental. Naqueles dias, as crianças recebiam aos domingos aquilo que</p><p>muitos dos nossos filhos aprendem na escola durante a semana. Contudo,</p><p>observamos ainda hoje em alguns países que o domingo funciona como um</p><p>dia de educação para compensar a falta de escolas cristãs. Mas, mesmo se</p><p>nossa perspectiva da prática moderna seja uma redução em termos das</p><p>sugestões de Baxter, a programação que ele apresenta é muito intenso para</p><p>um dia que deveria ser um dia de festa tanto para o jovem quanto para o</p><p>velho.</p><p>Na proposta de Baxter, não encontramos o elemento do Shabbath</p><p>destinado ao homem como um dia para ele “recuperar o fôlego” —</p><p>simplesmente “esticar as pernas” e relaxar um pouco. O domingo deveria</p><p>ser um dia de festa. Mas onde está a festividade quando o dia é preenchido</p><p>com infindáveis discussões sem recreios e lanches, especialmente para as</p><p>crianças?</p><p>A maneira precisa como deveríamos usar esse elemento de prazer no</p><p>desfrute do domingo é ainda uma questão de liberdade cristã em que não</p><p>precisamos prescrever uniformidade. O fato infeliz de que muitas pessoas se</p><p>sentem enfadadas nos domingos provavelmente se deve, em grande parte, à</p><p>inabilidade de muitas</p><p>a Lei. Na Lei, nós temos um espelho no</p><p>qual vemos a nós mesmos como realmente somos: não mate, porque você é</p><p>um assassino; não adultere, porque você é realmente um adúltero!</p><p>É absolutamente necessário que conheçamos a Lei do ponto de vista</p><p>dessa função reveladora (usus elenchticus). Isso nos livra de todo engano e</p><p>da autojustiça. Podemos também colocar desta forma: a Lei de Deus nos</p><p>liberta do engano e da autojustiça. Isso nos diz claramente que não</p><p>devemos buscar nossa salvação por sermos decentes ou morais ou</p><p>seguidores da Lei, mas que podemos ser declarados justos somente por</p><p>meio de uma vida ligada a Cristo — aquele que cumpriu toda a Lei.</p><p>Separada de Cristo, a Lei nos condena; nas mãos de Cristo, porém, ela</p><p>permanece sendo a nossa carta de liberdade. Isso funciona como a fonte do</p><p>conhecimento de nossa miséria (que nos conduz a Cristo) e como a regra de</p><p>gratidão (que nos ensina a forma da vida cristã).</p><p>A tudo isso, acrescentamos mais uma observação: uma regra que proíbe</p><p>alguma coisa em particular ainda permite muitas outras. No Jardim do</p><p>Éden, era proibido comer o fruto de uma árvore em particular, mas Adão e</p><p>Eva podiam comer de todas as outras árvores. As portas da liberdade</p><p>proveem uma abertura permanente em um muro que você não pode escalar.</p><p>Sinais de trânsito não restringem o tráfego, mas providenciam ordem para o</p><p>movimento.</p><p>Dez Mandamentos — Duas Tábuas</p><p>Antes de deixar o Prólogo para considerar cada um dos Dez Mandamentos,</p><p>queremos concluir com algumas observações gerais.</p><p>A primeira diz respeito à divisão precisa dos Dez Mandamentos. Há</p><p>certa divergência de opinião sobre isso. Quais mandamentos pertencem à</p><p>primeira tábua e quais à segunda? Ou será o caso de que todos os Dez</p><p>pertenciam a uma única tábua original, da qual a outra foi uma simples</p><p>réplica? Esta última noção foi levantada quando acadêmicos elaboraram</p><p>uma extensiva comparação entre a aliança do Sinai e os tratados Suserano-</p><p>Vassalos dos hititas. O soberano e o vassalo recebiam cada um uma cópia</p><p>das estipulações da aliança. Naturalmente, essas cópias eram idênticas.</p><p>Nesse caso, como em outras alianças entre duas partes, Yahweh</p><p>supostamente escreveu uma cópia dos Dez Mandamentos para si mesmo e</p><p>outra idêntica para seu povo.</p><p>Essa visão nos parece muito especulativa, especialmente quando lemos</p><p>que ambas as tábuas foram postas na arca (Dt 10.1-5). Exatamente o que</p><p>estava escrito em ambas as tábuas é mencionado. O que sabemos é que</p><p>foram dados Dez Mandamentos (embora mesmo nisso não haja completa</p><p>concordância).7 Podemos mencionar que os Dez Mandamentos são</p><p>resumidos em dois mandamentos: amor a Deus e amor ao próximo, como</p><p>Cristo nos ensinou (Mt 22.37-40). Isso, contudo, não quer dizer que cada</p><p>um desses dois mandamentos resume uma das tábuas.</p><p>O fato de que a divisão dos Dez Mandamentos varia para os judeus,</p><p>para os Católicos Romanos, para os Reformados e Luteranos ficará evidente</p><p>quando discutirmos cada um dos mandamentos. Já sabemos que os judeus</p><p>veem o Prólogo como um mandamento separado. Nossa abordagem dos</p><p>Dez Mandamentos segue a divisão comumente usada por outros teólogos</p><p>reformados.