Prévia do material em texto
<p>PSICANÁLISE PARA SIGMUND FREUD E</p><p>MELANIE KLEIN</p><p>1</p><p>1</p><p>SUMÁRIO</p><p>PSICANÁLISE PARA SIGMUND FREUD E MELANIE KLEIN ................ 0</p><p>NOSSA HISTÓRIA .................................................................................. 3</p><p>Introdução ................................................................................................ 4</p><p>Sigmund Freud ........................................................................................ 5</p><p>Biografia ............................................................................................... 5</p><p>Contribuições de Sigmund Freud ......................................................... 6</p><p>Alguns componentes específicos da psicanálise Freudiana .............. 10</p><p>Estrutura e dinâmica da personalidade .............................................. 11</p><p>Os níveis da consciência ou modelo topológico da mente (1ª Tópica)</p><p>.................................................................................................................. 12</p><p>Modelo estrutural da personalidade (2ª Tópica) ............................. 13</p><p>Os mecanismos de defesa ............................................................. 15</p><p>As fases do desenvolvimento psicossexual .................................... 16</p><p>A fase oral ...................................................................................... 17</p><p>A fase anal ...................................................................................... 18</p><p>A fase fálica .................................................................................... 19</p><p>O período de latência ..................................................................... 21</p><p>A fase genital .................................................................................. 21</p><p>Teoria do Trauma ............................................................................... 21</p><p>Teoria Topográfica ............................................................................. 23</p><p>Teoria Estrutural ................................................................................. 24</p><p>Conceituações sobre o Narcisismo .................................................... 25</p><p>Dissociação do Ego............................................................................ 26</p><p>Melanie Klein ......................................................................................... 27</p><p>Biografia ............................................................................................. 27</p><p>file://///192.168.0.2/f/Grades/CURSOS%20DE%20EXTENSÃO/NEUROPSICANÁLISE/PSICANÁLISE%20PARA%20SIGMUND%20FREUD%20E%20MELANIE%20KLEIN/PSICANÁLISE%20PARA%20SIGMUND%20FREUD%20E%20MELANIE%20KLEIN.docx%23_Toc127427951</p><p>2</p><p>2</p><p>Contribuições de Melanie Klein .......................................................... 30</p><p>Alguns componentes específicos da psicanálise kleiniana ................ 32</p><p>1. Principais desenvolvimentos teóricos em Klein .......................... 32</p><p>2. Características importantes e específicas da psicanálise kleiniana</p><p>.................................................................................................................. 33</p><p>a) O setting psicanalítico ................................................................ 33</p><p>b) A interpretação ........................................................................... 34</p><p>c) O mundo interno ......................................................................... 35</p><p>d) Transferência e contratransferência ........................................... 37</p><p>e) Identificação projetiva e a função de continência do analista ..... 40</p><p>A Escola dos Teóricos das Relações Objetais ................................... 43</p><p>REFERÊNCIAS ..................................................................................... 49</p><p>3</p><p>3</p><p>NOSSA HISTÓRIA</p><p>A nossa história inicia-se com a ideia visionária e da realização do sonho</p><p>de um grupo de empresários na busca de atender à crescente demanda de</p><p>cursos de Graduação e Pós-Graduação. E assim foi criado o Instituto, como uma</p><p>entidade capaz de oferecer serviços educacionais em nível superior.</p><p>O Instituto tem como objetivo formar cidadão nas diferentes áreas de</p><p>conhecimento, aptos para a inserção em diversos setores profissionais e para a</p><p>participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e assim, colaborar na</p><p>sua formação continuada. Também promover a divulgação de conhecimentos</p><p>científicos, técnicos e culturais, que constituem patrimônio da humanidade,</p><p>transmitindo e propagando os saberes através do ensino, utilizando-se de</p><p>publicações e/ou outras normas de comunicação.</p><p>Tem como missão oferecer qualidade de ensino, conhecimento e cultura,</p><p>de forma confiável e eficiente, para que o aluno tenha oportunidade de construir</p><p>uma base profissional e ética, primando sempre pela inovação tecnológica,</p><p>excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. E dessa forma,</p><p>conquistar o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos</p><p>de qualidade.</p><p>4</p><p>4</p><p>Introdução</p><p>O termo psicanálise é usado para se referir a uma teoria, a um método de</p><p>investigação e a uma prática profissional. Enquanto teoria, caracteriza-se por um</p><p>conjunto de conhecimentos sistematizados sobre o funcionamento da vida</p><p>psíquica. Freud publicou uma extensa obra, durante toda a sua vida, relatando</p><p>suas descobertas e formulando leis gerais sobre a estrutura e o funcionamento</p><p>da psique humana.</p><p>A Psicanálise, enquanto método de investigação, caracteriza-se pelo</p><p>método interpretativo, que busca o significado oculto daquilo que é manifesto por</p><p>meio de ações e palavras ou pelas produções imaginárias, como os sonhos, os</p><p>delírios, as associações livres, os atos falhos.</p><p>A prática profissional refere-se à forma de tratamento a Análise que busca</p><p>o autoconhecimento ou a cura, que ocorre através desse autoconhecimento.</p><p>Atualmente, o exercício da Psicanálise ocorre de muitas outras formas. Ou seja,</p><p>é usada como base para psicoterapias, aconselhamento, orientação; é aplicada</p><p>no trabalho com grupos, instituições. A Psicanálise também é um instrumento</p><p>importante para a análise e compreensão de fenômenos sociais relevantes: as</p><p>novas formas de sofrimento psíquico, o excesso de individualismo no mundo</p><p>contemporâneo, a exacerbação da violência etc.</p><p>5</p><p>5</p><p>Sigmund Freud</p><p>Biografia</p><p>Sigmund Schlomo Freud nasceu no dia 6</p><p>de maio de 1856, na cidade de Freiberg, na</p><p>Morávia (hoje Tchéquia), a 160 km de Viena,</p><p>capital da Áustria.</p><p>Os pais de Freud chamavam-se Jacob e</p><p>Amália. Ele foi o primeiro dos oito filhos do casal. Seu pai era judeu e trabalhava</p><p>como comerciante de lã. A família enfrentava dificuldades econômicas.</p><p>Quando o futuro pai da psicanálise tinha quatro anos, sua família mudou-</p><p>se para Viena, à época berço de grandes produções nas áreas de cultura, arte,</p><p>música, literatura e ciências.</p><p>Desde criança, os pais de Freud dedicavam-lhe tratamento especial em</p><p>relação aos irmãos. Sua mãe chamava-o de “meu Sig de ouro”. Ele sempre foi</p><p>muito estudioso, tirava notas altas e estudava línguas estrangeiras por conta</p><p>própria.</p><p>Autodidata, quando tinha 12 anos Freud já lia obras de William</p><p>Shakespeare. Na adolescência, ele começou a escrever um diário dos seus</p><p>sonhos.</p><p>Entrou na Faculdade de Medicina da Universidade de Viena em 1873.</p><p>Depois de formar-se, em 1881, queria trabalhar com pesquisa, mas, para juntar</p><p>6</p><p>6</p><p>dinheiro para o seu casamento, escolheu atender em um consultório situado na</p><p>capital (hoje, o Museu Freud de Viena).</p><p>Sigmund Freud com 29 anos de idade, em 1885.</p><p>Aos 26 anos, Freud apaixonou-se por uma moça chamada Martha</p><p>Bernays. Com dois meses de relacionamento, ficaram</p><p>este conteúdo, inicialmente intolerável</p><p>(por isto mesmo excindido e projetado pelo bebê), por meio da função do</p><p>pensamento. Depois disto, a mãe deve dar uma devolução adequada e aceitável</p><p>que possa ser reintrojetada pelo bebê sem causar ansiedade insuportável,</p><p>vivência catastrófica de horror ou de aniquilamento dentro dele.</p><p>Ao introduzir este modelo, Bion nos mostra a enorme importância do</p><p>ambiente representado pela mãe para a sobrevivência psíquica e para o</p><p>42</p><p>42</p><p>posterior desenvolvimento da criança. É através da experiência repetida das</p><p>constantes projeções de seus conteúdos para dentro da mãe, seguida pela</p><p>elaboração e transformação da experiência emocional inicialmente insuportável</p><p>em outra experiência mais assimilável, que o bebê vai constituindo um núcleo do</p><p>objeto bom que, por seu turno, vai constituir o núcleo de base de um ego</p><p>integrado. Fica claro, a partir destas ideias, que a função analítica se torna</p><p>essencialmente algo da ordem da função de conter. Para Bion, a função de</p><p>conter é algo ativo, uma capacidade de transformar, por meio da função do</p><p>pensamento, experiências emocionais inicialmente insuportáveis em</p><p>experiências assimiláveis, pois a transformação lhes confere uma significação</p><p>mutativa.</p><p>O instrumento que permite ao analista o exercício da continência é a</p><p>interpretação. Transformando-se num objeto continente por meio de sua</p><p>capacidade de interpretar, que dá um significado às experiências emocionais do</p><p>paciente, o analista, na análise, se torna o núcleo do objeto bom introjetado. Na</p><p>condição de objeto pensante e capaz de transformar a experiência emocional do</p><p>paciente, o analista torna-se então desejável para o paciente. Sua presença é</p><p>sentida como importante e necessária, como facilitadora dos processos de</p><p>mudança psíquica autêntica. Se não existe uma constância e um ritmo intensivo</p><p>no trabalho analítico, o analista é vivido como objeto ausente, experimentado</p><p>como atacado, danificado, morto e perdido. Dizendo de outra forma, pela</p><p>identificação projetiva, o objeto ausente é transformado num objeto mau,</p><p>representado internamente como abandonando a criança (ou o paciente). Como</p><p>se trata de um processo dinâmico, uma infinidade de combinações é possível</p><p>nestas experiências emocionais.</p><p>Em um de seus últimos trabalhos, que foi publicado depois de sua morte</p><p>em 22 de setembro de 1960, "Sobre a saúde mental" (1960), Melanie Klein faz</p><p>uma revisão de suas ideias sobre o desenvolvimento da personalidade e suas</p><p>vicissitudes. Revê os mecanismos mais básicos do desenvolvimento da criança,</p><p>43</p><p>43</p><p>fala da importância inicial da mãe e dos objetos e, no último parágrafo do texto,</p><p>ela trata do que chama de impulso à integração. Klein diz que este impulso se</p><p>origina de um sentimento de que as diferentes partes do self são distantes e</p><p>estranhas umas às outras. Também faz parte dele "o conhecimento inconsciente</p><p>de que o ódio só pode ser mitigado pelo amor e se os dois sentimentos forem</p><p>mantidos separados, esta mitigação não pode se dar. Klein diz que todo</p><p>processo de mudança e de integração implica numa experiência de dor, pois a</p><p>excisão do ódio, da destrutividade e suas consequências acarreta sentimentos</p><p>de angústia e sofrimento. Ela diz ainda que, numa pessoa normal, mesmo</p><p>quando há alguma oscilação entre os efeitos causados por experiências</p><p>perturbadoras, internas ou externas, o impulso à integração entra em ação,</p><p>conduzindo-a de volta ao equilíbrio. É tudo muito dinâmico e não existe a</p><p>integração completa, mas quanto mais o indivíduo se esforça nesta direção, mais</p><p>insight ele terá sobre seus impulsos e sobre suas ansiedades, mais forte será o</p><p>seu caráter e maior seu equilíbrio mental.