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<p>UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPIRITO SANTO</p><p>SEAD/UFES</p><p>PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS</p><p>SAMMERY ROBERTS</p><p>PROTEGENDO A DIVERSIDADE ESPIRITUAL: OS MECANISMOS DE DEFESA</p><p>AOS CULTOS DAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS FRENTE AO ESTADO</p><p>LAICO</p><p>VITÓRIA</p><p>2023</p><p>2</p><p>SAMMERY ROBERTS</p><p>PROTEGENDO A DIVERSIDADE ESPIRITUAL: OS MECANISMOS DE DEFESA</p><p>AOS CULTOS DAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS FRENTE AO ESTADO</p><p>LAICO</p><p>Dissertação apresentada ao Programa de</p><p>Pós-Graduação em Educação E Direitos</p><p>Humanos do SEAD/UFES, como requisito</p><p>para a obtenção do título de Especialista em</p><p>Educação E Direitos Humanos.</p><p>Orientador: Prof. JAIR TEIXEIRA DOS REIS</p><p>VITÓRIA</p><p>2023</p><p>3</p><p>SAMMERY ROBERTS</p><p>PROTEGENDO A DIVERSIDADE ESPIRITUAL: OS MECANISMOS DE DEFESA</p><p>AOS CULTOS DAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS FRENTE AO ESTADO</p><p>LAICO</p><p>Dissertação apresentada ao Programa de</p><p>Pós-Graduação em Educação E Direitos</p><p>Humanos do SEAD/UFES, para a obtenção</p><p>do título de Especialista.</p><p>COMISSÃO EXAMINADORA</p><p>__________________________________</p><p>Prof. JAIR TEIXEIRA DOS REIS - Orientador</p><p>__________________________________</p><p>Membro da Banca</p><p>__________________________________</p><p>Membro da Banca</p><p>VITÓRIA, ______DE ______________ DE 2023</p><p>4</p><p>AGRADECIMENTOS</p><p>Gostaria de expressar minha profunda gratidão à minha ancestralidade,</p><p>espiritualidade e ao povo de Umbanda e de axé, cuja orientação e inspiração foram</p><p>pilares essenciais ao longo desta jornada acadêmica. Um agradecimento especial à</p><p>minha querida avó Noemia, cujo apoio e exemplo continuam a iluminar e moldar não</p><p>apenas meu caminho terreno, mas também meu crescimento espiritual.</p><p>Expresso também minha sincera gratidão à minha mãe, Simone, e ao meu pai, José</p><p>Roberto, pelo amor e apoio incondicionais em cada etapa deste percurso. Meu</p><p>irmão, Pietro, e minha tia, Laurete, também merecem meu reconhecimento pela</p><p>constante motivação e apoio que generosamente me proporcionaram ao longo do</p><p>caminho.</p><p>Gostaria de estender minha profunda gratidão aos meus respeitados mestres da</p><p>Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), cuja orientação, conhecimento e</p><p>dedicação foram fundamentais para o meu crescimento acadêmico e pessoal</p><p>durante toda a jornada.</p><p>Por fim, expresso meu sincero agradecimento a todos os meus amigos, cuja</p><p>presença e incentivo foram essenciais e trouxeram alegria e apoio inestimáveis</p><p>durante todo este percurso acadêmico.</p><p>5</p><p>RESUMO</p><p>O presente trabalho tem como objetivo apresentar brevemente o contexto histórico</p><p>das formações das religiões afro-brasileiras, bem como os seus mecanismos de</p><p>defesa necessários para garantir a preservação e a livre prática dos cultos no</p><p>contexto do Estado laico, onde a Constituição Federal de 1988 assegura a liberdade</p><p>religiosa como um direito fundamental de todos os cidadãos, abordando a</p><p>importância da liberdade religiosa, os desafios enfrentados pelas religiões</p><p>supracitadas e as políticas públicas, ações legais e práticas de conscientização</p><p>como meios de proteção.</p><p>Palavras-chave: Estado laico; liberdade religiosa; racismo religioso; religiões afro-</p><p>brasileiras.</p><p>ABSTRACT</p><p>The present work aims to briefly present the historical context of the formation of</p><p>Afro-Brazilian religions, as well as their defense mechanisms necessary to ensure</p><p>the preservation and free practice of these cults in the context of a secular state,</p><p>where the Federal Constitution of 1988 guarantees religious freedom as a</p><p>fundamental right of all citizens. It addresses the importance of religious freedom, the</p><p>challenges faced by the aforementioned religions, and public policies, legal actions,</p><p>and awareness practices as means of protection.</p><p>Keywords: Secular state; religious freedom; religious discrimination; Afro-Brazilian</p><p>religions.</p><p>6</p><p>LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS</p><p>CF/88 – Constituição Federal de 1988</p><p>IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística</p><p>RE – Recurso Extraordinário</p><p>CP – Código Penal</p><p>7</p><p>SUMÁRIO</p><p>1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 8</p><p>2 . O ESTADO LAICO E LIBERDADE RELIGIOSA NO BRASIL.............................10</p><p>3. DIVERSIDADE RELIGIOSA NO BRASIL: UM MOSAICO DE CRENÇAS E</p><p>VALORES..................................................................................................................12</p><p>4. RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS: LEGADOS E CONTRIBUIÇÕES ................ 14</p><p>5. RACISMO RELIGIOSO COMO UMA EXTENSÃO DO RACISMO ESTRUTURAL..........17</p><p>6. PROTEGENDO OS CULTOS DAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS:</p><p>MECANISMOS DE DEFESA E PRESERVAÇÃO.....................................................18</p><p>7. DESCONSTRUINDO ESTEREÓTIPOS E PROMOVENDO A TOLERÂNCIA.................20</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 23</p><p>REFERÊNCIAS..........................................................................................................24</p><p>8</p><p>1. INTRODUÇÃO</p><p>Sendo adepta ao culto aos orixás, por meio da Umbanda, compreendo por outro</p><p>prisma a problemática que afeta à intolerância religiosa e/ou racismo religioso.