</p><p>Regras de Interpretação</p><p>Um tratamento adequado dos Dez Mandamentos somente é possível no</p><p>contexto da totalidade da Escritura. Não estamos mais ao pé do Sinai, mas</p><p>vivemos após Cristo. Por isso, não podemos ler os Dez Mandamentos sem</p><p>levar em conta o Sermão do Monte. Quando consideramos: “Não matarás”</p><p>(Mt 5.21-26), devemos discutir ira do mesmo modo que abuso verbal.</p><p>Quando buscamos entender o significado de “Não cometerás adultério” (Mt</p><p>5.27-32), devemos falar disso considerando a mulher adúltera (Jo 8.1-11).</p><p>Não podemos nos limitar à mera letra dos Dez Mandamentos. Eles devem</p><p>ser compreendidos em toda a sua profundidade e largura, como já</p><p>mencionamos.</p><p>Frequentemente, comentaristas apresentam regras específicas para a</p><p>interpretação dos Dez Mandamentos. Aqui estão algumas das mais</p><p>importantes:</p><p>1. O Decálogo deve ser interpretado espiritualmente. Isso se encaixa no</p><p>que acabei de escrever: a Lei é entendida em sua profundidade apenas</p><p>quando vemos o seu cumprimento em Cristo e quando a interpretamos</p><p>de uma maneira “cristã”. A interpretação espiritual reconhece que não</p><p>podemos nos satisfazer com uma obediência externa, mas que a Lei</p><p>exige de nós o nosso coração (Mt 22.37-40; 1Tm 1.5).</p><p>2. Os mandamentos negativos (“Não...”) incluem mandamentos</p><p>positivos, e vice-versa.</p><p>3. Cada mandamento deve ser interpretado per synecdoche (por</p><p>sinédoque), o que significa que onde um pecado é mencionado, o</p><p>mandamento visa abranger todos os pecados a ele relacionados.</p><p>4. Os mandamentos relacionados especificamente ao amor a Deus têm</p><p>maior peso do que os mandamentos relacionados com o amor ao</p><p>próximo. Por exemplo, o amor a Deus é superior ao amor aos pais.</p><p>5. O ponto de partida e o objetivo de todos os mandamentos é o amor.8</p><p>Muitas dessas regras serão discutidas de modo mais detalhado em nossa</p><p>abordagem dos respectivos mandamentos.</p><p>1 Em nossa opinião, não faz qualquer diferença se referir ao Decálogo como as Dez Palavras ou os</p><p>Dez Mandamentos. Encontramos tanto a forma “palavras” (Êx 20.1; Dt 5.22) quanto “dez palavras”</p><p>(Cf., no original hebraico, Êx 14.28; Dt 4.13; 10.4); contudo, pode-se também falar das duas pedras</p><p>como contendo a Lei ou os Mandamentos (Êx 24.12; cf., também, Mt 19.17-19; Rm 13.9).</p><p>2 J. W. Tunderman,‘t Beginsel der eeuwige vreugde, Goes, 1949, 2.110.</p><p>3 Cf. Winnipeg, Christian Morals and Ethics, 1981, cap. 5. Não discutiremos novamente aqui o que</p><p>já tratamos ali, a saber, a validade do Decálogo (a Lei como norma para a vida, em vez de meio de</p><p>salvação) e os três usos da Lei.</p><p>4 A relação entre o Antigo e o Novo Testamentos é crucial para o entendimento da ética cristã; entre</p><p>as melhores exposições está a de João Calvino, Institutas da Religião Cristã, 2.11.1-14, “A diferença</p><p>entre os dois Testamentos”.</p><p>5 O termo é usado por J. M. Lochman, Wegweisung der Freiheit, Gütersloh, 1979, p. 17. O livro de</p><p>Lochman é um claro exemplo de interpretação do Decálogo no contexto de uma (moderada) Teologia</p><p>da Libertação.</p><p>6 Cf. J. Vermeer, De Leere der Waarheid, Nijkerk, 1857, 1, p. 55.</p><p>7 Por exemplo, B. Reicke, em Die zehn Worte, Türbingen, 1973, 5, argumenta que esses</p><p>mandamentos não eram, originalmente, numerados e divididos como os temos hoje, mas, antes, um</p><p>número completo (dez) era usado “conforme o costume hebraico”.</p><p>8 Cf. Calvino, Institutas da Religião Cristã, 2.8.10. Em suas Institutes of Elentic Theology, Francis</p><p>Turretin apresenta sete regras (2.34-36). O Catecismo Maior de Westminster menciona oito regras</p><p>(Pergunta e Resposta 99). Interessante que Gisbert Voetius (1589-1676), em seu Catechisatie over</p><p>den Heidelbergschen Catechismus (2.756-57), distingue entre mandamentos absolutos, aos quais</p><p>Deus não permite exceções (como o primeiro e o terceiro mandamentos), e mandamentos aos quais</p><p>Deus permite exceções.</p><p>O PRIMEIRO MANDAMENTO</p><p>Não terás outros deuses diante de mim. (Êx 20.3)</p><p>Há Outros deuses?</p><p>Quando lemos a Bíblia, encontramos a citação de inúmeros deuses. Ao</p><p>entrar em Canaã, Israel encontrou habitantes da região servindo a Baal.