</p><p>A psicanálise kleiniana tem como objetivo proporcionar aos analisandos</p><p>um meio de obtenção de mudança psíquica. Somente através do trabalho</p><p>reiterado das fantasias inconscientes, do vivido transferencial e da redução das</p><p>dissociações internas com a consequente integração do ego e melhor</p><p>capacidade para lidar com a realidade, torna-se possível um ganho de qualidade</p><p>no viver, nas relações com as pessoas, no trabalho e na criatividade. Em outras</p><p>palavras, a análise visa proporcionar o predomínio de Eros sobre Tânatos. Isto</p><p>é crescimento pessoal e só pode ser conseguido com muito trabalho e não sem</p><p>sofrimento. Porque na vida nada é de graça.</p><p>A Escola dos Teóricos das Relações Objetais</p><p>44</p><p>44</p><p>A Escola dos Teóricos das Relações Objetais, com Melanie Klein, como</p><p>um dos seus maiores representantes, transforma-se no berço de uma nova visão</p><p>da práxis psicanalítica, ao desenvolver formas diferentes de interpretação dos</p><p>conceitos enunciados por Freud, abrindo espaço para a formulação de novas</p><p>propostas de trabalho. Neste contexto, a escola kleiniana valoriza fortemente, a</p><p>existência de um ego primitivo, já desde o nascimento, a fim de que este</p><p>mobilizasse defesas arcaicas dissociações, projeções, negação onipotente,</p><p>idealização, etc.</p><p>Tudo isso, para contra restar as terríveis ansiedades primitivas advindas</p><p>da inata pulsão de morte, isto é, da inveja primária, com as respectivas fantasias</p><p>inconscientes. M. Klein conservou o complexo de Édipo como o eixo central da</p><p>psicanálise, porém o fez recuar para os primórdios da vida, assim</p><p>descaracterizando o enfoque triangular edípico, medular da obra freudiana.</p><p>A observação dos adultos e o emprego da técnica psicanalítica a</p><p>induziram a investigar os estágios iniciais do desenvolvimento infantil. O trabalho</p><p>dela, tomando como base a teoria psicanalítica de Freud, foi criar a técnica de</p><p>brincar com as crianças e, através do brinquedo, compreendê-las.</p><p>Em 1919, ela escreve: “O Desenvolvimento de uma criança” sendo este o</p><p>trabalho que a titulou como membro da Sociedade Psicanalítica da Hungria. De</p><p>1920 a 1925 Melanie Klein fez análise com K. Abraham, a qual fora interrompida</p><p>pela morte inesperada do analista. Nesse ano, Melanie Klein fora convidada por</p><p>Ernest Jones para pronunciar algumas conferências em Londres, causando forte</p><p>impacto e entusiasmo em muitos psicanalistas britânicos.</p><p>Tal acontecimento a levou a fixar residência definitiva na Inglaterra, onde</p><p>trabalhou como psicanalista pelo restante de sua vida. Freud desenvolveu sua</p><p>teoria psicanalítica a partir da observação de adultos, enquanto Melanie Klein</p><p>elabora seu pensamento através da observação de crianças. Conforme sua</p><p>observação, postula que tanto o complexo de Édipo quanto o Superego estão</p><p>45</p><p>45</p><p>estabelecidos em uma fase muito mais remota da vida do indivíduo do que se</p><p>presumia até então.</p><p>Estudos posteriores contribuíram para o melhor entendimento do</p><p>complexo de Édipo, posição depressiva e, finalmente, sobre a posição esquizo-</p><p>paranoide, o que tornou mais claras as ligações de sua obra com a de Freud, e</p><p>facilitaram o acompanhamento psicológico do indivíduo desde sua infância mais</p><p>remota. Melanie Klein considerou como ponto de partida para o estudo do</p><p>processo de desenvolvimento da criança os primeiros três ou quatro meses de</p><p>vida, enquanto Freud, considerava esse ponto a partir dos 4 anos.</p><p>No primeiro trimestre, o bebê experimenta a ansiedade como resultante</p><p>do efeito proveniente de fontes internas e externas; a atividade interna do instinto</p><p>de morte dá origem ao medo de ser aniquilado e esse aniquilamento é a causa</p><p>primária da ansiedade persecutória. Nessa fase, a criança sofre o desconforto e</p><p>dor pela perda intrauterina, que é sentida pelo bebê como uma agressão</p><p>perpetrada por forças hostis, isto é, como perseguição, ficando exposto a</p><p>dolorosas privações, causando-lhe ansiedade.</p><p>Para Klein, a relação objetal é iniciada com a presença da mãe e a</p><p>amamentação do bebê, sendo esse um dos pilares de sua teoria. Melanie Klein</p><p>faz duas considerações</p><p>importantes que passa a denominar de posição esquizo-</p><p>paranoide e posição depressiva da criança. A posição esquizo-paranoide,</p><p>vivenciada pela criança por volta dos três a quatro meses de idade, traz uma luz</p><p>sobre a teoria kleiniana e produz grande vantagem, concernente ao fato de se</p><p>dar início numa fase bem primitiva e a partir daí poder descrever o crescimento</p><p>psicológico do indivíduo.</p><p>Na consideração de Klein, num certo sentido, tanto a posição</p><p>esquizoparanoide e a posição depressiva constituem fases de desenvolvimento,</p><p>podendo considerá-las subdivisões do estágio oral. Esta posição esquizo-</p><p>paranoide caracteriza-se pelo fato de as crianças não tomarem conhecimento</p><p>46</p><p>46</p><p>das pessoas, e o relacionamento se mantém nos objetos parciais, e pela</p><p>prevalência dos processos de divisão e de ansiedade paranoide.</p><p>A hipótese de que as primeiras experiências resultantes da amamentação</p><p>do bebê e da presença da mãe iniciam uma relação objetal parcial, isto é, os</p><p>impulsos oral-libidinais e oral-destrutivos desde o começo da vida, dão a</p><p>entender que estas primeiras experiências são, particularmente, dirigidas para o</p><p>seio materno. Se a criança está satisfeita, suprida pela amamentação, registra-</p><p>se um equilíbrio ótimo, entre os impulsos libidinais e agressivos, ocorrendo aí o</p><p>sentimento de “seio bom”.</p><p>Quando é alterado o equilíbrio entre libido e agressão da origem, surge a</p><p>emoção chamada avidez, predominantemente, de natureza oral. Nos bebês, que</p><p>possuem um componente agressivo inato forte, a ansiedade persecutória, a</p><p>frustração e a avidez são facilmente provocadas, contribuindo para a não</p><p>tolerância de privação do bebê em lidar com a ansiedade. Na medida em que</p><p>esta situação for fonte de frustração, surge o sentimento de “seio mau”. Quando</p><p>o seio é bom e o gratifica, o bebê projeta os seus impulsos de amor, e quando o</p><p>seio é frustrador (mau) o bebê projeta os seus impulsos destrutivos.</p><p>Melanie Klein foi pioneira das seguintes concepções originais:</p><p>• Criou uma técnica própria de psicanálise com crianças e introduziu o</p><p>entendimento simbólico contido nos brinquedos e jogos.</p><p>• Postulou a existência de um inato ego rudimentar, já no recém-nascido.</p><p>• A pulsão de morte também é inata e presente desde o início da vida sob</p><p>a forma de ataques invejosos e sádico-destrutivos contra o seio alimentador da</p><p>mãe.</p><p>• Essas pulsões de morte, agindo dentro da mente, promovem uma</p><p>terrível angústia de aniquilamento.</p><p>47</p><p>47</p><p>• Para contra restar tais angústias terríveis, o incipiente ego do bebe lança</p><p>mão de mecanismos de defesa primitivos, como são a negação onipotente,</p><p>dissociação, identificação projetiva, identificação introjetiva; idealização e</p><p>denegrimento.</p><p>• Concebeu a mente como um universo de objetos internos relacionados</p><p>entre si através de fantasias inconscientes, constituindo a realidade psíquica.</p><p>• Além dos objetos totais, ela estabeleceu os objetos parciais (figuras</p><p>parentais representadas unicamente por um mamilo, seio, pênis, etc.).</p><p>• Postulou uma constante clivagem ente os objetos (bons x maus;</p><p>idealizados x persecutórios) e entre as pulsões (as construtivas, de vida, versus</p><p>as destrutivas, de morte).</p><p>• Concebeu a noção de posição conceitualmente diferente de fase</p><p>evolutiva e descreveu as agora clássicas posições esquizo-paranoide e a</p><p>depressiva.</p><p>•Suas concepções acerca dos mecanismos arcaicos do desenvolvimento</p><p>emocional primitivo permitiram a análise com crianças, com psicóticos e com</p><p>pacientes regressivos em geral.</p><p>• Para não ficar descompassada com os princípios ditados por Freud,</p><p>conservou as concepções relativas ao complexo de Édipo e ao superego, porém</p><p>as realocou em etapas muito mais primitivas do desenvolvimento da criança.</p><p>• Juntamente com os ataques sádico-destrutivos da criança, com as</p><p>respectivas culpas e consequentes medos de retaliadores ataques</p><p>persecutórios, postulou a necessidade de a criança, ou o paciente adulto na</p><p>situação analítica, desenvolver uma imprescindível capacidade para fazer</p><p>reparações.</p><p>48</p><p>48</p><p>• Deu extraordinária ênfase à importância da inveja primária, como</p><p>expressão direta da pulsão de morte.</p><p>• Como decorrência dessas concepções, promoveu uma significativa</p><p>mudança na prática analítica no sentido de que as interpretações fossem</p><p>sistematicamente transferenciais, mais dirigidas aos objetos parciais, aos</p><p>sentimentos e defesas arcaicas do paciente, e com uma ênfase na prioridade de</p><p>um analista trabalhar na transferência negativa.</p><p>Este período fica caracterizado pela mudança de foco dos psicanalistas,</p><p>que passam a valorizar aspectos relacionados com o desenvolvimento</p><p>emocional primitivo: as relações objetais parciais e as fantasias do inconsciente,</p><p>com suas respectivas ansiedades e defesas primitivas.</p><p>Conserva-se a regra de que somente teriam valor verdadeiramente</p><p>psicanalítico às interpretações unicamente dirigidas às neuroses de</p><p>transferência, porém começa a ganhar um amplo espaço de valorização, a</p><p>contratransferência, criando-se desta forma os primórdios da psicanálise</p><p>baseada na relação transferencial - contratransferencial. Expoentes desta época</p><p>são Joan Rivière, S. Isaacs, Segal, Rosenfeld, Meltzer e Bion.</p><p>49</p><p>49</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>Andrade, A. C. B. A Teoria De Desenvolvimento Psicossexual: Sigmund</p><p>Freud. Patos: Faculdades Integradas De Patos.</p><p>Bachrach Hm, Weber Jj, Solomon M. Factors Associated With The</p><p>Outcome Of Psychoanalysis (Clinical And Methodological Considerations).</p><p>Report Of The Columbia Psychoanalytic Center Research Project (Iv).</p><p>International Review Of Psychoanalysis. 1985;12:379-388.</p><p>Beauclair, J. Para Entender Psicopedagogia: Perspectivas Atuais,</p><p>Desafios Futuros. Rio De Janeiro: Wak Editora.</p><p>Beauclair, J. Psicopedagogia: Trabalhando Competências, Criando</p><p>Habilidades. Rio De Janeiro: Wak Editora.</p><p>Bion Wr. Aprender Com A Experiência. Rio De Janeiro: Zahar Editores;</p><p>1966. (Originalmente Publicado Em 1962).</p><p>Bion Wr. Conversando Com Bion. Rio De Janeiro: Imago; 1992. P. 127.</p><p>Bion Wr. Elementos De Psicanálise, Cap. Xiii. Rio De Janeiro: Imago;</p><p>2004. (Originalmente Publicado Em 1963).</p><p>Bion Wr. Transformaçoes: Mudança Do Aprendizado Ao Crescimento,</p><p>Cap. I. Rio De Janeiro: Imago Editora; 1984. (Originalmente Publicado Em 1965).</p><p>Bock, A. M. B. A Psicanálise. In: Bock, A. M. B. Psicologias: Uma</p><p>Introdução Ao Estudo De Psicologias. São Paulo: Saraiva, 2002, P.</p><p>Bossa, N. A. A Psicopedagogia No Brasil: Contribuições A Partir Da</p><p>Prática. 3ª Ed. Porto Alegre: Artmed.</p><p>Braier E A. Psicoterapia Breve De Orientaçao Analítica. Sao Paulo:</p><p>Martins Fontes; 1997.</p><p>Carver, Charles S. & Scheier, Michael F. (2000). Perspectives On</p><p>Personality. Boston: Allyn And Bacon.</p><p>Cohen, R. H. P. A Lógica Do Fracasso Escolar: Psicanálise & Educação.</p><p>Rio De Janeiro: Contra Capa.</p><p>Costa, T. Psicanálise Com Crianças. Rio De Janeiro: Zahar.</p><p>Costa, Teresinha. Psicanálise Com Crianças – 3.Ed. Rio De Janeiro:</p><p>Zahar, 2010</p><p>Deleuze G. Espinosa: Filosofia Prática. Sao Paulo: Editora Escuta; 2002.</p><p>(Originalmente Publicado Em 1970).</p><p>Eizirik Cl, Hauck S. Psicanálise E Psicoterapia De Orientaçao Analítica.</p><p>In: Cordioli Av (Org.). Psicoterapias: Abordagens Atuais. 3. Ed. Porto Alegre:</p><p>Artmed; 2007. P. 151-166.</p><p>Etchegoyen, R. Horácio. Fundamentos Da Técnica Psicanalítica.</p><p>Tradução: Francisco Frank Settineri. 2ª Ed. Porto Alegre; Artmed; 2004.</p><p>50</p><p>50</p><p>Ferro A. Fatores De Doença E Fatores De Cura: A Gênese Do Sofrimento</p><p>E Da Cura Psicanalítica, Cap. I. Rio De Janeiro: Imago; 2005.</p><p>Figueiredo L C. Presença, Implicaçao E Reserva. In: Figueiredo L C,</p><p>Coelho Júnior N (Orgs.). Ética E Técnica Em Psicanálise. Sao Paulo: Escuta;</p><p>2000.</p><p>Francisco Filho, G. A Teoria Psicanalista</p><p>Freudiana E A Educação. In:</p><p>Francisco Filho, G. A Psicologia No Contexto Educacional. Campinas, Sp:</p><p>Átomo.