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SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA Jocélia Santana Barreto Sociologia da religião Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Analisar o papel da religião na sociedade a partir da perspectiva sociológica. Apontar os principais conceitos teóricos da sociologia da religião. Relacionar a religião a instituições sociais: Estado, mercado e capitalismo. Introdução A tentativa de explicar o que acontece ao seu redor leva o ser humano a buscar respostas para questões como a sua origem na Terra, a sua identi- dade e o seu futuro. É por meio da religião que o homem demonstra sua fé no sagrado e no transcendental, tentando entender os mistérios da vida. Neste capítulo, você vai entender a influência que a religião possui na sociedade. Como aspecto constituinte da sociedade, a instituição religiosa tem papel muito importante na conduta dos seres humanos e por isso é estudada pela sociologia. A sociologia procura entender a crença dos indivíduos e grupos, bem como a existência das cerimônias e rituais desde o início da humanidade ao redor do globo terrestre, em locais e culturas tão díspares no espaço e no tempo. Além disso, busca avaliar o poder que a religião possui sobre outras esferas de socialização, como a família, o Estado e a escola, verificando também de que forma essas esferas influenciam as escolhas religiosas e os modos de agir e viver no mundo. O papel da religião na sociedade a partir da perspectiva sociológica A sociologia busca analisar as funções da religião nas situações cotidianas e também em situações extremas, como guerras e crises políticas e econômicas. Ela analisa o papel essencial que a religião exerce na sociedade, tentando abarcar a linha tênue que separa o sagrado do profano. Muitos pensadores focam o papel que as crenças religiosas possuem para o indivíduo, os grupos e as nações. Os sociólogos estudam as normas e valores das crenças buscando compreender os seus fundamentos e a sua importância, além da forma como as pessoas exercitam o seu credo. As organizações religiosas tendem a moldar comportamentos de acordo com uma ética e uma moral próprias. A diversidade das religiões que há no mundo origina o pluralismo religioso. A liberdade religiosa — a liberdade de culto e de organização religiosa — é fundamental para a construção de uma sociedade justa, igualitária, com respeito às diversas crenças e combate à intolerância religiosa. Torna-se complicado pensar sobre a religiosidade sem respeitar suas diferentes manifestações no mundo. O não respeito às diferentes manifestações gera a intolerância religiosa. A liberdade religiosa se relaciona com a noção de laicidade. A laicidade diz respeito à separação entre Estado e religião. Um Estado pode adotar uma religião oficial, mas precisa garantir a liberdade religiosa a todos os cidadãos. Também não deve interferir na fé religiosa de seus cidadãos, nem deixar que a fé professada por seus políticos influencie as políticas públicas. Porém, como toda liberdade, a liberdade religiosa tem limites. Por exemplo, o cidadão não pode cometer infração ou crime alegando que está exercendo a sua fé. Caso realize o crime por meio de sacrifícios que façam mal a outros seres humanos, ou incite a violência, estará sujeito às normas jurídicas e será julgado e punido, independentemente dos seus motivos. Ao redor do planeta, muitos grupos têm utilizado a religião como justificativa para realizar atos considerados terroristas ou fundamentalistas extremamente violentos, matando pessoas inocentes em ataques com bombas em locais públicos, por exemplo. Esses grupos são tidos como extremistas e deturpam a prática religiosa da maioria dos fiéis que professam aquela religião. Após o atentado terrorista ao World Trade Center, em setembro de 2001, a palavra “terrorista” aparece frequen- temente na mídia impressa e falada. Dessa forma, muitas pessoas que exercem a sua fé em determinada religião podem sofrer os efeitos diretos e indiretos da ação de grupos terroristas, sendo discriminadas, xingadas e humilhadas. O fundamentalismo religioso é exposto na mídia de maneira pejorativa e limitada aos ataques terroristas de adeptos do islamismo. O senso comum compreende que os fundamentalistas são indivíduos extremamente violentos e que não realizam boas ações. Mas, afinal, você sabe o que é fundamentalismo? O que ele tem a ver com religião? O conceito de fundamentalismo surgiu em um