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<p>Obesidade e desordens</p><p>alimentares</p><p>2</p><p>PROIBIDA A REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL, SEM AUTORIZAÇÃO.</p><p>Lei nº 9610/98 – Lei de Direitos Autorais</p><p>3</p><p>OBESIDADE E DESORDENS ALIMENTARES</p><p>Segundo a OMS, a prevalência da obesidade triplicou de 1975 a 2016. Somente em 2016,</p><p>mais de 1,9 bilhões de adultos estavam com sobrepeso e destes, 650 milhões de pessoas</p><p>estavam obesas, correspondendo a 39% da população adulta com sobrepeso e 13% com</p><p>obesidade.</p><p>Entre as crianças, a obesidade também é uma realidade. Em 2020, aproximadamente 39</p><p>milhões de crianças com menos de 5 anos estavam com sobrepeso ou obesidade.</p><p>Enquanto em 1975 menos de 1% das crianças e adolescentes entre as idades de 5 a 19</p><p>anos eram obesas, em 2016, cerca de 340 milhões estavam com sobrepeso ou obesidade,</p><p>sendo obesos 6% das meninas e 8% dos meninos. Conforme o IBGE, a incidência da</p><p>obesidade também tem sido alarmante na nação brasileira. Nos últimos 17 anos o número</p><p>de pessoas obesas em idade adulta mais do que dobrou no Brasil, de 12,2% em 2002 e</p><p>2003 para 26,8% em 2019. E, segundo PASSOS et al. (2020, p. 590) 56.9% dos adultos (18</p><p>anos ou mais) estão acima do peso, enquanto, 20,8% são obesos. A previsão é de que em</p><p>2025 cerca de 2,3 bilhões de indivíduos estejam acima do peso e 700 milhões desses</p><p>estejam com obesidade em todo o mundo, fator extremamente preocupante, pois a</p><p>obesidade é precursora de diversas doenças e, recentemente, foi apontada como fator de</p><p>risco para mortalidade por Covid-19.</p><p>As doenças cuja obesidade é um fator de risco são as DCNTs, como a resistência à</p><p>insulina, doenças cardiovasculares (DCV), diabetes mellitus tipo 2 (DM2), hipertensão</p><p>arterial sistêmica (HAS), doença hepática, câncer e neurodegeneração. Portanto, é</p><p>necessário se atentar aos valores de IMC, pois segundo a OMS, quanto maior o seu valor,</p><p>o risco de desenvolvimento de tais doenças aumenta.</p><p>Etiologia da obesidade</p><p>A obesidade é uma doença multifatorial, ou seja, poder ser ocasionada por diversos</p><p>fatores. Dentre eles estão os fatores exógenos, como os maus hábitos de alimentação e a</p><p>falta de prática de atividade física, que representam aproximadamente 95% dos casos de</p><p>obesidade infantil e juvenil, enquanto apenas 5% são causados por fatores endógenos,</p><p>como a predisposição genética.</p><p>Os índices correspondentes à obesidade exógena se dão principalmente pela mudança no</p><p>estilo de vida dos brasileiros, como costumes sedentários que contribuem para um gasto</p><p>calórico muito baixo no dia-a-dia, a má qualidade de sono, a compulsão alimentar e a</p><p>ingestão de alimentos processados e ultraprocessados, que são, respectivamente, versões</p><p>de alimentos modificados do original, fabricados com adição de açúcar ou sal, e alimentos</p><p>formulados industrialmente feitos de substâncias extraídas de alimentos, derivadas de</p><p>constituintes de alimentos ou matérias orgânicas como petróleo e carvão, ricos em</p><p>gorduras, aditivos e açúcares, que resultam numa alta ingestão de calorias. A ingestão</p><p>calórica maior do que o gasto energético diário tem como consequência o desequilíbrio</p><p>energético, ocasionando o depósito de gordura.</p><p>A obesidade endógena é caracterizada por fatores intrínsecos, como as alterações</p><p>hormonais, a influência genética, medicamentos ou alterações metabólicas que provocam</p><p>4</p><p>a obesidade. Exemplos dessas condições são o hipotiroidismo, Síndrome de Cushing,</p><p>Síndrome dos ovários policísticos, problemas neurológicos, tratamento com</p><p>antidepressivos, antipsicóticos, corticosteróides, entre outros.