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<p>nova IDIÇAO r ! visada i ampiiada</p><p>CRISTIANISMO</p><p>DOS SÉCULOS</p><p>UMA HISTÓRIA DA IGREJA CRISTA</p><p>^ “ *CAIRJSÍS</p><p>■ k ך</p><p>O c</p><p>E A"</p><p>ο</p><p>CRISTIANISMO</p><p>ATRAVÉS DOS</p><p>SÉCULOS</p><p>UMA HISTÓRIA DA IGREJA</p><p>CRISTÃ</p><p>Earle E. Cairns</p><p>Tradução</p><p>Israel Belo de Azevedo</p><p>VIDA</p><p>Editado por:</p><p>Keryx Digital</p><p>Dados internacionais de catalogação na publicação (CIF)</p><p>(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)</p><p>Cairos, ׳Earle E.</p><p>O cristianismo através dos séculos : uma história</p><p>da Igreja cristã I Earle E. Cairns ; }!tradução Israel</p><p>Belo de Azevedo | . — 2. ed. — São Paulo : Vida</p><p>Nova, 1995.</p><p>Capítulos complementares / Richard Julius Sturz.</p><p>Título original: Christianity through (11c centuries.</p><p>Bibliografia.</p><p>ISBN 85-275-0003-5</p><p>1. Cristianismo2 ׳, Evangelização - História</p><p>3. Igreja - História 4. Igreja - História - Igreja</p><p>primitiva 1. Titulo.</p><p>95-3874 CDD-270</p><p>índices para catálogo sistemático</p><p>1. Igreja : História : Cristianismo 270</p><p>© 1954, 1981 de The Zondervan Corporation</p><p>Titulo do original: Christianity through the centuries</p><p>The Zondervan Corporation (Grand Rapids, Michigan, eu a )</p><p>Revisado a partir da 24a edição americana</p><p>(segunda edição revista), com capítulos</p><p>adicionais de Richard Julius Sturz</p><p>1a edição: 1984</p><p>2a edição: 1988</p><p>Reimpressões: 1990, 1992, 1995. 1998</p><p>Direitos reservados por</p><p>S o c ie d a d e R elig io s a E d iç õ e s V ida N o va</p><p>Caixa Postal 21486, São Paulo-SP.</p><p>04602-970</p><p>Proibida a reprodução por quaisquer</p><p>meios (mecânicos, eletrônicos, xerográficos</p><p>fotográficos, gravação, estocagem em banco de</p><p>dados etc ), a não ser em citações breves,</p><p>com indicação de fonte.</p><p>Impresso no Brasil /Printed in Brazil</p><p>Revisão · JÚLIO PAULO T ZABATIERO</p><p>Coordenação editorial · ROBINSON M a l k ü MES</p><p>P R E F Á C IO</p><p>Um,exame dos textos disponíveis sobre a história da igreja revela que a maioria</p><p>deles reflete um pressuposto denominacional ou teológico particular. Este texto</p><p>foi escrito de uma perspectiva conservadora, não denominacional- Uma filosofia</p><p>cristã de história1 subjaz a apresentação.</p><p>Em virtude de ninguém poder compreender a história do׳ Cristianismo, efeti-</p><p>vamente, sem alguma concepção dos movimentos políticos, econômicos, sociais,</p><p>intelectuais e artísticos em cada era da história, os eventos da história da igreja</p><p>são relacionados ao seu ambiente secular. O tratamento de pessoas, lugares, da-</p><p>tas, eventos, idéias e correntes ou; movimentos em seus esquemas históricos mais</p><p>adequados nos ajuda a seguir o fluxo da história da igreja. Eu tenho dado atenção</p><p>ao impacto do Cristianismo sobre seu tempo e à marca dos tempos no Cristianis-</p><p>mo. Tento, também, unir informação, compreensão e interpretação em síntese re-</p><p>levante que tenha valor no presente.</p><p>Estou grato porque após vinte e cinco anos de uso deste livro-texto, tanto por</p><p>professores como por estudantes, em salas de aula, e pelo público cristão, sua</p><p>continua demanda fez ,desejável e exequível uma extensa revisão. Sugestões cons-</p><p>trutivas de vários pessoas foram muito úteis em melhorar a acuracidade e clareza</p><p>deste trabalho.</p><p>Espero-que através deste livro muitos tornem-se conscientes de sua herança</p><p>e ascendência espiritual em uma época existencialista, e sejam constrangidos a</p><p>servir melhor a Deus e-seus contemporâneos tanto por vida, palavras como por</p><p>atos. Estou profundamente consciente da parte que colegas, professores, estu-</p><p>dantes״ outros escritores e muitas outras pessoas desempenharam no desenvol-</p><p>vimento deste texto. Espero que através dele a causa de Cristo avance e a igreja</p><p>seja edificada.</p><p>Earle E. Cairns</p><p>Wheaton, Illinois</p><p>Para</p><p>Helen e Bruce</p><p>PREFÁCIO À EDIÇÃO EM PORTUGUÊS</p><p>Ao mesmo tempo que (e até antes) a Reforma explodiu na Alemanha de Lute-</p><p>ro, as Américas foram descobertas e 0 movimento missionário ibérico iniciou sua</p><p>marcha. Essa tentativa de evangelizar os índios americanos, que começou cedo</p><p>na primeira metade do século XVI, tem sido muito ignorada pelos historiadores</p><p>da Igreja de origem norte-atlântica. O movimento da expansão da Igreja geralmente</p><p>segue a conquista do Império Romano,,0 surgimento do papado, a reforma, o cru·</p><p>zar do Atlântico com um estudo detalhado־da conversão dos Estados Unidos. Daí</p><p>em diante as histórias falam da expansão mundial do-Cristianismo através das</p><p>missões. Para muitos, porém, esta parte final é um pequeno capitulo.</p><p>K.S.Latourette é um dos poucos historiadores do I Mundo que dedica amplo</p><p>espaço às missões católico-romanas que começaram no século XVI. O terceiro</p><p>volume de sua A H isto ry o f the Expansion o f C h ris tian ity dedica 500 páginas às</p><p>missões católico-romanas, desde o século XVII até ο XVIII ( Three Centuries o f Ad-</p><p>vance. Grand Rapids, Zondervan, 1971). Há autores do I Mundo que têm se espe-</p><p>cializado na história Latino-americana e dedicado bastante espaço à expansão</p><p>da Igreja CatólicalRomana em suas páginas. (Cf. especialmente, Lewis Hanke.) Au-</p><p>tores latinos, com a exceção de Justo L. González, não escreveram histórias ge-</p><p>rais da ilgreja. O próprio González, Enrique Dussel e a CEHILA estão iniciando a</p><p>produção de amplo materiaLsobre a !história da Igreja na América Latina. Mesmo</p><p>assim, permanece o fato que os historiadores da Igreja têm passado muito por</p><p>alto sobre as missões católico-romanas na América Latina.</p><p>Oprof. Richard J. Sturz escreveu! quatro capítulos que são agora acrescenta-</p><p>dos ao livro de Cairns, para contextualizar a sua história para estudantes latino-</p><p>americanos.O primeiro deles é umi panorama da conquista ibérica das Américas,</p><p>enfatizando a dupla busca: ouro»« almas. O segundo trata do período imediata-</p><p>mente seguinte, e leva a estória até os períodos colonial! e republicano no início</p><p>do século XX. A implantação do Protestantismo na América Latina nos séculos</p><p>XIX e XX é o tema do terceiro desses capítulos. O último capítulo do Prof. Sturz</p><p>é uma análise· das tendências e uma modesta tentativa para indicar as direções</p><p>que as Igrejas irão tomar nestas últimas décadas do século XX.</p><p>Os Editores</p><p>5</p><p>7</p><p>13</p><p>29</p><p>37</p><p>45</p><p>49</p><p>57</p><p>64</p><p>70</p><p>78</p><p>85</p><p>93</p><p>99</p><p>105</p><p>113</p><p>122</p><p>127</p><p>132</p><p>137</p><p>146</p><p>154</p><p>161</p><p>CONTEÚDO</p><p>PREFÁCIO DA EDIÇÃO O RIG INAL</p><p>PREFÁCIO DA EDIÇÃO EM PORTUGUÊS</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>HISTÓRIA DA IGREJA ANTIGA</p><p>5 a.C. — 590 d.C.</p><p>O AVANÇO DO CRISTIANISMO NO IMPÉRIO ATÉ 100</p><p>1. A Plenitude dos Tempos</p><p>2. Sobre Esta Pedra</p><p>3. Primeiro aos Judeus</p><p>4. Também aos Gregos</p><p>5. Os Livros e os Pergaminhos</p><p>6. Com os Bispos e os Diãconos</p><p>A LUTA DA ANTIG A IGREJA CATÓLICA IMPERIAL PARA SOBREVIVER, 100-313</p><p>7. Cristo ou César</p><p>8. Fábulas ou Sã Doutrina?</p><p>9. Em Defesa^da Fé</p><p>10. A Igreja Cerra Fileiras</p><p>A SUPREMACIA DA ANTIG A IGREJA CATÓLICA IMPERIAL, 313-590</p><p>11. A Igreja Enfrenta o Império e os Bárbaros</p><p>12. O Desenvolvimento Doutrinário na Era Conciliar</p><p>13. A Era de Ouro dos Pais da Igreja</p><p>14. O Cristianismo nos Claustros</p><p>15. Desenvolvimentos Hierárquicos e Litúrgicos</p><p>HISTÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL</p><p>5 9 0 - 1517</p><p>O SURGIMENTO DO IMPÉRIO E DO CRISTIANISMO LATINO-TEUTÔNICOS</p><p>16. O Primeiro Papa Medieval</p><p>17. Expansão e Retraimento do Cristianismo</p><p>18. O Renascimento do Imperialismo no Ocidente</p><p>MARCHAS E CONTRA-MARCHAS NO RELACIONAMENTO</p><p>ENTRE IGREJA E ESTADO, 800 - 1054</p><p>19. A Formação do Santo Império Romano</p><p>20. Reavivamento e Divisão na igreja</p><p>A SUPREMACIA DO PAPADO, 1064 - 1306</p><p>21. O Apogeu do Poder Papel 169</p><p>22. Cruzados e Reformadores 178</p><p>23. O Saber e o Culto na Idade Média 187</p><p>O DECLÍNIO M EDIEVAL E a AURORA MODERNA, 1305 - 1517</p><p>24. Tentativas de Reforma Interna 199</p><p>25. O Papado Enfrenta a Oposição Externa 211</p><p>HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA</p><p>1517 em diante</p><p>REFORMA E CONTRA REFORMA, 1517-1648</p><p>26. Por que Aconteceu a Reforma? 221</p><p>27. Lutero e a Reforma na Alemanha 232</p><p>28. A Reforma na Suíça 244</p><p>29. A Fé Reformada fora da Suíça 258</p><p>30. A Reforma e 0 Puritanismo na Inglaterra 266</p><p>31. A Contra-Reforma e 0 Significado da Reforma 280</p><p>RACIONALISMO, REAVIVAMENTOS E DENOMINACIONALISMO, 1648 - 1789</p><p>32. A Conquista das Américas 292</p><p>33. O Estabelecimento do Cristianismo nos EUA 307</p><p>34. Racionalismo, Reavivamentos e Catolicismo Romano 320</p><p>moral e espiritual</p><p>do Velho Testamento favoreceu uma doutrina de pecado e redenção que realmenta</p><p>resolvesse o problema do pecado. A salvação vinha de Deus e não seria encontrada</p><p>em sistemas racionalistas de ética ou nas subjetivas religiões de mistério.</p><p>D. O Antigo Testamento</p><p>O povo judeu, ademais, preparou o caminho para a vinda do cristianismo ao</p><p>legar à Igreja em formação um livro sagrado, o Velho Testamento. Mesmo um estudo</p><p>superficial do Novo Testamento revela a profunda divida de Cristo e dos apóstolos</p><p>para com o Velho Testamento e sua reverência por ele como a palavra de Deus parao</p><p>homem. Muitos gentios também o leram e se familiarizaram com os fundamentos da</p><p>fé judaica. Este fato é indicado pelos relatos de vários prosélitos judeus, Muitos</p><p>desses prosélitos foram capazes de passar do judaísmo ao cristianismo por causa do</p><p>Velho Testamento, o livro sagrado da nova Igreja. Muitas religiões, o Islamismo por</p><p>exemplo, confiam em seu fundador por causa do seu Livro sagrado, mas Cristo não</p><p>deixou textos sagrados para a Igreja. Os livros do Velho Testamento e os do Novo</p><p>Testamento, produzidos sob a inspiração do Espírito Santo, seriam a literatura viva da</p><p>Igreja.</p><p>E. Filosofia da História</p><p>Os judeus tornaram possível uma filosofia da história por insistirem que a história</p><p>36 0 AVANÇO DO CRISTIANISMO NO IMPÉRIO AT( ΙΟΟ</p><p>tem significado. Eles se opuseram a toda e qualquer visão que deixasse a história sem</p><p>significado, como uma série de ■círculos ou como um processo de evolução linear.</p><p>Eles sustentavam uma visão linear e cataclísmica da história, na qual o Deus sobera-</p><p>no, que criou a história, iria triunfar sobre a falha do homem na história para trazer</p><p>uma era dourada.</p><p>F. A Sinagoga</p><p>Os judeus também forneceram uma instituição da qual muitos ·cristãos esque-</p><p>cem a utilidade, no surgimento e desenvolvimento do cristianismo primitivo. Esta</p><p>instituição era a sinagoga judia. Nascida da necessidade decorrente da ausência dos</p><p>judeus do templo ·de Jerusalém durante o cativeiro babilônico, a sinagoga se tornou</p><p>parte integrante da-vida judaica. Através dela, os judeus e também muitos gentios se</p><p>familiarizaram com uma forma superior .de viver. Foi também o lugar em que Paulo</p><p>primeiro׳ pregou em todas as cidades por onde passou no itinerário de suas viagens</p><p>missionárias. Foi ela a casa de ,pregação do cristianismo primitivo. Há algo de</p><p>convincente na idéia de que o sistema de governo praticado na Igreja primitiva tenha</p><p>sido apropriado de antecedentes judaicos na״ sinagoga. O judaísmo foi, pois, o</p><p>paidagogos para conduzir os homens a Cristo (Gl 3: 23-25).</p><p>Os assuntos que têm sido discutidos demonstram o quão beneficiado foi o</p><p>cristianismo, tanto quanto à época como quanto à região, no período de sua forma-</p><p>ção. Em nenhum outro lugar na história do mundo antes da vinda de Cristo houve</p><p>uma região tão grande sob uma mesma lei e um mesmo governo. O mundo mediterrâ-</p><p>neo tinha seu centro cultural em Roma. Umadíngua comum tornou possível levar 0</p><p>Evangelho à maioria das pessoas do Império numa língua comum a elas e ao</p><p>pregador. A Palestina, o berço da nova religião, estava estrategicamente neste mundo.</p><p>Paulo estava certo ao mostrar que 0 cristianismo “não se fez em qualquer canto” (At</p><p>26:26), porque a Palestina era um importante cruzamento que ligava os continentes</p><p>da Ásia e da África com a Europa por via terrestre. Muitas das batalhas importantes da</p><p>história antiga foram travadas por causa da posse desta estratégica região. Nunca nas</p><p>épocas antiga e medieval, as condições para a propagação do cristianismo através do</p><p>mundo mediterrâneo foram tão favoráveis como no período de sua formação e</p><p>durante os seus três primeiros séculos de existência. Esta é também a opinião do</p><p>principal erudito do mundo em missões. 3</p><p>Negativamente, através da contribuição do mundo grego e romano, e positiva-</p><p>mente, através do judaísmo, o mundo foi preparado para a ״plenitude dos tempos”</p><p>quando Deus enviou Seu Filho para levar a redenção a uma humanidade partida</p><p>pelas guerras e fatigada pelo pecado. É significativo que, de todas as religiões</p><p>praticadas no Império Romano׳ ao tempo do nascimento de Cristo, apenas 0 judaís-</p><p>mo e 0 cristianismo tenham conseguido sobreviver ao curso dinâmico da história</p><p>humana.</p><p>O AVANÇO DO CRISTIANISMO</p><p>NO IMPÉRIO ATÉ 100</p><p>CAPÍTULO 2</p><p>SOBRE ESTA PEDRA</p><p>Cristo é a Pedra sobre a qual a Igreja se funda. Através dEle vem a fé em Deus</p><p>para a salvação do pecado. Dele vem o amor ao coração humano, que faz com que os</p><p>homens vejam a pessoa como santa, uma vez que Deus é 0 Criador do ser físico e</p><p>espiritual do homem e 0 fundamento de toda a esperança futura.</p><p>I. A HISTORICIDADE DE CRISTO</p><p>Os fundamentos do cristianismo têm seus primórdios, do ponto de vista subjeti-</p><p>vo humano, na história temporal. É preciso atentar-se para o fato da existência</p><p>histórica de Cristo, já que estes fundamentos estão inextrincavelmente ligados à</p><p>pessoa, vida e morte de Cristo. Muitos negam 0 fato de que Cristo se manifestou na</p><p>história humana (Jo. 1:14).1 Felizmente, porém, há evidências extra-bíblicas que</p><p>provam a existência de Cristo.</p><p>A. O Testemunho Pagão (55-117)</p><p>Tácito (C.60-C.120) o decano dos historiadores romanos, liga o nome e a origem</p><p>dos cristãos a “Christus”, que no reinado de Tibério (42 a,C.-42 a.D.) ,‘sofreu a morte</p><p>por sentença do Procurador,, Pôncio Pilatos”. 2</p><p>Plínio (62-C.113) que era propretor da Bitínia e de Ponto na Ásia Menor, escreveu</p><p>ao Imperador Trajano, (53-117) por volta do ano 112, para se aconselhar sobre 0</p><p>modo de tratar os cristãos. Sua carta dá uma valiosa.informação extra-bíblica sobre</p><p>Cristo. Ele elogiou a elevada integridade moral dos cristãos, comentando sua recusa</p><p>em cometer roubo ou adultério, a testemunhar falsamente ou a trair a confiança</p><p>depositada ■neles. Plínio chegou a dizer que eles "entoavam uma canção a Cristo</p><p>como para um Deus”.3 Suetônio, em sua obra Vidas dos Doze Césares: Vida Claudius</p><p>(25:4), mencionou que os judeus foram expulsos de Roma por causa de distúrbios a</p><p>respeito de Chrestos (Cristo).</p><p>Outro escritor satírico, e, por esta razão, de testemunho importante, é Luciano (c,</p><p>125 - C. 190), que escreveu uma sátira sobre os cristãos e sua fé, por volta de 170.</p><p>Luciano pintou Cristo como alguém "que foi crucificado na Palestina” por ter iniciado</p><p>3 7</p><p>3 8 D A V A N Ç O ם ס C R IS T IA N IS M O N O IM P É R IO ATÉ ΙΟ Ο</p><p>De acordo com Lucas Joâa Balisla começou seu</p><p>ministério de preparar 0 caminbo para Jesus no</p><p>décimo-qumto ano do remado de Tibério César O</p><p>historiador rom ano Plácido co loca a m orte de Jesus</p><p>Cristo no remado de Tibeno A moeda ao lado tem a</p><p>imagem desse mesmo Tibério</p><p>"este novo culto" Escreveu que Cristo tinha ensinado os cristãos a crerem que eles</p><p>eram irmãos e que deviam observar seus mandamentos. Ridicularizou-os por “adora-</p><p>rem este sofista crucificado".4</p><p>Estes testemunhos são evidências históricas de grande valor, especialmente por</p><p>virem de romanos instruídos que desdenhavam e hostilizavam os cristãos. Λ base</p><p>destes testemunhos, além da Bíblia, que é também uma obra histórica, pode-se</p><p>concluir que há evidência suficiente para se afirmar a existência histórica de Cristo.</p><p>B. O Testemunho Judeu.</p><p>Josefo, (370 ,(100־ rico judeu que procurou justificar 0 judaísmo para os roma-</p><p>nos instruídos com seus escritos, também menciona Cristo Ele falou de Tiago, "0</p><p>irmão de Jesus, assim chamado Cristo” 6 Em outra passagem, geralmente condenada</p><p>como uma interpolaçâo por cristãos mas que para muitos é autêntica, Josefo falou de</p><p>Cristo como um "homem sábio" sentenciado à morte na Cruz por Pilatos.8 Embora</p><p>aceitando algumas interpolações por cristãos, a maioria dos eruditos concorda que</p><p>esta informação básica com quase toda a certeza integra o texto original. Como</p><p>Josefo não era um amigo do cristianismo, sua menção a Cristo tem grande valor</p><p>histórico</p><p>C. Testemunho Cristão fora da Bíblia.</p><p>Muitos evangelhos, Atos, cartas e apocalipses apócrifos devem ser levados em</p><p>consideração nesta</p><p>questão oa historicidade de Cristo. Eles estão reunidos na</p><p>obra de Montague R James, The Apocryphal New Testament fNova Iorque. Oxford</p><p>University Press, 1924). Inscnçoes e figuras da pomba, do peixe, da âncora e de</p><p>outros símbolos cristãos nas catacumbas dão testemunho da crença no Cristo</p><p>histórico, além da existência do calendário cristão, do domingo, e da igreja.</p><p>Desafortunadamente, ao escolher uma data para o inicio do calendário cristão, o</p><p>abade cita. Dionlsio Exiguus (morto por volta de 550) em seu Cyclus Paschalis</p><p>escolheu 754 A.U.C. (da fundação de Roma) ao inves de 749 A.U.C., uma data mais</p><p>acurada para o nascimento de Cristo</p><p>Mateus, em seu evangelho (2:1), declarou que Jesus nasceu "nos dias de</p><p>Herodes, o rei” Josefo, em suas Antiguidades (10 6 4). mencionou um eclipse do ano</p><p>750 A.U.C. antes da morte de Herodes. Por causa do assassinato dos bebês israelitas</p><p>SO BRE E S T A P E D R A 3 9</p><p>Dois exemplos de arte das primitivas catacumbas</p><p>ctisiâs testilicam da crença no Jesus histórico. Esta</p><p>representação simbólica da multiplicação miraculo-</p><p>sa dos pães e peixes encontra-se na catacumba de</p><p>Calixto. No centro da ilustração da catacumba de</p><p>Priscila Cristo é retratado como um Bom Pastor</p><p>e a fuga para 0 Egito terem precedido a morte de Herodes, isto nos traz a uma data</p><p>possível de 749 A.U.C., ou cerca de 5 a.C.. para a data do nascimento de Cnsto.</p><p>Os judeus, em João 2:20, disseram que o templo levou 46 anos para seredificado.</p><p>Josefo e o historiador romano Dio Cassius colocaram 779 A.U.C. como a data em que</p><p>a construção do Templo começou. Jesus tinha "cerca de trinta anos" de acordo com</p><p>Lucas 3:23, que, subtraídos de 779 dá 749. ou 5 a.C. como a data mais aceitável para</p><p>Seu nascimento, ou seja, cerca de cinco anos mais cedo do que a nossa datação da</p><p>era cristã.</p><p>II. O CARÁTER DE CRISTO</p><p>A Biblia dá algumas indicações sobre a personalidade e o caráter de Cristo. Até</p><p>mesmo uma leitura superficial dos Evangelhos evidencia o poder de Sua originalida-</p><p>de. Enquanto os judeus e as autoridades de hoje citam outros como autoridades para</p><p>suas várias afirmações. Cristo simplesmente dizia: "Eu digo". O que vinha após esta</p><p>frase ou outras semelhantes a esta nos Evangelhos indica a criatividade e originalida-</p><p>de do pensamento de Cristo, que maravilhou as pessoas do Seu tempo (Mc 1:22; Lc</p><p>4:32).</p><p>A sinceridade de Cristo também está registrada nos relatos bíblicos. Ele foi 0</p><p>único ser humano que não tinha nada para esconder, uma vez que era completamen-</p><p>te Ele mesmo (Jo 8:46).</p><p>Os Evangelhos deixam também o registro do equilíbrio de seu caráter. Coragem</p><p>é geralmente associada a Pedro, amor, com João, e humildade, com André. Nada</p><p>disto falta a Cristo; ao contrário, os relatos revelam equilíbrio e unidade de personali-</p><p>dade. Este equilíbrio, esta originalidade e esta transparência podem ser adequada-</p><p>mente explicados pelo registro histórico do Nascimento Virginal de Cristo 7</p><p>III. A OBRA DE CRISTO</p><p>A importância transcendental da personalidade de Cristo jamais poderá serdesas-</p><p>sociada de Sua obra, obra esta que era ativa e passiva. Durante seu ministério de três</p><p>anos. Cristo deu atenção à justiça exigida pela lei que era um acréscimo à Sua justiça</p><p>intrínseca como Filho de Deus Esta justiça extrínseca qualificou-O a morrer pelos</p><p>homens que nunca mereceram tal justiça e que precisavam de um Substituto justo para</p><p>que seus pecados fossem perdoados por Deus. Esta obra ativa tem sua contra-parte</p><p>4 0 0 A V A N Ç O 0 0 C R IS T IA N IS M O NO IM P É R IO A TÉ 1 0 0</p><p>em Sua obra passiva, Sua morte voluntária na Cruz (Fp 2:5-8). Estas duas fases</p><p>históricas da obra de Cristo estão sintetizadas em Sua afirmativa sobre Sua missão de</p><p>serviço e sofrimento (Mc 10:45). ·</p><p>A. O Ministério de Cristo.</p><p>Com exceção da narrativa da visita de Cristo a Jerusalém junto com Seus pais</p><p>aos 12 anos de idade (Lc 2:41-50) e algumas referências isoladas a Sua mãe e irmãos,</p><p>pouco se sabe acerca dos muitos anos de Cristo em Nazaré.</p><p>Em geral se concorda que ele recebeu educação bíblica no lar e na escola</p><p>sinagogal para crianças. Aprendeu também o ofício de Seu pai, porque toda criança</p><p>judia recebia instrução em alguma profissão manual. Em Nazaré, importante rota</p><p>comercial, Cristo pode observar a vida do mundo exterior que passava por Nazaré.</p><p>Suas parábolas e seus semões mostram que Ele era um atento observador das coisas.</p><p>Ele conhecia Deus a. partir da revelação de Deus na natureza e através do Velho</p><p>Testamento. Durante estes anos formativos, desenvolveu-se física, social, mental e</p><p>espiritualmente (Lc 2:52) na preparação para a grande obra que tinha pela frente.</p><p>O ministério de Cristo foi precedido pelo breve ministério de seu precursor, João</p><p>Batista. Sua primeira aparição pública no começo do Seu ministério está ligada ao</p><p>seu batismo por João. O estudante atento do ministério de Jesus notará que, após</p><p>este acontecimento, ele desenvolveu. Seu ministério em centros judaicos. Suaestraté-</p><p>gia era manter-se de acordo com sua própria afirmativa de que foi enviado às "ovelhas</p><p>perdidas da casa de Israel" (Mt 15:24).</p><p>Depois de sua tentação no deserto, Cristo escolheu alguns dos discípulos que</p><p>continuaram Sua obra sob a liderança do Espírito Santo após sua ressurreição e</p><p>ascensão. Uma visita a Caná marcou 0 Seu primeiro milagre, a transformação de</p><p>água em vinho. Seguiu-se uma breve visita a Jerusalém, durante a qual ele purificou o</p><p>templo e teve uma momentosa entrevista com Nicodemos. Esta entrevista revelou a</p><p>natureza espiritual de Seu ministério (Jo. 3:3,5,7,). Voltando à Galiléia pela Samaria</p><p>encontrou-se com a mulher samaritana (Jo. 4), onde ficou evidenciado que Seu</p><p>ministério não era limitado por barreiras nacionais ou sexuais, embora primariamente</p><p>sua missão fosse para com os judeus.</p><p>Rejeitado em Nazaré, Cristo fez de Cafarnaum 0 centro de Seu ministério galileu,</p><p>que se constitui na maior parte do Seu serviço terreno aos homens. Dai fez Ele três</p><p>viagens. A primeira, principalmente no oriente da Galiléia, foi marcada pela cura do</p><p>paralítico, do homem coxo e de muitos outros, bem como pela ressurreição do׳filho</p><p>da viúva de Nairn e pela conclusão da escolha dos Seus discípulos. Os milagres eram</p><p>caracterizados pela introdução eloqüente dos princípios que Ele entendia deviam</p><p>governar o comportamento humano. Estes princípios estão contidos no Sermão da</p><p>Montanha (Mt. 5-7; Lc. 6: 17-49). O assunto do Sermão é que a verdadeira religião é</p><p>espiritual e não é feita de atos externos exigidos pela lei.</p><p>O ponto alto da segunda viagem de Cristo ao sul da Galiléia foi seu ensino</p><p>parabólico sobre Seu Reino (Mt 13). Outros milagres, como a cura do endemoninha-</p><p>do gadareno e da filha de Jairo, testificam Seu poder para endossar suas palavras</p><p>com atos. A terceira viagem foi uma continuação desta obra de ensino, pregação e</p><p>cura.</p><p>As três viagens da Galiléia foram seguidas por pequenos períodos de retiro,</p><p>durante os quais a principal ênfase de Cristo parecia ser a instrução dos Seus</p><p>discípulos. Ele sempre encontrava tempo para atender às necessidades daqueles que</p><p>SG BRE E S T A P E D R A 4 1</p><p>vinham a Ele, razão porque alimentou cinco mil pessoas por ocasião do seu primeiro</p><p>retiro Ele demonstrou também Seu senhorio sobre a natureza ao andar sobre o Mar</p><p>da Galiléia, milagre que fez com que Seus discípulos compreendessem a realidade de</p><p>Sua pessoa como Filho de Deus, Durante a sua segunda retirada, ele curou a filha da</p><p>mulher siro-fenicia que demonstrara uma notável fé em Cristo (Mc 7:26). O terceiro</p><p>retiro foi mais uma revelação do Seu poder de curar e abençoar.</p><p>O ,ministério da Galiléia foi seguido por um pequeno ministério em Jerusalém por</p><p>ocasião da Festa dos Tabernáculos, durante o qual Cristo enfrentou corajosamente a</p><p>oposição emergente dos líderes religiosos: os fariseus e os saduceus. Por causa desta</p><p>oposição, Cristo retirou-se para Peréia, ao oriente do rio Jordão, onde ensinou e</p><p>pregou, Este ministério pereano foi seguido pelo pequeno ministério da última</p><p>sema-</p><p>na em Jerusalém, durante o qual publicamente enfrentou o antagonismo dos líderes</p><p>judeus políticos e eclesiásticos. Ele reforçou a crítica à religião mecânica e externa</p><p>como fizera no ensino das parábolas. O triste fim-de-semana, durante 0 qual entre-</p><p>gou Sua vida na Cruz, marcou 0 fim de Seu ministério ativo no mundo. Depois de Sua</p><p>gloriosa ressurreição — um fato histórico estabelecido pelas evidências documentais</p><p>no Novo Testamento (At 1:3; 1 Co 15:4-8) — Ele apareceu somente a Seus próprios</p><p>seguidores. A culminação do Seu ministério veio com Sua ascensão aos céus na</p><p>presença dos Seus discípulos. Esta ascensão foi antecipada por suas promessas de</p><p>enviar o Espirito Santo em seu lugar e de retornar novamente a esta terra.</p><p>A Igreja Cristã felizmente tem quatro registros deste ministério de Cristo sobre a</p><p>terra. Cada um dos autores apresenta seu relato a partir de diferentes pontos de vista</p><p>Mateus salienta a atividade do reinado de Cristo como Messias prometido que</p><p>cumpriu׳as promessas do Velho Testamento, por isto, faz constante uso da frase: "isto</p><p>aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas" Marcos, que escreveu</p><p>tendo em mente os ,romanos, destacou׳ o lado iprático do ministério de Cristo, o senti-</p><p>do de ação e poder é fortalecido pelo uso constante que faz da palavra grega geralmen-</p><p>te traduzida como ״imediatamente". Lucas, o historiador (Lc 1:1-4), reporta-nos o lado</p><p>humano do ministério de Cristo. João apresenta Cristo como o Filho de Deus com</p><p>poder de levar bênção a todos quantos O aceitassem pela fé (Jo 1:12, 20:30-31).</p><p>B. A Missão de Cristo.</p><p>A fase ativa do ministério de Cristo que durou pouco mais de três anos, foi mais</p><p>uma preparação para a fase passiva da Sua obra, Seu sofrimento na Cruz. Seu sofri-</p><p>mento na Cruz e Sua Morte foram os grandes eventos preditos pelos profetas (Is. 53)</p><p>que acabariam destruindo todas as forças do mal e libertando todos quantos O aceitas-</p><p>sem com todo o poder espiritual da Sua obra da Cruz (Ef. 1:19-23; 3:20). Foi para este</p><p>propósito temporal e eterno que Ele veio ao mundo. Os Evangelhos destacam este fato</p><p>que chega ao clímax em referências como Mateus 16:21, Marcos 8:31 e Lucas 9:44.</p><p>C. A Mensagem de Cristo</p><p>Embora a Cruz fosse a missão primeira de Cristo sobre a terra, ela não foi Sua</p><p>mensagem principal e nem foi considerada como um fim em si mesmo. Um estudo</p><p>detido dos Evangelhos revelará que o reino de Deus era a mensagem principal do</p><p>ensino de Cristo. Duas frases eram usadas por Cristo: Ό reino de Deus" "o-reino dos</p><p>céus". A última foi mais usada por Mateus. O significado destes termos tem provoca-</p><p>do muita controvérsia na Igreja Cristã.</p><p>4 2 0 A V A N Ç O D׳ O C R IS T IA N IS M O N O IM P É R IO A T É 1 0 0</p><p>As duas grandes interpretações destas frases aceitam o fato de que reino de</p><p>Deus se refere ao governo de Deus sobre todos os seres no universo que com Ele</p><p>voluntariamente fazem concerto. Este reino, que é espiritual e abarca o tempo e a</p><p>eternidade, é penetrado pelos seres humanos após um renascimento espiritual (Jo.</p><p>3:3, 5, 7; Mt. 6:33). Nada se fala sobre o mal neste reino, em que Cristo mesmo</p><p>finalmente se sujeitará ao Pai (I Co. 15: 24-28). Os dois grupos crêem que, no</p><p>presente, este reino é ético e espiritual e que a Igreja é uma parte dele. Entendem</p><p>também que sua plena realização escatológica acontecerá só no futuro.</p><p>A discussão do sentido da frase ,‘reino dos céus” dividiu as opiniões. Alguns</p><p>entendem que as duas frases são sinônimas entre si. Outros acham que elas se</p><p>referem a dois reinos distintos, embora haja um ponto de encontro. A razão principal</p><p>para se fazer a distinção entre os dois surge do fato de que Cristo usou e interpretou</p><p>as parábolas do joio (Mt. 13: 36-43) e da rede (Mt. 13: 47-48) para descrever o reino</p><p>dos céus, embora jamais as usasse para descrever o reino de Deus. Já que nestas</p><p>duas parábolas se faz uma mistura de homens bons e maus no reino dos céuse jáque</p><p>todas as referências ao reino de Deus falam apenas da obediência voluntária à</p><p>vontade de Deus, muitos intérpretes pensam, que deve haver alguma distinção-entre</p><p>os dois termos, não devendo, portanto, ser usados como sinônimo. Eles notam que</p><p>"reino de Deus" é relacionado a Deus, marcado pela bondade, e é cósmico e eterno,</p><p>bem como está no tempo, de outro lado, a frase "reino dos céus" é relacionado ao</p><p>domínio de Cristo no tempo e sobre a Terra, e tem tanto bons como maus nele (Mt.</p><p>8:11-13).</p><p>Alguns pré-milenistas, que entendem não serem idênticos os dois termos, crêem</p><p>que o reino dos céus está associado ao governo de Cristo nesta terra e identificam o rei-</p><p>no de Deus com o governo eterno de Deus, o pai. No atual periodo da Igreja, o reino dos</p><p>céus equivale à Cristandade, que consiste numa mistura de cristãos, cristãos profes-</p><p>sos, incrédulos e judeus. Na volta de Cristo o reino dos céus será purgado dos judeus</p><p>e dos gentios incrédulos e será dirigido durante mil anos por Cristo e Sua Igreja. Este</p><p>será o reino predito pelos profetas, segundo os quais Israel seria abençoado na terra</p><p>da Palestina. Após uma pequena rebelião, liderada por Satã, seguindo sua libertação</p><p>desta prisão de mil anos durante o milênio, Cristo afirmará Sua autoridade diante de</p><p>Deus e a parte pura do reino dos céus finalmente se fundirá com o Reino de Deus.</p><p>Aqueles que sustentam׳ serem os dois sinônimos e equacionáveis à Igreja pen-</p><p>sam que o reino será realizado por um processo histórico em que a Igreja faz a obra de</p><p>preparar o caminho para um reino que Cristo receberá quando voltar. A ação social</p><p>para criar um melhor ambiente para os homens é uma parte importante deste plano.</p><p>O cristianismo é, então, interpretado em termos éticos independentemente da obra</p><p>redentora de Cristo na Cruz. Este é o pós-milenismo liberal.</p><p>Alguns pensadores, especialmente do século XIX, como Charles Finney, os</p><p>Hodges, B.B.Warfield e A H. Strong também afirmaram uma escatologia pós-</p><p>milenista, mas de uma variedade conservadora, ortodoxa. Eles criam que a igreja, de</p><p>pessoas regeneradas sob a direção do Espírito Santo, poderia fazer um impacto tal na</p><p>sociedade que emergiría uma perfeita ordem milenista entre os povos. Quando Cristo</p><p>retornasse, ao fim do milênio, havería uma sociedade piedosa. A equação do milênio</p><p>com a igreja, feita por Agostinho, tem dado muito apoio a este ponto-de-vista.</p><p>Outros que não subscrevem esta interpretação, mas que acham serem os dois</p><p>termos sinônimos, crêem que a realização final do reino é futura e que ele será</p><p>consumado sobrenatural e cataclismicamente na volta de Cristo. Eles não aceitam a</p><p>SO B RE E STA P E D R A 4 3</p><p>interpretação evolutiva dos pós-milenistas liberais. Geralmente são conhecidos co-</p><p>mo a־milenistas; não aceitam a idéia de um reino milenar de Cristo e geralmente não</p><p>relacionam os judeus ao reino de Cristo.</p><p>Se se crê que as duas frases são sinônimas ou não, não é tão importante diante</p><p>de concordância dos evangélicos acerca de certos pontos em que não há discordân-</p><p>cia se a Bíblia é interpretada corretamente.</p><p>O fato de que o pecado é hereditário e pessoal e não ambiental ou corporativo,</p><p>exclui a visão pós-milenista liberal do Reino. Desse modo, a Igreja tem como tarefa</p><p>básica não a conversão mundial pela pregação ou pela ação social, mas a evangeliza-</p><p>ção do mundo pela proclamação do Evangelho, a fim de que aqueles que se unem à</p><p>verdadeira Igreja possam ter uma oportunidade para responder a esta mensagem</p><p>quando o Espírito Santo convence os seus corações. Esta é a tarefa especifica da Igreja</p><p>neste periodo da história humana, o que não ■isenta o cristianismo de se tornar algo</p><p>relevante e prático na vida diária da sociedade pela ação dos cristãos como cidadãos.</p><p>Cristo ensinou que o reino não se realizará por um processo histórico evolutivo</p><p>em, que a Igreja preparará, pela ação social, o mundo para a Sua vinda. A Bíblia ensina</p><p>fundamentalmente que o futuro escatológico, distinto da atual fase ética e espiritual</p><p>do reino, se realizará sobrenatural e cataclismicamente</p><p>na vinda de Cristo, não</p><p>irrompendo, pois, como resultado da obra da Igreja. [N. Ed. Veja o art. “Rei, Reino”, no</p><p>NDITNT, vol. 4, EVN 1984.]</p><p>D. Os Milagres de Cristo</p><p>Os milagres de Cristo foram numerosos e constituem parte integrante do Seu</p><p>ministério. Eles revelam a glória de Deus e mostram que Cristo era o Filho de Deus</p><p>(Jo. 3:2), a fim de que a fé pudesse se seguir. Estes milagres são chamados de poder,</p><p>obras, maravilhas e sinais. Os racionalistas e empiristas negam sua possibilidade</p><p>e procuram explicá-los pelas leis naturais ou interpretá-los como mitos; esta segunda</p><p>negação implica também em negar as narrativas bíblicas como históricas. Os mila-</p><p>gres podem ser definidos como fenômenos não explicáveis pela lei natural conhecida</p><p>e que são feitos por uma intervenção especial da Divindade para propósitos morais.</p><p>A possibilidade e probabilidade dos milagres são demonstradas pela existência</p><p>de registros históricos que dão conta destes milagres como fatos históricos. A pessoa</p><p>e obra de Cristo receberam autenticação de muitos contemporâneos Seus por causa</p><p>dos milagres que Ele realizou.</p><p>E. O Significado de Cristo</p><p>Têm havido diferentes interpretações desta maravilhosa Pessoa, Cristo, que nos</p><p>é descrita literariamente nos Evangelhos. Durante os grandes periodos de controvérsia</p><p>teológica, entre 325 e 451 e entre 1517 e 1648, os homens procuraram interpretar Cristo</p><p>em termos de credos. Os místicos o vêem como o Cristo da experiência pessoal</p><p>imediata. Outros, nos séculos XVIII e XIX, falaram dEle como o Cristo da história e</p><p>procuraram despi-lo do sobrenatural a fim de poderem ver nEle apenas uma pessoa</p><p>humana. O verdadeiro cristão o vê sempre como o Cristo de Deus.</p><p>A significância histórica de Cristo se revela no desenvolvimento de um novo</p><p>fundamento da personalidade humana. Os gregos insistiram sobre a dignidade da</p><p>personalidade humana porque o homem era um ser racional, mas a Igreja insiste que</p><p>a !personalidade humana tem dignidade porque o homem é um filho em potencial ou</p><p>em realidade de Deus, através da fé em Cristo. A concepção cristã tem como</p><p>4 4 0 A V A N Ç O 0 0 C R IS T IA N IS M O NO! IM P É R IO A TÉ 1 0 0</p><p>conseqüência a humanização da vida. As fronteiras de classe e de raça são abolidas</p><p>na Igreja e a »reforma social dá melhores condições de vida para todos os homens. Os</p><p>evangélicos foram os líderes da reforma social na Inglaterra do século XIX. Acima de</p><p>tudo, a ênfase sobre um código de ética interior para a conduta, colocado muito</p><p>acima de regras exteriores, é uma conseqüência do contato da personalidade huma-</p><p>na com 0 Cristo do Calvário. O impacto de Cristo nas artes e literatura é imenso.</p><p>A personalidade, a obra e os ensinos de Cristo e, sobretudo, Sua morte e</p><p>ressurreição;marcam 0 começo do Cristianismo. Muitas religiões poderíam subsistir</p><p>sem fundadores humanos, mas tirar Cristo>do cristianismo faria dele uma casca vazia</p><p>sem! vida. Cristo deu a Igreja suas duas ordenanças, os apóstolos, sua mensagem</p><p>fundamental do reino de Deus, sua moral básica (Mt, 16:16-19; 18:1520־) e 0 Espírito</p><p>Santo para ser Aquele a cooperar com a Igreja na evangelização do mundo. Ele não</p><p>deixou qualquer organização nem nenhum sistema doutrinário bem articulado. Isto foi</p><p>obra dos apóstolos, Paulo inclusive, guiados pelo Espírito Santo que Cristo enviou ao</p><p>mundo para ministrar em Sua ausência. A verdadeira Igreja, que tem Cristo como 0</p><p>Fundamento e 0 Espírito Santo como 0 Fundador,!marchará triunfalmente, exaltando 0</p><p>Senhor crucificado, ressuscitado e glorificado, desde 0 Pentecoste até 0 presente.</p><p>O AVANÇO DO CRISTIANISMO</p><p>NO IMPÉRIO ATÉ 100</p><p>CAPÍTULO 3</p><p>P R IM E IR O A O S J U D E U S</p><p>Cristo é mais o Fundamento do que o Fundador da Igreja. Isto fica evidente pelo</p><p>uso do tempo futuro que faz em Mateus 16:18, ao dizer: “Sobre esta pedra edificare/ a</p><p>minha !igreja. Lucas destaca isto ao nos informar em׳ seu Evangelho "acerca de tudo</p><p>quanto Jesus começou a fazer e ensinar” (At. 1:1). Em Atos ele relatou׳ a fundação e a</p><p>divulgação da Igreja cristã pelos apóstolos sob a direção do Espirito Santo.</p><p>Até mesmo os discípulos compreenderam mal a natureza espiritual da missão de</p><p>Cristo por quererem»saber, após Sua ressureição, quem restauraria o reino messiâ-</p><p>nico (At. 31:6). Cristo mesmo já lhes tinha dito que, depois de fortalecidos pelo Espírito</p><p>Santo, a sua tarefa seria testemunhar dEle "em Jerusalém, como em toda a Judéia e</p><p>Samaria e até os confins da terra" (At. 1:8).</p><p>Note-se que Cristo deu prioridade à proclamação aos judeus. Mesmo um estudo</p><p>superficial dos Atos dos Apóstolos revelará que esta é a ordem seguida pela Igreja</p><p>primitiva. O Evangelho foi primeiro proclamado em Jerusalém por Pedro no dia de</p><p>Pentecoste; depois, foi levado pelos cristãos judeus a outras cidades da Judéia e da</p><p>Samaria. Desse modo, a Igreja foi primeiramente judia e existiu dentro do judaísmo. O</p><p>desenvolvimento do cristianismo ai e sua chegada a Antioquia é descrito por Lucas</p><p>nos primeiros 12 capítulos do Atos.</p><p>I. A FUNDAÇÃO DA IGREJA EM JERUSALÉM</p><p>Parece paradoxal que o principal centro de inimizade contra Cristo tenha sido a</p><p>cidade onde a religião cristã começou. Mas estaé a realidade. Do ano30 ׳ a ■aproxima-</p><p>damente 44, a igreja em Jerusalém manteve uma posição de liderança na comunida-</p><p>de cristã primitiva.</p><p>O Espírito Santo teve o papel de proeminência״na fundação da Igreja Cristã. 1E</p><p>isto estava de acordo com a promessa de Cristo, nas últimas semanas de Sua vida, de</p><p>que enviaria “um Consolador” que lideraria a Igreja após Sua ascensão. Um estudo</p><p>meticuloso de João 14:16-18; 15:26-27 e 16:7-15 mostrará a função do Espírito Santo</p><p>na Igreja primitiva. Realmente, os focos do livro de Atos são a ressurreição de Cristo,</p><p>como o assunto da pregação apostólica, e o Espírito Santo, como Capacitadore Guia</p><p>45</p><p>4 6 G A V A N Ç O 0 0 C R IS T IA N IS M O N O IM P É R IO A T É 1 0 0</p><p>da comunidade cristã a partir do Pentecoste. O Espirito Santo se tornou o Agente da</p><p>Trindade na mediação da obra de redenção dos homens. Judeus de todas as partes</p><p>do mundo mediterrâneo estavam presentes em Jerusalém para ver a Festa do Pente-</p><p>coste por ocasião da fundação da Igreja (At 2: 5-11). A manisfestação sobrenatural do</p><p>poder ■divino no falar em línguas, claramente relacionada à origem da Igreja, e a vinda</p><p>do Espírito Santo levaram os judeus presentes a declararem a maravilha das obras de</p><p>Deus em sua própria língua (At. 2:11). Pedro aproveitou a oportunidade para proferir</p><p>o primeiro e possivelmente o mais fecundo sermão já pregado, e proclamar a messia-</p><p>nidade de Cristo e a graça salvadora. Por fim, três mil pessoas aceitaram a sua palavra e</p><p>foram batizados (At. 2:41). Foi desta maneira que a entidade ou organismo espiritual,</p><p>a Igreja invisível, o Corpo do׳ Cristo ressuscitado, começou a existir.</p><p>O crescimento foi rápido. Outros eram acrescidos diariamente ao número dos</p><p>três mil até chegarem logo a cinco mil (At. 4:4). Há menção de multidões se integran-</p><p>do à Igreja (At. 5:14). É interessante que muitos eram judeus helenistas (At. 6:1) da</p><p>dispersão e que estavam,em Jerusalém para celebrar as grandes festas relacionadas</p><p>com a Páscoa e o Pentecoste. Nem mesmo os sacerdotes ficaram imunes ao contágio</p><p>da nova fé. "Muitos sacerdotes" (At, 6:7) são mencionados como estando entre os</p><p>membros da igreja primitiva em Jerusalém. Talvez alguns deles tivessem visto a</p><p>abertura do grande véu do templo, logo depois da morte de Cristo, e isto, junto com a</p><p>pregação dos apóstolos, levou-os a se comprometerem com Cristo.</p><p>Este crescimento tão rápido não se fez sem a oposição da parte de judeus. As</p><p>autoridades eclesiásticas logo perceberam que o cristianismo representava uma</p><p>ameaça a suas prerrogativas como intérpretes e sacerdotes da lei: por isto. reuniram</p><p>suas forças para combater o cristianismo A perseguição veio primeiro de um</p><p>organismo político-eclesiástico, o Sinédrio, que, com permissão romana, supervisio-</p><p>nava a vida civil e religiosa do estado. Pedro e João tiveram</p><p>que comparecer perante</p><p>este egrégio órgão duas vezes e foram proibidos de pregar 0 Evangelho, mas eles se</p><p>recusaram a cumprir a ordem. Mais tarde a perseguição tomou cunho mais político,</p><p>Herodes matou Tiago e prendeu Pedro (At. 12) nesta fase de perseguição. Daí por</p><p>diante a perseguição tem seguido esse padrão eclesiástico ou político.</p><p>Esta perseguição deu ao cristianismo seu primeiro mártir, Estevão. Fora ele um</p><p>dos mais destacados dos sete homens escolhidos para administrar os fundos de</p><p>caridade na Igreja de Jerusalém. Testemunhos falsos, que não podiam resistir ao</p><p>espírito e à lógica com que ele falou, obrigaram-no a comparecer diante do Sinédrio.</p><p>Após um emocionante discurso em que denunciou líderes judeus por sua rejeição de</p><p>Cristo, foi retirado e apedrejado até a morte. Sua morte, como o primeiro mártir da fé</p><p>cristã, foi um fator importante na divulgação e crescimento do cristianismo. Saulo,</p><p>depois Paulo o apóstolo, guardou as capas daqueles que apedrejaram Estevão. É</p><p>claro que a coragem e 0 espirito perdoador de Estevão diante de uma morte tão trágica</p><p>marcaram bem fundo no coração de Saulo. Aquilo que Cristo lhe disse, em Atos</p><p>9:5, “Duro será para ti recalcitrar contra os aguilhões”, parecia indicar esta realidade.</p><p>A perseguição׳ que se seguiu foi mais dura e acabou sendo o meio usado pela igreja</p><p>nascente para que sua mensagem fosse levada a outras partes do mundo (At. 8:4).</p><p>Nem todos os convertidos ao cristianismo tinham, entretanto, um coração puro.</p><p>Ananias e Safira constituiram-se nos primeiros objetos da disciplina da igreja em</p><p>Jerusalém por causa da cobiça Pronta e terrível, esta disciplina foi ministrada através</p><p>dos apóstolos que eram os lideres da organização.</p><p>O relato da aplicação da disciplina sobre este casal culpado suscita 0 problema</p><p>P R IM E IR O A O S J U D E U S 4 7</p><p>se a igreja em Jerusalém praticou ou não o comunismo. Um jovem comunista se</p><p>empenhou muito para demonstrar a este autor que os cristãos praticavam o comunis-</p><p>mo. Realmente passagens como Atos 2: 44-45 e 4:32 parecem sugerir a prática de um</p><p>tipo utópico de socialismo baseado no principio máximo do socialismo: "a cada ■um</p><p>segundo a sua capacidade, de acordo com a sua necessidade”. Deve-se notar, todavia,</p><p>em primeiro lugar que esta era uma forma temporária, possivelmente concebida para</p><p>satisfazer as necessidades de muitos de Jerusalém, que estavam ansiosos por doutrina</p><p>na nova fé, antes de voltarem para suas casas. O fato que tudo era feito voluntariamente</p><p>é importante. Pedro afirmou claramente em Atos 5:3 4 que Ananias e Safira tinham</p><p>liberdade para reter ou vender sua propriedade. O ter tudo em comum era uma decisão</p><p>de caráter fundamentalmente livre. A Bíblia não pode ser usada como Escritura autorita-</p><p>tiva para o Capitalismo estatal.</p><p>Agora, sem dúvida, o cristianismo primitivo promoveu uma grande mudança</p><p>social em certas regiões. A igreja de Jerusalém insistiu sobre a igualdade espiritual</p><p>dos sexos e deu muita importância às mulheres na igreja. A liderança de Dorcas na</p><p>promoção do trabalho de caridade foi registrada por Lucas (At. 9:36). A criação de um</p><p>grupo de homens para tomar conta das necessidades foi outro acontecimento de</p><p>relevância social ocorrido ainda nos primeiros anos do nascimento da Igreja. A</p><p>caridade deveria ser administrada por um corpo organizado, os precursores dos</p><p>diáconos. Com isto, os apóstolos ficaram completamente livres para o exercício de</p><p>sua liderança espiritual. A necessidade, devido ao rápido crescimento e possivelmen-</p><p>te à imitação das práticas da sinagoga judaica, levou■ à multiplicação de ofícios e</p><p>oficiais bem cedo na história da Igreja. Algum tempo depois, os presbíteros (anciãos)</p><p>passaram a integrar o corpo de oficiais, finalmente formado de apóstolos, presbíteros</p><p>e ■diáconos, que dividiam a responsabilidade de liderar a Igreja de Jerusalém.</p><p>A natureza da pregação dos lideres dessa igreja primitiva desponta logo no relato</p><p>do surgimento do cristianismo. O sermão de Pedro (At. 2:14-36) é o primeiro sermão</p><p>de um apóstolo; nele, recorde-se, Pedro apelou aos profetas do Velho Testamento</p><p>que haviam pré-anunciado o Messias sofredor. Ele propôs, então, que Cristo era este</p><p>Messias, porque Ele tinha sido levantado dentre os mortos por Deus. Logo, Ele era</p><p>capaz de trazer a salvação para aqueles que O aceitassem pela fé. Os principais</p><p>argumentos destes primeiros sermões estão em Atos 17: 2-3. A necessidade da morte</p><p>de Cristo pelo pecado foi também predita pelos profetas e a ressureição de Cristo era</p><p>a prova de que ele era 0 Messias que salvarra os homens. Paulo também bateu nesta</p><p>mesma tecla (I Co. 15:34־). O Cristo crucificado e ressurreto era o conteúdo de sua</p><p>pregação tanto a judeus como a gentios (Jo 5:22,27; Atos 10:42; 17:31).</p><p>A igreja judaica em Jerusalém, cuja história foi descrita, Jogo perdeu seu lugar de</p><p>líder do cristianismo para outras igrejas. A decisão tomada no Concilio em Jerusalém,</p><p>de que os gentios não eram obrigados a obedecer a lei, abriu o caminho para a</p><p>emancipação espiritual das igrejas gentílicas do controle judaico. Durante o cerco de</p><p>Jerusalém em 70 por Tito, os membros da Igreja foram forçados a fugir para Pela, do</p><p>outro lado do Jordão.1 Depois da destruição do templo e da fuga da Igreja judaica,</p><p>Jerusalém deixou de ser vista como o centro do cristianismo; a liderança espiritual da</p><p>Igreja Cristã se centralizou, então, em outras cidades, especialmente em Antioquia.</p><p>Isto evitou o perigo de que o cristianismo jamais se libertasse dos quadros do</p><p>judaísmo.</p><p>4 í . A V A N Ç O DC C R IS T IA N IS M O NO IM P É R IO A TÉ 1 0 0</p><p>II. A IGREJA NA PALESTINA</p><p>O interesse nas atividades da igreja em Jerusalém ocupa a atenção dos leitores</p><p>da história da Igreja primitiva que Lucas relata nos primeiros sete capítulos de Atos. O</p><p>centro de interesse amplia-se para incluir a Judeia e a Samaria nos capítulos 8 a 12. O</p><p>cristianismo foi levado aos povos de outras raças. O verdadeiro cristianismo sempre</p><p>tem sido de orientação missionária.</p><p>A visita de Filipe a Samaria (At. 8:5-25) levou o Evangelho a um povo que não era</p><p>de sangue judeu puro. Os samaritanos eram׳ os descendentes daquelas dez tribos</p><p>que não foram levadas para a Assíria depois da queda da Samaria e dos colonos que</p><p>os assírios trouxeram de outras partes do seu império em 721 a.C. Os judeus e os</p><p>samaritanos fizeram-se inimigos ferrenhos desde então. Pedro e João foram chama-</p><p>dos a Samaria para ajudar Filipe, pois o trabalho crescera tão rapidamente que ele</p><p>estava sem condições de atender a todas as necessidades. Este reavivamento foi a</p><p>primeira brecha na barreira racial à divulgação do Evangelho. Filipe foi compelido</p><p>pelo Espírito Santo, após completar seu trabalho em Samaria, a pregar o Evangelho a</p><p>um eunuco etíope. alto oficial do governo da Etiópia.</p><p>Pedro, o primeiro a pregar o Evangelho aos judeus, foi também o primeiro a levar</p><p>oficialmente o Evangelho aos gentios. Depois de uma visão, que deixou claro para ele</p><p>que os gentios também tinham direito ao Evangelho. Pedro foi à casa de Cornélio, 0</p><p>centurião romano, e se assombrou quando as mesmas manifestações ocorridas no dia</p><p>de Pentecoste voltavam a se verificar na casa de Cornélio־(Atos 10-11). A partir daí, ele</p><p>se dispôs a levar aos gentios o Evangelho da graça. O eunuco etíope e Cornélio foram</p><p>os primeiros gentios a ter o privilégio de receber a ׳mensagem da graça salvadora de</p><p>Cristo.</p><p>Embora aqueles, que tinham sido obrigados a sair de Jerusalém pregassem</p><p>somente aos judeus (At. 11:19), não demorou para que surgisse uma grande igreja</p><p>gentia que brotou em Antioquia. Aí 0 termo "cristão", inicialmente empregado com</p><p>sentido pejorativo por mordazes antioquienses, tornou-se a designação de honra dos</p><p>seguidores de Cristo. Foi em Antioquia que׳ Paulo começou seu ministério público</p><p>ativo entre os gentios e foi daí que ele partiu para suas viagens missionárias cujo</p><p>objetivo final era chegar a Roma. A igreja em Antioquia era tão grande que foi capaz</p><p>de socorrer as igrejas</p><p>judaicas quando elas passaram fome. Ela foi o principal centro</p><p>do cristianismo de 44-68 d.C.</p><p>A tarefa de levar 0 Evangelho aos gentios nos “confins" estava apenas começan-</p><p>do. Começada por Paulo, esta tarefa continua ainda hoje como a missão inacabada</p><p>da Igreja de Cristo.</p><p>O AVANÇO DO CRISTIANISMO</p><p>NO IMPÉRIO ATÉ 100</p><p>CAPÍTULO 4</p><p>T A M B É M A O S G R E G O S</p><p>A Igreja judaico-cristã primitiva demorava a compreender o sentido universal do</p><p>cristianismo embora Pedro tivesse sido o instrumento na comunicação do Evangelho</p><p>aos primeiros convertidos judeus. Foi Paulo, capacitado pela revelação de Deus, que</p><p>teve a visão das necessidades do mundo gentio, dedicando sua vida à pregação do</p><p>Evangelho a este mundo. Como nenhum outro na Igreja primitiva, Paulo entendeu o</p><p>caráter universal do cristianismo e entregou-se à sua pregação aos confins do</p><p>Império Romano (Rm. 11:13: 15:16). Poder-se-ia até dizer que ele tinha em sua mente</p><p>o slogan Ό império Romano para Cristo" pelo tanto que ele fez no ocidente com a</p><p>mensagem da Cruz ,(Rm. 15:15, 16, 18-28; At. 9:15, 22:21). Embora não poupasse</p><p>esforços na consecução deste ministério, ele não negligenciou seu próprio povo, os</p><p>judeus. Isto se evidencia por sua procura das sinagogas judaicas logo que chegava a</p><p>uma cidade e pela !proclamação do Evangelho a todos os prosélitos judeus e gentios</p><p>que pudessem ouví-lo.</p><p>I. O AMBIENTE DE PAULO</p><p>Paulo estava consciente de que devia três lealdades temporais Como jovem</p><p>judeu, ele recebera educação ministrada apenas aos jovens judeus de futuro e foi</p><p>educado aos pés do grande mestre judeu, Gamaliel. Poucos podiam se orgulhar de</p><p>ter mais instrução do que Paulo no que dizia respeito à educação religiosa judaica e</p><p>poucos se aproveitaram tanto quanto ele da educação que recebeu (Fp. 3: 4-6). Era</p><p>ele também cidadão de Tarso, a principal cidade da Cicília, "cidade-não insignificante"</p><p>(At. ,21:39). Era também cidadão romano livre (At. 22:28) e não tinha dúvidas em usar</p><p>os privilégios de sua cidadania romana quando estes privilégios podiam ajudá-lo em</p><p>sua missão por Cristo (At. 16:37; 25:11).