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<p>A linguística textual</p><p>O campo de estudo da linguística textual (LT), os processos de textualização e discussão de práticas</p><p>discursivas orais e escritas, resultantes da relação cultura e língua.</p><p>Prof. Roberto de Freitas Junior</p><p>1. Itens iniciais</p><p>Propósito</p><p>Compreender os principais conceitos e contribuições da linguística textual a fim de ampliar o conhecimento</p><p>linguístico e a competência escritora.</p><p>Preparação</p><p>Tenha em mãos ou consulte na internet um dicionário da área de estudos linguísticos, como oDicionário de</p><p>termos linguísticos, hospedado no Portal da Língua Portuguesa.</p><p>Objetivos</p><p>Identificar as principais características do campo da linguística textual.</p><p>Reconhecer os conceitos de texto, cotexto e contexto na linguística textual.</p><p>Identificar conhecimentos linguísticos e extralinguísticos na textualização.</p><p>Analisar a construção dos sentidos no texto a partir da coerência textual.</p><p>Introdução</p><p>Vamos estudar neste conteúdo alguns dos principais conceitos e objetivos da linguística textual, também</p><p>conhecida como linguística do texto (LT). Destacaremos o desenvolvimento do conceito de texto, tratando da</p><p>revisão dos principais processos envolvidos em sua construção, seja do ponto de vista linguístico, social ou</p><p>cognitivo.</p><p>Dessa forma, apresentaremos os conceitos principais relacionados ao desenvolvimento da textualização,</p><p>voltando nossa atenção para a construção da coerência, ou seja, a formação do sentido global do texto.</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>1. O campo da linguística textual</p><p>O desenvolvimento da linguística textual</p><p>A linguística textual ou linguística do texto (LT) tornou-se um campo de investigação importante no Brasil e no</p><p>mundo. Ao longo dos últimos anos, os estudos dedicados ao entendimento das questões referentes à</p><p>multiplicidade de textos orais, escritos e sinalizados mostraram como os textos apresentam uma</p><p>complexidade própria em função da expressividade e da comunicação bem-sucedida.</p><p>Sinalizados</p><p>Textos elaborados em línguas de sinais, como a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS).</p><p>Tal empreitada favorece, assim, a ampliação significativa de estudos sobre a construção do sentido em textos</p><p>orais, escritos e sinalizados em línguas maternas e estrangeiras. Nesse sentido, essa mesma empreitada</p><p>oferece subsídios, em particular, em relação ao ensino de línguas. Por meio da aplicação dos resultados de</p><p>pesquisas na área da LT, é possível haver um maior empoderamento social daqueles que têm oportunidade de</p><p>acesso a uma visão mais complexa e integral do texto.</p><p>Comentário</p><p>Estamos nos referindo a uma visão que defende a estruturação textual como algo que extrapola o nível</p><p>sentencial (por sua vez bastante complexo), estando comprometido também com questões voltadas</p><p>para as relações social, histórica, cultural e ideologicamente determinadas.</p><p>A produção do sentido por meio do texto é vista, assim, como um objeto complexo cujas variáveis linguísticas</p><p>e não linguísticas determinam seu caráter final.</p><p>Existem três fases do desenvolvimento da linguística textual. São elas:</p><p>Até 1970</p><p>Análise transfrástica.</p><p>Após 1970</p><p>Virada pragmática.</p><p>Após 1980</p><p>Virada cognitivista.</p><p>Agora, tratamento com mais detalhes de cada uma delas.</p><p>A primeira fase da LT: a análise transfrástica</p><p>Na primeira fase da linguística textual, que durou até os anos 1970, os pesquisadores de então se centravam</p><p>na explicação dos mecanismos interfrásticos envolvidos na produção sentencial na produção textual. Naquele</p><p>momento, o foco era o estudo das relações referenciais, priorizando aquelas pautadas na correferencialidade.</p><p>Mecanismos interfrásticos</p><p>Processos que estabelecem as sequências e articulações entre frases ou sentenças em uma relação de</p><p>interdependência.</p><p>O texto era visto como uma frase complexa,</p><p>uma cadeia de pronominalizações ininterruptas,</p><p>de pressuposições, ou uma sequência de</p><p>enunciados que poderiam assumir tal status. O</p><p>foco, portanto, eram as relações anafóricas e</p><p>catafóricas, ou seja, a articulação entre as</p><p>sentenças, retomando por referência um termo</p><p>anterior (anáfora) ou se referindo a um termo</p><p>posterior (catáfora).</p><p>Havia o projeto de se fazer uma gramática do</p><p>texto, já que o texto era visto como uma</p><p>unidade superior à sentença. De acordo com Marcuschi (1983) e Koch (2015), para que tal projeto se</p><p>realizasse, as ideias seriam:</p><p>Analisar as possibilidades combinatórias Determinar os princípios constitutivos de</p><p>um texto</p><p>Apontar critérios para sua delimitação Diferenciar suas diferentes espécies</p><p>Na primeira fase da LT, o texto é visto como produto do ato comunicativo e do pensamento lógico, cabendo</p><p>aos interlocutores apenas a captação das ideias transmitidas pelo produtor, sem levar em consideração suas</p><p>experiências e seus conhecimentos já adquiridos. Trata-se de uma diferença importante para o que, com o</p><p>tempo, tornou-se a LT.</p><p>Podemos afirmar que a primeira fase se caracteriza pela necessidade de ir além do limite da própria frase para</p><p>se dar conta de fenômenos, os quais, segundo Koch (1997, p. 68), incluem:</p><p>Referenciação;•</p><p>Seleção do artigo;</p><p>Concordância de tempos verbais;</p><p>Vários fatos de ordem prosódica;</p><p>Relação semântica entre frases não ligadas por conectivo.</p><p>A segunda fase da LT: a virada pragmática</p><p>Na segunda fase da LT, ainda nos anos 1970, observamos a chamada “virada pragmática”, um movimento</p><p>fortemente influenciado pela teoria dos atos de fala e pela filosofia da linguagem. Nesse sentido, os estudos</p><p>no campo da LT passam a ser marcados pela necessidade de ir além da análise de aspectos sintáticos e</p><p>semânticos, já que o texto não é mais visto como uma unidade formal.</p><p>Saiba mais</p><p>Atos de falaIntroduzido pelo filósofo britânico John Austin (1911-1960), o conceito de atos de fala aponta</p><p>para a ação relacionada a determinada fala, a determinado uso da língua. Esse conceito indica, portanto,</p><p>a relação entre o que se diz e o que se faz ou o que se deseja que seja feito por meio do ato de dizer,</p><p>estabelecendo uma relação entre falas e feitos. Filosofia da linguagemA filosofia da linguagem se volta</p><p>para as relações entre pensamento, realidade e linguagem. Um importante filósofo da linguagem foi o</p><p>austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951). As bases da teoria dos atos de fala estão nos pensamentos</p><p>de Wittgenstein e em sua preocupação com o uso da linguagem corrente como fonte para a solução de</p><p>problemas filosóficos.</p><p>Diante do foco no processo comunicativo de comunidade linguística concreta, o contexto passa a configurar</p><p>um fator importante de análise. Foi adotada uma abordagem de investigação linguística baseada em dois</p><p>aspectos:</p><p>No uso da língua. Nos processos interacionais em</p><p>situações reais de comunicação.</p><p>As concepções de texto são modificadas, pois o texto deixa de ser tratado como um produto e passa a ser</p><p>visto como um instrumento interativo.</p><p>Essa visão de texto obviamente aproxima-se de</p><p>uma abordagem de linguagem de base</p><p>sociointeracional que era amplamente</p><p>difundida. Vamos nos lembrar de que essa</p><p>visão sociointeracional compreende a</p><p>linguagem como experiência de interação no</p><p>contexto das relações sociais, sendo uma</p><p>abordagem que se afasta da visão formalista ou</p><p>estrutural de língua.</p><p>A terceira fase da LT: a virada</p><p>cognitivista</p><p>Na década de 1980, acontece o que chamamos de “virada cognitivista” na LT. Existe uma consciência de que</p><p>toda ação, incluindo-se, obviamente, a textual, é necessariamente acompanhada de processos de ordem</p><p>cognitiva. Esses aspectos cognitivos não podem ser descartados de qualquer tipo de investigação</p><p>preocupada com a descrição de processos.</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>O entendimento era de que, na produção/</p><p>compreensão textual, é preciso dispor de</p><p>modelos mentais, operações e tipos de</p><p>operações mentais que subjazem a toda</p><p>prática. Esses modelos e operações deveriam</p><p>ser observados para a análise no âmbito da LT</p><p>(KOCH, 2015).</p><p>A partir da terceira fase, que acabou sendo</p><p>uma extensão da segunda, duas visões ou</p><p>concepções passam a predominar:</p><p>O texto como resultado de processos</p><p>mentais.</p><p>A comunicação como fruto dos</p><p>conhecimentos prévios dos</p><p>interlocutores.</p><p>textual na produção de sentido.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para ouvir o áudio.</p><p>Explore +</p><p>Leia os seguintes textos para continuar e aprofundar seus estudos sobre LT:</p><p>O desenvolvimento da linguística textual no Brasil, de Ingedore Koch, publicado na revista Delta e</p><p>disponível na plataforma Scielo.</p><p>Linguística textual e ensino de língua: construindo a textualidade na escola, de Maria do Rosário</p><p>Gregolin, publicado pela revista Alfa e disponível no portal de periódicos da Unesp.</p><p>A linguística textual e a construção do texto: um estudo sobre os fatores de textualidade, de Max</p><p>Rocha e Maria Silva, publicado na revista A cor das Letras e disponível no portal de periódicos da</p><p>UEFS.</p><p>A linguística textual e seus mais recentes avanços, de Paulo Galembeck, publicado nos Anais do IX</p><p>CNFL e disponível no portal do CiFEFIL.</p><p>Referências</p><p>BEAUGRANDE, R. New foundations for a science of text and discourse: cognition, communication, and</p><p>freedom of access to knowledge and society. Nova Jersey: Alex, 1997.</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>BRASIL. Base Nacional Comum Curricular: educação é a base. Ensino Médio. Brasília: Ministério da Educação,</p><p>2018.</p><p>BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua portuguesa.</p><p>Brasília: Secretaria de Educação Fundamental; MEC/SEF, 1998.</p><p>JAKOBSON, R. Linguística e comunicação. São Paulo: Cultrix; Universidade de São Paulo, 1969.</p><p>KOCH, I. V. Introdução à linguística textual: trajetória e grandes temas. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2015.