Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Experimente o Premium!star struck emoji

Acesse conteúdos dessa e de diversas outras disciplinas.

Libere conteúdos
sem pagar

Ajude estudantes e ganhe conteúdos liberados!

Prévia do material em texto

<p>CASA DAS PALMEIRAS A EMOÇÃO DE LIDAR Uma Experiência em Psiquiatria Coordenação: Nise da Silveira Alhambra</p><p>CASA DAS PALMEIRAS A EMOÇÃO DE LIDAR Uma Experiência em Psiquiatria Coordenação NISE DA SILVEIRA Textos Nise da Silveira Maria Abdo Elisa Lúcia Helena Marlene Paixão José Vicente Osman Luciana Hilton João Carlos Luís Carlos Denise Paulo César Marialva Mauro Eurípedes Vivaldo Ione Mariluza Ana Maria Sylvia Alzirita José Marianna Olvinda Lisete. LIVRARIA "SEBO" BRANDÃO ALHAMBRA, 1986 Rua Xavier de Toledo, 234 S/L São Paulo - CEP 01048-000 Telefones: 214 - 3325 / 214 - - Fax: Ramal 23</p><p>Copyright Casa das Palmeiras, 1986 N os diferentes setores de atividades da CASA DAS PALMEIRAS, que constituem seu Todos os direitos reservados à principal método de tratamento, colaboraram Tipo Editor Ltda. muitos amigos, estagiários e clientes. Seria Editorial Alhambra impossível relembrar-lhes os nomes. A todos Rua das Marrecas 36 .701 Tel: 240-1650 somos gratíssimos. CEP 20031 Rio de Janeiro RJ Nem todas as atividades aqui enumeradas Capa funcionaram simultaneamente no correr desses trinta anos. Os trabalhos contidos neste livro foram escritos por médicos, psicólogos, monitores e, em grande parte, por clientes que vivenciaram eles mesmos o exercício das atividades. Nenhuma discriminação é feita em relação às qualificações de seus autores.</p><p>QUE EA CASA DAS PALMEIRAS? ATIVIDADES ARTES APLICADAS PINTURA MODELAGEM XILOGRAVURA MARCENARIA ENCADERNAÇÃO BOTÂNICA ARRANJO FLORAL TEATRO CINEMA MUSICA LANCHE BAILE FESTAS GRUPO CULTURAL DOS CLIENTES SOBRE A CASA DAS PALMEIRAS CLUBE CARALÂMPIA HINO DO CLUBE</p><p>QUE É A CASA DAS PALMEIRAS D esde muitos anos nos preocupava o fato de serem tão numerosas as ternações nos nossos hospitais do Centro Psiquiátrico. Basta dizer que dentre os 25 doentes internados nesses hospitais por dia, em média, 17 eram reinternações. Infelizmente a situação em 1986 é quase a mesma: para 28 in- ternações, 16 são reinternações (pelo menos segundo nossas precárias estatis- ticas). Mas voltemos à década dos anos 50. Parecia-me que tantas reinterna- ções davam testemunho de que algo estava errado no tratamento Um desses possíveis erros (entre outros) estaria na saída do hospital, sem ne- nhum preparo adequado do indivíduo, quando apenas cessavam os sintomas mais impressionantes do surto psicótico. Não era tomada em consideração que a da experiência psicótica abala as próprias bases da vida ca. Depois de um impacto tão violento o egresso dificilmente se encontraria em condições de reassumir seu anterior trabalho profissional e de restabelecer os contatos interpessoais exigidos na vida social. Durante vários anos pensei quanto seria útil um setor do hospital, ou uma instituição que funcionasse como especie de ponte entre o hospital e a vida na sociedade. Naturalmente seriam necessários recursos financeiros dos quais eu não dispunha para que fosse tentada experiência desse Con- versei sobre o assunto com vários colegas que, entretanto, não mostraram in- teresse pelo projeto Mas aconteceu que no início do ano de 1956 a psiquiatra Maria Stela Braga, recente colaboradora da Seção de Terapêutica Ocupacional que estava a meu cargo, logo participou entusiasticamente dessa idéia. Foi ela quem me apresentou à ilustre educadora Alzira Cortes (viúva do Professor La-Fayette Cortes) que, depois de breve conversação, sentiu e compreendeu a utilidade do projeto. D. Alzira já havia cedido à APAE o primeiro pavimento do casa rão onde anteriormente havia funcionado o Colégio La-Fayette. na rua Had</p><p>dock Lobo. E agora, num gesto de confiança e à nossa dis- Agora, na Casa das Palmeiras, este método ampliava-se e adquiria no- sem qualquer formalidade, o segundo pavimento daquele prédio. vas conotações adequadas a esta instituição destinada ao tratamento e à reabi- Logo começamos a elaborar as normas da nova instituição: Maria Stela Bra- litação de egressos de estabelecimentos psiquiátricos. Representava a Casa ga, Belah Paes artista Lígia Loureiro, assistente- um degrau intermediário entre a rotina do sistema hospitalar, desindividuali- social, e Nise da Silveira, psiquiatra. Para isso nos no atelier de e a vida na sociedade e na família, com seus inevitáveis e múltiplos pro- Belah, e foi ela quem encontrou o títuló CASA DAS visto que onde a aceitação do egresso não se faz sem dificuldades. o casarão da rua Haddock Lobo possuía em seu jardim de frente um grupo de Rótulos diagnósticos são, para nós, de significação menor, e não cos- belas palmeiras. Assim evitávamos dar à renovadora instituição um nome que tumamos fazer esforços para estabelecê-los de acordo com classificações de alguma maneira aludisse às doenças mentais, tão discriminadas socialmen- clássicas. Não pensamos em termos de mas em função de indivíduos te. que tropeçam no caminho de volta à realidade Com a presença de alguns psiquiatras e de numerosos amigos, foi inau- Nesse sentido visamos coordenar intimamente olho e mão, sentimento gurada a Casa das Palmeiras no dia 23 de dezembro de 1956. A Casa, institui- ção sem fins começou a funcionar imediatamente. e pensamento, corpo e psique, primeiro passo para a realização do todo espe- cífico que deverá a ser a personalidade de cada indivíduo sadio. Na busca Permanecemos no prédio do antigo Colégio La-Fayette até 1968, de conseguir esta coordenação, fazemos apelo às atividades que envolvam a após o falecimento de D. Alzira. embora nos concedesse largo a função criadora existente mais ou menos adormecida, dentro de todo indivi- lia La-Fayette Cortes pediu-nos o prédio que lhe pertencia. Transferimo-nos para a casa situada à rua D. Delfina, 39, Tijuca, A criatividade é o catalisador por excelência das aproximações de cedida pela CADEME, MEC, graças à iniciativa da Adriana Coutinho, que na ocasião ocupava o cargo de nossa Diretora Administrativa. A aquisi- opostos. Por seu intermédio, sensações, emoções, pensamentos, são levados a reconhecerem-se entre si, a associarem-se, e mesmo tumultos internos ad- ção dessa casa completou-se devido à decidida atuação da Presidente da Casa das Palmeiras, Maria Antonieta Franklin Leal, em dezembro de 1968. quirem forma. Permanecemos nesse aprazível local durante longo período. Jamais temos a está claro, que nossos clientes realizem Anos mais tarde, a Maria Antonieta Franklin Leal, com notável obras de alta qualidade artística (o que às vezes acontece!). Terapeuticamen- tino administrativo, permutou a casa da rua D. Delfina, que se achava em más te, o mais importante é que o mundo interno dissociado tome forma e encon- condições de conservação, por uma outra casa, à rua Sorocaba, 800, Bota- tre meios de expressão através de símbolos transformadores que o aproximem onde desde setembro de 1981 está instalada a Casa das Palmeiras. cada vez mais do nível consciente. A Casa das Palmeiras é reconhecida de utilidade pública pela lei A tarefa principal da equipe técnica da Casa das Palmeiras será perma- 376 de 16/10/1963. necer atenta ao desdobramento fugidio dos.processos psíquicos que aconte- cem no mundo interno do cliente através de inumeráveis modalidades de ex- principal método de tratamento empregado na Casa das Palmeiras é pressão. E não menos atento às pontes que ele lança em direção ao mundo a terapêutica ocupacional, mas terapêutica ocupacional num largo sentido, externo, a fim de dar a estas pontes apoio no momento oportuno. não os mesmos procedimentos praticados correntemente sob esta denomina- Convivendo com o cliente durante várias horas por dia, vendo-o ex- ção. Desde minha experiência iniciada em Engenho de Dentro com o método primir-se verbal ou não verbalmente em ocasiões diferentes, seja no exercício ocupacional, no ano de a primeira preocupação foi de natureza teórica, de atividades individuais ou de grupo, a equipe logo chegará a um conheci- isto é. a busca de fundamentação onde firmar a estrutura do traba- mento bastante profundo de seu cliente. E a aproximação que nasce entre lho que estava sendo iniciado. Estudamos como a terapêutica ocupacional eles, tão importante no tratamento, é muito mais genuína que a habitual rela- poderia ser entendida dos diferentes pontos de vista psiquiátricos (segundo ção de consultório entre médico e cliente. A experiência demonstra que a Bleuler, H. Simon, C. Schneider, neojacksonianos, P. Sivadon, volta à realidade depende em primeiro lugar de relacionamento confiante com psicologia etc.). relacionamento que se estenderá aos poucos a contatos com outras objetivo era utilizar a terapêutica ocupacional, se corretamente con- pessoas e com o ambiente. O ambiente que reina na Casa é por si próprio, como legítimo método terapêutico e não apenas uma prática auxiliar assim pensamos, um importante agente terapêutico. segundo acontece habitualmente. A Casa das Palmeiras um pequeno território livre, onde não há 10 11</p><p>geradoras de angústia, nem exigências superiores às possibilidades de resposta de seus nal. E várias denominações para designá-los laborterapia, praxiterapia, mé- Nunca procurou a coleira de convênios. Optou pela pobreza e a liber- todo hiperativo, método reeducativo, ergoterapia e, finalmente, terapêutica dade. ocupacional, termo preferido por ingleses e americanos. A expressão terapêu- As relações interpessoais formam-se de maneira espontânea entre uns tica ocupacional generalizou-se, embora seja pesada como um paralelepípe- e outros. Distinguir médicos, psicólogos, monitores, estagiários, clientes, tor- do. Preferimos dizer emoção de lidar, palavras usadas por um dos clientes da Casa das Palmeiras, pois sugerem logo a emoção provocada pela manipulação na-se tarefa ingrata. A autoridade da equipe técnica estabelece-se de maneira dos materiais de trabalho, uma das condições essenciais para a eficácia do tra- natural, pela atitude serena de compreensão face à problemática do cliente, tamento. pela evidência do desejo de ajudá-lo e por um profundo respeito à pessoa de cada indivíduo. As teorias e seus nomes importam pouco. Todas podem ser úteis Portas e janelas estão sempre abertas na Casa das Palmeiras. Os médi- quando convém a cada caso em apreço. cos não usam jaleco branco, não há enfermeiras e os demais membros da Desde que o cliente esteja em condições psicológicas capazes para re- equipe técnica não portam uniformes ou crachás. Todos participam ao lado alizar o esforço necessário à produção de um trabalho utilitário, será perfei- tamente aceitável o que diz Freud. Nenhuma outra técnica vital liga o indi- dos clientes, das atividades ocupacionais, apenas orientando-os quando ne- víduo tão fortemente à realidade como a realização do trabalho que, pelo me- cessário. E também todos fazem em conjunto o lanche, que é servido no meio da tarde, sem discriminação de lugares especiais. nos, incorpora-o solidamente a uma parte da realidade, à comunidade huma- É utilizado, quando necessário, e isso é raro, o uso de psicotrópicos na. A possibilidade de deslocar para o trabalho profissional e para as relações em doses reduzidas e individualizadas. humanas a estes vinculadas grande parte das componentes narcisistas, agres- sivas e mesmo eróticas da libido, confere atividades um valor que não Essas normas inusuais existem desde a fundação da Casa, em 1956 Não contribuíram para fomentar desordem. Pelo contrário, seus efeitos cria- pode ser relegado a segundo (El malestar en la Entretanto, se o ego está muito atingido, a utilização do trabalho com ram um favorável ambiente terapêutico para pessoas que já sofreram humi- discriminações em instituições psiquiátricas e até mesmo no âmbito de fins terapêuticos torna-se inaplicável. As atividades que envolvem as caracte- rísticas do trabalho só convêm a indivíduos capazes de manter corajosas e suas famílias; isso sem citar, por demais óbvias, as dificuldades que se erguem persistentes relações com o mundo externo. Teremos de ir ao encontro do no meio social para recebê-los de volta. doente nos pontos instáveis onde ele se acha ainda, a fim de ajudá-lo a forta- A Casa das Palmeiras, comporta a de 30-35 clientes funcio- lecer o ego de modo gradativo. Embora, no dizer de Frieda Fromm Reich- nando em regime de externato nos dias úteis, das 13 às 17.30 h. Assim o mann, nem sempre o objetivo do tratamento ``será necessariamente aprender cliente não se desliga de sua família e do meio social com seus inevitáveis a levar uma vida convencional dentro dos padrões de ajustamento usados pela problemas que aprende aos poucos a superar, graças aos enriquecimentos ad- média dos chamados cidadãos sadios na nossa (Remarks on the phi- quiridos através das atividades praticadas na Casa e dos laços de convivência amiga que aí se formam. losophy of mental disorder) Muitos indivíduos estão apenas aptos para atividades nas quais cada ato tenha valor próprio e proporcione prazer imediato. Por esse motivo damos Certamente a terapêutica ocupacional não é aceita até hoje como um tanta ênfase às atividades expressivas e lúdicas. legítimo método terapêutico. Pois qual seria seu lugar no meio do arsenal Certamente todas as atividades são expressivas desde que se saiba ob- constituído pelos choques elétricos que determinam convulsões; pela psicoci- servar como são executadas (seja a maneira de empunhar um serrote ou até o rurgia; e agora, principalmente, pelos psicotrópicos administrados em doses bater de um martelo). Mas se denominam especialmente atividades expressi- brutais até coagirem o indivíduo numa camisa-de-força química? Um método vas àquelas que melhor permitem a espontânea expressão das emoções, que que utiliza, como agentes terapêuticos, pintura, modelagem, música, traba- dão mais larga oportunidade para os afetos tomarem forma e se manifestarem, lhos artesanais, logicamente seria, na época vigente, julgado ingênuo e quase inócuo. Valeria, quando muito, para distrair os clientes ou, em certas institui- seja na linguagem dos movimentos, dos sons, das formas e cores, etc. É através dessas atividades que se pode conseguir maior penetração no ções torná-los produtivos em relação a sua economia. mundo íntimo do psicótico. Assim, atribuímos especial importância às ativi- Há várias linhas de pensamento que, apesar do descaso reinante, insis- dades expressivas individuais pintura, xilogravura, modelagem, arranjo tem em procurar fundamentação teórica para o método ocupacio- ral. atividades permitem expressão de vivências muitas vezes não 12 13</p><p>verbalizáveis, fora do alcance das elaborações da razão e do pensamento. No Estudando as condições de adaptação do doente às diferentes conceito de Frieda Fromm Reichmann. a oportunidade que indivíduo teve, des. Paul Sivadon foi levado a estabelecer nelas uma hierarquia dos materiais quando doente. de descobrir as atividades expressivas e criadoras, de ordiná- utilizados, baseada principalmente na sua maleabilidade ou resistência e na rio tão pouco à maioria, poderá abrir-lhes novas perspectivas de sua mutabilidade. ou seja, nas suas possibilidades maiores ou menores de aceitação social através da expressão artística ou simplesmente (o que será transformação. Ele observou que os materiais são tanto aceitos muito) muni-lo de um meio ao qual poderá recorrer sozinho para manter seu quanto mais próximos estejam da natureza: plantas, animais; quanto mais psíquico. (Remarks on the philosophy of mental disorder) ceis: barro, fibras, madeira mais fecundos de pequenas coisas sem Estas afirmações não significam que deixem de ser praticadas na Casa valor construírem outras agradáveis à visão e mesmo úteis; mais mágicos das Palmeiras atividades de caráter mais tais como materiais que se transformam facilmente, tais como as tintas que saltam de marcenaria, etc., ou atividades de do tipo de jogos recreativos, festas, tubos levemente apertados e que. misturadas a outras produzem cores dife- passeios, conjuntos musicais, grupo cultural, respeitadas sempre. em todas rentes; o o gesso, maleáveis quando úmidos, mas que depois endure- estas atividades, as condições de cada cliente para maior ou menor relacio- cem fixando formas. namento interpessoal. A equipe da Casa das Palmeiras está sempre atenta para ler sem imper- Outra maneira de ver a ocupacional que poderá conduzir a tinência, ou melhor, o que transparece na mãos, gestos do aprofundamentos teóricos terá como ponto de partida a psicologia cliente. Essa observação. seja nas atividades individuais ou de grupo. nos pa- Jung, ele nunca explana diretamente qualquer teoria sobre rece indispensável para que o cliente seja conhecido em maior profundeza e este método terapêutico. Mas sua psicologia está impregnada de atividade e torne-se possível uma abordagem terapêutica mais segura. A emoção de lidar foi a partir de suas idéias principalmente, nos inspiramos. favorece mil oportunidades para essas observações. Jung estuda a correlação entre imagens arquetípicas e instintos, diz ele, não há instintos amorfos, cada instinto desenvolvendo sua ação de Além do que foi dito, há ainda muitas coisas a no exercício das acordo com a imagem típica que lhe corresponde. Por que então deixar de atividades concernentes ao mesmo tempo à psicologia profunda e ao trata- utilizar a observação dos impulsos arcaicos que, não irrompem nas psi- mento dos distúrbios emocionais. coses e assim apreender as imagens às quais se acham interpenetrados, ima- Um dos temas teóricos preferidos por nós é o da natureza dos mate- gens essas que constituem a chave da situação psicótica de cada doente? riais usados nas atividades e as variações de adaptação e de preferência dos clientes pela manipulação desses materiais. Escutando o doente. estudando suas pinturas e outras o É curioso que haja sido um Gaston quem abriu observador verificará que a matéria-prima de seus delírios é constituída de caminho para a pesquisa da importância