</p><p>Num país fundado sob bases escravagistas, cuja história remonta x anos de</p><p>escravização de africanos e genocídio indígena ainda em curso - haja vista as</p><p>manobras legislativas no que tange ao marco temporal das terras demarcadas - há</p><p>que se falar do sucesso da implantação do que podemos denominar como plano</p><p>colonizador: a catequese imposta pelos colonos nos transformou em um país</p><p>cristão. Ou, nos termos do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro1, "terrivelmente</p><p>cristão". Um povo que desconhece e/ou renega sua história, está fadado a</p><p>exaustivamente repeti-la".</p><p>Segundo o IBGE2 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil é um país</p><p>com uma população majoritariamente cristã. A proporção de católicos seguiu a</p><p>tendência de redução observada nas duas décadas anteriores, embora tenha</p><p>permanecido majoritária. Em paralelo, consolidou-se o crescimento da população</p><p>evangélica, que passou de 15,4% em 2000 para 22,2% em 2010. Dos que se</p><p>declararam evangélicos, 60,0% eram de origem pentecostal, 18,5%, evangélicos de</p><p>missão e 21,8 %, evangélicos não determinados, de acordo com o Censo</p><p>Demográfico de 2010.</p><p>Na grande fusão da cultura e da espiritualidade brasileira, as religiões de origem</p><p>africana testemunham uma história multifacetada e resiliente. Estas tradições</p><p>espirituais têm raízes profundas na diáspora africana e serviram como pilares de</p><p>1 SENADO FEDERAL. "Estudo revela que Brasil é um país majoritariamente cristão". Senado</p><p>Notícias, Brasília, 2019. Disponível em:</p><p>https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/564726/noticia.html?sequence=1&isAllowed=y.</p><p>Acesso em: 24/10/2023.</p><p>2 INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. "Censo 2010: número de católicos cai</p><p>e aumenta o de evangélicos, espíritas e sem religião". Agência de Notícias do IBGE, Rio de Janeiro,</p><p>2012. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-</p><p>de-noticias/releases/14244-asi-censo-2010-numero-de-catolicos-cai-e-aumenta-o-de-evangelicos-</p><p>espiritas-e-sem-religiao. Acesso em: 24/10/2023.</p><p>https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/564726/noticia.html?sequence=1&isAllowed=y</p><p>https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/14244-asi-censo-2010-numero-de-catolicos-cai-e-aumenta-o-de-evangelicos-espiritas-e-sem-religiao</p><p>https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/14244-asi-censo-2010-numero-de-catolicos-cai-e-aumenta-o-de-evangelicos-espiritas-e-sem-religiao</p><p>https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/14244-asi-censo-2010-numero-de-catolicos-cai-e-aumenta-o-de-evangelicos-espiritas-e-sem-religiao</p><p>9</p><p>resistência durante séculos de adversidade, preconceito e discriminação. Falar das</p><p>religiões afro-brasileiras é traduzir a palavra “RESISTÊNCIA”, de modo que, a</p><p>gênese do sistema escravista no Brasil ocorreu com a chegada dos navios negreiros</p><p>em torno dos séculos XVI e XIX.</p><p>É bem sabido que, o comércio negreiro transatlântico africano se fixou nesse solo</p><p>pois era uma mercadoria socialmente barata. Foi isso que permitiu disseminar da</p><p>escravidão pelo tecido social brasileiro, marcando a particularidade desse sistema</p><p>escravista. Essa mecânica, por sua vez, teve peso decisivo para a configuração</p><p>econômica igualmente ímpar da América portuguesa.</p><p>Destarte que, no período escravocrata se deu início as primeiras repressões</p><p>religiosas, uma vez que os africanos não podiam manifestar sua fé vindo a ser</p><p>punidos pela Igreja Católica que controlavam e reprovavam as suas práticas</p><p>religiosas com o intuito de despersonalizar já que eram vistos como seres que não</p><p>possuíam alma.</p><p>O saudoso antropólogo, Renato da Silveira em sua obra “O CANDOMBLÉ DA</p><p>BARROQUINHA”, expõe que, desde Roma, a Igreja Católica usava como estratégia</p><p>expansionista o sincretismo com cultos pagãos. A ideia era permitir a prática</p><p>religiosa não cristã, desde que os demais grupos assumissem e apresentassem o</p><p>catolicismo como religião superior e sua crença como uma manifestação do</p><p>mesmo.3</p><p>Assim sendo, no período colonial, o escravo trazido para o Brasil era batizado já no</p><p>porto onde partia da África ou quando chegava ao novo continente, sendo marcado</p><p>à brasa ou sendo colocada uma argola de ferro em seu pescoço para identificar o</p><p>seu novo status de cristão, conforme SILVEIRA4 (2006) apresenta.</p><p>Portanto, os africanos escravizados eram misturados e submetidos à nova religião.</p><p>Em muitos momentos, os senhores permitiam aos escravos realizarem as suas</p><p>3 SILVEIRA, Renato da. O CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA: processo de constituição do primeiro</p><p>terreiro baiano de keto. 2006. Ed MAIANGA.</p><p>4 Idem. P. 159.</p><p>10</p><p>festas e batuques em épocas de melhor tratamento dos escravos, motivados pelo</p><p>arrocho do tráfico negreiro e pelo encarecimento desta mão de obra com objetivo de</p><p>mantê-los vivos por mais tempo5 (SILVEIRA, 2006, p.159).</p><p>Dessa forma, o objetivo geral deste trabalho será despertar uma análise crítica,</p><p>expondo o conflito entre as religiões afro-brasileiras e o direito fundamental à</p><p>liberdade religiosa, demonstrando de maneira cristalina os mecanismos de defesa</p><p>necessários para garantir a preservação e a livre prática dos cultos, como também</p><p>os desafios enfrentados pelas religiões supracitadas e as políticas públicas que</p><p>norteiam o tema, ademais ações legais e práticas de conscientização como meios</p><p>de proteção.</p><p>Por fim, a metodologia utilizada foi a pesquisa científica na qual é iniciada por meio</p><p>da pesquisa bibliográfica, de modo que, a pesquisadora busca por obras já</p><p>publicadas sendo relevantes para o fortalecimento do debate cientifico. Em síntese,</p><p>o presente trabalho será discorrido em quatro títulos, conforme será demonstrado a</p><p>seguir.