</p><p>KOCH, I. V. Linguística textual: retrospectivas e perspectivas. Alfa. v. 41. 1997. p. 67-78.</p><p>KOCH, I. V.; TRAVAGLIA, L. C. Texto e coerência. São Paulo: Cortez, 1999.</p><p>MARCUSCHI, L. A. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2001.</p><p>MARCUSCHI, L. A. Linguística de texto: o que é e como se faz. Recife: UFPE, 1983.</p><p>MARCUSCHI, L. A. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.</p><p>A linguística textual</p><p>1. Itens iniciais</p><p>Propósito</p><p>Preparação</p><p>Objetivos</p><p>Introdução</p><p>1. O campo da linguística textual</p><p>O desenvolvimento da linguística textual</p><p>Comentário</p><p>Análise transfrástica.</p><p>Virada pragmática.</p><p>Virada cognitivista.</p><p>A primeira fase da LT: a análise transfrástica</p><p>Analisar as possibilidades combinatórias</p><p>Determinar os princípios constitutivos de um texto</p><p>Apontar critérios para sua delimitação</p><p>Diferenciar suas diferentes espécies</p><p>A segunda fase da LT: a virada pragmática</p><p>Saiba mais</p><p>No uso da língua.</p><p>Nos processos interacionais em situações reais de comunicação.</p><p>A terceira fase da LT: a virada cognitivista</p><p>O texto como resultado de processos mentais.</p><p>A comunicação como fruto dos conhecimentos prévios dos interlocutores.</p><p>Os fatores linguísticos, sociais e cognitivos</p><p>Fator linguístico</p><p>Fator social</p><p>Fator cognitivo</p><p>É na interação verbal que a língua acontece.</p><p>A língua só pode ser de fato descrita e entendida nesse contexto.</p><p>Os aspectos comunicativo e social da linguagem</p><p>Discrso midiático</p><p>Discurso religioso</p><p>Discurso político</p><p>Implicações da LT no ensino-aprendizado de língua</p><p>Comentário</p><p>A linguística textual</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>Os aspectos comunicativo e social da linguagem</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Implicações da LT no ensino-aprendizado de língua</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>2. Conceito de texto: processo, contexto e interação</p><p>As relações que tecem o texto</p><p>Relações linguísticas e estruturais.</p><p>Relações situacionais e sociocognitivas.</p><p>Marcas cotextuais e contextuais</p><p>As escolhas lexicais</p><p>A definição de registro</p><p>O tema dos assuntos</p><p>O artigo definido “a” em “da Brastemp” e em “a Brastemp”</p><p>O apagamento do sujeito na frase “deve ser boa mesmo”</p><p>O uso do adverbial “lá”</p><p>A textualidade e seus processos</p><p>Coesão</p><p>Coesão referencial</p><p>Coesão sequencial</p><p>Coerência</p><p>Intencionalidade e aceitabilidade</p><p>Situacionalidade</p><p>Intertextualidade</p><p>Informatividade</p><p>Gêneros do discurso, letramento e oralidade</p><p>1</p><p>2</p><p>Exemplo</p><p>Conceito de texto: processo, contexto e interação</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>A textualidade e seus processos</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Intencionalidade e aceitabilidade na textualidade</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>3. Conhecimentos linguístico, textual e extralinguístico</p><p>Conhecimento sistêmico ou linguístico</p><p>L1</p><p>L2</p><p>Conhecimento textual</p><p>Resumindo</p><p>Referenciação</p><p>Coesão e coerência</p><p>Organização tópica</p><p>Implicações do conhecimento linguístico e textual</p><p>Exemplo</p><p>Conhecimento de mundo</p><p>A compreensão</p><p>A produção textual</p><p>O processamento de leitura</p><p>Saiba mais</p><p>Exemplo</p><p>Conhecimento linguístico, textual e de mundo</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>Conhecimento linguístico e extralinguístico na produção do texto</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Implicações do conhecimento linguístico e textual</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>4. Construção dos sentidos no texto: coerência textual</p><p>Coerência e textualidade</p><p>Formal/gramatical</p><p>Funcional-comunicativo</p><p>Textual</p><p>Ideológico</p><p>Atividade discursiva</p><p>A coesão a serviço da coerência</p><p>Coesão</p><p>Coerência</p><p>Resumindo</p><p>Funções da linguagem e coerência</p><p>Função referencial ou denotativa</p><p>Função emotiva ou expressiva</p><p>Função conativa ou apelativa</p><p>Função fática</p><p>Função metalinguística</p><p>Função poética</p><p>Exemplo</p><p>Tipos e gêneros textuais na construção da coerência</p><p>A adequação social das formas linguísticas</p><p>O papel instrumental dos gêneros discursivos ou textuais</p><p>O uso de formas linguísticas apropriadas a determinadas funções comunicativas especificas</p><p>A interação verbal</p><p>Relembrando</p><p>A coerência na construção dos sentidos no texto</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>Tipos e gêneros textuais na construção da coerência</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Interação verbal como fator de coerência</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>5. Conclusão</p><p>Considerações finais</p><p>Podcast</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Explore +</p><p>Referências</p><p>A cognição é analisada por um olhar sociocultural e interacional, uma visão sociocognitivista, segundo a qual o</p><p>texto é tido como um complexo processo sociocognitivo concebido a partir de relações de sentido</p><p>construídas dialogicamente.</p><p>Essa discussão faz referência direta ao trabalho do linguista norte-americano Robert de Beaugrande, que</p><p>apresenta a seguinte definição:</p><p>O texto é um evento comunicativo em que convergem ações linguísticas, sociais e cognitivas.</p><p>(BEAUGRANDE, 1997, p. 10)</p><p>Desse modo, qualquer manifestação linguística que represente uma fatia de sentido intencional, coerente,</p><p>social e estruturalmente adequada de uso da língua será um texto. Nesse sentido, enunciados simples ou</p><p>complexos, orais ou escritos, formais ou informais, se estiverem enquadrados nos critérios linguísticos, sociais</p><p>e cognitivos de Beaugrande, serão textos.</p><p>Os fatores linguísticos, sociais e cognitivos</p><p>Perceba que, na definição de Beaugrande, três fatores (ou ações) convergem para a ideia de texto: fatores</p><p>linguísticos, sociais e cognitivos. Veja cada um deles:</p><p>Fator linguístico</p><p>Observado no referencial de Beaugrande (1997), o aspecto linguístico pode ser exemplificado no nível</p><p>estrutural. Tal nível está relacionado à capacidade de combinar itens de forma a produzir sentenças,</p><p>expressões gramaticais comunicativamente eficazes, a partir dos processos de textualização</p><p>atuantes na formação coesiva e coerente do conjunto textual. O nível estrutural está fortemente</p><p>ligado à visão da primeira fase da própria LT.</p><p>Fator social</p><p>Ao lado das habilidades gramaticais, o fator social diz respeito às escolhas e às decisões sobre</p><p>palavras, sentenças e expressões condizentes e adequadas às situações comunicativas diversas nas</p><p>quais nos encontramos todos os dias. Tais situações requerem usos relativamente definidos sobre</p><p>como usar a língua em termos de formatações e expectativas social e culturalmente</p><p>convencionalizadas. O aspecto social, nesse sentido, se sobrepõe ao linguístico, uma vez que a</p><p>produção do texto implica a inter-relação entre contexto sociocomunicativo e a forma com que se</p><p>materializa a língua (ou, ao menos, como se espera que ela se materialize).</p><p>Fator cognitivo</p><p>Traz implicações referentes, principalmente, à maneira como apresentamos, retomamos ou mudamos</p><p>assuntos ao longo do curso da produção discursiva. Estamos a todo o tempo apostando em algo que</p><p>mantemos de conhecimento compartilhado com nossos interlocutores. Também tentamos o tempo</p><p>todo apresentar nosso ponto de vista e convencer o outro de que estamos corretos. Assim,</p><p>introduzimos temas, palavras e expressões, apostando no que o outro sabe e/ou no que precisa saber</p><p>na tentativa de sermos novamente comunicativamente eficazes. Todo esse processo ocorre a partir</p><p>de princípios de coerência com o que sabemos por meio das nossas experiências de vida em geral. O</p><p>fator cognitivo também aponta para operações mentais importantes, como, por exemplo, a</p><p>categorização e a analogia.</p><p>Desse modo, a compreensão, a leitura e a produção de um texto envolvem múltiplos fatores que atuam ao</p><p>mesmo tempo em uma rede complexa de forças que se sobrepõem e formam todo e qualquer texto em</p><p>qualquer situação interacional de uso da linguagem. Tanto na língua falada quanto na escrita, estamos o</p><p>tempo todo acessando conhecimentos linguísticos, textuais, sociais e contextuais, entre outros, para sermos</p><p>comunicativamente bem-sucedidos.</p><p>Para a LT, o foco do entendimento da linguagem torna-se a própria interação verbal e o papel</p><p>desempenhado pelos interlocutores inseridos em relações sociais específicas que hão de definir a</p><p>forma com que ela acontecerá.</p><p>Nesse sentido, a interação verbal-discursiva se torna assunto de maior importância para a análise linguística</p><p>no âmbito da LT por se tratar de uma realidade fundamental da língua e por ser derivada e derivante do</p><p>contexto sociocultural no qual ela emerge e representa.</p><p>A interação verbal-discursiva torna-se, portanto, o lócus para o entendimento do funcionamento da linguagem</p><p>em todos os sentidos.</p><p>Da formação de novos enunciados à</p><p>confirmação de usos daqueles já estabelecidos,</p><p>é na interação verbal (espaço em que a</p><p>negociação de significados acontece) que a</p><p>língua se materializa graças a usos de</p><p>enunciados concretos e reveladores dos</p><p>sentidos negociados, ratificados e retificados</p><p>pelos agentes verbais.</p><p>Em linhas gerais, a ideia central da LT é a</p><p>seguinte:</p><p>É na interação verbal que a língua</p><p>acontece.</p><p>A língua só pode ser de fato descrita e</p><p>entendida nesse contexto.</p><p>Essencialmente composto de maneira ativa pelos interlocutores em situação real de comunicação, o processo</p><p>de negociação de significados revela intencionalidades, crenças e pensamentos subjacentes a contextos</p><p>sociais, culturais e ideológicos maiores espelhados na linguagem e ratificados (ou não) pela linguagem.