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<p>AVA1 - Crimes em Espécie - Unidade 1</p><p>Homicídio</p><p>O tipo penal referente ao homicídio inaugura a parte especial do Código Penal. O</p><p>homicídio e suas subespécies estão previstos no capítulo I, que compreende os crimes</p><p>contra a vida. Masson (2016) descreve a conduta como sendo “a supressão da vida</p><p>humana extrauterina praticada por outra pessoa”.</p><p>O bem jurídico tutelado pelo tipo penal é a vida humana, que é garantia fundamental</p><p>assegurada tanto na Constituição Federal (BRASIL, 1988)). Porém, considerando que</p><p>nenhum direito fundamental é absoluto, o direito à vida pode ser suprimido em algumas</p><p>circunstâncias, como em tempos de guerra (BRASIL, 1988, art. 5º, XLVII) e outras</p><p>situações previstas em lei (NUCCI, 2012).</p><p>O tipo penal referente ao homicídio compreende:</p><p>O homicídio simples (BRASIL, 1940, art. 121, caput).</p><p>O homicídio privilegiado (CP, art. 121, § 1º).</p><p>O homicídio qualificado (BRASIL, 1940, art. 121, § 2º).</p><p>O homicídio culposo simples (BRASIL, 1940, art. 121, § 3º).</p><p>O homicídio culposo agravado (BRASIL, 1940, art. 121, § 4º)</p><p>O parágrafo quinto do dispositivo legal traz a figura do perdão judicial, aplicável</p><p>aos homicídios culposos. Por fim, o parágrafo sexto e sétimo trazem as causas</p><p>especiais de aumento de pena.</p><p>Estudaremos, a seguir, o homicídio em todas as suas modalidades, entendendo as</p><p>circunstâncias que majoram sua pena ou a diminuem.</p><p>Homicídio simples (CP, art. 121, caput)</p><p>O delito de homicídio simples é previsto no Código Penal, art. 121, caput, que desta</p><p>forma descreve a conduta típica: “art. 121. Matar alguém: Pena - reclusão, de seis a</p><p>vinte anos” (BRASIL, 1941). Segundo Nucci (2012):</p><p>Trata-se de tipo meramente descritivo, que não traz nenhum elemento normativo ou</p><p>subjetivo, não contém componentes de ilicitude ou culpabilidade. Portanto, eliminar a</p><p>vida de qualquer outro ser humano, sem qualquer circunstância especial, provoca a</p><p>aplicação de uma pena de 6 a 20 anos de reclusão.</p><p>Nucci (2012)</p><p>Conforme explica Masson (2016, p. 613-614), o núcleo do tipo penal é o verbo “matar”,</p><p>assim classificando-o:</p><p>Trata-se de crime de forma livre. Pode ser praticado por ação ou por omissão, desde que</p><p>presente o dever de agir (hipóteses previstas no art. 13, § 2º, do CP), de forma direta</p><p>(meio de execução manuseado diretamente pelo agente) ou indireta (meio de execução</p><p>manipulado indiretamente pelo homicida). Os meios de execução podem ser materiais.</p><p>(os que assolam a integridade física do ofendido) ou morais (a morte e produzida por</p><p>um trauma psíquico na vítima como, por exemplo, a depressão que acarreta a morte em</p><p>face do uso excessivo de medicamentos). O meio de execução pode caracterizar uma</p><p>qualificadora, como se dá no emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia ou outro meio</p><p>insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo comum.</p><p>BRASIL, 1940, art. 121, § 2°, III apud MASSON, 2016, p. 613-614</p><p>O autor (sujeito ativo) da conduta delitiva pode ser qualquer pessoa, não exigindo</p><p>qualificação específica. A vítima (sujeito passivo) também pode ser qualquer pessoa,</p><p>desde que esteja viva. Nesse ponto Cleber Masson (2016) destaca que não é necessário</p><p>que a vida da vítima seja viável para que ela seja o sujeito passivo do delito em análise,</p><p>bastando que tenha nascido com vida. Deve-se ressaltar que se a vida for intrauterina</p><p>não se caracterizará o delito de homicídio, mas sim o delito de aborto, previsto no art.</p><p>124 e seguintes, do Código Penal.</p><p>O delito do homicídio pode ser cometido de forma dolosa ou culposa.</p><p>Na modalidade dolosa, o agente tem intenção de causar o resultado morte. Ocorre, por</p><p>exemplo, quando o agente atira contra seu desafeto para matá-lo.</p><p>Na modalidade culposa, o autor não deseja o resultado morte, mas o comete por</p><p>imprudência, negligência ou imperícia. Acontece, por exemplo, quando ao manusear</p><p>uma faca, o agente, sem intenção de causar qualquer resultado lesivo, acaba atingindo a</p><p>vítima e retirando-lhe a vida.</p><p>Deve se destacar que o tipo penal não exige nenhuma finalidade específica e admite a</p><p>chamada “culpa consciente” (quando o agente, prevendo a ocorrência do resultado,</p><p>acredita que este não irá ocorrer) e o “dolo eventual” (quando o autor assume o risco de</p><p>produzir o resultado).</p><p>O crime é consumado quando ocorre a morte, que acontece com o término da atividade</p><p>encefálica, sendo, portanto, um crime classificado como material, ou de resultado, haja</p><p>vista que o resultado naturalístico morte é imprescindível para sua configuração</p><p>(BRASIL, 1997). Por sua vez, o delito admite a modalidade tentada, referindo-se à</p><p>hipótese em que iniciada a execução do delito, ele não se consuma por vontade alheia a</p><p>do agente (BRASIL, 1940, art. 121, c/c; art. 14, II).</p><p>Cleber Masson (2016) diferencia ainda duas possibilidades de tentativa:</p><p>A tentativa branca ou incruenta é aquela em que a vítima não é atingida, enquanto a</p><p>tentativa vermelha ou cruenta é aquela em que a vítima sofre ferimentos.</p><p>MASSON, 2016, p. 614</p><p>O delito de homicídio se processa mediante ação penal pública e incondicionada, ou</p><p>seja, ocorrido o delito, o Ministério Público ajuizará a ação independente de qualquer</p><p>manifestação de vontade da vítima (em caso de tentativa) ou de seus familiares. A</p><p>competência para julgamento é do Tribunal do Júri, segundo previsão constitucional</p><p>(BRASIL, 1988, art. 5°, XXXVIII, “d”), exceto no caso de homicídio culposo, quando o</p><p>processamento ocorrerá perante a justiça comum.</p><p>Devemos ressaltar que a figura tipificada no caput do dispositivo penal em análise não</p><p>configura crime hediondo, exceto quando praticado em atividade típica de grupo de</p><p>extermínio (NUCCI, 2012).</p><p>Inclusive, se a ação for praticada por um grupo de extermínio, ainda incidirá a causa de</p><p>aumento de pena prevista no parágrafo sexto, que assim determina: “a pena é aumentada</p><p>de 1/3 (um terço) até a metade se o crime for praticado por milícia privada, sob o</p><p>pretexto de prestação de serviço de segurança, ou por grupo de extermínio” (BRASIL,</p><p>1940).</p><p>Homicídio privilegiado (CP, art. 121, § 1º)</p><p>Diz-se o homicídio privilegiado quando, nos termos do art. 121, § 1º do Código Penal,</p><p>“o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou</p><p>sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima”</p><p>(BRASIL, 1940). Neste caso, a pena da figura prevista no caput é reduzida de um sexto</p><p>a um terço.</p><p>Apesar da nomenclatura dada pela doutrina – que define a figura prevista no art. 121, §</p><p>1º do CP como “homicídio privilegiado” – trata-se, na realidade, de uma causa especial</p><p>de redução de pena (NUCCI, 2012).</p><p>No caso do homicídio privilegiado, deve estar presente a finalidade específica, qual</p><p>seja, o agente ter cometido o crime imbuído por motivo de relevante valor moral ou</p><p>social, ou, ainda, sob domínio de violente emoção, precedida de provocação injusta da</p><p>vítima.</p><p>Segundo Nucci (2012) o relevante valor social pode ser definido como aquele que “é</p><p>um valor importante para a vida em sociedade, como patriotismo, lealdade, fidelidade,</p><p>inviolabilidade da intimidade e domicílio entre outros”. Já o relevante valor moral,</p><p>como descreve Masson (2016) é aquele que “diz respeito a interesse particular do autor</p><p>do homicídio, aprovado pela moralidade média e considerado nobre e altruísta”.</p><p>Deve-se esclarecer que, tanto o relevante valor moral, quanto o valor social, devem ter</p><p>impulsionado em elevado grau a conduta do agente, pois, ao contrário, se configurar</p><p>mera motivação delitiva, restará caracterizada a atenuante prevista no art. 65, III, “a” do</p><p>Código Penal (MASSON, 2016).</p><p>A eutanásia é o homicídio piedoso ou consensual, feito para “abreviar, sem</p><p>dor ou sofrimento, a vida de um doente reconhecidamente incurável”</p><p>(HUNGRIA, 1954 apud NUCCI, 2012). Nesses casos, no entender da</p><p>doutrina majoritária, deve ser reconhecida a causa de diminuição de pena</p><p>prevista no parágrafo primeiro do art.</p>
