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<p>1</p><p>Estudos sobre</p><p>Apocalipse</p><p>temas introdutórios</p><p>Série</p><p>6 Santuário e profecias</p><p>apocalípticas</p><p>Frank B. Holbrook, Editor</p><p>Estudos sobre</p><p>Apocalipse</p><p>temas introdutórios</p><p>Série</p><p>6 Santuário e profecias</p><p>apocalípticas</p><p>Frank B. Holbrook, Editor</p><p>1ª edição — 2012</p><p>Imprensa Universitária Adventista</p><p>Centro Universitário Adventista de São Paulo</p><p>Fundado em 1915 — www.unasp.edu.br</p><p>Missão: Educar no contexto dos valores bíblico-cristãos para o viver pleno e a excelência no servir.</p><p>Visão: Ser um centro universitário reconhecido através da excelência dos serviços prestados, dos seus elevados</p><p>padrões éticos e da qualidade pessoal e pro� ssional de seus egressos.</p><p>Imprensa Universitária Adventista</p><p>Editor: Renato Groger</p><p>Editor Associado: Rodrigo Follis</p><p>Conselho Editorial:</p><p>José Paulo Martini, Afonso Cardoso, Elizeu de Sousa, Francisca Costa, Adolfo Suárez, Emilson dos</p><p>Reis, Renato Groger, Ozeas C. Moura, Betania Lopes, Martin Kuhn</p><p>A Unaspress está sediada no Unasp, campus Engenheiro Coelho, SP.</p><p>Administração da Entidade</p><p>Mantenedora (UCB)</p><p>Presidente: Domingos José de Souza</p><p>Secretário: Emmanuel Guimarães</p><p>Tesoureiro: Élnio Álvares de Freitas</p><p>Administração Geral do Unasp</p><p>Campus Eng. 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Moura</p><p>Faculdade Adventista de</p><p>Hortolândia</p><p>Diretor Geral: Euler Pereira Bahia</p><p>Diretora de Graduação: Elna Cress</p><p>Diretora de Pós-Graduação, Pesquisa e Extensão:</p><p>Eli Andrade Rocha Prates</p><p>Dados Internacionais da Catalogação na Publicação (CIP)</p><p>(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)</p><p>Caixa Postal 11 – Unasp</p><p>Engenheiro Coelho-SP 13.165-000</p><p>(19) 3858-9055</p><p>www.unaspress.unasp.edu.br</p><p>Imprensa Universitária Adventista</p><p>Editoração: Renato Groger, Rodrigo Follis</p><p>Programação visual: Pedro Valença</p><p>Diagramação: Felipe Rocha</p><p>Capa: Flávio Luís, Marcio Trindade</p><p>Revisão: Matheus Cardoso</p><p>Normatização: Felipe Carmo, Giulia Pradela</p><p>Estudos sobre apocalipse: temas introdutórios</p><p>1ª edição – 2013</p><p>5.000 exemplares</p><p>Todos os direitos em língua portuguesa reserva-</p><p>dos para a Unaspress. Proibida a reprodução por</p><p>quaisquer meios, salvo em breves citações, com</p><p>indicação da fonte.</p><p>Todo o texto, incluindo as citações, foi adap-</p><p>tado segundo o Acordo Ortográ� co da Língua</p><p>Portuguesa, assinado em 1990, em vigor desde</p><p>janeiro de 2009.</p><p>Índices para catálogo sistemático:</p><p>sumário</p><p>7 Princípios fundamentais de interpretação</p><p>43 As oito</p><p>61 Cenas da “Introdução Vitoriosa”</p><p>85 Interpretando o simbolismo do Apocalipse</p><p>117 Tipologia do santuário</p><p>157 Relações entre Daniel e Apocalipse</p><p>173 O uso de Daniel e Apocalipse por Ellen G. White</p><p>193 O intérprete e o uso dos escritos de Ellen G. White</p><p>207 Debates contemporâneos sobre o Apocalipse</p><p>217 Selos e trombetas: algumas discussões atuais</p><p>235 Os sete selos</p><p>285 Os santos selados e a grande tribulação</p><p>321 O anjo forte e sua mensagem</p><p>369 Profecias de tempo de Daniel 12 e Apocalipse 12-13</p><p>Sinopse editorial. Os cristãos</p><p>conservadores creem que a men-</p><p>sagem da Bíblia transcende seu tem-</p><p>po e cultura. Consequentemente, en-</p><p>quanto os anos passam e a distância</p><p>dos séculos se amplia entre o mundo</p><p>antigo e o moderno, torna-se cada vez</p><p>mais importante que os estudantes</p><p>das Escrituras se comprometam com</p><p>sólidos princípios de interpretação</p><p>para que não interpretem erronea-</p><p>mente a Palavra de Deus. Isto é espe-</p><p>cialmente verdade quanto à descober-</p><p>ta das verdades expressas nos livros</p><p>apocalípticos de Daniel e Apocalipse.</p><p>Neste importante capítulo, o</p><p>autor explica em detalhes as carac-</p><p>terísticas da profecia apocalíptica,</p><p>PrincíPios fundamentais</p><p>de interPretação</p><p>Kenneth A. Strand</p><p>1</p><p>Esboço do capítulo</p><p>1. Abordagens interpretativas ao Apocalipse</p><p>2. Exegese, teologia e hermenêutica</p><p>3. Regras gerais de interpretação</p><p>4. Regras especiais para a interpretação apocalíptica</p><p>5. Propósito e tema do Apocalipse</p><p>6. Estrutura literária do Apocalipse</p><p>Princípios fundamentais de interpretaçãoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>8 9</p><p>destaca o propósito e o tema do livro de Apocalipse, explora a natureza do</p><p>seu simbolismo e aponta o caminho para determinar o seu significado.</p><p>Todos os sistemas de interpretação do Apocalipse devem começar local-</p><p>izando seus diversos segmentos nas estruturas de tempo presente, passada e</p><p>futura. Depois de anos de estudo, é a profunda convicção do presente autor que</p><p>uma clara compreensão do arranjo literário do Apocalipse provê o fundamento</p><p>necessário sobre o qual se pode erigir uma sólida interpretação de suas visões.</p><p>O próprio livro profético proporciona a chave para explicar sua estrutura.</p><p>Os dados indicam que o Apocalipse é composto de oito visões internamente li-</p><p>gadas para formar quatro pares. A profecia se divide naturalmente em duas seções:</p><p>capítulos 1 a 14 e capítulos 15 a 22. Quatro visões precedem esta linha divisória natu-</p><p>ral (fim do capítulo 14), e quatro visões concluem o livro. As quatro primeiras visões</p><p>(série histórica) encontram cumprimento na Era Cristã, preparando o caminho para</p><p>o Segundo Advento. As últimas quatro visões (escatológicas — série de julgamentos)</p><p>cobrem acontecimentos após o encerramento do tempo da graça. Sendo que uma</p><p>compreensão correta da organização do Apocalipse é vital para a interpretação de suas</p><p>visões, os dois próximos capítulos também tratarão deste assunto com alguns detalhes.</p><p>O livro de Apocalipse tem sido mal compreendido e mal usado mais do que</p><p>qualquer outro livro da Bíblia. Mesmo um olhar de relance para o grande número</p><p>de comentários sobre o Apocalipse revela um amplo cortejo de equívocos, inter-</p><p>pretações errôneas e conclusões que não são apenas contraditórias, mas também</p><p>com frequência altamente especulativas. Em assinalado contraste com a profusão</p><p>de material expositivo sobre o Apocalipse, está a virtual ausência de abordagem</p><p>à magnífica teologia do livro. Até o momento, não existe nenhuma abordagem</p><p>completa e abrangente à teologia do livro de Apocalipse, e mesmo discussões de</p><p>limitados assuntos ou temas teológicos específicos do Apocalipse são relativa-</p><p>mente raras e frequentemente superficiais e indignas de confiança.1</p><p>abordagens interPretativas ao aPocaliPse</p><p>Os comentários sobre o Apocalipse geralmente são classificados nestas</p><p>grandes categorias: historicismo, preterismo e futurismo.</p><p>1 Artigos “tópicos” frequentemente representam exegese de uma passagem mais do que uma</p><p>teologia do Apocalipse como um todo ou mesmo a teologia da própria passagem. Pode haver al-</p><p>gumas exceções em algumas áreas, tais como, por exemplo, cristologia, pneumatologia e eclesio-</p><p>logia. Também a ser notado é o capítulo sobre “Doutrina” em H. B. Swete (1908, p. clix-clxxiii).</p><p>Este trata os assuntos de monoteísmo, a doutrina de Deus, cristologia, pneumatologia, eclesiolo-</p><p>gia, soteriologia e angelologia, mas basicamente apenas faz um levantamento dos dados.</p><p>Historicismo. O método histórico pode seguir uma ou outra das duas</p><p>abordagens básicas: (1) a abordagem “linear” vê o Apocalipse retratando uma</p><p>sequência de acontecimentos que se inicia na Era Apostólica e continua passo</p><p>a passo até o grandioso ponto culminante escatológico;2 (2) a abordagem da</p><p>“recapitulação” interpreta as várias visões do Apocalipse como percorrendo o</p><p>mesmo terreno</p><p>e</p><p>tem as chaves da morte e do Hades (veja 1:17–18). Sua vitória é também nossa</p><p>vitória, mesmo em face da morte (ver Ap 12:11). Ou como é dito tão formosamente</p><p>no livro de Hebreus, Jesus é o “autor e consumador de nossa fé” (Hb 12:2).</p><p>Estrutura literária do Apocalipse</p><p>Os expositores da Bíblia geralmente tentam determinar não somente o</p><p>propósito e tema de um determinado escritor, mas também o seu procedi-</p><p>mento em desenvolver esse tema. Assim, os comentaristas frequentemente</p><p>incluem um esboço do livro em estudo.</p><p>Os comentários do Apocalipse geralmente incluem esboços. Mas quando os</p><p>comparamos, descobrimos que a maioria é incoerente uns com os outros e fre-</p><p>quentemente incompatíveis com o próprio texto do Apocalipse. Alguns esboços</p><p>que diferem entre si são, não obstante, mutuamente compatíveis, como tenho sa-</p><p>lientado em outra parte, enquanto outros esboços (a maioria deles) simplesmente</p><p>não se ajustam em um modelo coerente (ver STRAND, 1979, p. 33–41).17</p><p>Não é o nosso propósito chamar a atenção para a variedade de esboços</p><p>disponíveis nos comentários de hoje. Antes, desejamos focalizar um esboço</p><p>específico que surge diretamente do próprio texto do Apocalipse. Subsequente-</p><p>mente, verificaremos outros padrões literários com uma importante referência</p><p>sobre como o Apocalipse deve ser interpretado.</p><p>17 Uma variedade de esboços chama a atenção do leitor. Veja também os ensaios do Apêndice</p><p>(p. 65, 75–79).</p><p>Um quiasma literário</p><p>Devemos permitir que o próprio livro nos dê as indicações para o seu esboço.</p><p>Quando é seguido este procedimento, um belo e amplo modelo literário para todo</p><p>o livro realmente surge do texto. Toma a forma de um quiasma, isto é, um modelo</p><p>de paralelismo inverso. Os dados de suporte para o esboço não podem ser dados em</p><p>detalhes aqui, mas algumas observações exigem menção.18</p><p>Existe uma importante divisão estrutural entre os capítulos 14 e 15. Um</p><p>prólogo e quatro importantes visões precedem essa linha divisória, e qua-</p><p>tro importantes visões e um epílogo a seguem. O prólogo e o epílogo são</p><p>paralelos um ao outro. Há um paralelismo similar (em ordem inversa) das</p><p>visões da primeira divisão do livro com as visões da última divisão. Veja o</p><p>diagrama do capítulo 2 deste volume.</p><p>Vemos que as visões antes da pausa no final do capítulo 14 tratam principal-</p><p>mente da Era Cristã. As visões depois da pausa estão focalizadas na era do juízo</p><p>escatológico. As visões da primeira parte do livro revelam que a igreja é defeituosa.</p><p>Os santos de Deus são perseguidos, e as forças do mal estão tendo um período de</p><p>grande sucesso. Contrastando, as visões que se iniciam com o capítulo 15 revelam</p><p>uma mudança radical, de sorte que há gloriosa vitória para os santos de Deus e</p><p>ruína para os poderes que outrora dominavam sobre eles.</p><p>As visões até o capítulo 14 podem ser caracterizadas como a “era histórica”, e</p><p>aquelas depois disso como a “era do juízo escatológico”. Na primeira, sai o clamor</p><p>das almas debaixo do altar: “Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro,</p><p>não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (6:9–10). Na</p><p>última encontramos uma contrapartida na aclamação: “pois [Deus] julgou a grande</p><p>meretriz […] e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos” (Ap 19:2).</p><p>Nas cenas da primeira grande parte de Apocalipse, as visões 2, 3 e 4 revelam</p><p>uma sucessão de eventos ou desenvolvimentos que alcançam e incluem o segundo</p><p>advento de Cristo. Assim, o último item de cada série nos leva ao ponto culmi-</p><p>nante escatológico final. Contudo, os eventos antes desse ponto culminante lidam</p><p>especificamente com a era histórica. Por causa dessa ênfase primária eles podem ser</p><p>corretamente designados como visões da “era histórica”.</p><p>Na segunda metade do livro as próprias visões manifestam coerentemente a</p><p>perspectiva do juízo escatológico. Todavia, elas incluem duas espécies de mate-</p><p>rial que pertencem à era histórica: (1) explicações, que necessariamente devem</p><p>18 Para um estudo mais extenso do arranjo literário do Apocalipse e seu impacto sobre a inter-</p><p>pretação, veja os dois próximos capítulos do mesmo autor, “As oito visões básicas”; e “Cenas da</p><p>‘Introdução vitoriosa’” (ver STRAND, 1979, p. 43–52; 1983, p. 22–23).</p><p>Princípios fundamentais de interpretaçãoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>34 35</p><p>ser do próprio ponto do profeta no tempo a fim de serem compreendidas por</p><p>ele e seus leitores; e (2) apelos, que obviamente devem ser aplicados no período</p><p>antes do encerramento da graça humana para que sejam ouvidos. Estes não</p><p>são “encruzilhadas” nas próprias visões, porque o cenário das visões do juízo</p><p>escatológico é invariável, começando com as sete últimas pragas e continuando</p><p>através dos eventos subsequentes até que seja atingido o glorioso ponto culmi-</p><p>nante na descrição da Nova Jerusalém e da nova Terra.</p><p>Quando consideramos esta estrutura quiástica do Apocalipse, imediatamente</p><p>vemos que ela bem se alinha com o duplo tema declarado no prólogo e no epílogo.</p><p>A primeira grande parte do livro (caps. 1–14) lida com a era em que o Alfa e o</p><p>Ômega é o protetor e mantenedor do Seu povo a despeito das provas e perseguições</p><p>que podem vir em seu caminho. A segunda grande parte do livro, começando com</p><p>o capítulo 15, lida com os juízos escatológicos que se agrupam em torno e se cen-</p><p>tralizam na consumação da era: o segundo advento de Cristo.</p><p>Determinando o arranjo literário do Apocalipse</p><p>A ampla estrutura quiástica que abrange todo o livro de Apocalipse é vital em</p><p>suas implicações teológicas Em primeiro lugar, enfatiza o duplo tema da profecia reg-</p><p>istrado acima. Ainda mais importante, o esquema habilita o intérprete a reconhecer a</p><p>localização adequada e a ênfase a ser dada aos temas específicos ou principais ideias</p><p>teológicas do livro. Consequentemente, podemos examinar mais de perto os procedi-</p><p>mentos pelos quais essa estrutura quiástica foi determinada, um procedimento que</p><p>deve guiar na descoberta de todos os padrões literários bíblicos.</p><p>Derivado do texto. O ponto de fundamental importância, que não pode ser</p><p>enfatizado demais, é que o próprio texto deve ser a fonte e o guia para determi-</p><p>nar a estrutura literária. No desenvolvimento do modelo esboçado acima, nen-</p><p>huma outra consideração estava envolvida, porque a hermenêutica adequada</p><p>requer que retiremos do texto o seu modelo. Mesmo a existência do principal</p><p>quiasma tinha de ser vista no próprio texto do Apocalipse.</p><p>Muitos estudiosos não tinham considerado a possibilidade de uma estrutura</p><p>quiástica em Apocalipse até minha própria descoberta ao longo de um período</p><p>de vários anos durante a década de 1950. Hoje, vários pesquisadores estão agora</p><p>alerta a isto, inclusive C. M. Maxwell, que tem utilizado meu esboço com ligeiras</p><p>adaptações como a estrutura básica do Apocalipse no volume 2 da sua obra (ver n.</p><p>3). No processo da descoberta, certos paralelismos no próprio texto continuaram</p><p>me confrontando; estes finalmente levaram ao esboço descrito acima.</p><p>Seções paralelas. Embora o leitor seja remetido a outro lugar para os dados</p><p>que apoiam o esboço que temos apresentado (ver STRAND, 1979, p. 45–47),</p><p>algumas observações devem ser feitas aqui.</p><p>Primeira, a fim de serem correlativos genuinamente paralelos, as visões de-</p><p>vem apresentar evidência de marcante semelhança em itens mencionados, em</p><p>amplos contextos básicos ou configurações. Semelhanças isoladas não são im-</p><p>portantes neste aspecto. Mas quando há grupos de semelhanças, então levamos</p><p>a sério a possibilidade de correlativos quiásticos.</p><p>Por exemplo, vários expositores têm notado tais grupos entre o prólogo e o</p><p>epílogo. Em cada uma dessas breves seções encontramos menção da mensagem</p><p>do livro como sendo enviada por um anjo e referindo-se às coisas que em breve</p><p>devem acontecer (1:1; 22:6), referência a João como o receptor da visão (1:9;</p><p>22:8), menção das “igrejas” (1:4–6; 22:16), e pronúncia de uma bênção sobre</p><p>aqueles que ouvem as mensagens (1:3; 22:7), bem como a declaração do duplo</p><p>tema observado anteriormente (1:7–8;</p><p>22:12–13).</p><p>Muitos expositores reconhecem que a descrição da Nova Jerusalém-nova</p><p>Terra nos capítulos finais de Apocalipse evoca (como cumprimento) as promes-</p><p>sas feitas aos vencedores nas mensagens às sete igrejas nos capítulos iniciais.</p><p>Semelhanças entre as visões “parelhas” (o que temos chamado de tema “Êxodo-</p><p>do-Egito/Queda-de-Babilônia”) frequentemente têm sido notadas tais como alvos</p><p>similares para as trombetas e pragas (terra, mar, rios, e fontes etc.), e tema e paralelis-</p><p>mos verbais entre os capítulos 12 a 14 e 17 a 18 (uma mulher em cada um; animais</p><p>de sete cabeças e dez chifres; pronunciamentos da queda de Babilônia etc.). Apesar</p><p>do reconhecimento de tais semelhanças, os estudiosos do Apocalipse geralmente não</p><p>têm discernido como elas são paralelas umas às outras de uma maneira quiástica.</p><p>Menos frequentemente observado pelos comentaristas é o paralelismo quiás-</p><p>tico entre Apocalipse 4:1 a 8:1 e 19:1 a 21:4. Mas estas duas seções também têm gru-</p><p>pos de similaridades. Ambas têm um cenário em que Deus está assentado sobre um</p><p>trono, circundado por quatro seres viventes e vinte e quatro anciãos. Nesse cenário</p><p>ambas têm aclamações e antífonas semelhantes de louvor a Deus e ao Cordeiro.</p><p>Na última visão vem a resposta ao clamor dos mártires da primeira visão,</p><p>relacionando-se a Deus como “julgando” e “vingando-os”. Um cavaleiro em um</p><p>cavalo branco é retratado em ambas as visões. Desgraça vem aos “reis da terra”</p><p>e a outros grupos especificados. É feita referência às bênçãos da habitação de</p><p>Deus com o Seu povo e ”enxugando todas as lágrimas de seus olhos” etc.</p><p>Certamente tal abundância de semelhanças significativas entre duas visões</p><p>indica que elas são correlativas. Quando colocadas em posição com outros</p><p>Princípios fundamentais de interpretaçãoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>36 37</p><p>pares de visões que têm relações semelhantes (conforme indicadas no próprio</p><p>texto bíblico), aparece a estrutura quiástica geral do Apocalipse.</p><p>Outros quiasmas em Apocalipse</p><p>O Apocalipse, além disso, contém outros modelos quiásticos literários além</p><p>dos principais que temos discutido. Estes podem abranger capítulos múltiplos,</p><p>cobrir um capítulo (Ap 18, por exemplo), ou ocorrer em seções ainda mais</p><p>breves. Aqui apresentamos um destes como exemplo. Abrange certos itens e</p><p>uma dinâmica específica nos capítulos 12 a 20.</p><p>Muitos expositores creem que uma linha divisória básica no Apocalipse</p><p>ocorre entre os capítulos 11 e 12. Um motivo é que os capítulos 12 e 13 intro-</p><p>duzem o que parece ser um novo elemento, a saber, a trindade antidivina do</p><p>dragão, a besta do mar e a besta da terra. Portanto, deve o livro ser dividido</p><p>neste ponto em vez de entre os capítulos 14 e 15?</p><p>Está claro do texto bíblico que as visões até o capítulo 14 são de fato da</p><p>“era histórica” (com três delas culminando no segundo advento de Cristo), en-</p><p>quanto as visões subsequentes são colocadas em um cenário depois do término</p><p>da graça humana. Contudo, a própria descrição da trindade antidivina mais</p><p>“Babilônia” e os adoradores da besta revela um quiasma.</p><p>Nesta série as entidades descritas entram em cena durante a era histórica</p><p>na ordem de:</p><p>1. O dragão (cap. 12).</p><p>2. A besta do mar e a besta da terra ou “falso profeta” (cap. 13).</p><p>3. Babilônia (14:8).</p><p>4. Os adoradores da besta (14:9–11).</p><p>Eles encontram sua condenação durante a era do juízo escatológico na exa-</p><p>ta ordem inversa de:</p><p>4. Os adoradores da besta (16:2).</p><p>3. Babilônia (16:19–18:24).</p><p>2. A besta do mar e o falso profeta (19:20).</p><p>1. O dragão (20:1–10).</p><p>O ponto significativo a notar aqui é que a linha divisória entre a era quando</p><p>eles têm soberania e quando eles encontram sua condenação vem precisamente</p><p>quando ocorre a pausa quiástica para todo o livro no final do capítulo 14.</p><p>Padrões que revelam sequência</p><p>Na seção da era histórica do livro de Apocalipse há um padrão literário</p><p>repetido no mínimo três vezes. Inicia-se com o capítulo 4 e termina com o</p><p>capítulo 14. Este modelo quádruplo (ou série de modelos) pode ser ilustrado</p><p>como no gráfico da página 34.</p><p>Nas primeiras três visões da série da era do “juízo escatológico” (Ap 15–</p><p>21:4), existe um tipo semelhante de modelo quádruplo, adaptado, é claro, ao</p><p>que é apropriado para essa era específica. Embora esteja além do nosso escopo</p><p>esquematizar essas visões, notamos que a segunda seção delas pode ser denom-</p><p>inada “A progressão julgadora”, e a terceira seção provê “Apelos”.19</p><p>Resumindo, concluímos que o Apocalipse tem um notável equilíbrio em</p><p>seus padrões literários. Como nota final, devemos observar que as cenas</p><p>introdutórias às oito visões são colocadas em um contexto do templo ou</p><p>abrangem imagens do templo. Basta salientar que este “cenário do templo”</p><p>para as cenas da “Introdução vitoriosa” provê um dos meios pelos quais é</p><p>retratada a forte “continuidade vertical” do Apocalipse.</p><p>Estrutura literária e interpretação</p><p>Embora outros fatores além da estrutura literária do Apocalipse exerçam</p><p>impacto sobre sua interpretação, um eficiente procedimento de estudo não</p><p>deve excluir a sua entrada. De fato, a estrutura básica e outros padrões que te-</p><p>mos indicado acima proveem importantes diretrizes para a interpretação.</p><p>Primeira, a estrutura literária indica que qualquer interpretação que faz</p><p>as mensagens do Apocalipse ou inteiramente históricas ou inteiramente es-</p><p>catológicas é incorreta, porque o livro está dividido em grandes partes que</p><p>são históricas e escatológicas, respectivamente.</p><p>Segunda, absolutamente nenhum método linear de interpretação expondo uma</p><p>cadeia de eventos ou desenvolvimentos completamente sequencial é válida, quer</p><p>isto seja do ponto de vista preterista, contínuo histórico (historicista), ou futurista.</p><p>Porque se o livro deve ser realmente dividido no final do capítulo 14 em divisões</p><p>históricas e escatológicas, esse arranjo literário quiástico torna suspeita qualquer</p><p>interpretação que cruza a linha divisória com uma contínua sequência de eventos</p><p>em “fileira cerrada”. Isto é verdade quer a sequência seja considerada como tendo</p><p>cumprimento no mundo antigo, em uma contínua corrente de eventos ao longo da</p><p>Era Cristã, ou em uma série de eventos ainda futura.</p><p>Terceira, as evidências para recapitulação em Apocalipse (compare as estruturas</p><p>literárias em paralelo mencionadas acima) tornam razoável admitir que dentro de</p><p>cada parte principal do Apocalipse o mesmo terreno geral é coberto em sequências</p><p>repetidas (ao menos de alguma maneira recapitulacionista ou sobreposta). Assim,</p><p>19 Veja os caps. 2 e 3 deste volume com seus diagramas anexos.</p><p>Princípios fundamentais de interpretaçãoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>38 39</p><p>a mesma era ou cenário histórico é visto de diferentes perspectivas ou em aspectos</p><p>divergentes nas quatro visões que formam a primeira divisão do livro.</p><p>Quarta, devemos interpretar uma dada seção de materiais segundo sua</p><p>localização na principal estrutura quiástica do livro. Por exemplo, o chamado</p><p>ponto de vista “amilenarista”, que equipara o período de mil anos de Apocalipse</p><p>20 com a Era Cristã, é refutado pelo fato de que João o coloca diretamente den-</p><p>tro da série de visões do “juízo escatológico”.</p><p>Finalmente, não deve ser ignorado que a divisão do livro em duas grandes</p><p>partes com subseções análogas pode guiar-nos em torno de uma adequada in-</p><p>terpretação de passagens específicas. Além disso, sempre que uma passagem em</p><p>uma das divisões do Apocalipse é compreendida, ela pode fornecer pistas com</p><p>respeito ao significado da passagem correlativa na outra divisão do livro.</p><p>referências</p><p>FARRER, A. A rebirth of images: the making of St. John’s Apocalypse. Gloucester: [s. n.], 1970.</p><p>HANSON, P. D. The Dawn of Apocalyptic: the historical and sociological roots of</p><p>jewish apocalyptic eschatology. Philadelphia: Alban Books Limited, 1975.</p><p>HASEL, G. F. Cumprimento de profecia. In: HOLBROOK, F. B. (Ed.). Setenta Semanas:</p><p>Levítico e a Natureza da Profecia. Engenheiro Coelho: Unaspress, 2010. (Série Santuá-</p><p>rio e Profecias Apocalípticas,</p><p>3).</p><p>HENDRIKSEN, W. More than conquerors: an interpretation of the book of Revelation.</p><p>Grand Rapids: Baker Book House, 1940.</p><p>JOHNSSON, W. G. Condicionalidade na profecia bíblica com referência especial à apo-</p><p>calíptica. In: HOLBROOK, F. B. (Ed.). Setenta Semanas: Levítico e a Natureza da Profe-</p><p>cia. Engenheiro Coelho: Unaspress, 2010. (Série Santuário e Profecias Apocalípticas, 3).</p><p>LADD, G. E. A commentary on the Revelation of John. Grand Rapids: Wm. B. Eerd-</p><p>mans Publishing Co., 1972.</p><p>_____________. Apocalyptic, Apocalypse. In: HARRISON, E. F. (Ed.). Baker’s dictio-</p><p>nary of theology. Grand Rapids: Baker Book House, 1960.</p><p>_____________. The blessed hope: a biblical study of the second advent and the rapture.</p><p>Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1956.</p><p>LINDSAY, H. There’s a New World Coming. Santa Ana: Random House, 1973.</p><p>MAXWELL, C. M. God cares: the message of Revelation to you and your family. Boise:</p><p>Pacific Press Publishing Association, 1985. v. 2.</p><p>MINEAR, P. S. Ontology and Ecclesiology in the Apocalypse. New Testament Studies,</p><p>v. 13, p. 95–96, 1965–1966.</p><p>MORRIS, S. L. The drama of Christianity: an interpretation of the Apocalypse. Rich-</p><p>mond: Presbyterian Committee of Publication, 1928.</p><p>SHEA, W. H. The location and significance of Armageddon in Rev 16:16. Andrews</p><p>University Seminary Studies, v. 18, p. 157–162, 1980.</p><p>STRAND, K. A. Apocalyptic prophecy and the church. Ministry, p. 22–23, out. 1983.</p><p>_____________. Interpreting the Book of Revelation: hermeneutical guidelines. Na-</p><p>ples: Worthingtown, 1979.</p><p>_____________. Perspectives in the Book of Revelation: essays on apocalyptic inter-</p><p>pretation. Washington: Ann Arbor Publishers, 1975.</p><p>SWETE, H. B. The Apocalypse of St. John. England: Cambridge, 1908.</p><p>TENNEY, M. C. Interpreting Revelation. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Pu-</p><p>Estudos selecionados em interpretação profética</p><p>40</p><p>blishing Co., 1957.</p><p>WALVOORD, J. The revelation of Jesus Christ: a commentary. Chicago: Mooby</p><p>Publisher, 1966.</p><p>WHITE, E. G. Atos dos apóstolos. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2006.</p><p>_____________. O grande conflito. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2005.</p><p>_____________. Testemunhos para ministros e obreiros evangélicos. Tatuí: Casa Pu-</p><p>blicadora Brasileira, 2000.</p><p>as oito</p><p>visões básicas1</p><p>O livro de Apocalipse é uma</p><p>peça literária notavelmente bem</p><p>construída, contendo uma multi-</p><p>plicidade de padrões perfeitamente</p><p>entrelaçados. Tais padrões são</p><p>mais do que simplesmente demon-</p><p>strações de gosto estético e ha-</p><p>bilidade de composição, e também</p><p>transcendem o propósito útil de</p><p>servir como artifícios mnemônicos.</p><p>1 Reimpresso com permissão da Andrews</p><p>University Seminary Studies (v. 25 de 1987),</p><p>sob o título “The Eight Basic Visions in</p><p>the Book of Revelation.”</p><p>Kenneth A. Strand</p><p>2</p><p>As oitoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>42 43 Realmente, de maneira direta e eficaz, enfatizam vários aspectos da mensagem</p><p>teológica do livro.</p><p>Em escopo mais amplo, todo o Apocalipse está estruturado em um modelo</p><p>quiástico geral em que prólogo e epílogo são correlativos e em que as grandes</p><p>sequências ou visões proféticas intervenientes são também emparelhadas em</p><p>uma ordem quiástica ou inversa. Esta ampla estrutura quiástica e seu signifi-</p><p>cado eu tenho tratado em várias ocasiões anteriores (ver STRAND, 1969, p. 43-</p><p>51; 1979; 1983, p. 22-23),2 e elas não precisam de detalhes para nossos propósi-</p><p>tos aqui, exceto a menção de duas características específicas: (1) Com exceção</p><p>do prólogo e do epílogo, há oito grandes sequências proféticas — quatro que</p><p>precedem e quatro que seguem uma linha traçada entre os capítulos 14 e 15. (2)</p><p>As visões que precedem a linha divisória quiástica têm basicamente uma per-</p><p>spectiva histórica (isto é, elas se relacionam com a Era Cristã), e as visões que</p><p>seguem a linha divisória quiástica retratam a era do juízo escatológico.</p><p>Com respeito ao primeiro item acima, deve ser enfatizado que exis-</p><p>tem realmente oito grandes sequências proféticas no Apocalipse, e não</p><p>2 Veja especialmente a discussão o diagrama em 52 no Livro Interpreting the Book of Revelation.</p><p>As divisões exatas entre blocos de texto no Apocalipse em vários exemplos têm sido ligeiramente</p><p>modificadas no presente artigo da maneira como elas têm sido dadas em publicações anteriores.</p><p>sete, como têm defendido vários intérpretes.3 Concernente ao segundo</p><p>item, várias ressalvas devem ser notadas: da segunda à quarta visões, cada</p><p>sequência histórica conclui com uma seção que retrata o tempo do juízo</p><p>escatológico; e nas visões subsequentes, que em sua essência provê uma</p><p>ampliação sobre a era do juízo escatológico, há dois tipos de material que</p><p>pertencem à era histórica — explicações (que obviamente devem ser fei-</p><p>tas em termos da própria perspectiva do profeta na história) e exortações</p><p>ou apelos (que têm valor somente antes do juízo escatológico e que, é</p><p>claro, seriam sem sentido no próprio tempo do juízo final escatológico).</p><p>Estas ressalvas concernentes às “exceções” ao principal objetivo ou alcance</p><p>das visões em cada lado da linha divisória quiástica não devem, porém,</p><p>3 Tais intérpretes têm evidentemente chegado à conclusão de que sendo que “sete” é um núme-</p><p>ro-símbolo significativo no Apocalipse — ocorrendo, por exemplo, em quatro septetos explícitos</p><p>(as igrejas, selos, trombetas e taças) — também supostamente existe um total de sete visões bási-</p><p>cas. Para exemplos da abordagem das sete visões, veja Ernst Lohmeyer (1926), John Wick Bow-</p><p>man (1955; 1981, v. 4) e Thomas S. Kepler (1957). Lohmeyer e Bowman também acham septetos</p><p>dentro de todas as suas sete principais visões, embora não haja acordo entre eles mesmo quanto</p><p>a essas sete visões. Kepler, por outro lado, acha apenas um total de dez subseções (chamadas</p><p>“cenas”) dentro de suas sete grandes visões (grandes visões cujos limites textuais variam apenas</p><p>ligeiramente das sete grandes visões esboçadas por Bowman).</p><p>diagrama 1. a estrutura Quiastica do livro de aPocaliPse</p><p>1:10b - 3:22</p><p>19:1 - 21:4</p><p>1:1 - 10a</p><p>Prólogo Epílogo</p><p>I VIII</p><p>II VII</p><p>III VIIV V</p><p>“Igreja</p><p>Militante”</p><p>Julgamento</p><p>final de Deus</p><p>O trabalho</p><p>contínuo</p><p>de Deus na</p><p>Salvaçao</p><p>“A Igreja</p><p>triunfante”</p><p>Anúncio das</p><p>trombetas</p><p>“Taças da</p><p>ira de Deus”</p><p>Poder do mal</p><p>se opondo a</p><p>Deus e os seus</p><p>santos</p><p>Poderes do</p><p>mal julgados</p><p>por Deus</p><p>(Igreja na</p><p>terra: as 7</p><p>igrejas)</p><p>(2º advento de</p><p>Cristo, o milênio,</p><p>o julgamento do</p><p>trono branco)</p><p>(7 selos)</p><p>(“Novo céu e</p><p>Nova Terra”;</p><p>Cidade santa e</p><p>nova Jeusalém)</p><p>(7 Trombetas)</p><p>(As últimas 7</p><p>pragas)</p><p>“Êxodo” | “Queda de Babilônia” “Êxodo” | “Queda de Babilônia”</p><p>4:1 - 8:1</p><p>21:5 - 22:5</p><p>11:19 - 14:20 16:18 - 18:248:2 - 11:18 15:1 - 16:17</p><p>22:6-21</p><p>As oitoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>44 45</p><p>ser consideradas como materiais de “cruzamento”. Esses dados são partes</p><p>importantes de suas próprias sequências, estão na devida posição e falam</p><p>significativamente aos contextos em que são encontrados. Além disso,</p><p>são unidades distintas e significativas quanto à natureza, colocação e/ou</p><p>propósito, dentro de suas próprias visões específicas.</p><p>Por razões práticas, a estrutura quiástica abrangente de Apocalipse em</p><p>prólogo, epílogo e oito visões é apresentada em forma de esboço no dia-</p><p>grama 1, que inclui também minhas sugestões quanto aos limites textuais</p><p>e assuntos gerais das várias visões. Neste diagrama e ao longo do restante</p><p>da discussão neste artigo, o termo “visões” se referirá a estas oito sequên-</p><p>cias proféticas completas, não a experiências visionárias individuais de</p><p>menor extensão. Outrossim, os algarismos romanos serão usados para</p><p>identificar as visões em sequência.</p><p>O presente estudo tem duas grandes finalidades, e os dados pertencentes</p><p>a cada uma destas serão apresentados em artigos separados. Primeira, o</p><p>diagrama 2. estruturas Paralelas nas 8 maiores visões de aPocaliPse</p><p>Victorious-</p><p>introduction</p><p>scene</p><p>Victorious-</p><p>introduction</p><p>scene</p><p>Interlude InterludeInterlude InterludeInterlude Interlude</p><p>Victorious-</p><p>introduction</p><p>scene</p><p>Basic Prophetic</p><p>Description</p><p>Basic Prophetic</p><p>Description</p><p>Basic Prophetic</p><p>Description</p><p>Eschatological</p><p>Culmination</p><p>Eschatological</p><p>Culmination</p><p>Eschatological</p><p>Culmination</p><p>Eschatological</p><p>Culmination</p><p>Eschatological</p><p>Culmination</p><p>Eschatological</p><p>Culmination</p><p>Basic Prophetic</p><p>Description</p><p>Basic Prophetic</p><p>Description</p><p>Basic Prophetic</p><p>Description</p><p>Basic Prophetic</p><p>Description</p><p>Basic Prophetic</p><p>Description</p><p>Victorious-</p><p>introduction</p><p>scene</p><p>Victorious-</p><p>introduction</p><p>scene</p><p>Victorious-</p><p>introduction</p><p>scene</p><p>Victorious-</p><p>introduction</p><p>scene</p><p>Victorious-</p><p>introduction</p><p>scene</p><p>I II III IV V VI VII VIII</p><p>A</p><p>B</p><p>D</p><p>E</p><p>C</p><p>B</p><p>D</p><p>A</p><p>ensaio analisa brevemente alguns modelos paralelos nas oito grandes visões</p><p>do livro de Apocalipse. Então um estudo acompanhante4 focalizará um pou-</p><p>co mais intensamente os específicos blocos de texto que introduzem essas</p><p>oito visões e que podem ser designados como “cenas da introdução vito-</p><p>riosa”, na medida em que provêem para cada visão um ambiente que retrata</p><p>de forma dramática o presente cuidado de Deus por seu povo e dá certeza</p><p>da vitória final para os “santos” ou “leais” de Cristo. Para fins de identi-</p><p>ficação no presente artigo, os algarismos romanos (I, II etc.) continuarão</p><p>sendo usados, como no diagrama 1, para designar as oito visões. Cada visão,</p><p>porém, tem ou duas ou quatro principais seções ou blocos de texto, e letras</p><p>maiúsculas (A, B etc.) servirão como identificadores para estes.</p><p>4 Isto aparece como capítulo 3 neste volume.</p><p>As oitoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>46 47</p><p>1. análise dos Padrões dentro das oito visões</p><p>A primeira e a visão final (I e VIII) do Apocalipse são compostas de uma “Cena</p><p>da introdução vitoriosa” (A), mais outro grande bloco de texto (B) que pode ser</p><p>chamado a “descrição profética básica”. As outras seis visões (II-VII) têm estes mes-</p><p>mos dois blocos, mas com a adição de dois outros blocos (C e D).</p><p>Neste ensaio, os terceiros blocos de texto da segunda até a sétima visões</p><p>são fornecidas as legendas básicas do “Interlúdio” — um termo muito reg-</p><p>ularmente aplicado pelos exegetas para estas seções específicas nas visões</p><p>II, III e IV, mas igualmente aplicáveis às correspondentes (porém muito</p><p>mais breves) seções nas visões V, VI e VII. Deve ser notado, porém, que</p><p>embora o termo “interlúdio” frequentemente sugira uma interrupção ou</p><p>hiato dentro do fluxo do pensamento, o que fazem estes terceiros blocos</p><p>de material nas visões IV-VII do Apocalipse é realçar ou intensificar o</p><p>objetivo do material que precede imediatamente.5 O quarto bloco pode ser</p><p>designado como a “culminação escatológica”; e em certo sentido, ele e o</p><p>“interlúdio” precedente são realmente uma extensão da “descrição profé-</p><p>tica básica” iniciada no segundo bloco.</p><p>Embora seja necessário posteriormente neste artigo adicionar certos</p><p>refinamentos para a análise básica precedente, a esta altura devemos re-</p><p>sumir em forma de diagrama os resultados alcançados até aqui. Tal re-</p><p>sumo é provido no diagrama 2.</p><p>2. resumo dos conteúdos das visões</p><p>Nesta conjuntura é útil ter uma visão geral do conteúdo de cada uma</p><p>das oito visões. Os resumos aqui apresentados seguem as linhas gerais</p><p>da estrutura indicada acima. Deve ser enfatizado que estes são realmente</p><p>sumários, e o leitor pode preencher os detalhes consultando os textos in-</p><p>dicados para cada uma das visões.</p><p>5 Paul S. Minear (1968, p. 150) tem falado acerbamente sobre este assunto em conexão com o</p><p>“interlúdio” que ocorre em 16:15.</p><p>as visões históricas</p><p>Visão I, 1:10b–3:22</p><p>Bloco A, cena da introdução vitoriosa, 1:10b-20. Cristo aparece a João em</p><p>Patmos como o que vive para sempre e Todo-poderoso, que caminha entre os</p><p>sete candeeiros de ouro que representam as sete igrejas.</p><p>Bloco B, descrição profética básica, capítulos 2 e 3. Cristo dá mensagens</p><p>de aprovação, reprovação, advertência e exortação a igrejas individuais como</p><p>necessitam suas variadas condições.</p><p>Visão II, 4:1–8:1</p><p>Bloco A, cena da introdução vitoriosa, capítulos 4 e 5. João vê um trono</p><p>armado no Céu, com um mar de vidro e sete lâmpadas de fogo diante do trono,</p><p>e com quatro seres viventes e vinte e quatro anciãos ao redor do trono. Em</p><p>uma cena dramática e repleta de suspense é feita a declaração de que somente</p><p>o Cordeiro morto é digno de tomar da mão dAquele que estava assentado no</p><p>trono um livro selado com sete selos e abrir o livro e desatar os selos. Então o</p><p>Cordeiro toma o livro, e antífonas de louvor ascendem dos quatro seres viventes,</p><p>dos vinte e quatro anciãos e de todo o Universo.</p><p>Bloco B, descrição profética básica, capítulo 6. Os primeiros seis selos</p><p>do livro são abertos, com o resultado de que saem os quatro cavaleiros, almas</p><p>debaixo do altar pronunciam um clamor de “Até quando” até que há julgamento</p><p>e vindicação para elas, e são dados sinais na Terra e no céu do juízo iminente.</p><p>Bloco C, interlúdio, capítulo 7. A sequência é “interrompida” para fo-</p><p>calizar o selamento dos 144.000 durante o fim dos tempos.</p><p>Bloco D, culminação escatológica, 8:1. O sétimo selo é aberto, ante o qual</p><p>há “silêncio no céu” pela duração de meia hora.</p><p>Visão III, 8:2–11:18</p><p>Bloco A, cena da introdução vitoriosa, 8:2-6. Aparecem sete anjos com</p><p>trombetas, e outro anjo se dirige ao altar de ouro e ali oferece incenso cuja</p><p>fumaça, misturada com as orações dos santos, ascende a Deus. Em seguida, o</p><p>anjo enche um incensário com brasas vivas do altar e o lança sobre a Terra, re-</p><p>sultando nos símbolos de juízo de vozes, trovões, relâmpagos e terremoto.</p><p>Bloco B, descrição profética básica, 8:7–9:21. As primeiras seis trombetas</p><p>são tocadas e liberam forças devastadoras que abrangem os simbolismos de</p><p>uma tempestade de saraiva sobre a Terra, uma grande montanha que ardia em</p><p>chamas foi atirada no mar, etc. As primeiras cinco dessas trombetas evocam</p><p>As oitoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>48 49</p><p>imagens das pragas sobre o antigo Egito, mas a sexta trombeta muda o cenário</p><p>para Babilônia pela menção do “grande rio Eufrates” em 9:14.6</p><p>Bloco C, interlúdio, 10:1–11:13. Um anjo segurando um livrinho aberto</p><p>anuncia (10:6) que “já não haverá demora.”7 João recebe a ordem de comer o</p><p>livro e assim o faz, achando-o doce na boca e amargo no estômago; o profeta</p><p>é então instruído a medir o templo, o altar e o povo (uma alusão direta, como</p><p>tenho mostrado em outro lugar, ao ritual do Dia da Expia- ção do final de ano</p><p>na antiga religião judaica (STRAND, 1984, p. 317-325); e são descritos o teste-</p><p>munho e o ministério das duas testemunhas.</p><p>Bloco D, culminação escatológica, 11:14-18. É tocada a sétima trombeta,</p><p>resultando no anúncio de que “o reino do mundo se tornou de nosso Senhor e</p><p>do seu Cristo”, então se ergue uma antífona de louvor, enfatizando, entre outras</p><p>coisas, que chegou o tempo para o julgamento dos mortos, para o galardão dos</p><p>santos, e para destruir “os que destroem a terra.”</p><p>Visão IV, 11:19–14:20</p><p>Bloco A, cena da introdução vitoriosa, 11:19. “O templo de Deus foi aber-</p><p>to no céu”, tornando visível “a arca da sua Aliança”; então ocorrem “relâmpagos,</p><p>vozes, trovões, terremoto e grande saraivada.”</p><p>Bloco B, descrição profética básica, capítulos 12 e 13. O dragão, a</p><p>besta do mar semelhante ao leopardo e a besta da terra de dois chifres</p><p>perseguem o povo de Deus.</p><p>Bloco C, interlúdio, 14:1-13. João vê (1) o Cordeiro e os 144.000 santos</p><p>vitoriosos em pé sobre o monte Sião, e (2) três anjos voando no céu e procla-</p><p>mando mensagens de advertência.</p><p>6 O fenômeno aqui encontrado pode ser denominado o tema “Êxodo-do-Egito”/”Queda-de-</p><p>Babilônia”. Ocorre duas vezes, em cada exemplo abrangendo duas visões completas. A primeira</p><p>ocorrência é Ap 8:2–14:20 inclusive, e a segunda é Ap 15:1–18:24 inclusive (ver STRAND, 1981,</p><p>p. 128-29).</p><p>7 A diferença na tradução não é realmente tão significativa como a princípio poderia parecer. A</p><p>passagem é uma óbvia alusão ao livro de Daniel que deveria permanecer selado até “o tempo do</p><p>fim” (Dn 12:4; cf. Ap 10:2) e a interrogação feita</p><p>por Daniel, “Até quando...?” (Dn 12:6). Qualquer</p><p>tradução desta declaração específica em Ap 10:6 bem se ajusta como uma resposta à pergunta</p><p>feita por Daniel, e realmente é uma proclamação enfática da chegada do período do fim do tempo</p><p>projetado — “um tempo, dois tempos, e metade de um tempo” (Dn 12:7). O grego desta última</p><p>cláusula de Ap 10:6 diz, hoti kronos ouketi estai. (Cf. o “até quando” de Dn 8:13.)</p><p>Bloco D, Culminação Escatológica, 14:14-20. É ceifada a dupla seara</p><p>da terra — (1) a colheita do trigo, e (2) as uvas que são lançadas no grande</p><p>lagar da ira de Deus.</p><p>as visões do juízo escatológico</p><p>Visão V, 15:1–16:17</p><p>Bloco A, cena da introdução vitoriosa, 15:1–16:1. Os santos vitoriosos estão</p><p>sobre o mar de vidro e cantam o Cântico de Moisés e do Cordeiro, e quando o “san-</p><p>tuário do tabernáculo do testemunho” é aberto no Céu, sete anjos saem e recebem</p><p>sete taças “cheias da ira de Deus”, a fumaça enche o templo de sorte que ninguém</p><p>pode entrar até que as sete pragas dos sete anjos fossem cumpridas, e finalmente é</p><p>dada instrução aos anjos para que saíssem e derramassem as sete taças.</p><p>Bloco B, descrição profética básica, 16:2-14. São derramadas as primeiras seis</p><p>taças da ira, com efeitos devastadores sobre a terra, mar, rios e fontes etc. (Nova-</p><p>mente, como no septeto das trombetas, as imagens para as cinco primeiras taças são</p><p>modeladas segundo as pragas do antigo Egito, com a cena mudando para Babilônia</p><p>ao se referir a sexta taça ao “grande rio Eufrates em 16:12.)</p><p>Bloco C, interlúdio, 16:15. Na descrição da sexta taça — a secagem do rio Eu-</p><p>frates e a presença de espíritos demoníacos que enganam os reis da Terra e os con-</p><p>duzem à “batalha do grande dia do Deus Todo-poderoso” (16:12-14) — é inserido</p><p>um impressionante macarismo no verso 15: “Eis que venho como vem o ladrão.</p><p>Bem-aventurado aquele que vigia.” Então segue-se um comentário acrescentado no</p><p>sentido de que o local da batalha é chamado “Armagedom” (v. 16).</p><p>Sendo que mudamos para a seção do Apocalipse que provê visões do juízo</p><p>escatológico, em vez de pertencer à era histórica, é óbvio que um novo tipo de</p><p>“interlúdio” pode ser esperado, como é realmente o caso aqui. Os interlúdios an-</p><p>teriores foram descrições de eventos ou condições um tanto detalhadas durante</p><p>uma porção final da era histórica. Os interlúdios que ocorrem nas visões V-VII</p><p>são antes de uma natureza incisiva, exortatória.</p><p>Pode surgir a pergunta: Por que tais interlúdios aqui? Para este especial de</p><p>Apocalipse 16:15, Paul S. Minear tem salientado apropriadamente: “A afirmação</p><p>revela o terrível perigo em que está o cristão desavisado. Se alguém pergunta com</p><p>R. H. Charles: ‘Como poderia alguém dormir durante os terremotos cósmicos que</p><p>estavam acontecendo?’ pode-se responder: ‘Isto é apenas o ponto.’ Havia cristãos</p><p>dormindo, assim João acreditava, muito imperturbáveis por barulho ou destru-</p><p>ição, inconscientes do que estava acontecendo que poderia ameaçar o seu tesouro</p><p>ou deixá-los expostos e nus. Estar dormindo era estar inconsciente da urgente</p><p>As oitoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>50 51</p><p>necessidade do momento. (Compare com os discípulos em Getsêmani — Mc</p><p>14:26-42.) A beatitude era designada para sentinelas que haviam se esquecido de</p><p>que uma guerra estava sendo travada” (MINEAR, 1968, p. 150).</p><p>Bloco D, Culminação Escatológica, 16:17. É derramada a sétima taça da</p><p>ira, e sai do trono no templo do céu a declaração: “Está feito!”</p><p>Visão VI, 16:18–18:24</p><p>Bloco A, Cena da Introdução Vitoriosa, 16:18–17:3a. Ocorrem os sinais</p><p>tradicionais de juízo (vozes, trovões, relâmpagos, terremoto e saraivada) e a</p><p>“grande Babilônia” entra em “lembrança julgadora” diante de Deus. João é então</p><p>levado ao deserto para ver esse julgamento contra Babilônia.</p><p>Bloco B, Básica Descrição Profética, 17:3b–18;3. A descrição de Babilônia</p><p>como uma prostituta e também da besta cor de escarlate com sete cabeças e dez</p><p>chifres sobre a qual ela se assenta é introduzida nos primeiros versos do capítulo</p><p>17 (v. 3b-8). Esta cena descritiva é seguida por considerável detalhe explicativo</p><p>(v. 9-18) que culmina em uma referência à devastação da prostituta pelos dez</p><p>chifres da besta (v. 16-17) e a identificação dessa meretriz como a grande cidade</p><p>que reina sobre os reis da terra (v. 18). Nos primeiros três versos do capítulo 18,</p><p>uma narração de vários aspectos da corrupção de Babilônia prepara o terreno</p><p>para o apelo do interlúdio e a descrição da destruição que segue.</p><p>Bloco C, Interlúdio, 18:4-8, 20. Antes da descrição real da devastação de</p><p>Babilônia pelo fogo, é feito um apelo ao povo de Deus para “sair” de Babilônia,</p><p>para que não se tornem participantes de seus pecados e receptores de suas pra-</p><p>gas. Nesta conexão há também uma reiteração, de forma detalhada, do decreto</p><p>divino de juízo contra Babilônia.Visto que na estrutura quiástica do material do</p><p>capítulo 18, verso 20 há um correlativo quiástico dos versos 4-8 (SHEA, 1982,</p><p>p. 249-256; STRAND, 1982, p. 53-60), ambos estes “interlúdios” dentro deste</p><p>quiasmo específico devem provavelmente ser considerados como o “interlúdio”</p><p>total para a maior sequência de 17:3b–18:24. O verso 20 faz um chamado ao re-</p><p>gozijo pelo fato de que Deus tem proclamado o juízo contra a própria Babilônia</p><p>que havia se imposto sobre o povo de Deus (ver STRAND, 1981, p. 55-59).8</p><p>Bloco D, Culminação Escatológica, 18:9-19, 21-24. A seção central do capítulo</p><p>18 (v. 9-19) retrata, através de uma tríplice lamentação, a desolação completa de</p><p>8 Para uma tradução atualizada e mais literal de Apocalipse 18:20b, veja Strand (1986, p. 43-45).</p><p>No contexto de Apocalipse 18:4-8 e o v. 20 está a lei do testemunho malicioso (ver Dt 19:16-19;</p><p>veja também Et 7:9-10).</p><p>Babilônia pelo fogo; e a seção final do capítulo (v. 21-24) enfatiza a condenação de</p><p>Babilônia e sua condição inteiramente desolada após o juízo divino sobre ela.</p><p>Visão VII, 19:1–21:4</p><p>Bloco A, Cena da Introdução Vitoriosa, 19:1-10. N cenário celestial que</p><p>é paralelo ao cenário dado no capítulo 4, antífonas sobem em louvor a Deus</p><p>por ter Ele julgado a grande prostituta Babilônia e vindicado o povo de Deus;</p><p>então é feita referência à esposa do Cordeiro estando pronta para as bodas, e</p><p>uma bênção é pronunciada sobre aqueles que são “convidados para a ceia das</p><p>bodas do Cordeiro.” (Deve ser notado que embora o cenário do templo celestial</p><p>dos capítulos 4 a 5 e do capítulo 19 seja o mesmo, há diferença com respeito à</p><p>atividade e perspectiva — um fato também deixado claro pelo conteúdo das</p><p>antífonas nas duas visões. A primeira visão pertence claramente à era histórica,</p><p>e esta se refere da mesma forma claramente à era do juízo escatológico.</p><p>Bloco B, Básica Descrição Profética, 19:11–20:5. O segundo advento de</p><p>Cristo é dramaticamente retratado, e são dadas as consequências dele. Ente os</p><p>resultados negativos enumerados estão o banquete das aves consistindo dos in-</p><p>imigos de Deus (19:17-18), a sorte do lago de fogo para a besta e o falso profeta</p><p>(19:19-20), e o aprisionamento de Satanás no “abismo” por mil anos (20:1-3).</p><p>Do lado positivo está a primeira ressurreição, em que ressurgem os santos mar-</p><p>tirizados. Eles então vivem e reinam com Cristo durante mil anos (20:4-5).</p><p>Bloco C, Interlúdio, 20:6. “Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte</p><p>na primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não tem autoridade...”</p><p>Bloco D, Culminação Escatológica, 20:7–21-14. São apresentados os</p><p>eventos culminantes do final dos mil anos. Do lado negativo estão a soltura de</p><p>Satanás, o ressurgimento de sua obra enganadora, o vão esforço de sua confed-</p><p>eração maligna para se apoderar do “acampamento dos santos”, e a destruição</p><p>final dessa confederação no fogo. Do lado positivo está a visão de João de “novo</p><p>céu e nova terra”, com a cidade santa, a Nova Jerusalém descendo do Céu para</p><p>a Terra, e o próprio Deus habitando com o Seu povo.</p><p>Visão VIII, 21:5–22:5</p><p>Bloco A, Cena da Introdução Vitoriosa, 21:5-11a. É feita a proclamação</p><p>de que os vitoriosos</p><p>de Cristo herdarão todas as coisas, e João vê a cidade santa,</p><p>a Nova Jerusalém, descendo do Céu para a Terra. (Como um pano de fundo, a</p><p>seção final da visão precedente já retratou a condição da Terra depois da desci-</p><p>da da Nova Jerusalém (21:1-4).</p><p>As oitoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>52 53</p><p>Bloco B, Básica Descrição Profética, 21:11b–22:5. A santa cidade, Nova</p><p>Jerusalém, é descrita em detalhes.</p><p>3. outra análise dos blocos de texto a, b,</p><p>c e d</p><p>Com o fundo anterior, podemos agora proceder a algumas outras gen-</p><p>eralizações sobre a natureza das respectivas seções (A, B, etc.) dentro das</p><p>oito visões. Além disso, podemos sugerir anotações adicionais para as</p><p>legendas para estes blocos de texto, além do que já tem sido indicado nas</p><p>seções anteriores deste artigo e no diagrama 2.</p><p>Ao considerarmos a “Cena da Introdução Vitoriosa” para cada uma das</p><p>oito visões, descobrimos que há sempre um cenário básico do templo e/ou</p><p>algum tipo de imagem de fundo do templo.9 Portanto, nossas legendas de</p><p>“Cena da Introdução Vitoriosa” (bloco A) pode agora ser complementada</p><p>com a frase “Com o Cenário do Templo”.</p><p>Quanto ao segundo até o quarto blocos de texto (blocos B, C e D),</p><p>a diferença em perspectiva deve ser notada entre as visões que precedem a</p><p>linha divisória quiástica (visões I-IV) e a visão que a segue (visões V-VII).</p><p>Com respeito às primeiras, a “Básica Descrição Profética” está dentro da</p><p>arena histórica; no tocante às últimas, o material da visão básica dos blocos</p><p>B pertence ao juízo final ou escatológico. Portanto, para as visões I-IV a</p><p>“Básica Descrição Profética” necessita a qualificação adicional “na História”;</p><p>e para as visões V-VIII esta qualificação seria “no Juízo Final”.