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Notas de aula sobre resolução de conflitos que apresentam definições de conflito (citando Aurélio, Michaelis, Vasconcelos, Cavalieri Filho), abordam mediação — fases, princípios, comunicação, habilidades e compromisso ético — e iniciam a classificação de tipos, como conflitos de estrutura.

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<p>RESOLUÇÃO DE CONFLITOS</p><p>AULA 1</p><p>Prof.ª Maria Betânia Medeiros Sartori</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>O objetivo principal desta aula é apresentar os principais conceitos, o</p><p>entendimento e aspectos relevantes acerca desse tema. Iniciaremos com o</p><p>conceito e com alguns aspectos importantes do conflito, que servirá de base para</p><p>entendermos as formas de resolução dos conflitos. Nesse contexto, o destaque</p><p>especial se dará para a mediação, em que falaremos sobre as suas fases,</p><p>princípios, sobre a importância da comunicação, as habilidades e o compromisso</p><p>ético do mediador, além de tratarmos da mediação de conflitos no âmbito</p><p>familiar, escolar, dentre outros, sempre na busca de um caminho construtivo</p><p>pelas partes.</p><p>TEMA 1 – DEFINIÇÃO DE CONFLITO</p><p>Existem várias definições que procuram conceituar o conflito. Segundo o</p><p>dicionário do Aurélio, conflito significa, “[...] Embate. Luta; oposição. Disputa.”</p><p>(Dicionário do Aurélio, 2019).</p><p>O dicionário Michaelis, por sua vez, traz vários conceitos de conflito, por</p><p>exemplo: “1. Falta de entendimento grave ou oposição violenta entre duas ou</p><p>mais partes”; “3. Discussão veemente ou acalorada; altercação”; “4. Encontro de</p><p>coisas que se opõem ou divergem”; “5. Luta armada entre potencias ou nações;</p><p>guerra.” (Michaelis, 2019).</p><p>Todas as definições têm em comum o conceito de poder e acentuam a</p><p>relação das ações de uma parte como resposta à ação do outro. A palavra</p><p>conflito por si só traz uma conotação de algo de que precisamos nos defender.</p><p>Os conflitos são inerentes à natureza humana, pois as pessoas são</p><p>diferentes e pensam de forma diferente. Cada pessoa é única e leva consigo</p><p>particularidades da sua realidade, do meio em que vive, da forma como vê o</p><p>mundo, seus valores, experiências personalíssimas, e isso pode ser colidente ou</p><p>conflitante com o ponto de vista do outro, ou seja, quando houver</p><p>incompatibilidade de interesses, pode surgir um conflito. Desse modo, é</p><p>importante destacar que o conflito tem um componente pessoal, pois ele se</p><p>reveste de elementos interpessoais, da perspectiva pessoal de cada um.</p><p>Portanto, é natural as partes entrarem em conflito, mas devemos fazer</p><p>com que elas percebam que, embora o conflito seja inerente à condição humana,</p><p>o melhor é achar uma solução que atenda às necessidades de todos os</p><p>3</p><p>envolvidos. Com base nessa compreensão, fica mais fácil desenvolvermos</p><p>soluções autocompositivas, ou seja, soluções construídas pelas próprias partes,</p><p>com o auxílio de um terceiro, conforme será visto adiante.</p><p>São, nesse sentido, os ensinamentos de Carlos Eduardo Vasconcelos:</p><p>Tradicionalmente, concebia-se o conflito como algo a ser suprimido,</p><p>eliminado da vida social; e a paz seria fruto da ausência de conflito.</p><p>Não é assim que se concebe atualmente, a partir de uma visão</p><p>sistêmica. A paz é um bem precariamente conquistado por pessoas ou</p><p>sociedades que aprendem a lidar com o conflito. O conflito, quando</p><p>bem conduzido, evita a violência e pode resultar em mudanças</p><p>positivas e novas oportunidades de ganhos mútuos. (Vasconcelos,</p><p>2018, p. 6)</p><p>Na mesma linha de raciocínio, é o entendimento de Cavalieri Filho,</p><p>quando trata da função social do Direito:</p><p>O conflito gera o litígio e este, por sua vez quebra o equilíbrio e a paz</p><p>social. A sociedade não tolera o estado litigioso porque necessita de</p><p>ordem, tranquilidade, equilíbrio em suas relações. Por isso, tudo faz</p><p>para evitar ou prevenir o conflito, e aí está a primeira e principal função</p><p>do direito – prevenir conflitos: evitar tanto quanto possível, a colisão de</p><p>interesses. (Cavalieri Filho, 2015, p. 15)</p><p>Desse modo, podemos dizer que, para que haja um conflito, é necessário</p><p>a existência de sujeitos ou indivíduos. Deve haver uma relação entre indivíduos</p><p>ou grupo de indivíduos, o que chamamos de relação interpessoal. Além disso, é</p><p>fundamental que esses sujeitos tenham posições divergentes. Nota-se que, em</p><p>alguns casos, é possível que as próprias partes consigam resolver diretamente</p><p>o conflito, por meio do diálogo direto, sem a intervenção de um terceiro.