<p>121, haja vista que o agente atuou</p><p>imbuído por relevante valor moral (NUCCI, 2012).</p><p>Por sua vez, o fato do autor estar sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a</p><p>injusta provocação da vítima, refere-se ao estado anímico do sujeito ativo que,</p><p>injustamente provocado pela vítima “está dominado pela excitação dos seus sentimentos</p><p>(ódio, desejo de vingança, amor exacerbado, ciúme intenso)” (NUCCI, 2012).</p><p>Novamente, faz-se necessário que o agente esteja dominado pela violenta emoção e</p><p>não somente influenciado, como requer a atenuante prevista no art. 65, III, “c”</p><p>(MASSON, 2016).</p><p>Como leciona Nucci (2012) também é preciso que a atuação do agente ocorra “logo em</p><p>seguida” à injusta agressão da vítima, o que denota curto espaço de tempo. Por fim,</p><p>esclareça-se que a premeditação do crime é incompatível com a circunstância</p><p>privilegiadora concernente à violenta emoção. De acordo com Nucci (2012):</p><p>O agente que planeja cuidadosamente a prática do delito, não pode alegar, em hipótese</p><p>alguma, estar violentamente emocionado, até porque a lei exige que o distúrbio</p><p>emocional seja fruto da injusta provocação da vítima. Obviamente, além disso, há uma</p><p>relação de imediatidade entre o ato da pessoa ofendida e a reação desencadeada no autor</p><p>da agressão.</p><p>NUCCI, 2012</p><p>As circunstâncias privilegiadoras podem ocorrer de forma concomitante, situação em</p><p>que o juiz deverá reduzir a pena em patamares mais expressivos. Outro critério de</p><p>mensuração do quantum a ser aplicável a título de causa de diminuição de pena é a</p><p>relevância do valor moral ou social e a intensidade da violenta emoção (NUCCI, 2012).</p><p>No entendimento da doutrina majoritária, por serem as hipóteses de privilégio</p><p>subjetivas, inerentes ao agente, essas não se comunicam aos coautores ou</p><p>partícipes (BRASIL, 1940, art. 30), caso o crime seja praticado em concurso de pessoas</p><p>(MASSON, 2016).</p><p>Por fim, na esteira de entendimento de Cleber Masson, o reconhecimento das causas</p><p>de diminuição da pena compete aos jurados, devendo a discricionariedade do juiz</p><p>limitar-se a estabelecer o quantum da diminuição (MASSON, 2016). Dessa forma, se os</p><p>jurados entenderem que não é cabível o privilégio, não poderá o juiz aplicá-lo,</p><p>observado o princípio da soberania do veredito do plenário do júri, expresso na Carta</p><p>Constitucional de 1988 (BRASIL, 1988 apud NUCCI, 2012).</p><p>Homicídio qualificado (CP, art. 121, § 2º)</p><p>O homicídio qualificado é descrito no art. 121, 2º do Código Penal. Neste caso, a pena</p><p>será de reclusão, de doze a trinta anos. O legislador reuniu no art. 121, § 2º e incisos do</p><p>Código Penal circunstâncias que denotam a maior reprovabilidade da conduta do</p><p>agente.</p><p>Dessa forma, configura-se o homicídio qualificado quando o delito é cometido, de</p><p>acordo com Nucci (2012):</p><p>Mediante paga ou promessa de recompensa (forma específica de torpeza).</p><p>Por motivação torpe (que causa repulsa social) e fútil (desproporcional ao resultado</p><p>produzido).</p><p>Com emprego de veneno – “substância que, introduzida no organismo altera</p><p>momentaneamente ou suprime definitivamente as manifestações vitais de toda matéria</p><p>organizada” (MARANHÃO, 1984 apud NUCCI, 2012).</p><p>Fogo, asfixia (supressão da respiração por processo mecânico ou tóxico).</p><p>Tortura (mediante imposição de sofrimento de natureza física ou mental à vítima, com o</p><p>intuito de se obter dela confissão, confissão ou castigá-la).</p><p>Outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo comum (expõe número</p><p>indeterminado de pessoas a risco).</p><p>Traição (ação do agente que atua com a vítima desprevenida).</p><p>Dissimulação (ocultação da verdadeira intenção).</p><p>Emboscada (autor se oculta para poder atacar).</p><p>Qualquer outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa da vítima.</p><p>O homicídio também será qualificado quando presente hipótese de dolo específico, que</p><p>ocorre quando o agente pretende, com sua conduta, assegurar execução, ocultação e</p><p>impunidade de outro delito. Segundo Nucci (2012), não deve ser aplicada a</p><p>qualificadora se esse outro delito que motivou o homicídio é putativo (somente</p><p>existe na mente do sujeito) ou impossível (crime não se consuma em razão da</p><p>impropriedade absoluta do meio ou objeto), assim exemplificando:</p><p>Exemplo da primeira situação [crime putativo] seria o sujeito que mata a testemunha</p><p>que o viu mantendo relação sexual com uma prostituta. Assim, age crendo que a</p><p>prostituição é crime, o que não acontece, logo é crime putativo. Exemplo da segunda</p><p>situação [crime impossível] seria o indivíduo que, pretendendo subtrair bens de uma</p><p>empresa mata o vigilante da rua, embora depois se constate que a empresa se mudara de</p><p>lugar, deixando para trás um galpão vazio e imprestável. É uma tentativa impossível de</p><p>furto, porque o objeto é absolutamente impróprio.</p><p>NUCCI, 2012</p><p>O crime também será considerado qualificado quando a vítima é autoridade ou agente.</p><p>Como descrito nos artigos 142 e 144 da Constituição Federal, integrantes do sistema</p><p>prisional e da Força Nacional de Segurança Pública, no exercício da função ou em</p><p>decorrência dela, ou contra seu cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo até</p><p>terceiro grau, em razão dessa condição. Os funcionários públicos devem estar na ativa</p><p>para incidir a qualificadora (MASSON, 2016). Masson (2016) destaca que, no caso dos</p><p>guardas municipais:</p><p>Tendo em vista que o Estatuto do Desarmamento autoriza o porte de arma de fogo para</p><p>seus integrantes, se o homicídio for cometido contra guarda municipal, no exercício da</p><p>função ou em decorrência dela, deverá incidir a qualificadora em análise.</p><p>MASSON, 2016</p><p>No caso de coexistiram mais de uma qualificadora, o aplicador do direito deve</p><p>utilizar uma delas para qualificar o crime e as demais como agravantes (BRASIL,</p><p>1941, art. 61, li, a, b, c e d; MASSON, 2016).