contexto religioso, no início do século XX, nos Estados Unidos. Contudo, na história, sua gênese é cristã, ocidental e protestante, não islâmica. Um grupo religioso, protestante e conservador do sul Sociologia da religião2 dos Estados Unidos, oriundo do Seminário Presbiteriano de Princeton, se reuniu para debater e elaborar doutrinas que contrariavam os prostestantes liberais do século XIX, também chamados de modernistas. Segundo eles, os modernistas eram deturpadores da fé cristã. O modernismo era uma corrente de pensamento mais flexível. Seus praticantes defendiam que a Bíblia não poderia ser seguida ao pé da letra e que as celebrações deveriam se adaptar aos costumes culturais de cada local. Além disso, eles introduziram elementos evolucionistas e a ideia de progresso na interpretação dos preceitos bíblicos (PIERUCCI, 2010). Os fundamentalistas rejeitam qualquer influência mundana na religião, pregam os princípios fundamentais, a doutrina rígida, a Bíblia ao pé da letra como verdade única, de interpretação literal. Também acreditam em um deus único, isto é, no monoteísmo. Dessa forma, um judeu, um protestante e um católico podem ser fundamentalistas, até mesmo um muçulmano. Contudo, fiéis do candomblé, que não seguem um livro sagrado, não podem ser considerados fundamentalistas. As religiões monoteístas se originaram no Oriente Médio e são: o juda- ísmo, o cristianismo e o islamismo. O fundamentalismo, portanto, tem como elemento crucial o monoteísmo pregado nas escrituras e livros sagrados. Os fundamentalistas acreditam em uma única verdade. As religiões com vários deuses (politeístas) e as religiões panteístas não são fundamentalistas. Enfim, os fundamentalistas defendem os seus dogmas religiosos, os fundamentos da sua religião. Isso não implica o uso da violência para a defesa da religião. Ser fundamentalista não significa necessariamente ser violento. Atualmente, há um avanço da cultura ocidental sobre o mundo árabe. Muitos dos conflitos atuais entre religiões envolvem o desrespeito aos costu- mes, hábitos e valores de grupos não ocidentais por grupos ocidentais. Como exemplo, você pode considerar a proibição do uso da burca na França. Tal proibição ocorre também na Áustria, na Dinamarca, na Holanda e em alguns lugares da Suíça. Esses países alegam que são contra qualquer vestimenta que cubra o rosto, pois isso coloca em risco a segurança pública. Cada religião possui seu sistema de credos, rituais, cerimônias, rezas e orações, símbolos, tradições, bem como lugares que são tidos como sagrados, de adoração. Algumas religiões possuem locais sagrados físicos, como igrejas, templos, sinago- gas, mesquitas, terreiros e congregações. Outras praticam sua fé ao ar livre. Essas divindades tanto podem ser seres imaginários, como deuses e deusas, quanto, por exemplo, animais. É o caso da vaca na Índia, que é tida como sagrada até os dias atuais. Também há religiões que atribuem poderes aos elementos naturais, como o vento, a água e o fogo, acreditando que os deuses regem esses elementos. 3Sociologia da religião A maioria das instituições religiosas também usa livros considerados sagrados para guiar a conduta dos fiéis. O cristianismo utiliza a Bíblia, os muçulmanos, o Alcorão. A prática da religião envolve ritos, liturgias e rituais como cultos, missas, procissões, sermões, transes, sacrifícios. Muitas religiões utilizam músicas, danças e festas para a adoração dos seus deuses. A fé em uma religião é ao mesmo tempo uma experiência pessoale coletiva. Na maioria das vezes, os fiéis se reúnem em um local para expressar a sua fé. Contudo, a prática da religiosidade não precisa necessariamente estar atrelada ao comparecimento e à participação em rituais realizados em um lugar físico. A maioria dos conflitos mundiais se originam de questões religiosas so- madas a aspectos de ordem política, econômica e geográfica. O Brasil tem como religião predominante o catolicismo, mas convive com a diversidade de credos. Nos últimos anos, houve um aumento maciço dos evangélicos. O País também abriga cultos de origem africana, que convivem com diferentes grupos espíritas, além de comunidades judaicas e de pessoas sem religião. Além disso, o sincretismo religioso, em que símbolos e ideologias de diferentes religiões se misturam, permanece presente no Brasil. Os santos do catolicismo, por exemplo, se mesclam com os santos do candomblé. Religiões ao redor do planeta Você sabe quais são as religiões que possuem