</p><p>Freud S. Análise Terminável E Interminável (Ediçao Standard Brasileira</p><p>Das Obras Psicológicas Completas De Sigmund Freud, Vol. Xxiii). Rio De</p><p>Janeiro: Imago; 1976. (Originalmente Publicado Em 1937).</p><p>Freud S. Análise Terminável E Interminável (Ediçao Standard Brasileira</p><p>Das Obras Psicológicas Completas De Sigmund Freud, Vol. Xxiii). Rio De</p><p>Janeiro: Imago; 1976. (Originalmente Publicado Em 1937). P. 250.</p><p>Freud S. Linhas De Progresso Na Terapia Psicanalítica (Ediçao Standard</p><p>Brasileira Das Obras Psicológicas Completas De Sigmund Freud, Vol. Xvii). Rio</p><p>De Janeiro: Imago; 1976. (Originalmente Publicado Em 1919).</p><p>Freud S. Novas Conferências Introdutórias À Psicanálise. Conferência</p><p>Xxxi: A Dissecçao Da Personalidade Psíquica (Ediçao Standard Brasileira Das</p><p>Obras Psicológicas Completas De Sigmund Freud, Vol. Xxii). Rio De Janeiro:</p><p>Imago; 1976. (Originalmente Publicado Em 1933). P. 102.</p><p>Freud, Sigmund (1920). Além Do Princípio Do Prazer. [S.L.: S.N.]</p><p>Freud, Sigmund (1937). Análise Terminável E Interminável. Edição</p><p>Standard Brasileira Das Obras Psicológicas Completas. Rio De Janeiro: Imago,</p><p>1996.</p><p>Freud, Sigmund. Obras Psicológicas Completas De Sigmund Freud:</p><p>Edição Standard Brasileira. Comentários E Notas De James Strachey, Em</p><p>Colaboração Com Anna Freud, Assistido Por Alix Strachey E Alan Tyson;</p><p>Tradução Do Alemão E Do Inglês Sob Direção Geral De Jayme Salomão. 24</p><p>Volumes; Rio De Janeiro; Imago; 1996.</p><p>Freud. A Organização Genital Infantil – Uma Interpolação Na Teoria Da</p><p>Sexualidade (1923). Obras Psicológicas Completas De S. Freud, Vol. Xix ). Rio</p><p>De Janeiro: Imago, 1969.</p><p>Freud. Análise Terminável E Interminável (1937). Obras Psicológicas</p><p>Completas De S. Freud, Vol. Xxiii ). Rio De Janeiro: Imago, 1969.</p><p>Freud. O Ego E O Id (1923), Obras Psicológicas Completas De S. Freud,</p><p>Vol. Xix ). Rio De Janeiro: Imago, 1969.</p><p>Freud. Sobre As Teorias Sexuais Das Crianças (1908). Obras</p><p>Psicológicas Completas De S. Freud, Vol. Ix ). Rio De Janeiro: Imago, 1969.</p><p>Freud. Uma Nota Sobre O Inconsciente Em Psicanálise (1912) Obras</p><p>Psicológicas Completas De S. Freud, Vol. Xii). Rio De Janeiro: Imago, 1969.</p><p>Goldgrub, Franklin A Máquina Do Fantasma – Aquisição De Linguagem E</p><p>Constituição Do Sujeito. Piracicaba: Unimep, 2001.</p><p>51</p><p>51</p><p>Goldgrub. A Metáfora Opaca - Cinema, Mito, Sonho, Interpretação. São</p><p>Paulo: Casa Do Psicólogo, 2004.</p><p>Green A. Orientaçoes Para Uma Psicanálise Contemporânea. Rio De</p><p>Janeiro: Imago; 2008. P. 42.</p><p>Hinshelwood. Dicionário Do Pensamento Kleiniano. Porto Alegre: Artes</p><p>Médicas, 1992.</p><p>Kachele H. Clinical And Scientific Aspects Of The Ulm Process Model Of</p><p>Psychoanalysis. International Journal Of Psychoanalysis. 1988;69:65-73.</p><p>Kehl Mr. Sobre Ética E Psicanálise. Sao Paulo: Companhia Das Letras;</p><p>2005.</p><p>Kernberg O. Agressividade, Narcisismo E Auto-Destrutividade Na</p><p>Relação Psicoterapêutica. Lisboa: Climepsi; 2006.</p><p>Klein M. Amor, Culpa E Reparação (Amor, Culpa E Reparação E Outros</p><p>Trabalhos). Rio De Janeiro: Imago; 1996. (Originalmente Publicado Em 1937).</p><p>Klein M. Sobre Os Critérios Para O Término De Uma Psicanálise (Inveja</p><p>E Gratidao E Outros Trabalhos). Rio De Janeiro: Imago; 1991. (Originalmente</p><p>Publicado Em 1950).</p><p>Klein M. Sobre Os Critérios Para O Término De Uma Psicanálise (Inveja</p><p>E Gratidao E Outros Trabalhos). Rio De Janeiro: Imago; 1991. (Originalmente</p><p>Publicado Em 1950). P. 67.</p><p>Klein, Melane. Inveja E Gratidão:E Outros Trabalhos. Rio De Janeiro:</p><p>Imago, 1991.398 P. Kishimoto, T.M, Organizadora. O Brincar E Suas Teorias.</p><p>São Paulo: Pioneira; 1998.</p><p>Knekt P, Lindfors O, Sares-Jäske L, Virtala E, Härkänen T. Randomized</p><p>Trial On The Effectiveness Of Long- And Short-Term Psychotherapy On</p><p>Psychiatric Symptoms And Working Ability During A 5-Year Follow-Up. Nordic</p><p>Journal Of Psychiatry. 2012. May 8. [Epub Ahead Of Print].</p><p>Kohut H. Como Cura A Psicanálise? Porto Alegre: Artes Médicas; 1989.</p><p>Kohut H. Self E Narcisismo. Sao Paulo: Imago; 1984.</p><p>Kupfer, M. C. M. Educação Para O Futuro: Psicanálise E Educação. São</p><p>Paulo: Escuta, Maurano, D. Para Que Serve A Psicanálise? Rio De Janeiro:</p><p>Jorge Zahar.</p><p>Lander, R. (2007). The Mechanisms Of Cure In Psychoanalysis.</p><p>Psychoanalytic Quarterly, 76,1499-1512.</p><p>Laplanche Jean, Pontalis Jean – Bertrand. Vocabulário De Psicanálise /</p><p>Laplanche E Pontalis: Sob A Direção De Daniel Lagache; Tradução Pedro</p><p>Támem; 4ª Edição; São Paulo; Martins Fontes, 2001.</p><p>Laurentino, Maria Cecília Da Silva; Melo, Vanessa Batista De. O Brincar</p><p>Nas Perspectivas: Freudiana, Kleiniana E Winnicottiana. Psicologado, [S.L.].</p><p>(2015). Disponível Em Https://Psicologado.Com.Br/Abordagens/Psicanalise/O-</p><p>Brincar-Nas-Perspectivas-Freudiana-Kleiniana-E-Winnicottiana</p><p>Lebovici, S. E Diatkine, R. Significado E Função Do Brinquedo Na Criança.</p><p>Porto Alegre: Artes Médicas, 1985</p><p>52</p><p>52</p><p>Leichsenring F, Rabung S. Effectiveness Of Long-Term Psychodynamic</p><p>Psychotherapy: A Meta-Analysis. The Journal Of The American Medical</p><p>Association. 2008;300(13):1551-65.</p><p>Leichsenring F. Are Psychodynamic And Psychoanalytic Therapies</p><p>Effective? A Review Of Empirical Data. International Journal Of Psychoanalysis.</p><p>2005;86:841-68.</p><p>Lindfors O, Knekt P, Virtala E, Laaksonen Ma. The Effectiveness Of</p><p>Solution-Focused Therapy And Short-And Long-Term Psychodynamic</p><p>Psychotherapy On Self-Concept During A 3-Year Follow-Up. The Journal Of</p><p>Nervous And Mental Disease. 2012; 200(11): 946-53.</p><p>Mecanismos De Defesa - Artigos De Psicologia</p><p>Mijolla, Alain De. Dicionário Internacional Da Psicanálise – Conceitos,</p><p>Noções, Biografias, Obras, Eventos, Instituições. Direção Geral De Alain De</p><p>Mijolla, Comitê Editorial Sophie De Mijolla – Mellor, Roger Perron E Bernard</p><p>Golse; Tradução Álvaro Cabral; 2 Volumes; Rio De Janeiro; Imago, 2005.</p><p>Miller, Patricia (1993). Theorien Der Entwicklungspsychologie.</p><p>Heidelberg: Spektrum.</p><p>Ogden T, Gabbard G. The Cure Of The Symptom In Psychoanalytic</p><p>Treatment. Journal Of The American Psychoanalytic Association. 2010;58:533-</p><p>544.</p><p>Pelento Ml. Teoría De Los Objetos Y Proceso De Curación En El</p><p>Pensameinto De D. Winnicott. Revista Asociación Escuela Argentina De</p><p>Psicoterapia Para Graduados. 1985;11:189-197.</p><p>Pervin, Lawrence A.; Cervone, Daniel & John, Oliver (2005).</p><p>Persönlichkeitstheorien. München: Reinhardt.</p><p>Piaget, J. (1946). A Formação Do Símbolo Na Criança. Rio De Janeiro:</p><p>Zahar.</p><p>Pisandelli, Sergio Pedro - As Sete Escolas Da Psicanálise. Creative</p><p>Commons, 2012.</p><p>Romanowski R, Escobar J, Sordi Re, Campos M. Níveis De Mudança E</p><p>Critérios De Melhora. In: Eizirik C, Aguiar R, Schetatsky S (Orgs.). Psicoterapia</p><p>De Orientaçao Analítica: Fundamentos Teóricos E Clínicos. 2. Ed. Porto Alegre:</p><p>Artmed; 2005. P. 376-384.</p><p>Roudinesco Elisabeth, Plon Michel. Dicionário De Psicanálise / Elisabeth</p><p>Roudinesco, Michel Plon; Tradução Vera Ribeiro, Lucy Magalhães; Supervisão</p><p>Da Edição Brasileira Marco Antônio Coutinho Jorge; Rio De Janeiro; Jorge Zahar</p><p>Ed., 1998.</p><p>Roudinesco, Elisabeth (1997). Dicionário De Psicanálise. [S.L.]: Zahar</p><p>Santos, K. F. R. Psicanálise E Psicopedagogia P. Artigo (Especialização</p><p>Em Psicanálise Teoria, Interfaces E Aplicações) - Universidade Vale Do Rio</p><p>Doce Univale, Governador Valadares.</p><p>53</p><p>53</p><p>Shirahige, E. E.; Higa, M. M. A Contribuição Da Psicanálise À Educação.</p><p>Carrara, K. (Org.). Introdução A Psicologia Da Educação: Seis Abordagens. São</p><p>Paulo: Avercamp.</p><p>Szasz, Thomas S. A Ética Da Psicanálise (1965), Rio De Janeiro: Zahar</p><p>Editores: 1975.</p><p>Teles, M. L.S. Psicodinâmica Do Desenvolvimento Humano: Uma</p><p>Introdução À Psicologia Da Educação. Petrópolis, Rj: Vozes.</p><p>Vygotsky, L. A Formação Social Da Mente. São Paulo: Martins Fontes,</p><p>Wallon, H. A Evolução Psicológica Da Criança. Lisboa: Edições 70, 2005.</p><p>Zimerman, David E.</p><p>(2014). Fundamentos Psicanalíticos: Teoria,</p><p>Técnica, Clínica – Uma Abordagem Didática. Porto Alegre: Artmed</p><p>Zimerman, David E. Fundamentos Psicanalíticos. Teoria, Técnica E</p><p>Clínica. Porto Alegre; Artmed; Ré-Impressão 2010.</p><p>noivos. O médico casou-</p><p>se com ela aos 30 anos e, juntos, tiveram seis filhos.</p><p>O médico austríaco era um homem reservado, tímido e discreto. Tinha</p><p>fobia de viajar, era viciado em charutos e chegava a fumar de 20 a 25 desses</p><p>por dia. Segundo ele, precisava fumar o charuto para manter-se criativo.</p><p>Em 1923, Freud foi diagnosticado com câncer na mandíbula e na boca.</p><p>Passou por várias cirurgias para retirar tumores. Tirou também parte da sua</p><p>mandíbula e passou a usar uma prótese. Nos 16 anos seguintes, continuou</p><p>sofrendo com a doença.</p><p>Quando os nazistas chegaram à Áustria em 1938, Freud e sua família</p><p>tiveram que fugir para Londres. No entanto, quatro das suas irmãs morreram,</p><p>mais tarde, em campos de concentração. Na ocasião, alguns livros de Freud</p><p>foram queimados.</p><p>Sigmund Freud morreu em 23 de setembro 1939, na sua casa, em</p><p>Londres, onde hoje funciona o Museu Freud de Londres. Relatos apontam que</p><p>ele faleceu depois que seu médico aplicou-lhe três doses de morfina.</p><p>Contribuições de Sigmund Freud</p><p>7</p><p>7</p><p>Tornar consciente o inconsciente sempre foi e continua sendo um dos</p><p>principais objetivos do tratamento psicanalítico. Essa fórmula, originária do</p><p>modelo topográfico da mente, foi reformulada como "onde estava o id, ali estará</p><p>o ego", articulando a ideia de que preencher as lacunas mnêmicas seria o</p><p>objetivo central dos tratamentos psicanalíticos. Freud também descreveu a</p><p>capacidade adquirida ou aumentada do paciente de amar e trabalhar como um</p><p>objetivo terapêutico. Embora Freud tenha escrito, ao longo da sua vasta obra,</p><p>inúmeros textos relevantes para a presente revisão, está se aterá ao texto de</p><p>1937, "Análise terminável e interminável".</p><p>Freud descreve a finalidade de um tratamento analítico como sendo a</p><p>libertação de alguém de seus sintomas, inibições e anormalidades de caráter</p><p>neurótico, ou seja, para ele, o analista trabalha para devolver ao paciente grande</p><p>parte de sua independência, despertar seu interesse pela vida e ajustar suas</p><p>relações com as pessoas que são importantes para ele. Outra conquista</p><p>considerada por Freud acontece quando o paciente é capaz de se apropriar de</p><p>sua melhora, vencendo as resistências que a doença revela quando está prestes</p><p>a ser dominada. Afinal, costuma-se comentar e justificar imperfeiçoes nas</p><p>pessoas com o argumento de que suas análises não foram terminadas. A</p><p>respeito dos objetivos e marcadores de uma análise bem-sucedida, ele escreve:</p><p>A partir desse argumento, pareceria que a tarefa seria da ordem do</p><p>impossível e que, para se obter algum sucesso, ter-se-ia de empreender análises</p><p>intermináveis ou demasiadamente longas. Nesse sentido, Freud pergunta-se: é</p><p>possível que o tratamento analítico promova normalidade psíquica absoluta? E</p><p>8</p><p>8</p><p>por acaso, isso existe? Assim, concluir que a alta ou o término do tratamento</p><p>estejam ligados a alcançar os objetivos firmados no contrato ou seja, transformar</p><p>queixas e pedidos de ajuda em demanda para tratamento parece razoável e</p><p>esperado.</p><p>Outro importante fator considerado na teoria freudiana para a análise de</p><p>resultados terapêuticos se refere ao tipo de sofrimento do paciente, à estrutura</p><p>psicopatológica e à etiologia da doença (endógena - pulsões resistentes;</p><p>exógena - trauma). A única análise que poderia ser completamente terminada</p><p>seria a que se dispõe a tratar fatores exógenos ou traumáticos, a qual substitui</p><p>a resolução do trauma criadora de sintomas e inibições por outra mais adequada.</p><p>O problema reside na ausência de um caráter profilático para tais tratamentos,</p><p>pois a saúde do indivíduo dependeria em princípio de que sua vida fosse</p><p>poupada de quaisquer acontecimentos penosos.