</p><p>2. O ESTADO LAICO E LIBERDADE RELIGIOSA NO BRASIL</p><p>O Brasil, desde que promulgou a Carta Magna de 1988, firmou no rol de garantias</p><p>fundamentais à liberdade religiosa, que separa a figura do Estado da imagem</p><p>religiosa, permitindo aos cidadãos o direito de acreditar no que querem acreditar,</p><p>ou mesmo de não acreditar, e ainda diante desse poder que a religião possui,</p><p>incentivando a descentralização6 do poder político. Com esse advento o Estado</p><p>Brasileiro se tornou um Estado Laico, sendo um pilar fundamental para a proteção</p><p>da liberdade religiosa e com isso garantindo a igualdade de crenças e práticas</p><p>religiosas de modo que não interfiram no bom funcionamento do governo.</p><p>5 SILVEIRA, Renato da. O CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA: processo de constituição do primeiro</p><p>terreiro baiano de keto. 2006. Ed MAIANGA. P. 159.</p><p>6 RUTHERFORD, Jane. Religion, rationality, and special treatment. William & Mary Bill Of Rights</p><p>Journal. N. 9, Fevereiro, 2001, p. 332 e 334.</p><p>11</p><p>Assim sendo, a Constituição Federal de 1988, no Art. 5º, garante a liberdade de</p><p>consciência e de crença, assegurando a todos a liberdade de praticar ou não</p><p>praticar uma religião, bem como a proteção contra qualquer forma de discriminação</p><p>religiosa.7</p><p>O glorioso jurista Dalmo de Abreu Dallari afirmar que, o Estado laico no Brasil</p><p>significa "a independência e a autonomia de uma ordem de valores (a ordem</p><p>religiosa) em relação à ordem dos valores estabelecidos pela ordem jurídica e</p><p>política do Estado"8.</p><p>Seguindo essa corrente o honroso jurista Gilmar Ferreira Mendes, ex-presidente do</p><p>Supremo Tribunal Federal, ofereceu sua visão sobre a liberdade religiosa e a</p><p>laicidade do Estado:</p><p>O Estado laico, em sua dimensão positiva, impõe o respeito à religião como</p><p>fator de desenvolvimento da cidadania, cuja dimensão impõe, como reflexo</p><p>direto da liberdade religiosa, a tolerância e o reconhecimento do pluralismo</p><p>religioso e cultural, com efeitos na atuação estatal.9</p><p>Nesse sentido o Brasil firmou diversos tratados internacionais, como a Declaração</p><p>Universal dos Direitos Humanos, a Convenção sobre os Direitos da Criança, o Pacto</p><p>Internacional pelos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e a Convenção</p><p>Americana de Direitos Humanos, dos quais o Brasil é signatário, que garantem a</p><p>liberdade de crença e o respeito à diversidade cultural10.</p><p>Destaca-se que, com a Constituição Cidadã a ideia de conscientização ganhou força</p><p>no meio legislativo brasileiro, vindo a ser sancionada a Lei nº 11.63511, de 27 de</p><p>dezembro de 2007, que versa sobre o Dia Nacional de Combate à Intolerância</p><p>Religiosa acontecendo no dia 21 de janeiro.</p><p>7 Brasil. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.</p><p>8 Dallari, D. A. (2014). Elementos da teoria geral do Estado. Editora Saraiva.</p><p>9 Mendes, G. F. (2010). Curso de Direito Constitucional. Editora Saraiva.</p><p>10 DINIZ, Débora; LIONÇO, Tatiana; CARRIÃO, Vanessa. Laicidade e ensino religioso no Brasil.</p><p>Brasília: UNESCO: Letras Livres: Ed. UnB, 2010.</p><p>11 Carta Campinas. O caso Mãe Gilda que originou a lei brasileira contra a intolerância religiosa.</p><p>Disponível em: https://cartacampinas.com.br/2018/01/o-caso-mae-gilda-que-originou-a-lei-brasileira-</p><p>contra-a-intolerancia-religiosa/. Acesso em: 02/10/2023.</p><p>12</p><p>Contudo, lei ora supracitada nasceu mediante um cenário de guerra, em que vitimou</p><p>a mãe de Santo Gilda do Terreiro Axé Abassá de Ogum, localizado em Salvador/BA,</p><p>tal fato aconteceu no dia 20 de janeiro de 2000, quando a vítima teve sua imagem</p><p>utilizada indevidamente pela Igreja Universal do Reino de Deus que a época se</p><p>utilizou dos meios de comunicação para agredir a Iyalorixá.</p><p>Com os ataques Mãe Gilda12 teve sua residência e seu barracão invadidos pelos</p><p>membros da Igreja Universal do Reino de Deus, que a época foi acusada de</p><p>charlatanismo. Diante a todo esse contexto de dor e sofrimento Mãe Gilda não</p><p>resistiu e veio a óbito tendo um infarto fulminante.</p><p>Ademais, a jurisprudência brasileira vem consolidando a laicidade do Estado, como</p><p>evidenciado em decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Como foi o caso da</p><p>ADPF 54, que legalizou o aborto em casos de anencefalia fetal, reafirmou a</p><p>separação entre a esfera religiosa e a legislação brasileira. 13</p><p>Em síntese, podemos concluir que com a promulgação da Carta Magna de 1988, a</p><p>liberdade religiosa foi estabelecida como direito fundamental dos cidadãos</p><p>brasileiros,</p><p>visando garantir a liberdade de crença e prática religiosa, mesmo em que</p><p>pequenos passos, pois infelizmente o pensamento escravocrata ainda exista sendo</p><p>fruto de anos de escravidão.</p><p>3 - DIVERSIDADE RELIGIOSA NO BRASIL: UM MOSAICO DE CRENÇAS E</p><p>VALORES</p><p>12 UOL. "Mãe Gilda inspirou Dia de Combate à Intolerância Religiosa". UOL Ecoa, [s.d.]. Disponível</p><p>em: https://www.uol.com.br/ecoa/stories/mae-gilda-inspirou-dia-de-combate-a-intolerancia-religiosa/.</p><p>Acesso em: 20/10/2023.</p><p>13 Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 54.</p><p>Tribunal Pleno. Relatora: Ministra Cármen Lúcia. Publicado em 12 de abril de 2012. Disponível em:</p><p>https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=3707334. Acesso em:</p><p>20/10/2023.</p><p>https://www.uol.com.br/ecoa/stories/mae-gilda-inspirou-dia-de-combate-a-intolerancia-religiosa/</p><p>13</p><p>A diversidade religiosa é uma das características culturais mais únicas e ricas do</p><p>Brasil. Num país marcado pela diversidade étnica e cultural, a diversidade religiosa</p><p>desempenha um papel fundamental na construção da identidade nacional e na</p><p>promoção dos valores democráticos e da coexistência pacífica.</p><p>É sabido que, para que ocorra a pacificação das diversidades religiosa se faz</p><p>necessário a promoção da tolerância e do respeito, e visando fortalecer o debate a</p><p>ilustre socióloga Maria das Dores Campos Machado14 observa que "a diversidade</p><p>religiosa favorece a compreensão mútua, a coexistência pacífica e a harmonia</p><p>social, estimulando a aceitação das diferenças e a busca de um entendimento</p><p>compartilhado."