A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
112 pág.
Livro_CrescimentoEconomico IPEA

Pré-visualização | Página 4 de 35

ao método clássico a idéia de que o curto 
período é tão inteligível quanto o longo, no sentido de que é possível identificar 
forças sistemáticas atuando no curto período tanto quanto no longo. O curto 
período deixa de ser, portanto, apenas a esfera do acidental e passa a ser teorizável 
tanto quanto o longo. Ainda mais pertinente ao tema em discussão, os processos 
que determinam as posições de longo período estão enraizados nos resultados 
verificados nas posições de curto. Isto significa que há um encadeamento entre 
as posições que pode, ele mesmo, ser descrito teoricamente. Assim, na economia 
marshalliana, é essencial conhecer-se o que ocorre no curto período para que se 
possa prever para onde convergirá a economia no longo. O que Marshall propôs, 
portanto, é o que bem mais tarde se conhecerá como “dependência de trajetórias” 
(path-dependence).
A chave para se entender a construção marshalliana é a compreensão de que 
seu objeto são as interações entre constrangimentos às ações dos agentes privados 
6. Como na discussão que caracterizou o nascimento de modelos dinâmicos de economia, onde se contrapunham modelos cuja natureza 
dinâmica era definida ou pela datação de variáveis ou pela proposição de taxas de variação em vez de níveis das variáveis. 
7. o presente autor discutiu detalhadamente esses temas em Carvalho (1990).
Cap1.indd 14 18/2/2009 11:26:35
15CRESCIMENto ECoNÔMICo: EStRatÉGIaS E INStItuIÇÕES
e a geração de incentivos para a mudança desses mesmos constrangimentos. As 
mudanças nos constrangimentos, porém, duram períodos variados, de acordo 
com o seu grau de fixidez. Assim, por exemplo, na sua aplicação universalmente 
conhecida à teoria da firma, Marshall assume, razoavelmente, que mudanças no 
grau de utilização de capacidade podem ser obtidas mais rapidamente que variações 
na capacidade instalada. Assim, variações na demanda (deslocamentos da curva 
de demanda) devem levar a novas posições de equilíbrio, que, no curto período, 
são concebidas como resultantes de variações no grau de utilização do capital 
disponível. Essas variações, no entanto, alteram as taxas de lucro sobre o capital 
que, por sua vez, podem estimular investimentos (ou desinvestimentos). É o que 
aconteceu no curto período, portanto, que explica o que ocorrerá no longo. Não 
há, como na economia política clássica, a neutralidade do curto período com a 
posição final de equilíbrio permanecendo a mesma, não importa o que ocorra 
conjunturalmente nesse mercado.8
A construção marshalliana representou um enorme progresso na concepção 
de processos econômicos. No entanto, de modo importante, apesar das aparências 
em contrário, a concepção marshalliana ainda é teleológica, no sentido de que se 
bem se possa dizer que os processos de ajuste de longo período sejam disparados 
pelas características das posições de equilíbrio de curto período, são os desequilíbrios 
de longo período, na verdade, que movem o processo. Quando oferta e demanda 
são iguais no curto período, em posição de equilíbrio, mas resultam na geração 
de lucros anormais (por excesso de utilização da capacidade instalada), haverá 
mudanças na capacidade instalada precisamente porque a existência desses lucros 
indica um desequilíbrio de longo período. Em outras palavras, do ponto de vista da 
posição de curto período, há dependência de trajetórias, no sentido que o que virá 
pela frente depende dos valores das variáveis nessa posição de equilíbrio de curto 
período. Contudo, é a partir do que esses valores representam de desequilíbrio 
de longo período, isto é, é em referência aos valores que deveriam apresentar no 
equilíbrio de longo período que os valores de curto período induzirão mudanças 
na atividade. O longo período marshalliano, assim, continua funcionando como 
um atrator, e a análise continua sendo basicamente teleológica. É o fim do caminho 
que nos permite interpretar o que representam os valores de curto período e prever 
o que deveria vir pela frente.