psicológica dos materiais de trabalho. idéias e imaginações arquetípicas. soltas ou agrupadas em fragmentos de mas míticos. Se o observador sofre da deformação profissional característica Ele investigou a atração preferente da imaginação em escritores e do médico, a ver nas criações da imaginação coisas inconsisten- pelos elementos da natureza aos quais aqueles se achavam origina- riamente ou que a imaginação procura uma substância de prefe- tes ou patológicas e rotulará apressadamente essas idéias, imaginações e para revestir-se: fogo, água, ar ou terra. Assim, revelam **segredos in- ações como material doença. Mas. se tomar posição fora de (La terre et les de la Bachelard, baseado nessas dogmas irá defrontar processos psíquicos surpreendentes Irá vislumbrar a estrutura mesma da psique, nos seus fundamentos e no seu criou um novo tipo de crítica literária de grande repercussão, sobre- dinamismo. tudo na Mas transbordou da área da filosofia e da literatura para de- monstrar a significação dos elementos da natureza na vida, no trabalho do Foi o que fez Jung nos seus estudos psiquiátricos. A terapêutica ocu homem normal e mesmo seu valor curativo para os distúrbios emocionais. A pacional muito lucrará em aplicar esses estudos em profundeza e estendê-los saúde de nosso está em nossas escreve Bachelard (La terre et no seu campo de trabalho. du isto na manipulação dos elementos da natureza que Ainda outros dados. A psicoterapia junguiana tem por meta não só a nossa condição psicológica. dissolução de conflitos intrapsíquicos e de problemas mas o psiquiatra Paul Sivadon teve o mérito de trazer para o campo da psi- rece também o desenvolvimento de **sementes inerentes ao quiatria as idéias de Bachelard e de aplicá-las à terapêutica ocupacional. duo e que o ajudam a crescer. Acontece que é justamente em atividades feitas 15</p><p>com as mãos muitas vezes, se revela a vitalidade dessas cria- ARTES APLICADAS segundo presenciamos na Casa das Palmeiras. Nos neuróticos esse fenômeno se apresenta Jung es- creve: houver alto grau de crispação do consciente, muitas vezes só as mãos são capazes de Quando o ego não se acha muito atingido, a teoria das quatro funções de orientação da consciência no mundo exterior: sentimento, sensação, se bem utilizadas em atividades que as mobilizem de acordo com suas poderá ajudar bastante o indivíduo a obter melhor equilíbrio psíquico. Parece-me que a psicoterapia concede ainda muito pouco valor à ação orientada com objetivo terapêutico. Despreza um belo campo de pesquisa. Aplicando à terapêutica ocupacional as descobertas de Jung abrem-se novas perspectivas para este método, tanto para neuróticos como para S ob a denominação vaga de artes aplicadas são realizados trabalhos diver- ticos. desde arranjos feitos com fragmentos de materiais vários, panos O exercício de atividades poderá enriquecer-se de importante significa- para mesa confeccionados com retalhos de cores diversas, segundo gosto ção psicológica. Compreender-se-á, por o valor terapêutico que virá de cada um, bijuterias, até belos tapetes. Este setor colabora estreitamente adquirir a proposta ao doente mais regredido de atividades vivenciadas e utili- com outros setores, com () atelier de pintura, a ornamentação para as festas, zadas pelo homem primitivo para exprimir suas violentas emoções. etc. Em vez dos impulsos arcaicos exteriorizarem-se desabridamente, lhe Funciona desde 1957. Contou com a colaboração de Hilda, de Olvin- forneceremos declive que a espécie humana sulcou durante milênios para da, especializada em tecelagem Maria Abdo várias outras moni- exprimi-los: dança, representações mímicas, pintura. modelagem. música. toras estagiárias de psicologia. Será o mais simples e o mais Apesar de muitas dificuldades nas nossas finanças e de uma agressão As Artes Aplicadas servem como fator terapêutico e proporcionam um traiçoeira de gente da própria demos a volta por cima em compensa- campo variado de criatividade. recebemos espontâneos e generosos apoios de amigos. No Setor das Artes Aplicadas usamos sacos, estopas, cordas, retalhos, A Casa das Palmeiras cumpriu seu principal objetivo: evitar bastante o plásticos, läs, etc. Não utilizamos riscos para bordados impressos em número de reinternações de seus clientes. revistas comerciais. Nossos trabalhos podem ser às vezes toscos, mas trazem No Centro Psiquiátrico Pedro II, como vimos de início, a taxa de rein- a marca original de seus autores. ternações permaneceu quase a mesma durante os últimos 30 anos, isto das Os trabalhos que lá são feitos possuem uma história e por isso expres- 28 admissões diárias, 16 são sam sentimentos e vivências internas de cada pessoa. que é mais impor- Acreditamos que a experiência da Casa das Palmeiras comprova a ne- tante para nós modo como cada um executa sua tarefa. Uns são rápidos, cessidade de instituições. em regime de externato. que sirvam de ponte entre outros mais lentos, pois cada um possui ritmo próprio que deve ser respeitado os hospitais psiquiátricos e o meio social. Entretanto essa experiência piloto e levado em conta. As vezes nos é difícil contornar determinadas situações não despertou nenhum interesse no meio psiquiátrico. que surgem neste Setor devido ao jeito de cada Alguns são fa- Mas a Casa das Palmeiras prossegue sua caminhada. Completa agora. ladores e comunicam-se bem, ao contrário daqueles que silenciosamente fa- em 30 anos de existência. zem sua terapia ocupacional; há os independentes que circulam livremente pelo Setor e ocupam um espaço bem maior do que os mais tímidos e medro- Nise sos, que escolhem um canto pequeno na mesa e lá ficam quietos e silenciosos esperando que saibamos in até eles com muito cuidado e delicadeza. Deve-se respeitar e observar a atitude de cada um frente às atividades. Se está curioso e interessado, se gosta ou não do que faz, como 16 17</p><p>usa as mãos, se prefere material áspero ou macio, que tipo de pontos faz, se vem de dentro e o arrebata, domina sua tarefa com muito prazer e emoção. largo ou apertado demais, como escolhe as cores. se tem pressa em terminar Ao vê-lo quase pronto tem medo que o roubem. Esconde-o no lugar mais alto ou se o trabalho está lhe trazendo ansiedade ou bem-estar. É muito impor- do armário e pede-me que o feche a chave. tante observar o relacionamento com o grupo e os monitores. Todo trabalho Detalhe: ele falava muito nos olhos azuis de seu gato angorá. Consegui feito de maneira automática ou desinteressada não tem verdadeira validez te- uns bem azuis e disse-lhe: aqui os olhos que você queria. Vamos colo- rapêutica. Um exemplo: Ele sorri meio encabulado, abraça-me carinhosamente, quer que Luiz Carlos diz querer fazer um gato. Dizia-me que ainda iria bordá-lo eu os coloque e fica ao meu lado acompanhando tudo. Termino e digo-lhe: em uma tela. Até que um dia viu Denise, estagiária do fazendo um tra- seu gato está completo.` Ele fica olhando-me e sorrindo meio emo- balho com feltro, cola e algodão. Então, num impulso repentino, ele diz: cionado, seus olhos estão brilhando. Sinto-me também emocionada. Ele con- sei como farei o meu gato, E apontando para o trabalho de Denise, segue apenas expressar verbalmente: Maria! Esse gato, Mas insiste: mais ou menos assim, fazer um gato pelúcio, branco, de olhos seu riso, o brilho no olhar, a gesticulação das mãos, o movimento do corpo, azuis." tudo enfim que muitas vezes verbalizar é apenas um aspecto da comunicação Passa-se uma semana e no dia em que ele vem para o Setor, peço-lhe e que pela expressão do corpo, tentamos complementar, era pouco... muito então para desenhar o seu gato. Ele fica ansioso e pede para outra pessoa de- pouco para dizer daquilo que ele sentia no momento. E quem for ao Setor senhar. Alguém desenha-lhe apenas uma cabeça de gato e ele fica encantado. verá o seu gato. Ele o arrumou e colocou em baixo da sua cabeça, uma almo- Muda de opinião quanto à que havia escolhido: será cinza de olhos fada. De vez em quando vai lá e o acaricia. Parece um ritual, um gesto signi- azuis e angorá do mato." ficativo, uma linguagem. Digo-lhe: No Natal houve uma apresentação sobre o nascimento do menino Je- Vamos então começar? Primeiro nós teremos que passar o rosto do sus. No momento em que cada pessoa oferecia alguma coisa ao menino Jesus, gato para o pano." (Ele está ansioso e emocionado.) Vou fazendo tudo vaga- ele lembrou-se de ofertar o seu gato. Correu ao Setor e delicadamente, como rosamente até que ele se acalme um pouco. (Ele fica colado a mim, quase não quem pega alguma coisa por demais o ofereceu ao menino... sobra-me espaço para trabalhar, é como se ele quisesse ter minhas mãos ou Luiz Carlos escreveu: estar em meu lugar.) Arrisco uma pergunta: desenhar?' Ele respon- de-me muito ansioso: não quero não, risca você, mas com muito cui- Gato, simplesmente angorá do mato, dado, esse gato é nosso, muito cuidado para não errar." Azul olhos nariz cinza Acabo de passar o rosto para o pano e mostro-lhe. Ele emocionado diz: Gato marron Está me dando vontade de chorar." Orelha castanho macho Arrisco outra vez: você vai alinhavar o seu gato. E mostro- Agora rapidez lhe como. Ele aceita e o faz com grande carinho e cuidado. Parece sentir Emoção de muito prazer. Aos poucos, etapa por etapa, ele participa ativamente. Após o gato Luiz Carlos gostava de manipular os materiais necessários para dar prontinho, ele descobre que é preciso fazer-lhe o corpo pois. o seu gato só forma ao objeto que desejava realizar e sobre o qual investia afeto. Ele dizia tem cabeça e insiste: fazer o corpo dele e já sei como. Só quero que que isso era a emoção de lidar com esses materiais e transformá-los no seu você costure na máquina os panos, só isso que eu quero. gato. Eu nunca havia feito um gato em minha vida e ele ficou enorme, ca- A partir na Casa das Palmeiras, é muito usada a expressão beça de gato e corpo de leão. Fico chateada pensando que ele não gostará da ção de lidar`` em vez da dura denominação aberração que fiz mas, qual nada, ele gostou e muito. Achou-o forte e granda- lhão. efeito foi bom. Era grande mesmo que ele o queria e dizia-me: Maria Abdo quanto você costura eu vou rezar para tudo sair bem." Agora ele já não me necessita tanto. Apossou-se de seu gato e dentro de uma grande pressa em terminá-lo e impulsionado por uma força que lhe 19 18</p><p>TECELAGEM TAPEÇARIA Anexos ao setor de artes aplicadas, como uma de suas variedades. dis- As funções psíquicas individuais, especialmente tinguem-se a tecelagem e a tapeçaria. Dispomos de um grande tear de manejo aquelas que derivam de modo direto do complicado e de pequenos teares que não exigem técnica inconsciente e são as mais importantes, constituem Os temas utilizados na tecelagem são de preferência desenhados pelo cliente ou é utilizada a transposição de pinturas espontâneas provindas do ate- a fantasia criadora. Nos produtos da fantasia as lier de pintura. Se o trabalho é de grandes dimensões, pode acontecer que seja imagens primordiais tornam-se visíveis e é aqui que feito em grupo, por clientes que se sintam atraídos pelo tapete em execução. o conceito de arquétipo encontra sua aplicação Esta atividade foi orientada pela monitora D. Olvinda durante mais de específica. vinte anos. A jovem monitora que veio substituí-la, perguntou-lhe como con- C.G. Jung, CW9, 78 duzir os trabalhos daí por diante. D. Olvinda respondeu: experiência fica com a gente mesmo, nada é transmitido. Temos de conviver primeiro com o Quando existe um alto grau de crispação do cliente para saber qual o jeito de cada D. Olvinda conversava pouco, consciente, muitas vezes somente as mãos são mas era muito competente e sabia infundir nos clientes o gosto pela atividade. capazes de fantasia. Elas modelam ou desenham Neste setor são executados desde tapetes de difícil complexidade a ta- figuras que são muitas vezes completamente petes simples, com a junção de retalhos de tecidos de cores diferentes e estranhas ao consciente. vivas, dependendo da condição psicológica na qual se encontra o cliente. C.G. Jung, CW13. 17 Elisa 20 21</p><p>PINTURA mos aqui as diferentes etapas de observações pelas quais passa o cliente no setor de pintura. A primeira delas diz respeito à entrada no setor. As pessoas entram de vários modos, variando o momento e o dia: podem chegar sorridentes, cum- primentando a todos ou, então, timidamente, cumprimentando só a alguns; há aqueles que voltam e entram novamente; certas pessoas dizem que, naquele dia vão trabalhar ali e logo saem; há aqueles que entram de cabeça baixa; ou- tros, se assustam se são cumprimentados enfaticamente; há aqueles que pare- cem vir atarefados de algum lugar; entram e ficam olhando fixamente a mesa de trabalho e logo saem, ou então, entram para dizer que o seu setor é outro. Às vezes, cumprimentam o monitor ou não; a saudação pode ser de forma automática ou muito afetuosa. O atelier de pintura livre foi, como de artes aplicadas, um dos primeiros Enfim, todos reagem à entrada, de acordo com o seu estado psicológi- instalados na Casa das Palmeiras. A pintura livre é uma das mais im- co. portantes atividades da Casa, configurando imagens inconscientes revelado- Outro tipo de observação diz respeito ao sentar. as ras da problemática do indivíduo e que, mesmo não sendo interpretadas inte- pessoas que estão saindo do setor, para logo entrar, buscam uma cadeira do lectualmente, podem ser apreendidas por via de percepções in- lado da mesa perto da porta ou nem chegam a sentar. Os que permanecem fluindo assim sobre a ampliação do desenvolvimento de seus autores e tendo mais tempo sentam-se mais longe da porta. Alguns clientes, depois de acomodados em suas cadeiras, olham em mesmo ação terapêutica. Vários monitores colaboraram: Coralina, a primeira, Vera, Miriam, volta: a mesa, o material e os rostos de cada pessoa; outros se sentam e ficam Georgette, cuja colaboração estendeu-se por vários anos, José, Oedilrma, parados; há aqueles que logo pegam uma folha de papel ou várias ao mesmo Carlos Alberto, Yvonne, várias estagiárias. outros podem ficar olhando o papel sem nada fazerem, assim como podem logo escrever o nome e a data e, em seguida, ficarem parados. Quando sentados, uns gostam de ser olhados; outros, não. É no sentar que é o Setor de Pintura? que se inicia a possível relação com o trabalho e o material usado. É um espaço físico limitado por quatro paredes, composto de uma No que diz respeito à relação do cliente com o material, destacamos os mesa com alguns potes de tinta, pincéis, lápis-cera e de madeira, papel, cadei- seguintes fatos: os que dão mais ênfase às formas usam lá- ras, duas estantes com trabalhos de pintura arquivados, formando uma rica pis-cera ou lápis preto ou de cor, e aqueles que se detêm mais nas cores usam a fonte de pesquisa, quando estudados em séries. Podemos observar também a preferência do lápis-cera por aqueles que Embora seja um espaço fisicamente limitado, no que diz respeito ao têm necessidade de imprimir força ao colorido. espaço psicológico não há limites. Numa constante luta e busca com o pincel, a tinta e o papel, o pintor Há pessoas que usam vários tipos de material no mesmo dia; outras improvisado pode dar forma às suas expressando o indizível (não- que só usam um determinado tipo de material, como por exemplo o lápis-ce- verbal) em formas simbólicas, ainda que, às vezes, de maneira infantil e tos- ra, que é preferido por aqueles que se preocupam com a limpeza. Estes tam- bém se sentem melhor quando/o papel que forra a mesa está bem limpo, assim ca. Depois do grande esforço com a matéria as cores e o papel os como as folhas de papel usadas em seu trabalho, e até mesmo preferem as fantasmas ganham mais objetividade, se corporificam nesta de li- pessoas que estão ao seu lado que não estejam usando tintas. A maioria escolhe papel branco e de um determinado tamanho, ora fo dar" que é a pintura e qualquer atividade de uma real terapia ocupacional. As cores escolhidas, a com que certos temas aparecem nos lhas pequenas, ora grandes. Há clientes que usam muito a borracha e pedem régua. trabalhos, seu desdobramento, a relação com o monitor do setor e com os Os trabalhos, depois de ou são entregues ao monitor ou colegas, formam um campo enorme de o indivíduo. Para ilustrar melhor como obtemos esta carga de informações, citare- deixados sobre a mesa. 23 22</p><p>Alguns clientes têm a preocupação de colocar seus nomes no trabalho, CLIMA DO ATELIER DE PINTURA incluindo o da família; outros colocam primeiro nome, e outros nem uma coisa nem outra. Há pessoas que gostam de rever seus trabalhos, outras querem saber o A uma hora chegam os da Casa das Palmeiras. Primeiro número de desenhos que fizeram e outros não parecem interessar-se pelo que sobem para o atelier de pintura. Sentam em volta da mesa com papel, realizaram. óleo, crayon duro, pincéis, água e guache à disposição. Os materiais ao centro É através da relação com o material que os clientes partem para dar exercem um atrativo sobre todos. forma às suas emoções: predileção pelos resistentes lápis-cera, ou prazer em Dois painéis repletos de pinturas das pessoas que estão ali enchem uma apertar os tubos de tinta ou colher as tintas já colocadas em pequenos potes a parede. Ladeando as duas janelas, mais cores e imagens fortes, vivas, boni- isso destinados, outros gostam de usar a palheta, etc. tas. À entrada, as estantes onde a monitora arquiva separando por nome todo silêncio geralmente reina no atelier, condição que favorece a emer- e qualquer rabisco produzido. acervo é catalogado anualmente. gência das imagens do inconsciente. Neste clima, a pessoa tem melhores con- O clima geral é de empenho e descontração. Cada qual deixa-se entre- dições de se derramar em sua pintura, de transparecer, de revelar-se. gue à expressão do que há em si sem se importar com o ambiente que favo- ato de pintar pode ainda o momento em que das pessoas rece. Inibição nenhuma. De vez em quando surgem comentários estimulantes jorram energias de diversas formas, inclusive até quebrando o silêncio, uma sobre o desenho do companheiro. As