</p><p>Na esteira do entendimento da doutrina (Masson, 2016), as qualificadoras podem</p><p>realizadas com dolo direto ou eventual, com exceção do motivo torpe, do motivo fútil,</p><p>da traição e da emboscada, que só admitem dolo direto. No caso de concurso de agentes,</p><p>as qualificadoras podem ou não se comunicar, dependendo de sua natureza: se objetiva,</p><p>se comunicam, se subjetiva, não se comunicam. Nesse sentido Masson (2016) explica</p><p>que:</p><p>As qualificadoras previstas nos incisos I, II, V, VI e VII, e também a traição (inciso IV)</p><p>são de índole subjetiva (pertencem ao agente, e não ao fato), não se comunicando aos</p><p>coautores ou partícipes em caso de concurso de pessoas (art. 30 do CP). As</p><p>qualificadoras descritas pelos incisos UI e IV (meios e modos de execução), com</p><p>exceção da traição, são de natureza objetiva (relacionam-se ao fato praticado) e</p><p>comunicam-se no concurso de pessoas, desde que conhecidas por todos os envolvidos,</p><p>sob pena de responsabilidade penal objetiva.</p><p>MASSON, 2016</p><p>Segundo Nucci (2012) “tem sido posição predominante na doutrina e na jurisprudência</p><p>a admissão da forma privilegiada-qualificada, desde que exista compatibilidade lógica</p><p>entre as circunstâncias”. Em outros termos, é possível que as qualificadoras de carácter</p><p>objetivo (que dizem respeito ao modo e meios de execução do crime) coexistam com as</p><p>circunstâncias privilegiadoras (que sempre possuem caráter subjetivo), visto que, nas</p><p>palavras de Cleber Masson (2016) “o privilégio é de ordem subjetiva e afasta as</p><p>qualificadoras de igual índole”.</p><p>Nesse caso, o homicídio qualificado-privilegiado não será considerado hediondo, já que</p><p>a Lei dos Crimes Hediondos (Lei n. 8.072/90) só prevê como hediondo as figuras do</p><p>caput (homicídio simples) e do parágrafo segundo (homicídio qualificado) (MASSON,</p><p>2016).</p><p>Feminicídio (CP, art. 121, § 2º, VI)</p><p>O feminicídio foi tipo penal inserido pela Lei n. 13.104, de 2015. Trata-se de homicídio</p><p>cometido na modalidade dolosa contra a mulher, em razão da condição de sexo</p><p>feminino.</p><p>Dessa forma, o sujeito passivo do delito deve ser mulher. Bitencourt (2017) entende que</p><p>o substantivo mulher compreende “lésbicas,</p>
<p>transexuais e travestis, que se identifiquem</p><p>como do sexo feminino”, considerando possível também que a vítima seja transexual,</p><p>desde que transformado cirurgicamente em mulher. Ressalta-se que, sendo</p><p>biologicamente mulher (naturalmente ou por meio de procedimento médico), restará</p><p>caracterizado o delito independentemente da sua idade (criança, adolescente, adulta ou</p><p>idosa) e da sua orientação sexual (Masson, 2016).</p><p>A previsão inserta no art. 121, § 2º-A do Código Penal demonstra a necessidade de dolo</p><p>específico para consumação delitiva. O mencionado dispositivo explica que será</p><p>presente a elementar típica referente às “razões de condição de sexo feminino” quando o</p><p>crime envolver violência doméstica e familiar ou quando envolve menosprezo ou</p><p>discriminação à condição de mulher. Nesse caso, Bitencourt (2017) alerta sobre a</p><p>diferença entre a violência doméstica e a violência familiar:</p><p>Nem toda violência doméstica é familiar e vice-versa. Na verdade, poderá haver</p><p>violência doméstica que não se inclua na familiar, por exemplo, alguém estranho a</p><p>relação familiar que, por alguma razão, esteja coabitando com o agressor, ou então, que</p><p>a violência recaia sobre um empregado ou empregada que presta serviços à família etc.</p><p>BITENCOURT, 2017</p><p>Bitencourt (2017) conclui que a melhor interpretação para o dispositivo é que o</p><p>delito se configure nos casos em que a violência for somente doméstica, somente</p><p>familiar, ou quando ocorrerem ambas.</p><p>Vítima transexual pode ser vítima de Feminicídio? Não, pois a ofendida</p><p>biologicamente não ostenta o sexo feminino, ainda que tenha sido</p><p>beneficiada pela alteração do registro civil, exceto nos casos em que houver</p><p>cirurgia para a modificação do sexo. Conforme explica Masson (2016):</p><p>“entendimento diverso seria prejudicial ao agente, constituindo-se em</p><p>inquestionável analogia in malam partem".</p><p>Segundo Cleber Masson (2016), o tipo penal não admitiria o concurso de</p><p>agentes, “exceto quando o coautor ou partícipe igualmente atuar impulsionado</p><p>por razões de condição de sexo feminino”. O art. 121, em seu parágrafo sétimo,</p><p>ainda prevê causas de aumento aplicáveis ao feminicídio, quando o crime for</p><p>praticado durante a gestação, ou nos três meses posteriores ao parto, contra</p><p>pessoa menor de 14 anos, contra pessoa maior de 60 anos ou com deficiência, e</p><p>na presença de descendente ou ascendente da vítima.</p><p>Homicídio Culposo (CP, art. 121, § 3º)</p><p>Diz-se o homicídio culposo quando, nos termos do art. 121, § 3º c/c art. 18, II, ambos</p><p>do Código Penal “o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou</p><p>imperícia”. Neste caso, a pena é será de detenção, de um a três anos.</p><p>Masson (2016) assim caracteriza as modalidades de culpa:</p><p>A imprudência (culpa positiva) consiste na prática de um ato perigoso. Negligência</p><p>(culpa negativa) é deixar de fazer aquilo que a cautela recomenda. A imperícia (culpa</p><p>profissional) é a falta de aptidão o exercício de arte, profissão ou ofício para a qual o</p><p>agente, em que pese autorizado a exercê-la, não possui conhecimentos teóricos ou</p><p>práticos para tanto.</p><p>MASSON, 2016</p><p>Nos termos do art. 121, § 4°, no delito de homicídio culposo praticado por profissional,</p><p>a pena é aumentada de 1 /3, se o crime resulta de inobservância de regra técnica de</p><p>profissão, arte ou ofício. Para Nucci (2012), a causa de aumento “confunde-se,</p><p>nitidamente com a imperícia (e até com algumas formas de imprudência ou</p><p>negligência)”, defendendo a inaplicabilidade da causa de aumento.</p><p>A causa de aumento também incide quando o agente deixa de prestar socorro quando</p><p>possível fazê-lo, sem risco pessoal, ou não procura diminuir as consequências do seu</p><p>ato, ou, ainda, foge para evitar prisão em flagrante. A referida causa de</p><p>aumento somente se aplica se for exigível do agente que ele permaneça no local do</p><p>evento. Dessa forma, não incidirá a causa de aumento quando, por exemplo, o sujeito</p><p>sofre risco de linchamento, pois nesse caso não seria exigível outra conduta senão a de</p><p>se afastar do local.</p><p>Incide a causa de aumento prevista no art. 121, § 4º do Código Penal, em</p><p>razão da omissão de socorro, quando ocorre a morte instantânea da vítima.</p><p>Na esteira do entendimento do Supremo Tribunal Federal, o agente não</p><p>possui conhecimentos técnicos para auferir a morte instantânea da vítima, e</p><p>o entendimento levaria a inaplicabilidade da causa de aumento.</p><p>O parágrafo quinto, do mesmo dispositivo, traz a hipótese de perdão judicial. O</p><p>perdão judicial é causa extintiva da punibilidade (BRASIL, 1940, art. 107, IX),</p><p>que se verifica em hipóteses taxativamente previstas em lei. Nesses casos, em</p><p>razão de política criminal, o juiz poderá deixar de aplicar pena quando</p><p>evidenciado que as consequências do delito atingiram o autor de forma tão grave</p><p>que a sanção penal se torna desnecessária.</p><p>Isso pode ocorrer, por exemplo, quando, uma mãe, ao manusear uma ferramenta</p><p>elétrica, atingir seu próprio filho, retirando-lhe a vida. Neste caso, como o</p><p>sofrimento daquela mãe já a acompanhará para o resto de sua vida, o Estado</p><p>deixa de aplicar sanção.</p><p>Conforme entendimento dos tribunais superiores deve existir, entre a vítima e o</p><p>autor, relação pretérita para ensejar o reconhecimento do perdão judicial, relação</p><p>essa que não se limita aos vínculos familiares (BRASIL, 2014).