</p><p>Os aspectos comunicativo e social da linguagem</p><p>O aspecto comunicativo da linguagem é visto, assim, como a mola propulsora de sua formação, e não como</p><p>elemento secundário e distante da gênese da linguagem. O dialogismo implicado nas interações verbais</p><p>garante que tanto a agentividade quanto as atitudes e os pensamentos das partes envolvidas na interação</p><p>verbal sejam igualmente responsáveis pela produção final de sentidos e crenças de toda e qualquer</p><p>materialização textual, seja ela oral, sinalizada ou escrita.</p><p>Assim, no curso da negociação de significados, a ação verbal, seja ela qual for, entre falantes, autores, leitores</p><p>ou sinalizantes resultará nos sentidos abstraídos a partir do próprio dialogismo refletido na interação</p><p>sociodiscursiva.</p><p>A relação entre o eu e o outro é central para o entendimento da natureza da linguagem.</p><p>No uso da língua, os agentes da produção</p><p>dialógico-discursiva expressam-se em relação</p><p>e em função do outro. Dessa forma, as</p><p>múltiplas situações sociais, ou seja, contextos</p><p>interacionais de naturezas diversas, implicam</p><p>especificidades que impactam a forma como a</p><p>língua é embalada via produção de enunciações</p><p>concretas em discursos reais.</p><p>Nesse cenário, o entendimento de que os</p><p>gêneros do discurso estão no cerne da</p><p>natureza da linguagem é extremamente</p><p>importante. No processo de negociação de significados, isto é, no próprio processo de uso da linguagem, há</p><p>sempre a centralidade dos gêneros e sua relação com a função comunicativa. O domínio dos múltiplos</p><p>gêneros (falados, escritos ou sinalizados) do discurso é uma questão diretamente relacionada à produção de</p><p>sentidos, à expressividade, ao empoderamento e ao trânsito comunicativo no âmbito social macro.</p><p>Estamos o tempo todo produzindo diferentes gêneros discursivos em nossas interações sociais.</p><p>Somam-se ainda a tal condição os papéis socioculturais estabelecidos entre os agentes produtores da</p><p>linguagem via dialogismo. É nesse cenário e sob tais condições que podemos entender a natureza e o</p><p>funcionamento da linguagem. Para a LT, a linguagem é vista, portanto, como um objeto analisável a partir das</p><p>situações concretas de comunicação e de seus condicionamentos socioculturais diversos.</p><p>Nesse sentido, saber (e aprender!) uma língua é estar constantemente operando em tais condições na busca</p><p>da expressividade e, em escala maior, da manutenção ou da conquista de espaços mais confortáveis nas</p><p>relações de poder. Por consequência, a observação sobre a forma com que os discursos diversos se</p><p>materializam na sociedade está diretamente ligada a essa discussão.</p><p>O entendimento de que a linguagem precisa ser vista a partir do lugar social em que se realiza nos permite</p><p>observar, por exemplo, alguns aspectos importantes, como:</p><p>Discrso midiático</p><p>A forma como o discurso midiático pode</p><p>determinar e/ou ratificar as relações de poder</p><p>existentes.</p><p>Discurso religioso</p><p>A maneira como o discurso religioso pode ser</p><p>construído a partir de relações basicamente</p><p>assimétricas.</p><p>Discurso político</p><p>Quem orienta e é orientado pelo discurso</p><p>político e o modo como esse discurso se</p><p>aproxima ou se distancia da fala popular em</p><p>função da eficácia na comunicação com o</p><p>eleitor.</p><p>Implicações da LT no ensino-aprendizado</p><p>de língua</p><p>Entender lugares de fala, intenções, valores socioculturais e manejos de linguagem na luta nas relações de</p><p>poder é uma das consequências naturais para quem sai de um estado de alienação para o de percepção de</p><p>um ser pertencente e construído na e pela linguagem dentro de seu espaço social e no contexto de suas</p><p>condições. Toda essa discussão desemboca de maneira particular em propostas educacionais que visam ao</p><p>desenvolvimento do aprendiz como cidadão crítico na e pela linguagem.</p><p>Tornam-se particularmente importantes as propostas de ensino de línguas maternas e adicionais que se</p><p>preocupam em formar indivíduos conscientes das relações materializadas na linguagem e que podem</p><p>perpetuar diferenças sociais que trazem prejuízos a certas populações. Um ponto importante para a LT diz</p><p>respeito aos processos de textualização nos contextos diversos em que a língua é usada.</p><p>Comentário</p><p>Apesar de a língua falada e a escrita serem tratadas por muitos como modalidades cujos usos</p><p>linguísticos são absolutamente distintos, na prática, em busca do sucesso e da eficácia comunicativa, é</p><p>possível verificar uma grande sobreposição de gêneros e formas linguísticas entre as duas modalidades.</p><p>Os múltiplos fatores atuantes na formação do texto falado influenciam a forma como o texto escrito pode</p><p>ocorrer – e vice-versa.</p><p>A análise da língua com base na produção textual oferece uma forma potente de entendimento sobre seu</p><p>funcionamento, assim como sobre o que se sabe ao falar uma língua, no – e para além do – nível sentencial.</p><p>Assim, é possível delimitar pontos observáveis sobre o conhecimento linguístico a partir de uma abordagem</p><p>que focalize a análise da produção textual. Confira alguns desses pontos:</p><p>A variação linguística;</p><p>Os gêneros discursivos;</p><p>As intenções e as implicaturas pragmáticas da produção;</p><p>As relações sobre organização tópica e progressão temática;</p><p>O funcionamento autêntico do sistema por parte de falantes reais;</p><p>Os fatos históricos linguísticos e extralinguísticos refletidos no uso;</p><p>O tratamento da capacidade de argumentação, resumo e ampliação de textos;</p><p>O funcionamento da língua em seus diferentes níveis (morfossintático, fonológico, semântico e</p><p>pragmático-discursivo).</p><p>Os itens acima abordados apresentam um panorama sobre alguns dos diferentes e mais importantes pontos</p><p>no campo de estudo da LT ao longo do tempo. Podemos observar que, em diferentes fases, os estudiosos da</p><p>LT dedicaram-se ao entendimento do texto a partir de diversas perspectivas.</p><p>As contribuições advindas da LT são inúmeras, destacando-se particularmente no ensino de línguas e na</p><p>contribuição para um engajamento mais substancial dos alunos em suas práticas linguageiras.</p><p>A linguística textual</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>Neste vídeo, o professor apresenta as principais características e pressupostos teóricos da linguística textual,</p><p>destacando as três fases de seu desenvolvimento e os fatores linguísticos, sociais e cognitivos do texto.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.</p><p>Os aspectos comunicativo e social da linguagem</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Implicações da LT no ensino-aprendizado de língua</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>Questão 1</p><p>É possível identificar três momentos no desenvolvimento da linguística textual: cada um deles se concentra</p><p>em determinados conceitos e aspectos da linguagem e do texto. Na terceira fase, a partir dos estudos de</p><p>Beaugrande, observa-se uma concepção de texto que apresenta alguns critérios que devem ser levados em</p><p>conta na análise do texto. Que critérios são esses?</p><p>A</p><p>Sociais, cognitivos e normativos.</p><p>B</p><p>Linguísticos, normativos e sociais.</p><p>C</p><p>Linguísticos, sociais e cognitivos.</p><p>D</p><p>Linguísticos, sociais e ortográficos.</p><p>E</p><p>Normativos, sociais e comunicacionais.</p><p>A alternativa C está correta.</p><p>Beaugrande propõe uma definição de texto na qual as ações linguísticas, sociais e cognitivas convergem</p><p>para a realização da comunicação. O texto é compreendido como algo complexo no qual essas ações se</p><p>articulam de modo dialógico em um processo sociocognitivo e linguístico. Com isso, fatores sociais,</p><p>cognitivos e linguísticos interagem na formação do texto, sendo, por isso, fatores de análise na LT.</p><p>Questão 2</p><p>A linguística textual traz algumas implicações para o ensino de língua. Considerando um ensino que possua</p><p>uma base na LT, no que diz respeito à compreensão de textos em língua materna ou adicional, pode-se</p><p>afirmar que</p><p>A</p><p>defende-se a tese de que a compreensão de textos em língua adicional é inviável e deficitária.</p><p>B</p><p>os gêneros discursivos são abordados, e a análise linguística é impedida.</p><p>C</p><p>busca-se a adesão ao conceito formal ou estruturalista de texto.</p><p>D</p><p>é esperado um sucesso comunicativo na análise linguística e não dos gêneros.</p><p>E</p><p>diferentes tipos de textos e contexto de uso da língua são expostos.</p><p>A alternativa E está correta.</p><p>A exposição a diferentes tipos de texto é premissa básica do ensino para a LT, além do trabalho com ele a</p><p>partir das diversas situações de uso da língua. Desse modo, uma abordagem formalista do texto é</p><p>superada, enquanto os gêneros discursivos passam a ser um dos recursos trabalhados sem que, com isso,</p><p>se elimine a análise linguística.</p><p>2. Conceito de texto: processo, contexto e interação</p><p>As relações que tecem o texto</p><p>É bastante conhecida a observação de que a palavra “texto” é etimologicamente oriunda da mesma fonte da</p><p>qual se origina a palavra “tecido”. O vocábulo latino textum dá origem à palavra “texto” no português a partir</p><p>da ideia de trama, de um conjunto coesivo organizado por princípios internos que compõem um todo de</p><p>sentido final coerente e refinado.</p><p>A associação entre as palavras “tecido”, “trama” e “texto” parece ser mesmo inevitável e muito útil para se</p><p>entender o modo como a tessitura, seja a do tecido ou a do texto, acontece. O conceito de tessitura aqui</p><p>adotado aponta para a ideia de um conjunto harmônico, o qual, milimetricamente desenhado e organizado, é o</p><p>resultado de uma produção que requer conhecimento específico sobre relações internas e externas referentes</p><p>a esse mesmo produto.</p><p>Nesse sentido, tessitura é um sinônimo para o que chamamos de textualidade. O texto será sempre resultado</p><p>de, pelo menos, dois tipos de relações:</p><p>Relações linguísticas e estruturais. Relações situacionais e sociocognitivas.</p><p>Juntas, essas relações são responsáveis pela produção de um todo de sentido único e particular. Em termos</p><p>técnicos, referimo-nos aqui às relações cotextuais e às contextuais que interagem na produção do conjunto</p><p>textual e de sua textualidade:</p><p>As relações cotextuais dizem respeito às possibilidades de ligações intra e intersentenciais que produzem</p><p>efeitos lógicos e possíveis de sentido. Já as relações contextuais referem-se à produção de sentido em</p><p>situações sociocomunicativas específicas no contexto social, histórico e culturalmente marcado, além da</p><p>própria coerência interna das informações providas no texto.