perguntas que é isso que você enorme necessidade de falar para os outros ou mesmo para as imagens pinta- são respondidas com solicitude. Nada de exibicionismo, gaiatice, das, dando risadas ou ficando muito agitada. Há clientes que atribuem signifi- falsas modéstias a elogios ou críticas. Não há sombras de concorrência na ati- cado às imagens; outros nada dizem. vidade. monitor mantém-se atencioso, mas não orienta nem interpreta as As pessoas desenham com liberdade, febrilmente. Preenchem folhas de pinturas. tamanho ofício e assinam no verso com data. Alguns saem da cadeira No setor de pintura temos a chance de observar a expressão que brota irrequietos, depositam os trabalhos sobre algum lugar visível. Outros sim- diretamente do inconsciente, sem regras impostas por teorias estéticas. plesmente deixam o papel inacabado para terminar mais tarde. Ou seguem efeito terapêutico desta atividade parece ser a criação no indivíduo uma idéia súbita de recortar as imagens delineadas para colar num espaço de um estado propício à experiência do inconsciente onde nada se mantém maior. Daí buscam uma tesoura no setor ao lado. Se ligam realmente nos lápis e fixo, petrificado para sempre; estado de fluidez, de atitude a se abrir às me- pincéis. Vê-se nesta mesa arrancarem-se os efeitos mais a criativi- tamorfoses e ao devir. dade à solta. Experiência perigosa e fascinante, de resultados inesperados, às vezes Bate a chuva no calor do Rio de fim de verão. Georgette, a monitora, maravilhosos. sem interromper o trabalho do grupo, entra na sala, encosta a janela para os Ainda que muitas destas obras de realizadas por neuróti- pingos não caírem sobre aqueles que estão ocupados. Ocupados e soltos para cos, psicóticos ou mesmo pessoas ditas- sejam verdadeiras obras estruturar conteúdos íntimos. Existe na Casa, se sente no ar, algo em anda- de arte, o importante nelas não é tal coisa, mas, sim, a tentativa para expres- mento: o constante trabalho através do interior. sarem o que há de mais profundo no ser. A pintura funciona como um meio adequado para exprimir facetas da Lúcia Helena vida emocional que geralmente escapam do domínio verbal. É também a ati- vidade mais livre. À medida que se avança na linguagem plástica vai-se mos- trando o acesso a processos interiores inacessíveis, a este modo de realização no relacionamento interpessoal. E a Casa das Palmeiras se encarrega de fixar esses estados que através do carinho e do afeto sobem à tona e permanecem. A linguagem plástica é capaz de conservar sua independente de ser o autor doente ou A intervenção necessária para aproximar as pessoas dessa linguagem tal no homem é o simples deixar fazer. Deixar livre. procurar ser bem natural 25</p><p>o que não é fácil. Mas surte efeito: o ambiente silencioso e bem tecido que logo deixa as pessoas à vontade para desenhar e desenhar. Modelagem Anônimo A modelagem tem suas coisinhas, a madeira tem outras. É como se fosse um instrumento, cada um toca de uma maneira diferente. Fernando A Casa das Palmeiras possui numerosos trabalhos de modelagem que são documentos muito importantes da expressão de vivências e emoções dos clientes. Esta atividade, nas suas formas mais simples até de apenas amassar () barro, é indicada principalmente para os clientes mais regredidos e que têm maior dificuldade de comunicação verbal. Orientaram esta atividade os monitores Aldayr, Agenor, Jurema e Marlene, durante período mais longo Ainda colaboraram neste setor Lisete, Sílvia e outros. Como trabalho preliminar, o barro é apresentado ao cliente para que ele o coloque em ponto bom para a modelagem. É claro que nem todos têm condições, nem paciência suficiente para tal, por isto são solicitados só aque- les que poderão cumprir esta etapa. Algumas vezes a atividade é realizada com os olhos cerrados, o que leva a uma concentração maior no tato e na mente. Depois todos os trabalhos são colocados juntos e é solicitado algum comentário; por exemplo: identifi- cação de seu próprio trabalho, o que sentiram com os olhos fechados, etc. Creio ser esta atividade menos acessível porque já em terceira dimen são, também suscitando associações de idéias, alguns se mostrando até com repugnância em tocar no material. Justamente o objetivo é levar o cliente a vencer estes obstáculos levando-o inclusive a exteriorizar seus monstros in ternos. Marlene 27</p><p>A EXPERIÊNCIA DA MODELAGEM A MODELAGEM Num tanque úmido a argila conserva-se pronta para o uso. As pessoas As águas descem da cachoeira, descem no rio fresco e leva a terra vão e recolhem sua porção posta sobre uma placa de madeira onde o trabalho lhada, e fica em bancos de barro no extenso do leito do rio, um menino, um ficará secando em segurança depois de feito. Mesas, nos fundos da Casa, ou homem, uma mulher pegaram naquele barro e sentirão a eletricidade da terra, espalhadas pelo quintal prestam-se ao serviço de a mão na massa de mo- e amassarão e modelarão figuras, nas mãos esticadas sentindo seu corpo delar. fresco até formar figuras grotescas dos seus sentidos a mente funciona louca- Enquanto sujo minhas mãos na tentativa de arrancar forma da situação mente com gosto amassando, amassando... A alegria esfuziante que passa das que estou vivendo, observo como as pessoas ao meu lado modelam livres. mãos enlameadas para os nervos e músculos, fazem um corpo de mulher com minhas costas há prateleiras lotadas de seres de barro. Um quartinho de cima entranhas de barro ainda molhado na beirinha do rio um castelo belo feito por também está repleto. Tudo bem acabado, já com cores. A delicadeza de tra- um menino das matas e molhado pelas águas do rio. garoto está feliz, ale- de algumas figuras apresenta sinais de carícias na Outras figuras gre, sentiu na sua anatomia toda a sua natureza selvagem em suas mãos, mo- refletem puramente o exercício com o material de trabalho, formas criadas do lhou o corpo se misturou no barro e vibrou, a namorada cheia de amor passa envolvimento pessoal no manuseio plástico. as mãos enlameadas de barro umedecido na face do namorado e os lábios se Durante o trabalho permanece no ar uma concentração que relaxa os tocam e a terra e a água se mistura com o beijo. Então sentado na modelagem dedos ágeis envoltos na massa. A sensação que se tem encaminha o ato ex- lá da Casa das Palmeiras sinto neste tempo em formas corpos uma mulher pressivo, sem desperdício. Quando toca a campainha para o lanche cada um natureza nua e um homem naturais parecendo com vida aqueles corpos mo- de nós já deu forma à sua criação. Tiramos o barro das mãos na torneira da lhados muito tem que contarem do mundo da natureza, tento me relaxar, dar lavanderia próxima e seguimos para a sala e copa. Uma espécie de satisfação tudo de mim, penetrar naquela terra e virar a natureza selvagem, louca, vejo acompanha a todos. os meus amigos do peito mexendo no barro, às vezes o ambiente fica em si- lêncio, às vezes um brinca com outro, e o tempo passa entre relaxar dos ale- Anônimo gres dedos mexendo no barro e a voz de o significante silêncio do outro e a gente vibra entorta a gente junto com a terra num ritmo à vontade, natu- ralmente. A terra é eterna, o barro vai e volta para o chão com suas figuras, transa com a mente, as figuras voltam para o chão e se comunicam com as entranhas da terra e o chão compreende e volta para as mãos ávidas de mexer e amassar de novo, os elementos mais naturais possíveis e impossíveis, brinca na mão, cola na palma das mãos e como um remédio penetra pela pele e revi- gora tudo, a terra me avisou: "sou sua amiga, me amasse, me aperte em você, brinca comigo, escreve seu nome na minha pele, eu ajudo, nós somos mais que irmãos". Faço um rosto no barro e este rosto sorri, todos os dos de facilidade, de dificuldade, de mãos ruins, boas, se encontram com a natureza, às vezes o meu corpo se arrepia porque a terra se condensa e se arrepia também como gosto do barro bem amassado até ficar no ponto, e de- pois lembro de figuras terrestres, é o encontro do meu cérebro com o elemen- to, não preciso nem de fazer projetos para construir trabalhos até inteligíveis Eu amasso e sai ao acaso, vago, uma figura selvagem natural da minha Fico satisfeito. Francisco 29 28</p><p>MARCENARIA barro é o meu médico. Cleusa A modelagem é muito boa, eu amasso a massa, tento fazer uma coisa, eu modelando, eu me sinto muito bem fazendo modelagem, eu exprimo alguma coisa, eu fiz muita coisa. Érica Eu sempre gostei de fazer modelagem, ou seja, mexer com as mãos, criar realmente algo, tal como nós imaginamos. É realmente bastante gratificante A marcenaria foi uma das mais antigas atividades da Casa das imaginar algo e o passar para o barro. E procuro dar bastante valor a este Orientou-a durante vários anos monitor Luiz, que também colaborou trabalho. em outros setores da Depois vieram Paixão e Embora na marce- Adilson naria sejam feitos alguns trabalhos utilitários, como conserto de chassis para setor de pintura, etc., há também trabalhos expressivos, es- culpidos em madeira que são documentos importantes para o estudo do que Modelagem? Modelagem é uma escultura, mas que escultura? se passa no mundo interno do cliente. É a arte a qual não vivemos e dela dependemos, é a nossa emoção, a nossa presença a qual nos sensibiliza. Ora, o que temos a haver contra a emoção? Temos a nossa vergonha A madeira é um material que, provavelmente, serve ao homem desde o de aprender aquilo que o grande público precisa é sentir, as qualidades seu aparecimento na Terra. únicas. Ela alimentou o fogo que iluminou o caminho da raça humana para a Luís civilização, permitiu ao homem lançar-se em sua grande aventura marítima e envolvidos nela nossos corpos retornam ao ventre da terra. Um material tão estreitamente vinculado ao nosso A mim interessa, particularmente, o lance da forma, que com pouco de cuja essência podemos identificar com a generosa e fertil Mãe Natureza afeto, aquela massa de argila, faz distanciar a vulnerabilidade dos propósitos sem dúvida, apropriado para servir de substância à expressão de muitas de a mim, também me faz, aludir a uma Volta ao Começo, com a nossas emoções, o que materiais sintéticos de fórmulas complexas e distantes descoberta, flexível que o modelar proporciona. do conhecimento do homem comum nem sempre conseguem. Dinha trabalho de marcenaria, no contexto psicoterapêutico, requer ção bastante específica. Na prática, percebemos não ser grande o número de clientes aptos a se beneficiar desta entretanto, quando tal temos motivos pra sermos otimistas quanto ao desenvolvimento dessa relação (homem/madeira). Via de regra a madeira não é tão recomendada ao cliente muito regredido quanto o são o barro e a tinta. Por ser um material ela requer o uso de uma grande quantidade de ferramentas até tomar a forma e o aspecto desejados, desde o serrote e o martelo, em que devemos investir grande energia física, até pequenos formões de manuseio delicado. É recomendável, quando encaminhamos um indivíduo a esse setor, que ele possua certos pré-requisitos: controle motor, capacidade de projetar a 30</p><p>peça a ser executada, paciência e continuidade no trabalho. Se ele apresentar o mínimo necessário dessas características, a atividade promete rendimentos A MARCENARIA E A LIVRE gratificantes, pois desenvolvimento da paciência e perseverança são ganhos inestimáveis para o crescimento psíquico. Além do contato com a substância, a forma é primordial pois, geral- FUI CONVIDADO A DESCREVER SOBRE A MARCENARIA DA GLORIOSA CASA DAS NOMEADO PARA SER mente, expressa de maneira simbólica conteúdos fortemente carregados de emoção, e este constitui o objetivo principal do setor de marcenaria, assim MONITOR DA SEÇÃO de MARCENARIA POR DRA. NISE DA SILVEI- RA, FOI UMA ALEGRIA IMENSA que tive... como o de toda a Terapia Ocupacional na Casa das Palmeiras. Não existe in- NA MARCENARIA TEMOS UMA PRÁTICA de PSICOTERAPIA tenção específica quanto à utilidade da ocupação, ou seja, não se trata, de maneira alguma de reabilitação profissional. Esperamos, apenas, dar uma IMENSA pois TEMOS QUE TRABALHAR COM UMA PACIÊNCIA oportunidade de expressão à vida emocional, parcela do homem sem a qual LIVRE.. que NOS LIBERTA DO MEDO SEMPRE TRAIÇOEIRO.. que SEMPRE ESCONDE-SE NUMA PACIÊNCIA PARA SEM- ele não se torna indivíduo e que compreendemos ser, no momento, a mais PRE FUGIR, IR FUGINDO DA VIDA.. O MODO COMO PARASITA desvalorizada em nossa sociedade. O AMOR PROFUNDO... NOS TIRANDO A PROFUNDÍSSIMA LIBER- DADE PACIÊNCIA CONSCIENTEMENTE LIVRE... sim, DIREMOS na Paixão AÇÃO DE NOSSO INCONSCIENTE NATURAL EM NOSSA MENTE... porém no CONSCIENTE NATURAL TEMOS "PARA que o MEDO SEMPRE TRAIÇOEIRO NOS ESCONDE A VIDA INCONSCIENTE DE pelo seu PARASITISMO... e assim nunca PODEMOS PERCEBER que ABREVIAMOS PARA TIJUCA para PRATI- CAR A PACIÊNCIA DO PARA CIÊNCIA pois é o INCONSCIENTE TURAL TENTANDO SEMPRE NOS SEGURAR... para que POSSAMOS TER VEZ PARA MAIS PALAVRAS e ASSIM PODERMOS ENTENDER MAIS O AMOR PROFUNDO... Logo "NOS ENTENDER" A VERDA- DEIRA RAZÃO DA GLORIOSA CASA DAS PALMEIRAS.. FALEI MUITO DE PACIÊNCIA justamente porque a PACIÊNCIA LIVRE... é muito DESENVOLVIDA NA MARCENARIA.. sim MARTELAR.. é necessário MUITA LIVRE para NÃO NOS MACHUCAR... e REQUER MESMO GRANDE LOGO TEMOS de TER ATENÇÃO CONOSCO MESMO. que AINDA SEMPRE O MEDO NOS TORNA DISPERSIVO para JUSTIFICAR A NOSSA DIVI- SÃO INTERIOR. e assim DIVIDIDOS NATURALMENTE que NÃO PO- DEMOS CONHECER AMOR PROFUNDO... Logo a PACIÊNCIA CONSCIENTEMENTE LIVRE. assim eu SINTO A DA MARCENARIA em NOSSA VIDA, sim PODEMOS MATERIALIZAR NOSSO PENSAMENTO e ASSIM VER MAIS NOSSAS FLORES RIORES. TENTANDO NOS UNIR POIS AMOR UNE e O MEDO SEPARA" e nos UNINDO VAMOS PAGANDO pelo TRABA- LHO SEM TRABALHO FÍSICO e MENTAL" a NOSSA NATUREZA que em LUGAR de SER ESCRAVA DEVE SER NOSSA rém o MEDO SEMPRE TRAIÇOEIRO TEM MAIS MEDO DE SERMOS ALUNOS pois SOMOS então MAIS FRACOS... enquanto COMO FESSOR DA NATUREZA justifica-nos ser para 32 33</p><p>DEIXAR ALIMENTAR MEDO como UM PROTETOR.. pois DEVE- XILOGRAVURA MOS TER CONSCIÊNCIA NATURAL DO NOSSO TRABALHO.. o que a MARCENARIA sempre nos PREMEIA pois o MAIOR PRÊMIO é o MIO DE NOSSA CONSCIÊNCIA NATURAL e nunca do MEDO SEMPRE TRAIÇOEIRO que nos TORNA PARASITAS DE NOSSO PRÓPRIO SER PROFUNDO... José A xilogravura não foi das primeiras atividades praticadas na Casa das Palmeiras. Vem um pouco mais tarde, sob a orientação de Paixão e de Osman, pois se a expressão é livre há necessidade de conhecimentos técnicos para que as formas internas consigam emergir da textura da madeira, quer em traços agressivos, compulsivos ou suaves, exigindo sempre concentração do gravador. setor de xilogravura está ligado de forma orgânica ao método da Casa das Palmeiras. Igual às outras atividades, integra a dinâmica da relação de laços que se estruturam no dia-a-dia de cada um. Mas faz parte desse con- junto de maneira especial: o que é hoje representa uma evolução. Uma traje- tória na materialidade mesmo da atividade. No começo o trabalho era só artesanal. Manipulação do couro e da madeira na prática da talha e pequenas esculturas. Depois, com a natural, pôde-se objetivar dessa experiência um resultado gráfico. caminho do processo artesanal chegou a um amadurecimento expresso na matriz cria- tiva para uma situação gráfica. Foi através da incorporação de toda a expe- riência anterior o artesanal da coisa - que se atingiu uma responsabilidade em relação ao processo seriado: passar uma tinta, um rolo sobre uma matriz e tirar uma impressão; daí reproduzir "n" linguagens, "n" imagens para serem distribuídas às massas, ao consumidor de imagens Sob os fícus do quintal, aprimorada elaboração. Distribuídos em mesas separadas concentrados eles cuidam em realizar da madeira lisa, São indivíduos um dia tachados de doentes mentais mas que superaram essa tentativa de aniquilamento que a sociedade investiu contra eles para serem os verdadeiros artistas que são, sempre foram. Trabalham com o monitor uma vez por semana na Casa das Palmeiras, no dia que tem Ou quando der vontade e o material disponível estiver nas mãos. resto do 35</p><p>tempo de criação se dá em casa mesmo, e nos fins-de-semana se ocupam em ENCADERNAÇÃO dar continuidade ao processo de desenvolvimento pessoal. Surgem imagens incríveis. Cada um tem sua individualidade e não se copia ninguém. Expressa-se aquela linguagem que vem do fundo de si mesmo, do próprio inconsciente. Todo aquele armazenamento simbólico e arquetípi- co. Tudo, tudo é movido pelo inconsciente e requer completa atenção do mo- nitor que exerce a função de coordenar as produções no setor de xilogravura. Coordenar significa não cercear as coisas, não reprimir. Dar uma certa liberdade de ângulo. Ele tem aquilo dentro de si mas não sabe como colocar sobre a superfície. Conversam e discutem como colocar a imagem dentro da- queles limites e proporções. Dentro do ensino acadêmico existe uma interferência (marco) entre o A encadernação dá vida ao papel. professor e o aluno. Na terapia ocupacional esse marco se dilui. Existe um Emygdio relacionamento com aquele que tem mais experiência dentro do campo e aquele que está aprendendo a expressão dentro do plano. monitor amigo está sempre pronto a atender a necessidade de expressão criadora daquele cliente. Mas não cercear a sua expressão e bloquear. Ele pode, por exemplo, querer entalhar uma folha. Aí o monitor tem de deixar ele passar pela expe- A encadernação foi uma das primeiras atividades da Casa Durante esses trinta anos de existência, vários monitores passaram por riência. Mesmo o monitor tendo conhecimento de um tipo de impressão a este setor, deixando e recebendo impressões humanas das mais variadas e sensibilização da folha que dispensa o corte brusco, deixa fazer. Não inibe fundamentais. É uma das peculiaridades do ar na Casa das Palmeiras. uma experiência. Pois quem sabe, não pode surgir daí uma experiência nova? Mas lembremos o primeiro monitor deste setor José Alfredo mes- À medida que o indivíduo começa a trabalhar com a xilo empolga-se. É tre artesão no ofício-arte de encadernar. Foi substituído posteriormente