</p><p>O !judaísmo foi seu ambiente religioso anterior a sua conversão; Tarso foi sua</p><p>grande universidade e sua atmosfera intelectual, o palco dos primeiros anos de sua</p><p>vida; e o Império romano foi o espaço político em que viveu e agiu.</p><p>Este ambiente político não parecia ser tão favorável a alguém para a proclama-</p><p>ção do Evangelho. César Augusto provocou a decadência da República, exceto para</p><p>4 9</p><p>AVANÇO DC CRISTIANISMO NO IMPÉRIO ATÉ 100</p><p>TERCEIRA VIAGEM MISSIONÁRIA DE P A U L O -------</p><p>VIAGEM DE PAULO A ROMA - ־־</p><p>T íM B É W A O S jR E G C S 51</p><p>a política, quandoestabeleceu em 27 a,C. uma diarquia em que dividiu nominalmente</p><p>o controle do estado com o senado, Infelizmente, seus sucessores não tiveram a</p><p>habilidade nem a moral de Augusto e governaram mal. Caligula (37-41) esteve louco</p><p>durante parte ■do seu governo; Nero (54-68), sob quem Paulo foi martirizado ea Igreja</p><p>enfrentou sua primeira perseguição, era um homem cruel e sangüinário que não</p><p>titubeou em matar membros de sua própria família. Entretanto, Cláudio (41-54) foi um</p><p>excelente administrador e o Império conseguiu se estabilizarem seu governo. Foi em</p><p>sua administração que Paulo fez a maioria de suas viagens missionárias.</p><p>A situação social e moral era mais assustadora do que a política. A pilhagem do</p><p>Império criou uma classe alta rica de novos aristocratas que tinham escravos e</p><p>dinheiro para satisfazer seus muitos desejos legítimos e ilegítimos. Esta classe desde-</p><p>nhava de certo modo a nova religião e viam seu apelo às classes pobres como uma</p><p>ameaça à sua posição ·elevada na sociedade. Assim mesmo, alguns desta classe se</p><p>converteram com a pregação do Evangelho feita por Paulo na prisão em !Roma (Fp.</p><p>1:13).</p><p>Paulo enfrentou também a rivalidade de outros sistemas de religião. Os romanos</p><p>eram de certo modo ecléticos em sua vida religiosa e se dispunham a tolerar toda</p><p>religião desde que esta não proibisse seus seguidores de participar no culto do</p><p>Estado, que misturava o culto ao imperador com o velho culto do estado republicano</p><p>e exigia a obediência de todos os povos do Império exceto aos judeus, que por lei</p><p>eram isentos destes rituais. Aos cristãos não se concedeu tal privilégio e eles tiveram</p><p>que enfrentar o problema da oposição do Estado. As religiões de mistério subjetivis-</p><p>tas de Mitra, Cibele e ísis pediam a associação de muitos outros no Império. O</p><p>judaísmo, de quem o cristianismo foi distinto como seita separada, enfrentou uma</p><p>oposição cada vez maior.</p><p>Os intelectuais romanos aceitavam! os sistemas filosóficos, como o Estoicismo, o</p><p>Epicurismo e o Neo-pitagorismo, que sugeriam a contemplação filosófica como o</p><p>caminho da salvação. O estoicismo. com sua interpretação panteística de Deus, sua</p><p>concepção de leis éticas naturais descobríveis pela razão e sua doutrina da paternida-</p><p>de de Deus e fraternidade do homem, parecia dar um fundamento filosófico para o</p><p>Império Romano. Alguns imperadores, como Marco Aurélio (161-180), aceitaram</p><p>suas formulações éticas.</p><p>Paulo teve que enfrentar este confuso cenário religioso com o simples Evangelho</p><p>redentor da morte de Cristo. A Arqueologia nos ajuda a datar pontos-chave na vida e</p><p>obra de Paulo. Paulo esteve em Corinto 18 meses quando Gálio tornou-se procônsul</p><p>(At. 18:12-13). Uma inscrição em pedra, descoberta em Delfos, menciona que Gálio</p><p>começou seu trabalho na Asia no 26.° ano de Cláudio, que foi 51׳ ou 52 d.C. Assim, a</p><p>visita de Paulo teria começado 18 meses antes, em 50 d.C. Outras datas em sua vida</p><p>podem ser calculadas a partir desta com relativa acuracidade.1</p><p>A conversão de Paulo foi também um evento histórico objetivo. Ele falou dela</p><p>como tal em I Co. 9:1 e 15:8 e em Gl 1:11-18. Ela aconteceu no seu encontro com</p><p>Cristo na estrada para Damasco (At 9;22;26). Esta experiência foi vital para seu</p><p>trabalho׳ missionário, seu ensino, escritos e teologia.</p><p>II. A OBRA DE PAULO</p><p>A índole de Paulo era tão múltipla que é preciso considerar a sua obra sob</p><p>diferentes aspectos. Cada um dos tópicos seguintes destacará a grandiosidade da</p><p>5 Í □ A V A N Ç O ] [ C R IS T IA N IS M O NO IM P É R IO A TÉ ID O</p><p>tarefa que Deus lhe de» e a aplicação que devotou à realização desta tarefa.</p><p>A. O Propagador do Evangelho</p><p>Paulo era ao mesmo tempo sábio e dedicado missionário. Sua vida ilustra o uso</p><p>de princípios que têm servido muito bem à Igreja cio cumprimento da grande comis-</p><p>são. Uma consulta aos mapas de suas viagens indica o avanço do Evangelho através</p><p>de sua pregação ao longo do semi-circulo que vai de Antioquia a Roma. Paulo adotou</p><p>como princípio básico a expansão do Evangelho para 0 Ocidente e é encantador o</p><p>fato de ter alcançado seu objetivo, Roma, embora, fosse, então, prisioneiro do gover-</p><p>no romano.</p><p>Paulo pensava também em termos de áreas que poderíam ser alcançadas a partir</p><p>de centros estratégicos. Ele sempre começava seu trabalho numa nova área na</p><p>cidade mais estrategicamente localizada e usava os convertidos para levar a mensa-</p><p>gem às cidades e regiões adjacentes. É por causa desta prática que ele provavelmente</p><p>não tenha visitado Colossos (Cl. 2:1), uma vez que a forte igreja desta cidade tinha</p><p>sido fundada por aqueles que ele mesmo enviou de Éfeso.</p><p>Ele iniciava seu trabalho nos centros romanos estratégicos indo primeiro às</p><p>sinagogas, onde pregava sua mensagem enquanto fosse bem recebido. Quando</p><p>surgia a oposição, ele partia para uma proclamação direta do Evangelho aos gentios</p><p>em qualquer lugar que julgasse adequado. Seu princípio era pregar aos gentios</p><p>depois de ter pregado aos judeus. Pelo menos é o que se depreende do estudo da</p><p>história das viagens segundo Atos (Rm. 1:16).</p><p>Depois de fundar uma Igreja, Paulo a organizava com presbíteros e diáconos, a</p><p>fim de que o trabalho continuasse após sua partida. Ele procurava colocar fundamen-</p><p>tos sólidos.</p><p>Ele não queria ser um ônus para as igrejas nascentes que dirigia, as quais deviam</p><p>assumir a responsabilidade</p><p>de se sustentarem enquanto pregava em uma nova área.</p><p>Ele trabalhou em sua profissão de construtor de tendas enquanto pregava ao povo de</p><p>Connto (At. 18:1-4: cf I Ts. 2:9). Ele não fez disto uma regra para os outros, massentiu</p><p>que era necessário para 0 seu ministério. A igreja deveria também se auto-sustentar.</p><p>Sua dependência da orientação do Espirito Santo em sua obra se evidencia</p><p>claramente tanto nos Atos como em suas Epístolas (At. 13: 2.4; 16:6-7). Ele não</p><p>desejava ir a um lugar sem estar absolutamente certo de que aquele era o campo que</p><p>Deus tinha para 0 seu trabalho. Procurava alcançar regiões não alcançadas por</p><p>outros, a fim de que fosse sempre um pioneiro do Evangelho (Rm 15:20). Este espírito</p><p>de pioneirismo foi muito produtivo, resultando na chegada do Evangelho de Anti-</p><p>oquia a Roma e, possivelmente, à ׳Espanha, no curto tempo de sua vida.</p><p>Estes princípios seguidos pelo apóstolo serviram-lhe no desenvolvimento das</p><p>igrejas como centros organizados para continuação da pregação do Evangelho. Ele</p><p>não as deixou sem ajuda constante, pois usava revisitar as igrejas que fundava, a fim</p><p>de encorajá-las e fortalecê-las (At. 15:36). Não é de admirar o rápido crescimento do</p><p>cristianismo sob esta liderança sadia e inspirada. A igreja também deveria ser auto-</p><p>propagadora.</p><p>B. As Publicações de Paulo</p><p>Paulo adotava a prática de se manter em contato com a situação local em cada</p><p>igreja através de visitadores dessas igrejas (I Co. 1:11) ou através de relatos de agen-</p><p>tes que enviava a visitar as igrejas (I Ts. 3:6). Quando a situação local parecia exigir,</p><p>T í M B É N A O S 3R E G C S 3 3</p><p>&e escrevia cartas sob a inspiração do Espírito Santo para tratar dos problemas parti-</p><p>:uiares. Ele escreveu duas vezes à igreja tessalonicense para esclarecer uma má</p><p>interpretação da doutrina da segunda vinda de Cristo. A igreja coríntia enfrentava 0</p><p>problema de uma igreja situada numa grande cidade pagã e Paulo escreveu uma</p><p>primeira carta para resolver estes problemas, problemas referentes à sabedoria hu-</p><p>mana e espiritual, próprios de uma igreja localizada numa cidade de cultura grega (I</p><p>Co. 1-4), o problema da moralidade num ambiente pagão (Capítulo 5), os processos</p><p>entre cristãos nas cortes pagãs (6), problemas matrimoniais (7) e o problema do</p><p>relacionamento social com os idolatras pagãos (8-10) foram alguns dos assuntos de</p><p>que tratou em sua correspondência. Sua Segunda Epístola aos Coríntios decorreu da</p><p>necessidade de afirmar seu apostolado, a fim de que sua autoridade afirmada na</p><p>primeira carta fosse confirmada. A carta aos gálatas se fez necessária por causa do</p><p>problema da relação da lei judaica com o cristianismo, para que a fé. e não a lei. fosse</p><p>vista como o principio atuante do cristianismo. A carta aos romanos é uma exposição</p><p>e explicação sistemática de seu Evangelho. As quatro espístolas escritas durante sua</p><p>prisão em Roma surgiram devido aos problemas especiais nas igrejas de Éfeso,</p><p>Colossos e Filipos. A epistola pessoal a Filemom trata do problema do senhor e do</p><p>escravo que se tornam cristãos. As três epistolas pastorais a Timóteo e a Tito tratam</p><p>dos problemas próprios de um jovem pastor.</p><p>Deve-se atentar para o fato de que todas estas cartas surgiram de uma crise</p><p>histórica definida em alguma das amadas igrejas de Paulo. A grandiosidade destes</p><p>"tópicos do momento" reside no fato de que os princípios que Paulo propôs para</p><p>resolver os problemas das igrejas do primeiro século ainda são relevantes para a</p><p>Igreja nos tempos modernos. Os seres humanos enfrentam problemas semelhantes e</p><p>semelhantes princípios são úteis embora o ambiente temporal e espacial seja diferen-</p><p>te. As epístolas são sempre de valor para qualquer igreja na solução de seus proble-</p><p>mas. Paulo sempre equilibrou fórmulas teológicas com aplicação prática.</p><p>C. Os Princípios da Teologia de Paulo</p><p>Nenhuma discussão histórica sobre Paulo pode se permitir ignorar as doutrinas</p><p>básicas desenvolvidas em suas cartas, particularmente na carta à igreja romana.</p><p>Cristo não deixou nenhum corpo de doutrinas definido. Esta formulação coube ao</p><p>trabalho de Paulo, conduzido pelo Espírito Santo. Este corpo de doutrinas não estava,</p><p>entretanto, em contraste com os ensinos de Cristo mas. antes, partia dos ensinos e</p><p>morte de Cristo.2</p><p>A educação de Paulo no lar. na sinagoga e sob Gamaliel; sua observação da</p><p>natureza (Rm 1:19-20), sua experiência de conversão; sua mente criativa e, acima de</p><p>tudo, a revelação divina, foram importantes no desenvolvimento de sua teologia.</p><p>A essência do evangelho paulino pode ser sintetizada facilmente. Paulo entendia</p><p>que a felicidade e a utilidade eram os objetivos básicos a que aspiram todos os</p><p>homens. Felicidade e utilidade nesta vida e na futura dependera! ■da conquista do</p><p>beneplácito de Deus. O favor de Deus pode ser assegurado ao homem que faz a</p><p>vontade de Deus. Paulo e seus compatriotas judeus criam que a observância da lei de</p><p>Moisés, que era uma expressão da santidade de Deus, garantiría uma vida feliz e útil.</p><p>Paulo, porém, descobriu a tristeza de que as obras da lei somente resultavam no</p><p>conhecimento do pecado e deixavam 0 homem sem esperança de executar a</p><p>vontade de Deus como expressa nesta lei (Rm 7). A experiência na estrada de</p><p>Damasco revelou a Paulo que não é a lei mas a Cruz de Cristo 0 ponto de partida para</p><p>5 4 : A V A N Ç O H C R IS T IA N IS M O N O IM P É R IO A T É 1 0 0</p><p>a vida espiritual. Cristo, que guardara perfeitamente a lei judaica, como homem</p><p>perfeito e Deus, ofereceu-se na Cruz em lugar do homem pecador e assumiu o fardo</p><p>do pecado humano (Gl. 3:10,13). Os homens precisam aceitar pela fé (Rm. 5:1) a obra</p><p>que Cristo já fez por eles.</p><p>O sistema ético de Paulo desenvolve-se a partir desta união pessoal do crente</p><p>com Cristo pela fé. Esta relação vertical deve ser completada com uma relação</p><p>horizontal na qual o crente se une aos irmãos pelo amor cristão expresso numa vida</p><p>moral (I Jo. 3:23: Ef. 1:15). Nem o legalismo do judaísmo״ nem o racionalismo do</p><p>estoicismo, mas o amor cristão deve ser a fonte da conduta cristã. A união mística do</p><p>crente com o Senhor deve ser o fundamento do amor. Esta vida de amor envolve</p><p>separação da corrupção pessoal que vem da adoração de ídolos, da impureza sexual</p><p>ou da embriaguez — os grandes pecados do paganismo. O que se deve buscar,</p><p>então, positivamente, é o serviço do amor para com os outros e a firmeza quanto à</p><p>integridade pessoal.</p><p>Um sistema de ética assim não significava repúdio da lei moral judaica mas,</p><p>antes, representava o cumprimento do elevado nível do amor na família, na comunida-</p><p>de e na sociedade em geral. Os padrões éticos elevados dos cristãos impressionavam</p><p>seus vizinhos pagãos com a grandeza da fé cristã. A própria vida de Paulo de serviço</p><p>dedicado era uma indicação tanto a judeus quanto a gentios do que Deus faria na</p><p>formação de uma personalidade cristã dedicada ao serviço para glória de Deus e para</p><p>o bem do homem.3</p><p>A filosofia paulina da história está intimamente ligada às suas posições éticas e</p><p>teológicas. Ele rejeitava a teoria cíclica da história, que caracterizava o mundo antigo,</p><p>e a teoria moderna de progresso evolutivo indefinido, adotando uma interpretação</p><p>sobrenatural cataclísmica da história que se funda no fracasso do homem não-</p><p>regenerado e no poder de Deus para executar seu plano divino. Esta doutrina não se</p><p>limita a nações mas engloba a raça humana. Segundo ela, o progresso pode vir</p><p>apenas através do conflito espiritual em que ao homem é dado força através da graça</p><p>de Deus. Derradeiramente, Deus será o Vencedor sobre todas as forças do mal que</p><p>foram provisoriamente derrotadas na Cruz do Calvário por Cristo (Rm 11:36; Ef. 1:10).</p><p>D. Paulo como polemista</p><p>Paulo jamais se contentava em simplesmente apresentar o cristianismo. Amea-</p><p>ças à pureza da doutrina cristã levavam-πο à luta contra o inimigo. Pela voz e pela</p><p>pena, ele lutou pela pureza da doutrina cristã de seu tempo. Nenhuma interpretação</p><p>falha da pessoa ou da obra de Cristo escaparam à sua condenação,</p><p>nem deixou de</p><p>tentar convencer os errados a voltarem à fé.</p><p>O problema do significado e dos meios da salvação foi a primeira dificuldade que</p><p>Paulo enfrentou durante o Concilio de Jerusalém ao final de sua primeira viagem</p><p>missionária. A Igreja, nascida nos quadros do judaísmo, desenvolvera dois grupos.</p><p>Um grupo reacionário de cristãos judeus de formação farisaica cria que tanto os</p><p>gentios como os judeus deviam observar a lei de Moisés para a salvação. Eles queriam</p><p>tornar o cristianismo uma seita particular do judaísmo. O outro grupo entendia que a</p><p>salvação vinha pela fé em Cristo somente e que a oferta da salvação era para todos, e</p><p>não por meio de obras.</p><p>A visita dos judaizantes a Antioquia, ostensivamente com autoridade de Tiago</p><p>para pregar à moda antiga (At. 15:24), provocou o encontro de Jerusalém, em 49 ou</p><p>50, a fim de discutir o problema. Comissionados pela Igreja em Antioquia (At. 15:2) e</p><p>T A M B É IV A O S jR E G C S 5 5</p><p>confirmados por revelação (Gl. 2:2), Paulo e Barnabé dirigiram-se para Jerusalém</p><p>para o primeiro e possivelmente mais importante concilio da Igreja em sua história.</p><p>Eles narraram as suas atividades numa reunião geral pública da igreja (At.</p><p>15:4-5), após o que se encontraram com os apóstolos e presbíteros num encontro</p><p>especial de cunho reservado para discutir o problema com profundidade e procurar</p><p>uma solução (At. 15: 6: Gl.2:2-10).4 Este encontro reservado parece ter sido seguido</p><p>por outro encontro da igreja toda no qual a decisão tomada foi referendada por todos</p><p>os presentes (At. 15:7-29). O elogio da obra de Paulo entre os gentios (At 15:25-26: Gl.</p><p>2:9) e a não-obrigatoriedade dos gentios de guardarem a lei judaica (At. 15:19) foram</p><p>os resultados imediatos da conferência. Exigências menores para satisfazer os cren-</p><p>tes judeus, como a abstenção de sangue ou coisas sufocadas, foram estabelecidas.</p><p>Os gentios convertidos foram aconselhados também a evitar os pecados da idolatria e</p><p>da imoralidade — pecados que poderíam ser uma tentação especial para os convertí-</p><p>dos de um ambiente pagão devasso (At. 15:20-21). Fica logo claro que estas solicita-</p><p>ções em nada feriam os princípios básicos de como o homem é justificado. Elas foram</p><p>criadas apenas para facilitar as boas relações entre convertidos judeus e gentios.</p><p>Os acontecimentos do Concilio de Jerusalém, revelaram a tenacidade de Paulo</p><p>quando uma questão fundamental estava em jogo. Em nenhum momento ele fala da</p><p>circuncisão de Tito no Concilio (Gl. 2:3), mas no começo de sua segunda viagem,</p><p>quando Timóteo tornou-se seu auxiliar, circuncidou Timóteo (At. 16:1-3), para que a</p><p>falta deste ritual não fosse um obstáculo na comunicação do Evangelho. Paulo estava</p><p>pronto para fazer concessões secundárias, desde que isto facilitasse seu trabalho;</p><p>mas ele não permitiu a circuncisão de Tito em Jerusalém porque a liberdade gentílica</p><p>quanto à observância da lei ritual judaica era 0 princípio pelo qual lutava.</p><p>A liberação do cristianismo da observância da lei cerimonial judaica foi o resulta-</p><p>do de maior alcance do Concilio. A !partir daí, a fé permanece como o único meio pelo</p><p>qual o homem alcança a salvação. Como esta fé é universal, o cristianismo está isento</p><p>de perigo de tornar-se uma simples seita do judaísmo. A nova lei do amor, que conduz</p><p>à observância da lei moral judaica a partir do amor a Deus e não de um sentido de</p><p>obrigatoriedade, torna-se, então, a base da ética cristã, é interessante notar a feição</p><p>democrática com que a Igreja resolveu seu grande problema. A decisão foi tomada</p><p>pela Igreja e seus lideres sob a direção do Espirito Santo. Os cristãos judeus, que</p><p>tinham sido salvos pela fé, ficaram livres para observar a lei de Moisés como uma</p><p>tarefa voluntária caso quisessem.</p><p>O cristianismo não pode esquecer a lição do Concilio de Jerusalém. Se isto</p><p>acontecer, ele perderá a sua vitalidade. O mesmo problema foi enfrentado pelos</p><p>Reformadores, que viram que a igreja romana estava exigindo obras humanas em</p><p>acréscimo à fé como condição para a salvação. Os liberais modernos com sua ênfase</p><p>sobre um Deus alcançável pelas realizações éticas incorreram no mesmo erro. O</p><p>problema do Concilio de Jerusalém é perene e os princípios que triunfaram são os</p><p>princípios que se mostraram relevantes através da história da Igreja.</p><p>Paulo enfrentou também o desafio do racionalismo grego quando lutou contra</p><p>um gnosticismo incipiente na Igreja Alguns homens procuravam intelectualizar os</p><p>meios da salvação assim como os cristãos judeus tinham tentado legalizá-los. O</p><p>gnosticismo tornou-se um perigo especial na igreja colossense.</p><p>Os gnósticos sustentavam uma filosofia dualistica que fazia uma clara distinção</p><p>entre o espírito como bem׳ e a matéria como mal. De acordo com eles, o elo entre o</p><p>espirito puro e a matéria má é uma hierarquia de seres celestiais. Cristo é visto como</p><p>£ 6 ’ A V A N Ç O 0 0 C R IS T IA N IS M O N O IM P É R IO A T É 1 0 0</p><p>um membro desta hierarquia. Os anjos devem receber culto!,por serem parte desta</p><p>hierarquia (Cl. 2:8, 18-19). A salvação deve ser alcançada principalmente por atos</p><p>ascéticos de negação dos desejos do corpo material e mau (Cl. 2 : 1 4 2 0 - 2 3 e por (־17,</p><p>uma gnosis especial ou conhecimento acessível somente à elite entre os cristãos. A fé</p><p>é relegada a uma posição secundária neste sistema que serve aos !interesses do</p><p>orgulho humano.1</p><p>Paulo respondeu a esta heresia pela afirmação irrestrita da total suficiência de</p><p>Cristo como״Criador e Redentor (Cl. 1:13-20). Cristo é a plena manifestação de Deuse</p><p>não é de forma alguma inferior a Deus (Cl. 1:19; 2:9). Somente nesta doutrina sentia</p><p>Paulo que o homem podia ter a segurança de um Salvador capaz de resolver o</p><p>problema do׳ pecado.</p><p>O gnosticismo foi a primeira )heresia enfrentada pela Igreja, mas não seria a</p><p>última. O erro é perene e geralmente surge pelos mesmos motivos em várias oca-</p><p>siões. O orgulho da razãolhumana e sua tendência racionalista podem levar à heresia,</p><p>como foi o caso da igreja em Colossos. A permanência da herança religiosa do</p><p>período pré-cristão na vida individual pode levar a uma mistura de verdade e erro com</p><p>terríveis conseqüências para a salvação. Foi este o erro dos judaizantes. Mau uso ou</p><p>ênfases exagerados de alguma passagem bíblica podem provocar o erro. Às vezes o</p><p>lider equivocadamente entusiasmado, na tentativa de !proteger a verdade, pode</p><p>subvertê-la; foi este o caso de Montano no segundo século.</p><p>Não surpreende que Paulo, com esta fé, com esta coragem e com uma sólida</p><p>perspectiva de sua tarefa, tenha sido capaz de levar a mensagem da salvação às</p><p>nações gentilicas do Império Romano e fincar a cultura cristã na sua triunfante</p><p>caminhada ocidental pela Europa.</p><p>Ele foi o intérprete singular do significado da vida e da morte de Cristo em termos</p><p>de salvação para o homem pecador Ele deixou a fé livre da intromissãodo legalismoe</p><p>do racionalismo. Ele cuidou dos detalhes da organização das igrejas cristãs e se</p><p>manteve em constante correspondência com elas a fim; de resolver seus problemas</p><p>segundo uma !perspectiva cristã. Como ninguém, Paulo compreendeu o significado</p><p>cósmico de Cristo mo tempo e na eternidade. Foi ele que, como o "Apóstolo׳ dos</p><p>Gentios" (Rm. 11:13; 15:16), interpretou Cristo ao mundo gentio.</p><p>CAPÍTULO 5</p><p>O S L IV R O S E O S P E R G A M IN H O S</p><p>O AVANÇO DO CRISTIANISMO</p><p>NO IMPÉRIO ATÉ 100</p><p>O Novo Testamento não é apenas o ponto mais alto de uma montanha de</p><p>literatura religiosa: ao contrário, é o ponto mais elevado de uma cordilheira de</p><p>literatura religiosa produzida pela Igreja Primitiva. Suas formas literárias básicas —</p><p>evangelhos, atos. epístolas e apocalipse — tornaram-se os modelos a partir dos quais</p><p>os primeiros Pais da Igreja redigiram seus escritos. Não é de se estranhar o número de</p><p>livros do Novo Testamento diante da abundância da literatura religiosa da Igreja</p><p>Primitiva. Lucas mesmo menciona a existência de vários evangelhos que circulavam</p><p>quando ele, inspirado pelo Espírito se pôs a escrever, o relato da vida de Cristo (Lc.</p><p>1:1).</p><p>Os escritos dos Pais preenchem amplamente o vazio de informações históricas</p><p>entre o período do Novo Testamento e a última !parte do quarto século. Os lideres da</p><p>Igreja, pela pena e pela voz, construíram uma literatura apologética e polêmica para</p><p>fazer frente a perseguição externa e à heresia interna. Credos foram concebidos para</p><p>aclarar as concepções de fé. Assim, os Pais são de enorme importância no>estudo do</p><p>desenvolvimento da vida e do pensamento cristão neste período. Esta literatura tem</p><p>muito sabor, por isso, a sua leitura reverterá para o estudante aplicado tanto em</p><p>termos de inspiração como de conhecimento. Os escritores citam e usam a lingua-</p><p>gem das Escrituras.</p><p>O nome "Pai da Igreja" tem sua origem no uso do nome "Pai’’, dado aos bispos,</p><p>especialmente no Ocidente, para exprimir uma carinhosa lealdade, O nome foi usado</p><p>mais amplamente a partir do terceiro século para descrever os campeões ortodoxos</p><p>da Igreja e os expoentes de sua fé. Geralmente, estes homens eram bispos. Patrolo-</p><p>gia ou Patrística é o ,nome do estudo da vida e das obras desteshomens, que viveram</p><p>em sua maioria, no período entre 0 fim da era apostólica ea realização do Concilie de</p><p>Calcedônia (451). O diagrama seguinte falará sobre eles, seu período, suas obras</p><p>principais e as características mais importantes de suas obras.</p><p>Há agora certeza razoável de que os escritos do Novo Testamento estavam</p><p>completos antes de acabado o primeiro século depois de Cristo. Os homens que</p><p>conheceram os apóstolos e a doutrina apostólica levaram adiante a tarefa de produzir</p><p>uma literatura cristã Grande parte das obras literárias desses autores foi produzida</p><p>entre 95 e 150.</p><p>5 7</p><p>58 0 AVANÇO DO CRISTIANISMO NO IMPÉRIO1 ATÉ 100</p><p>OS PAIS DA IGREJA</p><p>OrienteOcidente</p><p>PRIMEIRO SÉCULO (95 c. 150)</p><p>PAIS APOSTÓLICOS -1PARA EDIFICAR - ,INTERPRETAÇÃO TIPOLÓGICA</p><p>EDIFICAÇÃO inâcl°</p><p>Policarpo</p><p>Pseudo-B arnabé</p><p>C lem ente de Rom a Epístola a D iog neto</p><p>II' Epistola de C lem ente</p><p>Papias</p><p>O Pastor de Hermas (apocalíp tico)</p><p>Didaquê (m anual catequétlco )</p><p>SEGUNDO SÉCULO (120-2201 - APOLOGISTAS - DEFENDER O CRISTIANISMO</p><p>Aristides</p><p>Justino , o M á rtir</p><p>Taciano</p><p>A tenágoras</p><p>Teófllo</p><p>EXPLANAÇÃO</p><p>Tertu liano</p><p>TERCEIRO SÉCULO (1 8 0 -2 5 0 ) - POLEMISTAS - LUTA CONTRA FALSAS DOUTRINAS</p><p>I .</p><p>REFUTAÇAO</p><p>P ráticos (Adnninisiração) Escola A lexandrina</p><p>(alegórica e especulativa)</p><p>Escola A n tioqu iena</p><p>(histórico-</p><p>Irineu vs. G nósticos Panteno</p><p>gramatical)</p><p>Tertu lian o — fundador da C lem ente</p><p>teo log ia ocidental. O rlgenes - H exapla (texto</p><p>,Trindade vs. Práxeas do V Tes tam ento )</p><p>C ipriano — sobre o episcopado D e Principiis (prim eira</p><p>e p rim azia da honra teologia s istem ática )</p><p>do bispo ide Rom a usava o m éto do a legórico</p><p>de in terpre tação</p><p>QUARTO SÉCULO - 1325 - 460) - ERA10OURADAOO ESTUDO BÍBLICO CIENTÍFICO</p><p>EXPOSIÇÃO 1</p><p>C risóstom o-</p><p>pregador</p><p>(conduta cristã)</p><p>Teodoro</p><p>(uso do contexto)</p><p>A tanásio</p><p>Basílio de Cesaréia</p><p>J erõ n lm o (tradutor da Bíblia)</p><p>A m brósio (pregador)</p><p>A gostinho (filósofo da</p><p>história com A Cidade de Deus; teó logo l</p><p>D S L IV R O S E □ S P E R G A M IN H O S 5 9</p><p>Certas características delineiam-se bem claramente nestes escritos. Seu estilo é</p><p>informal; suas singelas expressões de fé e de piedade sincera mostram pouca influên-</p><p>cia da educação filosófica pagã que se pode ver nos escritos de Orígenes e Clemente</p><p>de Alexandria. Os Pais Apostólicos nutriam uma grande reverência pelo Velho Testa-</p><p>mento, dele se servindo para apoiar suas idéias. Por esta razão, é possível notar-se um</p><p>uso realmente excessivo da interpretação tipológica. O cristianismo é apontado</p><p>como o cumprimento das profecias e dos tipos do Velho Testamento. Estes homens</p><p>estavam também familiarizados com as formas literárias do Novo Testamento, tanto</p><p>que as usaram como modelos para suas produções. Sem dúvida alguma, o objetivo</p><p>principal de seus escritos era a edificação da !Igreja,</p><p>I. LITERATURA EPISTOLAR</p><p>A. Clemente de Roma (c. 30-100)</p><p>Por volta do ano 95 teve lugar urriiSério problema na Igreja em Corinto. Dois anos</p><p>depois, Clemente, o presbítero principal da Igreja em Roma, escreveu sua primeira</p><p>epístola aos cristãos de Corinto para exortar os cristãos em revolta contra os presbíte-</p><p>ros a acabarem׳ com os problemas e obedeceram! seus presbíteros (1:1; 14:1; 46;</p><p>47:3-6). Atualmente, esta epístola tem recebido um lugar de proeminência entre os</p><p>escritos dos'Pais Apostólicos por ser 0 escrito cristão mais antigo depois dos livros do</p><p>Novo Testamento.</p><p>Depois de uma introdução em que recorda 0 espírito excelente da igreja nos</p><p>primeiros tempos (Capítulos 1-3), Clemente faz uma série de exortações sobre as</p><p>virtudes cristãs do amor, do arrependimento e da humildade, a fim de inspirar a</p><p>obediência às admoestações que ainda faria (4-38). Estas exortações, baseadas na</p><p>citação de inúmeros exemplos do Velho Testamento, são divididas por um pequeno</p><p>parêntesis (24-26) sobre a certeza da ressurreição futura. É interessante notar que</p><p>Clemente usa no capítulo 25 a história pagã de Fênix para ilustrar a ressurreição. Ele</p><p>dá mais atenção aos problemas específicos dos coríntios nos capítulos 39 a 59:2. O</p><p>centro de seu argumento está nos capítulos 42-44 e se baseia no fato de que os</p><p>presbíteros e diáconos foram instituídos pelos apóstolos, que por sua vez foram</p><p>enviados por Cristo e Cristo, pelo Pai. Clemente pede obediência a estes líderes</p><p>democraticamente escolhidos (44:3). Esta seção é seguida por uma׳ longa oração</p><p>(59:3 - Capítulo 61) onde fica claro seu intenso desejo de unidade da igreja. Uma</p><p>exortação final à unidade (62-65) encerra 0 livro.</p><p>Esta carta é valiosa por suas informações acerca da elevada posição dos bispos</p><p>ou presbíteros na Igreja ao final do primeiro século. A obediência ao bispo seria a</p><p>garantia prática da unidade cristã. A carta de Clemente é ainda interessante por suas</p><p>profusas citações (cerca de 150) do Velho Testamento. Ademais, contém ela uma</p><p>referência fartamente citada ao ministério de Paulo (5:5-7). A teoria das duas prisões</p><p>de Paulo e um período intermediário de liberdade surgiu principalmente desta refe-</p><p>rência.</p><p>B. ·Inácio (I séc. - II séc. d.C)</p><p>Outro Pai Apostólico é Inácio, bispo de Antioquiana Síria, que, devido ao seu .</p><p>testemunho cristão, foi preso pelas autoridades eenviado paraRoma para ser devora-</p><p>do pelas feras nos jogos imperiais. Autorizado a receber visitantes das igrejas das</p><p>6 0 D A V A N Ç O 0 0 C R IS T IA N IS M O N O IM P É R IO A TÉ 1 0 0</p><p>cidades ao longo do caminho, ele enviou, antes de seu martírio, cartas de agradecí-</p><p>mento a estas igrejas por sua bondade para com ele. A carta aos romanos é funda-</p><p>mentalmente׳׳um apelo para que não tomassem qualquer providência para livrá-lo do</p><p>martírio em Roma. Inácio saúda sua morte próxima e procura evitar também qualquer</p><p>gesto quetpudesse impedi-lo de tornar-se o “pão puro de Cristo" a ser triturado pelos</p><p>dentes das bestas (2:2; 4:1-2). Estas sete cartas devem ter sido escritas por volta de</p><p>110. Embora a autenticidade de algumas dessas cartas esteja em discussão, as aceitas</p><p>deixam claro o seu ensino.</p><p>Nestas cartas, Inácio procura alertar estas igrejas, por ele visitadas em sua</p><p>viagem para Roma, para as heresias que ameaçavam a paz e a unidade destas igrejas.</p><p>Ele se opõe às tendências gnósticas e docéticas. Os docetistas procuravam fazer de</p><p>Cristo um ser puramente espiritual, livre de qualquer contaminação de um corpo</p><p>material. Isto os levava a negar a realidade do corpo material de Cristo e a afirmar que</p><p>foi apenas um fantasma que sofreu na Cruz (Epístola a Esmirna, capitulo 1). Inácio</p><p>insiste na revelação de Cristo na carne como um antídoto a essa falsa doutrina</p><p>(Capítulo 1 e Epistola aos Trálios. 9:10).</p><p>O antigo Pai da Igreja dá ainda muita ênfase à obediência ao bispo como forma</p><p>de manter a unidade e evitar o avanço da heresia. Há evidências precisas nestas</p><p>cartas de que, por esta época, em cada igreja um dos presbíteros tinha se tornado um</p><p>bispo monárquico</p><p>ao qual os outros presbíteros deviam obedecer.1 Inácio compara a</p><p>obediência dos presbíteros ao bispo com as cordas de uma harpa (Ef. 4:1) e exorta</p><p>todos os cristãos a obedecerem o bispo monárquico e aos presbíteros (20:2). Ele é o</p><p>primeiro a contrastar o oficio do bispo ao do presbítero e a subordinar os presbíteros</p><p>ou anciãos ao bispo monárquico e os membros da igreja a ambos. A hierarquia de</p><p>autoridade na Igreja é, segundo ele, bispo, presbítero e diácono. Inácio, entretanto,</p><p>não exalta o bispo de Roma como superior aos outros bispos. A única superioridade é</p><p>a do bispo sobre os !presbíteros, dentro de cada igreja. Inácio cria que sem essa ordem</p><p>tripla não havería a Igreja ( Trálios 3).</p><p>C. Policarpo (c. 70-155)</p><p>Policarpo, autor de uma carta aos filipenses que relembra a carta de Paulo a esta</p><p>igreja, pôde conhecer de perto a mente dos discípulos por ter sido discípulo de João.</p><p>Bispo de Esmirna durante muitos anos, foi martirizado em 155, tendo sido apunhala-</p><p>do até à morte e depois queimado numa estaca. Durante seu julgamento diante do</p><p>proconsul romano, ele se negou a falar mal do Cristo a quem tinha servido por 86</p><p>anos e que só lhe fizera bem.2</p><p>Policarpo escreveu em 110 sua carta, em resposta aos filipenses. Nela, não</p><p>mostra.preocupações de originalidade, fazendo antes muitas citações diretas e indire-</p><p>tas do Velho e do Novo Testamento repetindo ainda muitas informações recebidas</p><p>dos apóstolos, especialmente de João. Por isto, ele é uma testemunha valiosa da vida</p><p>e da obra da Igreja primitiva no segundo século. Ele exorta os filipenses a uma vida</p><p>virtuosa, às boas obras e à firmeza mesmo ao preço de morte, se necessária, uma vez</p><p>que tinham sido salvos pela fé em Cristo. As 60 citações do Novo Testamento, das</p><p>quais 34 dos escritos de Paulo, evidenciam seu profundo conhecimento da Epístola</p><p>de Paulo aos Filipenses e outras epístolas, bem como de outros livros do Novo</p><p>Testamento. Ao contrário de Inácio, Policarpo não estava interessado em administra-</p><p>ção eclesiástica mas antes em fortalecera vida diária prática dos cristãos.</p><p>O S L IV R O S E O S P E R G A M IN H O S B I</p><p>D. A Epístola de Barnabé</p><p>Esta carta é geralmente conhecida como Pseudo-Barnabé, por ter sido escrita</p><p>por outro que não o Barnabé do Novo Testamento. Há evidências internas para isto,</p><p>embora muitos Pais da Igreja o tenham identificado como o Barnabé do Novo</p><p>Testamento. Crê-se que a carta foi escrita depois de 130 por um cristão de Alexandria.</p><p>A carta pretendia ajudar os convertidos do paganismo, aos quais alguns-cristãos-</p><p>judeus estavam tentando persuadir de que a lei de Moisés deveria ser observada, uma</p><p>vez que, segundo eles, ela permanecia. O autor fala deste objetivo nos primeiros 17</p><p>capítulos, quando mostra que a vida e a morte de Cristo são completamente satisfató-</p><p>rias para a salvação e que os cristãos não eram obrigados a seguir a lei. A Aliança</p><p>Mosaica se encerrara com a.morte de Cristo. Os últimos quatro capítulos apresentam</p><p>o contraste entre os dois caminhos de vida: “O Caminho da Luz” e o “Caminho das</p><p>Trevas”. O leitor é concitado a seguir o primeiro caminho da vida. Estes dois cami-</p><p>nhos relembram os dois caminhos do Didaquê, dos quais, possivelmente, são depen-</p><p>dentes.</p><p>O autor destas cartas acaba por transformar a tipologia do Velho Testamento</p><p>(119 citações) em alegoria.'5Ele alegoriza os 318 servos de Abraão (9:8), ao se referir a</p><p>morte de Cristo na cruz na base de que a letra grega para 300 tem a forma de cruz e</p><p>que os numerais gregos para 18 são as duas primeiras letras do nome de Jesus. Ele se</p><p>mostra orgulhoso desta singular interpretação (9:9) de Gênesis 14:14. Ele vai constan-</p><p>temente da tipologia legítima para a alegoria, a fim de fundamentar o significado que</p><p>quer dar aos textos do Velho Testamento. Este costume, recebido de Filo de Alexan-</p><p>dria que procurara com ele reconciliar a filosofia grega com o Velho Testamento,</p><p>acabou se desenvolvendo mais tarde com Origenes num organizado método de</p><p>interpretação. Este método tem feito muito mau à interpretação correta da Bíblia.</p><p>E. A Epístola a Diogneto</p><p>O tutor de Marco Aurélio, cujo nome era Diogneto, pode ser o homem a quem</p><p>esta carta foi escrita por algum escritor anônimo do final do século II ou começo do</p><p>terceiro. A epístola é mencionada entre os escritos dos Pais Apostólicos apenas por</p><p>hábito; sua natureza é apologética e deveria ser considerada mais como parte da</p><p>literatura apologética.</p><p>O escritor apresenta uma defesa racional do Cristianismo ao demonstrar a</p><p>loucura da idolatria (capítulos 1-2), a inadequação do judaísmo (3-4), e a superiorida-</p><p>de do cristianismo por suas crenças, seus resultados e benefícios que oferece ao</p><p>convertido (5-12). Ele compara o papel dos cristãos no mundo ao papel da alma no</p><p>corpo numa série interessante de comparações (6).</p><p>F. Segunda Epístola de Clemente aos Coríntios</p><p>Embora não seja uma carta mas um sermão ou homília (19:1) e!não tenha sido</p><p>escrita por Clemente, esta obra é geralmente tratada entre os escritos dos Pais</p><p>Apostólicos. Foi escrita por volta de 150.</p><p>O autor está interessado numa interpretação sólida de Cristo, na crença «na</p><p>ressurreição do corpo e na pureza da vida por parte do cristão. Depois de afirmar</p><p>preliminarmente a utilidade da salvação (capítulos 1-4), ele exorta o cristão a superar</p><p>0 conflito contra o mundo (5-7) pela prática de virtudes cristãs (8-17) e pela operação</p><p>da salvação que se faz sua através de Cristo (18-20). A carta é uma interessante</p><p>ilustração do conteúdo da pregação no segundo século.</p><p>6 2 0 A V A N Ç O 0 0 C R IS T IA N IS M O l N O 'IM P É R IO A T É 1 0 0</p><p>G. Papias</p><p>As Interpretações dos Ditos do Senhor foram escritas nos meados do segundo</p><p>século por Papias, bispo de Hierápolis, na Frigia, para recordar as informações que</p><p>recebera dos primeiros cristãos que conheceram os apóstolos, é possível que Papias</p><p>tenha sido discípulo de João. O documento trata da vida e das palavras de Cristo.</p><p>Embora desaparecidos, alguns fragmentos podem ser lidos nos escritos de Eusébio e</p><p>Irineu. O fragmento preservado nos escritos de Irineu4 evidencia claramente as idéias</p><p>milenaristas de Papias. A seção preservada por Eusébio5 lança luzes sobre a origem</p><p>dos Evangelhos. Ele afirma que Marcos foi o intérprete de Pedro e que Mateus</p><p>escreveu sua obra em hebraico. A existência apenas de breves excertos entristece o</p><p>estudante que compreende o significado que esta obra!completa teria para a fé, a vida</p><p>e a literatura do׳ iNovo Testamento.</p><p>II. LITERATURA APOCALÍPTICA</p><p>O Pastor de Hermas, concebido a partir do Livro de Apocalipse, foi escrito</p><p>possivelmente em 150 por Hermas, considerado pelo autor de Cânon! Muratoriano</p><p>como i rmão de Pio,! o bispo de Roma. entre 150 e 155.6 O ■uso que o autor faz de visões e</p><p>de alegorias aponta para a obra de João Bunyan, mas. infelizmente, Hermas mão</p><p>possuía a mesma capacidade do escritor puritano.</p><p>Embora a obra tenha sido escrita no estilo de um apocalipse rico em símbolos e</p><p>visões, seu objetivo é moral e prático. O autor fora escravo de Roda. uma senhora</p><p>cristã de Roma. Ela o libertara e ele se tornara um ricoinegociante. No decorrer de sua</p><p>vida, ele negligenciara sua própria família, que conseqüentemente enveredou-se pelo</p><p>caminho do pecado. Ele e sua esposa se arrependeram e confessaram sua fé; seus</p><p>filhos, porém, rebelaram-se contra a fé. Ele perdeu, então, todas as suas proprieda-</p><p>des. Como decorrência desta experiência, surgiu sua obra, escrita para chamar os</p><p>pecadores ao arrependimento. O arrependimento e a vida santa são a chave do livro</p><p>(Mandato 4, Capítulo 2). As mensagens do livro são dadas a Hermas por uma mulher</p><p>e um anjo. A primeira seção consiste de cinco visões que enfatizam em símbolos a</p><p>necessidade do !arrependimento. Seguem-se 12 mandatos ou mandamentos que</p><p>descrevem o código de ética que o arrependido deve seguir para alcançar o favor de</p><p>Deus. A seção final é composta de dez comparações ou parábolas em que o assunto</p><p>central é o significado do arrependimento</p><p>333</p><p>338</p><p>357</p><p>379</p><p>390</p><p>397</p><p>REAVIVAMENTOS, MISSÕES E MODERNISMO, 1789 - 1914</p><p>35. As Vitórias e as Vicissitudes do Catolicismo Romano</p><p>36. O Catolicismo Romano na América Latina do Século X IX</p><p>37. A Implantação do Protestantismo na América Latina</p><p>38. Religião e Reforma na Gra-Bretanha e Europa</p><p>39. Os Inimigos da Fé</p><p>40. A Igreja Americana no Período Nacional</p><p>A IGREJA E A SOCIEDADE EM TENSÃO DESDE 1914</p><p>41. A Igreja e a Ordem Social 409</p><p>42. Mudanças na Teologia e nas Estruturas 4 1g</p><p>43. O Cristianismo>na América Latina do Século XX 445</p><p>Conclusão: Problemas e Perspectivas 46Q</p><p>473</p><p>480</p><p>Bibliografia Básica</p><p>Notas</p><p>GRÁFICOS E D IA G R A M A S</p><p>Cronologia!da História da ■Igreja 24-25</p><p>Os Pais da Igreja 58</p><p>Problemas da Igreja, 100-313 71</p><p>Em Defesa da Fé 88</p><p>Principais Questões Teológicas Até 451 106</p><p>Ruptura do Império Romano 138</p><p>Duas EvangelizaçÕes das Ilhas Britânicas 143</p><p>Reinos Medievais 147</p><p>A Igreja Medieval, 1054-1305 170</p><p>As Cruzadas 179</p><p>Tendências do Escolasticismo 198</p><p>Declínio Católico-Romano 205</p><p>Do Novo Testamento a Igreja Católica Romana 208</p><p>O Nascimento da Era Moderna 228</p><p>A Reforma Radical, 1525-2580 247</p><p>A Evolução do Protestantismo Inglês 272</p><p>Ramificações dos Puritanos 275</p><p>O Catolicismo Romano, 1545-1563 281</p><p>Os Elementos de uma Fé Protestante 290</p><p>A Herança'da Reforma nos EUA 308</p><p>Reações à Ortodoxia״Protestante 321</p><p>O Movimento■ Ecumênico 437</p><p>O Desenvolvimento Ecumênico Global 441</p><p>MAPAS</p><p>50</p><p>102</p><p>140</p><p>142</p><p>149</p><p>159</p><p>166</p><p>200</p><p>289</p><p>295</p><p>Viagens Missionárias de Paulo e sua Viagem a Roma</p><p>As Invasões Bárbaras e os Estados Germânicos em 526 d.C.</p><p>A Expansão Muçulmana. 622-900</p><p>A Expansão do Cristianismo até 1054</p><p>Império de Carlos Magno</p><p>O Império de Oto, o Grande, 962-73</p><p>O Cisma de 1054</p><p>O Grande Cisma e o Cativeiro Babilônico do Papado</p><p>A Religião na Europa por volta de 1648</p><p>Impérios Pré-Espanhóis</p><p>ILUSTRAÇÕ ES</p><p>38</p><p>39</p><p>39</p><p>68</p><p>75</p><p>97</p><p>Π 6</p><p>117</p><p>124</p><p>124</p><p>135</p><p>151</p><p>173</p><p>192</p><p>197</p><p>215. 216</p><p>230</p><p>233</p><p>235</p><p>236</p><p>32Mitra Sacrificando um Touro</p><p>Historical Pictures Service, Inc., Chicago</p><p>Moeda Exibindo a 'Imagem de Tibério Cesar</p><p>Historical Pictures Service, Inc., Chicago</p><p>Desenhos de Catacumba — Pães e Peixes</p><p>Pontifica Commisione D i Archeologia Sacra, Roma</p><p>Desenhos ·de Catacumba — 0 Bom Pastor</p><p>Pontifica Commisione D i Archeologia Sacra, Roma</p><p>Desenhos de Catacumba — Batismo de um Convertido</p><p>Pontifica Commisione D i Archeologia'Sacra. Roma</p><p>Libellus do Reinado de Décio</p><p>Yale University, The Beinecke Rare Book and Manuscript Library</p><p>Casa-lgreja em Dura-Europos</p><p>Yale University A rt Gallery, Dura-Europos Collection</p><p>Jeronimo Com Seus Livros e Com Seu Assistente Marcela</p><p>Historical Pictures Service, Inc., Chicago</p><p>Mosaico de Ambrósio</p><p>Historical Pictures Service, Inc., Chicago</p><p>Macário Fazendo Penitência</p><p>Historical Pictures Service. Inc., Chicago</p><p>Monge Resistindo à Tentação</p><p>Historical Pictures Service, Inc.. Chicago</p><p>Gregório. o Grande Com Uma Pomba</p><p>Historical Pictures Service, Inc., Chicago</p><p>Mosaico de Pedro com 0 Papa Leão I l l e Carlos Magno</p><p>Historical Pictures Service, Inc., Chicago</p><p>Controvérsia Entre Henrique IV e Gregório V II</p><p>Historica! Pictures Service. Inc., Chicago</p><p>Tomás de Aquino</p><p>Alinari Fratelli, Sta. Caterina, Pisa</p><p>Catedral de Notre Dame</p><p>Historical Pictures Service. Inc., Chicago</p><p>Xilografias de O Elogio da Loucura</p><p>Kunstmuseum Basel. Kupferstichkabmett</p><p>Tetzel Vendendo Indulgências</p><p>Historical Pictures Service, Inc.. Chicago</p><p>Retrato de Martinho Lutero</p><p>Historical Pictures Service. Inc.. Chicago</p><p>Martinho Lutero na Catedral de Wittenberg</p><p>The Granger Collection</p><p>0 Diabo e Martinho Lutero</p><p>The Bettmann Archive</p><p>237</p><p>249</p><p>249</p><p>249</p><p>252</p><p>258</p><p>261</p><p>268</p><p>271</p><p>271</p><p>276</p><p>278</p><p>285</p><p>310</p><p>311</p><p>313</p><p>317</p><p>326</p><p>329</p><p>384</p><p>400</p><p>403</p><p>444</p><p>Mertinho Lutaro Com Sete Cabeçes</p><p>Historical Pictures Service, Inc., Chicago</p><p>Execução de Anabatistas — Jogados do Penhasco</p><p>Culver Pictures, Inc.</p><p>Execução de Anabatistas — Afogamento</p><p>The Granger Collections</p><p>Execução de Anabatistas — Enforcamento</p><p>Culver Pictures, Inc.</p><p>Desenho de João Calvino Feito Por Um Estudante</p><p>New York Public Library</p><p>O Massacre do Dia de São Bartolomeu</p><p>The Granger Collection</p><p>Goodman e Knox</p><p>Historical Pictures Service, Inc., Chicago</p><p>A Bula Papal</p><p>Historical Pictures Service, Inc., Chicago</p><p>A Prisão de Thomas Cranmer</p><p>Historical Pictures Service, Inc.. Chicago</p><p>Latimer e Ridley Sacrificados Na Fogueira</p><p>Culver Pictures. Inc.</p><p>Brincando Com a Bíblia</p><p>Historical Pictures Service, Inc.. Chicago</p><p>Caricatura Puritana do Arcebispo Laud</p><p>The Granger Collection</p><p>Página do índice dos Livros Proibidos</p><p>Carta, The Israel Map and Publishing Co., L td., Jerusalem</p><p>Brasão da Sociedade Para a Propagação do Evangelho em Países Estrangeiros</p><p>Uma Página do New England Primer</p><p>Culver Pictures, Inc.</p><p>Roger Williams</p><p>Historical Pictures Service, Inc., Chicago</p><p>Jonathan Edwards</p><p>Historical Pictures Service, Inc., Chicago</p><p>William Penn</p><p>Culver Pictures, Inc.</p><p>João Wesley</p><p>Historical Pictures Service, Inc., Chicago</p><p>Charles Haddon Spurgeon</p><p>Historical Pictures Service, Inc., Chicago</p><p>Dwight L. Moody</p><p>Moodyana Collection, The Library. Moody Bible Institute</p><p>A Ascensão de Um Milerita</p><p>Culver Pictures, Inc.</p><p>Billy Graham</p><p>Billy Graham Evangelistic Association</p><p>IN TR O D U Ç Ã O</p><p>A curiosidade pelo passado é uma das características do homem, desde pessoas</p><p>como o antiquário Nabonido da Caldéia até os arqueólogos e historiadores de hoje.</p><p>Os cristãos nutrem um interesse especial pela história, porque os fundamentos da</p><p>sua fé estão firmados na história. Deus fez-se homem e viveu no tempo e no espaço</p><p>na !pessoa de Cristo. O Cristianismo tem sido a mais global e universal de todas as</p><p>religiões que surgiram no passado no Oriente Próximo e no Oriente Médio. Além</p><p>disso, tem sido cada vez mais influente na história da raça humana. A história da igreja</p><p>é, pois, um assunto de enorme relevância para o cristão que deseja estar informado</p><p>sobre sua herança espiritual, para imitar os bons exemplos do passado, e evitar os</p><p>erros que a igreja freqüentemente tem cometido.</p><p>I. QUE É HISTÓRIA DA IGREJA?</p><p>O substantivo alemão geschichte, uma forma de verbo geschelen, que significa</p><p>acontecer, refere-se à história mais como evento do que como processo ou produto.</p><p>Assim, história pode ser definida, primeiramente, como um acontecimento, um</p><p>evento real, ou seja, que acontece no tempo e espaço como resultado da ação</p><p>humana. Tal acontecimento é absoluto e objetivo e só pode ser conhecido direta e</p><p>plenamente por Deus. Tal história não pode se repetir exatamente mais tarde em</p><p>outro lugar. Paralelos e padrões podem aparecer para o historiador, porque pessoas</p><p>podem se comportar semelhantemente em tempos e locais diferentes e porque elas</p><p>são pessoas que podem ser afetadas pelo bem ou. pelo mal.</p><p>Informação a respeito de um acontecimento é um segundo significado para a</p><p>palavra história. Esta informação sobre o passado, usualmente indireta, pode estar</p><p>em forma de documento ou objeto relacionados ao acontecimento. Diferente do</p><p>cientista que pode estudar seu material objetiva e diretamente, o historiador está</p><p>subjetivamente limitado porque ele é uma parte do que estuda e tem de levar em</p><p>consideração as ações de Deus no tempo e espaço, considerar o papel do homem na</p><p>história como um agente livre, e compreender que seus dados são indiretos. A</p><p>catedral de São Pedro em Roma, as catacumbas, uma bula papal e mosaicos na</p><p>1 3</p><p>1 4 0 C R IS T IA N IS M O A T R A V É S D O S S ÉC U LO S</p><p>Ravena são exemplos de história como informação.</p><p>A palavra história vem da palavra grega historia, que é derivada do verbo grego</p><p>historeo. Esta palavra foi usada pelos gregos da Atica e significava originaríamente,</p><p>aprender pela pesquisa ou investigação. Paulo usou o termo em Gl 1:16 para</p><p>descrever seu encontro com Pedro em Jerusalém. Isto leva a um terceiro significado</p><p>de história, como investigação ou pesquisa para checar e achar dados acerca do</p><p>passado. História é uma ciência distinta com um processo de pesquisa. O historiador</p><p>testa a autenticidade, genuinidade e integridade</p><p>em vida. O autor de O Pastor mostra-se</p><p>muito preocupado com o indivíduo em relação à sociedade cristã, a Igreja.</p><p>III. LITERATURA CATEQUÉTICA</p><p>O pequeno livro, o Didaquê (Ensino dos 12 Apóstolos), ficou conhecido em 1875</p><p>quando !׳um homem chamado Bryennios 0׳ descobriu numa biblioteca eclesiástica de</p><p>Constantinopla. publicando-o em 1883. Este manual de instrução eclesiástica foi</p><p>elaborado possivelmente em meados do segundo século na forma em que chegou</p><p>até nós. Muitos estudiosos, porém, propõem uma data anterior, ao final do primeiro</p><p>século, em! face de suas semelhanças com as práticas do Novo Testamento.</p><p>Mesmo o leitor apressado pode ver claramente definidas as quatroj partes do</p><p>livro. A primeira seção, que em muito se assemelha aos dois caminhos da vida do</p><p>Pseudo-Barnabé, é uma discussão dos Caminhos da׳ Vida e da Morte (capítulos 1-6).</p><p>A ação ética própria da vida cristã é, então, apresentada em contraste com os atos dos</p><p>O S L IV R O S E O S P E R G A M IN H O S 6 3</p><p>que seguem o Caminho da Morte. O autor discute a seguir alguns problemas litúrgi-</p><p>cos como 0 batismo, o jejum e a ceia (7-10). O corpo da terceira seção (11-15) é</p><p>formado de instruções sobre como distinguir os falsos profetas dos verdadeiros, e</p><p>encontrar oficiais dignos, além1 de outros assuntos. Curiosamente o livro pinta 0 falso</p><p>profeta como alguém que procura alimento e acolhida sem retribuir à igreja em</p><p>termos de inspiração espiritual. A necessidade de uma vida decente e coerente diante</p><p>da vinda do Senhor forma o corpo do último capítulo. Esta discussão torna evidente a</p><p>importância do Didaquê como uma ilustração da vida da Igreja primitiva entre 95 e</p><p>150.</p><p>O leitor atento da literatura agora discutida se sentirá gratificado em termos de</p><p>conhecimento e inspiração. S realmente lamentável que estes escritos de edificação</p><p>tenham sido negligenciados !pela Igreja através dos séculos.</p><p>CAPITULO 6</p><p>C O M O S B IS P O S E O S D IÁ C O N O S</p><p>O AVANÇO DO CRISTIANISMO</p><p>NO IMPÉRIO ATÉ 100</p><p>A Igreja existe em dois níveis. Um deles é um organism o eterno, invisível, bíblico,</p><p>que é consolidado em! um corpo pelo Espírito Santo. O outro nível! é o da organização</p><p>temporal, histórica, visível, humana. O primeiro é o fim, o segundo os meios.</p><p>O desenvolvimento da Igreja como uma organização foi iniciado pelos aposto-</p><p>los sob a direção do Espirito Santo. Todo corpo organizado precisa de uma liderança</p><p>e, quanto mais cresce, a divisão de funções e a especialização da liderança aconte-</p><p>cem para que possa funcionar eficientemente. Uma liturgia para conduzir o culto da</p><p>Igreja de modo ordenado (Γ Co. 14:40) é outra conseqüência lógica do crescimento</p><p>da Igreja׳ como organização. O objetivo final da Igreja como um organismo que cultua</p><p>é a conquista da qualidade de vida.</p><p>I. O GOVERNO DA IGREJA</p><p>A origem da administração eclesiástica deve ser creditada a Cristo, ao escolher</p><p>os 12 apóstolos que seriam os líderes da Igreja nascente. Os apóstolos tomaram a</p><p>iniciativa no desenvolvimento de outros ofícios na Igreja quando dirigidos pelo</p><p>Espírito Santo. Isto não implica numa hierarquia piramidal, como a desenvolvida pela</p><p>Igreja Católica Romana, porque os novos oficiais deviam ser escolhidos pelo povo,</p><p>ordenados pelos apóstolos e precisavam ter qualificações espirituais próprias que</p><p>envolviam a subordinação ao Espírito Santo. Assim, havia uma chamada interna pelo</p><p>Espírito Santo para o oficio, uma chamada externa pelo voto democrático da igreja e a</p><p>ordenação ao ofício pelos apóstolos. Não deveria haver uma classe especial de</p><p>sacerdotes à parte para ministrar o sistema sacerdotal da salvação, porque tanto os</p><p>oficiais da Igreja como os membros eram sacerdotes com o direito de acesso direto a</p><p>Deus através de Cristo (Ef. 2:18).