</p><p>Para o combate à obesidade, os fatores obesogênicos capazes de serem controlados são</p><p>os exógenos; na comunidade médica, estes são comumente associados apenas ao</p><p>controle da ingestão alimentar e à prática de atividade física. Porém, é importante</p><p>ressaltar que os tratamentos interdisciplinares, isto é, que consideram os pilares</p><p>multifatoriais da obesidade, incluindo os aspectos psicológicos, se mostram mais eficazes.</p><p>Fisiopatologia da obesidade</p><p>O tecido responsável pelo armazenamento de gordura é o tecido adiposo, composto pelos</p><p>adipócitos: células especializadas em acumular lipídios em seu citoplasma. Ele pode ser</p><p>dividido em tecido adiposo marrom, branco, responsáveis respectivamente pela</p><p>termogênese e pelo estoque de energia, e tecido adiposo bege, que por ser misto, é</p><p>responsável por ambas as funções. Além disso, nos últimos anos foi descoberto que o</p><p>tecido adiposo possui função endócrina e secretora, na qual os adipócitos conseguem</p><p>liberar adipocinas com ações pró inflamatórias e anti-inflamatórias.</p><p>Devido ao baixo gasto energético decorrente do estilo de vida, o metabolismo energético</p><p>passa a ocorrer principalmente pelo fígado, o qual aumenta a produção de lipídios, que</p><p>são preferencialmente armazenados pelo tecido adiposo na região visceral, todavia, o</p><p>acúmulo de gordura nessa região desencadeia um processo inflamatório e uma maior</p><p>liberação de adipocinas pró-inflamatórias pelos adipócitos.</p><p>Entre as adipocinas secretadas pelos adipócitos está a leptina, um hormônio peptídico de</p><p>167 aminoácidos pertencente à família das citocinas helicoidais de cadeia longa,</p><p>essencialmente liberado pelo tecido adiposo branco, que atua como um fator de</p><p>sinalização entre o tecido adiposo e o sistema nervoso central, com a função de controlar</p><p>a saciedade e a homeostase. Seu pico de liberação ocorre durante a noite e às primeiras</p><p>horas da manhã, e sua meia-vida plasmática é de 30 minutos. É responsável pelo controle</p><p>da ingestão alimentar, atuando em células neuronais do hipotálamo no sistema nervoso</p><p>central. A ação da leptina no sistema nervoso central (hipotálamo), em mamíferos,</p><p>promove a redução da ingestão alimentar e o aumento do gasto energético, além de</p><p>regular a função neuroendócrina e o metabolismo da glicose e de gorduras. Ela é</p><p>sintetizada também na glândula mamária, músculo esquelético, epitélio gástrico e</p><p>trofoblasto placentário.</p><p>A ação da leptina é feita a partir da ativação de receptores específicos presentes nos</p><p>órgãos alvos. Existem dois tipos de receptores para a leptina, o ObRb, de cadeia longa</p><p>(maior quantidade de aminoácidos), com maior expressão no hipotálamo, e os receptores</p><p>de cadeia curta (menor quantidade de aminoácidos), ObRa, encontrados em outros órgãos</p><p>como o pâncreas, e mais especificamente nas células α e δ das ilhotas de Langerhans.</p><p>A expressão da leptina é controlada por diversas substâncias, como a insulina, os</p><p>glicocorticóides e as citocinas pró-inflamatórias. Estados infecciosos e as endotoxinas</p><p>também podem elevar a concentração plasmática de leptina. Inversamente, a</p><p>5</p><p>testosterona, a exposição ao frio e as catecolaminas reduzem a síntese de leptina.</p><p>Situações de estresse impostas ao corpo, como jejum prolongado e exercícios físicos</p><p>intensos, provocam a diminuição dos níveis circulantes de leptina, comprovando, dessa</p><p>maneira, a atuação do sistema nervoso central na inibição da liberação de leptina pelos</p><p>adipócitos.