</p><p>Isto posto, a educação em direitos humanos combinada com o enriquecimento</p><p>cultural será capaz de dar aos indivíduos um sentido de cidadania, uma vez que</p><p>serão expostos às diferentes tradições religiosas do Brasil, contribuindo assim para</p><p>o rico património cultural. A ilustre antropóloga Regina Novaes15 confirmou esse</p><p>entendimento, enfatizando que “a religião desempenha um papel importante na</p><p>formação da identidade cultural brasileira, influenciando a música, a dança, a</p><p>culinária e outros aspectos da vida cotidiana”.</p><p>Posto isto, fica evidente que, para a manutenção de uma democracia, o caminho a</p><p>ser percorrido é o de abraçar todas as diversidades religiosas, sem que haja um</p><p>olhar de discriminação, pois todas fazem parte da vida e da história do povo</p><p>brasileiro.</p><p>O saudoso sociólogo José Machado Pais16 argumenta que "a democracia depende</p><p>da coexistência de diversas vozes e perspectivas na esfera pública, incluindo as</p><p>vozes das várias religiões e crenças."</p><p>14 MACHADO, M. D. C. "Diversidade religiosa e convivência pacífica no Brasil." Revista Brasileira de</p><p>Ciências Sociais, v. 29, n. 86, p. 155-172, 2014.</p><p>15 NOVAES, R. "Religião e cultura: o caso brasileiro." Ciências Sociais Unisinos, v. 43, n. 2, p. 115-</p><p>123, 2007.</p><p>16 PAIS, J. M. "Religião e democracia: a separação necessária." Religião e Sociedade, v. 26, n. 2, p.</p><p>21-36, 2006.</p><p>14</p><p>Ademais, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz17 afirma que "a diversidade religiosa</p><p>nos lembra da necessidade de respeitar os direitos humanos e combater a</p><p>discriminação religiosa, promovendo uma sociedade mais justa e inclusiva."</p><p>Por derradeiro, a diversidade religiosa no Brasil desempenha um papel essencial na</p><p>promoção da tolerância, na moldagem da identidade cultural, no fortalecimento da</p><p>democracia e no combate à intolerância religiosa. Constitui um recurso de grande</p><p>valor que enriquece a cultura e a sociedade do país, contribuindo para a riqueza do</p><p>mosaico multicultural que é o Brasil.</p><p>4- RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS: LEGADOS E CONTRIBUIÇÕES</p><p>A religião desempenhou um papel de extrema importância no fortalecimento da</p><p>resistência do povo africano diante das adversidades cruéis do sistema escravagista</p><p>e das imposições da dominação colonial. Os africanos escravizados encontraram</p><p>maneiras engenhosas de preservar suas tradições religiosas, frequentemente</p><p>ocultando suas divindades africanas sob a aparência de santos católicos, um</p><p>fenômeno amplamente reconhecido como sincretismo religioso. Essa estratégia</p><p>permitiu que continuassem a praticar suas religiões de maneira relativamente</p><p>secreta, ao mesmo tempo em que preservavam suas identidades culturais.</p><p>A respeito do Candomblé vejamos:</p><p>O candomblé é uma religião que foi criada no Brasil por meio da herança cultural,</p><p>religiosa e filosófica trazida pelos africanos escravos, sendo aqui reformulada para</p><p>poder se adequar e se adaptar as novas condições de ambientais. É a religião que</p><p>tem como função primordial o culto às divindades – inquices, orixás ou voduns –,</p><p>seres que são a força da natureza, sendo seus criadores e também administradores.</p><p>Religião possuidora de muitos simbolismos e representações que ajudam a</p><p>compreender o passado e também a discernir melhor as verdades e as mentiras,</p><p>permitindo assim definir conceitos. No candomblé nada se inventa ou se cria, só</p><p>aprende e se aprimora. Este saber e este conhecimento são conquistados com a</p><p>prática no dia a dia, com o tempo, com a humildade, o merecimento, a inteligência</p><p>e, principalmente, com a vontade de aprender! (MAURÍCIO, 2014, p. 29).</p><p>No que tange a Umbanda vejamos:</p><p>17 SCHWARCZ, L. M. "Religião, diversidade e direitos humanos." Estudos Avançados, v. 31, n. 89, p.</p><p>133-145, 2017.</p><p>15</p><p>Herdamos das culturas indígena e africana a forte ligação com a natureza, o uso</p><p>das ervas, cachimbos (maracás para os indígenas), os rituais de cura, as danças, os</p><p>cânticos sagrados, as vestimentas, o transe, a crença na vida após a morte e a</p><p>comunicação com os mortos, as crenças nos ancestrais, a diversidade de deuses</p><p>(indígenas) ou orixás (africanos), os preceitos ofertados aos ancestrais (oferendas),</p><p>a magia. Da cultura branca europeia, herdamos alguns elementos da concepção</p><p>cristã católica, como a ligação com os santos que no sincretismo são relacionados</p><p>com os orixás, as rezas, as imagens, maniqueísmo (bem e mal), dentre outros. E</p><p>ainda uma influência do Kardecismo: ligação com os mortos, crença na</p><p>reencarnação, rituais de cura (RIBEIRO, 2013, p. 98).</p><p>Embora ambas as religiões compartilhem algumas semelhanças, é importante</p><p>destacar que cada uma delas possui suas particularidades:</p><p>Com efeito, pode se opor umbanda e candomblé como se fossem dois</p><p>polos: um representando o Brasil e o outro a África. A umbanda</p><p>corresponde a integração das práticas afro-brasileiras na moderna</p><p>sociedade brasileira; o candomblé significaria justamente o contrário, isto</p><p>é, a conservação da memória coletiva africana no solo brasileiro. É claro</p><p>que não devemos conceber o candomblé em termos de pureza africana;</p><p>na verdade ele é um produto afro-brasileiro resultado da bricolagem desta</p><p>memória coletiva, sobre matéria nacional brasileira que a história ofereceu</p><p>aos negros escravos. Entretanto pode se afirmar que para o candomblé a</p><p>África continua sendo fonte privilegiada do sagrado, o culto dos deuses</p><p>negros se opondo a uma sociedade brasileira branca ou embranquecida.