</p><p>Durante o tempo dos juízes, Israel se esqueceu de Yahweh, deixando-o para</p><p>servir a baais e a astarotes (Jz 2.11; 3.7; 8.33). O plural indica que essas</p><p>deidades, machos e fêmeas, eram adoradas de diversas formas de acordo</p><p>com as regiões geográficas. Baal-Berite vivia próximo a Baal-Hermom (Jz</p><p>8.33; 3.3). Mais tarde, Elias travaria uma difícil batalha contra o culto a</p><p>Baal propagado por Acabe e Jezabel (1Rs 18.20-40). Outros deuses eram</p><p>entronizados na terra de Israel. Pense sobre a idolatria de Salomão, a qual o</p><p>levou — sob a influência de suas muitas mulheres estrangeiras — a permitir</p><p>a construção de altares em honra a Milcom, deus amonita, e a Quemos,</p><p>deus moabita (1Rs 11.4-8).</p><p>Com respeito a essas e a outras numerosas deidades, no primeiro</p><p>mandamento o Senhor diz que Israel não deveria ter esses deuses diante</p><p>dele. A partir dessa formulação, pode-se concluir que, embora esses “outros</p><p>deuses”</p><p>não devessem ser adorados juntamente com Yahweh, eles,</p><p>contudo, “existiam” juntamente com ele. Assim como Yahweh existe, assim</p><p>também “existiriam” Baal, Milcom e Quemos. Em um mundo dividido</p><p>pelos deuses, cada nação e região tinha a sua própria deidade! Se for assim,</p><p>então o primeiro mandamento teria sido dado apenas para impedir que</p><p>Israel se ajoelhasse diante de outros deuses — deidades que exerciam sobre</p><p>as nações a mesma exigência de culto exclusivo que Yahweh impunha sobre</p><p>seu povo.9</p><p>Quando analisamos o Prólogo dos Dez Mandamentos, mostramos que,</p><p>no Sinai, Yahweh declarou que o mundo todo lhe pertencia (Êx 19.5). Isso</p><p>significa que outros deuses empunharam o cetro do poder que pertencia</p><p>somente a Yahweh. Devemos, contudo, acrescentar outro elemento: na</p><p>verdade, esses deuses não eram realmente deuses. Os homens os chamavam</p><p>de deuses, mas eles eram apenas suas imagens: obras de suas mãos, madeira</p><p>e pedra que não podiam ver ou ouvir, comer ou cheirar (Dt 4.28). Elias e</p><p>Isaías zombaram deles (1Rs 18.27; Is 40.18-20; 45.20). Eles são chamados</p><p>“nada”, não-entidades (Is 2.8,18,20).</p><p>Se prosseguirmos raciocinando desse modo, poderemos até mesmo</p><p>considerar que o primeiro mandamento é um “desperdício de munição”,</p><p>pois sua advertência objetiva outros deuses que não existem. Ainda assim,</p><p>nós sabemos quão seriamente toda a Escritura adverte contra os ídolos. João</p><p>diz que a fé em Cristo vence o mundo (1Jo 5.5), mas conclui a sua epístola</p><p>com estas palavras: “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (1Jo 5.21).</p><p>Aparentemente, alguém que reconheça Jesus Cristo como Senhor do</p><p>universo também deve se guardar da associação com os ídolos!</p><p>Como podemos colocar estas duas coisas juntas: por um lado, deuses</p><p>que não existem; e, por outro lado, deuses contra os quais devemos nos</p><p>resguardar? A resposta não é tão difícil. Os povos adoram forças poderosas</p><p>na Criação como se fossem deidades. Elas não são deuses, mas apenas</p><p>chamadas de deuses (1Co 8.4-7); ainda assim, são poderes reais, capazes de</p><p>escravizar totalmente uma pessoa.10</p><p>Podemos ilustrar isso com o exemplo de Baal. Quem era Baal? Era a</p><p>personificação da fertilidade do campo. Baal era considerado o deus da</p><p>chuva, do trovão e da fertilidade. Quando o calor do sol fazia arder todas as</p><p>coisas, as pessoas diziam que Baal estava morrendo. Quando a chuva de</p><p>outono tornava tudo verde, elas diziam que Baal estava renascendo. Ora,</p><p>Baal realmente não “existia”, pois esse ídolo nada mais era que uma</p><p>projeção humana; no entanto, o poder de renovação vindo a uma terra</p><p>estéril é algo real. Tão real quanto o desejo humano de controlar essa</p><p>renovação e os benefícios que dela fluem.</p><p>Separados do Criador da chuva, do trovão e dos campos férteis, os</p><p>homens começam a adorar a criatura em vez de o Criador. Todo culto</p><p>idólatra é, de fato, a adoração de criaturas como chuva, sexualidade, amor,</p><p>autoridade e intelecto. Todos admitem que cada uma dessas criaturas pode</p><p>exercer enorme poder. Se esses poderes permanecerem em seu devido lugar</p><p>designado pelo Criador, eles servirão ao seu povo.11 Quando, porém,</p><p>ocupam o lugar errado, eles, eventualmente, dominam quando Deus entrega</p><p>os homens aos seus próprios desejos (Rm 1.24-25). Eles se tornam poderes</p><p>aos quais os homens atribuem honra divina.