</p><p>Adverte-se que o sofrimento necessário para a concessão do perdão judicial deve</p><p>estar diretamente ligado à prova de danos irreparáveis causados pela morte de</p><p>pessoa próxima ao acusado. Não se mostra, assim, suficiente a mera constatação</p><p>de tristeza ou de abalo psicológico, visto que tal situação, em regra, é uma</p><p>consequência natural dos delitos culposos, notadamente por não existir intenção</p><p>do agente no desvelar da conduta.</p><p>Nos delitos de homicídio, o perdão judicial somente é aplicável aos crimes</p><p>culposos. Nucci (2012) defende que presente os requisitos que autorizam a</p><p>concessão do perdão judicial, sua aplicação pelo magistrado não constitui mera</p><p>faculdade, mas, sim, dever, pois se trata de direito subjetivo do réu.</p><p>Induzimento, instigação ou auxílio a suicídio ou a automutilação (CP,</p><p>art. 122)</p><p>O crime descrito no art. 122 do Código Penal descreve a conduta de induzir ou</p><p>instigar alguém a suicidar-se ou a praticar automutilação ou prestar-lhe auxílio</p><p>material para que o faça. Esse tipo penal sofreu alterações recentes, inseridas pela</p><p>Lei n. 13.968/19, publicada em 27 de dezembro de 2019.</p><p>Analisaremos, a seguir, o delito tipificado no art. 123 do Código Penal,</p><p>entendendo as principais alterações promovidas pela Lei n. 13.968/19 e os</p><p>contornos gerais do tipo penal.</p><p>Contornos Gerais</p><p>Embora não se puna a tentativa de suicídio, o comportamento suicida é considerado</p><p>ilícito pelo Código Penal, motivo pelo qual se justifica a repressão a quem auxilia essa</p><p>prática (GRECO, 2017). Nesse sentido, explica Nucci (2012) que:</p><p>No Brasil, não se pune o autor da tentativa de suicídio, por motivos humanitários:</p><p>afinal, quem atentou contra a própria vida, por conta de comoção social, religiosa,</p><p>política, estado de miserabilidade, desagregação familiar, doenças graves, causas</p><p>tóxicas, efeitos neurológicos, infecciosos ou psíquicos e até por conta de senilidade ou</p><p>imaturidade, não merece punição, mas compaixão, amparo e atendimento médico.</p><p>Nucci (2012)</p><p>Na redação anterior, o delito de induzimento ao suicídio somente era punível quando a</p><p>vítima chegava a consumar o suicídio, ou se da tentativa de suicídio resultava lesão de</p><p>natureza grave. Em razão da exigência de resultado naturalístico, a doutrina majoritária</p><p>entendia não ser admissível a tentativa, pois o delito somente existia quando havia</p><p>morte ou lesão (CUNHA, 2020).</p><p>Porém, conforme a redação atual do dispositivo, o simples fato de induzir, instigar</p><p>alguém, ou prestar auxílio material para que alguém cometa suicídio ou</p><p>automutilação basta para configurar a conduta típica, sendo tal conduta sancionada</p><p>com</p>
<p>pena de reclusão seis meses a dois anos. A partir da inovação legislativa o crime</p><p>passa a admitir a modalidade tentada (PROCOPIO, 2020).</p><p>Outra alteração legislativa relevante foi a alteração no preceito primário do tipo penal</p><p>para incluir a conduta da participação em automutilação, passando a ser típica a conduta</p><p>de instigar, induzir ou auxiliar alguém a praticar a automutilação.</p><p>Segundo Procopio, a automutilação pode ser assim definida:</p><p>Automutilação é a conduta de causar lesões em si próprio. Vale recordar, até mesmo</p><p>pelo princípio da transcendentalidade ou da alteridade, o qual veda a punição de</p><p>condutas que não ultrapassem o âmbito de disponibilidade do agente, que a autolesão,</p><p>por si só, não é punida. Assim como o suicídio não é punido, o que o legislador veda é o</p><p>induzimento, a instigação ou o auxílio material a que alguém suicide ou que se mutile.</p><p>PROCOPIO, 2020</p><p>Observa-se que as alterações promovidas pela Lei n. 13.968/19 são prejudiciais ao</p><p>agente que comete o delito. Assim, por se tratar de lei gravosa, ela não retroage, nos</p><p>termos do art. 5º, XL, da Constituição da República de 1988.</p><p>O sujeito ativo do delito pode ser qualquer pessoa, assim como também pode o sujeito</p><p>passivo. Rogério Greco (2017), porém, adverte que a vítima deve possuir “capacidade</p><p>de discernimento, de autodeterminação, pois, caso contrário, estaremos diante do delito</p><p>de homicídio”.</p><p>Rogério Greco (2017) ainda destaca que para a ocorrência do delito a vítima deve ser</p><p>determinada, assim explicando:</p><p>Para a ocorrência do crime de participação em suicídio, exige-se, ainda, que a conduta</p><p>do agente seja dirigida a uma ou várias pessoas determinadas, não bastando o mero</p><p>induzimento genérico, dirigido a pessoas incertas (ex.: espetáculos, obras literárias</p><p>endereçadas ao público em geral, discos etc.). [...] Caso se trate, por exemplo, de uma</p><p>página dedicada à apologia do suicídio, sem, contudo, se dirigir a alguém para indução</p><p>ou instigação concreta, não se perfaz o crime.</p><p>Greco (2017)</p><p>A contribuição para o suicídio ou automutilação pode ser prestada mediante auxílio</p><p>moral ou material. Nesse sentido, Greco (2017) diferencia as condutas de induzir,</p><p>instigar e auxiliar materialmente:</p><p>Ocorre a participação moral nas hipóteses de induzimento ou instigação ao suicídio.</p><p>Induzir significa fazer nascer, criar a ideia suicida na vítima. Instigar, a seu turno,</p><p>demonstra que a ideia de eliminar a própria vida já existia, sendo que o agente, dessa</p><p>forma, reforça, estimula essa ideia já preconcebida. Na participação material o agente</p><p>auxilia materialmente a vítima a conseguir o seu intento, fornecendo, por exemplo, o</p><p>instrumento que será utilizado na execução do autocídio (revólver, faca, corda para a</p><p>forca etc.), ou mesmo simplesmente esclarecendo como usá-lo.</p><p>Greco (2017)</p><p>A doutrina e a jurisprudência dividem-se sobre a possibilidade de que seja prestado</p><p>auxílio por omissão. De um lado, entende-se que o auxílio por omissão não seria</p><p>admissível, pois “prestar auxílio” implicaria necessariamente em uma conduta</p><p>comissiva. De outro lado, defende-se a possibilidade do auxílio omissivo, nos termos do</p><p>art. 13, § 2º (omissão imprópria), ou seja, é possível esse tipo de auxílio por quem tem o</p><p>dever de evitar o resultado (NUCCI, 2012).</p><p>Segundo Greco (2017), nos casos em que a transfusão de sangue é</p><p>imprescindível e o paciente, Testemunha de Jeová, recusa o tratamento, essa</p><p>oposição deve ser considerada tentativa de suicídio, devendo o médico intervir</p><p>“uma vez que atuaria amparado pelo inc. I do § 3º do art. 146 do Código Penal,</p><p>que diz não se configurar constrangimento ilegal a intervenção médica ou</p><p>cirúrgica, sem o consentimento do paciente ou de seu representante legal, se</p><p>justificada por iminente perigo de vida".</p><p>Segundo Greco (2017), nos casos em que a transfusão de sangue é</p><p>imprescindível e o paciente, Testemunha de Jeová, recusa o tratamento, essa</p><p>oposição deve ser considerada tentativa de suicídio, devendo o médico intervir</p><p>“uma vez que atuaria amparado pelo inc. I do § 3º do art. 146 do Código Penal,</p><p>que diz não se configurar constrangimento ilegal a intervenção médica ou</p><p>cirúrgica, sem o consentimento do paciente ou de seu representante legal, se</p><p>justificada por iminente perigo de vida.