</p><p>9 Em alguns casos o templo celestial é mencionado explicitamente, como nas cenas introdu-</p><p>tórias às visões IV e V; e em outros casos, a alusão ao mobiliário do templo fornece evidência de</p><p>um cenário do templo, embora a palavra “templo” não ocorra, como nas cenas para as visões I,</p><p>II e III. As únicas cenas introdutórias que não têm um indício tão óbvio às imagens do templo</p><p>são aquelas para as visões VI e VIII. No caso da primeira, existe, porém, no verso precedente</p><p>(16:17, a taça da praga final, mas também um “um elemento oscilante” ao que segue) a menção</p><p>de uma voz “do templo do céu, do trono.” Com respeito à visão VIII, há referência Àquele que</p><p>“se assentava sobre o trono” — identificado anteriormente como Deus em Seu templo (cf., ex.,</p><p>4:2-11; 19:1-5); e além disso, o bloco de texto imediatamente precedente (novamente um tipo</p><p>de “elemento oscilante”) se refere a Deus como “habitando” na “Nova Terra”/”Nova Jerusalém”</p><p>com Seu povo (21:3). Adicionalmente deve ser notado que o bloco de texto seguinte, ou “Básica</p><p>Descrição Profética” para a visão VIII, declara que o templo na cidade santa Nova Jerusalém “é o</p><p>Senhor Deus Todo-poderoso e o Cordeiro” (21:22). Meu segundo artigo desta série explicará com</p><p>mais detalhes a natureza e o significado teológico das imagens do templo que aparece nas cenas</p><p>introdutórias às oito grandes visões do Apocalipse.</p><p>Quanto aos terceiros blocos de texto (C), nas visões II-IV a designação</p><p>básica de “Interlúdio” pode igualmente ser complementada com uma frase</p><p>adicional — “Projetando os Últimos Eventos” (significando antes do segundo</p><p>advento de Cristo), visto que o “Interlúdio” em cada exemplo se estende sobre</p><p>o período de tempo pouco antes da culminação escatológica. Para as visões V-</p><p>VII a frase adicional “Exortação ou Apelo’ é apropriada, porque os terrores das</p><p>cenas do juízo final são “interrompidos” a fim de prover breves blocos de texto</p><p>apresentando incentivo à fidelidade e/ou apelos ao arrependimento. (Em dois</p><p>desses exemplos de exortação ou apelo, o interlúdio é lançado, como já temos</p><p>visto, basicamente na forma de um macarismo — 16:15 e 20:4.)</p><p>As seções sobre “Culminação Escatológica” (os blocos D), todas pertencem à</p><p>consumação escatológica final, como foi observado antes, mas aquelas seções con-</p><p>clusivas para as visões II-IV provêem uma conclusão climática para as séries que se</p><p>relacionam com a era histórica, enquanto que aquelas para as visões V-VII tratam</p><p>especificamente da porção final ou terminal da série juízo escatológico já em de-</p><p>senvolvimento nas seções anteriores daquelas visões. Os blocos D para as visões</p><p>II-IV podem, portanto, ser designados como “Culminação Escatológica: Clímax na</p><p>História; e os blocos D para as visões V-VII podem ser denominados “Culminação</p><p>Escatológica: O Juízo Final”. O diagrama 3 (da página seguinte) incorpora os refi-</p><p>namentos acima mencionados para os dados fornecidos no diagrama 2, e também</p><p>inclui minhas sugestões quanto aos limites textuais para os blocos de material con-</p><p>forme apresentados na segunda seção do presente artigo.</p><p>4. conclusão</p><p>Neste artigo, temos observado que há uma muito coerente e equilibrada es-</p><p>trutura literária no livro de Apocalipse. Essa estrutura não tem somente valores</p><p>ou qualidades estéticas e mnemônicas, mas também apela significativamente</p><p>para a mensagem teológica do livro. Vários aspectos da teologia serão trata-</p><p>dos em um artigo subsequente que explorará com mais detalhes as “cenas da</p><p>introdução vitoriosa” para as oito visões, mas um significativo foco teológico</p><p>pode ser aqui mencionado. A ampla estrutura quiástica em si enfatiza um du-</p><p>plo tema que inclui e apóia as várias mensagens do livro — (1) que Cristo é o</p><p>Alfa e o Ômega, e (2) que Ele retornará no final da era para recompensar todas</p><p>as pessoas segundo as suas obras (Ap 1:7-8 e 22:12-13). Em outras palavras,</p><p>As oitoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>54 55</p><p>Ele é um auxílio e apoio coerente, fidedigno e sempre presente para Seus fiéis</p><p>durante esta era de adversidade para eles (cf. Ap 1:17-18; Mt 28:20b; Jo 16:33;</p><p>Hb 12:2a; 13:8); e Ele retornará pessoalmente para anunciar a série de even-</p><p>tos que destruirá os “destruidores da terra” e que proverá para Seus seguidores</p><p>leais a herança da “nova terra” e o cumprimento de todas as boas promessas</p><p>feitas a eles (veja Ap 11:15-18; 21:1-4, 7, 22-27; 22:1-5).10 As quatro sequências</p><p>10 É digno de nota que os itens da promessa feita aos “vencedores” nas sete igrejas (2:7b, 11b,</p><p>17b, 26-28; e 3:5, 12, 21) são na maior parte mencionados outra vez especificamente em 21:5–22:5</p><p>como cumpridos (ex., 21:27; 22:2, 4), bem como sendo mencionados de um modo geral na de-</p><p>diagrama 3. visão geral da estrutura</p><p>Interludio</p><p>Enfoque nos</p><p>enventos finais</p><p>Interludio</p><p>Enfoque nos</p><p>enventos finais</p><p>Interludio</p><p>Enfoque nos</p><p>enventos finais</p><p>Cena da introdução</p><p>vitoriosa com</p><p>cenário do templo</p><p>Cena da introdução</p><p>vitoriosa com</p><p>cenário do templo</p><p>Cena da introdução</p><p>vitoriosa com</p><p>cenário do templo</p><p>Cena da introdução</p><p>vitoriosa com</p><p>cenário do templo</p><p>Básica descrição</p><p>profética na</p><p>história</p><p>Básica descrição</p><p>profética na</p><p>história</p><p>Culminação</p><p>escatológica:</p><p>Clímax para a história</p><p>Culminação</p><p>escatológica:</p><p>Clímax para a história</p><p>Culminação</p><p>escatológica:</p><p>Clímax para a história</p><p>Básica descrição</p><p>profética na</p><p>história</p><p>Básica descrição</p><p>profética na</p><p>história</p><p>I</p><p>(1:10b-20)</p><p>(caps. 2 e 3)</p><p>(caps. 4 e 5)</p><p>(cap. 6)</p><p>(cap. 7)</p><p>(8:1)</p><p>(8:2-6)</p><p>(8:7-9:21)</p><p>(10:1 - 11:13)</p><p>(11:14-18)</p><p>(11:19)</p><p>(caps. 12 e 13)</p><p>(14:1-13)</p><p>(14:14-20)</p><p>II III IV</p><p>A</p><p>B</p><p>D</p><p>E</p><p>Historical-Era Visions</p><p>proféticas que precedem a linha divisória quiástica tratam principalmente do</p><p>primeiro aspecto, e as quatro grandes visões subsequentes a essa linha divisória</p><p>são dedicadas principalmente ao segundo aspecto.</p><p>No encerramento, um item adicional pode também ser brevemente in-</p><p>troduzido aqui: Vale ressaltar que nas cenas introdutórias das oito visões, as</p><p>imagens do templo revelam um padrão primeiro de um local terreno na visão</p><p>I (castiçais que representam igrejas na Terra) seguido por um local celestial nas</p><p>claração de que os vencedores herdarão “estas cousas” (21:7).</p><p>e conteúdo do aPocaliPse</p><p>Interludio</p><p>Exortação</p><p>ou apelo</p><p>Interludio</p><p>Exortação</p><p>ou apelo</p><p>Interludio</p><p>Exortação</p><p>ou apelo</p><p>Cena da introdução</p><p>vitoriosa com</p><p>cenário do templo</p><p>Cena da introdução</p><p>vitoriosa com</p><p>cenário do templo</p><p>Cena da introdução</p><p>vitoriosa com</p><p>cenário do templo</p><p>Cena da introdução</p><p>vitoriosa com</p><p>cenário do templo</p><p>Básica descrição</p><p>profética no</p><p>julgamento final</p><p>Culminação</p><p>escatológica:</p><p>Final julgador</p><p>Culminação</p><p>escatológica:</p><p>Final julgador</p><p>Culminação</p><p>escatológica:</p><p>Final julgador</p><p>Básica descrição</p><p>profética no</p><p>julgamento final</p><p>Básica descrição</p><p>profética no</p><p>julgamento final</p><p>Básica descrição</p><p>profética no</p><p>julgamento final</p><p>(15:1 - 16:1)</p><p>(16:2-14,16)</p><p>(16:15)</p><p>(16:17)</p><p>(16:18 - 17:3a)</p><p>(17:3b - 18:3)</p><p>(18:4-8, 20)</p><p>(18:9-19, 21-24)</p><p>(19:1-10)</p><p>(19:11 - 20:5)</p><p>(20:6)</p><p>(20:7 - 21:4)</p><p>(21:5-11a)</p><p>(21:11b - 22:5)</p><p>V VI VII VIII</p><p>C</p><p>B</p><p>D</p><p>A</p><p>Eschatological-Judgment-Era Visions</p><p>As oitoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>56 57</p><p>visões II-VII (ou [a] uma menção do “templo no céu” ou o seu mobiliário e/</p><p>ou [b] um fundo que indica este cenário celestial),11 e seguido finalmente por</p><p>um retorno outra vez a um local terrestre na visão VIII (Deus habitando na</p><p>“Nova Terra”/Nova Jerusalém” [cf. 21:3, 22]). Este é um impressionante fenô-</p><p>meno, cujo significado teológico e cuja correlação com ênfase na teologia geral</p><p>do Novo Testamento será apresentado no artigo subsequente desta série.</p><p>referências</p><p>BOWMAN, J. W. The drama of the Book of Revelation. Philadelphia: [S.n], 1955.</p><p>_____________. Revelation. In: BUTTRICK, G. A.; CRIM, K. R. (Eds.). Interpreter’s</p><p>Dictionary Bible. [S.l.]: Abingdon Press, 1981. v. 4.</p><p>KEPLER, T. S. The Book of Revelation: a commentary of laymen. New York: Oxford</p><p>University Press, 1957.</p><p>LOHMEYER, E. Die Offenbarung des Johannes. Tübingen: [s. n.], 1929.</p><p>MINEAR, P. S. I saw a New Earth: an introduction to the visions of Apocalypse. Wa-</p><p>shington: Wipf & Stock Publisher, 1968.</p><p>SHEA, W. H. Chiasm by theme and by form in Revelation 18. Andrews University</p><p>Seminary Studies, v. 20, p. 249-256, 1982.</p><p>STRAND, K. A. An overlooked Old Testament background to Revelation 11:1. An-</p><p>drews University Seminary Studies, v. 22, p. 317-325, 1984.</p><p>_____________. Apocalyptic prophecy and the church. Ministry, p. 22-23, out. 1983.</p><p>11 No que concerne à evidente exceção no caso da visão VI, veja o n. 12, acima.</p><p>_____________. Interpreting the Book of Revelation: hermeneutical guidelines. 2. ed.</p><p>Naples: Worthington, 1979.</p><p>_____________. Open Gates of Heaven. Washington: Ann Arbor, 1969.</p><p>_____________. Some modalities of symbolic usage in Revelation 18. Andrews Univer-</p><p>sity Seminary Studies, v. 24, p. 43-45, 1986.</p><p>_____________. The two Witnesses of Revelation 11:3-12. Andrews University Semi-</p><p>nary Studies, v. 19, p. 128-135, 1981.</p><p>_____________. Two aspects of Babylon’s judgment portrayed in Revelation 18. An-</p><p>drews University Seminary Studies, v. 20, p. 53-60, 1982.</p><p>Estudos selecionados em interpretação profética</p><p>58</p><p>Este capítulo é uma continu-</p><p>ação do meu capítulo anterior so-</p><p>bre a estrutura literária básica das</p><p>oito visões do livro de Apocalipse</p><p>(STRAND, 1987, p. 107-121). Por</p><p>conveniência, o diagrama 3 do meu</p><p>artigo anterior é aqui reproduzido</p><p>(nas páginas seguintes) como dia-</p><p>grama 1 para o presente artigo.</p><p>Os blocos de texto nos quais</p><p>concentramos nossa atenção neste</p><p>estudo são designados como “A”</p><p>neste diagrama; a saber, aqueles que</p><p>levam o título “Cena da introdução</p><p>vitoriosa com ambiente do templo”.</p><p>Primeiro, vamos dar uma visão ger-</p><p>al do conteúdo dessas cenas para as</p><p>cenas da “introdução</p><p>vitoriosa”*</p><p>Kenneth A. Strand</p><p>3</p><p>Cenas da “Introdução Vitoriosa”Estudos selecionados em interpretação profética</p><p>60 61</p><p>visões de I a VIII, e então considerar alguns dos fenômenos específicos e suas</p><p>implicações teológicas.</p><p>1. resumo das “cenas da introdução vitoriosa”</p><p>Provendo a seguinte visão geral do conteúdo das oito cenas da in-</p><p>trodução vitoriosa, forneço aqui um resumo do próprio material textual e</p><p>alguns comentários preliminares concernentes a esse material. Deve ser no-</p><p>tado nesses resumos que nem todos os detalhes das cenas estão incluídos;1</p><p>* Reimpresso com permissão, AUSS 25 (1987), 267-88, sob o título “As Cenas da Introdução</p><p>Vitoriosa no livro de Apocalipse”.</p><p>1 Aqui os resumos estão, contudo, em vários exemplos mais extensos do que os análogos, mas</p><p>diagrama 1. visão geral da estrutura e conteúdo do aPocaliPse</p><p>Interludio</p><p>Enfoque nos</p><p>enventos finais</p><p>Interludio</p><p>Exortação</p><p>ou apelo</p><p>Interludio</p><p>Enfoque nos</p><p>enventos finais</p><p>Interludio</p><p>Exortação</p><p>ou apelo</p><p>Interludio</p><p>Enfoque nos</p><p>enventos finais</p><p>Interludio</p><p>Exortação</p><p>ou apelo</p><p>Cena da introdução</p><p>vitoriosa com</p><p>cenário do templo</p><p>Cena da introdução</p><p>vitoriosa com</p><p>cenário do templo</p><p>Cena da introdução</p><p>vitoriosa com</p><p>cenário do templo</p><p>Cena da introdução</p><p>vitoriosa com</p><p>cenário do templo</p><p>Cena da introdução</p><p>vitoriosa com</p><p>cenário do templo</p><p>Cena da introdução</p><p>vitoriosa com</p><p>cenário do templo</p><p>Cena da introdução</p><p>vitoriosa com</p><p>cenário do templo</p><p>Cena da introdução</p><p>vitoriosa com</p><p>cenário do templo</p><p>Básica descrição</p><p>profética na</p><p>história</p><p>Básica descrição</p><p>profética na</p><p>história</p><p>Básica descrição</p><p>profética no</p><p>julgamento final</p><p>Culminação</p><p>escatológica:</p><p>Clímax para a história</p><p>Culminação</p><p>escatológica:</p><p>Final julgador</p><p>Culminação</p><p>escatológica:</p><p>Clímax para a história</p><p>Culminação</p><p>escatológica:</p><p>Final julgador</p><p>Culminação</p><p>escatológica:</p><p>Clímax para a história</p><p>Culminação</p><p>escatológica:</p><p>Final julgador</p><p>Básica descrição</p><p>profética na</p><p>história</p><p>Básica descrição</p><p>profética no</p><p>julgamento final</p><p>Básica descrição</p><p>profética na</p><p>história</p><p>Básica descrição</p><p>profética no</p><p>julgamento final</p><p>Básica descrição</p><p>profética no</p><p>julgamento final</p><p>I</p><p>(1:10b-20) (15:1 - 16:1)</p><p>(caps. 2 e 3) (16:2-14,16)</p><p>(16:15)</p><p>(16:17)</p><p>(caps. 4 e 5) (16:18 - 17:3a)</p><p>(cap. 6)</p><p>(cap. 7)</p><p>(8:1)</p><p>(17:3b - 18:3)</p><p>(18:4-8, 20)</p><p>(18:9-19, 21-24)</p><p>(8:2-6) (19:1-10)</p><p>(8:7-9:21)</p><p>(10:1 - 11:13)</p><p>(11:14-18)</p><p>(19:11 - 20:5)</p><p>(20:6)</p><p>(20:7 - 21:4)</p><p>(11:19) (21:5-11a)</p><p>(caps. 12 e 13)</p><p>(14:1-13)</p><p>(14:14-20)</p><p>(21:11b - 22:5)</p><p>II III IV V VI VII VIII</p><p>A</p><p>B</p><p>D</p><p>E</p><p>C</p><p>B</p><p>D</p><p>A</p><p>Historical-Era Visions Eschatological-Judgment-Era Visions</p><p>contudo, precedendo os próprios resumos, são apresentadas as referências</p><p>bíblicas apropriadas (como também apresentadas no diagrama 1), e o leitor</p><p>pode ir ao próprio texto bíblico para um quadro mais completo.</p><p>Introdução à visão I</p><p>Texto: Apocalipse 1:10b-20</p><p>Resumo: Na Ilha de Patmos (1:9), o Cristo ressuscitado, celestial, aparece a João</p><p>em gloriosa visão, revelando-se como Aquele que foi morto, agora vive, está vivo</p><p>para sempre, e tem as chaves do Hades e da morte. João vê Cristo segurando</p><p>geralmente muito breves, resumos providos na obra de Strand (1987, p. 112-117) The eight basic</p><p>visions in the Book of Revelation (ver também os resumos dos conteúdos dos blocos B, C e D das</p><p>várias visões).</p><p>Cenas da “Introdução Vitoriosa”Estudos selecionados em interpretação profética</p><p>62 63</p><p>sete estrelas em sua mão direita e caminhando entre os sete candeeiros de ouro. As</p><p>sete estrelas são definidas como “os anjos das sete igrejas” (v. 20), e os sete</p><p>candeeiros são definidos como “as sete igrejas” (1:11) — a saber, Éfeso, Esmirna,</p><p>Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia (v.11).</p><p>Comentário: O fato de que os candeeiros são imagens do templo é geral-</p><p>mente reconhecido pelos exegetas, embora tenha havido diferença de opinião</p><p>quanto ao antecedente exato. A interrogação geralmente feita é se esse ante-</p><p>cedente é aquele do candelabro do “lugar santo” (primeiro compartimento) do</p><p>antigo tabernáculo do deserto (Êx 26:35; no templo de Herodes também havia</p><p>um candelabro) ou os dez castiçais do primeiro compartimento do Templo de</p><p>Salomão (1 Reis 7:49). Uma terceira alternativa, geralmente omitida pelos co-</p><p>mentaristas, é o simbolismo do candelabro de Zacarias 4, que desempenha um</p><p>papel muito óbvio como antecedente para uma visão posterior</p><p>do Apocalipse —</p><p>Apocalipse 11, “o templo e as duas testemunhas”.2 Ou talvez tenha havido múlti-</p><p>plos antecedentes intencionais.3 O principal detalhe para nós aqui, em qualquer</p><p>caso, é que o cenário desta visão e sua imagem do templo está na Terra, não no</p><p>Céu. Este fato está claro a partir de duas principais considerações: que o Cris-</p><p>to celestial se encontra com João na Terra (em Patmos), e que os “candeeiros”</p><p>2 Há implicações teológicas que favorecem considerar o “candelabro” de Zacarias como no mínimo</p><p>uma fonte provável para a imagem (ver STRAND, 1981, p. 127-35 e 131-34; 1982, p. 257-61). Não</p><p>somente devem ser notadas certas afinidades teológicas, mas também deve ser dada consideração a</p><p>outros antecedentes (além de Zacarias 4) para as imagens das oliveiras/candeeiros de Ap 11:4 — a sab-</p><p>er, as colunas do templo Jaquim-e-Boaz (cf. 1Rs 7:21; também 2Rs 11:12-14 e 23:1-2), e além delas a</p><p>“coluna de nuvem” em que o Senhor apareceu a Moisés e Josué na “entrada” do tabernáculo do deserto</p><p>(Dt 31:14-15). Se o antecedente para os sete candeeiros na visão I de Apocalipse está nesta direção, é</p><p>o pátio, em vez de um ou outro dos dois compartimentos do próprio tabernáculo/templo, que estaria</p><p>em foco aqui (uma possibilidade que é realçada por uma consideração das implicações teológicas de</p><p>Ap 11:2 concernente ao “átrio exterior” do templo). Todavia, não devemos negligenciar a possibilidade</p><p>de que há múltiplos antecedentes para este simbolismo dos sete candeeiros, bem como para as outras</p><p>imagens do livro de Apocalipse. Cf. nota 4, abaixo.</p><p>3 Paul S. Minear (1965/1966, p. 96) tem chamado a atenção para este tipo de fenômeno de anteced-</p><p>ente múltiplo em que ele faz alusão como um “modelo trans-histórico” e “um inclusivo em vez de</p><p>disjuntivo modo de ver e pensar.” Tanto neste artigo quanto em seu I Saw a New Earth, Minear (1968,</p><p>p. 102) faz referência a Ap 11:8, onde há uma aglutinação de várias entidades —Sodoma, Egito, e Je-</p><p>rusalém — em uma imagem, a “grande cidade”. Minear sugere que essa “única cidade tinha se tornado</p><p>em termos proféticos todas as cidades — Sodoma, Egito, Babilônia, Nínive, Roma”.</p><p>Em vários documentos e ensaios eu tenho me aprofundado no fenômeno, referindo-me a ele como a</p><p>“mistura” ou “fusão” de imagens. Veja, por exemplo, An Overlooked Old Testament Background to Rev-</p><p>elation 11:1 (STRAND, 1984, p. 318-19), onde eu não somente faço alusão às perceptivas observações</p><p>de Minear (esp. N. 6 na p. 319), mas também forneço alguns exemplos adicionais (ver também a</p><p>discussão de Strand [1981, p. 130-131] Two Witnesses, onde ainda outra ilustração tem sido provida).</p><p>entre os quais Cristo manifesta sua presença são igrejas na Terra. O fato de que</p><p>a próxima visão indica uma transição para o Céu, como veremos em nossa at-</p><p>enção a essa visão, pode ser considerada uma terceira evidência apontando na</p><p>direção do local terrestre desta primeira cena introdutória.</p><p>Outro detalhe digno de nota é que esta cena da introdução vitoriosa funcio-</p><p>na para prover conforto e segurança aos fiéis seguidores de Cristo: sua presença</p><p>está entre eles ao enfrentarem as poderosas forças do engano e perseguição.4</p><p>Um aspecto positivo desta espécie é realmente característico de todas as oito</p><p>cenas introdutórias para as principais visões do Apocalipse.</p><p>Introdução à visão II</p><p>Texto: 4:1–5:14</p><p>Resumo: João vê uma porta aberta “no Céu” e ouve uma voz chamando-o</p><p>a “subir para aqui”. Ele então “acha-se em espírito” e vê “um trono” “no Céu”,</p><p>estando um assentado sobre o trono (a saber, Deus, como o próprio contexto e</p><p>também outras visões do Apocalipse deixam claro; cf. 4:9-11; 7:10; 19:1-5). Ao</p><p>redor do trono estavam vinte e quatro anciãos assentados em tronos; diante</p><p>do trono estavam “sete lâmpadas de fogo” e um “mar de vidro” semelhante ao</p><p>cristal; e “no meio” e “à volta” do trono estavam quatro seres viventes. Depois</p><p>de uma antífona de louvor a Deus por sua condição de Criador, a cena volta-se</p><p>para um livro em sua mão selado com sete selos — um livro que “ninguém” no</p><p>Céu, na terra, ou debaixo da terra era capaz de abrir. Todavia, na progressão</p><p>do drama, um Ser foi achado digno de abrir aquele livro — a saber, o Cordeiro</p><p>“como tendo sido morto”. Ao tomar o Cordeiro o livro da mão direita do que</p><p>estava assentado sobre o trono, seguiu-se uma série de antífonas de louvor.</p><p>Comentário: A primeira característica impressionante com que nos de-</p><p>frontamos nesta cena é a dupla referência a um novo local — Céu, em contraste</p><p>com o ambiente terrestre da cena introdutória da visão I. Esse ambiente celestial</p><p>é, de fato, realçado pela dupla referência ao “Céu” — a porta aberta “no Céu”</p><p>4 Engano e perseguição são as duas armas básicas manifestadas pelas forças adversárias ao longo</p><p>do livro de Apocalipse, precisamente como no Evangelho de João estas duas más características</p><p>resumem a atitude do diabo e seus seguidores (ex., em João 8:44 o diabo é chamado de “homi-</p><p>cida desde o princípio” e “pai da mentira”). Encontramos preeminente ilustração em Apocalipse</p><p>nas mensagens às sete igrejas, onde há advertência contra o engano (quer seja externo ou que se</p><p>auto-impôs) nas cartas a Pérgamo, Tiatira, Sardes e Laodiceia; e onde o perigo da perseguição é</p><p>particularmente destacado nas cartas a Esmirna e Filadélfia. As atividades da trindade antidivina</p><p>em Apocalipse 12–13 exemplificam ainda mais vigorosamente essas armas demoníacas (note, por</p><p>exemplo, os “sinais” enganadores e as atividades de morte e embargo mencionadas em 13:13-17).</p><p>Cenas da “Introdução Vitoriosa”Estudos selecionados em interpretação profética</p><p>64 65</p><p>e o trono “no Céu”. As “sete lâmpadas de fogo” localizariam o ambiente mais</p><p>especificamente como o “lugar santo” ou compartimento exterior do templo</p><p>celestial (o termo “templo no Céu” é usado especificamente em 11:19 e alguns</p><p>outros textos).5 Se o “mar de vidro” é imagem baseada no “lavador” ou bacia de</p><p>bronze do tabernáculo do deserto (Êx 30:18; 38:8) ou o “mar de fundição” e/ou</p><p>dez lavadores ou pias de bronze do Templo de Salomão (1Rs 7:23-39), como</p><p>sugerem vários comentaristas, nos parece ter imagens do “pátio exterior” em</p><p>vez de imagens do “primeiro compartimento”. Isto em si não apresentaria um</p><p>problema com respeito ao mar sendo designado como estando “diante do trono”,</p><p>porque todas as facetas da construção do templo poderiam ser consideradas a</p><p>partir dessa perspectiva. Mais provavelmente, porém, a base simbólica para esse</p><p>“mar de vidro” é o firmamento sobre a cabeça dos seres viventes e sob o trono de</p><p>Deus em Ezequiel 1:22-28 e 10:1.6</p><p>Esta cena celestial de Apocalipse 4–5 obviamente tem uma ênfase positiva.</p><p>Os temas duplos de criação (4:11) e redenção (cap. 5) concedem esperança e</p><p>certeza aos seguidores de Cristo, especialmente ao reconhecerem que o Cord-</p><p>eiro é julgado digno de desatar os selos e abrir o livro — um livro que tem sido</p><p>apropriadamente chamado “livro do destino”.7</p><p>5 A imagem do mobiliário do templo fornece pistas quanto à localidade e ao movimento que foram</p><p>abordados nos resumos do meu capítulo anterior, mas que se tornarão mais evidentes ao continuar-</p><p>mos aqui para prosseguir através das cenas da introdução vitoriosa. Embora os dois compartimen-</p><p>tos não sejam especificamente mencionados em combinação com esse “templo no céu” arquétipo</p><p>do antigo tabernáculo e templo israelitas, o “mobiliário” que é mencionado se relaciona com os dois</p><p>“compartimentos” — conforme são conhecidos não somente do Antigo Testamento e de tradicionais</p><p>fontes judaicas, mas também da descrição no livro de Hebreus no Novo Testamento (veja Hb 9:1-5;</p><p>cf. Êx 25:8; 26:30-35). Talvez pareça que a presença do trono no contexto da imagem do “comparti-</p><p>mento exterior” em Apocalipse 4 reduz o templo celestial a apenas um compartimento “arquitetural-</p><p>mente” (embora não funcionalmente), mas tal não é necessariamente o caso (ou em todo caso, não é</p><p>de importância fundamental). Veja mais na nota 11, abaixo. Para uma discussão muito proveitosa da</p><p>imagem do “templo celestial”</p><p>no livro de Hebreus (discussão que tem um elevado grau de relevância</p><p>também para o Apocalipse), veja Richard M. Davidson (1981, p. 336-367), Typology in Scripture: A</p><p>Study of Hermeneutical ΤYIIΟΣ Structures.</p><p>6 Robert H. Mounce (1977, p. 136-137), tem apropriadamente notado isto, e também tem chamado</p><p>a atenção para 2 Enoque 3:3 e Salmo 104:3, embora não esteja claro se o próprio Mounce realmente</p><p>considera a imagem dessas passagens como fundo ou antecedente para o “mar de vidro” de Apocalipse.</p><p>Para uma recente, detalhada e abrangente análise das imagens de Ap 4–5, veja R. Dean Davis (1986).</p><p>7 “Rolo do destino” e “livro do destino” são termos aplicados por vários exegetas e comentaristas</p><p>a esse documento selado com sete selos. Muitos que não usam esta exata terminologia indicam</p><p>o mesmo conceito em suas discussões do rolo. Edwin R. Thiele (1959, p. 97), utiliza especifica-</p><p>mente o termo “livro do destino”. Charles M. Laymon (1960, p. 77), refere-se à cena de Apocalipse</p><p>5 como a “preparação para o destino”; e Mounce (1977, p. 142), fala do rolo como contendo “o</p><p>Introdução à visão III</p><p>Texto: 8:2-6</p><p>Resumo: São vistos por João sete anjos com sete trombetas; mas antes</p><p>que eles procedam do templo (no Céu) para soar suas trombetas, outro anjo</p><p>aparece com um incensário diante do altar de ouro de incenso. Misturado com</p><p>as orações dos santos está o incenso subindo diante de Deus no trono. Então o</p><p>incensário é atirado à Terra, seguido pelos símbolos típicos da presença e juízo</p><p>divinos: “trovões, vozes, relâmpagos, e um terremoto.”</p><p>Comentário: O cenário desta visão é mais uma vez aquele do templo no</p><p>Céu, e também é ainda dentro do compartimento exterior ou “lugar santo”. Mas</p><p>a atividade agora se mudou para mais perto do santuário exterior, porque o</p><p>áureo altar de incenso é onde ocorre a ação.8 Esta cena, como aquelas das visões</p><p>I e II, contém o elemento típico da segurança, da certeza — neste caso, a de-</p><p>scrição das orações dos santos misturadas com incenso ascendendo à presença</p><p>de Deus. Contudo, agora além do aspecto positivo, também há pela primeira</p><p>vez um negativo. O uso dos símbolos julgadores de vozes, trovões, relâmpagos e</p><p>terremoto, ao ser o incensário com brasas vivas atirado à Terra.</p><p>Introdução à visão IV</p><p>Texto: 11:19</p><p>Resumo: João vê aberto o “templo de Deus no Céu”, com a arca do</p><p>testamento ou aliança de Deus em vista. Então há “relâmpagos, vozes, tro-</p><p>vões, um terremoto e grande saraivada”.</p><p>pleno relato do que Deus em sua soberana vontade tem determinado como o destino do mundo”.</p><p>Todavia, permanece uma questão fundamental: O que significa o termo “destino”? É a futura</p><p>história da Terra a partir da perspectiva de João? Por outro lado, são as recompensas escatológi-</p><p>cas distribuídas na terminação da história terrestre? Ou é possivelmente uma combinação de</p><p>ambas? William Hendriksen (1940, p. 109), parece ter optado pela terceira possibilidade. O rolo,</p><p>se deixado não aberto, sugeriria para ele “nenhuma proteção para os filhos de Deus nas horas de</p><p>amarga provação; nos juízos sobre um mundo perseguidor; nenhum triunfo final para os crentes;</p><p>nenhum novo céu e nova terra; nenhuma herança futura!” Mounce (1977, p. 141), tem optado</p><p>pela primeira alternativa. Juntamente com Thiele (1959, p. 97-98), eu adoto a alternativa do meio.</p><p>Minha base para isto é a distinta probabilidade (em minha opinião) que o antecedente para o</p><p>livro selado com sete selos deve ser encontrado em uma das formas de uma antiga vontade ou</p><p>testamento romano e também no título de propriedade de Jeremias (Jr 32). Thiele (1959, p. 95-</p><p>96), tem chamado a atenção para a documentação para o conceito do antecedente do testamento</p><p>romano; e, além disso, podemos acrescentar aqui uma referência específica a tal testamento que</p><p>foi traduzido para o inglês por Naphtali Lewis and Meyer Reinhold (1955, v. 2, p. 279-80).</p><p>8 Para um estudo da perspectiva do Novo Testamento da relação do altar de ouro com o comparti-</p><p>mento mais interior (Lugar Santíssimo), veja, ex., a discussão de Harold S. Camacho (1986, p. 5-12).</p><p>Cenas da “Introdução Vitoriosa”Estudos selecionados em interpretação profética</p><p>66 67</p><p>Comentário: Esta cena da introdução vitoriosa leva-nos a um novo</p><p>cenário dentro do “templo do Céu”: a saber, dentro do santuário ou “Lugar</p><p>Santíssimo”.9 Ali o enfoque de João está sobre a arca do testamento ou alian-</p><p>ça de Deus. Com base na analogia do tabernáculo terrestre, os dois aspectos</p><p>mais significativos relacionados a essa arca seriam a lei dos Dez Mandamen-</p><p>tos e o propiciatório (cf. Êx 40:20). É, portanto, interessante notar que na</p><p>“descrição profética” seguinte a luta significativa que o “remanescente” trava</p><p>contra o dragão é sobre o que é representado por estas duas características</p><p>da arca: os “mandamentos de Deus” e o “testemunho de Jesus” (Ap 12:17).</p><p>Introdução à visão V</p><p>Texto: 15:1–16:1</p><p>Resumo: João vê sete anjos tendo as sete últimas pragas da “ira de Deus”.</p><p>Na primeira seção desta cena ele observa sobre “um mar de vidro misturado</p><p>9 Concernente à possível “arquitetura” do “templo do céu”, podem ser feitas as seguintes ob-</p><p>servações (cf. também n. 6, acima): (1) É uma noção típica entre os exegetas que o trono de</p><p>Deus está confinado ao Lugar Santíssimo do templo, de sorte que a imagem do compartimento</p><p>exterior em Apocalipse 4 evidenciaria que no arquétipo celestial do antigo tabernáculo/templo</p><p>israelita a estrutura de dois compartimentos do último está aglutinada em um compartimento.</p><p>Um exemplo desta linha geral de pensamento é o excelente estudo de Mario Veloso (1981, p.</p><p>3924-419), The Doctrine of the Sanctuary and the Atonement as Reflected in the Book of Revelation.</p><p>(2) Sobre a base de uma possível analogia com o pensamento expresso concernente ao “véu” ou</p><p>“cortina” em Hb 10:20 (com seu muito frequentemente negligenciado pano de fundo histórico</p><p>do “véu rasgado de alto a baixo em MT 27:51), poderia estar em Apocalipse um conceito subja-</p><p>cente de um compartimento no templo celestial, mas o significado funcional do modelo de dois</p><p>compartimentos está, contudo, presente em Apocalipse na dinâmica que é evidente de cena para</p><p>cena. (3) Uma alternativa sugerida por C. Mervyn Maxwell (1985, v. 2, p. 171), merece atenção:</p><p>“A suposição de que o trono celestial de Deus está localizado somente no lugar santíssimo celestial</p><p>omite o fato de que nos tempos do Antigo Testamento a presença divina não estava sempre con-</p><p>finada ao lugar santíssimo, mas era às vezes patenteada no lugar santo.” Maxwell cita Êx 33:9 e Ez</p><p>9:3, e também se refere ao pão da Presença no compartimento exterior. (Em outro lugar no pre-</p><p>sente ensaio eu chamo a atenção para Êx 40:34 e Dt 31:14-15, que amplia ainda mais a localização</p><p>da presença divina.) (4) Deve ser reconhecido que localizar o símbolo do “trono” no Apocalipse</p><p>peca contra o fato de que o próprio uso do símbolo no livro como um tipo de símbolo difuso</p><p>(ex., a utilização revelada em Ap 6:16 e 22:3 conforme comparada e/ou contrastada com a que é</p><p>apresentada em Ap 4–5). (5) O detalhe de fundamental importância é que o tema do “trono de</p><p>Deus” em Apocalipse significa a divina presença e autoridade, e não é basicamente um indicador</p><p>de uma localidade específica (e certamente não é confinamento geográfico!). O conceito não é</p><p>que o “trono” fixa a localização de Deus, mas antes o inverso: Onde Deus está, ali está o trono! (6)</p><p>Finalmente, o antecedente dos capítulos 1 e 10 de Ezequiel, com um trono de Deus que se move,</p><p>não deve ser desconsiderado quando se interpreta a cena de Ap 4–5.</p><p>com fogo” aqueles que haviam obtido a vitória sobre a besta, sobre sua imagem,</p><p>e sobre o número do seu nome. Esse grupo entoa “o cântico de Moisés [...] e</p><p>o cântico do Cordeiro”. Na segunda seção desta cena, João observa “o templo</p><p>do tabernáculo do testemunho no Céu” aberto, e sete anjos com as taças da ira</p><p>saindo dali. O templo se torna cheio “da fumaça procedente da glória de Deus</p><p>e do seu poder”, de sorte que “ninguém podia entrar no templo” até que fossem</p><p>cumpridas</p><p>as sete pragas. Então uma voz do templo ordenou aos sete anjos que</p><p>saíssem e derramassem sobre a Terra as sete taças da ira de Deus.</p><p>Comentário: Mais uma vez o cenário para a visão é o do Céu — ou mais es-</p><p>pecificamente, o templo do Céu. Daquele templo emergem os sete anjos com as</p><p>taças da ira. É em combinação com esse templo que um “mar de vidro” tinha sido</p><p>visto anteriormente (Ap 4). E é esse templo que agora está cheio de fumaça. Há uma</p><p>ênfase positiva no fato de que os santos sobre o mar de vidro entoam o cântico de</p><p>Moisés e do Cordeiro, precisamente como os israelitas haviam cantado o cântico de</p><p>Moisés depois do livramento do antigo cativeiro egípcio (Êx 14 e 15). E há um duplo</p><p>aspecto negativo na cena: primeiro, em que os anjos saem do templo com as taças</p><p>da ira a fim de derramá-las sobre a Terra; e segundo, em que o templo está cheio de</p><p>fumaça durante o tempo das pragas, de sorte que “ninguém podia entrar no tem-</p><p>plo” — uma sugestão, indubitavelmente, de que nenhum ministério de misericórdia</p><p>procederia do templo naquela ocasião.10</p><p>Introdução à visão VI</p><p>Texto: 16:18–17:3a (com 16:17 como fundo)</p><p>Resumo: Após o sétimo anjo ter derramado sua taça de ira pelo ar, uma grande</p><p>voz “do templo, do trono” declara: “Está feito” (16:17). (Isto pode ser considerado</p><p>como uma espécie de elemento transicional ou “oscilante” que conclui a sétima pra-</p><p>ga e apresenta esta nova cena da introdução vitoriosa.)11 Então seguem imediata-</p><p>10 Esta conclusão é fortalecida também pelos fatos de que (1) as próprias sete pragas são descri-</p><p>tas em 15:1 como as “últimas” e como consumando a “ira de Deus”, (2) a descrição no capítulo</p><p>16 do derramamento dessa ira divina nas próprias taças não revela nenhum efeito salvífico, mas</p><p>antes o oposto (cf. ex., 16:6, 9, 10, 14), e (3) o julgamento de Babilônia é descrito em 16:19 como</p><p>sendo uma “lembrança” de Deus que a faz “esvaziar o cálice do furor da sua ira”.</p><p>11 A mais nítida divisão entre sequências na primeira grande parte de Apocalipse (visões I-IV)</p><p>abre caminho na segunda grande parte do livro (visões V-VIII) para a presença dos elementos</p><p>“oscilantes”. Isto, curiosamente, parece corresponder ao fato de que a natureza recapitulacionista</p><p>das próprias sequências em ambas as grandes partes também difere de certa forma em que as</p><p>estruturas “cronológicas” ou “sucessão” são menos distintas na segunda grande parte. Note, por</p><p>exemplo, as implicações que fluem das breves visões gerais dadas em Kenneth A. Strand (1979, p.</p><p>48-49) em Interpreting the Book of Revelation: Hermeneutical Guidelines, With Brief Introduction</p><p>Cenas da “Introdução Vitoriosa”Estudos selecionados em interpretação profética</p><p>68 69</p><p>mente os sinais do juízo divino: “E sobrevieram relâmpagos, vozes e trovões, e ocor-</p><p>reu grande terremoto, como nunca houve igual desde que há gente sobre a terra;</p><p>tal foi o terremoto, forte e grande.” A cidade de Babilônia é dividida, as cidades das</p><p>nações desmoronam, e grande saraivada do céu, “com pedras que pesavam cerca</p><p>de um talento”. Depois disso, um dos sete anjos tendo as sete taças da ira falou com</p><p>João, levando-o para ver o julgamento da grande meretriz (Babilônia, como deixa</p><p>claro a descrição profética que vem a seguir).</p><p>Comentário: À primeira vista, pareceria que somente um aspecto negativo é</p><p>enfatizado nesta cena da introdução vitoriosa, porque utiliza imediatamente os sim-</p><p>bolismos julgadores — neste exemplo outra vez salientado, com uma ênfase sobre a</p><p>excessivamente furiosa natureza do terremoto e da saraivada. Embora haja somente</p><p>juízo negativo na devastação a vir sobre Babilônia por causa do “cálice do vinho do</p><p>furor da sua [de Deus] ira” (16:19; veja também 17:1-2), contudo há implicitamente</p><p>uma certeza positiva para os santos de Deus nessa cena — em que a abominável</p><p>atividade de Babilônia agora terminou, sofrendo ela mesma o juízo divino por suas</p><p>más ações. (Cf. 18:20 para um chamado ao “regozijo”.)</p><p>Introdução à visão VII</p><p>Texto: 19:1-10</p><p>Resumo: No ambiente do trono, os vinte e quatro anciãos e os quatro seres</p><p>viventes (cf. cap. 4), João ouve a voz de “uma grande multidão no Céu” louvando a</p><p>Deus por ter julgado a grande meretriz e ter vingado dela o sangue de seus servos.</p><p>São entoadas outras antífonas de louvor, e é feito o anúncio de que chegaram as bo-</p><p>das do Cordeiro,“cuja esposa a si mesma já se ataviou”. É pronunciada uma bênção</p><p>sobre aqueles que são convidados “à ceia das bodas do Cordeiro”.</p><p>Comentário: A cena aqui é uma que é obviamente paralela àquela de Apoc-</p><p>alipse 4:5 — com o trono, quatro seres viventes, vinte e quatro anciãos, e antí-</p><p>fonas de louvor sendo básicas para ambas (para um estudo sobre as antífonas</p><p>em ambas as passagens, ver SHEA, 1984, p. 249-257). Contudo, enquanto em</p><p>Apocalipse 4:5 há um “livro do destino” ainda a ser aberto, e também enquanto</p><p>durante a real abertura dos selos daquele livro no capítulo 6 havia um brado de</p><p>“Até quando?” até que viesse a vindicação dos mártires de Deus (veja 6:9-11), há</p><p>no capítulo 19 uma impressionante reversão: há aqui louvor e aclamação a Deus</p><p>por ter Ele agora ocasionado essa vindicação.</p><p>Na introdução da visão VII, há, além disso, uma ênfase sobre a “ceia das bo-</p><p>das do Cordeiro” (v. 9) e reverência à “esposa” do Cordeiro (v. 7). A veste branca</p><p>to Literary Analysis.</p><p>(v. 8) é reminiscente, é claro, das imagens similares na visão II com respeito aos</p><p>mártires do quinto selo e da grande multidão da seção “refletor” (6:9-11 e 7:9-</p><p>17, respectivamente). Também deve ser notado que a sequência na visão VII</p><p>conclui, muito interessantemente, com outra referência à “esposa” — a saber, a</p><p>visão joanina da Cidade Santa, Nova Jerusalém, descendo do céu, da parte de</p><p>Deus “como noiva adornada para o seu esposo” (Ap 21:2).</p><p>Introdução à visão VIII</p><p>Texto: 21:5-11a (e referência aos versos 1-4 como fundo)</p><p>Resumo: No contexto do “novo Céu” e “nova Terra”, com “a santa cidade, Nova</p><p>Jerusalém”, tendo descido do Céu da parte de Deus, João agora contempla Aquele</p><p>que está assentado sobre o trono. Esse Ser divino — o próprio Deus em visões ante-</p><p>riores — declara: “Eis que faço novas todas as coisas.” Então Ele fala a João, dizendo:</p><p>“Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras”, e além disso declara a João:</p><p>“Está feito! Eu sou o Alfa e o Ômega.” Um duplo decreto é declarado: herança de</p><p>todas as coisas para o vencedor; mas destruição no lago de fogo, “que é a segunda</p><p>morte”, para aqueles que não são vencedores. Então um dos anjos com as sete taças</p><p>da ira leva João a uma alta montanha, mostrando-lhe a grande cidade, a santa Je-</p><p>rusalém, descendo do Céu da parte de Deus e tendo a glória de Deus.</p><p>Comentário: Em contraste com as cenas introdutórias para as visões II-VII,</p><p>onde o cenário estava em cada exemplo claramente ainda no Céu, agora há um</p><p>pano de fundo que tem um cenário terrestre — uma analogia à situação com</p><p>respeito à visão I. Na visão VIII, esta cena introdutória lida realmente com um</p><p>cenário de tabernáculo ou templo, mas se a cena em si conforme dada em 21:5-</p><p>11a objetiva ser basicamente a partir da perspectiva terrestre ou ser uma transi-</p><p>cional do Céu para a Terra não está absolutamente claro (nem é de importância</p><p>essencial para o nosso estudo). Em 21:3 é feita a declaração, é claro, de que o</p><p>tabernáculo de Deus está na Terra depois da descida da Cidade Santa (v. 2), e</p><p>esta porção final da visão VII pareceria prover o cenário para nossa cena de</p><p>abertura da visão VIII (que em si, contudo, também reproduz uma descrição da</p><p>descida da Nova Jerusalém; 21:10). Em qualquer caso, o principal detalhe é que</p><p>o foco desta cena introdutória mudou do templo celestial de tal modo a pôr ên-</p><p>fase mais uma vez sobre um local terrestre. A imagem real do templo utilizada</p><p>será tratada mais plenamente ainda neste artigo.</p><p>2. algumas imPlicações bíblicas</p><p>Os resumos providos na seção precedente deste capítulo têm trazido</p><p>à atenção vários elementos concernentes às cenas introdutórias das oito</p><p>Cenas da “Introdução Vitoriosa”Estudos selecionados</p><p>desde os dias do profeta até o fim dos tempos. Este último tipo</p><p>de interpretação tem sido modelo para os adventistas do sétimo dia.3 Em um</p><p>ou outro caso as profecias são compreendidas como tendo seu cumprimento no</p><p>tempo histórico entre os dias de João e o estabelecimento do reino eterno.</p><p>Preterismo. Por outro lado, o preterismo tem se inclinado a interpretar ou todo</p><p>o livro de Apocalipse ou virtualmente todo ele como história antiga. A maioria dos</p><p>eruditos preteristas considera as profecias do Apocalipse como refletindo eventos e</p><p>condições relacionadas à Igreja Cristã e ao Império Romano no próprio tempo de</p><p>João, possivelmente alcançando também um breve período além daquele tempo para</p><p>abranger acontecimentos antecipados por João. Há, porém, algumas exposições pre-</p><p>teristas que admitiriam que as profecias do Apocalipse chegassem até Constantino, o</p><p>Grande, no início do quarto século, com a seção de 19:11 em diante possivelmente</p><p>pertencendo a um período posterior que é ainda futuro em nossos dias.4</p><p>2 Vários intérpretes bem-conhecidos de uma geração anterior foram partidários deste ponto de</p><p>vista, tais como Albert Barnes, Adam Clarke, E. B. Elliott e Alexander Keith. Barnes, por exemplo,</p><p>trata os sete selos como pertencendo a uma sequência de eventos da Era pós-Apostólica, as sete</p><p>trombetas como se iniciando com o saque de Roma pelos visigodos em 410 d.C., o livrinho ab-</p><p>erto de Apocalipse 10 como a Bíblia aberta no tempo da Reforma do século 16, e as sete últimas</p><p>pragas como refletiva da Revolução Francesa do final do século 18.</p><p>3 O exemplo que ainda é talvez o mais bem conhecido é Thoughts on Daniel and Revelation</p><p>de Uriah Smith (múltiplas edições e impressões, inclusive a atualmente disponível “edição</p><p>revisada” primeiramente publicada em 1944 pela Southern Publishing Association, em Nash-</p><p>ville, Tennessee). Outros escritores adventistas do sétimo dia, inclusive S. N. Haskell e R. A.</p><p>Anderson, têm usado a mesma abordagem. O mais recente e completo comentário exibindo-</p><p>a é a excelente publicação de C. Mervyn Maxwell (1985, v. 2) God Cares. Entre os escritores</p><p>não adventistas, não tenho encontrado nenhum que use a abordagem da maneira como a</p><p>usam os adventistas, mas repetições de sequências parciais ou incompletas são apresentadas,</p><p>por exemplo, por S. L. Morris (1928) e William Hendriksen (1940).</p><p>4 A origem da opinião preterista é geralmente atribuída a Luis de Alcazar (falecido em 1613),</p><p>jesuíta espanhol, em sua monumental Investigation of the Hidden Sense of the Apocalypse [Inves-</p><p>tigação do Sentido Oculto do Apocalipse] (publicada postumamente em 1614). Juntamente com</p><p>ele e alguns outros antigos expositores católicos, vários comentaristas protestantes de séculos pos-</p><p>teriores (por ex., I. T. Beckwith, Moses Stuart e H. B. Swete) têm tido a tendência de admitir um</p><p>cumprimento de partes do Apocalipse atingindo os primeiros séculos cristãos pós-apostólicos.</p><p>Os comentaristas preteristas de “tradição liberal”, quer sejam eles católicos ou protestantes, inter-</p><p>pretam o livro como refletivo do próprio tempo de João.</p><p>Princípios fundamentais de interpretaçãoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>10 11</p><p>Futurismo. O sistema futurista de interpretação vê o cumprimento da maioria</p><p>do Apocalipse restrito a um breve período de tempo ainda futuro em nossos dias.</p><p>Uma classe secundária de futurismo — em que muitos futuristas e mesmo mui-</p><p>tos evangélicos se encontram — é o pré-tribulacionismo/dispensacionalismo.5 Esta</p><p>abordagem específica normalmente interpreta Apocalipse 4:1–19:10 como ocorren-</p><p>do em um período de sete anos ainda futuro para nós — período que se inicia com</p><p>um “arrebatamento” secreto e assinalado em seu final pelo glorioso e visível apareci-</p><p>mento de Cristo. Os pré-tribulacionistas/dispensacionalistas consideram esse período</p><p>de sete anos como a setuagésima semana de anos da profecia de Daniel 9:24–27, em-</p><p>bora a sexagésima-nona semana tenha terminado no início da Era Cristã.6</p><p>Outras abordagens. Além das três grandes escolas de interpretação e</p><p>sua subdivisões, há hoje uma variedade de outras abordagens interpretativas</p><p>ao Apocalipse. Algumas destas se sobrepõem ou abraçam em parte uma ou</p><p>mais das abordagens tradicionais, mas todas tendem a colocar sua principal</p><p>ênfase em alguma outra direção. Há, por exemplo, várias interpretações não</p><p>históricas. Estas veem o Apocalipse como retratando um drama mitológico,</p><p>maravilhosos ideais, filosofia de valores ou algo semelhante, sem tocar ab-</p><p>solutamente na história real e/ou genuína escatologia.7</p><p>Finalmente, deve ser notado que em anos recentes tem havido uma tendên-</p><p>cia em torno da amalgamação de abordagens. Talvez o mais notável ao longo</p><p>desta linha sejam as tentativas de misturar preterismo em futurismo, sendo o</p><p>primeiro um pano de fundo para o último (por exemplo, George Eldon Ladd e</p><p>5 Entre um bom número de exemplos, estão os comentários de John Wolvoord (1966) e Hal</p><p>Lindsay (1973). O primeiro é um tipo de produção erudita, e o último é uma obra de estilo</p><p>popular.</p><p>6 Literatura prolífica tem sido produzida pelos expoentes do ponto de vista, começando com</p><p>o seu originador J. N. Darby, da Irlanda, que reuniu a essência do pré-tribulacionismo/dispen-</p><p>sacionalismo durante o final de 1820 e a década de 1830. Darby era muito conhecido por sua</p><p>atividade na Inglaterra (ele é geralmente considerado como sendo o fundador do movimento</p><p>dos “Irmãos de Plymouth”), mas pessoalmente promulgou suas opiniões também no Continente</p><p>Europeu e na América do Norte, para a qual fez seis viagens. Na América, a Bíblia de Referên-</p><p>cia de Scofield (publicada no Brasil como Bíblia Anotada) tem tido considerável influência em</p><p>popularizar a opinião, realçada em anos recentes por publicações de Hal Lindsay. As “teologias</p><p>sistemáticas” de Alva McClain e L. S. Chafer também defendem este ponto de vista. Entre uma</p><p>série de boas pesquisas e avaliações do pré-tribulacionismo/dispensacionalismo, deve ser tomada</p><p>em consideração a crítica justa e muito legível dada por George Eldon Ladd (1956).</p><p>7 Entre os expositores que têm escrito na Inglaterra, os seguintes provavelmente podem ser in-</p><p>cluídos (embora talvez com alguma sorte de preterista ou outro tipo de ajuste “histórico” envolvi-</p><p>do): E. W. Benson, Raymond Calkins, William Milligan, Paul S. Minear, S. L. Morris e D. T. Niles.</p><p>Leon Morris) ou reinterpretar o historicismo em um estilo futurista (particu-</p><p>larmente notável em exposições de alguns adventistas do sétimo dia que atual-</p><p>mente estão publicando suas opiniões particulares).</p><p>Não é o meu propósito neste capítulo ilustrar ainda mais ou avaliar as várias</p><p>abordagens. Isto eu tenho feito brevemente em outros estudos com referência</p><p>às três tradicionais, algo que também tem sido feito por vários outros escritores</p><p>recentes (ver STRAND, 1979, p. 11–16; TENNEY, 1957, p. 135–146). No devido</p><p>tempo, serão discutidos certos princípios básicos que irão auxiliar o leitor na</p><p>separação de métodos interpretativos infundados daquilo que é são e válido.</p><p>Por enquanto, será suficiente apenas salientar que qualquer abordagem baseada</p><p>em critérios e opiniões externas (em vez de emergir do Apocalipse em si) deve ser</p><p>considerada altamente suspeita. De fato, as confusões tão desenfreadas em muitos</p><p>comentaristas, qualquer que seja o seu ponto de vista interpretativo, encontram sua</p><p>causa básica na eisegese — isto é, ler no texto algo que não está ali — em vez de pro-</p><p>ceder com base na sã exegese — extraindo do texto o que está ali.</p><p>Esta armadilha eisegética revela-se de várias maneiras. Estas frequente-</p><p>mente parecem plausíveis porque aparentemente se utilizam do válido princí-</p><p>pio interpretativo de comparar passagem com passagem. O leitor deve ter em</p><p>mente, porém, que não é a soma de passagens citadas, aludidas ou justapostas o</p><p>que realmente importa. O que tem valor é a eficiência do procedimento que está</p><p>sendo usado. De acordo com 2 Pedro 3:16, havia na era do Novo Testamento</p><p>aqueles que deturpavam as Escrituras para a “própria</p><p>em interpretação profética</p><p>70 71</p><p>visões principais do Apocalipse. Preeminentes entre aquelas características</p><p>estão as seguintes: a difusão da imagem do templo nos ambientes dessas ce-</p><p>nas, (2) ênfases positivas e negativas dentro das cenas, (3) certa dinâmica ou</p><p>movimento tanto em imagens através do templo quanto no simbolismo de</p><p>juízo negativo que aparece nas visões III-VI, e (4) uma similaridade especial</p><p>estruturalmente e de conteúdo entre a primeira e oitava visões. Agora va-</p><p>mos dar um pouco mais de atenção a esses elementos, mas como uma etapa</p><p>preliminar vamos primeiro observar brevemente o tipo de relação que as</p><p>cenas introdutórias mantêm com suas próprias sequências proféticas.</p><p>Cenas introdutórias e sequências proféticas</p><p>Em qualquer análise das cenas introdutórias para as oito grandes visões do</p><p>livro de Apocalipse, a primeira consideração lógica e básica é o fato de que há</p><p>uma estreita relação entre essas cenas e o restante das sequências proféticas</p><p>que elas introduzem. Assim, para a visão I a descrição de Cristo caminhando</p><p>entre os sete candeeiros/igrejas precede adequadamente seus conselhos àque-</p><p>las igrejas, e para a visão II a cena em que o Cordeiro é proclamado digno de</p><p>abrir o livro selado com sete selos e então realmente tomando esse livro da mão</p><p>dAquele que está assentado sobre o trono provê um pano de fundo apropriado</p><p>para a real abertura dos selos pelo Cordeiro.</p><p>Essas cenas introdutórias proveem neste sentido um cenário positiva-</p><p>mente orientado — uma mensagem de confiança, por assim dizer — que</p><p>se relaciona com a sequência que segue. No primeiro exemplo, Cristo as-</p><p>segura ao seu povo a certeza de sua presença com eles em suas lutas contra</p><p>o engano e a perseguição — lutas que precisam dele palavras de conselho e</p><p>encorajamento, e frequentemente repreende (caps. 2 e 3).</p><p>Igualmente, na segunda visão há certeza de que as forças liberadas pela</p><p>abertura dos selos estão dentro da estrutura redentora da obra que o Cord-</p><p>eiro morto efetua no Céu que finalmente resultará na abertura do livro do</p><p>destino eterno para os fiéis do Cordeiro (ver nota 8). Os selos são abertos</p><p>sucessivamente nos capítulos 6 e 8:1, intensificando em cada passo a pro-</p><p>gressão, até que ocorre um silêncio dramático quando o livro em si deve ser</p><p>finalmente aberto. O interlúdio no capítulo 7 é muito visivelmente um ap-</p><p>ropriado “enfoque nos últimos eventos” para esta sequência específica. Por</p><p>seu destaque do selamento dos servos de Deus, há nesse “interlúdio” uma</p><p>espécie de trocadilho sobre a terminologia do “selo”. Mas todo o conceito de</p><p>propriedade e preservação inerente no simbolismo do “selo” também liga</p><p>muito diretamente esta cena do capítulo 7 com a abertura dos selos.12 Os</p><p>144 mil selados de Deus são protegidos das devastações dos cavaleiros dos</p><p>primeiros quatro selos,13 e mesmo na espécie de martírio descrita no quinto</p><p>selo eles podem repousar na plena certeza do cuidado divino (para um es-</p><p>tudo abrangente do quinto selo, ver MUSVOSVI, 1986). Esta ênfase sobre</p><p>o cuidado de Deus é realçada ainda mais na descrição das seções b e c do</p><p>capítulo 7 (v. 9-17) da grande multidão que vem da grande tribulação (estes,</p><p>como os mártires do quinto selo, têm vestiduras brancas!).