</p><p>Com o passar dos anos, muitos deuses desapareceram. Baal está agora</p><p>adormecido para sempre; Zeus já não ocupa seu lugar no Monte Olimpo; e</p><p>os deuses germanos Woden e Thor não têm mais adoradores. Mas a</p><p>idolatria não depende de nomes. Os nomes podem desaparecer, mas os</p><p>poderes permanecem. A Bíblia mostra também, claramente, que a idolatria</p><p>pode sobreviver à parte dos nomes dos ídolos. Pois, ela diz que a força de</p><p>um homem pode ser seu ídolo (Hc 1.11). Pode-se dizer ao ouro: “Você é</p><p>minha confiança” (Jó 31.24); o dinheiro pode ser chamado de Mamom (Mt</p><p>6.24); e a cobiça é expressamente chamada de idolatria na Bíblia (Cl 3.5).</p><p>Podemos até fazer do nosso estômago nosso deus (Fp 3.19).</p><p>Essa lista pode ser ampliada. Os homens podem fazer ídolos de quase</p><p>todas as coisas. O desejo erótico, o desejo por poder, razão, natureza,</p><p>tradição, consciência — cada uma dessas coisas pode ser tomada de</p><p>maneira absoluta, tanto de modo rude quanto sofisticado. As coisas comuns</p><p>do dia a dia podem se tornar dominadoras dos homens. Os antigos</p><p>intérpretes costumavam falar do ídolo de três cabeças quando citavam a</p><p>advertência de João contra o mundanismo: a concupiscência da carne, a</p><p>concupiscência dos olhos e a soberba da vida (1Jo 2.16). Por isso, é correto</p><p>dizer que o coração pode se tornar viciado em qualquer coisa em nossa</p><p>casa, da dispensa ao terraço, até mesmo nas coisas que estão nos armários e</p><p>gavetas, no quintal, e também em alimentação, vestes e lazer. Todos temos</p><p>algo que chamados de hobby, algo que tomou conta do nosso coração. É tão</p><p>difícil se desvencilhar dele quanto o foi para Raquel abandonar os ídolos do</p><p>lar de seu pai (Gn 31.19).</p><p>Então, há outros deuses? A resposta deve ser sim e não. Baal, Astarote,</p><p>Quemos, Moloque, Mamom, Zeus, Netuno, Wode e Thor não existem. Mas</p><p>o desejo do homem por prosperidade, amor apaixonado, poder e</p><p>competição, estes existiram e ainda existem.12 Em sua resposta à pergunta</p><p>95, O Catecismo de Heidelberg explica, com lucidez, que idolatria é “ter ou</p><p>inventar algo em que colocar a nossa confiança em lugar, ou ao lado, do</p><p>único e verdadeiro Deus que se revelou em sua Palavra”. A idolatria está no</p><p>limite de todas as coisas criadas! Imagens de deuses podem evocar riso,</p><p>mas não devemos nos enganar com sua aparência externa. Qualquer um que</p><p>leve a idolatria a sério sabe que ela envolve práticas apaixonadas que</p><p>permanecem relevantes em nossos dias. Elias e Isaías zombaram dos ídolos,</p><p>mas isso não significa que eles trataram a idolatria com leviandade. Ambos</p><p>sabiam que os idólatras escolheram coisas que aborrecem a Yahweh (cf.</p><p>1Rs 16.33; Is 66.3-4).</p><p>O Primeiro Mandamento: Uma Escolha</p><p>Escolher o Senhor sempre significa fazer uma escolha que exclui as demais</p><p>possibilidades. Quando o povo de Israel foi estabelecido em Canaã, Josué,</p><p>um pouco antes de sua morte, convocou os representantes de todas as tribos</p><p>para se reunir em Siquém. Depois de explicar detalhadamente às tribos de</p><p>Israel como Yahweh os havia retirado do Egito e lhes dado a terra de Canaã,</p><p>ele conclui com este apelo: “Agora, pois, temei ao SENHOR e servi-o com</p><p>integridade e com fidelidade; deitai fora os deuses aos quais serviram</p><p>vossos pais dalém do Eufrates e no Egito e servi ao SENHOR. Porém, se vos</p><p>parece mal servir ao SENHOR, escolhei, hoje, a quem sirvais: se aos deuses a</p><p>quem serviram vossos pais que estavam dalém do Eufrates ou aos deuses</p><p>dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha casa serviremos ao</p><p>SENHOR” (Js 24.14-15). Então, todo o povo fez a mesma escolha que Josué.</p><p>Com uma cerimônia e um testemunho escrito, a aliança entre Israel e</p><p>Yahweh foi renovada.</p><p>Essa história é instrutiva por várias razões.</p><p>Primeiro, ficamos impressionados mais uma vez com o fato de que</p><p>Josué começa com a narrativa da libertação do povo por Yahweh e, então,</p><p>vai direto ao apelo pela escolha de Yahweh. Usando a linguagem dos Dez</p><p>Mandamentos: primeiro vem o Prólogo; e, depois, o primeiro mandamento.