</p><p>Marcas cotextuais e contextuais</p><p>Confira a imagem que reproduz uma conversa que acontece em um aplicativo de mensagem:</p><p>1</p><p>Relações linguísticas e estruturais</p><p>2</p><p>Relações cotextuais</p><p>3</p><p>Relações situacionais e sociocognitivas</p><p>4</p><p>Relações contextuais</p><p>Reprodução de conversa em aplicativo de mensagem.</p><p>O gênero conversa desenvolvido nesse aplicativo possui natureza híbrida, pois carrega características</p><p>cotextuais e contextuais da escrita e da fala ao mesmo tempo. Pela leitura do texto, vemos que se trata de</p><p>uma conversa entre uma avó e seu neto.</p><p>A relação interpessoal em questão prevê comentários e expressões do tipo “Você nem comeu”, “Ta (sic)</p><p>ventando leva agasalho” e o uso das formas “vó” e “vo”, entre outros exemplos. Trata-se de informações</p><p>contextuais que indicam a marca do contexto sociocomunicativo maior.</p><p>Verificamos,</p><p>portanto, a presença marcante do registro informal, algo típico da fala e das relações de</p><p>parentesco mais próximas. Observamos no conteúdo da fala da avó uma preocupação com a alimentação e a</p><p>saúde do neto, uma atitude usual de quem cuida do outro, e assim por diante.</p><p>Encontramos, em suma, diversas marcas que representam características contextuais desenvolvidas nesse</p><p>pequeno trecho da conversa, tais como:</p><p>As escolhas lexicais A definição de registro</p><p>O tema dos assuntos</p><p>Por outro lado, se observarmos com cuidado, veremos informações cotextuais nas seguintes marcas:</p><p>O artigo definido “a” em “da Brastemp” e</p><p>em “a Brastemp”</p><p>O apagamento do sujeito na frase “deve</p><p>ser boa mesmo”</p><p>O uso do adverbial “lá”</p><p>Essas informações são cotextuais porque estabelecem relações internas entre os itens do texto. O uso do</p><p>artigo “a” reflete a suposição da informação Brastemp na primeira frase (já que as “geladeiras” eram o</p><p>assunto) e a retomada do assunto, já conhecido no discurso, na segunda frase.</p><p>A elipse do sujeito também indica um conhecimento da informação prévia (erroneamente interpretada como</p><p>Holanda), o que leva a uma não necessidade de recuperação textual via repetição. Da mesma forma, o uso de</p><p>“lá” indica uma informação já conhecida, presumida. O pronome dêitico faz referência (não física, apesar de</p><p>espacial) ao termo “reunião”.</p><p>É desse conjunto de informações cotextuais e contextuais que se desenvolve a trama do texto.</p><p>O processo de textualização confere ao conjunto da obra sua textualidade, isto é, a harmonização dos</p><p>sentidos dialogicamente construídos.</p><p>Uma sequência de frases como as apresentadas demonstra a complexa interação de aspectos cotextuais e</p><p>contextuais inerentes à formação da tessitura, da textualidade, do sentido final do texto.</p><p>A textualidade e seus processos</p><p>Os textos podem ser orais, escritos e sinalizados, sendo resultantes de processos complexos e inerentes que</p><p>chamamos de processos de textualização. Tais processos garantem, como produto final, a textualidade, o</p><p>todo de sentido, a mensagem final. Questões estruturais e situacionais/contextuais interagem na produção</p><p>dos sentidos, na emergência do significado negociado no processo sociointeracional.</p><p>Adaptado do trabalho de Marcuschi (2008), o esquema adiante destaca a interação dos fatores de</p><p>textualização, partindo ainda do princípio que coloca os interlocutores como pontos de partida para a</p><p>formação do texto em si e segundo a atuação de tais princípios:</p><p>Gráfico: Esquema de textualidade.</p><p>O esquema salienta os dois lados da constituição da textualidade:</p><p>Sua configuração formal, linguística;</p><p>Sua configuração comunicativa, que alcança os níveis do conhecimento textual, social e de mundo em</p><p>geral.</p><p>No grupo dos fatores de configuração linguística, estão os cotextuais: a coesão e a coerência. No grupo</p><p>daqueles relacionados à situação comunicativa, estão os fatores contextuais: a intencionalidade, a</p><p>aceitabilidade, a intertextualidade, a informatividade e a situacionalidade.</p><p>Falaremos brevemente sobre tais fatores a seguir.</p><p>Coesão</p><p>A coesão consiste nas relações que geram a progressão textual baseada na forma. Em termos gerais, é</p><p>possível afirmar que há dois tipos de macroprocessos coesivos:</p><p>Coesão referencial</p><p>Diz respeito às relações de sentido oriundas das relações semânticas estabelecidas no nível do texto.</p><p>Recursos, como a sinonímia, a hiperonímia, a elipse, a referenciação pronominal e o uso de advérbios,</p><p>exemplificam tais relações.</p><p>Dois tipos importantes de relações de sentido estabelecidas na coesão referencial são a anáfora e a</p><p>catáfora. A anáfora refere-se a relações de sentido estabelecidas retrospectivamente entre itens</p><p>atualizados e referentes anteriores; a catáfora, a relações de sentido de natureza mais prospectiva</p><p>entre itens atualizados e informações do porvir.</p><p>•</p><p>•</p><p>Coesão sequencial</p><p>Possui uma natureza mais gramatical, relacionada a recursos de sequenciação calcados em</p><p>elementos conectivos e que permitem a continuidade das ideias.</p><p>Coerência</p><p>A coerência é o processo de textualização referente à conexão de informações e produção de sentidos no</p><p>nível mais conceitual. As relações de sentido se manifestam não só entre os enunciados em geral por</p><p>diferentes aspectos coesivos, mas também de maneira global, não localizada, a partir de aspectos cognitivos,</p><p>pragmáticos, conceituais e do próprio conhecimento de mundo dos interlocutores.</p><p>É no nível da coerência, afinal, que itens diversos atuam/acionam o conjunto de conhecimentos do interlocutor</p><p>para a construção do sentido final do texto.</p><p>Intencionalidade e aceitabilidade</p><p>A intencionalidade refere-se especificamente</p><p>ao locutor, ao produtor do texto e às suas</p><p>pretensões e intenções identificadas na leitura</p><p>literal e nas próprias implicaturas textuais e</p><p>suas sutilezas. A aceitabilidade, por outro lado,</p><p>é mais centrada no receptor e na sua habilidade</p><p>de maior ou menor apreensão de um todo</p><p>coeso e coerente provido de significado.</p><p>Tanto a intencionalidade quanto a</p><p>aceitabilidade são fatores que se constituem</p><p>por meio do princípio de cooperação entre os</p><p>interlocutores, pois quem produz um texto tem sempre a intenção de que ele seja compreendido, assim como</p><p>quem o recebe espera que o texto faça sentido.</p><p>Situacionalidade</p><p>Um aspecto importante para a construção da textualidade é o fator situacionalidade, o qual, por sua vez, diz</p><p>respeito à relação do evento textual com a situação social/cultural maior. A situacionalidade refere-se ao</p><p>conjunto de fatores que torna um texto essencial em uma situação de comunicação corrente ou passível de</p><p>ser constituída.</p><p>Um texto sempre será adequado a uma ou outra situação</p><p>sociocomunicativa específica, assim como a quebra das</p><p>expectativas referentes à adesão contextual também pode</p><p>comprometer a construção do sentido, da textualidade. A</p><p>adequação ao contexto sociocomunicativo diz respeito</p><p>ainda ao uso apropriado de gêneros discursivos em</p><p>situações associadas à sua convencionalização de uso.</p><p>Intertextualidade</p><p>Atém-se ao caráter relacional existente entre dado texto e</p><p>os outros textos aos quais fomos previamente expostos na nossa experiência com o uso da língua. Como</p><p>aspecto interrelacional entre formas de linguagem, a intertextualidade é identificada em diferentes contextos,</p><p>podendo estar espelhada nas relações entre textos diferentes, textos e imagens etc.</p><p>A intertextualidade envolve as diversas maneiras pelas quais a produção e a recepção de um texto dependem</p><p>do conhecimento prévio de outros conhecimentos. Ambas estão relacionadas a fatores que tornam a</p><p>utilização de um texto dependente de um ou mais textos previamente existentes.</p><p>Informatividade</p><p>O último processo de textualização é a informatividade. Como tal, ela se refere à coerência prevista na</p><p>expressividade do texto e no desenvolvimento dos tópicos eleitos e conteúdos da produção textual.</p><p>A produção de sentidos vai além das unidades</p><p>informacionais imediatamente identificadas em</p><p>um texto. Ela se encontra, sobretudo, na junção</p><p>de tais unidades às implicaturas, às ideologias</p><p>e às escolhas em geral que serão responsáveis</p><p>pela criação da informatividade de um texto,</p><p>seja ele oral, escrito ou sinalizado.</p><p>A informatividade também está relacionada ao</p><p>grau de novidade e previsibilidade sobre os</p><p>tópicos contidos em um texto. Ela pode, com</p><p>isso, dificultar ou facilitar sua compreensão.</p><p>Gêneros do discurso, letramento e oralidade</p><p>O conceito de gênero discursivo e sua fluidez de uso são um ponto importante para o entendimento da</p><p>relação existente entre processo, contexto e interação no curso da produção textual. Na prática, porém, é</p><p>preciso falar de dois pontos importantes.</p><p>1</p><p>O primeiro ponto concerne ao próprio conceito</p><p>de gênero discursivo, que aponta para usos</p><p>linguísticos relativamente estáveis e previstos</p><p>em certos contextos interacionais.</p><p>2</p><p>O segundo – que, de certa forma, relativiza o</p><p>primeiro – mostra que, embora seja possível,</p><p>por um lado, falar da prototipicidade de gêneros</p><p>discursivos, há, por outro, uma vasta</p><p>possibilidade de usos dos gêneros de modo</p><p>fluido e híbrido, os quais não estão</p><p>necessariamente comprometidos com as</p><p>marcas prototípicas de cada grupo.</p><p>Desse modo, gêneros tidos como mais associados à oralidade, como a conversação, por exemplo, ou aqueles</p><p>mais ligados ao letramento, como o texto acadêmico, podem ser encontrados em contextos não</p><p>necessariamente comuns para seu uso, fator que, aliás, é muito comum.