</p><p>TEMA 2 – TIPOS DE CONFLITOS</p><p>Não existe uma classificação exata dos tipos de conflitos, porém, com</p><p>base na classificação e definição de Maria de Nazaré Serpa (2017), podemos</p><p>citar os quatro tipos que mais nos interessam.</p><p> Conflitos de estrutura:</p><p>Acontece no seio político, social e psicológico, interno de cada pessoa</p><p>ou grupo e está além do escopo do processo de mediação. São causas</p><p>desse conflito modelos destrutivos de comportamento ou interação.</p><p>Controle, propriedade, distribuição de riquezas, posições geográficas,</p><p>físicas e fatores ambientais que dificultam a cooperação, como</p><p>constrangimento de tempo, desigualdade de poder e autoridade. Os</p><p>conflitos de estrutura existem em quase todas as disputas,</p><p>principalmente aquelas relacionadas a questões familiares e delituais</p><p>(Serpa, 2017, p. 27)</p><p>4</p><p> Conflitos de valor: “Este conflito é caracterizado por diferenças de</p><p>percepção do que é ou não é considerável, conceitos de justiça e moral,</p><p>cultura e atitudes. São critérios diferenciados para avaliação de ideias ou</p><p>comportamentos. Ex.: Diferentes estilos de vida, ideologias e religiões”</p><p>(Serpa, 2017, p. 27). São, portanto, aqueles conflitos que ocorrem entre</p><p>pessoas que tem formas diferentes de avaliar as situações, geralmente</p><p>com posicionamentos rígidos.</p><p> Conflitos de informação ou de dados: “Este conflito surge pela falta de</p><p>informação, má-informação ou diferentes pontos de vista a respeito da</p><p>relevância de determinado fato ou matéria. Diferentes interpretações de</p><p>dados, fatos ou matéria, diferentes procedimentos de avaliação, cálculos</p><p>etc.” (Serpa, 2017, p. 26).</p><p> Conflitos de interesses: “Tem como causa interesses substantivos, de</p><p>procedimentos ou derivados de questões psicológicas. É normalmente</p><p>caracterizado por situações de escassez. A e B querem um bem que só</p><p>está disponível para um dos dois.” (Serpa, 2017, p. 26).</p><p>TEMA 3 – VALORES NEGATIVO E POSITIVO DO CONFLITO</p><p>O conflito sempre é negativo?</p><p>Como já mencionado anteriormente, o conflito sempre nos remete a uma</p><p>ideia negativa. A conotação negativa é indispensável porque afeta diretamente</p><p>o relacionamento entre as pessoas, e muitas vezes altera a dinâmica da vida</p><p>dessas pessoas, desestruturando relacionamentos ou tornando-os difíceis.</p><p>Vamos, contudo, verificar que no conflito também existe uma conotação positiva.</p><p>A ideia de sempre relacionar o conflito com algo ruim não é a mais adequada,</p><p>como veremos a seguir.</p><p>A conotação positiva é fundamental para a busca da solução do conflito.</p><p>Ela propicia um crescimento, uma evolução, um aprendizado, já que, durante o</p><p>conflito, nós temos a oportunidade de conhecer as motivações dos outros</p><p>envolvidos e, muitas vezes, até mesmo questões que estão ocultas e que nem</p><p>imaginávamos que existiam, que são os reais interesses das partes.</p><p>É muito importante que o mediador/conciliador transmita essa conotação</p><p>positiva do conflito. Essa visão facilita o entendimento das partes de que a</p><p>situação que estão vivenciando é transitória e necessária para o seu</p><p>autoconhecimento e para o conhecimento do outro, facilitando a aceitação e</p><p>5</p><p>compreensão da perspectiva da outra parte, contribuindo, desse modo, para a</p><p>busca de uma solução mais satisfatória para ambas as partes. O conflito nos</p><p>permite conhecer as pessoas com quem vivemos, com quem trabalhamos,</p><p>oportunizando o conhecimento pessoal e a humanização das relações.