</p><p>Resultado agravado pela ocorrência de morte, ou lesão</p><p>corporal de natureza grave ou gravíssima (CP, art. 122, §</p><p>§ 2º e 3º)</p><p>Os parágrafos segundo e terceiro do art. 122 do Código Penal trazem hipóteses em que</p><p>a pena é agravada pelo resultado. Dessa forma, quando do auxílio ao suicídio resulta</p><p>lesão grave (BRASIL, 1940, art. 122, § 1º) a pena cominada é de reclusão, de um a três</p><p>anos, e se resulta morte (BRASIL, 1940, art. 122, § 2º) a pena cominada é de reclusão</p><p>de dois a seis anos. Esses resultados já eram previstos na lei anterior, não possuindo</p><p>suas penas modificadas.</p><p>Sobre a ocorrência de lesão grave ou gravíssima, Procopio (2020) adverte que:</p><p>Vale recordar que, em pobre técnica legislativa, o dispositivo menciona lesão corporal</p><p>grave e gravíssima. Ocorre que o Código Penal não menciona lesão gravíssima,</p><p>chamando as hipóteses de lesão qualificada, de forma genérica, como “lesão corporal de</p><p>natureza grave”. Como há duas gradações diferentes da pena, a doutrina passou a</p><p>diferenciá-las como lesão grave e lesão gravíssima, não havendo, entretanto, a última</p><p>denominação no texto legal.</p><p>Procopio (2020)</p><p>Deve-se ressaltar que, segundo previsão contida nos parágrafos sexto e sétimo do</p><p>mesmo dispositivo legal, se a vítima é menor de 14 anos, ou, por enfermidade ou</p><p>deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou ainda</p><p>que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência, a conduta será</p><p>desclassificada e o autor responderá pelo resultado. Assim, se da conduta sobrevir lesão</p><p>de natureza grave ou gravíssima, responderá como incurso no art. 129, § 2º do Código</p><p>Penal (lesão corporal de natureza grave); se resultar morte, o agente responderá nos</p><p>termos do artigo 121 do mesmo Código (homicídio).</p><p>Causas especiais de aumento de pena (CP, art. 122, § §</p><p>3º, 4º e 5º)</p><p>Segundo o art. 122, parágrafo terceiro, do Código Penal a pena será duplicada quando o</p><p>crime for praticado por motivo egoístico (aquele que evidencia desapego pela vida</p><p>alheia), torpe (que causa repulsa social) ou fútil (desproporcional ao resultado</p><p>produzido), ou quando a vítima for menor (de 14 a 18 anos) ou possuir capacidade de</p><p>resistência reduzida (NUCCI, 2012).</p><p>Nos termos do parágrafo quarto, a pena é aumentada até o dobro se a conduta é</p><p>realizada por meio de redes sociais ou transmitida em tempo real. O parágrafo quinto</p><p>prevê o aumento de pena até a metade se o agente é líder ou coordenador de grupo de</p><p>rede virtual. O aumento de pena evidencia a preocupação do legislador com o número</p><p>cada vez maior de casos de suicídio e automutilação ocorridos por meio da internet e</p><p>entre jovens, estimulados a participar de jogos que envolvem lesões aos seus próprios</p><p>corpos e que não raro os levam à morte (CUNHA, 2020).</p><p>Infanticídio (CP, art. 123)</p><p>O delito de infanticídio, previsto no artigo 123 do Código Penal, tipifica a</p><p>conduta de matar, sob a influência do estado puerperal, o próprio filho, durante o</p><p>parto ou logo após. A conduta é sancionada com pena de detenção de dois a seis</p><p>anos.</p><p>Neste tópico, estudaremos os contornos gerais da figura típica, entendendo seus</p><p>aspectos mais relevantes a partir da exata compreensão das elementares típicas.</p><p>Contornos gerais</p><p>Segundo Greco (2017), o infanticídio seria modalidade especial de homicídio que</p><p>requer a presença de três elementos:</p><p> 1</p><p>1</p><p>que o delito seja cometido sob a influência do estado puerperal;</p><p> 2</p><p>2</p><p>que tenha como objeto o próprio filho da parturiente;</p><p> 3</p><p>3</p><p>que seja cometido durante o parto ou, pelo menos, logo após.</p><p>O delito somente admite a modalidade dolosa, visto que inexiste</p>
<p>previsão de culpa.</p><p>Dessa forma, se a mãe, por um descuido ou sem intenção, provoca a morte de filho</p><p>recém-nascido, não haverá crime. Para a configuração do delito de infanticídio, como já</p><p>abordado, é necessário que o homicídio ocorra pela mãe contra o próprio filho. Trata-se,</p><p>assim, de delito de mão própria, pois somente pode ser cometido pela mãe do ofendido.</p><p>Apesar disso, é possível o concurso de pessoas. Embora a condição de parturiente e a</p><p>influência do estado puerperal sejam condições de caráter pessoal, essas são elementares</p><p>típicas sem as quais o crime não se configura e, portanto, se comunicam ao coautor,</p><p>desde que estes elementos sejam do seu conhecimento, nos termos do art. 30 do Código</p><p>Penal (GRECO, 2017).</p><p>O sujeito passivo também é determinado, pois somente poderá ser o filho daquela</p><p>parturiente. No caso de a parturiente tentar causar a morte de seu próprio filho e, por um</p><p>equívoco quanto à pessoa, acabar ceifando a vida de outro neonato, ela ainda assim</p><p>responderá pelo delito de infanticídio, pois, nos termos do art. 20, § 3º do Código</p><p>Penal, neste caso, consideram-se as condições ou qualidades da pessoa contra quem o</p><p>agente queria praticar o crime (GRECO, 2017).</p><p>Crime impossível: se o neonato é natimorto, estaremos diante de crime</p><p>impossível por impropriedade absoluta do objeto, uma vez que não se pode</p><p>retirar a vida de quem já nasceu morto. Dessa forma, a prova da vida do nascente</p><p>é imprescindível (GRECO, 2017).</p><p>Estado puerperal</p><p>Segundo Greco (2017) o estado puerperal é “critério fisiopsíquico ou biopsíquico, no</p><p>qual se exige a conjugação do estado puerperal, com a influência por ele exercida na</p><p>agente”. Nesse sentido, define Nucci (2012):</p><p>Estado que envolve a parturiente durante a expulsão da criança do ventre materno. Há</p><p>profundas alterações psíquicas e físicas, que chegam a transtornar a mãe, deixando-a</p><p>sem plenas condições de entender o que está fazendo. É uma hipótese de semi-</p><p>imputabilidade que foi tratada pelo legislador com a criação de um tipo especial. O</p><p>puerpério é o período que se estende do início do parto até a volta da mulher às</p><p>condições pré-gravidez.</p><p>Nucci (2012)</p><p>Inclusive, segundo entendimento consolidado no âmbito dos tribunais superiores, a</p><p>prova do estado puerperal independe de perícia médica, haja vista que a alteração</p><p>psicológica é comum a toda mãe que passa pelo parto (NUCCI, 2012)</p><p>Deve-se destacar que o estado puerperal pode ainda levar a inimputabilidade da ré,</p><p>quando comprovado que a alteração psicológica ocorreu com intensidade suficiente a</p><p>retirar da agente a capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se</p><p>de acordo com esse entendimento, nos termos do art. 26 do Código Penal (GRECO,</p><p>2017).</p><p>Em outra vertente, a expressão “durante ou logo após o parto” restringe um limite</p><p>temporal para que a conduta seja realizada. Isto porque, como explicado, o estado</p><p>puerperal também possui duração limitada no tempo.</p><p>Atente-se para o fato de que, se o delito for praticado antes do parto, ocorrerá o</p><p>delito de aborto e não de infanticídio (GRECO, 2017).</p><p>Aborto</p><p>Segundo Nucci (2012) o conceito de aborto pode ser definido como a “cessação da</p><p>gravidez, cujo início se dá com a nidação, antes do termo normal, causando a morte do</p><p>feto ou embrião”.