por a arte mais artesanal, leva-o a ter um contato diferente que o do pintor, sendo Glorinha e depois por Vicente. a xilo a síntese da pintura e da escultura. Dá uma experiência de volume, de plano, de firmada na atuação sobre o material concreto. Em termos de ação equivale esse trabalho ao semi-operário, em busca do aperfeiçoamen- Na encadernação da Casa das Palmeiras temos a oportunidade de ex- to, fazendo a limpeza de bordas da obra. Em busca do refinamento estético e perimentar o momento em que lidamos com o trabalho mais pragmático ou encontrando um domínio sobre algo que é difícil, como a xilogravura é difí- utilitário que exige de nós um esforço de ação, pois lidamos com o papel em cil. todas as etapas: colagem, cartonagem, encadernação e reencadernação. Não Fica entendido que o monitor não deve dar mais que o lado técnico ao podemos nos esquecer de que o papel é material flexível, mas não moldável e cliente. Orientar o aspecto técnico mas não () criativo. Como interferir se o dificilmente passível de correções. talento surge independente do monitor? Quando o indivíduo se cura não é a Apesar de esta atividade ser executada por nós todos de forma seriada instituição que o faz; ele mesmo se cura. e encadeada, temos também a possibilidade, espaço e clima para fazermos Melhora-se por dentro e por fora. Essa conquista na expressão do indi- dela uma atividade, enquanto projeto, expressiva. Por exemplo: utilizamos a víduo que se reflete no seu relacionamento com pessoas e ocupações se dá no imaginação, a criatividade e, sobretudo, a emoção de lidar com as cores e as nível interno e externo. Não é um processo isolado. Não sei se vem em pri- formas (capas de livros, cadernos, etc. decorados por nós). meiro lugar o ou a galinha. Me parece que primeiro venha o cósmico, o Além disto realizamos também confecção de envelopes dos mais Grande Ser, o inconsciente, essa linguagem. apoio do monitor e a dos tipos e tamanhos; recortes e colagens; pastas de arquivos; decoração para relação com o inconsciente vão refazendo os nós, transando a própria cons- festas; confecção de capas de álbuns, dos próprios álbuns e pastas onde são trução. colecionados os desenhos e pinturas realizados no atelier de pintura; restauro de livros e revistas; feitura de cadernos, blocos. Marmorização no papel Paixão 37 36</p><p>pintura a dedo são utilizadas na confecção das diversas capas, que na maioria BOTÂNICA das vezes propicia um certo grau de expressividade e de satisfação imediata, atendendo às nossas exigências internas mais urgentes. A atividade de encadernação aqui na Casa das Palmeiras é realizada predominantemente de forma individual, mas nem por isso deixamos de com- por um grupo que se estrutura lentamente sobre a base do afeto que gera a cooperação. Como exemplo dizer que, um entre nós mais hábil en- sina alguma coisa a outro menos hábil, como também, muitas vezes, o mais forte entre nós, ajuda-nos cortando com a guilhotina. É este o clima que nos possibilita ver que, na verdade, para nós não existe nem o mais hábil nem o menos hábil; nem o mais forte como também o menos forte. Tal como o livro que precisa de cada folha, de cada página, para se bservamos que um de nossos clientes, desinteressado de todas as demais compor, nós trocamos a cooperação de cada pessoa humana, dentro dos nos- atividades da Casa, dava muita atenção às pequenas plantas que cir- SOS limites, para tornarmo-nos IN-DIVÍDUO (não dividido). cundavam nosso terraço, onde cresciam também três fícus. Aguava-as de vez em quando e também se interessava pelas plantas do jardim frente à Casa. Vicente Pensamos então que uma atividade relacionada aos vegetais, talvez fosse útil aos indivíduos que se desligaram de pessoas e coisas do mundo das realida- des cotidianas. Começou assim a atividade de aulas, ou melhor de conversas, sobre botânica. primeiro a dirigir.esta atividade foi Paulo, estudante de biologia, que encantou seus ouvintes com a descrição dos fenômenos da vida das tas, desenvolvimento das sementes e particularmente com a Perguntamos a alguns clientes se as conversas sobre botânica tinham agrado. Ivan respondeu: num pensamento sadio que não traz pro- blemas." E José disse: planta ensina que é preciso ser paciente para crescer." Outros estudantes de botânica seguiram-se na orientação dessas con- versas. Finalmente o médico Osman assumiu esta tarefa durante algum tempo: Toda atividade é um meio de comunicação com o cliente e assim acon- teceu com a botânica. Quando lemos o relatório das atividades da Casa das Palmeiras sobre botânica, vemos escrito por um cliente que na botânica "ocorreu o intuito de enfocar o vegetal em suas relações com o meio am- biente e entre si. Notamos que daí decorre `uma nova vista mais ampla do mundo assim como uma visão maior do indivíduo e sua Foi criada, por iniciativa dos membros do grupo, a Sociedade dos Amigos das Árvores da Casa das Palmeiras por notarem a necessidade de mais espaço para os três fícus do quintal expandirem suas raízes que estavam sufocadas pelo cimento que cobre o pátio. Foi endereçada à Diretoria um memorando 38 39</p><p>informando a fundação da Sociedade e fazendo observação das providências a José: Valorizando nosso irmão valorizamos a nós mesmos serem tomadas sobre as árvores do quintal. Ana: paisagem é João Carlos: "A flor, a árvore e o homem. Eu, você. A vida, o pró- Eis o comunicado enviado à Diretoria: ximo de "Hoje fundamos esta Sociedade, nós, pessoas da Casa das Pslmeiras Neusa: da aula porque fala sobre a natureza e quem gosta de conforme regime de livre iniciativa cultivado por Nise da Silveira. Nos plantas e flores tem sensibilidade, porque a botânica é uma arte, uma vocação propomos a cultivar plantas, atividades culturais relacionadas com as plantas entre as outras e artísticas. Pedimos apoio dos senhores. Essa idéia de sermos amigos das Rosa: "Amo muito a aula de botânica, pois nos dá alegria e ânimo." plantas há muito vem sendo cultivada no nosso meio, como aulas de botânica, (Quem entende o que são de ruína, morte e de sabe quanto a jardinagem feita por nós, como passeios a bosques (Jardim Botânico, Par- custa participar, mesmo brevemente. O trabalho consta de uma rosa dese- que Lage, etc.). A idéia é nos reunirmos em torno do amor à árvore, o que nhada com mão trêmula, titubeante; foi feito em companhia de Gilberto e traz pode servir para nos unir mais, e como atividade criadora ideal de no alto da folha, à esquerda, a inscrição Rosa e Gilberto, e ao lado o batom pacificar os ânimos e dirigi-los para uma atividade construtiva. Assim, nós dos lábios dela impresso com as mãos levemente.) decidimos abraçar como lema uma frase: danifiqueis nem o ar, nem a Ronaldo desenhou uma rosa. (Para ele também é difícil participar. Só terra, nem as para servir de espírito do grupo. Obs.: Em primeiro sob condições apropriadas. Só a Casa porque mora na vizinhança. lugar solicitamos vossa atenção para as três árvores da Casa das Palmeiras E mesmo assim, um colega costuma in buscá-lo em casa.) que estão ameaçadas de morte por falta de espaço mínimo onde crescerem José: cactos armazenam água, é um poder que eles têm, o Homem suas raízes, o que pensamos é possível sem prejuízo do quintal como parte da tem o raciocínio, Poder criador e que NÃO deve ser ENTREGUE a forças Casa." ilusórias pois nossa semelhança com os irracionais incluindo as plantas é muito grande. o medo traiçoeiro nos impede de progredir ficamos sem criar Então o grupo quebrou o cimento em volta das árvores permitindo que nada o que é uma injustiça ao ser humano assim eu suas raízes penetrassem na terra. Rosa: "Estou gostando e aprendendo muita coisa boa na Casa das A partir desta reunião, tivemos várias outras das quais passamos a Palmeiras". (Rosa participa escrevendo o que sente, as forças autocurativas transcrever trechos sob a forma de frases, composições e poesia, desenhos, em ação através de uma atividade que permite livre expressão de emoções.) redações. Mateus: árvore dá sombra contra o calor do sol." Neusa: "A aula de botânica incentiva muito.. Enobrece nosso Gilberto: respeito à interação do grupo a ocupação grupal tem to fala de coisas da natureza, e adoro a natureza." que ser desenvolvida coletivamente. Sob o aspecto social, esse trabalho nos Vivian: flores enfeitam tudo." dará perspectivas maiores de progresso coletivo. E também, sobretudo, o Waldomiro: bem podada representa menos perigo." respeito mútuo social e econômico. Com respeito ao desenvolvimento coleti- Ivan desenha duas árvores, uma bem maior, dentro escreve vo, devemos primeiro, analisar os elementos do grupo, para depois então outra muito menor ao lado onde na copa escreve "FILHO". A seguir acres- termos o desenvolver centa E o pai foi embora, foi embora do meu coração, as razões dos meus Ivan: sobre si. Pois de que vale o homem sem sonhos agora saudades. Adiante falando do que chama de A FORMA EXTE- Calmério: "As piadas nem sempre são aceitas em todo momento, pois RIOR E A SUBSTÂNCIA INTERIOR escreve que "a felicidade é quando o já diz o ditado muito ciso pouco riso, ou melhor, muito riso pouco ciso. A exterior é igual ao interior". Conclui: que nosso eu externo esteja análise feita com piadas torna-a vulgar e de pouca valorização do tema em em calamidade. o nosso eu interno se renova a cada dia.. Penso que a reno- pauta, toma o respeito que se deve aos outros de uma maneira sarcástica sem vação é verdadeira pois há momentos que estou em conflito angustiado e um amor que muitas vezes diz ter e creio que de fato existe, mas, desvalori- aflito e necessitado, já no outro dia tudo são flores para voltar a adversidade e za-se com os atributos acima citados. Ora, não somos perfeitos e erramos em se repetir a minha renovação interna" muitos atos de nossa vida. Se formos analisar vendo somente os erros e Marco faz um desenho parecido: uma grande árvore carregada de fru- xando os acertos dos outros de lado, a crítica torna-se fixação e que tos e ao lado uma pequenina flor. Escreve que no MDB é o mos a analisar foge ao (Vai de encontro à linha de trabalho na Casa partido dos das Palmeiras quando as atividades planejadas encorajam o desenvolvimento 40 41</p><p>de partes saudáveis da personalidade cindida ajudando a uni-las, integrá-las e cada um fez uma pergunta, seriam respondidas as que se quisessem ao mesmo tempo combatendo os sintomas manifestados. Escrito por um ho- der. mem que foi rotulado de doente mental. É provável que não tenham reparado Renato com a frase dele: Só come o que na parte inteira de sua personalidade, valorizando apenas e sintomas" A uma pergunta ele respondeu: "O que a planta produz para o homem?". desconhecidos em seus significados para a maioria das pessoas e por isso Resposta: "ORVALHA" marcados como e negativos".) Calmério continua: passado João Carlos: que a planta produz para o homem?". Resposta: de todos nós é importante mas o presente que se vive é o que está valendo, é planta é como a água, o início do homem e só se permite o que é válido ou o degrau para o futuro, portanto o presente é o que de mais importante temos, relativamente válido dentro de suas necessidades científicas" pois o passado que tanto analisamos, na verdade é influente no presente, mas Jorge: que você acha das plantas?". Resposta: "Elas fortificam a com pouca atenção no sentido de viver o dia-a-dia, sem que deixemos de fa- beleza do cotidiano" José: a flor mais útil?" Resposta: a ROSA pois é uma zer o combate diário." "Cada dia com seus problemas, o amanhã assim vivendo é melhor." PROFUNDA LIÇÃO DE AMOR Devido os Espinhos, devemos segurá-la (Este é um antigo cliente da Casa, não mais hoje visitante.) com Profundo CARINHO, São a Semente Da PAZ" João Carlos: "A botânica é importante em nossa vida, sendo a vida do Francisco: "A planta veio da terra, o homem não deve exterminar essa vegetal, ela permanece dentro de quaisquer vivências do homem. Olhe para fortuna que é a mãe natureza. Devemos retirar a planta e plantar de novo para uma planta com afeto e ela receberá esse afeto, ficará feliz e nos dará mais do sua descedência não acabar" que nos dá. Pense numa planta e olhe e trate dela, abra sua mão. movi- Ana: a flor mais útil?" Resposta: margarida" mento traz energia. Trabalhe com o cérebro não esquecendo das coisas boas e Ivan: a flor mais útil? Resposta: "O que é flor? É beleza, é per- as ruins supere, corrija, e siga em frente. Natureza a favor da natureza. Eu, fume, é geometria sublime, é força da natureza, é harmonia, é vida, é você, nós somos partículas dela, e eu não me esqueço." que sabem as abelhas, é um jeito de dar o coração à amada, é criação divina, Ronaldo (pessoa de precário acesso para a maioria de nós): "A árvore é sempre renascer, é delicadeza, é poesia, é realidade, é o toque do criador, é é bonita. Eu gosto muito das flores do jardim de minha casa e de minha um toque divino da essência do ser vivente." e adoro a minha e ofereço as flores em seus mínimos e José diz que árvore representa a vida vegetativa nos homens." múltiplos detalhes.E eu gosto e aprecio a natureza em seus mínimos e múlti- Ivan fala da linguagem dos vegetais. A capacidade de conversar com outros seres, outros tipos de vida. plos detalhes, eu gosto muito de Deus e de Jesus." Mário: "Pode se dar vida a um corpo inanimado e aí nasce a Ana (que mal participava de qualquer atividade devido a fortes impe- Terezinha: morte é outra vida, é uma transição" dimentos afetivos, hoje dá o seu recado): árvores nascem devagar, os troncos, as folhas, os galhos tudo muito bonito, flores como rosas perfumadas Apresentação de dois trabalhos, um de Marco, histórico sobre botâni- ca, baseado na enciclopédia Barsa e a descrição por Waldomiro da brinca- e vistosas." José: dia chuvoso é muito Bom para Brotar.. nosso mais profundo deira de esconde-esconde em que ele por se esconder sempre no alto de uma Ser que Vive sempre Vivo... e Desconhece a Ausência da Morte, pois é como árvore quase nunca o achavam. uma Semente interior que Necessita Brotar com a Conquista da JUVEN- Frases sobre o tema proposto pelo grupo: A Colaboração Das Plantas TUDE ETERNA é a SIMPLICIDADE em que quando não existe o MEDO para a Felicidade Humana Maria: remédios, traz muita coisa de felicidade" TRAIÇOEIRO... nos UNIMOS pelo AMOR PROFUNDO SEMPRE e como Terezinha: "As plantas trazem poesia. Uma salada de legumes colori- FOLHAS unidas pelos ramos trabalhamos para Florir. Sempre Brotando." Rosa: "Natal. Natal é um dia muito bonito festejado em todo Brasil" da' Ivan: desabrochar duma rosa há uma força função da flor é a luta pela vida de sua descendência" Francisco: homem moderno está perdendo o natural, contato Rosa: flor pode ser completa ou incompleta. A função da flor é com a natureza, a participação com o natural. A planta nasceu para viver e produzir a semente" servir o homem e temos que amá-las muito. Se a pessoa destrói tem que por" A pedidos prova escrita sobre as aulas. Ricardo: "As plantas são chifres de prata. Natureza e beleza se con Foram formuladas perguntas pelo professor e pelos membros do grupo, 43 42</p><p>fundem no espaço, sentimento e vida estão dentro da gente assim como natu- reza. Somos filhos de ARRANJO FLORAL Jonathan: vegetação o homem não é nada na vida. que ele está derrubando vamos precisar. Tem que meditar nos erros para ver o que está errado. Há sinceridade entre as feras, entre nós não. homem é o maior ini- migo de si mesmo" Adilson: e cuidar tudo aquilo que a natureza nos dá além das plantas tudo o que a natureza oferece: vida, vontade de viver. O amor Deus para conosco." (Adilson era vítima de uma idéia constante de suicídio. Não mais falou disso.) "Nós temos condições de viver sem depender de nin- guém." Cosme: "As flores trazem muito carinho: a gente olhando vê a sua vontade de viver. O que a natureza dá, o homem tem que aperfeiçoar. Em vez de aperfeiçoar, o homem destrói." E m agosto de 1972, a professora Talita ofereceu sua colaboração à Casa das Palmeiras propondo dar aos clientes aulas de Ikebana. Essa nova Terezinha: vezes a pessoa maltrata querendo tratar bem." atividade despertou muito interesse, mas logo as regras da Ikebana foram abandonadas. E arranjo floral tornou-se completamente livre. Por sugestão do grupo plantamos sementes e meditamos sobre o fato. Não foi difícil compreender que arranjo floral compunha-se de Algumas pessoas escreveram: acordo com projeções que refletiam problemáticas internas de seus autores Pedro: "Para mim eu acho que a plantinha é igual uma criança... as Era pois uma atividade que poderia adquirir importância psicológica de plantas, uma semente o nosso prazer é que ela vem ao mundo para dar alegria muito interesse. De início foi apreendido nos arranjos das flores o vivo a nossa cidade. Com sua sombra sorrindo para a gente." reflexo de situações afetivas do indivíduo e de suas dificuldades nos relacio- Gladys: "E a semente volta à terra, e no silêncio e na escuridão ela de namentos interpessoais. Posteriormente, através de mais atenta repente do seu sono espreguiça-se e estende seus delicados braços verdes verificou-se que arranjos de flores e de arbustos carregavam-se de emo- saudando-nos com um brilho de alegria." Sugerido tema: VEGETAL E SUAS RELAÇÕES COM OUTROS Os clientes gostaram tanto desta forma de expressão que, quando Ta- VEGETAIS" lita deixou a Casa das Palmeiras em 1973, a monitora Maria da Glória veio Maria: "As árvores ligam-se pelas raízes, ramos e galhos harmoniosa- substitui-la. mente. suas relações é de e harmonia e força. Amar a floresta é amar a natureza." Eduardo: floresta existem sempre árvores, flores, plantas e ou- A partir de 1977, o arranjo floral ficou a cargo da monitora Maria tras Abdo, que assim descreve o clima geral da atividade. Júnior: relacionamento do homem com as árvores leva-o a sentir Na Casa das Palmeiras, cada um faz o seu arranjo. Há os que preferem necessidade de estar em harmonia com a natureza e os outros homens porque cortar uma simples rosa e a colocam num recipiente largo, cheio d'água, já faz com que ele tenha a experiência sensitiva desta