</p><p>Desta forma uma ruptura se inscreve entre a umbanda e o candomblé:</p><p>para a primeira, a África deixa de constituir em fonte de inspiração</p><p>sagrada; o que é afro-brasileiro se torna brasileiro. É necessário entender</p><p>o que queremos dizer com a ruptura; não se trata de ressignificar com esta</p><p>palavra a ausência do que é negro no seio da umbanda, pelo contrário,</p><p>insistiremos em todo o nosso trabalho na importância da contribuição</p><p>africana para a formação da religião umbandista (ORTIZ, 1999, p. 16).</p><p>É notável que as religiões de matriz africana desempenharam um papel significativo</p><p>na promoção da diversidade religiosa e cultural do Brasil, de modo que às</p><p>introduziram em uma abundância de rituais, cânticos, danças, gastronomia e</p><p>simbolismo que enriqueceram profundamente a tapeçaria cultural brasileira.</p><p>Vê-se que essas religiões desempenharam um</p><p>papel essencial como instrumentos</p><p>de resistência e autodeterminação para os africanos escravizados. Através de suas</p><p>práticas religiosas, eles descobriram uma força espiritual e uma coesão comunitária</p><p>que lhes permitiram manter intactas suas identidades culturais e enfrentar a</p><p>opressão.</p><p>16</p><p>5- Racismo Religioso como uma Extensão do Racismo Estrutural</p><p>Frequentemente, utilizamos o termo "intolerância religiosa" sem questionar, porém,</p><p>são numerosas as críticas que surgem em relação a seu uso. A própria palavra</p><p>"intolerância" sugere uma atitude de mera tolerância, como se aceitar o problema</p><p>fosse a única opção viável. Esse ponto se torna particularmente sensível quando</p><p>consideramos a história e a cultura associadas às religiões de matriz africana, assim</p><p>afirma o ilustre jurista Silva Jr18.:</p><p>(...) a intolerância religiosa é uma expressão de atitudes fundadas nos</p><p>preconceitos caracterizada pela diferença de credos religiosos praticados</p><p>por terceiros, podendo resultar em atos de discriminação violentos dirigidos</p><p>a indivíduos específicos ou em atos de perseguição religiosa, cujo alvo é a</p><p>coletividade.</p><p>Assim, temos que as atitudes de intolerância são uma espécie de conexão entre a</p><p>teoria da verdade e o poder político, sendo a exacerbação da relação entre</p><p>dominante e dominado, pois só sofre o indivíduo com menos poder. Diante da noção</p><p>da presença da hegemonia que se pode dizer que se trata de racismo religioso, pois,</p><p>o racismo se fundamenta da negação, onde o ser constrói o não-ser, retirando as</p><p>características funcionais e vitais do ser, como o a cultura, progresso, auto-controle,</p><p>funcionando o racismo como um disciplinador, ordenador e estruturador das</p><p>relações raciais e sociais19.</p><p>Em um Estado20 estruturado a partir de um modelo colonial-escravista racista, o</p><p>negro sempre foi marginalizado, por isso há a reação contra o termo intolerância,</p><p>devendo ser chamado de racismo religioso, pois foi a partir do período colonial que a</p><p>população foi hierarquizada a partir do conceito de raça, estando presente os cultos</p><p>às religiões afro-brasileiras como forma de resistência desde então, se impondo à</p><p>18 SILVA JR, Hédio. “Intolerância religiosa e direitos humanos”. In SANTOS, Ivanir dos & ESTEVES</p><p>FILHO, A. (Orgs). Intolerância Religiosa x Democracia. Rio de Janeiro: CEAP, 2009, p.128</p><p>19 CARNEIRO, Aparecida Sueli; FISCHMANN, Roseli. A construção do outro como não-ser como</p><p>fundamento do ser. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005, p. 70.</p><p>20 FERNANDES, Nathália Vince Esgalha; ADAD, Clara Jane Costa. Intolerância ou racismo religioso:</p><p>discriminação e violência contra as religiões de matriz africana. Intolerância Religiosa 2(1), jul-dez,</p><p>2017, p. 11-12.</p><p>17</p><p>dominação colonizadora que forçava a aceitação do cristianismo eurocêntrico. Há,</p><p>na verdade, um ataque à origem africana dessas religiões.</p><p>Compreendendo as dinâmicas complexas de poder e opressão enraizadas nas</p><p>estruturas sociais, torna-se evidente que o racismo religioso atua como uma</p><p>extensão do racismo estrutural. A marginalização de grupos religiosos minoritários</p><p>ou não dominantes reflete a perpetuação de desigualdades sustentada por sistemas</p><p>de crenças estigmatizados e subjugados, como discutido por estudiosos como</p><p>Bonilla-Silva (2003) e Bourdieu (1991). Esses processos discriminatórios, muitas</p><p>vezes sutis, resultam em uma forma de violência simbólica que reforça a exclusão e</p><p>a negação de identidades culturais.</p><p>A interseção entre raça e religião, como destacado por Crenshaw (1989), evidencia</p><p>a complexidade das experiências de grupos étnicos e religiosos minoritários, que</p><p>enfrentam discriminações interligadas moldadas pelas complexidades de suas</p><p>identidades étnicas e religiosas.</p><p>Em 28 de março de 2019, o Supremo Tribunal Federal21 (STF) decidiu, por</p><p>unanimidade, que a lei do Rio Grande do Sul que permite o sacrifício de animais em</p><p>rituais religiosos é constitucional. O Recurso Extraordinário (RE) 494601 foi levado</p><p>ao STF pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS), contestando a</p><p>validade da Lei estadual 12.131/2004.</p><p>O presidente do STF, ministro Dias Toffoli, observou que, embora houvesse</p><p>divergências técnicas sobre a interpretação da lei, todos os votos foram a favor da</p><p>permissão do sacrifício de animais em ritos religiosos. Os ministros Marco Aurélio</p><p>(relator), Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes discordaram parcialmente,</p><p>considerando a constitucionalidade da lei mediante interpretação conforme22.</p><p>21 SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. STF decide pela constitucionalidade de lei gaúcha que permite</p><p>sacrifício ritual de animais em cultos de religiões de matriz africana. Portal STF, Brasília, 28 mar.</p><p>2019. Disponível em: https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=407159.</p><p>Acesso em: 15 out. 2023.