</p><p>Assim, questiona-se: seria objetivo de um tratamento psicanalítico livrar o</p><p>paciente de qualquer moléstia emocional até o fim de sua vida? Acredita-se que,</p><p>para um tratamento ser bem-sucedido, o paciente, após a alta, não pode</p><p>adoecer, atrapalhar-se ou deprimir-se? Quando se fala em melhora ou cura</p><p>como um objetivo terapêutico, pode ser útil tomar de empréstimo as experiências</p><p>das outras modalidades de tratamento. Quando um pneumologista cura uma</p><p>pneumonia, por exemplo, há alguma garantia de que essa doença não</p><p>acometerá aquele paciente novamente? Seria coerente, então, falar de profilaxia</p><p>psíquica? Ao separar a noção de cura das ideias de prevenção e estabilidade</p><p>dos resultados, Freud dá um grande passo para conceituar o objetivo de um</p><p>tratamento.</p><p>O caráter preventivo e permanente que variadas pesquisas de follow-up</p><p>buscam como indicador de um tratamento bem-sucedido, assim como a opinião</p><p>geral da sociedade, segundo Freud, é o que pode acabar ofuscando o</p><p>estabelecimento dos objetivos do tratamento. Se terapeuta e paciente estão</p><p>lidando com forças pulsionais que devem ser amansadas, conteúdos</p><p>9</p><p>9</p><p>inconscientes que devem emergir e inibições que devem ser vencidas, mas essa</p><p>luta toda deve ocorrer à mercê das intempéries da vida, a ideia de profilaxia</p><p>produz algo como um curto-circuito de conceitos. Quando o objetivo está</p><p>associado a uma conquista permanente, não parece ser possível diferenciar</p><p>fantasia de cura de objetivos terapêuticos. O objetivo da análise para Freud, em</p><p>1937, era fazer com que o sujeito tivesse direito de participar da vida.</p><p>A vida em si pode enfraquecer o eu de diversas maneiras, como por</p><p>exaustão, acidente ou doença. Nesses casos, a pulsão pode renovar suas</p><p>exigências de formas mais ou menos traumáticas. Para Freud, o tratamento</p><p>deveria então:</p><p>1) capacitar o eu para atingir certo grau de maturidade que lhe permita</p><p>revisar antigas repressões geradas na primeira infância,</p><p>2) substituir medidas de defesa primitivas criadas por um eu imaturo por</p><p>mecanismos de maior firmeza e confiabilidade,</p><p>3) trocar repressões inseguras por controles egossintônicos confiáveis e,</p><p>finalmente,</p><p>4) recrutar no potencial para a saúde do paciente ferramentas para</p><p>enfrentar tanto o ambiente em si, que clama por adaptação, quanto a reação do</p><p>eu e de suas pulsões a esse mesmo ambiente.</p><p>Ademais, prevenir significa antecipar conflitos que não estão na demanda</p><p>atual do paciente. Para que a regra essencial da abstinência seja preservada,</p><p>não se deve criar material no campo analítico que não tenha sido trazido pelo</p><p>paciente, pois demandas unilaterais criam um clima inamistoso e prejudicial à</p><p>transferência. Em suma, para Freud, o tratamento psicanalítico pode resolver os</p><p>sofrimentos neuróticos, mas jamais os infortúnios da vida.</p><p>10</p><p>10</p><p>Alguns componentes específicos da psicanálise Freudiana</p><p>Depois de ter contato com a hipnose como forma de tratamento, Freud</p><p>procurou utilizá-la em seus pacientes. Isso aconteceu depois de ter aberto um</p><p>consultório em Viena para tratar de “doenças nervosas”. O contato com a</p><p>hipnose levou Freud a concluir, tempos depois, que as doenças mentais eram,</p><p>de fato, causadas por distúrbios em uma parte que ele chamou de inconsciente.</p><p>Freud passou a defender a ideia de que a forma de tratar essas doenças</p><p>deveria acontecer por meio das palavras. Inicialmente, Freud hipnotizava seus</p><p>pacientes e os incentivava a falar sobre todos os seus traumas. Esse</p><p>procedimento ficou conhecido como “cura pela palavra” e foi resultado da</p><p>influência de um neurologista chamado Josef Breuer.</p><p>Breuer era um dos mais importantes neurologistas de Viena, e o relato</p><p>dele a respeito de uma de suas pacientes teve grande impacto em Freud. Essa</p><p>paciente, que sofria de depressão, era Bertha Pappenheim, também conhecida</p><p>como Anna O. Breuer hipnotizava sua paciente e a orientava a falar sobre os</p><p>seus sintomas e traumas, tendo como resultado a melhora do quadro de Anna</p><p>O.</p><p>Após esse caso, Freud passou a aplicar a “cura pela palavra” em seus</p><p>próprios pacientes. Ele os incentivava</p><p>a falar sobre os traumas e anotava tudo o</p><p>que era dito pelos seus pacientes. Com o tempo, começou a identificar que a</p><p>parte consciente da mente humana não tinha acesso a todas as lembranças e</p><p>grande parte dos pensamentos ficava reprimida no “inconsciente”. Assim, o</p><p>tratamento por meio da psicanálise só seria de fato eficaz se fosse possível</p><p>acessar os pensamentos e traumas do inconsciente, levando-os para a</p><p>consciência do paciente.</p><p>Os atendimentos realizados por Freud aconteciam em um apartamento</p><p>localizado no mesmo prédio (Berggasse 19) que ficava sua casa. Freud colocava</p><p>11</p><p>11</p><p>seus pacientes em um sofá (chamado de divã), em uma posição em que não</p><p>havia contato visual com os pacientes. Os resultados foram mostrando-se</p><p>satisfatórios, e Freud começou a ganhar popularidade. Esses resultados foram</p><p>importantes porque conseguiram provar a teoria de Freud a respeito da</p><p>existência do inconsciente na mente humana.</p><p>Estrutura e dinâmica da personalidade</p><p>Freud imaginava a psique (ou aparelho psíquico) do ser humano como</p><p>um sistema de energia: cada pessoa é movida, segundo ele, por uma quantidade</p><p>limitada de energia psíquica. Isso significa, por um lado, que se grande parte da</p><p>energia for necessária para a realização de determinado objetivo (ex. expressão</p><p>artística) ela não estará disponível para outros objetivos (ex. sexualidade); por</p><p>outro lado, se a pessoa não puder dar vazão à sua energia por um canal (ex.</p><p>sexualidade), terá de fazê-lo por outro (ex. expressão artística).</p><p>Essa energia provém das pulsões (às vezes chamadas incorretamente de</p><p>instintos). Segundo o autor, o ser humano possui duas pulsões inatas, a de vida</p><p>(Eros) e a de morte.</p><p>Essas duas pulsões opõem-se ao ideal da sociedade e, por isso, precisam</p><p>ser controladas através da educação, considerando que a energia gerada pelas</p><p>pulsões não é liberada de maneira direta. O ser humano é, assim, sexual e</p><p>agressivo por natureza e a função da sociedade é amansar essas tendências</p><p>naturais do homem. A situação de não poder dar vazão a essa energia gera no</p><p>indivíduo um estado de tensão interna que necessita ser resolvido. Toda ação</p><p>do homem é motivada, assim, pela busca hedonista de dar vazão à energia</p><p>psíquica acumulada.</p><p>12</p><p>12</p><p>Os níveis da consciência ou modelo topológico da mente (1ª Tópica)</p><p>O ser humano, no entanto, não se dá conta de todo esse processo de</p><p>geração e liberação de energia. Para explicar esse fato, Freud descreve três</p><p>níveis de consciência:</p><p> O consciente, que abarca todos os fenômenos que em determinado</p><p>momento podem ser percebidos de maneira consciente pelo indivíduo;</p><p> O pré-consciente, refere-se aos fenômenos que não estão conscientes</p><p>em determinado momento, mas podem tornar-se, se o indivíduo desejar se</p><p>ocupar com eles;</p><p> O inconsciente, que diz respeito aos fenômenos e conteúdos que não são</p><p>conscientes e somente sob circunstâncias muito especiais podem tornar-se. (O</p><p>termo subconsciente é muitas vezes usado como sinônimo, apesar de ter sido</p><p>abandonado pelo próprio Freud.)</p><p>Freud não foi o primeiro a propor que parte da vida psíquica se desenvolve</p><p>inconscientemente. Ele foi, no entanto, o primeiro a pesquisar profundamente</p><p>esse território. Segundo ele, os desejos e pensamentos humanos produzem</p><p>muitas vezes conteúdos que causariam medo ao indivíduo, se não fossem</p><p>armazenados no inconsciente. Este tem assim uma função importantíssima de</p><p>estabilização da vida consciente. Sua investigação levou-o a propor que o</p><p>inconsciente é alógico (e por isso aberto a contradições); atemporal e aespacial</p><p>(ou seja, conteúdos pertencentes a épocas ou espaços diferentes podem estar</p><p>próximas). Os sonhos são vistos como expressão simbólica dos conteúdos</p><p>inconscientes.</p><p>Através da compreensão do conceito de inconsciente torna-se clara a</p><p>compreensão da motivação na psicanálise clássica: muitos desejos, sentimentos</p><p>e motivos são inconscientes, por serem muito dolorosos para se tornarem</p><p>conscientes. No entanto esse conteúdo inconsciente influencia a experiência</p><p>consciente da pessoa, por exemplo, através de atos falhos, comportamentos</p><p>13</p><p>13</p><p>aparentemente irracionais, emoções inexplicáveis, medo, depressão,</p><p>sentimento de culpa. Assim, os sentimentos, sonhos, desejos e motivos</p><p>inconscientes influenciam e guiam o comportamento consciente.</p><p>Modelo estrutural da personalidade (2ª Tópica)</p><p>Freud desenvolveu mais tarde, (1923) um modelo estrutural da</p><p>personalidade, em que o aparelho psíquico se organiza em três estruturas:</p><p> Id (em alemão: es, "ele, isso"): O id é a fonte da energia psíquica,</p><p>a libido. O id é formado pelas pulsões, instintos, impulsos orgânicos e desejos</p><p>inconscientes. Ele funciona segundo o princípio do prazer (Lustprinzip), ou seja,</p><p>busca sempre o que produz prazer e evita o desprazer. Não faz planos, não</p><p>espera, busca uma solução imediata para as tensões, não aceita frustrações e</p><p>não conhece inibição. Ele não tem contato com a realidade e uma satisfação na</p><p>fantasia pode ter o mesmo efeito de uma atingida través de uma ação. O id</p><p>desconhece juízo, lógica, valores, ética ou moral, sendo exigente, impulsivo,</p><p>14</p><p>14</p><p>cego, irracional, antissocial e dirigido ao prazer. O id é completamente</p><p>inconsciente.</p><p> Ego (ich, "eu"): O ego desenvolve-se a partir do id com o objetivo</p><p>de permitir que seus impulsos sejam eficientes, ou seja, levando em conta o</p><p>mundo externo, por intermédio do chamado princípio da realidade. É esse</p><p>princípio que introduz a razão, o planejamento e a espera ao comportamento</p><p>humano. A satisfação das pulsões é retardada até o momento em que a</p><p>realidade permita satisfazê-las com um máximo de prazer e um mínimo de</p><p>consequências negativas. A principal função do ego é buscar uma harmonização</p><p>inicialmente entre os desejos do id e a supervisão/realidade/repressão do</p><p>superego.</p><p> Superego (Über-Ich, "super-eu", "além-do-eu"): É a parte moral da</p><p>mente humana e representa os valores da sociedade.</p><p>O superego tem três objetivos:</p><p>(1) reprimir, através de punição ou sentimento de culpa, qualquer impulso</p><p>contrário às regras e ideais por ele ditados;</p><p>(2) forçar o ego a se comportar de maneira moral, mesmo que irracional;</p><p>e,</p><p>(3) conduzir o indivíduo à perfeição, em gestos, pensamentos e palavras.</p><p>O superego forma-se após o ego, durante o esforço da criança de introjetar os</p><p>valores recebidos dos pais e da sociedade a fim de receber amor e afeição. Ele</p><p>pode funcionar de uma maneira bastante primitiva, punindo o indivíduo não</p><p>apenas por ações praticadas, mas também por pensamentos inaceitáveis; outra</p><p>característica sua é o pensamento dualista (tudo ou nada, certo ou errado, sem</p><p>meio-termo). O superego divide-se em dois subsistemas: o ego ideal, que dita o</p><p>bem a ser procurado, e a consciência (Gewissen), que determina o mal a ser</p><p>evitado.</p><p>15</p><p>15</p><p>Os mecanismos de defesa</p><p>O ego está constantemente sob tensão, nas suas tentativas de</p><p>harmonizar os impulsos do id no mundo exterior e adequando-os à repressão do</p><p>superego. Quando essa tensão (normalmente sob a forma de medo) se torna</p><p>grande demais, ameaça a estabilidade do ego, que pode fazer uso dos</p><p>mecanismos de defesa ou ajustamentos. Estas são estratégias do ego para</p><p>diminuir o medo através de uma deformação da realidade - dessa forma o ego</p><p>exclui da consciência conteúdos indesejados. Os mecanismos de defesa</p><p>satisfazem os desejos do id apenas parcialmente, mas, para este, uma</p><p>satisfação parcial é melhor do que nenhuma.