harmonia." outros escolhem cuidadosamente cada flor, variando cores e enchendo o jarro João Carlos: "O vegetal transmite um para o outro tudo, eu acho até de tal forma que este acaba caindo com o peso, ao contrário daquele que es- que se ajudam no momento certo e quando há possibilidade, enfim se aceitam colhe uma única flor, de preferência murcha e envelhecida. na sua estrutura com meios emocionais e que se ligam ao homem, sentem a arranjo floral é feito semanalmente. Usamos recipientes largos e es- necessidade como nós ou talvez até com mais sentimento. Eles não falam. treitos e vemos na composição de cada arte floral, algo de nós próprios. Não têm a palavra como nós. Eu sei amar uma folha ou uma árvore a meu Reunimo-nos em torno de uma mesa, dentro de um clima cordial e modo e você?" amigo. o arranjo floral pode ser livre ou ser escolhido, por votação, um tema que todos procurarão representar por intermédio de suas flores. Após, cada Osman qual o seu escrito. O grupo comenta, discute, concorda, discorda, elogia ou 44 45</p><p>não estes textos. Se no final, alguém quiser oferecer o seu arranjo a alguma Outra escreve uma poesia em que fala claramente de dois tipos de so- pessoa em especial, ou decorar a Casa, fica isso a seu critério. ciedade: É com o objetivo de ajudar o esquizofrênico a lidar com as emoções que, principalmente, se utiliza a atividade do arranjo floral. Este trabalho so- Sociedade essa tal bre as emoções é feito em linguagem simbólica, a única linguagem compreen- primordial e grupal sível para a pessoa que passa por este complicado processo de modificações atingida totalmente (...) internas que chamamos de esquizofrenia. A sociedade de consumo Tanto a flor como o vaso, são elementos importantes da linguagem que é a favor ou contra o fumo simbólica característica do inconsciente e aparecem, com nas vi- corre diante do poderoso vências internas dos esquizofrênicos. Vaso indicaria a tentativa de reunir belo, elegante e formoso elementos diversos num único contenedor. Seria uma busca de compensar a Sociedade diferente dissociação esquizofrênica. C. Wiart, do Centro de Estudos da Expressão, que confunde nossa mente Paris, assinala que dos cinqüenta mil desenhos que existem nos do Hospital Saint Anne, trinta mil são vasos com flores. Entretanto, não lhes dá Profundas vivências internas encontram expressões através das flores maior significação psicológica. Mas, provavelmente, muitos desses desenhos Um dos escritos do arranjo floral descreve o momento da dissolução da do Hospital Saint Anne, têm suas raízes em experiências internas. consciência sob forma simbólica: flor atômica que nasce no cimento [...] Assim, o arranjo floral é um reflexo do desenvolvimento interior, um dissolvendo mentes numa enxurrada de átomos e desesperos [...] A flor meio de fortificação da consciência, exprimindo vivências que ultrapassam a mica nascendo do aço daqueles que não conhecem o coração [...] Em volta da capacidade de verbalização. flor atômica, aparece um deserto infernal. É o espelho da brutalidade humana arranjo floral na Casa das Palmeiras nos defronta, a cada momento, [...] Uma flor chama por Deus, e se fantasia de sol. As pessoas começam a com o simbolismo da flor em toda a sua gama de variações. criar estórias para inebriar-se enfeitam sua vida com flores inimagináveis, A situação pessoal projeta-se comumente sobre os diferentes arranjos. extraordinariamente belas [...] As almas caem ensangüentadas, a morte A flor represnta a própria pessoa. Um cliente comenta: uma das abarca a todos. É a flor atômica que surge fantasmagórica [...] É a sombra da rosas está quebrada. Indicando que ela precisa de urgente socorro para se er- cruz que envolve a terra." guer..." As vivências da psicose levam o indivíduo a descobrir que o conheci- Outro cliente relaciona a flor e o corpo: corpo é como as flores, mento do coração é uma necessidade não apenas sua, mas de toda a socie- nasce, cresce e dade contemporânea. É a falta de amor nas relações com os outros que faz Um cliente lembra: "A flor é gineceu e androceu. É pai e mãe. A flor é com que algumas pessoas passem a viver em mundos imaginários, com flores portanto (Os problemas relacionados à vida instintiva aparecem imaginárias (esquizofrenia). Este escrito sobre o arranjo floral, reflete não só no arranjo floral.) a situação pessoal mas apreende uma preocupação da época. Leonardo Boff, As situações de família surgem. Um cliente representa a mãe por flor escreveu um livro (Paixão de Cristo-Paixão do Mundo) em que liga a paixão do grande, o pai uma flor menor, depois vêm os irmãos. Ele mesmo é represen- mundo e a de Cristo. Neste estudo de teologia, encontramos talvez esclareci- tado por uma haste nua, sem folhas. mentos para a compreensão do sentido simbólico da cruz e da flor atômica Muita coisa se poderá aprender sobre o mundo interno do cliente, ob- neste arranjo floral. A cruz seria um símbolo ambíguo. Em um de seus aspec- servando a maneira como ele faz o arranjo floral Como escolhe o seu vaso, tos, representaria a corporificação do ódio, da violência e do crime humano, e as suas flores, como as arruma. Um exemplo demonstrativo da necessidade noutro a cruz seria ainda o símbolo do homem novo, do mistério da vida que deste tipo de arrumação é dada por um rapaz que tentara também representar se gera onde aparece a morte a família. Logo que começou a atividade, pegou as flores e as picou em peda- A flor simboliza o novo estágio de consciência a ser alcançado. O ciclo muito pequenos. Era a única coisa que podia fazer com relação à família. de morte e renascimento das flores é imagem adequada para o processo de Um cliente escreve: a gente tivesse estrutura para amar, deveria transformação, representado no Ocidente pela trajetória de morte e ressurrei- ser igual para todos. E estas flores são a síntese do meio certo de amar todas ção do Cristo. Aliás, na Idade Média, dizia-se que: certas flores, podia as pessoas'' ser encontrado o sangue de Um arranjo floral de uma outra cliente da 46 47</p><p>Casa das Palmeiras, apreende estas conexões. Ela escreve a partir de um vaso Trechos de autores diferentes: flores têm muito afeto para dar e com flores, a seguinte poesia: ber." rosa vermelha representa um coração que bate em nosso corpo dia amanheceu risonho dando afeto e carinho a quem precisa." A vida venceu a morte O mundo mágico do esquizofrênico está intimamente relacionado à ne- O sepulcro foi aberto cessidade de afeto: magia é uma energia inexistente. É uma corrente que E o bem se tornou certo. existe entre o coração de várias pessoas. Quando a gente pensa que pode do- miná-la, ela foge e não se encontra em lugar nenhum". A vida teve mais valor Na esquizofrenia, o indivíduo absorve-se nas profundezas da psique. A atmosfera mais calor Os afetos, vêm revivificar o mundo interno de mitos, símbo- As terras foram iluminadas los e conteúdos religiosos. Por mais estranho que pareça este mundo arcaico, E o mundo seguiu sua jornada. o afeto aí investido torna-o mais real que a realidade exterior. Em outro es- crito do floral, o amor homem-mulher, atinge as dimensões de um ca- E o tempo passou samento sagrado mitológico: "Romeu e Julieta se amam. São como duas péta- Quase dois mil anos las de flores a se juntar e produzir um grande foco de luz. Foco de luz este E continuamos a celebrar que se expande a todas as criaturas do universo em todas as direções (...) O martírio do rei da vida. Romeu e Julieta, nunca se apagam, pois sua luz é inesgotável." É possível exprimir os afetos através do arranjo floral, desde a situação Viva o bem que vence o mal em que o afeto se encontra quase que totalmente prisioneiro das camadas Viva a luz que ilumina a escuridão mais profundas da psique até o momento em que se estabelece a ligação afe- Viva a época da ressurreição tiva com a realidade. As dificuldades da religação afetiva com a realidade e Encontremos nossa com o outro são expressas através do simbolismo da flor: que serve colher rosas Para outros clientes, assim como para Buda, a flor simboliza a expe- Se não tenho a quem ofertá-las" riência máxima: Flor, flor é você, flor sou eu O arranjo floral é uma atividade intermediária entre a atividade indivi- Flor é a terra dual e a de grupo. Cada pessoa faz seu arranjo e escreve sobre ele. Os textos Flor é o universo escritos são em geral, lidos e comentados pelo grupo Por exemplo, um Flor são os amigos novos ou antigos cliente exprime suas emoções por intermédio das flores: "Ocorre-me qual- Flor é (...) quer coisa boa, muito boa mesmo, na sensibilidade. Acho assim que é algo Flor é o ser supremo que sempre sonhei, a proximidade das pessoas, a capacidade em conviver com tanta gente e nisso tudo perceber o meu papel, o sentido da minha exis- Se podemos conhecer através do arranjo floral as situações vividas tência, na medida em que percebo minha posição relativa às demais pessoas pelo indivíduo na família, na sociedade e dentro da psicose, o que mais co- Bem, acho que é o reconhecimento da realidade. Também pensei muito mumente encontramos é a expressão de emoções através das flores a respeito da paixão e do Alguns escritos sobre o arranjo floral são desenhados. Outros são regi- dos por um pensamento associativo que gira em torno dos sentimentos. Mui- Maria Abdo tas vezes encontramos neologismos, grifos, pontuação que quebra as regras Luciana de São alterações significativas da linguagem. Devem ser estuda- das e compreendidas em cada caso. COLOQUEI uma rosa AMARELA DEPOIS uma VERMELHA. e depois uma COR-DE-ROSA. a mais em baixo significando que NÃO ESTAMOS ainda LIVRES do MEDO..." Dentre as o amor é a mais importante. As imensas necessi- dades afetivas dos clientes encontram expressões no seu lidar com as flores 48 49</p><p>TEATRO Deus da Magia e da Sabedoria, incumbindo-o de trazê-la de volta para o Egi- to. Este, assumindo a forma de um pequeno macaco, procurou a Deusa e a encontrando, dela se aproximou. A fera ameaçou matá-lo, mas usando de as- túcia, procurou Thoth fazer com que ponderasse: falou-lhe de Ra, avivou-lhe lembranças de sua pátria, onde fora uma deusa feliz e venerada, e onde, de- pois de sua partida, reinava a tristeza, mudos os instrumentos de música, ape- sar da caça e do vinho abundantes. Tefenet, aos poucos, comove-se, mas, em seguida, volta ao furor, e irada, com face brilhante como o sol, os olhos flamejantes, o dorso cor de Teatro "que apresente aos olhos sangue e os pêlos eriçados, fez com que o deserto se toldasse com a poeira certo número de quadros, que levantou ao açoitar o solo com a de imagens indestrutíveis, inegáveis, que falarão ao espírito diretamente. [...] Thoth, hábil, continuou a conversar, perseverante, e a Deusa, ora colé- Uma espécie de operação mágica rica, ora triste e pensativa, resolveu, finalmente, voltar para o Egito com o sujeita a todas as Deus da Magia. Antonin Artaud Em Filae, local sagrado e fronteira meridional do Egito, banhou-se na água sagrada e metamorfoseou-se em Bastet, a Deusa Gata, sendo triunfal- mente recebida pelo povo egípcio e reconciliando-se com o pai". m certa ocasião a Casa das Palmeiras encenou um episódio da mitologia TEATRO-BALLET EM 1 ATO E egípcia, com finalidade terapêutica. Um grupo de técnicos e de clientes reuniu-se para ouvir a leitura do Adaptação de Francisco e Pedro mito da deusa Tefenet, mito que apresentava analogias com fatos ocorridos na A representação foi em grande parte coreografada por Edméa, que Casa. acompanhou os ensaios e deles fez minucioso Nota: aconteceu mito é a narração de dramas ocorridos nas profundezas da psique. É mesmo que a personagem (Eneida) foi três vezes ao Jardim Zoológico para um acontecimento típico que se repete séculos a fora sob revestimentos di- estudar as posturas da leoa. versos. Veremos encarnadas pela leoa emoções violentas desencadeadas. Ve- Expressão corporal: Pedro remos, em Thoth, o macaco, a função racional, com suas astúcias, que pro- Coro sob a direção de Cecília cura dialogar com as forças emocionais desabridas. Através desse diálogo as Mise-en-scène de Edméa e Pedro emoções violentas sofrem uma metamorfose. Thoth, o deus da sabedoria, não Figurinos de Juvenal violenta a leoa, nem pretende aprisioná-la. Ele procura, por meio do diálogo Decoração sob a direção de Georgette (Pintura) inteligente e afetuoso, transformar a atitude da leoa. Consegue-o. Ela se me- Confecções sob a direção de Olvinda tamorfoseia na benévola Bastet encarnação da alegria e da graciosidade, qua- Trabalhos de carpintaria sob a direção de Luiz lidades que os egípcios representavam adequadamente na figura da deusa gata Música: Stravinsky-Grieg-Heifetz e Dimicu Bastet. Nise leu, para o grupo, o mito de Tefenet, no livro Religião dos Egíp- Personagens de Adolphe Erman. Francisco resumiu o mito em suas próprias palavras: Deus Ra-Francisco "A Deusa Tefenet, filha do Grande Deus Ra, após séria desavença Deusa Tefenet (leoa) Eneida com seu pai, retirou-se para o deserto da Núbia, onde, sob a forma de leoa Deusa Bastet (gata) Eneida descomunal e vagava, dilacerando os mortais com suas garras e lan- Thoth, Deus da Sabedoria João Carlos cando fogo pelos olhos e pela garganta. Fala do deserto Gilberto Ra, necessitando de sua filha, Deusa das Batalhas, chamou Thoth, Fala da.areia Ivan 50 51</p><p>Fala da tamareira Maria Alice Assim será durante muitos anos, até que meu pai, Ra, saiba de minhas vontades de DEUSA DAS BATALHAS. Fala do oásis José Deserto: Os Pares Ivan-Marly Nehemias Orbana O nosso medo é grande, todos os dias uma fera atravessa a José Maria Alice areia escaldante do deserto. Areia: Robson Victória Eu sou a areia do deserto, quando a possante fera me pisa com suas I QUADRO Em seu castelo, no Egito, o Deus Ra fala dos últimos aconte- enormes patas eu sinto seu enorme peso. É Tamareira: cimentos que o afligem. Eu sou a tamareira do deserto, a árvore grande que abriga o viajante, minhas entranhas tremem quando a voz da fera ecoa no deserto. Monólogo de Ra: Eu, o Deus dos Deuses, eu o grande Ra, eu o Deus Sol, o maior de Oásis: todos os espíritos, tenho que me submeter aos meus inimigos. Eu sou o oásis onde o viajante bebe da água do lago para matar a sede Isto é ridículo, e como não faltasse mais nada, desentendi-me com mi- do calor. A fera, a grande fera aparece muito pouco por aqui; quando vem, reflete sua horrenda face nas minhas águas, eu sinto angústia e terror. nha filha Tefenet, a Deusa das Batalhas. Os caprichos dela são intoleráveis, são extremamente intoleráveis. Monólogo de Thoth: Eu, o Deus do Egito e do Universo, não posso tolerar tamanhas insu- A incumbência que Ra me deu é muito difícil. bordinações: meus inimigos fecham cerco sobre mim no palácio, e aproveitam Eu sou Thoth, o Deus da Sabedoria e da Magia. Dizem os mortais que de minha bondade para falar mal de mim. vivem no Egito que minha sabedoria atravessa o passado e o presente e que Que poderei fazer? iluminei os cérebros dos homens e das mulheres, para o bem do Terei que ser severo e justo com eles. grande Ra me mandou ao deserto da Núbia para levar Tefenet, a E minha Tefenet, minha caprichosa Tefenet, saiu para o deserto da Deusa das Batalhas, para o Egito. Núbia, sentida porque eu a deserdei. Ela está transformada em possante fera, a minha missão é de conver- Mas ela mereceu. Sim, ela mereceu. tê-la em um ser de sabedoria, para o bem dela, para o bem do Egito, para Pobre Tefenet bem do mundo. Vive no deserto em forma de leoa descomunal e temida, a sua vingança Ela me escutará, eu a conheço bem. Sua rebeldia e sua vingança são será passageiras, ela se convencerá com o que lhe you dizer, mas you acordá-la de Que farei? Que farei? sua vingança, que deve fazê-la perder-se em sofrimentos sem fim. Pobre Tefenet. Ela tem que escutar-me. Que vale a vida com ódio den- II QUADRO No deserto, a Deusa Tefenet, furiosa, faz uma grande devas- tro da alma? tação. Encontro de Thoth e Tefenet: Ballet: Devastação no deserto da Núbia. (Stravinsky: Sagração da Primavera) Tefenet, Tefenet, sou Thoth, seu amigo. Acalme sua ira e me escute, Tefenet. Monólogo de Tefenet: No Egito é primavera. Os jardins estão floridos e os campos fulguram Eu, Tefenet, a Deusa das Batalhas, vingar-me-ei da humilhação que so- com o ouro dos trigais. fri. Não sou uma mortal qualquer como pensam os reais Deuses do Egito, A caça convida aos caçadores e o vinho transborda dos eu sou a Deusa Tefenet, eu quero matar para satisfazer a minha sede de vin- Mas, Tefenet, as bailarinas não dançam, os sistros emudeceram. povo que a ama está triste com a sua ausência. gança. Cada ser mortal que matar será uma amostra de minha impetuosa vin- Voltemos para o Egito, Tefenet. de meus olhos e minha garganta sai fogo, para queimar as caravanas e Todos a amam e clamam pela sua volta, voltemos Tefenet, flor do minhas afiadas unhas se cravarão nas gargantas dos seres mortais. Egito. 