</p><p>Estes oficiais podem ser divididos em duas׳classes. Os o fic ia is ca rism á ticos</p><p>(charisma em grego significa dom) foram escolhidos por Cristo e revestidos com</p><p>dons espirituais próprios (Ef. 4: 1 1 1 2 I Co. 1 ;־ 2 1 4 suas funções eram basicamente ;(־</p><p>inspirativas. Os oficia is adm inistrativos constituíam a segunda classe. Suas funções</p><p>eram principalmente administrativas, embora após a morte dos apóstolos, os presbí-</p><p>6 4</p><p>C O M O S B IS P O S E O S O IÁ C O N O S 6 5</p><p>teros tenham assumido muitas responsabilidades,espirituais. Estes oficiais eram</p><p>escolhidos !pela congregação depois de orarem pedindo a orientação do Espírito</p><p>Santo e depois da indicação pelos apóstolos.</p><p>A. Oficiais Carismáticos</p><p>Estes homens, cujas responsabilidades principais eram a preservação da verda-</p><p>de do Evangelho e sua proclamação inicial, foram selecionados especialmente por</p><p>Cristo através do Espírito Santo para exercer a liderança da Igreja. Houve quatro ou</p><p>cinco destes ofícios designados por Paulo: apóstolos, profetas, evangelistas, pasto-</p><p>res e/ou mestres. Muitos pensam que pastor e mestre sejam designações para a</p><p>mesma pessoa.</p><p>Os apóstolos eram homens que tinham sido testemunhas da vida, morte e</p><p>principalmente da ressurreição de Cristo (At. 1:22: cf. I Co. 1:1; 15:8), e que tinham</p><p>sido chamados pessoalmente por Cristo. Paulo baseou seu apostolado numa chama-</p><p>da direta do Cristo vivo. Estes homens, que foram os primeiros oficiais da Igreja</p><p>primitiva, combinaram em seu ministério todas as funções posteriormente exercidas</p><p>por vários oficiais quando os apóstolos se tornaram incapazes de cuidar das necessi-</p><p>dades da Igreja primitiva em rápida expansão.</p><p>Pedro é a figura principal entre os apóstolos nos primeiros 12 capítulos do relato</p><p>lucano da história da Igreja primitiva. Ele não só fez a primeira proclamação oficial</p><p>aos judeus em Jerusalém no dia de Pentecostes como também foi o primeiro a</p><p>introduzir o Evangelho entre os gentios com sua pregação na casa de Cornélio.</p><p>Mesmo em sua liderança não se pode ver nos relatos de suas atividades no Novo</p><p>Testamento nada do conceito hierárquico e autoritário que aparecería na Igreja</p><p>Católica Romana medieval. Uma tradição que vem desde a Igreja primitiva fixa Roma</p><p>como o lugar da morte de !Pedro. Outra interessante tradição relata a fuga de Pedro da</p><p>prisão em Roma e sua saída da cidade. Ao se encontrar com Cristo, Pedro Lhe</p><p>pergunta aonde vai. Cristo responde que está indo para Roma a fim de ser crucificado</p><p>novamente. Cheio de !remorso, Pedro volta correndo para a cidade, onde é crucifica-</p><p>do a seu próprio pedido, segundo a tradição, de cabeça para baixo porque ele não se</p><p>sentiu digno de morrer do mesmo modo que morrera o seu Senhor.</p><p>Tiago, o filho de Zebedeu, estava presente na transfiguração e no Getsêmani. Foi</p><p>o primeiro dos 12 a ser,martirizado, decapitado que foi por Herodes Agripa I em44. Os</p><p>espanhóis o consideram como seu padroeiro.</p><p>Tiago, o irmão de Cristo (Gl 1:19), tornou-se logo, com Pedro o líder da Igreja em</p><p>Jerusalém. Sua proeminència na Igreja é evidente por sua posição de liderança no</p><p>Concilio de Jerusalém. Embora mais próximo do legalismo do que a ■maioria dos</p><p>líderes da primitiva igreja de Jerusalém, ele exerceu um papel de mediador entre</p><p>cristãos judeus e gentios no Concilio. Ele almejava tanto a santidade e uma vida fiel de</p><p>oração que, segundo a tradição, seus joelhos ficaram calejados como os de um</p><p>camelo de tanto se ajoelhar. Em seu martírio, foi morto a pauladas depois de ser</p><p>jogado do pináculo do templo. Enquanto isto ele proferia palavras de perdão seme-</p><p>lhantes às usadas por Estêvão.1 Tiago não foi um dos 12.</p><p>João é mencionado junto com Pedro como um líder da Igreja primitiva. A</p><p>tradição relaciona suas últimas atividades com a cidade de Éfeso. Ele foi confinado</p><p>por Domiciano na ilha de Patmos, uma solitária e infrutífera ilha pedregosa, distante</p><p>da costa ocidental da Ásia Menor. Ai escreveu o livro de Apocalipse. Após a morte de</p><p>Domiciano, recebeu permissão para voltar a Éfeso, onde morou, pastoreando as</p><p>6 6 0 A V A N Ç O D O C R IS T IA N IS M O N O IM P É R IO A T É 1 0 0</p><p>Igrejas da Ásia até morrer em avançada idade.2 Seu Evangelho, suas três epístolas e</p><p>Apocalipse integram ricamente</p><p>a herança literária da Igreja do Novo Testamento.</p><p>André, irmào de Pedro, pregou em regiões do Oriente Antigo. Segundo tradição</p><p>posterior, foi crucificado numa cruz em forma de X que tomou 0 seu nome.</p><p>Pouco se sabe da vida de Filipe, que muito possivelmente morreu de morte</p><p>natural em Hierápolis após a destruição de Jerusalém. Nada se sabe das últimas</p><p>atividades e da morte de Tiago o Menor, filho de Alfeu. A tradição sobre Judas Tadeu</p><p>fala de suas atividades na Pérsia, onde teria sido martirizado. Matias, que substituiu</p><p>Judas, pregou na Etiópia e aí conheceu o martírio, de acordo com o relato. Simão o</p><p>zelote também foi martirizado. A tradição não é clara acerca da forma do martírio de</p><p>Bartolomeu, mas seu nome e associado à proclamação do Evangelho na índia, por</p><p>uma tradição. Mateus talvez tenha trabalhado na Etiópia também. O nome do mais</p><p>cético dos discípulos, Tomé, é ligado ao trabalho em Parto, mas outros relatos</p><p>colocam seu trabalho e martírio na índia. O silêncio do׳Novo Testamento e mesmo da</p><p>tradição sobre estes homens3 marca um notável contraste com a tendência medieval</p><p>de glorificar a morte dos homens mais notáveis da Igreja.</p><p>Os profetas pareciam estar entre os líderes mais influentes da Igreja do Novo</p><p>Testamento. Eles exerceram a função de proclamar ou pregar o Evangelho (At. 13:1,</p><p>15:32) bem como de antecipar ou predizer o futuro. A Ágabo é creditado ter predito</p><p>com sucesso uma fome próxima e a prisão de Paulo pelos judeus (At. 11:28; 21:10-</p><p>14). Evidentemente a Igreja׳ primitiva teve que enfrentar muitos que pretendiam</p><p>falsamente se passar por profetas, pelo que o Didaquê dá uma instrução precisa</p><p>sobre como distinguir o falso profeta de um genuíno (10:7; 11:712־).</p><p>Filipe exerceu o dom do evangelismo (At. 21:8), mas pouco se sabe de seu</p><p>trabalho e suas funções específicas. Talvez tenha se dedicado ao trabalho do missio-</p><p>nário itinerante cuja principal tarefa era proclamar o Evangelho em áreas novas ainda</p><p>não atingidas.</p><p>Há ainda o problema sobre se os ofícios distintos de pastor e mestre eram</p><p>exercidos por duas pessoas ou se eram apenas designações para duas funções que um</p><p>só homem, especialmente designado por Deus. exercia. O ·Novo Testamento é menos</p><p>obscuro sobre a prova de um mestre genuíno. Ninguém que negasse a vinda</p><p>pessoal de Cristo ao mundo como homem em carne humana poderia ser um mestre</p><p>autêntico, segundo João (II Jo. 7-11). O caráter de um verdadeiro mestre é descrito</p><p>no Didaquê (11: 1-2).</p><p>B. Oficiais Administrativos</p><p>Todos os oficiais de que tratamos eram especialmente indicados para seus car-</p><p>gos por Deus e não pelos homens. Havia outra classe de oficiais que eram democrati-</p><p>camente escolhidos ”com o consenso de toda igreja”. Sua tarefa era executar as</p><p>funções administrativas dentro da igreja local. Diferentemente dos apóstolos e dos</p><p>outros líderes carismáticos, estes homens, e, em alguns casos, mulheres, operavam e</p><p>exerciam sua autoridade na igreja ou congregação local e não na Igreja de Cristo</p><p>como um todo. Estes oficiais surgiram com a divisão de funções e a especialização</p><p>necessárias para ajudar os sobrecarregados apóstolos diante dos problemas de uma</p><p>Igreja em crescimento. Talvez, 0 exemplo de sinagoga com seus anciãos a presidirem</p><p>os negócios locais, tenha sido um fator na criação destes ofícios.</p><p>O ofício do ancião ou presbítero era o mais elevado na congregação local.</p><p>Aqueles que defendem a existência de uma organização tríplice na Igreja entendem</p><p>C O M O S B IS P O S E O S D IÁ C O N O S 6 7</p><p>que os termos ancião (presbuteros) e bispo (episkopos) não são sinônimos mas</p><p>representam os ofícios separados de bispo e,presbítero. O Novo Testamento éclaro</p><p>ao relacionar estes dois termos a um mesmo ofício (At. 20:17, 28; Fp. 1:1, Tt. 1:5.7). O</p><p>fortalecimento do ofício do bispo monárquico só aconteceu depois do fim da era</p><p>apostólica no segundo século.</p><p>As qualificações de um presbítero são detalhadamente esboçadas pelo menos</p><p>auas vezes no Novo Testamento. (I Tm 3:1-7; Tt. 1:59־). Os presbíteros deviam ser</p><p>omens de boa reputação entre os membros da igreja e para os de fora. A direção do־־.</p><p>Culto público parece ter sido uma de suas principais funções (I Tm. 5:17; Tt. 1:9) bem</p><p>como a responsabilidade pela boa administração e pela disciplina segura da Igreja.</p><p>Os diáconos tinham uma posição de subordinação aos anciãos, mas aqueles que</p><p>exerciam tal função precisavam das mesmas qualidades exigidas dos presbíteros</p><p>,At. 6:3; I Tm. 3:8-13). A prática de eleição democrática era também uma recomenda-</p><p>çáo dos apóstolos em Jerusalém (At. 6:3,5). A ministração da caridade pela Igreja era</p><p>a principal tarefa dos diáconos. Mais tarde, eles ajudaram os presbíteros na distribui-</p><p>ção dos elementos da Ceia à congregação.</p><p>As mulheres parecem ter sido admitidas a este ofício nos tempos apostólicos,</p><p>pois Paulo menciona a diaconisa com aprovação (Rm 16:1). As filhas de Filipe, o</p><p>evangelista, também exerceram funções proféticas (At. 21:9), mas Paulo foi claro em</p><p>sua afirmativa de que as mulheres não deveríam ensinar na Igreja (I Tm. 2:12; I Co.</p><p>14:34).</p><p>O surgimento de um conjunto de oficiais para a congregação e a definição de</p><p>suas qualificações e tarefas foram completados ao final do primeiro século. Com a</p><p>salvação pela fé em Cristo como seu Evangelho, uma literatura emergente produzida</p><p>pelos apóstolos e uma forma de organização para satisfazer suas necessidades, o</p><p>cristianismo cresceu rapidamente ao final do primeiro século e no começo-do segun-</p><p>do.</p><p>II. O CULTO DA IGREJA PRIMITIVA</p><p>A questão de uma forma segura de culto parece ter sido uma preocupação ao</p><p>tempo dos apóstolos. Paulo exortara a igreja em Cristo a conduzir sua adoração de</p><p>uma forma decente e ordeira, (I Co. 14:40). Cristo afirmou a essência do verdadeiro</p><p>culto quando disse que, como Deus era um espírito, o verdadeiro culto estava no</p><p>domínio do espírito (Jo. 4:24). Realmente, o culto é o limite máximo do espírito</p><p>humano através de exercícios religiosos que levam a alma à presença de Deus.</p><p>Os cristãos primitivos não concebiam a igreja como um lugar de culto como se</p><p>faz hoje. Igreja significava um corpo de pessoas numa relação pessoal com Cristo.</p><p>Para tanto, os cristãos se reuniam em casas (At. 12:12; Rm. 16:5,23; Cl. 4:15; Fm. 1-4),</p><p>no templo (At. 5:12), nos auditórios públicos de escolas (At. 19:9) e nas sinagogas até</p><p>quando foram permitidos (At. 14:1,3; 17:1; 18:4). O lugar não era tão importante como o</p><p>propósito de encontro para comunhão uns com os outros e para culto a Deus.</p><p>No primeiro século, dois cultos eram realizados no primeiro dia da semana,</p><p>adotado como o dia de culto por ter sido o dia em que Cristo ressuscitou dentre os</p><p>mortos (At. 20:7; I Co. 16:2; Ap. 1:10). O culto da manhã certamente incluía a leitura da</p><p>Bíblia (Cl. 3:16), a exortação pelo presbítero principal, orações e cânticos (Ef. 5:19). A</p><p>festa do amor (I Co. 11:20-22) ou agape precedia a Ceia no culto da noite. Ao final do</p><p>primeiro século, a festa do amor tinha praticamente desaparecido, sendo a Ceia</p><p>6 6 0 A V A N Ç O D O C R IS T IA N IS M O N O IM P É R IO A TÉ ) 0 0</p><p>celebrada סח culto da manhã. Plínio descreveu os cristãos, para Trajano, como</p><p>aqueles que se encontravam ao romper do dia, cantavam hinos e prometiam viver</p><p>corretamente5</p><p>Informações sobre a ordem do culto em meados do segundo século são mais</p><p>amplas e podem ser encontradas na Primeira Apologia de Justino Mártir e no</p><p>Didaquê .6 O culto, que acontecia no "dia do sol", começava com, a leitura das</p><p>"memórias dos apóstolos” ou dos "escritos dos profetas" até quando "o tempo</p><p>permitisse". Uma exortação ou homília, baseada na leitura, era então feita pelo</p><p>presidente. A congregação ficava de pé para a oração. A celebração da Ceia do</p><p>Senhor seguia o beijo da paz. Os elementos do pão e da "água e vinho" eram</p><p>dedicados por ação de graças e oração, às quais o povo respondia com “amém". Os</p><p>diáconos distribuíam então os elementos para os presentes; depois do culto, eles se</p><p>dirigiam para as casas daqueles</p><p>que não puderam estar presentes à reunião. Por fim,</p><p>tirava-se uma coleta para ajudar às viúvas e aos órfãos, aos doentes, aos prisioneiros</p><p>e aos estrangeiros, A reunião então se encerrava e todos voltavam para suas casas.</p><p>A Ceia do Senhor e o batismo eram os dois sacramentos da Igreja primitiva,</p><p>usados por terem sido instituídos por Cristo. A imersão parece ter sido amplamente</p><p>praticada no !primeiro século, mas de acordo com o Didaquê, o'batismo podia ser</p><p>administrado com água na cabeça do batizando, se nenhuma corrente ou uma</p><p>grande quantidade de água não estivessem à disposição.7 Somente os batizados</p><p>participavam da Ceia.</p><p>Da catacumba de Calixto uma representação do</p><p>batismo de um convertido</p><p>III. A VIDA DA IGREJA</p><p>A Igreja primitiva não tinha uma organização de benemerência para ajudar aos</p><p>pobres e doentes. Cada igreja tomava sobre si esta responsabilidade. O dinheiro</p><p>coletado, daqueles que podiam dar, na oferta que seguia à celebração da Ceia era</p><p>dedicado׳ para a satisfação destas necessidades. Paulo também mencionou a prática</p><p>de coleta de doações dos crentes todos os domingos (I Co. 16:12־). Os diáconos</p><p>deveríam então cuidar daqueles que passavam por necessidades. As mulheres das</p><p>igrejas também ajudavam esta obra de caridade ao fazer roupas para aqueles que</p><p>necessitassem (At. 9:3641־).</p><p>C O M OS BISPOS E O S OlAcONOS 6 9</p><p>A Igreja não acusou a instituição de escravidão diretamente; possuir escravos</p><p>também׳ não era proibido aos cristãos. O cristianismo, porém, minou aos poucos a</p><p>instituição da escravidão ao recordar ao senhor e escravo cristãos que eles eram</p><p>irmãos em Cristo. A diplomática carta de Paulo a Filemom. o líder da igreja em</p><p>Colossos, dá a impressão de que Filemom como cristão sincero não poderia deixar</p><p>de outorgar a Onésimo a sua liberdade.</p><p>A Igreja primitiva insistia na separação das práticas pagãs da sociedade romana,</p><p>mas não insistia na separação dos vizinhos pagãos em relações sociais que não</p><p>fossem prejudiciais. Realmente, Paulo permitiu por inferência o convívio social que</p><p>não comprometesse ou sacrificasse os princípios cristãos (I Co. 10:2033־). Ele mes-</p><p>mo exortou, porém, à separação total de qualquer prática que pudesse estar relacio-</p><p>nada à idolatria ou à imoralidade pagã. O cristão devia seguir os princípios de não</p><p>fazer nada que prejudicasse o corpo do qual Cristoera Senhor (I Co. 6:12). nada fazer</p><p>que prejudicasse os outros ou enfraquecesse os cristãos (I Co. 8:13; 10:24), evitar</p><p>tudo que não glorificasse a Deus (I Co. 6:20; 10:31). Estes princípios proibiam a</p><p>freqüência a teatros, estádios, jogos ou templos pagãos.</p><p>Apesar desta atitude de separação moral e espiritual, os cristãos estavam prontos</p><p>para, como o próprio Paulo exortou, cumprir suas obrigações cívicas de obediência e</p><p>de׳!respeito às autoridades constituídas, pagamento de taxas e de oração pelas</p><p>autoridades (Rm. 13:7, I Tm. 2:1-2). Eles eram excelentes cidadãos, desde que não</p><p>fossem instados a violar os preceitos de Deus, a maior autoridade a׳ quem deviam</p><p>obediência absoluta.</p><p>A pureza de vida, o amor e a coragem da Igreja primitiva em permanecer fiel, e</p><p>morrer se necessário, exerceram um forte impacto sobre a׳sociedade pagã da Roma</p><p>imperial, o que durou três séculos, desde a morte de Cristo até o reconhecimento</p><p>oficiali por Constantino da importância do Cristianismo para o Estado, chegando ele</p><p>mesmo a convocar e presidir o Concilio de Nicéia.</p><p>A LUTA DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA</p><p>IMPERIAL PARA SOBREVIVER</p><p>CAPÍTULO 7</p><p>C R IS T O O U C É S A R</p><p>O cristianismo tem sempre enfrentado problemas internos e externos em todos</p><p>os períodos de sua história. A Igreja teve que enfrentar o sério problema in terno da</p><p>heresia e resolvê-lo, entre 100 e 313, além de ter, ao mesmo tempo, que resolvero</p><p>problema externo da perseguição movida pelo estado romano.</p><p>Cristãos no 'Im pério Romano, Nestorianos na־ China nos séculos IX e X, e</p><p>católico-romanos no Japão no século XVII, bem, como cristãos nos estados nazista e</p><p>comunistas, têm tido a experiência comum de hostilidade estatal até ao ponto do</p><p>martírio. Os cristãos também! têm enfrentado ataques de pagãos intelectuais, como</p><p>Lúcio, Fronto e Celso.</p><p>Muitos têm a idéia confusa acerca do número, duração, escopo e intensidade das</p><p>perseguições que a· Igreja sofreu. Antes de 250, a perseguição foi predominantemen-</p><p>te local, esporádica e geralmente mais um produto da ação popular do que resultado</p><p>de uma política definida. Após esta data, porém, a perseguição se tornou, às vezes,</p><p>uma estratégia consciente do governo imperial romano e, por isso, ampla e violenta, E</p><p>neste tempo, a idéia de Tertuliano de que 0 sangue dos mártires é a semente da lgreja</p><p>se transformou!׳ numa terrível realidade para muitos cristãos. A igreja continuou a se</p><p>desenvolver por isso ou talvez parcialmente por isso, até o período em que conseguiu</p><p>a liberdade de culto no governo de Constantino.</p><p>I. CAUSAS DA PERSEGUIÇÃO</p><p>A. Política</p><p>Enquanto era vista pelas autoridades como parte do judaísmo, que era uma</p><p>re lig io licita, isto é, uma seita legal, a Igreja sofreu pouco. Mas logo que foi distinguido</p><p>do judaísmo como seita separada e pôde ser classificado como sociedade secreta, 0</p><p>cristianismo recebeu a interdição do estado romano que não admitia nenhum rival à</p><p>obediência por parte de seus súditos. Tornou-se então, uma re lig io illic ita , uma</p><p>religião ilegal, considerada como ameaça à segurança do estado romano. O estado</p><p>era o supremo bem em uma união dele com a religião. Não.poderia haver religiões</p><p>particulares.</p><p>70</p><p>PROBLEMAS DA IGREJA 100-313<(Λ·UJU</p><p>כ</p><p>ο</p><p>acu</p><p>&Í$PQND\DK$ W</p><p>CKDQH</p><p>PACiOS m U</p><p>worn</p><p>D i P i i t j i m</p><p>ESTADO n o m o</p><p>DISPOSTA</p><p>DA</p><p>m 4</p><p>Apoloçiitu</p><p>Juitm MUif IÚI</p><p>Mm</p><p>X u p i M w ύ ψ η</p><p>m C w tn U w</p><p>7 2 A L U T A D A A N T I G A IG R E J A C A T Ó L IC A IM P E R I A L P A R A S O B R E V I V E R</p><p>A religião somente seria tolerada se contribuísse para a estabilidade do estado.</p><p>Desde que a religião cristã, em! rápido crescimento, exigia exclusiva lealdade moral e</p><p>espiritual daqueles que,aceitavam a Cristo; quando a escolha entre lealdade a Cristo e</p><p>lealdade a César tinha de ser feita, César era colocado em segundo plano. Era este 0</p><p>temor dos líderes romanos, empenhados em preservar a cultura clássica dentro da</p><p>estrutura do império estatal: como desleais ao Estado, os cristãos estavam tentando</p><p>fundar um estado dentro do estado. Ou o estado universal ou a Igreja universal, o</p><p>Corpo de Cristo, tinha de ceder. A soberania exclusiva de Cristo confrontou-se</p><p>com as reivindicações de César à soberania exclusiva.</p><p>Muitas práticas cristãs pareciam confirmar as suspeitas da deslealdade básica</p><p>dos cristãos ao Estado levantadas pelas autoridades romanas. Os cristãos se recusa-</p><p>vam terminantemente a oferecer incenso nos altares devotados ao culto ao impera-</p><p>dor romano com quem o bem-estar do estado era inextricavelmente associado na</p><p>mente do povo ao período imperial entre César Augusto e Constantino. Quem</p><p>sacrificasse nesses altares, podia praticar uma segunda religião particular. Os cris-</p><p>tãos não faziam estes sacrifícios e eram, conseqüentemente, tomados como desleais.</p><p>Os cristãos também realizavam a maioria de suas reuniões à noite e em segredo. Para</p><p>a autoridade romana isto deixava claro que se preparava uma conspiração contra a</p><p>segurança do estado. Os cristãos não serviram o exército até o ano 313.</p><p>B. Religiosas</p><p>Além da causa política básica para a perseguição, havia uma razão religiosa. A</p><p>religião romana era mecânica e externa. Tinha seus altares, ídolos, processionals,</p><p>ritos e práticas que o povo podia ver. Os romanos não se opunham a acrescentar um</p><p>novo ídolo ao grupo do Panteão, desde que a divindade se subordinasse às preten-</p><p>sões de primazia feitas pela religião do Estado. Os cristãos não tinham ídolos e no seu</p><p>culto nada havia para ser visto. Seu culto era espiritual e interno. Quando se punham</p><p>de pé e oravam de olhos fechados, suas orações não eram dirigidas a nenhum objeto</p><p>visível. Para</p><p>as autoridades romanas, acostumadas às manifestações materiais sim-</p><p>bólicas de seu deus, isto nada mais era do que ateísmo.</p><p>O sigilo dos encontros dos cristãos também suscitou ataques morais contra eles.</p><p>O vulgo popular os acusou de incesto, de canibalismo e de práticas desumanas.</p><p>Entendendo equivocadamente o significado de "comer e beber" os elementos repre-</p><p>sentativos do corpo e do sangue de Cristo, o vulgo popular logo depreendeu· que o</p><p>cristãos matavam e comiam crianças em sacrifício ao seu Deus. A expressão "beijo da</p><p>paz” foi logo transformada em acusações de incesto e outras formas de conduta</p><p>imoral que repugnava à mente cultural romana Pouca diferença fazia se estes boatos</p><p>eram verdadeiros ou não.</p><p>C. Sociais</p><p>Problemas sociais também contribuíram para o início da perseguição à Igreja. Os</p><p>cristãos que exerciam grande atrativo sobre as classes pobres e escravas, eram</p><p>odiados pelos líderes aristocráticos influentes da sociedade. Estes líderes os viam</p><p>com despreze mas temiam sua influência sobre as classes pobres. Os cristãos</p><p>defendiam a igualdade entre todos os homens (Cl. 3:11), enquanto que o paganismo</p><p>insistia na estrutura aristocrática da sociedade em que uns poucos privilegiados eram</p><p>servidos pelos pobres e pelos escravos. Os cristãos se separavam dos ajuntamentos</p><p>pagãos dos templos, teatros e lugares de recreação. Este inconfoimismo com os</p><p>C R IS T O O U C É S A R 7 3</p><p>modelos sociais vigentes lhes trouxe uma antipatia jamais conhecida por qualquer</p><p>grupo inconformista da história. A pureza de sua vida era uma reprovação silenciosa</p><p>às vidas escandalosas levadas pelas pessoas da classe alta. O inconformismo dos</p><p>cristãos diante dos padrões vigentes levou os pagãos a pensarem que eles eram um</p><p>perigo para a sociedade e os caracterizavam como ,,inimigos da raça humana”,</p><p>capazes de !incitar as massas à revolta.</p><p>D. Econômicas</p><p>Não 6e pode esquecer que questões econômicas são parte das causas da</p><p>perseguição aos cristãos. A oposição que Paulo recebeu dos fabricantes deídolos em</p><p>Éfeso, mais preocupados com o perigo׳ que representava 0 cristianismo para seus</p><p>negócios que com a ameaça possível ao culto de Diana (At. 19:27), é uma chave para</p><p>a compreensão da reação daqueles cujos interesses do "ganha-pão" estavam amea-</p><p>çados pelo avanço do cristianismo. Sacerdotes, fabricantes de ídolos, videntes, pinto-</p><p>res, arquitetos e escultores dificilmente se entusiasmariam com uma religião que</p><p>ameaçasse seus meios de sustento,</p><p>No ano 250, em que a perseguição deixou de ser local e intermitente para se</p><p>tornar generalizada e violenta, Roma entrava segundo a contagem dos romanos, nos</p><p>mil anos de sua fundação. Nesta época uma fome e uma agitação civil assolavam</p><p>o Império; a opinião pública atribuía׳estes problemas à presença do cristianismo no</p><p>Império e o conseqüente abandono dos deuses Há sempre um bom motivo para a</p><p>superstição quando se aproxima 0 fim de um milênio e os romanos nisto não foram</p><p>melhores que as pessoas da Idade Média que viveram pouco antes do ano 1.000. A</p><p>perseguição aos cristãos parecia, aos romanos, uma forma lógica de superar os</p><p>problemas.</p><p>Tudo isto cooperou para justificar a perseguição dos cristãos na mente das</p><p>autoridades. Nem todas as razões estiveram presentes em cada caso mas a pretensão</p><p>de exclusividade por parte da religião cristã sobre a vida do cristão conflitava com 0</p><p>sincretismo pagão e sua exigência de lealdade exclusiva ao estado romano na</p><p>maioria dos assuntos. A perseguição sucedeu como parte natural da política imperial</p><p>de preservar a integridade do estado romano. Ao cristianismo não se permitia direito</p><p>legal de existência. Mártires e apologistas foram suas respostas ao povo, ao estado e</p><p>aos escritores pagãos.</p><p>II. A PERSEGUIÇÃO DA IGREJA</p><p>A perseguição aos cristãos era eclesiástica e política. Durante os primórdios da</p><p>Igreja em Jerusalém, os judeus foram os perseguidores. Somente no governo de</p><p>Nero (54-68) as perseguições partiram do estado romano. Estas !perseguições foram</p><p>locais e esporádicas até 250, quando se tornaram gerais e violentas, começando com</p><p>uma dirigida por Décio.</p><p>A. Perseguições até 100</p><p>Nero tem 0 dúbio privilégio de ser 0 primeiro imperador romano a perseguir a</p><p>Igreja Cristã. Tácito conta a suspeita de que 0 próprio Nero ordenara 0 incêndio que</p><p>destruiu parte de Roma. O rumor foi tão amplamente aceito que Nero tinha de</p><p>encontrar um bode expiatório. Ele desviou 0 ódio do povo !para os cristãos, ao</p><p>acusá-los de incendiários e ao se empenhar em saturnais de destruição dos cristãos,</p><p>74 A . L U T A : A A N T I G A IG R E JA C A T Ó L IC A I M P E R IA L P A R A S O B RE V IV E R</p><p>Aparentemente, a perseguição se restringiu a Roma e seus arredores.3 Pedro e Paulo</p><p>morreram nesse período.</p><p>A perseguição estourou pela segunda vez em 95 durante o governo despótico de</p><p>Domiciano. Os judeus tinham se recusado a pagar um imposto público criado para o</p><p>sustento de Capitolinus Jupiter. Por serem identificados com os judeus, os cristãos</p><p>sofreram também os efeitos da fúria do imperador. Foi durante esta perseguição que</p><p>o apóstolo João foi exilado na ilha de Patmos, onde escreveu o livro de Apocalipse.</p><p>B. O Cristianismo sob interdição estatal, 100-250</p><p>A primeira perseguição organizada, como resultado de uma política governa-</p><p>mental definida, começou na Bitínia durante a administração de Plínio, o Moço, por</p><p>volta de 112. Antes, Plínio escreveu uma interessante carta ao Imperador Trajano, em</p><p>que prestava informações sobre os cristãos, esboçava seu programa e pedia a</p><p>Trajano uma opinião sobre o assunto. Dizia ele que "o contágio desta superstição"</p><p>(cristianismo) espalhava-se por vilas e regiões rurais como também por grandes</p><p>cidades com tal velocidade que os templos ficavam geralmente vazios e os vendedo-</p><p>res de animais sacrificiais, empobrecidos. Plínio procurava informar a Trajano sobre</p><p>sua política para com os cristãos. Quando alguém era denunciado como cristão,</p><p>Plínio convocava o tribunal e lhe perguntava se era cristão. Se admitisse a acusação</p><p>três vezes, o cristão era condenado à morte. Em sua resposta, Trajano assegurou a</p><p>Plínio que ele estava certo em seu comportamento. Não se devia caçar os cristãos,</p><p>mas se alguém dissesse que uma pessoa era cristã, esta deveria ser condenada, a</p><p>menos que renegasse ou adorasse os deuses dos romanos.3 Foi durante esta perse-</p><p>guição que Inácio conheceu a morte.</p><p>Outra perseguição aconteceu em Esmirna nos meados do segundo século. Foi</p><p>nesta época que Policarpo foi martirizado como conseqüência de uma fúria popular</p><p>levantada contra os cristãos diante das autoridades.4 Uma calamidade local, como 0</p><p>incêndio de Roma, ou a atividade de um governador consciente foram as causas da</p><p>perseguição movida no governo de Marco Aurélio (161-180). Marco Aurélio, estóico</p><p>devoto, fora alertado contra o cristianismo por seu mestre, Fronto. Inclinado a atribuir</p><p>as calamidades de seu reino provocadas pela natureza e pelo homem ao crescimento</p><p>do cristianismo, deu ordens para a perseguição aos cristãos. Justino Mártir, o grande</p><p>apologista, sofreu o martírio em Roma durante esta perseguição.</p><p>C. Perseguição Universal depois de 250</p><p>O Imperador Décio subiu ao trono imperial ao tempo em que Roma completava o</p><p>fim do primeiro milênio de uma história e numa época em que 0 Império cambaleava</p><p>sob calamidades naturais e ataques internos e externos à sua estabilidade. Percebeu</p><p>ele que se a cultura clássica fosse salva, esta lhe seria um forte aliado. Os cristãos</p><p>foram tomados como uma perigosa ameaça ao estado por causa de seu rápido</p><p>crescimento numérico e por sua aparente tentativa de se constituírem num estado</p><p>dentro do estado.</p><p>Décio promulgou um edito em 250 que exigia, pelo menos, uma oferta anual de</p><p>sacrifício nos altares romanos aos deuses e à figura do imperador. Aqueles que</p><p>oferecessem este sacrifício receberíam um certificado chamado libellus.5 A igreja,</p><p>mais tarde״foi sacudida com 0 problema de como tratar aqueles que tinham negado a</p><p>sua fé cristã para conseguir</p><p>esses certificados. Felizmente para a Igreja, a persegui-</p><p>ção durou só até a morte de Décio, no ano seguinte, mas as torturas que Orígenes</p><p>sofreu, mais tarde causaram sua morte.6</p><p>CWSTt Λ ; í s j u *5</p><p>Uma fotografia de um libellus real. do reinado de</p><p>Décio. Traduzido do grego esle documenlo lê Aos</p><p>superintendentes das ofertas e sacrifícios na cidade</p><p>de Aurélio, filho ae Teodoro e Pantonymis, da dita</p><p>cidade. Tem sido meu costume fazer sacrifícios e</p><p>libações aos deuses, e agora coloco na presença</p><p>de vocês, de acordo com 0 mandamento, libações e</p><p>sacrifícios e oferendas, !unto com meus filhos Aurè-</p><p>lio Dióscoro e Aurelia Lais Requeiro portanto, que</p><p>minha deciaraçâo seja certificada O primeiro ano</p><p>do Imperador César Gaio Messius Quintus Trajanus</p><p>Decius, Pius Felix Augustus, Pauni 2 0 "</p><p>Embora houvesse períodos de perseguição estatal por ordem dos imperadores,</p><p>nenhuma grande perseguição aconteceu após a de Décio e Valeriano. Diode-</p><p>ciano, líder militar forte, chegou ao trono imperial no fim de um século marcado pela</p><p>desordem política no Império Romano. Ele concluiu que somente uma monarquia</p><p>forte salvaria o Império e sua cultura clássica. Em 285, pôs fim à diarquia do principa-</p><p>do, criada por César Augusto em 27 A.C., pela qual o imperador e o senado dividiam o</p><p>poder. Em sua opinião uma monarquia poderosa oferecia a única alternativa ao caos.</p><p>Num império despótico como este, não havia lugar para elementos democráticos no</p><p>governo ou para a tolerância de crenças hostis á religião do estado. Foi nesta situação</p><p>histórica que aconteceu a mais dura perseguição enfrentada pelos cristãos.</p><p>Os primeiros editos, com ordem de !perseguição aos cristãos, foram promulga-</p><p>dos em março de 303. Diocleciano ordenou o fim das reuniões cristãs, a destruição</p><p>das igrejas, a deposição dos oficiais da Igreja, a prisão daqueles que persistissem em</p><p>seu testemunho de Cristo e a destruição das Escrituras pelo fogo. Esta última ordem</p><p>trouxe mais tarde um problema para a Igreja quando a controvérsia donatista come-</p><p>çou no norte da África, em torno de como os traditores, que tinham dado cópias das</p><p>Escrituras aos perseguidores, deviam ser tratados ao pedirem readmissão à igreja,</p><p>cessada a perseguição. Um último edito obrigou! os cristãos a sacrificarem aos</p><p>deuses pagãos sob pena de morte caso recusassem.7 Eusébio conta que as prisões</p><p>7 £ A L U T A D A A N T I G A I G R E J A C A T Ó L IC A I M P E R IA L P A R A S O B R E V I V E R</p><p>ficaram tão cheias de líderes cristãos e crentes comuns que não havia lugar suficiente</p><p>para os criminosos.8 Os cristãos foram punidos com o confisco de bens, exílio,</p><p>prisões ou execuções à espada ou por animais ferozes. Os mais felizes eram enviados</p><p>aos campos de trabalhos forçados, onde trabalhavam até a morte nas minas. A força</p><p>da perseguição foi diminuída quando Dioclecíano abdicou e se retirou em 305.</p><p>Depois de outros períodos de perseguição, Galério promulgou um edito, em seu</p><p>leito de morte em 311. que estabelecia a tolerância ao cristianismo, desde que os</p><p>cristãos não violassem a paz do Império. A perseguição só acabaria totalmente no</p><p>reino de Constantino, que promulgou o edito de Milão em 313. Este edito garantia</p><p>liberdade de culto não somente ao cristianismo mas a todas as religiões.9</p><p>Constantino cria que a "adoração a Deus" deveria ser o "primeiro e o principal</p><p>cuidado" do governante, por isso ele pensava que não podería haver outra alternativa</p><p>senão a liberdade religiosa como política do Império. Talvez a tradição de que ele</p><p>teve uma visão da Cruz, que lhe deu a certeza da vitória sobre seus rivais tenha algo a</p><p>ver com esta política tolerante. Certamente ele estava adiante de sua época, pois</p><p>somente no período moderno a liberdade religiosa tornou-se norma, mesmo nos</p><p>estados democráticos. Daquele tempo em diante, os cristãos tinham liberdade para</p><p>adorar a Deus e propagar o evangelho a outras pessoas a fim de ganhá-las para</p><p>Cristo.</p><p>Hoje este problema entre Igreja e 'Estado continua vivo e em muitos países os</p><p>cristãos são apenas tolerados pela lei. Em outros, enfrentam perseguições do Estado</p><p>que não suporta ser rivalizado. A antiga luta da Igreja contra a perseguição permite-</p><p>nos compreender a importância do conceito contemporâneo de separação entre</p><p>Igreja■e Estado. Só onde as pessoas têm a liberdade de conservar seus interesses</p><p>particulares à parte dos públicos é que pode haver liberdade religiosa.</p><p>III. CONSEQUÊNCIAS DA PERSEGUIÇÃO</p><p>O rápido avanço do cristianismo, mesmo durante os períodos de feroz persegui-</p><p>ção, provou que realmente o sangue dos mártires era a semente da Igreja.'Durante o</p><p>período apostólico, o cristianismo fora predominantemente um movimento urbano.</p><p>O número de crentes ativos em Jerusalém após a ressurreição foi calculado em 500</p><p>por Paulo (I Cor. 16:6). A correspondência de Plínio indicava que o cristianismo era</p><p>forte na Ásia Menor especialmente depois do início do segundo século. No primeiro</p><p>século, ele se restringira muito à parte oriental do Império, dando-se aos judeus a</p><p>primeira oportunidade de aceitação do cristianismo, embora os cristãos chegassem a</p><p>novas cidades. No segundo século a expansão foi rápida entre a população gentílica</p><p>de língua grega. Por volta do ano 200, se encontravam em todas as partes do Império.</p><p>A ênfase durante 0 terceiro século recaiu sobre a propagação do Evangelho aos</p><p>latinos da parte ocidental do Império. Uma igreja !poderosa, tendo como Cartago seu</p><p>centro intelectual, floresceu no Norte da África. A Igreja em Alexandria se tornou a</p><p>principal das !igrejas do Egito. Estimativas sobre a população da igreja, por volta de</p><p>250, variam entre 4 e 15 por cento da população do Império, que girava em torno de 50</p><p>a 75 milhões.</p><p>A perseguição, todavia, criou problemas ׳internos que necessitavam de solução.</p><p>Duas duras controvérsias tiveram lugar no 1Norte da África e em Roma, envolvendo a</p><p>maneira de tratar aqueles que tinham oferecido sacrifícios em altares pagãos, quando</p><p>da perseguição movida por Décio, e aqueles que entregaram Bíblias na perseguição</p><p>C R I S T O D U C É S A R 7 7</p><p>dngida por Diocleciano, mas que, arrependidos״ agora queriam voltar. Uns queriam</p><p>cnvá-los de qualquer comunhão com a Igreja; outros queriam aceitá-los após um</p><p>período de prova. A controvérsia donatista, surgida da perseguição diocleciana, não</p><p>acabou ao tempo de Constantino (Ver Capítulo 8, pág. 84).</p><p>A perseguição movida por Diocleciano provocou o problema do cânon do Novo</p><p>ל0313וח6ס1יס (Ver Capítulo 10, pág. 95). Se o possuir epístolas podia levá-los á morte,</p><p>os cristãos precisavam estar seguros de que os livros pelos quais poderíam padecer a</p><p>morte eram realmente livros canônicos. Esta preocupação ajudou nas decisões finais</p><p>acerca de qual! literatura era canônica. A literatura apologética também foi criada</p><p>A era da perseguição é interessante devido à luz que projeta sobre 0 perene</p><p>problema da relação entre a Igreja e 0 Estado. O cristianismo pretendia fidelidade</p><p>exclusiva de seus seguidores em assuntos morais e espirituais. O cristão deveria</p><p>obedecer ao Estado, enquanto este não lhe exigisse uma violação de sua submis-</p><p>são moral ״e espiritual a Deus. Os cristãos que vivem hoje em países onde são per-</p><p>seguidos por sua fé devem ter a história da perseguição primitiva como guia. O pro-</p><p>blemada obediência a Cristo ou a César é perene na história da igreja.</p><p>A LUTA DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA</p><p>IMPERIAL PARA SOBREVIVER</p><p>CAPÍTULO 8</p><p>FÁ B U LA S O U SÃ D O U T R IN A ?</p><p>Os cristãos do segundo e do terceiro séculos tiveram que fazer o que todo</p><p>estrategista tenta evitar: lutar em duas frentes. Ao mesmo tempo em que lutava para</p><p>preservar sua existência diante das tentativas do estado romano de acabar com ela, a</p><p>Igreja lutava também para preservar a pureza da doutrina. Os convertidos à fé cristã</p><p>vieram ou do legalismo judaico ou do ambiente pagão da! filosofia grega. Muitos</p><p>desses convertidos, antes que a Igreja os instruísse corretamente, tinham a tendência</p><p>de levar suas velhas</p><p>idéias para seu novo ambiente. Outros procuravam fazer 0</p><p>cristianismo parecer intelectualmente respeitável diante das classes altas do estado.</p><p>A ameaça dos desvios legalista ou filosófico do cristianismo foi algo muito real na</p><p>Igreja deste período. Em alguns casos, líderes super-zelosos desenvolveram uma</p><p>interpretação particular para corrigir males reais ou imaginários na Igreja, chegando</p><p>mesmo a seguir suas idéias heréticas até que resultassem em cismas e daí em novas</p><p>seitas.</p><p>I. HERESIAS LEGALISTAS</p><p>Alguém poderia pensar que a decisão do Concilio de Jerusalém, de deixar os</p><p>gentios livres ·das exigências cerimoniais e ritualistas da lei judaica, para a salvação,</p><p>tenha encerrado o problema. No entanto, grupos deebionitas continuaram na Palesti-</p><p>na e em regiões próximas por mais de dois séculos depois da supressão, pelas</p><p>autoridades romanas, da rebelião dos judeus liderados por Bar Cochba, entre 132·e</p><p>135.</p><p>Estas pessoas enfatizavam a unidade de Deus e de Sua criação. Criam que ·a lei</p><p>judaica era a maior expressão de Sua vontade e que continuava válida para o homem.</p><p>Para eles, Jesus era um homem que se tornou o Messias em virtude de ter cumprido</p><p>fiel e completamente a lei. Seguiam, então, os ensinos do Evangelho de Mateus, mas</p><p>rejeitavam os escritos de Paulo. Alguns dos membros mais equilibrados da seita</p><p>criam que a lei tinha autoridade apenas para os cristãos judeus; outros achavam que</p><p>tanto gentios,como cristãos judeus estavam sob o domínio da lei de Moisés e que não</p><p>havia salvação fora da circuncisão e da lei de Moisés. Depois da destruição de</p><p>78</p><p>Jerusalém pelos ׳romanos em 135, eles perderam a sua influência, mas sua existência</p><p>e suas crenças mostraram que a Igreja teve que lutar desde cedo pelo princípio de</p><p>que somente a fé em Cristo justifica o indivíduo diante de Deus.</p><p>II. HERESIAS FILOSÓFICAS</p><p>O maior perigo para a pureza doutrinária da fé cristã veio da filosofia grega. Mais</p><p>gentios do que judeus se converteram ,ao cristianismo. Entre estes estavam muitos</p><p>filósofos que queriam combinar cristianismo com filosofia, ou vestir a filosofia pagã</p><p>com uma roupagem cristã.</p><p>A. Gnosticismo</p><p>O gnosticismo, a maior das ameaças filosóficas, chegou ao máximo de sua</p><p>influência ao redor do ano 150, Suas raízes estão fincadas nos tempos do Novo</p><p>Testamento. Paulo parece ter enfrentado uma forma incipiente de gnosticismo em</p><p>sua carta aos colossenses. A tradição cristã associou a origem do gnosticismo com</p><p>Simão Mago', a quem Pedro teve que repreender duramente.</p><p>O gnosticismo surgiu do desejo humano natural de criar uma teodicéia, isto é,</p><p>uma explicação para a origem do mal. ,Os gnósticos, que identificavam a matéria com</p><p>o mal, procuravam uma forma de criar um sistema filosófico em que Deus como</p><p>espírito seria livre da' influência do mal e no qual o homem seria identificado, no lado</p><p>espiritual de sua natureza, com a divindade, Era também um sistema lógico ou</p><p>racional que ilustrou a tendência humana de procurar respostas às grandes questões</p><p>da origem do homem. Queria ·com isto, fazer 1uma síntese entre o cristianismo e a</p><p>filosofia helênica. Os gnósticos. a exemplo dos gregos dos dois primeiros capítulos</p><p>de I Coríntios, procuravam pela sabedoria humana compreenderas relações de Deus</p><p>com o homem e evitar o que lhes parecia ser o estigma da cruz Foram necessárias a</p><p>habilidade intelectual e a força espiritual do polemista Irineu e o desenvolvimento de</p><p>uma regra de fé e um cânon da Bíblia ipela Igreja para superar a ameaça desse</p><p>movimento ao cristianismo. Se os gnósticos tivessem vencido, o cristianismo não</p><p>teria passado de uma !mera religião filosófica do mundo antigo</p><p>A descoberta de cerca de 1.000 páginas de documentos a respeito do Gnosticis-</p><p>mo sírio e egípcio, em Nag Hamadi, no Alto Egito em 1943, nos dá alguma idéia sobre</p><p>suas doutrinas.</p><p>O dualismo era um dos principais fundamentos do gnosticismo. Os gnósticos</p><p>defendiam uma separação entre os mundos material e espiritual, porque para eles a</p><p>matéria estava sempre identificada com o mal e o espírito com o bem. Por isto, Deus</p><p>não podería ter criado este !mundo material.</p><p>O vazio entre Deus e o mundo da matéria era preenchido pela idéia de um</p><p>demiurgo que era uma de uma série de emanações do bem supremo do gnosticismo.</p><p>Estas emanações eram seres com pouco espirito e muita matéria. O demiurgo, como</p><p>uma ·destas emanações, tinha bastante de espírito em si para ter um poder criativo e o</p><p>bastante de matéria para criar o mundo material. Os gnósticos identificavam o</p><p>demiurgo com! o Javé do Velho Testamento, por quem nutriam antipatia.</p><p>Para interpretar Cristo, eles adotaram a doutrina conhecida como Docetismo. A</p><p>palavra veio de ׳um termo grego, dokeo, que significa parecer. Como a matéria era má,</p><p>Cristo não podia ter um corpo humano apesar de a Bíblia dizer 0 contrário. Como</p><p>oem espiritual absoluto. Cristo não se misturava com a matéria. O homem Jesus era</p><p>F Á B U L A S O U S Ã O O U T R I N A ? 7 9</p><p>8 0 A L U T A D A A M I G A IG R E JA C A T Ó L IC A I M P E R IA L P A R A S O B R E V IV E R</p><p>ou um fantasma com a aparência de corpo material (docetismo) ou Cristo tomou o</p><p>corpo humano de Jesus apenas por pouco tempo, entre o batismo do homem Jesus e</p><p>o começo de seu sofrimento na cruz. Cristo deixou, pois, 0 homem Jesus morrer na</p><p>Cruz. A tarefa׳ de Cristo era ensinar uma gnosis ou conhecimento especial que</p><p>ajudaria o homem a se salvar por um processo intelectual.</p><p>A salvação, que era apenas para a alma ou parte da alma espiritual do homem,</p><p>viria não com a fé mas com a gnosis especial que Cristo comunicaria à elite, que seria</p><p>a mais beneficiada, segundo os gnósticos, no processo da salvação de sua alma. Já</p><p>que o corpo era material e estava destinado a desaparecer, era necessário seguir</p><p>práticas ascéticas rígidas ou entregar-se ao libertinismo. Só os gnósticos pneumáti-</p><p>cos, que possuíam a gnosis esotérica, chegavam aos céus. Os hílicos jamais alcança-</p><p>riam a celestialidade, uma vez que estavam destinados à perdição eterna. Não havia</p><p>lugar para a ressurreição do corpo.</p><p>Esta descrição dos principais princípios defendidos em comum pelos gnósticos</p><p>não deve descartar a existência de numerosas seitas gnósticas com doutrinas pró-</p><p>prias. Uma leitura superficial das primeiras seções do livro Contra as Heresias, de</p><p>Irineu, serve para mostrar ao leitor o quão numerosos eram esses grupos e quão</p><p>variadas as suas idéias. Saturnino liderou uma escola síria de gnosticismo; no Egito,</p><p>Basilides dirigiu outra. Marcion e seus seguidores parece ter sido o mais influentedos</p><p>grupos ligados ao gnosticismo.</p><p>Marcion deixou׳ sua cidade natal, Ponto, em 138e foi para Roma, onde se tornou</p><p>influente na igreja romana. Por entender que 0 Judaísmo era mau, rejeitou a Bíblia</p><p>hebraica e o Javé nela apresentado. Ele formou seu próprio cânon, que incluía o</p><p>Evangelho de Lucas, os Atos e dez das cartas identificadas com o nome de Paulo</p><p>Embora seus negócios tenham feito dele rico o bastante para prestar uma substancial</p><p>ajuda à igreja romana, ele foi expulso por causa destas idéias. Ele fundou, então, sua</p><p>própria igreja.</p><p>Uma crítica do gnosticismo a partir da Bíblia logo indicará que a Igreja foi sábia</p><p>em lutar contra esta doutrina. Ele propunha dois deuses, um mal, o do Velho Testa-</p><p>mento, para criar e um bom para redimir. Desse modo, ele espalhou o anti-semitismo</p><p>na Igreja. O gnosticismo também rejeitava a realidade da divindade do Cristo humano</p><p>que João disse ter habitado entre nós para revelar a glória de Deus Não é, pois,</p><p>estranho que Paulo tenha afirmado a plenitude de Deus em Cristo em sua carta à</p><p>igreja colossense (Cl. 1:19; 2:9). O gnosticismo ainda fomentou um orgulho espiritual</p><p>com sua sugestão de que apenas uma elite aristocrática alcançaria os favores de</p><p>habitar com Deus nos céus. Não havia lugar para o corpo humano na vida futura.</p><p>Neste sentido, assemelhava-se a mitologia e à filosofia gregas para quem também</p><p>não havia futuro para o corpo humano além desta vida. Seu ascetismo foi um dos</p><p>fatores formativos do movimento ascético medieval conhecido como monasticismo.</p><p>O gnosticismo contribuiu involuntariamente, pois. para o avanço da Igreja. Quan-</p><p>do Marcion formou o seu cânon do Novo Testamento, a Igreja foi forçada como</p><p>auto-defesa a se preocupar com o problema de que livros seriam considerados</p><p>canônicos e autoritativos para a fé e para a vida. Um pequeno credo para provar a</p><p>ortodoxia foi logo elaborado a fim de atender a uma necessidade prática. O prestígio</p><p>do bispo foi aumentado com a ênfase sobre seu oficio como o centro da unidade</p><p>contra a heresia. Em troca, isto provocou o posterior desenvolvimento da proeminên-</p><p>cia do bispo romano.</p><p>Polemistas como Irineu, Tertuliano e Hipólito engajaram-se na controvérsia</p><p>FÁBULAS OU SÃ DOUTRINA? 81</p><p>literária para refutar idéias gnósticas, Ensinos gnósticos reapareceram, parcialmente,</p><p>em doutrinas dos Paulicianos do século VII, dos Bogomilos dos séculos XI e XII. e dos</p><p>Albingenses posteriores, no sul da França.</p><p>B. M aniqueism o</p><p>O maniqueismo, em alguns pontos semelhante ao gnosticismo, foi fundado por</p><p>um homem chamado Mani ou Maniqueu (c. 216 - 276), da Mesopotâmia. que desen-</p><p>volveu seu peculiar sistema filosófico em meados do terceiro século. Mani fez uma</p><p>curiosa combinação de pensamento cristão, zoroastrismo e idéias religiosas orientais</p><p>numa refinada filosofia dualistica. Mani cria em dois princípios eternos e em oposi-</p><p>ção. O homem primitivo puro, caracterizado pela posse da luz pura, nasceu pela</p><p>emanação da mãe da vida que, por sua vez, era uma emanação superior do chefe do</p><p>reino da luz. Oposto ao rei da luz, era o rei das trevas que enganara o homem primitivo</p><p>de tal modo que perdera parte de sua luz e se tornara um ser com uma luz bipartida de</p><p>espírito e matéria. A alma do homem relacionava-se com o reino da luz, mas seu</p><p>corpo levava- 0 a depender do reino das trevas. A salvação era uma questão de liberar</p><p>a luz em sua alma da escravidão à matéria de seu corpo. Esta libertação podería ser</p><p>conseguida através da exposição à luz. Cristo. A elite ou os perfeitos constituíam a</p><p>casta sacerdotal para este grupo. Viviam asceticamente e cumpriam certos ritos</p><p>essenciais à liberação da luz. Os auditores ou ouvintes participavam da santidade</p><p>deste grupo eleito para satisfação de suas necessidades. Desta forma, os ouvintes</p><p>poderíam também participar na salvação.</p><p>O maniqueismo provocou׳ uma tal! exaltação da vida ascética ao ponto de ver o</p><p>instinto sexual como mal e enfatizar a superioridade do estado civil do solteiro. O</p><p>maniqueismo ajudou também no surgimento׳ do conceito na Igreja de uma classe</p><p>sacerdotal independente do resto dos crentes, que eram considerados leigos não</p><p>iniciados.</p><p>O maniqueismo exerceu ainda muita influência por bom tempo após a morte de</p><p>Mani na Pérsia. Um pensador do porte de Agostinho, em sua busca pela verdade, foi</p><p>discípulo dos maniqueus durante 12 anos. Depois de sua conversão, Agostinho se</p><p>empenhou em refutar energicamente o maniqueismo.</p><p>C. Neoplatonism o</p><p>Geralmente a maioria das pessoas vê o misticismo apenas em relação aos</p><p>místicos medievais. O fato é que através dos tempos têm havido tendências místicas</p><p>na Igreja.</p><p>Pode-se dizer que há três tipos de misticismo. Há um tipo epistem ológico de</p><p>misticismo em que a ênfase é colocada sobre a forma como o homem conhece a</p><p>Deus, Aqueles que aceitam este tipo de misticismo entendem que todo conhecimen-</p><p>to que temos de Deus׳ é imediato e vem a nós diretamente pela intuição ou pela</p><p>iluminação espiritual. A razão e, em alguns casos, até mesmo a Bíblia, subordinam-se</p><p>à luz interior. Os grandes místicos medievais, os quietistas católicos do século XVII e</p><p>os quaeres tiveram estaimesma compreensão. Outros seguem um tipo metafísico de</p><p>misticismo, em que o espirito do homem é visto como sendo absorvido misticamente</p><p>num ser divino através de várias experiências sucessivas. Após a extinção de sua</p><p>personalidade pela morte, o espírito do homem integra-se ao espírito divino. Os</p><p>neoplatonistas, alguns dos místicos mais extremados da Idade Média e os budistas</p><p>adotaram este tipo de misticismo. Ao contrário, a Bíblia propõe um misticismo ético e</p><p>8 2 A L U T A D A A N T I G A IG R E J A C A T Ó L IC A IM P E R I A L P A R A S O B R E V IV E R</p><p>espiritual, no qual o indivíduo se relaciona com Deus através de sua identificação com</p><p>Cristo e a atuação do Espirito Santo.2</p><p>O Neoplatonismo é uma boa ilustração do tipo ontológico de filosofia mística.</p><p>Nasceu na Alexandria como obra de Amônio Saccas. Orígenes, Pai da Igreja, e um</p><p>homem chamado Plotino foram seus alunos. Plotino (2057-270) tornou-se, então, o</p><p>líder real e ensinou suas idéias numa escola em Roma no último quartel do terceiro</p><p>século. A afirmação literária do Neoplatonismo foi dada por Porfirio (233-304) a partir</p><p>das obras selecionadas de Plotino. A compilação que daí saiu, conhecida como</p><p>Enéadas, foi preservada até hoje. Ensina mais um monismo metafísico do que o</p><p>dualismo.</p><p>Os neoplatonistas viam o Ser absoluto como a fonte transcendental de tudo e</p><p>achavam que tudo foi criado por um processo de emanação. Este transbordamento</p><p>ou emanação resultou na criação final do homem como alma e corpo pensantes. O</p><p>objetivo do universo era a reabsorção na essência divina de onde tudo viera. Os</p><p>sentidos podem ser liberados do presente físico pela contemplação das obras natu-</p><p>rais e artísticas; a razão alcança a liberdade pela manifestação do amor. A filosofia</p><p>muito contribui neste processo quando se participa da vida de contemplação e se</p><p>procura, pela intuição mística, conhecer a Deus e ser absorvido nAquele de onde</p><p>tudo veio. A experiência de êxtase era o estado mais elevado a que se podia chegar</p><p>nesta vida. Essas idéias influenciaram Agostinho.