</p><p>Entre os mecanismos de defesa é preciso considerar, por um lado, os</p><p>mecanismos bastante elaborados para defender o eu (ego), e por outro lado, os</p><p>que estão simplesmente encarregados de defender a existência do narcisismo.</p><p>Freud (1937) diz</p><p>que mecanismos defensivos falsificam a percepção interna do</p><p>sujeito fornecendo somente uma representação imperfeita e deformada.</p><p>Freud descreveu muitos mecanismos de defesa no decorrer da sua obra</p><p>e seu trabalho foi continuado por sua filha Anna Freud; os principais mecanismos</p><p>são:</p><p> Repressão é o processo pelo qual se afastam da consciência</p><p>conflitos e frustrações demasiadamente dolorosos para serem experimentados</p><p>ou lembrados, reprimindo-os e recalcando-os para o inconsciente; o que é</p><p>desagradável é, assim, esquecido;</p><p> Formação reativa consiste em ostentar um procedimento e externar</p><p>sentimentos opostos aos impulsos verdadeiros, indesejados.</p><p> Projeção consiste em atribuir a outros as ideias e tendências que o</p><p>sujeito não pode admitir como suas.</p><p> Regressão consiste em a pessoa retornar a comportamentos</p><p>imaturos, característicos de fase de desenvolvimento que a pessoa já passou.</p><p>16</p><p>16</p><p> Fixação é um congelamento no desenvolvimento, que é impedido</p><p>de continuar. Uma parte da libido permanece ligada a um determinado estágio</p><p>do desenvolvimento e não permite que a criança passe completamente para o</p><p>próximo estágio. A fixação está relacionada com a regressão, uma vez que a</p><p>probabilidade de uma regressão a um determinado estágio do desenvolvimento</p><p>aumenta se a pessoa desenvolveu uma fixação por este.</p><p> Sublimação é a satisfação de um impulso inaceitável através de um</p><p>comportamento socialmente aceito.</p><p> Identificação é o processo pelo qual um indivíduo assume uma</p><p>característica de outro. Uma forma especial de identificação é a identificação</p><p>com o agressor.</p><p> Deslocamento é o processo pelo qual agressões ou outros</p><p>impulsos indesejáveis, não podendo ser direcionados à(s) pessoa(s) a que se</p><p>referem, são direcionadas a terceiros.</p><p>As fases do desenvolvimento psicossexual</p><p>Uma importante parte da teoria freudiana é dedicada ao desenvolvimento</p><p>da personalidade. Duas hipóteses caracterizam sua teoria:</p><p>Freud foi o primeiro a afirmar que os primeiros anos das vida são os mais</p><p>importantes para o desenvolvimento da pessoa e o desenvolvimento do</p><p>indivíduo se dá em fases ou estádios psico-sexuais. Freud foi, assim, o primeiro</p><p>autor a afirmar que as crianças também têm uma sexualidade.</p><p>Freud descreve quatro fases distintas, pelas quais a criança passa em seu</p><p>desenvolvimento. Cada uma dessas fases é definida pela região do corpo a que</p><p>as pulsões se direcionam. Em cada fase surgem novas necessidades que</p><p>exigem satisfação; a maneira como essas necessidades são satisfeitas</p><p>determina como a criança se relaciona com outras pessoas e quais sentimentos</p><p>17</p><p>17</p><p>ela tem para consigo mesma. A transição de uma fase para outra é</p><p>biologicamente determinada, de tal forma que uma nova fase pode iniciar sem</p><p>que os processos da fase anterior tenha se completado. As fases se seguem</p><p>umas às outras em uma ordem fixa e, apesar de uma fase se desenvolver a partir</p><p>da anterior, os processos desencadeados em uma fase nunca estão plenamente</p><p>completos e continuam agindo durante toda a vida da pessoa.</p><p>A fase oral</p><p>A primeira fase do desenvolvimento é a fase oral, que se estende desde</p><p>o nascimento até aproximadamente dois anos de vida. Nessa fase a criança</p><p>vivencia prazer e dor através da satisfação (ou frustração) de pulsões orais, ou</p><p>seja, pela boca. Essa satisfação se dá independente da satisfação da fome, mas</p><p>inicialmente por ela. Assim, para a criança sugar, mastigar, comer, morder,</p><p>cuspir etc. têm uma função ligada ao prazer, além de servirem à alimentação.</p><p>Ao ser confrontada com frustrações a criança é obrigada a desenvolver</p><p>mecanismos para lidar com tais frustrações. Esses mecanismos são a base da</p><p>futura personalidade da pessoa. Assim, uma satisfação insuficiente das pulsões</p><p>orais pode conduzir a uma tendência para ansiedade e pessimismo; já uma</p><p>excessiva satisfação pode levar, através de uma fixação nessa fase, a</p><p>dificuldades de aceitar novos objetos como fonte de prazer/dor em fases</p><p>posteriores, aumentando assim a probabilidade de uma regressão.</p><p>A fase oral se divide em duas fases menores, definidas pelo nascimento</p><p>dos dentes. Até então a criança se encontra em uma fase passiva-receptiva; com</p><p>os primeiros dentes a criança passa a uma fase sádica-ativa através da</p><p>possibilidade de morder. O principal objeto de ambas as fases, o seio materno,</p><p>se torna, assim, um objeto ambivalente. Essa ambivalência caracteriza a maior</p><p>parte dos relacionamentos humanos, tanto com pessoas como com objetos.</p><p>18</p><p>18</p><p>A fase oral apresenta, assim, cinco modos de funcionamento que podem</p><p>se desenvolver em características da personalidade adulta:</p><p>→ O incorporar do alimento se mostra no adulto como um "incorporar"</p><p>de saber ou poder, ou ainda como a capacidade de se identificar com outras</p><p>pessoas ou de se integrar em grupos;</p><p>→ O segurar o seio, não querendo se separar dele, se mostram</p><p>posteriormente como persistência e perseverança ou ainda como decisão;</p><p>→ Morder é o protótipo da destrutividade, assim do sarcasmo, cinismo</p><p>e tirania;</p><p>→ Cuspir se transforma em rejeição e</p><p>→ O fechar a boca, impedindo a alimentação, conduz a rejeição,</p><p>negatividade ou introversão.</p><p>→ O principal processo na fase oral é a criação da ligação entre mãe</p><p>e filho.</p><p>A fase anal</p><p>A segunda fase, segundo Freud, é a fase anal, que vai aproximadamente</p><p>do primeiro ao terceiro ano de vida. Nessa fase a satisfação das pulsões se dirige</p><p>ao ânus, ao controle da tensão intestinal. Nessa fase a criança tem de aprender</p><p>o controle dos esfincteres sobre o ato de defecar e, dessa forma, deve aprender</p><p>a lidar com a frustração do desejo de satisfazer suas necessidades</p><p>imediatamente.</p><p>Como na fase oral, também os mecanismos desenvolvidos nesta fase</p><p>influenciam o desenvolvimento da personalidade. O defecar imediato e</p><p>descontrolado é o protótipo dos ataques de raiva; já uma educação muito rígida</p><p>com relação à higiene pode conduzir tanto a uma tendência ao caos, aos</p><p>19</p><p>19</p><p>descuido, à bagunça quanto a uma tendência a uma organização compulsiva e</p><p>exageradamente controlada.</p><p>Se a mãe faz elogios demais ao fato de a criança conseguir esperar até o</p><p>banheiro, pode surgir uma ligação entre dar (as fezes) e receber amor, e a</p><p>pessoa pode desenvolver generosidade; se a mãe supervaloriza essas</p><p>necessidades biológicas, a criança pode se desenvolver criativa e produtiva ou,</p><p>pelo contrário, se tornar depressiva, caso ela não corresponda às expectativas;</p><p>crianças que se recusam a defecar podem se desenvolver como colecionadores,</p><p>coletores ou avaros.</p><p>A fase fálica</p><p>A fase fálica, que vai dos três aos cinco anos de vida, se caracteriza</p><p>segundo Freud pela importância da presença (ou, nas meninas, da ausência) do</p><p>falo ou pênis; nessa fase prazer e desprazer estão, assim, centrados na região</p><p>genital. As dificuldades dessa fase estão ligadas ao direcionamento da pulsão</p><p>sexual ou libidinosa ao genitor do sexo oposto e aos problemas resultantes. A</p><p>resolução desse conflito está relacionada ao complexo de Édipo e à identificação</p><p>com o genitor de mesmo sexo.</p><p>Freud desenvolveu sua teoria tendo sobretudo os meninos em vista, uma</p><p>vez que, para ele, estes vivenciariam o conflito da fase fálica de maneira mais</p><p>intensa e ameaçadora. Segundo Freud o menino deseja nessa fase ter a mãe</p><p>só para si e não partilhá-la mais com o pai; ao mesmo tempo ele teme que o pai</p><p>se vingue, castrando-o. A solução para esse conflito consiste na repressão tanto</p><p>do desejo libidinoso com relação à mãe como dos sentimentos agressivos para</p><p>com o pai; em um segundo momento realiza-se a identificação do menino com</p><p>seu pai, o que os aproxima e conduz, assim, a uma internalização por parte do</p><p>menino dos valores, convicções, interesses e posturas do pai.</p><p>20</p><p>20</p><p>O complexo de Édipo representa um importante passo na formação do</p><p>superego e na socialização dos meninos, uma vez que o menino aprende a</p><p>seguir os valores dos pais. Essa solução de compromisso permite que tanto o</p><p>ego (através da diminuição do medo) e o id (por o menino poder possuir a mãe</p><p>indiretamente através do pai, com o qual ele se identifica) sejam parcialmente</p><p>satisfeitos.</p><p>O conflito vivenciado pelas meninas é parecido, contudo com mais</p><p>possibilidades de solução. A menina deseja o próprio pai, em parte devido à</p><p>inveja que sente por não ter um pênis (al. Penisneid); ela sente-se castrada e</p><p>culpa à própria mãe por tê-la privado de um falo. Por outro lado, a mãe</p><p>representa uma ameaça menos séria, uma vez que uma castração não é</p><p>possível. Devido a essa situação diferente, a identificação da menina com a</p><p>própria mãe é menos forte do que a do menino com seu pai e, por isso, as</p><p>meninas teriam uma consciência menos desenvolvida - afirmação esta que foi</p><p>rejeitada pela pesquisa empírica.</p><p>Freud usou o termo "complexo de Édipo" para ambos os sexos; autores</p><p>posteriores limitaram o uso da expressão aos meninos, reservando para as</p><p>meninas o termo "complexo de Electra", mas que foi rejeitado por Freud no texto</p><p>"Sobre a Sexualidade Feminina" de 1931.</p><p>A apresentação do complexo de Édipo dada acima é, no entanto,</p><p>simplificada. Na realidade o resultado da resolução do complexo de Édipo é</p><p>sempre uma identificação como ambos os pais e a força de cada uma dessas</p><p>identificações depende de diferentes fatores, como a relação entre os elementos</p><p>masculinos e femininos na predisposição fisiológica da criança ou a intensidade</p><p>do medo de castração ou da inveja do pênis. Além disso, a mãe mantém em</p><p>ambos os sexos um papel primordial, permanecendo sempre o principal objeto</p><p>da libido.</p><p>21</p><p>21</p><p>O período de latência</p><p>Depois da agitação dos primeiros anos de vida segue-se uma fase mais</p><p>tranquila que se estende até a puberdade. Nessa fase a libido é desinvestida das</p><p>fantasias e da sexualidade, tornando-as secundárias, mas reinvestida em outros</p><p>meios como o desenvolvimento cognitivo, aprendizado, a assimilação de valores</p><p>e normas sociais que se tornam as atividades principais da criança, continuando</p><p>o desenvolvimento do ego e do superego.</p><p>A fase genital</p><p>A última fase do desenvolvimento psicossocial é a fase genital, que se dá</p><p>durante a adolescência. Nessa fase as pulsões sexuais, depois da longa fase de</p><p>latência e acompanhando as mudanças corporais, despertam-se novamente,</p><p>mas desta vez se dirigem a uma pessoa do sexo oposto, ou não (onde entra a</p><p>questão da homossexualidade).</p><p>Como se depreende da explanação anterior, a escolha do parceiro não se</p><p>dá independente dos processos de desenvolvimento anteriores, mas é</p><p>influenciada pela vivência nas fases anteriores. Além disso, apesar de</p><p>continuarem agindo durante toda a vida do indivíduo, os conflitos internos típicos</p><p>das fases anteriores atingem na fase genital uma relativa estabilidade</p><p>conduzindo a pessoa a uma estrutura do ego que lhe permite enfrentar os</p><p>desafios da idade adulta.</p><p>Teoria do Trauma</p><p>22</p><p>22</p><p>Durante muito tempo, o aspecto mais conhecido e discutido da obra de</p><p>Freud era o da teoria da libido, que ele elaborou inspirado nos modelos da</p><p>eletrodinâmica ou da hidrodinâmica vigentes na ciência da época.</p><p>Assim, o conceito de libido, que Freud concebeu como sendo a</p><p>manifestação psicológica do instinto sexual, recebeu sua origem na tentativa de</p><p>explicar fenômenos, tais como os da histeria, que Freud explicava como sendo</p><p>resultantes do fato de que a energia sexual era impedida de expandir-se através</p><p>de sua saída natural e fluía, então, para outros órgãos, ficando restringida ou</p><p>contida em certos pontos e manifestando-se através de sintomas vá- rios.