</p><p>Como leciona Greco (2017), o Código Penal rompe com a teoria monista ao estabelecer</p><p>penas diversas para o delito de autoaborto – aborto praticado pela gestante (BRASIL,</p><p>1940, art. 124), aborto praticado por terceiro sem o consentimento da gestante</p><p>(BRASIL, 1940, art. 125) e aborto praticado por terceiro com o consentimento da</p><p>gestante (BRASIL, 1940, art. 124).</p><p>Todos os tipos penais apenas admitem a modalidade dolosa, diante da inexistência da</p><p>figura do aborto culposo. Todos os delitos se consumam com a ocorrência da morte do</p><p>feto ou do embrião, admitindo-se a tentativa no caso o resultado não seja atingido. Por</p><p>fim, os tipos penais preveem crimes comissivos, sendo possível a conduta omissiva nos</p><p>termos do art. 13, § 2º do Código Penal, caso o autor esteja na posição de garantidor</p><p>(GRECO, 2017) .</p><p>A prática do delito de aborto pode ser consumada por diversos meios. Nesse sentido,</p><p>Greco dispõe que (MIRABETE, 2016 apud GRECO, 2017):</p><p>Os processos utilizados podem ser químicos, orgânicos, físicos ou psíquicos. São 529</p><p>substâncias que provocam a intoxicação do organismo da gestante e o consequente</p><p>aborto: o fósforo, o chumbo, o mercúrio, o arsênico (químicos), e a quinina, a</p><p>estricnina, o ópio, a beladona etc. (orgânicos). Os meios físicos são os mecânicos</p><p>(traumatismo do ovo com punção, dilatação do colo do útero, curetagem do útero,</p><p>microcesária), térmicos (bolsas de água quente, escalda-pés etc.) ou elétricos (choque</p><p>elétrico por máquina estática). Os meios psíquicos ou morais são os que agem sobre o</p><p>psiquismo da mulher (sugestão, susto, terror, choque moral etc.).</p><p>MIRABETE, 2016 apud GRECO, 2017</p><p>Gravidez de gêmeos: se o agente ou a gestante conhecia o fato de que a gravidez</p><p>era gemelar, ocorrendo o óbito dos fetos, responderá na forma do art. 70, parte</p><p>final, do Código Penal, pois, com sua conduta única, o agente produziu dois</p><p>resultados que faziam parte do seu dolo, agindo, com desígnios autônomos em</p><p>relação a eles. Se o agente desconhecia que a gravidez era gemelar, responderá</p><p>por um único aborto (GRECO, 2017).</p><p>A seguir, conheceremos as modalidades de aborto previstas na legislação</p><p>penal, entendendo suas peculiaridades, qualificadoras e excludentes de</p><p>ilicitude.</p><p>Aborto provocado pela gestante ou com seu</p><p>consentimento (CP, art.124)</p><p>A figura tipificada no art. 124 criminaliza a conduta da gestante que provoca aborto em</p><p>si mesma ou consente que outrem o provoque, sancionando a ação com pena de</p><p>detenção de um a três anos.</p><p>O art. 124, em sua primeira parte (autoaborto) trata-se de crime próprio, pois somente a</p><p>gestante pode cometê-lo. Em sua segunda parte, o crime é comum, pois a gestante pode</p><p>consentir que qualquer um o faça. Segundo Nucci é possível a participação nos</p><p>seguintes termos:</p><p>O delito admite a participação, desde que na forma secundária, consistente em</p><p>induzimento, instigação ou auxílio [...] Se a pessoa atua diretamente para causar a</p><p>interrupção da gravidez não é partícipe, mas autora do delito do art. 126.</p><p>NUCCI, 2012</p><p>Segundo Nucci (2012), para configuração típica é necessária a prova da gestação, pois</p><p>se essa não existe ou se o feto ou embrião já estava morto ocorreria a hipótese de crime</p><p>impossível por impropriedade absoluta do objeto. Lado outro, o aborto também deve ser</p><p>comprovado, a princípio por exame pericial, admitindo outros meios de prova indiretos,</p><p>nos termos do art. 167 do Código de Processo Penal.</p><p>Para que seja realizada a conduta típica é necessário estabelecer quando se considera</p><p>iniciada a vida do embrião ou feto. Nesse sentido, Greco leciona que:</p><p>A vida tem início a partir da concepção ou fecundação, isto é, desde o momento em que</p><p>o óvulo feminino é fecundado pelo espermatozoide masculino. Contudo, para fins de</p><p>proteção por intermédio da lei penal, a vida só terá relevância após a nidação, que diz</p><p>respeito à implantação do óvulo já fecundado no útero materno, o que ocorre 14</p><p>(quatorze) dias após a fecundação.</p><p>Dessa forma, não é considerada típica, segundo Greco (2017), a utilização de</p><p>substâncias que não permitem a implantação do óvulo já fecundado no útero materno e</p><p>quando o óvulo fecundado não consegue chegar até o útero, mas se desenvolve fora dele</p><p>(gravidez tubária ou gravidez ectópica). Ultrapassado o momento do parto, a conduta</p><p>deixará de ser a tipificada no art. 124 e passará a caracterizar os delitos de infanticídio</p><p>ou homicídio.</p><p>Aborto provocado por terceiro (CP, art. 125 e art. 126)</p><p>O art. 125 do Código Penal tipifica a conduta de provocar aborto sem o consentimento</p><p>da gestante, apenado com reclusão de três a dez anos. O art. 126, por sua</p>
<p>vez, descreve a</p><p>conduta de praticar o aborto com o consentimento da gestante, apenado com reclusão,</p><p>de um a quatro anos.</p><p>Em qualquer que seja a modalidade, trata-se de delito comum, que pode ser cometido</p><p>por qualquer pessoa. Quanto ao sujeito passivo, no crime praticado sem o</p><p>consentimento da gestante (BRASIL, 1940, art. 125), há dupla subjetividade, sendo</p><p>vítimas tanto o feto como a gestante (BITENCOURT, 2016 apud GRECO, 2017).</p><p>Quando o delito conta com o consentimento da gestante (BRASIL, 1940, art. 126) o</p><p>ofendido será unicamente o feto. Porém, como ensina Rogério Greco (2017), se do</p><p>aborto decorrer “lesão grave ou morte da gestante, esta também figurará como sujeito</p><p>passivo, mesmo que secundariamente”.</p><p>Nos termos do parágrafo único do art. 126 do Código Penal, Nucci (2012) ainda destaca</p><p>que no caso de a gestante ser pessoa menor de 14 (quatorze) anos ou não possuir</p><p>discernimento para dar consentir validamente com o aborto, será considerado que o</p><p>aborto ocorreu na forma do art. 125, qual seja, sem o consentimento da gestante, pois,</p><p>nesse caso, seu dissentimento é presumido. Igualmente ocorrerá quando o agente</p><p>emprega violência, grave ameaça ou fraude para que a gestante consinta com o aborto.</p><p>Disso depreende-se que o consentimento da gestante necessário para atrair a figura</p><p>típica prevista no art. 126 do Código Penal é aquele feito de forma livre, hígida e válida.</p><p>Forma qualificada (CP, art. 127)</p><p>O art. 127 do Código Penal prevê a forma qualificada dos abortos provocados por</p><p>terceiro, ao dispor que “as penas cominadas nos dois artigos anteriores são aumentadas</p><p>de um terço, se, em consequência do aborto ou dos meios empregados para provocá-lo,</p><p>a gestante sofre lesão corporal de natureza grave; e são duplicadas, se, por qualquer</p><p>dessas causas, lhe sobrevém a morte”. (BRASIL, 1940)</p><p>Segundo Nucci (2012), o aborto qualificado pelo resultado somente é imputável quando</p><p>é realizado por terceiros, não sendo aplicável à gestante – na modalidade do autoaborto</p><p>– porque no Direito brasileiro não se pune a autolesão. Assim, no caso de o aborto ter</p><p>sido praticado pela gestante com participação de terceiros, e esses terceiros, ao auxiliá-</p><p>la provoquem nela lesão ou morte, responderão pelo respectivo resultado. Nucci (2012)</p><p>também esclarece que:</p><p>Entendem a doutrina e a jurisprudência majoritárias que as lesões e a morte só podem</p><p>decorrer de culpa do agente, constituindo-se pois, a forma preterdolosa do crime (dolo</p><p>na conduta antecedente e culpa na subsequente). Entretanto, a despeito disso, não há</p><p>restrição para que o resultado mais grave possa ser envolvido pelo dolo eventual do</p><p>agente. Mas, se isso ocorrer, conforme posição predominante, costuma-se dividir a</p><p>infração em duas distintas (aborto + lesões corporais graves ou aborto + homicídio</p><p>doloso, conforme o caso).