</p><p>O trabalho Da fala para a escrita: atividades de retextualização (MARCUSCHI, 2001) estabelece justamente a</p><p>necessidade de reconhecimento da distinção de usos linguísticos de gêneros orais e escritos. Nele, o autor</p><p>indica o contínuo existente entre os padrões de usos da língua socialmente orientados para se materializarem</p><p>de formas específicas em textos escritos e orais, desfazendo a visão dicotômica rígida que divide tanto a</p><p>língua falada da escrita quanto as práticas de letramento das práticas de oralidade.</p><p>Este esquema representa tal pensamento:</p><p>Gráfico: Fala e escrita no contínuo dos gêneros textuais.</p><p>Objetivamente, o autor apresenta uma proposta que dilui a visão de que um gênero pertence à fala ou à</p><p>escrita, mostrando que os gêneros se espraiam na língua de modo bem fluido.</p><p>Exemplo</p><p>Apesar de carregar muitas marcas de um texto escrito formal prototípico, uma palestra acadêmica é um</p><p>texto que se dá em um contexto oral. Trata-se, assim, de uma prática de oralidade. Da mesma forma,</p><p>uma conversa em aplicativo de conversa, como a que vimos acima, apesar de ocorrer em um contexto</p><p>escrito, desenvolve-se a partir de processos típicos da oralidade sem deixar de ser uma prática de</p><p>letramento.</p><p>Claramente, um dos suportes teóricos que sustenta a proposta de Marcuschi é a ideia de que a língua (o</p><p>texto) não pode ser vista distante dos contextos de uso nos quais ela se materializa e se constitui de uma ou</p><p>outra forma. A língua e o texto, em suma, estão relacionados com um contexto de interação.</p><p>Dessa forma, as práticas de oralidade e letramento são vistas como áreas complementares e macroespaços</p><p>de práticas sociais e culturais. O letramento envolve as diversas práticas de escrita na sociedade; a oralidade,</p><p>as práticas sociais orais e interativas.</p><p>Tais práticas se apresentam sob variadas formas ou gêneros textuais, podendo ser realizadas de modo</p><p>informal ou formal nos mais variados contextos de uso.</p><p>Oralidade e letramento são dois pontos de uma escala nos</p><p>quais se encontram múltiplas possibilidades de realizações</p><p>textuais orais e escritas que podem ser prototipicamente</p><p>mais ou menos afastadas dos modelos que representam o</p><p>texto escrito formal e a informalidade da conversação. No</p><p>fim das contas, textos escritos podem apresentar</p><p>características de oralidade – e vice-versa.</p><p>Na relação existente entre processo, contexto e interação</p><p>na produção textual, ocorrem todas estas questões:</p><p>Fatores de textualização e textualidade;</p><p>Macroprocessos de usos de gêneros em práticas de oralidades;</p><p>Letramentos diversos e complementares.</p><p>Conceito de texto: processo, contexto e interação</p><p>Neste vídeo, o professor apresenta as relações e marcas cotextuais e contextuais na produção da</p><p>textualidade, os diferentes processos textuais.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>A textualidade e seus processos</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Intencionalidade e aceitabilidade na textualidade</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>Questão 1</p><p>A textualidade resulta da articulação entre as relações linguísticas e estruturais, por um lado, e as situacionais</p><p>e sociocognitivas, por outro. Sendo assim, assinale a alternativa que apresenta uma afirmativa correta acerca</p><p>dessas relações.</p><p>A</p><p>Essas relações correspondem apenas às relações contextuais.</p><p>B</p><p>Essas relações correspondem apenas às relações cotextuais.</p><p>C</p><p>As relações cotextuais correspondem a aspectos linguísticos e estruturais.</p><p>D</p><p>As relações cotextuais correspondem a aspectos situacionais e sociocognitivos.</p><p>E</p><p>As relações cotextuais correspondem a aspectos linguísticos e situacionais.</p><p>A alternativa C está correta.</p><p>A textualidade ou tessitura é um processo que se dá a partir das relações cotextuais e contextuais. As</p><p>cotextuais dizem respeito a aspectos internos do texto e à dimensão linguística e estrutural, enquanto as</p><p>contextuais se referem a aspectos externos, como, por exemplo, a situação de comunicação e a dimensão</p><p>sociocognitiva. A integração entre essas relações é que contribui para a formação do texto.</p><p>Questão 2</p><p>Analise as afirmativas acerca dos processos textuais:</p><p>I. A textualidade implica tanto a configuração formal ou linguística quanto a configuração comunicativa,</p><p>abrangendo diferentes tipos de conhecimento, como o conhecimento textual, social e de mundo.</p><p>II. A textualidade é um processo que alcança uma configuração estrutural da língua caracterizada pelo</p><p>predomínio do conhecimento textual, sem haver uma participação do conhecimento prévio ou um</p><p>conhecimento de mundo.</p><p>III. Os fatores cotextuais estão presentes no processo da textualidade, fazendo parte da configuração</p><p>linguística, uma das configurações que resultam no texto.</p><p>IV. Os fatores contextuais correspondem à configuração formal na textualidade, articulando-se com a</p><p>configuração comunicativa, a qual, por sua vez, está relacionada com os aspectos estruturais ou linguísticos</p><p>do texto.</p><p>Está correto apenas o que se afirma em:</p><p>A</p><p>I e II.</p><p>B</p><p>I e III.</p><p>C</p><p>I e IV.</p><p>D</p><p>II e III.</p><p>E</p><p>III e IV.</p><p>A alternativa B está correta.</p><p>Há duas configurações que se relacionam na textualidade: a configuração formal (linguística) e a</p><p>comunicativa. Os fatores cotextuais correspondem à configuração formal; os contextuais, à configuração</p><p>comunicativa.</p><p>3. Conhecimentos linguístico, textual e extralinguístico</p><p>Conhecimento sistêmico ou linguístico</p><p>Abordaremos os conceitos de conhecimento sistêmico, conhecimento textual e conhecimento de mundo que</p><p>constam nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de língua materna e estrangeira (BRASIL, 1998) para</p><p>entendermos o que acontece quando interpretamos ou produzimos um texto. A ativação de conhecimentos</p><p>linguísticos e extralinguísticos (sociais e cognitivos) é bem representada por esses conceitos.</p><p>Interpretar, ler, compreender e produzir sentidos a partir do uso de uma língua requerem um</p><p>conhecimento do código. O conhecimento linguístico consiste exatamente nessa habilidade.</p><p>Para decodificar uma língua, é preciso possuir conhecimento sobre as palavras dela, assim como de suas</p><p>expressões idiomáticas e da forma como produzimos blocos comunicativos de sentidos, sejam eles sentenças</p><p>completas ou apenas sintagmas menos complexos. Tratamos aqui do conhecimento sistêmico (ou</p><p>conhecimento linguístico).</p><p>O conhecimento sistêmico está diretamente ligado ao processo de aquisição (aprendizagem) de linguagem</p><p>de:</p><p>L1</p><p>Uma língua materna ou primeira língua.</p><p>L2</p><p>Uma língua adicional ou segunda língua.</p><p>Os seres humanos possuem o melhor cenário para aquisição rápida de uma língua (principalmente durante</p><p>uma idade tenra), desde que isso ocorra segundo as condições necessárias para seu desenvolvimento. O</p><p>conhecimento sistêmico é justamente o resultado do curso dessa aquisição.</p><p>É o conhecimento sistêmico ou linguístico que garante a compreensão e a produção linguística nativa e mais</p><p>natural. O desenvolvimento do conhecimento sistêmico de uma L2 pode ser um pouco mais custoso por</p><p>diversas razões ligadas à natureza do processo de aquisição de uma língua adicional.</p><p>Transferências e interferências da L1 no aprendizado da L2, por exemplo, refletem a diferença dos processos</p><p>de aquisição de uma L1 e o aprendizado de uma L2, impactando no desenvolvimento do conhecimento</p><p>sistêmico. A compreensão e a produção textual, comparativamente falando, tornam-se mais complexas.</p><p>Conhecimento textual</p><p>Na visão mais tradicional sobre a compreensão leitora, defende-se que</p><p>é o conhecimento sistêmico o mais</p><p>importante para o alcance do sucesso da compreensão. Longe de negar a importância do conhecimento do</p><p>código, entretanto, atualmente se sabe que a capacidade de (de)codificação é apenas um nível da nossa</p><p>competência linguística.</p><p>Referentes ao uso adequado de tipologias textuais e gêneros discursivos, os aspectos textuais fazem parte de</p><p>nossa competência comunicativa maior e são fundamentais para a garantia do sucesso sociointeracional, seja</p><p>na compreensão e processamento de leitura, seja na produção linguística em si.</p><p>O conhecimento textual é fundamental para entendermos a forma como interpretamos e produzimos</p><p>textos falados escritos e sinalizados com mais ou menos eficácia.</p><p>O conhecimento textual diz respeito ao conjunto de habilidades desenvolvidas desde a aquisição de</p><p>linguagem sobre a forma como aprendemos a produzir textos de formatações convencionalizadas e que se</p><p>torna adequado e esperado em diferentes situações comunicativas.</p><p>Graças a tal conhecimento, sabemos como</p><p>adequar o uso da língua a uma conversa, o que</p><p>será diferente ao de uma palestra. Escolhemos</p><p>palavras adequadas a textos escritos ou orais a</p><p>partir do controle de seu registro (formal/</p><p>informal). Esperamos que o tema de uma fofoca</p><p>não seja o mesmo de uma palestra acadêmica.</p><p>Ainda aprendemos a expor uma ideia, a narrar</p><p>um fato, a descrever uma cena e a dar ordens e</p><p>a argumentar contra ou a favor de algo.</p><p>A aquisição desses conhecimentos segue ao longo de nossas vidas, já que vamos nos deparando com novas</p><p>situações interacionais, as quais são social, cultural e historicamente delimitadas. O foco na relação entre a</p><p>forma da língua e as suas funcionalidades já foi abordado por inúmeros estudiosos. Uma abordagem clássica é</p><p>a de Roman Jakobson (1969), que reúne, a partir dos fatores relacionados à interação verbal, seis funções da</p><p>linguagem, cada qual mais relacionada a um ou outro ponto da interação verbal.</p><p>O entendimento sobre a funcionalidade dos diferentes tipos de textos e de seus propósitos comunicativos e</p><p>sociais é fundamental para que possamos produzir e processar textos de modo eficaz. Tal conhecimento</p><p>também é abarcado pelo conhecimento textual de que aqui tratamos, particularmente quando ambos são</p><p>vistos em articulação com a discussão sobre gêneros discursivos e tipos textuais.</p><p>O conhecimento sobre gêneros discursivos (acadêmicos,</p><p>jornalísticos, conversacionais, pedagógicos etc.) e tipos</p><p>textuais (narração, dissertação, descrição, injunção e</p><p>argumentação) faz parte de nosso conhecimento textual,</p><p>sendo desenvolvidos pela e na experiência diversificada</p><p>com o uso da língua.