</p><p>Freud chegara à conclusão de que as neuroses, como a histeria, a</p><p>neurose obsessiva, a neurastenia e a neurose de angústia (fobia), teriam sua</p><p>causa imediata no aspecto “econômico” da energia psíquica, ou seja, num</p><p>represamento quantitativo da libido sexual.</p><p>Na neurastenia e na neurose de angústia, somente o represamento da</p><p>libido sexual é o que estaria em jogo, enquanto nas demais neuroses traumáticas</p><p>outros acontecimentos da vida passada também seriam fatores causadores dos</p><p>transtornos neuróticos.</p><p>Partindo inicialmente da concepção inicial de que o conflito psíquico era</p><p>resultante das repressões impostas pelos traumas de sedução sexual que</p><p>realmente teriam acontecido no passado, e que retornavam sob a forma de</p><p>sintomas, Freud postulou que os “neuróticos sofrem de reminiscências”, e que a</p><p>cura consistiria em “lembrar o que estava esquecido”. Penso que, para certos</p><p>casos, esta fórmula persiste na psicanálise atual como plenamente válida,</p><p>porquanto é bem sabido que “a melhor forma de esquecer é lembrar” ou, dizendo</p><p>de outra forma, “o sujeito não consegue esquecer daquilo que ele não consegue</p><p>lembrar”.</p><p>A diferença é que na época de Freud este relembrar visava unicamente a</p><p>uma ab-reação, uma catarse por meio da verbalização dos fatos traumáticos e</p><p>23</p><p>23</p><p>os respectivos sentimentos contidos nas lembranças, enquanto hoje os analistas</p><p>vão, além disso, e objetivam uma ressignificação dos significados atribuídos aos</p><p>traumas que o paciente está rememorando na situação psicanalítica. Assim, a</p><p>necessidade de desfazer as repressões introduziu dois elementos essenciais à</p><p>teoria e à técnica da psicanálise: a descoberta das resistências inconscientes e</p><p>o uso das interpretações por parte do psicanalista.</p><p>Teoria Topográfica</p><p>A teoria anterior perdurou até 1897, quando então Freud deu-se conta de</p><p>que a teoria do trauma era insuficiente para explicar tudo, e que os relatos das</p><p>suas pacientes histéricas não traduziam a verdade factual; mas sim que eles</p><p>estavam contaminados com as fantasias inconscientes que provinham de seus</p><p>desejos proibidos e ocultos. Daí, ele propôs a divisão da mente em três “lugares”</p><p>(a palavra “lugar”, em grego, é “topos”, daí teoria topográfica). A estes diferentes</p><p>lugares ele denominou: Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente, sendo que</p><p>o paradigma técnico passou a ser: “tornar consciente o que estiver no</p><p>inconsciente”.</p><p>Em 1900, Freud publicou A interpretação de sonhos, no qual ele comprova</p><p>que o conteúdo do sonho “manifesto” pode ser visto como um modo disfarçado</p><p>e “censurado” da satisfação de proibidos desejos inconscientes.</p><p>A propósito, essa fase teórica de Freud pode ser resumida com a sua</p><p>afirmativa de que “todo sonho, e sintoma, tem um umbigo que conduz ao</p><p>desconhecido do inconsciente”, sendo que, pode-se acrescentar, é a descoberta</p><p>do significado simbólico dos sonhos e sintomas que inaugura a psicanálise como</p><p>ciência propriamente dita.</p><p>A partir do seu fracasso com a análise de “Dora” – escrito em 1901, mas</p><p>que somente foi publicado em 1905, por razões de sigilo profissional –, Freud</p><p>24</p><p>24</p><p>obrigou-se a fazer profundas reflexões, sendo que ele chegou a afirmar que,</p><p>desde então, a técnica psicanalítica foi profundamente transformada. Pode-se</p><p>dizer que as principais transformações que se processaram nessa época foram:</p><p>a) a psicanálise deixou de ser uma detida investigação e busca de solução</p><p>de, separadamente, sintoma por sintoma;</p><p>b) a descoberta e a formulação do “princípio da multideterminação” dos</p><p>sintomas;</p><p>c) o próprio paciente é quem passou a tomar a iniciativa de propor o</p><p>assunto de sua sessão;</p><p>d) o analista substituiu a atitude de comportar-se como um investigador</p><p>ativo e diretivo por uma atitude mais compreensiva da dinâmica do sofrimento</p><p>do analisando;</p><p>e) abandono total da técnica da hipnose e da sugestão devido à</p><p>percepção de Freud de que as elas encobriam a existência de “resistências”;</p><p>f) estas últimas resultam de repressões, sendo que o retorno do reprimido</p><p>manifesta-se pelo fenômeno da “transferência”;</p><p>g) sobretudo, o “caso Dora” ensinou a Freud a existência e a importância</p><p>de o analista reconhecer e trabalhar com a “transferência negativa”.</p><p>Teoria Estrutural</p><p>À medida que se aprofundava na dinâmica psíquica, Freud tropeçava com</p><p>o campo restrito da teoria topográfica, por demais estática, e ampliou-a com a</p><p>concepção de que a mente comportava-se como uma estrutura no qual distintas</p><p>demandas, funções e proibições, quer provindas do consciente ou do</p><p>inconsciente, interagiam de forma permanente e sistemática entre si e com a</p><p>25</p><p>25</p><p>realidade externa. Desta forma, mais precisamente a partir do trabalho O ego e</p><p>o id (1923), ele concebeu a estrutura tripartite, composta pelas instâncias do id</p><p>(com as respectivas pulsões), do ego (com o seu conjunto de funções e de</p><p>representações) e do superego (com as ameaças, castigos, etc.). O paradigma</p><p>técnico da psicanálise foi formulado por Freud como: “onde houver id (e</p><p>superego), o ego deve estar”.</p><p>Conceituações sobre o Narcisismo</p><p>Embora não tenha sido formulado como uma teoria, os estudos de Freud</p><p>sobre o narcisismo abriram as portas para uma mais profunda compreensão do</p><p>psiquismo primitivo e constituíram-se como sementes que continuam</p><p>germinando e propiciando inúmeros vértices de abordagem por parte de autores</p><p>de todas correntes psicanalíticas. De acordo com o pensamento mais vigente</p><p>entre os autores, pode-se dizer que, na atualidade, um importante paradigma da</p><p>psicanálise atual pode ser formulado como “onde houver Narciso, Édipo deve</p><p>estar”. (Grunberger, 1979).</p><p>26</p><p>26</p><p>Dissociação do Ego</p><p>Aquele jovem Freud que ficara perplexo ao perceber uma dissociação da</p><p>mente que se manifestava nas pacientes histéricas durante o transe hipnótico</p><p>induzido por Charcot, foi aprofundando suas pesquisas sobre este fascinante</p><p>enigma até que ele ficou convencido de que esta clivagem da mente em regiões</p><p>conscientes e inconscientes não era específica e restrita às psicoses e neuroses,</p><p>mas que ela ocorria com todos os indivíduos. Assim, desde os seus primeiros</p><p>trabalhos com pacientes histéricas, Freud já falava de uma cisão interssistêmica</p><p>da qual resultam núcleos psíquicos independentes.</p><p>No entanto, é a partir de seu trabalho sobre Fetichismo (1927) e, de forma</p><p>mais consistente, em Clivagem do ego no processo de defesa (1940), que</p><p>escreveu ao apagar das luzes de sua imensa obra, é que Freud estudou a cisão</p><p>ativa, intrassistêmica, que ocorre no próprio seio do ego e não unicamente entre</p><p>as instâncias psíquicas. Com isso, Freud lançou novas sementes que</p><p>possibilitaram aos pósteros autores desenvolverem uma concepção inovadora</p><p>da conflitiva intrapsíquica, o que, creio, pode ser exemplificado com os trabalhos</p><p>de Bion (1967) sobre a existência concomitante em qualquer pessoa da “parte</p><p>psicótica e da parte não psicótica da personalidade” e cuja compreensão, por</p><p>parte do psicanalista, representa um enorme avanço na técnica e na prática</p><p>clínica.</p><p>Diante do exposto, o gênio de Freud possibilitou que, entre avanços,</p><p>recuos e sucessivas transformações, ele construísse os alicerces essenciais do</p><p>edifício metapsicológico e prático da psicanálise, sempre estabelecendo inter-</p><p>relações entre a teoria, a técnica, a ética e a prática clínica.</p><p>27</p><p>27</p><p>Melanie Klein</p><p>Biografia</p><p>A psicoterapeuta austríaca Melanie née</p><p>Reizes, posteriormente conhecida como Melanie</p><p>Klein, nasceu na cidade de Viena, no dia 30 de</p><p>março de 1882. Era filha do médico Moritz Reizes,</p><p>judeu de origem polonesa, provindo de Lemberg,</p><p>situada na Galícia descendente de família</p><p>ortodoxa, rompe com ela e segue a Medicina -, e</p><p>de Libussa Reizes, fruto de um meio instruído e ilustrado, no qual preponderava</p><p>a linhagem feminina, mas obrigada a trabalhar com a venda de plantas e répteis</p><p>para ajudar na sobrevivência familiar.</p><p>Ela não foi uma filha muito esperada, nascendo depois de três filhos, em</p><p>um ambiente dominado pelo desentendimento entre os pais. Sua mãe tinha uma</p><p>natureza dominadora, e posteriormente transformaria o matrimônio e a vida</p><p>familiar de Melanie em terrível suplício. Ela cresceu entre mortes e perdas</p><p>dolorosas; aos quatro anos viu sua irmã Sidonie partir, vítima de uma</p><p>tuberculose, com apenas 8 anos; aos 18 ela perdeu o pai, permanecendo sob o</p><p>domínio materno; e quando ainda contava 20 anos de idade, Emmanuel, seu</p><p>irmão preferido, com quem mantinha um relacionamento ambíguo, marcado por</p><p>nuances incestuosas, faleceu ao não suportar mais a enfermidade, o peso das</p><p>drogas e da angústia.</p><p>Estes desaparecimentos constantes deixaram como herança para</p><p>Melanie um persistente sentimento de culpa, do qual se encontram traços em</p><p>sua produção intelectual. Alguns estudiosos defendem que ela teria se casado</p><p>pouco tempo depois da morte do irmão justamente por se sentir responsável por</p><p>28</p><p>28</p><p>ela. Sua união com o engenheiro químico Arthur Klein, de personalidade severa,</p><p>em 1903, pode também ter ocorrido por sua família estar enfrentando uma crise</p><p>financeira, a mesma que teria motivado a jovem a abandonar o curso de</p><p>Medicina, depois de se dedicar ao aprendizado de arte e história na Universidade</p><p>de Viena. Outros estudiosos de sua vida alegam que ela teria realizado estes</p><p>cursos depois da tentativa frustrada com a Medicina, que ela teria deixado ao se</p><p>casar.</p><p>O trabalho de Arthur levava o casal a viagens constantes, durante as quais</p><p>Melanie pode conquistar o conhecimento de diversos idiomas. O casal, depois</p><p>de muitas desavenças, intensificadas pelas invasões da mãe dela, se divorciaria</p><p>em 1926. Deste matrimônio nasceram três filhos: Hans, Melitta e Erich Klein,</p><p>posteriormente conhecido como Eric Clyne, nascido no mesmo ano em que a</p><p>tirânica genitora de Melanie morre, criança que ela viria a analisar, atribuindo a</p><p>ela outra identidade, chamando-o de Fritz. Nesta mesma época, em 1914, ela</p><p>entra em contato com a obra de Freud, mais precisamente com seu texto Sobre</p><p>os Sonhos, ao mesmo tempo em que começa a fazer terapia com Sandor</p><p>Ferenczi, a qual ela tem que suspender por causa da guerra. Em 1924 ela</p><p>retomará esse processo, desta vez com K. Abraham, na cidade de Berlim, mas</p><p>um ano depois ele falece, obrigando-a a prosseguir a análise em Londres, com</p><p>Payne.</p><p>Incentivada por seu terapeuta, ela se devota ao tratamento de crianças.</p><p>Em 1919 ela passa a integrar a Sociedade de Psicanálise de Budapeste, para</p><p>onde havia se mudado com o marido, tentando salvar o casamento. Um ano</p><p>depois ela conhece Freud durante o V Congresso da International</p><p>Psychoanalytical Association (IPA), e neste mesmo evento toma contato com</p><p>seu futuro analista e mentor, Karl Abraham, em Haia. Este novo amigo lhe</p><p>propõe assumir um trabalho em Berlim, onde ela passa a residir depois que o</p><p>marido segue para a Suécia, pois em Budapeste imperava então um avassalador</p><p>movimento antissemita.</p><p>29</p><p>29</p><p>O caso por ela apresentado diante da Sociedade Psicanalítica de</p><p>Budapeste foi realizado com base na análise de seu próprio filho de cinco anos</p><p>que, como dito acima, foi denominado Fritz. Uma interpretação mais completa</p><p>desta ingerência deu origem ao seu primeiro artigo, transcrito no veículo</p><p>“Internationale Zeitschrift für Psychoanalyse”. Ela se devotou completamente ao</p><p>ofício psicanalítico a partir de 1923, aos 42 anos. Um ano depois Melanie expôs,</p><p>no VIII Congresso Internacional de Psicanálise, o texto A técnica da análise de</p><p>crianças pequenas, colocando em questão o conceito freudiano conhecido como</p><p>Complexo de Édipo. Logo depois, em 1927, ela rompe com Anna Freud, dando</p><p>origem assim a um grupo fundado por discípulos kleinianos</p><p>na Sociedade</p><p>Britânica de Psicanálise, da qual ela passou a fazer parte neste mesmo período.