</p><p>Nucci (2012)</p><p>Aborto necessário (CP, art. 128)</p><p>O art. 128 do Código Penal, nos seus incisos I e II, traz hipóteses de excludente de</p><p>ilicitude previstas na parte especial do Código. Dessa forma, não haverá crime quando o</p><p>aborto é praticado por médico, quando não há outro meio para salvar a vida da gestante</p><p>ou quando a gravidez resulta de estupro, caso em que deverá ser precedido de</p><p>consentimento da gestante ou representante legal.</p><p>Segundo Nucci (2012), trata-se de escolha constitucional do legislador, tendo em vista</p><p>que “nenhum direito é absoluto, nem mesmo o direito à vida”. Assim, é possível preterir</p><p>a vida do feto quando essa constitui óbice à vida da gestante.</p><p>Não é possível ampliar as excludentes de ilicitude previstas no art. 128 do Código Penal</p><p>para incluir enfermeiras ou parturientes, pois, conforme leciona Nucci (2012) “o médico</p><p>é o único profissional habilitado a decidir [...] se a gestante pode ser salva, evitando o</p><p>aborto ou não”. Quanto ao estupro, o médico seria também o único profissional apto a</p><p>realizar a interrupção da gravidez com segurança para gestante.</p><p>Porém, enfermeiras e parturientes podem alegar a excludente de ilicitude consistente no</p><p>estado de necessidade de terceiro, quando verificarem que a gestante corre risco de vida</p><p>e não seria possível aguardar atendimento médico. Destaca-se, ainda, que no caso de</p><p>estupro, não é necessária a existência de processo penal em curso ou condenação penal</p><p>do agressor para que o aborto seja autorizado (NUCCI, 2012).</p><p>ADPF n. 54: Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n. 54</p><p>garantiu, no Brasil, a interrupção terapêutica da gestação de feto anencefálico. O</p><p>fundamento da decisão foi que o feto anencefálico não constitui uma "vida em</p><p>potencial" e, sendo assim, não deve receber proteção jurídica do ordenamento</p><p>jurídico penal. (ADPF n. 54. Distrito Federal/ DF. Relator: MIN. Marco Aurélio,</p><p>Plenário, 12.04.2012).</p><p>Lesão Corporal</p><p>Os delitos de lesões corporais estão reunidos no Capítulo II, do Título I, do</p><p>Código Penal que compreende seis figuras delitivas: a lesão corporal de</p><p>natureza leve (BRASIL, 1940, art. 129, caput), as lesões corporais de</p><p>natureza grave (BRASIL, 1940, art. 129, § 2º), as lesões corporais de</p><p>natureza gravíssima (BRASIL, 1940, art. 129, § 2º), as lesões corporais</p><p>seguidas de morte (BRASIL, 1940, art. 129, § 3º), a lesão corporal culposa</p><p>(BRASIL, 1940, art. 129, § 5º), e a lesão corporal cometida no âmbito da</p><p>violência doméstica e familiar (BRASIL, 1940, art. 129, § 9º). Este capítulo</p><p>do Código Penal visa a tutelar a integridade física e psíquica do ser humano,</p><p>protegendo-a desde a nidação – que, como estudado, marca o início da vida</p><p>humana (GRECO, 2017).</p><p>O delito de lesão corporal, segundo Hungria “compreende toda e qualquer ofensa</p><p>ocasionada à normalidade funcional do corpo ou organismo humano, seja do</p><p>ponto de vista anatômico, seja do ponto de vista fisiológico ou psíquico”</p><p>(HUNGRIA, 1954 apud GRECO, 2017). Dessa forma, o tipo penal exige a</p><p>ocorrência de resultado naturalístico para sua consumação, qual seja o dano ao</p><p>corpo humano, interna ou externamente, não se perfazendo com a simples</p><p>ocorrência de ofensa moral (NUCCI, 2012).</p><p>No contexto dos delitos de lesão corporal, deve-se destacar que o exame pericial</p><p>assume especial relevo probante, sendo necessário para identificar a extensão do</p><p>resultado da lesão corporal para melhor enquadramento típico. Entretanto, nos</p><p>termos do que prevê o art. 167 do Código de Processo Penal, nada impede que,</p><p>diante da impossibilidade de realização do exame outros meios de prova sejam</p><p>utilizados para auferir a materialidade delitiva (GRECO, 2017).</p><p>Nos termos do § 7° do art. 129 do Código Penal, aplicam-se aos delitos de lesão</p><p>corporal as causas de aumento de pena previstas para o delito de homicídio. No</p><p>caso de lesão dolosa a pena é exasperada de 1/3, se o crime é praticado contra</p><p>pessoa menor de 14 ou maior de 60 anos, ou aumentada de 1/3 até a metade se o</p><p>crime for praticado por milícia privada, sob o pretexto de prestação de serviço de</p><p>segurança, ou por grupo de extermínio.</p><p>No mesmo sentido, o art. 129, prevê que se a lesão for praticada contra</p><p>autoridade ou agente descrito nos artigos 142 e 144 da Constituição Federal,</p><p>integrantes do sistema prisional e da Força Nacional de Segurança Pública, no</p><p>exercício da função ou em decorrência dela, ou contra seu cônjuge, companheiro</p><p>ou parente consanguíneo até terceiro grau, em razão dessa condição, a pena é</p><p>aumentada de um a dois terços.</p><p>Conheceremos, a seguir, as modalidades de lesão previstas na legislação penal,</p><p>entendendo suas peculiaridades, qualificadoras e eventuais causas de aumento e</p><p>diminuição.</p><p>Lesão corporal de natureza leve (CP, art. 129, caput)</p><p>A lesão corporal de natureza leve é a figura típica prevista no caput do art. 129 do</p><p>Código Penal, punida com pena de detenção de três meses a um ano. A conduta típica</p><p>consiste em “ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem”.</p><p>Segundo Nucci (2012) ofender significa “lesar ou fazer mal a alguém ou</p>
<p>alguma coisa”.</p><p>A lesão corporal de natureza leve ou simples é delito comum, por não exigir do sujeito</p><p>passivo e ativo qualquer característica especial. Também não se exige dolo específico</p><p>(NUCCI, 2012).</p><p>O mesmo doutrinador defende a aplicabilidade da causa supralegal de exclusão da</p><p>ilicitude consistente no consentimento do ofendido à figura delitiva prevista no caput do</p><p>art. 129 do Código Penal, nos seguintes termos:</p><p>Não se pode mais conceber o corpo humano como bem absolutamente indisponível,</p><p>pois a realidade desmente a teoria. É verdade que o Estado deve zelar pela vida humana,</p><p>indisponível que é, além da integridade física, embora sem jamais desconhecer a</p><p>evolução dos costumes e da própria ciência traz modificações importantes nesse cenário</p><p>[...] não deve o Estado se imiscuir na vida íntima das pessoas, resolvendo punir, por</p><p>exemplo, lesões corporais consentidas cometidas durante a pratica de ato sexual</p><p>desejado entre adultos.</p><p>NUCCI, 2012</p><p>Lesão corporal de natureza grave (CP, art. 129, § 1º)</p><p>A lesão corporal de natureza grave é prevista no art. 129, § 1º do Código Penal, cuja</p><p>sanção é de reclusão, de um a cinco anos. Neste caso, a ofensa à integridade física de</p><p>alguém é qualificada pelo resultado. Dessa forma, considera-se ocorrida lesão de</p><p>natureza grave quando resultar em:</p><p> bullet</p><p>Incapacidade para as ocupações habituais por mais de trinta dias.</p><p> bullet</p><p>Perigo de vida.</p><p> bullet</p><p>Debilidade permanente de membro, sentido ou função.</p><p> bullet</p><p>Aceleração de parto.