</p><p>O precedente ilustra a maneira em que há estreita correlação entre as ce-</p><p>nas da introdução vitoriosa e o restante das respectivas visões que essas cenas</p><p>introduzem, e não será necessário entrar em detalhes aqui além dessas duas</p><p>amostras. De fato, uma rápida revisão do principal conteúdo de cada visão</p><p>pode ser obtida consultando-se a seção 2 do capítulo 2 deste volume. A única</p><p>observação adicional que deve ser feita aqui é que embora todas as cenas da</p><p>introdução vitoriosa tenham uma nota positiva de segurança para os fiéis de</p><p>Cristo, algumas — especialmente aquelas para as visões III-VI (a dupla série</p><p>com o tema “Êxodo-do-Egito”/”Queda-de-Babilônia”) — também retratam as-</p><p>pectos negativos. Este assunto receberá mais atenção abaixo.</p><p>A imagem do templo e seu significado</p><p>Como já temos observado, a imagem do templo é difusa nas cenas introdutóri-</p><p>as às oito principais sequências proféticas do Apocalipse. Para as visões II-VII, os</p><p>cenários estão no “templo do Céu”, e o “mobiliário” daquele templo torna-se visível.</p><p>Na visão I, porém, a imagem do templo é aquela dos candeeiros que representam</p><p>“as sete igrejas” na Terra. E na visão VIII há outra vez um local terrestre — mas</p><p>desta vez no contexto da Santa Cidade, a Nova Jerusalém e a “nova terra”, estando o</p><p>12 Os léxicos e dicionários teológicos (tais como Theolofical Dictionary of New Testament) e</p><p>obras de referência similares (verbete σøραγις ou sphragis) têm elucidado amplamente o sig-</p><p>nificado do processo ou prática do “selo” e do “selamento” no mundo antigo. Para uma referência</p><p>sucinta a seis possíveis significados, veja J. Massyngberde Ford (1975, p. 116-17; também a detal-</p><p>hada abordagem de FORD, 1981, v. 4, p. 254-59).</p><p>13 Os comentaristas geralmente omitem esta ligação por causa de uma falha em ser suficiente-</p><p>mente atenciosos em anotar o antecedente de Zc 6, onde cavalos de várias cores saem para “per-</p><p>correrem a terra” (v. 7) e onde, em resposta à indagação profética quanto à identidade dos quatro</p><p>grupos de cavalos, um anjo define-os como os quatro ruhôt (ventos) do céu que saem da presença</p><p>do Senhor de toda a terra (v. 4-5). Comentaristas que têm feito a conexão incluem G. R. Beasley-</p><p>Murray (1974, p. 142) e Leon Morris (1969, p. 113). Infelizmente, a RSV neste exemplo distorce</p><p>o significado do hebraico por seu fraseado, “Estes [os grupos de cavalos] estão saindo para os</p><p>quatro ventos do céu”, quando em realidade são os ventos ( = cavalos ) que estão saindo.</p><p>Cenas da “Introdução Vitoriosa”Estudos selecionados em interpretação profética</p><p>72 73</p><p>próprio Deus “habitando” diretamente com o Seu povo (21:3-4) e “Deus e o Cord-</p><p>eiro” são descritos como o “templo” da Nova Jerusalém (21:22).</p><p>É imediatamente evidente que todas as três principais aplicações do Novo</p><p>Testamento à imagem do templo entram em jogo nessas cenas introdutórias.</p><p>Na primeira visão vemos o conceito neotestamentário da Igreja Cristã como o</p><p>“novo templo”. Os textos clássicos para o conceito são indubitavelmente 1 Co-</p><p>ríntios 3:16-17 e 2 Coríntios 6:16-17, mas certamente há reflexão disto também</p><p>em 1 Pedro 2:5, e também na proclamação de Tiago no concílio de Jerusalém</p><p>mencionada em Atos 15:13-18. Na última referência mencionada, Tiago faz</p><p>aplicação da profecia de Amós 9:11-12 fazendo alusão ao retorno de Deus para</p><p>reedificar o “tabernáculo de Davi” que havia caído, como sendo diretamente</p><p>aplicável à afluência dos gentios à igreja apostólica.</p><p>A mais próxima analogia do Novo Testamento ao uso refletido nas cenas in-</p><p>trodutórias para as visões II-VII no livro de Apocalipse é aquilo que é encontrado</p><p>no livro de Hebreus. Ali se fala de Cristo como “sumo sacerdote, que se assentou à</p><p>destra do trono da Majestade nos céus, como ministro do santuário e do verdadeiro</p><p>tabernáculo que o Senhor erigiu, não o homem” (Hb 8:1-2; veja também o v. 5).14</p><p>Finalmente, o que é sem dúvida a mais básica e central aplicação da ima-</p><p>gem neotestamentária do templo é aquela ilustrada na cena introdutória e na</p><p>descrição profética da visão VIII do Apocalipse: isto é, uma referência à di-</p><p>reta presença divina. No prólogo ao Evangelho de João é declarado que Cristo</p><p>“habitou entre nós” (compare com a situação na Nova Terra depois da descida</p><p>da Jerusalém celestial, em que é declarado que Deus agora habita com a hu-</p><p>manidade [21:3]). Talvez uma referência ainda mais vigorosa seja aquela em</p><p>que Jesus declarou: “Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei.” Os</p><p>judeus compreenderam isto como se referindo ao templo de Herodes, mas o</p><p>Evangelista deu a explicação de que “Ele [Cristo] se referia ao santuário do seu</p><p>corpo” e que quando, pois, Jesus ressuscitou dentre os mortos, “lembraram-se</p><p>os seus discípulos de que Ele dissera isto” (Jo 2:19-22).</p><p>A presença divina</p><p>era o foco central da antiga economia do templo/tab-</p><p>ernáculo de Israel (RODRIGUEZ, 1986, p. 127-145). Foram dadas a Moisés</p><p>instruções para que construísse “um santuário, para que Eu [Deus] possa</p><p>habitar no meio deles [de Israel]” (Êx 25:8). E quando estava concluída</p><p>a construção do tabernáculo, “a nuvem cobriu a tenda da congregação, e</p><p>a glória do Senhor encheu o tabernáculo” (Êx 40:36). É este pensamento</p><p>14 Veja outra vez a excelente dissertação em Davidson (1981, v. 2, 336-367); também “Excursus”</p><p>de Davidson (1981, v. 2, 367-388) sobre estruturas de tupos em Êx 25:40.</p><p>fundamental — da presença divina — que igualmente penetra as cenas in-</p><p>trodutórias às oito visões do Apocalipse. O Cristo divino e sempre vivo é,</p><p>no primeiro exemplo, descrito como presente com o seu povo na Terra, sus-</p><p>tendo-os e provendo-lhes mensagens através do Espírito Santo (visão I),15</p><p>então a cena muda para o santuário celestial, onde Cristo está ativamente</p><p>ministrando em favor do seu povo (visões II-VII); e finalmente, quando</p><p>Deus e o Cordeiro habitam com os seres humanos redimidos na “nova terra”</p><p>e na “Nova Jerusalém” é trazia para a Terra a própria causa fundamental na</p><p>intimidade e tangibilidade da presença divina (visão VIII).</p><p>Elementos positivos e negativos nas cenas introdutórias</p><p>Como foi notado anteriormente, as cenas da introdução vitoriosa para as</p><p>visões I e II contêm apenas uma ênfase positiva, mas a terceira cena introdu-</p><p>tória adiciona também um elemento negativo. Nessa terceira cena a ênfase</p><p>positiva é encontrada na fumaça do incenso misturada com as orações dos</p><p>santos subindo a Deus, e o aspecto negativo é descrito em termos do anjo</p><p>atirando à Terra um incensário de brasas vivas, com os resultantes sinais de</p><p>juízo de vozes, trovões, relâmpagos e um terremoto.</p><p>No artigo anterior desta série eu ressaltei que as visões de III a VI con-</p><p>sistem de um tema duas vezes repetido que pode adequadamente ser desig-</p><p>nado como o tema “Êxodo-do-Egito”/Queda-de-Babilônia”. (Veja diagrama</p><p>2 na página seguinte para ilustração do tema.) É interessante que é pre-</p><p>cisamente em combinação com estas quatro visões que ocorre a mais forte</p><p>referência ao juízo negativo. Há também uma progressão de intensidade no</p><p>simbolismo do juízo, como observaremos em breve.</p><p>As cenas introdutórias para as visões VII e VIII retrocedem parcialmente</p><p>para a ênfase positiva das seções comparáveis das visões I e II. Contudo, há</p><p>no mínimo uma referência oblíqua (entretanto, vigorosa) ao juízo negativo em</p><p>cada uma dessas duas visões finais, embora sua ênfase primária seja positiva.</p><p>Para a visão VII, há aclamação a Deus por ter julgado a meretriz e ter vindicado</p><p>os santos. Todavia, a bem-aventurança da salvação é a nota tônica das antífonas</p><p>de louvor; e especialmente nas referências à noiva do Cordeiro e à ceia das bo-</p><p>das do Cordeiro há o máximo de alegria. Para a visão VIII, há inserido dentro</p><p>15 É interessante observar que cada uma das sete mensagens é introduzida por Cristo e então é</p><p>resumida em cada exemplo como “o que o Espírito diz às igrejas” — sendo análoga às declarações</p><p>do Quarto Evangelho no sentido de que o Paracleto apresentaria as palavras de Cristo (veja, por</p><p>exemplo, João 14:25-26; 15:26; 16:12-15).</p><p>Cenas da “Introdução Vitoriosa”Estudos selecionados em interpretação profética</p><p>74 75</p><p>de um quadro geralmente ditoso (21:5-11a), um verso que descreve aqueles</p><p>que enfrentarão a condenação no “lago de fogo” (v. 8) — uma declaração obvia-</p><p>mente apresentada de maneira a contrastar com o galardão dos conquistadores</p><p>ou vencedores mencionados anteriormente (v. 7).16</p><p>Diagram 2. The “Exodus-from-Egypt”/ “Fall-of-Babylon” Motif in revelation</p><p>(This diagram is an enlargement of the one in Kenneth A. Strand, “The Two</p><p>Witnesses of Revelation 11:3-12,” AUSS 19 [1981]: 129. The discussion of this</p><p>motif on p. 128 of that article should also be noted.)</p><p>Concernente a esta ênfase positiva e negativa da abertura e fechamento das</p><p>cenas da introdução vitoriosa, parece que as ênfases totalmente positivas das</p><p>cenas nas visões I e II não são mantidas plenamente paralelas ou equilibradas</p><p>em seus correlativos quiásticos nas visões VII e VIII, e isto é por boa razão: a</p><p>primeira se refere especificamente aos processos salvíficos em andamento, uma</p><p>grande preocupação teológica durante a era histórica; mas a última, a título de</p><p>contraste, pertence a um tempo na era do juízo escatológico quando a salvação</p><p>16 Não deve ser despercebido que da mesma forma que 21:7 declara amplamente a recompensa</p><p>final para os vencedores nas sete igrejas dos capítulos 2 e 3, 21:8 reflete inclusivamente a conde-</p><p>nação dos “não vencedores” daquelas sete igrejas. Os termos “covardes”, “incrédulos”, “impuros”,</p><p>“feiticeiros”, “mentirosos” etc., em 21:8, são rememorativos das descrições e conselhos nas sete</p><p>mensagens concernentes à fidelidade até à morte (Esmirna), ao perigo dos ardis de Balaão e Jeza-</p><p>bel (Pérgamo e Tiatira), e ao falso testemunho contra os fiéis discípulos de Cristo (Filadélfia) etc.</p><p>final e a glorificação aguardam os santos de Cristo, mas onde também há os</p><p>“não salvos” cuja condenação agora foi plenamente selada. Esses “não salvos”</p><p>não podem ser ignorados na apresentação de um quadro completo, porque</p><p>como tem salientado G. E. Mendenhall (1973, p. 83) em um contexto diferente,</p><p>a vindicação dos santos de Deus tem dos lados “da moeda”: o anverso que rep-</p><p>resenta salvação para os santos tem um lado reverso que significa condenação</p><p>para aqueles que têm sido os opressores dos santos.17</p><p>“Movimento” na descrição da imagem</p><p>Além de uma impressionante dimensão vertical manifesta nas visões do Apoc-</p><p>alipse, há certo tipo de movimento horizontal evidente na utilização simbólica den-</p><p>tro da sequência das oito cenas da “introdução vitoriosa”. Já temos observado, de</p><p>outra perspectiva, o movimento no cenário do templo de um local terrestre para</p><p>um local celestial e outra vez de volta para um novo local terrestre (isto é, “nova Ter-</p><p>ra”). Mas as próprias cenas do templo celestial (nas visões II-VII) mostram uma in-</p><p>teressante progressão no simbolismo que ocorre. Consideraremos isto brevemente,</p><p>seguido por observação sucinta também de uma progressão que ocorre na imagem</p><p>do juízo negativo utilizada nas visões III-VI.</p><p>Imagem do templo celestial. Na visão II, as sete lâmpadas ou tochas de</p><p>fogo sugerem um primeiro compartimento ou ambiente do lugar santo. Em</p><p>seguida, a visão III nos leva ao altar de ouro de incenso, diante do trono, e então</p><p>a visão IV expõe à vista a arca da aliança de Deus no santuário interior ou Lugar</p><p>Santíssimo (ver nota 11). Isto parece correlacionar-se com uma crescente ênfase</p><p>sobre o tempo do fim nas respectivas “descrições proféticas básicas” e interlú-</p><p>dios, apesar de todas essas sequências abrangerem a era a partir do tempo do</p><p>profeta até o fim. (Este fenômeno tem sido tratado suficientemente no capítulo</p><p>anterior e, portanto, não precisa de mais detalhes aqui.)</p><p>Depois da linha divisória quiástica, a imagem do templo não mais</p><p>abrange o mobiliário do templo, porque as funções representadas por tal</p><p>mobiliário — ou as atividades salvíficas indicadas por meio disso — não</p><p>existem mais. Ao contrário, a fumaça enche o templo de sorte que nen-</p><p>hum ministério de misericórdia continua (15:8); ocorrem os sinais da proc-</p><p>lamação e/ou juízo, com apenas referência geral à sua fonte no templo, do</p><p>trono, e/ou no céu (cf. 16:17ss.; 19:1-5; 21:5).</p><p>17 Isto está no contexto de um excelente estudo de NQM (o tema da “vingança”/”vindicação”)</p><p>na literatura bíblica e outra literatura do antigo Oriente Próximo.</p><p>Cenas da “Introdução Vitoriosa”Estudos selecionados em interpretação profética</p><p>76 77</p><p>Imagem do juízo negativo. As quatro visões centrais do Apocalipse — isto</p><p>é, III a VI — têm introduções que apresentam forte simbolismo de juízo negativo.</p><p>Uma característica interessante é a intensificação da ênfase negativa. Os sinais</p><p>na visão III são trovões, vozes, relâmpagos, e um terremoto (8:5); a estes,</p><p>a visão</p><p>IV adiciona “grande saraivada” (11:19); e finalmente, a visão VI apresenta esses</p><p>mesmos arautos do juízo mas intensifica consideravelmente o terremoto (“como</p><p>nunca houve igual desde que há gente sobre a terra”, 16:18) e a saraivada (com pe-</p><p>dras “que pesavam cerca de um talento”, 16:21). A visão V omite esta série especí-</p><p>fica de símbolos do juízo, possivelmente porque ao iniciar sua descrição do juízo</p><p>escatológico, sua principal ênfase já transmite um pesado fardo de condenação: a</p><p>plenitude da ira de Deus sendo exposta à vista a partir do templo nas sete taças e</p><p>do próprio templo cheio de fumaça e desocupado (15:5-8).</p><p>Em todo caso, o primeiro par de visões com o tema “Êxodo-do-Egito”/”Queda-</p><p>de-Babilônia” (visões III e IV) se inicia com cenas introdutórias que já mostram</p><p>uma progressão de intensidade de juízo. Esta intensidade é então ainda mais re-</p><p>alçada pelas descrições simbólicas do segundo par (visões V e VI). O significado</p><p>teológico aqui parece ser o conceito de que o aumento das calamidades é com-</p><p>patível com um padrão de contínua e mais flagrante rejeição da oferta de salvação</p><p>de Cristo. Como tal, seria uma espécie de comentário ampliado sobre o princípio</p><p>enunciado por Jesus ao declarar que a condenação do juízo sobre Betsaida, Cora-</p><p>zim, Cafarnaum, e outros rejeitadores de Sua misericórdia excederia a de Sodoma</p><p>e Gomorra (cf., por exemplo, Mt 10:14-15 e 11:20-24).</p><p>Relação das introduções para as visões I e VIII</p><p>Já temos analisado o significado teológico da imagem do templo nas oito cenas</p><p>introdutórias do Apocalipse. Permanece aqui chamar atenção mais específica para</p><p>uma característica especial — a saber, a estrutura envolvente em que a introdução</p><p>à visão I e à visão VIII encerram, por assim dizer, as seis introduções intervenientes.</p><p>A característica primária do esquema de inclusão é aquela do local — terrestre para</p><p>as visões I e VIII, e celestial para as visões II-VII. Assim, a ênfase tanto no início</p><p>quanto no final do livro está sobre uma imanência da presença divina.</p><p>Há aqui uma sugestão, talvez, dos dois adventos de Cristo e de seus re-</p><p>sultados finais? Na primeira cena introdutória, João vê o Cristo que tinha</p><p>vindo como Deus encarnado em seu primeiro advento — que foi morto e</p><p>então ressuscitou, e que ascendeu ao Céu depois de 40 dias. Agora essa mes-</p><p>ma Pessoa divina aparece a João como aquele que foi morto, mas vive para</p><p>sempre (Ap 1:17-18) e está presente, caminhando entre Suas igrejas/candee-</p><p>iros. Esta cena da introdução vitoriosa assim evidencia a contínua e próxima</p><p>presença desse mesmo Jesus com sua igreja na Terra. Sua própria vitória</p><p>durante a encarnação tem assegurado a existência de sua própria comuni-</p><p>dade da aliança, e sua própria presença divina permanece verdadeiramente</p><p>com o seu povo ao longo da era histórica (por meio do Espírito Santo) (ver</p><p>nota 21). No quarto Evangelho, o prólogo se refere a Cristo “habitando entre</p><p>nós” (Jo 1:14), mas o Discurso Sobre o Paracleto indica que mesmo depois</p><p>da partida de Jesus para o Céu, Ele e seu Pai viriam fazer “habitação” com os</p><p>fiéis discípulos de Jesus (veja João 14:15-21, 23).</p><p>O correlativo dessa divina presença no “aqui e agora” é a plenitude da experiên-</p><p>cia da divina presença dependente do segundo advento de Jesus para trazer rec-</p><p>ompensas a todas as pessoas segundo as suas obras (Ap 22:12). Nos estágios finais</p><p>dessas recompensas — isto é, na experiência do “novo Céu”/”nova Terra”/Nova Je-</p><p>rusalém —, Deus e o Cordeiro outra vez ”habitam” com o seu povo, mas agora essa</p><p>habitação é uma presença direta e imediata (veja 21:3, 22; e 21:1-4).</p><p>Assim, nas cenas da introdução vitoriosa iniciais e finais encontramos, em</p><p>certo sentido, um aprimoramento do duplo tema do Apocalipse (chamado à</p><p>atenção em meu artigo anterior): a presença de Cristo com o seu povo na era</p><p>presente como o ”Alfa e o Ômega”, e o seu retorno no final da era histórica para</p><p>introduzir aqueles eventos que culminarão em sua presença com o seu povo</p><p>através da eternidade (cf. Ap 1:7-8 e 22:12-13).</p><p>Mas, para que função, pois, servem as cenas introdutórias para as visões inter-</p><p>venientes? Enquanto imanência é a ênfase das visões I e VIII, inclusive suas cenas</p><p>da introdução vitoriosa, transcendência é a ênfase das outras visões. Essas seis visões</p><p>destacam atividade no Céu, enquanto o povo de Deus está na Terra. Mas essa tran-</p><p>scendência não é de forma alguma indiferença, nem qualquer falta de preocupação</p><p>e contato entre o Céu e a Terra. Ao contrário, todas essas visões (através de suas ce-</p><p>nas da introdução vitoriosa, e também de suas subsequentes sequências descritivas)</p><p>revelam uma muito resoluta continuidade vertical. O que é feito no templo do Céu é</p><p>feito para o benefício do povo de Deus na Terra e, portanto, a atividade celestial de-</p><p>scrita nas cenas da introdução vitoriosa acham um correlativo imediato nas forças</p><p>liberadas sobre a Terra a fim de realizar o propósito de Deus para o seu povo.</p><p>Amplas “estruturas envolventes”</p><p>Breve menção deve ser feita ao fato de que na análise e discussões precedentes</p><p>temos encontrado duas amplas “estruturas envolventes”.18 Uma destas já temos dis-</p><p>18 “Estruturas envolventes” ou “inclusões” são comuns nos padrões literários do Apocalipse.</p><p>(ver, por exemplo, SHEA, 1985, p. 33-54, 44-45); para duas evidentes ilustrações deste fenômeno.</p><p>Cenas da “Introdução Vitoriosa”Estudos selecionados em interpretação profética</p><p>78 79 cutido ao tratar do local da imagem do templo para as visões I e VIII, um local</p><p>terrestre (presente histórico e nova terra, respectivamente); e para as visões II-VII,</p><p>um cenário no ”templo do Céu”. A outra estrutura envolvente se relaciona com a</p><p>“imagem do juízo negativo” e inclui as severas ênfases do juízo negativo das cenas in-</p><p>trodutórias para as visões III a VI dentro da única ênfase positiva das cenas análogas</p><p>para as visões I e II, por um lado, e a ênfase predominantemente positiva das cenas</p><p>para as visões VII e VIII, por outro lado.19 (Estas duas amplas estruturas envolventes</p><p>são apresentadas em forma de esboço no diagrama 3.)</p><p>Os dois exemplos de inclusio são de interesse do ponto de vista da arte literária,</p><p>é claro. Mas sempre devemos ter em mente que essa arte não era utilizada como um</p><p>fim em si mesmo; antes, era incorporada por causa de, e em relação com sua fun-</p><p>cionalidade para transmitir vigorosamente a perspectiva e temas teológicos que são</p><p>fundamentais no Apocalipse e que constituem o interesse primário do livro.</p><p>3. resumo e considerações finais</p><p>19 Com respeito ao assunto dos aspectos positivo e negativo, nossa referência é, sem dúvida, a</p><p>unicamente as cenas da introdução vitoriosa — os blocos designados por “A” no diagrama 1. Nos</p><p>outros blocos de material nas visões I, II e VII, há realmente muitos elementos negativos, mas este</p><p>fato não afeta o padrão distintivo que temos notado nas cenas introdutórias.</p><p>O capítulo anterior e o presente têm esboçado certas estruturas literárias do</p><p>Apocalipse e dado atenção em particular às cenas da introdução vitoriosa para as</p><p>oito principais visões do livro de Apocalipse. É óbvio, em primeiro lugar, que o</p><p>Apocalipse é uma peça literária muito nitidamente organizada. Contudo, os pa-</p><p>drões literários representam mais do que gosto estético e interesse mnemônico; eles</p><p>destacam, de maneira muito real, certos grandes temas e idéias teológicas. Esses são</p><p>temas e ideias que se assemelham e aperfeiçoam aspectos da teologia geral do Novo</p><p>Testamento, e que são especialmente valiosos ao falarem de esperança e certeza aos</p><p>leais seguidores de Cristo em sua luta contra as forças do engano e perseguição.</p><p>referências</p><p>BEASLEY-MURRAY, G. R. The Book of Revelation: based on the Revised Standard</p><p>Version. London: Wipf & Stock Publisher, 1974.</p><p>CAMACHO, H. S. The Altar of Incense in Hebrews 9:3-4. Andrews University Semi-</p><p>nary Studies, v. 24, p. 5-12, 1986.</p><p>DAVIDSON, R. M. Typology in Scripture: a study of hermeneutical ΤYIIΟΣ Structu-</p><p>res. Berrien Springs: [S.n.], 1981. (Andrews University</p><p>Doctoral Dissertation Series, 2).</p><p>DAVIS, D. The heavenly court scene of Revelation 4–5. Tese. (Doutorado em Teolo-</p><p>gia). Andrews University, Berrien Springs, 1986.</p><p>FORD, J. M. Seals and Scarabs. In: BUTTRICK, G. A.; CRIM, K. R. (Eds.). Interpreter’s</p><p>Dictionary Bible. [S.l.]: Abingdon Press, 1981. v. 4.</p><p>_____________. Revelation. Garden City: Random House Incorporated, 1975. (The</p><p>Ancor Bible, 38).</p><p>HENDRIKSEN, W. More than conquerors: an interpretation of the book of Revelation.</p><p>Grand Rapids: Baker Book House, 1940.</p><p>Local terrestre</p><p>Ênfase</p><p>inteiramente</p><p>positiva</p><p>Ênfase de</p><p>predominância</p><p>positiva</p><p>1.Locais Terrestres e Celestiais</p><p>2. Ênfases positivas e negativas do juízo</p><p>Local celestial</p><p>Ênfases tanto positivas como negativas</p><p>I</p><p>I & II</p><p>VIII</p><p>VII & VIII</p><p>II - IV</p><p>III & IV</p><p>V - VII</p><p>V & VI</p><p>Cenas da “Introdução Vitoriosa”Estudos selecionados em interpretação profética</p><p>80 81</p><p>LAYMON, C. M. The Book of Revelation: its messages and meaning. New York: Abing-</p><p>don Press, 1960.</p><p>LEWIS, N.; REINHOLD, M. Roman civilization: the Empire. New York: Columbia</p><p>University Press, 1955. v. 2.</p><p>MAXWELL, C. M. God cares: the message of Revelation to you and your family. Boise:</p><p>Pacific Press Publishing Association, 1985. v. 2.</p><p>MENDENHALL, G. E. The tenth generation: the origins of the biblical tradition. Bal-</p><p>timore: John Hopkins University Press, 1973.</p><p>MINEAR, P. S. I saw a New Earth: an introduction to the visions of Apocalypse. Wa-</p><p>shington: Wipf & Stock Publisher, 1968.</p><p>_____________. Ontology and Ecclesiology in the Apocalypse. New Testament Studies,</p><p>v. 13, p. 95-96, 1965-1966.</p><p>MORRIS, L. The Revelation of St. John: an introduction and commentary. Grand</p><p>Rapids: [S.n.], 1969.</p><p>MOUNCE, R. H. The Book of Revelation. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing</p><p>Co., 1977. (The New International Commentary on the New Testament).</p><p>MUSVOSVI, J. N. The concept of vengeance in the Book of Revelation in the Old</p><p>Testament and Near Eastern Context. Tese. (Doutorado em Teologia). Andrews Uni-</p><p>versity, Berrien Springs, 1986.</p><p>RODRIGUEZ, A. M. Sanctuary theology in the Book of Exodus. Andrews University</p><p>Seminary Studies, v. 24, p. 127-45, 1986.</p><p>SHEA, W. H. Revelation 5 and 19 as literary reciprocals. Andrews University Seminary</p><p>Studies, v. 22, p. 249-257, 1984.</p><p>_____________. The parallel literary structure of Revelation 12 and 20. 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(Eds.). The Sanctuary and the Atone-</p><p>ment: biblical, historical, and theological studies. Washington: Biblical Research Institute, 1981.</p><p>Estudos selecionados em interpretação profética</p><p>82</p><p>Sinopse editorial. Embora o</p><p>apóstolo João nunca cite direta-</p><p>mente o Antigo Testamento em sua</p><p>profecia, é evidente que ele se uti-</p><p>liza consideravelmente de suas ima-</p><p>gens. Estas alusões, formando um</p><p>verdadeiro mosaico da fraseologia</p><p>do Antigo Testamento, podem ser</p><p>classificadas sob dois formatos: (1)</p><p>ecos e (2) alusões diretas.</p><p>Através dos séculos, muitos</p><p>conceitos do Antigo Testamen-</p><p>to se separaram de suas raízes</p><p>bíblicas para formar um acervo</p><p>de ideias simbólicas comumente</p><p>usadas e compreendidas por to-</p><p>dos. A utilização desses símbo-</p><p>los comuns por João pode ser</p><p>interPretando o</p><p>simbolismo do aPocaliPse</p><p>Jon Paulien</p><p>4</p><p>Esboço do capítulo</p><p>1. O Livro de Apocalipse: Sua Natureza</p><p>2. Interpretando o Apocalipse</p><p>3. Considerações Finais</p><p>Interpretando oEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>84 85</p><p>denominada “ecos” (do Antigo Testamento); eles transmitem seu próprio</p><p>significado, além de sua matriz original do Antigo Testamento.</p><p>Por outro lado, João às vezes modela determinada porção de sua profe-</p><p>cia por uma seleção do Antigo Testamento que ele pretende que seus leitores</p><p>notem. Designadas como “alusões diretas”, essas passagens do Antigo Tes-</p><p>tamento podem esclarecer o significado daquela porção do Apocalipse em</p><p>que João usa as imagens emprestadas.</p><p>Neste capítulo, o presente autor classifica as “alusões diretas” segundo sua</p><p>utilidade na interpretação do Apocalipse e sugere os critérios pelos quais elas</p><p>podem ser identificadas como “alusões diretas”.</p><p>Que ninguém pense que por não poder explicar o significado de cada símbo-</p><p>lo do Apocalipse, é-lhe inútil pesquisar este livro numa tentativa de conhecer</p><p>o significado da verdade que ele contém. Aquele que revelou estes mistérios a</p><p>João dará ao diligente pesquisador da verdade um antegozo das coisas celestiais.</p><p>Aqueles cujo coração está aberto à recepção da verdade serão capacitados a com-</p><p>preender seus ensinos, e ser-lhes-á garantida a bênção prometida àqueles que</p><p>“ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas”</p><p>(WHITE, 2007, p. 584-585).</p><p>Embora não devamos esquecer o conselho acima, os guias de estudo</p><p>sugeridos neste capítulo habilitarão o sério estudante da Bíblia a explorar</p><p>com maior precisão os veios da verdade espiritual por baixo da superfície</p><p>desta superior profecia das Escrituras.</p><p>o livro de aPocaliPse: sua natureza</p><p>Deus tem considerado apropriado em cada estágio da produção das Escrituras</p><p>oferecer Sua revelação em linguagem apropriada ao tempo, local e circunstâncias</p><p>do escritor original. Deus não ignora a cultura, formação, estilo literário ou ma-</p><p>neiras de pensar dos indivíduos a quem Ele se revela. Em vez disto, Ele procura</p><p>diligentemente encontrá-los onde eles estão a fim de que possam compreender, o</p><p>máximo possível, Suas revelações a eles e por intermédio deles (cf. 1Co 9:19-23).</p><p>Por exemplo, Deus apresentou a mesma mensagem básica a Nabucodonosor</p><p>em Daniel 2 como Ele fez ao profeta em Daniel 7. Mas para o rei pagão as nações</p><p>foram retratadas na forma de um ídolo. Isto é natural, sendo que ele compreendia as</p><p>nações como gloriosas e brilhantes representações dos deuses a quem elas serviam.</p><p>Para o profeta hebreu, por outro lado, as nações foram retratadas como ele as via:</p><p>animais devoradores e ferozes que estavam escravizando e destruindo o seu povo.</p><p>Deus falou a cada um dentro da sua linguagem e ambiente cultural a fim de comu-</p><p>nicar uma mensagem acerca de Seus planos para o futuro.</p><p>As palavras que as pessoas usam e os significados que essas palavras</p><p>transmitem são o produto da experiência passada de uma pessoa. A lin-</p><p>guagem está limitada em expressão ao que é familiar às pessoas em um de-</p><p>terminado tempo e lugar. Mesmo o futuro só pode ser descrito na linguagem</p><p>da experiência passada e presente de uma pessoa.</p><p>Quando o Êxodo de Israel do Egito é descrito no Antigo Testamento, por ex-</p><p>emplo, a linguagem usada faz lembrar ao leitor a fraseologia pela qual a poderosa</p><p>atividade divina na Criação e no Dilúvio é descrita no livro de Gênesis. Por exemplo,</p><p>tanto Noé como Moisés foram livrados por uma “arca” calafetada com betume (Êx</p><p>2:3; cf. Gn 6:14). No Êxodo, como na Criação, a presença divina trouxe luz para as</p><p>trevas e um divisor das águas (Êx 13:21; cf. Gn 1:3-5; Êx 14-21; cf. Gn 1:6-8). Co-</p><p>mum a todas as três descrições é o uso de “terra seca” (Js 4:18; Êx 14:21, 29; cf. Gn</p><p>8:11, 13; 1:9, 10) e “sede frutíferos e multiplicai-vos” (Êx 1:7; cf. Gn 9:7; 1:28).</p><p>Precisamente como a descrição do Êxodo se utiliza das descrições</p><p>de ações</p><p>divinas anteriores, assim o exílio para Babilônia e a restauração de Babilônia são</p><p>descritos nos profetas pela linguagem da Criação e do Êxodo. A Criação, por</p><p>exemplo, é o modelo para Isaías 65:17-19. O Êxodo provê o modelo para vários</p><p>dos profetas (Os 2:8-15; Mc 7:15-20; Is 4:2-6; 11:15-16; 43:16-19).</p><p>Da mesma maneira, as profecias concernentes ao Messias foram proclamadas em</p><p>termos de um profeta como Moisés, um filho de Davi e um sacerdote segundo a or-</p><p>dem de Melquisedeque. Deus, em cada caso, usou a linguagem do passado como uma</p><p>ferramenta para comunicar Sua vontade presente e/ou Seu plano para o futuro.</p><p>Portanto, não deve ser nenhuma surpresa descobrir que as visões do Apocalipse</p><p>não estão cheiras de helicópteros, espaçonaves, computadores e bombas nucleares.</p><p>Em vez disto, elas estão expressas nas imagens do passado da igreja do Novo Testa-</p><p>mento. Embora se originando no trono de Deus, o Apocalipse foi comunicado em</p><p>linguagem apropriada ao tempo, lugar e circunstâncias do autor humano, João.</p><p>“A Bíblia não nos é dada em elevada linguagem sobre-humana. A fim de chegar</p><p>aos homens onde eles se encontram, Jesus revestiu-Se da humanidade. A Bíblia pre-</p><p>cisa ser dada na linguagem dos homens” (WHITE, 2008, v. 1, p. 20). Embora uma pro-</p><p>fecia de eventos futuros a partir da perspectiva do autor, a linguagem da experiência</p><p>anterior da igreja proveu a linguagem com a qual descrever esse futuro.</p><p>Conquanto a Bíblia possa frequentemente descrever nosso futuro, é</p><p>importante ter em mente que a linguagem por meio da qual tais profecias</p><p>foram comunicadas era a linguagem de outro tempo e lugar que não os nos-</p><p>sos. É muito fácil impor ao texto significados mais apropriados ao nosso</p><p>Interpretando oEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>86 87</p><p>tempo e lugar do que à situação em que Deus originalmente falou. Desco-</p><p>brir o significado original da linguagem do^texto nos guarda contra nossa</p><p>tendência natural de recriar o texto bíblico à nossa própria imagem.1</p><p>Quando falamos de “significado original”, é claro, não devemos supor que o au-</p><p>tor original ou a audiência original compreendia plenamente o propósito divino na</p><p>revelação a eles comunicada. O que estamos afirmando é que o propósito divino foi</p><p>plena e adequadamente representado na frágil e localizada expressão de um falível</p><p>escritor humano.2 Portanto, o significado original da linguagem do texto é decisivo</p><p>para uma correta compreensão das Escrituras. Aplicar à linguagem do texto signifi-</p><p>cados mais apropriados ao nosso tempo e lugar é lançar-nos em uma jornada para</p><p>todos os tipos de destinos fantásticos que, embora possam parecer bíblicos, são de</p><p>fato contrários à intenção divina para essa passagem.</p><p>Portanto, nosso estudo do método se iniciará com um cuidadoso exame da</p><p>linguagem do Apocalipse a fim de determinar que procedimentos são mais ap-</p><p>ropriados para o estudo do livro. Somente se formos pacientes o suficiente para</p><p>estudar o Apocalipse em seus próprios termos compreenderemos corretamente</p><p>as visões concedidas ao seu autor (FIORENZA, 1976, p. 13).</p><p>Um livro cristão</p><p>É evidente pela primeira frase (“revelação de Jesus Cristo”) que o Apocalipse</p><p>é um livro cristão (1:1). Jesus Cristo está presente em toda parte, tanto explicita-</p><p>mente (Ap 1:1, 2, 5, 9; 11:15; 12:10, 17; 14:12; 17:6; 19:10; 20:4, 6; 22:16, 20, 21)</p><p>quanto em símbolos (Ap 1:12-16; 5:5-7; 7:17; 12:5, 11; 14:1-3). Há referências a</p><p>igrejas (Ap 1–3; 22:16) e à cruz (Ap 1:18; 5:6, 9, 12; 11:8; 12:11). O leitor atento</p><p>também se torna consciente de dezenas, se não centenas, de ecos recordando</p><p>1 Embora um conhecimento do grego e do hebraico não seja imprescindível para a compreensão da</p><p>Bíblia (veja a conclusão deste capítulo), a leitura do texto na língua original nos ajuda a fugir das as-</p><p>sociações familiares que as palavras em nosso idioma têm com nosso ambiente moderno. Na tradução</p><p>é mais fácil importar inconscientemente significados contemporâneos para nossa leitura do texto.</p><p>2 ”A Bíblia foi escrita por homens inspirados, mas não é a maneira de pensar e exprimir-se de</p><p>Deus. Esta é da humanidade. Deus, como escritor, não se acha representado. Os homens dirão</p><p>muitas vezes que tal expressão não é própria de Deus. Ele, porém, não se pôs à prova na Bíblia</p><p>em palavras, em lógica, em retórica. Os escritores da Bíblia foram os instrumentos de Deus, não</p><p>sua pena. Olhai os diversos escritores. Não são as palavras da Bíblia que são inspiradas, mas os</p><p>homens é que o foram. A inspiração não atua nas palavras do homem ou em suas expressões,</p><p>mas no próprio homem que, sob a influência do Espírito Santo, é possuído de pensamentos. As</p><p>palavras, porém, recebem o cunho da mente individual. A mente divina é difusa. A mente divina,</p><p>bem como sua vontade, é combinada com a mente e a vontade humanas; assim as declarações do</p><p>homem são a Palavra de Deus” (WHITE, 2008, v.1, p. 21).</p><p>temas, vocabulário e teologia do Novo Testamento.3 Embora o livro tenha um</p><p>diferente estilo, vocabulário e assunto, não devemos esperar, portanto, que sua</p><p>teologia seja radicalmente diferente do que encontramos em outros textos do</p><p>Novo Testamento (HALVER, 1969, v. 32, p. 58).</p><p>Uma revelação divina</p><p>Segundo o prefácio (1:1-3), o autor compreende sua obra como sendo a de trans-</p><p>mitir à igreja uma mensagem visionária de Deus. Ele repetidamente aponta para uma</p><p>origem sobrenatural as cenas descritas em seu livro (Ap 1:10-20; 2:7, 11, etc. ; 4:1-2;</p><p>10:11; 17:1-3; 19:9-10; 22:6-10). Ele se considera um profeta e sua obra uma profecia.</p><p>Sua autoridade é igual à dos apóstolos e dos profetas do Antigo Testamento. As “pala-</p><p>vras da profecia” devem ser obedecidas (1:3). Sua autoridade é tão inquestionável que</p><p>nenhuma palavra deve ser adicionada ou subtraída (22:18-19).</p><p>Por outro lado, há considerável evidência (esboçada abaixo) de que uma multi-</p><p>dão de alusões à literatura anterior com a qual João estava familiarizado são bor-</p><p>rifadas através das visões. Até que ponto o livro é visionário e até que ponto é ele</p><p>pesquisado, desenvolvido e escrito pelo autor humano? Felizmente, não precisamos</p><p>fazer tão difícil distinção. Quer as alusões venham de Deus quer sejam o resultado da</p><p>meditação de João sobre as visões, isso não faz nenhuma diferença para o resultado.</p><p>Se, como ressaltamos acima, Deus sempre fala no tempo, lugar e circunstâncias do</p><p>escritor original, o produto final (o texto) fala adequadamente em nome de ambos!</p><p>Por amor à conveniência e facilidade de expressão, porém, neste capítulo falaremos</p><p>geralmente em termos de “a intenção do autor” ou “intenção de João” sem, através</p><p>disso, pretender insinuar que o livro é meramente um produto humano.</p><p>Para os adventistas do sétimo dia, talvez seja instrutivo relembrar a ex-</p><p>periência de Ellen G. White, que teve visões das coisas celestiais semelhantes</p><p>àquelas de João. Recentes estudos têm indicado, porém, que ela pesquisou lon-</p><p>ga e arduamente para encontrar a melhor maneira de expressar o que ela havia</p><p>recebido na linguagem que seria apropriada aos leitores em seu tempo e lugar.</p><p>Visões e pesquisa podem trabalhar juntas dentro de um simples ser humano</p><p>para produzir um livro que transmita comunicações da mente de Deus.</p><p>A presença do elemento divino no Apocalipse indica que o significado</p><p>final do livro frequentemente vai além do que o autor humano poderia ter</p><p>compreendido. Isto, porém, não autoriza intérpretes a procurar indiscrimi-</p><p>nadamente no livro todos os tipos de ampliados significados. Precisamente</p><p>3 Para listas de paralelos à linguagem e temas do Novo Testamento, veja Rudolf Halver (1964, v.</p><p>32, p. 58-70), William Milligan (1892, p. 42-70) e Henry B. Swete (1906, p. cli-cliii).</p><p>Interpretando oEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>88 89</p><p>como Deus limitou-se a si mesmo quando assumiu a natureza humana na</p><p>encarnação, assim também se limitou quando escolheu expressar-se na Es-</p><p>crituras através da linguagem de autores humanos.4</p><p>Conquanto a intenção de Deus possa transcender a compreensão do autor</p><p>humano, sua intenção é expressa por meio da linguagem escolhida pelo autor</p><p>humano. Portanto, qualquer que seja a intenção divina percebida na passagem,</p><p>ela deve ser uma extensão natural da própria linguagem e propósito do autor.5</p><p>Um livro profético</p><p>Relacionada com a questão da intenção divina é a reivindicação do livro de</p><p>prover informação verdadeira em relação ao futuro. O Apocalipse diz respeito</p><p>às coisas que “em breve devem acontecer” (1:1); coisas que “hão de acontecer</p><p>depois destas” (1:19). Fala do regresso de Cristo e dAquele que “há de vir” (1:7-</p><p>8; 4:8). Promete recompensas ao vencedor (2:7, 11 etc.).</p><p>O Apocalipse aponta para um futuro tempo de selamento (7:1-3); para</p><p>uma futura “hora da provação” (3:10; 7:14); para uma futura multidão</p><p>redimida (7:9-11; 19:1-3); para uma grande proclamação final do evan-</p><p>gelho (10:8-11; 14:6-12); para um juízo final (11:18; 20:11-15); e para uma</p><p>grande batalha final (12–20) culminando na vinda de Cristo (14:14-20;</p><p>19:11-13.), introduzindo o final e universal domínio de Deus (11:15-17;</p><p>21–22:5). Assim, o Apocalipse está preocupado principalmente com even-</p><p>tos que são futuros a partir da perspectiva do autor.</p><p>Ambiente da Ásia Menor</p><p>O texto do Apocalipse esclarece que o livro foi dirigido a sete igrejas da</p><p>província romana da Ásia (1:4; cf. 22:16).6 Portanto, não nos deve surpreender</p><p>4 “A Escritura Sagrada, com suas divinas verdades, expressas em linguagem de homens, apresenta</p><p>uma união do divino com o humano. União semelhante existiu na natureza de Cristo, que era o Filho</p><p>de Deus e Filho do homem. Assim, é verdade com relação à Escritura, como o foi em relação a Cristo,</p><p>que ‘o Verbo [ou Palavra] se fez carne e habitou entre nós’ (Jo 1:14)” (WHITE, 2005, p. vi).</p><p>5 Os escritores inspirados nem sempre compreendiam o conteúdo da revelação divina (veja</p><p>Daniel e 1Pe 1:10-13). Mas eles retinham o controle do texto (veja nota 8). No caso do Apocalipse,</p><p>o texto objetivava fazer sentido para seus leitores originais (Ap 1:3-4, 9-11; 22:16) bem posteriores.</p><p>Nota editorial: A opinião de que o Apocalipse “fazia sentido” para seus leitores originais não</p><p>significa que os últimos viam ou esperavam cumprimentos imediatos da profecia total em seus</p><p>dias (opinião preterista). Muitos aspectos da visão estavam no futuro distante. As profecias</p><p>messiânicas também “faziam sentido” para os profetas do Antigo Testamento, mas eles sabiam</p><p>que seu cumprimento seria futuro para os seus tempos (1Pe 1:10-12).</p><p>6 Como com qualquer comunicação apostólica inspirada, a profecia teria tido significado igual-</p><p>se às vezes o livro usa símbolos e conceitos que ocorrem na literatura não bíblica</p><p>e na mitologia. O autor não pesquisou, necessariamente, esses símbolos; eles lhe</p><p>vieram como expressões vivas que seriam familiares a qualquer um que vivesse</p><p>na época na Ásia Menor (MORANT, 1969, p. 19).</p><p>Conquanto em princípio possamos estar um tanto desconfortáveis com</p><p>a ideia de que um escritor bíblico possa ter empregado em seu livro algumas</p><p>figuras mitológicas (por exemplo, animais de sete cabeças), devemos lembrar</p><p>a natureza profética do Apocalipse. Os profetas usavam a linguagem comum</p><p>da época para comunicar eficazmente. Assim, os estudiosos que têm encon-</p><p>trado antigas analogias para várias partes do Apocalipse podem nos ajudar a</p><p>compreender melhor a intenção das imagens do livro (ver BETZ, 1969, p. 155;</p><p>HEDRIK, 1971, p. 94-95; SWEET, 1979, p. 41).7</p><p>Linguagem apocalíptica</p><p>É imediatamente evidente que o livro de Apocalipse não está escrito em pro-</p><p>sa comum. Logo no início o livro é declarado ser “revelado em símbolos” (1:1,</p><p>tradução literal). Uma águia fala, gafanhotos ignoram a vegetação, um grande</p><p>dragão vermelho persegue uma mulher através do céu, um leão é transformado</p><p>em um cordeiro que vence tudo. Esta não é a linguagem típica do Novo Testa-</p><p>mento (HALVER, 1964, v. 32, p.156). O Apocalipse é tão simbólico que o leitor</p><p>precisa evitar ser demasiado literal na interpretação (MAURO, 1925, p. 23).8</p><p>Contudo, tal simbolismo cósmico era uma forma um tanto comum de</p><p>procedimento literário naqueles dias. Livros como Enoque Etiópico, 4 Esdras</p><p>e 2 Baruque expressam sentimentos e teologia no que tem sido denominada</p><p>”linguagem apocalíptica” (ver CHARLESWORTH, 1983-1984, v. 1). Assim, em-</p><p>bora a linguagem do Apocalipse seja frequentemente estranha e simbólica, sua</p><p>mensagem está fundamentada firmemente na realidade. Muito provavelmente</p><p>o leitor cristão do primeiro século tinha relativamente pouca dificuldade em</p><p>compreender os principais símbolos do livro (BARR, 1984, p. 40-41).9</p><p>mente para outras congregações cristãs (cf. Cl 4:16).</p><p>7 De especial auxílio é o comentário sobre Apocalipse de David Aune da série Word Biblical</p><p>Commentary. Aune é um especialista tanto no Apocalipse como no antigo mundo romano.</p><p>8 Não há dúvida de que muitos assuntos em Apocalipse se destinam a ser tomadas literalmente (as</p><p>sete igrejas, Cristo, João, guerra, e morte etc.), mas a declaração clara no início (1:1) combinada com os</p><p>fenômenos do livro indica que simbolismo é a ferramenta principal do idioma usado no livro.</p><p>9 A construção grega em Ap 1:3 (αкоυō no acusativo) indica que os leitores e ouvintes deveriam</p><p>ter suficiente compreensão do livro para obedecê-lo.</p><p>Interpretando oEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>90 91</p><p>Portanto, o intérprete do Apocalipse dos dias modernos precisará levar em</p><p>consideração a literatura apocalíptica dos tempos, que o ajudará a compreender</p><p>como a linguagem apocalíptica era entendida no primeiro século d.C.</p><p>Importância do Antigo Testamento</p><p>Embora possam aparecer algumas alusões a fontes não bíblicas, é certo que o</p><p>Apocalipse não pode ser compreendido sem contínua referência ao Antigo Testa-</p><p>mento (BULLINGER, 1970, p. 17; FEUILLET, 1959, p. 55; SCROGGIIE, p. 22). Ele</p><p>é “um perfeito mosaico de passagens do Antigo Testamento” (MILLIGAN, 1892, p.</p><p>72). A total infiltração do Antigo Testamento no Apocalipse indica que ele é a princi-</p><p>pal chave para desvendar o significado dos símbolos do livro. Os ouvidos da audiên-</p><p>cia de João estavam muito melhor sintonizados para assimilar as alusões ao Antigo</p><p>Testamento do que é o caso hoje com muitas congregações cristãs (LINDARS, 1976,</p><p>p. 65). O Antigo Testamento fornecia um meio de “descodificar” a mensagem do</p><p>Apocalipse que não estava disponível ao observador externo (HOYT, 1953, p. 7).10</p><p>Nosso estudo do Apocalipse deve, portanto, incluir uma completa com-</p><p>preensão da história, poesia, linguagem e temas do Antigo Testamento. Sem tal</p><p>compreensão, o significado do livro permanece oculto em grande parte.</p><p>Problema de alusões</p><p>Afirmar que o Apocalipse está saturado de conceitos do Antigo Testamento por</p><p>si só não aborda a questão de como eles são usados no livro. O leitor totalmente</p><p>familiarizado com o Antigo Testamento percebe rapidamente que o Apocalipse</p><p>jamais cita o Antigo Testamento.11 Antes, alude a ele com uma palavra aqui, um</p><p>conceito ali, uma frase em outro lugar (HASEL, 1982, v. 1, p. 105; SWEET, 1979, p.</p><p>39). Conquanto esteja claro que o Antigo Testamento é básico para qualquer com-</p><p>preensão do Apocalipse, nem sempre está claro a que parte do Antigo Testamento</p><p>está se fazendo alusão em um dado verso (VOS, 1965, p. 18).</p><p>Um método exegético que desvendará os símbolos do Apocalipse deve</p><p>incluir diretrizes para determinar quando e de que maneira o autor está</p><p>aludindo ao Antigo Testamento.</p><p>Estrutura repetitiva</p><p>10 Embora a autora sem dúvida tivesse experiências visionárias, o que ela escreveu é também</p><p>claramente o produto de interpretação e reflexão teológica.</p><p>11 Das dezenas de estudiosos que fazem esta asserção, alguns importantes personagens serão suficientes,</p><p>como: Kurt Aland (1975, p. 903), Adela Yarbro Collins (1984, p. 42), Elizabeth Schüssler Fiorenza (1980,</p><p>p. 108), Halver (1964, v. 32, p. 11-12), Pierre Prigent (1981, p. 368) e H. Barclay Swete (1902, p. 392).</p><p>À medida que o leitor obtém maior familiaridade com o Apocalipse, torna-</p><p>se claro que a estrutura</p><p>do livro está estritamente relacionada com o seu sig-</p><p>nificado. Há sete igrejas, sete selos, sete trombetas e sete cálices ou taças. Mui-</p><p>tos temas e símbolos que reaparecem em intervalos regulares (BARR, 1984, p.</p><p>43). Quase cada passagem tem analogias em outro lugar do livro. O Apocalipse</p><p>contém tal complexidade de entrelaçadas analogias que determinada passagem</p><p>pode estar mais estreitamente relacionada com material da outra extremidade</p><p>do livro do que com passagens vizinhas (THOMPSON, 1985, p. 16-17). Assim,</p><p>o intérprete precisa ter um bom conhecimento da estrutura e conteúdo de todo</p><p>o livro e estar ciente do impacto do todo sobre a passagem em estudo.12</p><p>Um ambiente de adoração</p><p>Uma das mais impressionantes características do Apocalipse é a sua repeti-</p><p>da descrição de cenas de adoração no Céu, geralmente no contexto de ima-</p><p>gens relacionadas com o santuário do Antigo Testamento (Ap 4; 5; 7:9-12; 8:2-</p><p>6; 11:15-19; 15:5-8; 19:1-8). Não somente há um grande número de hinos no</p><p>livro (Ap 4:11; 5:9, 10, 12, 13; 7:10, 12; 11:15, 17), mas as próprias bênçãos e</p><p>maldições sobre aqueles que lêem e ouvem o Apocalipse indicam uma leitura</p><p>pública do livro em um ambiente de adoração (1:3; 22:18-19).</p><p>Estes fatos sugerem que precisa ser dada atenção às práticas cristãs de</p><p>adoração do primeiro século, às imagens do santuário do Antigo Testamento,</p><p>aos serviços religiosos da sinagoga judaica e aos targuns aramaicos que se de-</p><p>senvolveram nas sinagogas judaicas.</p><p>Conclusão</p><p>As características do livro de Apocalipse já examinadas chamam a at-</p><p>enção para o método. O método adequado para o estudo do Apocalipse re-</p><p>fletirá estas características e as utilizará para esclarecer a intenção do autor.</p><p>Volvemo-nos agora para um método proposto a fim de “decifrar o código”</p><p>deste fascinante livro, com ênfase especial sobre como descobrir e validar</p><p>alusões feitas por João a fontes do Antigo Testamento.</p><p>12 Algumas das melhores estruturas de Apocalipse incluem as apresentada pelos seguintes</p><p>autores: John Wick Bowman (1955, p. 440-43), Elisabeth Schüssler Fiorenza (1977, p. 358-66),</p><p>Leroy C. Spinks (1978, p. 211-22) e K. A. Strand (1972, p. 48).</p><p>Interpretando oEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>92 93</p><p>interPretando o aPocaliPse</p><p>As realidades previamente observadas no texto de Apocalipse sugerem que</p><p>o intérprete deve seguir quatro passos fundamentais em seu estudo: (1) Fazer</p><p>uma exegese básica (ou exposição) da passagem que está sendo estudada. (2)</p><p>Examinar analogias relevantes em outras partes do Apocalipse. (3) Encontrar as</p><p>fontes das imagens do Antigo Testamento. (4) Descobrir se o Novo Testamento</p><p>expande o significado desses símbolos à luz do evento-Cristo.</p><p>Exegese básica</p><p>O primeiro passo em torno da compreensão da mensagem do Apocalipse</p><p>é determinar o que o autor estava dizendo aos seus leitores originais em seu</p><p>tempo, lugar e circunstâncias. O termo “exegese” é uma palavra derivada do</p><p>grego que significa “extrair”. Assim isto veio designar o processo de permitir</p><p>que o texto bíblico fale por si mesmo, em vez de impor à passagem um signifi-</p><p>cado que se origina com o leitor. Consequentemente, a exegese básica dá aten-</p><p>ção ao significado das palavras (pelo uso de léxicos e dicionários teológicos), à</p><p>sintaxe (como as palavras se relacionam umas com as outras em uma sentença),</p><p>à estrutura da passagem e seu contexto imediato e à relação que a passagem tem</p><p>com sua situação contemporânea.</p><p>A situação contemporânea é esclarecida aprendendo-se o que pode ser con-</p><p>hecido acerca dos primeiros ouvintes e seu ambiente social, as preocupações</p><p>que estimularam o autor a escrever e a literatura paralela da época, se disponível.</p><p>Prestimosas introduções ao Apocalipse podem ser encontradas em muitos co-</p><p>mentários e em “introduções ao Novo Testamento”. Para o Apocalipse, um ex-</p><p>ame de outros escritos apocalípticos é especialmente proveitoso.</p><p>Tais métodos de exegese, cuidadosamente efetuados, produzem uma compreen-</p><p>são razoavelmente clara da maioria dos livros do Novo Testamento. Mas no Apoc-</p><p>alipse eles produzem um resultado insatisfatório. É possível em Apocalipse conhecer</p><p>plenamente bem o que João está dizendo e ainda não ter absolutamente nenhuma</p><p>ideia do que ele tem em vista (HALVER, 1964, v. 32, p. 7). Assim, é necessário um</p><p>método mais amplo, mais teológico de exegese para fazer justiça ao Apocalipse.</p><p>Paralelos dentro do Apocalipse</p><p>O próximo passo é examinar como os símbolos e estruturas de uma dada</p><p>passagem são usados em outros lugares no Apocalipse. Quando o autor tem</p><p>claramente definido sua intenção no contexto, é sem propósito procurar inter-</p><p>pretações criativas fora do livro. Por exemplo, em 3:21 e 11:18 o autor fornece</p><p>um resumo interpretativo em adiantamento do material a seguir. Ignorar esse</p><p>resumo em favor de alguma “chave” externa limitaria, em vez de realçar, a com-</p><p>preensão de sua intenção.</p><p>O Apocalipse é singular por sua estrutura incrivelmente entrelaçada. Isto</p><p>é tanto assim que a chave para o material em uma extremidade do livro pode</p><p>frequentemente ser encontrada na extremidade oposta. O contexto imediato de</p><p>qualquer passagem pode ser tão vasto como todo o livro. Exemplos de óbvias</p><p>estruturas paralelas em Apocalipse incluem as trombetas e as taças, e o cava-</p><p>leiro do cavalo branco nos capítulos 6 e 19.