</p><p>Melanie passa a atuar também nos polêmicos debates sobre as questões</p><p>sexuais femininas, quando as teorias freudianas passam a ser criticadas por</p><p>Karen Horney. Em 1930 ela começa a se voltar para a análise de adultos, mas</p><p>não abandona a preocupação com o universo infantil, lançando em 1932 a obra</p><p>A psicanálise da criança, desenvolvendo em 1936 uma conferência sobre O</p><p>desmame. Lançou também em 1937 o livro Amor, ódio e reparação, ao lado de</p><p>Joan Riviére. Sua teoria foi produzida de 1942 a 1944, com a ajuda de seus</p><p>seguidores.</p><p>Entre Anna Freud e Melanie Klein, considerada nada ortodoxa e rejeitada</p><p>pelos psicanalistas vienenses, estava em jogo que psicanálise de crianças seria</p><p>adotada um burilamento das questões pedagógicas, como sustentava Anna, ou</p><p>uma profunda investigação do mecanismo mental infantil desde o momento do</p><p>nascimento, como desejava Melanie.</p><p>Esta controvérsia atingiu o auge quando foi proposta a exclusão dos</p><p>discípulos de Klein da Sociedade Britânica de Psicanálise, a qual não é levada</p><p>a efeito. Pouco antes, Melitta rompera com a mãe, Melanie, depois que esta</p><p>começara a reproduzir com a filha o mesmo papel que sua genitora</p><p>desempenhara com ela, episódio que repercutiu na sua esfera profissional, pois</p><p>30</p><p>30</p><p>o terapeuta de Melitta, Edward Glover, manipula a situação para se afirmar</p><p>teoricamente diante de Melanie, uma vez que integravam escolas distintas e</p><p>adversárias. A Fundação Melanie Klein é instituída em 1955, mesmo ano em que</p><p>ela lança o texto A técnica psicanalítica através do brinquedo; sua história, sua</p><p>significação, elaborado a partir de uma conferência realizada em 1953. No dia</p><p>22 de setembro de 1960 Melanie morre, vítima de um câncer no cólon, aos 78</p><p>anos.</p><p>Contribuições de Melanie Klein</p><p>A contribuição de Melanie Klein selecionada no recorte desta revisão</p><p>refere-se ao artigo de 1950, "Sobre os critérios para o término de uma</p><p>psicanálise". Sua inovação teórica está no postulado de que o final da análise,</p><p>como experiência emocional, oportuniza o término do trabalho com as</p><p>ansiedades persecutórias e depressivas, as quais são reativadas pelo</p><p>rompimento da relação analítica e oferece a finalização da elaboração das</p><p>posições infantis esquizo-paranoide e depressiva.</p><p>Para a autora, posições emocionais que surgem precocemente na vida do</p><p>bebê vão se interpondo ao longo do desenvolvimento, marcando o processo de</p><p>saúde e/ou adoecimento. A posição esquizoparanoide surge durante os</p><p>primeiros meses de vida e é marcada por ansiedades persecutórias relacionadas</p><p>a perigos e ameaças contra o eu. Essas ansiedades podem ter origem tanto</p><p>interna quanto externa. A medida que o ego se desenvolve, por volta da metade</p><p>do primeiro ano, vai se criando na mente do recém-nascido o medo da ameaça</p><p>ao objeto amado, que é constantemente operada pela agressividade própria do</p><p>bebê. Quando os aspectos bons e ruins dos objetos e do próprio sujeito podem</p><p>começar a se integrar dentro de um processo de síntese, alcança-se uma maior</p><p>integração no ego e entra-se na posição depressiva. Nesse estágio, a mãe pode</p><p>31</p><p>31</p><p>ser representada como um objeto total, formado por defeitos e qualidades. Essa</p><p>harmonização dos aspectos dos objetos internos diminui a ansiedade</p><p>persecutória, porém desenvolve um sentimento de culpa, originado nas fantasias</p><p>de ataques destrutivos e de inveja. Dessa ansiedade depressiva manifesta na</p><p>culpa pela agressão surge a superação da experiência de reparação, a qual é</p><p>responsável pela criação da possibilidade de relações de objeto maduras e de</p><p>aprofundamento dos sentimentos.</p><p>Portanto, pode-se considerar como meta principal a ser atingida dentro de</p><p>um tratamento analítico alcançar e manter a posição depressiva, pois isso</p><p>tornaria possível que o sujeito se identificasse com seus objetos de amor e fosse</p><p>capaz de ter um relacionamento amoroso feliz, ficar satisfeito com a</p><p>maternidade/paternidade, conquistar sua independência, desenvolver amizades</p><p>ao longo da vida e ser criativo. Ao se identificar com as pessoas que ama, o</p><p>sujeito demonstra sua capacidade de satisfação com aquilo que pode oferecer</p><p>aos outros, pois a possibilidade de se colocar no lugar de alguém exige a</p><p>suspensão temporária de seus próprios interesses e ambições pessoais em prol</p><p>dos de outra pessoa. Em um relacionamento amoroso feliz, deve existir, para</p><p>Klein, forte apego, capacidade mútua para sacrifícios e grande habilidade para</p><p>compartilhar interesses, dor e prazer. Nas questões tocantes à luta pela</p><p>independência, o sujeito deve ser capaz de substituir aquele primeiro alimento,</p><p>cujo símbolo é o leite materno, representante das primeiras sensações de bem-</p><p>estar e segurança, por derivados adequados a cada fase da vida. Assim, a</p><p>experiência do desmame deve estar analisada suficientemente até o ponto de</p><p>não existir mais ódio intenso por sua privação, sob pena de o sujeito não</p><p>conseguir se adaptar a outras frustrações no futuro, ficando indevidamente preso</p><p>à segurança artificial da dependência. Na criatividade, a presença de um</p><p>sentimento de culpa mitigado pela capacidade de reparação produz a sensação</p><p>de uma ação criadora e transformadora das relações e do mundo interno dos</p><p>sujeitos. As sensações de bem-estar são entendidas intrapsiquicamente como</p><p>genitores bons e generosos, capazes de dar vida.</p><p>32</p><p>32</p><p>Para que a análise das ansiedades depressivas e persecutórias possa</p><p>promover redução e modificação das angústias a ponto de se indicar alta ao</p><p>paciente, deve ter ocorrido uma análise das experiências primitivas de luto</p><p>durante o tratamento. Porém, a advertência é feita:</p><p>Mesmo que a análise retroceda aos estágios mais antigos do</p><p>desenvolvimento (...), os resultados ainda assim poderão variar de acordo com</p><p>a severidade e estrutura do caso. Em outras palavras, apesar do progresso feito</p><p>em nossa teoria e nossa técnica, devemos ter em mente as limitações da terapia</p><p>psicanalítica.</p><p>Dessa forma, os psicoterapeutas psicanalíticos reavaliam suas</p><p>expectativas juntamente com Klein e percebem como metas para o tratamento:</p><p>1) que as ansiedades persecutória e depressiva não sejam excessivas;</p><p>2) que o ego seja estável;</p><p>3) que o paciente tenha senso de realidade e profundidade (riqueza da</p><p>vida de fantasia e capacidade para experienciar emoções livremente); e</p><p>4) que a vivência do término do tratamento, a dessidealizaçao do analista</p><p>e o trabalho exaustivo da transferência negativa sejam alcançados.</p><p>Alguns componentes específicos da psicanálise kleiniana</p><p>1. Principais desenvolvimentos teóricos em Klein</p><p>Classicamente, são consideradas como as principais contribuições de</p><p>Klein à psicanálise as seguintes formulações:</p><p>33</p><p>33</p><p>1. Conceitos sobre as etapas mais primitivas do desenvolvimento</p><p>psicossexual, à luz da segunda teoria dos instintos de Freud, sobre as fantasias</p><p>inconscientes e as primeiras defesas contra a angústia.</p><p>2. O conceito de posição.</p><p>3. Os conceitos sobre a formação do ego, do superego e sobre a situação</p><p>edipiana.</p><p>4. O conceito de mundo interno.</p><p>5. O novo status dado ao objeto e, sobretudo, às relações internas de</p><p>objeto.</p><p>6. O conceito dos mecanismos de introjeção e projeção como atuantes</p><p>desde o início da vida psíquica em bebês.</p><p>A interação entre introjeção e projeção foi posteriormente desenvolvida</p><p>intensivamente nos estudos que culminaram na conceituação da identificação</p><p>projetiva.</p><p>2. Características importantes e específicas da psicanálise kleiniana</p><p>a) O setting psicanalítico</p><p>Este é um conceito técnico muito caro aos analistas da escola inglesa em</p><p>geral e se refere ao cenário onde a análise acontece. É o conjunto de recursos</p><p>e procedimentos</p><p>colocados no atendimento e oferecidos ao paciente, desde o</p><p>início o espaço físico do consultório com seus móveis e objetos, o número de</p><p>sessões semanais com seu ritmo próprio, até a pessoa do analista com sua</p><p>atitude adequada e as interpretações que ele dá ao analisando.</p><p>34</p><p>34</p><p>Segall (1982), ao escrever sobre a técnica de Melanie Klein, diz que "a</p><p>técnica kleiniana é psicanalítica e se fundamenta rigorosamente em conceitos</p><p>psicanalíticos freudianos, sendo seu contexto formal o mesmo da análise</p><p>freudiana... Não é só o cenário formal que é o mesmo da análise clássica:</p><p>respeita-se também, em todos os aspectos essenciais, os princípios</p><p>psicanalíticos tal como foram apresentados por Freud".</p><p>Segall cita como fatores constituintes da psicanálise kleiniana o setting</p><p>psicanalítico, a frequência de sessões semanais (ideal o número de cinco</p><p>sessões), o uso do divã, e ressalta a interpretação como o instrumento essencial</p><p>de trabalho do analista, que deve evitar rigorosamente todas as formas de crítica,</p><p>apoio, conselho, julgamento, encorajamento e reasseguramento.</p><p>b) A interpretação</p><p>Na psicanálise kleiniana a interpretação visa buscar e possibilitar contato</p><p>que seja emocionalmente vivo com relação a experiências vivenciadas pelo</p><p>analisando. Melanie Klein considera a experiência emocional como a base da</p><p>vida psíquica, como o que lhe dá significado e que existe e acontece tanto no</p><p>consciente como no inconsciente. Para Freud, a emoção é um subproduto da</p><p>vida pulsional, constituindo-se como uma vivência consciente, isto é, um</p><p>elemento que indica a presença de um conflito pulsional inconsciente.</p><p>A importância conferida às emoções inconscientes como fator central da</p><p>vida psíquica dos indivíduos, que a organiza e lhe dá significado, é uma</p><p>característica básica do sistema kleiniano que o diferencia de outras linhas de</p><p>psicanálise. Depois de Klein, Bion enfatizou o fato de que, para que a mente</p><p>possa desenvolver-se, é necessário que a experiência emocional das relações</p><p>seja pensada.</p><p>35</p><p>35</p><p>O objeto da interpretação é a fantasia inconsciente, que pode ser</p><p>apreendida basicamente pelo que o paciente diz na associação livre (incluindo-</p><p>se aqui o relato dos sonhos), através da transferência e através da</p><p>contratransferência. Em síntese, a interpretação deve abranger tudo que, de</p><p>alguma maneira, o paciente mostra ao analista, tudo que faz parte de um convite</p><p>que o paciente faz ao analista para que este conheça e participe do seu mundo</p><p>interno, tal como o paciente o conhece e experimenta.</p><p>As fantasias inconscientes devem ser interpretadas e trabalhadas no aqui</p><p>e agora dentro da sessão e, sempre, as interpretações devem abranger a</p><p>situação transferencial global: fantasias relacionadas ao analista, à análise, e ao</p><p>setting. Ao interpretar, o analista deve procurar no material inconsciente as</p><p>relações entre a experiência emocional do paciente e o movimento da sessão.</p><p>Esta é a forma de interpretação considerada como a mais terapêutica.</p><p>É a que Strache denominou "interpretação mutativa", a que tem condições</p><p>de colocar o paciente em contato direto com uma fantasia que está em ação</p><p>naquele instante, possibilitando assim conexões e insights que propiciam</p><p>autêntica mudança psíquica. Mudanças nas fantasias inconscientes se</p><p>relacionam com mudanças psíquicas e com o funcionamento global do paciente.</p><p>A interpretação deve ser descritiva dos movimentos e da dinâmica interna do</p><p>paciente. Então, sabemos que em seu mundo interno, a pessoa tem tudo:</p><p>representação de si mesma, objetos, relações e conflitos causados pelos mais</p><p>diversos estados e experiências emocionais.</p><p>c) O mundo interno</p><p>Mundo interno é uma descoberta essencial da psicanálise de Freud: a</p><p>dimensão da realidade psíquica correlativa à existência consciente e consensual</p><p>da realidade externa e, ao mesmo tempo, seu negativo e sua origem. Este é um</p><p>36</p><p>36</p><p>conceito que Melanie Klein toma diretamente de Freud e amplia de modo genial.