</p><p>A incapacidade para as ocupações habituais deve ser entendida como a ineptidão da</p><p>vítima para desempenhar qualquer uma de suas ocupações habituais por mais de 30</p><p>dias, o que abrange tanto a rotina laborativa, quanto às atividades domésticas, de lazer, e</p><p>qualquer outra atividade lícita (NUCCI, 2012).</p><p>A lesão também será agravada pelo resultado quando dela resultar perigo de vida para o</p><p>ofendido. Segundo Nucci (2012), neste caso, “não bastam conjecturas, mas um fator</p><p>real de risco inerente ao ferimento causado”. Segundo a doutrina e jurisprudência</p><p>majoritária o perigo de vida deve ser ocasionado a título de culpa, pois, se causado a</p><p>título de dolo estaríamos diante de uma tentativa de homicídio (NUCCI, 2012).</p><p>Se da lesão resulta debilidade permanente de membro (parte integrante do corpo</p><p>humano), sentido (visão, olfato, audição, paladar e tato) ou função (ação própria do ser</p><p>humano), a lesão também será reputada grave. Deve-se esclarecer que não é necessário</p><p>que a debilidade seja eterna, mas tão somente de longa duração.</p><p>Por fim, quando da lesão resultar aceleração do parto (nascimento da criança antes do</p><p>prazo natural) a pena também será agravada. Trata-se, em verdade, de delito próprio</p><p>nesta modalidade, pois é exigível que a vítima seja gestante (GRECO, 2017). Neste</p><p>caso, o sujeito ativo deve ter conhecimento da gravidez da vítima. Nucci (2012) desenha</p><p>três probabilidades de imputação a depender do caso concreto:</p><p>Se houve aceleração do parto e o feto nasceu com vida, morrendo em face das lesões</p><p>sofridas. Trata-se, pois, de lesão corporal grave (aceleração de parto). Se a lesão</p><p>corporal atingiu a mãe e também o feto, mas não provocou nem a aceleração do parto,</p><p>nem o aborto, vindo a criança a morrer depois do nascimento com vida, algum tempo</p><p>depois, em virtude da lesão sofrida, não há como imputar-se ao agente lesão grave ou</p><p>gravíssima, pois sua conduta, neste prisma, não se molda aos tipos penais do art. 129, §</p><p>§ 1º, IIV e 2º, V. Neste último caso, quanto à lesão corporal, deverá ser ela tipificada</p><p>como simples. Entretanto, ainda dentro do mesmo quadro (sem haver aceleração de</p><p>parto nem aborto), caso o agente tenha visado ao feto (dolo direto ou indireto), quando</p><p>agrediu a mãe, poderá responder, concomitantemente, por lesão corporal leve e tentativa</p><p>de abroto, sem o consentimento da gestante, dias, semanas ou meses depois, não há</p><p>como se falar em lesão gravíssima, ou seja, cujo resultado mais grave é o aborto, pois</p><p>esse é um termo específico que significa a morte do feto antes do nascimento.</p><p>Nucci (2012)</p><p>Lesão corporal de natureza gravíssima (CP, art. 129, §</p><p>2º)</p><p>A lesão corporal de natureza gravíssima é outra espécie de lesão cuja pena é agravada</p><p>pelo resultado. Neste caso, se da lesão resulta incapacidade permanente para o trabalho,</p><p>enfermidade incurável, perda ou inutilização do membro, sentido ou função,</p><p>deformidade permanente ou aborto, a conduta será apenada com reclusão, de dois a oito</p><p>anos.</p><p>Diferentemente do que ocorre com a lesão grave, a incapacidade resultado da lesão</p><p>gravíssima, deve ocasionar inaptidão laborativa, ocasionando prejuízo financeiro ao</p><p>ofendido.</p><p>A enfermidade incurável, segundo Nucci (2012) refere-se a “doença irremediável, de</p><p>acordo com os recursos da medicina na época do resultado”. Deve-se, neste ponto,</p><p>destacar que a vítima não pode recusar imotivadamente tratamento disponível. Também</p><p>não caberá revisão criminal caso a medicina encontre a cura para a doença.</p><p>A perda ou inutilização de membro sentido ou função, refere-se à “destruição ou</p><p>privação de algum membro, sentido ou função” (NUCCI, 2012). Em outra vertente, a</p><p>deformidade permanente indica a alteração da forma original de parte do corpo humano.</p><p>Segundo entendimento doutrinário majoritário, a qualificadora relaciona-se ao dano</p><p>estético permanente, motivo pelo qual somente será reputada gravíssima a lesão se ela</p><p>for visível (NUCCI, 2012).</p><p>Por fim, a lesão também se qualifica como gravíssima se dela decorre a morte do feto.</p><p>Mais uma vez, trata-se de delito próprio nesta modalidade, pois exige que a vítima seja</p><p>gestante, sendo também necessário que o resultado mais gravoso ocorra a título de</p><p>culpa.</p><p>Lesão corporal seguida de morte (CP art. 129, § 3º)</p><p>A lesão corporal seguida de morte, prevista no art. 129, § 3º, trata-se de crime</p><p>preterdoloso, em que o agente tem o dolo de lesionar, mas, por culpa, acaba</p><p>ocasionando a morte da vítima. Por se tratar de delito com culpa no consequente o</p><p>delito não admite tentativa, sendo apenado com reclusão, de quatro a doze anos</p><p>(NUCCI, 2012).</p><p>Lesão corporal privilegiada (art. 129, § § 4º e 5º)</p><p>O parágrafo quarto e quinto do art. 129 do Código Penal trazem hipóteses de causas de</p><p>diminuição específicas a serem aplicáveis aos delitos de lesão.</p><p>No caso de lesão grave, gravíssima, ou seguida de morte, a pena será reduzida de um</p><p>sexto a um terço, quando o agente comete o crime for impelido por motivo de relevante</p><p>valor social (interesse da coletividade) ou moral ou sob o domínio de violenta emoção,</p><p>logo em seguida à injusta provocação da vítima.</p><p>No caso da lesão leve, nessas mesmas circunstâncias, o juiz poderá substituir a pena de</p><p>detenção pela de multa. Essa substituição também será possível quando as lesões leves</p><p>forem recíprocas o que ocorre, segundo Nucci (2012) “quando as duas partes entraram</p><p>em luta injustamente”, não se aplicando aos casos em que a vítima, na tentativa de</p><p>repelir injusta agressão ofende a integridade física de seu agressor, pois, nesse caso, ela</p><p>estaria atuando em legítima defesa.</p><p>Lesão corporal culposa (CP, art. 129, § 6º)</p><p>A lesão corporal culposa, prevista no art. 129, § 6º do Código Penal tipifica a conduta</p><p>daquele que, por negligência, imprudência ou imperícia, ofende a integridade física da</p><p>vítima, sendo cominada pena de detenção, de dois meses a um ano.</p><p>Nos termos do art. 129, § 8º, aplica-se à lesão culposa a causa de extinção da</p><p>punibilidade consistente no perdão judicial, quando o juiz entender que as</p><p>consequências do delito já atingiram a vida do autor de forma grave, tornando</p><p>desnecessária a sanção penal.</p><p>Por fim, aplica-se ao delito de lesão culposa a causa de aumento prevista no art. 121, §</p><p>6º, exasperando a sanção em 1/3, se o crime resultar de inobservância de regra técnica</p><p>de profissão, arte ou ofício, ou se o agente deixa de prestar imediato socorro à vítima,</p>
<p>não procura diminuir as consequências do seu ato, ou foge para evitar prisão em</p><p>flagrante (BRASIL, 1940, art. 129, § 7º)</p><p>Violência doméstica (CP, art. 129, § 9º)</p><p>O art. 129, § 9º prevê a ocorrência de lesão praticada contra ascendente, descendente,</p><p>irmão, cônjuge ou companheiro, ou com quem conviva ou tenha convivido, ou, ainda,</p><p>prevalecendo-se o agente das relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade. O</p><p>crime é punido com pena de detenção, de três meses a três anos.</p><p>A pena é ainda majorada em 1/3, se da ofensa resulta lesão grave, gravíssima, ou morte</p><p>(BRASIL, 1940, art. 129, § 10º), ou se o crime for cometido contra pessoa portadora de</p><p>deficiência (BRASIL, 1940, art. 129, § 11).</p>

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