</p><p>O imperador Juliano, conhecido como "o Apóstata", abraçou esta filosofia rival</p><p>do cristianismo e, durante seu breve governo, de 361 a 363, procurou fazer dela a</p><p>religião do Império. Agostinho a seguiu por algum tempo no seu período de busca da</p><p>verdade. Sem dúvida alguma, o movimento contribuiu para 0 surgimento do misticis-</p><p>mo no cristianismo, representando uma espécie de alternativa ׳para os pagãos que</p><p>não queriam enfrentar as elevadas exigências éticas e espirituais da religião cristã. Ele</p><p>desapareceu no infcio do século VI.</p><p>III. ERROS TEOLÓGICOS</p><p>Certas doutrinas surgem! como interpretações equivocadas ou ênfases exagera-</p><p>das do significado do cristianismo ou mesmo como movimentos de protesto. Prejudi-</p><p>cam, entretanto, o cristianismo, uma vez que muito da energia que poderia ser gasta</p><p>na obra de evangelização tem de ser dirigida para a tarefa de refutar estes erros. O</p><p>Montanismo e o Monarquianismo são exemplos disto.</p><p>A. O Montanismo</p><p>O montanismo surgiu na ,Frigia em 155 como uma tentativa da parte de Montano</p><p>em resolver os problemas de formalismo na Igreja e a dependência da Igreja da</p><p>liderança humana quando deveria depender do Espírito Santo. Esta tentativa de</p><p>combater o formalismo e a organização humana levou-o a reafirmar as doutrinas do</p><p>Espírito Santo e da Segunda Vinda. Infelizmente, como geralmente acontece em</p><p>movimentos desta natureza, ele caiu para o extremo oposto e concebeu fanáticas e</p><p>equivocadas interpretações da Bíblia.</p><p>No desenvolvimento de sua doutrina peculiar acerca da inspiração. Montano</p><p>concebeu-a como imediata e continua e se colocou a si mesmo como parácleto ou</p><p>advogado através de quem o Espírito Santo falava à Igreja, do mesmo modo que</p><p>falara através de Paulo e dos outros apóstolos. Montano tinha uma escatologia</p><p>F A B U L A S O U SÃ D O U T R I N A ’ 8 3</p><p>extravagante. Cria que o reino celestial de Cristo seria instaurado brevemente em</p><p>Pepuza, na Frigia, e que nele teria um papel de proeminência. Para que estivessem</p><p>preparados para aquele acontecimento, ele e seus seguidores praticavam um rigoro-</p><p>so ascetismo. Não se permitia novo casamento se um dos cônjuges morresse; muitos</p><p>jejuns deviam ser feitos; a alimentação devia ser frugal,3</p><p>A Igreja reagiu a estas extravagâncias,</p><p>condenando o movimento. OConcilio de</p><p>Constantinopla, em 381, declarou׳que os montanistas deviam ser olhados como</p><p>pagãos. No entanto. Tertuliano. um dos maiores Pais da Igreja, atendeu aos apelosdo</p><p>grupo e tornou-se ,montanista. O movimento foi muito forte em Cartago e no oriente.</p><p>O montanismo representou o protesto perene suscitado dentro da Igreja quando se</p><p>aumenta a força da instituição e se diminui a dependência do Espirito de Deus,</p><p>Infelizmente, estes movimentos geralmente se afastam da Bíblia, entusiasmados que</p><p>ficam pela reforma que desejam. O movimento montanista foi e é aviso que a Igreja</p><p>não esqueça que a organização e a doutrina não podem ser separadas da satisfação</p><p>do lado emocional da natureza do homem e do anseio humano por um contato</p><p>espiritual imediato com Deus.</p><p>B. O Monarquianismo</p><p>Montano preocupou-se grandemente com a elaboração das doutrinas do</p><p>Espírito Santo e da inspiração Por sua vez, os monarquianos erraram por causa de</p><p>seu zelo excessivo em destacar a unidade de Deus em oposição a qualquer tentativa</p><p>de concebê-LO como três personalidades distintas. Eles estavam preocupados com</p><p>uma afirmação do monoteismo, mas acabaram se tornando uma forma primitiva de</p><p>unitarianismo, que negava a divindade real de Cristo. O problema deles foi como</p><p>relacionar Cristo a Deus.</p><p>No século III, um homem chamado Paulo de Samósataacumulava asfunçõesde</p><p>bispo de Antioquia4 e de importante autoridade política no governo de Zenóbia,</p><p>rainha de Palmira. Ele agiu demagogicamente na Igreja de Antioquia, conseguindo,</p><p>através de pregação recheada de gestos violentos, aplausos e acenos de lenços. Já</p><p>por esta época tinha um coro feminino para cantar louvores a ele mesmo. Por não ter</p><p>recebido nenhuma herança e nem ter negócios, suspeitou-se dos meios pelos quais</p><p>amealhou sua grande fortuna. Hábil e inescrupuloso. ensinava que Cristo não era</p><p>divino mas apenas um homem que, pela justiça e pela penetração de seu ser pelo</p><p>Logos divino, alcançou a divindade e o caráter de salvador, Esta tentativa de Paulo de</p><p>Samosata e de outros, de sustentar um monoteismo, tirou do cristão um Salvador</p><p>divino e equivaleu na Igreja antiga ao moderno Unitarianismo. A doutrina</p><p>desenvolvida por Paulo de Samósata ficou conhecida como ,monarquianismo</p><p>dinâmico.</p><p>O proponente do Monarquianismo Modalista foi um homem chamado Sabélio,</p><p>decidido a evitar qualquer forma de triteísmo. íPor volta do ano 200, ele formou a</p><p>doutrina que leva o seu nome. Ensinava uma trindade de manifestação de formas e</p><p>não de essência. Deus se manifestou como Pai no Velho Testamento, depois como</p><p>Filho para redimir o homem e como Espírito após a ressurreição de Cristo. Não</p><p>houve, então, três pessoas em Deus mas três manifestações. Sua doutrina pode ser</p><p>ilustrada pelos relacionamentos que um homem pode manter; numa relação, ele é</p><p>filho; em outra, irmão; e, numa terceira, pai. Em todos estes relacionamentos só há</p><p>uma personalidade real. Esta doutrina negava uma personalidade separada para</p><p>Cristo. Tem sido revivida· no Pentecostalismo da Nova Visão ou Jesus Somente.</p><p>8 4 A L U T A D A A N T I G A IG R E JA C A T Ó L IC A IM P E R I A L P A R A S O B R E V I V E R</p><p>IV. AS DIVISÕES NA IGREJA</p><p>A. A Controvérsia sobre a Páscoa</p><p>Alguns cismas provocados por problemas de disciplina e liturgia aconteceram</p><p>bem no começo da história da Igreja. A controvérsia em torno da Páscoa começou</p><p>em meados do segundo século por causa do problema da data correta de sua</p><p>celebração. A Igreja no Oriente dizia que a Páscoa devia ser celebrada no dia 14 de</p><p>Nisan, a data da Páscoa segundo o calendário judaico, independentemente do dia da</p><p>semana em que caísse. Em 162, 0 bispo de Roma Aniceto foi contrário à posição de</p><p>Policarpo da Ásia, defendendo que a a data deveria ser 0 domingo seguinte ao 14</p><p>de Nisan. Quando Victor, bispo de Roma, excomungou as igrejas da Asia em 190,</p><p>diante da oposição de Polycrates de Éfeso, Irineu contestou suas pretensões de po-</p><p>der. As porções oriental e ocidental da Igreja só chegaram a um acordo no Concilio</p><p>de Nicéia, em 325, quando prevaleceu 0 ponto de vista da Igreja ocidental.</p><p>B. O Donatismo</p><p>A controvérsia donatista principiou no começo do século IV como conseqüência</p><p>da perseguição da Igreja movida por Diocleciano. Grande parte da controvérsia se</p><p>centralizou no norte da África. Em 311, um cristão chamado Donato solicitou a</p><p>deposição de Ceciliano, acusado de ser um traditor, de seu cargo de bispo de</p><p>Cartago, por ter sido consagrado por Félix, que fôra traditor ao tempo da perseguição</p><p>movida por Diocleciano.</p><p>Donato sustentava que 0 fato de não ter sido fiel no tempo da perseguição</p><p>invalidava a possibilidade de Félix ordenar, uma vez que cometera um pecado</p><p>imperdoável. Donato e seu grupo elegeram Majorino como bispo, e. morto Majonno,</p><p>ao próprio Donato. Os donatistas reagiram contra a doação de dinheiro para a igre!a</p><p>africana, uma vez que eles mesmos foram preteridos. Um sinodo reunido em Roma</p><p>determinou que a validade de um sacramento não depende da moral de quem o</p><p>administra. Desse modo, os donatistas não tinham direito a qualquer ajuda Outro</p><p>concilio de bispos ocidentais, reunido em Aries em 314, voltou a refutar as idéias</p><p>donatistas. Esta controvérsia preocupou grandemente a Agostinho, que como conse-</p><p>quência desta preocupação, muito escreveu sobre o problema da autoridade na</p><p>Igreja.</p><p>Pode-se dizer, para concluir, que as conseqüências das controvérsias, dos erros e</p><p>das heresias nem sempre foram negativas. A Igreja foi forçada a desenvolver um</p><p>cânon autorizado de Bíblia e um credo que resumisse os pontos fundamentais das</p><p>Escrituras. A necessidade de responder às teologias falsas estimulou o crescimento</p><p>da teologia cristã. A posição do bispo foi fortalecida devido à ênfase colocada sobre</p><p>seu oficio como um ponto de encontro contra a heresia e o erro.</p><p>Como se viu, as falsas doutrinas surgiram das tentativas de homens ambiciosos</p><p>em aumentar o seu poder, ou de ênfases demasiadas ou de interpretações equivoca-</p><p>das de certos trechos da Bíblia, ou mesmo da falta de amor demonstrada pela Igreja</p><p>no tratamento de uma minoria em erro, Isto tudo, afinal, não enfraqueceu a Igreja; antes,</p><p>forçou-a a fixar suas crenças e a desenvolver sua organização.</p><p>A LUTA DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA</p><p>IMPERIAL PARA SOBREVIVER</p><p>CAPITULO 9</p><p>EM DEFESA DA FÉ</p><p>No segundo e terceiro séculos, a Igreja exprimiu sua auto-consciência nascente</p><p>numa forma literária nova — as obras dos Apologistas e dos Polemistas. Justino</p><p>Mártir foi 0 maior do primeiro grupo; Irineu, o grande nome do segundo, Estes</p><p>homens enfrentaram um! governo hostil a quem ,procuraram convencer com os</p><p>argumentos de suas produções literárias. Os Apologistas procuraram convencer os</p><p>líderes do estado de que os cristãos nada tinham feito para merecer a perseguição</p><p>que lhes era impingida; os Polemistas, como Irineu, procuraram enfrentar 0 desafio</p><p>dos movimentos heréticos, Ao passo que os Pais Apostólicos escreveram apenas por</p><p>e para os cristãos, estes escritores escreveram por e para o estado ,romano ou para os</p><p>heréticos num esforço para convencè-los da verdade da Bíblia através de argumento</p><p>literário. Os apologistas usavam a forma do diálogo literário pagão e a forma legal dá</p><p>apologia.</p><p>I. OS APOLOGISTAS</p><p>Os apologistas tinham um objetivo negativo e positivo em seus escritos. Negati-</p><p>vamente, queriam refutar as falas acusações de ateísmo, canibalismo, incesto, pregui-</p><p>ça e práticas anti-sociais atribuídas a eles por vizinhos e escritores pagãos, entre os</p><p>quais Celso, por exemplo. Positivamente, desenvolveram uma perspectiva construti-</p><p>va para demonstrar que, ao contrário do cristianismo, 0 judaísmo, as religiões pagãs e</p><p>o culto do estado, eram loucos e malévolos.</p><p>Seus escritos, conhecidos como apologias, fizeram um apelo racional aos líderes</p><p>pagãos e procuraram criar uma interpretação inteligente do cristianismo e assim</p><p>revogar os dispositivos legais contra si. Um dos maiores argumentos era de que, já</p><p>que as falsas acusações não podiam</p><p>ser provadas, os cristãos deviam ser tolerados</p><p>pelo governo e protegidos pelas leis do estado romano.</p><p>Estes homens, escrevendo mais como filósofos do que como teólogos, pintaram</p><p>o cristianismo como a religião e filosofia mais antigas, uma vez que escritos como o</p><p>Pentateuco tinham sido escritos antes das guerras troianas e que toda a verdade que</p><p>se encontrasse no pensamento grego era superada pelo cristianismo ou pelo judaís-</p><p>8 5</p><p>8 6 A L U T A D A A N T I G A IG R E J A C A T Ó L IC A I M P E R I A L P A R A S O B R E V IV E R</p><p>mo. A vida pura de Cristo e o cumprimento das profecias do Velho Testamento sobre</p><p>Ele eram as provas de que o cristianismo era a mais alta filosofia. Educados em geral</p><p>na filosofia grega antes de aceitarem o cristianismo, estes escritores consideravam a</p><p>filosofia grega, como um meio de levar os homens a Cristo. Eles usaram o NT mais do</p><p>que os pais apostólicos.</p><p>A. Apologistas Orientais</p><p>Por volta do ano 140, Aristides, um filósofo cristão da cidade de Atenas, enviou</p><p>uma apologia ao Imperador Antonino Pio. O professor Rendei !Harris descobriu uma</p><p>versão síria completa desta obra em 1889 no Mosteiro de Santa Catarina no Monte</p><p>Sinai. Os primeiros 14 capítulos comparam as formas dos cultos cristão, caldeu,</p><p>grego, egípcio e judeu, para provar a superioridade da maneira cristã de cultuar. Os</p><p>últimos três capítulos pintam !um quadro nítido dos costumes e da ética dos primeiros</p><p>cristãos.</p><p>Justino Mártir (c. 100-165) foi o principal apologista do século II. Filho de pais</p><p>pagãos e nascido perto da cidade bíblica de Siquém, logo se tornou um inquieto</p><p>filósofo em busca da verdade. Ele passou pela filosofia estóica. pelo idealismo nobre</p><p>de Platão, pelas idéias de Aristóteles, frustrando-se com todos os pagamentos exigi-</p><p>dos por seus iperipatéticos sucessores, além de se interessar ainda pela filosofia</p><p>numérica de Pitágoras. Até que um dia, passeando na praia, um velho senhor o</p><p>encaminhou à Bíblia como a verdadeira filosofia; Justino encontrou a paz por que</p><p>tanto ansiava (Diálogo com Trifo, Capítulos 2-8). Ele abriu uma escola cristã em</p><p>Roma.</p><p>Pouco depois do ano 150, ele escreveu sua primeira Apologia ao Imperador</p><p>Antonino Pio e seus filhos adotivos, e a segunda ao senado e ao povo romanos. Ele</p><p>exorta os imperadores a examinarem as acusações contra os cristãos (capítulos 1-3)</p><p>e a libertá-los dos constrangimentos legais se fossem inocentes. Prova ele que os</p><p>cristãos não são ateus ou idolatras, A principal seção da obra (14-60) é dedicada à</p><p>apresentação da moral, das doutrinas e do Fundador do cristianismo Procura mos-</p><p>trar que a vida e a moralidade superiores de Cristo tinham sido previstas pelas</p><p>profecias do Velho Testamento. Atribui a perseguição e os erros à obra do demônio.</p><p>Os últimos capítulos (61-67) fazem uma exposição do culto dos cristãos. Sustenta</p><p>Justino que uma análise demonstraria que os cristãos eram inocentes das acusações</p><p>que lhes faziam, devendo, portanto, ser suspensa a perseguição contra eles.</p><p>A assim chamada segunda Apologia é uma espécie de apêndice da primeira.</p><p>Nela Justino ilustra a crueldade e a injustiça sofridas pelos cristãos e, depois de</p><p>comparar Cristo e Sócrates afirma que o que há de bom nos homens deve-se a Cristo.</p><p>No Diálogo com Trifo, Justino procura convencer os judeus da messianidade de</p><p>Jesus Cristo. Alegoriza a Bíblia e, para tanto, dá muita ênfase à profecia. Os primeiros</p><p>oito capítulos são autobiográficos e constituem uma excelente fonte de informação</p><p>sobre a vida deste grande escritor. A maior seção (capítulos 9142־) desenvolve-se em</p><p>três idéias: a relação entre o declínio da lei do velho concerto e o surgimento do</p><p>Evangelho, a identificação do Logos, Cristo, com Deus, e a chamada dos gentios</p><p>como povo de Deus. Para ele, Cristo foi o cumprimento das profecias do Velho</p><p>Testamento.</p><p>Taciano (século II), erudito oriental muito viajado e discípulo de Justino em</p><p>Roma, escreveu uma obra conhecida como Discurso aos Helenos, nos meados do</p><p>segundo século. É uma denúncia, vazada em estilo apologético, das pretensões</p><p>Ε Ν D E FE S A Ο Α F í 3 7</p><p>gregas deliderança cultural. Para nós o que interessa nele é o fato de que foi dirigido a</p><p>todo um povo, o grego. Taciano sustenta que já que o cristianismo é superior à</p><p>religião e a filosofia gregas, os cristãos deviam receber melhor tratamento. A segunda</p><p>seção (capítulos 5 3 0 -é dedicada à comparação dos ensinos cristãos com a mitolo (־</p><p>gia e a filosofia grega. Na seção seguinte, ele afirma que o cristianismo é mais antigo</p><p>que a filosofia e a religião grega, porque Moisés precedia as guerras de Tróia (31-41).</p><p>Apresenta também uma interessante discussão sobre a escultura grega que viu</p><p>(33-34) na cidade de Roma. Além de ser o autor do Discurso, Taciano foi o compila-</p><p>dor do Diatessaron, a mais antiga harmonia dos Evangelhos.</p><p>Atenágoras foi professor em Atenas e se convertera pela leitura da Bíblia. Em 177</p><p>escreveu uma obra intitulada Súplica pelos Cristãos. Após relacionar as acusações</p><p>feitas contra os cristãos nos capítulos introdutórios, ele refuta a acusação de ateísmo</p><p>também feita aos cristãos ao demonstrar que os deuses pagãos eram simples cria-</p><p>ções humanas (capítulos 4-30) e culpados das mesmas imoralidades dos seus segui-</p><p>dores humanos (31-34). Como os cristãos não são culpados de incesto e nem de</p><p>comer seus filhos em festa sacrificai (35-36), ele conclui, no capítulo final, que o</p><p>imperador devia garantir-lhes a clemência.</p><p>Teófilo de Antioquia que também se convertera pela leitura da Bíblia, escreveu</p><p>pouco depois de 180 a Apologia A Autólico. Possivelmente, Autólico era um magistra-</p><p>do pagão ilustrado a quem Teófilo procura trazer ao cristianismo através deargumen-</p><p>tos racionais. No primeiro livro, Teófilo discute a natureza e a superioridade de Deus.</p><p>No segundo livro, compara a fragilidade da religião pagã com o cristianismo. No livro</p><p>final, responde às objeções de Autólico à fé cristã. Foi o primeiro a usar a palavra trias</p><p>para a trindade.</p><p>B. Apologistas Ocidentais</p><p>Os apologistas ocidentais deram mais ênfase à peculiaridade e à finalidade do</p><p>cristianismo do que às semelhanças entre a fé cristã e as religiões pagãs.</p><p>Tertuliano (c. 160 - c. 230) foi o principal apologista da Igreja Ocidental. Nasceu</p><p>ele pouco antes de 160 na casa de um centurião romano de serviço em Cartago.</p><p>Conhecedor de grego e de latim, os clássicos lhe eram familiares. Fez-se um advoga-</p><p>do competente, ensinou oratória e advogou em Roma, onde se converteu ao cristianis-</p><p>mo. Sua natureza fogosa e seu espírito de luta levaram-no a se aproximar das</p><p>propostas do montanismo, tornando-se montanista em 202. Sua mente lógica latina</p><p>inclinou-o para o desenvolvimento de uma sólida teologia ocidental e na refutação às</p><p>falsas forças filosóficas e pagãs que se opunham ao cristianismo.1</p><p>No Apologeticum, endereçado ao governador romano de sua província, ,nega as</p><p>antigas acusações feitas contra os cristãos, argumentando serem estes leais cida-</p><p>dãos do Império. Para ele, a perseguição é um fracasso geral porque os cristãos</p><p>aumentam quanto mais lhes perseguem as autoridades.2 Bem coerente com sua</p><p>educação jurídica, argumenta que o Estado está perseguindo a Igreja à base de</p><p>dúbios motivos legais, uma vez que as reuniões, as doutrinas e a moral dos cristãos</p><p>são superiores às de seus vizinhos pagãos.</p><p>Minúcio Félix, por volta do ano 200, escreveu um diálogo chamado Octavius. Esta</p><p>foi uma apologia destinada a levar seu amigo Cecílio à fé cristã, abandonando portanto</p><p>o paganismo.</p><p>Geralmente se diz que a tentativa de conseguir o beneplácito do mundo pagão</p><p>através ·de argumentos morais-racionais como estes resultou num sincretismo que</p><p>X</p><p>/</p><p>S</p><p>u</p><p>p</p><p>er</p><p>io</p><p>ri</p><p>d</p><p>ad</p><p>e</p><p>do</p><p>B</p><p>oa</p><p>s</p><p>q</p><p>u</p><p>al</p><p>id</p><p>ad</p><p>es</p><p>R</p><p>ef</p><p>u</p><p>ta</p><p>çã</p><p>o</p><p>d</p><p>e</p><p>C</p><p>ri</p><p>st</p><p>ia</p><p>n</p><p>is</p><p>m</p><p>o</p><p>,</p><p>e</p><p>g</p><p>p</p><p>o</p><p>fe</p><p>ci</p><p>a</p><p>do</p><p>s</p><p>cn</p><p>st</p><p>âo</p><p>s</p><p>id</p><p>o</p><p>la</p><p>tr</p><p>ia</p><p>e</p><p>d</p><p>em</p><p>an</p><p>d</p><p>am</p><p>t</p><p>o</p><p>le</p><p>râ</p><p>n</p><p>ci</p><p>a</p><p>im</p><p>o</p><p>ra</p><p>lid</p><p>ad</p><p>es</p><p>p</p><p>ag</p><p>ãs</p><p>8 í A L U T A D A A N T IG A IG R E JA C A T Ó L IC A IM P E</p><p>R IA L P A R A S O B R E V IV E R</p><p>E U D׳ E F E S A D A F I 8 9</p><p>fez do cristianismo apenas uma filosofia, embora superior. Ό fato é que. embora</p><p>sejam filosóficas na forma, as apologias são basicamente cristãs no conteúdo. Isto</p><p>pode ser visto até mesmo através de uma leitura rápida das obras desses homens. As</p><p>apologias são de grande valor para nós, pela luz que lançam sobre o pensamento</p><p>cristão em meados do segundo século. Se atingiram o propósito de seus autores, o</p><p>fim da perseguição da Igreja Cristã, é uma questão ainda em aberto.</p><p>II. OS POLEMISTAS</p><p>Diferentemente dos apologistas do segundo século que procuraram fazer uma</p><p>explanação e uma justificação racional do cristianismo para as autoridades, os</p><p>polemistas empenharam-se por responder ao desafio dos falsos ensinos dos heréti-</p><p>cos, condenando veementemente esses ensinos e seus mestres. Note-se a diferença</p><p>nos métodos usados pelos cristãos do Oriente e do Ocidente na solução dos proble-</p><p>mas da heresia e,na formulação teológica da verdade cristã. A mente oriental ocupou-</p><p>se com uma teologia especulativa e deu mais atenção aos problemas metafísicos; a</p><p>mente ocidental preocupou-se mais com os desvios administrativos da Igreja,</p><p>empenhando-se por formular uma sólida resposta prática a problemas desta esfera.</p><p>Os apologistas, recentemente convertidos׳ do paganismo, estiveram preocupa-</p><p>dos com a ameaça à segurança da Igreja, especialmente com a,perseguição; os</p><p>polemistas que tinham uma formação cultural cristã, preocuparam-se com a heresia,</p><p>a ameaça interna à paz e à pureza da Igreja. Os polemistas, ao contrário dos apologis-</p><p>tas״que se baseavam mais nas profecias do VelhoTestamento, serviram-se mais do</p><p>Novo Testamento como fonte da doutrina cristã. Os polemistas procuraram conde-</p><p>nar !pela força do argumento os falsos ensinos a que se opunham; os apologistas</p><p>procuraram explicar o cristianismo aos seus vizinhos e aos governantes pagãos. Os</p><p>Pais Apostólicos tinham como preocupação apenas edificar a Igreja Cristã. Observe</p><p>o diagrama da página 88.</p><p>A. Irineu, o Polemista Anti-gnóstico</p><p>Irineu (c. 130 - c. 200), nascido em Esmirna, fora influenciado pela pregação de</p><p>Policarpoquando este erabispo em Esmirna. Daí, Irineu foi paraaGália, ondefoifeito</p><p>bispo em 180. Bispo missionário bem sucedido, sua obra maior se desenvolveu no</p><p>campo da literatura polêmica contra o gnosticismo.</p><p>Sua obra, Adversus Haereses, uma tentativa de׳ refutar as doutrinas gnósticas</p><p>pelo uso das Escrituras e pelo desenvolvimento de um corpo de tradição afim, foi</p><p>escrita entre 182 e 188. O Livro I, que é fundamentalmente histórico, é a melhor fonte</p><p>de informação sobre os ensinos dos gnósticos. Era uma polêmica filosófica contra</p><p>Valentino (século II), 0 líder da corrente romana do gnosticismo. No Livro II, ele</p><p>insiste na unidade de Deus em oposição a idéia gnóstica de existência de um</p><p>demiurgo distinto de Deus. A abordagem evidentemente negativa dos dois primeiros li-</p><p>vros dá lugar nos três livros finais, a uma exposição positiva da posição cristã. O gnosti-</p><p>cismo é rejeitado pela Bíblia e pela tradição mais significativa, no Livro III; Marcion</p><p>é condenado no Livro IV pela citação das palavras de Cristo que se opõem às propostas</p><p>de Marcion; o ,livro final é a proposta de uma doutrina da Ressurreição, à qual se</p><p>opuseram os gnósticos, já que, segundo suas idéias, ela reúne o corpo material mau</p><p>com o espirito.</p><p>Note-se que no Livro III, Irineu dá ênfase à unidade orgânica da Igreja׳através da</p><p>9C A L U T A D A A N T IG A IG R E J A C A T Ó L IC A IM P E R IA L P A R A S O B R E V IV E R</p><p>sucessão apostólica3 de líderes desde Cristo e de uma regra de fé.4 Ele estava consciente</p><p>de que a unidade seria conseguida por uma Igreja bem constituída e que esta Igreja</p><p>resistiria facilmente as lisonjas das idéias heréticas e de seus mestres.</p><p>B. A Escola A lexandrina</p><p>No começo da segunda metade do século II, abriu-se em Alexandria uma escola</p><p>catequética para instruir os convertidos do paganismo ao Cristianismo. Seu primeiro</p><p>diretor foi Panteno, competente convertido vindo, segundo alguns, do Estoicismo.</p><p>Clemente e Orígenes foram os seus sucessores nesta influente escola de teologia</p><p>cristã. Os membros da escola alexandrina estavam ansiosos por desenvolver um</p><p>sistema teológico a partir do uso da filosofia que, segundo eles, era capaz de permitir</p><p>uma exposição sistemática do cristianismo. Educados na literatura e na filosofia</p><p>clássicas, pensaram que poderíam usá-las na formulação da teologia cristã.</p><p>Ao invés de enfatizarem uma interpretação histórico-gramatical da Bíblia, cria-</p><p>ram um sistema׳ alegórico de interpretação que ainda hoje assola o cristianismo. Este</p><p>tipo de interpretação baseia-se na suposição de que a Bíblia tem mais de um sentido.</p><p>Servindo-se da analogia do corpo, alma e espirito do homem, sustentavam que a</p><p>Bíblia tinha um sentido literal e histórico que correspondia ao corpo humano, um</p><p>sentido moral oculto que correspondia à alma e um sentido espiritual subjacente e</p><p>mais profundo que só os cristãos mais adiantados poderíam compreender. Este</p><p>sistema de interpretação surgiu da técnica usada por Filo, o judeu alexandrino, que</p><p>procurara aproximar o Judaísmo e a filosofia grega a fim de encontrar os sentidos</p><p>ocultos da língua do Velho Testamento que, por sua vez, seriam semelhantes à filosofia</p><p>grega. Mesmo estando preocupados com o sentido que o autor do texto queria dar</p><p>para aqueles que o estivessem lendo e com a sua aplicação prática às circunstâncias</p><p>presentes, os homens da escola alexandrina também estavam interessados nos</p><p>sentidos ocultos. Este método de interpretação tem feito muito mal à causa de</p><p>interpretação correta da Bíblia e gerado absurdos e, até, doutrinas teológicas anti-</p><p>bíblicas.</p><p>Clemente de Alexandria (c. 155 - c. 225). que não deve ser confundido com</p><p>Clemente de Roma, um dos Pais Apostólicos, nasceu em Atenas e era filho de pais</p><p>pagãos. Viajou muito e estudou׳ filosofia com muitos mestres antes de começar a</p><p>estudar com Panteno. Antes de 190, passou a dirigir a escola junto com Panteno,</p><p>de 190 a 202, dirigiu-a sozinho até que a perseguição o obrigou a deixar o posto.</p><p>Clemente tinha o ideal de um filósofo cristão como o seu objetivo. A filosofia</p><p>grega seria aproximada do cristianismo a fim de que se compreendesse que o</p><p>cristianismo era a filosofia superior e definitiva. Grande leitor da literatura pagã grega,</p><p>chegou a citar cerca de 500 autores em suas obras.</p><p>Seu Protrepticus ou Exortação aos Gentios é um documento missionário de</p><p>cunho apologético escrito por volta do ano 190 para provar a superioridade do</p><p>cristianismo como a verdadeira filosofia e assim levar os pagãos a aceitá-lo. Outra</p><p>obra sua, o Paedagogus ou Tutor, é um tratado moral de instrução para os jovens</p><p>cristãos. Cristo é apresentado como o verdadeiro mestre que deixou as regras para a</p><p>vida cristã. As Strom ata ou Seleções evidenciam o amplo conhecimento de Clemente</p><p>da Literatura pagã de seu tempo. No Livro I, o cristianismo é apresentado como o</p><p>verdadeiro conhecimento e o cristão como o verdadeiro gnóstico. Clemente cria que</p><p>a filosofia grega tomara o que havia de verdade nela do Velho Testamento e que era</p><p>uma preparação para o Evangelho.5 No Livro II, mostra que a moralidade cristã é</p><p>Í H D EFESA DA FÉ 9 1</p><p>superior à pagã. O Livro III é uma exposição sobre o casamento cristão. Nos livros VII</p><p>e VIII, que são os mais interessantes, ele descreve o modo de viver dos cristãos.</p><p>Sem dúvida alguma, Clemente tinha em alto apreço a sabedoria grega, mas uma</p><p>·eitura cuidadosa de suas obras deixará a impressão de que para ele a Bíblia está em</p><p>primeiro lugar na vida do cristão. Ao mesmo tempo, já que toda verdade pertence a</p><p>Deus, tudo o que houvesse de verdadeiro na sabedoria grega deveria ser empregado</p><p>no serviço de Deus. O perigo desta posição está em que se pode imperceptívelmente</p><p>sintetizar cristianismo e filosofia grega, passando-se a considerar o cristianismo</p><p>como um simples sincretismo de filosofia</p><p>de sua informação por meio de um</p><p>cuidadoso estudo do background e texto de seu material. Induções válidas podem</p><p>também ser desenvolvidas à medida que o estudioso vê padrões aparecerem objetiva-</p><p>mente em seu material.</p><p>O historiador que, dessa forma, procura respostas para as questões do quem?</p><p>que? e quando? ou onde? deve então considerar a pergunta pelo significado de seus</p><p>dados. Os gregos, que usaram a palavra historikos como outro termo para história, pen-</p><p>savam na história como sendo o produto da investigação. Isto sugere a interpreta-</p><p>ção como um quarto significado de história. Ela é a reconstrução subjetiva do</p><p>passado, à luz dos dados colhidos, dos pressupostos do historiador e do “clima da</p><p>opinião" do seu tempo, além do elemento da liberdade da vontade humana. Tal</p><p>reprodução nunca consegue contar totalmente 0 passado, porque uma vez que ela é</p><p>parcial, é sujeita a erros e pressuposições humanas. Um consenso acerca do</p><p>passado irá emergir, porém, à medida que um historiador examina 0 trabalho de</p><p>outro. Estudantes, em salas de aula, geralmente estudam este tipo de história. Embo-</p><p>ra a verdade absoluta acerca do passado possa ser objeto de frustração para o</p><p>historiador, ele irá, conforme seus dados permitirem, apresentar a verdade acerca do</p><p>passado de um modo objetivo e imparcial.</p><p>Desta discussão 0 estudante deverá ficar cônscio de que história pode ser evento</p><p>ou acontecimento, pesquisa ou processo e produto, ou interpretação. A história,</p><p>como evento, é absoluta, ocorrendo somente uma vez no tempo e espaço; mas</p><p>história como informação, pesquisa e interpretação, é relativa e sujeita a mudança. A</p><p>história pode ser definida como o relato interpretado do passado humano socialmen-</p><p>te importante, baseado em dados organizados e reunidos pelo método científico a</p><p>partir de fontes arqueológicas, literárias ou vivas. O historiador da Igreja deve ser tão</p><p>imparcial na coleta de dados da história quanto o historiador secular, muito embora</p><p>reconheça que ninguém pode ser neutro diante dos dados, uma vez que cada um</p><p>tratará do material com uma estrutura própria de interpretação.</p><p>A história da Igreja, portanto, é o relato interpretado da origem, progresso e</p><p>impacto do cristianismo sobre a sociedade humana, baseado em dados organizados</p><p>e reunidos pelo método cientifico a partir de fontes arqueológicas, documentais ou</p><p>vivas Ela é a história interpretada e organizada da redenção do homem e da terra.</p><p>Somente se esta definição for observada é que o estudante cristão de história poderá</p><p>fazer um relato cuidadoso da história da Fé que ele professa. Neste ponto, os filhos da</p><p>luz não podem ficar atrás dos filhos das trevas. Deus é transcedente em relação à</p><p>criação, mas imanente na história e na redenção.</p><p>II. A PRODUÇÃO DE UMA HISTÓRIA DA IGREJA</p><p>A. O Elemento Cientifico.</p><p>A história da Igreja terá um elemento cientifico na medida em que o historiador</p><p>INTRODUÇÃO 1s</p><p>eclesiástico usar o método científico. O historiador usa o labor cientifico do arqueólo-</p><p>go, que revela os dados remanescentes do passado que desencavou. O estudo da</p><p>arte das catacumbas de Roma tem nos ensinado muito sobre a Igreja primitiva.</p><p>O autor de uma história da Igreja precisará ainda usar as técnicas da crítica</p><p>literária para avaliar os documentos da história da Igreja. Ele terá que privilegiar as</p><p>fontes originais, sejam elas levantadas pelo arqueólogo, mostradas pelos documen-</p><p>tos ou contadas por testemunhas oculares. Todo este material, convenientemente</p><p>avaliado, informa acerca das questões vitais do método histórico: que, quem, quando</p><p>e onde. As duas últimas questões são importantes para o historiador porque os</p><p>eventos históricos são condicionados pelo tempo e pelo espaço.</p><p>O trabalho do historiador é científico em relação ao método, mas não resultará</p><p>em ciência exata porque sua informação acerca dos acontecimentos do passado</p><p>pode ser incompleta ou falsa, lida à luz de seus próprios pressupostos e pelos de seu</p><p>tempo e afetados pelos grandes homens. Ele é também um agente livre que é parte de</p><p>seus dados. Deus como um ator na história inviabiliza a idéia de história como uma</p><p>ciência exata.</p><p>B. O Elemento Filosófico.</p><p>Os historiadores se dividem em escolas de histórias e filosofias da história</p><p>conforme eles procuram significado na história. A reivindicação antiga era achar</p><p>causação objetiva e científica no homem, natureza ou processo no tempo; mas os</p><p>racionalistas posteriores procuram relacionar os dados a um ultimato ou absoluto</p><p>sem tempo.</p><p>Geógrafos e economistas deterministas, juntamente com biógrafos constituem</p><p>três das mais importantes escolas de história. William W. Sweet, da escola pioneira de</p><p>interpretação da história da igreja, em seus livros sobre a história da igreja americana</p><p>fez da geografia o fator determinante. A obra de Carlyle sobre Cromwell ilustra a</p><p>escola biográfica ou “grandes homens" de história, quando ele tornou a Guerra Civil</p><p>Inglesa de meados do século XVI uma reflexão de Cromwell. A Ética Protestante e o</p><p>Espírito do Capitalismo, de Max Weber, na qual ele alega que o protestantismo levou</p><p>ao surgimento do Capitalismo, é um exemplo da escola econômica de interpretação.1</p><p>Tais intérpretes da história olham para as respostas à história no homem, natureza ou</p><p>processo.</p><p>Filosofias da história podem ser melhor consideradas sob três categorias:</p><p>1. Um grupo pode ser chamado de pessimista. Estudando apenas a história</p><p>“debaixo do sol", estes historiadores adotam uma interpretação materialista da reali-</p><p>dade, obcecados que estão com o fracasso do homem na história.</p><p>"A Decadência do Ocidente", (The Decline of the West) de Oswald Spengler</p><p>(1880-1936), ilustra bem este tipo de interpretação. Spengler interessava-se mais</p><p>pelas civilizações do que pelas nações. Cada civilização, dizia ele, passa por um ciclo</p><p>de nascimento, adolescência, maturidade, decadência e morte. A civilização ociden-</p><p>tal, a mais nova das civilizações, está em seu período de decadência. Morrerá logo e,</p><p>com ela, morrerá também o cristianismo. Obcecados com a idéia de fracasso do</p><p>homem, pensadores como Spengler não vêem qualquer progresso na história. Suas</p><p>interpretações podem ser simbolizadas por uma série de ciclos idênticos superpostos</p><p>um ao outro, onde o Tempo é cíclico.2</p><p>2. Um segundo grupo pode ser classificado de otimista. Sua leitura da história</p><p>pode ser simbolizada por um gráfico ascendente ou por níveis crescentes de uma</p><p>espiral. A maioria dos intérpretes otimistas é humanista: vêem, pois, o homem</p><p>16 D C R IS T IA N IS M O A T R A V É S D O S S É C U LO S</p><p>como o fator determinante principal da história. Em geral aceitam a evolução biológi-</p><p>ca e social e vêem o Tempo como linear.</p><p>A obra de Arnold J. Toynbee (1889-1975), um importante filósofo contemporâ-</p><p>neo da história, ilustra este tipo de interpretação. Toynbee concorda com.Spengler</p><p>acerca da importância de se estudar a história das civilizações. Contrariamente,</p><p>porém, cria que toda civilização marcha para uma meta: uma terra que seja uma</p><p>província do Reino de Deus. A despeito de sua abordagem claramente espiritual da</p><p>história, ele aceitava a crítica bíblica contemporânea e a teoria da evolução.</p><p>Outro otimista, Georg Wilhelm Friedrich Hegel (17701831־), o famoso filósofo</p><p>alemão do século XIX, via a história como o desdobramento do Espirito Absoluto no</p><p>desenvolvimento da liberdade humana. O progresso acontece por um processo em</p><p>que séries sucessivas de contradições se reconciliam até que o Absoluto se manifeste</p><p>plenamente na história.</p><p>Outro pensador do século XIX, Karl Marx (18181883־), também pertence à</p><p>cetegoria dos otimistas. Apropriando־se da lógica de Hegel, ele rejeitou a interpreta-</p><p>ção que este fazia da realidade. Marx propôs que a matéria em movimento é a única</p><p>realidade e que todas as instituições humanas, inclusive a religião, são determinadas</p><p>pelos processos econômicos de produção. Para ele, uma série de lutas de classe</p><p>culminaria na vitória dos operários e no estabelecimento de uma sociedade sem</p><p>classes.</p><p>grega e teologia bíblica.</p><p>Orígenes (c. 185-254), aluno de Clemente, foi seu sucessor na direção da escola.</p><p>Com o martírio de seu pai, Leônidas, teve Orígenes, aos 16 anos, de assumir a</p><p>responsabilidade de uma família de seis membros. Segundo um relato, quiz ser</p><p>martirizado com seu pai, mas sua mãe escondeu suas roupas para que ele fosse</p><p>obrigado a ficar em casa. Ele era tão competente que em 203, aos 18 anos, foi</p><p>escolhido para suceder Clemente na direção da escola, cargo que ocupou até 231.</p><p>Um homem rico, chamado Ambrósio, que ele convertera do gnosticismo, tornou-se</p><p>seu amigo e se responsabilizou pela publicação de suas muitas obras. Segundo uma</p><p>estimativa, Orígenes foi o autor de seis mil pergaminhos. Apesar de sua posição</p><p>elevada e de seu rico amigo, Orígenes levou uma vida ascética simples que incluía, por</p><p>exemplo, dormir numa tábua nua.6</p><p>Orígenes pode ser comparado com Agostinho no significado de sua obra. Os</p><p>primórdios da crítica textual da Bíblia podem ser encontrados na Hexapla em que</p><p>,arias versões hebraicas e gregas do Velho Testamento são arrumadas em colunas</p><p>paralelas.7 Nesta obra, Orígenes procurou estabelecer o texto que os cristãos podiam</p><p>tomar com certeza como representando corretamente o original. Este interesse pelo</p><p>texto levou-o a realizar uma obra mais exegética só igualada com a Reforma. Outra</p><p>obra sua, Contra Celso, é uma resposta às acusações que Celso, um platonista, fizera</p><p>contra os cristãos. Orígenes trata das acusações de irracionalidade dos cristãos e</p><p>falta de fundamentos históricos definidos feitas por Celso, contrapondo a mudança de</p><p>vida que o cristianismo produz ao contrário do paganismo, a constante procura da</p><p>verdade pelos cristãos e a pureza e a influência de Cristo, o líder dos cristãos, e Seus</p><p>seguidores.</p><p>Possivelmente a maior contribuição de Orígenes à literatura cristã tenha sido sua</p><p>obra intitulada De Principiis (230), que chegou até nós apenas numa versão latina</p><p>feita por Rufino. Esta obra é o primeiro grande tratado cristão de teologia sistemática.</p><p>No livro IV desta obra, Orígenes desenvolve detalhadamente seu sistema alegórico de</p><p>interpretação. Infelizmente, embora cresse que Cristo foi ,‘eternamente gerado" pelo</p><p>Pai, ele pensou de Cristo como subordinado ao Pai. Sustentou também a preexistên-</p><p>cia da alma, a restauração final de todos os espíritos, a morte de Cristo como um</p><p>resgate pago à Satanás e negou a ressurreição física.</p><p>C. A Escola Cartaginesa</p><p>A mente ocidental ou latina estava mais interessada nos problemas práticos da</p><p>organização eclesiástica e da teologia, do que numa teologia do tipo especulativo que</p><p>tanto motivou estudiosos do porte de Orígenes, por exemplo. A diferença de ponto de</p><p>vista fica logo evidente quando se contrapõe a obra de um Orígenes com a de</p><p>Tertuliano e Cipriano no norte da Africa.</p><p>Tertuliano escreveu muito e bem, a despeito de ter sido intolerante em muitos</p><p>aspectos. Seu Apologeticum, em que defende os cristãos das falsas acusações e da</p><p>perseguição, já foi discutido aqui (ver página 87). Escreveu também sobre assuntos</p><p>práticos e apologéticos. Em !panfletos especiais, exortou a simplicidade da mulher no</p><p>vestuário e no adorno, propondo que os cristãos deviam se separar dos divertimen-</p><p>tos, da imoralidade e da idolatria próprios do paganismo. Estes livros de cunho</p><p>prático parecem ser as consequências do seu pwritanismo montanista.</p><p>É em sua obra como teólogo, entretanto, que reside sua maior contribuição.</p><p>Fundador da teologia latina, foi o primeiro a estabelecer no seu Adversus Praxeas. de</p><p>215, a doutrina teológica da Trindade e fazer uso deste termo para descrever a</p><p>doutrina. Parece destacar que pode se fazer uma diferença entre as pessoas do Pai e do</p><p>Filho. Em De Anima, cujo cerne é o problema da alma, ele defende a doutrina</p><p>traducionista da transmissão da alma dos pais para o filho num processo de reprodu-</p><p>ção. O rito do batismo vai ser sua preocupação em De Baptismate, onde afirma que os</p><p>pecados cometidos depois do batismo eram todos pecados mortais.</p><p>Cipriano era filho de pais pagãos e nasceu logo no começo do século III, na</p><p>mesma cidade de Tertuliano, tendo recebido uma boa educação em retórica e direito.</p><p>Embora tenha se tornado um bem-sucedido professor de retórica, ele só encontrou</p><p>satisfação para sua alma ansiosa quando se fez cristão por volta de 246. Menos de</p><p>cinco anos depois, foi feito bispo de Cartago, posição em que permaneceu por nove</p><p>anos até ser martirizado, em 258. Cipriano se notabilizou como um grande organiza-</p><p>dor e administrador. Opôs-se às reivindicações de Estevão, bispo de Roma, de</p><p>superioridade sobre todos os bispos.</p><p>Embora considerasse Tertuliano como seu mestre, de acordo com a informação</p><p>de Jeronimo, ele era calmo ao passo que Tertuliano era exaltado. Sua obra mais</p><p>importante foi o De Unitate Catholicae Ecclesiae ("A Unidade da Igreja- Católica”),</p><p>dirigida aos seguidores separatistas de Novaciano, que pareciam interessados na</p><p>destruição da unidade da Igreja. Cipriano faz uma clara distinção entre-bispo e</p><p>presbítero, colocando o bispo como centro da unidade na Igreja e a garantia contra o</p><p>divisionismo. Conquanto não afirmasse a supremacia da autoridade episcopal de</p><p>Pedro em! Roma, Cipriano aceita a primazia de Pedro ao traçar a linha de sucessão</p><p>apostólica desde os princípios da história da Igreja. !Pode-se, então dizer que Tertúlia-</p><p>no ajudou a formular a doutrina da Trindade e criou 0 nome desta doutrina e, também,</p><p>que Cipriano fez a primeira formulação das doutrinas da sucessão apostólica e da</p><p>primazia do bispo romano na Igreja.</p><p>Cipriano considerava os clérigos como sacerdotes do sacrifício, ao consagrarem</p><p>o corpo e o sangue de Cristo na Ceia Cristã.® Esta idéia, mais tarde, foi desenvolvida</p><p>no conceito da transubstanciação.</p><p>9 2 A L U T A D A A N T I G A IG R E J A C A T Ó L IC A I M P E R IA L P A R A S O B R E V IV E R</p><p>A LUTA DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA</p><p>IMPERIAL PARA SOBREVIVER. 100-313</p><p>CAPÍTULO 10</p><p>A IGREJA CERRA FILEIRAS</p><p>Foi no período entre 100 e 313 que a Igreja se viu forçada a pensar na melhor</p><p>maneira pela qual poderia enfrentar a perseguição externa do estado romano e o</p><p>problema interno do ensino herético e das conseqüentes divisões. Ela procurou</p><p>cerrar ■fileiras através de três procedimentos: o desenvolvimento de um cânon do</p><p>Novo Testamento, que resultou num livro que seria autoridade para a fé e para a vida:</p><p>a criação de um credo, que forneceu uma declaração de· fé também abalizada, e a</p><p>obediência aos bispos monárquicos, entre os quais o de Roma tomou logo a lideran-</p><p>ça. O bispo era uma espécie de garantia da unidade na constituição da ■Igreja.</p><p>Polemistas também se engajaram na controvérsia com heréticos. Por volta· de 170, a</p><p>Igreja chamava-se a “católica" ou universal, um termo usado !pela primeira vez por</p><p>Inácio em sua epístola a Esmirna. (cap. 8).</p><p>I. O BISPO MONÁRQUICO</p><p>Necessidades práticas e teóricas levaram à exaltação da posição do bispo em</p><p>cada igreja, chegando ao ponto de as pessoas o virem e o reconhecerem como</p><p>superior aos outros presbíteros aos quais seu ofício׳ fora relacionado em tempos do</p><p>Novo Testamento. A necessidade de uma liderança para enfrentar os problemas da</p><p>perseguição e da !heresia foi uma necessidade ,prática que acabou por ditar o</p><p>aumento do poder do bispo.״O desenvolvimento da doutrina da sucessão apostólica e</p><p>a crescente exaltação da Geia do Senhor foram fatores fundamentais neste aumento</p><p>de poder. Foi mais um pequeno passo para o reconhecimento de que os bispos .</p><p>monárquicos de algumas igrejas eram superiores aos outros. A elevação do bispo</p><p>monárquico em meados do segundo século originou o reconhecimento da honra</p><p>especial devida ao bispo monárquico da igreja em Roma.</p><p>Muitas ■outras circunstâncias aumentaram ainda mais o prestígio do bispo de</p><p>Roma. O argumento inicial e mais importante, apresentado desde cedo na história da</p><p>Igreja, foi o de que Cristo deu a Pedro, presumivelmente o primeiro bispo de Roma,</p><p>uma posição de primazia entre os apóstolos</p><p>em função da suposta designação de</p><p>Pedro como a rocha sobre a qual edificaria a Sua Igreja (Mt. 16:18). Segundo Mateus</p><p>9 3</p><p>9 4 A L U T A ,DA A N T I G A IG R E J A C A T Ó L IC A I M P E R I A L P A R A S O B R E V I V E R</p><p>16:19, Cristo deu também a Pedro as chaves do reino dos céus e depois 0 comissionou</p><p>especialmente para apascentar Seu rebanho (Jo. 21: 15-19). Deve-se ter em mente</p><p>que, na narrativa de Mateus, Cristo usa duas palavras para rocha, não se especifican-</p><p>do se a rocha sobre a qual disse que ׳edificaria a Sua Igreja era Pedro. Cristo chamou</p><p>Pedro de petros ou pedra, mas ele estava falando da rocha sobre a qual edificaria a</p><p>Sua Igreja como petra, uma rocha viva. A palavra “pedra”, aplicada a Pedro, é de</p><p>gênero masculino, mas a palavra “rocha”, sobre a qual Cristo disse que edificaria a</p><p>Sua Igreja é feminina. Há boa razão para se crer que a interpretação correta é que</p><p>Cristo estava, com a palavra "rocha", se referindo à confissão petrina de Jesus como</p><p>sendo "o Cristo, o Filho do Deus vivo".</p><p>Deve-se lembrar ainda que Cristo disse que Pedro 0 abandonaria na crise do</p><p>jardim, que Satanás o derrotaria (Lc. 22:31-32) e que Cristo teve que exortá-lo a cuidar</p><p>do Seu rebanho após a ressurreição e até de perdoá-lo por O ter traído. Acrescente-</p><p>se, ademais, que os poderes semelhantes aos mencionados em conexão com Pedro</p><p>em Mateus 16:19׳foram também conferidos aos outros apóstolos (Jo. 20:19-23).</p><p>Pedro mesmo em sua primeira carta deixa cristalinamente claro que. não ele, mas</p><p>Cristo era o fundamento da Igreja (I Pe. 2:6-8). Paulo não concebia Pedro como tendo</p><p>posição de superioridade, tanto que não hesitou em repreendê-lo quando este con-</p><p>temporizou e cooperou com os judaizantes na Galácia.</p><p>Apesar destes fatos, a Igreja Romana insiste desde tempos antigos que Cristo</p><p>deu a Pedro um lugar especial de primeiro bispo de Roma e de líder dos apóstolos.</p><p>Cipriano contribuiu muito para a sedimentação desta idéia ao afirmar a superioridade</p><p>da sé romana sobre os outros Hugares eclesiásticos de autoridade 1</p><p>Maior prestígio adviria ao bispo romano por Roma estar ligada a muitas tradições</p><p>apostólicas. Pedro e Paulo sofreram em Roma o martírio por causa de sua fé. Como</p><p>os dois eram os líderes principais da igreja primitiva, não é de se admirar que a igreja e</p><p>o bispo de Roma tivessem um prestigio maior. A igreja em Roma fora 0 centro da</p><p>primitiva perseguição pelo estado romano movida por Nero em 64. A mais longa e</p><p>talvez a mais importante das epístolas de Paulo foi dirigida a esta igreja. Das igrejas</p><p>cristãs, ela era, por volta do ano 100, uma das maiores e uma das mais ricas. O</p><p>prestígio histórico de Roma como a capital do Império levou a uma natural elevação</p><p>da posição da igreja da capital. Tinha ela a reputação por sua firme ortodoxia na luta</p><p>contra a heresia e as divisões. Clemente, um dos primeiros lideres da igreja, não</p><p>escreveu à igreja em Corinto para exortá-la a uma unidade centralizada na pessoa do</p><p>bispo? Muitos Pais da Igreja Ocidental, como Clemente, Inácio, Irineu e Cipriano,</p><p>destacaram a importância da posição do bispo e, no caso de Cipriano, do bispo de</p><p>Roma. Embora todos os bispos fossem iguais, honra especial deveria ser dada ao</p><p>bispo romano encarregado da cadeira de São Pedro. Embora todos os bispos estives-</p><p>sem numa linha de sucessão apostólica dos bispos desde 0 próprio Cristo, Roma</p><p>merecia honra especial, porque, cria-se, seu bispo continuava a linha sucessória</p><p>desde Pedro.</p><p>Recorde-se que alguns dos cinco bispos mais importantes da Igreja perderam</p><p>seu cetro de autoridade por várias razões. A partir de 135, com a destruição de</p><p>Jerusalém pelos romanos, o bispo de Jerusalém ■deixou de ser contado como um rival</p><p>do bispo de ■Roma. O bispo de Éfeso perdeu prestígio quando a Ásia foi sacudida pelo</p><p>cisma montanista no segundo século e quando 0׳ bispo de Roma, ao findar do século,</p><p>excomungou o bispo de Éfeso e as igrejas da Ásia.</p><p>Ao final do período, três coisas sobre a Igreja Católica Antiga tinham se tornado</p><p>A IG R E J A C E R R A F IL E IR A S 9 5</p><p>claras realidades. Foi aceita a doutrina da sucessão apostólica, que relacionava todos</p><p>os bispos a uma ininterrupta ligação com Cristo através dos apóstolos; em cada igreja</p><p>um bispo se elevava acima dos !presbíteros como bispo monárquico. O bispo romano</p><p>passou a ser reconhecido como o primeiro entre os iguais devido à importância do</p><p>peso da tradição relacionada a sua cadeira. Esta primazia foi depois desenvolvida</p><p>para uma supremacia do bispo romano como Papa da Igreja. Sucessão apostólica na</p><p>hierarquia, como uma garantia contra o cisma e para promover unidade, foi desenvol-</p><p>vida por Clemente, Inácio e Irineu. A hierarquia conforme Inácio e Irineu, seria a</p><p>melhor defesa contra a heresia e promovería a verdadeira doutrina.</p><p>II. O DESENVOLVIMENTO DA REGRA DE FÉ</p><p>O papel do׳ bispo como uma garantia da unidade da Igreja foi reforçado pelo</p><p>desenvolvimento de um credo. Um credo é uma declaração de féipara uso público;</p><p>contém artigos indispensáveis à manutenção e ao bem estar teológico da igreja. Os</p><p>credos têm sido usados para testar a ortodoxia, identificar os crentes entre si e servir</p><p>como um resumo claro das doutrinas essenciais da fé. Pressupõe uma fé viva da qual</p><p>são a expressão intelectual. Os credos denominacionais surgiram depois da reforma.</p><p>Os credos conciliares ou universais elaborados por representantes de toda a igreja,</p><p>surgiram no período da controvérsia teológica, entre 313 e 451. O primeiro tipo de</p><p>credo foi o credo batismal de que o Credo dos Apóstolos pode servir como exemplo.־</p><p>Deve-se ter sempre em mente que os credos são expressões relativas e limitadas da</p><p>regra divina e absoluta de fé e prática contida na Bíblia. Textos bíblicos que favore-</p><p>cem a idéia de um credo são encontrados em. Romanos 10:9-10; I Conntios 15:4; I</p><p>Timóteo 3:16.</p><p>Irineu e Tertuliano desenvolveram Regras de Fé para serem usadas na distinção</p><p>entre Cristianismo e Gnosticismo. Elas eram sumários das principais doutrinas bíbli-</p><p>cas.3</p><p>O Credo dos Apóstolos é o mais antigo sumário das doutrinas essenciais da</p><p>Escritura que possuímos. Alguns pensam que 0 Credo dos Apóstolos surgiu da</p><p>declaração abreviada de Pedro sobre Cristo em Mateus 16:16 e que foi 1 sado como</p><p>fórmula batismal desde cedo. A fórmula mais antiga, semelhante à usad׳׳! por Rufino,</p><p>cerca do ano 400, apareceu em Roma por volta de 340. Este credo, claramente</p><p>trinitariano, dá atenção à pessoa e à obra de cada uma das três pessoas da Trindade.</p><p>Destaca a natureza universal da igreja e, depois de fundamentarem Cristo a salvação,</p><p>apresenta uma escatologia explícita centralizada na ressurreição dos crentes e nos</p><p>seus alvos de vida eterna. Muitas igrejas até hoje consideram o Credo dos Apóstolos</p><p>como uma preciosa síntese dos pontos principais da fé cristã.</p><p>III. O CÁNON DO NOVO TESTAMENTO</p><p>O cãnon, lista dos volumes pertencentes a um livro autorizado, surgiu como um</p><p>reforço à garantia da unidade centralizada סח bispo e à fé expressa num credo. As</p><p>pessoas, equivocadamente, supõem que o cãnon é uma lista de livros sagrados</p><p>vindos diretamente dos céus ou. ao contrário, imaginam que o cãnon foi estabelecido</p><p>pelos concilios eclesiásticos. Não foi assim, pois os vários concílios que se pronuncia-</p><p>ram sobre o problema do cãnon do Novo Testamento apenas os tornavam públicos,</p><p>porque, como ainda se verá. tinham já sido aceitos amplamente pela consciência da</p><p>9 E A ' L U T A D A A N T I G A IG R E J A C A T Ó L IC A I M P E R I A L P A R A S O B R E V I V E R</p><p>Igreja. O desenvolvimento do cânon foi um processo demorado, basicamente encer-</p><p>rado em 175, exceto para o caso de uns poucos livros cuja autoria era ainda discutida.