53 52</p><p>Tefenet, um belo dia, no palácio de Luxor, lhe ofereci uma rosa: por são são necessários para o exercício de ritmo, como também para serem ma- essa rosa e pelo sorriso que ela mereceu, voltemos, para a alegria do triste nipulados como nos exercícios de imaginação. As cadeiras Egito. devem ser arrumadas uma ao lado da outra, formando um semicírculo, ressal- tando a idéia de que os participantes não estão apenas reunidos, mas formam III QUADRO um grupo de trabalho. Ballet: Metamorfose de Tefenet (Grieg: Dança de Anitra) IV As sessões devem ser programadas no sentido de que os cios, embora sendo variados, não sejam por demais excitantes. Devem ser ba- IV QUADRO Reina alegria no Egito. Os pares dançam festejando o re- lanceados, o que também se deve dar no sentido do individual e coletivo. As- gresso da Deusa Tefenet que se confraterniza com o seu povo, dançando com sim, se há um exercício em que cada um vai participar isoladamente, o exer- os pares que a levam ao encontro de seu pai, o Deus Ra. cício a seguir deve ser essencialmente de conjunto. Ballet: Regresso ao Egito. (Dimicu-Heifetz: Hora Staccato) Deve-se, de preferência, começar por um exercício coletivo. Isto cria, de saída, o espírito de grupo, a necessidade de todos se comunicarem. V "clima" da sessão deve ser sempre de alegria e tolerância. Al- MAIS TRÊS DIFERENTES EXPERIÊNCIAS DE gum comentário feito pelo terapeuta, relacionado com a execução de qualquer ATIVIDADE TEATRAL NA CASA DAS PALMEIRAS jogo, será feito de uma forma tranqüila e pouco exigente, quanto a habilidade de execução. Toda criatura humana, seja em que estágio estiver, em que condições É preciso lembrar-se sempre de que não se trata de artistas em poten- viver, tem necessidade de criar e comunicar o que criou. cial, que visam a aprimorar-se em uma profissão, mas de criaturas humanas, É através deste processo que todo mundo subterrâneo vem à tona, na maioria inseguras, temerosas de repetir fracassos já experimentados em re- pode ser manipulado e transformado em algo belo ou não, mas que satisfaz a lação à família ou ao mundo. quem criou, pela liberdade que traz. VI Sempre que possível, deve haver a presença do médico na sessão Muitos, neste processo, se mostram artistas. Mas não é a criação da de teatro, para que tudo que é expresso pelos clientes seja devidamente apro- obra de arte que interessa apanágio de alguns poucos senão o atendi- veitado na compreensão dos casos. mento a uma necessidade vital, comum a toda criatura humana. Sem dúvida, nessas oportunidades, freqüentemente, os clientes comu- É preciso que deixemos bem claro o que nos anima num trabalho como nicam, indiretamente, muito mais do que o fazem numa entrevista. este que ora apresentamos: não buscamos dar nenhuma contribuição à São de grande utilidade os observadores (estagiários) que registrem mas proporcionar a todos, bem ou mal dotados, sadios ou doentes, artistas ou reações, comentários, idéias, sentimentos e emoções que vêm à tona, durante não, a capacidade de criar, utilizando-se de seus materiais interiorizados. a sessão, para que o se aplique em atuar, unicamente, sem ter que registrar dados, embora importantes. teatro, como terapêutica, não pode ter como finalidade primeira VII Vejamos alguns jogos que temos empregado. o espetáculo, a exibição pública. Isto, se acontecer, deverá ser, apenas, uma decorrência natural da evolução do trabalho. Deve ser uma atividade habitual, A JOGOS PREPARATÓRIOS com dias e horas determinadas para sua execução e, principalmente, ser uma A diferença essencial entre estes e os dramáticos é que nos primeiros, os clientes são eles mesmos, enquanto nos segundos eles encarnam atividade espontânea. II Deve visar ao fortalecimento das partes sadias, permitindo, é gens. gico, a expressão da parte doente, mas sem que esta seja sua preocupação Os jogos preparatórios visam a desenvolver a observação, a a imaginação, a concentração, a comunicação, a integração no meio e senso principal. A não mobilização dos conteúdos doentes para serem manipulados é o de realidade. que distingue o Teatro Terapêutico do Psicodrama. Exemplifiquemos, com um jogo deste tipo: III trabalho deve ser realizado numa sala ampla, silenciosa, cal- Os clientes ficam sentados, um ao lado do outro, e cada um deve ma, e, o mais possível, resguardada de eventuais espectadores. lher uma cor. Cada cliente deverá lembrar-se das cores escolhidas por todos mínimo de móveis deve existir. Uns poucos instrumentos de percus- os outros. 55</p><p>Numa segunda fase do jogo, mais difícil, um cliente fica de costas para tem a solução apenas indicada. Assim, queremos utilizar a capacidade de os outros. Levantam-se cinco deles e, depois de uma observação rápida mas cisão, que muitos, em virtude da doença, têm bastante concentrada, aquele que está de costas deve dizer as "cores" que se levanta- Exemplo: Faz de conta que um grupo de pessoas está num barco, à ram. deriva, numa situação bastante perigosa. Cada personagem é diferente do ou- Numa terceira fase, mais difícil ainda, um cliente, de costas, deve dizer tro e reage diversamente, diante da mesma situação. que falou, quando, sucessivamente, seus colegas pronunciam simples- Depois da fase de medo, discutem a possibilidade de salvamento e fa- mente a vogal a. zem algumas tentativas. Como se salvam? Como se pode concluir, este jogo apresenta uma série de vantagens Damos sempre preferência a que os aspectos negativos antecedam aos para seu emprego: positivos. Assim, devem ser manifestados: a) desenvolver a concentração e memória medo coragem b) fortalecer a interrelação de seus participantes raiva amor c) desenvolver a atenção auditiva apatia dinamismo d) Incentivar a rapidez do raciocínio isolamento - comunicação e) obrigar a que cada um se detenha sobre o colega e procure re- intolerância compreensão conhecê-lo, mesmo pela voz. f) desenvolver a capacidade de abstração Procuramos sempre deixar os últimos dez minutos de cada sessão para que os participantes escolham livremente o jogo que desejam. Isto nos dá, B JOGOS DRAMÁTICOS não apenas a informação de preferência, como incentiva a sugestão de novos São aqueles nos quais o cliente não é mais Ele mesmo. Ingressamos em jogos e a capacidade de escolha e decisão. pleno terreno do Ele é certo personagem, numa determinada As sessões têm a duração de uma hora e meia, com um pequeno inter- situação e com um objetivo definido. valo. Realizam-se uma vez por semana e a e permanência na ativi- Parece-nos da maior importância que se ressalte sempre este aspecto, dade são absolutamente livres. mostrando aos clientes que agora, pela imaginação, estão representando ou- tras pessoas. Que o que está acontecendo, não é verdade. Isto lhes possibilita Hilton distinguir o que agora estão fazendo de uma alucinação Ao mesmo tempo os libera, de um certo modo, a deixar passar por sua censura interna material, estritamente pessoal, que ainda não tinha de Esta é uma das razões que faz indispensável a presença do médico neste tra- balho. Escolhemos um jogo dramático e dos mais simples, para exemplo: Faz de conta que você é uma pessoa que anda distraída por um lu- gar e encontra um objeto. Procure expressar, através da mímica, quem é você, onde está e o que encontrou. Percebe-se que, neste jogo muito simples, ainda não há expressão de sentimento ou emoção. Isto só deverá ocorrer bem mais adiante. Então, o mesmo exercício poderá ser feito acrescentando-se a expressão de um senti- mento ou emoção decorrente do encontro do objeto. Estes jogos dramáticos devem ser desenvolvidos no sentido de serem cada vez menos individuais, fomentando a integração de cada cliente com os seus colegas e incentivando sua comunicabilidade. Damos muita importância aos jogos cujo tema, escolhido com 56 57</p><p>FAUZI ARTE-VIDA (dedicado ao ator Fauzi Arap que deu durante um período sua colaboração à Os personagens andam ou dançam com as mãos na cabeça, no peito, Casa das Palmeiras). em todo o corpo simulando dor. O coro das sombras ataca: Ai qui dô, ai qui dô Fauzi é um professor muito bem colocado no teatro da Casa das Pal- mé filho Doca vá chamá dotô meiras. Era o que precisávamos, um homem inteligente, sensível bastante Doca (na disparada) Dotô, Dotô, Dotô para comunicar aos sensíveis e mesmo quase que colocando aqui, um pouco Surge o Dotô de sensibilidade a quem não é dotado da mesma. Sim, porque existe aqui, e Dotô Dotô Enfezorino D'Acatrão São João da Barra, Eletropsiquia- conseqüentemente no mundo, a falta de sensibilidade e é o que faz ao meu ver tra, às suas ordens Tome Doril e mande a dor pro funil. a guerra imprevisível do consciente com o inconsciente, em resumo, nós de- vemos ter cara de pau, quando a mesma é para um assunto que ela seja exigi- No exato momento da encenação de um texto inicia-se a verdadeira da, e não a todo momento. criação o ato criativo e a ação a ele correspondente. Finda-se e começa um Isso de cara de pau, veio há pouco tempo, esse mesmo tempo reforçou processo em que as emoções tomam forma em imagens registradas em um a frieza e a falta da sensibilidade. texto, que são vividas com nosso próprio corpo numa ação teatral. Essa inte- Ser sensível é uma coisa linda e muita gente deve quase como que com gração entre emoção e ação nos faz crer que o teatro é arte-vida, conseqüen- uma ordem em sua vida, armazenar sensibilidade. temente algo poderoso. Eu acho bacana, prá xuxu, à bessa. Quando você vive um personagem numa encenação você não é o per- Aproveitemos então, nós outros, a grande quantidade dessa coisa ma- sonagem, mas no entanto o é. Você o vê / êv o ele e Sente tudo isso como ravilhosa que o nosso professor tem e que está disposto, tenho quase que cer- um espelho que amplia a percepção de si mesmo. teza, a distribuir conosco. Hoje, com o predomínio do mundo visual sobre o mundo das tradições Vamos sentir a vida a cada momento. orais fragmentou-se muito a arte-vida; ouvimos música muito mais do que A sensibilidade é uma repetição, como o foi nesse escrito. cantamos, vemos muito mais do que sentimos e o teatro ficou longe do nosso Parabéns Fauzi e continue nos dando, dentro de sua possibilidade, é cotidiano. Entretanto, na Casa das Palmeiras ele sempre esteve presente claro, tudo de bom que existe em você, se me permite. sendo uma das atividades terapêuticas regulares da clínica. Tentamos fazer um teatro espontâneo onde as idéias nascem do grupo e são trabalhadas pelo João Carlos próprio grupo até a encenação final. Além de terapêutico em si, o teatro cumpre algumas funções mais es- pecíficas na Casa das Palmeiras. Quando uma idéia surge e é colocada ao gru- po, tem início um longo processo até a encenação final. É um processo de começo espontâneo com um fim definido. Isso aproxima os clientes uns dos outros pois através do trabalho unem-se no desejo de ver a idéia crescer até a montagem final. É importante notar que a referida idéia inicial de ma- neira diferente em cada um dos componentes do grupo, que acrescenta algo de si, integrando-se mais concretamente ao trabalho. E são tantos os afazeres dos mais simples aos mais complexos (elaboração de textos, exercícios, cenários, marcação, etc.) que atrai a colaboração de todos os clientes, até mesmo dos mais regredidos. No decorrer desse processo, muda todo o clima da Casa, quebrando-se muitas tensões e capacitando o cliente a investir afetivamente em outra idéia sem medo. 58 59</p><p>Ser um ensaio para a vida é também uma das funções específicas do CINEMA teatro na Casa. Ser um ensaio para a vida na medida em que a Casa esponta- neamente se coloca como uma ponte entre o hospital psiquiátrico e a comuni- dade. E muito das ansiedades sentidas nessa difícil adaptação onde na maioria das vezes, a comunidade é vista como hostil, são trazidas em níveis de fanta- sia para o teatro e vividas como uma realidade. Não muito raro são as recor- dações de acontecimentos do passado onde o tumulto de emoções (que im- pede a percepção da realidade) são trazidos para o teatro como forma de si- tuar-se no presente. Doca Me tirem daqui, liberdade. Me tirem daqui. Doril, Doril A piada Vozes das sombras Sobe pela luz D esde muitos anos a atividade de cinema foi desenvolvida na Casa das Palmeiras por meio da projeção de filmes educativos e culturais cedidos Mas apagou-se a luz principalmente pelas embaixadas da França e da Holanda. Uma vez por se- Ah, estamos sós e nus. mana Marlene ia buscá-los, discutia com os clientes seus te- mas e levava de volta os pesados rolos dos filmes às instituições que os ha- (Fragmentos da peça teatral Doca, dos arquivos da Casa das Palmeiras). viam emprestado. Mais tarde a atividade de cinema adquiriu um desenvolvimento maior, Luiz Carlos com uma monitora especializada. Denise Paulo Cesar Quando fui convidada em final de 1974 para trabalhar com cinema e terapia na Casa das Palmeiras senti um misto de satisfação, expectativa e in- segurança. Ao contar para Nise os meus temores por não saber como me comportar em relação aos clientes, ela me como trata- ria qualquer pessoa, como você faz com seus Jamais esqueci essa recomendação. Iniciei o trabalho tentando dar continuidade às atividades na Casa, com cinema: projetei alguns documentários ou de ficção, utili- zando apenas conversas após as projeções. Para minha surpresa, depois da primeira projeção, antes mesmo de iniciar o debate José pediu a palavra e me perguntou: que você achou de Contei-lhes então minha conversa com Dra. Nise. Em algumas sessões eu anotava o que diziam sobre os filmes, em ou- tras eles mesmos escreviam suas impressões/emoções. Mais tarde foi criado um cine-clube que recebeu o nome de Hirszman com a finalidade de mostrar, uma vez por mês, um longa-metragem. Nessa tarefa tive a ajuda de Gina, uma das psicólogas e grande admiradora de cinema. A idéia era a de que o cine-clube fosse inicialmente administrado por nós, mas posteriormente passasse a ser assumido pelos próprios clientes. A escolha dos filmes era sempre feita por votação a partir de uma lista que eu levava de filmes dispo- 60 61</p><p>níveis na Embrafilme e as discuções sobre o filme eram feitas no mesmo dia, localizada a Casa, na Tijuca. Depois, fomos até as calçadas da Universidade quando sobrava tempo, ou no encontro seguinte. Obtivemos bons resultados Estadual do Rio de Janeiro, onde se desenrolaram as cenas do tema com alguns filmes e pouco interesse em outros. Víamos que os clientes ti- nha" e, finalmente, um passeio bem mais longe, na praia da Barra da Tijuca e nham dificuldade em acompanhar certas histórias e os encadeamentos entre no Alto da Boa Vista para as cenas do tema Foi muito bonito ver as cenas. No processo de rememorização das imagens, apenas algumas pou- a alegria de Luis Cláudio rolando na areia e deixando o mar cobrir seu corpo; cas cenas ficavam na lembrança. Ante as dificuldades no aluguel de filmes e a era a primeira vez que ele ia à praia não obtenção do rendimento desejado, desistimos do trabalho com o cine- Depois de pronto, o filme foi projetado várias vezes: todos pediam para clube. Passamos então a experiências com projeção de imagens fixas, utili- ver novamente. zando a realização de diapositivos manuais feitos com papel vegetal. Depois curioso é que, nesse momento, nas reuniões de avaliação do trabalho de prontos, eles eram emoldurados, ordenados e projetados. Em seguida, que faziamos juntos, Mauro e eu chegamos à conclusão de que precisávamos cada um tecia comentários em voz alta sobre o seu trabalho. retroceder um pouco para a fase da imagem fixa, antes de iniciarmos outras A atividade rendeu bons frutos. Gratificava ao grupo ver seu desenho filmagens. Passamos, então, a utilizar fotos de revistas, escolhidas e recorta- ampliado e projetado para todos (um desenho de 4cm. ocupava o tamanho de das e depois coladas em folhas grandes de papel pardo. Com o gravador, e uma tela de cinema). sentados em grande roda, começávamos um bate-papo sobre a escolha das Em 1977 iniciamos os primeiros trabalhos de registro em filmes. As fotos, conduzido por perguntas do tipo: por que a escolha dessa foto, o que a primeiras filmagens, por escolha dos clientes, limitaram-se a pequenos regis- foto lhe transmite, qual a parte da foto que gosta mais, o que falta na foto? tros feitos em Super 8 sobre as atividades e os vários setores da Casa: as au- O gravador trouxe um elemento integrador para o grupo. Ouvir a sua las de expressão corporal, a carpintaria, as festas, os trabalhos de pintura. voz, ouvir a voz do outro, comentar a fala alheia; tudo isso foi muito impor- Depois disso sugeri fazermos um filme sobre pintura. Propus, então, desenha- tante. rem especialmente para a filmagem. Os desenhos foram filmados cada um em Voltamos às atividades com papel vegetal e dessa vez com muito mais separado, com a câmera num tripé em planos bem próximos, podendo assim proveito. Depois, reiniciamos as saídas da Casa, para fotografar. Os locais ser mostrados em todos os seus detalhes. eram escolhidos pelos clientes, como também os enquadramentos e posições Fez-se, a seguir, uma gravação, onde cada um se pronunciava sobre o em que desejavam ser fotografados. Sentimos que estávamos mais maduros desenho feito. título do filme, sugerido por um dos clientes, resume de para recomeçar o trabalho com filmagem, que já poderia ser mais complexo, forma imaginosa a atividade com imagem/terapia: "As cores e as com roteiro, filmagem, montagem. interesse pelo cinema, nesse momento, já era grande. Todos reunidos em círculo, começávamos a construção do roteiro cole- Por que, então, não partir para o manejo da câmera onde pudessem eles tivo um iniciava a história e o seguinte continuava; depois de todos fala- construir a imagem e se ver na imagem? rem, recomeçávamos a roda para pedir que explicitassem alguns pontos que Continuamos, no entanto, com as projeções de filmes curtos até surgir achassem importantes. a oportunidade de conseguirmos com Geraldo Sarno a pré-estréia do filme No trabalho de visualização das cenas, onde cada um comentava como Coronel Delmiro Gouveia, em beneficio da Casa e, com isto podermos com- deveriam ser os enquadramentos e ponto de vista das imagens, alguns pontos prar filmes. ainda eram modificados. Na dramatização das cenas, uma espécie de ensaio Propor uma situação em que cada um fosse ao mesmo tempo ator e de filmagem, usávamos o gravador para compormos os diálogos. espectador era agora a nossa tarefa: câmera não mente, e para cada um amigos que se queriam muito construíram um castelo medieval de nós, a nossa própria imagem é uma fonte de (Henri Dieu- de rara beleza na (trecho do início do argumento). Título do filme: zeide, especialista em pedagogia audividual). e Locais de filmagem: Praia da Barra da Tijuca, Praia do Nesse momento já estavam trabalhando comigo dois estagiários de psi- Arpoador, Casa das Palmeiras na Rua Dona Delfina. cologia, Mauro e Denise, a quem muito devo por sugestões e colaboração. Depois de pronto, o filme foi projetado várias vezes para a escolha das filme estão iniciado não teve um roteiro elaborado, ilustrando apenas cenas melhores, com vistas à montagem. Em seguida, gravação de ruídos e temas escolhidos pelo grupo: vergonha, natureza, miséria e opulência. E esse diálogos definitivos. A música foi executada ao piano por