</p><p>A compreensão, o processamento de leitura e a produção</p><p>textual como um todo dependem em grande tamanho do</p><p>que aqui chamamos de conhecimento textual. Isso acontece</p><p>ao usarmos nossa L1 e quando aprendemos uma L2.</p><p>Resumindo</p><p>O domínio do nível sentencial, como, por exemplo, as combinações de palavras na formação de orações,</p><p>não será de forma alguma suficiente para garantir a compreensão e a produção linguística em L1 ou L2,</p><p>pois dependemos do conhecimento acerca do funcionamento de gêneros e tipos textuais na construção</p><p>dos sentidos, entre outras coisas.</p><p>Situações como as que ocorrem no contexto de ensino superior, por exemplo, em que os alunos apresentam</p><p>dificuldades importantes na compreensão de um texto acadêmico, mostram que, apesar de nos mostrarmos</p><p>capazes de operar no nível sistêmico-sentencial via escolarização, não seremos necessariamente bem-</p><p>sucedidos na compreensão/produção linguística se não estivermos ambientados, mesmo na nossa L1, com as</p><p>características dos gêneros discursivos aos quais somos expostos a todo o tempo.</p><p>Uma situação semelhante ocorre com o</p><p>aprendiz de uma L2 que, ao se deparar com</p><p>uma conversação real da língua adicional, pode</p><p>encontrar dificuldade de compreensão do texto</p><p>em produção por falta de familiaridade com as</p><p>reais marcas linguísticas, pragmáticas e</p><p>conteudistas que determinam tal gênero nessa</p><p>determinada língua.</p><p>É comum que o ensino de L2 – que, em geral,</p><p>acontece desgarrado de situações</p><p>comunicativas reais – não permita o pleno</p><p>domínio de determinadas marcas dos gêneros discursivos por elas focalizarem mais aspectos linguísticos, ou</p><p>seja, aspectos no nível da (de)codificação.</p><p>Consideramos aspectos fundamentais do nosso conhecimento textual a:</p><p>Referenciação Coesão e coerência</p><p>Organização tópica</p><p>Sabemos – e a todo tempo estamos reaprendendo – como dar sequência, recuperar e (re)conectar</p><p>informações entre expressões a fim de formar sentidos específicos e eficazes, mantendo uma organização</p><p>lógica sobre o que estamos falando. Assim, lidamos coesivamente com o cotexto (nível das relações internas</p><p>do texto), assim como o fazemos com o nível contextual maior, o qual, por sua vez, exige concordância,</p><p>coerência e sequenciação lógica do conteúdo e de sua relação com o mundo.</p><p>Além do conhecimento a respeito de aspectos sobre coesão e coerência, também mantemos um controle</p><p>constante sobre como apresentar determinado tópico, isto é, um assunto. Sabemos como mantê-lo como</p><p>ponto de reflexão, retomando, por intermédio de diferentes processos de referenciação, a expressividade que</p><p>desejamos e o efeito de sentido que queremos aplicar quando embalamos o discurso. Com isso, a</p><p>referenciação e a organização tópica, pontos que se sobrepõem inclusive com o nível de conhecimento</p><p>sistêmico, fazem parte (ou, aos poucos, passam a fazê-lo) de nosso conhecimento linguístico, impactando</p><p>diretamente a eficácia no nível da compreensão, o processamento de leitura e a produção linguística em L1 e</p><p>em L2. Nesse sentido, podemos ver a complementaridade dos conhecimentos sistêmicos e textual.</p><p>Implicações do conhecimento linguístico e textual</p><p>A necessidade do trabalho de ensino de línguas via gêneros discursivos decorre do papel relevante do</p><p>conhecimento textual para a compreensão e a produção de textos.</p><p>Dessa forma, seja no escopo da língua materna ou no de</p><p>uma língua adicional, torna-se necessário que o ensino da</p><p>língua se volte para o trabalho com a produção real em</p><p>textos culturalmente verificáveis no cotidiano do aluno,</p><p>possibilitando-lhe a ativação desse tipo de conhecimento</p><p>para o uso corrente da língua.</p><p>Não devemos nos esquecer de que o mundo digital impôs o</p><p>surgimento de novas linguagens e, acima de tudo, de novas</p><p>possibilidades de interação entre linguagens. Dessa</p><p>maneira, os conceitos de letramento e oralidade,</p><p>fortemente associados ao conceito de conhecimento textual, abarcam as experiências do indivíduo sobre</p><p>práticas discursivas diversas e são revistos em função das múltiplas práticas discursivas que emergem a partir</p><p>de então.</p><p>Para fins de ativação de conhecimentos linguísticos e extralinguísticos que possibilitem o uso linguístico eficaz</p><p>por parte do aluno, esse ponto se torna mais uma demanda para o contexto educacional. Também decorre daí</p><p>outro ponto que merece destaque em um trabalho educacional com foco na ativação de conhecimentos</p><p>linguísticos e extralinguísticos para a produção, a compreensão e o processamento de leitura: a</p><p>multimodalidade.</p><p>A multimodalidade corresponde à realidade de os textos poderem trabalhar com diferentes modalidades de</p><p>linguagem. Os textos podem ser elaborados a partir da palavra escrita e oral, das imagens, dos sons e de</p><p>outras manifestações expressivas.</p><p>Exemplo</p><p>Charges, tirinhas, memes e hipertextos digitais.</p><p>A compreensão/produção textual no contexto multimodal torna-se extremamente sujeita aos conhecimentos</p><p>linguísticos, textuais e de mundo. Novas formas linguísticas, novos gêneros digitais e novos conhecimentos de</p><p>mundo estão implicados na maneira com que o indivíduo há de compreender, formar e produzir sentidos,</p><p>posicionando-se na nova sociedade virtual.</p><p>No contexto da multimodalidade, em que vídeos, textos escritos, emoticons, imagens e hiperlinks interagem</p><p>em um mesmo espaço, o que se sabe sobre a compreensão, o processamento de leitura e a produção textual</p><p>é revisto o tempo todo.</p><p>São reconstruídas, dessa forma, a ideia de que a</p><p>leitura se dá por um processo linear de decodificação e a de</p><p>que a compreensão ocorre de forma descontextualizada da gama de conhecimentos disponíveis no texto e</p><p>fora dele. Além de se reconfigurar o papel de agentes sociointeracionais dos interlocutores, reinterpreta-se a</p><p>leitura de intenções das produções no contexto digital.</p><p>Conhecimento de mundo</p><p>Por fim, para se entender a complexidade da atuação dos fatores linguísticos e extralinguísticos atuantes na</p><p>compreensão, no processamento de leitura e na produção textual, deve-se refletir sobre o papel que os PCNs</p><p>e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) chamam de conhecimento de mundo ou até denominam</p><p>conhecimentos prévios (BRASIL, 1998; 2018).</p><p>A experiência prévia (ou conhecimento prévio) do indivíduo promove ou dificulta:</p><p>A compreensão A produção textual</p><p>O processamento de leitura</p><p>A partir do que já vivemos e experimentamos, somos capazes (ou não) de fazer articulações, identificar</p><p>intertextos, fazer analogias, formar novas categorizações etc. O conhecimento de mundo (ou conhecimento</p><p>enciclopédico) consiste nas nossas experiências em geral, sejam elas linguísticas ou não. Um indivíduo pode</p><p>apresentar grande dificuldade em articular informações associadas ao conhecimento sistêmico ou textual,</p><p>porém, a depender de seu conhecimento de mundo ou repertório, isto é, do tipo de informação que ele pode</p><p>ativar sobre determinado assunto, ele será capaz de apresentar certo sucesso comunicativo de entendimento</p><p>e de expressividade.</p><p>As inferências e as associações advindas do conhecimento de mundo podem permitir interpretações textuais,</p><p>inclusive em contextos nos quais os indivíduos pouco ou nada sabem sobre a língua ou o tipo/gênero textual</p><p>em questão. É o conhecimento de mundo que favorece o processo de compreensão textual pela articulação</p><p>entre elementos do texto e outros relacionados à construção do sentido. Dessa forma, o conhecimento de</p><p>mundo constitui um dos fatores responsáveis pela construção da coerência textual.</p><p>Saiba mais</p><p>No Brasil, o ensino de língua materna e estrangeira já é orientado por esse caminho: o ensino de línguas,</p><p>afinal, deve estar centrado na exploração do conhecimento sistêmico, textual e de mundo do aluno para</p><p>que ele tenha mas sucesso comunicativo e maior engajamento como cidadão crítico do seu entorno.</p><p>Em seu escopo, o trabalho proposto pelos PCNs de língua materna e estrangeira, pelas Orientações</p><p>Curriculares para o Ensino Médio (OCEM) e pela BNCC prevê o enquadramento de gêneros discursivos tanto</p><p>com foco na compreensão quanto na produção linguística. Mais do que isso, o trabalho em sala de aula tem</p><p>de valorizar a variante falada pelos alunos, levando-os ao aprendizado mais abrangente e menos</p><p>preconceituoso sobre linguagens.</p><p>Com isso, as diversas práticas sociais faladas e escritas de nossa sociedade – o que Marcuschi (2001)</p><p>classifica por oralidade e letramento – tornam-se potenciais objetos de ensino, tendo em vista a formação</p><p>global e cidadã do aluno, assim como o ensino da gramática tradicional. As relações ideológicas ou as</p><p>determinações culturais presentes nos textos formam um novo grupo importante de conhecimentos</p><p>extralinguísticos acionáveis no curso do processo de compreensão, processamento e produção textual.</p><p>A linguística textual interage com a análise do discurso ao observar as relações de discurso e poder</p><p>de nossa sociedade, as quais, por sua vez, estão o tempo todo refletidas nos textos.</p><p>O entendimento mais profundo deles requer tanto a observação quanto o conhecimento sobre as diferentes</p><p>formas pelas quais as estruturas sociais são refletidas e/ou perpetuadas nos textos orais, escritos e</p><p>sinalizados que produzimos.</p><p>Assim, a LT também desenvolve estudos de base crítica acerca do papel do discurso na (re)produção dos</p><p>valores e das macroestruturas sociais. Em particular, a abordagem mais crítica do texto permite o</p><p>apontamento da desigualdade, que se dá por meio do abuso de poder ou da dominação de determinados</p><p>grupos em relação ao público em geral: as massas, os clientes ou os alunos, grupos que, em suma, são</p><p>dependentes de relações institucionais e de organização e poder.</p><p>No âmbito do ensino, a LT permite uma abordagem crítica de diferentes gêneros discursivos (institucionais e/</p><p>ou profissionais) existentes e controlados pelas estruturas sociais vigentes.