</p><p>Algumas razões de ordem prática tornaram necessário que a igreja desenvolves-</p><p>se a relação de livros que deveríam compor o Novo Testamento. Heréticos, como</p><p>Márcion estavam formando seu próprio cânon das Escrituras e estavam levando o</p><p>povo ao erro. Os cristãos perseguidos não estavam dispostos a arriscar</p><p>suas vidas por</p><p>um livro se não estivessem! certos de que ele integrava o cânon das Escrituras. Como</p><p>os apóstolos estavam saindo de cena, havia necessidade de alguns registros que</p><p>seriam reconhecidos como autorizados e dignos de uso na adoração.</p><p>0 maior teste do direito de um livro estar no cânon era se ele tinha os sinais da ׳</p><p>apostolicidade. Era ele escrito por um apóstolo ou por alguém ligado intimamente</p><p>aos apóstolos, como Marcos, o autor do Evangelho de Marcos que contou com a</p><p>ajuda do apóstolo Pedro? A eficácia do livro na edificação quando lido publicamente</p><p>e sua concordância com a regra de fé serviam de testes também. Na análise final, o</p><p>que contava para a decisão sobre que livros deviam ser considerados canônicos e</p><p>dignos de serem incluídos no NT era a verificação histórica de autoria ■ou influencia</p><p>apostólica ou a consciência universal da igreja dirigida pelo Espirito Santo.</p><p>Aparentemente as epístolas de Paulo foram primeiro reunidas pelos líderes da</p><p>I q rei a de Éfeso. Esta coleção foi seguida pela coleção dos Evangelhos já no começo</p><p>do segundo século. O Cânon Muratoriano, descoberto por Ludovico Muratori</p><p>(1672-1750) na Biblística Ambrosiana de Milão, foi datado de 180. Nele considera-</p><p>ram-se canônicos vinte e dois livros do NT. Eusébio relata que em c. 324, pelo me-</p><p>nos vinte livros do NT eram tão aceitos quanto os do VT. Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 Joao,</p><p>Judas, Hebreus e ·Apocalipse estavam entre os livros cujo lugar no cânon era ainda</p><p>discutido.4 A demora da inclusão destes, livros deveu-se, sobretudo, à incerteza de</p><p>sua autoria. Atanásio, porém, em sua carta de 367 às igrejas sob sua jurisdição co-</p><p>mo bispo de Alexandria relacionou os mesmos 27 livros do NT atual. Concilios pos-</p><p>teriores. como 0 de Calcedônia em 451, apenas aprovaram e deram uma expressão</p><p>uniforme àquilo que já era um fato geralmente aceito pela igreja por um bom perío-</p><p>do de tempo. A demora com que a igreja aceitou Hebreus e Apocalipse como canó-</p><p>nicos indica 0 cuidado e a atenção que ela dispensou a este problema.</p><p>IV. A LITURGIA</p><p>A ênfase sobre o bispo monárquico que, como se cria, derivava a sua autoridade</p><p>da sucessão apostólica, levou muitos a verem nele o centro da unidade, 0 depositario</p><p>da verdade e o dispenseiro dós meios da graça de Deus através dos sacramentos.</p><p>Muitos convertidos vindos das religiões de mistério também contribuíram para 0</p><p>desenvolvimento do conceito da separação do clero dos leigos, ao destacarem a</p><p>santidade da posição do bispo. A Ceia do Senhor e o Batismo tornaram-se ritos que</p><p>somente poderíam ser dirigidos por um ministro credenciado. Ao se desenvolver a</p><p>idéia da Ceia como um sacrifício a Deus, fortaleceu-se a santidade superior do bispo</p><p>comparado com os membros comuns da igreja. O batismo como ato de iniciação à</p><p>Igreja Cristã tinha lugar geralmente na Páscoa ou Pentecoste. Parece que, de inicio, a</p><p>fé em Cristo e o desejo de ser batizado eram os únicos requisitos, mas, ao final do</p><p>segundo século, acrescentou-se um periodo probatório como catecúmeno a fim de</p><p>provar a realidade da experiência do convertido. !Neste periodo de provação, os</p><p>cateeúmenos assistiam aos cultos no vestibulo final do templo e não podiam cultuar</p><p>I</p><p>A IGREJA CERRA FILEIRAS :</p><p>santuário סח . O ba tism o em gera l era por im ersão; ás vezes, por afusâo ou aspersãc</p><p>O ba tism o in fan til, que Tertu liano c riticava e C ip riano apoiava, e 0 batismo clínicc</p><p>(de doentes) surg iram neste período. A igreja logo cercou os sacram entos da ceia dc</p><p>Senhor e do ba tism o com exigências e ritos que só 0 sacertode podia executar.</p><p>Escavações em Dura Europo revelam uma casa particular que foi colocada a uso de uma</p><p>congregação cristã A pequena sala mostrada aqui está סח Museu de Arte da Universidade</p><p>Yale O principal aspecto da cena atrás do batistérioé Jesus. 0 Bom Pastor com um rebanho de</p><p>ovelhas Dura Europo foi destruída em 258. assim, esta igreja residencial antecede essa data</p><p>O surgimento de um ciclo de festas no ano eclesiástico é também deste período.</p><p>A Páscoa, nascida da aplicação da Páscoa judaica à ressurreição de Cristo, parece ter</p><p>sido a primeira destas festas. Só depois de 350, o Natal foi aceito como uma festa</p><p>cristã e, então purificado dos elementos pagãos que o compunham. A quaresma, um</p><p>período de 40 dias, anteriores a Páscoa, de penitência e contenção dos apetites da</p><p>carne, foi aceita como parte do ciclo litúrgico das Igrejas depois da adoção do Natal.</p><p>Ao tempo da perseguição encerrada em 313, os cristãos se reuniam nas catacum-</p><p>bas em Roma, onde, além de realizarem os cultos a Deus, também enterravam seus</p><p>mortos. Estas catacumbas tinham quilômetros de passagens subterrâneas localiza-</p><p>das de seis a 15 metros abaixo da terra. Vestígios de arte cristã, como símbolos de</p><p>peixes, pombas e quadros relativos ao cristianismo, foram encontrados em algumas</p><p>destas tumbas.״</p><p>Elas foram redescobertas em 1578. O mais antigo edifício conhecido usado</p><p>como templo é uma casa-igreja em Dura-Europos. datada de 232 aproximadamente,</p><p>que foi escavada por uma expedição da Universidade de Yale,</p><p>Ao final do periodo, os cristãos começaram a construir igrejas modeladas a partir</p><p>da basílica romana. A basílica era uma construção retangular com um pórtico ou</p><p>98 A lU T A DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA IMPERIAL PARA SOBREVIVER</p><p>vestibulo na parte da frente onde os catecúmenos cultuavam, um abside na parte final</p><p>onde ficavam colocados o altar e a cadeira episcopal e uma longa nave central com</p><p>colunas em ambos os lados. Neste período estes templos geralmente se caracteriza-</p><p>vam por uma grande simplicidade; o esplendor que ostentariam depois de 313 só</p><p>começou quando passou a contar com os favores do estado.</p><p>Os pagãos continuavam considerando os fiéis das igrejas ou das catacumbas</p><p>como indivíduos anti-sociais, isto porque os cristãos, exortados por autores como</p><p>Tertuliano, evitavam os divertimentos mundanos de então e se recusavam a se</p><p>envolver em política. Fora disto, os cristãos estavam dispostos a tomar parte na</p><p>sociedade desde que pudessem fazê-lo sem precisar negar ao seu Senhor. O seu</p><p>amor um pelo outro, revelado por uma vida familiar honesta e feliz e por gestos de</p><p>filantropia para com os. necessitados, impressionaram seus vizinhos pagãos. Depois</p><p>de perceberem que não poderíam aniquilar 0 cristianismo, os imperadores com-</p><p>preenderam que tinham de buscar a paz com ele. Apesar dos problemas externos,</p><p>criados pela perseguição pelo Estado, e da ameaça de dissenssão e divisão por causa</p><p>da״'heresia, a Igreja a tudo superoucom galhardia, Sua estreita associação com 0 estado</p><p>romano no período compreendido entre 313 e 590 causou-lhe mais problemas do que a</p><p>perseguição.</p><p>A SUPREMACIA DA ANTIGA</p><p>IGREJA CATÓLICA IMPERIAL</p><p>c a p it u l o n</p><p>A IG R E JA E N F R E N T A O IM P É R IO E O S</p><p>B Á R B A R O S</p><p>No período compreendido entre 375 e 1066, conhecido como Idadedas Trevas,</p><p>em que as tribos bárbaras teutônicas afluiram em massa para a Europa Ocidental, a</p><p>Igreja enfrentou! um duplo problema, O declínio do Império Romano impôs-lhe a</p><p>tarefa de, como “sal", conservar a cultura heleno-hebraica, a qual estava ameaçada</p><p>de !destruição. Os mosteiros, onde os manuscritos eram cuidadosamente conserva-</p><p>dos e copiados, tiveram um importante papel no cumprimento desta função. Sua ta-</p><p>refa como “luz" era levar 0 evangelho aos povos que formavam os contingentes de</p><p>nômades bárbaros. Nisto ela foi bem sucedida, conseguindo, através do empenho</p><p>dos monges missionários, conquistar as tribos para a fé cristã. Todavia, durante o</p><p>processo de conservar a cultura e converter os bárbaros, a Igreja perdeu muito de</p><p>sua força espiritual, em parte devido à secularização e à ingerência do Estado em</p><p>seus negócios. O desenvolvimento !institucional e a doutrina foram negativamente</p><p>afetados.</p><p>I. A IGREJA E O ESTADO</p><p>Para se compreender as relações entre a Igreja e o Estado após a concessão de</p><p>liberdade de religião por Constantino, é necessário prestar atenção aos problemas</p><p>políticos enfrentados</p><p>pelo imperador nesta época. A anarquia do século da revolu-</p><p>ção, que arruinou a república romana entre 133 e 31 a.C.. terminou mediante o</p><p>poderoso principado criado por Augusto após destruir o exército de Antônio. Este</p><p>principado, no qual 0 imperador como príncipe dividia o poder com o senado,</p><p>mostrou-se também fraco para superar o desafio do declínio interno e da presença</p><p>dos bárbaros nas fronteiras do império; ademais, a prosperidade e a paz do primeiro</p><p>período do principado foram seguidas por um outro século de revolução, entre 192 e</p><p>284. Em 285, Diocleciano reorganizou o Império em bases mais autocráticas, toma-</p><p>das de empréstimo dos despotismos orientais, numa tentativa de garantir a cultura</p><p>greco-romana. Como 0 cristianismo parecia ameaçar esta cultura, Diocleciano fez</p><p>uma fracassada tentativa de destruí-lo entre 303 e 305. Mais astuto, Constantino, seu</p><p>9 9</p><p>10 0 A SUPREMACIA OA A M IG A IGREJA CATÚLICA IMPERIAL</p><p>sucessor, compreendeu que se o Estado não podia destrui-la pela força, 0 melhor</p><p>seria usar a Igreja como um aliado para salvar a cultura clássica.1 O processo pelo</p><p>qual a Igreja e o Estado chegaram a um acordo começou quando Constantino</p><p>conseguiu o controle completo do Estado. Embora oficialmente dividisse 0 poder</p><p>com o seu co-imperador, Licinio, entre 311 e 324, ele tomou a maioria das decisões</p><p>importantes do Estado.</p><p>Constantino (c,274 - 337) era o filho ilegítimo do líder militar Constâncio com</p><p>uma bela mulher livre cristã do Oriente, de nome Helena. Numa batalha, em 313,</p><p>quando parecia que os inimigos lhe venceríam, Constantino teve uma visão de uma</p><p>cruz no céu, com as seguintes palavras em latim: “com este sinal, vencerás".</p><p>Tomando-as como bom presságio, ele derrotou os seus inimigos na batalha da</p><p>ponte Mílvia sobre o rio Tibre. Embora a visão possa ter ocorrido, é evidente que o</p><p>favorecimento da Igreja por Constantino foi um expediente seu. A Igreja podería</p><p>servir como um novo centro de unidade e salvar a cultura clássica e o império. O fato</p><p>de ter protelado o seu batismo até pouco antes da morte e de manter sua posição de</p><p>Rontifax Maximus, sacerdote principal da religião pagã do Estado, parecem apoiar</p><p>esta idéia. Ademais, a execução por ele ordenanda, de um jovem que podería</p><p>reivindicar o seu trono, não condiz com a conduta de um cristão sincero. Talvez tenha</p><p>sido tudo uma mistura de superstição e sagacidade na sua estratégia de governo.</p><p>Correta ou não esta interpretação de suas intenções, o fato é que Constantino</p><p>inaugurou uma política de favorecimento da Igreja Cristã. Em 313, ele e Licinio</p><p>garantiram-lhe a liberdade de culto pelo Edito de Milão. Nos anos seguintes, Constan-</p><p>tino promulgou outros editos, que tomavam possíveis a recuperação das proprieda-</p><p>des confiscadas, 0 subsídio da Igreja pelo Estado, a isenção ao clero do serviço</p><p>público, a proibição de advinhações e a separação do "Dia do Sol" (domingo) como</p><p>um dia de descanso e culto.2 Ele tomou uma posição de liderança teológica no</p><p>Concilio de Nicéia, em 325, quando arbitrou a controvérsia ariana. Apesar de o</p><p>número de cristãos não ultrapassar a um décimo da população do Império nesta</p><p>época, eles exerceram uma influência no Estado bem maior do que se podia esperar</p><p>pela quantidade de membros que possuía.</p><p>Além de garantir liberdade e favores para a Igreja e submetê-la ao serviço do</p><p>Império, Constantino, em 330, fundou a cidade de Constantinople. Este ato ajudou a</p><p>dividir Oriente e Ocidente e abriu o caminho para 0 Cisma em 1054, mas providenciou</p><p>um paraíso para a cultura greco-romana quando o ocidente caiu sob as tribos</p><p>germânicas do século quinto. Ela tornou-se 0 centro do poder político no oriente e o</p><p>bispo de Roma, após 476, foi deixado com poder político além do espiritual.</p><p>Os filhos de Constantino continuaram sua política de favorecimento da Igreja,</p><p>levando-a mais adiante ao colocarem 0 paganismo na defensiva com editos que</p><p>proibiam os sacrifícios pagãos e a freqüência aos templos pagãos. Quando parecia</p><p>que o cristianismo ia se tornar a religião do Estado, houve um retrocesso com a</p><p>ascensão de Juliano em 361 ao trono imperial. Juliano fora forçado a aceitar o</p><p>cristianismo formalmente, mas a morte de parentes seus nas mãos do governo cristão</p><p>e 0 estudo que fez da filosofia em Atenas o levaram a se tornar um seguidor do</p><p>Neoplatonismo. Ele retirou da Igreja Cristã os privilégios e restaurou a liberdade</p><p>plena de culto. Todas as facilidades foram concedidas para ajudar no avanço da</p><p>filosofia e da religião pagã. Felizmente para a Igreja, seu !reinado foi curto e o</p><p>retrocesso do desenvolvimento da Igreja, apenas temporário.3</p><p>Os reis seguintes continuaram a prática de assegurar privilégios à Igreja até que</p><p>Λ IUKEJA I N f H t N T A 0 IMPÉRIO 1 US BARBATOS 101</p><p>u cristianismo se tornasse afinal a religião oficial. O imperador Graciano renunciou</p><p>no título de Pontifex Maximus. Teodósio I promulgou em 380 um edito tornando o</p><p>cristianismo a religião exclusiva do Estado. Qualquer pessoa que seguisse outra</p><p>lorma de culto recebería a punição do Estado.4 Em 392, 0 Edito de Constantinople</p><p>ustabeleceu a proibição do paganismo. E em 529, Justiniano desferiu 0 golpe de mi-</p><p>sericórdia sobre 0 paganismo, quando determinou 0 fechamento da escola de filoso-</p><p>fia de Atenas.</p><p>Revendo os caminhos da transformação do cristianismo, de seita de poucos</p><p>seguidores em, religião oficial do poderoso Império Romano, pode-se concluir que,</p><p>com a vantagem da perspectiva do tempo, esta vitoriosa marcha foi prejudicial à</p><p>Igreja. É verdade que o cristianismo elevou o nivel moral da sociedade ao ponto de a</p><p>dignidade da mulher ser conhecida na sociedade, os espetáculos de gladiadores</p><p>serem abolidos, os escravos receberem melhor tratamento, a legislação romana</p><p>tornar-se mais justa e o avanço da obra missionária ter aumentado.</p><p>A Igreja percebeu entretanto, que embora uma associação com o Estado lhe</p><p>trouxesse benefícios, isto lhe traria também muitas desvantagens. O governo, em</p><p>troca dos privilégios, da proteção e da ajuda que oferecia, achava-se no direito de</p><p>interferir em assuntos espirituais e teológicos. Em Aries (314) e em Nicéia (325),</p><p>Constantino arrogou-se 0 direito de arbitrar a disputa na Igreja, embora fosse apenas</p><p>o soberano temporário do império. O longo conflito entre a Igreja e 0 Estado</p><p>começa aí. Infelizmente a Igreja ganhou em poder mas se tornou uma arrogante</p><p>perseguidora do paganismo do mesmo modo que as autoridades religiosas pagâs</p><p>tinham agido em relação aos cristãos. Parece que no balanço final, a aproximação</p><p>entre Igreja e Estado trouxe mais malefícios do que bênçãos à Igreja Cristã.</p><p>II. A IGREJA E OS BÁRBAROS</p><p>Foi bom que a Igreja tenha feito as pazes com o império na primeira parte do</p><p>século IV, porque na última parte do século surgiu um novo problema: como trazer</p><p>ao cristianismo os contingentes que começavam a emigrar para a Europa e que</p><p>continuaram chegando até o século XI. Os movimentos migratórios de povos teutões,</p><p>vikings, eslavos e mongóis para e na Europa aconteceram entre 375 e 1066.</p><p>A. O Avanço dos Bárbaros</p><p>Os godos bárbaros foram os primeiros a aparecer na fronteira do Danúbio na</p><p>última parte do quarto século; acossados pelas tribos mongóis, tiveram permissão</p><p>das autoridades romanas para entrar no Império. A batalha de Adrianópolis entre</p><p>eles e os romanos em 378 resultou na morte.do Imperador Valente e na entrada dos</p><p>visigodos (godos do Ocidente) na regiáo oriental do Império. Muitos atravessaram 0</p><p>Danúbio, após a batalha, e começaram as migrações dentro do Império. Depois de</p><p>saquear Roma (410) fundaram um reino na Espanha (426). Seguiram-nos os vânda-</p><p>los arianos do oriente do Reno, que se fixaram no norte da África. A seguir, os os-</p><p>trogodos arianos assumiram a liderança do decadente Império Romano. Os lombar-</p><p>dos, os borgonhenses arianos e os francos pagãos cruzaram o Reno, fixando-se</p><p>(sec. V) na região que, hoje, é a França; os anglo-saxões, na Inglaterra. Nesse sé-</p><p>culo, a Igreja ocidental enfrentou uma terrível ameaça,</p><p>representada pela invasão da</p><p>Europa por hordas mongóis de hunos liderados por Átila, que só foram expulsos</p><p>102</p><p>A</p><p>SU</p><p>PR</p><p>EM</p><p>A</p><p>C</p><p>IA</p><p>D</p><p>A</p><p>A</p><p>M</p><p>IG</p><p>A</p><p>IG</p><p>REJA C</p><p>AT</p><p>Ó</p><p>LICA</p><p>IM</p><p>PERIAL</p><p>A IG R E J A E N F R E N T A G I M P É R I O E O S B Á R B A R O S 1 0 3</p><p>pela vitória de Chalons em 451. Quando a Igreja parecia trazer ao cristianismo muitos</p><p>dos povos teutões, novas ameaças vindas do Islamismo e dos lombardos arianos</p><p>tornaram-se uma realidade ,no século VI.</p><p>A grandeza da civilização que a Europa ocidental criou não foi tanto devida ã</p><p>invasão dos vigorosos bárbaros mas à bem-sucedida conversão destes bárbaros ao</p><p>cristianismo por obra da Igreja.</p><p>B. A Evangelização dos Bárbaros</p><p>A Armênia foi ganha para o !Evangelho por Gregório o lluminador quando, em</p><p>300, aproximadamente, 0 rei Tiridates foi convertido e batizado. O Novo Testamento</p><p>foi traduzido para 0 armênio. Alguns dizem que cerca de 2 milhões e 500 mil</p><p>armênios foram ganhos por volta de 410. A Armênia foi o primeiro estado a tornar-se</p><p>oficialmente cristão e, a despeito da perseguição através dos séculos, os armênios</p><p>têm sustentado vigorosamente a fé cristã.</p><p>Frumêncio (c.300-- c.380) e seu irmão, por meio de um naufrágio, chegaram à</p><p>Etiópia e pregaram ali o Evangelho. Frumêncio foi consagrado bispo por Atanásio de</p><p>Alexandria, para liderar a igreja copta etíope, que somente em tempos recentes</p><p>tornou-se independente do Egito.</p><p>As Ilhas Britânicas também conheceram o cristianismo nesta época. Não temos</p><p>muita informação sobre a entrada do cristianismo na Bretanha céltica, mas parece</p><p>assentado que ele entrou lá através de soldados e mercadores romanos. Não sabe-</p><p>mos quais os bispos celtas que representaram a Igreja britânica no Concilio de Aries</p><p>em 314. Pelágio, o adversário de Agostinho, era também da Igreja britânica e come-</p><p>çou a ensinar no continente a heresia׳ conhecida pelo seu nome por volta de 410.</p><p>Esta primitiva ׳Igreja celta na Bretanha não reconheceu a jurisdição ou a primazia</p><p>do bispo romano. Adotou também as práticas da Igreja oriental em determinar a data</p><p>da Páscoa. Houve outras diferenças de menor importância. A Igreja foi deixada</p><p>indefesa quando os exércitos romanos se retiraram da Bretanha no começo do</p><p>século V para enfrentar a ameaça dos bárbaros na fronteira oriental do Império. Os</p><p>povos celtas foram exterminados ou expulsos para as colinas do norte pelos povos</p><p>pagãos anglos, saxões e jutos.</p><p>A obra ■missionária entre os godos começou antes de os visigodos atravessarem</p><p>o Danúbio em direção ao Império Romano. Ulfilas (c.311-383), um cristão ariano</p><p>sentiu a chamada para a obra missionária entre este povo. Consagrado bispo dos</p><p>cristãos godos. viveu toda a sua vida entre eles. Sua obra foi tão boa que, quando os</p><p>godos chegaram ao Império Romano״ muitos deles vieram como cristãos. Como o</p><p>primeiro e principal missionário tradutor, ele codificou a língua dos godos em escrita,</p><p>criando um alfabeto e dando-lhes a Bíblia em! sua própria língua. Como os godos</p><p>eram muito guerreiros, ele preferiu, não traduzir os livros de Reis e Samuel. Os godos</p><p>foram, pois, convertidos a uma forma ariana de cristianismo como professada por</p><p>Ulfila. Este fato deixou para a Igreja no ocidente a difícil tarefa não somente de</p><p>converter muitas tribos do paganismo mas também de conquistar os visigodos da</p><p>Espanha do arianismo para o cristianismo ortodoxo.</p><p>Os invasores teutônicos dalém do Reno representaram logo um sério problema</p><p>para a Igreja ocidental. Martinho de Tours (316-396), hoje o santo padroeiro da</p><p>França, sentiu-se chamado para pregar aos borgonhenses que se estabeleceram no</p><p>sul da Gália. Adotando táticas mais duras na comunicação do Evangelho a estes</p><p>povos, ele organizou seus monges guerreiros em grupos e os liderou na destruição</p><p>1 0 4 A S U P H E M A C IA D A A N T IG A IG R E J A C A T Ó L IC A IM P E R IA L</p><p>dos bosques onde as pessoas cultuavam seus deuses pagãos. Seu trabalho não teve</p><p>o resultado que teria o de Agostinho porque os borgonhenses caíram sob o domínio</p><p>de seus primos franceses que haviam se estabelecido na Gália.</p><p>Gregário de Tours em sua interessante História dos Francos descreve o estabe-</p><p>lecimento. a história e a conversão dos francos. Ao final do século V, Clóvis, rei dos</p><p>francos, casou-se com Clotilde, uma princesa cristã da Borgonha. A influência de</p><p>Clotilde, junto com aquilo que Clóvis cria ser uma ajuda divina numa luta, levou-o à</p><p>conversão em 496 ' Quando se fez cristão, seu povo também aceitou em massa o</p><p>cristianismo.</p><p>Embora estas conversões pudessem não ser genuínas, 0 fato é que a aceitação</p><p>do cristianismo por Clóvis teria efeitos■ duradouros! na história futura da Igreja. Todos</p><p>os francos que dominavam a Gália, a região da França de hoje, estavam agora dentro</p><p>da Igreja Cristã. A Gália se tornou uma base de onde os missionários saíam em</p><p>direção à Espanha árabe a fim de trazer os godos arianos, que lá se instalaram, de</p><p>volta ao cristianismo de doutrina ortodoxa. Saliente-se que a monarquia franca se</p><p>tornou um sustentáculo vigoroso do ,papado na baixa Idade Média. Os reis francos</p><p>atravessaram os Alpes muitas vezes para salvar o bispo romano das mãos de seus</p><p>inimigos na Itália.</p><p>Patrício (c.389-461), o padroeiro da Irlanda, foi levado aos 16 anos, da Bretanha</p><p>para a Irlanda por piratas. Viveu aí durante 6 anos, cuidando de gado. Ao retornar à</p><p>terra natal, sentiu-se chamado para trabalhar entre o povo da Irlanda como missioná-</p><p>rio. Ele trabalhou de 432 a 461 entre os celtas da Irlanda e, a despeito dos esforços</p><p>dos sacerdotes da religião druida, conseguiu fazer desta ilha 0 centro principal do</p><p>cristianismo celta. Em meio à Era das Trevas na Europa, a Irlanda era o centro de</p><p>cultura de onde missionários e estudiosos eram enviados para missionar no conti-</p><p>nente europeu. Foi da Irlanda que Columba partiu para converter os escoceses ao</p><p>cristianismo.</p><p>Columba (c.521-597) foi o apóstolo da Escócia, a exemplo de Patrício, que fora o</p><p>apóstolo da Irlanda. Em 563, ele fundou na Ilha de lona um mosteiro que se tornou o</p><p>centro da evangelização da Escócia. Foi daí que Aidano levou, no século seguinte, o</p><p>Evangelho aos invasores teutônicos da Nortúmbria. A Igreja celta na Irlanda e na</p><p>Escócia foi acima de tudo uma Igreja missionária.</p><p>Ao final do periodo, o cristianismo celta conquistara a Escócia e a Irlanda,</p><p>embora fosse exterminado na Inglaterra. Os cristãos celtas e os cristãos romanos</p><p>tornaram-se rivais por causa da aliança dos anglo-saxões. aos quais tinham ajudado</p><p>a trazer ao cristianismo.</p><p>Em 590 a Igreja tinha vencido o desafio do Estado Romano. Deu também sua</p><p>contribuição ao converter ao cristianismo os invasores teutões do Império e legar a</p><p>eles os elementos da cultura greco-romana. No processo, porém, massas de pagãos</p><p>que tinham sido convertidos à religião cristã entraram logo para a Igreja sem serem</p><p>doutrinados e sem passarem por um período de prova. Muitos deles trouxeram para</p><p>a Igreja os seus velhos padrões de vida e de costumes. O antigo culto aos heróis foi</p><p>substituído pelo culto aos santos. Muitas práticas ritualistas retiradas do paganismo</p><p>encontraram uma porta aberta na Igreja Cristã. A Igreja, ao tentar resolver o proble-</p><p>ma da presença bárbara, acabou parcial mente paganizada.</p><p>A SUPREMACIA DA ANTIGA IGREJA</p><p>CATÓLICA IMPERIAL, 313-590</p><p>CAPÍTULO 12</p><p>O D E S E N V O LV IM E N TO D O U T R IN Á R IO NA ERA</p><p>C O N C IL IA R</p><p>Entre 313 e 451, as controvérsias teológicas resultaram em concílios que ten-</p><p>taram resolver as questões em disputa através da formulação de Credos.</p><p>Houve dois grandes períodos de controvérsia teológica na história da Igreja. Os</p><p>grandes credos do Protestantismo foram !formados no período da disputa teológica</p><p>ao tempo da Reforma. O período anterior de controvérsia teológica aconteceu entre</p><p>325 e 451, quando concílios universais ou ecumênicos de lideres da Igreja foram</p><p>convocados para resolver os conflitos. Esses concílios fizeram grandes formulações</p><p>universais como os credos niceno e atanasiano.</p><p>Neste período, estabeleceram-se os</p><p>principais dogmas da Igreja Cristã.</p><p>A conotação prejudicial da palavra "dogma" em um tempo de frouxidão doutriná-</p><p>ria, como o nosso, não deve obscurecer o valor do dogma para a Igreja. A palavra</p><p>"dogma" vem, através do latim, da palavra dogma, que derivou do verbo dokeo.</p><p>Esta palavra significa pensar. Os dogmas ou doutrinas formuladas neste período</p><p>foram o resultado de pensamento e pesquisa demorados por parte dos cristãos no afã</p><p>de interpretarem corretamente o significado da Bíblia nas questões disputadas e de</p><p>evitar as opiniões errôneas (doxai) dos filósofos</p><p>O período é ainda uma boa ilustração de como um forte zelo pela doutrina pode</p><p>levar uma pessoa ou uma igreja involuntariamente ao erro, se não se fizer um estudo</p><p>equilibrado da Bíblia. Assim como Sabélio chegou a negar a Trindade essencial ao</p><p>tentar salvaguardar a unidade de Deus, Ário descambou para uma interpretação</p><p>anti-bíblica do relacionamento de Cristo com 0 Pai em sua tentativa de evitar aquilo</p><p>que ele considerava ser o perigo do politeísmo.</p><p>Pode-se indagar porque a controvérsia sobre problemas teológicos aconteceu</p><p>tão tarde na história da Igreja antiga; 0 fato é que, nos tempos da perseguição, a</p><p>submissão a Cristo e à Bíblia era mais importante do que 0 significado de certas</p><p>doutrinas. A ameaça do Estado levou a Igrejaà unidade internaafim de se apresentar</p><p>coesa na luta. Desse modo. então, a tentativa de Constantino de unificar o Império</p><p>para salvar a civilização clássica significou que a Igreja precisaria ter um corpo</p><p>unificado de doutrinas se quisesse ser o cimento capaz de manter unido o corpo</p><p>político. Um Império precisa de um dogma.</p><p>105</p><p>A SUPREMACIA DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA IMPERIAL</p><p>Oσ)</p><p>PRINCIPAIS QUESTÕES TEOLÓGICAS ATÉ 451</p><p>NATUREZA HUMANA</p><p>relaçAo ENTRE AS</p><p>NATUREZAS DE CRISTORELACAO ENTRE CRISTO E 0 PAI</p><p>SUPER ÊNFASE SOBRE A UNIDADE</p><p>,DIVINA״</p><p>S U P E R Ê N FA S E S O B R E</p><p>A D IV IN D A D E</p><p>A p o ü n ír lo corpo a lm a</p><p>L o g o s r io esp irito</p><p>É utico D uas n a tu re ra s (undid««</p><p>M un ohs .tas</p><p>O R T O O O X IA</p><p>Calcnrtònia 4 6 1</p><p>D uas n a iu r · / · « nrn</p><p>h a rm o n ia nu m a »6 pessoas</p><p>P E 1 A G I0</p><p>A lm a Criada</p><p>N ascido sem pecado</p><p>V o n tad e Q u eb rada</p><p>S a lvação S inerg lsuca</p><p>B atism o irre le v a n t·</p><p>A G O S T IN H O</p><p>A lm a herdada</p><p>Pecado O rig inal</p><p>Livre A rb ítrio</p><p>S alvação M o n arg la tica</p><p>B atism o Im p o rta n te</p><p>S U P E R Ê N F A S E S O B R E</p><p>A H U M A N ID A D E</p><p>N es tó n o - Jesus Cristo.</p><p>U m h o m e m portador d e -O e u s</p><p>A R IO v s A T A N A S lO</p><p>M e s m a essência</p><p>Igual com o Pai</p><p>C o e tam o</p><p>D ite ren t#</p><p>C /is to subo n lm ada</p><p>C riado</p><p>1 Crndo d e Cena r í ia</p><p>2 N icé ia - 3 2 5 - c redo com</p><p>A nAtom n</p><p>3 C onstan tin o p le - 3 8 1 -</p><p>C redo N c e n o</p><p>4 To ledo - 5 8 9 - O c id en te</p><p>acrescenta o flU o qu ·</p><p>E B I0 N 1 T A S</p><p>Jesus M ess ias pe lo</p><p>Espirito S an to</p><p>G N Ô S T IC O S</p><p>U m D eus pu ro conhec ido</p><p>m ed ia n te a G nosis de Cristo</p><p>D ualism o</p><p>D em iu rg o</p><p>O o ce tis m o vs Irineu</p><p>M O N A R Q U 1 S T A S</p><p>M O D A U S T A S</p><p>S abé llo</p><p>U m a essência em três m odos;</p><p>Tertu lian o: Contra Próxeas - T rin dade</p><p>três pessoas em u m e essência</p><p>D IN Â M IC O S</p><p>Paulo de S a m o s ata</p><p>A dociom sta</p><p>SINODO DF ORANGE</p><p>0 D E S E N V O L V I M E N T O D O U T R I N Á R I O N A ERA C O N C IL IA R 1 0 7</p><p>O método adotado pela Igreja para resolver as diferenças fundamentais de</p><p>interpretação sobre o significado da Bíblia foi a realização de concílios ecumênicos</p><p>ou universais, geralmente convocados e presididos pelo.lmperador romano. Houve</p><p>sete concílios que representaram a Igreja Cristã toda. 1 Os grandes lideres da Igreja de</p><p>todas as partes do Império representaram suas respectivas regiões e participaram na</p><p>busca de solução para os problemas teológicos que preocuparam os cristãos nesta</p><p>época.</p><p>I. TEOLOGIA — AS RELAÇÜES ENTRE AS PESSOAS DA</p><p>TRINDADE</p><p>A. A Relação do Filho com o Pai na Eternidade</p><p>O problema do relacionamento entre Deus o Pai e o Seu Filho Jesus Cristo</p><p>constituiu-se num grave problema na Igreja logo depois de encerrada a fase das</p><p>perseguições. Na Europa Ocidental. Tertuliano. por exemplo, insistiría sobre a unida-</p><p>de de essência em três personalidades como a interpretação correta da Trindade.</p><p>Desse modo, a controvérsia se centralizou na parte oriental do Império. Deve-se ter</p><p>em mente que a Igreja sempre tem llutado com as concepções unitarianas de Cristo O</p><p>Unitarianismo moderno tem seus predecessores no Ariamsmo e no Socinianismo</p><p>do século 17</p><p>Em 318 ou 319, Alexandre, o bispo de Alexandria, discutiu com seus presbíteros</p><p>"A Unidade da Trindade". Um dos presbíteros. Ário. erudito asceta e pregador</p><p>popular, atacou o sermão, indicando que se equivocava ao estabelecer uma distinção</p><p>entre as pessoas da Divindade. Em׳seu desejo de evitar uma concepção politeista de</p><p>Deus. Ário acabou concebendo uma doutrina que recusava a verdadeira divindade de</p><p>Cristo.</p><p>A questão era basicamente soteriológica. Podería Cristo salvar o homem se Ele</p><p>era um semi-deus, menor que Deus e de essência semelhante ou diferente do Pai</p><p>como Eusébio e Ário afirmaram? Como era a sua relação com o Pai'7 A controvérsia</p><p>cresceu tanto que Alexandria teve que condenar Ário através de um sinodo. Ário</p><p>fugiu então para o palácio de Eusébio, bispo de Nicomédia, que fora seu companhei-</p><p>ro de estudos. Com a centralização da polêmica na Ásia Menor, cindiu-se a unidade</p><p>do Império e da Igreja. Constantino procurou resolver o problema com cartas ao</p><p>bispo de Alexandria e a Ário, mas a polêmica extrapolava o âmbito de uma carta do</p><p>Imperador. Constantino convocou então, ■um concilio dos bispos da Igreja a fim de</p><p>encontrar uma solução para a controvérsia.</p><p>Este concilio se reuniu em Nicéia no começo do verão de 325 300 bispos da</p><p>Igreja estiveram presentes, embora nem dez fossem da porção oriental doUmpério. O</p><p>Imperador presidiu o Concilio e custeou suas despesas Pela !primeira vez, a Igreja</p><p>encontrava-se dominada pela liderança política do chefe do Estado O problema</p><p>perene das relações entre a Igreja e o Estado começou aí; os bispos estavam muito</p><p>preocupados com a heresia teológica para atentar para este problema.</p><p>Três partidos se formaram no concilio. Ário. apoiado por Eusébio de Nicomédia</p><p>(que não deve ser confundido com Eusébio de Cesaréia) e por uma minoria dos</p><p>presentes, insistiu que Cristo não existiu desde a eternidade mas que começou a</p><p>existir por um ato criativo de Deus antes do tempo. Cristo era, então, de essência ou</p><p>substância diferente■(heteros) do Pai. Pela excelência da Sua vidae porSuaobediên-</p><p>1 0 8 A S U P R E M A C IA D A A N T IG A IG R E J A C A T Ó L IC A IM P E R IA L</p><p>cia à vontade de Deus, Cristo pôde ser considerado divino. Ário achava, entretanto</p><p>que Cristo era um ser criado a partir do nada, subordinado ao Pai e de essência</p><p>diferente do Pai. Não era co-igual, co-eterno e da mesma substância com o Pai. Para</p><p>Ârio, Cristo era divino mas não era Deus.2</p><p>Atanásio constituiu-se no principal defensor daquilo que seria a interpretação</p><p>ortodoxa. Seus pais, ricos, tinham lhe permitido receber sua educação teológica na</p><p>famosa escola catequética de Alexandria. Sua obra De Incarnatione indicava qual era</p><p>a sua cristologia. No concilio, este jovem, de menos de 30 anos, defendeu a idéia de</p><p>que Cristo existiu desde a eternidade com o Pai e era da mesma essência (homoou-</p><p>sios) com o Pai, embora fosse uma personalidade distinta Ele insistia nesta interpre-</p><p>tação porque cria que. se Cristo fosse menor do que Ele mesmo afirmava ser, não</p><p>poderia ser o Salvador do homens. Segundo Atanásio, o relacionamento entre Pai e</p><p>Filho tinha muita importância na questão da salvação eterna do homem. Achava ele</p><p>que Cristo era co-igual. co-eterno e da mesma substância com o Pai, e. por estas</p><p>idéias, ele conheceu o exílio cinco vezes antes de morrer.</p><p>O maior partido foi liderado por</p><p>Eusébio de Cesaréia, erudito e refinado historia-</p><p>dor eclesiástico, cuja aversão por controvérsias levou-o a propor uma interpretação</p><p>que pudesse ser aceita pelos dois grupos. Propôs uma doutrina que combinasse as</p><p>melhores idéias de Ario e Atanásio. Mais de 200 dos presentes seguiram de início suas</p><p>colocações. Para ele, Cristo não foi criado do nada como Ário entendia, mas foi</p><p>gerado pelo Pai antes da eternidade Cristo era de essência igual (homoi) ou seme-</p><p>lhante ao Pai Esta crença tornou-se a base do credo que ao final seria elaborado em</p><p>Nicéia, mas que dele diferia ao afirmar a unidade de essência ou substância do Pai</p><p>com o Filho.3</p><p>A ortodoxia teve uma vitória temporária em Nicéia, com a afirmação daeternida-</p><p>de de Cristo e a identidade de Sua substância com o Pai. Todavia, o credo formulado</p><p>ai nào deve ser confudido com o Credo Niceno usado pela igreja hoje, embora este</p><p>credo tenha partido da formulação feita em Nicéia. O credo de 325 pára na frase "E no</p><p>Espirito Santo" e é seguido por uma seção condenatória das idéias de Ário.4</p><p>Entre 325 e 361, com Constantino e seus filhos, a ortodoxia teve que enfrentar</p><p>uma reação que provocou a sua derrota e a vitória temporária do Arianismo. Uma</p><p>segunda reação contra a ortodoxia, com uma vitória final em 381, teve lugar entre</p><p>361 e 381. Teodósio (c. 346 - c.395) definiu como a fé dos verdadeiros cristãos as</p><p>doutrinas elaboradas pelos ortodoxos em Nicéia, mas os anos entre 325 e 381 foram</p><p>marcados pelo ódio e pela briga. O Concilio de Constantinopla em 381 estabeleceu</p><p>no Canon 1 de suas decisões que a fé dos 381 pais de Nicéia "não deveria ser</p><p>abandanada mas deveria permanecer como a correta". O presente Credo Niceno,</p><p>aprovado em Calcedônia, em 451, com toda probabilidade baseado em Credos</p><p>sírio-palestinenses como o de Jerusalém dos escritos de Cirilo. Este Credo, o Credo</p><p>dos Apóstolos e o Credo de Atanásio são os três grandes credos universais da Igreja.</p><p>O arianismo, ao qual estão relacionados o modernismo e o unitarianismo de hoje, foi</p><p>rejeitado como doutrina não-ortodoxa; a verdadeira divindade de Cristo foi feita</p><p>artigo de fé. Embora a decisão tomada em Nicéia tenha se tornado um fator na</p><p>separação entre as Igrejas oriental e ocidental, não devemos olvidar o valor desta</p><p>decisão para a nossa fé.</p><p>Nicéia custou à Igreja a sua independência, pois a Igreja tornou-se imperial</p><p>desde esta época e a partir dai foi cada vez mais sendo dominada pelo imperador. A</p><p>Igreja no Ocidente foi capaz de se livrar deste domínio, mas a Igreja no Oriente jamais</p><p>0 , D E S E N V O L V I M E N T O D O U T R I N Á R I O N A E R A C O N C IL I A R 1 0 9</p><p>se livrou do domínio do poder politico do Estado</p><p>B. A Relação do Espirito Santo com o Pai</p><p>Macedônio, bispo de Constantinople de 341 a 360, ensinava que o Espírito Santo</p><p>ora “ministro e servo" no mesmo nível dos anjos. Cria que o Espirito Santo era uma</p><p>criatura subordinada ao Pai e ao Filho. Isto era uma negação da verdadeira divindade</p><p>do Espirito Santo que seria tão maléfica à doutrina do Espírito Santo como foram as</p><p>idéias de Ário acerca de Cristo. O concilio ecumênico de Constantinopla condenou</p><p>os idéias de Macedônio, em 381.</p><p>Quando o credo de Constantinopla, ou Credo Niceno, foi recitado no terceiro</p><p>Concilio de Toledo em 589, as palavras "e o Filho" (filioque) foram acrescentadas à</p><p>declaração "que procede do Pai", que se refere ao relacionamento entre o Espírito</p><p>Santo e o Pai e o Filho. As igrejas ocidentais desde então têm insistido na verdadeira</p><p>divindadee na personalidade do Espirito Santo como co-igual,co-eternoe da mesma</p><p>substância com o Pai e o Filho.6</p><p>II. CRISTOLOGIA — CONTROVÉRSIAS SOBRE O</p><p>RELACIONAMENTO ENTRE AS NATUREZAS DE CRISTO</p><p>A decisão da questão teológica sobre a relação do Filho com o Pai em Nicéia</p><p>suscitou novos problemas em torno do relacionamento entre as naturezas humana e</p><p>divina de Cristo. Antes de a doutrina ortodoxa do relacionamento das duas naturezas</p><p>ter sido formulada, muitas cenas de paixão e violência tiveram lugar. Em geral, os</p><p>teólogos ligados a Alexandria salientaram a divindade de Cristo, enquanto que os</p><p>relacionados a Antioquia, a Sua humanidade, às expensas de Sua deidade.</p><p>Uma interpretação das duas naturezas de Cristo, que, de certo modo recusa a</p><p>verdadeira humanidade de Cristo, foi elaborada por Apolinário (c. 310-c. 390), ex-</p><p>professor de retórica e bispo de Laodicéia. Apolinário formulou sua doutrina sobre as</p><p>naturezas de Cristo aos 60 anos de idade. Até esta época, fora um bom amigo de</p><p>Atanásio e um dos campeões da ortodoxia. A fim de evitar a indevida separação das</p><p>naturezas humana e divina de Cristo. Apolinário propôs que Cristo tinha um corpo e</p><p>uma alma reais, mas que o espírito no homem foi substituído em Cristo pelo logos.</p><p>Como elemento ativo o logos, divino, dominava ativamente o elemento passivo, o</p><p>corpo e a alma, na pessoa de Cristo. Ele exaltava a divindade de Cristo, mas minimiza-</p><p>va Sua verdadeira humanidade. Sua doutrina foi oficialmente condenada no Concilio</p><p>ecumênico de Constantinopla em 381.7</p><p>Em contraste com as idéias de Apolinário estavam as de Nestório (m. 451?), um</p><p>erudito monge que se tornou patriarca de Constantinopla em 428. Nestório rejeitava o</p><p>uso do termo theotokos (mãe de Deus) aplicado à Virgem Maria porque isto parecia</p><p>exaltá-la indevidamente. Sugeriu a palavra Christotokos como alternativa, lembrando</p><p>que Maria foi apenas a mãe do lado humano de Cristo. Para chegar a isto, ele fez de</p><p>Cristo um homem em quem, a exemplo de gêmeos Siameses, as naturezas divina e</p><p>humana estavam combinadas numa união mais mecânica do que orgânica. Cristo</p><p>era, então, apenas um homem perfeito moral mente associado à divindade. Ele era</p><p>mais portador de Deus do que Deus-homem. Os líderes da Igreja reuniram-se em</p><p>Éfeso em 431 e condenaram esta doutrina, mas os seguidores de Nestório continua-</p><p>ram seu trabalho na seção oriental do Império e levaram o Evangelho, como o</p><p>concebiam,à Pérsia, índia e China em 635 por Alopen.8 O Nestorianismo foi destrui-</p><p>1 1 0 A S U P R E M A C IA 0 A A N T IG A IG R E J A C A T Ó L IC A IM P E R IA L</p><p>do na China pelo final do século nono.</p><p>Como resposta a doutrinas como esta de Nestório, enfatizou-se mais a natureza</p><p>divina de Cristo ao ponto de se negligenciar a Sua natureza humana. Êutiques (c. 378</p><p>- c. 455), monge em Constantinopla, ensinava que após a Encarnação as naturezas</p><p>de Cristo, a humana e a divina, se fundiram numa só, a divina. Esta doutrina,</p><p>conhecida como Eutiquianismo, acabava na negação da verdadeira humanidade de</p><p>Cristo. Foi condenada numa longa carta, conhecida como o "Tomo",9 escrita por</p><p>Leão I,. o bispo de Roma de 440 a 461, e pelo Concilio de Calcedônia reunido em 451.</p><p>O Concilio de Calcedônia se empenhou em promulgar uma cristologia que se</p><p>harmonizasse com a Bíblia. O Concilio estabeleceu que Cristo era "completo em sua</p><p>divindade e completo em sua humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente</p><p>homem", tendo “duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem</p><p>separação". Na Encarnação, estas duas naturezas reuniram-se harmoniosamente</p><p>numa Pessoa com uma só essência. Esta formulação tem sido a interpretação dos</p><p>ortodoxos sobre esta questão desde a época desse Concilio.10</p><p>As idéias de Êutiques foram retomadas na controvérsia monofisitaque perturbou</p><p>a paz do Império oriental até meados do século VI. Cerca de 15 milhões de Monofisi-</p><p>tas ainda existem nas Igrejas coptas do Egito, Líbano, Turquia e Rússia.</p><p>Ao problema do relacionamento entre as naturezas humana e divina de Cristo</p><p>seguiu-se a discussão sobre o relacionamento entre as vontades de Cristo. Tinha Ele</p><p>uma vontade ao mesmo tempo divina e humana? A questão foi finalmente resolvida</p><p>no Concilio de Constantinopla (680-681), com a declaração de que as duas vontades</p><p>de Cristo existem nElenuma unidade harmônica errt que a vontade humana se sujeita</p><p>à divina.</p><p>A preocupação com estes vários problemas na Igreja orientai levou a seção</p><p>oriental do Cristianismo a deixar</p><p>poucas contribuições à corrente principal do cristia-</p><p>nismo. Com exceção da contribuição de João Damasceno (c. 675 ־ c. 749), no século</p><p>VIII, a teologia oriental permaneceu estagnada até os tempos modernos.</p><p>III. ANTROPOLOGIA — O PROCESSO DA SALVAÇÃO DO</p><p>HOMEM</p><p>As heresias e controvérsias até agora tratadas ocorreram principal mente na</p><p>metade oriental da Igreja. A teologia e a cristologia não se constituíram em proble-</p><p>mas tão graves no Ocidente, onde líderes como Tertuliano tinham levado a Igreja à</p><p>uma doutrina ortodoxa da relação de Cristo com o Pai e de Suas duas naturezas entre</p><p>si. A Igreja ocidental não se preocupava com uma teologia metafísica especulativa, a</p><p>exemplo do que ocorreu com os pensadores gregos, racionalistas, da Igreja oriental.</p><p>Isto porque os pensadores da Igreja no Ocidente estavam preocupados com proble-</p><p>mas mais práticos. Esta distinção deve ficar clara para quem estuda a história antiga.</p><p>A mente grega deixou sua contribuição no campo do pensamento; a mente prática</p><p>romana, por sua vez, preocupou-se mais com assuntos da vida prática da Igreja.</p><p>Agostinho e Pelágio, por exemplo, estavam preocupados com o problema de como o</p><p>homem se salva. O homem seria salvo pelo poder divino apenas, ou havia um lugar no</p><p>processo da salvação para a vontade humana?</p><p>Pelágio (c. 360 420 ־), monge e teólogo britânico, chegou a Roma por volta do</p><p>ano 400 e aí, com a ajuda de Celeste, pregou sua teologia acerca da salvação.</p><p>Encontrou-se com Agostinho na África em 410 e logo percebeu que o bispo de Hipo-</p><p>0 D E S E N V O L V IM E N T O D O U T R IN Á R IO N A E R A C O N C ID A R 1 1 1</p><p>na 80ח compartilhava de suas idéias. Expulso de Roma em 418, Pelágio, pessoa fria</p><p>e calma, não passara pela luta interior por que passara Agostinho antes de ser salvo.</p><p>Por isto, Pelágio inclinou-se a dar à vontade humana um papel no processo da</p><p>salvação. Agostinho, porém, descobriría que a vontade humana era !insuficiente para</p><p>livrá-lo do pântano onde se encontrava por causa do seu pecado.</p><p>Para Pelágio todo o homem é criado livre como Adão, tendo, portanto, capacida-</p><p>de de escolher entre o bem e o mal. Cada alma é uma criação individual de Deus, não</p><p>herdando por isto a contaminação do pecado de Adão. A universalidade do pecado</p><p>no mundo é explicada pela fraqueza da carne humana e não pela corrupção da</p><p>vontade humana pelo pecado. O homem não herda o pecado original de seu primeiro</p><p>pai, embora os pecados das pessoas da geração passada enfraqueçam a carne da</p><p>geração atual, razão porque os pecados são cometidos, a menos que as vontades</p><p>individuais cooperem com Deus no processo da salvação. A vontade humana é livre</p><p>para cooperar com Deus na conquista da santidade e para poder usar os instrumen-</p><p>tos da graça como a Biblia, a razão e o exemplo de Cristo. Como não há pecado</p><p>original, o batismo infantil não é um elemento essencial à salvação.11</p><p>Agostinho (354-430), o grande bispo de Hipona, se opôs ao que ele cria ser uma</p><p>negação da graça de Deus e afirmava que a regeneração é uma obra exclusiva do</p><p>Espirito Santo. O homem foi feito originalmente à imagem de Deus e livre para</p><p>escolher o bem e o mal, mas o pecado de Adão atingiu a todos os homens, porque</p><p>Adão era o pai da raça. A vontade do homem está totalmente corrompida pela queda,</p><p>razão porque ele pode ser considerado totalmente depravado e incapaz de usar a sua</p><p>vontade no que diz respeito ao problema da salvação. Cria Agostinho que todos</p><p>herdam o pecado através de Adão e que ninguém pode fugir ao pecado original. A</p><p>vontade do homem é tão limitada que ele nada pode fazer por Sua salvação. A</p><p>salvação vem somente para os eleitos através da Graça de Deus em Cristo. Deus pode</p><p>revitalizar a vontade humana para que aceite a Graça que Ele oferece àquele que Ele</p><p>elegeu para a salvação.12</p><p>As idéias de Pelágio foram condenadas no Concilio de Éfeso, em 431, mas nem a</p><p>Igreja ocidental, nem a oriental aceitaram plenamente as idéias de Agostinho. O</p><p>monge João Cassiano (c. 360-435) procurou encontrar uma solução de compromis-</p><p>so em que a vontade humana e a divina pudessem cooperar na salvação. Entendia ele</p><p>que todos os homens são pecadores devido à queda e que suas vontades estão</p><p>enfraquecidas mas não total mente corrompidas. A vontade do homem, parcial mente</p><p>livre, pode cooperar com a graça divina no processo da salvação. Ele temia que as</p><p>doutrinas da eleição e da graça irresistível ensinadas por Agostinho pudessem levara</p><p>uma irresponsabilidade ética. A proposta de Cassiano foi condenada em 529 no</p><p>Sínodo de Orange,13 prevalecendo um agostinianismo moderado.</p><p>O problema levantado por Pelágio e Agostinho permanece perene na Igreja</p><p>Cristã, O modernismo de nossos dias é apenas um ressurgimento da idéia pelagiana</p><p>de que o homem pode realizar a salvação pela cooperação com a vontade divina</p><p>através de seus próprios esforços. A questão reside em saber se o cristianismo é um</p><p>problema de moral ou religião, se da vontade livre do homem ou da graça de Deus, se</p><p>de um desenvolvimento do caráter pela cultura ou pela conversão que torna possível</p><p>este desenvolvimento, se matéria das forças racionais do homem ou da revelação de</p><p>Deus. A Igreja esteve sempre mais próxima de Agostinho do que de Pelágio ou João</p><p>Cassiano, embora as doutrinas da Igreja Medieval neste ponto sejam semelhantes ao</p><p>semi-pelagianismo proposto por João Cassiano.</p><p>1 1 2 A SUPREMACIA DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA IMPERIAL</p><p>A maioria das principais controvérsias cessou! em 451, mas elas deixaram um</p><p>forte impacto sobre a Igreja Cristã. A unidade da Igreja foi preservada, mas em</p><p>prejuízo da liberdade do espirito que foi a grande característica da Igreja primitiva. Os</p><p>cristãos estavam agora de posse de declarações autoritativas quanto ao sentido em</p><p>que a Bíblia deve ser interpretada a respeito dos grandes problemas doutrinários. Há,</p><p>por outro lado, algumas desvantagens que devem ser consideradas. A ênfase sobre</p><p>a teologia,provocou o perigo׳ de os homens serem ortodoxos na fé sem viverem as</p><p>implicações éticas desta fé. A crença e a prática devem sempre andar juntas.</p><p>Lamente-se também que a Igreja tenha recorrido à violência e à !perseguição para</p><p>preservar pura a fé. Como árbitro dos diferentes !pontos de vista nos concilios״ o</p><p>Imperador conseguiu afirmar 0 poder do Estado em matérias religiosas e encerrar por</p><p>fim a separação entre Igreja e Estado. Devemos, porém, ser gratos àqueles que</p><p>arriscaram suas vidas e suas posições para levar a Igreja a aceitar as doutrinas que se</p><p>harmonizam com a! Bíblia e unirmo-nos em louvor a Deus por Sua direção providen-</p><p>ciai em todos estes problemas.</p><p>CAPÍTULO 13</p><p>A E R A D E O U R O D O S P A IS D A IG R E JA</p><p>A SUPREMACIA DA ANTIGA IGREJA</p><p>CATÓLICA IMPERIAL</p><p>Os Pais da Igreja, tenham sido eles Pais Apostólicos. Apologistas ou Polemistas,</p><p>sobre os quais já discutimos, eram conhecidos como Pais Ante-Nicenos. Isto, porque</p><p>o período de sua atuação se situa antes do grande marco da história da Igreja que foi</p><p>o Concilio de Nicéia. Entre os Concilios de Nicéia (325) e de Calcedônia (451) vários</p><p>dos mais capazes Pais da Igreja cristã desempenharam o seu ministério.</p><p>Procuraram eles estudar a Bíblia em bases mais cientificas a fim de desenvolve-</p><p>rem 'mais a teologia cristã. Devido à força cristalina de sua obra e de sua influência</p><p>sobre a Igreja de sua época, Agostinho foi 0 maior desses pais,</p><p>I. OS PAIS PÓS-NICENOS ÜO ORIENTE</p><p>Os Pais da parte oriental da Igreja pertenceram àquilo que deve ser chamado de</p><p>escolas alexandrina e antiocana de interpretação. Homens como Crisóstomo ou</p><p>Teodoro da Mopsuéstia seguiram a escola antiocana ou síria de interpretação, enfati-</p><p>zando 0 estudo histórico-gramatical da Bíblia na intenção de descobrir 0 significado</p><p>que o escritor sagrado tinha para aqueles a quem escreveu. Evitaram a tendência</p><p>alegorizante praticada pelos seguidores da escola alexandrina, ainda grandemente</p><p>influenciados por Orígenes.</p><p>A. ·Crisóstomo (c. 347-407) — Expositor e O rador</p><p>João. chamado Crisóstomo, logo depois</p><p>de sua morte devido à sua eloquência,</p><p>mereceu literalmente o nome de “boca-de-ouro" que lhe deram. Masceu por volta de</p><p>345 numa rica família da aristocracia de Antioquia. Sua mãe, Antusa. recorda a mãe</p><p>de Agostinho, pois, apesar de ter enviuvado aos 20 anos, recusou-se a casar de novo</p><p>para que pudesse dedicar todo o seu tempo à educação do filho. Crisóstomo foi aluno</p><p>do sofista Libânio, amigo do Imperador Juliano. Libânio instruiu-o berruios clássicos</p><p>gregos e na retórica, o que lhe deu as bases para sua excelente capacidade de falar.</p><p>Por algum tempo, praticou a advocacia, mas após seu batismo em 368 fez-se monge.</p><p>Com a morte da mãe em 374, passou a praticar uma vida ascética bem rigorosa até</p><p>380. Nesta época, viveu numa caverna de uma montanha perto de Antioquia. A saúde</p><p>1 1 3</p><p>1 1 4 A S U P R E M A C I A O A A N T I G A IG R E J A C A T Ó L IC A I M P E R I A L</p><p>ruim o obrigou a abandonar o regime rigoroso. Ordenado em 386, pregou em</p><p>Antioquia até o ano de 398 alguns de seus melhores sermões. Neste ano, foi feito</p><p>patriarca de Constantinopla, posição que manteve até ser banido em 404, pela</p><p>Imperatriz Eudóxia, denunciada por ele por usar roupa extravagante e por colocar</p><p>uma estátua de prata de si mesma próximo a Santa Sofia, onde ele pregava. Morreu</p><p>no exílio em 407.</p><p>Crisóstomo viveu uma vidasimples de pureza que era por si mesma uma censura</p><p>aos seus paroquianos de Constantinopla, cujo padrão de vida era altíssimo. Extrema-</p><p>mente asceta em sua ênfase sobre a simplicidade de vida e inclinado ao misticismo,</p><p>nem sempre agia com moderação; por natureza era, porém, educado, amigo e</p><p>prestativo. Embora tenha sido um gigante em estatura moral e espiritual, era baixo e</p><p>magro. Seu rosto fino mas afável, sua testa franzida, sua cabeça sem cabelos e seus</p><p>olhos vivos e penetrantes deixavam uma indelével impressão sobre seus ouvintes.