</p><p>O exame de tais estruturas paralelas habilita o estudante a aplicar às pas-</p><p>sagens difíceis ideias obtidas das mais claras. Por exemplo, muitos exegetas con-</p><p>cordam que as sete taças ou pragas (cap. 16) são juízos de Deus sobre aqueles</p><p>que o rejeitaram. Pareceria razoável, portanto, esperar um tema similar nas sete</p><p>trombetas, um segmento em que há pouca concordância.</p><p>A fonte do Antigo Testamento</p><p>O próximo passo importante é determinar a que texto(s) do Antigo Testa-</p><p>mento João está aludindo.</p><p>Enquanto nos movemos para esta seção decisiva, o leitor é lembrado</p><p>da discussão anterior sobre a autoria divino-humana do Apocalipse. A im-</p><p>pressão deixada pelo livro é de visões celestiais escritas por alguém que</p><p>pesquisou cuidadosamente suas expressões nas Escrituras do Antigo Tes-</p><p>tamento. Sendo que João em Patmos talvez não tenha tido acesso ao An-</p><p>tigo Testamento, é possível que ele possa ter “pesquisado” sua memória ou</p><p>tivesse as alusões trazidas à sua mente diretamente por Deus.</p><p>Todavia, quer as alusões surgissem na mente de Deus quer na de João,</p><p>elas refletem a mente de Deus e a mente de João à qual Deus se revelou.</p><p>Como salientamos anteriormente, expressões tais como “o autor”, “o intento</p><p>de João” ou “o autor cita” não devem ser compreendidas como significan-</p><p>do que o livro de Apocalipse é meramente um produto humano. Tais ex-</p><p>pressões são apenas uma maneira conveniente de se referir à complexidade</p><p>da autoria divino-humana do livro em sua totalidade.</p><p>Torna-se cada vez mais evidente para aqueles que estudam em profundidade</p><p>o Apocalipse que as expressões do livro estão inteiramente saturadas da linguagem,</p><p>história e ideias do Antigo Testamento. Assim, é impossível compreender correta-</p><p>mente o Apocalipse se o seu antecedente veterotestamental não for levado a sério.</p><p>“Podemos dizer de uma forma geral, que até que tenhamos sucesso em expor</p><p>a fonte do Antigo Testamento para uma profecia apocalíptica, não temos inter-</p><p>pretado essa passagem” (KRAFT, 1974, v. 16a, p. 16).</p><p>Interpretando oEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>94 95</p><p>Somente quando é compreendida a base ou antecedente do Antigo Testa-</p><p>mento se pode esperar que o Apocalipse revele segredos que podem ter sido</p><p>perfeitamente claros para o leitor do primeiro século (CORSINI, 1983, v. 5, p. 33;</p><p>HOYT, 1953, p. 1-2, 7; MOUBCE, 1977, v. 17, p. 39; TENNEY, 1957, p. 112). O</p><p>problema é como saber que texto(s) do Antigo Testamento João tinha em mente</p><p>quando ele escreveu (GUNDRY, 1967, p. 4-5; TENNEY, 1957, p. 101; TRUDIN-</p><p>GEN, 1963, p. 40; VOS, 1965, p. 18-19, 112). Contudo, o profeta jamais cita o An-</p><p>tigo Testamento; meramente alude a ele.13 O problema de identificar</p><p>uma alusão</p><p>torna-se mais complicado quando descobrimos que em muitas ocasiões João</p><p>parece ter citado imprecisamente de memória (JOHNSON, 1896, p. 29; SMITH</p><p>JR., 1972, p. 61; TOY, 1884, p. xx), ou adaptado à linguagem do Antigo Testa-</p><p>mento para se ajustar à sua necessidade (COLLINS, 1984, p. 42; CORSINI, 1983,</p><p>v. 5, p. 32; FEED, 1965, p. 129; PERMAN, 1941, p. 53; PRESTON; HANSON,</p><p>1949, p. 35; STAGG, 1975, p. 333-334; STENDAHL, 1954, p. 159; VANHOYE,</p><p>1962, p. 461-472; VOS, 1965, p. 23-32). É também muito possível que ele tenha</p><p>usado uma tradição textual diferente da que temos à nossa disposição (NICOLE,</p><p>1940, p. 9-11; TENNEY, 1957; TRUDINGER, 1963, p. 17).</p><p>Para complicar as coisas ainda mais, o Antigo Testamento é escrito em uma</p><p>língua diferente da do Novo Testamento. Assim, expressões do Antigo Testamento</p><p>em hebraico são encontradas na “tradução grega” do Novo Testamento (NICOLE,</p><p>1940, p. 11-12). Simplificaria grandemente as coisas se o autor do Apocalipse sem-</p><p>pre tivesse citado da tradução grega do Antigo Testamento como a Septuaginta.</p><p>Mas estudos recentes têm mostrado que o Apocalipse diverge amplamente da Sep-</p><p>tuaginta. É muito possível que João fizesse sua tradução (CHARLES, 1920, v. 1, p.</p><p>lxvi) e às vezes se utilizasse de tradições textuais que nos são relativamente descon-</p><p>hecidas, tais como os targuns aramaicos e a tradição textual hebraica representada</p><p>em Qumran (TRUDINGER, 1966a, p. 82-88).</p><p>Assim, a busca de alusões não pode ser considerada cientificamente com-</p><p>pleta sem um exame muito mais amplo das fontes do Antigo Testamento do que</p><p>tem sido possível no passado.14 Felizmente, não é necessário identificar cada</p><p>alusão à Bíblia Hebraica a fim de responder ao Apocalipse (COLLINS, 1984,</p><p>p. 44, 48). No entanto, controles cuidadosos devem ser postos em prática se</p><p>13 Contraste Apocalipse com o Evangelho de Mateus, que geralmente identifica a fonte de suas</p><p>citações do Antigo Testamento (Mt 2:17, 19; 33:3 etc) (VANHOYE, 1962, p. 436).</p><p>14 Além da Sptuaginta, traduções gregas tais como Áquila, Símaco e Teodocião; Targuns Ar-</p><p>amaicos tais como Neofiti I e Pseudo-Jônatas sobre o Pentateuco, e as traduções massoréticas,</p><p>Qumran e Samaritana do hebraico deveriam ser consultadas.</p><p>uma lista de analogias do Antigo Testamento ao Apocalipse deve ser digna de</p><p>alguma coisa (BLACK, 1976, p. 135). É interessante observar que dez impor-</p><p>tantes comentaristas sobre o livro de Apocalipse apresentam listas amplamente</p><p>divergentes de alusões ao Antigo Testamento no Apocalipse (ver PAULIEN,</p><p>1988, v. 11, p. 121-154). Isto demonstra que a tarefa não é fácil.</p><p>Duas espécies de alusões. Antes de esboçar um método para determinar a pre-</p><p>sença de uma alusão ao Antigo Testamento, devemos distinguir entre duas espécies</p><p>de alusões. Uma espécie assume a intenção do autor em apontar para o leitor uma</p><p>obra anterior como um meio de expandir os horizontes do leitor. A porção do texto</p><p>em estudo só pode ser compreendida à luz da alusão em seu contexto original.15</p><p>Uma alusão intencional como esta é chamada “alusão direta”.</p><p>O outro tipo de alusão, que chamaremos de “eco”, não depende da atenta con-</p><p>sciência de um uso literário anterior (HOLLANDER, 1981, p. 95). Muitas das figu-</p><p>ras literárias do Apocalipse eram incertas no ambiente em que João vivia (ALTICK,</p><p>1975, p. 94). Embora ele utilize um “símbolo vivo” mencionado em dezenas de lu-</p><p>gares do Antigo Testamento, ele não está necessariamente ciente de sua história.</p><p>Antes, ele extrai de um fundo comum de linguagem prontamente compreendido</p><p>por seus leitores (HEDRIK, 1971, p. 17; EZELL, 1977, p. 21).</p><p>Um eco está assim divorciado de seu contexto original. Enumerar passa-</p><p>gens do Antigo Testamento em que um eco é encontrado não é proveitoso. O</p><p>que importa é o significado básico do eco. Um bom exemplo de eco é a figura</p><p>de vegetação como um símbolo para o povo de Deus. Usado com tal regulari-</p><p>dade parece ter atingido um significado fixo nos tempos do Antigo Testamento</p><p>(compare Sl 1:3; Is 5:1-7; Jr 2:21 com Ap 8:7; 9:4). Isto de modo algum exclui,</p><p>porém, a possibilidade de que um eco de significado bastante fixo pudesse ser</p><p>aplicado diferentemente em diferentes contextos.16</p><p>Resumindo, referências alusivas ao Antigo Testamento podem entrar no</p><p>Apocalipse de duas maneiras. João pode usar uma fonte do Antigo Testa-</p><p>mento direta e conscientemente tendo em mente o seu contexto original. Tal</p><p>alusão é “vontade de ser” (BAKER, 1984, p. 7-8). João está plenamente con-</p><p>sciente da fonte bem como sua relevância para sua composição. Ele admite</p><p>15 Note as palavras de John Hollander (1981, p. 95) em seu The figure of Echo: A Mode of Allusion</p><p>in Milton and After: “O texto ao qual se faz referência não está totalmente ausente, mas é parte da</p><p>biblioteca portátil partilhada pelo autor e sua audiência ideal. A intenção de aludir reconhecida-</p><p>mente é esencial para o conceito.”</p><p>16 Contraste Apocalipse 7:1-3 e 9:4, onde os vegetais são protegidos dos juízos divinos por uma</p><p>marca, com Ap 8:7, onde a vegetação é destruída pelos juízos divinos.</p><p>Interpretando oEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>96 97</p><p>o conhecimento do leitor tanto da fonte quanto da intenção do autor em</p><p>recorrer àquela fonte (HOLLANDER, 1981, p. 106).</p><p>Por outro lado, o profeta pode “ecoar” ideias do Antigo Testamento, cuja</p><p>origem não o preocupa. Em um eco ele não aponta ao leitor uma fonte de fun-</p><p>do específico; meramente utiliza um “símbolo vivo” que geralmente será com-</p><p>preendido por seus leitores contemporâneos.</p><p>A distinção entre alusões diretas e ecos é muito significativa para o estudo</p><p>do Apocalipse. Deixando de fazer esta distinção, os comentaristas às vezes têm</p><p>interpretado ecos como se o autor tivesse a intenção de que seu leitor incorpo-</p><p>rasse o contexto de uma fonte em sua compreensão do Apocalipse. A distinção</p><p>entre alusões e ecos realmente exigem duas diferentes abordagens à interpre-</p><p>tação, dependendo da natureza da relação do autor com uma fonte específica</p><p>em uma determinada passagem (ALTICK, 1975, p. 95-96).</p><p>Alusões diretas. A presença de uma alusão direta requer que o intérprete as-</p><p>socie o material à sua fonte (HOLLANDER, 1981, p. 106). João assume que a fonte</p><p>de literatura é conhecida e que o leitor pode extrair ideias do contexto da fonte que</p><p>melhorem sua compreensão da profecia do Apocalipse. Mas a fim de lidar adequ-</p><p>adamente com alusões diretas é necessário identificar corretamente suas fontes.</p><p>O procedimento para a identificação de alusões diretas opera por um pro-</p><p>cesso de eliminação. Analogias sugeridas podem ser recolhidas de comentários,</p><p>referências marginais e listas de alusões ao Antigo Testamento. Estas são en-</p><p>tão examinadas para ver se satisfazem um ou mais dos três critérios para uma</p><p>alusão direta (veja abaixo). Quanto mais critérios uma referência satisfaz, mais</p><p>provável é que João tinha em mente essa passagem específica do Antigo Testa-</p><p>mento quando escreveu essa porção do Apocalipse.</p><p>Os três critérios são os seguintes:</p><p>1. Paralelos verbais. O termo “citação” não está claramente definido na litera-</p><p>tura (TRUDINGER, 1963, p. 12-15; 1966b). Todavia, uma boa definição é dada por</p><p>Trudinger (1966a, p. 82): “Alguém pode dizer que está citando quando usa combi-</p><p>nações de palavras de uma forma em que não poderia usá-las se não fosse por um</p><p>conhecimento de sua ocorrência nesta forma específica em outra fonte.”</p><p>Por esta definição é evidente que o termo “citação” só pode raramente, se algu-</p><p>ma vez, ser aplicado ao uso do Antigo Testamento pelo profeta. Apenas ocasional-</p><p>mente João usa mais de três ou quatro palavras na mesma sequência em que elas são</p><p>encontradas no Antigo Testamento (TENNEY, 1957, p. 101). Assim, os paralelos</p><p>verbais podem ser compreendidos em um sentido mais amplo do que as citações.</p><p>Um paralelo verbal, portanto, é definido como ocorrendo sempre que pelo</p><p>menos duas palavras de mais do que menor significado (artigos, preposições e</p><p>conjunções menores são normalmente excluídos) são paralelas entre uma pas-</p><p>sagem</p><p>do Apocalipse e uma passagem da Septuaginta ou de outra versão do</p><p>primeiro século d.C.17 Estas duas importantes palavras podem ser acopladas em</p><p>uma frase, ou podem até mesmo ser separadas — desde que estejam em clara</p><p>relação entre si em ambas as passagens do paralelo sugerido.</p><p>Os paralelos verbais são descobertos colocando-se o texto de Apocalipse lado a</p><p>lado com o texto-fonte em potencial. O fraseado que é exato ou semelhante é enfati-</p><p>zado, e a relação em potencial entre as passagens é avaliada em uma base preliminar.</p><p>Um bom exemplo de paralelo verbal é encontrado em Apocalipse 9:2: “E a fu-</p><p>maça do poço subiu como a fumaça de uma grande fornalha” (tradução do autor).</p><p>Isto tem uma notável semelhança com o fraseado de Êxodo 19:18 na Septuaginta.18</p><p>Um exemplo de um paralelo verbal onde duas palavras-chave não estão ligadas</p><p>gramaticalmente pode ser visto comparando-se Apocalipse 9:2 com Gênesis 1:2.19</p><p>Quanto mais palavras importantes que são encontradas em comum, maior a proba-</p><p>bilidade de que uma alusão direta esteja presente. Uma alusão direta não deve ser</p><p>assumida com todo paralelo verbal; a observação de fraseado comum é apenas</p><p>parte do processo de acumular evidência para uma alusão direta.</p><p>2. Paralelos temáticos. Muitas vezes o profeta claramente tem em mente</p><p>uma passagem do Antigo Testamento, mas usa uma diferente palavra grega da</p><p>Septuaginta, ou usa apenas uma simples palavra para fazer a conexão. Isto não</p><p>deve surpreender. As alusões por sua própria natureza não são obrigadas a</p><p>reproduzir o fraseado preciso do original (VOS, 1965, p. 112). Podem envolver</p><p>ideias bem como fraseado, e incluir semelhança de tema e deliberado contraste</p><p>(BAKER, 1984, p. 10; TENNEY, 1957, p. 101). Tais paralelos de uma só palavra</p><p>são distinguidos dos “ecos” em que há uma evidente relação temática entre os</p><p>contextos em que as palavras paralelas são encontradas.</p><p>Os paralelos temáticos podem ser encontrados não somente pela com-</p><p>paração com a Septuaginta, mas também comparando-se o intento do gre-</p><p>go do Apocalipse com o hebraico e o aramaico do Antigo Testamento (ver</p><p>17 As versões existents na Héxapla de Origenes (FIELD, 1964) provavelmente reflete ao menos</p><p>algumas versões correntes quando o Apocalipse foi escrito. Os paralelos verbais não operam na</p><p>tradução a menos que a transliteração esteja envolvida. Exemplo: “Messias” é claramente um</p><p>paralelo verbal do hebraico meshiach.</p><p>18 Ap 9:2, kai anebē kapnos ek tou phreatos ōs kapnos kaminou megalēs; Êx 19:18 na LXX, kai</p><p>anebainen ho kapnos, hōsei kapnos kaminou.</p><p>19 As conexões principais são os termos “trevas” (substantivo, skotos; verbo, skotoō) e “abismo”</p><p>(abussos). Gn 1:2, LXX, kai skotos, epanō tēs abussou [...] Ap 9:2, kai ēnoixen to phrear tēs abussou</p><p>[...] kai eskotōthē ho hēlios kai ho aēr.</p><p>Interpretando oEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>98 99</p><p>MCNAMARA, 1978, v. 27a; TRUDINGER, 1966a). Tais equivalentes greco-</p><p>semíticos são colocados em uma categoria separada por causa do maior</p><p>nível de incerteza quanto à intenção do autor.</p><p>Um exemplo de paralelo temático é dado por Tenney (1957, p. 102). Ele</p><p>nota que embora o termo “todo-poderoso” ocorra muitas vezes no Antigo</p><p>Testamento, somente em Amós 4:13 (LXX) ele é usado em um contexto que</p><p>é paralelo a Apocalipse 1:8. O conceito de contextos paralelos provê uma</p><p>salvaguarda conta a seleção indiscriminada.</p><p>Outro paralelo temático pode ser encontrado comparando-se Apocalipse</p><p>9:4 e Ezequiel 9:4. Em ambos os casos é colocado um sinal na testa com a finali-</p><p>dade de proteção contra os juízos divinos. As duas passagens são claramente pa-</p><p>ralelas, embora seja usada uma palavra grega diferente para “marca”.20 Contudo,</p><p>não se deve supor automaticamente apenas deste paralelo que o revelador está</p><p>apontando para Ezequiel 9:4. Mas a observação deste tema semelhante é parte</p><p>do processo de acumular evidência para determinar a intenção de João.</p><p>3. Paralelos estruturais. Às vezes o profeta de Apocalipse usa o Antigo Testa-</p><p>mento construindo sobre a estrutura literária ou teológica de seções inteiras sem</p><p>necessariamente seguir o fraseado exato (BEALE, 1984, p. 307; HEDRIK, 1971, p.</p><p>17; VANHOYE, 1962, p. 440-441).21 Ocorre um paralelo estrutural quando João</p><p>modela uma determinada passagem em um texto do Antigo Testamento, utilizando</p><p>sua linguagem e temas em aproximadamente a mesma ordem.</p><p>Um bom exemplo de tal paralelo estrutural pode ser visto comparando-se</p><p>Apocalipse 9:1-11 com Joel 2:1-11. Note que ambas as passagens começam com um</p><p>toque de trombeta, mencionam trevas, um exército de gafanhotos, uma descrição</p><p>daquele exército e finalmente uma referência ao líder daquele exército. Outros pa-</p><p>ralelos entre as duas passagens incluem a ansiedade daqueles que são afligidos pelo</p><p>exército de gafanhotos, o escurecimento do sol e um ruído de carros.22</p><p>20 Ez 9:4, LXX, semeiōn; Ap 9:4, sphragida.</p><p>21 Este critério inclui o que Morton Smith (p. 78, 115) chama “paralelos de forma literária” e “pa-</p><p>ralelos em tipos de associação”. Lars Hartman (1966, p. 126, 95, 118, 137) parece estar sugerindo algo</p><p>semelhante ao meu conceito de “paralelo estrutural” em seu uso da frase “padrões de pensamento”. Ele</p><p>também observa que Zc 12:2-4 provê a “estrutura” para 1 Enoque 56:5-8 (HARTMAN, 1966, p. 89).</p><p>22 Outros exemplos de paralelos na estrutura literária podem ser vistos comparando-se Apoc-</p><p>alipse 1:12-18 com Daniel 7:9-13, e Daniel 10; Apocalipse 13 com Daniel 3 e 7; Apocalipse 18 com</p><p>Ezequiel 26-28; e Apocalipse 19:11-16 com Isaías 63:1-6. Alguns até mesmo sugerem que todo</p><p>o livro de Apocalipse está estruturado para se assemelhar ao livro de Ezequiel (ver GOULDER,</p><p>1981, p. 343-50; VANHOYE, 1962, p. 436-76).</p><p>Os paralelos estruturais não estão limitados às passagens paralelas. Às vezes</p><p>eles ocorrem em relação com estruturas históricas ou teológicas mais amplas</p><p>que vão além de passagens específicas do Antigo Testamento. Por exemplo, as</p><p>sete trombetas bem como as sete últimas pragas de Apocalipse são inquestiona-</p><p>velmente paralelas às pragas de Êxodo descritas explicitamente em Êxodo 7–12</p><p>e outras porções do Antigo Testamento (Sl 78, 105, 135, 136) e implicitamente</p><p>em uma multidão de referências nos profetas. Os relatos veterotestamentais da</p><p>Criação, da queda de Babilônia e da conquista de Jericó são vistos como estando</p><p>na base do material das sete trombetas.</p><p>O que está acima pode parecer semelhante aos paralelos temáticos, mas ali</p><p>há uma sutil e importante diferença. Um paralelo temático está limitado a uma</p><p>ideia específica em Apocalipse que tem um antecessor em potencial em uma</p><p>passagem específica do Antigo Testamento. Juntamente com os paralelos ver-</p><p>bais, os paralelos temáticos constituem os básicos blocos de construção pelos</p><p>quais podem ser tomadas decisões concernentes à influência.</p><p>Contrastando, os paralelos estruturais ocorrem se uma seção de Apocalipse</p><p>baseia-se ou em um antecessor literário (como Joel 2:1-11 para Apocalipse 9:1-</p><p>11) ou em uma grande estrutura teológica como o tema de Êxodo. Tais paralelos</p><p>estruturais normalmente compreendem vários paralelos verbais e/ou temáticos.</p><p>Resumo de critérios. A fim de se qualificar como uma alusão direta ao An-</p><p>tigo Testamento, uma palavra ou frase de Apocalipse deve satisfazer no mínimo</p><p>um dos critérios acima. Muitos satisfarão mais do que um.</p><p>Dos três, os paralelos verbais são frequentemente o critério mais fraco. Seu</p><p>valor como evidência aumenta, porém, quando as várias palavras paralelas au-</p><p>mentam e ao ponto em que as palavras paralelas são ordenadas de um modo</p><p>semelhante em ambas as passagens. Sendo que os paralelos estruturais consis-</p><p>tem de vários paralelos verbais e temáticos integrados, eles normalmente con-</p><p>stituem a mais forte evidência para uma alusão direta.</p><p>Quanto mais critérios uma alusão direta específica se ajusta, mais certo é que o</p><p>autor conscientemente moldou sua passagem tendo em mente o contexto do An-</p><p>tigo Testamento (DODD, 1952, p. 126). A certeza é também afetada pelas várias</p><p>passagens da literatura anterior em que palavras, conceitos e estruturas específicas</p><p>são encontrados. Quando determinado paralelo é singular em literatura anterior, a</p><p>probabilidade de que João está dirigindo nossa atenção àquela passagem específica</p><p>é correspondentemente aumentada (HARTMAN, 1966, p. 85, 115).</p><p>Interpretando oEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>100 101</p><p>Classificação de alusões diretas</p><p>Nossa lista de alusões diretas ao Antigo Testamento em Apocalipse são ap-</p><p>enas probabilidades. Aquele que cria a lista de alusões deve, portanto, indicar o</p><p>nível de incerteza envolvido e, onde possível, as razões para essa incerteza.</p><p>As alusões em potencial podem ser classificadas em cinco categorias de</p><p>probabilidade: alusões certas, alusões prováveis, alusões possíveis, alusões in-</p><p>certas, e não alusões.</p><p>Alusões certas. Estas existem quando a evidência para dependência é tão deci-</p><p>siva que o intérprete está certo ou praticamente certo de que João estava apontando</p><p>para um texto antecedente. Um exemplo de alusão certa é a referência à sétima</p><p>praga do Egito na primeira trombeta (cf. Êx 9:23-26; Ap 8:7). As pragas do Êxodo</p><p>são um paralelo estrutural subjacente às sete trombetas como um todo.</p><p>Assim, esperaríamos que João refletisse pragas específicas em vários pon-</p><p>tos da narrativa. A ação tanto da primeira trombeta quanto da sétima praga</p><p>se origina no Céu, envolve uma mistura de saraiva e fogo caindo sobre a Terra,</p><p>e resulta em destruição para a vegetação da Terra. Há também um paralelo</p><p>temático: ambos os lances são juízos divinos sobre aqueles que se opõem a Deus</p><p>e ao seu povo. Esta afluência de evidência leva esta alusão direta a um alto nível</p><p>de certeza que é raro em Apocalipse.</p><p>Alusões prováveis. Essa classificação é atribuída a uma passagem quando</p><p>a evidência de sua relação é considerável, mas fica aquém da certeza absoluta.</p><p>Um exemplo de alusão provável é a relação entre a primeira trombeta e Ezequiel</p><p>38:22. Os paralelos verbais e temáticos são virtualmente tão extensos como é o</p><p>caso com Êxodo 9:23-26. Não somente isso, mas a combinação de saraiva, fogo</p><p>e sangue que está sendo usada em juízo é exclusiva para Ezequiel 38.</p><p>Todavia, as sete trombetas são uma porção do Apocalipse que tem</p><p>apenas referências mínimas a Ezequiel, de sorte que o paralelo estrutural está</p><p>ausente. Assim, existe incerteza suficiente no tocante a essa alusão direta para</p><p>levá-la a ser classificada como “provável” em vez de “certa”. Contudo, sendo</p><p>que as alusões tanto certas quanto prováveis são consideradas suscetíveis de ter</p><p>estado na mente do revelador quando ele escreveu, o intérprete deve levar em</p><p>consideração o contexto original do texto de origem na interpretação da pas-</p><p>sagem de Apocalipse que contém a alusão.</p><p>Alusões possíveis. Em uma alusão possível, há evidência suficiente para in-</p><p>dicar que João pode ter estado fazendo uma alusão direta à passagem do Antigo</p><p>Testamento, mas não suficiente para ser razoavelmente certa. Um exemplo de</p><p>uma alusão possível é a relação entre a primeira trombeta e Isaías 30:30.</p><p>Em Isaías 30:30, fogo e saraiva são derramados como juízos sobre os as-</p><p>sírios. Contudo, embora a primeira trombeta contenha um paralelo verbal e</p><p>um paralelo temático a Isaías 30:30, não se pode falar em nenhum paralelo</p><p>estrutural, e os outros paralelos são relativamente fracos. Assim, é possível que</p><p>João tivesse em mente essa passagem do Antigo Testamento quando escreveu a</p><p>primeira trombeta, mas não há suficiente evidência para uma certeza razoável.</p><p>Tal paralelo pode ser instrutivo para o intérprete, mas nunca deve ser usado</p><p>como a única evidência para uma interpretação.</p><p>Alusões incertas. Estas parecem ter algumas ideias paralelas, mas as alusões</p><p>são muito fracas. Entretanto, o intérprete não pode conclusivamente negar que</p><p>elas são alusões diretas.</p><p>Na margem da vigésima-sexta edição do Novo Testamento Grego de</p><p>Nestle-Aland, Ezequiel 5:12 está enumerado como paralelo para a primeira</p><p>trombeta. A ausência de paralelos verbais e temáticos indica que é incerto</p><p>que João aqui tivesse especificamente em mente Ezequiel 5:12, embora a</p><p>expressão “terça parte” esteja presente em ambas as passagens. Mas se o con-</p><p>ceito de uma “terça” foi extraído do Antigo Testamento, foi provavelmente</p><p>baseado em Ezequiel 5:1-4 ou Zacarias 13:8-9 em vez de nessa passagem.23</p><p>O contexto de uma alusão incerta não deve ser usado na interpretação do</p><p>Apocalipse, mas pode ser uma fonte para definir um ou mais “ecos”.</p><p>Não alusões. A categoria de “não alusão” é relevante somente quando se</p><p>avalia as listas de alusões sugeridas. Depois de examinar, o intérprete conclui</p><p>que não há nenhuma evidência de que o autor tinha em vista um paralelo en-</p><p>tre os dois textos. Eugen Hühn, por exemplo, achava que a primeira trombeta</p><p>fazia referência a Isaías 2:13, em que árvores são usadas como um símbolo do</p><p>soberbo e altivo a quem Deus humilhará (HÜHN, 1900, p. 247). A ausência de</p><p>um paralelo verbal no grego, e de quaisquer paralelos temáticos ou estruturais,</p><p>nega a esse paralelo sugerido a condição de uma alusão direta. A definição de</p><p>árvores por Isaías, porém, pode ser “ecoada” por João na primeira trombeta.</p><p>A conclusão de tal estudo deve, é claro, permanecer um tanto experimental. Mas</p><p>não é necessário traçar cada paralelo ao Antigo Testamento a fim de compreender</p><p>a mensagem básica do livro (COLLINS, 1984, 44, 48). Conquanto o intérprete deva</p><p>ser receptivo a nova evidência que possa levar paralelos específicos a serem reavali-</p><p>ados de vez em quando, o procedimento acima coloca em uma base mais objetiva a</p><p>interpretação de alusões diretas ao Antigo Testamento em Apocalipse.</p><p>23 Ezequiel 5:12 poderia concebivelmente ser relacionado com 5:1-4, que é uma provável alusão,</p><p>mas isto não acrescentaria nada à nossa compreensão da primeira trombeta.</p><p>Interpretando oEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>102 103</p><p>O Novo Testamento</p><p>Já temos notado que o livro de Apocalipse é um livro cristão e está repleto de</p><p>uma multidão de paralelos a outros livros do Novo Testamento. O que temos no</p><p>Apocalipse é uma declaração de Jesus em “muitas, muitas telas” (SCHMIDT, 1947, p.</p><p>177). Como um verdadeiro resumo da mensagem do Novo Testamento, ele é com</p><p>razão colocado no final do cânon neotestamentário (HALVER, 1964, v. 32, p. 58).</p><p>Traçar paralelos de ambos os Testamentos sugere que o livro de Apocalipse é</p><p>praticamente uma declaração sumária dos temas de toda a Bíblia (MOLATT, 1984,</p><p>p. 30). Um estudioso chama o Apocalipse de “o final da sinfonia bíblica” (MOLATT,</p><p>1984, p. 30). Outro declara: “Neste livro todos os outros livros da Bíblia terminam e</p><p>se encontram” (JAMIESON; FAUSSET; BROWN, 1961, p. 1526).24</p><p>Portanto, o autor do Apocalipse não usa a linguagem e ideias do Antigo Testa-</p><p>mento de um modo insipidamente literal (VOS, 1965, p. 36-40). O significado sug-</p><p>erido pelas alusões ao Antigo Testamento para os símbolos do Apocalipse deve ser</p><p>visto à luz do evento Cristo (EZELL, 1977, p. 23; FORD, 1982, p. 98; KRAFT, 1974, v.</p><p>16a, p. 85; LESTRINGANT, 1942, 152). A vitória de Jesus Cristo é o novo princípio</p><p>organizador da história no Apocalipse (SCHLIER, 1964, p. 361).</p><p>É claro que sua experiência com Jesus e a inspiração do Espírito Santo (1:10)</p><p>levou João a cristianizar os materiais do Antigo Testamento com os quais ele es-</p><p>tava trabalhando (BARR, 1984, p. 42). Assim, nós também devemos interpretar</p><p>esses conceitos através do prisma do evento-Cristo (EZELL, 1977, p. 23; FORD,</p><p>1982, p. 98). A melhor maneira de fazer isto é procurar paralelos do Novo Tes-</p><p>tamento para as expressões do Antigo Testamento no livro de Apocalipse. Este</p><p>processo pode ocorrer por meio do mesmo método usado para determinar</p><p>alusões ao Antigo Testamento no Apocalipse.</p><p>Os escritores do Novo Testamento compreendiam a Cristo como cumpri-</p><p>mento do intento básico do Antigo Testamento.25 Isto é verdade não apenas de</p><p>escolhidas profecias messiânicas, mas de todo o espectro da história do Antigo</p><p>Testamento.</p><p>destruição deles”. Esta</p><p>prática, infelizmente, ainda prevalece muitíssimo em nossos dias, e a interpre-</p><p>tação do Apocalipse parece especialmente inclinada a isto.</p><p>exegese, teologia e hermenêutica</p><p>A título de introdução, observamos que há diferenças e semelhanças entre</p><p>as abordagens teológica e exegética ao livro de Apocalipse. A exegese lida com</p><p>um texto ou passagem específica e procura extrair a mensagem pretendida pelo</p><p>autor nesse texto ou passagem específica. Isto envolve todas as preocupações</p><p>que um exegeta normalmente tem em lidar com qualquer trecho literário (sig-</p><p>nificado de palavras, relações sintáticas etc.), contextos históricos e literários</p><p>gerais, e qualquer outra informação que possa esclarecer o significado da pas-</p><p>sagem, inclusive declarações relevantes que o autor faz em outro lugar.</p><p>O estudo teológico utiliza as mesmas ferramentas e princípios her-</p><p>menêuticos. Mas enquanto o estudo exegético normalmente significa o são</p><p>Princípios fundamentais de interpretaçãoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>12 13</p><p>e cuidadoso exame de um texto ou passagem específica, o estudo teológico</p><p>geralmente abrange os seguintes:</p><p>Primeiro, utiliza os resultados exegéticos de vários textos ou passagens</p><p>relacionadas. Segundo, procura colocá-los na devida relação uns com os</p><p>outros. Finalmente, empenha-se em relacionar esta síntese a evidências e</p><p>exposições bíblicas mais amplas dos mesmos assuntos, temas, ou perspecti-</p><p>vas teológicas (do Antigo e do Novo Testamento).</p><p>Assim, a exegese no Apocalipse faz a pergunta básica fundamental: O que</p><p>nos diz esta passagem específica do Apocalipse? O estudo teológico, por outro</p><p>lado, faz a pergunta mais ampla: Que temas ou assuntos teológicos são ilumi-</p><p>nados e elucidados por esta passagem, e como a apresentação destes temas e</p><p>assuntos por este livro se encaixa no contexto mais amplo da teologia do Novo</p><p>Testamento e da teologia bíblica como um todo?</p><p>Por causa das espécies de interpretações errôneas do Apocalipse que têm</p><p>surgido em anos recentes, não somente de escritores não adventistas, mas tam-</p><p>bém dentro de certos círculos adventistas, em primeiro lugar reiteramos breve-</p><p>mente os bem-conhecidos e geralmente aceitos princípios de interpretação</p><p>bíblica. Então daremos atenção mais detalhada a certos assuntos vitalmente</p><p>importantes concernentes ao Apocalipse que são muitas vezes desconhecidos</p><p>ou negligenciados por expositores atuais. O presente capítulo não se sobreporá</p><p>indevidamente ao que é apresentado em outro lugar na série Santuário e Profe-</p><p>cias Apocalípticas sobre este tema, mas o assunto de uma sã hermenêutica é tão</p><p>essencial que alguma reformulação pode até mesmo ser proveitosa (JOHNS-</p><p>SON, 2010, p. 259–287; ver HASEL, 2010, p. 288–322).</p><p>regras gerais de interPretação</p><p>As regras gerais para a interpretação de qualquer livro da Bíblia obviamente</p><p>devem também se aplicar ao livro de Apocalipse. Donde alguns comentários</p><p>sobre estas seguem imediatamente abaixo.</p><p>As Escrituras como seu próprio intérprete</p><p>Os adventistas do sétimo dia creem firmemente que as Escrituras não são</p><p>de particular interpretação, mas que homens santos de Deus falaram ao serem</p><p>movidos pelo Espírito Santo (2Pe 1:20–21). Este fato da divina inspiração as-</p><p>segura que as Sagradas Escrituras são verdade totalmente confiável. Leva à con-</p><p>clusão de que as Escrituras são o seu próprio e melhor intérprete, um princípio</p><p>interpretativo já mencionado acima.</p><p>As passagens bíblicas, porém, não devem ser reunidas de uma forma indevida.</p><p>Uma sólida abordagem leva em consideração os seguintes fatos: (1) As Escrituras</p><p>não são apenas verdade em um sentido global, mas também contém muitas ver-</p><p>dades individuais. (2) Portanto, ao se lidar com qualquer passagem das Escrituras, é</p><p>importante verificar precisamente o que trata essa passagem específica e qual é a sua</p><p>própria mensagem específica em seu próprio contexto específico. (3) Enquanto a re-</p><p>união de duas ou mais passagens bíblicas que têm relevância para o mesmo assunto</p><p>iluminará nossa compreensão da verdade divina que está envolvida, a combinação</p><p>enganosa de dois ou mais itens que são absolutamente verdadeiros em si mesmos</p><p>pode muito bem levar a uma síntese que é totalmente infundada e errônea.</p><p>O último ponto precisa de ênfase especial. Por exemplo, se tentarmos fundir</p><p>uma biografia totalmente correta de César Augusto com uma biografia totalmente</p><p>correta de George Washington (cada um desses indivíduos foi chamado “pai do seu</p><p>país”), obviamente teríamos um relato combinado cheio de erros. Assim seria tam-</p><p>bém o caso se intrometêssemos um relato factual da carreira militar de Napoleão</p><p>Bonaparte em um relato factual da Segunda Guerra Mundial.</p><p>Jogar solto deste modo com peças individualmente verdadeiras e comple-</p><p>tamente exatas de informação histórica parece ridículo, e certamente é assim.</p><p>No entanto, este mesmo tipo de metodologia é similar hoje em determinados</p><p>esquemas interpretativos aplicados ao livro de Apocalipse.8 Quer o campo seja</p><p>historiografia geral ou teologia bíblica (ou, a propósito, qualquer outro campo),</p><p>o resultado final não é verdade, mas confusão e erro.</p><p>Usar todas as ferramentas disponíveis</p><p>Os bereanos são mencionados como sendo “mais nobres” do que os de Tessalôni-</p><p>ca, porque eles prontamente recebiam a palavra dos apóstolos e então estudavam as</p><p>Escrituras para verificar se a mensagem dos apóstolos era verdadeira (At 17:11). A</p><p>procura pela verdade divina deve ser cuidadosa, diligente e equilibrada.</p><p>Tal estudo envolve uma comparação adequada de passagem com passagem,</p><p>tendo cuidado de que o máximo conhecimento possível seja obtido de cada pas-</p><p>sagem bíblica utilizada. Isto sugere um uso sério e apropriado das ferramentas</p><p>que estão disponíveis: comentários bíblicos, dicionários bíblicos, manuais bíblicos,</p><p>8 Os adventistas do sétimo dia tendem a ficar surpresos de que os evangélicos dispensacion-</p><p>alistas possam mudar a setuagésima semana da profecia de Daniel 9:24–27 da era do Novo Tes-</p><p>tamento para um tempo ainda futuro em nossos dias, e que eles tornam Apocalipse 4:1 a 19:10</p><p>virtualmente uma exposição da chamada “setuagésima semana” de Daniel. Todavia, certos escri-</p><p>tores adventistas recentes de inclinação futurista revelam esse mesmo tipo de método em suas</p><p>exposições privadas do Apocalipse.</p><p>Princípios fundamentais de interpretaçãoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>14 15</p><p>obras de referência sobre história e arqueologia bíblicas, mapas e tratados da geo-</p><p>grafia das terras bíblicas, léxicos e outros auxílios com referência às línguas bíblicas.</p><p>Se possível, o texto bíblico deve ser lido em suas línguas originais.</p><p>Conquanto devamos ser cautelosos com o que é simplesmente tradição hu-</p><p>mana — algo que muito frequentemente inclui o erro —, devemos reconhecer</p><p>que a utilização adequada e criteriosa de relevantes materiais de pesquisa de</p><p>fundo histórico e arqueológico, léxicos, e ajudas similares podem ser muito</p><p>úteis e esclarecedores na busca e descoberta da verdade bíblica.</p><p>Os indivíduos que não são especialistas em relação às várias disciplinas</p><p>mencionadas acima não devem desesperar. Informação confiável está pron-</p><p>tamente disponível para qualquer um que esteja disposto a estudar. Quer</p><p>tais estudantes da Bíblia percebam isto ou não, sua própria leitura das Es-</p><p>crituras em português ou em outra língua moderna implica em reconheci-</p><p>mento para com eruditos instruídos nas línguas bíblicas e em conhecimen-</p><p>tos históricos e outros conhecimentos relevantes para a Bíblia. Felizmente,</p><p>também estão disponíveis várias traduções da Bíblia (ao menos em portu-</p><p>guês) que podem ser comparadas entre si.</p><p>É bom notar que os estudantes da Bíblia que estão realmente buscando a</p><p>verdade não farão simplesmente selecionar traduções ou fórmulas tradicion-</p><p>ais para satisfazer sua própria fantasia sobre pontos controvertidos. Preferiv-</p><p>elmente, eles buscarão a preponderância da evidência quanto ao que é correto.</p><p>As traduções da Bíblia diferem na escolha das palavras e na</p><p>Jesus é a nova criação (2Co 5:17), nascido por meio do Espírito que</p><p>envolve Maria (cf. Lc 1:35 com Gn 1:2). Ele é o novo Adão (Rm 5 e 1Co 15);</p><p>feito à imagem de Deus (2Co 4:4; Cl 1:15), casado com uma nova Eva (Ef 5:32-</p><p>33 — a igreja), e em pleno domínio sobre a Terra (Jo 6:16-21), sobre os peixes</p><p>do mar (Lc 5:1-11; Jo 21), e sobre todos os seres vivos (Mc 11:2).</p><p>24 Note a aprovação de Ellen G. White (2007, p. 585) a esta declaração em Atos dos Apóstolos</p><p>(paralelo verbal e temático!).</p><p>25 João 5:39-40; Lucas 24:25-27, 44-47. Um escelente estudo partindo de uma perspectiva ad-</p><p>ventista é Hans K. LaRondelle (1983).</p><p>Jesus Cristo é um novo Moisés (Jo 5:45-47), que é ameaçado em seu nas-</p><p>cimento por um rei hostil (Mt 2), passa 40 dias jejuando no deserto, impera</p><p>sobre 12 e ordena 70, dá a lei de um alto monte (Mt 5:1-2), alimenta seu</p><p>povo com o pão do céu (Jo 6:28-35) e ascende ao Céu depois da ressurreição.</p><p>Ele é o novo Israel, que sai do Egito (Mt 2), passa pelas águas (Mt 3:13-17),</p><p>é levado pelo Espírito ao deserto, passa pelas águas uma segunda vez (Lc</p><p>12:50 — batismo na cruz) e entra na Canaã celestial.</p><p>Tais exemplos poderiam ser multiplicados. No Novo Testamento, Jesus é o novo</p><p>Isaque, o novo Davi, o novo Salomão, o novo Eliseu, o novo Josué e o novo Ciro. Os</p><p>escritores do Novo Testamento veem a vida, morte e ressurreição de Jesus como</p><p>cumprindo toda a experiência do povo de Deus desde Adão até João Batista.</p><p>Como deveria o cristão se relacionar com esta história? Cumprindo todo</p><p>o Antigo Testamento em Sua própria experiência, Jesus estava atualizando essa</p><p>experiência para todos os que estão “nEle”. NEle o crente se torna um verdadei-</p><p>ro israelita (Gl 3:29; At 13:32-33; 2Co 1:20) quando confessa que Jesus é o Mes-</p><p>sias (Jo 1:47-50), Aquele que deveria realizar as esperanças de Israel. Assim todo</p><p>o Antigo Testamento torna-se relevante para a experiência do cristão. Quem</p><p>crê em Cristo é parte de um novo Israel (LARONDELLE, 1983, p. 121). “Não</p><p>há nenhuma mudança na fraseologia empregada no Novo Testamento, mas há</p><p>positivamente uma mudança concernente ao povo a quem essas profecias e des-</p><p>ignações agora se aplicam. No Novo Testamento, fala-se da igreja na linguagem</p><p>empregada no Antigo Testamento concernente a Israel” (WERE, 1977, p. 30).</p><p>A transferêndcia do Novo Testamento do termo “Israel” da nação judaica</p><p>para a igreja tem um profundo impacto sobre a maneira como a história e a pro-</p><p>fecia do Antigo Testamento é colocada a serviço da igreja. O Novo Testamento</p><p>universaliza as promessas da aliança (PAULIEN, 1984, p. 375). Israel não deve</p><p>ser mais visto em termos étnicos ou geográficos (1Pe 2:4-10; Tg 1:1). O Shekiná</p><p>é visto na reunião daqueles que creem em Jesus (Mt 18:20). O verdadeiro temp-</p><p>lo na Terra é espiritual e mundial, modelado segundo o verdadeiro tabernáculo</p><p>dos lugares celestiais (2Co 6:14-18; Gl 4:26; Hb 8:1-2). Babilônia e Egito são</p><p>também espiritualizados e representam os inimigos da igreja.</p><p>Assim, as imagens do Antigo Testamento não devem ser insipidamente apli-</p><p>cadas ao livro de Apocalipse. Como os autores do Novo Testamento, João está</p><p>plenamente cônscio do impacto do evento Cristo sobre as realidades espirituais.</p><p>A menos que o significado de Jesus Cristo e a cruz sejam deixados a permear os</p><p>Interpretando oEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>104 105</p><p>símbolos do Apocalipse, a interpretação resultante não será cristã, não importa</p><p>quão frequentemente Cristo possa ser nomeado em sua explicação.26</p><p>considerações finais</p><p>Por causa das limitações de espaço, este capítulo é demasiado breve para</p><p>mostrar todas as implicações de um método exegético para o estudo do Apoc-</p><p>alipse. Assim, os aspectos do método que poderiam ser pertinentes para o espe-</p><p>cialista foram deixados de lado. Aqueles que gostariam de explorar em profun-</p><p>didade os problemas envolvidos na aplicação do método para as complexidades</p><p>das línguas originais seriam aconselhados a examinar o meu livro mais técnico</p><p>sobre o assunto (ver PAULIEN, 1988, v. 11).</p><p>O método não pode ser aprendido pela mera leitura deste capítulo. Deve</p><p>ser descoberto em experiência interativa com o texto. Quanto mais tempo se</p><p>gasta examinando os paralelos verbais, temáticos e estruturais, mais se tem a</p><p>sensação da dinâmica envolvida no uso da linguagem pelo autor.</p><p>Para examinar onde o autor está fazendo uma alusão direta, temos de</p><p>lidar com probabilidades. Onde não temos certeza se João está fazendo uma</p><p>alusão direta, seria melhor deixar o contexto do Antigo Testamento fora da</p><p>discussão deste texto específico do Apocalipse.</p><p>Embora não seja irrazoável, não é^historicamente certo^que^o^autor^do</p><p>Apocalipse tivesse acesso a qualquer dos documentos do Novo Testamento. Seu con-</p><p>hecimento do ensino do Novo Testamento pode ter vindo através de experiência di-</p><p>reta com Cristo, com a tradição oral e/ou documentos agora perdidos para a história.</p><p>Assim, é geralmente mais seguro admitir que João se baseia em uma tradição comu-</p><p>mente compreendida do que em documentos específicos do Novo Testamento.</p><p>Sem dúvida, o não especialista que ler este capítulo se sentirá desanimado acerca</p><p>das possibilidades de usar tal método. Com pouca experiência na prática da exegese,</p><p>pouca ou nenhuma experiência da apocalíptica judaica ou do ambiente cultural da</p><p>Ásia Menor do primeiro século, nenhum conhecimento do grego, hebraico, ou ara-</p><p>maico, muitos leitores serão tentados a levantar as mãos em desespero.</p><p>Felizmente, embora esse conhecimento e habilidades sejam extremamente</p><p>proveitosos, eles são raramente decisivos para a interpretação do livro de Apoc-</p><p>alipse. Por exemplo, a vasta maioria de alusões ao Antigo Testamento no livro de</p><p>Apocalipse é claramente evidente até mesmo nas traduções em nosso idioma. As</p><p>26 Uma excelente aplicação deste princípio pode ser encontrada em Hans K. LaRondelle (1987,</p><p>p. 108-145).</p><p>imagens apocalípticas são certamente estranhas, mas para aqueles que estão famil-</p><p>iarizados com o Antigo Testamento, o livro perde bastante de sua estranheza.</p><p>Deve-se admitir, é claro, que as habilidades acadêmicas e o preparo do especial-</p><p>ista podem salvaguardá-lo de opiniões falhas baseadas em informação inadequada.</p><p>Todavia, indivíduos não familiarizados com as línguas originais ou com antigos</p><p>materiais básicos podem contribuir grandemente para o contínuo crescimento da</p><p>igreja nesta área pela aplicação de outras salvaguardas como as seguintes:</p><p>1. Em todas as oportunidades para o estudo, o estudante do Apocalipse deve</p><p>orar fervorosamente por uma atitude de aprendizagem e uma abertura à di-</p><p>reção do Espírito Santo. Sem oração e a iluminação do Espírito Santo, a obra até</p><p>mesmo do mais excelente erudito pode sutilmente se desviar. A intenção divina</p><p>não é controlada por mentes seculares. O testemunho unido das Escrituras é</p><p>que os “pensamentos [de Deus] não são os vossos pensamentos” (Is 55:8) e as</p><p>coisas espirituais “se discernem espiritualmente” (1Co 2:14).</p><p>2. O uso de várias traduções pode proteger o estudo da Bíblia da aberração</p><p>ocasional introduzida por tradução defeituosa ou por erros na transmissão</p><p>manuscrita. Estas podem ser complementadas pelo uso de uma concordância</p><p>analítica, como a de Strong ou de Young, que levará o estudante de volta ao fra-</p><p>seado original sem a necessidade de aprender um alfabeto desconhecido.</p><p>3. A maior parte de um período de estudo da Bíblia deve ser gasta nas seções</p><p>das Escrituras que são razoavelmente claras. É através de passagens claras das Es-</p><p>crituras que as passagens obscuras, tais como os selos e as trombetas do Apocalipse,</p><p>podem ser compreendidas mais exatamente. A fascinação excessiva por textos e as-</p><p>suntos problemáticos pode resultar em distorção gradual da compreensão, levando</p><p>a opiniões estreitas e frequentemente fanáticas que dividirão a igreja.</p><p>4. Os resultados do estudo detalhado, como pesquisas de concordância e análise</p><p>de alusões, devem ser comparados com muita leitura geral das Escrituras para que a</p><p>obsessão com detalhes não</p><p>desvie ninguém da ênfase central da passagem que está</p><p>sendo estudada. É possível provar quase tudo com uma concordância. Este perigo é</p><p>minimizado, porém, quando cada passagem é compreendida à luz de muita leitura</p><p>geral das Escrituras no contexto, preferivelmente em uma tradução clara e atual-</p><p>izada onde o contexto mais amplo pode ser visto a surgir.</p><p>5. Os métodos eficientes devem ser aplicados às contribuições que Ellen</p><p>White oferece para a compreensão de textos difíceis.27 Muito dano pode ser feito</p><p>quando sua autoridade na igreja é usada de uma maneira irregular, resultando</p><p>27 Veja neste volume, capítulo 7, “Uso de Daniel e Apocalipse por Ellen G. White”, e capítulo 8,</p><p>“O uso dos escritos de Ellen G. White pelo intérprete”.</p><p>Interpretando oEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>106 107</p><p>em uma distorção da intenção do escritor das Escrituras. Corretamente com-</p><p>preendida, a inspiração se harmoniza consigo mesma. Os princípios 3 e 4 acima</p><p>se aplicam também aos escritos do Espírito de Profecia.</p><p>6. É prudente que os intérpretes individuais estejam abertos às críticas</p><p>construtivas de seus colegas, principalmente daqueles que discordam deles.</p><p>Aqueles que discordam de nós frequentemente podem apontar para reali-</p><p>dades no texto que temos omitido por causa de nossas estreitas perspectivas.</p><p>Tal crítica é particularmente valiosa quando vem de indivíduos que são do-</p><p>tados de capacidade invulgar e/ou com recursos, como o conhecimento das</p><p>línguas originais, que pode ajudar na exegese.</p><p>Concluindo, a tarefa delineada neste capítulo não é fácil, mas é emocion-</p><p>ante. Por meio de uma cuidadosa aplicação do método, os estudantes da Bíblia</p><p>podem obter uma compreensão mais profunda da mensagem do Apocalipse.</p><p>Ao serem tais percepções partilhadas dentro do corpo da igreja, correção mútua</p><p>pode ocorrer. Juntos, podemos crescer em nossa compreensão do Apocalipse e</p><p>caminhar em direção daquele grande reavivamento prometido.28</p><p>referências</p><p>ALAND, B.; ALAND, K.; KARAVIDOPOULOS, J.; MARTINI, C. M. METZGER, B. M. The</p><p>Greek New Testament. New York: United Bible Societies, 1975.</p><p>ALTICK, R. T. The Art of Literary Research. New York: W.W. Norton & Co., 1975.</p><p>BAKER, C. The Echoing Green: Romanticism, Modernism and Phenomena of Transference in</p><p>Poetry. Princeton: Princeton University Press, 1984.</p><p>BARR, D. L. The Apocalypse as a Symbolic Transformation of the World: A Literary Analysis.</p><p>Interpretation, v. 38, n. 1, p. 39-50, jan. 1984.</p><p>BEALE, G. K. The Use of Daniel in Jewish Apocalyptic Literature and in the Revelation of St.</p><p>John. Lanham: [s. n.], 1984.</p><p>BETZ, H. D. On the Problem of the Religio-Historical Understanding of Apocalypticism. Journal</p><p>of Theology and the Church, v. 6, p. 134-156, 1969.</p><p>28 Ellen G. White (2002, p. 113) alega que: “Quando nós, como um povo, compreendermos o</p><p>que este livro [Apocalipse] para nós significa, será visto entre nós grande reavivamento.”</p><p>BLACK, M. Some Greek Words With ‘Hebrew’ Meanings in the Epistles and Apocalypse. In:</p><p>MCKAY, J. R.; MILLER, J. F. (Eds.). Biblical Studies: Essays in Honour of William Barcaly.</p><p>Londres: Collins, 1976.</p><p>BOWMAN, J. W. The Revelation to John: Its Dramatic Structure and Message. Interpretation, v.</p><p>9, n. 4, p. 453-456, 1955.</p><p>BULLINGER, E. W. The Apocalypse. Londres: Attic Press, 1935.</p><p>CHARLES, R. H. The Revelation of St. John. Edimburgo: [s. n.], 1920. v. 1.</p><p>CHARLESWORTH, J. H. (Ed.). The Old Testament Pseudepigrapha. Garden City:</p><p>Doubleday, 1983. v. 1.</p><p>COLLINS, A. Y. Crisis and Catharsis: the power of the Apocalypse. Philadelphia: Westminster</p><p>Press, 1984.</p><p>CORSINI, E. The Apocalypse: the perennial revelation of Jesus Christ. 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Até mesmo</p><p>uma leitura casual das Escrituras</p><p>revela que Deus fala ao seu povo</p><p>em uma variedade de maneiras.</p><p>Tipologia é um dos métodos pelos</p><p>quais o Espírito Santo explicou de</p><p>uma maneira concreta ou gráfica as</p><p>várias facetas da verdade espiritual.</p><p>A mente apreende a representação</p><p>simbólica mais prontamente do</p><p>que o faz com o raciocínio abstrato.</p><p>Neste capítulo, o escritor define a</p><p>tipologia bíblica como “prefigu-</p><p>rações divinamente designadas (na</p><p>forma de pessoas/eventos/institu-</p><p>ições) que apontam para o seu cum-</p><p>primento antitípico em Cristo e nas</p><p>realidades do evangelho produzidas</p><p>tiPologia do santuário</p><p>Richard M. Davidson</p><p>5</p><p>Esboço do capítulo</p><p>1. Tipologia Bíblica</p><p>2. Compreendendo a tipologia do Santuário</p><p>em Apocalipse</p><p>3. Tipologia do Santuário no arranjo literário</p><p>4. Considerações finais</p><p>5. Gráficos 1-4</p><p>Tipologia do santuárioEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>114 115</p><p>por Cristo”. Uma porção significativa das Escrituras repousa sobre esta sube-</p><p>strutura tipológica do Antigo Testamento e o cumprimento neotestamentário.</p><p>O culto israelita centralizava-se nos ritos e festividades do sistema do templo-san-</p><p>tuário. Mais do que ritual, porém, o sistema em si compunha uma integrada tipologia</p><p>que prefigurava o evento Cristo e a completa realização do plano da salvação.</p><p>O Novo Testamento reconhece um triplo cumprimento de todos os tipos</p><p>do Antigo Testamento — inclusive o da instituição do santuário. Assim, a</p><p>tipologia do santuário encontra no Novo Testamento (1) um cumprimento</p><p>cristológico — em que Cristo é percebido como o verdadeiro templo (Jo 1:14;</p><p>2:21); (2) um cumprimento eclesiológico — em que a igreja é compreendida</p><p>como o templo de Deus (1Co 3:16, 17; 2Co 6:16); e (3) um cumprimento</p><p>apocalíptico — em que Cristo ministra os méritos do Seu sacrifício por nós</p><p>no antitípico santuário celestial, na presença de Deus, um ministério que</p><p>conclui com o julgamento final (Hb 8:1, 2; 9:24; Ap 3:5).</p><p>Não é de surpreender, portanto, descobrir que as visões de João das re-</p><p>alidades celestiais centralizam-se no templo-santuário celestial. O enfoque</p><p>nesse santuário como o local de toda a atividade divina redentora é parte</p><p>integrante do arranjo literário do Apocalipse. Cada uma das suas grandes</p><p>sequências visionárias (quer seja sete ou oito, os eruditos diferem quanto ao</p><p>número) se inicia com um cenário do templo-santuário celestial que afeta a</p><p>interpretação da profecia subsequente.</p><p>O Apocalipse apresenta progressões lineares e recapitulação. Embora as sequên-</p><p>cias individuais — tais como igrejas, selos e trombetas — sigam um movimento de</p><p>recapitulação (como as quatro visões de Daniel), as cenas introdutórias do templo-</p><p>santuário parecem aludir aos importantes temas do santuário de uma maneira linear.</p><p>Duas progressões têm sido identificadas: (1) temas ligados ao ciclo anual de festivi-</p><p>dades são mencionados em sua sequência normal do calendário: Páscoa/Festa dos</p><p>Pães Asmos, Pentecostes, Trombetas, Dia da Expiação e Festa dos Tabernáculos; e (2)</p><p>temas ligados ao serviço sacerdotal são também mencionados em sua sucessão natu-</p><p>ral do ministério diário (tamîd) e do ministério anual (Dia da Expiação) do juízo final.</p><p>Estas descrições da tipologia do santuário elucidam o duplo e antitípico ministério</p><p>sumo sacerdotal de Cristo no templo-santuário celestial.