</p><p>Exemplo</p><p>O discurso pedagógico ou midiático e conversas situacionalmente localizadas.</p><p>Essa abordagem crítica dos diversos gêneros discursivos permite a ativação de conhecimentos mais</p><p>profundos acerca das realidades sociais dos alunos. Em suma, a ativação de conhecimentos linguísticos e</p><p>extralinguísticos apresenta dois aspectos ou lados:</p><p>É um fato comum presente no curso da compreensão, do processamento e da produção textual.</p><p>Torna-se um ponto importante a ser observado no âmbito da educação, já que cabe à escola a</p><p>aplicação de um trabalho educacional focado no desenvolvimento dessas mesmas habilidades por</p><p>parte dos alunos.</p><p>Somente integrando os conhecimentos linguísticos e extralinguísticos, poderemos aproveitar de modo eficaz</p><p>os desdobramentos teóricos advindos da linguística textual.</p><p>Conhecimento linguístico, textual e de mundo</p><p>Neste vídeo, o professor fala sobre a atuação do conhecimento linguístico ou sistêmico, do conhecimento</p><p>textual e do conhecimento de mundo na produção da textualidade.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.</p><p>Conhecimento linguístico e extralinguístico na produção do texto</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>•</p><p>•</p><p>Implicações do conhecimento linguístico e textual</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>Questão 1</p><p>Analise as afirmativas a seguir:</p><p>I. O conhecimento sistêmico ou linguístico contribui para a identificação dos elementos internos do texto e se</p><p>relaciona com o domínio do código utilizado.</p><p>II. O conhecimento textual, assim como o conhecimento linguístico, diz respeito ao repertório ou aos</p><p>conhecimentos prévios mobilizados na produção e na recepção do texto.</p><p>III. O conhecimento sistêmico é suficiente para a produção do texto, bem como para os processos de leitura,</p><p>pois o texto se resume à sua estrutura interna.</p><p>Está correto apenas o que se afirma em:</p><p>A</p><p>I.</p><p>B</p><p>II.</p><p>C</p><p>III.</p><p>D</p><p>I e II.</p><p>E</p><p>II e III.</p><p>A alternativa A está correta.</p><p>A afirmativa I está correta, pois, na textualidade, são ativados conhecimentos linguísticos, textuais e</p><p>extralinguísticos, sendo o conhecimento linguístico ou sistêmico relacionado com o código, a aquisição da</p><p>língua e sua estrutura ou sistema. Já a II está incorreta, porque o conhecimento textual não corresponde ao</p><p>conhecimento enciclopédico ou aos conhecimentos prévios, e sim aos tipos textuais e gêneros discursivos.</p><p>Por fim, a III também está errada, já que o conhecimento linguístico é necessário, mas não suficiente na</p><p>produção e interpretação do texto, pois o texto é mais do que seus elementos internos ou linguísticos.</p><p>Questão 2</p><p>O processo de produção e recepção do texto envolve o conhecimento linguístico, textual e de mundo. Na</p><p>interpretação/produção textual, o conhecimento de mundo atua como</p><p>A</p><p>parâmetro para a identificação dos elementos estruturais ou sistêmicos do texto.</p><p>B</p><p>parâmetro para a produção das marcas linguísticas relacionadas com aspectos formais.</p><p>C</p><p>parâmetro que pode potencializar o resultado final da elaboração do texto ou do processo de leitura.</p><p>D</p><p>recurso suficiente para elaborar textos de diferentes gêneros discursivos e dispensável para as práticas de</p><p>leitura.</p><p>E</p><p>recurso que pode prover mecanismos de interpretação baseados em aspectos internos ao texto.</p><p>A alternativa C está correta.</p><p>O conhecimento de mundo é um fator diretamente ligado ao maior ou menor sucesso da interpretação</p><p>textual. Trata-se de um parâmetro e recurso necessário, ainda que não suficiente, no processo de</p><p>textualização</p><p>e atribuição de sentidos. Assim, como conhecimento extralinguístico, o conhecimento de</p><p>mundo precisa estar articulado com os demais conhecimentos, ainda que, na falta dos demais, ele consiga</p><p>suprir muitas lacunas.</p><p>4. Construção dos sentidos no texto: coerência textual</p><p>Coerência e textualidade</p><p>Nossa capacidade de produzir e processar textos orais, escritos ou sinalizados está ligada a um conjunto de</p><p>processos responsável pela construção dos sentidos.</p><p>A partir da linguística textual, temos tratado dos aspectos responsáveis pela construção do texto ou de sua</p><p>textualidade. Em outras palavras, abordamos os aspectos responsáveis pela construção da coerência textual,</p><p>aquilo que traz textualidade a uma sequência linguística, tornando-a um texto, uma unidade significativa</p><p>global, e não um amontoado de palavras (KOCH; TRAVAGLIA, 1999).</p><p>Devemos nos lembrar de que, nos módulos anteriores, vimos que o processo sociointeracional de construção</p><p>da coerência textual ocorre a partir de diferentes pontos de vista:</p><p>Formal/gramatical</p><p>Relacionado à coesão.</p><p>Funcional-comunicativo</p><p>Associado às funções mais fundamentais de um</p><p>texto, ou seja, a comunicação e a interação.</p><p>Textual</p><p>Relacionado à adequação da aplicabilidade e</p><p>aos propósitos de usos de tipos e gêneros</p><p>textuais específicos.</p><p>Ideológico</p><p>Associado às questões ideológicas e</p><p>discursivas que permeiam a construção da</p><p>expressividade.</p><p>A coerência é resultado da interação desses múltiplos fatores. Ela, afinal, é o fenômeno linguístico responsável</p><p>pela construção de sentido que garante a interpretabilidade de um texto.</p><p>Atividade discursiva</p><p>Observemos o trecho a seguir:</p><p>As crianças deixaram os brinquedos espalhados no chão. O time do Corinthians venceu. Marcela foi à feira.</p><p>Ninguém havia solicitado o relatório. A manteiga era suficiente. O carro, então, enguiçou.</p><p>A leitura rápida do trecho nos permite chegar a algumas conclusões sobre ele:</p><p>O conjunto de frases em jogo não compõe uma unidade global de sentido, ou seja, não compõe um</p><p>texto;</p><p>Do ponto de vista do desenvolvimento do conteúdo ou do ponto de vista gramatical-articulatório, não</p><p>ocorre a construção de um texto;</p><p>Ao se considerar isoladamente cada sentença em questão, verifica-se que elas são unidades</p><p>significativas;</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>Há vários textos em um único espaço, mas não um único texto composto por essas mesmas frases.</p><p>Mas o que nos permite identificar tais aspectos sobre esse trecho?</p><p>Chave de resposta</p><p>A resposta comporta dois pontos:</p><p>A não articulação de conteúdos;</p><p>A não articulação gramatical.</p><p>A ausência dessas articulações evidencia que a sequência linguística em questão não se trata de um texto.</p><p>O mesmo argumento (o da articulação gramatical e conteudista) nos permite garantir a interpretabilidade</p><p>das sentenças constituintes do trecho e identificá-las isoladamente como textos.</p><p>Veja agora a seguinte sequência linguística:</p><p>Ele estava gripado. Não foi ao trabalho.</p><p>Do ponto de vista do conteúdo, existe uma unidade global de sentido, a qual, por sua vez, é formada por duas</p><p>outras unidades menores, a despeito de não haver um conectivo, um elemento gramatical, que unifique</p><p>explicitamente as sentenças em um único bloco de sentido. Vê-se nessa sequência que a construção da</p><p>coerência textual não ocorre apenas por meio de ligações gramaticais, mas também – e acima de tudo – por</p><p>relações de sentido de orientação pragmática, ideológica, funcional e discursiva.</p><p>A ligação de sentido estabelecida entre as orações do texto acontece cognitivamente por um processo</p><p>pragmático particular de busca de coerência e unificação de sentidos. Apenas os mecanismos de coesão não</p><p>fariam de um conjunto de frases um texto, já que o texto, por si só, prescinde de certo grau de envolvimento</p><p>de vários componentes linguísticos e extralinguísticos na situação de fala. De todo modo, o primeiro aspecto</p><p>que desejamos destacar para pensarmos sobre o processo de construção da coerência textual é a própria</p><p>coesão, isto é, o nível das relações lineares entre os itens do texto.</p><p>A coesão a serviço da coerência</p><p>Relembremos que a coesão e a coerência estão relacionadas a diferentes aspectos:</p><p>Coesão</p><p>Está relacionada à estrutura superficial do</p><p>texto, ou seja, ao nível estritamente linguístico.</p><p>Coerência</p><p>Manifesta-se macrotextualmente, relacionando-</p><p>se à transmissão de conhecimentos ou</p><p>conteúdos na viabilização da existência de</p><p>sentidos.</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>Podemos afirmar, portanto, que há uma relação direta entre o nível gramatical e o conceitual do texto, sendo a</p><p>cadeia gramatical compreendida por meio de pequenas partes do texto, enquanto a conceitual o é graças ao</p><p>conjunto de fatores atuantes no nível global.</p><p>Analisemos a seguinte frase:</p><p>Ele estava gripado, por isso não foi ao trabalho.</p><p>Agora vemos que o sentido de consequência entre as orações é produzido por uma articulação que ocorre por</p><p>meio da realização explícita de um conectivo, ou seja, por meio do processo de coesão gramatical. Nesse</p><p>sentido, a coesão está a serviço da coerência, uma vez que, por meio dela, os sentidos do texto também são</p><p>estabelecidos, mostrando como tais elementos assumem um papel essencial no estabelecimento da</p><p>coerência em textos.</p><p>A despeito da relevância dos aspectos pragmáticos, discursivos e cognitivos (conhecimento de mundo) na</p><p>construção da coerência textual, a observação do papel das marcas linguísticas como pistas na construção do</p><p>sentido do texto é de extrema importância. É fundamental levar em conta a relação dos elementos linguísticos</p><p>(fonético/fonológico, morfológico/lexical e sintático/semântico) com os de ordem pragmático-discursiva para</p><p>o estabelecimento de uma “coesão” de caráter mais pragmático e a consequente produção do sentido do</p><p>texto.</p><p>Resumindo</p><p>A coesão é o processo por meio do qual partes do texto são conectadas para garantir o</p><p>desenvolvimento proposicional, ou seja, ela está ligada aos aspectos gramaticais do texto. Já a</p><p>coerência incorpora, nesse sentido, as condições coesivas, estando ainda diretamente ligada à</p><p>dimensão pragmática, à situação de fala, tão relevante para a construção do sentido no texto.