</p><p>Talvez alguns anos de estudo com Diodoro de Tarso (m. 390?) tenham algo a ver</p><p>com sua capacidade como expositor. Cerca de 640 de suas homílias sobreviveram e</p><p>basta uma leitura rápida para se ter uma idéia de seu talento como orador. A maioria</p><p>de suas homílias ou sermões são exposições das Epístolas de Paulo. Por não conhe-</p><p>cer hebraico, não fez uma investigação crítica dos textos do Velho Testamento, mas</p><p>destacou a importância do contexto e procurou descobrir o sentido literal do autor e</p><p>fazer uma aplicação prática deste sentido aos problemas dos homens de sua época.</p><p>Estas aplicações morais práticas do Evangelho eram feitas com grande integridade</p><p>moral. Para ele, não deveria haver divórcio entre moral e religião; a Cruz e a ética</p><p>devem caminhar de mãos dadas. Não é por acaso que ele tenha sido e continue sendo</p><p>um dos maiores oradores sacros que a Igreja oriental já teve.1</p><p>B. Teodoro (c. 350-428) — Exegeta</p><p>Outro notável Pai da Igreja é Teodoro da Mopsuéstia (c.350 ־ c.428). Ele também</p><p>estudou a Biblia — por 10 anos — com Diodoro de Tarso. Esta instrução foi possível</p><p>porter nascido numa família rica. Ordenado presbítero em Antioquia em 383, tornou-</p><p>se bispo de Mopsuéstia, na Cilicia, em 392.</p><p>Corretamente, Teodoro foi chamado de “o príncipe dos exegetas antigos". Ele</p><p>não aceitava o sistema alegórico de interpretação e propunha uma compreensão que</p><p>levasse em conta a gramática e a formação histórica do texto a fim de descobrir o</p><p>sentido que o autor quis dar. Deu uma atenção especial ao contexto imediato e</p><p>remoto do texto. Este método fez dele um comentarista e teólogo dos mais competen-</p><p>tes. Teodoro escreveu comentários sobre livros da Bíblia como Colossenses e as</p><p>cartas aos tessalonicenses. Tanto ele como Crisóstomo enriqueceram notavelmente</p><p>a interpretação contemporânea da Bíblia. A obra de ambos contrastava vigorosamen-</p><p>te com as forçadas interpretações da Bíblia geradas pelo uso do método alegórico de</p><p>interpretação.</p><p>C. Eusêbio (c. 265-339) — Historiador da Igreja</p><p>Um dos Pais da Igreja mais amplamente estudado é Eusébio de Cesaréia (c.</p><p>265-339), por todos os méritos merecedor do título de Pai da História da Igreja, assim</p><p>como Heródoto mereceu o titulo de Pai da História. Depois de receber uma boa</p><p>instrução por parte de Panfilo em Cesaréia, ele ajudou o amigo a organizar sua</p><p>biblioteca nesta cidade. Eusébio era um estudante atencioso e lia tudo o que pudesse</p><p>ajudar em suas pesquisas. Ele se serviu tanto da literatura profana quanto da sacra.</p><p>A EHA D t Ü U R D U Ü S R A I S D A IGRfcJA 116</p><p>Muito da literatura de então, que de outra forma estaria perdida, ele conservou por</p><p>causa dos excertos que citou, em suas obras.</p><p>A personalidade de Eusébio assentava-se bem para seus alvos de erudição.</p><p>Tinha um espirito refinado e cordato e detestava as querelas suscitadas pela heresia</p><p>ariana. Tomou um lugar de .honra à direita de Constantino no Concilio de Nicéia e,</p><p>como ele. preferiu uma solução de compromisso entre os partidos de Atanásio e Ário.</p><p>Foi o Credo de Cesaréia, escrito por Eusébio de Cesaréia, que o Concilio de Nicéia</p><p>modificou e aceitou.</p><p>Sua maior obra é a■ História Eclesiástica, um panorama da história da Igreja dos</p><p>tempos apostólicos até 324. Seu propósito era fazer um- !relato das dificuldades</p><p>passadas da Igreja ao fim deste longo período de luta e começo de uma era de</p><p>prosperidade. A obra é ainda hoje útil porque Eusébio teve acesso à excelente</p><p>biblioteca de Cesaréia e aos arquivos imperiais. Ele fez um grande esforço para ser</p><p>honesto e objetivo no uso que fez das fontes primárias melhores e mais seguras à sua</p><p>disposição.‘ Na crítica que fez a muitos documentos, Eusébio de certo modo anted-</p><p>pou o estudo científico acurado próprio do historiador moderno na avaliação desuas</p><p>fontes de informação. Não surpreende que Eusébio seja a nossa melhor fonte sobre a</p><p>história da Igreja nos três primeiros séculos de sua existência, embora os eruditos</p><p>lastimem que não tenha feito notas de rodapé mais precisas sobre suas fontes de</p><p>informação, a exemplo do que faz 0 historiador contemporâneo. Algumas vezes,</p><p>também, sua obra torna-se apenas uma coleção de fatos e extratos sem nenhuma</p><p>relação de causa e efeito. Apesar destes defeitos, de suas monótonas divagações e de</p><p>seu estilo inconstante, a obra tem sido de inestimável valor para a Igreja através dos</p><p>séculos.</p><p>Eusébioescreveu a Crônica, uma história universal desde o tempo de Abraão até</p><p>323‘que deu à história medieval o quadro cronológico usado por muitos. Sua Vida de</p><p>Constantino, escrita como apêndice à sua História, apesar de algo laudatoria, é uma</p><p>excelente fonte de informação sobre os feitos de Constantino relacionados à vida da</p><p>Igreja. Escreveu também uma biografia laudatoria de Constantino.</p><p>A obra histórica de Eusébio foi continuada por dois sucessores que nem sempre</p><p>estiveram à altura do elevado padrão de confiabilidade iniciado porele. Deve-se dizer,</p><p>entretanto, que estes leigos, Sócrates (c.380-450) e Sozômeno (séc. V), ambos educa-</p><p>dos para a prática do direito, mostraram-se tolerantes mesmo para com aqueles que</p><p>eram seus adversários. A obra de Sócrates continua a história de Constantino até 439,</p><p>numa tentativa de completar a tarefa começada por Eusébio. Sozômeno era mais</p><p>ingênuo que Sócrates e praticamente plagiou a sua obra. Em geral favoreceu 0</p><p>ascetismo. Sua obra cobre o periodo de 323 a 439. Junto com Eusébio, estes homens</p><p>são as principais autoridades eclesiásticas para a história da Igreja antiga.</p><p>II. PAIS PÓS-NICENOS DO OCIDENTE</p><p>Os Pais da Igreja ocidental neste período sobrepujaram em muitos campos os do</p><p>Oriente. A tradução da Bíblia e dos escritos dos filósofos pagãos, junto com a</p><p>produção de tratados teológicos integra 0 todo de sua obra. A inclinação prática do</p><p>latim em contraste com o interesse pela especulação por parte do grego pode ser</p><p>vista nas obras de Jerônimo, Ambrósio e Agostinho.</p><p>1 1 6 A S U P R E M A C IA D A A N T IG A IGREJIA C A T Ó L IC A IM P E R IA L</p><p>Não há retratos contemporâneos de Jerônimo conhecidos Porém, edições posteriores de</p><p>suas obras frequentemente representam-no. Estas duas,</p><p>de uma tradução da época da</p><p>Renascença ,italiana de sua vida e canas, mostra-no primeiro com seus muitos livros e, depois,</p><p>com Marcela que, com mãe e a irmã de Jerônimo auxiliaram-no no trabalho com as Escrituras,</p><p>Jerônimo está apontando para seus críticos que, aparentemente, tinham uma visão distorcida</p><p>do fato de ele estar conversando com uma mulher.</p><p>A. Jerônimo (c. 340-420) — Comentarista e Tradutor</p><p>Jerônimo. natural de Veneza, foi batizado em 360 e durante vários anos foi um</p><p>estudante que viajou por Roma e pelas cidades da Gália. Na década seguinte, ele</p><p>visitou Antioquia e adotou a vida monástica, ocasião em que aprendeu hebraico.</p><p>Fez-se em 382 secretário de Dâmaso, bispo de Roma. que lhe sugeriu a possibilidade</p><p>de fazer uma nova׳ tradução da Bíblia.4 Em 386, Jerônimo foi para a Palestina e lá,</p><p>graças à generosidade de Paula, uma rica senhora romana a quem, tinha ensinado</p><p>hebraico, viveu num retiro monástico em Belém, por 35 anos.</p><p>A maior obra de Jerônimo foi uma tradução latina da Bíblia conhecida como</p><p>Vulgata. Em 388. ele tinha completado a revisão do Novo Testamento latino cuidado-</p><p>samente cotejado com o grego. Ele se serviu do grego da versão Septuaginta do</p><p>Velho Testamento para fazer uma tradução para o latim do hebraico do Velho</p><p>Testamento, A versão da Bíblia feita por Jerônimo tem sido amplamente usada pela</p><p>Igreja ocidental e tem sido, até recentemente, a única Bíblia oficial da Igreja Católica</p><p>Romana desde o Concilio de Trento.</p><p>Jerônimo foi também um comentarista capaz, escreveu muitos comentários até</p><p>hoje úteis. Sua grande dedicação e seu enorme conhecimento dos clássicos</p><p>ajudaram-no ina interpretação das Escrituras, embora nos últimos anos de sua vida</p><p>desaprovasse o saber clássico. Escreveu uma bela׳obra. De Viris Illustribus, modelo</p><p>dos biógrafos antigos, que contém breves resumos biográficos e bio-bibliográficos</p><p>de importantes escritores cristãos e de suas obras desde o tempo dos apóstolos até</p><p>seus dias. Seu amor pela vida ascética fez dele ׳um propagador do asceticismo,</p><p>A ERA DE O U R O D O S P A IS D A IG R E JA 1 1 7</p><p>devendo-se muito aos escritos de Jeronimo sobre o assunto, a popularidade medie-</p><p>vai da vida ascética no Ocidente.</p><p>B. Ambrósio (c. 340-397) — Administrador e Pregador</p><p>Ambrósio demonstrou sua capacidade nos campos da administração eclesiásti-</p><p>ca, pregação e teologia. Seu pai ocupara 0 alto cargo de prefeito da Gália e sua</p><p>família, dos altos círculos imperiais de Roma, educou-o em direito para o exercício de</p><p>uma carreira política. Alcançou logo 0 cargo de governador imperial da área em torno</p><p>da cidade de Milão. Com a morte do bispo de Milão em 3740 povo pediu unanimemente</p><p>a sua ascensao ao cargo. Crendo ser esta uma chamada de Deus, ele aceitou 0 cargo,</p><p>distribuiu seus bens aos pobres, tornou-se bispo e começou a estudar intensamente a</p><p>Bíblia e teologia.</p><p>Uno mosaico de Ambrósio — bispo de Milão; prega-</p><p>dor poderoso, teólogo e hábil administrador Este</p><p>mosaico vem da primeira metade do! século V, e</p><p>pode ser uma representação algo fantasiosa de sua</p><p>aparência real,</p><p>Ambrósio provou ser um administrador intimorato e capaz na condução dos</p><p>negócios da Igreja. Falou contra os poderosos grupos arianos e não hesitou em se</p><p>opor ao Imperador Teodósio. Teodósio reunira o povo deTessalônica, cujo governa-</p><p>dor fora assassinado, num circo da cidade e ordenara o seu ,massacre. Quando ele</p><p>veio à igreja tomar a Ceia, Ambrósio recusou-se a admiti-IO à Comunhão até que ele,</p><p>humilde e publicamente, se arrependesse deste ato. Ambrósio queria que 0 Estado e</p><p>seus dirigentes respeitassem a Igreja, não contrariando os direitos legítimos da Igreja</p><p>no reino espiritual.</p><p>1 1 8 A SUPREMACIA DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA IMPERIAL</p><p>Embora suas exposições práticas da Bíblia tenham sido limitadas pelo uso do</p><p>método alegórico. Ambrósio foi um pregador de talento. Sua pregação na catedral de</p><p>Milão foi o instrumento para levar Agostinho ao conhecimento do Cristianismo e que</p><p>resultou em sua salvação. Possivelmente foi ele que introduziu o cântico de hinos e a</p><p>salmódia antifonal na Igreja ocidental. Ambrósio foi também um teólogo de grande</p><p>talento, embora só estudasse teologia depois de ordenado bispo.</p><p>C. Agostinho (c. 354-430) — Filósofo e Teólogo</p><p>A fama de Jerônimo e Ambrósio, mesmo honrados com os títulos de doutor pela</p><p>Igreja medieval, é pequena diante da reputação de Agostinho. O Protestantismo e.o</p><p>Catolicismo Romano tributam honra à contribuição de Agostinho à causa do</p><p>cristianismo. Polemista capaz, pregador de talento, administrador episcopal compe-</p><p>tente, teólogo notável, ele criou uma filosofia cristã da história que continua válida até</p><p>hoje em sua essência. Vivendo num tempo em que a velha civilização clássica parecia</p><p>sucumbir diante dos bárbaros, Agostinho permaneceu em dois mundos, o clássico e</p><p>o novo medieval. Para ele, os homens devem olhar adiante para a "Cidade de Deus”,</p><p>uma civilização espiritual, uma vez que a velha civilização clássica estava passando.</p><p>Agostinho nasceu em 354 na casa de um oficial romano na cidade deTagasta, ao</p><p>norte da África. Sua mãe, Monica, dedicou sua vida à sua formação e conversão à fé</p><p>cristã. Seus primeiros anos de estudos foram feitos na escola local, onde aprendeu</p><p>latim à força de muitos açoites, e odiou tanto o grego que jamais aprendería para</p><p>poder usar fluentemente. Foi enviado para a escola próximo a Madaura e daí para</p><p>Cartago, para estudar retórica. Livre dos limites familiares, Agostinho fez o mesmo</p><p>que a maioria dos estudantes de então, passando a viver ilegitimamente com uma</p><p>concubina. Seu filho, Adeodato, nasceu desta união em 372. Dois anos depois, na</p><p>busca pela verdade ele aceitou o ensino maniqueista mas, por achá-lo insuficiente,</p><p>voltou à filosofia com a leitura de׳ Hortensius, de Cícero, e aos ensinos do Neo-</p><p>platonismo. Ensinou retórica em sua cidade Natal e em Cartago até ir para Milão em</p><p>384.</p><p>Em 386 aconteceu a crise de conversão. Meditando um dia num jardim sobre a</p><p>sua situação espiritual, ouviu uma voz próxima à porta que dizia: 'Tome e leia”.</p><p>Agostinho abriu sua Bíblia em Romanos 13:1314־ e a leitura trouxe-lhe a luz que sua</p><p>alma não conseguiu encontrar nem no Maniqueismo nem no Neo-platonismo. Des-</p><p>pediu sua concubina e abandonou sua profissão. Sua mãe, que muito orara por sua</p><p>conversão, morreu logo depois do seu batismo. De volta a Cartago, foi ordenado</p><p>sacerdote em 391. Cinco anos depois foi consagrado bispo de Hipona. Dai até sua</p><p>morte em 430, empenhou-se na administração episcopal, estudando e escrevendo.</p><p>Ele é apontado como o maior dos Pais da Igreja.5 Deixou mais de 100 livros, 500</p><p>sermões e 200 cartas.</p><p>Talvez a obra mais conhecida de sua lavra sejam as Confissões, uma das maiores</p><p>obras autobiográficas de todos os tempos. No curso desta obra, Agostinho abre a sua</p><p>alma. Os Livros I a VII descrevem a sua vida anterior à conversão; o Livro VIII descreve</p><p>os eventos em torno de sua conversão; os dois Livros seguintes narram os aconteci-</p><p>mentos depois de sua conversão, incl usive a morte de sua mãe e sua volta ao norte da</p><p>África; os Livros XI e XIII são comentários aos primeiros capítulos de Gênesis em que</p><p>usa a alegoria com freqüência.</p><p>Os cristãos através dos tempos têm sido abençoados com a leitura desta obra</p><p>escrita por Agostinho para o louvor de Deus, cu>a graça alcançou um pecador como</p><p>A ERA OE QURO OOS PAIS OA IGREJA 1 1 0</p><p>ele. O livro traz no primeiro parágrafo a citadíssima frase “Tu nos fizeste para ti e nosso</p><p>coração não descansará enquanto não repousar em ti”. O sentido de seu pecado e a</p><p>força do mal evidenciados por sua vida imoral apaixonada levaram-no a clamar.</p><p>"Dá-me a castidade e a continência, mas não agora". Esta necessidade só foi preen-</p><p>chida por sua experiência da graça de Deus.6</p><p>Agostinho escreveu outra obra autobiográfica, Retractationes, pouco antes de</p><p>morrer. Nela, discute suas obras em ordem cronológica e mostra onde suas idéias</p><p>mudaram no decorrer dos anos. Lamenta em particular sua aproximação com a</p><p>Observe-se que a ênfase de Man( no poder do homem para redimir-se a si</p><p>mesmo e ao mundo aproxima-se das propostas de Toynbee e Hegel.</p><p>3. O terceiro grupo de intérpretes, em que o autor se coloca, pode ser descrito</p><p>como otimista pessimista. Estes historiadores concordam com a ênfase dos pessimis-</p><p>tas no fracasso do homem não-regenerado; à luz da revelação e da graça divina, são</p><p>porém, otimistas em relação ao futuro do homem.</p><p>Os otimistas pessimistas abordam a história como teístas bíblicos e procuram</p><p>encontrar a glória de Deus no processo histórico. A história torna-se um processo de</p><p>conflito entre o bem e o mal, entre Deus e o Diabo, no qual o homem não tem</p><p>qualquer esperança fora da graça de Deus. A obra de Cristo na Cruz é a garantia final</p><p>da vitória certa do plano divino para o homem e para a terra, quando Cristo׳ retornar.</p><p>A Cidade de Deus, uma defesa e uma exposição do cristianismo por Agostinho</p><p>(354-430) um dos Pais da Igreja, ilustra bem esta interpretação, embora muitos</p><p>cristãos não concordem com a colocação do Milênio no atual período da Igreja. A</p><p>majestade da concepção agostiniana reside na sua atribuição da criação ao Deus</p><p>soberano. A extensão ou escopo da filosofia da história em Agostinho abrange toda a</p><p>raça humana, ao contrário de favorecer a nação germânica, como em Hegel, ou a</p><p>classe operária, como em Marx. Agostinho sustenta que o curso da história humana</p><p>tem o seu centro na Cruz: a graça que flui dela opera na Igreja Cristã, o Corpo invisível</p><p>de Cristo. Os cristãos, com a força divina que os fortalece, colocam-se ao lado de</p><p>Deus na luta contra o mal até que a históriaalcance a sua consumação no retorno de</p><p>Cristo.</p><p>Meu livro, Deus e o Homem no Tempo3, é uma tentativa contemporânea de dar</p><p>um enfoque cristão à história.</p><p>C. O Elemento Artístico.</p><p>Finalmente, o historiador deve procurar ser o mais artístico possível na sua</p><p>apresentação dos fatos. Os historiadores modernos não têm se empenhado em fazer</p><p>uma apresentação literariamente agradável da história como deveríam.</p><p>INTHDDUQID I f</p><p>A história da Igreja será apenas um enfadonho exercício acadêmico de recorda-</p><p>ção dos fatos, se não se descobrir o seu valor para o cristão. Os antigos historiadores</p><p>tinham uma grande apreciação pelos valores pragmáticos, didáticos e morais da</p><p>história, o que não caracteriza a maioria dos historiadores modernos. O estudante</p><p>consciente dos valores apreendidos no estudo da história da Igreja Cristã tem bons</p><p>motivos para se interessar por este setor particular da história humana.</p><p>A. A História da Igreja como uma Sintese.</p><p>Um dos valores fundamentais da história da Igreja está na correlação que ela faz</p><p>entre os dados fatuais do passado do Evangelho, e a proclamação e aplicação futura</p><p>deste Evangelho numa síntese atual que nos ajuda a compreender nossa grande</p><p>herança e a inspiração .para esta nova proclamação e aplicação. A história da Igreja</p><p>mostra o Espírito de Deus em ação através da Igreja durante os séculos de sua</p><p>existência. A teologia exegética está intimamente ligada à teologia prática na medida</p><p>em que o estudante percebe o impacto da teologia sistemática sobre opensamentoe</p><p>a ação humana no passado.</p><p>III. O VALOR DA HISTÓRIA DA IGREJA</p><p>B. A História da Igreja como um Auxilio para a Compreensão do Presente.</p><p>A História da Igreja é também valiosa como explicação do presente. Podemos</p><p>compreender melhor o presente se conhecemos as suas .raizes no passado. A respos-</p><p>ta à intrigante questão da presença de mais de 250 grupos religiosos nos Estados</p><p>Unidos pode ser encontrada na história da Igreja. O princípio de separação surgiu na</p><p>história da Igreja com a Reforma. É interessante remontar ao passado da Igreja</p><p>Episcopal Protestante e ver na luta entre o poder real e o papado-a origem da Igreja</p><p>Anglicana. O metodista se interessa pelos primórdios de sua Igreja no reavivamento</p><p>wesleyano que acabou por provocar a separação do metodismo da Igreja Anglicana,</p><p>Os seguidores da fé reformada ou presbiteriana se deliciarão ao traçarem a origem de</p><p>sua Igreja desde a Suíça, Assim tornamo-nos conscientes de nossa herança espiri-</p><p>tual.</p><p>Crenças e práticas litúrgicas diferentes tornam-se mais palpáveis à luz da história</p><p>pretérita. Os metodistas se ajoelham diante do altar para a Comunhão porque duran-</p><p>te muito tempo foram uma igreja dentro da Igreja Anglicana e Wesley, relutante em</p><p>romper com a Igreja Anglicana, mantinha seus usos litúrgicos. Ao contrário, os</p><p>presbiterianos recebem a Comunhão assentados. As diferenças entre as teologias</p><p>metodista e presbiteriana ficam mais evidentes quando se estuda as doutrinas de</p><p>Calvino e de Arminio.</p><p>Os problemas contemporâneos da Igreja são geral mente iluminados pelo estudo</p><p>do passado, DO'S existem padrões e paralelus na hiatúria. A recusa de muiitos ditado־</p><p>res modernos em permitir que o seu povo tenha interesses particulares independente-</p><p>mente de sua vida pública no Estado é mais perceptível se se recorda que 01</p><p>imperadores romanos entendiam que quem tivesse uma religião pessoal estavl</p><p>ameaçando a existência do Estado.</p><p>A relação entre a Igreja e o Estado permanece problemática na Rússia, na Chin■</p><p>e nos estados satélites russos, de modo a não surpreender que estes estados peni-</p><p>1 0 0 C R IS T IA N IS M O A T R A V É S D O S S É C U LO S</p><p>gam ao cristianismo, a exemplo de Décio e Diocleciano. O perigo óbvio da união da</p><p>Igreja com o Estado, seja através do apoio estatal a escolas paroquiais, seja através</p><p>do envio de embaixadores ao Vaticano, é iluminado pelo declínio da espiritualidade</p><p>na Igreja e pela interferência do poder temporal na Igreja a partir do controle do</p><p>Concilio de Nicéia por Constantino em 325. Tennyson, em seu poema Ulysses, nos</p><p>relembra que "somos uma parte de tudo que encontramos".</p><p>C. A Historia da Igreja como um Guia.</p><p>A reparação dos males existentes na Igreja ou o evitar dos erros e dos costumes</p><p>equívocos é outro valor do estudo do passado da Igreja. O presente é certamente o</p><p>produto do passado e a semente do futuro. Paulo nos lembra em I Corintios 10: 6,11</p><p>que os eventos do passado devem nos ajudar a evitar o mal e buscar o bem. O estudo</p><p>da Igreja Católica Romana na Idade Média revelará o perigo do eclesiasticismo</p><p>contemporâneo que parece insinuar-se no protestantismo. Novas seitas aparecem</p><p>geralmente como velhas heresias travestidas. A Ciência Cristã pode ser melhor com-</p><p>preendida depois de estudados o gnosticismo na Igreja primitiva e as idéias dos</p><p>albigenses nos tempos medievais. A ignorância da Bíblia e da história da Igreja é a</p><p>razão principal por que muitos se enveredam por falsas teologias e por práticas</p><p>erradas.</p><p>D. A História da Igreja como uma Força Motivadora.</p><p>A História da Igreja também oferece edificação, inspiração ou entusiasmo, que</p><p>estimula uma vida espiritual elevada. Paulo cria que o conhecimento do passado</p><p>ajudava na vida cristã (Rm. 15:4). Ninguém estuda a brava postura de Ambrósio de</p><p>Milão, ao recusar a Comunhão ao imperador Teodósio até que ele se arrependesse</p><p>do massacre da multidão tessalõnica, sem se sentir encorajado a lutar por Cristo contra</p><p>o mal dos altos círculos políticos ou eclesiásticos. A disposição e a força que capaci-</p><p>taram Wesley para pregar mais de dez mil sermões e viajar milhares de quilômetros a</p><p>cavalo são destaques a se considerar e desafios aos cristãos que dispõem de meios</p><p>melhores para viajar e estudar, mas que deles não têm feito uso adequado. Pode-se</p><p>não concordar com a teologia de Rauschenbusch, mas não se pode negar a inspira-</p><p>ção que ela significou por seu interesse em aplicar o Evangelho aos problemas</p><p>sociais. A história da vida de Carey foi e é uma inspiração para a obra missionária. O</p><p>aspecto biográfico da história da igreja é algo que inspira e desafia o estudante.</p><p>Há também edificação quando alguém toma consciência de seu passado espiri-</p><p>tual. E muito bom o cristão tornar-se consciente de sua genealogia espiritual, como o</p><p>é para o cidadão estudar a história de seu país a fim de que possa se tornar um</p><p>cidadão</p><p>filosofia pagã, a qual jamais pode levar o homem à verdade como faz 0 cristianismo.7</p><p>Essa é a sua biografia intelectual.</p><p>Agostinho escreveu ainda obras filosóficas em forma de diálogo. Contra Acade-</p><p>micos é a mais interessante delas e nela ele procura demonstrar que o homem jamais</p><p>pode alcançar a verdade completa através do estudo filosófico e que a certeza</p><p>somente vem pela revelação na Bíblia.</p><p>Sua De Doctrina Christiana é a obra exegética mais importante que escreveu. É</p><p>um breve manual onde figuram as suas idéias sobre a hermenêutica ou a ciência da</p><p>interpretação. Nela desenvolve o grande princípio da analogia da fé. Entende ele que</p><p>nenhum ensino contrário ao sentido geral da Bíblia pode ser derivado de uma</p><p>passagem particular. O esquecimento deste princípio tem levado a muitas formas de</p><p>erro e, mesmo, à heresia. Com este princípio em vista, ele escreveu muitos comentá-</p><p>rios exegéticos sobre 0 Velho e o Novo Testamento.</p><p>Agostinho escreveu ainda tratados teológicos dos quais seu De Trinitate, sobre</p><p>a Trindade, é o mais importante. Os primeiros sete livros da obra são dedicados à</p><p>exposição bíblica desta doutrina. Seu pequeno trabalho, Enchiridion ad Laurentium,</p><p>resume suas idéias teológicas e, de certo modo, completa suas Retractationes, dando</p><p>ao leitor uma imagem bem nítida de sua teologia. Agostinho escreveu também muitas</p><p>obras polêmicas para defender a fé dos falsos ensinos e das heresias dos maniqueus,</p><p>dos donatistas e, principalmente, dos pelagianos. Sua De Haeresibus é uma história</p><p>das heresias.</p><p>O bispo de Hipona escreveu obras práticas e pastorais, além de muitas cartas das</p><p>quais podemos dispor de umas 200. Estas obras e estas cartas tratam de muitos</p><p>problemas práticos que um administrador eclesiástico enfrenta no decorrer dos anos</p><p>do seu ministério.</p><p>Sua grande obra apologética e, segundo alguns sua maior obra, sobre a qual</p><p>reside a sua fama, é o tratado De Civitate Dei, popularmente conhecida como A</p><p>Cidade de Deus. Agostinho mesmo achava ser esta a sua grande obra.8 Espantados</p><p>com o saque de Roma por Alarico em 410, os romanos creditaram este desastre ao</p><p>fato de terem abandonado a velha religião clássica romana e adotado o cristianismo.</p><p>Agostinho põe-se a responder esta acusação a pedido de seu amigo Marcelino. Os</p><p>Livros I a X constituem a parte apologética da obra. Ele procura demonstrar nos</p><p>Livros I a V que a prosperidade do Estado independe do velho culto politeístico</p><p>porque os romanos sofreram catástrofes antes do advento do cristianismo; diz tam-</p><p>bém que o sucesso que tiveram se deve à providência de Deus de quem têm sido</p><p>ignorantes. Nos livros seguintes, Agostinho demonstra que o culto dos deuses roma-</p><p>nos não é necessário para se conseguir a bênção eterna. Os deuses não ajudam seus</p><p>devotos no terreno temporal nem no espiritual, ao passo que o cristianismo pode dar</p><p>e tem dado bênçãos espirituais àqueles que o abraçam.</p><p>A filosofia da história de Agostinho, a primeira filosofia real da história que se</p><p>2 0 ו A S U P R E M A C IA D A A N T IG A IG R E J A C A T Ó L IC A IM P E R IA L</p><p>produziu, está nos Livros XI a XXII de sua grande obra. A origem das duas cidades é</p><p>discutida nos Livros XI a XIV. A idéia central da obra está no capítulo 28 do Livro XV. A</p><p>primeira cidade, a Cidade-de Deus, é formada de todos os seres humanos e celestiais</p><p>unidos ״no amor a Deus e interessados somente em Sua glória. A Cidade da Terra é</p><p>composta pelos seres que, amando apenas a si mesmos, procuram sua própria glória</p><p>e seu próprio bem, O supremo princípio da vida é o do amor. Agostinho não tinha em</p><p>mente o Império Romano ou״a Igreja de Roma quando falou destas duas cidades, Sua</p><p>visão era mais universal e contrariava a interpretação cíclica da história vigente em</p><p>seus dias Nos Livros XV a XVIII, ele delineia o crescimento e o progresso das cidades</p><p>através da história bíblica e secular. Os Livros restantes fazem um relato do destino</p><p>das duas cidades. Depois do julgamento, os membros da Cidade de Deus vivem em</p><p>felicidade eterna e os da Cidade da Terra em castigo eterno. Agostinho״não trata do</p><p>lugar do judeu no futuro e entende que a presente era da Igreja é o milênio. Diz ele que</p><p>o dualismo das duas cidades é apenas temporal e tolerado, mas que cessará por um</p><p>ato de Deus. Embora a obra seja pesada e monótona, pode-se ter por sua leitura uma</p><p>compreensão do plano e propósito de Deus na história.</p><p>A formulação de uma interpretação cristã da história deve sertida como uma das</p><p>contribuições permanentes deixadas por este grande erudito cristão. Nem os historia-</p><p>dores gregos nem os romanos foram-capazes de compreender tão universalmente a</p><p>história doihomem. Agostinho exalta o poder espiritual sobre o temporal1 ao afirmar a</p><p>soberania do Deus que se tornou o Criador da história no tempo. Deus é Senhor da</p><p>história e nada o limita, como ensinaria o filósofo Hegel (1770-1831), Tudo o que vem</p><p>a ser é uma conseqüência de Sua vontade e ação. Antes mesmo da criação, Deus</p><p>tinha um plano em vista para Sua criação. Este plano será parcialmente realizado no</p><p>tempo, na luta entre as duas cidades na terra e depois completada fora da história pelo</p><p>poder sobrenatural! de Deus. Como ninguém antes dele, Agostinho dava também</p><p>uma dimensão muito ampla !para sua idéia de história. Ele via a história como</p><p>universal' e unitária em que todos os homens estavam incluídos. Heródoto, ao escre-</p><p>ver sobre a Guerra Persa, limitou seu trabalho à luta entre os gregos e os persas.</p><p>Agostinho, ,ao contrário, assinalou a solidariedade da raça humana. Ademais, ele</p><p>entendia que o progresso era de contornos mais !morais e espirituais e era 0 resultado</p><p>do conflito com 0 mal, um conflito em que o homem podia contar com a graça de</p><p>Deus ao seu lado. A consumação deste conflito resolvería 0 dualismo temporal das</p><p>cidades em luta na vitória final da Cidade de Deus. Neste sentido, Agostinho evitou o</p><p>erro de Marx (1818-1883) e de outros que procuram fazer da cena relativa e temporal</p><p>da história algo absoluto e eterno com a procura de soluções para os problemas do</p><p>homem na história temporal. O fim ou objetivo da história, para Agostinho, está fora</p><p>da !história, nas mãos de um Deus eterno. Esta inspiradora filosofia manteve viva a</p><p>Igreja através do negro meio-milênio anterior ao ano 1000.</p><p>Agostinho é visto pelos protestantes como um precursor das idéias da Reforma</p><p>com sua ênfase sobre a salvação do pecado original e atual como resultado da graça</p><p>de um Deus soberano que salva irresistivelmente àqueles que elegeu. Na discussão,</p><p>porém, de como 0 homem é salvo, Agostinho deu tanto destaque àilgreja como uma</p><p>instituição visível com credos, sacramentos e ministério verdadeiros que a Igreja</p><p>Romana também o vê como 0 Pai do eclesiastismo romano. Deve-se lembrar que ele</p><p>salientou estas coisas para fazer frente, de um lado, aos pelagianos e, de outro, aos</p><p>donatistas. Sua insistência na consideração do sentido inteiro da Bíblia na interpreta-</p><p>ção de uma parte da ,Bíblia é um princípio de valor duradouro para a Igreja.</p><p>Δ E R A D E O U R O D O S P A IS D A IG R E J A 1 2 1</p><p>A despeito destes valores permanentes, Agostinho trouxe alguns erros ipara</p><p>dentro do pensamento cristão. Contribuiu para a formulação da doutrina do purgató-</p><p>rio com todas as suas más conseqüências; enfatizou tanto o valor dos dois sacramen-</p><p>tos que a doutrina da regeneração batismal e da graça sacramentai se tornaram</p><p>conseqüências lógicas de suas colocações: sua interpretação do milênio, como o</p><p>período entre a Encarnação e a Segunda Vinda de Cristo em que a׳ Igreja vencería o</p><p>mundo, gerou ׳o ensino romano sobre a Igreja de Roma como a Igreja universal</p><p>destinada a agrupar todos dentro de seu aprisco, e a idéia do pós-milenismo.</p><p>Estas ênfases de Agostinho não nos devem impedir de ver o significado de sua</p><p>obra para a Igreja Cristã. Os reformadores encontraram em Agostinho um! aliado</p><p>inestimável na sua crença de que o homem escravizado pelo pecado necessita da</p><p>salvação através da graça de Deus pela</p><p>fé somente. Entre Paulo eiLutero, a Igreja não</p><p>teve ninguém da estatura moral e espiritual de Agostinho.</p><p>A SUPREMACIA DA ANTIGA IGREJA</p><p>CATÓLICA IMPERIAL</p><p>CAPÍTULO 14</p><p>O CRISTIANISMO NOS CLAUSTROS</p><p>Através dos tempos, algumas pessoas têm, renunciado à vida social em épocas</p><p>de crise social e se retirado para a solidão afim de operar sua própria salvação forada</p><p>sociedade que julgavam decadente e arruinada. No período da gradual decadência</p><p>inlerna do Império Romano, o monasticismo exerceu um forte apelo para muitos que</p><p>prontamente renunciaram a sociedade em favor do claustro. Este movimento tem</p><p>suas origens no século IV, quando leigos em número cada vez maior começaram a se</p><p>ausentar do mundo. Ao final do século VI, o monasticismo tinham fundas raízes na</p><p>Igreja ocidental e oriental. Um segundo periodo de grandeza do monasticismo ocor-</p><p>reu por ocasião das reformas monásticas dos séculos X e XI. A era dos frades no</p><p>século XIII constitui um terceiro período. O surgimento dos jesuítas na Contra-</p><p>Reforma do século XVI consititui o período final em que o monasticismo atingiu</p><p>profundamente a Igreja. O movimento exerce até hojeum importante papel'na vida da</p><p>Igreja Católica Romana.</p><p>I. AS CAUSAS DO MONASTICISMO</p><p>Vários fatores contribuíram para o surgimento do monasticismo dentro da Igreja</p><p>antiga. Um dos fatores mais importantes foi a influência filosófica. A doutrina dualista</p><p>de carne e espírito, com sua tendência a considerar má a carne e bom o espirito — tão</p><p>característica do Oriente — influenciou o cristianismo através dos movimentosgnós-</p><p>tico e neoplatonista. A saída do mundo, pensava-se, ajudava a pessoa a crucificar a</p><p>carne e desenvolver a vida espiritual· pela meditação e pela ascese.</p><p>Deve-se recordar que alguns textos bíblicos parecem apoiar a idéia de separação</p><p>do mundo. A aparente defesa que Paulo faz da vida celibatária no capitulo sete de I</p><p>Corintiosé um desses, Os Pais da Igreja primitiva, comoOrigenes, Cipriano, Tertúlia-</p><p>no e Jerônimo, entenderam o celibato׳como a interpretação correta dessas passa-</p><p>gens.</p><p>Determinadas tendências psicológicas fortaleceram o desejo por uma vida mo-</p><p>nástica. Em momentos de crise há sempre uma tendência para o retiro das adversas</p><p>condições da vida. A última parte do século II e o século III' viram o começo da</p><p>0 C R IS T IA N IS M O N O S C L A U S T R O S 1 2 3</p><p>desordem civil que se tornaria comum na história final do Império. Muitos trocaram a</p><p>sociedade pelo mosteiro como forma de fugir desta realidade adversa e da contami-</p><p>nação moral de então. Com a união da Igreja com o Estado, a possibilidade do</p><p>martírio desapareceu, mas aqueles que almejavam o martírio como garantia de sua fé,</p><p>poderiam encontrar um substituto psicológico nas práticas ascéticas do monasticis-</p><p>mo. O monasticismo também oferecia uma aproximação mais individualista com</p><p>Deus do que a adoração coletiva e formal da época.</p><p>A história tem parte da responsabilidade na decisão de muitos em aceitarem a</p><p>vida do claustro. O número cada vez maior de bárbaros a abarrotar a Igreja trouxe</p><p>muitas práticas semi-pagãs para dentro da Igreja, contra o que as almas puritanas se</p><p>revoltaram. A crescente deterioração moral, especialmente entre as classes altas da</p><p>sociedade romana, levou muitos a desererem da reforma social. O monasticismo tornou-</p><p>se um refúgio para os que se revoltavam contra a galopante decadência dos tempos.</p><p>Era uma espécie de crítica viva da sociedade de então.</p><p>A geografia merece alguma atenção como um dos fatores responsáveis pelo</p><p>surgimento do monasticismo. Teria sido muito difícil chegar-se à vida monástica em</p><p>regiões ondeo clima fosse mais duro que no Egito, onde a vida monástica começou.</p><p>O clima quente seco e a variedade de cavernas nas colinas ao longo dos aterros do</p><p>Nilo eram ótimos para o isolamento do indivíduo da sociedade. Pequenos jardins,</p><p>junto com as fontes de alimento fornecidas pelo Nilo próximo, tornavam fácil para as</p><p>pessoas a obtenção de alimento. A proximidade do cenário desolado e inóspito do</p><p>deserto estimulava a meditação.</p><p>II. A EVOLUÇÃO DO MONASTICISMO</p><p>O monasticismo passou por quatro estágios antes de seu aparecimento na</p><p>civilização ocidental. De início, as práticas ascéticas eram vividas por muitos dentro</p><p>da Igreja. Muitos depois deixaram a sociedade para viver como anacoretas ou eremi-</p><p>tas. A santidade dos eremitas atraía a outros, que passavam a morar em cavernas</p><p>próximas a eles & sob sua liderança. Pôde-se construir, então, um claustro para</p><p>exercícios coletivos. No estágio final, surgiu a vida comunal organizada dentro do</p><p>mosteiro. Este processo teve seus primórdios no Oriente, no século IV, de onde se</p><p>espalhou para a Igreja no Ocidente.</p><p>A. No Oriente</p><p>Antonio (c. 250-356) é geralmente visto como o fundador do monasticismo. Aos</p><p>20 anos de idade, ele vendeu seus bens, deu o dinheiro aos pobres e se retirou para</p><p>uma solitária.caverna para levar uma vida de meditação. Sua vida de santidade deu-lhe</p><p>tamanha reputação que outros passaram a viver perto dele em várias cavernas. Como</p><p>nunca organizou esses seguidores numa comunidade, cada um praticava a vida</p><p>ascética de um eremita dentro de sua própria caverna.1</p><p>Nem todos os monges eremitas, eram equilibrados como Antonio· e seus</p><p>seguidores. Um deles, conhecido por Simeão Estilita (c. 390459־), depois, de viver</p><p>enterrado até o pescoço por vários meses, resolveu alcançar ה santidade sentando-se</p><p>numa estaca. Ele passou mais de trinta e cinco anos no topo ae uma coluna ae</p><p>dezoito metros, perto de Antioquia. Outros viviam no campo e pastavam capim</p><p>como bois. Um certo Amon conseguiu alguma fama de santidade por jamais ter se</p><p>despido ou tomado banho depois que se tornou eremita. Um outro andou nu nas</p><p>1 2 4 A S U P R E M A C IA D A A N T IG A IG R E J A C A T Ú L IC A IM P E R IA L</p><p>proximidades do Monte Sinai durante 50 anos. Estes, entretanto, eram apenas a</p><p>facção fanática do movimento e estariam mais presentes no Oriente do que no</p><p>Ocidente.</p><p>Os monges viam as mulheres como as fontes da</p><p>tentação e do pecado e consequentemente, fugiam</p><p>de sua companhia A ironia é que o sexo tendeu a</p><p>tornar-se uma obsessão para eles, Para fugir da</p><p>tentação o monge está queimando seus dedos, Na-</p><p>da de sua mão esquerda permanece a não ser 0</p><p>toco de um dedo remanescente.</p><p>Uma visão equilibrada do monasticismo deve man-</p><p>ter em mente as suas motivações, suas contribui-</p><p>ções positivas e seus excessos. Macário, mostrado</p><p>em uma xilogravura, é dito ter feito tal penitência por</p><p>ter matado um mosquito que viveu seis meses em</p><p>umipântano, deixando-se ser mordido pelos insetos.</p><p>O tipo comunal ou coletivo de monasticismo, geralmente chamado de</p><p>monasticismo cenobítico, também começou no Egito. Pacômio (290-346), um</p><p>soldado desertado, depois de viver 12 anos com um eremita, organizou o primeiro</p><p>mosteiro por volta do ano 300 em Tabennisi na margem direita do Nilo. Logo, sete mil</p><p>monges estavam sob seu controle direto no Egito e na Síria. Simplicidade de vida.</p><p>trabalho, devoção e obediência eram os pontos-chaves da sua organização.*</p><p>Basílio de Cesaréia (c. 330-379) muito fez para popularizar o tipo comunal de</p><p>organização monástica. Depois de receber uma excelente educação em Atenas e</p><p>Constantinopla, trocou aos 27 anos os progressos do mundo pela vida ascética. Feito</p><p>bispo de uma enorme região em Capadócia em 370, permaneceu no posto até morrer.</p><p>Ele deu um sentido mais útil e social ao espirito monástico, ao solicitar que os</p><p>membros sob sua regra trabalhassem, orassem, lessem a Bíblia e praticassem boas</p><p>obras. Desencorajou 0 ascetismo extremado. O monasticismo da Igreja oriental deve</p><p>muito à regra que ele criou para a direção de seus monges.3 Mais e mais pessoas</p><p>entraram para o movimento, chegando a haver perto de 100 mosteiros na Europa</p><p>quando da ascensão de Justiniano ao trono do Império oriental.</p><p>B. No Ocidente</p><p>O monasticismo no Ocidente diferiu consideravelmente do oriental. O clima</p><p>mais frio tornou a organizaçãocomunal inevitável paraqueasconstruções!pudessem</p><p>0 C R IS T IA N IS M O N O S C L A U S T R O S 1 2 5</p><p>ser cálidas e os alimentos pudessem ser providenciados para a chegada do inverno.</p><p>O monasticismo tomou uma direção mais prática, recusando 0 ócio e deplorando os</p><p>atos meramente ascéticos. Tanto o trabalho como a devoção eram enfatizados.</p><p>é creditada geralmente a Atanásio a introdução do monasticismo no Ocidente</p><p>por ocasião do exílio momentâneo em Constantinopla. Peregrinos em direção à</p><p>Palestina estiveram em contato com 0 movimento nesta cidade e na Síria,</p><p>interessando-se por este tipo de vida cristã Martinho de Tours, Jerònimo, Agostinho</p><p>e-Ambrósio escreveram favoravelmente e ajudaram a popularizar o ascetismo no</p><p>Império Romano. Os escritos de Jerònimo sobre 0 ascetismo eram alinhados perto</p><p>da Bíblia e da Regra de São Bento nas bibliotecas dos monges medievais.</p><p>O líder inconteste do monasticismo ocidental foi Bento de Núrsia (c. 480-542).</p><p>Chocado com a vida pecaminosa de Roma, ele se retirou para viver como eremita</p><p>numa caverna nas montanhas orientais de Roma por volta de 500. Em 529, fundou o</p><p>mosteiro de Monte Cassino, que sobreviveu até à Segunda Guerra Mundial quando</p><p>foi bombardeado. Logo, vários mosteiros estavam sob seu controle, seguindo seu</p><p>plano de organização, trabalho e culto, isto é, seguindo a sua Regra. Cada mosteiro</p><p>era considerado como uma unidade auto-suficiente e auto-dirigida ou como uma</p><p>guarnição dos soldados de Cristo. O dia era dividido em períodos dos quais culto e</p><p>obra eram partes integrantes. Os regulamentos que elaborou previam pouca alimen-</p><p>tação para os monges mas permitiam fartura de peixe, azeite, manteiga, pão, vegetais</p><p>e frutas em sua dieta. Esta Regra, que ensinava a pobreza, a castidade e a obediência,</p><p>constituiu-se numa das mais importantes regras da Idade Média.4 Levada à Inglaterra,</p><p>Alemanha e França no século VII, tornou-se universal ao tempo de Carlos Magno. Foi</p><p>a regra-padrão no Ocidente ׳por volta do ano 1.000</p><p>III. AVALIAÇÃO DO MONASTICISMO</p><p>Estudantes apressados da história da Igreja geralmente menosprezam o trabalho</p><p>dos monges como de pouco valor ou demonstram uma hostilidade que não toma em</p><p>conta a contribuição deixada pelos monges em sua época, contribuição esta que</p><p>ainda afeta a civilização moderna.</p><p>O mosteiro local servia geralmente como o equivalente medieval de uma fazenda</p><p>experimental moderna na demonstração de métodos melhores de agricultura. Os</p><p>monges limpavam as florestas, drenavam os pântanos, abriam estradas e cultivavam</p><p>sementes e viveiros. Fazendeiros vizinhos adotavam as melhores técnicas que viam</p><p>os monges usar.</p><p>Os mosteiros ajudaram a manter viva a erudição na Idade Média, entre 500 e</p><p>1000, quando a vida urbana praticamente desapareceu com a tomada do Império</p><p>Romano pelos bárbaros. As escolas dos mosteiros davam educação de nível superior</p><p>para os vizinhos desejosos de aprender. Os monges também se ocupavam em copiar</p><p>manuscritos preciosos que preservaram para a posteridade. Em meados do século</p><p>VI, Cassioaoro (478-573), um alto oficial do governo ostrogodo, retirou-se do serviço</p><p>estatal para se dedicar à tarefa de coletar, traduzir e copiar obras literárias em</p><p>grego. Neste mister, fo׳ aiudado oelos monqes de um mosteiro fundado por ele. O</p><p>Livro de Kells, um fascinante e revelador manuscrito dos Evangelhos em latim, ela-</p><p>borado no sec. VII por monges irlandeses, é um exemplo da beleza da obra monásti-</p><p>ca, Monges como Beda (c. 672-735), Einhard (c.770-840) e Mateus Paris (c. 1200-</p><p>1259) escreveram relatos históricos, hoje fontes primárias acerca da história do</p><p>1 2 6 A S U P R E M A C IA U A A N T IG A IG R E JA C A T Ó U C A IM P E R IA L</p><p>período.</p><p>Os monges, particularmente da B retanha, foram os missionários da Igreja medie-</p><p>vai. Foram enviados como intimoratos soldados da Cruz para fundar novos mostei-</p><p>ros, que acabaram se tornando centros através dos quais tribos inteiras se converte-</p><p>ram׳ ao cristianismo. Columba, monge da Irlanda, converteu os escoceses, e um dos</p><p>seus seguidores, Aidano, converteu os povos do norte da Inglaterra. Infelizmente,</p><p>muitos desses missionários foram prejudicados pelos seus métodos de conversão</p><p>em massa. Se um rei aceitasse o cristianismo, ele e seu povo eram batizados.tivessem</p><p>ou não compreendido ׳plenamente 0 significado do ato ou o sentido do Cristianismo</p><p>para suas vidas.</p><p>Os mosteiros eram um refúgio para os que se isolavam da sociedade e precisa-</p><p>vam de ajuda. Os que necessitavam de hospitalização geralmente eram bem cuida-</p><p>dos no mosteiro. Os viajantes cansados podiam,estar certos de alimentação e repou-</p><p>so no albergue do mosteiro. Aqueles que !estivessem fartos do, mundanismo de seus</p><p>dias podiam encontrar no mosteiro um refúgio às preocupaçõesda vida. Alguns dos</p><p>maiores,!lideres da Igreja medieval, como Gregório VII (c, 1033-1085) ,por exemplo,</p><p>vieram dos mosteiros.</p><p>Neste balanço do primitivo monasticismo medieval, há também um débito a se</p><p>considerar. Muitos dos melhores homens e mulheres do Império foram desviados</p><p>para dentro dos mosteiros, perdendo o>mundo, já tão necessitado, a possibilidade de</p><p>contar com sua contribuição. Ademais, o celibato impossibilitou a estes homens e</p><p>mulheres o casamento e, por conseguinte, a criação de crianças melhores. Isto gerou</p><p>um padrão de moralidade para os monges•(0 celibato) e outro para 0 homem comum.</p><p>Em muitos casos também o monasticismo favoreceu o orgulho espiritual, com</p><p>os monges tornando-se orgulhosos de seus atos ascéticos praticados em beneficio</p><p>de suas próprias almas. Como os mosteiros tornaram-se ricos, devido à frugalidade e</p><p>propriedade em comum, o ócio, a■ avareza e a glutonaria campearam.</p><p>O monasticismo contribuiu para o rápido desenvolvimento de uma organização</p><p>hierárquica centralizada na Igreja, isto porque os !monges deviam obediência aos</p><p>superiores que, por sua vez, obedeciam ao papa. Podemos !lamentar estes desvios</p><p>mas temos também de admirar as excelentes contribuições !prestadas por esses</p><p>monges à vida medieval.</p><p>CAPITULO 15</p><p>A SUPREMACIA DA ANTIGA IGREJA</p><p>CATÓLICA IMPERIAL</p><p>DESENVOLVIMENTOS HIERÁRQUICOS E</p><p>LITÚRGICOS</p><p>Entre 313 e 590, a Igreja Católica Antiga, em que cada bispo era um igual,</p><p>tornou-se a Igreja Católica Romana, em que o bispo de Roma tinha supremacia sobre</p><p>os outros bispos. O ritual da Igreja tornou-se também mais sofisticado. A Igreja</p><p>Católica Romana reflete, em suas estruturas e leis canônicas, a Roma Imperial.</p><p>I. A PREDOMINÂNCIA DO BISPO ROMANO</p><p>Na Igreja primitiva, o bispo era considerado um dos muitos bispos iguais entre si</p><p>em posição, autoridade e função. No período compreendido entre 313 e 590, o bispo</p><p>romano passou a ser reconhecido como o primeiro entre os iguais. A partir, porém,</p><p>da ascensão de Leão I ao trono episcopal em 440, 0 bispo romano começou a</p><p>reivindicar a supremacia sobre os outros bispos. A necessidade da eficiência e de</p><p>uma melhor coordenação gerou naturalmente a centralização do poder. O bispo era</p><p>lambém considerado como o penhor da doutrina ortodoxa. Além do mais, alguns dos</p><p>bispos romanos deste período eram homens jovens que não deixavam passar nenhu-</p><p>ma oportunidade que pudesse aumentar o seu poder.1</p><p>Os acontecimentos históricos desta época cooperaram para intensificara repu-</p><p>tação do bispo־de Roma. Roma fora o centro tradicional de autoridade para o mundo</p><p>romano durante meio milênio e era a׳׳׳maior cidade do Ocidente. Depois que Constan-</p><p>tino·transferiu a capital do Império para Constantinopla em 330, o centro de gravidade</p><p>política oscilou de Roma para essa cidade. Isto deixou o bispo romano como a única</p><p>pessoa forte de Roma durante muito tempo; o povo desta região passou a olhá-lo</p><p>como o líder temporal e espiritual caso uma crise lhe sobreviesse. Foi ele a força que,</p><p>durante o saque de Roma em 410■ por Alarico e seus seguidores visigodos, com sua</p><p>hábil diplomacia, conseguiu salvar a cidade do fogo. Em Constantinopla, 0 Impera-</p><p>dor parecia estar distante de Roma e de seus problemas, mas o bispo, por sua</p><p>proximidade, era o único que podia exercer</p><p>um poder efetivo na solução de crises</p><p>políticas e espirituais. Quando o trono imperial no Ocidente caiu׳ nas mãos dos</p><p>bárbaros depois de 467, e outras cidades italianas se tornaram a sede do poder temporal,</p><p>o povo da Itália via o bispo romano como׳ a liderança política e espiritual.</p><p>127</p><p>1 2 Θ A S U P R E M A C IA O A A N T IG A IG R E J A C A T Ó L IC A IM P E R IA L</p><p>A teoria petrina baseada em textos como Mateus 16: 16-18. era amplamente</p><p>aceita em 590, Segundo esta teoria, Pedro recebeu a "primogenitura eclesiástica"</p><p>sobre seus companheiros de apostolado, sendo que sua posição superior passou</p><p>dele aos seus sucessores, os bispos de Roma, por sucessão apostólica. Em cerca de 250</p><p>Estevão usou esses textos.</p><p>Grandes teólogos como Cipriano, Tertulianoe Agostinho foram figuras de desta-</p><p>que da Igreja Ocidental que estiveram sob a liderança do bispo de Roma. O senhorio</p><p>do bispo não teve que enfrentar problemas, como as polêmicas heréticas que dividi-</p><p>ram o Oriente, como é o caso do arianismo Ademais, o bispo de Roma convocava</p><p>sínodosem que conseguia manter uma posição que ficaria estabelecida como a</p><p>posição ortodoxa.</p><p>Dos cinco grandes lideres eclesiásticos metropolitanos — em Jerusalém, Anti-</p><p>oquia, Alexandria. Constantinople e Roma — apenas o patriarca de Constantinople e</p><p>o bispo de Roma viviam em 590 em cidades de importância mundial. O bispo de</p><p>Jerusalém perdera seu prestígio com a rebelião judaica contra Roma no segundo</p><p>século. Alexandria e Antioquia declinaram logo em importância, chegando mesmo a</p><p>serem perdidas pela cristandade quando invadidas pelas hostes islâmicas.no século</p><p>VII. Em 590, os bispos de Roma e Constantinopla permaneciam como os dois lideres</p><p>clericais de importância. O Concilio de Constantinopla reconheceu em 381 a prima-</p><p>zia da sé romana. Ao patriarca de Constantinopla foi dada “a primazia de honra logo</p><p>depois do Bispo de Roma", segundo o terceiro cânon do Concilio.2 Era um reconhecí-</p><p>mento de fato da primazia do bispo romano por um grupo de clérigos importantes da</p><p>Igreja. O Imperador Valentiniano III, num edito de 445 A.D., reconheceu a suprema-</p><p>cia do bispo de Roma em negócios espirituais, tornando-se "lei para todos" o que</p><p>ele estabelecesse.3 Assim, tanto as autoridades eclesiásticas como as temporais</p><p>dos séculos IV e V reconheceram as pretensões do bispo de Roma de primazia na</p><p>Igreja.</p><p>A eficiente obra missionária de monges leais a Roma também fortaleceu a</p><p>autoridade do bispo romano. Clóvis, o líder dos francos, foi convertido ao cristianis-</p><p>mo em 496 e tornou-se um grande defensor da autoridade do bispo de Roma.</p><p>Gregório I enviou Agostinho à Inglaterra; este monge, junto com os seus sucessores,</p><p>conseguiu trazer a Bretanha de volta ao seio de Roma. Onde quer que fossem, os</p><p>monges missionários insistiam junto aos seus convertidos para que obedecessem ao</p><p>bispo de Roma.</p><p>Além disso, a igreja romana foi aquinhoada com muitos bispos capazes neste</p><p>período, os quais não deixaram escapar qualquer oportunidade de fortalecer seu</p><p>poder. Dâmaso I (366-384) foi possivelmente o primeiro bispo de Roma a descrever</p><p>sua diocese como a “sé apostólica". A tradução Vulgata da Bíblia, feita por Jerônimo a</p><p>pedido da Dâmaso de quem era secretário, aumentou o prestigio dos ocupantes da</p><p>cadeira episcopal em Roma. O alto conceito que tinha Jerônimo sobre seu patrão</p><p>pode ser visto numa carta que escreveu a Dâmaso, onde afirma categoricamente que</p><p>a cadeira de Pedro é a rocha sobre a qual a Igreja foi construída.4</p><p>Leão I (400-c. 461), que ocupou o trono episcopal de Roma entre 440 e 461, foi o</p><p>mais hábil ocupante da cadeira antes de Gregório I (c. 540-604) que a assumiu em</p><p>590. Sua capacidade deu-lhe o título de “grande". Ele usou muito o título papas, de</p><p>onde vem a nossa palavra “papa". Em 452, conseguiu persuadir Átila o Huno a deixar</p><p>a cidade de Roma. Novamente em 455, quando Genserico e seus seguidores vânda-</p><p>los do norte da África chegaram para saquear Roma, Leão persuadiu-os a isentar a</p><p>D E S E N V O L V IM E N T O S H IE R Á R Q U IC O S E U T Ú R G IC O S 1 2 B</p><p>cidade do fogo e da pilhagem; ele teve que concordar, entretanto, que a cidade fosse</p><p>entregue por duas semanas para ser saqueada pelos vândalos. Genserico manteve</p><p>sua palavra, e os romanos viram em Leão aquele que salvara suacidade da destruição</p><p>completa. Sua posição foi ainda mais fortalecida quando Valentiniano III reconheceu</p><p>sua supremacia espiritual no Ocidente através de um edito promulgado em 445. Leão</p><p>sustentava que as apelações das cortes eclesiásticas de bispos deviam ser levadas à</p><p>sua corte e que suas decisões seriam definitivas, Ele definiu a ortodoxia em seu</p><p>Γrono e escreveu contra a heresia dos maniqueus e donatistas.5 Mesmo não consi-</p><p>derando Leão o primeiro papa, é legitimo dizer que ele pretendeu e exerceu o poder</p><p>mais do que muitos ocupantes posteriores do bispado de Roma. Gelásio I, papa de</p><p>492 a 496, escreveu em 494 que Deus dera ao papae ao rei os poderes sacro e secular.