um dos clientes. momento trouxe outra fase importantes:os passeios fora da Casa para as fil- A possibilidade de rever várias vezes o filme no processo de prepara- magens. As primeiras saídas foram apenas na mesma rua onde estava então ção da montagem e mesmo depois de pronto, o confronto do novo e estranho 62 63</p><p>com o conhecido e familiar, abriam um campo inigualável de ajuda do cinema Devido ao impedimento de Marialva, o trabalho continuou com dois no campo terapêutico. Ver-se refletido na tela, descobrir o próprio corpo, re- outros monitores, estagiários de psicologia, durante ainda um largo velou para nós que tínhamos em mão um instrumento de grande potenciali- Estes estagiários terminam assim seu relatório final: dade de terapia e descoberta de nós mesmos. Realizamos mais um filme que não chegou a ser montado nem sonori- zado: A grande vitória. Era a história de um rapaz do interior que vinha tentar a vida na cidade grande. Infelizmente, apesar do título do filme sugerir que havíamos conquis- tado finalmente aquele instrumento de trabalho, tive de me afastar da Casa. Havia iniciado um novo trabalho com educação e cinema na Embrafilme que me absorveria completamente, impedindo-me de dispor do horário semanal para a Casa. Possivelmente, as pesquisas sobre a imagem visual projetada venham a Foi em janeiro de 1980. Até hoje me pergunto se fiz uma boa escolha. contribuir para uma compreensão da chamada do que, se- gundo Lacan assinalaria um momento fundamental para a constituição do Marialva primeiro esboço do ego. Se possível assim, poderíamos aprofundar um pouco mais sobre a da imagem pessoal", responsável pela dissocia- ção do ego, ou seja, da chamada doença mental. Há muito que se repensar também quanto ao relacionamento entre a linguagem e a inscrição do sujeito na realidade. No campo da Saúde Mental, há uma grande preocupação quanto ao à realidade" como um dos critérios da recuperação. A representação da realidade, investida de significa- do, foi utilizada pelo conhecido método de educação popular por Paulo Freire como forma de melhor inscrever e organizar o grupo dentro da realidade vin- venciada. Concluiu que a decodificação da imagem projetada em slides atingia o nível de catarse, considerando-se os investimentos afetivos sobre a repre- sentação escolhida. Acreditamos também que a imagem visual poderá ser utilizada como mais um dos instrumentos em Saúde Mental, se não for encarada apenas como método de estimulação de consumo, nem tampouco como única forma de denúncia de uma realidade que se pretende transformar. Denise Mauro 64 65</p><p>MÚSICA ções musicais a partir do exercício dos parâmetros fundamentais da música: altura, duração, intensidade, timbre, utilizando para isso as técnicas ofereci- das pela música contemporânea (improvisações, por exemplo). Uma vez exercitados estes parâmetros partíamos para a elaboração de peças musicais simples, porém de grande resultado, como mostrava o interesse e a ativa par- ticipação do grupo. Estas peças musicais poderiam ser improvisações livres ou com um tema dado por um membro qualquer do grupo, peças vocais (cantatas, mis- sas), peças instrumentais (percussão, piano, flauta), trilhas sonoras para as encenações teatrais da Casa, músicas especiais para as festividades, diálogos utilizando apenas instrumentos de percussão, improvisos individuais, etc. Em todas as atividades, procurávamos estimular ao máximo a criatividade, O efeitos da música sobre os distúrbios emocionais são conhecidos desde alertando para a necessidade de incluir essa criatividade dentro do contexto remota antigüidade. do grupo. Lembremos aos desmemoriados da história da psiquiatria brasileira: trabalho vocal recebeu ênfase especial pois além de ser mais sim- No ano longínquo de 1854, dois anos depois da inauguração do ples, não necessitando de nada além da própria pessoa, vai de encontro à cio de Pedro II, José Clemente Pereira, provedor da Santa Casa da Misericó- problematica de comunicação oral. Improvisar, soltar a voz, gritar, são exer- rida e principal incentivador da criação daquele Hospício, sabendo que havia cícios utilizados há milênios para despotencializar energias, relaxar ou mesmo alguns músicos entre os doentes, ofereceu-lhes instrumentos: rabeca, flauta, estimular, ou expressar uma realidade cósmica (OM para orientais é o som clarineta e requinta "como meio de distração ou talvez de cura". Um homem do universo). No trabalho instrumental, a percussão (incluindo aí o piano) é a de alta intuição. mais indicada não só pela riqueza e variedade de timbres que se consegue sem A música foi um dos primeiros setores cultivados na Casa das Palmei- necessitar um aprendizado específico, como também pela variedade de mate- ras. Tivemos para orientá-los numerosos colaboradores: Ruth, Cecília, He- riais empregados (madeira, metal, plástico, couro) o que é muito importante: loísa, Leila, Eurípides, Aristéia e outros mais. algumas vezes, a pessoa só gosta de tocar instrumentos de madeira, por ser um material natural e maleável, o ferro frio dos triângulos e é um con- tato duro para uma sensibilidade tátil desprotegida, ou mesmo o som por eles A primeira questão com que me deparei ao iniciar o trabalho de música produzido, metálico e penetrante, para uma audição hipersensibilizada na Casa das Palmeiras foi: que gênero de música seria o mais indicado para Quanto aos demais instrumentos, sempre que há alguém que os toque, logi- esse tipo de atividade: música popular, clássica tradicional ou folclórica? camente serão aproveitados. Já sabíamos de antemão que esta atividade deveria atingir o maior nú- Quanto à organização das peças, a forma é uma das poucas coisas a se mero de pessoas possível, utilizar uma linguagem que não fosse regionalista, exigir Harmonia, polifonia, melodia, serão coisas que resultarão no próprio particularista ou que necessitasse de muito aprendizado, muita informação. decorrer da peça. A idéia seria estabelecer o menor número possível de ações Nenhum dos gêneros suscitados acima correspondia a esta exigência. obrigatórias (inevitáveis para uma organização racional) e liberar os demais Eu estava justamente iniciando meu curso de música, e estas dúvidas para a criatividade. Assim, podemos ter uma música com forma e texto defi- eram támbém minhas dúvidas como criador e profissional. Logo entrei em nidos, o restante aleatório; ou ritmo definido e o texto improvisado, etc. contato com a música erudita contemporânea que, a despeito de ser uma mú- Os resultados foram, a meu ver, excelentes. Pessoas que na pintura sica ainda não divulgada, pouquíssimo conhecida pelos próprios músicos, di- não conseguiam figurar nada além de caos, nos improvisos com percussão zia conter uma estética e um método de experimentação que, pela realidade criavam nuances rítmicas e discursos musicais de alta qualidade. Duplas im- histórica em que se baseava deveria expressar corretamente a estrutura, a provisando ao piano (graves e agudos) criando sons, frases, harmonias de ine- sensibilidade do homem ocidental contemporâneo. gável valor musical; diálogos com tambores nos quais uma comunicação Assim, nossa opção foi: em vez de procurar criar em cima de certo gê- sical era estabelecida e acompanhada pelo grupo resultaram em cenas de pro- nero de música, partimos para criar a música, ou seja, desenvolver composi- fundo sentimento; improvisos coletivos onde o grupo começava, desenvolvia 66 67</p><p>e encerrava uma idéia, numa verdadeira realização musical. Tudo isso acon- primeiro contato que tive com a Casa das Palmeiras foi a aula de tecendo num clima de deleite e apreciação. Claro está que nosso objetivo não canto de Dona Aristéia. era absolutamente musical" na atividade, mas a música está den- Minha situação era na época muito difícil. Estava tomando os remédios tro de todos nós, é só soltá-la. comumente receitados pelos psiquiatras: Amplictil, Haldol, Akineton-retard Quero deixar expressa a minha gratidão a todas as pessoas que fazem Era como se todo o meu ser se movesse com lentidão e dificuldade. turbi- ou fizeram parte da Casa das Palmeiras, cujas atividades foram para mim uma lhão em que eu vivera durante meses amainara. Começava pouco a pouco grande escola, como músico e como ser Muito obrigado. uma nova fase. Ainda envolvido pela densa atmosfera mágica e por inúmeras impressões fugidias e confusas, eu conseguia atuar com muita dificuldade no Eurípedes mundo real e levar uma vida aparentemente normal. Esta fase foi marcada & sobretudo por grande isolamento e imensa impossibilidade de contato com ou- tros seres humanos. A solidão aumentava à medida que diminuía a força do meu mundo Foi assim que cheguei um dia à Casa das Palmeiras. Era pouco depois da hora do lanche. Havia muita gente. Vaguei durante algum tempo pela Casa sem ter a menor indicação de onde poderia ficar. Começava a me sentir an- gustiado, ainda mais isolado e muito triste. Não valia a pena o sacrifício de movimentar-me, por ruas cheias de gente, por mais de uma hora, para chegar até ali. Felizmente começou a aula de canto. Dona Aristéia viu um rosto novo, meio atrapalhado, sem saber o que fazer, e não teve dúvidas: indicou-me um lugar vazio e entregou-me uma pasta cheia de letras de músi- ca. Sentou-se outra vez ao piano e pouco depois as canções enchiam a sala. Eram canções simples, populares-girando sobretudo em torno daquilo que nos é querido, lugares queridos, pessoas queridas, possibilidade de amor e felici- dade. Lembro-me de uma música em particular que falava de um lugar dis- tante que nos fazia sonhar e onde a gente conseguia os sonhos realizar. A sica foi repetida muitas vezes e praticamente gritada pelo coral. Ninguém pode ter idéia da alegria que senti. É difícil para quem nunca atravessou uma psicose entender o quanto é vital para uma pessoa que está vivendo no mundo dos sonhos, a esperança de uma ou lugar, em sonho e a reali- dade não sejam oposições muito violentas. O repertório de Dona Aristéia é pequeno e repetitivo mas dá expressão a necessidades afetivas profundas dos clientes de uma maneira simples, ac- cessível a O coral está sempre Não há praticamente quem não dê sua contribuição, mesmo tímida, ao coral. meu universo musical durante a doença era muito rico. Mesmo hoje recorro às músicas daquela época se me acontece estar triste ou desanimado. Eram músicas complexas, misteriosas, impregnadas de religiosidade, muito diferente das canções de Dona No entanto, as emoções transmitidas eram, muitas vezes, comuns. As canções do coral foram para mim um elo entre sonho e A 69</p><p>aula de canto tornava palpável um pouco do meu mundo mágico que já agora As estagiárias do Conservatório Brasileiro de Música registram: procu- não era apenas meu mas uma experiência que podia ser compartilhada por ramos usar o material trazido pelos próprios clientes. Os clientes trazem can- outros seres humanos. ções (populares, folclóricas) que desejam cantar. É preciso observar que estas Naquele dia saí da reunião de canto querendo que ela continuasse por canções quase nunca são escolhidas ao acaso. Elas são usadas para transmitir mais tempo. Estava bastante consolado. Sou grato a Dona Aristéia pelo bem emoções e sentimentos que, muitas vezes, os clientes não querem ou não que ela me fez. conseguem expressar diretamente. Falar de forma direta significa aproximar- se demasiado de emoções para as quais não se está preparado. As palavras de Vivaldo outro, que neste caso são as letras das músicas sugeridas, fornecem a distân- cia adequada e transmitem os conflitos básicos dos clientes. Outras atividades, ainda, são desenvolvidas, sempre levando em con- sideração a aceitação do grupo: diálogos rítmicos. improvisação instrumental apresentação de improvisações com o grupo dividido em 2 (dois) ou 3 (três) subgrupos, etc. apresentação de músicas folclóricas, segundo a terra natal de cada um. As sessões são sempre finalizadas com a avaliação, onde os clientes podem falar do que foi realizado, do que sentiram, em relação a si mesmo e aos outros. Ione Mariluza Ana Maria Sylvia 70 71</p><p>Encerrado o estágio das musicoterapeutas citadas, o trabalho prosse- guiu sob a orientação da musicoterapeuta Alzirita, em sessões semanais du- LANCHE rante os anos de 1984 e 1985. A função da música atingir o indivíduo em sua totalidade. Ela traz à tona apenas o que já existe em estado latente no indivíduo seus conteúdos internos como num Através da música (discurso musical, letra), o indivíduo está transmi- tindo emoções que não são verbalizadas diretamente (evidentemente falar de forma direta significa aproximar-se demasiado a emoções para as quais não se está preparado) É A MÚSICA (letra, compositor) e NÃO EU. Por meio do ritmo e do som, a música atinge a motricidade e a senso- rialidade, e por meio da melodia atinge a afetividade. no lanche que encontramos Maria Sinhazinha que assumiu suas funções "A melodia de um texto persisitente é uma voz do pré-consciente e pouco depois da fundação da Casa até o momento atual. Maria, tera- que deve ser compreendida do mesmo modo que um fragmento sonhado, uma peuta nata, intuitiva, que conjuga na sua pessoa a energia e a ao li- fantasia ou um ato repetido. Tais fragmentos líricos têm um significado evi- dar com clientes dente e um latente. significado evidente reitera a posição defensiva na superfície; o significado latente, que se refere aos impulsos e desejos e a sua origem gené- O lanche na Casa das Palmeiras é uma atividade diária e intermediária tica, se revela somente através das análises da lírica como se fora um sonho. "É de importância fundamental o material melódico que o cliente nos entre as atividades executadas individualmente e as de grupo. São 3 horas da tarde. Uma sineta trila ecoando sem a dinâmica da Casa. É mo- traz, como também, e fundamentalmente, o material criado pelo cliente. É mento onde todos nós clientes e técnicos nos encontramos no mesmo preciso esclarecer que, obviamente, são nas sessões de musicoterapia que o espaço, no sentido de uma grande comunhão. clima é um dos mais afetivos cliente trará uma linguagem de comunicação feita de melodias ou canções. A que podemos vivenciar. função do musicoterapeuta não será a de interpretar esse material, função do É Maria quem coordena esta atividade, quem arruma o cardápio, as psicoterapeuta, senão a de estabelecer uma compreensão, um diálogo e uma mesas, as quais todos nós ocupamos sem lugar marcado; sentamo-nos onde atuação musical da (Hannet). queremos. através de seu elan conosco que Maria consegue realçar e dar A música pode atuar quase como um co-terapeuta evocando respostas brilho ao alimento mais simples. emocionais, libertando material armazenado na A música pode in- Assim sendo o lanche na Casa das Palmeiras também é uma atividade fluenciar clientes não verbalmente, de um modo não acessível ao terapeuta terapêutica, na medida em que a finalidade primordial não é só alimentar o humano, verbalmente limitado. A música, na realidade, facilita o processo. organismo, mas sim o relacionamento interpessoal: promover o convívio. É neste momento que se manifestam também as mais variadas expressões de Alzirita convívio em grupo: até mesmo alguns segredos são confidenciados, como por exemplo, o dia-a-dia em nossas próprias casas. O co-terapeuta BEAU participava do lanche sem contudo impor- tunar; e cada cliente, amigavelmente, repartia o seu lanche com ele. Vicente 72 73</p><p>BAILE a descoberta, o encontro de nós conosco, de nós com o outro e com o Uni- verso. Cabe ainda lembrar que, uma das características sui generis que ocor- ria no baile, na Casa das Palmeiras, era a presença do cão Beau que sucedeu ao Peri. Beau, co-terapeuta por excelência e incondicional, o qual participava pegando no pé de alguém, mas sabendo o que estava fazendo. Entrava na dança. Nunca nas brincadeiras de Beau, ele machucava alguém. Apenas mo- derava suas mordidas. Era uma transmissão de afeto que todo o pessoal en- tendia. Beau, o era um co-terapeuta de grandes qualidades. Era um per- feito cavalheiro. Morreu, em acidente cirúrgico, no dia 5 de julho de 1982. N a Casa das Palmeiras, o baile é uma atividade que também compõe Vicente quadro das atividades em terapêutica ocupacional. 