Para Marshall, esta trajetória do curto para o longo período é uma idéia 
tão importante que ele é levado a afirmar que, nos casos onde essa teleologia não 
8. Embora a preocupação de Marshall com tempo emirja em praticamente toda a obra (ver citações relevantes em CaRValHo, 1990), 
Marshall enfrenta diretamente a questão aqui tratada no cap. 5 do livro 5 dos principles (p. 302 a 315).
Cap1.indd 15 18/2/2009 11:26:35
16 FERNaNDo JoSÉ CaRDIM DE CaRValHo
possa ser estabelecida, não há possibilidade de se fazer teoria econômica. Apenas 
os casos onde se possam relacionar equilíbrios de curto e de longo períodos seriam 
realmente teorizáveis, isto é, apenas aqueles casos em que o sentido fundamental de 
uma posição de equilíbrio de curto período deve ser avaliado é dado pela posição 
final de equilíbrio de longo período.
4 KEYNES, A CRÍTICA DO MARSHALLIANISMO E A CONSIDERAÇÃO DA 
POLÍTICA ECONÔMICA
É precisamente no caráter inevitavelmente teleológico e restritivo da construção 
marshalliana que Keynes vai concentrar suas críticas metodológicas. É quase um 
clichê, e nem por isso menos verdadeira, a afirmação de que Keynes continuará 
Marshall, mas de forma a superá-lo, ultrapassando seus limites. Talvez seja exata-
mente na consideração da temporalidade dos processos econômicos e na conexão 
entre diferentes horizontes de comportamento que isto fique mais claro.
Fundamentalmente, será na recusa em atribuir a posições de longo período 
qualquer relevância como atratores que Keynes romperá com Marshall. Keynes 
enfatizará o velho conhecido conceito de incerteza, e irá usá-lo para propor uma 
forma diversa de consideração dos processos econômicos, em que a idéia de de-
pendência de trajetórias será adotada, desta vez sem qualificações. Os processos 
econômicos não serão mais explicados pelas posições finais de equilíbrio, como na 
economia política clássica e em Marshall. De fato, Keynes proporá uma abordagem 
dinâmica em que processos de gravitação a posições de equilíbrio no longo prazo 
estarão conspicuamente ausentes.
A peculiaridade metodológica mais importante da construção keynesiana reside 
na postulação de que não é ilegítimo inferir trajetórias da economia ignorando as 
limitações da informação que orienta as decisões econômicas individuais. Segundo 
Keynes, não é possível a cada tomador de decisão individual conhecer o futuro 
(e, assim, tomar as decisões que otimizem sua posição futura) porque este último 
depende, ele próprio, do que cada indivíduo decide fazer. Não existe um futuro a 
ser descoberto, determinado por parâmetros fixos do sistema. Para Keynes, o futuro 
é construído pela ação dos indivíduos. Mas os indivíduos decidem isoladamente, 
enquanto o futuro é construído coletivamente, como resultado da ação de todos, 
cada um orientado pelas suas próprias expectativas, inclusive a respeito da ação 
dos outros. Nestas circunstâncias, posições de equilíbrio tendem a ser acidentais 
e, possivelmente, nem seriam reconhecidas como tais, mesmo se eventualmente 
atingidas. Keynes adota, assim, uma visão historicizante do tempo econômico, mas, 
paradoxalmente, chega ao resultado oposto: o longo período é uma ficção teórica, 
válida apenas para uso em debates teóricos. Não há atratores, nem equilíbrios de 
Cap1.indd 16 18/2/2009 11:26:35
17CRESCIMENto ECoNÔMICo: EStRatÉGIaS E INStItuIÇÕES
longo período podem funcionar como tal porque as variáveis que o definem não 
se traduzem em móveis da ação dos indivíduos.
A proposta teórica de Keynes se apóia na percepção da importância de se 
considerar que decisões econômicas são tomadas em condições de incerteza fun-
damental. Uma crítica tola e simplista deve ser enfrentada de imediato, para que se 
possa prosseguir rumo a argumentos mais importantes. Alegam alguns que a ênfase 
na incerteza das decisões destrói a possibilidade de teorização porque implica que 
qualquer coisa é possível. Para Keynes, o reconhecimento da incerteza que cerca 
as decisões dos indivíduos é importante por dois motivos