</p><p>Assim, a tipologia do santuário no livro de Apocalipse oferece uma</p><p>importante chave para a interpretação integral de suas mensagens para a</p><p>igreja, e especialmente no fim dos tempos.</p><p>tiPologia bíblica</p><p>Introdução</p><p>Em anos recentes, vários estudiosos têm ressaltado a importância da</p><p>tipologia para os escritores do Novo Testamento. O gráfico 1 exemplifica</p><p>algumas dessas modernas avaliações e resumos comparando as duas prin-</p><p>cipais opiniões de tipologia bíblica que têm disputado a atenção no mundo</p><p>erudito: a tradicional e a “pós-crítica”.1</p><p>Em minha tese publicada, procurei determinar a verdadeira natureza da tipo-</p><p>logia bíblica. Suas características básicas surgiram de uma análise de passagens es-</p><p>criturísticas representativas. Estas eram claramente tipológicas porque os escritores</p><p>da Bíblia empregaram os termos hermenêuticos tupos (tipo) ou antitupos (antítipo)</p><p>(DAVIDSON, 1981, v. 2). Os seguintes elementos básicos têm consistentemente</p><p>surgido desse estudo (ver DAVIDSON, 1981, v. 2; 1984, p. 16-19, 30).</p><p>Elementos básicos</p><p>Elemento histórico. O elemento histórico salienta o fato de que a tipologia</p><p>está arraigada na história. Três aspectos decisivos estão envolvidos. (1) O tipo</p><p>e o antítipo são realidades históricas cuja historicidade é assumida e é essencial</p><p>para o argumento tipológico. Por exemplo, personagens históricas (Adão e out-</p><p>ros), eventos (Êxodo, Dilúvio) ou instituições (santuário) são usados como pre-</p><p>figurações. (2) Seus antítipos no Novo Testamento são igualmente realidades</p><p>históricas. Há uma correspondência histórica entre tipo e antítipo que vai além</p><p>de situações paralelas gerais para detalhes específicos correspondentes. (3) Há</p><p>uma escalada ou intensificação do tipo para o antítipo.</p><p>Elemento profético. O aspecto profético da tipologia bíblica envolve três pon-</p><p>tos essenciais: (1) O tipo do Antigo Testamento é uma apresentação antecipada ou</p><p>prefiguração do correspondente antítipo do Novo Testamento. (2) O tipo é divina-</p><p>mente designado para prefigurar o antítipo do Novo Testamento. (3) Há uma quali-</p><p>dade de dever-necessidade acerca do tipo do Antigo Testamento, dando-lhe a força</p><p>de um prenúncio preditivo do cumprimento no Novo Testamento. Por exemplo,</p><p>Adão é visto como um tipo dAquele “que havia de vir” (Rm 5:14).</p><p>Elemento escatológico (do fim dos tempos). Este elemento da tipologia</p><p>esclarece ainda mais a natureza da correspondência e intensificação profética</p><p>1 Para discussão mais detalhada do material deste gráfico (com referências bibliográficas para</p><p>citações), veja Richard M. Davidson (2009, p. 125-128).</p><p>Tipologia do santuárioEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>116 117</p><p>entre tipo e antítipo. As realidades do Antigo Testamento não estão apenas li-</p><p>gadas a quaisquer realidades semelhantes, mas a um cumprimento do fim dos</p><p>tempos. Três possíveis espécies de cumprimento escatológico podem ser vistas</p><p>sob este tópico: (1) inaugurado, ligado ao primeiro advento de Cristo; (2) apro-</p><p>priado, focalizando a igreja enquanto ela vive em tensão entre o “já” e o “ainda</p><p>não”; e (3) consumado, vinculado à apocalíptica segunda vinda de Cristo.</p><p>Elemento cristológico-soteriológico (centralizado em Cristo e na salvação).</p><p>Este aspecto da tipologia salienta seu foco e ênfase essenciais. Os tipos do Antigo</p><p>Testamento não são meramente realidades “nuas”, mas realidades de salvação. Eles</p><p>encontram seu cumprimento na pessoa e obra de Cristo e/ou nas realidades do</p><p>evangelho trazidas por Cristo, o qual é, portanto, o ponto de orientação final dos</p><p>tipos do Antigo Testamento e suas realizações no Novo Testamento.</p><p>Elemento eclesiológico (relacionado com a igreja). Esta característica da</p><p>tipologia bíblica aponta para três possíveis aspectos da igreja que podem estar</p><p>envolvidos no cumprimento tipológico: os adoradores individuais, a comuni-</p><p>dade corporativa e/ou as ordenanças (batismo e Ceia do Senhor).</p><p>Reunindo tudo isto, podemos definir tipologia bíblica como um estudo</p><p>neotestamentário das realidades históricas da salvação do Antigo Testamento,</p><p>ou tipos (pessoas, eventos, instituições), que Deus designou para corresponder</p><p>e prefigurar profeticamente seus intensificados aspectos de cumprimento an-</p><p>titípico (inaugurado, apropriado, consumado) na história da salvação do Novo</p><p>Testamento. Em resumo, o ponto de vista tradicional de tipologia, não a posição</p><p>pós-crítica, é confirmado pelos dados das Escrituras (veja gráfico 1).</p><p>Estes cinco elementos básicos da tipologia reforçam toda a extensão de</p><p>referências e alusões ao santuário no livro de Apocalipse, indicando assim a</p><p>natureza tipológica deste material.2 Um olhar mais atento para as implicações</p><p>extraídas dos elementos característicos da tipologia bíblica ajuda a esclarecer a</p><p>natureza da tipologia do santuário no Apocalipse.</p><p>comPreendendo a tiPologia do santuário no aPocaliPse</p><p>Implicações do elemento histórico</p><p>O elemento histórico da tipologia bíblica é decisivo, porque enfatiza a reali-</p><p>dade literal e espaço-temporal do santuário celestial conforme descrito no livro de</p><p>2 Isto se tornará evidente ao prosseguirmos examinando o material do santuário no Apocalipse.</p><p>Apocalipse. Em toda a tipologia bíblica, tanto horizontal quanto vertical, a realidade</p><p>histórica do tipo e do antítipo são indispensáveis para o argumento tipológico.</p><p>A veracidade da continuidade histórica entre tipo e antítipo é dupla-</p><p>mente enfatizada na tipologia do santuário. O santuário celestial não é so-</p><p>mente o cumprimento antitípico neotestamentário do santuário terrestre</p><p>do Antigo Testamento, mas é também o protótipo original e preexistente, se-</p><p>gundo o qual é modelado o santuário terrestre.</p><p>Nas primeiras instruções concernentes à construção do santuário terrestre</p><p>está implícito que a realidade do terrestre é derivada da realidade do celestial.</p><p>Êxodo 25:40 (cf. Hb 5:8) é a passagem fundamental afirmando a continuidade</p><p>básica entre os santuários terrestre e celestial.3 O que está implícito em Êxodo</p><p>25 torna-se explícito através do restante do Antigo Testamento.</p><p>Passagens dos gêneros cultual, narrativo, poético/sapiencial, profético e</p><p>apocalíptico concorrem para designar a realidade espaço-temporal do san-</p><p>tuário celestial (ver DAVIDSON, 1976; 1981, v. 2, p. 382-383; SHEA, 2007, p.</p><p>5-8; ANDREASEN, 1981, p. 67-86). Cenas da assembleia divina, da liturgia ce-</p><p>leste, da corte celestial em sessão4 convergem em atribuir realidade literal a um</p><p>lugar no Céu conhecido como santuário ou templo celestial. Fortalecendo estas</p><p>surpreendentemente numerosas referências ao santuário celestial está a con-</p><p>sistente cosmovisão bíblica que se recusa a dicotomizar a realidade em literal/</p><p>terrestre por um lado e não literal/celestial por outro.</p><p>Por todo o Novo Testamento é mantida esta mesma cosmovisão bíblica.</p><p>A despeito de algumas afirmações contrárias, a evidência é persuasiva de</p><p>que o autor de Hebreus rejeita a alegorização dualista e filônica do mundo</p><p>celestial a favor de um santuário celestial e liturgia reais. Como o expressa</p><p>William Johnsson, “sua preocupação [do autor de Hebreus] em todo o ser-</p><p>mão é estabelecer a confiança cristã em fatos objetivos[...]. Divindade real,</p><p>humanidade real, sacerdócio real — e podemos acrescentar, um ministério</p><p>real em um santuário real” (JOHNSSON, 1979, p. 91, grifo nosso).</p><p>É nesta mesma trajetória bíblica que devemos colocar o livro de Apocalipse.</p><p>Não se pode desmistificar a realidade do santuário celestial, descartando-o</p><p>como imagem dentro de um mundo simbólico da literatura apocalíptica. As</p><p>3 Veja minha exegese de Êxodo 25:40 para prova deste detalhe (DAVIDSON, 1981, v. 2, p. 336-388).</p><p>4 Sobre o concílio ou assembleia divina, veja E. C. Kingsbury (1964, p. 279-86), Whybray (1971) e</p><p>Andreasen (1981, p. 77-78). Sobre a correspondência entre a liturgia do templo terrestre e celestial, veja</p><p>esp. J. C. Matthews (1902, p. 65-80), Richard Preuss (1958, p. 181-84) e Hans Strauss (1970, p. 91-102).</p><p>Sobre o tribunal celestial em sessão, veja Arthur Ferch (1989, p. 157-76) e William Shea (2011).</p><p>Tipologia do santuárioEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>118 119</p><p>passagens de controle do Antigo Testamento, que claramente formam o pano</p><p>de fundo para as descrições do santuário em Apocalipse, em todo o seu múlti-</p><p>plo testemunho de diferentes escritores usando gêneros diferentes (inclusive o</p><p>apocalíptico), harmoniosamente confirmam a realidade objetiva do santuário</p><p>celestial. O elemento histórico e a dimensão vertical da tipologia não admitem</p><p>uma conclusão diferente no que concerne ao Apocalipse.</p><p>Devemos nos apressar em acrescentar, no entanto, que o santuário celestial</p><p>não é exatamente como o santuário terrestre. O Antigo Testamento já aponta</p><p>para uma intensificação vertical entre terrestre e celestial bem como uma in-</p><p>tensificação horizontal entre a sombra do Antigo Testamento e a substância do</p><p>Novo Testamento. Como o expressa Ellen G. White:</p><p>O esplendor sem-par do tabernáculo terrestre refletia à vista huma na as glórias</p><p>do templo celestial em que Cristo, nosso Precursor, ministra por nós perante</p><p>o trono de Deus. A morada do Rei dos reis, em que milhares de milhares o</p><p>servem, e milhões de milhões estão em pé diante dEle (Dan. 7:10), sim, aquele</p><p>templo, repleto da glória do trono eterno, onde serafins, seus resplandecentes</p><p>guardas, velam a face em adoração — não poderia encontrar na estrutura mais</p><p>magnificente que hajam erigido as mãos humanas, senão pálido reflexo de sua</p><p>imensidade e glória (WHITE, 2005, p. 414).</p><p>Mas a diferença entre o santuário</p><p>terrestre e o celestial não é que o celestial</p><p>seja menos literal, menos real, como nossa overdose ocidental de dualismo grego</p><p>poderia levar-nos insuspeitamente a supor. Talvez C. S. Lewis aponte o caminho em</p><p>torno de um antídoto para esta equação de celestial com não literal. Em seu livro</p><p>The Great Divorce, ele eficientemente comunica a mensagem de que as realidades</p><p>celestiais não são menos, porém mais reais (LEWIS, 2010).</p><p>Segundo o testemunho de João, o santuário celestial não é uma metáfora para</p><p>o Céu, mas um lugar no Céu (Ap 11:19; 14:17; 15:5). Ellen G. White, também aqui,</p><p>parece estar correta e em harmonia com o testemunho cumulativo das Escrituras</p><p>quando toma muito literalmente a visão joanina do santuário celestial:</p><p>Sendo, em visão, concedido ao apóstolo João vislumbrar o templo de Deus nos</p><p>Céus, contemplou ele, ali, “sete lâmpadas de fogo” que “diante do trono ardiam”</p><p>(Ap 4:5). Vi um anjo, “tendo um incensário de ouro; e foi-lhe dado muito in-</p><p>censo para o pôr com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro, que</p><p>está diante do trono” (Ap 8:3). Foi permitido ao profeta contemplar o primeiro</p><p>compartimento do santuário celestial; e viu ali as “sete lâmpadas de fogo”, e o “al-</p><p>tar de ouro”, representados pelo castiçal de ouro e altar de incenso, do santuário</p><p>terrestre. De novo, “abriu-se no Céu o templo de Deus” (Ap 11:19), e ele olhou</p><p>para dentro do véu interior, ao lugar santíssimo. Ali viu “a arca do seu concerto”,</p><p>representada pelo receptáculo sagrado, construído por Moisés, para guardar a</p><p>lei de Deus (WHITE, 2005, p. 414-415).</p><p>Em uma varredura rápida através do testemunho bíblico, ela resume o consist-</p><p>ente quadro bíblico: “Moisés fez o santuário terrestre segundo o modelo que lhe foi</p><p>mostrado. Paulo ensina que aquele modelo era o verdadeiro santuário que está no</p><p>Céu. E João dá testemunho de que o viu no Céu” (WHITE, 2005, p. 415).</p><p>A tese do teólogo sistemático Fernando Canale5 mostra como os grandes</p><p>sistemas teológicos do pensamento cristão tradicional (protestante, católico e</p><p>ecumênico pós-moderno) têm construído sobre o paradigma platônico da “in-</p><p>temporalidade” de Deus. Todavia, a doutrina escriturística do santuário revela</p><p>que este paradigma fundamental é uma distorção da realidade bíblica.</p><p>Segundo as Escrituras, Deus não é essencialmente incompatível com</p><p>espaço e tempo; Ele é o próprio Deus que tem habitado “desde o princípio”</p><p>(Jr 17:12) em um palácio ou templo celestial; que realmente habitava no</p><p>santuário do deserto e no Templo de Jerusalém; que, na contínua obra de</p><p>redenção, está agora empenhado em uma atividade real, histórico-temporal</p><p>em um santuário celestial real e espaço-temporal.</p><p>Assim, o santuário integra e constitui todo o fluxo da história da redenção. Ele</p><p>é o único fundamento para a teodiceia — a vindicação de Deus. E com a redenção</p><p>concluída o santuário atingirá o seu objetivo quando Deus literalmente — em es-</p><p>paço e tempo — “habitar” conosco para sempre (Ap 21:3). As implicações da apli-</p><p>cação consistente de Canale do paradigma bíblico conforme revelado na realidade</p><p>espaço-temporal do santuário são realmente profundas.</p><p>Outra parte do problema em lidar com a natureza do santuário celestial deriva</p><p>de uma incursão adicional do dualismo grego em nosso pensamento. O dualismo</p><p>grego promove uma dicotomia entre literal e simbólico. Segundo o ponto de vista</p><p>bíblico, porém, muitas realidades concretas são ao mesmo tempo literais e simbóli-</p><p>cas. Podemos ilustrar este detalhe com a tipologia do Dilúvio e o batismo em 1</p><p>Pedro 3 e a tipologia Êxodo/sacramental de 1 Coríntios 10. Tanto o tipo quanto o</p><p>antítipo destes exemplos são realidades históricas. Mas notemos o fato de que o ba-</p><p>tismo e a Ceia do Senhor (antítipos) são entidades literais, muito reais. Contudo, ao</p><p>5 Para sua crítica fundamental dos grandes sistemas teológicos vistos à luz dos dados bíblicos,</p><p>veja Fernando Canale (1983). A explicação de Canale do básico paradigma bíblico centralizado</p><p>na realidade espaço-temporal do santuário é o assunto do seu vindouro livro.</p><p>Tipologia do santuárioEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>120 121</p><p>mesmo tempo eles simbolizam ou apontam para importantes verdades espirituais</p><p>além de si mesmos. Do mesmo modo as Escrituras confirmam a realidade literal</p><p>do santuário celestial e sua liturgia, e ao mesmo tempo essas mesmas realidades</p><p>apontam além de si mesmas para supremas verdades espirituais (por exemplo, as</p><p>lâmpadas representando o Espírito Santo, Ap 4:5).</p><p>Dois perigos devem ser evitados. Podemos concentrar-nos exclusivamente</p><p>na “geografia celestial” e perder as mensagens espirituais que são comunicadas.</p><p>Mas podemos também espiritualizar a realidade espaço-temporal e por meio</p><p>disso perder a substância literal e a verdade espiritual.</p><p>Implicações do elemento profético</p><p>O elemento profético da tipologia bíblica é importante ao ressaltar a natureza</p><p>prospectiva/preditiva da tipologia do santuário. João não “reinterpretou” o san-</p><p>tuário do Antigo Testamento em um tipo de santuário celestial. Em vez disso, o</p><p>Antigo Testamento prefigurou os aspectos redentores do último.</p><p>Visto que os tipos bíblicos são divinamente designados para servir como pre-</p><p>figurações prospectivas/preditivas, alguma indicação da existência e qualidade</p><p>preditiva dos vários tipos do Antigo Testamento deve ocorrer antes do seu cum-</p><p>primento antitípico. Este aspecto da tipologia não tem sido amplamente recon-</p><p>hecido, mas tal é o modelo coerente que surge ao longo das Escrituras: os tipos</p><p>do Antigo Testamento mencionados pelos escritores do Novo Testamento já</p><p>foram identificados como tipológicos antes do cumprimento antitípico.</p><p>O gráfico 2 ilustra este modelo. A coluna do meio salienta os indicadores</p><p>verbais da tipologia do Antigo Testamento. Com respeito à tipologia do san-</p><p>tuário, note o item 2 (espaço em negrito no gráfico). As realidades do santuário</p><p>terrestre já estão indicadas como tipológicas em numerosas passagens do Anti-</p><p>go Testamento e estão em relação com as realidades celestiais. João está, portan-</p><p>to, simplesmente anunciando o cumprimento dos tipos e sombras do santuário</p><p>do Antigo Testamento que apontavam para a substância do santuário celestial e</p><p>a morte expiatória e sacerdócio de Cristo.</p><p>Implicações do elemento escatológico</p><p>O elemento escatológico (fim dos tempos) da tipologia bíblica é uma chave para</p><p>compreender como a tipologia do santuário é cumprida através do livro de Apoc-</p><p>alipse. O gráfico 3 resume a subestrutura escatológica da tipologia do Novo Testa-</p><p>mento (ver DAVIDSON, 1981, v. 2, p. 390-394; LADD, 1974; LARONDELLE, 1983).</p><p>Resumindo, podemos dizer que as profecias e tipos do reino do An-</p><p>tigo Testamento têm um cumprimento escatológico com três aspectos: (1) o</p><p>cumprimento básico das expectativas escatológicas do Antigo Testamento cen-</p><p>tralizando-se na vida terrestre e obra de Jesus Cristo em Seu primeiro advento;</p><p>(2) o derivado cumprimento espiritual pela igreja, o corpo de Cristo no tempo</p><p>de tensão entre o “já” e o “ainda não”; e (3) a consumação apocalíptica e a in-</p><p>trodução final da era vindoura no segundo advento de Cristo e além.</p><p>Esses três aspectos de cumprimento podem ser denominados respectiva-</p><p>mente escatologia inaugurada, apropriada e consumada. Ou, por conveniência,</p><p>eles podem ser designados como cristológico, eclesiológico e apocalíptico.6</p><p>Deve ser enfatizado (conforme ilustrado no gráfico 3) que a subestrutu-</p><p>ra escatológica descrita acima é sobrepujada por uma dimensão vertical-</p><p>celeste. Durante toda a história do Antigo Testamento, durante toda a “hab-</p><p>itação” de Cristo na Terra e durante toda a existência da Igreja Cristã como</p><p>o corpo de Cristo, devemos reconhecer a realidade cósmica do governo de</p><p>Deus. Há uma continuidade vertical durante toda a história da salvação; a</p><p>ligação entre o Céu e a Terra é próxima e decidida.</p><p>Ao mesmo tempo, até o ponto culminante final, há uma tensão vertical. O</p><p>homem experimenta as coisas celestiais pela fé, espiritualmente; mas ele ainda</p><p>está na Terra. Não antes da consumação apocalíptica — quando os santos forem</p><p>para o Céu no Segundo Advento, e depois do milênio quando o trono de Deus</p><p>for transportado para a Terra, e “o tabernáculo de Deus estiver com os homens”</p><p>— a tensão entre o terrestre e o celestial encontrará completa solução.</p><p>Uma importante implicação para a tipologia do santuário logicamente</p><p>se segue a partir da perspectiva escatológica que temos resumido. Esper-</p><p>aríamos que o cumprimento antitípico da tipologia do santuário do An-</p><p>tigo Testamento correspondesse a uma ou mais das três manifestações es-</p><p>catológicas neotestamentárias do reino de Deus — inaugurada, apropriada,</p><p>ou consumada. Visto que estas “manifestações do reino” são apenas difer-</p><p>entes aspectos de um reino escatológico, não seria surpreendente se o cum-</p><p>primento antitípico da tipologia do santuário do Antigo Testamento devesse</p><p>regularmente abranger todos os três aspectos.</p><p>O exemplo na parte inferior do gráfico 3 mostra ser este o caso. Cristo é</p><p>visto como o templo antitípico (Jo 1:14; 2:21; Mt 12:6). A igreja é designada</p><p>6 Conforme notado em Typology in Scripture (DAVIDSON, 1981, v. 2, p. 394): “Usamos estes</p><p>três termos com cautela, porque todos os três termos poderiam ser interpretados como se apli-</p><p>cando a todos os três aspectos. Mas tendo em vista seu óbvio ponto de ênfase, acreditamos que es-</p><p>sas distinções ‘abreviadas’ dos aspectos no cumprimento histórico-escatológico da salvação será</p><p>útil para uma discussão mais aprofundada”.</p><p>Tipologia do santuárioEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>122 123</p><p>como o templo do Espírito Santo (1Co 3:16, 17; 2Co 6:16). O templo celestial</p><p>sobrepuja todo o cumprimento do fim dos tempos e adquire destaque especial</p><p>no momento da consumação apocalíptica (Ap 3:12; 7:15; 11:19; 21:3, 22).</p><p>Implicações dos elementos Cristo/salvação/igreja</p><p>Uma vez tenhamos reconhecido a existência da subestrutura escatológi-</p><p>ca dos cumprimentos antitípicos do Novo Testamento, é importante per-</p><p>ceber os três diferentes modos de cumprimento nesta subestrutura. Estes</p><p>diferentes modos de cumprimento surgem das características da tipologia</p><p>envolvendo Cristo, salvação e a igreja.</p><p>O reino de Deus é cristocêntrico. Cristo não é o centro de forma abstrata,</p><p>mas em relação salvífica com o seu povo. O reino de Deus partilha a mesma</p><p>modalidade que a ligação de Cristo com o seu povo. Assim o cumprimento dos</p><p>tipos partilha o mesmo caráter que a natureza da presença de Cristo.</p><p>Por exemplo, no primeiro advento o reino (o governo) de Deus é literal-</p><p>mente incorporado em Jesus (Mt 12:28). Os tipos são cumpridos literal e lo-</p><p>calmente nEle. Depois da ascensão de Cristo, seu reino ou “domínio” é par-</p><p>tir do Céu e seus súditos por todo o mundo se relacionam com Ele apenas</p><p>espiritualmente, pela fé. Através do seu Espírito eles recebem as primícias, o</p><p>cumprimento parcial dos dons básicos que Ele prometeu (Rm 8:23). Assim,</p><p>a natureza do cumprimento na igreja sobre a Terra é espiritual, universal,</p><p>e parcial. Ao mesmo tempo os tipos do santuário têm um cumprimento</p><p>literal no santuário celestial, sendo que Cristo está literalmente presente ali.</p><p>Na consumação final Cristo está literalmente reunido com o seu povo, e os</p><p>tipos têm um cumprimento glorioso, final, universal, literal.7</p><p>7 Para uma sucinta apresentação desta subestrutura escatológica de uma perspectiva cristocên-</p><p>trica, veja Ellen G. White (1996, p. 15-22). Veja também LaRondelle (1979, p. 308-14), embora</p><p>todo o livro esclareça este ponto. Também deve ser notado que a aplicação dos tipos do Antigo</p><p>Testamento ao Israel espiritual poderia ter sido inteiramente diferente tivesse o Israel nacional</p><p>permanecido fiel a Deus e aceitado a Jesus como o Messias. Israel teria sido a maior nação da</p><p>Terra (Dt 28:1, 13; WHITE, 2000, 288), em prosperidade (Dt 28:3, 11-13), intelecto (4:6-7), saúde</p><p>(7:13, 15), e espiritualidade (28:9). Isto teria sido um testemunho para outras nações (Dt 28:10;</p><p>WHITE, 2000, p. 232; Is 43:10); Jerusalém tria sido o centro missionário para a espiritualmente</p><p>dinâmica nação judaica. Outras nações se uniriam a Israel (Zc 8:21-23) até que o reino de Israel</p><p>abrangesse o mundo Is 27:6; 54:3; WHITE, 2000, p. 290). O templo de Jerusalém teria permane-</p><p>cido para sempre (Jr 7:7; WHITE, 2000, p. 19). Em seguida a uma rebelião final de insurgentes</p><p>(Zc 12:2-9) e sua destruição (14:12, 13), o Senhor seria rei sobre toda a Terra, e todos seriam</p><p>seguidores do Senhor (Zc 14:3, 8, 9, 13, 16; Jr 31:34 etc.). Cristo ainda teria morrido como o</p><p>homem representativo e o israelita representativo, mas o cumprimento dos tipos com o povo</p><p>Uma chave importante para a interpretação</p><p>Esses critérios hermenêuticos para os diferentes modos de cumprimento</p><p>na tipologia do santuário nos ajudam a conciliar adequadamente nossa con-</p><p>clusão anterior a respeito de um real e literal santuário celeste com várias</p><p>alusões aparentemente figurativas/espirituais ao santuário. Observe o seguinte:</p><p>os sete castiçais que representam as sete igrejas (Ap 1:12, 20), as almas debaixo</p><p>do altar do holocausto clamando por vingança (Ap 6:10-11) e o “átrio exterior</p><p>do santuário” dado às nações (Ap 11:2). Estas referências militam contra uma</p><p>compreensão literal das cenas do santuário celeste no restante do livro? Ao con-</p><p>trário! Uma compreensão da subestrutura escatológica da tipologia do Novo</p><p>Testamento fornece uma explicação para desvendar o uso consistente e coer-</p><p>ente da tipologia do santuário encontrada no Apocalipse.</p><p>Notamos (veja gráfico 3, coluna do meio que na era da igreja os antítipos terres-</p><p>tres do reino espiritual da graça encontram um cumprimento espiritual (não literal),</p><p>parcial (não final) e universal (não geográfico/étnico), sendo que eles estão espirit-</p><p>ualmente (mas não literalmente) relacionados com Cristo no Céu. Assim, devemos</p><p>esperar que quando a imagem do santuário/templo no Apocalipse é aplicada a um</p><p>ambiente terrestre na era da igreja, haverá uma interpretação espiritual e não literal,</p><p>sendo que o templo é espiritual aqui na Terra.</p><p>Em harmonia com este princípio hermenêutico, os castiçais antitípicos na Terra</p><p>em Apocalipse 1 não são literais, mas espirituais. A igreja que vive entre “o já e o</p><p>ainda não” é retratada em outros textos das Escrituras como o templo antitípico</p><p>eclesiológico. O Apocalipse é consistente com isto na utilização da terminologia</p><p>dos castiçais do santuário para aplicar ao corpo espiritual da igreja terrestre. Jesus</p><p>(através do Espírito) está espiritualmente presente na igreja na Terra.</p><p>Mas em Apocalipse 4:1 a cena muda para o Céu, e João é convidado: “Sobe</p><p>para aqui, e te mostrarei o que deve acontecer depois destas coisas.” Então</p><p>se segue a cena no santuário celestial, onde Cristo reina como rei-sacerdote.</p><p>Como temos visto, durante a era da igreja, o reino espiritual terrestre é sobrepu-</p><p>jado pelo reinado literal de Cristo no Céu. Consistente com esta perspectiva</p><p>do Novo Testamento, a tipologia do santuário de Apocalipse, quando focaliza</p><p>o santuário celestial, participa da mesma modalidade que a presença de Cristo,</p><p>isto é, um cumprimento antitípico literal.</p><p>de Deus teria sido dentro do Israel nacional de um modo geográfico, literal. Mas sendo que o</p><p>Israel nacional rejeitou o Messias e separou-se da teocracia, todas as promessas da aliança serão</p><p>cumpridas com o “Israel espiritual” (WHITE, 2007, p. 714). Para um resumo detalhado do plano</p><p>original de Deus para Israel, veja Nichol (1976, v. 4, p. 25-38).</p><p>Tipologia do santuárioEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>124 125</p><p>Logo consideraremos estas cenas do santuário celestial. Mas aqui notamos</p><p>que no meio das cenas do santuário celestial em Apocalipse, há breves mu-</p><p>danças para alusões ao santuário terrestre. Por exemplo, em Apocalipse 6:9-11</p><p>encontramos menção do altar (do holocausto).8 Sendo que esse altar estava no</p><p>pátio exterior do santuário terrestre, e sendo que de acordo com Apocalipse</p><p>11:1-2 o átrio exterior simboliza coisas terrestres</p><p>e não celestiais, devemos in-</p><p>terpretar isto como uma mudança para a esfera terrestre.9 Em harmonia com</p><p>o aspecto eclesiológico do cumprimento tipológico, devemos interpretar estas</p><p>referências terrestres de uma maneira espiritual, não literal.</p><p>A cena de “almas debaixo do altar” clamando por vingança alude ao sangue</p><p>(isto é, “a vida”, Lv 17:11) dos sacrifícios do santuário derramado à base do altar</p><p>(Lv 4:7). O simbolismo ecoa uma referência ao sangue Abel clamando a de Deus</p><p>da terra (Gn 4:10; ver Hb 12:24). João torna esta conexão entre o martírio dos</p><p>santos e o derramamento do sangue do sacrifício mais explícita em Apocalipse</p><p>16:6, em que é dito ter os ímpios “derramado” (екcheō) o sangue dos santos e</p><p>dos profetas. Assim, não um altar literal, não “almas” literais debaixo do altar,</p><p>estão à vista, mas antes um cumprimento eclesiológico nos santos e profetas</p><p>martirizados cujo sangue clama espiritualmente pela vindicação de Deus.</p><p>Igualmente, não um “átrio” literal está em vista no cenário terrestre de</p><p>Apocalipse 11:2, mas um “calcar aos pés” ou perseguição da “cidade santa”</p><p>terrestre/espiritual, os santos, pelos “gentios”, os inimigos espirituais de</p><p>Deus, por 42 meses proféticos.</p><p>Ao chegarmos às cenas finais do Apocalipse, o cumprimento apocalíptico da</p><p>tipologia do santuário resolve a tensão entre terrestre e celestial. Na era da igreja, o</p><p>Israel espiritual está espiritualmente reunido na Jerusalém celestial sobre o monte</p><p>Sião (Hb 12:22-24). Mas quando “o tabernáculo de Deus estiver com os homens”</p><p>(Ap 21:3 , o Israel de Deus de todos os séculos terá sido literalmente reunido à sua</p><p>Nova Jerusalém. Depois de mil anos literais,10 a Jerusalém celestial descerá literal-</p><p>8 Para evidência de que este é o altar de holocaustos, e não o altar de ouro, veja Jon Paulien (1988, v.</p><p>11, p. 315-318).</p><p>9 Veja Hebreus 13:10 (e subentendido em Hb 8:1-5) para colocação do altar na Terra, cristologica-</p><p>mente cumprido na cruz. O cumprimento eclesiológico em conexão com os mártires cristãos que</p><p>seguiram os passos de Jesus seria uma extensão natural da tipologia. Veja também Paulien (1988, v.</p><p>11, 316), para comprovação do detalhe adicional de que “a apocalíptica judaica leva em conta apenas</p><p>um altar no Céu (excluindo o altar de holocausto que ficava no pátio exterior do santuário israelita).”</p><p>10 A tríplice subestrutura da tipologia do Novo Testamento também esclarece quanto a</p><p>interpretar os períodos de tempo do Apocalipse simbólica ou literalmente. Antes do Seg-</p><p>undo Advento, enquanto Cristo está apenas espiritualmente relacionado com o seu povo, as</p><p>mente para a Terra. Em seguida ao juízo final e à purificação da Terra pelo fogo, o</p><p>átrio (uma Terra recriada segundo o modelo do Éden) estará unido ao seu centro, o</p><p>literal tabernáculo de Deus, em uma Nova Jerusalém literal.</p><p>Com estas considerações hermenêuticas gerais da natureza da tipologia do</p><p>santuário em mente, voltemos agora mais diretamente para a função da tipolo-</p><p>gia do santuário no fluxo estruturado do livro de Apocalipse.</p><p>tiPologia do santuário no arranjo literário</p><p>A análise literária do Apocalipse por Kenneth Strand tem demonstrado</p><p>o arranjo básico literário quiástico do livro (ver STRAND, 1979, p. 43-52). C.</p><p>Mervyn Maxwell segue em geral o mesmo esboço quiástico, com ideias adicio-</p><p>nais sobre certos detalhes (MAXWELL, 1985, p. 54-62). Estas análises revelam</p><p>as metades pares do livro: histórica (Ap 1–14) e escatológica (Ap 15–22), bem</p><p>como a correlação quiástica de suas correspondentes subseções.</p><p>Cenas introdutórias do santuário</p><p>Dentro deste arranjo geral do Apocalipse ocorrem muitas das imagens do san-</p><p>tuário nas cenas que introduzem as várias sequências de visões. Recentes estudos</p><p>têm indicado o significado decisivo dessas cenas do santuário. Maxwell afirma cor-</p><p>retamente que “o santuário celestial é um eixo central da mensagem do Apocalipse”,</p><p>e que as “cenas do santuário são pontos de referência que nos guiam ao significado</p><p>do Apocalipse” (MAXWELL, 1985, p. 164). Strand mostra como o Apocalipse está</p><p>dividido em uma série de sequências visionárias e como cada uma das visões se ini-</p><p>cia com uma cena introdutória do santuário (STRAND, 1987a, p. 107-121; 1987b, p.</p><p>267-288).11 Assim, todo o livro está estruturado pela tipologia do santuário.</p><p>Alusões ao ministério no primeiro compartimento. Talvez a descoberta</p><p>mais significativa nestes recentes estudos seja a demonstração de como as cenas</p><p>introdutórias do santuário destacam a progressão da história da redenção den-</p><p>tro do livro de Apocalipse. As primeiras três cenas do santuário (Ap 1:12-20;</p><p>referências ao tempo são espirituais (isto é, tempo profético, usando-se o princípio dia-ano).</p><p>Mas depois que os santos estiverem literalmente reunidos a Cristo na Parousia, então as</p><p>referências ao tempo pertencerão àquela mesma modalidade. Assim, o milênio é um período</p><p>de mil anos literais, e o simbólico princípio dia-ano não mais se aplica.</p><p>11 Maxwell (1985, p. 164) chega a conclusões similares com respeito às primeiras cinco cenas do</p><p>santuário. Jon Paulien, no capítulo 10 deste volume, reduz as oito cenas de Strand a sete, elimi-</p><p>nando a sexta cena de Strand (16:18–18:24) que tem uma voz do templo mas não uma real cena</p><p>do santuário. O esquema das sete cenas é seguido aqui.</p><p>Tipologia do santuárioEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>126 127</p><p>4–5; 8:2-5) centralizam-se, ou se relacionam com o lugar santo do santuário.</p><p>Assim, elas servem para situar o ambiente temporal das cenas dentro do tempo</p><p>do ministério diário (tamîd) de Cristo no lugar santo.</p><p>A primeira cena (1:12-20) está na Terra, e não no santuário celestial. Em</p><p>nenhuma outra parte do livro se encontra tão concentrada ênfase na morte</p><p>terrestre e ressurreição de Cristo. Ao mesmo tempo, a menção explícita dos</p><p>sete castiçais lembra o candelabro de sete braços ardendo continuamente</p><p>(tamîd) no lugar santo do santuário.</p><p>A segunda cena (4:1–514) se muda explicitamente para o santuário celestial</p><p>(cf. 4:1). Jon Paulien (nos capítulos 10 e 11) mostra como a mistura completa</p><p>de imagens de todo o santuário, mas sem a linguagem do juízo, aponta para um</p><p>cenário de investidura (MAXWELL, 1991, p. 147-148). Cristo, não presente em</p><p>Apocalipse 4, está em Apocalipse 5 instalado em sua contínua (tamîd) obra no</p><p>lugar santo12 do santuário celestial como resultado de sua vitória na cruz.</p><p>A terceira cena do santuário (8:2-5) revela que o foco básico do con-</p><p>tínuo (tamîd) ministério de Cristo é intercessão. A referência à oferta de</p><p>incenso no altar de ouro indica claramente um ministério intercessório</p><p>diário (tamîd) no lugar santo (PAULIEN, 1990, p. 9).13</p><p>Ritual diário no Segundo Templo. O ambiente diário (tamîd) de Apocalipse</p><p>1–8 é ainda mais confirmado quando estes capítulos são comparados com a</p><p>ordem dos rituais diários no Segundo Templo do século em que João escreveu.</p><p>Estudos recentes têm exposto os impressionantes paralelos entre a ordem de</p><p>alusões ao santuário em Apocalipse 1–8 e a descrição dos rituais diários (tamîd)</p><p>descritos na Mishnah.14 Resumimos a seguir:</p><p>12 Embora haja uma completa mistura de imagens do santuário em Apocalipse 4–5 visto que todo o</p><p>santuário está envolvido na investidura, todavia o foco primário da cena de intronização/investidura</p><p>em Ap 4–5 parece ser o lugar santo (ver STRAND, no cap. 3 deste volume; e WHITE, 2005, p. 414-15).</p><p>13 A nota 32 fornece evidência de que esta cena no altar de incenso é uma parte do ministério</p><p>diário (tamîd) no lugar santo, e não o ministério anual do Dia da Expiação (Yoma). Na cena de Ap</p><p>8:2-6, (1) o altar de incenso é central como no tamîd, não ultrapassado como no Yoma (Mishnah</p><p>Tamîd 6.2, 3; ver m. Yoma 5.1); (2) o sacerdote oficiante recebe o incenso, como no tamîd, e não</p><p>reúne o seu próprio, como no Yoma (m. Tamîd 6.2, 3; ver Yoma 5.1); e (3) o incenso é oferecido no</p><p>altar de ouro, como no tamîd, não na Arca, como no Yoma (m. Tamîd 6.3, ver Yoma 5.5).</p><p>14 Para a descrição básica da ordem de serviços diários nos tempos do segundo</p><p>Templo, veja</p><p>o tratado Tamîd na Mishnah judaica. Paulien (no cap. 10 deste volume; 1993, p. 12-13), resume</p><p>os paralelos. D. T. Niles (1961, p. 112-14), observa a conexão entre Ap 1–8 e o tratado Tamîd da</p><p>Mishnah, mas como Paulien observa corretamente, Niles tenta sem sucesso continuar os parale-</p><p>los do tamîd ao longo do restante do Apocalipse. Um olhar cuidadoso para a evidência revela que</p><p>a liturgia do tamîd fornece paralelos estruturais somente até Apocalipse 8.</p><p>1. Limpeza do candelabro (m. Tamîd 3.9; cf. Ap 1;12-20).</p><p>2. Abrir a grande porta (m. Tamîd 3.7; cf. Ap 4:1).</p><p>3. Cordeiro imolado (m. Tamîd 3.7; 4.1-3; 4:1-3, cf. Ap 5:6).</p><p>4. Sangue derramado à base do altar de bronze (m. Tamîd 4:1; cf. Ap 6:9).</p><p>5. Incenso oferecido no altar de ouro (m. Tamîd 5.4; cf. Ap 8:3, 4).</p><p>6. Pausa no cântico (m. Tamîd 7:3; Ap 8:1).</p><p>7. Toque de trombetas para assinalar a conclusão do sacrifício (m. Tamîd</p><p>7:3; ver 8:2-6).</p><p>Conclui Paulien (1993, p. 13): “Não somente esta porção do Apocalipse</p><p>contém todos os grandes detalhes da liturgia do tamîd, mas alude a eles em</p><p>essencialmente a mesma ordem. Assim o material que constitui os septetos das</p><p>igrejas, selos e trombetas está sutilmente associado com as atividades no tem-</p><p>plo relacionadas ao serviço contínuo ou tamîd.”</p><p>Alusões ao ministério no segundo compartimento. Em contraste com o</p><p>foco sobre o serviço diário na primeira parte do livro, Apocalipse 11 muda a ên-</p><p>fase para a liturgia anual do Dia da Expiação. O tema do Yom Kippur é mantido</p><p>através da última porção do livro até o capítulo 20.15</p><p>Strand (1984, p. 317-325) mostra como a medição do templo, do altar</p><p>e adoradores (Ap 11:1) tem sua mais completa temática e analogia sequen-</p><p>cial na descrição dos rituais do Dia da Expiação (Lv 16).16 Isto vem ime-</p><p>diatamente após o término do tempo profético de Daniel em Apocalipse</p><p>10:5-6 (ver Dn 12:7) (Ver SHEA, cap. 13 desse volume).</p><p>A quarta cena do santuário (Ap 11:19) retrata explicitamente a abertura do</p><p>“templo interior” (naos) ou Lugar Santíssimo e focaliza a arca da aliança. O con-</p><p>texto do juízo imediato desta cena (ver 11:18) apoia o cenário do Dia da Expi-</p><p>ação, e também o contexto mais amplo aponta nesta direção.</p><p>Recentes estudos têm demonstrado como o livro de Apocalipse frequente-</p><p>mente segue a estrutura básica e a descrição detalhada de Ezequiel (ver VAN-</p><p>HOYE, 1962, p. 436-476; VOGELSANG, 1985; LUST, 1980, p. 179-183), e o mod-</p><p>elo de Ezequiel é decisivo em Apocalipse 10–11. É dado a Ezequiel um rolo para</p><p>comer (Ez 2:9–3:3) e então ele é imediatamente chamado para dar uma men-</p><p>sagem de um juízo investigativo do Lugar Santíssimo do santuário (3:4–8:18) (ver</p><p>SHEA, 1989, 283-291; DAVIDSON, 1987, p. 12-14; 1991, p. 97-100). De modo</p><p>15 Isto será discutido com mais detalhes na seção deste capítulo que trata do “Ciclo anual</p><p>de festividades” em Apocalipse.</p><p>16 Observe especialmente como o “medir” de Ap 11:1 e a “expiação/purificação” de Lv 16</p><p>abrange os mesmos aspectos do santuário na mesma ordem (templo, altar e adoradores).</p><p>Tipologia do santuárioEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>128 129</p><p>semelhante é ordenado a João que coma um rolo (Ap 10:8-11) e então é imediata-</p><p>mente dada uma mensagem para medir o templo, o altar e adoradores (Ap 11:1-</p><p>2), com um foco sobre o Lugar Santíssimo do santuário celestial (11:19).</p><p>A quinta cena do santuário (15:5-8) assinala o fechamento ou “desinaugu-</p><p>ração” do santuário. Ele está cheio da fumaça procedente da glória de Deus, e</p><p>ninguém pode entrar: terminou a provação ou o tempo da graça. Seguem as</p><p>sete últimas pragas, a ira de Deus sem mistura de misericórdia (16:1-21).</p><p>A sexta cena do santuário (19:1-10) descreve a adoração no santuário —</p><p>louvor a Deus por seus justos juízos — mas não há nenhuma menção explícita</p><p>do santuário. A função salvífica do santuário deu lugar à doxologia.</p><p>A cena final do santuário (21:1–22:5) retorna à Terra. Agora a tensão</p><p>entre o celestial e o terrestre é desmoronada: “o tabernáculo [skēnē] de</p><p>Deus está com os homens” (Ap 21:3).</p><p>Assim, as cenas introdutórias do santuário estruturam o livro de Apoc-</p><p>alipse e provêem as chaves para determinar a progressão do livro. O fluxo</p><p>espaço-temporal das cenas do santuário da Terra para o Céu e de volta para</p><p>a Terra, e do ministério diário para o anual até a cessação de todas as fun-</p><p>ções de salvação, pode ser resumido como segue:</p><p>1:12-20</p><p>4–5</p><p>8:3-5</p><p>11:19</p><p>15:5-8</p><p>19:1-10</p><p>21:1—22:5</p><p>(1)</p><p>(2)</p><p>(3)</p><p>(4)</p><p>(5)</p><p>(6)</p><p>(7)</p><p>Terra | Focaliza a obra terrestre de Cristo</p><p>(combinada com imagens do lugar santo)</p><p>Inauguração do santuário celestial | (completa mistura</p><p>de imagens do santuário, mas focaliza o lugar santo)</p><p>Intercessão no santuário celestial | (Lugar santo)</p><p>Juízo no santuário celestial | (Lugar Santíssimo)</p><p>Cessação do ministério no santuário celestial</p><p>Doxologia no Céu | (ausência de explícitas imagens</p><p>do santuário)</p><p>De volta à Terra | “Tabernáculo de Deus está com</p><p>os homens.”</p><p>Na metade histórica do Apocalipse, as cenas introdutórias do san-</p><p>tuário naturalmente fluem da morte e ressurreição de Cristo (Ap 1:5, 17,</p><p>18; cf. 5:6, 9, 12) para a inauguração do ministério de Cristo no santuário</p><p>feita possível por sua morte e ressurreição (Ap 5), para o seu ministério</p><p>intercessório em seguida à sua investidura (Ap 8:3, 4), e prosseguindo até</p><p>à obra do juízo no final dos tempos (Ap 11:18, 19).</p><p>Fluxo linear/sequências de recapitulação. Esta lógica progressão tempo-</p><p>ral das cenas do santuário — cruz, investidura, intercessão, juízo — não implica,</p><p>porém, que a primeira metade do Apocalipse prossegue cronologicamente verso</p><p>por verso. Juntamente com o plano linear básico destacado pelas cenas introdu-</p><p>tórias do santuário, encontra-se o esquema de recapitulação semelhante às visões</p><p>de Daniel (Dn 2, 7, 8). Uma progressão histórica segue cada cena introdutória do</p><p>santuário e se move ao longo da Era Cristã para terminar em um refletor sobre</p><p>os últimos eventos e uma descrição do glorioso clímax (STRAND, 1979, p. 48).17</p><p>Assim a estrutura geral do Apocalipse é ao mesmo tempo linear e recapitulatória,</p><p>como uma “espiral cônica” (FIORENZA, 1985, p. 171), ou melhor, como uma</p><p>“escala musical, que evolui continuamente em uma direção linear ao rever os tons</p><p>anteriores em vibrações cada vez mais ricas” (PAULIEN, 1990, p. 20).</p><p>Relações temáticas entre introduções e mensagens do santuário. As cenas in-</p><p>trodutórias do santuário não somente estruturam o livro de Apocalipse e demonstram</p><p>sua progressão espaço-temporal, mas também servem para realçar a mensagem das</p><p>principais seções que elas introduzem (MAXWELL, 1991, p. 164-166).18</p><p>Antes de ser dada a João a mensagem para as sete igrejas, ele vê a Cristo</p><p>vestido como sacerdote, caminhando entre os sete castiçais (as sete igrejas, Ap</p><p>1:20). Cristo, o sumo sacerdote antitípico, está supervisionando as lâmpadas do</p><p>santuário. Ele está desempenhando sua responsabilidade tamîd (contínua ou</p><p>diária) de manter as lâmpadas ardendo brilhante e continuamente.</p><p>Os detalhes simbólicos empregados para descrever o Cristo sacerdotal</p><p>em Apocalipse 1:10-20 são enfatizados em Apocalipse 2 e 3 ao serem apli-</p><p>cados à situação de cada igreja individual. Por meio disso é revelada uma</p><p>íntima ligação entre o Sacerdote celestial e suas mensagens às sete igrejas.</p><p>A conexão significa segurança e conforto. Cristo está no meio dos castiçais</p><p>(1:12), caminhando entre eles (2:1). Ele conhece sua condição e cuida. Mas</p><p>há também advertência: Cristo anuncia as maldições da aliança contra as</p><p>igrejas se elas continuarem na desobediência.</p><p>Mudando para os sete selos, Kenneth Strand mostracomo eles “representam os</p><p>passos ou meios pelos quais Deus através de Cristo prepara o caminho na história</p><p>17 Strand esquematiza o quádruplo modelo básico de (1) visão vitoriosa do santuário; (2) pro-</p><p>gressão histórica; (3) focalização dos últimos eventos; e (4) clímax glorioso como aparece nas ce-</p><p>nas dos selos (Ap 4:1–8:1), trombetas (Ap 8:2–11:18), e as forças competidoras (Ap 11:19–14:20).</p><p>Veja também os capitulos</p><p>2 e 3 deste volume.</p><p>18 É proveitoso em salientar a íntima relação entre as cenas do santuário e as seções que as</p><p>seguem no Apocalipse.</p><p>Tipologia do santuárioEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>130 131</p><p>para a abertura e leitura do grande livro do destino no juízo na consumação es-</p><p>catológica” (STRAND, 1979, p. 57). Strand (1979, p. 57) intitula esta seção “Deus</p><p>trabalha para a salvação do homem”. Ela é apropriadamente introduzida em uma</p><p>cena do santuário celestial revelando Deus em seu trono (Ap 4) tendo a Cristo em</p><p>sua presença realmente qualificado para desatar os selos e abrir o livro (Ap 5).</p><p>A despeito das provas e tribulação do povo de Deus e a aparente demora</p><p>divina na vindicação dos perseguidos e martirizados (6:9, 10), segundo Apoc-</p><p>alipse 4, Deus está no controle. Como em Salmo 2:4 e Habacuque 2:20, o Senhor</p><p>Deus todo-poderoso, o Criador, se assenta serenamente em seu trono, Aquele</p><p>que era, que é e que há de vir para pôr as coisas em ordem. Além disso, segundo</p><p>Apocalipse 5, “o título de propriedade, por assim dizer, da perdida herança do</p><p>homem [...] foi readquirido por Cristo, o Cordeiro” (STRAND, 1979, p. 55). O</p><p>Cordeiro pascal foi morto e pelo seu sangue Ele resgatou o homem para Deus.</p><p>Ele digno, portanto, de tomar o livro e desatar os selos: estará presente com o</p><p>seu povo e trabalhando por ele durante o tempo de sua aflição.</p><p>A estreita relação temática entre a cena introdutória do santuário e sua men-</p><p>sagem que vem a seguir é encontrada também na terceira grande seção do livro.</p><p>Na introdução à série de trombetas (Ap 8:2-6) o anjo-mediador mistura incen-</p><p>so com as orações dos santos sobre o altar de ouro no santuário celestial, uma</p><p>descrição da “contínua mediação de Cristo no santuário celestial”.19</p><p>Segundo a análise de Jon Paulien (1988, p. 311-323) desta passagem e sua</p><p>relação com o quinto selo (Ap 6:9-11), as ”orações dos santos” se referem par-</p><p>ticularmente às orações imprecatórias dos santos perseguidos e martirizados</p><p>(recebidas pelo anjo ministrador do terrestre “altar de holocausto” e então min-</p><p>istradas em um contexto celestial no altar de ouro do santuário celestial).</p><p>O incenso (um símbolo dos méritos de Cristo) torna essas orações aceitáveis,</p><p>e “as sete trombetas são a resposta de Deus às orações dos santos por vingança</p><p>sobre aqueles que os têm perseguido e martirizado” (PAULIEN, 1988, p. 320).</p><p>Na tipologia do santuário celestial, o altar de ouro e o incenso, as fontes de me-</p><p>diação no tipo terrestre, se fundem com uma descrição do juízo que cai sobre</p><p>os rejeitadores da mediação celestial. O incensário é cheio de fogo e atirado à</p><p>Terra, em harmonia com a descrição do juízo executivo divino procedente do</p><p>santuário em Ezequiel 10:1-6 e reminiscente da experiência de Nadabe e Abiú</p><p>(Lv 10:1-3) (ver PAULIEN, 1988, p. 320-322). Como o expressa Paulien (1988, p.</p><p>322) “o incensário de oração e o incensário de juízo têm se tornado um”.</p><p>19 Paulien (1988, p. 312-13) apresenta várias linhas de evidência que apoiam a equação de Cristo</p><p>com o anjo ou ao menos indicam que o incenso é dado por Cristo.</p><p>Na quarta seção do Apocalipse, a cena introdutória em Apocalipse 11:19</p><p>aponta claramente para o Lugar Santíssimo do santuário celestial, e em par-</p><p>ticular para a celestial arca da aliança que ali se encontra. A atenção é assim</p><p>chamada para a lei de Deus (contida na arca) como a base do juízo (o Dia da</p><p>Expiação) e para o propiciatório como a fonte de certeza ou confiança no juízo.</p><p>Estes temas são então desenvolvidos ao longo da seção. É proclamado o anúncio</p><p>do juízo do fim dos tempos (14:6, 7), e as marcas do povo de Deus são enfatiza-</p><p>das como a guarda dos mandamentos e a fé de Jesus (14:12; cf. 12:17).</p><p>Com a quinta cena introdutória do santuário em Apocalipse 15, mudamos</p><p>da metade histórica para a metade escatológica (pós-tempo de graça) do livro.</p><p>Assim a cena do santuário é realmente dupla.</p><p>Primeira, encontramos nos versos 2-4 um quadro daqueles que são vence-</p><p>dores na luta contra a besta e sua imagem e o número do seu nome, em pé (epi)</p><p>no mar de vidro celestial (parte da cena do santuário celestial de Apocalipse 4:6;</p><p>o antitípico “mar de fundição”?)20 cantando o cântico de Moisés e o cântico do</p><p>Cordeiro (um tema tipológico do tema do Êxodo, Êx 15).</p><p>Segunda, nos versos 5-8, é aberto “o templo do tabernáculo do testemu-</p><p>nho no céu” par liberar os anjos das sete pragas e então é fechado. Da mesma</p><p>forma que a glória do Senhor encheu o santuário/templo na Terra no final da</p><p>provação de Judá e o início do juízo executivo sobre ele (Ez 10:3-4),21 assim</p><p>aqui em Apocalipse a fumaça procedente da glória de Deus, enchendo o templo</p><p>para que ninguém possa entrar, parece assinalar o final do tempo da graça e o</p><p>começo do juízo executivo sobre os inimigos de Deus.</p><p>Estas duas cenas do santuário em Apocalipse 15 são prelúdios das recom-</p><p>pensas finais para os santos e punições finais para os ímpios; elas são apropri-</p><p>adamente seguidas (em ordem inversa) por um enfoque sobre punição e recom-</p><p>pensa no restante do livro (ver MAXWELL, 1991, p. 425).</p><p>20 Mais estudo é necessário para confirmar se a tipologia aqui vai além do tema do “Mar Ver-</p><p>melho” do Êxodo para incluir uma alusão ao “lavatório” antitípico do santuário. Embora a pala-</p><p>vra represente em kiyyōr (significando “lavatório” e “algo em que se manter”) e o paralelo verbal</p><p>de thalassa (a mesma palavra grega para “mar” em Ap 15:2 e na descrição do “mar de fundição”</p><p>do templo de Salomão, 2Cr 4:2, LXX), torna tentador aceitar tal interpretação, a falta de clara</p><p>evidência no texto, e o ambiente do pátio exterior para o lavatório (que o ambiente do pátio em</p><p>Ap se refere às coisas terrestres) torna tal opinião problemática.</p><p>21 Muitos têm apontado para as passagens paralelas do Antigo Testamento onde a glória do</p><p>Senhor enche o santuário/templo em sua inauguração: Êxodo 40:34-35; 1Rs 8:10-11; 2Cr 5:13-</p><p>14; 7:1-2. Contudo, a passagem de Ezequiel 10, frequentemente ignorada, parece prover um mais</p><p>próximo paralelo temático e estrutural em seu contexto de “fim da provação” e juízo executivo.</p><p>Tipologia do santuárioEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>132 133</p><p>A sexta cena do santuário (Ap 19:1-10) focaliza o louvor celestial pelos jus-</p><p>tos juízos de Deus que são em grande medida passados e a ceia das bodas do</p><p>Cordeiro que está adiante. Durante os crescendos da doxologia, estão ausentes</p><p>explícitas descrições do santuário/templo. A seção que segue esta cena é transi-</p><p>cional. Com a obra de salvação de Cristo completa, o santuário como o centro</p><p>da atividade redentora desaparece de vista. As fases finais do juízo (a serem dis-</p><p>cutidas abaixo) são levadas a cabo, e o caminho é preparado para ser resolvida</p><p>a tensão Terra-Céu na história da salvação.</p><p>Na sétima cena do santuário (21:1–22:5), a Nova Jerusalém desce para a</p><p>Terra, e é feito o pronunciamento: “Eis que o tabernáculo [skēnē] de Deus está</p><p>com os homens” (Ap 21:3). O propósito supremo para o qual o santuário ter-</p><p>restre foi construído na Terra, “para que eu possa habitar no meio deles” (Êx</p><p>25:8), está agora consumado. “Deus habitará com eles” (Ap 21:3). O supremo</p><p>enfoque teocêntrico/cristocêntrico do santuário celestial é enfatizado ao João</p><p>escrever: “Nela, não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus</p><p>todo-poderoso, e o Cordeiro” (Ap 21:22).</p><p>O foco de atividade na cidade é agora doxológico22 — todos os redimidos se</p><p>reúnem em redor do trono na cidade para adorá-Lo, seu Templo supremo (22:3).23</p><p>Ciclo anual de festividades</p><p>Outra importante área da tipologia do santuário parece estar embutida</p><p>no arranjo literário geral do Apocalipse. Esta é a tipologia das festividades</p><p>religiosas israelitas (Lv 23).</p><p>Já no Antigo Testamento há indícios de que o calendário religioso anual de</p><p>Israel prefigura a amplitude da história da salvação. O autor de Hebreus afirma</p><p>esta verdade quando diz que o sistema sacrifical era “uma sombra dos bens</p><p>vindouros” (Hb 10:1). Havia uma realidade genuína para a</p><p>qual cada um dess-</p><p>es tipos apontava. O fato de que as cerimônias precisavam ser repetidas “ano</p><p>após ano” revelava sua própria inadequação e instabilidade, mas enfatizava a</p><p>suficiência e estabilidade das realidades vindouras.