maior número de fi éis ao redor do planeta e em que local elas se concentram? Segundo um relatório do americano Pew Research Center, o cristianismo possui 2,18 bilhões de fi éis no mundo. Os fi éis denominados cristãos se dividem entre: católicos, com 51,4%; evangélicos, com 36% (a maior parte pentecostal); e ortodoxos, com 12,6%. Os cristãos creem em Jesus e em um deus único. Ao longo da história, o cristianismo foi dividido entre cristãos ortodoxos ou do Oriente, que em seguida se separaram entre católicos e protestantes. Os cristãos seguem a Bíblia, seu livro sagrado (SCHULTZ; PLAVENIECE, 2011). Os cristãos católicos seguem a Igreja Católica Apostólica Roma e sua au- toridade máxima é o papa. Já os cristão ortodoxos surgiram com a cisão que ocorreu na Igreja Católica Romana no século XI e que se espalhou no Oriente. A Igreja Católica Ortodoxa e a Igreja Ortodoxa Russa são as suas principais igrejas. O islamismo, de acordo com o mesmo relatório, é a religião que mais vem conquistando adeptos pelo mundo, sendo considerada a segunda religião mun- dial em número de seguidores. Cerca de 1,6 bilhão de pessoas se proclamam muçulmanas. Eles se dividem em sunitas e xiitas. A corrente sunita acredita Sociologia da religião4 na Suna, o livro sagrado que contém os ensinamentos do profeta Maomé. Por outro lado, a corrente xiita, que vigora no Irã e no Iraque, crê nos ensinos de Ali, primo de Maomé. Essa corrente envolve a política nos valores religiosos e defende o Estado teocrático. O hinduísmo é a terceira religião em número de adeptos no mundo. Teve como origem o vedismo, religião dos povos indo-europeus que viviam no norte da Índia no segundo milênio a.C. Essa religião não possui um fundador e não há hierarquia ou instituição estabelecida. Há um sistema de castas em que as pessoas são classificadas da ordem superior para a inferior, não sendo possível a ascensão social. No Atlas das Religiões (O’BRIEN; PALMER, 2008), você pode aprender mais sobre as religiões mais importantes da história mundial, como o cristianismo, o budismo, o hinduísmo, o islamismo, o judaísmo e o taoísmo. Principais conceitos da sociologia da religião Estudar a religião para entender as estruturas da sociedade: esse foi um desafi o para a sociologia em seu surgimento como ciência. A sociologia surgiu junta- mente com a sociologia da religião. Émile Durkheim foi um dos sociólogos precussores no estudo da religião nas sociedades. Ele buscou compreender a relação entre indivíduo e sociedade e o poder da religião nessa relação. Para ele, a religião é uma ação coletiva que abarca diferentes condutas do homem na interação com os seus pares e grupos. A religião seria um sistema unifor- mizado de crenças e práticas que diz respeito ao sagrado em contraposição ao profano (DURKHEIM, 1912 apud SCHAEFER, 2016). O sagrado compreende a reunião de práticas específicas que abrangem eventos que transcendem o cotidiano e geram o temor e o respeito religioso. O profano, por sua vez, se refere à vida mundana. A noção de sagrado e profano depende da interpretação das representações simbólicas que o homem atribui para os objetos e as suas ações. Para Durkheim (2000), a religião tem o poder de unir os laços de coesão social e realizar a solidariedade entre os membros da sociedade. Ela funciona como uma cola social e mantém a estrutura e a harmonia. Portanto, promove 5Sociologia da religião a estabilidade e a não ruptura. Não existe a ideia de contradição nos estudos de Durkheim. Para ele, ao promover a harmonia por meio de ritos, rituais e cerimônias, os povos fortalecem a sua crença. Dessa forma, a religião funciona como um poder integrador da sociedade humana. Para Durkheim (2000), os laços da religião ultrapassam as forças pessoais. Durkheim pesquisou os aborígenes da Austrália. Nesse local, ele descobriu o sistema do totemismo. O que seria um totem? Um totem é um objeto tido como sagrado pelos moradores locais, um símbolo cultuado nos rituais e cerimônias. A religião tem o poder de impor significados a coisas e animais que são consideradas sagradas e possuem um caráter transcendental. Outro autor muito importante para a sociologia e para a sociologia da religião foi Max Weber. Em seu livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (WEBER, 2000), ele defende que existe uma relação de afinidade entre a crença religiosa protestante e o comportamento capitalista. A Reforma Protestante teve valor essencial para o desenvolvimento do sistema