</p><p>Segundo, vê-se que a escolha por Yahweh tem de ser uma escolha</p><p>radical. Não é uma questão de “ambos/e”, mas de “um/ou/outro”. Não se</p><p>pode escolher Yahweh e, ao mesmo tempo, divertir-se com os deuses da</p><p>Mesopotâmia ou do Egito, pois, quem escolhe a Yahweh tem de abandonar</p><p>todos os outros deuses estrangeiros (Js 24.14,23). Isso também é verdadeiro</p><p>sobre Deus e Mamom: ninguém pode servir a dois senhores, “porque ou há</p><p>de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao</p><p>outro” (Mt 6.24).</p><p>Em terceiro lugar, parece que a renovação da aliança deve ser constante.</p><p>No Sinai, o povo de Israel prometeu cerimonialmente comportar-se de</p><p>acordo com as palavras de Deus (Êx 24.3), mas de modo algum isso</p><p>produziu o imediato desaparecimento do culto idólatra (cf. Nm 25.2; Am</p><p>5.25-26). Embora Israel tenha sido libertado do Egito, seu</p><p>coração</p><p>permaneceu preso pelos grilhões da idolatria praticada nos primórdios de</p><p>sua história ou em seu passado recente. Por isso, a escolha teve de ser</p><p>colocada diante do povo repetidamente (Dt 27.11-26; 31.9-13,24-29).</p><p>A escolha por Yahweh significa amá-lo. A íntima ligação entre escolhê-</p><p>lo e amá-lo subjaz ao assim chamado Shema, a confissão feita em</p><p>Deuteronômio 6.4-5, lida em voz alta no templo e nas sinagogas juntamente</p><p>com os Dez Mandamentos: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único</p><p>SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a</p><p>tua alma e de toda a tua força”. Mais tarde, Jesus responderia a questão</p><p>sobre o mais importante dos mandamentos com o Shema: o Senhor é um só</p><p>e amarás o Senhor teu Deus (cf. Mt 22.34-40).</p><p>Muitos têm dificuldades para aplicar essa “pesada” palavra “amor” ao</p><p>seu relacionamento com Deus. Não será muita presunção aplicar essa</p><p>palavra a nós mesmos? Temos, realmente, uma relação de amor com Deus</p><p>assim como temos com nosso pai, mãe, esposa ou filhos? Será que podemos</p><p>falar de Deus em termos de afeições e de inclinações emocionais?</p><p>Precisamos dar a devida atenção a isso, porque o conceito de amor ocupa</p><p>um lugar significativo na ética.</p><p>Em primeiro lugar, devemos enfatizar que nosso amor a Deus tem um</p><p>lado emocional. Em nosso amor, estamos respondendo ao seu amor por nós.</p><p>A Bíblia se refere a isso de modo muito afetuoso. Yahweh é um pai para os</p><p>órfãos (Sl 68.5), compadece-se de seus filhos como um pai (Sl 103.13) e,</p><p>assim, pode encher-se de ternos afetos e de misericórdia (Is 66.13), incapaz</p><p>de esquecer-se de seu povo assim como uma mulher que amamenta seu</p><p>filho (Is 49.15). Ele instruiu Israel a andar e tomou-o pelas mãos (Os 11.3).</p><p>Na Bíblia, Yahweh é claramente chamado “Ele”, algo que nenhuma</p><p>teologia feminista pode mudar.13 Mas em sua expressão de sentimentos,</p><p>Deus é tanto “maternal” quanto “paternal”. Seu amor evoca nosso amor, de</p><p>modo que seria estranho se nosso amor carecesse do elemento afetivo. Esse</p><p>elemento dever ter expressão, por exemplo, nas ações de graça e nos</p><p>cânticos.</p><p>Amor, porém, não é um mero sentimento. Essa é nossa segunda</p><p>observação. Se fosse assim, teríamos de concordar com Freud, o qual</p><p>insistia que o mandamento de amar nosso próximo como a nós mesmos era</p><p>não-psicológico. Freud argumentou que, se um vizinho é um estranho para</p><p>mim, alguém que não possa me atrair sob qualquer valor intrínseco que</p><p>possua ou que não tenha qualquer significância para a minha vida</p><p>emocional, então eu terei dificuldade para amá-lo. De fato, eu agiria de</p><p>modo errado por amá-lo.14 Mas a Bíblia fala do amor em uma linguagem</p><p>diferente. Nela, o amor é, verdadeiramente, um mandamento; sou ordenado</p><p>a amar até mesmo meu inimigo, algo contra o que minhas emoções tendem</p><p>a se rebelar.</p><p>Entendemos mais clara e exatamente o que significa amar a Deus</p><p>quando vemos o amor como uma escolha. Porque apenas Yahweh é Deus,</p><p>Israel e nós devemos escolhê-lo. Amar significa firmar-se em uma escolha.</p><p>Quando um casamento entra em conflito, o único caminho para a resolução</p><p>é a escolha de amar. O elemento emocional nesse amor pode estar total ou</p><p>parcialmente ausente, mas a fidelidade deve estar presente. Concretamente,</p><p>então, amar significa que marido e mulher não formam relacionamentos</p><p>com uma terceira parte, mas mantêm a escolha que fizeram um pelo outro</p><p>nos votos do casamento. Isso também é verdade quanto à nossa relação com</p><p>o Senhor. Ele fez uma aliança com Israel, e Israel, com ele. O primeiro</p><p>mandamento exige um amor que seja fiel à aliança. Aqui, também,</p><p>nenhuma “terceira parte” pode se interpor. Esse amor não pode ser</p><p>compartilhado entre Yahweh e Baal, entre Deus e Mamom. No Carmelo, foi</p><p>confirmado que só Yahweh é Deus (1Rs 18.39). Já vimos que em termos de</p><p>Deus e dinheiro, Jesus disse que ninguém pode servir a dois senhores (Mt</p><p>6.24). Amar significa permanecer na escolha, não importando se alguém</p><p>não se sente bem. O amor genuíno é o amor testado e provado.