</p><p>22 Na consumação da história da salvação, o santuário ou templo celestial aparentemente re-</p><p>torna à sua função doxológica original. Em harmonia com esta sugestão, Ellen White (2006, p.</p><p>368) escreve que ao longo da eternidade os redimidos adorarão de sábado a sábado “no santuário”.</p><p>23 Tem sido sugerido por alguns que o formato cúbico da Nova Jerusalém (Ap 21:16) indica que toda</p><p>a Nova Jerusalém se torna o “Lugar Santíssimo” da Nova Terra e o lugar de adoração para os redimidos</p><p>ao redor do trono na cidade (Ap 22:1-3) (ver LADD, 1972,p. 282; MOUNCE, 1977, p. 380).</p><p>Grandes festividades de Israel. A Páscoa parece estar identificada com</p><p>o início da história da salvação de Israel: “Este mês vos será o principal dos</p><p>meses; será o primeiro mês do ano” (Êx 12:2).</p><p>A Festa dos Tabernáculos, a última festividade do ciclo religioso anual,</p><p>parece estar identificada com a consumação apocalíptica da história da sal-</p><p>vação de Israel. O plano original de Deus para o desfecho do grande conflito</p><p>entre o bem e o mal deveria ser através da agência do Israel nacional e lit-</p><p>eral (se tivesse permanecido fiel a Deus). Neste contexto Zacarias descreve</p><p>como em seguida à batalha apocalíptica final e à restauração de Jerusalém</p><p>e da Terra, os habitantes da Terra viriam de ano em ano à grande festa es-</p><p>catológica por excelência, a Festa dos Tabernáculos (Zc 14:16).</p><p>Assim, a primeira e a última festa do calendário religioso de Israel</p><p>parecem vinculadas respectivamente à inauguração e consumação da</p><p>história da salvação de Israel.</p><p>Pode ser afirmado que as três grandes festas de Israel prefiguram a tríplice</p><p>subestrutura da história da salvação no Novo Testamento.24 Deus ordenou a Israel:</p><p>“Três vezes no ano me celebrareis festa” (Êx23:14). Estas são identificadas como a</p><p>Festa dos Pães Asmos (ligada à Páscoa), a Festa da Sega (Pentecostes) e a Festa da</p><p>Colheita (Tabernáculos), nos versos 14-16. Estas são as únicas vezes de reunião no</p><p>calendário religioso realmente chamadas de “festas” (hag) nas Escrituras.</p><p>Relacionadas com a história da salvação no Novo Testamento. O sig-</p><p>nificado e a precisão destas três festas correlacionam-se bem com a dinâmi-</p><p>ca da história da salvação no Novo Testamento. O tempo da primeira Páscoa</p><p>e Pães Asmos trouxe redenção temporal a Israel. Eles foram “redimidos pelo</p><p>sangue do cordeiro” (cf. Êx 12:21-23). Eles foram libertados do cativeiro,</p><p>mas não tinham ainda chegado a Canaã. A história da salvação para eles</p><p>estava inaugurada, mas não ainda consumada.</p><p>No deserto eles estavam vivendo na tensão entre o “já” e o “ainda não”. Está</p><p>em harmonia com os dados bíblicos, e mantidos pela tradição judaica, que a</p><p>entrega da lei no monte Sinai ocorreu no tempo do Pentecostes original.25 Nessa</p><p>ocasião a aliança com Israel foi ratificada. Assim, a nação foi incorporada como</p><p>povo da aliança de Deus. Por 40 anos o período de viver “entre os tempos” con-</p><p>tinuou, e Israel se apropriou das bênçãos da aliança.</p><p>Finalmente Israel chegou a Canaã, e sua redenção temporal foi consumada.</p><p>A nação podia agora celebrar a Festa dos Tabernáculos, uma jubilosa lembrança</p><p>24 Veja gráfico 3.</p><p>25 Êx 19:1; cf. Bab Talmud, Pes. 68b; Zohar, Ytro, 78b.</p><p>Tipologia do santuárioEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>134 135</p><p>da proteção divina durante o período de vagueação no deserto, e uma ocasião</p><p>de regozijar-se sobre a consumação da história de sua salvação temporal.</p><p>Os adventistas do sétimo dia geralmente estão familiarizados com a ma-</p><p>neira como o Novo Testamento encontra o cumprimento antitípico dessas três</p><p>festas na história da salvação escatológica produzida por Cristo, o qual morreu</p><p>por ocasião da Páscoa, como o Cordeiro pascal antitípico (1Co 5:7), com ossos</p><p>não quebrados (Jo 19:36; Êx 12:46). Ele ressurgiu no terceiro dia como o molho</p><p>movido antitípico, primícias da futura colheita (1Co 15:23; Lv 23:10-11). Cin-</p><p>quenta dias depois o Pentecostes antitípico é plenamente chegado. Como no</p><p>Pentecostes original no monte Sinai, agora vem ali fogo, terremoto e uma rajada</p><p>de vento (At 2:1-3; ver 4:31). Como Deus tinha escrito a lei em tábuas de pedra</p><p>com o seu próprio dedo, Ele novamente escreve a lei com o dedo do Espírito</p><p>(ver Lc 11:20; Mt 12:28), desta vez sobre o coração dos homens (Jr 31; Hb 8; 10).</p><p>E como Israel se tornou o povo especial da aliança de Deus, assim o novo Israel</p><p>torna-se a igreja da nova aliança de Cristo.</p><p>As festas da Primavera encontram esse cumprimento no começo da história</p><p>da salvação no Novo Testamento. Da mesma forma, as principais festividades</p><p>do outono (Trombetas e Dia da Expiação) levando até e incluindo Tabernáculos</p><p>no final do calendário religioso encontram cumprimento em conexão com a</p><p>consumação apocalíptica da história da salvação no Novo Testamento. Este é</p><p>o foco especial do livro de Apocalipse que está no âmago da autocompreensão</p><p>adventista como um movimento profético/apocalíptico.</p><p>Tipologia das festividades. A estrutura geral do livro de Apocalipse pode</p><p>ser vista seguindo-se a extensão da história da salvação conforme apresentada</p><p>na tipologia das festividades do Antigo Testamento. O esquema geral do Apoc-</p><p>alipse parece evoluir sequencialmente através das festividades do Antigo Testa-</p><p>mento. Contudo, embora um tipo do Antigo Testamento encontre cumprimen-</p><p>to básico em um dos três aspectos da história da salvação (Cristo, igreja, clímax</p><p>final), ao mesmo tempo implicações do mesmo tipo podem ser encontradas</p><p>nos outros aspectos de cumprimento escatológico. Tal parece ser o caso na tipo-</p><p>logia da festividade do santuário, conforme ilustrada no gráfico 4, e portanto</p><p>não se deve esperar que cada seção sucessiva do Apocalipse tenha referência</p><p>exclusiva à festividade correspondente.</p><p>1. Temas da Páscoa. Na cena introdutória do santuário de Apocalipse</p><p>1, há uma forte ênfase sobre os temas pascais. Somente aqui no livro há tão</p><p>forte concentração sobre a morte e ressurreição de Cristo.26 Ele diz a João:</p><p>26 Embora a referência ao Cordeiro morto seja encontrada em Ap 5:6, ele é um Cordeiro que</p><p>“Não temas; Eu sou o primeiro e o último e aquele que vive; estive morto,</p><p>mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte</p><p>e do inferno” (1:17-18). Anteriormente no capítulo a graça é vista como</p><p>vindo de Jesus Cristo, “a Fiel Testemunha, o Primogênito dos mortos [...] e,</p><p>pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados” (1:5).</p><p>Paulien (1990, p. 15) observa que “o escrutino das igrejas por Cristo</p><p>lembra a busca do fermento pela família judaica pouco antes da Páscoa (ver</p><p>Êx 12:19; 13:7)”.27 M. D. Goulder (1981, p. 355) aponta para “uma antiga</p><p>tradição de cada igreja ter um círio pascal ardendo no culto desde a Páscoa</p><p>até o Pentecostes”, e sugere isto como um fundo para a cena dos sete candee-</p><p>iros que representam as sete igrejas. Goulder também fornece interessante</p><p>evidência de que outros importantes temas de Apocalipse 1 estão intimam-</p><p>ente ligados à Páscoa.28 E o ambiente terrestre é compatível com a Páscoa, a</p><p>única festividade com seu cumprimento primário no Cristo terrestre.</p><p>2. Temas do Pentecostes. A cena introdutória do santuário de Apocalipse</p><p>4–5 parece mais provável retratar a cerimônia de investidura do Cordeiro no</p><p>templo celestial,29 um evento que ocorreu durante os dez dias em seguida à</p><p>ascensão de Cristo, atingindo seu ponto culminante no dia de Pentecostes.30 Se</p><p>esta interpretação está correta, então a segunda grande seção do Apocalipse</p><p>pode ser considerada como intimamente ligada ao Pentecostes antitípico. No</p><p>tempo da visão de João, a Páscoa e o Pentecostes antitípicos eram eventos pas-</p><p>sados tendo consequências contínuas. Na liturgia celestial Jesus, o Leão/Cord-</p><p>eiro é declarado digno de abrir os selos, para dar início à sua celestial obra de</p><p>salvação preparatória</p><p>maneira de ex-</p><p>pressão, embora a verdade divina seja geralmente apresentada em quase todas</p><p>as traduções tão acurada e adequadamente que ninguém precisa se desviar —</p><p>ao menos em assuntos vitais para a salvação.</p><p>É verdade, porém, que algumas traduções são em geral mais confiáveis do que</p><p>outras. Como regra, em estudos mais aprofundados, uma tradução do tipo mais</p><p>“literal” deve ser preferida ao tipo “livre” ou “paráfrase”.9 Com frequência as pessoas</p><p>falarão do último tipo de tradução como a que elas preferem, porque tal tradução</p><p>“é muito clara”. A real questão, porém, deve ser esta: Nessas traduções livres, o que é</p><p>tão claro — a palavra de Deus ou a opinião do tradutor?</p><p>9 Exemplos de traduções “literais” ou “formais” são: King James, New King James, Revised Stand-</p><p>ard Version, New American Standard Bible etc. [Em português: Almeida Revista e Atualizada e</p><p>Bíblia de Jerusalém. — Nota do tradutor.] Exemplos de traduções “livres” ou método dinâmico</p><p>de tradução: New English Bible, Today’s English Version, Philips Translation, Living Bible etc. [Em</p><p>português: Nova Tradução na Linguagem de Hoje, Nova Bíblia Viva e A Mensagem. — Nota do</p><p>tradutor.]</p><p>Disposição de fazer a vontade de Deus</p><p>Outra regra geral de interpretação se relaciona com a atitude do leitor no que</p><p>tange à verdade. Conforme declarado por Cristo, “se alguém quiser fazer a vontade</p><p>dele [de Deus], conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus” (Jo 7:17).</p><p>O próprio livro de Apocalipse é muito incisivo em enfatizar que nada deve</p><p>ser acrescentado e nada deve ser tirado do que está escrito nele. Realmente,</p><p>pronuncia uma bênção sobre aqueles que ouvem a mensagem do livro, e uma</p><p>maldição sobre aqueles que a distorcem (veja Ap 1:3; 22:7b, 18–19).</p><p>Estudo com oração</p><p>O estudo das Escrituras com oração é um princípio da máxima importân-</p><p>cia. O mesmo Espírito Santo que inspirou os escritores da Bíblia para registrar</p><p>a verdade divina deve também estar presente a fim de iluminar nossa mente</p><p>para essa verdade. Este princípio específico poderia ter sido declarado primeiro</p><p>entre nossos princípios gerais por causa de sua extrema importância. Em vez</p><p>disto, preferi colocá-lo na conclusão, porque abrange todos os outros quando é</p><p>experimentado conscienciosamente.</p><p>Estudo com oração significa estudo que usa um método idôneo em comparar</p><p>passagem com passagem, que se aproveita de todas as ferramentas disponíveis em</p><p>efetuar estudo diligente, e é caracterizado por uma disposição de fazer a vontade de</p><p>Deus e seguir os resultados do estudo aonde quer que eles possam conduzir.</p><p>regras esPeciais Para a interPretação aPocalíPtica</p><p>Impacto da forma literária</p><p>A verdade bíblica é multifacetada, e os escritores da Bíblia utilizavam uma</p><p>grande variedade de tipos literários a fim de transmitir a mensagem divina. É</p><p>fundamental reconhecer que a verdade expressa através de uma forma literária</p><p>específica manifesta as características dessa forma e é compreendida somente</p><p>quando é dada a devida consideração àquelas características. Narrativas históricas,</p><p>prescrições legais, palavras de sabedoria, cartas, reflexões e aclamações poéticas</p><p>estão entre os numerosos e variados tipos de literatura incluídos na Bíblia. Tam-</p><p>bém às vezes aparecem em combinação uns com os outros.</p><p>Para a maioria dos leitores, a diferença entre prosa e poesia é talvez a mais</p><p>fácil de reconhecer. Por exemplo, no relato em prosa do Êxodo nos é dito que</p><p>Deus enviou “um forte vento oriental” para afastar as águas do mar (Êx 14:21).</p><p>No relato poético é feita a declaração de que “com o resfolgar das tuas [de Deus]</p><p>narinas, amontoaram-se as águas” (Êx 15:8).</p><p>Princípios fundamentais de interpretaçãoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>16 17</p><p>A qualidade figurativa da expressão poética é imediatamente evidente. A</p><p>maioria dos leitores não visualizaria Deus como realmente agachado nas mãos</p><p>e joelhos e resfolegando pelas narinas nas águas do mar! E, contudo, esta de-</p><p>scrição pitoresca adiciona legítima ênfase e eficiência ao expor uma verdade</p><p>divina quando é lida adequadamente como a linguagem figurativa que ela é.</p><p>O livro de Apocalipse representa um tipo de literatura e estilo singu-</p><p>lar entre os livros do Novo Testamento. Seu paralelo bíblico mais próximo</p><p>é o livro de Daniel, no Antigo Testamento. Estes dois livros da Bíblia são</p><p>geralmente classificados como “profecia apocalíptica”, em contraste com a</p><p>“profecia clássica” (às vezes chamada “profecia geral”), sendo a última repre-</p><p>sentada por tais livros como os profetas maiores e menores.</p><p>Ambas as espécies de literatura profética ensinam a verdade divina,</p><p>como fazem todos os outros tipos de literatura da Bíblia. Mas precisa-</p><p>mente como no caso de outros tipos literários, as características peculiares</p><p>a este tipo de literatura devem ser levadas em consideração pelo estudante.</p><p>Infelizmente, a distinção entre profecia clássica e profecia apocalíptica é</p><p>frequentemente obscurecida por expositores da Bíblia.</p><p>Nos parágrafos abaixo, primeiro comentaremos brevemente algumas das</p><p>características da apocalíptica mais geralmente reconhecidas. Em seguida, tra-</p><p>taremos com mais detalhes de algumas características dessa literatura às quais</p><p>geralmente não é dada a devida consideração.</p><p>Características da literatura apocalíptica</p><p>Vários autores têm salientado características comuns ao gênero de literatura</p><p>conhecido como apocalíptica. A lista seguinte, baseada em grande parte em</p><p>meu livro Interpreting the Book of Revelation [Interpretando o Livro de Apoc-</p><p>alipse], pode ser considerada representativa (ver STRAND, 1979, p. 18–20).</p><p>Assinalados contrastes. A profecia apocalíptica faz uma clara e invariável linha</p><p>de demarcação entre o bem e o mal, entre as forças de Deus e as forças de Satanás,</p><p>entre os justos e os ímpios, entre salvação para os filhos de Deus e perdição para</p><p>os seus inimigos. Entre os numerosos e notáveis contrastes no livro de Apocalipse,</p><p>estão o selo de Deus e a marca da besta, a testemunha fiel e verdadeira e a serpente</p><p>que engana o mundo, a virgem de Apocalipse 12 e a prostituta de Apocalipse 17, os</p><p>exércitos do Céu e os exércitos da Terra, o fruto da árvore da vida e o vinho do furor</p><p>da ira de Deus, a Nova Jerusalém em glorioso esplendor e Babilônia em flamejante</p><p>destruição, e o mar de vidro e o lago de fogo.</p><p>Alcance cósmico. A profecia clássica lida com a situação local e con-</p><p>temporânea como seu enfoque primário, com certo grau de ampliação</p><p>para retratar o final grande Dia do Senhor. A apocalíptica tem, em vez</p><p>disto, como sua própria urdidura e trama, o elemento de alcance cósmico</p><p>ou escopo universal. A profecia apocalíptica aborda o grande conflito en-</p><p>tre o bem e o mal, não dentro de uma estrutura histórica local e contem-</p><p>porânea (como é descrita nas mensagens dos profetas maiores e menores),</p><p>mas do ponto de observação que descerra a cortina, por assim dizer, em</p><p>todo o mundo e por toda a extensão da história humana.</p><p>Por exemplo, Daniel 2 e 7 tratam dos impérios mundiais em sucessão</p><p>pelo restante da história terrestre desde o tempo de Daniel até a consumação</p><p>final e o estabelecimento do eterno reino de Deus. O Apocalipse, semel-</p><p>hantemente, explora grandes desenvolvimentos históricos desde os dias de</p><p>João até e inclusive uma descrição do grandioso final escatológico.</p><p>Ênfase escatológica. Às vezes os profetas gerais ampliam o escopo dos oráculos</p><p>de condenação ou “juízos do Dia do Senhor” — quer seja dirigidos contra Israel,</p><p>Judá, Nínive, Babilônia, Moabe, Edom, ou qualquer entidade que poderia ser —</p><p>para retratar brevemente um julgamento final no fim da história terrestre. Contudo,</p><p>o principal objetivo de seus escritos é para a situação de seus próprios dias.</p><p>Por outro lado, a profecia apocalíptica, embora trate a história através do</p><p>fluxo do tempo, tem um enfoque especial nos acontecimentos do fim dos tempos.</p><p>A apocalíptica descreve uma luta contínua entre o bem e o mal na história, uma</p><p>história que tende a degenerar-se ao prosseguir no tempo. Mas é uma história</p><p>para a abertura do livro do destino no juízo final.</p><p>Não é sem significado que as leituras tradicionais do lecionário judaico para o</p><p>Pentecostes sejam Êxodo 19:1–20:23 e Ezequiel 1.31 Que a visão do trono de Apoc-</p><p>tinha sido morto, indicando que sua morte precedeu a cena do trono de Ap 5.</p><p>27 Paulien (1990, p. 15) também documenta a conexão entre o maná (Ap 2:17) e a Páscoa no</p><p>Judaísmo primitivo, e nota a alusão a uma “refeição de comunhão mútua” em Ap 3:20.</p><p>28 Goulder (1981, p. 355) salienta que o tema do retorno de Cristo sobre as nuvens seria iden-</p><p>tificado pelos leitores do primeiro século com a Páscoa, visto que “era na Páscoa que a igreja</p><p>primitiva muito amplamente esperava o retorno de Cristo.” (veja n. 24 para evidência judaica e</p><p>cristã). Ele além disto (p. 356) afirma que o “dia do Senhor” (Ap 1:10) nos dias de João se refere à</p><p>Páscoa. Parece mais provável, contudo, que esta frase se refere ao sábado semanal, embora</p><p>isto pudesse ao mesmo tempo ser um grande sábado.</p><p>29 Veja n. 24 acima.</p><p>30 Veja Ellen G. White (1996, p. 834; 2010, p. 38-39) para apoio deste ponto de vista. Básica evidência</p><p>bíblica fortalecendo esta posição inclui passagens como Dn 9:24; At 1:8; 2:32-33; Hb 1:8, 9; Sl 133:2.</p><p>31 Veja Goulder (1981, p. 356, n. 33-34). Goulder salienta que a tentativa rabínica de proibir a</p><p>Tipologia do santuárioEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>136 137</p><p>alipse 4 é extraída grandemente de Ezequiel 1 é inconfundível com suas descrições</p><p>similares do trono, do arco-íris e dos quatro seres viventes. Vários detalhes também</p><p>parecem aludir a Êxodo 19. Note especialmente as vozes e os relâmpagos (Ap 4:5;</p><p>ver Êx 19:16-19) e o chamado “sobe para aqui” (Ap 4:1; ver Êx 19:24).</p><p>A conexão com Êxodo 19 não é surpreendente sendo que, como já temos nota-</p><p>do, a entrega da Torá (Lei) no monte Sinai provavelmente coincidiu com o primeiro</p><p>Pentecostes. Se modelado segundo a experiência do Sinai, Apocalipse 5 pode ser</p><p>visto em um sentido de apresentar a Cristo como o Moisés antitípico, recebendo de</p><p>Deus a nova Torá. No primeiro Pentecostes Moisés ofereceu o sacrifício sangrento</p><p>para ratificar a aliança sinaítica da redenção (Êx 24:8; cf. Êx 20:2; Dt 9:11), e Israel</p><p>foi investido como um “reino de sacerdotes” (Êx 19:6). De igual modo o Cordeiro</p><p>morto, por Seu “sangue da aliança” (Mt 26:28 = Êx 24:8), redimiu os homens para</p><p>Deus (Ap 5:6, 9) e investiu-os como um “reino e sacerdotes para Deus” (Ap 5:10).</p><p>3. Temas das trombetas. Na terceira grande seção do Apocalipse, as sete trom-</p><p>betas lembram as sete festividades mensais da Lua Nova que formam uma transição</p><p>entre as festas da primavera e do outono e chega ao ponto culminante na “Festa”</p><p>das Trombetas (Nm 10:2, 10; 29:1). Da mesma forma que a Festa das Trombetas</p><p>(também chamada Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico) convocava o antigo Israel a</p><p>se preparar para o vindouro dia de juízo, Yom Kippur, assim as trombetas de Apoc-</p><p>alipse destacam especialmente a aproximação do antitípico Yom Kippur.</p><p>Enquanto os selos veem a extensão da história a partir da perspectiva da in-</p><p>vestidura de Cristo e para a frente, as trombetas parecem retroceder na história</p><p>da salvação como indícios ao longo da Era Cristã de que Deus “se lembrará”</p><p>(isto é, agirá em favor de) de seu povo e como advertências para o preparo para</p><p>o antitípico Dia da Expiação.32 Os chamados de trombetas ao arrependimento</p><p>vêm através de sucessivos juízos de alerta e atinge o seu ponto culminante no</p><p>interlúdio após a sexta trombeta (Ap 10–11). É de acordo com as imagens da</p><p>Festa das Trombetas que o enfoque sobre os últimos acontecimentos (neste in-</p><p>terlúdio entre a sexta e a sétima trombetas) detalha o tempo do Grande Desa-</p><p>pontamento e o início do juízo investigativo em 1844.33</p><p>A sétima trombeta leva à consumação a extensão histórica desta seção do Apoc-</p><p>alipse com uma descrição do glorioso clímax: “O reino do mundo se tornou de</p><p>nosso Senhor e do seu Cristo, e Ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11:15).</p><p>Então a reação dos vinte e quatro anciãos (11:18) resume antecipadamente o fluxo</p><p>leitura de Ez 1 ocorre no tempo de João (p. 357).</p><p>32 Ver Paulien (1998, cap. 3) para uma descrição mais completa do significado das trombetas.</p><p>33 Veja a discussão do “modelo Ezequiel” acima, p. 114-15; e Maxwell (1991, p. 269-280).</p><p>do restante do livro: as nações se enfurecem, a ira divina, o julgamento dos mortos,</p><p>a recompensa dos santos, a destruição dos ímpios (PAULIEN, 1988, p. 337-339).</p><p>Temas do Dia da Expiação. A cena introdutória do santuário da quarta</p><p>grande seção do Apocalipse (Ap 11:19) nos conduz ao Lugar Santíssimo para o</p><p>início do mais sagrado dia antitípico do ano religioso, o dia da expiação (Yom</p><p>Kippur). As sete cenas do grande conflito que se seguem destacam o anúncio de</p><p>que “é chegada a hora do seu juízo” (14:7).</p><p>O Yom Kippur típico incluía não somente (1) a obra do juízo investiga-</p><p>tivo, a expiação final e a purificação do santuário (Lv 16), mas também (2)</p><p>o juízo retributivo/executivo sobre os pecadores impenitentes do acampa-</p><p>mento (Lv 23:29-30) e (3) o rito de eliminação por meio do bode Azazel que</p><p>era enviado para o deserto (Lv 16:10, 20-22).</p><p>Igualmente, no antítipo, o Dia da Expiação em Apocalipse nos leva através</p><p>do juízo investigativo (11:1, 2, 19; 14:7); através das sete últimas pragas (caps.</p><p>15–16), e o juízo de Babilônia (17:1–19:4); e sucessivamente através do envio</p><p>milenial de Satanás para o “deserto”/abismo e o concomitante juízo de revisão</p><p>pelos santos (20:1-10) ao culminante trono branco do juízo e à eliminação final</p><p>do pecado na segunda morte (20:11-15). O Dia da Expiação, portanto, abrange</p><p>as fases do juízo de investigação, de revisão e executiva do juízo final.34</p><p>Temas da Festa dos Tabernáculos. Em Apocalipse 21 o antitípico Dia da</p><p>Expiação (Yom Kippur) cessou, o “acampamento está limpo”, e a antitípica Festa</p><p>dos Tabernáculos pode começar. É surpreendente notar o quanto da seção final</p><p>do Apocalipse (e os refletores sobre as recompensas finais dos redimidos das</p><p>seções anteriores) é expresso na imagem dos tabernáculos.</p><p>A Festa dos Tabernáculos era também chamada a Festa da Colheita, vin-</p><p>do depois que a ceifa tinha sido armazenada no celeiro. Igualmente, a festa</p><p>antitípica segue a ceifa da Terra (Ap 14:14-20) e constitui a colheita final do</p><p>povo de Deus para o seu lar da colheita. O Israel do passado ia a Jerusalém</p><p>na “revolução (teqûpah) do ano” (Êx 34:22) para celebrar a festa por sete</p><p>dias (mais um oitavo, Lv 23:33-37). No antítipo, o Israel apocalíptico entra</p><p>na Nova Jerusalém na revolução dos séculos (“as primeiras coisas passaram.</p><p>34 Várias alusões a passagens do Antigo Testamento nestas seções realmente constituem ima-</p><p>gens do juízo investigativo/Dia da Expiação. Por exemplo, a referência a Satanás como “acusador</p><p>de nossos irmãos” (Ap 12:10) relembra a cena do juízo investigativo de Zacarias 3 (ver White,</p><p>2005, p. 484; 2002, p. 38-41). Para uma análise do juízo investigativo sobre Babilônia nos termos</p><p>da lei do falso testemunho de Dt 19:16-21, veja Kenneth Strand (1982, p. 53-60).</p><p>Tipologia do santuárioEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>138 139</p><p>[...] Eis que faço novas todas as coisas” [Ap 21:4, 5]) para celebrar e “adorar</p><p>pelos séculos dos séculos” (7:9-17; 22:3-5).</p><p>Na festa histórica do Antigo Testamento os israelitas habitavam em “tab-</p><p>ernáculos” (sukkôt) de onde a festa derivava seu nome. No final antitípico, “o</p><p>tabernaculo” [skēnē, como em Lv 23:42 LXX) de Deus está com os homens, e</p><p>Ele habitará [skēnoō] com eles, e eles serão o seu povo, e Deus mesmo estará</p><p>com eles” (Ap 21:3). Foi ordenado ao antigo Israel que “se alegrasse perante o</p><p>Senhor” (Lv 23:40) na festa. Na prática, isto significava o agitar dos ramos de</p><p>palmeira, o cântico, o toque de instrumentos musicais e uma grande festa.35 No</p><p>cumprimento apocalíptico, há novamente o agitar dos ramos de palmeira (Ap</p><p>7:9), gloriosas antífonas de louvor (7:10; 14:3; 15:2-4), harpistas tangendo suas</p><p>harpas</p><p>(14:2) e a grande ceia das bodas do Cordeiro (19:9).</p><p>Durante a festa típica, os adoradores deveriam se lembrar do seu tempo de</p><p>peregrinação no deserto (Lv 23:43). Na prática, isto se desenvolvia em duas ce-</p><p>rimônias impressionantes: (1) “a água da efusão” simbolizando a água da rocha</p><p>que havia nutrido Israel no árido deserto e (2) a “cerimônia das luzes”, comemo-</p><p>rando a coluna de fogo que os havia guiado através do deserto.36 Ambas estas</p><p>cerimônias por volta do primeiro século d.C. tinham sido reconhecidas por sua</p><p>significação messiânica. Jesus apontou claramente para o seu cumprimento</p><p>cristológico em si mesmo como a luz do mundo e a água da vida (Jo 7:37; 8:12)</p><p>(ver BROWN, 1966, p. 326-330, 343-345).</p><p>No final e glorioso cumprimento apocalíptico da festa, a festividade da água</p><p>presente. Não apenas um cálice do tanque de Siloé, nem mesmo água brotando</p><p>de uma rocha, mas um “rio da água da vida, brilhante como cristal, que sai do</p><p>trono de Deus e do Cordeiro” (Ap 22:1). E a cerimônia das luzes está ali. Não</p><p>candelabros no pátio das mulheres, nem mesmo a coluna de fogo, nem mesmo</p><p>o deslumbrante Sol, mas a “glória de Deus é a sua luz, e o Cordeiro é a sua lâm-</p><p>pada” (21:23). O apelo final de Jesus no livro parece continuar a imagem dos</p><p>tabernáculos “Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água</p><p>da vida” [a água dos Tabernáculos perfeitos] (22:17).</p><p>considerações finais</p><p>Ao concluirmos esta pesquisa da terminologia do santuário, devemos no-</p><p>tar algumas relacionadas imagens tipológicas adicionais não mencionadas na</p><p>35 Para a prática rabínica, veja Mishnah, Sukkah 5.1-4.</p><p>36 Para uma descrição destas cerimônias, veja Mishnah, Sukkah 4.9; 5.1-3.</p><p>discussão geral do tema do santuário dentro da estrutura geral do Apocalipse.</p><p>Algumas dessas alusões são explícitas, outras referências são mais indefiníveis.</p><p>O “maná escondido” (2:17) certamente pertence ao tema do Êxodo, mas tam-</p><p>bém pode se referir ao maná “escondido” dentro da arca no Lugar Santíssimo (cf.</p><p>Êx 16:32-34; Hb 9:4). A promessa aos vencedores de Sardes de que eles seriam</p><p>vestidos de vestiduras brancas (3:4) pode simbolizar mais do que pureza/justiça.</p><p>O símbolo pode também apontar para sua função como sacerdotes antitípicos</p><p>com Cristo (tal função torna-se explícita em 1:6; 5:10). As várias referências aos</p><p>vinte e quatro anciãos (4:4) podem aludir ao sacerdócio levítico e seus vinte e</p><p>quatro turnos de sacerdotes levitas (1Cr 24:1-19).</p><p>Os quaro seres viventes, mencionados repetidamente ao longo do Apocalipse</p><p>(4:6-9) são quase idênticos aos seres de Ezequiel 1 e 10. Na última passagem eles são</p><p>identificados como “querubins”. Esses seres podem ser considerados como os corre-</p><p>spondentes antitípicos para os querubins sobre a arca do santuário terrestre.37</p><p>Finalmente, em uma disposição semelhante, as numerosas alusões aos</p><p>Salmos e outras passagens hinológicas do Antigo Testamento na liturgia</p><p>celestial de louvor podem ser vistas na relação antitípica aos salmos litúr-</p><p>gicos terrestres no santuário do antigo Israel.38</p><p>Não seria exagero concluir que o último livro do Novo Testamento reúne</p><p>todos os grandes fios da tipologia do santuário do Antigo Testamento e tece-os</p><p>em um complexo e formoso tapete para formar o pano de fundo de todo o livro.</p><p>No processo, o profeta revela a centralidade e importância do tema do santuário</p><p>para desvendar a estrutura, mensagem, e significado do Apocalipse.</p><p>referências</p><p>ANDREASEN, N. E. The Heavenly Sanctuary in the Old Testament. In: WALLENKAMPF, A.</p><p>V.; LESHER, W. R. (Eds.). The Sanctuary and the Atonement. Silver Spring: Biblical Research</p><p>Institute, 1981.</p><p>BALENTINE, G. Death of Christ as a New Exodus. Review and Expositor. v. 59, 1962.</p><p>37 Interessantemente, Ellen G. White (1870, v. 1, p. 399) indica que “quatro anjos celestiais sem-</p><p>pre acompanhavam a arca de Deus em todas as suas jornadas, para guardá-la de todo perigo, e</p><p>para cumprir qualquer missão deles exigida em conexão com a arca”.</p><p>38 Veja acima, n. 7; importantes comentários sobre Apocalipse para exemplos das copiosas</p><p>alusões aos Salmos nos hinos litúrgicos de Apocalipse.</p><p>Tipologia do santuárioEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>140 141</p><p>. The concept of the New Exodus in the Gospels. Tese. (Doutorado em Teologia).</p><p>Southern Baptist Theological Seminary, 1961.</p><p>BROWN, R. E. The Gospel According to John: (i-xii). Garden City: [S.n.], 1966.</p><p>CANALE, F. A criticism of theological reason: time and timelessness as primordial</p><p>pressuppositions. Berrien Springs: Andrews University Press, 1983. (Andrews University</p><p>Seminary Doctoral Dissertation Series, 10).</p><p>DAVIDSON, R. M. Tipologia no livro de Hebreus. In: HOLBROOK, F. B. (Ed.). A luz de Hebreus:</p><p>intercessão, expiação e juízo no santuário celestial. Engenheiro Coelho: Unaspress, 2009.</p><p>. Typology and the Levitical System. Ministry, p. 16-19, fev., 1984.</p><p>. Typology in Scripture: A Study of Hermeneutical Types Structures. (Berrien Springs:</p><p>Andrews University Press, 1981. (Andrews University Seminary Doctoral Dissertation Series, 2).</p><p>DODD, C. H. According to the Scriptures: the substructure of New Testament theology.</p><p>Londres: Collins, 1952.</p><p>FERCH, A. The judgment scene in Daniel 7. In: HOLBROOK, F. The Sanctuary and the</p><p>Atonement. Silver Spring: Biblical research institute,1989. (DARCON).</p><p>FIORENZA, E. S. The book of Revelation: justice and judgment. Philadelphia: [s.n.], 1985.</p><p>GOULDER. M. D. The Apocalypse as an annual cycle of prophecies. New Testament Studies, v.</p><p>27, n. 3, p. 342-367, 1981.</p><p>JOHNSSON, W. G. In absolute confidence: the book of Hebrews speaks to our day. Nashville:</p><p>Southern Pub. Association, 1979.</p><p>KINGSBURY, E. C. The Prophet and the Divine Council. Journal of Biblical Literature, 1964.</p><p>LADD, G. E. A commentary on the revelation of John. Grand Rapids: Eerdmans Publishing, 1972.</p><p>. The presence of the future: the eschatology of biblical realism. Grand Rapids: [S.n.], 1974.</p><p>LARONDELLE, H. K. The Israel of god in prophecy: principles of prophetic interpretation. Berrien</p><p>Springs: Andrews University Press, 1983. (Andrews University Monographs, Studies in Religion, 13).</p><p>LEWIS, C. S. The great divorce. [s.l.]: Harper Collins Publishers, 2010.</p><p>MATTHEWS, J. C. Die Psalmen und der Tempeldienst. Zeitschrift für die alttestamentliche</p><p>Wissenschaft, v. 22, 1902.</p><p>MAXWELL, C. M. God cares: the message of Revelation for you and your family. Nampa:</p><p>Pacific Press, 1985.</p><p>. In Confirmation of Prophetic Interpretation. Journal of Adventist Theological</p><p>Society, v. 2, n.1, p. 139-151, 1991.</p><p>MOUNCE, R. H. The book of Revelation, NICNT .Grand Rapids: Eerdmans Publishing, 1977.</p><p>NILES, D. T. As seeing the invisible: a study of the book of Revelation. [S.l.]: Literary</p><p>Licensing, LLC, 2012.</p><p>PAULIEN, J. Decoding Revelation’s trumpets: literary allusions and interpretation of Revelation</p><p>8:7-12. Berrien Springs: Andrews University Press, 1988. (Andrews University Seminary Doctoral</p><p>Dissertation Series, 11).</p><p>. Intertextuality, the hebrew cultus, and the plot of the Apocalypse. (Trabalho</p><p>apresentado). [s. l.], Sociedade de Literatura Bíblica, Crítica Literária e Conselho do Apocalipse, 1990.</p><p>PREUSS, R. Die Gerichtspredigt der vorexilischen Propheten un der Versuch einer Steigerung</p><p>der kultischen Leistung. Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft, v. 70, 1958.</p><p>SHEA, W. The investigative judgment of Judah, Ezekiel 1–10. In: HOLBROOK, F. B. The</p><p>Sanctuary and the Atonement. Silver Spring: Biblical Research Institute, 1989.</p><p>STRAND, K. A. Interpreting the book of Revelation: hermeneutical guidelines with brief</p><p>introduction to literary analysis. Naples: Ann Arbor Publ., 1979.</p><p>. The “victorious introduction” scenes in the visions in the book of Revelation.</p><p>Andrews University Seminary Studies, v. 25, p. 261-288, 1987a.</p><p>. The Eight Basic Visions in the Book of Revelation. Andrews University Seminary</p><p>Studies, v. 25, p. 107-121, 1987b.</p><p>. Two Aspects of Babylon’s Judgment</p><p>Portrayed in Revelation 18. Andrews University</p><p>Seminary Studies, v. 20, p. 53-60, 1982.</p><p>STRAUSS, H. Zur Auslegung von Ps. 29. Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft, v.</p><p>82, n. 1, p. 91-102, 1970.</p><p>Tipologia do santuárioEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>142 143</p><p>THE ROLE OF ISRAEL in Old Testament Prophecy. In: NICHOL, F. D. (Ed.). The Seventh-Day</p><p>Adventist Bible Commentary. Washington: 1976. v. 4.</p><p>WHITE, E. G. Atos dos apóstolos. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2010.</p><p>. O desejado de todas as nações. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1996.</p><p>. O grande conflito. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2005.</p><p>. Parábolas de Jesus. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2000.</p><p>. Profetas e reis. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2007.</p><p>. Testemunhos para igreja. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2006. v. 6.</p><p>. Testemunhos para ministros e obreiros evangélicos. Tatuí: Casa Publicadora</p><p>Brasileira, 2002.</p><p>. The Spirit of Prophecy: the great controversy between Christ and his angels and</p><p>Satan and his angels. Battle Creek: Steam Press, 1870. v. 1.</p><p>WHYBRAY, R. N. The Heavenly Councellor in Isa. XI 13-14. Cambridge: [s.n.], 1971.</p><p>I. Significado da interpretação Tipológica do AT pelo NT</p><p>A. Avaliações modernas:</p><p>1. Leonard Goppelt: Tipologia “é a maneira central e distintiva de compreender</p><p>as Escrituras”.</p><p>2. G. Ernest Wright: “A única palavra que talvez melhor do que qualquer outra</p><p>descreve o método da Igreja primitiva de interpretar o AT é ‘tipologia.’”</p><p>3. Robert G. Grant: “O método do Novo Testamento de interpretar o Antigo</p><p>era geralmente o da tipologia.”</p><p>4. E. Earle Ellis (citando W. G. Kümmel): “A interpretação tipológica expres-</p><p>sa muito claramente ‘a atitude básica do Cristianismo primitivo para com o</p><p>Antigo Testamento.’”</p><p>B. Crítica: As asserções acima podem exagerar o caso, mas certamente a</p><p>tipologia provê um importante estudo de caso na hermenêutica do NT.</p><p>II. Duas modernas visões de tipologia bíblica: tradicional e “pós-crítica”</p><p>A. Tipologia Tradicional é o estudo da prefiguração divinamente designada (na</p><p>forma de pessoas/eventos/instituições) que apontam para o seu cumprimento</p><p>antitípico em Cristo e nas realidades do evangelho produzidas por Cristo.</p><p>B. “Neotipologia Pós-crítica”: Tipologia é o estudo das correspondências</p><p>históricas entre pessoas, eventos e instituições do AT e NT, retrospectiva-</p><p>mente reconhecidas dentro da consistente revelação de Deus na História.</p><p>C. Principais elementos de diferença:</p><p>Gráfico 1 Tipologia bíblica: visão geral</p><p>Tradicional</p><p>1. Firmada em realidades históricas</p><p>(historicidade essencial).</p><p>2. Prefiguração divinamente designada</p><p>3. Prospectiva/preditiva.</p><p>4. Prefigurações se estendem a detalhes</p><p>especiais.</p><p>5. Inclui tipologia vertical (santuário).</p><p>6. Envolve princípios consistente de</p><p>interpretação</p><p>Crítico-Histórica</p><p>1. Historicidade não essencial.</p><p>2. Analogias/correspondências dentro de</p><p>modos de atividades similares de Deus.</p><p>3. Retrospectiva (pouco ou nenhum</p><p>elemento preditivo).</p><p>4. Envolve somente “situações paralelas”</p><p>gerais.</p><p>5. Rejeita vertical como estranha à perspec-</p><p>tiva bíblica. (Hebreus = mítico/dualista).</p><p>6. Nenhum sistema ou ordem — liber-</p><p>dade do Espírito.</p><p>Tipologia do santuárioEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>144 145</p><p>1 23</p><p>Gráfico 2 - Interpretação Tipológica do Antigo Testamento:Identificando os Tipos</p><p>1 Veja C. H. Dodd, According to the Scriptures: The Substructure of New Testament Theology</p><p>(Londres, 1952), esp. 75-133.</p><p>2Veja George Balentine, “The Concept of the New Exodus in the Gospels,” (diss. Th.D., Southern Bap-</p><p>tist Theological Seminary, 1961); cf. id.., “Death of Christ as a New Exodus,” RevExp 59 (1962): 27-41.</p><p>3 Veja Davidson, Typology in Scripture, 367-88; id., Issues in the Book of Hebrews, 156-69.</p><p>Tipo do Antigo Testamento</p><p>(Pessoa/Evento/Instituições)</p><p>4. Elias</p><p>1Rs 17–19</p><p>5. Moisés</p><p>Pentateuco</p><p>Indicador Verbal de Tipologia</p><p>no Antigo Testamento</p><p>Novo Elias</p><p>Ml 4:5, 6</p><p>Novo Moisés</p><p>Dt 18:15-19</p><p>Anúncio do Antítipo no</p><p>Novo Testamento</p><p>Elias Antitípico</p><p>Mt 11:14; Mc 9:11; Lc 1:17</p><p>Moisés Antitípico</p><p>Jo 1:21; 6:14; 8:40; etc.</p><p>1. Êxodo:</p><p>Livro de Êxodo;</p><p>Oséias 11:1, etc.</p><p>3. Jonas</p><p>O Livro de Jonas</p><p>Novo Êxodo1</p><p>Os 2:14-15; 12:9, 13; 13:4-5;</p><p>Jr 23:4-8; 16:14-15; 31:32;</p><p>Is 11:15-16; 35; 40:3-5;</p><p>41:17-20; 42:14-16; 43:1-3,</p><p>14-21; 48:20-21; 49:8-12;</p><p>51:9-11; 52:3-6, 11-12;</p><p>55:12-13</p><p>Novo Jonas</p><p>Os 6:1-3 (=Israel); Is 41–53</p><p>(Messias representa e</p><p>recapitula a experiência de</p><p>Israel: Is 41:8; 42:1; 44:1;</p><p>49:3-6; 52:13–53:11, etc.)</p><p>Êxodo Antitípico2</p><p>Mt 1:5; Lc 9:31, etc.</p><p>Jonas Antitípico</p><p>Mt 12:40; etc.</p><p>2. Santuário</p><p>Êxodo 25–40</p><p>Original Celeste3</p><p>Êx 25:40; Sl 11:4; 18:6 ;</p><p>60:6; 63:2; 68h35min; 96:6;</p><p>102:19; 150:1; Is 6; Jn 2:7;</p><p>Mq 1:2; Hc 2:20; etc.</p><p>Original Celeste</p><p>Hb 8:5; 9:24; Ap 8:1-5;</p><p>11:19; 16:1; etc.</p><p>N</p><p>a</p><p>lin</p><p>gu</p><p>ag</p><p>em</p><p>d</p><p>o</p><p>R</p><p>ei</p><p>no</p><p>M</p><p>od</p><p>os</p><p>d</p><p>e c</p><p>um</p><p>pr</p><p>im</p><p>en</p><p>to</p><p>Ex</p><p>em</p><p>pl</p><p>os</p><p>(1</p><p>)</p><p>Is</p><p>ra</p><p>el</p><p>Sa</p><p>nt</p><p>uá</p><p>ri</p><p>o</p><p>/ T</p><p>em</p><p>pl</p><p>o</p><p>N</p><p>ov</p><p>o</p><p>Is</p><p>ra</p><p>el</p><p>(M</p><p>t 2</p><p>:1</p><p>5)</p><p>C</p><p>ri</p><p>st</p><p>o</p><p>co</p><p>m</p><p>o</p><p>Te</p><p>m</p><p>pl</p><p>o</p><p>(J</p><p>o</p><p>1:</p><p>14</p><p>; 2</p><p>:2</p><p>1;</p><p>M</p><p>t 1</p><p>2:</p><p>6)</p><p>Is</p><p>ra</p><p>el</p><p>d</p><p>e</p><p>D</p><p>eu</p><p>s</p><p>(G</p><p>l 6</p><p>:1</p><p>6)</p><p>Is</p><p>ra</p><p>el</p><p>a</p><p>po</p><p>ca</p><p>líp</p><p>tic</p><p>o</p><p>(A</p><p>p</p><p>7:</p><p>4)</p><p>Ig</p><p>re</p><p>ja</p><p>co</p><p>m</p><p>o</p><p>te</p><p>m</p><p>pl</p><p>o</p><p>(1</p><p>C</p><p>o</p><p>3:</p><p>16</p><p>e</p><p>17</p><p>; 2</p><p>C</p><p>o</p><p>6:</p><p>16</p><p>)</p><p>Te</p><p>m</p><p>pl</p><p>o</p><p>ce</p><p>le</p><p>st</p><p>e/</p><p>Te</p><p>m</p><p>pl</p><p>o</p><p>su</p><p>pr</p><p>em</p><p>o</p><p>(A</p><p>p</p><p>3:</p><p>12</p><p>; 7</p><p>:1</p><p>5;</p><p>1</p><p>1:</p><p>19</p><p>; 2</p><p>1:</p><p>3</p><p>e 2</p><p>2)</p><p>(2</p><p>)</p><p>(3</p><p>)</p><p>N</p><p>a</p><p>lin</p><p>gu</p><p>ag</p><p>em</p><p>es</p><p>ca</p><p>to</p><p>ló</p><p>gi</p><p>ca</p><p>A</p><p>sp</p><p>ec</p><p>to</p><p>s d</p><p>o</p><p>cu</p><p>m</p><p>pr</p><p>im</p><p>en</p><p>to</p><p>ti</p><p>po</p><p>ló</p><p>gi</p><p>co</p><p>Pe</p><p>ss</p><p>oa</p><p>s,</p><p>ev</p><p>en</p><p>to</p><p>s</p><p>e</p><p>in</p><p>st</p><p>itu</p><p>iç</p><p>õe</p><p>s</p><p>N</p><p>ac</p><p>io</p><p>na</p><p>l,</p><p>ét</p><p>ni</p><p>co</p><p>Êx</p><p>od</p><p>o</p><p>C</p><p>ris</p><p>to</p><p>(C</p><p>ris</p><p>to</p><p>ló</p><p>gi</p><p>co</p><p>)</p><p>Cu</p><p>m</p><p>pr</p><p>im</p><p>en</p><p>to</p><p>lit</p><p>er</p><p>al</p><p>e</p><p>lo</p><p>ca</p><p>l</p><p>Êx</p><p>od</p><p>o</p><p>de</p><p>C</p><p>ris</p><p>to</p><p>(M</p><p>t 1</p><p>-5</p><p>; L</p><p>c 9</p><p>:3</p><p>1)</p><p>Ig</p><p>re</p><p>ja</p><p>(E</p><p>cl</p><p>es</p><p>io</p><p>ló</p><p>gi</p><p>co</p><p>)</p><p>C</p><p>lím</p><p>ax</p><p>F</p><p>in</p><p>al</p><p>(A</p><p>po</p><p>ca</p><p>líp</p><p>tic</p><p>o)</p><p>Cu</p><p>m</p><p>pr</p><p>im</p><p>en</p><p>to</p><p>p</p><p>ar</p><p>ci</p><p>al</p><p>es</p><p>pi</p><p>rit</p><p>ua</p><p>l e</p><p>u</p><p>ni</p><p>ve</p><p>rs</p><p>al</p><p>Cu</p><p>m</p><p>pr</p><p>im</p><p>en</p><p>to</p><p>li</p><p>te</p><p>ra</p><p>l</p><p>gl</p><p>or</p><p>io</p><p>so</p><p>e</p><p>fi</p><p>na</p><p>l</p><p>Êx</p><p>od</p><p>o</p><p>es</p><p>pi</p><p>rit</p><p>ua</p><p>l</p><p>(H</p><p>b</p><p>4;</p><p>2</p><p>C</p><p>o</p><p>6:</p><p>17</p><p>)</p><p>Êx</p><p>od</p><p>o</p><p>ap</p><p>oc</p><p>al</p><p>íp</p><p>tic</p><p>o</p><p>(A</p><p>p</p><p>15</p><p>:1</p><p>-3</p><p>)</p><p>Pr</p><p>ed</p><p>iç</p><p>õe</p><p>s v</p><p>er</p><p>ba</p><p>is</p><p>do</p><p>fi</p><p>m</p><p>d</p><p>os</p><p>te</p><p>m</p><p>po</p><p>s</p><p>Es</p><p>ca</p><p>to</p><p>lo</p><p>gi</p><p>a</p><p>In</p><p>au</p><p>gu</p><p>ra</p><p>da</p><p>Es</p><p>ca</p><p>to</p><p>lo</p><p>gi</p><p>a</p><p>Ap</p><p>ro</p><p>pr</p><p>ia</p><p>da</p><p>Es</p><p>ca</p><p>to</p><p>lo</p><p>gi</p><p>a</p><p>C</p><p>on</p><p>su</p><p>m</p><p>ad</p><p>a</p><p>Re</p><p>in</p><p>o</p><p>Te</p><p>oc</p><p>rá</p><p>tic</p><p>o</p><p>(g</p><p>ov</p><p>er</p><p>no</p><p>d</p><p>ire</p><p>to</p><p>d</p><p>e D</p><p>eu</p><p>s o</p><p>u</p><p>se</p><p>u</p><p>re</p><p>pr</p><p>es</p><p>en</p><p>ta</p><p>nt</p><p>e t</p><p>er</p><p>re</p><p>str</p><p>e)</p><p>Re</p><p>in</p><p>o</p><p>da</p><p>G</p><p>ra</p><p>ça</p><p>(M</p><p>t 1</p><p>2:</p><p>28</p><p>; H</p><p>b</p><p>4:</p><p>16</p><p>)</p><p>Re</p><p>in</p><p>o</p><p>da</p><p>G</p><p>ló</p><p>ria</p><p>(M</p><p>t 2</p><p>5:</p><p>31</p><p>)</p><p>Te</p><p>ns</p><p>ão</p><p>en</p><p>tre</p><p>“J</p><p>á”</p><p>e</p><p>“A</p><p>in</p><p>da</p><p>nã</p><p>o”</p><p>(M</p><p>t 1</p><p>6:</p><p>19</p><p>)</p><p>A</p><p>nt</p><p>ig</p><p>o</p><p>Te</p><p>st</p><p>am</p><p>en</p><p>to</p><p>Pr</p><p>im</p><p>ei</p><p>ro</p><p>a</p><p>dv</p><p>en</p><p>to</p><p>de</p><p>C</p><p>ri</p><p>st</p><p>o</p><p>Se</p><p>gu</p><p>nd</p><p>o</p><p>ad</p><p>ve</p><p>nt</p><p>o</p><p>de</p><p>C</p><p>ri</p><p>st</p><p>o</p><p>Ti</p><p>po</p><p>s d</p><p>o</p><p>A</p><p>nt</p><p>ig</p><p>o</p><p>Te</p><p>st</p><p>am</p><p>en</p><p>to</p><p>A</p><p>nt</p><p>iti</p><p>po</p><p>s d</p><p>o</p><p>N</p><p>ov</p><p>o</p><p>Te</p><p>st</p><p>am</p><p>en</p><p>to</p><p>A</p><p>Ig</p><p>re</p><p>ja</p><p>ti</p><p>Po</p><p>lo</p><p>g</p><p>ia</p><p>d</p><p>im</p><p>en</p><p>sã</p><p>o</p><p>v</p><p>er</p><p>ti</p><p>c</p><p>a</p><p>l</p><p>a</p><p>b</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>g</p><p>en</p><p>te</p><p>A</p><p>nt</p><p>ig</p><p>o</p><p>te</p><p>st</p><p>am</p><p>en</p><p>to</p><p>Pr</p><p>im</p><p>ei</p><p>ro</p><p>a</p><p>dv</p><p>en</p><p>to</p><p>Gr</p><p>áfi</p><p>co</p><p>3</p><p>-</p><p>Q</p><p>uá</p><p>dr</p><p>up</p><p>la</p><p>su</p><p>be</p><p>str</p><p>ut</p><p>ur</p><p>a</p><p>es</p><p>ca</p><p>to</p><p>ló</p><p>gi</p><p>ca</p><p>d</p><p>a</p><p>tip</p><p>ol</p><p>og</p><p>ia</p><p>Es</p><p>pí</p><p>rit</p><p>o</p><p>Sa</p><p>nt</p><p>o</p><p>Re</p><p>so</p><p>lu</p><p>çã</p><p>o</p><p>da</p><p>te</p><p>ns</p><p>ão</p><p>Se</p><p>gu</p><p>nd</p><p>o</p><p>ad</p><p>ve</p><p>nt</p><p>o</p><p>Pe</p><p>nt</p><p>ec</p><p>os</p><p>te</p><p>s</p><p>Ir</p><p>ro</p><p>m</p><p>pi</p><p>m</p><p>en</p><p>to</p><p>d</p><p>e</p><p>po</p><p>de</p><p>re</p><p>s</p><p>da</p><p>e</p><p>ra</p><p>v</p><p>on</p><p>do</p><p>ur</p><p>a</p><p>Estudos selecionados em interpretação profética</p><p>146</p><p>Pá</p><p>sc</p><p>oa</p><p>(P</p><p>es</p><p>ac</p><p>h)</p><p>(L</p><p>v 2</p><p>3:4</p><p>e</p><p>5;</p><p>Êx</p><p>12</p><p>:1-</p><p>14</p><p>)</p><p>Fe</p><p>sta</p><p>d</p><p>os</p><p>p</p><p>ãe</p><p>s a</p><p>sm</p><p>os</p><p>(L</p><p>v 2</p><p>3:5</p><p>-8</p><p>; Ê</p><p>x 1</p><p>2:8</p><p>-2</p><p>0)</p><p>Pr</p><p>im</p><p>íci</p><p>as</p><p>(L</p><p>v 2</p><p>3:4</p><p>-1</p><p>4)</p><p>1 (</p><p>N</p><p>IS</p><p>Ã</p><p>) 1</p><p>4</p><p>1 (</p><p>N</p><p>IS</p><p>Ã</p><p>) 1</p><p>5-</p><p>21</p><p>1 (</p><p>N</p><p>IS</p><p>Ã</p><p>) 1</p><p>6</p><p>3 (</p><p>SI</p><p>VÃ</p><p>) 6</p><p>7 (</p><p>TI</p><p>SH</p><p>RI</p><p>) 1</p><p>7 (</p><p>TI</p><p>SH</p><p>RI</p><p>) 1</p><p>0</p><p>7 (</p><p>TI</p><p>SH</p><p>RI</p><p>) 1</p><p>5-</p><p>22</p><p>Pe</p><p>nt</p><p>ec</p><p>os</p><p>te</p><p>(S</p><p>ha</p><p>vo</p><p>ut</p><p>)</p><p>(L</p><p>v 2</p><p>3:1</p><p>5-</p><p>22</p><p>)</p><p>Tr</p><p>om</p><p>be</p><p>ta</p><p>s</p><p>(R</p><p>os</p><p>h</p><p>H</p><p>as</p><p>ha</p><p>ná</p><p>)</p><p>(L</p><p>v 2</p><p>3:2</p><p>3-</p><p>25</p><p>)</p><p>D</p><p>ia</p><p>da</p><p>ex</p><p>pi</p><p>aç</p><p>ão</p><p>(Y</p><p>om</p><p>K</p><p>ip</p><p>pu</p><p>r)</p><p>(L</p><p>v 1</p><p>6;</p><p>23</p><p>:26</p><p>-3</p><p>1)</p><p>Ta</p><p>be</p><p>rn</p><p>ác</p><p>ul</p><p>os</p><p>(S</p><p>uk</p><p>ko</p><p>th</p><p>)</p><p>(L</p><p>v 2</p><p>3:3</p><p>3-</p><p>36</p><p>)</p><p>Cr</p><p>uc</p><p>ifi</p><p>xã</p><p>o</p><p>(M</p><p>t 2</p><p>6:2</p><p>7-</p><p>28</p><p>; 2</p><p>7:4</p><p>6;</p><p>Jo</p><p>19</p><p>:31</p><p>-3</p><p>7)</p><p>Pr</p><p>ov</p><p>isã</p><p>o</p><p>pa</p><p>ra</p><p>re</p><p>m</p><p>oç</p><p>ão</p><p>d</p><p>o</p><p>pe</p><p>ca</p><p>do</p><p>(1</p><p>C</p><p>o</p><p>5:6</p><p>-8</p><p>)</p><p>Re</p><p>ss</p><p>ur</p><p>re</p><p>içã</p><p>o</p><p>(1</p><p>C</p><p>o</p><p>15</p><p>:23</p><p>)</p><p>U</p><p>nç</p><p>ão</p><p>co</p><p>m</p><p>o</p><p>E</p><p>sp</p><p>íri</p><p>to</p><p>(M</p><p>t 3</p><p>:16</p><p>e</p><p>17</p><p>; A</p><p>t 1</p><p>0:3</p><p>8)</p><p>Ch</p><p>am</p><p>ad</p><p>o</p><p>ao</p><p>Ju</p><p>ízo</p><p>(Jo</p><p>12</p><p>:31</p><p>)</p><p>Bo</p><p>de</p><p>d</p><p>o</p><p>Se</p><p>nh</p><p>or</p><p>(H</p><p>b</p><p>9:2</p><p>5-</p><p>26</p><p>;</p><p>D</p><p>TN</p><p>24</p><p>e</p><p>27</p><p>5;</p><p>A</p><p>A</p><p>33</p><p>)</p><p>Cr</p><p>ist</p><p>o</p><p>ve</p><p>m</p><p>su</p><p>bt</p><p>am</p><p>en</p><p>te</p><p>p</p><p>ar</p><p>a</p><p>pu</p><p>rifi</p><p>ca</p><p>r S</p><p>eu</p><p>te</p><p>m</p><p>pl</p><p>o.</p><p>(M</p><p>l 3</p><p>:1-</p><p>3;</p><p>Jo</p><p>2:</p><p>13</p><p>-2</p><p>2;</p><p>D</p><p>A</p><p>16</p><p>1)</p><p>Cr</p><p>ist</p><p>o</p><p>“h</p><p>ab</p><p>ita</p><p>” (</p><p>Jo</p><p>1:</p><p>14</p><p>);</p><p>Cê</p><p>rim</p><p>ôn</p><p>ia</p><p>da</p><p>ág</p><p>ua</p><p>an</p><p>tit</p><p>íp</p><p>ica</p><p>(Jo</p><p>7:</p><p>37</p><p>) e</p><p>ce</p><p>rim</p><p>ôn</p><p>ia</p><p>da</p><p>s l</p><p>uz</p><p>es</p><p>(Jo</p><p>8:</p><p>12</p><p>a)</p><p>Ce</p><p>ia</p><p>do</p><p>S</p><p>en</p><p>ho</p><p>r</p><p>(1</p><p>C</p><p>o</p><p>5:7</p><p>; 1</p><p>1:2</p><p>3-</p><p>26</p><p>)</p><p>Re</p><p>m</p><p>oç</p><p>ão</p><p>d</p><p>o</p><p>pe</p><p>ca</p><p>do</p><p>(1</p><p>C</p><p>o5</p><p>:6-</p><p>8)</p><p>Pr</p><p>im</p><p>íci</p><p>as</p><p>d</p><p>o</p><p>Es</p><p>pí</p><p>rit</p><p>o</p><p>(R</p><p>m</p><p>8:</p><p>23</p><p>)</p><p>“C</p><p>hu</p><p>va</p><p>T</p><p>em</p><p>po</p><p>rã</p><p>”</p><p>(Jl</p><p>2:</p><p>23</p><p>; A</p><p>t 2</p><p>)</p><p>Ch</p><p>am</p><p>ad</p><p>o</p><p>ao</p><p>Ju</p><p>ízo</p><p>(A</p><p>p</p><p>8 e</p><p>9;</p><p>1</p><p>Pe</p><p>4:</p><p>17</p><p>)</p><p>Cr</p><p>ist</p><p>o</p><p>pu</p><p>rifi</p><p>ca</p><p>o</p><p>te</p><p>m</p><p>pl</p><p>o</p><p>da</p><p>alm</p><p>a (</p><p>M</p><p>l 3</p><p>:3;</p><p>2</p><p>Co</p><p>6:</p><p>16</p><p>-1</p><p>7;</p><p>1 C</p><p>o</p><p>3:1</p><p>6 e</p><p>17</p><p>; D</p><p>A</p><p>16</p><p>1)</p><p>O</p><p>bs</p><p>er</p><p>va</p><p>r a</p><p>fe</p><p>sta</p><p>h</p><p>oj</p><p>e P</p><p>P</p><p>54</p><p>0-</p><p>54</p><p>1,</p><p>ág</p><p>ua</p><p>an</p><p>tit</p><p>íp</p><p>ica</p><p>(Jo</p><p>7:</p><p>37</p><p>) e</p><p>L</p><p>uz</p><p>(M</p><p>t 5</p><p>:14</p><p>-</p><p>16</p><p>; J</p><p>o</p><p>8:1</p><p>2b</p><p>)</p><p>Fe</p><p>sta</p><p>d</p><p>o</p><p>Co</p><p>rd</p><p>eit</p><p>o</p><p>(L</p><p>c 2</p><p>2:1</p><p>5-</p><p>16</p><p>; M</p><p>t 2</p><p>6:2</p><p>9;</p><p>Ap</p><p>19</p><p>:7-</p><p>9;</p><p>15</p><p>:1-</p><p>3)</p><p>Re</p><p>m</p><p>oç</p><p>ão</p><p>d</p><p>o</p><p>pe</p><p>ca</p><p>do</p><p>(1</p><p>C</p><p>o</p><p>15</p><p>:22</p><p>e</p><p>53</p><p>; A</p><p>p</p><p>14</p><p>:4-</p><p>5)</p><p>14</p><p>4.0</p><p>00</p><p>co</p><p>m</p><p>o</p><p>pr</p><p>im</p><p>íci</p><p>as</p><p>(A</p><p>p</p><p>14</p><p>:4)</p><p>“C</p><p>hu</p><p>va</p><p>S</p><p>er</p><p>ôd</p><p>ia”</p><p>(Jo</p><p>el</p><p>2:2</p><p>3;</p><p>Ap</p><p>18</p><p>:1)</p><p>Ch</p><p>am</p><p>ad</p><p>o</p><p>ao</p><p>Ju</p><p>ízo</p><p>(A</p><p>p</p><p>14</p><p>:6</p><p>e 7</p><p>; J</p><p>l 2</p><p>:1)</p><p>18</p><p>44</p><p>ao</p><p>fi</p><p>m</p><p>d</p><p>o</p><p>M</p><p>ilê</p><p>ni</p><p>o</p><p>(D</p><p>n</p><p>8:1</p><p>4;</p><p>Ap</p><p>11</p><p>:19</p><p>; 1</p><p>4:6</p><p>-8</p><p>e</p><p>20</p><p>)</p><p>Cr</p><p>ist</p><p>o</p><p>pu</p><p>rifi</p><p>ca</p><p>o</p><p>T</p><p>em</p><p>pl</p><p>o</p><p>ce</p><p>les</p><p>tia</p><p>l</p><p>(M</p><p>l 3</p><p>:1-</p><p>3;</p><p>G</p><p>C</p><p>42</p><p>4-</p><p>42</p><p>6)</p><p>N</p><p>ov</p><p>a T</p><p>er</p><p>ra</p><p>(Z</p><p>c 1</p><p>4:1</p><p>6;</p><p>Ap</p><p>7:</p><p>9-</p><p>12</p><p>;</p><p>14</p><p>:1-</p><p>5;</p><p>19</p><p>:6-</p><p>12</p><p>e</p><p>21</p><p>-2</p><p>2)</p><p>AT</p><p>F</p><p>es</p><p>tiv</p><p>id</p><p>ad</p><p>e</p><p>A</p><p>. 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Como inté-</p><p>rpretes historicistas, os adventistas</p><p>sempre reconheceram a estreita</p><p>ligação entre Daniel e Apocalipse.</p><p>Alguns assuntos, apresentados pela</p><p>primeira vez em Daniel, são repeti-</p><p>dos e aprimorados em Apocalipse</p><p>na medida em que ambos cobrem a</p><p>extensão da Era Cristã.</p><p>Em 1902 Ellen White escreveu:</p><p>“Era minha ideia ter os dois livros</p><p>encadernados juntos, Apocalipse</p><p>seguindo a Daniel, oferecendo mais</p><p>ampla luz sobre os assuntos apre-</p><p>sentados em Daniel. O alvo é unir</p><p>esses livros, mostrando que ambos</p><p>se relacionam com os mesmos as-</p><p>suntos” (WHITE, 2002, p. 117).</p><p>relações entre daniel e</p><p>aPocaliPse</p><p>Richard Lehmann</p><p>6</p><p>Esboço do capítulo</p><p>1. Introdução</p><p>2. Uso de Daniel pelo Novo Testamento</p><p>3. Alusões a Daniel em Apocalipse</p><p>4. Por que estudar Daniel e Apocalipse?</p><p>Relações entre Daniel e ApocalipseEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>148 149</p><p>Sendo que a moderna erudição liberal nega a possibilidade da profecia e re-</p><p>stringe Daniel e sua mensagem a um ambiente da Palestina do segundo século</p><p>a.C., o presente autor sugere que a igreja de hoje precisa de razões adicionais</p><p>para justificar seu estudo de Daniel e Apocalipse em conjunto.</p><p>Além dos vínculos de gênero literário comum (apocalíptico) e tema co-</p><p>mum, ele sugere outra linha de evidência: referências do Novo Testamento a</p><p>Daniel 2, 7 e 9. Os escritores do Novo Testamento não eram “futuristas” no</p><p>moderno sentido religioso do termo. Antes, eles reconheciam que as partes</p><p>escatológicas de Daniel não tinham ainda se cumprido — em seu tempo ou</p><p>antes do seu tempo, mas se destinavam a ter cumprimento em algum ponto</p><p>do tempo que era futuro para eles. Consequentemente, é legítimo ligar Dan-</p><p>iel a Apocalipse em seus pontos de interesse comum da Era Cristã.</p><p>Partindo de uma perspectiva mais ampla, o autor sugere que preocu-</p><p>pações éticas comuns, períodos de tempo cronológicos, bem como a ên-</p><p>fase sobre o Filho do homem messiânico em Daniel e Apocalipse de tal</p><p>modo se complementem e suplementem um ao outro que as duas profe-</p><p>cias devam ser estudadas em conjunto.