</p><p>Porque o papa tinha de prestar contas a Deus no dia do julgamento, pelo rei, o poder</p><p>papal era mais importante que o poder real. Assim, os governadores deveríam se</p><p>submeter ao papa. é possível que este poderio tenha sido útil neste primeiro período</p><p>do relacionamento com os bárbaros, mas levou, mais tarde, à corrupção dentro da</p><p>própria Igreja Romana,</p><p>II. O PROGRESSO DA LITURGIA</p><p>A união entre Igreja e Estado com Constantino e seus sucessores provocou a</p><p>secularização da Igreja. O patriarca de Constantinopla ficou sob controle do I mpera-</p><p>dor, tornando a Igreja oriental um departamento do Estado. A vinda dos pagãos para</p><p>a Igreja através dos movimentos de conversão em massa contribuiu para a paganiza-</p><p>ção do culto quando a Igreja procurou se adaptar à nova realidade, visando deixar à</p><p>vontade estes bárbaros convertidos.</p><p>Esta entrada de pagãos, muitos dos quais eram cristãos apenas nominal mente,</p><p>obrigou a Igreja a convocar o estado para ajudá-la na manutenção da disciplina com</p><p>o uso do poder civil para punir as faltas eclesiásticas. Em 529, Justiniano, imperador</p><p>do Império oriental, ordenou o fechamento da Academia de Atenas. Até esta época a</p><p>filosofia grega pagã era ensinada ai. A disciplina afrouxou-se na Igreja porque suas</p><p>fontes de recursos provinham em grande parte dos muitos bárbaros que apenas</p><p>parcialmente tinham se convertido ao paganismo.</p><p>A afluência dos bárbaros e o crescimento do poder episcopal provocaram tam-</p><p>bém mudanças no culto da Igreja. Para que os bárbaros, acostumados com os cultos</p><p>às imagens, pudessem ser realmente assistidos pela Igreja, muitos líderes eclesiásti-</p><p>cos endenderam ser necessário materializar a liturgia para tornar Deus mais acessível</p><p>a estes fiéis, A veneração de anjos, santos, relíquias, imagens e estátuas foi uma</p><p>conseqüència lógica deste procedimento. A intimidade com o estado monárquico</p><p>também determinou uma mudança no culto, passando-se de uma forma democrática</p><p>simples para outra mais aristocrática e colorida de liturgia, com uma clara distinção</p><p>entre o clero e o laicato.</p><p>O domingo tornou-se o dia principal do calendário eclesiástico depois que</p><p>Constantino estabeleceu que este seria um dia de culto cívico e religioso. A festa do</p><p>Natal tornou-se uma prática regular em meados do século IV, adotando-se a data de</p><p>dezembro anteriormente usada pelos adoradores de Mitra. A Festa da Epifania, que</p><p>comemorava a visita dos magos a Cristo, entrou também para o calendário da igreja.</p><p>Acréscimos do ano sacro judaico, de narrativas dos evangelhos e das vidas de san-</p><p>tos mártires propiciaram uma expansão constante do número de dias santos, no ca-</p><p>lendário eclesiástico.</p><p>1 3 0 A S U P R E M A C IA 0 A A N T IG A IG R E JA C A T Ó L IC A IM P E R IA L</p><p>Aumentou também o número de cerimônias que passariam a ter funções sacra-</p><p>mentais. Agostinho entendia que o casamento devia ser considerado como um</p><p>sacramento. Cipriano sustentava que a penitência era algo vital à vida cristã. Com 0</p><p>alargamento do fosso entre o clero</p><p>e o laicato, foi necessário interpretar-se a ordena-</p><p>ção à luz do sacramento. Por volta de 400, a confirmação e a extrema-unção tornaram-</p><p>se funções com valor sacramental. A antiga formulação teológica acerca da doutrina do</p><p>pecado׳ original contribuiu para aumentar a importância do batismo infantil. No</p><p>começo do século III, Cipriano considerava o batismo infantil um fato aceito. Agosti-</p><p>nho também enfatizou a importância do batismo. A Ceia do Senhor ocupava o lugar</p><p>central no pensamento do fiel e na ordem da liturgia. Começava, então, o seu</p><p>processo de tornar-se um sacrifício e sacramento. Cipriano achava que o sacerdote</p><p>agia no lugar de Cristo na Ceia e que ele oferecia “um sacrifício verdadeiro e pleno a</p><p>Deus, o Pai".6 O Cânon da Missa, que Gregório I alterou profundamente, enfatizava a</p><p>natureza sacrificial do culto da Comunhão. Ao final do século VI. todos os sete atos</p><p>que a Igreja Católica Romana considera sacramentos estavam em uso e ocupavam</p><p>uma elevada posição no culto. O sacerdotalismo, a crença de que a substância da</p><p>ordenança se torna eficaz através da celebração sacerdotal, ganhou terreno seguro.</p><p>Aguçava-se cada vez mais a separação entre o clero e o laicato.</p><p>A veneração a Maria, mãe de Jesus, desenvolveu-se rapidamente por volta de</p><p>590, e levou à adoção das doutrinas de sua imaculada conceição, em 1854, e de sua</p><p>assunção miraculosa aos céus, em 1950. A interpretação equivocada da Bíblia e a</p><p>série de milagres atribuídos a Maria nos evangelhos apócrifos forjaram uma grande</p><p>reverência por ela. O nestorianismo e outras controvérsias cristológicas do quarto</p><p>século acabaram na sua aceitação como "Mãe de Deus", dando um lugar de honra</p><p>especial a ela na liturgia.</p><p>Clemente, Jerônimo e Tertuliano tinham creditado uma virgindade eterna a</p><p>Maria. Agostinho cria que a mãe de Cristo sem pecado jamais cometera pecado.</p><p>O monasticismo, com sua ênfase sobre a virgindade, fortaleceu a idéia da ve-</p><p>neração a Maria. Estas e outras considerações levaram a Igreja Romana a lhe dar</p><p>uma honra especial. Aquilo que de início era apenas um reconhecimento de sua</p><p>posição elevada como mãe de Cristo logo transformou-se numa crença em seus</p><p>poderes intercessórios, por se pensar que o Filho ficaria alegre por ouvir os pedidos</p><p>de Sua mãe.</p><p>A oração de Efraim Sírio (c. 306-c. 373) é o primeiro momento de uma invocação</p><p>formal a Maria. Em meados do século V, elafoi colocada como a principal de todos os</p><p>santos. Festas ligadas ao seu nome brotaram no século V. As principais eram a Festa</p><p>da Anunciação (em 25 de março), que comemorava o anúncio dos anjos ao nasci-</p><p>mento de um filho a ela; a Candelária (2 de fevereiro), que celebrava a sua purificação</p><p>após 0 nascimento de Cristo, e a Assunção (15 de agosto), que a assumia como tendo</p><p>ascendido aos céus sem morrer. No século VI, Justiniano pediu sua intercessão em</p><p>favor de seu Império. Em 590, ocupava ela uma posição singular no culto da Igreja</p><p>Romana.</p><p>A veneração dos santos surgiu do desejo natural da Igreja em honrar aqueles que</p><p>tinham sido mártires nos dias em que fora tão duramente perseguida pelo estado.</p><p>Ademais, os pagãos estavam acostumados à veneração de seus heróis; quando</p><p>muitos deles vieram para a Igreja, pareceu-lhes natural substituir os seus heróis pelos</p><p>santos e lhes dar um status de semi-divindade. Até 300, a celebração em túmulos</p><p>constava apenas de orações pelo descanso da alma do santo, mas em 590 a oração</p><p>D E S E N V O L V IM E N T O S H IE R Á R Q U IC O S E L IT Ú R Q IC O B 1 3 1</p><p>por eles tinha se tornado oração por intermédio deles. Igrejas e capelas foram</p><p>construídas sobre estes túmulos; festas relacionadas à sua morte obtiveram um lugar</p><p>no calendário eclesiástico; lendas de milagres atribuídos a eles disseminaram-se</p><p>rapidamente. O comércio de relíquias, como cadáveres, dentes, cabelos ou ossos,</p><p>tornou-se um problema tão grave que foi proibido em 381.</p><p>O uso de imagens e esculturas no culto propagou-se rapidamente na proporção</p><p>em que mais e mais os incultos bárbaros ■entravam para a Igreja. Para estes adorado-</p><p>res, essas imagens materializavam a realidade invisível da divindade. Tinham elas</p><p>também uma função decorativa no embelezamento da igreja. Os Pais da Igreja</p><p>procuraram fazer a distinção entre a devoção a estas imagens, que era parte da liturgia,</p><p>« o culto a Deus; duvida-se, porém, que esta sutil distinção tenha evitado que o fiel</p><p>comum oferecesse a elas 0 culto que os Pais reservavam a Deus somente.</p><p>Ações de graças ou procissões de penitência tornaram-se parte do culto a partir</p><p>de 313. Peregrinações, primeiro à Palestina e depois às tumbas de santos famosos,</p><p>tornaram-se comuns. A mãe de Constantino, Helena, visitou a Palestina em 326 e</p><p>disse ter encontrado a verdadeira cruz.</p><p>A ajuda do governo e a liberdade de culto sob Constantino levaram a uma ampla</p><p>construção de templos. Os cristãos tomaram de empréstimo 0 tipo de arquitetura</p><p>basílica aos romanos que a criaram para seus edifícios públicos dedicados ao nego-</p><p>cio ou às diversões. A basílica era uma grande construção retangular em forma de</p><p>cruz com um pórtico na parte ocidental para os não-batizados, uma nave para os</p><p>batizados e uma capela na parte oriental onde o coro, os sacerdotes e no caso de ser</p><p>uma catedral, 0 bispo participavam do culto. Esta capela geralmente era separada da</p><p>nave por um biombo de ferro.</p><p>O cântico na igreja era de início regido por um líder a quem o povo respondia. O</p><p>cântico antifonal, em que dois coros separados cantam alternadamente, desenvol-</p><p>veu-se na Antioquia. Ambrósio introduziu esta prática em Milão, de onde se espalhou</p><p>para a Igreja ocidental.</p><p>Este também foi um período de grandes pregadores. Ambrósio no Ocidente e</p><p>Crisóstomo no Oriente foram os pregadores mais brilhantes. Até esta época, esses</p><p>pregadores não usavam vestes especiais, que só surgiríam quando o clero passou a</p><p>manter para serviços eclesiásticos as indumentárias de tipo romano, cujo uso foi</p><p>abandonado pelo povo.</p><p>Durante este período surgiram uma hierarquia sacerdotal especial sob a lideran-</p><p>ça de um bispo romano, a tendência para aumentar o número de sacramentos e</p><p>torná-los os meios principais da graça, além dos movimentos em prol da organização</p><p>da liturgia. Estas coisas serviram para colocar os fundamentos da Igreja Católica</p><p>Romana medieval.</p><p>O SURGIMENTO DO IMPÉRIO E DO</p><p>CRISTIANISMO LATINO-TEUTÕNICOS, 590-800</p><p>CAPÍTULO 16</p><p>O PRIMEIRO PAPA MEDIEVAL</p><p>A consagração de Gregorio I como o bispo de Roma constitui um marco que</p><p>divide o período antigo da história da Igreja do periodo medieval. Poder-se־ia</p><p>lembrar, porém, que a periodização em história é um mecanismo artificial para</p><p>organizar a ordem divina da história em segmentos manuseáveis. Alguns colocam o</p><p>começo da história da igreja medieval em 313 com a garantia de liberdade religiosa.</p><p>Outros o põem no Concilio de Nicéia em 325. Outros preferem 378 devido à batalha</p><p>de Adrianópolis que resultou na migração dos visigodos para o Império. Há ainda</p><p>quem vê o período antigo da história da Igreja terminar com a queda do último</p><p>imperador romano em 476. Nesta obra, 590 é escolhido porque Gregório I inaugurou</p><p>neste ano uma nova era de poder para a Igreja no Ocidente. O fim da Idade Média da</p><p>história da Igreja é algo que também se debate. Alguns o colocam em 1095 com o</p><p>início da era das Cruzadas; outros, em 1453, com a queda de Constantinopla, e ainda</p><p>outros, em 1648, com a paz de Westfália. O autor escolheu 1517 porque as atividades</p><p>de Lutero neste ano inauguraram uma era completamente diferente, em que a ênfase</p><p>não era mais a Igreja como Instituição mas a Igreja constituída como um corpo de</p><p>crentes individuais por uma fé pessoal na obra redentiva de Cristo.</p><p>Na Era Medieval o Império Romano fragmentou-se na Africa do Norte muçulma-</p><p>na, no Império Bizantino Asiático, e nas áreas papais européias. As relações entre</p><p>igreja e estado tornaram-se‘ importantes. Uma civilização européia ocidental distinta</p><p>emergiu do Cristianismo e dos fundamentos clássicos.</p><p>O termo Idade</p><p>Média foi inicialmente usado por Christopher Keller (1634-1680)</p><p>num livro publicado em 1669. Ele dividiu a história do Ocidente em três períodos: a</p><p>história antiga, vista por ele com olhos de admirador da Renascença, acabou em 325;</p><p>a história moderna, segundo ele, começa em 1453 quando a queda de Constantino-</p><p>pia inundou o Ocidente de eruditos e manuscritos gregos. Ele caracterizava os anos</p><p>entre estas duas datas de idade Média por causa de sua aparente esterilidade e da</p><p>ausência da influência clássica. Desde então, os historiadores têm usado o termo</p><p>Idade Média como uma designação própria para esta era. Entretanto, somente os</p><p>primeiros 500 anos desta era, de 500 a 1000, podem ser considerados como Idade das</p><p>Trevas; mesmo assim, este período na Europa ocidental não foi detotal indigência em</p><p>132</p><p>0 P R IM E IR O P A P A M E D IE V A L 1 3 3</p><p>lormos de cultura, porque os mosteiros deixaram uma contribuição intelectual.</p><p>Os homens da Renascença viam a Idade Média como uma brecha que separava</p><p>o fulgurante período clássico do moderno humanismo. Para eles, este período era</p><p>apenas uma era de trevas. Os historiadores modernos do periodo, entretanto, têm</p><p>mostrado que a Era Medieval conheceu um certo progresso, uma vez que a Igreja no</p><p>Ocidente preencheu bem as funções culturais e religiosas ao fazer uma ponte entre</p><p>.cidade-estado antiga e a nação-estado moderna ׳ ■</p><p>A Igreja Católica Romana está em desacordo com os renascentistas que vêem os</p><p>mós entre 500 e 1000 como Idade das Trevas. Para ela, este periodo é a era-de־ouro</p><p>r 1 i história humana. Segu ndo os pensadores católicos romanos, ele foi precedido por</p><p>ufn paganismo clássico e seguido pelas forças desintegradoras do Protestantismo,</p><p>que criou o caos do cenário religioso moderno. Os historiadores protestantes discor-</p><p>dam disto veementemente e consideram a Idade Média como o vale de sombra em</p><p>que a Igreja pura da era antiga da história da Igreja foi corrompida. Segundo eles, a</p><p>era moderna da história da Igreja, que começou com Lutero, é de uma reforma em</p><p>que a Igreja reconquistou׳ os ideais do Novo Testamento. Todas estas interpretações</p><p>podem ser equilibradas pelo fato de que a Idade Média não foi estática mas dinâmica.</p><p>A cultura clássica do passado, refinada pelo cristianismo, foi legada às tribos teutãs</p><p>pela Igreja. Sob a direção divina, a marcha da história foi contínua mesmo na Idade</p><p>Média.</p><p>A história medieval da Igreja aconteceu numa arena mais ampla que a Igreja</p><p>antiga. Depois que tribos teutãs foram convertidas ao cristianismo, a bacia do Báltico</p><p>tornou-se tão importante quanto a do Mediterrâneo.</p><p>A era moderna deve muito à Idade Média. Nessa época, os homens tentaram</p><p>estabelecer uma civilização cristã em que o passado se integrava com o presente</p><p>numa harmoniosa síntese. Falta, então, à era moderna uma síntese da vida, razão</p><p>porque o homem moderno luta contra a confusão e a possibilidade não só de caos</p><p>intelectual, moral e espiritual como também material. Com istoem mente, a importân-</p><p>cia de Gregório I torna-se óbvia. Como Agostinho em sua geração, ele ficou no limite</p><p>entre os dois mundos do classicismo e do cristianismo medieval e tornou-se o</p><p>símbolo do novo mundo medieval em que a cultura foi institucionalizada dentro da</p><p>Igreja dominada pelo bispo de Roma.</p><p>Gregório (540-604), geralmente chamado o Grande, nasceu nos turbulentos tem-</p><p>pos em que o Império oriental sob Justiniano buscava reconquistar a metade ociden-</p><p>tal do Império que fora perdida para as tribos teutãs. Pilhagens, doenças e fomes</p><p>estavam na ordem do dia.</p><p>Nascido em uma das famílias tradicionais, nobres e ricas de Roma, Gregório</p><p>recebeu uma educação jurídica que o prepararia para a vida pública. Estudou latim</p><p>demoradamente mas não sabia hebraico nem grego. Familiarizado com os escritos</p><p>de Ambrósio, Jerônimo e Agostinho, conheceu pouco da literatura clássica ou da</p><p>filosofia da Grécia. Foi escolhido em 573 prefeito de Roma, uma posição de importân-</p><p>cia e honra. Logo depois disto, abandonou a fortuna que herdara do pai — a mãe.</p><p>Silvia, entrara para um convento após a morte do esposo — e usou os lucros para</p><p>construir sete mosteiros na Itália, dos quais o mais importante erigido no palácio do</p><p>pai. Tornou-se, então, monge. De 579 a 585, foi embaixador do bispo de Roma em</p><p>Constantinople. Depois de sua volta a Roma, foi escolhido abade do mosteiro de</p><p>Santo André, que ele fundara após a morte do pai. Se Agostinho se fez monge por</p><p>motivos intelectuais, pode-se dizer que Gregório tomou os votos monásticos por</p><p>0 3 4 ו S U R G I M E N T O 0 0 IM P É R I O E 0 0 C R I S T I A N I S M O L A T I N O - T E U T Õ N I C O S , 5 9 0 - 8 0 0</p><p>entender que o ascetismo era uma forma de glorificara Deus. Quando o papa Pelágio</p><p>morreu, atacado por uma epidemia, em 590, Gregório foi escolhido para substituí-lo.</p><p>Este homem, cujo epitáfio foi “Cônsul de Deus”, constituiu-se num dos gigantes</p><p>da Igreja romana. Sua renúncia à grande riqueza impressionou a sua geração.</p><p>Humilde, viu-se a si mesmo como “o servo dos servos de Deus". Missionário zeloso,</p><p>foi o instrumento da conquista dos ingleses para o cristianismo. Sua formação</p><p>jurídica, sua habilidade e seu bom senso fizeram dele um dos administradores mais</p><p>competentes da Igreja Romana na Idade Média. Como muitos homens de suaépoca,</p><p>era infelizmente supersticioso e crédulo. Seus Diálogos (593) demonstram a sua</p><p>ilimitada credulidade naquilo que parecia miraculoso à mente medieval.' Mais do que</p><p>isto, embora tivesse uma boa formação em ciência sagrada, sua erudição foi prejudi-</p><p>cada por seu desconhecimento das línguas originais da Bíblia. E curioso que nem</p><p>durante os sete anos em que foi embaixador em Constantinople, ele se pôs a</p><p>aprender grego.</p><p>A maior obra de Gregório foi ampliar o poder do bispo romano. Embora não</p><p>reivindicasse o título de papa, exerceu todos os poderes e prerrogativas dos papas</p><p>posteriores- Fez isto para afirmar a superioridade espiritual do bispo de Roma.</p><p>Cuidou episcopalmente das igrejas da Gália, Espanha, Bretanha, África e Itália.</p><p>Indicou bispos e enviou o pálio. a estola do ofício, àqueles que indicara ou cujos</p><p>nomes ratificara.</p><p>Quando João, o Jejuador, patriarca de Constantinople, reivindicou o titulo de</p><p>bispo "ecumênico” ou universal. Gregório logo contestou. Ele estava pronto a aceitar</p><p>um status de igualdade com os patriarcas da Igreja, o que os colocaria no mesmo</p><p>nível de chefes das grandes seções da Igreja, mas não estava disposto a permitir que</p><p>alguém recebesse o título de bispo universal Mas nem o patriarca nem o imperador</p><p>oriental cederíam e mesmo Gregório não esperava por isto. Quando em 602 uma</p><p>revolução levou um novo imperador, Focas, ao trono em Constantinopla, Gregório</p><p>procurou fazer as pazes com ele, embora este pretencioso vulgar tivesse assassinado</p><p>a esposa e a família do antigo imperador. Em troca, FocaS aliou-se com Gregório</p><p>contra o patriarca, reconheceu o bispo de Roma como o "chefe de todas as Igrejas”.</p><p>Gregório, entretanto, não aceitou o titulo de ‘,papa universal" que o patriarca de</p><p>Alexandria queria para si. Preferiu ser chamado de "servo dos servos de Deus".</p><p>Embora descartasse o titulo de chefe supremo da Igreja, não permitiu que ninguém</p><p>reivindicasse o titulo e exerceu o poder papal de fato. Nenhum bispo ou metropolita-</p><p>no do Ocidente se arriscava a ir contra sua vontade e ele não permitiu a ninguém se</p><p>afirmar no mundo de então como senhor universal da Igreja.</p><p>O grande interesse de Gregório na obra missionária evidencia-se pelo ótimo</p><p>relato feito por Beda em sua história. De acordo com o relato, quando soube que os</p><p>meninos de cabelos louros e olhos azuis colocados à venda como escravos em Roma</p><p>eram anglos, Gregório disse que não eram “anglos" mas "anjos”. Quando soube que</p><p>vinham de Deiri (Yorkshire), resolveu que seriam livrados da ira de Deus pela obra</p><p>missionária.2 Comissionou, então, o monge Agostinho (morto em c. 604), que não</p><p>deve ser confundido com Agostinho de Hipona, para ir à Bretanha e levar o</p><p>Evange-</p><p>Iho aos bretões. Agostinho chegou à Inglaterra em 598 e logo converteu o rei de Kent</p><p>ao cristianismo. Os missionários romanos, porém, logo começaram a competir com a</p><p>igreja celta, que desenvolvia sua obra missionária no sul. Em 664, a fé romana</p><p>finalmente venceu. Gregório pode, pois, ser considerado o instrumento da subordina-</p><p>ção dos ingleses à Igreja de Roma. Ele chegou a fazer planos bem elaborados para o</p><p>0 P R IM E IR O P A P A M E D IE V A L 1 3 5</p><p>desenvolvimento da igreja inglesa. '</p><p>Gregório tornou o ep isco pado de Roma um dos mais ricos da Igreja de seu</p><p>tempo, graças à sua excelente obra de administrador As propriedades nà Itália e</p><p>areas próximas nunca floresceram tanto como nos tempos da cuidadosa administra-</p><p>ção de Gregório. Com o dinheiro arrecadado, conseguiu agir como o protetor da paz</p><p>no Ocidente. Quando o rei lombardo ariano ameaçou Roma numa ocasião durante o</p><p>pontificado de Gregório, este foi capaz de juntar tropas e forçar o governante lombar-</p><p>do a aceitar a paz e ganhá-los do arianismo.</p><p>Foi ele também 0 organizador do canto gregoriano que teria na Igreja Católica</p><p>Romana um lugar de maior importância do que o desenvolvido por Ambrósio. Este</p><p>canto consistia no uso de um cantochão na parte cantada do culto.</p><p>Gregório foi ainda um grande pregador, apresentando uma mensagem de desa-</p><p>fio para o tempo de crise em que viveu. Seus sermões eram práticos e salientavam a</p><p>humildade e a piedade, embora grandemente prejudicados por um uso excessivo de</p><p>alegoria, um erro comum na pregação da época *</p><p>Mais importantes que os sermões sào suas outras obras literárias Em Magna Mora-</p><p>la, um comentário do Livro de jó , ele propõe uma interpretação moral e recorre à</p><p>alegorizaçâo para deduzir suas fórmulas éticas. Ele pinta Jó como um tipo de Cristo,</p><p>sua esposa como um tipo de natureza carnal, os sete filhos como tipos de clero e as</p><p>très filhas como tipos dos leigos fiéis. Escreveu ele outros comentários, mas nenhum</p><p>deles foi tâo extenso como o sobre o Livro de Jó. Escreveu também uma obra</p><p>conhecida como o bvro do Cuidado Pastoral que trata de teologia pastoral, onde se</p><p>preocupa com os pré-requisitos para o ministério, as virtudes indispensáveis a um</p><p>pastor e o valor da introspecçâo. A obra exerceu um grande apelo sobre os monges de</p><p>sua época por causa de sua natureza ascética.11 Chegaram até nós também mais de</p><p>B00 de suas cartas.</p><p>Gregôno 0 Grande era lào respeitado com o profes-</p><p>so׳ na igu ’ia O ooenta! que nos quadros ele e sem-</p><p>p!e rorra'ado : ma pompa simoolo do Espirito,.! מ׳ס</p><p>Santo pousaaa em seucm proecom un icando-inea</p><p>verdade divina nos ouvidos</p><p>Gregório foi também um teólogo destacado Apontado junto com Jerõnimo.</p><p>Ambrósio e Agostinho como um dos quatro grandes doutores da Igreja ocidental,</p><p>colocou os fundamentos da teologia que a Igreja Romana sustentaria na Idade Média</p><p>até que Tomás de Aquino formulasse sua Summa. Cria que o homem era um pecador</p><p>por nascimento e escolha, mas discordava da doutrina agostiniana ao afirmar que o</p><p>homem não herdava a culpa de Adào mas apenas o pecado, como uma doença a que</p><p>1 3 6 0 S U R G I M E N T O 0 0 I M P É R I O ,E 0 0 ’ C R I S T I A N I S M O L A T I N O - T E U T Ô N I C O S , 5 9 0 - 8 0 0</p><p>todos estão sujeitos. Sustentava que a vontade ■era livre e que apenas sua bondade</p><p>fora perdida. Aceitava a predestinação, limitando-a, porém, aos eleitos. A graça não</p><p>era irresistível, porque, segundo ele, estava baseada na presciência de Deus e, em</p><p>alguns casos, nos méritos dolhomem. Defendia a idéia das boas obras e aceitava a do</p><p>purgatório como um lugar onde as almas seriam purificadas antes de sua entrada nos</p><p>céus. Sustentava a inspiração verbal da Bíblia mas, estranhamente, dava à tradição o</p><p>mesmo papel da Bíblia. O Cânon da Missa״ que ele refundiu parcialmente, era</p><p>amplamente usado em sua época e revelava a tendência crescente para considerar a</p><p>Comunhão como um sacrifício do corpo e do sangue de Cristo, repetido todas as</p><p>vezes em que era celebrada.6 Gregário ensinou as boas obras e a invocação dos</p><p>santos para conseguir sua ajuda. Pode-se dizer com segurança que a teologia</p><p>medieval conservou as marcas do pensamento de Gregório.</p><p>O pontificado de Gregório é, sem dúvida, um marcofundamental na transição da</p><p>história da Igreja antiga para a medieval. Ao criarem o sistema hierárquico sacramen-</p><p>tai da Igreja institucionalizada da Idade Média, seus sucessores edificaram sobre os</p><p>fundamentos que ele deixou. Ele sistematizou a doutrina e fez a Igreja uma potência</p><p>na área política.</p><p>O SURGIMENTO DO IMPÉRIO E</p><p>CRISTIANISMO LATINO-TEUTÔNICOS, 590-800</p><p>CAPÍTULO 17</p><p>E X P A N S Ã O E R E T R A IM E N T O D O C R IS T IA N IS M O</p><p>Geralmente se diz que a Idade Média foi um período em que a sociedade era</p><p>estática e em que o movimento migratório foi pequeno. Um estudo ligeiro do movi-</p><p>mento migratório na idade Média mostrará, porém, que nunca houve na história da</p><p>Europa !período de tantas migrações ׳em massa. A chegada dos hunos mongóis e dos</p><p>godos e teutões germânicos ao Império Romano a partir de 375 já foi notada. Depois</p><p>de 590, o cristianismo enfrentou ·novos movimentos populacionais dinâmicos, No</p><p>século VI e seguintes, a Igreja no Oriente teve que enfrentar a ameaça do islamismo,</p><p>que se constituiu também numa grande preocupação para a Igreja ocidental até que</p><p>fosse expulso em Tours, em -O novo movimento de povos da península escandi .׳732</p><p>návia no século VIII também ameaçou de destruição a Igreja ocidental. Mais tarde, os</p><p>eslavos, os magiares e os mongóis ameaçaram a Igreja oriental.</p><p>Além de ter que resolver o desafio destes movimentos, a Igreja ocidental' teve de</p><p>tomar a tarefa de evangelizar as tribos teutãs encravadas nos limites do velho Império.</p><p>Estas tribos, que tinham aceito uma forma ariana de cristianismo e que se estabelece-</p><p>ram׳ na Espanha e na Itália, representaram um outro desafio ao cristianismo. A tarefa</p><p>de converter os pagãos e os arianos heterodoxos, além do desafio da religião rival do</p><p>islamismo, esgotou as forças da Igreja. De 590 a 800. a Igreja ocidental obteve</p><p>grandes vitórias nas regiões norte e oeste da Europa; o cristianismo oriental, porém,</p><p>que permanecera estático, apenas se defendeu do islamismo que, às vezes, investia</p><p>contra os portões de Constantinopla.</p><p>A obra de missões tomou neste período uma base profissional. Grupos de</p><p>monges foram enviados para proclamar 0 Evangelho àqueles a quem a maior autori-</p><p>dade da Igreja, o papa, os enviara.</p><p>I. O SURGIMENTO E O IMPACTO DO ISLAMISMO</p><p>Os muçulmanos, vitalizados pela dinâmica de uma nova fé, pela esperança de</p><p>saquear em nome da religião e pelo zelo de converter os incrédulos à sua fé.</p><p>espalharam-se rapidamente da Arábia para 0 norte da África, Ásia e mesmo para a</p><p>Europa através da Espanha.</p><p>137</p><p>0 3 8 ו S U R G I M E N T O 0 0 I M P E R I O E D O C R I S T I A N I S M O L A T I N O T E U T O N I C O S , 5 9 0 8 0 U</p><p>RUPTURA DO IMPÉRIO ROMANO</p><p>E IMIGRAÇÕES EM MASSA APÓS</p><p>476 d.C.</p><p>E X P A N S Ã O E R E T R A I M E N T O 0 0 C R I S T I A N I S M O 1 3 9</p><p>Fundada por um líder pessoal, esta religião foi a última das três grandes religiões</p><p>monoteísticas do mundo. Ela se apresentava também como uma religião universal</p><p>válida para todos os povos. Os muçulmanos acabaram com a Igreja no norte da</p><p>África e enfraqueceram a Igreja em׳ outras regiões da África. De certo modo, foram</p><p>eles, que provocaram a queda do Império oriental em 1453 e colocaram a Igreja</p><p>oriental sob controle político rnaometano.</p><p>O islamismo teve suas origens na península árabe, uma região relativamente</p><p>isolada do mundo por mar ou por um ínvio deserto, exceto pela margem noroeste A</p><p>área é inóspita e o homem é obrigado, para se manter, a lutar num solo de rochas</p><p>estéreis, arenoso e quente. Diante da força da natureza, o ■homem é levado, em</p><p>regiões como estas, a reconhecer um ser maior do que ele.</p><p>Ao tempo do surgimento do islamismo, tribos beduínas semitas peregrinavam de</p><p>oásis a oásis com seus camelos e seu</p><p>rebanhos, para comerciar com os moradores de</p><p>Meca e Medina. Guerras entre tribos eram frequentes exceto nos períodos das</p><p>tréguas anuais quando todas ׳iam cultuar a pedra negra ׳na Caaba de Meca.</p><p>Um desses moradores era Maomé (570-632), membro da tribo koreichita, que</p><p>ganhava a vida como condutor de camelos. Numa viagem em companhia de seu tio à</p><p>Síria e à Palestina, entrou em contato com 0 cristianismo e com o-judaísmo. Casou-</p><p>se. então, com uma ,rica viúva chamada Khadijah״ através da qual pôde ficar livre para</p><p>suas meditações religiosas. Em 610, ele se sentiu divinamente chamado para procla-</p><p>mar o monoteísmo, conseguindo ao final de três anos fazer 12 convertidos, a maioria</p><p>de sua própria família Por se opor à pregação da idolatria, foi forçado a fugir de Meca</p><p>para Medina em 622. Esta fuga״conhecida como Hégira, tornou-se 0 primeiro ano do</p><p>calendário muçulmano. !Em 630. o movimento crescera tanto que fora capaz de</p><p>conquistar Meca. Dois anos depois, ao׳tempo de suamorte, seus seguidores-estavam</p><p>prontos para expandir além da península árabe.</p><p>As grandes vitórias desta nova e dinâmica fé aconteceram entre 632 e 732. A Síria</p><p>e a Palestina foram convertidas na quarta década do século VII e a Mesquita de Ornar</p><p>foi logo erigida em Jerusalém. O Egito foi conquistado na década seguinte e a Pérsia</p><p>caiu sob controle muçulmano em 652. A expansão rápida e bem planejada para o</p><p>Ocidente e para o Oriente ameaçaram 0 cristianismo de forma perigosa, embora</p><p>tenha sido paralisada na·região oriental do continente pela defesa segura do Império</p><p>oriental comandada por Leão, o Isáurico, em 717 e 718</p><p>A expansão muçulmana na parte ocidental do continente forcontida pela derrota</p><p>dos muçulmanos pelos exércitos de Carlos Martelo em Tours, em 732. A Igreja,</p><p>porém, já havia sofrido grandes perdas pois os vencidos tiveram que enfrentar 0</p><p>dilema de escolher a espada, a subserviência ou o Islã Os muçulmanos não eram</p><p>intolerantes em regra e permitiram os povos das regiões anexadas a praticar sua fé.</p><p>Em 750, a era da conquista acabou e os muçulmanos, influenciados pela cultura</p><p>grega, puseram-se a construir uma esplêndida civilização ·centralizada era׳ Bagdá. O</p><p>apogeu da cultura veio com Haroun-AI-Raschid (786-809), 0 imperador da parte</p><p>oriental do território muçulmano.</p><p>A principal fonte da religião׳ muçulmana é o Alcorão Estaobra, dois terços maior</p><p>que o Novo Testamento, tem 114 capítulos, dos quais o maior fica no começo; os</p><p>capítulos vão diminuindo em extensão até o último que tem apenas três versículos. O</p><p>livro é repetitivo e desorganizado.</p><p>A crença em Deus, conhecido׳ como Alá, é o tema central do Islamismo Alá fez</p><p>conhecida a sua vontade através de muitos profetas, entre os quais se encontram</p><p>1</p><p>4</p><p>0</p><p>0 SU</p><p>R</p><p>G</p><p>IM</p><p>E</p><p>N</p><p>T</p><p>O</p><p>0</p><p>0</p><p>IM</p><p>P</p><p>É</p><p>R</p><p>IO</p><p>E 0</p><p>0</p><p>C</p><p>R</p><p>IST</p><p>IA</p><p>N</p><p>ISM</p><p>O</p><p>LA</p><p>T</p><p>IN</p><p>O</p><p>-T</p><p>EU</p><p>T</p><p>Õ</p><p>N</p><p>IC</p><p>O</p><p>S.</p><p>5</p><p>9</p><p>0</p><p>-8</p><p>0</p><p>0</p><p>E X P A N S Ã O E R E T R A I M E N I O D O C R I S T I A N I S M O 1 4 1</p><p>personagens bíblicos como Abraão. Moisés e Cristo; Maomé é. porém, o último e</p><p>maior dos profetas. Fatalista, a religião propõe uma submissão passiva à vontade de</p><p>Alá. Após o julgamento, os homens gozarão um Paraíso sensual ou enfrentarão o</p><p>terror do inferno. O bom muçulmano ora cinco vezes ao dia Recita também diaria-</p><p>mente o seu credo, com os olhos voltados em direção a Meca. Jejum e obras de</p><p>caridade são importantes Os muçulmanos santos são aqueles que, pelo menos uma</p><p>vez na vida, fazem uma peregrinação a Meca</p><p>O Islâo deixou marcas culturais e religiosas na Europa ocidental. Foi ele que</p><p>assimilou e levou à Europa ocidental, através da Espanha árabe, a filosofia grega de</p><p>Aristóteles. Os escolásticos medievais tentaram integrar o pensamento cientifico</p><p>grego e a teologia cristã através do uso do método dedutivo de Aristóteles, que lhes</p><p>chegou ao conhecimento por meio da tradução feita por Averróes dos escritos de</p><p>Aristóteles. Esta influência foi tão grande na Europa do século XII que Haskins</p><p>chamou 0 período de a ״Renascença do Século XII1״</p><p>As porções oriental e ocidental da Igreja se enfraqueceram com as perdas</p><p>pessoais e territoriais para o Islamismo. mas as perdas da Igreja oriental foram</p><p>maiores que as do Ocidente. A sólida igreja do norte da África desapareceu e a Terra</p><p>Santa deixou de pertencer ao cristianismo. A Igreja oriental conseguiu apenas manter</p><p>os exércitos islâmicos fora de Constantinopla. Como conseqüência, a atividade</p><p>missionária, exercida principalmente pela Igreja ocidental, centralizou-se no noroes-</p><p>te da Europa A Igreja oriental teve que enfrentar ainda o problema do uso ou não das</p><p>imagens na igreja. Esta controvérsia, conhecida como controvérsia iconoclasta,</p><p>surgiu em parte porque os muçulmanos acusavam os cristãos de idolatras por terem</p><p>esculturas e imagens na igreja.</p><p>Este enfraquecimento da Igreja noOriente foi contrabalançado pelo fortalecí-</p><p>mento da posição do bispo de Roma. Os grandes líderes rivais metropolitanos da</p><p>igreja em Alexandria cairam sob domínio islâmico e !nunca mais recuperaram a</p><p>possibilidade de falar pela Igreja como um todo. O papa não titubeava em se servir de</p><p>todas as oportunidades para fortalecer a sua posição. Os islamitas resistiram obstina-</p><p>damente aos esforços do papado e dos cruzados de reconquistar a Terra Santa e,</p><p>desde então, têm resistido duramente a qualquer tentativa de missionários cristãos de</p><p>propagação do cristianismo entre os muçulmanos.</p><p>II. A ATIVIDADE MISSIONÁRIA NO OCIDENTE</p><p>A Nas Ilhas Britânicas</p><p>Culturalmente, a igreja irlandesa, fundada por Patrício, brilhou muito no norte da</p><p>Europa entre 590 e 800. Ela enviara Columbano aos borgonhenses e Columba aos</p><p>escoceses. Os monges irlandeses já estavam empenhados na obra de preservar,</p><p>copiar e ornar os manuscritos, ao tempo em que a ciência na Europa estava eclipsa-</p><p>da, Só no começo do século VIII a igreja escocesa aceitou o controle romano. As</p><p>invasões dos vikings nos séculos VIII e IX enfraqueceram-natantoquenoséculoX ela</p><p>entrou em declínio, mas antes disso ela fora líder em erudição e na evangelizaçâo da</p><p>Europa.</p><p>A igreja irlandesa foi também indiretamente responsável pela evangelizaçâo do</p><p>norte da Inglaterra porque foi sob influência do mosteiro de Columba da Ilha de lona</p><p>que Aidano levou a mensagem do Evangelho aos nortumbrios da costa nordeste da</p><p>142</p><p>0</p><p>SU</p><p>R</p><p>G</p><p>IM</p><p>EN</p><p>TO</p><p>D</p><p>O</p><p>IM</p><p>PÉRIO</p><p>E</p><p>D</p><p>O</p><p>C</p><p>RIST</p><p>IA</p><p>N</p><p>ISM</p><p>O</p><p>LATIN</p><p>O</p><p>TE0TÔ</p><p>N</p><p>ICO</p><p>S.</p><p>590-800</p><p>E X P A N S Ã O E R E T R A I M E N T O 0 0 ' C R I S T I A N I S M O 1 4 3</p><p>Inglaterra. Oswald, um soberano anglo-saxão, vivera algum tempo no exílio entre</p><p>cristãos irlandeses e escoceses e tinha se interessado pela vida desses cristãos celtas.</p><p>Oprimidos pelas trevas espirituais dos anglo-saxões, que· tinham expulso os celtas e</p><p>seu cristianismo da Inglaterra no século! V após a retirada dos exércitos romanos,</p><p>Oswald pediu missionários à igreja escocesa.</p><p>Aidano foi consagrado bispo do povo da Nortúmbria em 634, estabelecendo sua</p><p>sede na Ilha de Lindisfarne, conhecida também como Ilha Santa. Ele edificou um</p><p>mosteiro do qual fez o centro da evangelização. Conseguiu a plena cooperação de</p><p>Oswald, a quem teve como intérprete durante as viagens que fez a pé entre os povos</p><p>de Oswald. Aidano dedicou muita atenção à educação, desejoso de que a Igreja na</p><p>Nortúmbia tivesse uma liderança capaz. Por ocasião de sua morte em 651, ocristiams-</p><p>mo celta estava solidamente estabelecido !no׳ norte da Inglaterra.</p><p>Alguns anos antes do inicio das atividades missionárias celtas no norte, a Igreja</p><p>Romana começou uma obra missionária entre os anglo-saxões do sul!da Inglaterra.</p><p>Gregário, que era o bispo de Roma,depois de ver alguns meninos anglo-saxões</p><p>colocados à venda no mercado de escravos em Roma, resolveu conquistar este povo</p><p>para o cristianismo romano. Indicou, então, Agostinho, prior do mosteiro de Santo</p><p>André, em !Roma, como o chefe de um grupo de monges deste mosteiro, cuja tarefa</p><p>era entrar no sul da Inglaterra e converter os anglo-saxões à fé cristã.</p><p>Na primavera de</p><p>597. Agostinho e sua equipe de monges chegaram à IlhadeThanet. à margem da cos-</p><p>ta de Kent. Bertha, a esposa galesa de Ethelbert. rei de Kent, convertera-se antes de</p><p>se tornar esposa de Ethelbert e influenciou o marido em beneficio dos missionários.</p><p>Depois do primeiro encontro entre Agostinho e Ethelbert, acontecido ao ar livre onde</p><p>D U A S EVANGELIZAÇÕES D A S ILH A S BR IT ÂN ICAS</p><p>SEGUNDA</p><p>PAGÃOS ANGLO-SAXÕES</p><p>INVASÕES DA INGLATERRA (410)</p><p>destruiram o cristianismo</p><p>celta primitivo</p><p>I</p><p>CRISTIANISMO ·ROMANO</p><p>REINTRODUZIDO</p><p>no Sul em Kent, por Agostinho (597)</p><p>Arcebispo de Cantuária</p><p>no Norte na Nortúmbria - cristianismo</p><p>celta sob Oswald por Aidano (635)</p><p>I</p><p>A FORMA</p><p>CATÓLICO-ROMANA VENCE</p><p>em Whitby (663)</p><p>I</p><p>TEODORO ORGANIZA A IGREJA</p><p>PRIMEIRA</p><p>TRIBOS CÉLTICAS ganhas</p><p>por romanos (I d.C.)</p><p>I</p><p>IRLANDA ganha por</p><p>Patrício (c. 432-60)</p><p>I</p><p>ESCÓCIA ganha por</p><p>Columba (593) - lona. (centro)</p><p>MODERNA</p><p>DESCENDÊNCIA CÉLTICA</p><p>hoje na</p><p>Escócia - Gaélica</p><p>Irlanda - Ersa</p><p>Páis de Gales e Cornualha</p><p>- Galés</p><p>1 4 4 0 S U R G IM E N T O D O IM P É R IO E 0 0 C R IS T IA N IS M O L A T IN O -T E U T Ô N IC O S , 5 9 0 8 0 0</p><p>Ethelbert entendia que os poderes mágicos de Agostinho não poderíam atingí-lo, ο</p><p>rei permitiu que Agostinho pregasse o Evangelho.2 O rei logo se submeteu ao batismo</p><p>e um grande número de pessoas o seguiu na aceitação do cristianismo.</p><p>O cristianismo implantado no norte pelos cristãos celtas da Escócia entrou logo</p><p>em contato com o cristianismo católico romano que se expandia do sul para o norte</p><p>da Inglaterra. As duas formas de cristianismo tinham muitas diferenças. Os cristãos</p><p>celtas não reconheciam a autoridade do papa. Seguiam também a prática da Igreja</p><p>oriental na contagem da data da Páscoa e não a comemoravam no mesmo dia da</p><p>semana como fazia a Igreja Romana. Os monges celtas podiam se casar; os romanos,</p><p>não. Estas diferenças provocaram tamanha discussão e rivalidade entre as duas</p><p>formas de cristianismo que Oswy, que tinha unificado sob seu poder a maioria da</p><p>Inglaterra anglo-saxônica, convocou uma reunião em Whitby, em 663, para decidir a</p><p>que forma de cristianismo seu povo seguiría. O cristianismo romano levou a palma da</p><p>vitória porque, segundo Beda, Oswy preferiu a religião que dizia ter as chaves dos</p><p>céus.3 Teodoro (c.602-690), foi enviado à Inglaterra para organizar os cristãos ingle-</p><p>ses sob a bandeira romana e estabelecer dioceses e arcebispados que, em muitos</p><p>casos, ainda continuam na Igreja Anglicana.</p><p>O cristianismo inglês se destacou logo por sua erudição porque Teodoro abriu</p><p>escolas, das quais as de Jarrow 3 York se tornaram as principais. Quando, a partir de</p><p>781, Carlos Magno precisou de alguém para ajudá-lo a criar um sistema educacional</p><p>em seu reino,, foi buscar Alcuíno (735-804) na escola de York para realizar a tarefa.</p><p>Beda foi outro estudioso de proa, a passar a maior parte de sua vida em Jarrow. Sua</p><p>história da Inglaterra, escrita de um ponto de vista eclesiástico, permanece como uma</p><p>das melhores fontes de informação sobre a vidae a história da Inglaterra anterior a</p><p>731.</p><p>A Igreja da Inglaterra também enviou missionários à Europa que acabaram se</p><p>tornando os instrumentos da conversão das tribos teutãs ao cristianismo romano. A</p><p>Igreja na Inglaterra tornou-se um forte apoio ao papado, até a época da reforma,</p><p>porque até então os ingleses prestavam uma lealdade absoluta à sé romana, como</p><p>fizeram os franceses no continente europeu.</p><p>B. Alemanha</p><p>Bonifácio (680-754), também conhecido como Winfrid, colocou as tribos teutãs,</p><p>que habitavam a maior parte da região da Alemanha moderna, sob a influência do</p><p>Evangelho. Ao mesmo tempo, assegurou que seriam leais súditos do papa. Sacerdote</p><p>com boa instrução, pio e hábil nos negócios, Bonifácio resolveu consagrar sua vida à</p><p>obra missionária. Foi a Roma em 718 e obteve autorização do papa para pregar o</p><p>Evangelho na Alemanha. Segundo um relato, derrubou um carvalho, consagrado a</p><p>um deus germânico, Thor, em Geismar, e erigiu uma capela de madeira. Logo</p><p>trouxe Hesse ao cristianismo Romano. Dedicou a seguir sua atenção à Turingia e</p><p>implantou 0 cristianismo־ nesta região. Em 732, foi elevado à posição de arcebispo</p><p>pelo papa Gregório III. Neste momento de sua obra missionária, começou a usar</p><p>mulheres dedicadas como missionárias. Estas mulheres estavam entre as primeiras</p><p>de uma série de mulheres que têm servido a Cristo corajosa e eficientemente através</p><p>da história da Igreja nos campos missionários do mundo. Bonifácio voltou logo à</p><p>Baviera e estabeleceu al a Igreja sobre sólidos fundamentos. Carlos Magno "conver-</p><p>teu" os saxões na fronteira oriental do seu império com a força das armas.</p><p>Esta impetuosa conquista que, às vezes, convertia e batizava em massa tribos e</p><p>E X P A N S Ã O E R E T R A IM E N T O 0 0 C R IS T IA N IS M O 1 4 5</p><p>nações inteiras, suscitou o problema do batismo sem uma experiência pessoal de fé.</p><p>Este é, sem dúvida, um problema perene da obra missionária onde quer que a conver-</p><p>sâo de um líder influente tenha resultado na aceitação coletiva do cristianismo,</p><p>Independentemente se os convertidos tiveram ou não uma experiência genuína de</p><p>salvação.</p><p>C. Os Países Baixos</p><p>Wilfrid (634-709), um eclesiástico inglês que naufragara na costa de Frisia em</p><p>678, pregou ao povo desta região. Willibrord (658-679), da Inglaterra, 0 sucedeu,</p><p>mais tarde, conseguindo implantar o cristianismo em bases sólidas e obter dos frísios</p><p>a obediência ao papado, por volta de 690.</p><p>D. Itália</p><p>De 568 a 675, os lombardos, convertidos ao cristianismo ariano, obtiveram o</p><p>controle do sul da Itália e se opuseram ao papado dentro de seu próprio pais.</p><p>Gregório I conseguiu durante seu pontificado evitar os problemas com sua influência</p><p>sobre a princesa Teudelinda da Baviera, que fora sucessivamente esposa de dois reis</p><p>lombardos. A visita do monge irlandês Columbano em 610 foi o instrumento da</p><p>renúncia por parte de muitos lombardos de sua fé ariana. Em 675, os reis lombardos e</p><p>a maioria do povo tinham aceitado a fé ortodoxa de Roma.</p><p>E. Espanha</p><p>Os visigodos arianos da Espanha representaram outro desafio para a Igreja</p><p>Romana. Em 579, o filho do rei se casou com uma mulher de fé romana, e o seu filho,</p><p>Recaredo, anunciou no Sinodo de Toledo em 589 que renunciara o arianísmo para</p><p>abraçar o cristianismo ortodoxo. Muitos nobres e bispos arianos seguiram seu exem-</p><p>pio A conquista, porém, não foi completa e a dissensão entre os ortodoxos e os</p><p>arianos da Espanha favoreceu aos muçulmanos que fustigaram a Espanha no século</p><p>VII.</p><p>Em 800, a autoridade do papa estava solidamente firmada nas Ilhas Britânicas e</p><p>em grande parte da região da Alemanha de hoje. A ameaça ao papado, representada</p><p>pelo Arianismo na Itália e na Espanha, foi neutralizada. Pouco se fez em termos de</p><p>obras missionária na Igreja oriental, exceto a conversão dos búlgaros e morávios por</p><p>Cirilo e Metódio, em meados do século IX. Os morávios logo ficaram sob jurisdição</p><p>papal. Muito das energias da Igreja oriental foram gastas na luta para evitar que os</p><p>muçulmanos conquistassem Constantinopla.</p><p>0 SURGIMENTO 1 I D 0 IMPERIO E</p><p>CRISTIANISMO LATINO-TEUTÕNICOS, 590-800</p><p>CAPÍTULO 18</p><p>O R E N A S C IM E N T O D O IM P E R IA L IS M O N O</p><p>O C ID E N T E</p><p>Os próprios papas estiveram sujeitos a pressões que ameaçavam as suas insis-</p><p>tentes pretensões de poder feitas por eles a partir de 590. Os imperadores em</p><p>Constantinopla, que achavam que a Igreja devia se subordinar ao soberano do</p><p>estado, constantemente ultrapassavam aquilo que o bispo de Roma julgava serem</p><p>suas prerrogativas e propriedades. Os lombardos, que passaram do arianismo ao</p><p>cristianismo, ■investiram contra os portões de Roma várias vezes neste período. Estas</p><p>dificuldades levaram o papa a procurar um aliado poderoso que apoiasse suas</p><p>reivindicações de poder espiritual e posses temporais na Itália. Os reis francos</p><p>pareciam ser !promissores aliados e com eles os papas fizeram uma aliança que</p><p>influenciaria os negócios eclesiásticos e políticos</p><p>na Idade Média. O novo império</p><p>político do Ocidente, a que o papa deu a sua bênção em 800, reviveu a idéia imperial</p><p>do Império Romano, embora os soberanos deste novo império fossem mais teutões</p><p>do que romanos. A glória de reviver o Império Romano passou aos reis francos.</p><p>I. A DINASTIA MEROVÍNGIA</p><p>A importância da conquista e aculturação da Gália por César em meados do</p><p>primeiro século antes de Cristo tornou-se agora evidente, porque foi aos francos desta</p><p>região que o papa pediu ajuda. Estes francos que deixaram suas terras ao longo da</p><p>margem oriental do rio !Reno e se fixaram na França, conquistaram a Gália, mas</p><p>aceitaram a cultura romana de suas vítimas</p><p>Clóvis (c.466-511) foi o primeiro líder a unificar os francos e a completar a</p><p>conquista dos territórios que seriam hoje a grande parte da França. Casou-se com</p><p>uma princesa borgonhense. Clotilde (474-545), e anexou os territórios borgonhenses</p><p>conquistados com seu casamento e outros através de batalhas. A ■unificação de todas</p><p>as tribos francas do Reno sob sua direção foi uma grande contribuição para a</p><p>estabilidade da região. Clóvis aceitou o cristianismo, em parte por causa da influência</p><p>da esposa e em parte ,por aquilo que lhe pareceu uma providencial ajuda numa</p><p>guerra. Sua aceitação do cristianismo em 496 tornou muito significativo este ano para</p><p>a história da Europa ocidental, porque os francos, aos quais unificara, tornaram-se</p><p>ü R E N A S C I M E N T O D O I M P E R I A L I S M O «NO O C ID E N T E 1 4 7</p><p>junto com seus reis os defensores do papado contra os inimigos temporais■e ainda</p><p>deram ao papado os territórios que manteria como posses temporais por mais de um</p><p>milênio.</p><p>REINOS MEDIEVAIS</p><p>CAROLÍNGIOS</p><p>PREFEITOS DO PALÁCIO</p><p>FRANCOS</p><p>I</p><p>CLÓVIS - 496</p><p>Unifica e converte os francos</p><p>CARLOS 'MARTELO</p><p>(reinou de 714 a 741)</p><p>em Tours - 732 vs. muçulmanos</p><p>PEPINO III 741-68</p><p>Rei do Francos</p><p>(substituindo a dinastia de Clóvis)</p><p>Doação de Pepino</p><p>(origem dos estados papais 756)</p><p>I</p><p>DOAÇÃO׳ DE CONSTANTINO (c. 756)</p><p>Fim da dinastia corn fracos</p><p>descendentes, suplantada pelos</p><p>Prefeitos do Palácio</p><p>CARLOS MAGNO 768-814</p><p>Imperador Romano 800</p><p>I</p><p>LUÍS 814-840</p><p>Lufs "Alemanha" Lotário , Itália" Carlos "França"</p><p>Como geralmente acontece, os filhos de Clóvis não tiveram a habilidade do pai e</p><p>o controle dos negócios do Estado passou para as mãos de um funcionário, conhecí-</p><p>do como o prefeito-do palácio, que tomou as redes do governo, enquanto os sucesso-</p><p>res de Clóvisgozavam a vida palaciana. Estes prefeitos do palácio criaram aquilo que</p><p>é conhecido como a dinastia carolíngia, por ter chegado ao seu apogeu com Carlos</p><p>Magno.</p><p>II. OS REIS CAROLÍNGIOS</p><p>Pepino de Heristal foi o primeiro destes prefeitos do palácio a reunir as posses</p><p>divididas de Clóvis, dirigindo de 687 a 714 os francos para os degenerados descen-</p><p>dentes de Clóvis. Ele tornou o cargo de prefeito do palácio uma posição hereditaria a</p><p>ser preenchida por seus descendentes.</p><p>Carlos Martelo (689-741), filho ilegítimo de Pepino, ocupou as funções de prefei-</p><p>to do palácio em 714. Suas habilidades de guerreiro foram logo desafiadas porqueos</p><p>muçulmanos, que assolavam, a Espanha, estavam tentando controlara Europa oci-</p><p>dental. Carlos os derrotou definitivamente na batalha de Tours em 732 e sujeitou a</p><p>Igreja Romana, por parecer ter salvo a Europa ocidental parao cristianismo ortodoxo.</p><p>1 4 8 0 S U R G I M E N T O D O IM P É R IO E 0 0 C R I S T I A N I S M O L A T IN O -T E U T O N I C O S . 5 9 0 - 8 0 0</p><p>Ele apoiou a obra de Bonifácio na evangelizaçào das tribos dalém do Reno, entenden-</p><p>do que se fossem convertidas ao cristianismo, ele nào teria dificuldades com elas na</p><p>margem ocidental do Reno.</p><p>O sucessor de Carlos como prefeito do palácio foi seu filho Pepino, conhecido</p><p>como Pepino o Breve ou Pepino o Grande (714-758), que governou junto com seu</p><p>irmão de 741 a 747 quando o irmão entrou para um mosteiro. Pepino foi o primeiro rei</p><p>carolingio porque tomou o titulo de rei (751), além de continuar exercendo o poder de</p><p>prefeito do palácio. A oportunidade para esta expansão de poder foi o pedido de</p><p>ajuda do papa Zacarias contra os lombardos arianos que estavam colocando em</p><p>xeque a autoridade do papa na Itália. Pepino foi consagrado, possivelmente por</p><p>Bonifácio, como o rei dos francos. Childerico III, o último dos merovingios, foi</p><p>deposto e enviado a um mosteiro para ali passar seus dias. O prefeito do Palácio</p><p>tornou-se o rei dos francos com a bênção do papa. Pepino cumpriu suas promessas</p><p>de ajudar o papa enviando expedições contra os lombardos em 754 e 756. Em 754,</p><p>prometeu também terras ao papa na região central da Itália, de Roma a Ravenna. Esta</p><p>concessão, conhecida como Doação de Pepino, teve significado especial para 0 papa</p><p>de Roma, porque 754 a.C. era a data tradicionalmente aceita para a fundação da</p><p>cidade de Roma. Esta distribuição foi o fundamento dos Estados Papais que 0 papa</p><p>manteve ininterruptamente até a união do povo italiano em 1870. Não foi por acaso</p><p>que o papa de então, Estevão II, coroou Pepino pela segunda vez como o “Rei dos</p><p>Francos e Patrício dos Romanos" em 754. Dois anos depois ele recebería a doação.</p><p>Por alguns séculos circulou uma narrativa dando conta de supostos milagres da</p><p>cura e da conversão de Constantino pelo bispo de Roma. Agradecido, Constantino</p><p>teria feito generosas concessões de privilégios e de terras ao bispo. Estes relatos,</p><p>reunidos num documento conhecido como “Doação de Constantino" tiveram ampla</p><p>circulação na Idade Média. O documento foi usado pelo papa na Idade Média como</p><p>suporte às suas reivindicações de posses temporais e poder nos reinos temporal e</p><p>espiritual.1 A formulação do documento parece datar de meados do século VIII. pois</p><p>estava em circulação quando Pepino fez sua grande doação de terras na Itália ao</p><p>papa.</p><p>No documento. Constantino saudava a Silvestre e aos bispos da Igreja e narrava</p><p>que fora curado de lepra e batizado por Silvestre. Em troca, afirmava que a Igreja de</p><p>Roma deveria ter proeminência sobre todas as outras, sendo o seu bispo o bispo</p><p>supremo da Igreja. Dava territórios em todo o império, o Palácio de Latrão, a vestimen-</p><p>ta e a ,insígnia da dignidade imperial a Silvestre. Constantino, então, mudou-se para</p><p>Constantinopla para não interferir nos direitos imperiais do papa.