</p><p>22 IDEM</p><p>18</p><p>A tese estabelecida pelo STF afirmou que a lei de proteção animal é constitucional,</p><p>permitindo o sacrifício ritual de animais em cultos das religiões de matriz africana. O</p><p>julgamento teve início em agosto do ano anterior e foi suspenso, sendo retomado</p><p>com o voto-vista do ministro Alexandre de Moraes, que propôs a interpretação</p><p>conforme a Constituição, permitindo a prática de ritos religiosos que envolvam o</p><p>abate de animais, desde que sem maus-tratos ou tortura.</p><p>A maioria dos ministros que votaram a favor, como Edson Fachin, Luís Roberto</p><p>Barroso, Rosa Weber, Ricardo Lewandowski, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Dias Toffoli,</p><p>ressaltou a importância de proteger as religiões de matriz africana contra o</p><p>preconceito e a intolerância. Eles consideraram que tais práticas religiosas não são</p><p>cruéis e são realizadas de acordo com rituais específicos que garantem o respeito e</p><p>a dignidade dos animais.</p><p>Com essa decisão, o STF buscou estabelecer um equilíbrio entre a proteção dos</p><p>direitos dos animais e o direito fundamental à liberdade religiosa.</p><p>Em conclusão, o racismo religioso, como manifestação complexa do racismo</p><p>estrutural, revela as profundas tensões e desequilíbrios subjacentes às interações</p><p>sociais e religiosas. Sua existência reflete não apenas a intolerância e a</p><p>discriminação baseada na fé, mas também a dinâmica de poder arraigada nas</p><p>estruturas sociais. Para combater efetivamente o racismo religioso, é imperativo</p><p>adotar abordagens inclusivas que promovam a compreensão mútua, o respeito às</p><p>diferenças e a valorização da diversidade cultural e espiritual.</p><p>Ainda, a educação, a sensibilização e a implementação de políticas de proteção dos</p><p>direitos religiosos são essenciais para construir uma sociedade mais justa e</p><p>harmoniosa, onde a liberdade de crença e a igualdade sejam garantidas para todos.</p><p>Somente através de um compromisso coletivo e contínuo com a empatia e a</p><p>solidariedade poderemos superar os efeitos nocivos do racismo religioso e promover</p><p>a coexistência pacífica e respeitosa entre todas as comunidades religiosas.</p><p>19</p><p>6- PROTEGENDO OS CULTOS DAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS:</p><p>MECANISMOS DE DEFESA E PRESERVAÇÃO</p><p>Destaca-se que, os mecanismos de defesa para a proteção das religiões de matriz</p><p>abarcam uma série de estratégias e ações destinadas a assegurar tanto a liberdade</p><p>religiosa quanto a preservação dessas ricas tradições culturais. Como preconiza a</p><p>Carta Magna de 1988, em seu Artigo 5º, inciso VI, afirma que "é inviolável a</p><p>liberdade de consciência e de crença", garantindo o livre exercício dos cultos</p><p>religiosos. O inciso VIII proíbe a discriminação religiosa.</p><p>É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o</p><p>livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção</p><p>aos locais de culto e a suas liturgias. (Constituição Federal de 1988)</p><p>Posto isto, legislação brasileira abrange várias leis destinadas a combater a</p><p>intolerância religiosa e salvaguardar a liberdade religiosa. Dentro desse contexto,</p><p>merece destaque</p><p>a Lei nº 7.71623, datada de 5 de janeiro de 1989. Esta lei versa</p><p>sobre os crimes decorrentes de preconceito racial ou étnico, abrangendo,</p><p>igualmente, a discriminação com base em crenças religiosas. Em seus dispositivos,</p><p>são definidas penalidades para indivíduos que promovam, instiguem ou pratiquem</p><p>atos discriminatórios ou preconceituosos relacionados à raça, cor, origem étnica,</p><p>religião ou procedência nacional.</p><p>Portanto, a Lei nº 9.45924, de 13 de maio de 1997, introduziu alterações no Código</p><p>Penal Brasileiro com o intuito de penalizar condutas relacionadas à discriminação e</p><p>ao preconceito religioso. Essa legislação prevê sanções para indivíduos que</p><p>23 BRASIL. Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989. Define os crimes resultantes de preconceito de raça</p><p>ou de cor. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 6 jan. 1989. Disponível em:</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7716.htm#:~:text=LEI%20N%C2%BA%207.716%2C%20DE</p><p>%205%20DE%20JANEIRO%20DE%201989.&text=Define%20os%20crimes%20resultantes%20de,de</p><p>%20ra%C3%A7a%20ou%20de%20cor. Acesso em: 29/09/2023.</p><p>24 BRASIL. Lei nº 9.459, de 13 de maio de 1997. Acrescenta ao Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de</p><p>dezembro de 1940 - Código Penal, dispositivos que especifica, alterando a redação do Decreto-Lei nº</p><p>2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal Brasileiro. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 14</p><p>maio 1997. Disponível em:</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9459.htm#:~:text=LEI%20N%C2%BA%209.459%2C%20DE</p><p>%2013,7%20de%20dezembro%20de%201940. Acesso em: 29/09/2023. Acesso em: 29/09/2023.</p><p>20</p><p>pratiquem, instiguem ou incitem a discriminação ou o preconceito com base em</p><p>religião.</p><p>Ademais, a conscientização e a Educação em Direitos Humanos são peças</p><p>fundamentais para promover a tolerância religiosa e a diversidade cultural, visando</p><p>combater efetivamente a intolerância religiosa. Dessa forma, assegurando a</p><p>desconstruir todos os estereótipos prejudiciais e equívocos em relação a história das</p><p>religiões de matriz africana no Brasil, valorando e resguardando tais tradições e</p><p>mantendo viva a formação da identidade cultural brasileira.</p><p>Objetivamente, o Governo Brasileiro deve investir cada vez mais na inclusão das</p><p>religiões de matriz africana nos currículos escolares, de modo que, as próximas</p><p>gerações tenham uma nova ótica acerca das diversidades religiosas do Brasil.