capitalista, porque a ideologia da ética da prosperidade promove a produção de riqueza. A ética protestante produz novos comportamentos. Ela tem como valor o trabalho como maneira de glorificar a Deus. Os protestantes acreditavam que o trabalho tornava o homem nobre e apreciável aos olhos de Deus. Assim, deveriam se envolver no trabalho, evitar os prazeres do mundo, ter disciplina e lutar para obter prosperidade. Por outro lado, os católicos condenavam a acumulação de riquezas, pois achavam que ela significava usura. Esses fatores transformaram radicalmente o mundo do trabalho e, com isso, a economia da Europa. O acúmulo de capitais realizado pelos protestantes e a produção de riqueza geraram lucro. Assim, a economia cresceu, possibilitando o desenvolvimento do capitalismo. Como você pode notar, a economia é fortemente influenciada pela religião. A ética protestante estimulou a poupança, modificando o cotidiano e as ações humanas e gerando novas formas de viver, novos hábitos. Tanto Durkheim quanto Weber acreditavam que, com a expansão da indústria, a religião perderia seu poder e sofreria um processo de secularização. Contudo, como você sabe, eles se equivocaram. Afinal, a religião ainda possui enorme poder nas sociedades. Sociologia da religião6 Karl Marx foi outro estudioso que procurou analisar a influência da religião na sociedade moderna. Ele, ao contrário dos autores citados, critica a religião. Marx era contrário ao sistema capitalista e a toda instituição que influenciasse esse sistema. Ele refletia sobre as condições concretas da vida dos seres humanos e sobre a estrutura da sociedade. Ele afirmava que a religião era o ópio do povo, porque influencia o pensamento e o comportamento da sociedade. No seu texto A questão judaica (MARX, 1991), ele defende que a sociedade civil só alcançaria a liberdade e a emancipação humana quando todos participassem do Estado e pudessem tomar decisões. Assim, por meio da ruptura do sistema, o ser humano poderia viver em uma sociedade com livre e igual distribuição dos bens. E o que a religião tem a ver com isso? Para Marx, ela é semelhante a um ópio pois deixa os indivíduos acomodados, resignados, acreditando em uma vida futura. Assim, não se envolvem em sua vida concreta e real nem promo- vem a mudança social. As pessoas ficam conformadas, submissas, veem as situações da sua vida como vontade divina, como destino, e não questionam nem lutam pela transformação. No mundo contemporâneo, a religião passou por transformações,mas se configura como um importante fenômeno social tanto na vida privada quanto na esfera pública. Ao desnaturalizar as relações sociais, a sociologia da religião demonstra que as instituições religiosas possuem natureza social e histórica, sendo um produto dessas relações situadas no espaço e no tempo. Religião, Estado, mercado e capitalismo Se você deseja aprender sobre a religiosidade de um povo ou nação, além de observar as manifestações de fé, como os rituais, cerimônias, práticas e crenças, pode observar as leis que regem essa nação. É por meio de uma lei específi ca que a liberdade religiosa é assegurada em um país. A constituição ou carta magna de um país é um conjunto de leis que estabelecem direitos e deveres dos cidadãos em cada esfera da vida pública. Nela está regulamentado o que o governo deve garantir para o pleno exercício da cidadania e o que os cidadãos devem cumprir para a construção de uma sociedade justa e igualitária. A religião, como instituição social do dia a dia das pessoas, não pode ficar de fora. Em seu art. 19, a Constituição Federal do Brasil afirma que o Estado brasi- leiro não pode ter preferência religiosa ou impor privilégios para determinada religião, sendo que o poder público e a religião devem ser separados. Já o 7Sociologia da religião art. 5º da Carta Magna prega a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos, garantindo na forma da lei a proteção aos locais de culto e suas liturgias. Além disso, defende a não privação de direitos devido às crenças que a pessoa professa. Logo, ninguém pode ser privado de liberdade por expressar sua fé religiosa. A Constituição ainda assegura a assistência religiosa a enti- dades civis e militares de internação coletiva e permite que os cidadãos que não possam realizar o serviço militar devido à sua crença realizem serviço alternativo. Além disso, a Constituição Brasileira permite o ensino religioso não obrigatório nas escolas públicas de ensino