</p><p>Funções da linguagem e coerência</p><p>Outro fator importante para o entendimento da construção da coerência diz respeito ao nosso conhecimento</p><p>acerca das funções da linguagem, dos propósitos sociais e convencionalizados de tipos textuais e gêneros</p><p>discursivos. O uso da língua apresenta funcionalidades diferenciadas a depender dos fatores intervenientes</p><p>da interação verbal.</p><p>Relembremos as funções da linguagem mais tradicionais e os fatores da interação verbal a cada uma delas</p><p>relacionados:</p><p>1</p><p>Função referencial ou denotativa</p><p>Transmitir informação ou dados da realidade.</p><p>2 Função emotiva ou expressiva</p><p>Expressar juízos, opiniões, emoções, valores ou estados de espírito do emissor.</p><p>3</p><p>Função conativa ou apelativa</p><p>Persuadir ou influenciar o receptor.</p><p>4</p><p>Função fática</p><p>Iniciar ou manter a comunicação.</p><p>5</p><p>Função metalinguística</p><p>Tratar da própria linguagem.</p><p>6</p><p>Função poética</p><p>Produzir efeito de sentido no receptor.</p><p>O conhecimento de tais fatores, isto é, das múltiplas funções da linguagem cotidianamente identificadas no</p><p>uso, também contribui para a construção de uma face pragmática importante do sentido e da coerência</p><p>textual.</p><p>Exemplo</p><p>Se o foco da mensagem está mais voltado para a tentativa do locutor em convencer, influenciar ou atuar</p><p>nas escolhas e nas percepções do interlocutor, é possível afirmar que a língua cumpre</p><p>predominantemente sua função conativa, que é típica do discurso da propaganda, da venda e do</p><p>convencimento em geral. O usuário da língua será capaz de capturar essa função se estiver a par dos</p><p>aspectos formais e funcionais relacionados ao uso da função conativa, sem estar sujeito a interpretações</p><p>ambíguas ou mesmo à impossibilidade de interpretação.</p><p>A coerência se estabelece na interação e na interlocução, ou seja, em uma situação comunicativa entre dois</p><p>usuários. Ela depende, entre tantos fatores, de fatores socioculturais diversos, o que evidencia a importância</p><p>da</p><p>dimensão pragmática na construção de sentido.</p><p>Tipos e gêneros textuais na construção da coerência</p><p>Outro ponto ligado a essa questão é o papel</p><p>exercido pelo conhecimento das características</p><p>de textos de diferentes gêneros discursivos e</p><p>tipologias textuais. Os textos são</p><p>materializados em interações sociais diversas,</p><p>cumprindo, assim, funcionalidades e sentidos</p><p>relacionados aos seus gêneros e aos tipos</p><p>textuais mais associados.</p><p>Textos acadêmicos possuem funcionalidades</p><p>específicas e diferenciadas daquelas presentes</p><p>em textos jornalísticos, conversacionais,</p><p>ficcionais etc.</p><p>O domínio sobre o funcionamento dos gêneros discursivos e dos tipos textuais é fundamental, pois ele</p><p>contribui diretamente para a formação de sentidos e funcionalidades maiores de seus interlocutores, ou seja,</p><p>para a coerência textual deles.</p><p>O quadro adiante exemplifica tal discussão ao apresentar três gêneros discursivos distintos, assim como suas</p><p>funções sociais e a tipologia textual costumeiramente associada a eles:</p><p>Gênero discursivo Papel instrumental Tipologia textual mais</p><p>associada</p><p>História em</p><p>quadrinho</p><p>Divertir, contar histórias, criticar Narração</p><p>Notícia Informar, verificar, criticar</p><p>Narração, descrição,</p><p>exposição</p><p>Bula de remédio</p><p>Apresentar instruções ou</p><p>orientações</p><p>Injunção</p><p>Tabela: Função de tipos e gêneros textuais.</p><p>Roberto de Freitas Junior.</p><p>A produção e a compreensão linguística com base no significado são produzidas pela reunião dos seguintes</p><p>fatores:</p><p>A adequação social das formas</p><p>linguísticas</p><p>O papel instrumental dos gêneros</p><p>discursivos ou textuais</p><p>O uso de formas linguísticas apropriadas</p><p>a determinadas funções comunicativas</p><p>especificas</p><p>O conhecimento textual revelado no domínio das características tipológicas textuais e dos próprios gêneros</p><p>discursivos está profundamente comprometido, portanto, com a construção da coerência textual.</p><p>A interação verbal</p><p>Outro importante domínio que contribui bastante para a construção da coerência textual é o que diz respeito</p><p>ao fato de a interação verbal ser o lócus da materialização, isto é, da prática, de valores e ideologias sociais</p><p>estabelecidas.</p><p>Comportamentos e ideologias que perpassam o pensamento social vigente são entendidos como formados e</p><p>reformados pela e na linguagem. Dessa forma, podemos observar questões culturais e ideológicas presentes</p><p>nos discursos serem materializadas em textos.</p><p>Nesse sentido, a linguagem resulta e forma o contexto sócio-histórico mais amplo, constituindo os valores</p><p>daquela sociedade. Tal fato novamente contribui para o entendimento dos propósitos (explícitos ou não) dos</p><p>textos em termos ideológicos.</p><p>Relembrando</p><p>O fenômeno da coerência textual pode ser caracterizado por meio do princípio de interpretabilidade do</p><p>texto, abrangendo os seguintes fatores: linguísticos, cognitivos e interacionais. A coerência determina</p><p>quais elementos constituem a estrutura superficial do texto e de que modo eles se organizam na</p><p>sequência linguística.</p><p>A coerência abrange, no fim das contas, aquilo que determina a natureza do que entendemos por</p><p>conhecimento sistêmico (linguístico), conhecimento textual e conhecimento de mundo. Além desses fatores, o</p><p>conhecimento partilhado entre os interlocutores no ato da produção textual implica uma condição</p><p>fundamental para a construção de sua coerência interna e externa.</p><p>A situacionalidade, a informatividade, a intertextualidade, a intencionalidade e a aceitabilidade são alguns dos</p><p>fatores que contribuem para a ativação de conhecimentos diversos, dizendo respeito à relação estabelecida</p><p>entre o texto e o seu contexto imediato e global.</p><p>A coerência na construção dos sentidos no texto</p><p>Neste vídeo, o professor explica a inter-relação entre coerência e coesão na construção do sentido no texto e</p><p>os fatores de coerência, destacando as funções da linguagem.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.</p><p>Tipos e gêneros textuais na construção da coerência</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Interação verbal como fator de coerência</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>Questão 1</p><p>Analise as afirmativas a seguir:</p><p>I. A construção da coerência é um processo que também ocorre pela articulação entre as partes do texto, ou</p><p>seja, por intermédio das relações orgânicas internas do texto, o que está relacionado com a coesão.</p><p>II. A coerência deve ser compreendida a partir dos aspectos semânticos do texto, pois ela depende de cada</p><p>parte do texto fazer sentido por si mesma, ou seja, isoladamente.</p><p>III. A coerência está mais ligada à macroestrutura do texto, enquanto a coesão, ao nível estritamente</p><p>linguístico, está mais associada à estrutura superficial dele.</p><p>Está correto apenas o que se afirma em:</p><p>A</p><p>I.</p><p>B</p><p>II.</p><p>C</p><p>III.</p><p>D</p><p>I e II.</p><p>E</p><p>I e III.</p><p>A alternativa E está correta.</p><p>A textualidade tem na coerência e na coesão textual um importante fundamento, pois um texto desconexo,</p><p>desprovido de sentido e sem articulações orgânicas e adequadas atua contra o próprio conceito de texto,</p><p>isto é, de tessitura. Assim, no contexto dos estudos da linguística textual, é necessário compreender a</p><p>construção da coerência a partir da inter-relação entre coerência e coesão. Além disso, a coesão está mais</p><p>ligada aos aspectos superficiais e especificamente linguísticos do texto; a coerência, aos aspectos</p><p>macrotextuais e aos sentidos do texto.</p><p>Questão 2</p><p>O conhecimento acerca das funções da linguagem pode contribuir para o processo de construção da</p><p>coerência na produção e recepção do texto. Qual alternativa apresenta uma justificativa adequada para a</p><p>importância das funções da linguagem na construção da coerência?</p><p>A</p><p>As funções da linguagem possibilitam uma taxonomia do texto, ou seja, a classificação formal de cada tipo de</p><p>texto.</p><p>B</p><p>As funções da linguagem correspondem a diferentes objetivos ou intenções na interação verbal, constituindo</p><p>um aspecto pragmático que atua na produção do sentido.</p><p>C</p><p>As funções da linguagem permitem rotular cada texto de acordo com sua estrutura interna, consistindo em</p><p>uma gramática do texto.</p><p>D</p><p>A coerência textual depende das funções da linguagem, porque o sentido do texto é estabelecido por uma</p><p>única intencionalidade, objetivo ou propósito.</p><p>E</p><p>A linguagem possui um fator de interação verbal em cada situação de comunicação, o que caracteriza o texto</p><p>como uma construção monológica.</p><p>A alternativa B está correta.</p><p>A coerência textual também está relacionada às funções da linguagem, pois essas funções correspondem a</p><p>diferentes fatores de interação verbal, o que demanda a produção de um texto coerente com a expectativa</p><p>e os elementos de cada situação de comunicação. Por conta disso, não é correto justificar a importância</p><p>das funções da linguagem apenas pelo aspecto classificatório, gramatical ou linguístico nem deixar de</p><p>reconhecer que o texto é dialógico e pode conter mais de uma intencionalidade ou função da linguagem.</p><p>5. Conclusão</p><p>Considerações finais</p><p>Estudamos neste conteúdo alguns dos principais pontos desenvolvidos no âmbito dos estudos da linguística</p><p>do texto, como os processos de textualização, o conceito de textualidade e o papel dos conhecimentos</p><p>sistêmico, textual e de mundo para a construção do texto.</p><p>Pelo conjunto de informações que trabalhamos, vimos que a linguística textual é uma área de fundamental</p><p>importância para a educação linguística em língua materna e estrangeira por colocar em destaque aspectos</p><p>basilares para o desenvolvimento do usuário da língua, seja qual for a sua modalidade. Além disso,</p><p>aprendemos que a linguística textual vai além do estudo isolado das frases, colocando o texto no centro das</p><p>atenções.</p><p>Podcast</p><p>Neste podcast, o professor aborda os principais conceitos da linguística textual, destacando as relações</p><p>de cotexto e contexto, a atuação dos conhecimentos linguísticos e extralinguísticos na textualidade e a</p><p>coerência</p>