</p><p>7 - DESCONSTRUINDO ESTEREÓTIPOS E PROMOVENDO A TOLERÂNCIA</p><p>Na mídia e nas redes sociais, frequentemente são difundidos estereótipos negativos</p><p>associados às religiões de matriz africana. Uma associação prejudicial é</p><p>estabelecida, onde a imagem dos praticantes dessas religiões se confunde com</p><p>atividades criminosas. Infelizmente, essa distorção impacta a percepção pública,</p><p>ligando os seguidores dessas práticas espirituais a indivíduos que exploram a fé dos</p><p>fiéis para extorquir dinheiro em troca de serviços religiosos.</p><p>Essa representação distorcida e injusta contribui para uma visão estigmatizada e</p><p>equivocada sobre as religiões de matriz africana. Ao invés de reconhecer sua</p><p>riqueza cultural e espiritual, a mídia tende a associar de maneira pejorativa essas</p><p>práticas religiosas a atividades ilegais, gerando preconceitos que prejudicam a</p><p>compreensão genuína dessas tradições espirituais.</p><p>Essa versão destaca como a mídia estereotipa de forma negativa as religiões de</p><p>matriz africana, criando associações injustas que impactam a percepção pública</p><p>sobre seus praticantes.</p><p>21</p><p>No texto de Benjamim Costallat, veiculado no Jornal do Brasil em 1924, é possível</p><p>encontrar a descrição dessa situação:</p><p>A porta de entrada, rapidamente, se havia fechado e não havia uma janela</p><p>que desse um pouco de ar àquela aglomeração de gente, suando e fedida</p><p>[...]. O negro, na sua linguagem africana, recomeçou a soltar a sua</p><p>eloquência terrível e diabólica [...]. Na meia luz de querosene, aquelas</p><p>criaturas, quase todas pretas, pareciam ter saído de uma gravura de</p><p>madeira. Eram sinistras...[...]. O preto feiticeiro, o “pai de santo”, soltando</p><p>para o teto enormes fumaradas, agitava-se, tremendamente, com grandes</p><p>gestos, grandes gritos, batendo no peito com terrível estrondo [...]. De</p><p>repente, o feiticeiro começou a dar pulos, a rodopiar, num samba infernal.</p><p>Parecia uma carrapeta viva [...]. A carrapeta humana não se cansava. Era</p><p>vertiginosa e louca. E cada vez mais o seu imenso charuto soltava fumaça</p><p>[...] como se sua cabeça negra estivesse a incendiar-se! [...]. E ereto,</p><p>como uma estátua de bronze, o braço levantado, imponente de atitude [...],</p><p>recomeçou a falar velozmente na sua linguagem africana [...]. O preto e</p><p>seu enorme charutão –já devia ser outro porque ele era enorme –</p><p>lançando fumaça como uma chaminé, dirigiu-se para a velha gorda e</p><p>como querendo hipnotiza-la, abriu os braços fazendo uma série de</p><p>“passes” diante desua pobre cabeça dolorida [...]. E, rapidamente, dentro</p><p>do barracão, tendo como centro o “pai de santo”, rodopiam furiosamente</p><p>quatro homens e quatro mulheres, fazendo um barulho de mil infernos</p><p>com os seus pés nus, no soalho que vibra, estremecendo a casa [...]. É</p><p>uma visão louca! [...]. E tudo roda, e tudo vira, e tudo samba, um samba</p><p>doido e diabólico numa alucinação tremenda! (COSTALLAT, 1924)25.</p><p>A criação dessa representação ocorre através da inclusão de personagens em</p><p>filmes, literatura, desenhos animados, animações e jogos eletrônicos, que retratam</p><p>seguidores de religiões, rituais e valores culturais africanos e indígenas, sejam eles</p><p>de origem cristã ou não. Essas representações muitas vezes apresentam</p><p>estereótipos ligados a práticas ou crenças religiosas específicas, o que impacta a</p><p>percepção social sobre essas tradições.</p><p>Essa construção visual e narrativa pode influenciar a forma como as pessoas</p><p>enxergam e compreendem essas tradições religiosas e culturais. Por vezes, tais</p><p>25 COSTALLAT, Benjamim. NA NOITE DO SUBÚRBIO. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro 24 de Maio,</p><p>1924. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Disponível em:</p><p><http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_04&PagFis=29481&Pesq=umbanda</p><p>>. Acesso em 26 nov. 2023</p><p>22</p><p>representações podem simplificar ou distorcer as práticas e crenças, reforçando</p><p>estereótipos preexistentes na sociedade em relação a essas religiões.</p><p>É crucial considerar a responsabilidade por trás dessas representações, pois elas</p><p>não apenas moldam a percepção pública, mas também podem impactar a maneira</p><p>como grupos étnicos e religiosos são vistos e tratados na sociedade.</p><p>Patrick Charaudeau fornece uma abordagem direta e objetiva:</p><p>A crença [...] é, pois, um domínio que se define pelo encontro entre uma</p><p>verdade como “saber que se sabe saber” e um sujeito que se dirige a essa</p><p>verdade animado de uma “certeza sem provas” e que dela se apropria.</p><p>Reconhecem-se aqui os movimentos individuais ou coletivos de adesão a</p><p>grandes sistemas de pensamento ou a algumas narrativas do mundo que</p><p>constituem o suporte das crenças religiosas, mágicas ou míticas [...]. Toda</p><p>adesão a ideias preconcebidas, a rumores, a julgamentos estereotipados</p><p>que aparecem sob a forma de enunciados mais ou menos fixos [...] que</p><p>circulam nos grupos sociais, participa desse fenômeno de crença26.</p><p>A disseminação da intolerância religiosa nas redes sociais é uma preocupação</p><p>crescente, dada a facilidade e rapidez com que as pessoas podem expressar suas</p><p>opiniões. Esses espaços online oferecem um terreno fértil para a propagação de</p><p>ideias preconceituosas, alimentadas pelo anonimato, polarização de opiniões e falta</p><p>de moderação. A rapidez das interações nas redes sociais pode resultar em uma</p><p>disseminação acelerada de discursos intolerantes, criando um ambiente propício</p><p>para o ódio e a discriminação religiosa.</p><p>Além disso, a facilidade de compartilhar informações e opiniões sem verificação</p><p>prévia pode levar à propagação de estereótipos e falsidades sobre</p><p>determinadas</p><p>religiões, agravando conflitos e alimentando preconceitos já existentes.</p><p>Por fim, os crimes online, incluindo casos de intolerância religiosa, são uma</p><p>preocupação cada vez mais relevante. A abordagem para lidar com essas questões</p><p>é multifacetada e envolve tanto a prevenção quanto a aplicação eficaz da lei,</p><p>juntamente com a conscientização e a educação.