fundamental, de modo que as crianças possam ter acesso ao saber religioso. Contudo, esse ensino não é obrigatório, o que violaria a liberdade religiosa. No Brasi, existe o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, comemorado em 21 de janeiro e instituído pela Lei nº 11.635/2007. A Organização dos Advogados do Brasil (OAB) também recebe denúncias contra a intolerância religiosa. A instituição formou a Comissão de Liberdade Religiosa da Ordem dos Advogados do Brasil. Mas no Brasil nem sempre houve liberdade de crença religiosa. Em sua primeira Carta Magna, de 1824, a religião católica era declarada como a religião oficial do Império. Contudo, nas constituições seguintes não houve permanência dessa determinação. Enfim, atualmente, os brasileiros podem escolher suas crenças, professar sua expressão religiosa e ter a liberdade de ir aos espaços considerados sagrados. O Estado tem o dever de garantir essa liberdade. O Estado brasileiro é laico, diferente do Estado confessional, em que a religião influencia o poder estatal. Segundo a Constituição Federal, não há uma religião oficial no País, apesar de no início da Carta Magna haver referência a Deus. A Lei nº 9.459/1997 afirma que é crime a prática de discriminação ou preconceito contra as religiões. Dessa forma, nenhum cidadão pode ser discriminado por motivo de crença religiosa. O crime de intolerância religiosa é imprescritível, isto é, pode ser punido em qualquer tempo, e é inafiançável, ou seja, não pode ser pago com fiança. Sociologia da religião8 Apesar da lei, no Brasil tem aumentado o número de casos de intolerância religiosa nos últimos anos. De acordo com dados apresentados durante o Simpósio Nacional Negro(a), Afro-religioso(a), Quilombola: racismo e intolerância religiosa no Brasil e seus reflexos no mundo do trabalho, promovido pelo Ministério Público do Trabalho, a cada 15 horas surgiu uma denúncia de intolerância religiosa no Disque 100 entre janeiro de 2015 e junho de 2017. O Disque 100 é um canal do Governo Federal que funciona todos os dias da semana, 24 horas por dia. Vêm ocorrendo inúmeros casos de intolerância religiosa, principalmente dirigida a religiões de matriz africana e especialmente no estado do Rio de Janeiro no ano de 2018. Logo em seguida, as principais vítimas de intolerância religiosa são os muçulmanos. Mães de santo são obrigadas a destruir seus objetos de adoração sob a mira de revólver, locais de culto de crenças africanas são invadidos, há repúdio ao ensino de história de matriz africana nas escolas, entre inúmeros casos. De acordo com o Ministério dos Direitos Humanos, no ano de 2018 foram registrados mais de 200 casos de intolerância religiosa. No Quadro 1, a seguir, você pode ver uma síntese dos dados de 2016 e 2017. Ano Casos de intolerância religiosa Aumento ou recuo (%) 2016 759 – 2017 537 –29,25 Quadro 1. Intolerância religiosa segundo o Ministério dos Direitos Humanos A religião também possui influência no mercado e na economia, como você viu no caso da ética protestante e do espírito do capitalismo. Para o sociólogo Peter Berger, existe uma religião de mercado. O que seria uma religião de mercado? Seria o processo em que a religião incorpora valores propagados pela mídia, pelos meios de comunicação (OLIVEIRA, 2012). E o que acontece? Os fiéis são vistos como público-alvo. A pregação se assemelha a campanhas de publicidade e a fé se transforma em produto. Há, portanto, a mistura do sagrado com o profano, do espírito com a matéria. Há também a valorização da prosperidade como busca de realização pessoal do ser humano. Peter (1971 apud OLIVEIRA, 2012) enfatiza que há um processo de desse- cularização da religião, pois, ao buscar intensamente a religião, o homem torna o mundo cada vez mais religioso. Logo, o mundo do século XXI tende a ser tão Fonte: Adaptada de Brasil (2018). 9Sociologia da religião religioso quanto o mundo dos séculos anteriores. Esse novo processo fez com que as instituições religiosas agissem com a lógica mercadológica, adaptando os seus rituais, cerimônias e credos aos interesses individuais de cada ser humano. Assim, a religião é influenciada pelo pensamento atomizado dos indivíduos no mercado. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de (1988). Disponível em: . Acesso em: 20 jan. 2018.Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. 292 p. BRASIL. BRASIL. Lei nº 9.459, de 13 de aio de 2007. 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