</p><p>O amor deve responder ainda a outra norma, também implícita no</p><p>Shema. Quando Israel é chamado a amar Yahweh, Moisés continua: “Estas</p><p>palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus</p><p>filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao</p><p>deitar-te, e ao levantar-te” (Dt 6.6,7). Amar a Deus significa guardar as suas</p><p>palavras (mandamentos).</p><p>No cumprimento neotestamentário do primeiro mandamento, Deus vem</p><p>a nós em Jesus Cristo. Como o Filho de Deus, o qual pela sua obra</p><p>redentora obteve o mais alto nome — Jesus Cristo é Senhor! — todo culto</p><p>divino lhe pertence (Rm 9.5; 2.9-11). A honra pertencente ao Pai deve ser</p><p>dada também ao Filho. Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os</p><p>homens, Jesus Cristo, o homem (1Tm 2.5). Os joelhos que devem se dobrar</p><p>diante do Pai (Ef 3.14-15) se dobram também diante de Jesus Cristo (Fp</p><p>2.10). O que a escolha de Yahweh exige, a escolha de Cristo também exige:</p><p>“Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim”,</p><p>diz ele a seus discípulos, acrescentando que aqueles que o seguem devem</p><p>carregar sua própria cruz (Mt 10.37-39). Note que esse tipo de escolha tem</p><p>de carregar importantes laços emocionais! Quando Pedro respondeu à</p><p>pergunta do Salvador afirmando três vezes seu amor pelo Senhor, Jesus</p><p>mostrou-lhe o que isso poderia significar: “Em verdade, em verdade te digo</p><p>que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde</p><p>querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e</p><p>te levará para onde não queres” (Jo 21.18). Amar a Jesus significa que não</p><p>se é mais o seu próprio senhor, mas, à medida que alguém o segue, deverá</p><p>estar pronto para, talvez, enfrentar o martírio (como no caso de Pedro).</p><p>No Novo Testamento, também, amar a Deus e a Cristo está, claramente,</p><p>subordinado a uma norma. Disse Jesus: “Se alguém me ama, guardará a</p><p>minha palavra” (Jo 14.23). Devemos não apenas ouvir suas palavras, mas</p><p>também guardá-las. Na parábola do semeador, muitos ouviram a palavra,</p><p>mas não a guardaram. Alguns ouviram a palavra, mas não a entenderam;</p><p>outros a receberam primeiro com alegria, mas a abandonaram quando</p><p>chegaram a perseguição e a opressão (a cruz!); outros, ainda, permitiram</p><p>que a palavra fosse sufocada por cuidados materiais e pela ilusão da</p><p>riqueza. Mas outros ouviram de bom grado a palavra e geraram frutos (Mt</p><p>13.19-23). Estes últimos são como Maria, que guardou todas as palavras de</p><p>Jesus e as ponderou em seu coração (Lc 2.19). Estes ouvintes são</p><p>semelhantes àqueles a quem Jesus chamou de bem-aventurados porque eles</p><p>ouviram e guardaram a palavra de Deus (Lc 11.28). As palavras de Deus</p><p>não entram por um ouvido e saem pelo outro; estes ouvintes não são como</p><p>aqueles que Isaías descreve: “Tu vês muitas coisas, mas não as observas;</p><p>ainda que tens os ouvidos abertos, nada ouves” (Is 42.20).</p><p>Anteriormente, mencionamos que alguns leitores poderiam ter</p><p>dificuldades usando a palavra “amor” quanto ao relacionamento com Deus.</p><p>Podemos dizer a mesma coisa sobre “guardar” as palavras de Deus</p><p>(mandamentos). Já ficou claro no Shema que os israelitas deveriam se</p><p>ocupar com as palavras de Deus dentro e fora de casa, ao amanhecer e ao</p><p>anoitecer. Isso não é diferente no Novo Testamento, onde nos é dito</p><p>claramente quão importante é guardar as palavras de Deus (Lc 8.15; 1Tm</p><p>6.20; 1Jo 3.24; 5.2-3). Aquele que guarda essas palavras está equipado para</p><p>guardar-se dos ídolos. É assim que habitamos em Cristo, e ele, em nós (1Jo</p><p>3.24). Essa convocação para amar a Deus, e assim guardar suas palavras,</p><p>não é feita a super-homens. O primeiro mandamento foi dado a israelitas</p><p>comuns e a discípulos comuns de Jesus Cristo. Os discípulos que</p><p>encontramos no Novo testamento podiam ser duros de entendimento e</p><p>lentos de coração (Lc 24.25). No Jardim do Getsâmani, eles não puderam se</p><p>iPhone 12</p><p>manter acordados sequer por uma hora para vigiar seu Mestre (Mt 26.40).