</p><p>Caper (1988)6 faz um estudo muito interessante sobre a constituição e a</p><p>evolução do conceito de mundo interno, inicialmente em Freud e, depois, em</p><p>Klein. Este autor usa como elemento condutor de investigação desta evolução</p><p>conceitual a teoria da ansiedade em Freud (ansiedade como efeito e</p><p>consequência da repressão da libido e posteriormente da ansiedade como sinal)</p><p>e em Klein (ansiedade como efeito da pulsão de morte no ego), articulando a</p><p>ansiedade com a formação das fantasias e com a identificação, e usa o caso do</p><p>pequeno Hans como material ilustrativo.</p><p>Segundo Klein, o mundo interno é um espaço povoado por objetos e</p><p>carregado de pulsões, instintos, funções e relações. Com os objetos internos,</p><p>totais ou parciais, o sujeito vive relações pessoais marcadas pelas identificações.</p><p>É um lugar onde predomina a onipotência do pensamento mágico infantil</p><p>primitivo, o que lhe confere ora os mais deslumbrantes aspectos de magia, ora</p><p>o mais intenso colorido de terror. É um lugar onde nada é caracterizado com</p><p>nitidez e estabilidade, podendo objetos, impulsos e funções passar de um</p><p>extremo a outro, do prazer mais intenso ao horror mais insuportável.</p><p>O mundo interno da psicanálise kleiniana é um espaço, uma dimensão</p><p>que, embora relacionada com as funções do id, do ego e do superego, não</p><p>coincide com estas instâncias psíquicas, mas como que as supera e as contém.</p><p>Nas etapas mais primitivas do desenvolvimento, o mundo interno é</p><p>essencialmente corporal, com movimentos de fusão e de sincretismo com os</p><p>objetos e até mesmo com partes do mundo externo. Com o desenvolvimento, vai</p><p>se fazendo alguma diferenciação entre corpo próprio, objetos internos ou</p><p>externos, mundo externo, eu e não eu, diferenciação esta que progressivamente</p><p>se torna mais nítida.</p><p>Aqui, cabe lembrar a diferença existente entre Freud e Klein em relação</p><p>às pulsões e como estas são consideradas no processo psicanalítico. Para</p><p>Freud, as pulsões são sempre inconscientes, podendo ser representadas por</p><p>37</p><p>37</p><p>ideias inconscientes ou serem manifestadas através de um estado afetivo. Em</p><p>relação a este estado, quando se fala de "emoções inconscientes", fala-se das</p><p>vicissitudes do fator quantitativo associado ao impulso, como resultado da</p><p>repressão. Em seu texto sobre o inconsciente, Freud diz que "idéias</p><p>inconscientes continuam a existir depois da repressão como estruturas vigentes</p><p>no sistema Ics, enquanto tudo que corresponde neste sistema aos afetos</p><p>inconscientes é um começo potencial que fica impedido de desenvolver-se".</p><p>Melanie Klein não admitia a possibilidade de serem consideradas as</p><p>pulsões dissociadas de um objeto. Ao longo de toda a sua obra, ela nunca se</p><p>refere às pulsões como tendo vida e atividade isoladas de um objeto ao qual se</p><p>dirigem. Segundo Klein, a pulsão atua sobre o objeto, criando, assim, tanto uma</p><p>relação com este objeto como uma experiência emocional inconsciente. Isto tem</p><p>uma consequência importante, tanto teórica como clínica: ao não colocar a</p><p>pulsão como foco primordial de seu interesse, ela toma a experiência emocional</p><p>como elemento privilegiado do trabalho psicanalítico, atribuindo à ansiedade um</p><p>papel preponderante na estruturação da vida psíquica do indivíduo.</p><p>Daí, surgem algumas diferenças fundamentais entre os dois sistemas, o</p><p>freudiano e o kleiniano: para Freud, a emoção é uma derivação da atividade</p><p>pulsional, constituindo-se como uma vivência consciente, isto é, um elemento</p><p>indicador da presença de um conflito pulsional inconsciente. Para Klein a</p><p>emoção é a base da vida mental, aquilo que lhe dá significado e que existe tanto</p><p>no consciente como no inconsciente.</p><p>d) Transferência e contratransferência</p><p>Freud conceitua a transferência como o processo por meio do qual certas</p><p>relações e</p><p>acontecimentos do passado, junto com seus componentes afetivos,</p><p>são repetidos (ou reeditados) na relação com o analista, sob a influência do</p><p>38</p><p>38</p><p>princípio da compulsão à repetição. No caso Dora (1905) Freud já define e</p><p>caracteriza o fenômeno transferencial em seus componentes essenciais8.</p><p>Melanie Kelin considera a transferência como o resultado da</p><p>externalização de relações internas de objeto sob a pressão exercida pela</p><p>ansiedade e cujas origens remontam aos mesmos processos que, no passado,</p><p>promoveram as primeiras relações objetais, ou seja, introjeção e projeção, cisão,</p><p>identificação projetiva, idealização, etc.</p><p>Para os analistas kleinianos o essencial na transferência não reside na</p><p>relação entre passado e presente, mas sim na relação existente entre mundo</p><p>interno e mundo externo. Daí, pode ser inferido que as relações com as figuras</p><p>parentais reais já contêm elementos de uma transferência porque a criança não</p><p>se relaciona nem reage aos pais reais tal qual eles são e como existem, mas sua</p><p>percepção deles já está colorida e marcada por suas introjeções e projeções.</p><p>Assim, o que está em jogo na transferência não são as imagos dos pais (ou de</p><p>quaisquer objetos) como representações de lembranças e de vivências reais</p><p>acontecidas no passado.</p><p>Melanie Klein (1952) afirma que "minha concepção de transferência como</p><p>algo enraizado nos estágios iniciais do desenvolvimento e nas camadas mais</p><p>profundas do inconsciente é muito mais ampla, envolvendo uma técnica através</p><p>da qual, a partir da totalidade do material apresentado, são deduzidos os</p><p>elementos inconscientes da transferência. Por exemplo, relatos de pacientes</p><p>sobre suas vidas, relações e atividades cotidianas não só nos oferecem uma</p><p>compreensão do funcionamento do ego, mas revelam igualmente as defesas</p><p>contra a ansiedade suscitadas na situação de transferência, caso exploremos</p><p>seu conteúdo inconsciente.</p><p>O paciente está fadado a lidar com conflitos e ansiedades, revividos na</p><p>relação com o analista, empregando os mesmos métodos a que recorreu no</p><p>passado. Isto quer dizer que ele se afasta do analista como tentou se afastar de</p><p>seus objetos primários; tenta cindir a relação com eles, mantendo-os como</p><p>39</p><p>39</p><p>figuras boas ou más; deflete alguns dos sentimentos e atitudes vividos em</p><p>relação ao analista para outras pessoas em sua vida cotidiana, e isto é parte da</p><p>situação".</p><p>A partir da conceituação inicial de Melanie Klein, a psicanálise kleiniana</p><p>vê a transferência como uma situação total e não só o que aparece no material</p><p>verbalizado na sessão, relacionando-se a conflitos, sentimentos relativos a</p><p>situações repetidas, etc. A partir de Klein, a transferência é sempre vista como</p><p>dirigida ao analista, que deve então interpretar a e na transferência, mostrando</p><p>que o que aparece na análise é a realidade do mundo interno emergindo, se</p><p>expressando e sendo experimentada naquele momento.</p><p>Esta é a questão mais básica e essencial da análise kleiniana: a</p><p>perenidade e a dimensão ampla da experiência emocional como material</p><p>primordial e contínuo do trabalho da análise. Assim, além do material falado, há</p><p>o material não verbal (gestos, mímica facial, movimentos). Enfim, tudo que, de</p><p>alguma maneira, o paciente mostra ao analista. Somente assim o analista poderá</p><p>perceber e sentir o mundo interno do paciente, como ele funciona, e como se</p><p>dão as relações entre o paciente (seu ego), seus objetos e também as relações</p><p>dos objetos entre si. É esta visão de conjunto que dá à transferência uma</p><p>concepção dinâmica de movimento ininterrupto, do mesmo modo como se dá a</p><p>emergência e o funcionamento das fantasias.</p><p>Freud descreve a contratransferência como o resultado de aspectos do</p><p>analista que interferem na análise. Esta concepção tem uma conotação negativa,</p><p>de entrave ou de impedimento para o andamento da análise. O exemplo clássico</p><p>desta visão é o caso da reação de Breuer a Anna O., analisada posteriormente</p><p>por Freud que identificou a transferência amorosa da paciente e a reação não</p><p>elaborada e atuada do analista a ela10.</p><p>Aos poucos, vários autores ampliaram o conceito de contratransferência,</p><p>que cresceu, se expandiu e passou a abarcar outras coisas. Paula Heimann</p><p>(1950) foi a primeira psicanalista a apresentar esta nova visão em um congresso</p><p>40</p><p>40</p><p>internacional da IPA, causando surpresa e até mesmo reações violentas de</p><p>analistas conservadores. Heimann abriu um caminho de investigação que foi</p><p>percorrido por vários analistas que trouxeram contribuições importantíssimas</p><p>para este conceito.</p><p>Contratransferência passou a ser considerado como tudo o que o analista</p><p>vive e experimenta em sua relação com o paciente. Em determinado ponto de</p><p>seu artigo, Heimann diz: "Do ponto de vista que estou ressaltando, a</p><p>contratransferência do analista não é somente parte integrante da relação</p><p>analítica, mas é criada pelo paciente, é parte da personalidade do paciente". A</p><p>pergunta fundamental é: como usar isto? Se o analista experimenta algo, é</p><p>porque algo do paciente o atingiu. Se o analista é capaz de perceber o que ele</p><p>experimenta e se é capaz de compreender o que viveu, separar o que é dele do</p><p>que é do paciente ou até mesmo do que não é dele, ele passa a ter uma visão</p><p>de alguma coisa do paciente espelhada por sua própria introspecção. Algo como</p><p>se acontecesse uma visão em duas direções, servindo para detectar aspectos</p><p>internos que se passam na relação e que causam impacto no analista. O uso da</p><p>contratransferência é muito importante, devendo o analista ser capaz de utilizar</p><p>o que ele experimenta e não apenas dizer ao paciente o que ele percebeu e</p><p>identificou.</p><p>e) Identificação projetiva e a função de continência do analista</p><p>Devido às limitações do tempo e para encerrar, penso ser importante dizer</p><p>algo sobre estes dois tópicos, importantíssimos na dinâmica da psicanálise</p><p>kleiniana de nossos dias. Os principais desenvolvimentos sobre a identificação</p><p>projetiva, a função do pensamento e a função continente do analista devem-se</p><p>a Wilfred Bion, que foi discípulo de Melanie Klein. Graças a suas ideias e</p><p>formulações originais, Bion tornou-se a maior referência para grande número de</p><p>41</p><p>41</p><p>analistas kleinianos contemporâneos. Pode-se dizer que os chamados</p><p>"bionianos" formam um grupo bem definido e caracterizado dentro da psicanálise</p><p>kleiniana hoje. De novo, repete-se a coisa dos nomes: se antes havia a questão</p><p>sobre ser "freudiano" ou "kleiniano", hoje agrega-se a questão de ser "bioniano"</p><p>como um "kleiniano" que tecnicamente trabalha primordialmente utilizando as</p><p>ideias de Bion.</p><p>Em seu artigo "Attacks on linking" (1959), Bion introduz e começa a</p><p>desenvolver seu modelo de identificação projetiva como meio de comunicação</p><p>na relação de alguém (bebê ou paciente) com um objeto do tipo recipiente, que</p><p>ele denomina continente. A situação é descrita em termos de uma relação entre</p><p>conteúdo e continente, ou em uma terminologia mais atual, entre continente e</p><p>contido. Enquanto continente, o analista deve exercer ativamente uma função de</p><p>receber, processar, elaborar e devolver aquilo que o paciente projeta para dentro</p><p>de sua mente. O mecanismo psicodinâmico deste modelo de relação é a</p><p>identificação projetiva e, historicamente, ele se baseia na relação mãe-bebê.</p><p>Dizendo em outras palavras, a relação da dupla analítica repete a relação</p><p>primitiva do bebê com sua mãe, na qual a forma de comunicação era</p><p>essencialmente pré-verbal.</p><p>Bion criou uma expressão para designar a função materna que atua</p><p>dentro desta relação: a "capacidade de revêrie". Esta função pode ser</p><p>compreendida como a capacidade da mãe de, recebendo os conteúdos</p><p>emocionais do bebê com toda sua carga de ansiedade associada, relacioná-los</p><p>à sua própria capacidade de processar</p>