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Assédio Moral no Local de Trabalho - Estudo FGV

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consumo e maiores mercados. 
 
A passagem a este novo modelo, no entanto, não ocorreu sem problemas, afinal, este novo 
modelo exigia a passagem para um sistema de produção que “se apoiava na familiarização do 
trabalhador com longas horas de trabalho puramente rotinizado, exigindo pouco das 
habilidades manuais tradicionais e concedendo um controle quase inexistente ao trabalhador 
sobre o projeto, o ritmo e a organização do processo produtivo”. (HARVEY, 2001, p. 123) 
Heloani (2003a) frisa que a engenharia fordista não conseguia ir além das inovações 
tecnológicas já conquistadas, assim o aumento de produtividade implicava necessariamente 
maior intensificação do ritmo de trabalho operário, tendo como resultado o fortalecimento dos 
sindicatos e das greves. 
 
As causas por trás do sucesso econômico deste modelo, segundo Harvey (2001), se devem ao 
período de expansão após a Segunda Guerra Mundial, (de 1945 a 1973) e tiveram como base 
um conjunto de práticas de controle do trabalho, de tecnologias, de hábitos de consumo e de 
configurações de poder político-econômico. Logo, a configuração e o uso dos poderes do 
Estado foram plenamente assegurados após 1945 e estes fatores ajudaram a levar este regime 
de acumulação plenamente à maturidade. Mas, embora o sistema prosperasse, o desafio de 
treinar os trabalhadores em sistemas rotineiros, inexpressivos e degradados nunca foi 
totalmente superado, não obstante, as organizações sindicais foram sendo paulatinamente 
acuadas e convencidas a trocarem “ganhos reais de salário pela cooperação na disciplinação 
dos trabalhadores de acordo com sistema fordista de produção” (HARVEY, 2001, p. 129). 
 
Após várias décadas de ritmos crescentes, sucesso econômico, relativa calmaria e 
estabilidade, uma crise profunda abalou as bases deste sistema na década de 1970. Esta não 
foi uma crise de superprodução, mas sim uma crise de sublucratividade, decorrente da queda 
das taxas de lucro, decorrentes de acordos conquistados após da Segunda Guerra Mundial 
(HELOANI, 1994 e 2003a). Como resultado deste colapso, na opinião de Harvey (2001), 
iniciou-se um período de rápidas mudanças, de fluidez e de incerteza. Novamente o maior 
prejudicado foi o trabalhador. Dados de Heloani (2003a) mostram que em 1963, o 
 
 
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desemprego atingia 4,2 milhões de operários. Assim, novamente, as greves, os sindicatos e 
movimentos operários tentavam dar conta e combater os problemas criados pelo novo ritmo 
do trabalho. 
 
Para combater a crise, o fordismo efetuou duas grandes alterações na sua base: 1) os salários 
foram desindexados para segurar a inflação e tornar a economia mais competitiva e 2) 
restringiu-se drasticamente o Estado de Bem-Estar-Social. Para Harvey (2001) a profunda 
recessão da década de 1970 pôs em movimento um conjunto de processos que abalaram os 
compromissos fordistas. 
 
O trabalho organizado foi abalado pela reconstrução de focos de acumulação flexível em 
regiões que careciam de tradições industriais anteriores e pela reimportação para os centros 
mais antigos e normas e técnicas regressivas estabelecidas nestas novas áreas. A acumulação 
flexível parecia implicar em níveis relativamente altos de desemprego “estrutural”, rápida 
destruição e reconstrução de habilidades, ganhos modestos de salários reais (se é que houve) e 
o retrocesso do poder sindical - uma das colunas políticas do regime fordista. (HARVEY, 
2001, p. 141) 
 
Muitos dos valores caros aos indivíduos da sociedade capitalista foram abalados, tais como a 
crença no emprego vitalício, no paternalismo do Estado e na segurança da vida futura desde 
que se cumprisse com o papel dado dentro da fábrica. Heloani (2003a) explica que a crise do 
petróleo causou, em muitos países, déficits comerciais e houve recessão, redução de emprego, 
redução de consumo e poucos aumentos salariais. Dados de Caldas (2000) mostram que, 
somente nos Estados Unidos, entre 1979 e 1983, onze milhões de empregos foram eliminados 
em função de fechamento de fábricas ou enxugamentos de pessoal. Ao mesmo tempo, muitos 
países adotaram tecnologias intensificadoras de trabalho, o que provocou lutas sociais 
prolongadas e grandes choques com os sindicatos. 
 