</p><p>Pedro até mesmo o negou (Mt 26.69-75). Todos eles tiveram dificuldade</p><p>para aceitar o relato da ressurreição de Cristo. Mas a respeito dessas</p><p>pessoas,</p><p>conhecendo sua fraqueza, Jesus disse em sua oração sacerdotal ao</p><p>Pai: “Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram</p><p>teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra” (Jo 17.6).</p><p>Homens fracos, descrentes, sonolentos e rebeldes foram repetidamente</p><p>restaurados porque as palavras de Deus e de Cristo haviam encontrado lugar</p><p>permanente em seu coração. Eles se firmaram na escolha, mesmo que,</p><p>frequentemente, fossem joeirados na peneira de Satanás (Lc 22.31) e,</p><p>ocasionalmente, ficassem presos nas redes da idolatria.</p><p>Com Um Coração Íntegro</p><p>Os israelitas não deveriam devotar seu coração a Yahweh e a outros deuses:</p><p>“Não terás outros deuses diante de mim”. Esta pequena palavra “e” é</p><p>perigosa: Yahweh e Baal, Yahweh e Moloque, Yahweh e bruxarias. Vamos</p><p>voltar um pouco e discutir sobre essa escolha radical que o Senhor exige de</p><p>seu povo. O Shema chama os israelitas a amar Yahweh de todo o seu</p><p>coração, de toda a sua alma e com toda a sua força. É claro que isso não</p><p>pode acontecer, se o amor de alguém é devotado a outras coisas.</p><p>O primeiro mandamento requer que os homens sejam perfeitos e sem</p><p>culpa. Palavras como essas podem gerar mal-entendidos porque,</p><p>geralmente, entendemos perfeição em termos de “sem qualquer ruga”.</p><p>Podemos esbarrar em dificuldades iguais às mencionadas em relação a amar</p><p>a Deus. Quem de nós pode dizer que serve a Deus sem culpa alguma, ou</p><p>mesmo perfeitamente? Ainda assim, é exatamente isso o que a Bíblia diz</p><p>sobre diversas pessoas. Noé era homem justo e perfeito (Gn 6.9). E, se o</p><p>moço rico tivesse vendido suas propriedades, teria sido chamado de perfeito</p><p>(Mt 19.21). Descrições como essas não são exageros nem ironias. Se</p><p>olharmos cuidadosamente à palavra hebraica usada para indicar que Noé</p><p>era perfeito, então aprenderemos que ela significa “totalidade”. O coração</p><p>de Noé estava completamente focalizado em Deus. Não há preguiça no</p><p>serviço do Senhor. Ele andou com Deus, lemos no mesmo verso (Gn 6.9). A</p><p>história do moço rico nos mostra que perfeição pode ser entendida no</p><p>mesmo sentido. O moço rico havia feito muito bem. Obedeceu os</p><p>mandamentos relacionados ao assassinato, ao adultério, ao roubo e a honra</p><p>aos pais. Mas seu coração não era totalmente devotado a Deus. Quando</p><p>Jesus lhe propôs que vendesse seus bens a fim de “ser perfeito”, ele revelou</p><p>a divisão do seu coração. Ele não poderia abrir mão de suas propriedades,</p><p>pois tinha muitas posses. Claramente, ele estava servindo a Deus e a</p><p>Mamom. Por isso, não havia totalidade de devoção, não havia perfeição.</p><p>Ele mantinha dois ferros na forja — a Lei de Deus e o seu dinheiro —</p><p>enquanto que Jesus exigia a totalidade do seu coração.</p><p>Encontramos esse tipo de expressão quando a Bíblia descreve alguém</p><p>como servindo ao Senhor com perfeito coração. Yahweh diz isso a Davi</p><p>(1Rs 9.4), mesmo que esse rei tivesse cometido graves pecados. Ainda</p><p>assim, de tempo em tempo, ele escolheu devotar seu coração totalmente a</p><p>Yahweh. Havia uma única falha na vida de Davi, a qual de modo algum</p><p>nega que ele tropeçou gravemente. Aqui aprendemos que aqueles que</p><p>caíram em sérios pecados podem ainda ser caracterizados como tendo</p><p>andado com o Senhor.</p><p>No Sermão do Monte, Jesus exigiu a mesma perfeição de seus</p><p>discípulos: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai</p><p>celeste” (Mt 5.48). Com isso, Jesus não está exigindo um objetivo</p><p>inatingível, uma vida sem erros, mas requerendo a mesma integridade de</p><p>caráter exibida pelo nosso Pai celeste. Ele deixa a luz do sol brilhar sobre o</p><p>mau e o bom, e deixa que a chuva caia sobre o justo e o injusto. Da mesma</p><p>forma, o discípulo de Jesus deve demonstrar igualmente amor ao amigo e</p><p>ao inimigo. Não pode exibir favoritismo nem atenção dividida, amando o</p><p>amigo e não o inimigo. Essa atitude não corresponde à forma pela qual</p><p>Deus distribui sol e chuva ao justo e ao injusto (Mt 5.43-48).15</p><p>O curso da nossa vida deve ser determinado pelo primeiro mandamento.