0 baile ocorre sempre às quartas-feiras, dando continuidade ao Além de ser uma atividade lúdica é, por excelência, na Casa das Pal- meiras, uma atividade expressiva. baile começa, a partir do momento em que nós todos (clientes e téc- nicos) arrumamos o nosso próprio espaço retirando os objetos que es- tão no salão (mesa, cadeiras, etc.), tornando-o mais amplo para que possamos nos movimentar à vontade. Em seguida colocamos na vitrola, discos com va- riados tipos de música. A escolha surge Alguns trazem dis- cos de casa. Surgem casais dançando: clientes e técnicos. clima logo cresce pela ação das pessoas em consonância consigo mesmas e com as músicas, expres- sando livremente o Mas a finalidade desta atividade, na Casa das Palmeiras, não é somente lazer, como já dissemos anteriormente. Ela traz em si, como ponto impor- tante, características psicológicas que se manifestam, tais como: a quebra da timidez entre as pessoas; a escolha do seu par, geralmente do sexo oposto; a escolha espontânea e individual da música; o calor afetivo. que se manifesta corporalmente, através da dança, favorecendo o relacionamento interpessoal; a manifestação expressiva-corporal de cada pessoa acompanhando a música com seu próprio ritmo interno e não tendo que entrar necessariamente no ritmo da música, daí surgindo formas simbólicas significativas do corpo de cada pessoa, das duplas, ou do grupo todo. Em suma, o baile promove na sua intensidade uma fascinante energia que nos possibilita ir e vir, tocar no outro, trocar e transformar, promovendo 75 74</p><p>FESTAS GRUPO CULTURAL A festas também fazem parte da vida, da dinâmica da Casa das Palmei- ras. A alegria é compartilhada por todos Cada festa tem sua própria decoração, na qual todos participam. Mas o expoente máximo nas ornamentações de cada festa é a pessoa de Mário. Cliente amigo, qual fica totalmente responsável pela decoração de cada festa. Brilho nos olhos. Desenvoltura nas ações O Grupo Cultural reúne-se semanalmente na Casa das Palmeiras, como Sorrisos nos lábios e gestos carinhosos. uma atividade que e estimula a organização do pensamento. Discos na vitrola. Grupo foi criado pelo monitor Paixão que orientou durante muitos Jogral e declamação de poesias. anos. No impedimento de Paixão, assumiu a direção do Grupo, Míriam, de- Canto-coral e danças. pois o médico Paulo e, posteriormente, estagiárias. Representações teatrais e improvisações. Clientes, técnicos e familiares juntos, vivendo sob o mesmo clima de É quinta-feira. É sempre às quintas-feiras, logo após o lanche, que to- alegria, complementado com uma simples mas viva decoração, compõem o dos nós, lado a lado, rodeamos a fileira de mesas grandes, forradas por to- quadro das festas na Casa das Palmeiras. alhas de plástico, para participarmos do Grupo Cultural Estas ocorrem nas datas apropriadas: Carnaval, São João, Primavera, e papéis, borrachas e apontadores são dispostos ao longo das Natal, cada ano o aniversário de fundação da Casa, aniversariantes do mês, mesas. Espontaneamente, surgem os mais variados temas. Alguns dizem res- festejadas de maneira simples e alegre, reforçando o carinho que nos une. peito à política; outros, ao social; outros, ao religioso, etc. Mas todos trazem As festas de aniversariantes do mês caracterizam-se, psicologicamente, em si mesmos a marca expressiva da intimidade de cada membro do grupo por personalizarem cada indivíduo, reforçando a sua individualidade. en- com a vida. A sua realidade crua, vivida intensa e apaixonadamente. quanto que as demais caracterizam-se pelo seu sentido mais geral. É feita uma votação coordenada pelo monitor. tema escolhido pelo Todas as decisões sobre as comemorações festivas são tomadas no Clube Caralâmpia, onde clientes e técnicos trocam pontos de vista, sugestões, grupo é o tema que será vivido intimamente por cada um de Estabelece- propostas e discutem cada resolução a ser tomada. se um tempo para Feito isso, iniciamos os preparativos. Mãos se agitam avidamente em direção aos lápis, os quais lançam nos Os setores de Encadernação, Pintura, Artes Aplicadas e Cozinha papéis sentimentos que borbulham vivamente, com muita força de sincerida- unem-se e ajudam-se mutuamente no preparo de enfeites fazendo, por exem- de. As pessoas se compenetram como que engendrando algo e se expandem plo: bandeirinhas, cartazes, convites, faixas, máscaras, flores, doces, ao escreverem, ao darem forma a seus sentimentos e pensamentos. Tal mo- guloseimas, etc. vimento é semelhante ao pulsar de um coração, se reparamos as faces das Para nós da Casa das Palmeiras, as festas são importantes também do pessoas. ponto de vista psicológico e de grande valor terapêutico, na medida em que se pensamento sai do plano do chão. Cria asas. Alça expressando tenha possibilidade de vivenciar o lúdico, o real e imaginário e, sobretudo, o o anseio de Homem à espiritualização. afeto que se expressa desde a idéia surgida tal como fazer a festa Todos Apenas todos escrevemos algo. Não importa quantas folhas de de..." até a realização desta. papel utilizamos. Não importa se surge apenas uma frase ou até mesmo uma Vicente palavra. Não importa se há concordância gramatical ou não. Esta atividade 76 77</p><p>não é necessariamente educativa ou erudita. Se assim for, é pura coincidên- Se não conseguirmos isso, ficamos sozinhos. Hoje eu não queria participar do cia. Grupo Cultural, mas logo me animei a lutar pela vida e encontrei na palestra O Grupo Cultural é sobretudo um caminho livre que possibilita a orde- dos colegas e principalmente nas palavras do Paixão, a resposta a muitas nação do pensamento em sintonia com o sentimento. Por isso, os comentá- perguntas que já fiz a mim mesma. importante é que encontrei em mim rios, as discussões surgidas após a leitura de cada pessoa são abertos, ser- energia para vencer e participar e com o tempo you conseguir o mesmo vindo como feed-back que possibilita a reflexão, a assimilação e até mesmo a dentro da minha casa. Um abraço amigo aos monitores e colegas. Um abraço transformação de alguma coisa dentro de cada um de nós. a todos que recomeçam o nosso trabalho. Marly Lisete Na calçada da noite fria Como prolongamento do Grupo Cultural, os clientes também organiza- Esquimós tomam cálices de calor ram alguns números de uma revista, por eles escrita e ilustrada Primavera Enquanto no terceiro Mundo e afixam periodicamente um jornal mural Muitos de barriga vazia Seguem-se alguns poucos exemplos de escritos redigidos durante o Sem receber um mínimo de amor tempo dedicado à atividade do Grupo Cultural. Continuam em estado moribundo Falta calor humano e poesia Estou preocupado com a minha agressividade mental, que está Também confraternização sem con felizmente sendo dominada também com este grupo, e neste teatro cultural Para um bem-estar vagabundo me preocupa a expansão do meu super-homem que os charlatões que criaram Marco Antônio mais vida espiritualista, isto é, do outro mundo, fazendo deste uma tragédia para o outro ser sempre o Paraíso, então não só se mortificam como Ir à Lua; lutar só Povo Americano lutando só; lado mal, lado mortificam os outros também; é um morto-contínuo destruidor e sempre Guerra; Democracia; Valores sociais, individuais. Cultura, qualidade, evoluindo. erudição, mente sadia. Então fico um pouco inibido, ouvi dizer que é tímido, mas you reagir Ir à Lua. Por que será que se preocupam tanto será que eles para me animar e o que somos e não o que os médicos e monitores estão querendo esconder o que se passa na sua mente ou têm dificuldade de Então vem a alegria intensa em ser mais compreendido por todos explicar? meus amigos. Perder nossa razão profunda pois ela está escravizada por Lutar só. Sim lutamos só, o que seria de nós se não fosse o nosso idéias venenosas que nos acompanham desde criança. cérebro com capacidade de raciocinar, para lutarmos só. Lado mal. Existe lado mal? José Eu acho que o mal é que nós enxergamos, interpretamos erradamente. As flores são belas quando a gente se transforma no verdadeiro campo Guerra. mundo todo vive em guerra. homem enquanto não se florido. encontrar estará em guerra Elisa Democracia. Não existe democracia, nunca existiu. povo não consegue isso. o que me mete medo é sair sozinho e encontrar comigo mesmo numa Valores individuais. O que o povo chama de valor eu não entendo. esquina deserta. Valor para mim é valor ao presidente? Deivison Valor ao patrão? Valor ao general? Neste ano que faz pouco começou, eu não quero me preocupar tanto Valor ao escritor? com a Marly. Acho mesmo que o pior de tudo é vermos doença em tudo, sem Não, não é isso que significa a palavra valor. Portanto acho que ela pensarmos nas coisas boas e nas melhoras conseguidas. Preciso ser mais poderia bem sair do dicionário porque o povo não pode otimista e menos egoísta. É preciso compreender a as outras pessoas. Terezinha 79 78</p><p>Se os Deuses existem isso é uma dúvida De repente! A imagem sorri. mas as flores são uma realidade. Mas impossível! Como pode ser? eu choro e minha imagem sorri... Perplexo, sinto o meu reflexo Paixão falou no campo geométrico que eu gostei e sorriso também. E falou na transa, nos sonhos Nós dois, rindo de nós dois. E falou que a criatura pequena Também tem suas emoções Eu compreendo E eu penso que estou melhor. Aprendo e sinto, Sua, minha imagem. Ronaldo E repito. Eu e a minha imagem não é uma boa!" Quando o amor atrair a alegria, Falo sério, vou me desligar. Ah! Esquecerei minhas dores? Vou sorrir para a vida. Ivan E não só para mim, em um Eu sofrido. Na naturalidade de um momento Fecho os olhos Saio do espelho, Está toda a espontaneidade E entro em Mim. Não adianta forçar uma realidade Sou Eu, Sejamos pois Sem imagens tristes Uma parte do que existe Com muito amor Para sermos real Sem aquela Para nós mesmos. De penetrar muito na dor. Pedro Paulo Compreendê-la Depois da visão Sem me machucar uma rosa, um pingo d'água Rosa Branca, símbolo da paz... Eu entro em Mim Eudócia Eu entro em Mim Mas sem chorar Olho no espelho e me contemplo João Carlos meu olhar com meu olhar. Choro sem saber porque choro Sorrio sem saber porque Sinto arrepio E o frio talvez da morte, me invade. Por um minuto, fico tenso e choro, choro e me lembro choro e relembro. Eu só, você longe. Sem deixar de me olhar Na imagem refletida do mesmo espelho que sorri e chora comigo. 81 80</p><p>DOS CLIENTES SOBRE A CASA DAS PALMEIRAS aos hospitais. Outros voltaram ao convívio social recuperados e até mesmo mais conscientes do mundo, que os que se julgam inteiramente A Casa das Palmeiras luta com dificuldade no campo financeiro porque não faz da dor dos outros um comércio, uma indústria. A Casa das Palmeiras A Casa das Palmeiras e a Sociedade se juntam. É como se a Casa das Palmeiras fosse uma casa de vida, ensina a pes- é um estado onde todos são iguais, sem aquela distinção do jaleco e o pijama. A Casa das Palmeiras é um lugar onde a linguagem das mãos têm a soa a criar e a se expandir melhor. mesma importância que a do intelecto e também o cantinho onde a afetividade é o seu objetivo. Aqui na Casa das Palmeiras, eu quero frisar, nós trabalhamos sem tra- balho, com prazer. A Casa das Palmeiras é a própria essência da ou seja, a E isto é importante. própria originalidade, o pioneirismo, a valentia, a coragem de trabalho dos moços e moças, senhores e senhoras com espírito jovial, vencendo dragões Aqui na Casa das Palmeiras as pessoas participam de outros tantos tra- do negativismo. É gente entusiasmada ensinando gente, não há uma hierar- balhos numa troca de experiências intensas. Nós aqui também criamos nossa quia, todos aprendem. É uma barreira de otimismo que alguém ou ninguém própria busca individual e uma tradição cultural na qual transmitimos a expe- pode destruir. A Casa tem clientes que procuram numa época de hoje, por riência de adaptação e compreensão das relações da natureza com a vida so- intermédio dos técnicos, clarear a negra fase de suas vidas. Os técnicos, ou cial. seja, o psicólogo, monitores, psiquiatras, lutam desesperadamente por um Eu, por exemplo, me encontrei melhor nos trabalhos escritos, porque caminho ainda atrasado no Brasil, desenvolvendo a confiança que as pessoas cultivei o significado das palavras. No Teatro expressei coisas a princípio têm nos outros indivíduos. muito confusas, depois bem compreensíveis, mas depois da peça pelo menos reconheci certas coisas que me tornam mais humilde. A maior alegria, no en- A Casa das Palmeiras é uma grande obra, porque é uma grande tanto, é libertar as energias e lidar com o equilíbrio das repito, evita assim, na medida do possível, a nossa internação em casas de saúde. Desculpem mas eu cito isso porque desde que estou aqui nunca mais A Casa das Palmeiras é onde a gente aprende a gostar das coisas sim- fui internado. Destaco aqui todos os médicos, funcionários e colegas dando ples da vida um amigo, um abraço. um voto de louvor a todos sem exceção. Aqui só tem gente simples, não tem nada de curtição. A Casa das Palmeiras é uma obra de É muito fácil acreditar no homem quando ele está em pleno gozo de sua saúde, quando ele encontrou felicidade, quando é realizado, enfim quando é um homem cuca legal, é muito fácil acreditar. Agora. difícil mesmo é acreditar quando ele está numa situação meio difícil que a gente não une uma coisa com outra, então a pessoa acredita em nós assim mesmo. E na nossa situação isto é muito importante. A Casa das Palmeiras foi fundada em 1956, com o princípio de propor- cionar melhor sistema de tratamento aos indivíduos em tratamento dos hospi- tais Procurou se colocar inteiramente diferente dos meios hospi- talares e com isso criou humildemente um método avançado no tratamento. Onde aí atividade ocupacional é o seu forte. Elas são elaboradas pela equipe médica e executada pelos monitores de acordo com a vontade dos hóspedes. 90% dos casos que e se ocupam das atividades deixaram de baixar 82 83</p><p>RECADO PARA A HUMANIDADE CLUBE A Casa das Palmeiras é uma casa que já deveria ter uma filial com o mesmo nome Venho lutando por essa causa há aproximadamente 25 anos, pois é uma prova de que a Nise da Silveira é muito perseguida. Pois uma obra como esta, de um alcance Imenso está enfrentando desde o princípio do século o medo. Contra provas não há argumentos. A minha maior alegria seria ver uma Gloriosa CASA DAS PALMEI- RAS Conscientemente Livre em Todos os BAIRROS DA CIDADE e em todo D e 15 em 15 dias nas reuniões do Clube Caralâmpia são feitas críticas a proje- o Brasil, pois a doença mental se propaga como qualquer epidemia, está aí a tos para uma 'nova atividade, e nas reuniões recreativas semanais todos prova, e a Nise da Silveira recebeu a condecoração de Oswaldo Cruz. se reúnem para conversar, ouvir música, dançar ou simplesmente não se faz Daí meu desejo de ver uma Gloriosa CASA DAS PALMEIRAS Consciente- nada disso. Fica na sua. mente Livre em Todos os Bairros, pois o Une e o medo separa", e Um cliente ainda tentam separar a CASA DAS PALMEIRAS da Humanidade. Eu estou chegando a um AMOR INDEFINIDO conscientemente livre, não tenho mais palavras, pensamentos e ações para dizer e que eu acho da No dia 03 de agosto de 1961, realizou-se a primeira reunião do Clube Gloriosa CASA DAS PALMEIRAS Conscientemente Livre. da Casa das Palmeiras que de início chamou-se Clube Recreativo. O AMOR deve ser mais conhecido pois o AMOR é INTERNACIO- A idéia da formação deste Clube partiu do médico Oswaldo NAL. então vamos ser sinceros, e espalhar o AMOR livre do medo. promover uma maior aproximação de todas as clientes e equipe É o recado que eu deixo para a HUMANIDADE técnica formando um todo, na busca de atuações individuais a nível de grupo. José Na reunião seguinte, a proposta de Coralina, monitora do setor de pin- tura, foi aprovada: criaram-se Departamentos Recreativo, Cultural e Ad- ministrativo, este último tornando possível uma participação atuante dos clientes na parte administrativa da Casa, através de sugestões, etc. para um melhor entrosamento funcional. Na quinta reunião, procedeu-se à votação para a escolha do nome defi- nitivo do Clube. Entre os vários sugeridos: Oásis, Liberdade Interior, Alvora- da, Esperança, Bom Humor, Vida Nova o mais votado foi um nome inusual, provavelmente uma homenagem a alguém muito querido por todos a cachorrinha Caralâmpia. Quinzenalmente, às quartas-feiras, reúne-se o Clube Não se pede mas todos comparecem. Cadeiras dispostas em círculo clientes e equipe técnica juntos. espontaneamente. De início, o grupo escolhe um Presidente para coordenar os trabalhos e um Secretário encarregado da feitura da ata referente aos assuntos tratados durante a reunião. Variados temas são abordados: marcação e planejamento de festas, de apresentação de clientes novos, comentários sobre fatos ocorridos. sugestões, etc. A participação individual varia de acordo com as possibilidades de 84 85</p><p>HINO DO CLUBE CARALÂMPIA cada um. Há os que falam muito, em tom alto, vibrante; outros quase num sussurro; alguns silenciosos, aparentemente distantes mas através de sutis in- Trá lá lá lá trá lá lá lá lá lá lá (bis) dícios a expressão de um olhar, o esboço de um sorriso, um movimento Na nossa bandeira quase imperceptível de dedos percebe-se neles a possibilidade ainda que Tem balança tem palmeira tênue de dar e receber, de compartilhar. Tem o sol prá iluminar Nada é forçado, tudo deve fluir de modo natural, de dentro para fora, Nossa estrada a vida inteira seguindo o ritmo e o movimento interno de cada pessoa. A errônea postura da psiquiatria tradicional de que uma hierarquia de Trá lá lá lá papéis deve ser rigidamente observada é desmentida pelo clima informal de Nossa estrada a vida inteira respeito mútuo. Propostas e idéias são aprovadas por votação, formando-se comissões para execução das mesmas. exercício de aceitar, de acatar o que Vamos, vamos minha gente a maioria pensa ser mais favorável. Todos democraticamente coesos na pro- Fazer nossa-reunião cura de soluções. Presidente é o primeiro Ao indivíduo que, por inumeráveis e complexas razões, se perdeu nos Secretário agüenta a mão escuros labirintos das pulsões inconscientes, é proporcionada a possibilidade de um gradual retorno para o mundo da realidade cotidiana. Não só através Trá lá lá lá das atividades terapêuticas onde pode dar configuração aquilo que está dentro Secretário agüenta a mão de si mas também por um progressivo reatamento de laços com o mundo que Se você for o terceiro rodeia. De algum modo, recomeçando através do afeto e do companheiris- Peço me dar atenção mo, a vivenciar a emoção de lidar com o outro. União, integração, onde o EU e o TU convergem para o NÓS num Que eu também quero falar Dar a minha opinião ambiente amigo e estável como o da Casa. Em meio a uma reunião do Clube Caralâmpia, dois clientes conversa- Trá lá lá lá vam. Quando um disse: os doentes". o outro imediatamente respon- Dar a minha opinião deu: "Doentes não, nós somos Pois no Clube Caralâmpia Marianna Todo mundo tem razão Mas só vence a sugestão Que tiver mais votação Trá lá lá lá Que tiver mais votação CLUBE Batam palmas companheiros Acabou a discussão ARALAMPIA Pois no Clube Caralâmpia Todo mundo é campeão Trá lá lá lá Todo mundo é campeão Trá lá lá lá trá lá lá lá lá lá lá (bis) Olvinda 87 86</p><p>Primeira Diretoria da Casa das Palmeiras Presidente: Alzira Lopes Cortes Diretora Técnica: Nise da Silveira Diretora Técnica Adjunta: Maria Stela Braga Diretora Administrativa: Lygia Loureiro da Cruz Atual Diretoria da Casa das Palmeiras Presidente: Maria Antonietta Franklin Leal Vice-Presidente: Alice Marques dos Santos Diretora Técnica: Nise da Silveira Diretor Técnico Adjunto: Osman Plaisant Neto Diretora Administrativa: Maria Antonietta Franklin Leal Diretora Administrativa Adjunta. Miriam Dina Ejzemberg Os textos apresentados nesta revista foram selecionados e organizados por Nise, Mariana e Lula. 88</p>

Mais conteúdos dessa disciplina