Segundo Harvey: 
 
o mercado de trabalho, por exemplo, passou por uma radical reestruturação. Diante da forte 
volatilidade do mercado, do aumento da competição e do estreitamento das margens de lucro, 
os patrões tiraram proveito do enfraquecimento do poder sindical e da grande quantidade de 
mão-de-obra excedente (desempregados ou subempregados) para impor regimes e contratos 
de trabalho mais flexíveis. (2001, p. 143) 
 
O autor relata ainda que: 
 
 
 
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a acumulação flexível foi acompanhada na ponta do consumo ... por uma atenção muito maior 
às modas fugazes e pela mobilização de todos os artifícios de indução de necessidade e de 
transformação cultural que isto implica. A estética relativamente estável do modernismo 
fordista cedeu lugar a todo o fermento, instabilidade e qualidades fugidias de uma estética pós-
moderna que celebra a diferença, a efemeridade, o espetáculo, a moda e a mercadificação de 
formas culturais. (HARVEY, 2001, p. 148) 
 
Deste modo pode-se entender que após esta crise o mundo do trabalho nunca mais fosse o 
mesmo, o capitalismo mergulhou em crises sucessivas e recorrentes devido à competição 
global, às demandas dos consumidores por novos e melhores produtos, às mudanças 
tecnológicas que afetavam tanto a maneira de realizar a produção como a maneira de viver em 
sociedade, às transformações nas pressões da força de trabalho, e às preocupações com o meio 
ambiente. Tantas mudanças sinalizavam a necessidade de uma nova postura dentro das 
organizações e aumentavam a demanda por reações corporativas e mudanças organizacionais. 
(SHEEHAN, 1999). 
 
Como resposta, instaurou-se o Estado Neoliberal na década de 1980 e patrocinou-se uma 
ampla reforma do Estado, que foi um dos fundamentos das políticas públicas deste período. 
Dentro das organizações termos como empregabilidade, desregulamentação, privatização, 
dowsizing, terceirização e flexibilização dos contratos de trabalho refletiam a reação 
corporativa às incertezas do mundo contemporâneo. (HELOANI, 2003a; SHEEHAN, 1999) 
 
Deste modo, em contrapartida à crise global do capitalismo e à crescente incerteza dos 
mercados, muitas organizações optaram por realizar processos de mudança organizacional e 
reestruturação. Sheehan (1999) aponta que os processos de downsizing rapidamente foram 
aceitos como métodos de melhorar os ganhos corporativos e o valor das ações no mercado 
acionário. Segundo Heloani (2003c), para o trabalhador era difícil aceitar a idéia de carreira, 
se a própria questão de segurança no emprego vivia constantemente abalada por sucessivas 
reestruturações. Estas reestruturações, certas vezes chamadas de reengenharias, outras de 
downsizing, espalhavam um clima de terror dentro das organizações e sobrecarregavam os 
funcionários que ficavam. 
 
Muitos estudos já apontaram os efeitos nefastos de alguns destes processos de reestruturação e 
debateram a eficácia de seus resultados (por exemplo, CASCIO, 1993; LITTLER, 1996; 
McCARTHY et. al., 1996 apud SHEEHAN, 1999). As razões que justificavam a 
implementação de tais processos usavam como argumentos os desafios de competitividade no 
 
 
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mundo globalizado, as necessidades de pessoal com perfis mais heterogêneos, o maior 
comprometimento do pessoal e excelência operacional (MCCARTHY ET. AL., 1996 apud 
SHEEHAN, 1999). As justificativas mais usadas eram a redução das despesas, o aumento nos 
lucros, a melhoria na produtividade ou eficiência, os modismos e a obsessão por melhores 
resultados (CALDAS, 2000). A realidade, por outro lado, mostrava que estes objetivos 
raramente eram atingidos. Segundo Caldas (2000), 67% das empresas atestavam