</p><p>Com um coração não dividido, mas de todo coração diante de Deus.</p><p>iPhone 12</p><p>Mágicas e Bruxarias</p><p>Yahweh espera essa mesma totalidade de coração em relação a formas</p><p>específicas de idolatria. A Israel não era permitido tolerar qualquer pessoa</p><p>que praticasse adivinhação, que fosse médium, intérprete de agouros, ou</p><p>bruxo que falasse com espíritos ou que consultasse os mortos. “Perfeito</p><p>serás para com o SENHOR, teu Deus” e, portanto, diferentemente dos</p><p>habitantes da terra de Canaã, vocês não ouvirão bruxos e feiticeiros. “[...]</p><p>porém a ti o SENHOR, teu Deus, não permitiu tal coisa” (Dt 18.10-14).</p><p>O que devemos entender exatamente por “mágicos”, “feiticeiras” e</p><p>“adivinhos” não está muito claro. Até mesmo as traduções modernas</p><p>deixam certa dúvida quanto a que, precisamente, se referia o hebraico de</p><p>Levítico 19.31. Por exemplo, “Não vos voltareis para os necromantes, nem</p><p>para os adivinhos; não os procureis para serdes contaminados por eles”.</p><p>Além disso, a despeito de qualquer incerteza que a tradução desses termos</p><p>possa trazer, podemos ainda mostrar algumas coisas relevantes para a ética</p><p>moderna.</p><p>Devemos nos impressionar, antes de tudo, com o fato de que a Bíblia</p><p>encara a “leitura de sorte” e a feitiçaria como coisas sérias. De outra forma,</p><p>poderíamos ser tentados a usá-las ainda que de modo leviano. Como disse</p><p>Shakespeare em Hamlet: “Há mais coisas entre a terra e o céu do que supõe</p><p>a vossa vã filosofia”. Os homens podem manipular poderes secretos e</p><p>invocar fenômenos especiais, tal como fez a pitonisa de Endor, por</p><p>exemplo, quando Saul pediu que ela trouxesse dos mortos o velho profeta</p><p>Samuel (1Sm 28.11-19). As interpretações concernentes ao que realmente</p><p>ocorreu ali são diversas. 16 Está envolvido aqui o fato de que eventos</p><p>especiais ocorrem e podem exercer grande influência nas pessoas, assim</p><p>como, por exemplo, o Rei Saul que ficou profundamente afetado quando</p><p>recebeu a mensagem do “espírito” de Samuel (1Sm 28.20-25).</p><p>Além do mais, fica claro por que adivinhação e feitiçaria são proibidas.</p><p>Alguém que tenha entregado completamente o seu coração a Yahweh não</p><p>pode se juntar aos cananeus, ouvindo mágicos e agoureiros. Eles anunciam</p><p>suas mensagens proclamando aos homens o que lhes vai acontecer e o que</p><p>devem fazer. O agoureiro é consultado para ver o futuro e para dirigir a vida</p><p>da pessoa com essa informação. Agouro, mágica e feitiçaria — todas essas</p><p>são formas de profecia, mas de um tipo errado. Em vez de colocar a vida</p><p>nas mãos de Yahweh e atender apenas às suas palavras, os homens buscam</p><p>orientar sua vida de acordo com o que os agoureiros lhes dizem. Esses,</p><p>porém, são falsos profetas que enganam o povo (Jr 29.8; Ez 13.9). O falso</p><p>profeta Elimas se opôs ao apóstolo Paulo (At 13.6). Rebelião e obstinação</p><p>caracterizam feitiçaria e idolatria (1Sm 15.23), enquanto que o verdadeiro</p><p>profeta fala as palavras de Yahweh (Dt 18.19).</p><p>Quando nos lembramos de que o agouro e a feitiçaria se colocam como</p><p>falsa profecia em oposição à verdadeira profecia (Dt 18.10-12,15-16),</p><p>então, vemos claramente por que consultar agoureiros e mágicos é tão</p><p>pecaminoso. Aqueles que consultam tais pessoas não mais confiam na</p><p>Palavra do Senhor e não mais esperam nele quanto à certeza e segurança de</p><p>seu futuro. Voltar-se para espíritos agoureiros é afastar-se de Deus. É</p><p>abandonar a certeza e a segurança do Senhor que, de fato, já possuímos por</p><p>meio da obediência fiel às suas palavras, para tatear após uma ilusória</p><p>segurança por meio de um mágico.</p><p>A advertência contra isso se aplica ainda hoje. Não devemos cair no</p><p>espiritismo e no agouro.17 Confiar em leitura de mãos ou horóscopos</p><p>conflita com a demonstração de honra a Deus e de confiança nele quanto à</p><p>direção de nossa vida.</p><p>Entretanto, devemos ser cuidadosos em não ver o diabo operando em</p><p>cada coisa que chamamos de “não-usual”. Paralelamente aos espíritas e</p><p>cartomantes, se acham aqueles que praticam acupuntura, zonaterapia, yoga</p><p>e outras práticas semelhantes. Estaríamos indo muito longe se puséssemos</p><p>todas essas práticas na mesma categoria de Deuteronômio 18.10-11. Se</p><p>essas pessoas são, na verdade, falsos profetas que buscam predizer</p>