</p><p>introdução</p><p>É procedimento tradicional entre os adventistas do sétimo dia analisar os</p><p>livros de Daniel e Apocalipse segundo suas relações mútuas (ver WHITE, 2002,</p><p>p. 116; 1957, v. 7, p. 971). Por exemplo, deve ser evidente para qualquer leitor</p><p>que os animais de Daniel 7 devem ser outra vez encontrados na besta do mar</p><p>de Apocalipse 13, que as fases milenial e executiva do juízo final em Apocalipse</p><p>20 não estão sem conexão com a descrição do juízo pré-advento de Daniel 7, e</p><p>que a permanência da mulher no deserto em Apocalipse 12:6, 14 é idêntica à</p><p>perseguição dos santos mencionada em Daniel 7:25.</p><p>Mas nem todos os pesquisadores veem a ligação do mesmo modo. Certos</p><p>teólogos preferem ver Isaías e Ezequiel como o pano de fundo para Apocalipse</p><p>(COMBLIN, 1965, p. 11). Portanto, torna-se necessário hoje — muito mais do</p><p>que no passado — justificar nossa escolha e nossa interpretação do livro de</p><p>Apocalipse em conexão com o livro de Daniel. Que razões podemos sugerir</p><p>para alinhar Apocalipse especialmente com o livro de Daniel?</p><p>Se vemos um elo relacionado entre as duas profecias, é essencialmente</p><p>porque encontramos nelas a mesma descrição, periódica e contínua, da história</p><p>do mundo e da igreja. Cremos que esses livros tratam da nossa história do mun-</p><p>do e armam seus principais cenários em conexão com a história da redenção.</p><p>A erudição crítico-histórica considera o livro de Daniel como restrito ao</p><p>Judaísmo do segundo século a.C. Somente alguns versículos são aceitos como</p><p>de natureza profética. Consequentemente, é necessário estabelecer a partir das</p><p>Escrituras se Daniel tinha uma mensagem apocalíptica que se estendia além</p><p>daquela época. Podemos legitimamente perguntar aos escritores do Novo Tes-</p><p>tamento se Daniel menciona eventos do fim dos tempos e se eles viam o cum-</p><p>primento de suas profecias como ocorrendo em pontos futuros para seus dias.</p><p>Se podemos responder afirmativamente a essas interrogações, temos então</p><p>o direito de ligar Daniel e Apocalipse sobre a base de uma interpretação comum.</p><p>Além disso, se podemos estabelecer que as profecias de Daniel eram percebidas</p><p>nos tempos do Novo Testamento como tendo precisas aplicações históricas, en-</p><p>tão seremos capazes de interpretar os dois livros como lidando com a história</p><p>contínua deste mundo em relação com o plano da salvação.</p><p>uso de daniel Pelo novo testamento</p><p>A pedra que destrói</p><p>A profecia de Daniel 2 é uma narração de uma sucessão de poderes políticos</p><p>que se estendem desde os dias de Daniel até o fim dos tempos (Dn 2:36-45).</p><p>Viam os autores do Novo Testamento a profecia já cumprida? É verdade que os</p><p>Evangelhos se referem apenas à última parte dela — a pedra que fere a imagem</p><p>metálica em seus pés. Mas é de interesse ver se eles percebiam a ação destrutiva</p><p>da pedra como um evento passado ou futuro.</p><p>Duas referências são feitas à profecia de Daniel 2. Em Lucas 20:18 e Ma-</p><p>teus 21:44, é feita referência a uma pedra. “Todo o que cair sobre esta pedra</p><p>ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó” (Mt</p><p>21:44). A leitura desses dois textos poderia sugerir que eles estão aludindo</p><p>a Salmo 118:22-23 em vez de Daniel 2, sendo que a primeira passagem lida</p><p>com a pedra rejeitada pelos construtores, que se tornou a pedra angular do</p><p>Templo. Contudo, por várias razões cremos que nesse caso Jesus combina</p><p>ambas as referências (Sl 118 e Dn 2) em sua declaração.</p><p>Ambos os textos do Evangelho parecem lembrar a dupla ação declarada</p><p>em Daniel 2:34-35. A pedra, foi dito, quebra os reinos em pedaços e os es-</p><p>palha como “a palha das eiras no estio”. Em outras palavras, a pedra esmaga</p><p>e tritura. Nos Evangelhos, pessoas que caem sobre a pedra são esmagadas ou</p><p>são trituradas se a pedra cai sobre elas.</p><p>Relações entre Daniel e ApocalipseEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>150 151</p><p>Além disso, Mateus e Lucas usam o mesmo verbo grego que a LXX (Teod.)</p><p>em Daniel 2:44 para “esmagar” ou “triturar. “Triturar” (grego, likmaō), ocorre</p><p>na LXX (Teod.) somente em Daniel 2:44 e Rute 3:2.</p><p>Parece evidente que quando Mateus e Lucas declaram que aquele que cai</p><p>sobre a pedra será esmagado e aquele sobre o qual a pedra cai será triturado — a</p><p>mesma ordem verbal que em Daniel —, eles têm Daniel 2 em mente.</p><p>Vale a pena saber como Jesus e os escritores dos Evangelhos compreendiam</p><p>essa referência à pedra de Daniel. Olhavam eles para os eventos do primeiro século</p><p>como cumprimento da profecia? Alguns acham que sim; mas eu penso que não.</p><p>Lucas 20:18. Analisemos o contexto imediato da referência extraída de Lu-</p><p>cas 20. Ele segue a parábola dos lavradores maus (Lc 20:9-16) e prediz o jul-</p><p>gamento de Israel. Quando se aproxima o tempo da colheita, o proprietário</p><p>quer receber o fruto de sua vinha. Mas a impiedade dos lavradores o compele a</p><p>exercer juízo sobre eles e alugar a vinha a uma nova turma de lavradores.</p><p>Seus ouvintes mentalmente recusaram tal resultado. Como poderia Deus</p><p>escolher outra nação? Assim Jesus — falando para a questão silenciosa — per-</p><p>gunta-lhes: “Que quer dizer, pois, o que está escrito: A pedra que os constru-</p><p>tores rejeitaram, esta veio a ser a principal pedra, angular?” (v. 17). Ele então</p><p>traz à baila a referência a Daniel 2 (v. 18).</p><p>Uma leitura superficial poderia levar o leitor a imaginar que Jesus vê sua</p><p>rejeição pelos judeus como o cumprimento por Israel da profecia de Daniel 2.</p><p>Uma leitura mais cuidadosa mostra que este não é o caso.</p><p>O futuro escatológico do verso 18 deve ser notado (ficará em pedaços, ficará</p><p>reduzido a pó). Os efeitos da pedra são projetados para um futuro indeterminado.</p><p>Além disso, se a designação “construtores” aponta para os dirigentes de Is-</p><p>rael ou para a própria nação, o “todo o que” do verso 18 sugere uma aplicação</p><p>universal. O juízo a cair sobre Israel em 70 d.C. é apenas um exemplo histórico</p><p>apontando para o que acontecerá a “todo o que” rejeita o Messias.</p><p>Essa interpretação é confirmada pela passagem de Mateus, que é mais</p><p>detalhada do que a de Lucas.</p><p>Mateus 21:44. Este verso não tem sido retido por todos os exegetas. Creio,</p><p>porém, juntamente com o The Seventh-Day Adventist Bible Commentary, que</p><p>ele pode ser mantido. O verso aparece em importantes manuscritos; e sua omis-</p><p>são em outros pode ser explicada como um erro de copista devido à palavra</p><p>final semelhante nos versos 43 e 44 (autēs/auton) no texto grego. Além disso, o</p><p>verso 44 se ajusta perfeitamente à linha de raciocínio do contexto.</p><p>O Evangelho de Mateus é fortemente orientado para a igreja. Beda Rigaux</p><p>afirma que entrar no Evangelho de Mateus é como entrar numa catedral. Não</p><p>é de surpreender que Mateus seja aqui mais detalhado e preciso do que Lucas.</p><p>Portanto, ele registra a declaração de Jesus: “O reino de Deus [...] será entregue</p><p>a um povo que lhe produza os respectivos frutos” (v. 43). Além disso, Jesus não</p><p>faz sua referência a Daniel 2 após a citação de Salmo 118, mas imediatamente</p><p>depois de mencionar a vinda de outra “nação”.</p><p>Temos, portanto, em ordem sucessiva: o verso 42 e o Salmo 118; o verso 43</p><p>e a transferência do reino; o verso 44 e Daniel 2. A referência à igreja (reino de</p><p>Deus) é posta entre as duas referências a uma pedra. O verso 42 está ligado ao</p><p>verso 43 por meio de uma conjunção — “portanto” (dia touto) — a qual mostra</p><p>que se Jesus é a pedra angular, Ele é a pedra angular da igreja.</p><p>O verso 44 está ligado ao verso 43 por meio de um pronome demonstrativo</p><p>de proximidade (houtos, “esta”) em vez do pronome demonstrativo de distân-</p><p>cia (ekeinos, “aquela”) encontrado em Lucas. Tivesse Mateus desejado omitir</p><p>a referência à igreja (v. 43) a fim de ligar o verso 44 ao verso 42 (as duas de-</p><p>clarações sobre pedra), ele teria simplesmente usado “aquela [ekeinos] pedra” de</p><p>Lucas. Essa linha de raciocínio significa que a igreja está edificada sobre Jesus</p><p>Cristo (v. 42) e que ela participa de sua vitória (v. 43). A atitude dos judeus para</p><p>com a igreja é semelhante àquela que eles têm para com Cristo.</p><p>Significa isso que a igreja é o reino predito na profecia de Daniel? Não, ab-</p><p>solutamente. Por três razões, a pedra não deve ser identificada com a igreja no</p><p>primeiro advento de Cristo. Primeira, há o tempo futuro do verso 44 conforme</p><p>observado antes (“todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços”). So-</p><p>mente o juízo final revelará e demonstrará a vitória da igreja.</p><p>Segunda, existe a distinção que Jesus faz na parábola entre a primeira e a seg-</p><p>unda vinda do dono de casa ou pai de família. Quando ele envia seu filho, o tempo</p><p>da colheita não é ainda chegado. Como disse Mateus, ele apenas “se aproximava” (v.</p><p>34, KJV). Mas quando o dono de casa vier para executar justiça sobre seus ímpios</p><p>lavradores (v. 40), é também com uma intenção de receber os frutos em seu tempo.</p><p>Assim, segundo a parábola, há somente um tempo de colheita; quando Jesus esteve</p><p>na Terra esse tempo estava apenas “se aproximando”.</p><p>Uma razão adicional está no fato de que Mateus fornece um detalhe (v. 41)</p><p>que não aparece em Lucas: os novos lavradores “lhe produzirão os respectivos</p><p>frutos em seu devido tempo”, isto é, no tempo da colheita. E só então sua fi-</p><p>delidade será demonstrada. Esta involuntária alusão à igreja pelos fariseus pode</p><p>ser explicada em termos da parábola e do registro pelo método semítico da</p><p>inclusão. Esse método consiste em repetir no final de uma história (v. 41) o</p><p>tema do início (v. 34) a fim de dar coerência ao relato (ver Mt 7:16, 20; 12:39, 45;</p><p>15:2, 20; 16:6, 12; 18:1, 4 etc.). A função adequada dos novos lavradores lembra</p><p>Relações entre Daniel e ApocalipseEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>152 153</p><p>o propósito da história, seu principal objetivo. No tempo da colheita o Senhor</p><p>virá para receber o fruto. Há, portanto, um tempo no futuro quando o Senhor</p><p>virá à sua vinha; naquele tempo Ele será recebido por sua propriedade.</p><p>A profecia de Daniel 2 diz respeito ao fim do tempo. A pedra (rei-</p><p>no) que “trilharia” (trituraria) as nações, segundo as palavras de Cristo, era</p><p>futura em seus dias e pertence ao vitorioso estabelecimento do eterno reino</p><p>de Deus. Isso acha confirmação também no fato de que a igreja dos crentes</p><p>genuínos não é plenamente manifestada até “o tempo da colheita”, “quando</p><p>Ele [Cristo] virá para ser glorificado em seus santos, e ser admirado em to-</p><p>dos os que creem [...] naquele dia” (2Ts 1:10, KJV).</p><p>O Filho do Homem e a abominação da desolação</p><p>Depois de Daniel 2, não é surpreendente ver o Novo Testamento dar ainda</p><p>mais atenção a Daniel 7. C. H. Dodd acha que esse capítulo do Antigo Testa-</p><p>mento “pertence aos próprios fundamentos do pensamento neotestamentário”</p><p>(DODD, 1968, p. 69). Esse capítulo serviu como ponto de referência para Jesus</p><p>bem como para os apóstolos. A mais óbvia referência (embora não citada dire-</p><p>tamente) é Daniel 7:13 — a profecia do Filho do homem vindo nas nuvens.</p><p>Outra vez, segundo Dodd, ”obviamente temos de lidar com uma daque-</p><p>las passagens que desde o início guiou de uma maneira decisiva o pen-</p><p>samento e o vocabulário da igreja concernente ao que tinha a ver com um</p><p>dos pontos essenciais do Kerygma, o retorno de Cristo como juiz e Salvador</p><p>da humanidade” (DODD, 1968, p. 67).</p><p>O Filho do homem nas nuvens é mencionado por Jesus em seu discurso es-</p><p>catológico: “E então eles verão”, disse Ele, “o Filho do homem vindo nas nuvens com</p><p>grande poder e glória” (Mc</p><p>13:26, KJV). Diante do Sinédrio, Ele incluiu com a</p><p>alusão a Daniel uma referência a Salmo 110:1. “E vereis o Filho do homem assen-</p><p>tado à mão direita do poder, e vindo nas nuvens do céu” (Mc 14:62). Uma referência</p><p>implícita a Daniel 7 é apresentada nas palavras dos anjos aos apóstolos na ascensão</p><p>de Jesus quando uma nuvem o encobriu dos seus olhos. “Esse Jesus que dentre vós</p><p>foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir” At 1:11). O apóstolo Paulo tirou</p><p>disto uma conclusão óbvia: no retorno de Cristo os redimidos serão arrebatados</p><p>“entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares” (1Ts 4:17).</p><p>É possível que quando Paulo afirma que os santos julgarão o mundo (1Co</p><p>6:2), ele esteja pensando em Daniel 7:22, onde diz que o “juízo foi dado aos san-</p><p>tos” (KJV) e eles possuem o reino (veja também Ap 20:4). Daniel 7:18 também</p><p>declara que os santos do Altíssimo receberão o reino. Essa alusão ao reinado</p><p>dos santos é refletida em 2 Timóteo 2:12. Finalmente Jesus afirma que é Ele</p><p>quem confere o reino aos santos para que possam reinar com Ele (Lc 22:29, 30;</p><p>cf. Ap 5:9-10). Os conceitos de Daniel 7:18, 22 são combinados em uma simples</p><p>declaração de Jesus em Mateus 19:28 — “Na regeneração quando o Filho do</p><p>homem se assentar no trono da sua glória, vós também vos assentareis sobre</p><p>doze tronos, julgando as doze tribos de Israel.” Notemos que essas predições não</p><p>se referem a um evento do passado, mas são orientadas para o futuro.</p><p>Observemos que estas referências a Daniel na interpretação adventista têm</p><p>um caráter escatológico futuro. É o mesmo no uso feito delas pelo Novo Testamen-</p><p>to. E essas não são as únicas. Outras poderiam ser acrescentadas. Por exemplo,</p><p>Daniel 12:2/Mateus 25:46; Daniel 12:3/Mateus 13:43.</p><p>Concluamos esta parte do nosso estudo examinando a referência explícita de Je-</p><p>sus à “abominação da desolação” (Mt 24:15). Os judeus estavam familiarizados com</p><p>o livro de Daniel. Eles evidentemente viam no sacrilégio perpetrado por Antíoco</p><p>Epífanes o cumprimento de uma de suas profecias (1 Macabeus 1:54; 6:7). Como</p><p>poderia ter sido de outro modo para um povo afligido que tentava compreender os</p><p>eventos contemporâneos à luz da profecia? Tudo o que eles ainda aguardavam era</p><p>“a consumação, e o que está determinado será derramado sobre o assolador” (Dn</p><p>9:27) e o aparecimento do Messias. O advento do Messias e o fim do mundo eram</p><p>um e o mesmo acontecimento em sua estimativa (Mt 24:3).</p><p>O que é impressionante acerca da referência de Jesus à “abominação da des-</p><p>olação de que falou o profeta Daniel” é que Ele corrige a interpretação que os</p><p>judeus davam a isto. Para Ele, “a abominação da desolação” não tinha ainda</p><p>chegado! Jesus projetou no futuro além do seu tempo o que o pensamento judaico</p><p>considerava ter ocorrido. Certamente, é a Judeia, e mais precisamente Jerusalém,</p><p>diz Lucas, que vê o início desses eventos, mas eles se estenderão universalmente,</p><p>porque os justos têm de ser reunidos dos quatro ventos, da extremidade da</p><p>Terra até a extremidade do céu (Mc 13:27).</p><p>Podemos concluir esta seção observando que até onde temos pesquisa-</p><p>do as profecias de Daniel interpretadas no Novo Testamento, nenhuma é</p><p>vista como tendo tido uma aplicação no passado ou no presente pelos escri-</p><p>tores do Novo Testamento. Cada vez que o material é interpretado escato-</p><p>logicamente, é parte das profecias de Daniel que lida com o fim dos tempos.</p><p>Portanto, temos todos os motivos para pensar que o livro de Daniel é visto</p><p>pelos escritores do Novo Testamento como um livro cujo cumprimento é</p><p>esperado no futuro além deles, isto é, no fim da era.</p><p>Significa isto que os escritores do Novo Testamento estão adotando um</p><p>método futurista de interpretação? Não, porque como temos visto, eles es-</p><p>tão citando aquelas porções das profecias de Daniel 2 e 7 que em si mesmas</p><p>Relações entre Daniel e ApocalipseEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>154 155</p><p>estão lidando com o fim dos tempos. Referências ao texto de Daniel 9 nos</p><p>mostrarão que a igreja primitiva lia as profecias de Daniel em uma estrutura</p><p>cronológica e contínua. Para Jesus e os autores do Novo Testamento, o livro</p><p>de Daniel (especificamente os capítulos 2 e 7) não deve ser interpretado</p><p>em um sentido preterista. Nessas grandes cenas delineadas estamos lidando</p><p>muito mais com o tempo porvir.</p><p>Jesus, o Ungido de Daniel 9</p><p>A profecia das setenta semanas (Dn 9) tem sido objeto de considerável</p><p>estudo. Nossa interrogação é: via a igreja primitiva a profecia das setenta se-</p><p>manas como a vemos? Isto é, via ela em Jesus o cumprimento dessa profecia?</p><p>Eles a consideravam como tendo um caráter cronológico? Temos razão para</p><p>dizer sim a essas indagações.</p><p>Por unanimidade, os historiadores afirmam que no primeiro século de</p><p>nossa era a expectativa messiânica de Israel estava em efervescência. Te-</p><p>mos algumas evidências disso no Novo Testamento. Por exemplo, o apóstolo</p><p>Paulo justifica seu apelo a César diante dos principais dos judeus em Roma</p><p>por causa da “esperança de Israel” (At 28:20).</p><p>Essa esperança só podia ser a do Messias (1Tm 1:1). Lucas observa que</p><p>quando João Batista apareceu, o povo estava na expectativa, “discorrendo</p><p>todos no seu íntimo a respeito de João, se não seria ele, porventura, o próp-</p><p>rio Cristo” (Lc 3:15). Para Paulo, o assunto é claro. “No devido tempo”, diz</p><p>ele, “Cristo morreu pelos ímpios” (Rm 5:6,).</p><p>O próprio Jesus parece estar ciente do elemento tempo dessa profecia</p><p>que prediz o aparecimento e morte do Messias (Dn 9:25-26; cf. Mc 1:15). O</p><p>evangelista João, que presta grande atenção à questão da cronologia, sub-</p><p>linha essa ênfase quando relata a repetida observação de Jesus de que sua</p><p>hora ainda não era chegada (Jo 7:6, 8; 2:4; 7:30). No cenáculo, pouco antes</p><p>de ser preso, Jesus orou: “Pai, é chegada a hora” (Jo 17:1).</p><p>Neste contexto devemos compreender as palavras do apóstolo Paulo: “Vin-</p><p>do, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho” (Gl 4:4). E quando</p><p>ele declara precisamente que Jesus foi “nascido de mulher, nascido sob a lei”, é</p><p>porque ele pensa na vinda de Jesus como situada na história.</p><p>É provável, portanto, assumir que a igreja primitiva reconhecia Jesus como</p><p>sendo o Cristo, quer dizer o Ungido, porque via seu determinado aparecimento</p><p>e execução como um cumprimento de Daniel 9. Uma importante declaração de</p><p>Jesus indica muito bem que Ele se considerava o Ungido predito pela profecia.</p><p>Disse Ele em Mateus 26:28: “Este é o meu sangue do novo testamento, que é</p><p>derramado por muitos” (KJV). Philip Mauro faz a observação de que as pala-</p><p>vras de Cristo não poderiam estar em mais perfeito acordo com as da profecia:</p><p>“E ele confirmará a aliança com muitos” (MAURO apud FORD, 1978, p. 201).</p><p>Assim o Novo Testamento confirma que a profecia das setenta semanas</p><p>concernente ao Ungido encontra seu cumprimento na pessoa de Jesus. Sua</p><p>vinda e morte eram dependentes de um programa conhecido e anunciado</p><p>há muito tempo pela profecia.</p><p>Podemos acrescentar que a relação entre os livros de Daniel e Apocalipse está</p><p>também nesta área da profecia messiânica. A Igreja Adventista do Sétimo Dia tem</p><p>bons motivos para estar interessada em ambos os livros proféticos. Como profecias</p><p>apocalípticas, eles apresentam a história em seu desdobramento associando-a com</p><p>o foco central do Céu — a pessoa e a obra de Jesus Cristo.</p><p>alusões de aPocaliPse a daniel</p><p>Que lugar ocupa o livro de Daniel em Apocalipse? Se esses dois livros têm</p><p>uma estreita relação, devemos procurar alguns aspectos do livro de Daniel li-</p><p>gados ao Apocalipse. H. B. Swete fez uma análise do vocabulário de Apocalipse.</p><p>Embora sua obra seja muito antiga (a data da segunda edição que eu consultei é</p><p>1907 [SWETE, 1907]) ela nos será útil para nosso propósito.</p><p>Embora certos livros da Bíblia sejam usados mais do que outros em Apoc-</p><p>alipse, há uma ausência total de citações formais. Mais da metade das referên-</p><p>cias são extraídas os Salmos, das profecias de Isaías e Ezequiel, e do livro de</p><p>Daniel. Mas segundo Swete, proporcional à sua extensão,</p><p>o livro de Daniel é de</p><p>longe o mais usado (SWETE, 1907, clii). Segundo P.-M. Bogaert, “implícita ou</p><p>explícita, a referência a Daniel constitui uma das mais certas características da</p><p>literatura de origem apocalíptica” (BOGAERT, 1980, p. 36). Seria tedioso apre-</p><p>sentar todas as referências, porque há mais de 30. Mas notemos várias.</p><p>Primeiro, imagem de Daniel 2. Esta profecia de Daniel diz respeito ao</p><p>“que há de ser futuramente” (Dn 2:45). João usa este vocabulário em algumas</p><p>seções não descritivas para especificar que suas visões se relacionam com</p><p>“coisas que em breve devem acontecer” (1:1; 22:6) ou “depois destas coisas”</p><p>(4:1). Segundo Daniel 2:28, o profeta declarou que o Deus que revela misté-</p><p>rios fez saber ao rei o que há de ser nos últimos dias. Agora, segundo João,</p><p>é o próprio Jesus que lhe pede que escreva as coisas que hão de acontecer</p><p>depois destas, o mistério das sete estrelas (Ap 1:19, 20).</p><p>Estas alusões a Daniel 2 provêem mais do que imagens linguísticas. Elas</p><p>são escritas nas séries de eventos que se sucedem uns aos outros. O uso do</p><p>Relações entre Daniel e ApocalipseEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>156 157</p><p>vocabulário de Daniel não é feito por acaso. Por exemplo, a visão de Dan-</p><p>iel (cap. 2) termina com o juízo de Deus simbolizado por uma pedra que</p><p>esmiúça a estátua e espalha seus pedaços em tal extensão que “o vento os</p><p>levou, que nenhum lugar foi achado para eles” (Dn 2:35, KJV). De maneira</p><p>idêntica, a visão dada a João acerca do mundo presente finaliza com a cena</p><p>do juízo final de “um grande trono branco, e aquele que se assentava sobre</p><p>ele, de cuja face a terra e o céu fugiram; e não foi achado nenhum lugar para</p><p>eles” (Ap 20:11, KJV). Há uma clara correspondência entre o fim da visão de</p><p>Daniel e o fim do presente mundo segundo João.</p><p>O capítulo de Daniel mais citado em Apocalipse é o capítulo 7. Veja</p><p>as 12 referências enumeradas abaixo.1 Alusões a Daniel parecem às vezes</p><p>fazer mais do que prover fraseologia. Antes, são escritas na perspectiva de</p><p>uma interpretação linear, de conformidade com o que temos encontrado</p><p>em outro lugar no Novo Testamento. Por exemplo, Jesus vem com as nu-</p><p>vens (Ap 1:7; Dn 7:13), e Ele se mostra a João como um semelhante ao</p><p>Filho do homem (Ap 1:13; Dn 7:13).</p><p>Como em Daniel, a ação do chifre pequeno termina na guerra que ele trava</p><p>contra os santos (Dn 7:21-22, 25), assim em Apocalipse é o mesmo para a besta</p><p>do mar que profere blasfêmias e faz guerra contra os santos (Ap 13:1-10). Sem</p><p>dúvida, o Apocalipse é uma obra original, e não uma cópia de Daniel. Os dois</p><p>livros são assinalados, porém, por similaridades que justificam sua interpre-</p><p>tação mútua como faz a Igreja Adventista do Sétimo Dia.</p><p>Além das muitas alusões a Daniel a serem encontradas em Apocalipse, está</p><p>o fato de que ambos os livros proféticos partilham as características comuns</p><p>da literatura apocalíptica.2 A profecia apocalíptica apresenta uma abrangência</p><p>cósmica do grande conflito entre o bem e o mal, assegurando ao crente quanto</p><p>ao controle de Deus na História e a certeza da vindicação do seu povo em um</p><p>glorioso ponto culminante escatológico. Assim, o desdobramento do seu tema</p><p>comum serve para esclarecer as respectivas profecias de cada um deles.</p><p>1 Dn 7:3/Ap 11:7; Dn 7:4-6/Ap 13:2; Dn 7:7/Ap 12:3; Dn 7:9/Ap 1:14; Dn 7:10/Ap 20:12; Dn</p><p>7:10/Ap 5:11; Dn 7:13/Ap 1:7; Dn 7:13/Ap 1:13; Dn 7:18/Ap 22:5; Dn 7:20/Ap 13:5; Dn 7:21/Ap</p><p>13:7; Dn 7:25/Ap 12:14.</p><p>2 Para uma revisão abrangente destes, veja neste volume, Kenneth Strand, “Princípios Funda-</p><p>mentais de Interpretação”, cap. 1.</p><p>Por Que estudar daniel e aPocaliPse?</p><p>Notamos agora três características que especialmente justificam o estudo</p><p>comum de Daniel e Apocalipse em nosso tempo.</p><p>Qualidade ética. Escreve Ellen G. White concernente a Daniel e Apocalipse:</p><p>“Quando os livros de Daniel e Apocalipse forem bem compreendidos, terão os</p><p>crentes uma experiência religiosa inteiramente diferente” (WHITE, 2002, p. 114).</p><p>E outra vez: “Precisamos estudar a realização dos propósitos de Deus na história</p><p>das nações e na revelação de coisas vindouras, para que possamos estimar em seu</p><p>verdadeiro valor as coisas visíveis e as invisíveis” (WHITE, 1952, p. 184).</p><p>Destes livros apocalípticos brotam importantes consequências éticas. H.</p><p>H. Rowley (1944, p. 12) reconhece esta verdade quando escreve: “As visões</p><p>de Daniel e do livro de Apocalipse merecem nossa atenção não somente</p><p>pelos detalhes de sua forma, mas pelo grande princípio espiritual que eles</p><p>mantêm por toda parte.” A convicção geral concernente a esta característica</p><p>ética é tal que certos escritores pensam que ela é a única. P. Fruchon, por</p><p>exemplo, declara que a compreensão da apocalíptica deveria ser psicológica</p><p>ou sociológica, até mesmo estética (FRUCHON, 1977, p. 96).</p><p>É de fato notável observar que Daniel e Apocalipse se iniciam com re-</p><p>latos eminentemente éticos (Dn 1:6-21; Ap 1:9). Através das visões é apre-</p><p>sentada ali uma escolha entre fidelidade à vontade de Deus ou recuo ante</p><p>a terrível pressão dos poderes malignos. As visões simbólicas não propõem</p><p>simplesmente denunciar os inimigos de Deus, mas chamar os crentes à</p><p>completa fidelidade Àquele que reina e que vem para fazer justiça.</p><p>O conteúdo ético da profecia apocalíptica lhe confere um caráter eterno.</p><p>Lembra que o conteúdo profético diz respeito ao grande conflito entre Satanás</p><p>e Deus em que a vitória divina está garantida. Assim, a atenção se volta para a</p><p>vitória final de Deus e o seu significado para o crente.</p><p>O fiel leitor de Daniel e Apocalipse não se perde em especulação acerca do fu-</p><p>turo, antes acha nestes dois livros uma clara compreensão do tempo em que vive e</p><p>um motivo para a ação. Como o apóstolo Paulo, que anunciou a futura vinda do</p><p>Senhor nas nuvens do céu e depois avançou para a ética do casamento, atitudes</p><p>políticas, relações sociais, e assim por diante, certamente os escritores da apocalíp-</p><p>tica também fazem soar uma dimensão ética convidando ao exercício da fé e obe-</p><p>diência. Nada pode prover um melhor fundamento para a ética do que a expectativa</p><p>de um Salvador que virá e a certeza que Daniel e Apocalipse proporcionam pelo</p><p>metódico e sucessivo cumprimento de suas profecias.</p><p>Relações entre Daniel e ApocalipseEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>158 159</p><p>Característica cronológica. A cronologia é um elemento importante nos livros de</p><p>Daniel e Apocalipse. Esta é a segunda característica semelhante que consideraremos.</p><p>Embora J. Moltmann não dê à escatologia o mesmo significado que os ad-</p><p>ventistas, ele diz com razão: “O cristianismo é completamente escatológico, é</p><p>esperança, visão e orientação com antecedência, portanto também uma partida</p><p>e uma mudança a partir do presente. [...] A perspectiva escatológica não é um</p><p>aspecto do cristianismo, é em todos os aspectos o centro da fé cristã. Há segu-</p><p>ramente apenas um problema real na teologia cristã; é apresentado a ela por sua</p><p>finalidade, e através disto, é colocado para a humanidade e para o pensamento</p><p>humano: é o problema do futuro” (MOLTMANN, 1970, p. 2).</p><p>U. Vanni, também, reconhece que “o Apocalipse seria, além de sua roupagem</p><p>literária, um livro de profecia” (VANNI, 1980, p. 27). E P. Prigent, que não sim-</p><p>patiza com uma interpretação do Apocalipse no estilo adventista do sétimo dia,</p><p>tem de admitir que “não é uma questão de reduzir a mensagem do Apocalipse</p><p>à afirmação de um eterno presente”. “O livro”, diz ele, “está cheio de declarações</p><p>relativas ao tempo e até mesmo à cronologia. Devemos fazer justiça a elas.”</p><p>Essas ideias são arranjadas em Daniel e Apocalipse em uma maneira de</p><p>composição recorrente. J. Lambrecht, que analisou a estrutura do Apocalipse,</p><p>declara que repetição e progressão constituem as características essenciais da</p><p>composição do livro (LAMBRECHT, 1980, p. 103).</p><p>Ora, se estas características relacionam Daniel e Apocalipse um ao</p><p>outro, relaciona-os também no método do discurso ritual. De acordo com</p><p>Levi-Strauss (apud PICARD, 1976), esse discurso</p><p>é o oposto do mito e ten-</p><p>ta “refazer uma continuidade a partir de uma descontinuidade”. Aplicada à</p><p>história, poderia mostrar que forma uma entidade e tende para um objetivo.</p><p>Cada seção é uma retomada sequencial da mesma história global a fim de</p><p>adicionar detalhes e progredir em direção à explicação.</p><p>Temos citado várias referências, mas elas bem mostram que os pesquisa-</p><p>dores de todos os matizes de opinião às vezes admitem, a despeito de si mes-</p><p>mos, que a profecia apocalíptica exige ser orientada para o futuro de uma forma</p><p>bastante diferente dos profetas clássicos. “Ao clamor dos profetas: ‘Até quando,</p><p>ó Senhor, até quando?’ os escritores apocalípticos dão o ano, o dia, e a hora”</p><p>(RUSSEL apud FRUCHON, 1977, p. 435), por assim dizer. “Em outras palavras,</p><p>a profecia é compreendida não mais como uma promessa que desvenda o futuro,</p><p>mas como uma predição de eventos que têm de ser cumpridos. Ao mesmo tem-</p><p>po, a interpretação apocalíptica se entende e se cumpre como acerto de contas e</p><p>previsão” (FRUCHON, 1977; ver BARR, 1962, v. 33, p. 29).</p><p>Sendo que Daniel e Apocalipse cobrem os mesmos períodos da história, eles cer-</p><p>tamente merecem ser estudados em conjunto. Em pontos seus dados cronológicos so-</p><p>brepõem-se uns aos outros, expressos às vezes nos mesmos termos (Ap 12:14; Dn 7:25).</p><p>Finalmente, notemos um último elemento comum.</p><p>A natureza cristocêntrica da apocalíptica. Não podemos deixar de ligar</p><p>Daniel e Apocalipse quando descobrimos em cada um a figura central do Filho</p><p>do homem que vem nas nuvens do céu. “A visão cristã da história que nos vem</p><p>de Patmos é primeiramente esta: uma visão de Cristo e de sua indivisível, mas</p><p>certa e irresistível parte na história” (FERET, 1943, p. 98). A primeira palavra</p><p>profética de Apocalipse diz respeito à vinda do Filho do homem nas nuvens</p><p>(1:7). Todo o livro está centralizado nesta vinda. É dada como um ponto de</p><p>referência para quase todas as igrejas (2:5, 16, 25; 3:3, 11, 20). É dada como um</p><p>ponto terminal: “Certamente, venho sem demora” (22:20).</p><p>considerações finais</p><p>Muitas relações entre Daniel e Apocalipse são evidentes. Por exemplo, a</p><p>adoração da imagem de ouro em Daniel 3 e da imagem da besta em Apoc-</p><p>alipse 13; a visão de Cristo em Daniel 10 e Apocalipse 1; a queda de Ba-</p><p>bilônia em Daniel 5 e Apocalipse 14 e 18; o Deus que vem para livrar os Seus</p><p>em Daniel 3 e 6 e Apocalipse 14; as bestas de Daniel 7 e Apocalipse 13 e 17;</p><p>os tempos de Daniel 7 e Apocalipse 11, 12, etc. Ambos os livros proféticos</p><p>coincidem em seus dados cronológicos e preocupações éticas.</p><p>O próprio Jesus chamou a atenção de seus contemporâneos para a pedra</p><p>de Daniel 2 e para o Filho do homem de Daniel 7. Os evangelistas aponta-</p><p>vam para o Ungido de Daniel 9. O lugar central de Cristo na apocalíptica</p><p>bíblica, a ênfase colocada em Sua vinda; todos estes justificam para cada</p><p>cristão o estudo mútuo de Daniel e de Apocalipse.</p><p>referências</p><p>BARR, J. Biblical Words for Time. Londres: [s. n.], 1962. v. 33.</p><p>BOGAERT, P.-M. Les Apocalypses contemporaines de Baruch, d’Esdras et de Jean. In:</p><p>LAMBRECHT, J.; BEASLEY-MURRAY, G. R. (Eds.). L’Apocalypse johannique et l’Apocalyptique</p><p>dans le Nouveau Testament. Gembloux: J. Duculot, 1980.</p><p>COMBLIN, J. Le Christ dans l’Apocalypse. Tournai: [s. n.], 1965.</p><p>Estudos selecionados em interpretação profética</p><p>160</p><p>DODD, C. H. Conformément aux Ecritures. Paris: [s. n.], 1968.</p><p>FERET, H. M. L’Apocalypse de saint Jean: vision chrétienne d’histoire. Paris: Corrêa, 1943.</p><p>FORD, D. Daniel. Nashville: [s. n.], 1978.</p><p>FRUCHON, P. Sur l’interprétation des apocalypses. In: MONLOUBOU, L. (Ed.). Apocalypses et</p><p>théologie de l’espérance. Paris: Éditions du Cerf, 1977.</p><p>LAMBRECHT, J. A Structuration of Revelation 4, 1-22, 5. In: LAMBRECHT, J.; BEASLEY-</p><p>MURRAY, G. R. (Eds.). L’Apocalypse johannique et l’Apocalyptique dans le Nouveau Testament.</p><p>Gembloux: J. Duculot, 1980.</p><p>MOLTMANN, J. Théologie de l’espérance. Paris: [S.n.], 1970.</p><p>PICARD, J. C. Trois instances narratique, symbolique et idéologique: propositions d’analyse</p><p>applicables à un texte comme l’apocalypse. Foi et vie, v. 75, n. 4, p. 12-25, 1976.</p><p>ROWLEY, H. H. The Relevance of Apocalyptic: a study of Jewish and Christian apocalypses</p><p>from Daniel to the Revelation. Londres: Association Press, 1944.</p><p>VANNI,U. L’Apocalypse johannique: Etat de la question. In: LAMBRECHT, J.; BEASLEY-</p><p>MURRAY, G. R. (Eds.). L’Apocalypse johannique et l’Apocalyptique dans le Nouveau Testament.</p><p>Gembloux: J. Duculot, 1980.</p><p>WHITE, E. G. Comments. In: NICHOL, F. D. (Ed.). The Seventh-Day Adventist Bible</p><p>Commentary. Washington: Review And Herald Publishing Association, 1957. v. 7.</p><p>_____________. Educação. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2007.</p><p>_____________. Testemunhos para ministros e obreiros evangélicos. Tatuí: Casa Publicadora</p><p>Brasileira, 2002.</p><p>Sinopse editorial. Alguns ad-</p><p>ventistas que propõem um duplo</p><p>cumprimento para determinadas</p><p>profecias de Daniel e Apocalipse</p><p>afirmam que encontram endosso</p><p>para essa abordagem nos escritos</p><p>de Ellen G. White. Alguns aban-</p><p>donaram completamente o método</p><p>historicista a favor de uma forma</p><p>futurista de interpretação. Mas não</p><p>há nenhuma evidência de que Ellen</p><p>G. White achava que a igreja deve-</p><p>ria seguir qualquer outro método</p><p>de interpretação dessas profecias a</p><p>não ser o método historicista.</p><p>Em seus próprios escritos, as</p><p>profecias de Daniel e Apocalipse</p><p>se desenrolam em tempo histórico</p><p>o uso de daniel e</p><p>aPocaliPse Por</p><p>ellen g. White</p><p>George E. Rice</p><p>7</p><p>Esboço do capítulo</p><p>1. Introdução</p><p>2. Princípios pioneiros de interpretação profética</p><p>3. A perspectiva histórica</p><p>4. Declarações acerca de Jerusalém</p><p>5. Usos não exxpositivos da linguagem profética</p><p>6. Um expositor</p><p>7. Considerações finais</p><p>O uso de Daniel eEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>162 163</p><p>desde os dias de Daniel e João até o estabelecimento do reino eterno de Deus.</p><p>Por exemplo, ela reconhece o cumprimento sequencial das profecias de Apoc-</p><p>alipse através da Era Cristã em uma importante declaração:</p><p>No Apocalipse são pintadas as coisas profundas de Deus. [...] Suas verdades são di-</p><p>rigidas aos que vivem nos últimos dias da história da Terra, como o foram aos que</p><p>viviam nos dias de João. Algumas das cenas descritas nesta profecia estão no passado</p><p>e algumas estão agora tendo lugar; algumas apresentam-nos o fim do grande confli-</p><p>to entre os poderes das trevas e o Príncipe do Céu e algumas revelam os triunfos e o</p><p>regozijo dos remidos na Terra renovada (WHITE, 2010, p. 584, ênfase acrescentada).</p><p>Neste capítulo o autor demonstra a perspectiva historicista dos pioneiros</p><p>e de Ellen G. White. Ele examina várias citações extraídas de seus escritos</p><p>que supostamente ensinam o princípio de um duplo cumprimento que pode</p><p>ser aplicado às profecias de Daniel e Apocalipse. O estudo focaliza particu-</p><p>larmente o significado de sua frase frequentemente repetida, “a história se</p><p>repetirá”, e seus comentários concernentes à profecia de Cristo acerca da</p><p>destruição de Jerusalém e do fim do mundo.</p><p>introdução</p><p>Desde a formação da Igreja Adventista do Sétimo Dia, tem havido uma</p><p>tendência da parte de alguns de se afastar da abordagem historicista de inter-</p><p>pretação profética adotada já pela Reforma do século 16. Enquanto os advent-</p><p>istas têm se voltado para a história em busca do cumprimento da profecia e a</p><p>fim de compreender a direção da mão divina nos negócios das nações, alguns</p><p>creem que essa abordagem à profecia é uma hermenêutica defeituosa.</p><p>Apontando para o Grande Desapontamento de 1844 como um excelente ex-</p><p>emplo, alguns críticos do método historicista insistem em que os adventistas de</p><p>hoje têm fechado a porta da verdade progressiva perpetuando a errônea hermenêu-</p><p>tica dos pioneiros adventistas. A verdade não pode ser vista pelo uso desse método,</p><p>dizem eles, porque Satanás tem falsificado e manipulado a história secular para o</p><p>expresso propósito de desencaminhar aqueles que interpretam a profecia pelo mé-</p><p>todo historicista. Em vez disto, os estudantes de Daniel e Apocalipse devem</p><p>com-</p><p>preender que as profecias de ambos os livros têm seu cumprimento em uma sim-</p><p>ples geração — a última geração do fim dos tempos. Assim, há alguns que olham</p><p>para o futuro em busca do cumprimento da maior parte de Daniel e Apocalipse.</p><p>A finalidade deste estudo é examinar a compreensão de Ellen G. White acer-</p><p>ca de como as profecias de Daniel e Apocalipse devem ser estudadas, e como ela</p><p>mesma usava passagens desses livros em seus próprios escritos.</p><p>PrincíPios dos Pioneiros sobre interPretação Profética</p><p>Ellen G. White é muito clara em que os pioneiros adventistas que estuda-</p><p>vam as mensagens de Daniel e Apocalipse foram guiados por Deus ao usarem</p><p>o método historicista para interpretar a profecia apocalíptica. Concernente à</p><p>experiência de Guilherme Miller, diz ela:</p><p>Elo após elo da cadeia da verdade recompensava seus esforços, enquanto passo a</p><p>passo divisava as grandes linhas proféticas. Anjos celestiais estavam a guiar-lhe</p><p>o espírito e a abrir as Escrituras à sua compreensão.</p><p>Tomando a maneira por que as profecias se tinham cumprido no passado como</p><p>critério pelo qual julgar do cumprimento das que ainda estavam no futuro, che-</p><p>gou à conclusão de que o conceito popular acerca do reino espiritual de Cristo -</p><p>o milênio temporal antes do fim do mundo - não é apoiado pela Palavra de Deus</p><p>(WHITE, 2005, p. 321).</p><p>Achar defeitos no método historicista não é um novo desenvolvimento</p><p>entre os adventistas. Reconhecendo que existiam aqueles em seus dias que</p><p>desejavam reinterpretar esses dois livros, Ellen G. White (2008, v. 2, p. 111)</p><p>salienta que essas pessoas não compreendiam que Deus estava dirigindo os</p><p>próprios homens que efetuavam uma obra especial em apresentar a verdade</p><p>no tempo designado. “Mas o Senhor não põe sobre os que não tiveram uma</p><p>experiência em sua obra a responsabilidade de fazer uma nova exposição</p><p>das profecias que, por meio de seu Espírito Santo, Ele moveu seus escolhi-</p><p>dos servos a explicar” (WHITE, 2008, v. 2, p. 112).</p><p>Concernente à interpretação historicista pioneira das profecias de Daniel</p><p>e Apocalipse, diz Ellen White: “Repito: Ele [Deus] não está dirigindo ninguém</p><p>por seu Espírito Santo a arquitetar uma teoria que vai perturbar a fé nas solenes</p><p>mensagens que deu a seu povo para apresentar ao mundo” (WHITE, 2008, v.</p><p>2, p. 112). Em 1907, ela escreveu a A. G. Daniells: “Temos pesquisado as Es-</p><p>crituras; temos construído solidamente; e não temos tido de arrancar nossos</p><p>fundamentos e colocar novas vigas” (WHITE, 1981, v. 1, p. 54).</p><p>O uso de Daniel eEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>164 165</p><p>Em benefício das gerações posteriores, para que elas não esqueçam, deve ser</p><p>repetida a experiência daqueles que esquadrilharam as profecias e que tiveram</p><p>uma parte na proclamação da primeira e da segunda mensagens angélicas.</p><p>O Senhor declarou que a história do passado repetir-se-á ao entrarmos na</p><p>obra finalizadora. Toda verdade que Ele deu para estes últimos dias deve ser</p><p>proclamada ao mundo. Toda coluna por Ele estabelecida deve ser fortalecida.</p><p>Não podemos desviar-nos agora do fundamento estabelecido por Deus. Não</p><p>podemos agora entrar em nenhuma nova organização; pois isto significaria</p><p>apostasia da verdade (WHITE, 2008, v. 2, p. 390).</p><p>a PersPectiva historicista</p><p>Embora Ellen G. White não use o termo “historicista”, é claro que ela com-</p><p>preendia que a única maneira adequada de interpretar Daniel e Apocalipse era</p><p>pesquisar o desdobramento de suas profecias dentro dos eventos históricos que</p><p>haviam ocorrido ao longo dos séculos. Em vez de uma ferramenta nas mãos</p><p>de Satanás para desviar e confundir o povo de Deus, a história humana, tanto</p><p>secular quanto religiosa, é a base para interpretar a profecia. “Na história das</p><p>nações o estudante da Palavra de Deus pode contemplar o cumprimento literal</p><p>da profecia divina” (WHITE, 2007, p. 501).</p><p>Concernente ao rolo de Apocalipse 5, diz Ellen White: “Ali em sua mão ab-</p><p>erta está o livro, o rolo da história das providências divinas, a história profética das</p><p>nações e da igreja [...] e a história de todos os poderes que governam as nações”</p><p>(WHITE, 1981, v. 9, p. 7; v. 12, p. 296). Elo após elo a história da raça humana con-</p><p>forme delineada por Deus em sua Palavra, formam uma cadeia profética. Dentro</p><p>dessa cadeia podemos reconhecer “onde nos achamos hoje, no prosseguimento dos</p><p>séculos” (WHITE, 1997a, p. 178). Elo após elo, Deus revela a história “desde a eter-</p><p>nidade no passado até à eternidade no futuro” (WHITE, 1997a, p. 178; 2007, p. 536).</p><p>Ela fala de modo semelhante das profecias de Daniel e Apocalipse ao exortar os</p><p>ministros e o povo igualmente a identificar as linhas da profecia para que pudessem</p><p>ter “inteligente compreensão dos perigos e conflitos diante deles” (WHITE, 2010,</p><p>583; ver 1889; 1870; 2008, v. 1, p. 56).</p><p>Concernente à natureza da profecia apocalíptica em geral, diz ela: “As pro-</p><p>fecias apresentam uma sucessão de acontecimentos que nos levam ao início do</p><p>juízo. Isso se observa especialmente no livro de Daniel” (WHITE, 2005, p. 356).</p><p>E no que concerne às profecias de João, ela escreve:</p><p>O livro de Apocalipse abre ao mundo o que tem sido, o que é, e o que há de vir; é</p><p>para nossa instrução sobre quem são chegados os fins dos séculos. [...] Nesse livro</p><p>são descritas cenas que estão agora no passado, e algumas de interesse eterno que</p><p>estão ocorrendo ao nosso redor; outras de suas profecias não terão seu cumprimen-</p><p>to completo até o final do tempo, quando ocorrer o último grande conflito entre os</p><p>poderes das trevas e o Príncipe do Céu (WHITE, 1957, v. 7, p. 954; 2010, p. 584-585).</p><p>Nem tudo é futuro</p><p>É dentro do contexto desse conceito de cadeia profética que as declarações</p><p>de Ellen G. White acerca do capítulo 11 de Daniel devem ser compreendidas. “A</p><p>profecia do décimo primeiro capítulo de Daniel quase já alcançou seu completo</p><p>cumprimento” (WHITE, 1948, v. 9, p. 14; 1981, v. 13, p. 394). A profecia é de</p><p>fato uma cadeia, apresentando elo por elo os eventos que ao longo da história</p><p>afetam a experiência do povo de Deus até o fim dos tempos. A ênfase de Ellen</p><p>G. White é que temos agora atingido os elos finais da cadeia.</p><p>Que ela compreende a profecia como tendo cumprimento dentro da su-</p><p>cessiva história das nações é visto pela próxima sentença da Carta 103, 1904:</p><p>“Muito da história que tem ocorrido no cumprimento desta profecia se repe-</p><p>tirá.” A história está relacionada aos acontecimentos da vida da humanidade e</p><p>da ascensão e queda das nações. Sendo que a profecia prediz o surgimento e a</p><p>queda das nações e os eventos que ocorrerão, é lógico que devemos olhar para</p><p>a história a fim de compreendermos a profecia.</p><p>Cada elo na cadeia profética deve nos preparar para compreender a próxi-</p><p>ma série de acontecimentos que em si mesmos devem se tornar história. “Cada</p><p>período do cumprimento da história profética é uma preparação para a luz pro-</p><p>gressiva que sucederá cada período. Ao chegar a profecia ao fim, há de ser um</p><p>todo perfeito” (WHITE, 1981, v. 13, p. 15).</p><p>Ter em mente que a história é o desdobramento de uma cadeia profética</p><p>nos guardará do erro de colocar o cumprimento de toda a profecia apocalíp-</p><p>tica dentro de uma única geração — a última geração do final dos tempos.</p><p>Declarações como a seguinte serão compreendidas dentro do contexto desta</p><p>cadeia: “A luz que Daniel recebeu de Deus foi dada especialmente para estes</p><p>últimos dias. As visões que ele viu às margens do Ulai e do Hidéquel, os</p><p>grandes rios de Sinear, estão agora em processo de cumprimento, e logo</p><p>ocorrerão todos os acontecimentos preditos” (WHITE, 2002, p. 112-113).</p><p>Essa declaração dificilmente pode significar que nenhuma das profecias de</p><p>Daniel será cumprida antes dos eventos culminantes da história.</p><p>O uso de Daniel eEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>166 167</p><p>O próprio Daniel nos diz que certos símbolos do livro se referem a Babilônia,</p><p>Pérsia e Grécia. É nessas profecias, retomadas por João no Apocalipse, que al-</p><p>cançam seu cumprimento a pregação da primeira, segunda e terceira</p><p>mensa-</p><p>gens angélicas, por meio das quais Daniel “está em sua sorte”: “Daniel estará em</p><p>sua sorte no fim dos dias (Dn 12:13). João vê o pequeno livro não selado. Então</p><p>as profecias de Daniel têm o seu devido lugar na primeira, segunda e terceira</p><p>mensagens angélicas a serem dadas ao mundo” (WHITE, 1957, v. 7, p. 971).</p><p>Ellen G. White adverte contra a má aplicação da profecia. Ela diz que tais</p><p>experiências “começam por se desviar da luz que Deus já deu” (WHITE, 2008, v.</p><p>2, p. 111-112). Parte do perigo contra o qual ela adverte é o desejo por parte de</p><p>alguns de achar um futuro cumprimento para profecias que já tiveram cumpri-</p><p>mento. “Alguns há que estão pesquisando as Escrituras em busca de provas de</p><p>que estas mensagens [dos três anjos] estão ainda no futuro. Eles concluem pela</p><p>veracidade cumulativa das mensagens, mas deixam de assinalar-lhes o devido</p><p>lugar na história profética” (WHITE, 1997b, p. 613).</p><p>A serva do Senhor adverte:</p><p>Os grandes sinais demarcadores da verdade, mostrando-nos a direção na história</p><p>profética, devem ser cuidadosamente observados, para que não sejam derribados, e</p><p>substituídos por teorias que trariam confusão em vez de genuíno esclarecimento. [...]</p><p>Alguns tomarão a verdade aplicável a seu tempo, e pô-la-ão no futuro. Acontecimen-</p><p>tos, na sequência da profecia, que tiveram seu cumprimento no distante passado, são</p><p>considerados futuros, e assim, por essas teorias, a fé de alguns é solapada.</p><p>Segundo a luz que o Senhor quis conceder-me, estais em risco de fazer a mesma</p><p>obra, apresentando perante outros verdades que tiveram seu lugar e fizeram sua obra</p><p>específica para o tempo, na história da fé do povo de Deus. Reconheceis como ver-</p><p>dadeiros esses fatos na história bíblica, mas os aplicais ao futuro. Eles têm sua força</p><p>ainda em seu devido lugar, na cadeia dos acontecimentos que nos tornaram, como</p><p>um povo, o que somos hoje, e como tal, eles devem ser apresentados àqueles que se</p><p>encontram nas trevas do erro (WHITE, 2008, v. 2, p. 101-103).</p><p>A história — não a profecia — se repetirá</p><p>Ellen G. White repetidamente afirma que ao mover-se o conflito ente Cristo</p><p>e Satanás em direção ao seu clímax, cenas de páginas anteriores da história se</p><p>repetirão. Assim é que ela diz: “Estudai o Apocalipse em ligação com Daniel;</p><p>pois a história se repetirá” (WHITE, 2002, p. 116). Ela não diz que profecias</p><p>específicas destes dois livros serão repetidas, mas que eventos semelhantes</p><p>àqueles que as cumpriram no passado serão vistos novamente.</p><p>Esses eventos serão vistos dentro de um contexto diferente, dentro de um perío-</p><p>do de tempo diferente, e com atores diferentes. Assim eles não são os mesmos even-</p><p>tos que cumpriram as profecias, mas eventos semelhantes. Os problemas, porém,</p><p>serão os mesmos que aqueles que conduziram aos acontecimentos históricos que</p><p>originalmente cumpriram certas profecias no conflito entre o bem e o mal.</p><p>O Senhor me apresentou assuntos que são de premente importância para</p><p>o tempo presente, e que se estendem ao futuro. Numa exortação foram-me</p><p>proferidas estas palavras: “Escreve num livro as coisas que tens visto e ouvi-</p><p>do, e deixa que vá a todas as pessoas; pois está próximo o tempo em que se</p><p>repetirá a história do passado” (WHITE, 2008, v. 3, p. 113).</p><p>Circunstâncias semelhantes àquelas que cumpriram a profecia no passado po-</p><p>dem existir no presente. As circunstâncias presentes não são, porém, um cumpri-</p><p>mento da profecia, porque a profecia foi cumprida historicamente pela série origi-</p><p>nal de circunstâncias. Mas a geração presente pode ser informada pelo estudo da</p><p>profecia e pelo registro histórico dos eventos que a cumpriram, e assim estar pre-</p><p>parada para desempenhar um papel inteligente nas similares e atuais circunstâncias.</p><p>Assim é que a profecia, previamente cumprida, pode neste sentido ser “aplicada” a</p><p>uma situação presente. Isaías 58:12-14 pode ser citado como um exemplo.</p><p>Desta maneira indica o profeta a ordenança que tem estado esquecida: “Le-</p><p>vantarás os fundamentos de geração em geração; e chamar-te-ão reparador</p><p>das roturas, e restaurador de veredas para morar.” [...] Esta profecia também</p><p>se aplica a nosso tempo. A rotura foi feita na lei de Deus, quando o sábado</p><p>foi mudado pelo poder romano. Chegou, porém, o tempo para que esta ins-</p><p>tituição divina seja restabelecida. A rotura deve ser reparada, e levantado o</p><p>fundamento de geração em geração (WHITE, 2005, p. 452-453).</p><p>Aqui vemos que o problema é o mesmo — o conflito entre o bem e o mal.</p><p>As circunstâncias são semelhantes. O povo que professava grande justiça nos</p><p>dias de Isaías estava “calcando a pés os preceitos divinos”. Mas temos contextos</p><p>diferentes — a nação judaica e a igreja cristã; um período de tempo diferente —</p><p>o sétimo século a.C. e o século 20 d.C.; atores diferentes — o povo judeu/Isaías</p><p>e a igreja cristã/o povo remanescente de Deus. Um estudo da profecia de Isaías</p><p>e o seu cumprimento podem ser aplicados à experiência do povo remanescente</p><p>O uso de Daniel eEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>168 169</p><p>de Deus para ajudá-los a ver sua função como reparadores de uma rotura se-</p><p>melhante feita na lei de Deus na Era Cristã.</p><p>Retornando à declaração de Ellen G. White acerca de Daniel 11, vemos</p><p>como este princípio pode ser aplicado. “A profecia do undécimo [capítulo] de</p><p>Daniel tem quase atingido seu completo cumprimento. Muito da história que</p><p>tem ocorrido no cumprimento desta profecia será repetido” (WHITE, 1981, v.</p><p>13, p. 394). Eventos da história já têm cumprido certas predições deste capítulo.</p><p>Todavia, circunstâncias semelhantes serão outra vez desenvolvidas no término</p><p>do grande conflito, e nessa luta cósmica a história será vista como se repetindo.</p><p>Ellen G. White não sugere que aquelas profecias de Daniel 11 que já se cum-</p><p>priram receberão um segundo cumprimento.</p><p>Note os vários contextos, proféticos e não proféticos, dentro dos quais Ellen</p><p>G. White diz que a história será repetida. Também note que ela não está suger-</p><p>indo que uma determinada profecia em si deve ser repetida.</p><p>Grandes impérios da profecia de Daniel. “A profecia delineou o levanta-</p><p>mento e queda dos grandes impérios mundiais - Babilônia, Média-Pérsia, Gré-</p><p>cia e Roma. Com cada um destes, assim como com nações de menos poder,</p><p>tem-se repetido a história. Cada qual teve seu período de prova, e cada qual</p><p>fracassou; esmaeceu sua glória, passou-se-lhe o poder e o lugar foi ocupado por</p><p>outra nação” (WHITE, 1997a, p. 177, grifo do autor).