</p><p>Justamente nesse sentido, a Moderna Teoria do Conflito entende o</p><p>conflito como um fenômeno natural, neutro, cuja carga, negativa ou positiva, é</p><p>definida pelas partes envolvidas.</p><p>TEMA 4 – ESPIRAL DO CONFLITO</p><p>A espiral do conflito é o círculo vicioso de ação e reação que atinge as</p><p>relações conflituosas, em que as partes envolvidas acabam deixando de lado os</p><p>interesses que deram origem ao</p><p>conflito e se preocupam tão somente em</p><p>responder à ação/agressão.</p><p>Para alguns autores como Rubin e Kriesberg, há uma progressiva</p><p>escalada, em relações conflituosas, resultante de um círculo vicioso de</p><p>ação e reação. Cada reação torna-se mais severa do que a ação que</p><p>a precedeu e cria uma nova questão ou ponto de disputa. Esse modelo,</p><p>denominado de espirais de conflito, sugere que com esse crescimento</p><p>(ou escalada) do conflito, as suas causas originárias progressivamente</p><p>tornam-se secundárias a partir do momento em que os envolvidos</p><p>mostram-se mais preocupados em responder a uma ação que</p><p>imediatamente antecedeu sua reação. (Azevedo, 2016, p. 54)</p><p>Portanto, podemos escolher uma abordagem do conflito de forma</p><p>cooperativa (positiva), que produzirá espirais construtivas, ou podemos escolher</p><p>uma abordagem de competição (negativa), que produzirá espirais destrutivas.</p><p>O conflito, se abordado de forma apropriada (com técnicas adequadas),</p><p>pode ser um importante meio de conhecimento, amadurecimento e aproximação</p><p>de seres humanos. Ao mesmo tempo, o conflito, quando conduzido</p><p>corretamente, pode impulsionar relevantes alterações quanto à responsabilidade</p><p>e à ética profissional (Azevedo, 2016, p. 56).</p><p>Na mesma linha de raciocínio, Maria de Nazareth Serpa, pioneira na área,</p><p>nos ensina que:</p><p>O conflito se torna prejudicial quando os mecanismos de resolução</p><p>utilizados são inadequados. Por outro lado, os mecanismos naturais de</p><p>negociação extraem do conflito o que ele tem de melhor, sua</p><p>capacidade de gerar satisfação de interesses e resoluções</p><p>construtivas. Quando esses mecanismos são descartados, a função do</p><p>conflito é a produção de violência, desajustes ou outros conflitos.</p><p>(Serpa, 2017, p. 20-21)</p><p>6</p><p>TEMA 5 – CONFLITOS MEDIÁVEIS E NÃO MEDIÁVEIS</p><p>Podem ser resolvidos por meio de acordo, sejam por intermédio da</p><p>mediação, da conciliação ou da negociação. Há vários tipos de conflitos, por</p><p>exemplo, questões relacionadas à pensão alimentícia, guarda de filhos, divórcio,</p><p>partilha de bens, acidentes de trânsito, dívidas em banco, questões de</p><p>vizinhança, questões no âmbito escolar, demissão no trabalho, consumidor,</p><p>danos materiais e morais, dentre muitas outras situações.</p><p>Por sua vez, os conflitos não mediáveis são aqueles inegociáveis, que</p><p>não cabe um acordo por tratarem de direitos indisponíveis que não admitem</p><p>transação, ou seja, as partes não podem dispor desses direitos.</p><p>NA PRÁTICA</p><p>Você já passou por alguma situação de conflito? Como você lidou com</p><p>esta situação?</p><p>FINALIZANDO</p><p>É importante esclarecer que o foco desta disciplina não se limita, apenas,</p><p>ao estudo do conflito, tipos, seu valor negativo e positivo. Nosso escopo principal</p><p>é ajudá-los a buscar caminhos construtivos para a administração ou solução</p><p>desses conflitos.</p><p>7</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>AZEVEDO, A. G. de (Org.). Manual de Mediação Judicial. 6. ed. Brasília/DF:</p><p>CNJ, 2016.</p><p>CAVALIERI FILHO, S. Programa de Sociologia Jurídica. Rio de Janeiro:</p><p>Forense, 2015.</p><p>CONFLITO. In: Dicionário do Aurélio. Disponível em: <https://dicionario</p><p>doaurelio.com/conflitos>. Acesso em: 21 set. 2019.</p><p>CONFLITO. In: Michaelis, Dicionário On-line de Português. Disponível em:</p><p><https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/conf</p><p>lito/>. Acesso em: 21 set. 2019.</p><p>SERPA, M. de N. Mediação: uma solução judiciosa para conflitos. Belo Horizonte:</p><p>Del Rey, 2017.</p><p>VASCONCELOS, C. E. de. Mediação de conflitos e práticas restaurativas. 6.</p><p>ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2018.</p>

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