</p><p>26 CHARAUDEAU, P. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2010. P. 121</p><p>23</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Destarte que nesse trabalho foi explorado o tema da proteção da diversidade</p><p>espiritual, com foco nos cultos das religiões de matriz africana no contexto do Estado</p><p>laico brasileiro, durante todo percurso, foi utilizado como norte o contexto histórico,</p><p>as tradições e os desafios enfrentados por essas religiões, destacando sua</p><p>importância cultural e espiritual na sociedade brasileira.</p><p>Sendo evidenciado, o papel das religiões de matriz africana na preservação das</p><p>tradições culturais africanas, mesmo diante de um passado marcado por opressão,</p><p>preconceito e discriminação.</p><p>Posto isto, ficou cristalino que o Estado laico brasileiro, embora estabeleça a</p><p>liberdade religiosa como um direito fundamental, enfrenta desafios significativos na</p><p>proteção efetiva dessas religiões contra a intolerância religiosa.</p><p>Ademais, os mecanismos de defesa discutidos ao longo deste trabalho, como a</p><p>legislação antidiscriminatória e as políticas públicas de conscientização, são passos</p><p>importantes na direção certa. Contudo, é essencial um compromisso contínuo e</p><p>colaborativo da sociedade civil, dos líderes religiosos e das autoridades</p><p>governamentais para garantir que a diversidade espiritual seja verdadeiramente</p><p>respeitada e protegida.</p><p>Em última análise, a proteção da diversidade espiritual não é apenas uma questão</p><p>de direitos humanos, mas também uma questão de justiça social e cultural.</p><p>Devemos continuar a trabalhar juntos para garantir que todas as vozes espirituais</p><p>tenham espaço e respeito em nossa sociedade diversa e pluralista.</p><p>24</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BRASIL. Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989. Define os crimes resultantes de</p><p>preconceito de raça ou de cor. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 6 jan. 1989.</p><p>Disponível em:</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7716.htm#:~:text=LEI%20N%C2%BA%207</p><p>.716%2C%20DE%205%20DE%20JANEIRO%20DE%201989.&text=Define%20os%</p><p>20crimes%20resultantes%20de,de%20ra%C3%A7a%20ou%20de%20cor.</p><p>BRASIL. Lei nº 9.459, de 13 de maio de 1997. Acrescenta ao Decreto-Lei nº 2.848,</p><p>de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal, dispositivos que especifica, alterando a</p><p>redação do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal</p><p>Brasileiro. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 14 maio 1997. Disponível em:</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9459.htm#:~:text=LEI%20N%C2%BA%209</p><p>.459%2C%20DE%2013,7%20de%20dezembro%20de%201940.</p><p>BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.</p><p>CARNEIRO, Aparecida Sueli; FISCHMANN, Roseli. A construção do outro como</p><p>não-ser como fundamento do ser. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.</p><p>CARTA CAMPINAS. O caso Mãe Gilda que originou a lei brasileira contra a</p><p>intolerância religiosa. Disponível em: https://cartacampinas.com.br/2018/01/o-caso-</p><p>mae-gilda-que-originou-a-lei-brasileira-contra-a-intolerancia-religiosa/.</p><p>CHARAUDEAU, Patrick. DISCURSO DAS MÍDIAS. São Paulo. Contexto, 2010</p><p>25</p><p>COSTALLAT, Benjamim. NA NOITE DO SUBÚRBIO. Jornal do Brasil, Rio de</p><p>Janeiro 24 de Maio,1924. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Disponível em:</p><p><http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_04&PagFis=29481</p><p>&Pesq=umbanda>.</p><p>DALLARI, D. A. (2014). Elementos da teoria geral do Estado. Editora Saraiva.</p><p>DINIZ, DEBORA; LIONÇO, Tatiana; CARRIÃO, Vanessa. Laicidade e ensino</p><p>religioso no Brasil. Brasília: UNESCO: Letras Livres: Ed. UnB, 2010.</p><p>FERNANDES, Nathália Vince Esgalha; ADAD, Clara Jane Costa. Intolerância ou</p><p>racismo religioso: discriminação e violência contra as religiões de matriz africana.</p><p>Intolerância Religiosa 2(1), jul-dez, 2017.</p><p>MACHADO, M. D. C. "Diversidade religiosa e convivência pacífica no Brasil."</p><p>Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 29, n. 86, p. 155-172, 2014.</p><p>MENDES, G. F. (2010). Curso de Direito Constitucional. Editora Saraiva.</p><p>NOVAES, R. "Religião e cultura: o caso brasileiro." Ciências Sociais Unisinos, v. 43,</p><p>n. 2, p. 115-123, 2007.</p><p>PAIS, J. M. "Religião e democracia: a separação necessária." Religião e Sociedade,</p><p>v. 26, n. 2, p. 21-36, 2006.</p><p>26</p><p>RUTHERFORD, JANE. Religion, rationality, and special treatment. William & Mary</p><p>Bill Of Rights Journal. N. 9, Fevereiro, 2001, p. 332 e 334.</p><p>SILVA JR, Hédio. “Intolerância religiosa e direitos humanos”. In SANTOS, Ivanir dos</p><p>& ESTEVES FILHO, A. (Orgs). Intolerância Religiosa x Democracia. Rio de Janeiro:</p><p>CEAP, 2009.</p><p>SILVEIRA, Renato da. O CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA: processo de</p><p>constituição do primeiro terreiro baiano de keto. 2006. Ed MAIANGA.</p><p>SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Arguição de Descumprimento de Preceito</p><p>Fundamental (ADPF) 54. Tribunal Pleno. Relatora: Ministra Cármen Lúcia. Publicado</p><p>em 12 de abril de 2012. Disponível em:</p><p>https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=3707334 .</p><p>SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. STF decide pela constitucionalidade de lei</p><p>gaúcha que permite sacrifício ritual de animais em cultos de religiões de matriz</p><p>africana. Portal STF, Brasília, 28 mar. 2019. Disponível em:</p><p>https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=407159.</p><p>SCHWARCZ, L. M. "Religião, diversidade e direitos humanos." Estudos Avançados,</p><p>v. 31, n. 89, p. 133-145, 2017.</p>

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