</p><p>As profecias concernentes a essas nações da Antiguidade tiveram seu</p><p>cumprimento. Circunstâncias semelhantes têm sido vistas na história de</p><p>outras nações, grandes e pequenas. Cada uma tem sido provada, cada uma</p><p>tem falhado, cada uma tem perdido sua glória e poder, e cada uma tem sido</p><p>substituída por outra. Assim a história de Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia</p><p>e Roma tem se repetido. Mas a profecia que se relaciona com estes reinos</p><p>específicos tem se cumprido apenas uma vez.</p><p>Perseguição do povo de Deus. “Estamos no limiar de grandes e solenes</p><p>acontecimentos. Muitas das profecias estão prestes a se cumprir em rápida suc-</p><p>essão. Cada elemento de poder está prestes a ser posto a operar. A história pas-</p><p>sada será repetida; velhos conflitos despertarão para nova vida, e perigos assedi-</p><p>arão o povo de Deus de todos os lados” (WHITE, 1897, grifo do autor).</p><p>Mais especificamente, “as cenas de perseguição promulgadas durante a vida</p><p>de Cristo serão promulgadas por religiosos falsos até o fim do tempo. Os ho-</p><p>mens pensam que têm o direito de tomar sob sua responsabilidade as consciên-</p><p>cias dos homens e elaborar suas teorias de apostasia e transgressão. A história se</p><p>repetirá” (WHITE, 1981, v. 13, p. 394; 2010, p. 84-85).</p><p>As profecias que predisseram o sofrimento do Messias tiveram seu cumprimen-</p><p>to. Elas não serão repetidas, mas as cenas de abuso que Cristo sofreu serão repetidas</p><p>nas experiências de Seus seguidores, e assim a história será repetida.</p><p>Noé, Sodoma e Gomorra. “A história será repetida. Cristo declarou que antes</p><p>de Sua segunda</p><p>que</p><p>está realmente se movendo em direção de um fim em cujo tempo o próprio Deus</p><p>intervirá diretamente para destruir o mal e estabelecer a justiça.</p><p>Em um sentido, podemos afirmar que os profetas gerais consideravam</p><p>a história do ponto de vista de sua própria posição no tempo, ao passo que</p><p>os profetas apocalípticos visualizam uma extensão da história com um</p><p>enfoque especial no ápice final da história.</p><p>Origem em tempos de angústia e perplexidade. Em seu ambiente histórico,</p><p>a apocalíptica bíblica, como Daniel e Apocalipse, surgiu em tempos de angústia,</p><p>perplexidade e perseguição. Assim, parece que a profecia apocalíptica surge quando</p><p>horrendas circunstâncias para o povo de Deus poderiam muito bem levá-los a ques-</p><p>tionar se Deus está ainda ativo e no controle. E ensina clara e convincentemente que</p><p>Deus ainda é, de fato, o Senhor da história, que Ele está com o seu povo, e que os</p><p>vindicará plenamente em um magnífico e glorioso ponto culminante escatológico.</p><p>A profecia apocalíptica é uma espécie de literatura especialmente apropriada para</p><p>proporcionar conforto e esperança aos oprimidos e humilhados servos de Deus em</p><p>seu tempo de necessidade crítica de precisamente tal conforto e esperança.</p><p>Princípios fundamentais de interpretaçãoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>18 19</p><p>Base em visões e sonhos. Uma comparação da profecia apocalíptica com a</p><p>profecia clássica e outra literatura bíblica indica que a apocalíptica é caracteri-</p><p>zada por referência mais frequente a visões e sonhos do que é verdade quanto</p><p>a qualquer outro tipo de literatura encontrada na Bíblia. Além disso, o apareci-</p><p>mento de anjos para interpretar tais visões e sonhos não é incomum.</p><p>Extenso uso de simbolismo. Embora a profecia clássica use simbolis-</p><p>mo em certa medida, a apocalíptica pode ser distinguida por isto. O livro</p><p>de Apocalipse está permeado de símbolos de várias espécies; seu rep-</p><p>ertório de imagens é particularmente rico.</p><p>Uso de simbolismo complexo. Além disso, seja qual for o simbolismo</p><p>que os profetas clássicos usem, ele tende a seguir padrões fiéis à realidade,</p><p>ao passo que a apocalíptica frequentemente se afasta das formas convencio-</p><p>nais. Retrata, por exemplo, animais inexistentes na natureza, tais como o</p><p>dragão de sete cabeças e a besta do mar de Apocalipse, o leão alado e o ani-</p><p>mal de quatro cabeças de Daniel etc. O simbolismo complexo era comum, é</p><p>claro, na arte e na literatura do antigo Oriente Próximo.</p><p>Resumo. Embora a classificação baseada em tais critérios tenha sido questionada</p><p>(ver HANSON, 1975, p. 6–7), muitos eruditos ainda dão peso a estes elementos como</p><p>sendo características básicas da profecia apocalíptica. Em todo caso, o simples fato</p><p>é que há um conjunto de antiga literatura que manifesta em maior ou menor grau</p><p>muitos destes elementos; portanto, para fins descritivos e práticos uma classificação</p><p>baseada neles parece útil e justificada. Conhecer e compreender tais características</p><p>especiais da apocalíptica é, sem dúvida, um primeiro passo na interpretação correta.</p><p>Também deve ser notado que todas as características apresentadas acima</p><p>não são, necessariamente, completamente exclusivas da literatura apocalíptica.</p><p>A extensão em que elas aparecem e a maneira como são usadas na apocalíptica</p><p>é, porém, muito distinta e serve para prover um significativo contraste com a</p><p>dinâmica evidenciada na profecia clássica.</p><p>Continuidade vertical e horizontal</p><p>Por mais útil que seja a lista anterior de características, ela não nos leva comple-</p><p>tamente ao “coração” da profecia apocalíptica. Talvez não sejamos capazes de com-</p><p>preender e apreciá-la suficientemente a menos que possamos pôr de lado nossas</p><p>“lentes do século 20” e colocar-nos honestamente dentro da perspectiva bíblica.</p><p>Aqui voltamos nossa atenção especificamente para dois elementos abso-</p><p>lutamente vitais a compreender se quisermos captar a verdadeira dinâmica</p><p>da apocalíptica. Neste estudo, serão denominadas dimensões de “continui-</p><p>dade vertical” e “continuidade horizontal”.</p><p>Continuidade vertical. A antiga mentalidade semita via o Céu e a Terra em</p><p>íntimo contato um com o outro. Infelizmente, esta é uma perspectiva que nós, em</p><p>nossa moderna civilização de orientação científica, temos perdido em grande parte.</p><p>A mente moderna tende a separar o Céu e a Terra, não simplesmente no sentido</p><p>físico ou espacial, mas também espiritualmente. Mesmo como cristãos, nos encon-</p><p>tramos frequentemente fora de sintonia com os referenciais e conceitualizações car-</p><p>acterísticas dos escritores da Bíblia e seus ouvintes originais.</p><p>Deus comunica, é claro, através da linguagem da humanidade. Isto, obviamente,</p><p>significa mais do que vocabulário, sintaxe, e coisa semelhante. Envolve toda a estrutu-</p><p>ra conceitual das pessoas com quem a comunicação está sendo estabelecida.</p><p>Nós, modernos, cremos que nossos referenciais científicos do século 20</p><p>são muito melhores do que as conceitualizações dos antigos, e indubitavel-</p><p>mente em alguns sentidos os nossos são mais “atualizados” e exatos. Todavia,</p><p>quer a cosmovisão seja antiga ou moderna, ela fica muito abaixo das reali-</p><p>dades supremas do Universo de Deus. Sua condescendência em comunicar-</p><p>se conosco em nossa linguagem — através de nossa estrutura conceitual — é</p><p>tão grande que qualquer diferença humana criada por dois ou três milênios</p><p>não faz virtualmente nenhuma diferença.</p><p>Foi para nós, porém, que a Bíblia foi escrita nos tempos antigos. Por-</p><p>tanto, aqueles referenciais relativos aos escritores e ouvintes antigos de-</p><p>vem ser tidos em mente por nós ao procurarmos compreender hoje a men-</p><p>sagem de Deus através de sua Palavra escrita.10</p><p>Conquanto as modernas conceitualizações científicas da realidade tenham</p><p>provido alguns importantes ganhos ou corretivos, em outras ocasiões elas têm le-</p><p>vado a sério prejuízo. A comprovação científica empírica é simplesmente impossível</p><p>para todas as esferas da realidade (de fato, pode estar limitada a uma parte um tanto</p><p>pequena da realidade total, como os próprios cientistas estão vindo mais e mais a</p><p>perceber). Sugiro que uma das maiores perdas da antiga conceitualização semítica</p><p>da realidade é este assunto que estamos considerando: a “continuidade vertical” que</p><p>vê o Céu e a Terra em íntimo contato um com o outro.</p><p>Esta “continuidade vertical” é básica e axiomática para todo o acervo bíblico,</p><p>tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Em nenhuma parte, porém, ela é</p><p>mais notavelmente exposta do que na apocalíptica. Não é sem motivo, por exemplo,</p><p>que o livro de Apocalipse repetidamente apresente cenários celestiais em conexão</p><p>10 Uma excelente discussão da natureza da inspiração é dada por Ellen G. White (2005) em sua</p><p>“Introdução” ao Grande Conflito.</p><p>Princípios fundamentais de interpretaçãoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>20 21</p><p>com sua descrição de atividades que ocorrem na Terra. Realmente, a profecia apoc-</p><p>alíptica ilustra e dramatiza este elemento vital da perspectiva bíblica.</p><p>A essência e importância deste conceito de “continuidade vertical” con-</p><p>forme aplicável às mensagens do livro de Apocalipse tem sido apropriadamente</p><p>expressa nas palavras seguintes escritas por Ellen G. White (2000, p. 114): “Uma</p><p>coisa compreender-se-á certamente do estudo do Apocalipse — que a ligação</p><p>entre Deus e seu povo é íntima e decidida.”</p><p>Se quisermos compreender a verdadeira beleza e receber a eficácia das</p><p>mensagens de Deus para nós em Sua Palavra, devemos retornar a esse con-</p><p>ceito da realidade que põe o Céu em íntimo contato espiritual com a Terra.</p><p>Esta verdade é decisiva para nossa compreensão das mensagens dos livros</p><p>apocalípticos de Daniel e Apocalipse.</p><p>Continuidade horizontal. A segunda característica central da apocalíp-</p><p>tica, a dimensão da “continuidade horizontal”, também precisa de cuidadosa</p><p>consideração. Da mesma forma que a profecia apocalíptica ilustra e drama-</p><p>tiza uma continuidade vertical de atividade entre o Céu e a Terra, assim ela</p><p>também ilustra e dramatiza uma continuidade horizontal em sua perspec-</p><p>tiva para a</p><p>vinda o mundo estaria como foi nos dias de Noé, quando os ho-</p><p>mens atingiram tal condição em seguir sua própria imaginação pecaminosa que</p><p>Deus os destruiu por um dilúvio” (WHITE, 1981, v. 12, 413, grifo do autor).</p><p>“E Judas diz: “Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se</p><p>corrompido como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo,</p><p>sofrendo a pena do fogo eterno.” “Aqui nos é apresentado um estado de coisas</p><p>que tem sido, e a história se repetirá” (WHITE, 1981, v. 19, p. 105, grifo do autor).</p><p>Quarto cavalo (Ap 6:7-8). Em Apocalipse 6, o quarto cavalo simboliza a</p><p>intolerância religiosa e perseguição que existiu na Europa sob o poder papal.</p><p>“O mesmo espírito é visto hoje que é representado em Apocalipse 6:6-8. A</p><p>história se repetirá. O que tem sido será outra vez” (WHITE, 1981, v. 9, p.</p><p>7, grifo do autor). Mais uma vez, é evidente que a declaração trata de uma</p><p>repetição da história, não um segundo cumprimento da profecia. Em cada</p><p>caso, o contexto, o tempo e os atores são diferentes.</p><p>Nabucodonosor. “É uma coisa terrível para qualquer alma colocar-se ao</p><p>lado de Satanás na questão, pois tão logo ela faz isto uma mudança passa por</p><p>ela, como é dito do rei de Babilônia, que seu semblante mudou para com os três</p><p>fiéis hebreus. A história passada se repetirá. Os homens rejeitarão a operação</p><p>do Espírito Santo, e abrirão a porta da mente para os atributos satânicos que os</p><p>separam de Deus” (WHITE, 1981, v. 19, p. 122, grifo do autor).</p><p>Assim, Ellen G. White não fala em termos de uma determinada profe-</p><p>cia receber um segundo cumprimento. Isso necessitaria o mesmo contexto</p><p>histórico, o mesmo período de tempo e os mesmos atores. Todavia, ela fala</p><p>em termos de circunstâncias similares, mas um contexto, período de tempo</p><p>e atores diferentes. Dentro dessas circunstâncias semelhantes, os aconteci-</p><p>mentos históricos originais que uma vez cumpriam a profecia serão repeti-</p><p>dos, tais como a ascensão e queda das nações, perseguição etc.</p><p>Algumas declarações mal compreendidas. Antes de deixarmos este assunto,</p><p>há duas declarações que devem ser notadas. Ambas podem ser facilmente mal-</p><p>compreendidas chegando-se à conclusão de que Ellen G. White defendia a ideia</p><p>de que o cumprimento de uma profecia apocalíptica pode ser repetido. Diz ela:</p><p>“Algumas profecias Deus tem repetido [...].” O contexto não está sugerindo que</p><p>O uso de Daniel eEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>170 171</p><p>algumas profecias terão um múltiplo cumprimento, mas que algumas profecias</p><p>dadas em Daniel são de tal importância que Deus achou por bem que João as</p><p>reafirmasse em seu livro. Tanto a profecia de Daniel quanto a de Apocalipse terá</p><p>um só cumprimento (WHITE, 1981, v. 9, p. 8).</p><p>Há a seguinte conhecida declaração:</p><p>A grande obra do evangelho não deverá encerrar-se com menor manifestação do</p><p>poder de Deus do que a que assinalou o seu início. As profecias que se cumpriram</p><p>no derramamento da chuva temporã no início do evangelho, devem novamente</p><p>cumprir-se na chuva serôdia, no final do mesmo (WHITE, 2005, p. 611-612).</p><p>Pareceria à primeira vista que aqui está um caso em que Ellen G. White</p><p>fala de uma simples profecia tendo um duplo cumprimento. Contudo, deve-</p><p>mos lembrar que as profecias que ela cita nesta passagem que prediz a chuva</p><p>temporã também predizem um segundo acontecimento, a chuva serôdia.</p><p>No contexto, Ellen G. White cita Oseias 6:3, que diz: “E Ele descerá sobre</p><p>nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra”, e Joel 2:23, que</p><p>afirma: “Ele fará descer, como outrora, a chuva temporã e a serôdia.” Assim</p><p>as simples declarações de Oseias e Joel aguardam dois eventos separado: as</p><p>dotações da chuva temporã e serôdia do Espírito sobre a igreja.</p><p>declarações sobre jerusalém</p><p>Declarações feitas por Ellen G. White concernentes às profecias de Ma-</p><p>teus 24 são muito frequentemente tomadas como prova para duplos/múlti-</p><p>plos cumprimentos ou para futuros cumprimentos de todas as profecias.</p><p>Contudo, devemos ter em mente o seguinte quando estamos lidando com a</p><p>profecia apocalíptica de nosso Senhor:</p><p>1. O discurso trata de dois grandes acontecimentos, não apenas de um.</p><p>Jesus não respondeu aos discípulos falando em separado da destruição de Je-</p><p>rusalém e do grande dia de sua vinda. Misturou a descrição dos dois aconte-</p><p>cimentos. [...] Por misericórdia com eles, Jesus misturou a descrição das duas</p><p>grandes crises, deixando aos discípulos o procurar por si mesmos a significação</p><p>(WHITE, 2000, p. 628-631).</p><p>2. Mateus 24 é uma cadeia profética.</p><p>Em Mateus 24, em resposta à pergunta dos discípulos relativa aos sinais de Sua vinda</p><p>e do fim do mundo, Cristo indicara alguns dos acontecimentos mais importantes da</p><p>história do mundo e da igreja, desde o seu primeiro advento até ao segundo, a saber:</p><p>a destruição de Jerusalém, a grande tribulação da igreja sob a perseguição pagã e</p><p>papal, o escurecimento do Sol e da Lua, e a queda de estrelas. Depois disto, falou a</p><p>respeito de Sua vinda em seu reino, e expôs a parábola que descreve as duas classes</p><p>de servos que lhe aguardam o aparecimento (WHITE, 2005, p. 393; 2003, p. 320).</p><p>3. A destruição de Jerusalém é um tipo profético da destruição do mundo. “A</p><p>ruína de Jerusalém era um símbolo da ruína final que assolará o mundo. As profe-</p><p>cias que tiveram seu parcial cumprimento na queda de Jerusalém têm mais direta</p><p>aplicação aos derradeiros dias” (WHITE, 2009, p. 120-121, grifo do autor).</p><p>Assim, a destruição de Jerusalém torna-se um tipo de futuros acontecimen-</p><p>tos (WHITE, 2005, p. 25-26, 351; 2002, p. 232).</p><p>4. À semelhança de Daniel, algumas das profecias da cadeia profética de</p><p>Mateus são retomadas por João e repetidas em Apocalipse.</p><p>Disse Jesus: “As estrelas cairão do céu” (Mt 24:29). E João, no Apocalipse, decla-</p><p>rou, ao contemplar em visão as cenas que deveriam anunciar o dia de Deus: “E</p><p>as estrelas do céu caíram sobre a Terra, como quando a figueira lança de si os</p><p>seus figos verdes, abalada por um vento forte” (Ap 6:13). Essa profecia teve cum-</p><p>primento surpreendente e impressionante na grande chuva meteórica de 13 de</p><p>novembro de 1833 (WHITE, 2005, p. 333).</p><p>As categorias precedentes resumem as declarações de Ellen G. White sobre</p><p>o sermão apocalíptico de Jesus. O tempo e o espaço não permitirão um exame</p><p>de cada declaração, mas referências representativas são dadas acima.</p><p>Contudo, há uma declaração que precisa ser examinada, porque ela tem</p><p>sido usada como prova para cumprimento múltiplo.</p><p>Na profecia da destruição de Jerusalém, Cristo disse: “Por se multiplicar a iniqüidade,</p><p>o amor de muitos esfriará. Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo. E este</p><p>evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gen-</p><p>tes, e então virá o fim” (Mt 24:12-14). Essa profecia terá outra vez seu cumprimento.</p><p>A abundante iniquidade daquela época encontra seu paralelo nesta geração. Assim</p><p>será quanto à predição referente à pregação do evangelho (WHITE, 2000, p. 633).</p><p>Deve ser notado o seguinte: (1) A declaração de Ellen G. White leva em con-</p><p>sideração que esta é uma profecia de duas partes que trata dos acontecimentos</p><p>em torno da destruição de Jerusalém e do fim do mundo. (2) A destruição de</p><p>O uso de Daniel eEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>172 173</p><p>Jerusalém é um tipo de profecia do que aguarda o mundo, como pode ser visto</p><p>nas palavras: “Na profecia da destruição de Jerusalém [...]. A abundante iniqui-</p><p>dade daquela época encontra seu paralelo nesta geração.” (3) O tipo profético é</p><p>aplicado à perda do amor e à pregação do evangelho.</p><p>Duas profecias distintas e separadas estão sendo tratadas. A primeira</p><p>não pode ter um cumprimento duplo ou múltiplo, porque o templo teria</p><p>de ser reconstruído e a cidade cair uma segunda vez. O cumprimento da</p><p>primeira parte desta profecia foi um acontecimento de uma vez por todas.</p><p>Este cumprimento profético, porém, foi em si um exemplo dos mais exten-</p><p>sos eventos que cumprirão a segunda parte da profecia.1</p><p>aPlicações não exPositivas</p><p>frente. A história é um contínuo sob o controle de Deus, que se</p><p>aproxima cada vez mais da gloriosa consumação quando o próprio reino</p><p>divino de justiça será estabelecido para a eternidade.</p><p>Este tipo específico de previsão profética que delineia incrementos dentro de um</p><p>contínuo histórico é uma característica que está em assinalado contraste com a pro-</p><p>fecia clássica. Como já mencionado, a última focaliza o próprio tempo do profeta,</p><p>e então pode oferecer uma expansão para um cumprimento ulterior e mais amplo</p><p>de alcance cósmico no final do tempo. É apropriado, portanto, falar em um sentido</p><p>cósmico de dois pontos focais ou “dois focos” da profecia clássica.</p><p>Em contraste, a profecia apocalíptica não procede absolutamente nessa base.</p><p>Antes, a profecia apocalíptica vê um continuum, uma progressão ou sequência</p><p>na história. Não olha apenas em dois pontos focais — o tempo do profeta e o</p><p>final do tempo — com um intervalo entre eles. O estilo apocalíptico é clara-</p><p>mente ilustrado, por exemplo, nas sequências da cena da estátua de Daniel 2 e</p><p>os quatro animais e seus chifres de Daniel 7.</p><p>Mas esta espécie de abordagem apocalíptica não é exclusiva de Daniel. Os</p><p>apocalipses não canônicos têm indicações da mesma. Por exemplo, o breve</p><p>“Apocalipse das semanas” do Enoque Etiópico (capítulos 9:12–17 e 93:1–10)</p><p>divide a história em 10 períodos sucessivos, o último dos quais abrangendo</p><p>o juízo final e introduzindo a era eterna. Outra ilustração é a parábola de Ba-</p><p>ruque nos capítulos 53 a 74, de uma nuvem de trovoada que chove águas claras</p><p>e como tinta em uns alternadamente 12 períodos claros e escuros, chegando</p><p>finalmente à consumação escatológica. E também há vários outros exemplos,</p><p>inclusive uma visão da águia de muitas asas em 4 Esdras, capítulos 11 e 12, e o</p><p>sonho-visão de touros e ovelhas (mais uma tropa de outros animais) no Enoque</p><p>Etiópico, capítulos 85 a 90.</p><p>Desenvolvimentos ou processos históricos sequenciais são também</p><p>evidentes no Apocalipse de João. Certamente podemos pensar nos impres-</p><p>sionantes exemplos dentro das sequências dos sete selos e das sete trombe-</p><p>tas, os selos sendo abertos em sucessão e as trombetas sendo tocadas em</p><p>sucessão. Igualmente, a descrição da animosidade do dragão do capítulo</p><p>12 abrange uma sequência, porque ele primeiro ataca o filho varão, depois a</p><p>mulher, e finalmente o remanescente da descendência da mulher. Também</p><p>indicativa deste tipo de perspectiva sequencial é a referência em 17:10 às</p><p>sete cabeças da besta como sendo sete reis, dos quais “caíram cinco”, “um</p><p>existe [no tempo de João]”, e “o outro ainda não chegou”.</p><p>Temos propositalmente enfatizado esta dimensão de “continuidade hori-</p><p>zontal” da apocalíptica por duas razões: (1) ela é absolutamente fundamental</p><p>para a descrição apocalíptica dahHistória como uma sucessão de eventos; e (2)</p><p>em escritos recentes por certos notáveis eruditos evangélicos (como G. E. Ladd</p><p>e Leon Morris), a visão apocalíptica da história tem sido confundida com a</p><p>abordagem da profecia clássica de “duplo cumprimento” ou “dois focos”.</p><p>Por exemplo, Ladd (1972, p. 13; 1960, p. 53) apresenta a ideia de que o livro</p><p>de Apocalipse visualiza a besta do mar semelhante ao leopardo do capítulo 13</p><p>como um símbolo tanto do antigo Império Romano dos dias de João (preter-</p><p>ismo) como de um Anticristo ainda por vir (futurismo). Mas esta espécie de</p><p>procedimento interpretativo de dois pontos focais transpõe erroneamente as</p><p>características de um tipo de descrição profética para outro tipo, onde ele sim-</p><p>plesmente não se ajusta. De fato, quando o modelo de dois focos é imposto aos</p><p>livros apocalípticos de Daniel e Apocalipse, ele traz distorção para as próprias</p><p>mensagens que Deus pretende transmitir nessas profecias.</p><p>A profecia clássica, com sua ênfase nos próprios dias do profeta e uma per-</p><p>spectiva ocasional de “dois focos”, nunca descreve detalhadamente os eventos</p><p>que conduzem ao final e grande “dia do Senhor”. Não há, por exemplo, nenhuma</p><p>referência na profecia clássica a um vindouro poder do Anticristo do fim dos</p><p>tempos. Ladd chega a este tipo de Anticristo, como temos notado, impondo</p><p>erroneamente a modalidade de profecia clássica de dois focos ao livro de Apoc-</p><p>alipse, onde o Anticristo realmente é encontrado. Mas em Apocalipse (bem</p><p>como em Daniel), o Anticristo aparece dentro de uma estrutura conceitual</p><p>Princípios fundamentais de interpretaçãoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>22 23</p><p>totalmente diferente, a saber, dentro de um continuum histórico, como um seg-</p><p>mento da continuidade horizontal em processo contínuo no Apocalipse.</p><p>Resumindo, a própria natureza da profecia apocalíptica descarta preterismo, fu-</p><p>turismo e qualquer combinação deles, em favor da abordagem historicista. Este fato é</p><p>vital e tem importantes implicações teológicas para nosso estudo do Apocalipse.</p><p>Mais um ponto precisa ser aqui esclarecido. Por que este conceito de con-</p><p>tinuum histórico surge na apocalíptica em distinção do conceito de “dois fo-</p><p>cos” da profecia clássica? Sugiro que um fundo específico da própria literatura</p><p>bíblica serve como o modelo para esta característica da apocalíptica, a saber, as</p><p>narrativas históricas do Antigo Testamento. A profecia apocalíptica projeta no</p><p>futuro uma continuação do relato histórico da Bíblia.</p><p>A soberania de Deus e o constante cuidado por seu povo estão sempre</p><p>na vanguarda da descrição bíblica do continuum histórico, quer seja ele de-</p><p>scrito em acontecimentos passados (livros históricos) ou em eventos futuros</p><p>(profecia apocalíptica). Daniel e Apocalipse revelam uma divina soberania</p><p>e domínio no que concerne ao movimento progressivo da história além do</p><p>próprio tempo do profeta — uma história futura que culminará quando o</p><p>Deus do Céu estabelecer o reino eterno que encherá toda a Terra e durará</p><p>para sempre (Dn 2:35, 44–45; ver Ap 21, 22.).</p><p>Em resumo, a mais notável das características geralmente reconhecidas da</p><p>apocalíptica é o seu uso de simbolismo. Há, obviamente, uma elevada ênfase sobre</p><p>esta característica, e muitos dos símbolos são de natureza complexa. Além disso, os</p><p>simbolismos refletem os assinalados contrastes tão evidentes na apocalíptica, e eles</p><p>frequentemente proveem evidência de amplo alcance ou alcance cósmico.</p><p>Determinar a fonte dos símbolos empregados, averiguar sua extensão de</p><p>significado e seu enfoque específico no contexto imediato do Apocalipse são</p><p>fatores vitais para o intérprete. O assunto é discutido em outra parte deste vol-</p><p>ume.11 Indubitavelmente, a mais mal compreendida e impropriamente usada</p><p>faceta da apocalíptica se relaciona com sua continuidade horizontal. Muitas das</p><p>características geralmente reconhecidas da apocalíptica às vezes aparecem em</p><p>outras literaturas proféticas da Bíblia. Mas a continuidade horizontal da pro-</p><p>fecia apocalíptica é uma característica que está em assinalado contraste com a</p><p>abordagem à história dada na profecia clássica.</p><p>A interpretação teológica do Apocalipse, a fim de ser eficiente, deve ser compatív-</p><p>el com essa perspectiva histórica. O Apocalipse abrange, como faz o livro de Dan-</p><p>iel, uma progressão passo a passo através da história, não um enfoque polarizado ou</p><p>11 Veja o capítulo 4 deste volume, “Interpretando o simbolismo do Apocalipse”.</p><p>sobre o antigo período ou o ponto culminante escatológico ou ambos. Os comentar-</p><p>istas que desejam combinar preterismo e futurismo como a melhor abordagem ao</p><p>Apocalipse desvalorizam a própria natureza do livro em si como um apocalipse. 12 É</p><p>vital que sejamos fiéis à real perspectiva histórica do Apocalipse se quisermos extrair</p><p>conclusões corretas acerca das importantes mensagens desse livro.</p><p>Debates contemporâneos</p><p>Nesta conjuntura, surgem duas perguntas especiais, principalmente</p><p>em vista do que foi dito acima a respeito da “continuidade horizontal” da</p><p>apocalíptica: (1) Na profecia apocalíptica existe tal coisa como cumprimen-</p><p>tos repetidos?; (2) A descrição histórica da apocalíptica visualiza uma in-</p><p>definição ou condicionalidade, de sorte que se as condições</p><p>devessem mu-</p><p>dar, os cumprimentos históricos mudariam igualmente?</p><p>Cumprimentos repetidos? Em discussões anteriores sobre a apocalíptica,</p><p>tenho observado que há certa perspectiva de “filosofia da história” nesta espécie</p><p>de profecia (STRAND, 1979, p. 14–16; 1975, p. 29–32). Por “filosofia da história”,</p><p>porém, eu não quero dizer a abordagem da “filosofia de valores” que apresenta</p><p>fatores ou “ideais” filosóficos sem tocar na realidade histórica. Deve ser en-</p><p>fatizado que a profecia apocalíptica lida com fatos e desenvolvimentos reais no</p><p>continuum histórico desde o tempo do profeta até o fim dos tempos. Qualquer</p><p>abordagem que separe o cumprimento das previsões apocalípticas da história</p><p>real é contrária à própria essência da descrição histórica apocalíptica.</p><p>A espécie de “filosofia da história” para a qual eu chamo a atenção tem certo tipo</p><p>de aplicação recorrente. Primeiro, procuraremos evidências e/ou ilustrações do fenô-</p><p>meno; e segundo, anotaremos o tipo de material ao qual o fenômeno é aplicável.</p><p>Embora a evidência não seja tão nítida, esta espécie de literatura contém</p><p>algumas indicações do conceito de que “a história se repete”.</p><p>Nos apocalipses não canônicos, por exemplo, a parábola de Baruque sobre a</p><p>nuvem de trovoada divide seu continuum histórico em períodos alternadamente</p><p>“claros” e “escuros”. Há, de fato, um modelo quase “monótono” de repetição histórica.</p><p>No livro canônico de Daniel, o surgimento e queda dos reinos transmite o mesmo</p><p>pensamento com respeito à repetitividade da história, especialmente em vista da</p><p>declaração fortalecedora de que Deus “remove reis e estabelece reis” (Dn 2:21).</p><p>12 Expositores que aceitam um cumprimento historicista de certas visões de Daniel e Apoc-</p><p>alipse no passado, mas que então optam por um segundo e primário cumprimento das mesmas</p><p>no fim dos tempos, também estão incluídos.</p><p>Princípios fundamentais de interpretaçãoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>24 25</p><p>O conceito é expressivo do formulário das “bênçãos e maldições” de Deu-</p><p>teronômio (27–28) e encontra vívida ilustração na própria história de Israel.</p><p>Isto é bem ilustrado, por exemplo, no livro de Juízes. Sempre que Israel fal-</p><p>hava em seu compromisso com a aliança, resultava em opressão por nações</p><p>estrangeiras. Vinha o livramento sempre que Israel se voltava para o Senhor</p><p>em sincero arrependimento. Embora cada exemplo fosse um episódio diferente,</p><p>com um diferente juiz dirigindo o livramento, o tipo de fenômeno histórico em</p><p>cada caso era o mesmo. Assim, pode ser dito que “a história” israelita “se repetia”</p><p>em princípio, embora não em detalhes específicos.</p><p>No livro de Apocalipse, encontramos sugestões similares de modelos repeti-</p><p>tivos, como na quádrupla-tríplice divisão dentro de vários septetos. Alguém pode</p><p>pensar, por exemplo, nas impressionantes similaridades encontradas nas cartas a</p><p>Éfeso e Sardes e outra vez naquelas a Esmirna e Filadélfia (a primeira e quinta igre-</p><p>jas e a segunda e sexta igrejas, respectivamente, em Apocalipse 2–3).</p><p>Além disso, a própria maneira em que o simbolismo é usado em Apoc-</p><p>alipse implica às vezes uma repetida (e possivelmente uma contínua) apli-</p><p>cação. Particularmente impressionante é a expressão de Apocalipse 11:8: “A</p><p>grande cidade que, espiritualmente, se chama Sodoma e Egito, onde também</p><p>o seu [das duas testemunhas] Senhor foi crucificado.” Aqui encontramos três</p><p>lugares (Sodoma, Egito e Jerusalém) reunidos e identificados de tal maneira a</p><p>levar nossa mente de volta ao passado distante e em tempo muito mais próxi-</p><p>mo. Esses eventos estavam também separados geograficamente.</p><p>O que este texto nos diz não é que haverá um segundo ou mesmo um</p><p>terceiro cumprimento de Sodoma ou múltiplos cumprimentos do antigo</p><p>Egito que oprimiu a Israel. Antes, a mensagem é que estas três entidades</p><p>distintas podem ser identificadas em uma espécie de “junção” quanto ao seu</p><p>caráter essencial de impiedade e opressão. Donde, elas podem adequada-</p><p>mente servir de uma maneira simbólica para a “grande cidade” que person-</p><p>ifica e repete um caráter similar de impiedade e opressão.</p><p>Também Ellen G. White (2006, p. 588), comentando sobre a visão de João,</p><p>faz algumas declarações indicativas deste tipo de repetição histórica. Podemos</p><p>notar, por exemplo, esta declaração: “Olhando através dos longos séculos de</p><p>trevas e superstições, o exilado encanecido viu multidões sofrendo o martírio</p><p>por causa de seu amor pela verdade. Mas viu também que Aquele que sustinha</p><p>suas primeiras testemunhas não abandonaria seus fiéis seguidores durante os</p><p>séculos de perseguição por que deviam passar antes do fim dos tempos.”</p><p>Quando são feitas afirmações de que Ellen G. White apoia cumprimentos repeti-</p><p>dos nos livros de Daniel e Apocalipse,13 o contexto do que ela diz deve ser observado</p><p>cuidadosamente e que tipo de “repetição da história” está envolvido. Não há um só</p><p>exemplo em que ela indique duplos ou múltiplos cumprimentos do chifre pequeno</p><p>ou de qualquer dos animais de Daniel ou Apocalipse e seus períodos de tempo.</p><p>Essas entidades vêm à existência uma vez, e somente uma vez. Contudo,</p><p>sua espécie de serviço como veículos do ataque de Satanás contra Deus e os</p><p>santos de Deus pode prontamente, porém, levar a uma repetição dos proces-</p><p>sos gerais usados, quer estes sejam enganos ou perseguições (veja João 8:44).</p><p>Mas nenhuma profecia apocalíptica é compreendida como incorporando</p><p>duplos ou múltiplos cumprimentos em si.</p><p>Condicionalidade na apocalíptica? Em recentes escritos privados entre al-</p><p>guns adventistas do sétimo dia, é feita a afirmação de que há condicionalidade</p><p>nas previsões históricas de livros apocalípticos como Apocalipse. O argumento</p><p>é que tais cumprimentos foram apenas parciais — se foram cumprimentos —,</p><p>porque certas condições não foram satisfeitas. Portanto, podemos aguardar um</p><p>cumprimento ainda futuro. Itens que têm sido colocados nesta categoria são o</p><p>grande terremoto, o Dia Escuro e a queda das estrelas (Ap 6:12–17), o final da</p><p>profecia dos 2.300 dias de Daniel em 1844, outros períodos de tempo em Daniel</p><p>e Apocalipse, e a descrição apocalíptica da história ainda mais geralmente.</p><p>O que deve ser dito em resposta a esta abordagem é que os princípios enuncia-</p><p>dos acima concernentes à descrição histórica da profecia apocalíptica são verda-</p><p>deiros para esta questão, bem como para aquela de “cumprimento repetido”. Esses</p><p>princípios não permitem nenhum espaço para qualquer falha no cumprimento ou</p><p>adiamento da previsão apocalíptica por causa de condicionalidade.</p><p>Resumindo, a profecia apocalíptica apresenta uma progressão histórica que</p><p>não oferece espaço para variabilidade, quando Deus prevê o que “deve breve-</p><p>mente acontecer” (Ap 1:1, KJV). Não há, por exemplo, nenhuma dúvida se os</p><p>quatro cavaleiros de Apocalipse 6 estão indo cavalgar; eles realmente irão sair</p><p>na progressão indicada. O mesmo é verdade quanto às advertências das trom-</p><p>betas, as pragas da condenação, a destruição de Babilônia etc. São estas todas</p><p>as coisas que foram mostradas a João e lhe foi dito que aconteceriam. Simples-</p><p>mente não está envolvido nenhum elemento de condicionalidade!</p><p>13 Para uma discussão deste quiasmo, veja o panfleto “Ellen G. White and the Interpretation</p><p>of Daniel and Revelation” (Instituto de Pesquisa Bíblica, Associação Geral dos Adventistas do</p><p>Sétimo Dia).</p><p>Princípios fundamentais de interpretaçãoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>26 27</p><p>Alguém pode argumentar, porém, que há um elemento de condicion-</p><p>alidade nas cartas às sete igrejas. Isto é de fato assim. Todo o conceito des-</p><p>sas cartas tem a condicionalidade como um referencial inerente. Mas esta</p><p>condicionalidade específica não se relaciona com a descrição histórica da</p><p>situação das igrejas, mas como as igrejas e os indivíduos que nelas estão</p><p>responderão ao apelo de Cristo, como eles decidirão estar no futuro no que</p><p>concerne à sua relação de aliança com o Senhor.</p><p>A natureza exortatória da literatura epistolar apresenta-se aqui. O fato</p><p>de que o livro de Apocalipse é uma carta</p><p>bem como uma profecia apoc-</p><p>alíptica confere-lhe certo sabor de exortação. Mas essa exortação, deve-se</p><p>enfatizar, está limitada a apelos (onde quer que se encontrem no livro, veja</p><p>16:15, para um exemplo) e não se aplica ao tipo específico de previsão</p><p>profética que é parte e parcela da natureza da literatura apocalíptica. Tam-</p><p>bém o livro de Daniel tem elementos de condicionalidade em suas seções</p><p>históricas e em quaisquer apelos que são feitos.</p><p>Contudo, nem no livro de Daniel nem em Apocalipse está a previsão profética</p><p>em si sujeita a condicionalidade. Os eventos são fixados e os períodos de tempo</p><p>prescritos são definidos e invariáveis. Esses elementos se ajustam aos padrões do</p><p>que disse Daniel ao rei Nabucodonosor: “Deus fez saber ao rei o que há de ser fu-</p><p>turamente. Certo é o sonho, e fiel, a sua interpretação” (Dn 2:45).</p><p>Simbolismo em Apocalipse</p><p>Como foi notado antes, entre as características gerais da profecia apocalíp-</p><p>tica está o seu extenso uso de simbolismo, principalmente simbolismo com-</p><p>plexo. O livro de Apocalipse está cheio de simbolismo e imagens, um fato que</p><p>causa muita consternação e confusão aos intérpretes. Parte do problema é que</p><p>os expositores modernos frequentemente inserem seus próprios significados</p><p>nos símbolos em vez de determinar a extensão bíblica do significado.</p><p>Ao estudar alguém o Apocalipse, torna-se evidente que a vasta maioria de suas</p><p>alusões em simbolismo e imagens é do Antigo Testamento.14 Este assunto é tratado</p><p>em detalhes em outro capítulo deste volume. A esta altura simplesmente adicion-</p><p>aremos alguns comentários sobre algumas outras considerações.</p><p>Função literária do simbolismo. Uma regra válida de interpretação das Es-</p><p>crituras é que uma determinada passagem deve ser interpretada literalmente a</p><p>menos que esteja presente evidência de linguagem simbólica ou figurativa. Este</p><p>princípio funciona bem para a maior parte da literatura bíblica. Mas quando</p><p>14 Veja o capítulo 4, “Interpretando o simbolismo do Apocalipse”.</p><p>confrontados pela profecia apocalíptica, devemos reconhecer nesse tipo de lit-</p><p>eratura uma preponderância de uso simbólico. Assim, nossa abordagem tem de</p><p>ser invertida a fim de que possamos encontrar razões para uma interpretação</p><p>literal de muitas passagens.</p><p>Em qualquer caso, existem considerações específicas que devemos ter em</p><p>mente quando indagamos: Por que há tanto simbolismo na profecia apocalíp-</p><p>tica, e, quais são algumas diretrizes para determinar quando esperar o uso sim-</p><p>bólico? Com exceção do fato de que o simbolismo é uma característica básica</p><p>desse tipo de literatura, vêm à mente as seguintes razões:</p><p>1. Descrição eficaz. O símbolo é com frequência a mais conveniente ou vigoro-</p><p>sa maneira de descrever uma mensagem. “Um quadro pode substituir mil palavras”,</p><p>e frequentemente o faz, mais exata e eficazmente do que uma prolongada descrição</p><p>verbal. Mapas rodoviários, fórmulas químicas, esboços do artista, projetos do ar-</p><p>quiteto, retratos e esculturas são exemplos de “uso simbólico” que expressam o que</p><p>as próprias palavras nunca poderiam retratar adequadamente.</p><p>No caso da literatura apocalíptica, que retrata a grande luta entre o bem e o</p><p>mal, deve-se esperar o uso de símbolos e imagens. Assuntos de alcance cósmico</p><p>não poderiam ser apresentados eficientemente pela expressão literal. Aqui está</p><p>o caso em que a incapacidade humana de compreender as complexidades do</p><p>conflito moral dá motivo para o uso de símbolos.</p><p>2. Descrição do futuro. A história futura em si seria um fenômeno difícil de</p><p>descrever literalmente de qualquer maneira inteligível para os leitores e ouvintes</p><p>da profecia. A revelação alega, é clara, desvendar o futuro, e surge então a pergunta:</p><p>Como poderia o futuro ser mais bem retratado do que em termos simbólicos?</p><p>3. Símbolos do reservatório comum. Outra explicação para o uso de sim-</p><p>bolismo é o fato de que certas expressões simbólicas eram uma parte do vocabu-</p><p>lário de Israel, um reservatório do uso simbólico comum. Assim, por exemplo,</p><p>as expressões Egito e Babilônia seriam prontamente compreendidas em seu sig-</p><p>nificado simbólico no livro de Apocalipse.</p><p>Fluidez do simbolismo. Por sua natureza, os símbolos são fluidos. Eles são</p><p>figuras de linguagem. Alguns elementos dessa fluidez podem ser notados:</p><p>1. O mesmo símbolo pode significar coisas diferentes em diferentes contex-</p><p>tos. Por exemplo, o leão pode ser usado para se referir a Cristo (Leão da tribo de</p><p>Judá em Ap 5:5), ao diabo (“leão que ruge” em 1Pe 5:8), a Judá (“leãozinho” em</p><p>Gn 49:9), e à Assíria e Babilônia (“leões”em Jr 50:17).</p><p>2. Símbolos diferentes podem representar a mesma coisa. Por exemplo, o</p><p>leão e o cordeiro representam Cristo em Apocalipse 5.</p><p>Princípios fundamentais de interpretaçãoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>28 29</p><p>3. Pode haver uma variação de símbolos retratando a mesma coisa dentro</p><p>do mesmo contexto. Por exemplo, Cristo é descrito como sendo tanto o pastor</p><p>quanto a porta do aprisco em João 10; as sete cabeças da besta de Apocalipse 17</p><p>são declaradas ser tanto sete montes quanto sete reis.</p><p>4. Os detalhes podem variar no que são evidentemente os mesmos símbolos.</p><p>Por exemplo, os quatro seres viventes de Ezequiel 1 formam o fundo para a cena</p><p>do trono de Apocalipse 4. Na primeira passagem cada criatura tem quatro ros-</p><p>tos, ao passo que na última passagem cada criatura tem apenas um rosto. Mas</p><p>as descrições dos rostos são a mesma em ambos os exemplos. Outros exemplos</p><p>seriam os cavalos de Zacarias 1:8 (compare também com 6:2–3) e Apocalipse 6,</p><p>e as oliveiras em relação aos candelabros conforme apresentados em Zacarias</p><p>4 e Apocalipse 11. O leitor ocidental moderno é inclinado a desejar a exatidão</p><p>matemática com respeito ao uso simbólico, mas tal coisa é contrária à própria</p><p>natureza do simbolismo. Quando a natureza fluida do símbolo é compreendida,</p><p>conforme ilustrada acima, as variações e variabilidade não devem nos inco-</p><p>modar. De fato, esta natureza fluida deve ela mesma ser para nós um impedi-</p><p>mento contra o excesso de literalismo na interpretação.</p><p>É importante, contudo, que permaneçamos dentro dos limites do uso con-</p><p>vencional de símbolos. Ao interpretarmos qualquer símbolo específico do livro</p><p>de Apocalipse, por exemplo, devemos pensar em termos da extensão dos sig-</p><p>nificados convencionais. Então fazemos nossa interpretação sobre a base de um</p><p>significado que se harmoniza com o contexto específico do Apocalipse.</p><p>Realidade interna do simbolismo. Um motivo por que os símbolos são</p><p>fluidos é que eles retratam uma realidade interior que funciona além do</p><p>significado do item ou itens específicos que servem como sua fonte. Minear</p><p>explica esta função como segue:</p><p>Este é um modo abrangente em vez de disjuntivo de ver e pensar. Apreende</p><p>eventos em termos de sua estrutura interna como respostas à ação divina. A ação</p><p>divina em cada época levava a um reconhecível modelo de reações, e o profeta</p><p>procurava discernir esse modelo por causa de seus leitores. “Egito” permaneceu</p><p>um nome distintivo, mas transmitia uma riqueza simbólica de significado não</p><p>limitada pelo contexto original nem desprezadora dele. Por trás desse modo de</p><p>ver estava uma postura ontológica distintiva, à qual devemos dar mais atenção</p><p>do que geralmente fazemos (MINEAR, 1965–1966, p. 95–96).</p><p>Exemplos dessa dinâmica podem ser facilmente supridos no livro de Apocalipse.</p><p>De fato, não seria incorreto declarar que isto representa a maneira básica em que</p><p>o simbolismo funciona dentro do Apocalipse. Por exemplo:</p><p>1. Os símbolos das “duas testemunhas” (Ap 11) têm antecedentes de Zac-</p><p>arias 4 e de Moisés, Elias, Jeremias e outros profetas.</p><p>2. Na porção central do livro de Apocalipse (8:2–18:24) acha-se uma dupla</p><p>descrição do que poderia ser chamado o tema “Êxodo-do-Egito”/Queda-de-</p><p>Babilônia”. As primeiras cinco trombetas têm como sua fonte antecedente as</p><p>pragas no antigo Egito, enquanto com a sexta trombeta a cena muda de an-</p><p>tecedente para o rio Eufrates, o rio de Babilônia (9:14). Semelhantemente, as</p><p>primeiras cinco pragas</p><p>são outra vez baseadas nas pragas do Egito; ao passo que</p><p>com a sexta praga a cena muda novamente para o rio Eufrates (16:12).</p><p>3. O que poderia ser denominado um tema “Queda-de-Babilônia/”Elias-no-</p><p>Monte-Carmelo ocorre na sexta praga (16:12–16) (ver SHEA, 1980, p. 157–163).</p><p>Aqui os antecedentes do Antigo Testamento proveem uma realidade</p><p>para a comunidade cristã que sobrepuja os significados originais. Nota-</p><p>mos dois aspectos de interesse:</p><p>1. O constante cuidado de Deus por seu povo nos tempos anteriores con-</p><p>tinua com a comunidade cristã, para quem Jesus Cristo é “o mesmo ontem e</p><p>hoje e para sempre” (Hb 13:8). O conceito está inerente na afirmação de Cristo</p><p>de ser o Alfa e o Ômega (1:8; 22:13). De fato, a nova comunidade cristã, inclu-</p><p>sive aquele segmento representado pelas congregações da Ásia que constituíam</p><p>a paróquia de João, era uma continuação na linhagem das pessoas a quem Deus</p><p>tinha escolhido e sustido em face da adversidade e dos ardis do diabo.</p><p>2. A igreja cristã representa uma intensificação de tudo o que Deus tem feito</p><p>por seu povo no passado. Não somente essa comunidade está na linhagem da</p><p>fé, mas representa uma culminação dos propósitos e planos de Deus para o seu</p><p>povo. Donde, todas as significativas experiências na história do trato de Deus</p><p>com o seu povo escolhido no Antigo Testamento podem ilustrar, ao menos em</p><p>um ponto, a experiência que pode ser esperada pelos cristãos. E a experiência</p><p>cristã, como já foi notado, transcenderá aquelas experiências ou eventos origi-</p><p>nais nos quais se baseiam as representações simbólicas.</p><p>Partindo da discussão anterior, vemos que os antecedentes simbólicos estão fre-</p><p>quentemente fundidos ou misturados. Essa mistura de simbolismo para as imagens do</p><p>Apocalipse é, realmente, característica do livro. Portanto, enfatizamos novamente que</p><p>em cada caso os significados originais dos materiais antecedentes não foram destruí-</p><p>dos. Nem há uma negação ou minimização dos eventos ou situações históricas alu-</p><p>didas nas imagens. Antes, esta mistura de antecedentes simbólicos retrata uma nova</p><p>Princípios fundamentais de interpretaçãoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>30 31</p><p>realidade que transcende qualquer antecedente individual, ou mesmo a combinação</p><p>de antecedentes, de sorte que o todo excede a soma das partes.15</p><p>Sugestões para a interpretação do simbolismo do Apocalipse. Como uma</p><p>questão de conveniência, provemos a seguinte lista de sugestões para a interpretação</p><p>dos símbolos do Apocalipse. Esta lista não é abrangente; além disso, o intérprete não</p><p>deve usá-la desajeitadamente, mas deve considerá-la um guia sugestivo para o leitor</p><p>confrontado pelo vasto e enigmático uso de linguagem simbólica no Apocalipse.16</p><p>1. Compreenda o símbolo pelo que ele é: uma figura ou sinal que é fluido e</p><p>de natureza representativa.</p><p>2. Reconheça as razões para o uso de símbolos na passagem e contexto es-</p><p>pecífico em estudo.</p><p>3. Descubra tanto quanto possível a fonte ou fontes do simbolismo, obser-</p><p>vando o significado original e quaisquer significados derivados para a comuni-</p><p>dade que agora o está usando.</p><p>4. Considere o símbolo do ponto de vista do tipo de literatura onde ele</p><p>ocorre (apocalíptico para o livro de Apocalipse, uma literatura que é caracteri-</p><p>zada por uma cósmica ênfase escatológica, assinalados contrastes etc.).</p><p>5. Note a relação do símbolo com o principal tema que está sendo tratado.</p><p>Por exemplo, a mensagem de qualquer uma das sete trombetas deve ser com-</p><p>patível com o tema mais amplo de toda a visão das sete trombetas.</p><p>6. Considere o símbolo dentro do seu contexto literário imediato ou a con-</p><p>figuração textual. Também deve haver compatibilidade neste nível.</p><p>7. Interprete o símbolo em relação com o seu uso convencional. Seu signifi-</p><p>cado preciso (dentro do âmbito de sua utilização convencional) deve ser deter-</p><p>minado pelo tema que está sendo tratado e em harmonia com a configuração</p><p>textual imediata — os princípios enunciados nos números 5 e 6 acima.</p><p>8. Quando estiver procurando a aplicação histórica, tome cuidado para não</p><p>tomar a história sob medida a fim de se ajustar a ideias preconcebidas do que</p><p>15 Em todo este processo tem ocorrido algo que, usando a terminologia de Austin Farrer, po-</p><p>deria ser chamado “um renascimento de imagens”. (Este, de fato, é o título do seu comentário;</p><p>ver FARRER, 1970) Contudo, há mais do que renascimento. Conquanto renascimento pudesse</p><p>referir-se simplesmente a imagens individuais e também possivelmente a combinações, a fusão</p><p>ou mistura para a qual tem sido chamada a atenção envolve uma dinâmica na qual amplas rep-</p><p>resentações gráficas levam-nos ao centro das grandes realidades ontológicas e soteriológicas da</p><p>teologia do Novo Testamento que são vitais e de interesse para a vida contínua e serviço da Igreja</p><p>Cristã.</p><p>16 Esta listagem é quase textual de Strand (1979, p. 29).</p><p>deveria ser a aplicação da mensagem; antes, deixe que a própria mensagem seja</p><p>o guia para o cumprimento histórico.</p><p>9. Não procure achar uma aplicação para cada detalhe de um extenso sim-</p><p>bolismo; em vez disto, obtenha a imagem ou lição principal. Partes de apresen-</p><p>tações simbólicas muitas vezes simplesmente completam o quadro.</p><p>10. Reconheça que a extensão de uma apresentação simbólica pode variar</p><p>de uma simples metáfora para uma extensa alegoria e que o significado de um</p><p>símbolo específico pode variar em diferentes contextos.</p><p>ProPósito e tema do aPocaliPse</p><p>Determinar o propósito e tema de determinado livro da Bíblia é um dos pro-</p><p>cedimentos básicos da eficiente interpretação bíblica. Isto é verdade para o Apoc-</p><p>alipse, bem como para qualquer outro escrito da Bíblia. Como regra, os comentaris-</p><p>tas são cuidadosos em anotar pistas indicando o propósito do escritor e o tema. Mas</p><p>também tem havido com muita frequência cuidado insuficiente a este respeito com</p><p>o livro de Apocalipse. Vejamos o que nos diz o próprio Apocalipse.</p><p>Propósito do Apocalipse</p><p>O propósito do livro de Apocalipse é apresentado claramente em seu preâm-</p><p>bulo: “Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos</p><p>as coisas que em breve devem acontecer” (1:1).</p><p>Em vista desta declaração explícita, é notável que alguns comentaristas</p><p>afirmem que o Apocalipse não tem nada a dizer acerca de eventos futuros para</p><p>o tempo de João. Sugerem que o Apocalipse é simplesmente um belo retrato de</p><p>Cristo e dos ideais que surgem desse retrato. Um belo retrato de Cristo é real-</p><p>mente apresentado ao longo do Apocalipse, mas negar o propósito declarado do</p><p>livro em desvendar eventos futuros contradiz sua própria asserção.</p><p>Duplo tema do Apocalipse</p><p>O duplo tema do Apocalipse explica mais detalhadamente o propósito da</p><p>profecia. Conforme declarado no prólogo e no epílogo, o tema é o seguinte:</p><p>Eis que [Cristo] vem com as nuvens, e todo o olho o verá […]. Eu sou o Alfa</p><p>e o Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-</p><p>-poderoso (1:7–8).</p><p>Princípios fundamentais de interpretaçãoEstudos selecionados em interpretação profética</p><p>32 33</p><p>Eis que venho sem demora, e comigo está o galardão, que tenho para retribuir</p><p>a cada um segundo as suas obras. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Últi-</p><p>mo, o Princípio e o Fim (22:12–13).</p><p>Segundo Advento. Um importante foco do livro de Apocalipse é o segundo ad-</p><p>vento de Cristo. Nosso Senhor virá para pôr fim ao reino do pecado e tristeza, dor e</p><p>sofrimento, enfermidade e morte. E quando Ele vier, seu galardão estará com Ele —</p><p>um justo galardão para recompensar todas as pessoas segundo as suas obras.</p><p>Seu retorno trará a erradicação final do pecado e suas horríveis consequên-</p><p>cias de miséria e aflição, destruirá os destruidores da Terra (11:18), e garantirá</p><p>uma herança eterna àqueles que têm seguido lealmente em Seus passos.</p><p>Sempre presente. Mas Cristo também é retratado no Apocalipse como estando</p><p>sempre presente com seus fiéis seguidores durante toda a sua tribulação no presente.</p><p>Ele é o Alfa e o Ômega, Aquele que foi morto, está agora vivo, vive para sempre,</p>