</p><p>Embora os fatos descritos estivessem no documento, eles não são historicamen-</p><p>te corretos. E nenhum outro registro de tais fatos existe. Ademais, Lorenzo Valia,</p><p>no princípio do século XV, mostrou em sua crítica, 0 primeiro documento da verdadeira</p><p>crítica histórica, que a Doação fora forjada alguns séculos depois dos acontecimen-</p><p>tos por ela descritos. Poucos documentos espúrios têm exercido tanta influência</p><p>sobre a história como este.</p><p>O próximo rei dos francos foi Carlos Magno, filho de Pepino o Breve. Carlos</p><p>Magno (742-814) subiu ao trono em 768, tornando-se em 800 o imperador do Ocidente</p><p>quando o papa o coroou como Imperator Romanorum (Imperador dos Romanos).</p><p>Sua influência se fez sentir em todos os setores da atividade humana na Europa</p><p>ocidental.</p><p>Muito do que se sabe sobre Carlos Magno vem de Einhard, incorretamente</p><p>0 RENASCIMENTO DO IMPERIALISMO NO OCIDENTE 149</p><p>5 ס ו0 S U R G I M E N T O A O I IM P É R I O E 0 0 C R I S T I A N I S M O L A T I N O - T E U T Ô N I C O S . 5 9 0 8 0 0 ־</p><p>chamado também de Eginhard, que escreveu um esboço biográfico de Carlos Mag-</p><p>no,2 Carlos Magno tinha mais de dois metros de altura e um porte físico avantajado.</p><p>Seu rosto vivaz e sua longa cabeleira branca, associados à sua altura, davam-lhe um</p><p>ar de dignidade. Apaixonado por caça, equitação e natação, interessou-se também</p><p>pela cultura, o que o levou a combinar o prazer da mesa com audições de música ou</p><p>com alguma leitura que lhe faziam em voz alta. Dedicou-se também à religião. Sua</p><p>religião, entretanto, nada tinha a ver com a sua vida privada, uma vez que manteve em</p><p>seu palácio tanto concubinas como sua esposa legal.</p><p>Carlos Magno foi também um homem de guerra Participou de cerca de</p><p>consciente. Ao demonstrar o desenvolvimento genético do cristianismo, a</p><p>história da Igreja é para o Novo Testamento o que o Novo Testamento é para o Velho.</p><p>O cristão precisa se conscientizar dos principais desenvolvimentos do crescimento e</p><p>progresso do cristianismo assim como da verdade Olblíca. Desse m odo, ele se oontirá</p><p>parte do Corpo de Cristo, que inclui um Paulo, um Bernardo de Claraval, um Agosti-</p><p>nho. um Lutero, um Wesley ou um Booth. O sentido de unidade que surge do</p><p>conhecimento da continuidade da história produzirá um enriquecimento espiritual.</p><p>Alguém temeroso pelo futuro da Igreja nos países onde ela é perseguida se fará</p><p>mais esperançoso na medida em que perceber a indestrutibilidade da Igreja em</p><p>tempos passados. Nem a perseguição externa, nem a incredulidade interna, nem. a</p><p>intrqducAq 1b</p><p>teologia falsa permanecerão diante a força perene da renovação que se observa na</p><p>história dos reavlvamentos na Igreja. Mesmo os historiadores seculares reconhecem</p><p>que o reavlvamento wesleyano foi o instrumento que salvou a Inglaterra de uma revo-</p><p>lução semelhante à Francesa. Para quem vê o poder de Deus operando na história</p><p>passada, o estudo da história da Igreja oferece uma influência estabilizadora num</p><p>tempo de secularismo.</p><p>Nós devemos lembrar, contudo, que a igreja pode ser destruída em uma área</p><p>particular ou pela decaída interna ou pela pressão externa, ou ambas juntas. A</p><p>excelente igreja na antiga Cartago, os Nestorianos no século XVII na China e a Igreja</p><p>Católico-Romana do Japão no século XVI, todos desapareceram.</p><p>E. A História da Igreja como uma Ferramenta Prática.</p><p>A leitura da História da Igreja tem muitas utilidades para o obreiro cristão, se|a</p><p>ele, ou ela. evangelista, pastor ou professor. O autor tem se comprazido em ver</p><p>como a teologia sistemática se tornou mais inteligível ao estudante que estudou</p><p>seu desenvolvimento histórico. As doutrinas da Trindade, de Cristo, do pecado e da</p><p>soteriologia jamais serão suficientemente entendidas sem um conhecimento da</p><p>história do período que vai do Concilio de Nicéia ao Concilio de Constantinopla, em</p><p>680.</p><p>Um farto material ilustrativo para sermões está à disposição do estudante da</p><p>história da Igreja que tenciona pregar. Quer ele evitar a iminência dos perigos de um</p><p>misticismo cego que coloca a iluminação cristã no mesmo nível da inspiração da</p><p>Bíblia? Que ele estude, então, os movimentos místicos da Idade Média ou o quaeris-</p><p>mo primitivo. Se ele procura avisar contra os perigos de uma ortodoxia desligada do</p><p>estudo e da aplicação dos ensinos da Bíblia, deve atentar para o período da fria</p><p>ortodoxia no Luteranismo a partir de 1648, que criou uma reação conhecida como</p><p>Pietismo, um movimento que destacou o estudo sincero da Bíblia e a prática da</p><p>piedade na vida diária.</p><p>F. A História da Igreja como Força Libertadora.</p><p>Finalmente, a história da Igreja tem um valor cultural. A história da civilização</p><p>ocidental é incompleta e ininteligível sem uma compreensão do papel da religião</p><p>cristã no desenvolvimento desta !civilização. A história do homem não pode ser</p><p>divorciada da história de sua vida religiosa. Os esforços de déspotas através doa</p><p>séculos em eliminar a religião redundam sempre na substituição da religião cristã por</p><p>alguma religião falsa. Tanto Hitler como Stalin, ao enfatizarem a raça e a classe social,</p><p>deram aos seus sistemas um elemento religioso.</p><p>Quem estuda a história da Igreja jamais se isolará em sua denominação. Ele</p><p>sentirá a unidade do verdadeiro Corpo de Cristo através dos séculos. Ele se fará</p><p>humilde quando encontrar os gigantes da sua herança espiritual e perceberá 0</p><p>quanto lhes deve Ele se tornará mais tolerante para com aqueles que dele diferemiem</p><p>questões não-essenciais mas que, como ele, aceitam as grandes doutrinas básicas dá</p><p>Fé, como a morte vicária e a ressurreição de Cristo, ensinadas por Paulo em Atos 17:</p><p>2,3 e I Corintios 15: 3,4.</p><p>2 0 D C R IS T IA N IS M O A T R A V É S D O S S ÉC U LO S</p><p>IV. A ORGANIZAÇÃO DA HISTÓRIA DA IGREJA</p><p>A. Divisões da História da Igreja.</p><p>Por uma questão de conveniência, a história׳ da Igreja pode ser organizada a</p><p>partir dos seguintes tópicos:</p><p>1. O elemento político envolve asirelações entre a Igreja e o Estado, bem como o</p><p>ambiente secular da Igreja. Ninguém poderá entender como se inverteu na política</p><p>francesa a situação criada ipela Constituição Civil do Clero em Ί790 para a situação</p><p>criada pela Concordata de Napoleão, em 1801, sem saber como Napoleão destruiu o</p><p>elemento democrático da Revolução Francesa e criou um novo sistema autoritário</p><p>em que a Igreja (Católica Romana) era a única a contar por ser a religião da “maioria</p><p>dos franceses". Uma compreensão das forças políticas, sociais, econômicas e artisti-</p><p>cas em operação na história é essencial para quem vai interpretar a história da Igreja.</p><p>Estas informações serão׳ dadas quando forem apropriadas.</p><p>2. A propagação da fé cristã não pode ser ignorada. Ela envolve o estudo de</p><p>missões estrangeiras, missões nacionais e missões urbanas, além da história das</p><p>estratégias adotadas na comunicação do Evangelho. A história de missões tem seus</p><p>heróis e mártires e é parte integrante da história da Igreja. A natureza essencial do</p><p>encontro pessoal na propagação do cristianismo e as possibilidades ilimitadas para</p><p>um crente fiel a seu Senhor se evidenciam num estudo da propagação da fé.</p><p>3. Esta propagação provocou, em muitas circunstâncias, a perseguição à Igreja,</p><p>perseguição esta começada pelo estado político-eclesiástico judeu, organizada sob</p><p>base imperial por Décio e Diocleciano, integrada ao sistema muçulmano e ressuscita-</p><p>da pelos estados totalitários de hoje.</p><p>O estudo das perseguições revela a afirmação de Tertuliano de que o sangue dos</p><p>mártires é a semente da Igreja. Este capitulo da história da Igreja, longe de desencora-</p><p>jar, mostra que a Igreja deu seus grandes saltos nos períodos de perseguição ou</p><p>imediatamente subseqüentes.</p><p>4. A administração é outro capítulo da história da Igreja. £ o estudo do governo</p><p>da Igreja, observando se é através dos bispos (episcopado), através dos presbíteros</p><p>(presbiterianismo), através da congregação num sistema de democracia mais direta</p><p>do que representativa (congregacionalismo) ou através de qualquer sistema elabora-</p><p>do a partir desses três. Integra este tópico também o estudo da posição do ministro e a</p><p>evolução da distinção entre o clero e o laicato. Disciplina e formas de adoração</p><p>(liturgia) estão ligadas a este ponto.</p><p>5. A polêmica, que se refere a luta da Igreja para combater a heresia e manter</p><p>firme a sua própria !posição, é um importante aspecto da história da Igreja. E nela está</p><p>envolvido 0 estudo das heresias adversárias e a formulação de doutrinas, de credos e</p><p>da literatura cristã como respostas às heresias. A literatura dos Pais da Igreja é um</p><p>campo extremamente rico para o estudo da polêmica, sejam os escritos de Justino</p><p>Mártir, respondendo a argumentação de que o Estado era tudo na vida, ou o pensa-</p><p>mento de Irineu, mostrando as heresias em que incorriam os vários tipos de gnosticis-</p><p>mo. A maioria dos sistemas teológicos nasceu num período de luta para enfrentar as</p><p>necessidades presentes. As épocas entre 325 e 451 e entre 1517 e 1648 se caracteri-</p><p>zam pela presença da polêmica. Calvino desenvolveu seu sistema teológico na</p><p>intenção de uma teologia bíblica que não apresentasse os erros do catolicismo</p><p>romano.</p><p>IN fH U U U Ç A U ׳ ?1</p><p>6. Ainda outra seção de nosso estudo pode ser chamada de praxis, por conside-</p><p>rar o trabalho prático na vida do cristão. A vida familiar, a obra social e a influência do</p><p>cristianismo sobre a vida diária são partes deste capítulo da história da Igreja, que</p><p>envolve o estilo de vida da igreja.</p><p>7. O cristianismo não continuaria crescendo se parasse de atentar para o proble-</p><p>ma da apresentação ou propaganda. A apresentação trata do estudo do sistema</p><p>educacional da Igreja, sua hinologia, liturgia, arquitetura, arte e pregação.</p><p>Cada um destes capítulos será discutido no período em que se</p><p>50</p><p>campanhas militares durante seu reinado, numa tentativa de acabar com a anarquia</p><p>dentro de seus domínios e expandir suas fronteiras para a Itália, o que conseguiu</p><p>quando derrotou os lombardos, e para a Alemanha, o que também conseguiu com a</p><p>conquista dos saxões. Dobrou as posses do pai, até anexar toda a Itália ao sul de</p><p>Roma, a maioria da atual Alemanha e toda a atual França. Nunca tanta terra esteve,</p><p>desde o tempo do Império Romano, dominada por um só governo. Como isso se devia</p><p>ao gênio de Carlos Magno, o reino não sobreviveu à sua morte, em 814.</p><p>Carlos Magno criou uma forte burocracia e um ótimo sistema de governo impe-</p><p>rial para administrar seu grande império, que foi dividido em áreas diferentes, cada</p><p>uma compreendendo vários condados, dirigidos por um duque. O imperadorenviava</p><p>homens conhecidos como missi dom inici às cortes desses duques em ocasiões</p><p>imprevistas para inspecionar suas contas, anunciar novas capitulárias ou leis e</p><p>verificar a manutenção da ordem.</p><p>Favoreceu bastante à Igreja, que ele comparava à alma assim como o Estado era</p><p>comparado ao corpo do homem. Igreja e Estado tinham esferas próprias de atuação,</p><p>Quando de uma visita a Roma para completar a obra de derrota dos lombardos em</p><p>774, ele reconfirmou a doação das terras feitas por Pepino ao papa em 754. Cria,</p><p>entretanto, que o dirigente da Igreja não deveria contestar as decisões do soberano</p><p>do estado e que os bispos deveríam também se subordinar ao chefe do estado.</p><p>Quando foi atacado por um grupo em Roma, e quase morto, 0 papa Leão III</p><p>deixou Roma e foi para a corte־de Carlos Magno. Carlos Magno o conduziu de volta a</p><p>Roma e num concilio 0 papa foi absolvido das acusações contra ele. Numa missa na</p><p>catedral no Natal de 800, com Carlos Magno ajoelhado diante do altar, o papa</p><p>colocou a coroa sobre sua cabeça e 0 declarou imperador dos romanos. Foi assim</p><p>que o Império Romano voltou a existir no ocidente e uma nova ■Roma, governada por</p><p>um teutão, substituiu o velho Império Romano. Um império ■universal existiu aparte</p><p>de uma Igreja universal. A herança clássica e a cristã não se uniram num império</p><p>cristão.</p><p>O sonho humano de unidade parecia novamente se realizar, pois Carlos Magno</p><p>tinha sob seu controle 0 maior território conseguido por um homem desde a queda</p><p>do Império. A soberania espiritual universal do papado sobre as almas humanas tinha</p><p>agora sua contraparte no redivivo Império Romano com o qual Carlos Magno dirigia</p><p>os corpos dos homens.</p><p>Pensava-se que o reino de Deus tinha dois braços: 0 espiritual, presidido pelo</p><p>papa, com responsabilidade sobre as almas dos homens, e 0 temporal que era</p><p>responsável pelo bem estar físico dos homens. Como se vê, esta teologia tinha a</p><p>intenção de impedir que os soberanos da Igreja e do novo Império Romano Teutôni-</p><p>co entrassem em conflito. Era o imperador que recebia de Deus poder sobre os</p><p>homens, e delegava ao papa a autoridade sobre as almas dos homens? Ou o poder</p><p>0 R E N A S C I M E N T O DO I M P E R I A L I S M O N O O C ID E N T E 1 5 1</p><p>Uma versão do relacionamento entre 0 Papa e 0 Imperador é descrita neste mosaico. Pedro,</p><p>sentado no trono, é mostrado conferindo 0 pálio ao Papa Leão III. e dando uma bandeira ao</p><p>Imperador Carlos Magno, mostrando que cada um deles derivava sua autoridade diretamente</p><p>de Pedro e independentemente um do outro</p><p>1 5 2 0 S U R G I M I N T U D O I M P É R I O E O ü C R I S T I A N I S M O L A T I N U T U J T Ô N I C Q S . bDO 11(111</p><p>era entregue de forma absoluta à Igreja, cujo papa delegava ao imperador soberania</p><p>sobre os corpos dos homens? Ou, ainda, trabalhavam eles em coordenação,(receben-</p><p>do cada um diretamente de Deus a autoridade para o exercício do poder em suas</p><p>esferas específicas? A resposta a este problema absorveu! as energias dos papas e</p><p>dos imperadores da Idade Média até que, finalmente, os !papas conseguiram colocar</p><p>os imperadores sob seu controle.</p><p>Com a morte de Carlos Magno, seu Império entrou em decadência, por causa de</p><p>seus !débeis filhos e de seus belicosos netos até que estes dividissem entre si o</p><p>Império no Tratado de Verdun em 843, após um longo períodode guerra. A idéia do</p><p>império renasceu outra vez com o príncipe alemão chamado Otto, em 962: de 962 a</p><p>1806, o Santo Império Romano foiruma !instituição honorária na Europa, apesar do</p><p>escárnio de Voltaire, para quem ele não era nem santo, nem romano e !muito menos</p><p>um império.</p><p>Carlos Magno dedicou-se de corpo e alma ao progresso cultural; seu governo</p><p>imperial, de 800 a 814, foi um período de desenvolvimento cultural, chegando mesmo</p><p>a ser conhecido como a “Renascença Carolíngia”. Desde a obra de Boécio e Cassio-</p><p>doro no governo deTeodorico. o rei ostrogodo do território da Itália, no século VI, não</p><p>se vira progresso cultural semelhante. Para realizar esta renascença cultural״ Carlos</p><p>Magno procurou os sábios da (Igreja na Inglaterra e persuadiu o grande erudito</p><p>Alcuino (735-804) a vir de York para sua corte e assumir a liderança de sua escola</p><p>palaciana em! Aachen, onde os filhos da família real e dos nobres proeminentes</p><p>seriam educados. iNesta tarefa, Alcuino contou com a colaboração de Paulo o Diáco-</p><p>no, Einhard e outros competentes estudiosos de então.</p><p>A escola palaciana de Carlos Magno !produziu itoomens e escolas responsáveis</p><p>pela !passagem à universidade medieval dos conceitos básicos de seu currículo, o</p><p>trivio e quadrivio, adaptado da educação superior romana por Marciano Capella no</p><p>século V. As atividades culturais de Carlos Magno foram um importante passo no</p><p>processo através do qual o povo alemão assimilou a filosofia clássica e cristã. Carlos</p><p>Magno mesmo gostava de ouvir a leitura de grandes livros do passado, apreciando,</p><p>segundo seu biógrafo Einhard, as obras de Agostinho, especialmente A Cidade de</p><p>Deus. Ele recomendava aos abades que abrissem escolas no mosteiro para que os</p><p>intérpretes da Bíblia pudessem ser homens instruídos que compreendesse™ e inter-</p><p>pretassem corretamente as Escrituras.3</p><p>Os historiadores em geral dão uma grande ênfase ao papel de Carlos Magno na</p><p>história medieval. Sua coroação marcou a reconciliação e a união da população do</p><p>velho Império Romano com seus conquistadores teutões, pondo fim ao sonho do</p><p>imperador oriental de reconquistar para o segmento oriental do Império Romano as</p><p>terras perdidas para os bárbaros do Ocidente״ no século V. Por ter coroado Carlos</p><p>Magno, a posição do papa foi acentuada como de alguém a quem os próprios</p><p>imperadores devem suas coroas, devendo o imperador ajudar-lhe quando estivesse</p><p>em dificuldade. A coroação de Carlos !Magno marcou o ápice do׳ poder franco,</p><p>iniciado com a ■decisão de Clóvis de se tornar cristão.</p><p>III. A IGREJA E O IMPÉRIO NO ORIENTE</p><p>Carlos Magno se preocupou também como Impérioealgrejaoriental, chegando</p><p>mesmo a tentar a unificação do Oriente e do Ocidente num só Impérioque englobas-</p><p>se a maior parte dos territórios do velho Império Romano. Não se pode esquecer que</p><p>0 R E N A S C I M E N T O ם ס I M P E R I A L I S M □ N O □ C l ü E N T l 1 5 3</p><p>os imperadores orientais impediram as hordas muçulmanas de invadir a Europa até</p><p>que 0 Ocidente se recuperasse da confusão e do caos provocados pela queda do</p><p>Império e pela chegada em massa dos bárbaros.</p><p>O Oriente enfrentou o problema particular da controvérsia iconoclasta de 752 a</p><p>843. Leão III, em decretos de 726 e 730, proibiu o uso de imagens na Igreja e</p><p>determinou sua destruição. Carlos Magno fez uma declaração em. favor do uso de</p><p>imagens na época em que Irene se tornou Imperatriz do Império oriental. Ele chegou</p><p>até propor casamento com Irene para reunir as áreas do velho Império Romano numa</p><p>só coroa com sede no Ocidente. Irene recusou suas propostase a divisão do Império,</p><p>começada quando Constantino transferiu a capital de Roma para Constantinople em</p><p>330, continuou. O segundo Concilio de Nicéia, em 787, permitiu a veneração, não a</p><p>adoração de imagens.</p><p>A Igreja oriental, exceção feita à obra de João Damasceno, não conheceu um</p><p>desenvolvimento em sua</p><p>fizer importan-</p><p>te, embora nem todos sejam desenvolvidos detalhadamente em cada um desses</p><p>períodos. E podem ser o centro de estudos fascinantes para aqueles que se interes-</p><p>sam e tenham uma formação básica necessária.</p><p>B. Períodos da História da Igreja.</p><p>O estudante deve se lembrar que a história é uma “túnica inconsútil". Por isto,</p><p>Maitland disse que história é um rio continuo de eventos dentro da estrutura do tempo</p><p>e do espaço. Por esta razão,a periodização da história da Igreja é apenas um recurso</p><p>artificial para colocar os dados da história em segmentos facilmente perceptíveis e</p><p>ajudar 0 estudante a guardar os fatos essenciais. O povo do Império Romano não</p><p>dormia uma noite na era antiga e acordava na manhã seguinte na Idade Média. IHá,</p><p>então, uma transição gradual entre uma forma de viver de um período para outro.</p><p>É conveniente, então organizar a história cronologicamente.</p><p>História da Igreja Antiga, 5 a.C. 590 ־ d.C.</p><p>O primeiro período da história da Igreja, revela a evolução da Igreja Apostólica</p><p>para a Antiga Igreja Católica Imperial, e o início do sistema Católico Romano. O centro</p><p>de atividade era a bacia do Mediterrâneo, que incluía regiões da Ásia, África e Europa.</p><p>A Igreja operou dentro do ambiente cultural da civilização greco-romana e do am-</p><p>biente político do Império Romano.</p><p>1. O Avanço do Cristianismo no Império até 100.</p><p>Nesta seção, a atenção será dada ao ambiente em que a Igreja nasceu. A</p><p>fundação da Igreja na vida, morte e ressurreição de Cristo e sua fundação entre 08</p><p>judeus são importantes para se compreender a gênese do cristianismo. O crescimen-</p><p>to gradual do cristianismo dentro dos quadros do judaísmo e a ruptura desses</p><p>quadros no Concilio de Jerusalém antecedem a pregação do Evangelho aos gentios</p><p>por Paulo e outros, e também a emergência do cristianismo como uma seita separada</p><p>do judaísmo. Chamar-se-á a atenção ainda para o papel fundamental exercido pelos</p><p>apóstolos neste período.</p><p>2. A Luta da Antiga Igreja Católica Imperial para Sobreviver, 100-313.</p><p>Neste período, a Igreja teve sua existência constantemente ameaçada pelaoposi-</p><p>ção de fora: a perseguição pelo estado romano. Os mártires e os apologistas deram a</p><p>resposta da Igreja a este problema externo. A Igreja também enfrentou o problema</p><p>interno da heresia, tendo os polemistas fornecido a resposta cristã a ela.</p><p>3. A Supremacia da Antiga Igreja Católica Imperial, 313-590.</p><p>A Igreja enfrentou os problemas decorrentes de sua reconciliação com o Estado</p><p>sob Constantino e sua união com o Estado ao tempo de Teodósio. Logo ela se vlü</p><p>22 0 CAIBTIANIBMD ATRAVÉS OQS SÉCULOS</p><p>dominada pelo Estado. Os imperadores romanos queriam uma doutrina unificada a</p><p>fim de unificar o estado e salvar a cultura greco-romana. Os cristãos, porém, não</p><p>tinham conseguido criar um corpo de doutrina no período da perseguição. Seguiu-</p><p>se. então, um longo tempo de controvérsias doutrinárias. Os escritos dos Pais gregos</p><p>e latinos, autores de mente cientificamente privilegiada, apareceram como conse-</p><p>qüência de disputas teológicas. O monasticismo surgiu, em parte como reação e em</p><p>parte como protesto contra a crescente mudanização da igreja institucional e visível.</p><p>Nesta época, o ofício de bispo foi fortalecido e o bispo romano aumentou o seu poder.</p><p>Ao término do período, a Antiga Igreja׳ Gatólica Imperial transformou-se em Igreja</p><p>Católica Romana.</p><p>História da Igreja Medieval, 590 1517־</p><p>O palco da ação neste período muda-se do sul para o norte e oeste da Europa,</p><p>isto é, para as margens do Atlântico. A Igreja Medieval, diante das levas migratórias</p><p>das tribos teutônicas, lutou para trazê-las. ao cristianismo e integrar a cultura greco-</p><p>romana e o cristianismo como instituições teutônicas. Ao intentar isto, a Igreja</p><p>medieval acabou por centralizar sua organização debaixo da supremacia papal,</p><p>desenvolvendo um sistema׳sacramental-hierárquico que caracteriza a Igreja Católica</p><p>Romana.</p><p>4. O Surgimento do Império e do Cristianismo Latino-Teutônico, 590-800.</p><p>Gregório I (540-604) empenhou-se muito na tarefa de evangelizar as tribos</p><p>teutônicas invasoras do Império Romano. A Igreja oriental, neste período, enfrentou a</p><p>ameaça de uma religião rival, o Islamismo, que tomou muitos de seus territórios na</p><p>Asia e na África. Lentamente, a aliança entre o papa e os teutões foi dando lugar a</p><p>organização da sucessão teutônica ao velho Império Romano, o Império Carolíngio</p><p>de Carlos Magno. Este foi um período de pesadas perdas.</p><p>5. Avanços e Retrocessos nas Relações entre Igreia e Estado, 800-1054.</p><p>O primeiro grande cisma da Igreja aconteceu neste período. A Igreja Ortodoxa</p><p>Grega, depois de 1054, seguiu seus próprios caminhos à base da teologia estática</p><p>criada por João de Damasco (c. 675 -c. 749) no século oitavo. A Igreja ocidental nesta</p><p>época feudalizou-se e procurou, sem muito sucesso, desenvolver uma política de</p><p>relações entre a Igreja Romana e o Estado que fosse aceita tanto pelo papa quanto</p><p>pelo imperador. Por esta época, os reformadores, de Cluny intentaram corrigir os</p><p>males dentro da própria Igreja Romana.</p><p>6. A Supremacia do Papado, 1054-1305.</p><p>A Igreja Católica medieval chegou ao clímax do poder sob a liderança de</p><p>Gregório VII (Hildebrando. c. 1023-1085) e Inocêncio III (1160-1216), conseguindo</p><p>forçar uma supremacia sobre o Estado pela humilhação dos soberanos mais podero-</p><p>sos da Europa. As cruzadas trouxeram prestígio para o papado. Monges e freiras</p><p>espalharam a fé romana e reconverteram dissidentes. A filosofia grega de Aristóteles,</p><p>levada à Europa pelos árabes da Espanha, foi integrada ao cristianismo por Tomás de</p><p>Aquino (1224-1274) numa espécie de catedral intelectual que se tornaria a expressão</p><p>máxima da teologia romana. A catedral gótica era a visão sobrenatural e supramunda-</p><p>na do período e fornecia uma "Bíblia de pedra" para os fiéis. A Igreja Romana seria</p><p>apeada deste poder no período seguinte.</p><p>INTR00UÇA0 23</p><p>7. O Ocaso Medieval e o Renascimento Moderno, 1305-1517.</p><p>Tentativas internas para reformar um papado corrupto foram feitas pelos mtsti-</p><p>cos, que lutaram para personalizar uma religião que se institucionalizara demasiada-</p><p>mente. Tentativas de reformas foram feitas também por reformadores primitivos, tais</p><p>como os místicos, João Wycliffe e João Huss, concílios reformadores e humanistas</p><p>bíblicos. A expansão geográfica do mundo, a nova visão intelectual secular da</p><p>realidade na Renascença, o surgimento das nações-estados e a emergência da classe</p><p>média se constituíram em forças externas que logo derrubariam uma Igreja corrupta</p><p>e decadente. A recusa da parte da Igreja Romana em aceitar a reforma interna tornou</p><p>possível a Reforma.</p><p>História da Igreja Moderna, 1517 e depois</p><p>Este período foi ,iniciado por um cisma que resultou na origem das igrejas-</p><p>estados protestantes e na divulgação universal da fé cristã pela grande vaga missioná-</p><p>ria do século XIX. O palco· da ação não era mais o mar Mediterrâneo nem oi oceano</p><p>Atlântico, mas o mundo. O cristianismo tornou-se uma religião universal e global.</p><p>8. Reforma e Contra-Reform a, 1517-1648</p><p>As forças de revolta contidas pela Igreja Romana no período anterior irromperam</p><p>agora e novas igrejas protestantes nacionais surgiram: a luterana, anglicana, calvinis-</p><p>ta e anabatista. Como resultado, o papado foi obrigado a tratar da reforma. Com os</p><p>movimentos contra-reformadores do Concilio de Trento, dos jesuítas e da inquisição,</p><p>o papado conseguiu brecar o avanço do Protestantismo na Europa e ter vitórias nas</p><p>Américas do Sul e Central, nas Filipinas e no Vietnã e experimentando uma renova-</p><p>ção. Só depois do Tratado de Vestfália (1648), que pôs fim à triste Guerra dos30anos,</p><p>os dois lados se estabeleceram para consolidar suas conquistas</p><p>9. Racionalismo, Reavivamentismo e Denominacionalismo, 1648-1789.</p><p>Durante este período, as idéias calvinistas da Reforma chegaram aos Estados</p><p>Unidos da América do Norte através dos puritanos. A Inglaterra legou à Europa um</p><p>racionalismo cuja expressão religiosa era o Deísmo. Por outro lado. o Pietismo</p><p>apresentou-se</p><p>como׳ a resposta à ortodoxia fria; sua expressão na Inglaterra foram os</p><p>movimentos quaere e wesleyano.</p><p>10. Tempos de Reavivamentos, Missões e Modernismo, 1789-1914.</p><p>Na primeira parte do século XIX houve um reavivamento do catolicismo. Sua</p><p>contraparte protestante foi um reavivamento que criou um amplo movimento missio-</p><p>nário no estrangeiro e provocou uma reforma social interna nos países europeus.</p><p>Mais tarde, as forças destrutivas do racionalismo e do evolucionismo levaram a uma</p><p>“ruptura com a Bíblia" que se expressou no liberalismo religioso.</p><p>11. A Igreja e a Sociedade em tensão desde 1914.</p><p>A Igreja, em grande parte do mundo, enfrenta o problema do estado secular e</p><p>freqüentemente totalitário. O modernismo sentimental do início do século XX deu</p><p>lugar à neo-ortodoxia e seus sucessores, O movimento para a reunião das Igrejas</p><p>continua. Uma corrente evangélica crescente está emergindo.</p><p>Será útil aprender e, periodicamente, revisar estas divisões básicas da história da</p><p>igreja. O quadro cronológico é uma ferramenta útil para relacionar os evento·,</p><p>pessoas e movimentos, uns aos outros.</p><p>CRONOLOGIA DA HISTÓRIA DA IGREJA</p><p>Contflios Ecumênicos</p><p>e</p><p>Controvérsia Teológica</p><p>— Pentecoste—Fundação da Igreja</p><p>— Concilio de Jerusalem</p><p>Perseguição por Nero</p><p>Igreja Católica</p><p>Edito de Milão</p><p>Concilio de Nicéia (Credo Niceno) v</p><p>Cristianismo como Religião Oficial do Império I</p><p>Edito de Valenciano |</p><p>Concilio de Calcedônia '</p><p>Regra Beneditina, Fundação de Monte Cassino</p><p>Gregório I</p><p>Agostinho Converte os Ingleses</p><p>Surge o Islamismo, Novo Inimigo do Cristianismo</p><p>Slnodo de Whitby —;Inglaterra sob o Papado</p><p>Doação de Constantino</p><p>Começo dos Estados Papais porDoaçâo de Pepino</p><p>Império Romano de1 Carlos Magno</p><p>Santo Império Romano (até 1806)</p><p>A Rússia Aceita o Cristianismo Ortodoxo</p><p>Cisma — Igrejas Ortodoxos</p><p>Colégio dos Cardeais, para Elegero Papa</p><p>As Cruzadas e o Escolastlcismo Começam</p><p>Transubstanciaçâo</p><p>Franciscanos e Dominicanos</p><p>Cativeiro Babilônico em Avignon</p><p>Grande Cisma até 1417</p><p>Concllios Reformadores</p><p>— Queda de Constantinople</p><p>i|— Impressão do N.T. Grego, de Erasmo</p><p>95 Teses</p><p>Loci Communes, de Melanchton e a</p><p>Dieta de Worms</p><p>CRONOLOGIA DA HISTÓRIA DA IGREJA (comeso1</p><p>Anabatistas (1523) — Conrado Grebel</p><p>Luteranismo. Confissão de Augsburg — Alemanha e Escandinávia</p><p>\</p><p>^1552 1589</p><p>Segundo Livro Patriarcado</p><p>de Oração de Moscou</p><p>1563 J 1580 Fórmula</p><p>39 Artigos de Concórdia</p><p>1581</p><p>Igreja Anglicana</p><p>1</p><p>Institutas, de Calvino</p><p>c. 1612</p><p>ץ</p><p>1611 Versão</p><p>do Rei Tiago</p><p>,1643-7</p><p>Confissão de</p><p>Westminster</p><p>1675 Pia כI Q)</p><p>Desideria _</p><p>כ</p><p>1721</p><p>Santo</p><p>Sínodo</p><p>1792</p><p>Carey</p><p>יד</p><p>(D</p><p>W׳</p><p>3o</p><p>1598 Edito</p><p>de Nantes</p><p>1678</p><p>Apologia</p><p>de Barclay</p><p>c. 1727</p><p>1742</p><p>2o</p><p>0»<</p><p>Õ‘(Λ</p><p>1689</p><p>Ato de</p><p>Tolerância</p><p>1739</p><p>Reavivamento</p><p>Metodista</p><p>*</p><p>c. 1791</p><p>1804</p><p>Soc. Bíb</p><p>Britânica e</p><p>Estrangeira</p><p>1833</p><p>Movimento</p><p>de Oxford</p><p>*</p><p>1859</p><p>Evolução</p><p>2</p><p>a</p><p>o־̂<</p><p>CL</p><p>1878</p><p>M</p><p>CL</p><p>01</p><p>cn01</p><p><</p><p>01■o</p><p>ca■O</p><p>e Igrejas</p><p>1685</p><p>Revogação</p><p>do Edito</p><p>de Nantes</p><p>no</p><p>CQכ</p><p>Φtoנסn</p><p>õ'כ</p><p>D)</p><p>55'</p><p>XcCOc</p><p>CD</p><p><φtf♦־»oכ</p><p>W33</p><p>Erskine</p><p>| 1761</p><p>Gillespie</p><p>1843</p><p>Chalmers</p><p>1900 Igreja</p><p>Livre Unida</p><p>M</p><p>1929 Igreja</p><p>da Escócia</p><p>1</p><p>1948 Concilio Mundia</p><p>Os Jesuítas</p><p>São</p><p>Aprovados</p><p>pelo Papa</p><p>Contra-Re-</p><p>forma e Con-</p><p>cllio de</p><p>Trento</p><p>Armada</p><p>Espanhola</p><p>1618</p><p>Slnodo</p><p>de Dort</p><p>Paz de</p><p>Westfalia</p><p>Extinção</p><p>da Ordem</p><p>Jesuíta</p><p>Concordata</p><p>(França)</p><p>Reorganizaç«</p><p>dos Jesuítas</p><p>Imaculada</p><p>Conceição</p><p>Syllabus</p><p>dos Erros</p><p>Infalibilidade</p><p>Papal</p><p>\C</p><p>Concordata</p><p>com a Itália</p><p>Assunção de</p><p>Maria</p><p>4</p><p>— Vaticano</p><p>1534</p><p>1540</p><p>1545</p><p>1563</p><p>1588</p><p>1 5 3 0</p><p>1648</p><p>1773</p><p>1801</p><p>1814</p><p>1854</p><p>1864</p><p>1870</p><p>1929</p><p>1950</p><p>1961-4</p><p>O CRISTIANISMO ATRAVÉS DOS SÉCULOS</p><p>O AVANÇO DO CRISTIANISMO</p><p>NO IMPÉRIO ATÉ 100</p><p>CAPÍTULO 1</p><p>A PLENITUDE DOS TEMPOS</p><p>Em Gálatas 4:4, Paulo chama a atenção para a era histórica da preparação</p><p>providencial que antecedeu a vinda de Cristo a terra em forma 'humana: “Vindo a</p><p>plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho...” Marcos também indica que a vinda</p><p>de Cristo aconteceu quando estava״ tudo já preparado na terra (Mc 1:15)\ O estudo</p><p>dos eventos que antecederam o aparecimento de Cristo sobre esta terra faz com que</p><p>o estudante equilibrado reconheça a verdade das afirmações de Paulo e Marcos.</p><p>Na maioria das discussões sobre este assunto, esquece-se que não apenas os</p><p>judeus, mas os gregos e os romanos também, contribuíram para a preparação</p><p>religiosa para a aparição de Cristo. A contribuição grega e romana foi, na realidade,</p><p>negativa, mas em muito contribuiu paraílevar o desenvolvimento histórico até o ponto</p><p>em que Cristo pudesse exercer o impacto máximo sobre a história de uma forma até</p><p>então impossível.</p><p>I. O AMBIENTE</p><p>A. Contribuições Politicas dos Romanos.</p><p>A contribuição política anterior à vinda de Cristo foi basicamente obra dos</p><p>romanos. Este povo, seguidor do caminho da idolatria, dos cultos de mistérios e do</p><p>culto ao imperador, !foi então usado por Deus, a quem ignoravam, para cumprir a sua</p><p>vontade.</p><p>1. Os romanos, como nenhum outro povo até então, desenvolveram um sentido</p><p>da unidade da espécie sob uma lei universal.€ste sentido da solidariedade do homem</p><p>no Império criou um ambiente favorável à aceitação do Evangelho,que proclamava a</p><p>unidade de raça humana, baseada no fato de que todosos homens estavam sob a pena</p><p>do pecado e no fato de que a todos era oferecida a salvação que os integra num</p><p>organismo universal, a Igreja Cristã, 0 Corpo de Cristo.</p><p>Nenhum império do antigo Oriento Próximo, nem mesmo 0 império de Alexan-</p><p>dre, tinha conseguido dar aos homens um sentido de unidade numa organizção</p><p>política. A unidade política seria a contribuição particular de Roma. A aplicação da lei</p><p>2 9</p><p>3 0 0 A V A N Ç O 0 0 C R IS T IA N IS M O N O IM P É R IO A TÉ 1 0 0</p><p>romana aos cidadãos de todo o Império era imposta diariamente a todos os cidadãos</p><p>e súditos do Império pela justiça imparcial das cortes romanas. Esta lei romana se</p><p>originava da lei consuetudinária da antiga monarquia. Durante a primeira república,</p><p>no quinto século, antes de Cristo, esta lei foi codificada nas Doze Tábuas, que eram</p><p>parte essencial na educação de toda criança romana. A compreensão de que os</p><p>grandes princípios da lei romana eram também parte das leis de todas as nações sob</p><p>o domínio dos romanos como praetor peregrinus, que era encarregado da tarefa de</p><p>tratar com as cortes em que estrangeiros estivessem sendo julgados, tornou-se</p><p>realidade para todos os sistemas jurídicos desses estrangeiros. Assim, o código das</p><p>Doze Tábuas, baseado no costume romano, foi enriquecido pelas leis de outras</p><p>nações. Os romanos de inclinação filosófica explicavam essas semelhanças pelo uso</p><p>do conceito grego de uma lei universal cujos princípios foram escritos na natureza do</p><p>homem e seriam descobertos por um processo racional.</p><p>Um passo adicional no estabelecimento da idéia de unidade foi a garantia de</p><p>cidadania romana aos não romanos. Este processo foi principiado no período ante-</p><p>rior ao nascimento de Cristo e foi completado quando Caracala concedeu, em 212, a</p><p>todos os homens livres do Império Romano a cidadania romana. O Império Romano</p><p>reunia todo 0 mundo mediterrâneo que contava na história de então; desse modo para</p><p>todos os propósitos práticos, todos os homens estavam debaixo de um sistema jurídico,</p><p>como cidadãos de um só reino.</p><p>A lei romana, com sua ênfase sobre a dignidade do individuo, e no direito deste à</p><p>justiça e à cidadania romana, além de sua tendência a agrupar homens de raças</p><p>diferentes numa só organização política, antecipou um Evangelho que proclamava a</p><p>unidade da raça ao anunciar a pena do pecado e o Salvador do pecado. Paulo lembrou</p><p>aos da igreja filipense que eles eram membros de uma comunidade celestial (Fp3:20).</p><p>2. A movimentação livre em torno do mundo mediterrâneo teria sido mais difícil</p><p>para os mensageiros do Evangelho antes de César Augusto (27 a.C. - 14 d.C.). A</p><p>divisão do mundo antigo em grupos, cidades-estados ou tribos, pequenos eenciuma-</p><p>dos um do outro, impedia a circulação e a propagação de idéias. Com o aumento do</p><p>poderio imperial romano no período</p><p>da expansão imperial, uma era de desenvolví-</p><p>mento pacífico ocorreu nos países ao redor do Mediterrâneo. Pompeu tinha varrido</p><p>os piratas do Mediterrâneo e os soldados romanos mantinham a paz nas estradas da</p><p>Asia, Africa e Europa. Este mundo relativamente pacífico tornou mais fácil a movi-</p><p>mentação dos primeiros cristãos nas cidades onde pregavam o Evangelho a todos</p><p>os homens.</p><p>3. Os romanos criaram um ótimo sistema de estradas que iam do marco áureo no</p><p>forum a todas as regiões do Império. As estradas principais eram de concreto e</p><p>duraram séculos. Elas passavam por montes e vales até chegarem aos pontos mais</p><p>distantes do Império; algumas delas são usadas até hoje. Um estudo das viagens de</p><p>Paulo indica que ele se serviu muito deste ótimo sistema viário para atingir os centros</p><p>estratégicos do Império Romano. As estradas romanas e as cidades estrategicamente</p><p>localizadas às margens dessas estradas foram uma ajuda indispensável na concreti-</p><p>zação da missão de Paulo.</p><p>4. O papel do exército romano no desenvolvimento do ideal de uma organização</p><p>universal e na propagação do Evangelho não pode ser ignorado. Os romanos adota-</p><p>vam a prática de usar habitantes das províncias no exército como forma de suprir a</p><p>falta de cidadãos romanos atingidos pelas guerras e pelo conforto da vida. Os</p><p>provincianos entravam em contato com a cultura romana e ajudavam a divulgar suas</p><p>A PLENITUDE DOS TEMPOS 31</p><p>Idéias através do mundo antigo. Em muitos casos, alguns destes homens</p><p>converteram-se ao cristianismo e levaram o Evangelho às regiões para onde eram</p><p>designados. Ê provável que a introdução do cristianismo na Bretanha seja um resulta-</p><p>do dos esforços de soldados cristãos que acantonaram por lá.</p><p>5. As conquistas romanas levaram muitos povos à falta de fé em seus deuses,</p><p>uma vez que eles não foram capazes de protegê-los dos romanos. Tais povos foram</p><p>deixados num vácuo espiritual que não estava sendo satisfeito pelas religiões de</p><p>então.</p><p>Além disso, os substitutos que Roma tinha a oferecer em lugar das religiões</p><p>perdidas nada mais podiam fazer além de levar os povos a compreenderem qua</p><p>necessidade de uma religião mais espiritual. O culto ao imperador romano, que</p><p>surgiu cedo na Era Cristã, fazia um apelo ao povo somente como um meio de tornar</p><p>tangível o conceito de Império romano.</p><p>As várias religiões de mistério pareciam oferecer muito mais que isso como um</p><p>meio de auxílio espiritual e emocional, e nelas o Cristianismo achou seu maior rival. A</p><p>adoração de Cibele, a grande mãe terra, foi trazida da Frigia para Roma. A adoração des-</p><p>ta deusa da fertilidade tinha ritos tais como o drama da morte e ressurreição do consorte</p><p>de Cibele, Átis, o que parecia suprir as necessidades emocionais dos homens. Oculto</p><p>à ísis, importado do Egito, era semelhante ao de Cibele, com sua ênfase sobre a morte</p><p>e ressurreição. O Mitraísmo, importado da Pérsia, teve aceitação especial entre oe</p><p>soldados romanos. Tinha um festival em dezembro, um Maligno, um Salvador nascido</p><p>miraculosamente - Mitra, um deus-salvador - além de capelas e cultos de adoração.</p><p>Todas essas religiões enfatizam o deus-salvador. O culto de Cibele conclamava</p><p>seus adoradores ao sacrifício de um touro׳ e o batismo de seus seguidores com o</p><p>sangue desse touro. O mitraísmo possuía, além de outras coisas, refeições sacrifl-</p><p>ciais. Por causa da influência dessas religiões, elas pareciam algo esquisitas frente ao</p><p>Cristianismo e suas demandas sobre o,indivíduo. Quando muitos descobriram que 08</p><p>sacrifícios de sangue dessas religiões nada podiam fazer por eles, foram guiados pelo</p><p>Espírito Santo a aceitar a realidade oferecida a eles no Cristianismo2.</p><p>A consideração estes fatores permite concluir que o Império Romano criou um</p><p>ambiente político favorável para a propagação do cristianismo nos primórdios de sua</p><p>existência. Mesmo a Igreja da Idade Média não conseguiu se desfazer da glória da</p><p>Roma imperial, acabando por perpetuar seus ideais num sistema eclesiástico.</p><p>B. Contribuições Intelectuais dos Gregos</p><p>Embora importante para a preparação para a vinda de Cristo, a contribuição</p><p>romana foi ofuscada pelo ambiente intelectual criado pela mente grega. A cidade de</p><p>Roma pode ser identificada com o ambiente político do cristianismo, mas foi Atenas</p><p>que ajudou a criar um ambiente intelectual propício à propagação do Evangelho. 08</p><p>romanos podem ter sido os conquistadores dos gregos, mas como indicou Horáclo</p><p>(65 a.C. - 8 d.C.) em sua poesia, os gregos conquistaram os romanos culturalmente. A</p><p>mente prática dos romanos pode ter construído boas estradas, pontes fortes 8 belos</p><p>edifícios, mas a grega erigiu os grandiosos edifícios da mente. Foi graças à influência</p><p>grega que a cultura basicamente rural da antiga República deu lugar à cultura</p><p>intelectual do Império.</p><p>1. O Evangelho universal precisava de uma língua universal para poder exercer</p><p>um impacto real sobre o mundo. Os homens têm procurado desde a Torre de Babel</p><p>criar uma língua universal para que possam comunicar suas idéias uns aos outro■</p><p>3 2 0 AVANÇO DO O R G A N IS M O NO IMPÉRIO ATÉ IDO</p><p>O Mitraísmo espalhou-se da Pérsia para Roma Aqui Mitra, 0 deus de luz e fogo, é mostrado</p><p>sacrificando um boi. O escorpião e a serpente e 0 cachorro pronto para sugar 0 sangue</p><p>simbolizam, provavelmente, a fertilidade e 0 rejuvenescimento, O culto foi muito popular entre</p><p>os soldados romanos.</p><p>sem problemas. Assim como o inglês no mundo moderno e o latim no mundo</p><p>medieval erudito, o grego tornou-se no mundo antigo, ao tempo em que o Império</p><p>Romano apareceu, a língua universal. Os romanos mais ilustres sabiam grego e latim.</p><p>O processo pelo qual o grego se tornou o vernáculo do mundo é interessante. O</p><p>dialeto ático usado pelos atenienses começou a ser usado amplamente no quinto</p><p>século antes de Cristo com a solidificação do Império Ateniense. Mesmo depois de o</p><p>Império ser destruído ao final do quinto século, o dialeto de Atenas, que se originara</p><p>da literatura grega clássica, tornou-se a língua que Alexandre, seus soldados e os</p><p>comerciantes do mundo helenistico, entre 338 e 146 a.C., modificaram, enriqueceram</p><p>e espalharam através do mundo mediterrâneo.</p><p>Foi através deste dialeto do homem comum, conhecido como Koinê e diferente</p><p>do grego clássico, que os cristãos foram capazes de se comunicar com os povos do</p><p>mundo antigo, usando-o inclusive para escrever o seu Novo Testamento, o mesmo</p><p>fazendo os judeus de Alexandria para escrever seu Velho Testamento, a Septuaginta.</p><p>Só recentemente se soube que o grego do Novo Testamento era o grego do homem</p><p>comum dos dias de Jesus Cristo, o que 0 diferencia do grego dos clássicos. Um</p><p>teólogo alemão chegou mesmo a dizer que o grego do Novo Testamento era um</p><p>grego especial criado pelo Espírito Santo para a produção do Novo Testamento.</p><p>A P L E N IT U D E D O S T E M P O S 3 3</p><p>Adolf Deissman (1866-1937) descobriu, no final do século passado, que o grego do</p><p>Novo Testamento era o mesmo usado pelo homem comum do primeiro século nos</p><p>relatos deixados em׳ papiros sobre seus negócios e em documentos fundamentais de</p><p>sua vida diária. Desde então, eruditos como James Hope Moulton (1863-1917) e</p><p>George !Milligan (1860-1934) deram uma base cientifica à descoberta de Deissman</p><p>ao estudarem comparativamente o vocabulário dos papiros e o do Novo Testamento.</p><p>Esta descoberta deu origem ao surgimento de inúmeras traduções modemas. Se o</p><p>Evangelho foi escrito na língua do povo comum à época de sua produção, raciocinam</p><p>os tradutores, deve ser colocado então na lingua do homem comum de nossos dias.</p><p>2. A filosofia grega preparou! o caminho para a vinda do Cristianismo por ter</p><p>levado à destruição as antigas religiões. Qualquer um que chegasse a conhecer seus</p><p>princípios, fosse grego ou romano, logo percebería que sua disciplina intelectual tornou</p><p>a religião tão !ininteligível que a acabava abandonando em favor da filosofia. A filosofia</p><p>falhou, porém, na satisfação das necessidades espirituais do homem, que se via obriga-</p><p>do então a tornar-se um cético ou a procurar</p><p>conforto !nas religiões de mistério do</p><p>Império Romano. À época do advento de Cristo, a filosofia descera do ponto elevado</p><p>que alcançara com Platão para um sistema de pensamento individualista egoísta, como</p><p>é o caso do Estoicismo ou do Epicurismo. Na maioria dos casos, a filosofia apenas</p><p>aspirava por Deus, fazendo dEle uma abstração; jamais revelava um Deus pessoal de</p><p>amor. Este fracasso da filosofia do tempo da vinda de Cristo tornou as mentes humanas</p><p>prontas para entender uma apresentação mais espiritual da vida. Só o cristianismo pode</p><p>preencher o vazio na vida espiritual de então.</p><p>A outra forma pela qual os grandes filósofos gregos ajudaram o cristianismo está</p><p>ligada ao fato de chamarem a atenção dos gregos para uma1 realidade que transcen-</p><p>dia o mundo temporal e visível em que viviam, Tanto Sócrates quanto Platão ensina-</p><p>ram, cinco séculos antes de Cristo, que este presente mundo temporal dos sentidos é</p><p>apenas uma sombra do mundo real em que os ideais supremos são ao mesmo tempo</p><p>abstrações intelectuais, o bem, a beleza e a verdade. Insistiam que a realidade não era</p><p>temporal e material, mas espiritual e eterna. Sua busca da verdade jamais lhes</p><p>conduziram a um ׳Deus pessoal, mas evidenciou que o melhor que 0 ,homem deve</p><p>fazer é buscar a Deus através do intelecto. O cristianismo ofereceu a este povo que</p><p>aceitava a filosofia de Sócrates e Platão, a revelação histórica do Bem, da Beleza e da</p><p>Verdade na pessoa do Deus-homem, Cristo Os gregos aceitavam a imortalidade da</p><p>alma, mas não tinham lugar para a ressurreição do corpo.</p><p>A literatura e história grega evidenciam claramente que os gregos estavam</p><p>preocupados com os problemas do certo e do errado e com o futuro׳ eterno do</p><p>homem. Esquilo (525-456 a.C.) em sua peça Agamenon, aproxima-se da afirmação</p><p>bíblica (“Estai certos de que o vosso pecado vos há de atingir” — Nm. 32:23)״ ao</p><p>propor que os problemas de Agamenon eram conseqüência de seu mau procedimen-</p><p>to. Os gregos, entretanto, viam׳ o pecado como um problema mecânico e contratual;</p><p>não o viam como um problema pessoal que afrontava a Deus e prejudicava os</p><p>homens.</p><p>À época da vinda de Cristo, os homens tinham compreendido finalmente a</p><p>insuficiência da razão humana e do politeísmo. As filosofias :individualistas de Epicu-</p><p>ro (341-270 a.C.) e Zenão e as religiões de mistério testemunham do desejo humano</p><p>por um relacionamento mais pessoal com Deus. O cristianismo, com sua oferta de</p><p>um relacionamento pessoal, forneceu aquilo para 0 que a cultura grega, em função</p><p>de sua própria inadequação, tinha produzido muitos corações famintos.</p><p>3 4 0 A V A N Ç O 0 0 C R IS T IA N IS M O N O IM P É R IO 'A T É 1 0 0</p><p>3. O povo grego também contribuiu no campo da religião para preparar o mundo</p><p>a aceitar a nova religião cristã quando ela surgisse. O advento da filosofia grega</p><p>materialista no sexto século antes de Cristo destruiu a fé das pessoas no velho culto</p><p>politeísta como descrito na Iliada e na Odisséia de Homero. Embora os elementos</p><p>deste culto se baseassem no culto mecânico oficial, logo perderíam a sua vitalidade.</p><p>O povo voltou, então, à filosofia. Esta também, entretanto, perdeu o seu vigor. A</p><p>filosofia tomou-se um sistema de individualismo pragmático, dirigido pelos sucesso-</p><p>res dos sofistas ou um sistema de individualismo subjetivista, como se apresentava</p><p>nos escritos de Zenão, o estóico. e Epicuro. Lucrécio (I século a.C.), ■o expoente</p><p>poético da filosofia epicurista, fundamentava seus ensinos de recusa ao sobrenatural</p><p>numa metafísica materialista que considerava até o espírito do homem um tipo</p><p>desenvolvido de átomo. O estoicismo ainda considerava o sobrenatural, mas seu</p><p>deus era de tal modo identificado com a criação que acabava caindo num panteísmo.</p><p>Embora ensinasse a paternidade de Deus e a fraternidade do homem e sustentasse</p><p>um elevado código de ética, o estoicismo deixava que 0 homem, por um processo</p><p>racional, praticasse sua própria obediência às leis naturais que deveríam ser desco-</p><p>bertas apenas pela razão.</p><p>Desse modo, os sistemas gregos e romanos de filosofia e religião contribuíram</p><p>negativamente para a vinda do cristianismo, ao destruírem as velhas religiões politeís-</p><p>tas e demonstrarem a incapacidade da razão para alcançar Deus. As religiões de</p><p>mistério, para onde muitos foram, familiarizaram o povo a pensar em termos de</p><p>pecado e redenção. Então, quando o cristianismo apareceu, as pessoas do Império</p><p>Romano estavam bem receptivas a uma religião que parecia oferecer uma perspecti-</p><p>va espiritual para a vida.</p><p>II. CONTRIBUIÇÕES RELIGIOSAS DOS JUDEUS</p><p>As contribuições religiosas para a "plenitude do tempo" incluem tanto a dos</p><p>gregos e romanos como a dos judeus. Todavia, por mais importantes que as contri-</p><p>buições de Atenas e Roma, como pano-de-fundo histórico, tenham sido para o</p><p>cristianismo, as contribuições dos judeus formam a Herança do Cristianismo. O</p><p>cristianismo pode ter se desenvolvido no sistema político de Roma e pode ter encon-</p><p>trado o ambiente intelectual criado pela mente grega, mas seu relacionamento com o</p><p>Judaísmo foi muito mais íntimo. O Judaísmo pode ser considerado como o botão do</p><p>qual a rosa do cristianismo abriu-se em flor.</p><p>Ao contrário dos gregos, os judeus não intentavam encontrar a Deus pelos</p><p>processos da razão humana. Eles pressupunham Sua existência e lhe prestavam o</p><p>culto que sentiam lhe dever. O povo judeu foi muito influenciado a estas atitudes pelo</p><p>fato de que Deus o procurou e Se revelou a ele na história por Suas aparições a</p><p>Abraão e a outros grandes líderes da raça. Jerusalém tornou-se o símbolo de uma</p><p>preparação religiosa positiva para a vinda do cristianismo. A salvação viria, pois “dos</p><p>judeus", como Cristo diria à mulher no poço (Jo. 4:22). Desta pequenina nação cativa,</p><p>situada no caminho da Ásia, África e Europa, viria um Salvador, O judaísmo tornou-se</p><p>o berço do cristianismo e, ao mesmo tempo, forneceu o abrigo inicial da nova religião.</p><p>A. Monoteismo</p><p>O Judaísmo contrastava flagrantemente com a maioria das religiões pagãs, ao</p><p>fundamentar-se num sólido monoteismo espiritual. Nunca, depois da sua volta do</p><p>A PLENITUDE DOS TEMPOS 30</p><p>cativeiro babilônico, 03 judeus caíram em idolatria. A mensagem de Deus para eles</p><p>através de ׳Moisés ligava-os ao único Deus verdadeiro de toda a terra. Os deuses doa</p><p>pagãos eram apenas ídolos que os profetas judeus condenavam em termos multo</p><p>claros. Este sublime monoteísmo foi espalhado por numerosas sinagogas localizadas</p><p>om volta da área mediterrânea durante os três últimos séculos anteriores à vinda de</p><p>Cristo.</p><p>ü. Esperança Messiânica</p><p>Os judeus ofereceram ao mundo a esperança de um Messias que estabelecería a</p><p>justiça na Terra. Esta esperança messiânica estava em claro antagonismo com as</p><p>aspirações nacionalistas pintadas por Horácio (65-8 a.C.) no poema em que descre-</p><p>via um rei romano ideal que havería de vir — o filho que nascería a Augusto. A</p><p>esperança de um Messias tinha sido popularizada no mundo romano a partir desta</p><p>firme proclamação pelos judeus. Até mesmo os discípulos depois da morte e ressur-</p><p>reição de Cristo ainda esperavam por um reino messiânico sobre a terra (At 1:6).</p><p>Certamente, os homens instruídos que viveram em Jerusalém na época imediatamen-</p><p>te anterior ao nascimento de Cristo tiveram contato com esta esperança. A expectati-</p><p>va de muitos cristãos hoje em torno da vinda de Cristo ajuda-nos a compreender a</p><p>atmosfera da expectação no mundo judeu acerca da vinda do Messias.</p><p>C. Sistema Ético</p><p>Na parte moral da lei judaica, o judaísmo também ofereceu ao mundo o mais</p><p>puro sistema ético de então. O elevado padrão proposto nos Dez Mandamento se</p><p>chocava com os sistemas éticos prevalecentes e com as práticas por demais corrup-</p><p>tas dos sistemas morais pelos quais se pautavam. Para os judeus, o pecado não era 0</p><p>fracasso externo, mecânico e contratual dos gregos e romanos, mas era uma violação</p><p>da vontade de Deus, violação esta que se expressava num coração impuro e, mais</p><p>ainda, em atos pecaminosos, externos e visíveis. Esta perspectiva</p>

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