</p><p>A leptina reduz o apetite a partir da inibição da formação de neuropeptídeos relacionados</p><p>ao apetite, como o neuropeptídeo Y, e também do aumento da expressão de</p><p>neuropeptídeos anorexígenos, hormônio estimulante de α-melanócito (α-MSH), hormônio</p><p>liberador de corticotropina (CRH) e substâncias sintetizadas em resposta à anfetamina e</p><p>cocaína. Assim, altos níveis de leptina reduzem a ingestão alimentar enquanto baixos</p><p>níveis induzem hiperfagia. Isso é comprovado em animais de laboratório obesos que</p><p>apresentam baixos níveis de leptina ou total deficiência.</p><p>No entanto, indivíduos obesos apresentam elevados níveis plasmáticos de leptina, cerca</p><p>de cinco vezes mais que aqueles encontrados em sujeitos magros. As mulheres possuem</p><p>maior concentração plasmática de leptina que os homens. A hiperleptinemia, encontrada</p><p>em pessoas obesas, é atribuída a alterações no receptor de leptina ou a uma deficiência</p><p>em seu sistema de transporte na barreira hemato-cefálica, fenômeno denominado</p><p>resistência à leptina, semelhante ao que ocorre na diabetes mellitus. A produção de</p><p>leptina em pessoas eutróficas segue um ritmo circadiano e aumenta durante o ciclo</p><p>menstrual</p><p>em mulheres.</p><p>Tratamento nutricional</p><p>Ao nutricionista, cabe avaliar de forma ampla o contexto da alimentação e todos os</p><p>fatores de risco presentes em cada situação. A atenção nutricional inclui:</p><p>Avaliação do estado nutricional, para determinação do diagnóstico nutricional e das</p><p>necessidades nutricionais.</p><p>Desenvolvimento do plano de ação nutricional.</p><p>Educação nutricional, envolvendo conceitos básicos de saúde e alimentação.</p><p>Implementação da dietoterapia, determinada pelo cálculo da dieta e conteúdo</p><p>macro e micronutrientes:</p><p>Calorias: 15 a 20kcal/kg de peso atual/dia;1.</p><p>Carboidratos: 55 a 60% (com cerca de 20% de absorção simples);2.</p><p>Proteínas: 15 a 20% (não menos de 0,8g/kg de peso desejável);3.</p><p>Gorduras: 20 a 25%, com 7% de gorduras saturadas, 10% de gorduras4.</p><p>polinsaturadas e 13% de gorduras monoinsaturadas;</p><p>Fibras: entre 20 a 30g;5.</p><p>Álcool: não aconselhável;6.</p><p>Colesterol: não mais que 300mg/dia.7.</p><p>Em conclusão, pode-se afirmar que a obesidade é um problema de saúde pública cada vez</p><p>mais comum, e pode ter graves consequências para a saúde, como doenças cardíacas,</p><p>diabetes, pressão alta, bem como foi apontada como fator de risco para inúmeras outras</p><p>doenças, incluindo a Covid-19. Por isso, atualmente é importante que nutricionistas se</p><p>qualifiquem para tratar essa condição de forma adequada. Nesta unidade, refletimos de</p><p>6</p><p>forma mais minuciosa acerca da etiologia e fisiologia da obesidade, bem como exploramos</p><p>de quais maneiras o nutricionista pode atuar no combate desta através da atenção</p><p>nutricional.</p><p>7</p><p>Referências</p><p>AHIMA, Rexford s; FLIER, Jeffery s. Adipose Tissue as an Endocrine Organ. Trends In</p><p>Endocrinology & Metabolism, [S.L.], v. 11, n. 8, p. 327-332, out. 2000.</p><p>DAMOSO, A. Etiologia da obesidade. Rio de Janeiro: Medsi, 2003.</p><p>FRIEDMAN, Jeffrey M.; HALAAS, Jeffrey L. Leptin and the regulation of body weight in</p><p>mammals. Nature, v. 395, n. 6704, p. 763-770, 1998.</p><p>MAUGERI, D. et al. The leptin, a new hormone of adipose tissue: clinical findings and</p><p>perspectives in geriatrics. Archives of gerontology and geriatrics, v. 34, n. 1, p. 47-54,</p><p>2002.</p><p>VIERHAPPER, H. et al. Serum concentrations of dehydroepiandrosterone sulfate and leptin</p><p>in obese patients with normal serum cholesterol. Metabolism, v. 52, n. 3, p. 379-381,</p><p>2003.</p>