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<p>O CAPITALISMO VENCEU</p><p>Após refutar as tentativas de interferência na gestão, a Vale reafirma a</p><p>governança independente e define o diretor de finanças, Gustavo Pimenta,</p><p>como o próximo presidente. Sua missão: tornar a empresa mais “verde”</p><p>B R A S I L</p><p>O C U S T O D O S B E N E F Í C I O S</p><p>A S E T O R E S P R I V I L E G I A D O S</p><p>F I N A N Ç A S</p><p>É T E M P O D E C A S A M E N T O S</p><p>E N T R E G E S T O R A S</p><p>E N T R E V I S T A</p><p>S Y LV E S T E R F E D D E S ,</p><p>P R E S I D E N T E D A N O VA R T I S</p><p>EXCLUSIVO</p><p>Gustavo Pimenta:</p><p>o futuro CEO da Vale</p><p>fala sobre seus desafios.</p><p>Leia também entrevista</p><p>com Daniel Stieler,</p><p>presidente do conselho</p><p>de administração</p><p>veja.abril.com.br/veja-negocios</p><p>edição 6 - setembro de 2024</p><p>INÊS 249</p><p>INÊS 249</p><p>SUMÁRIO</p><p>6 | CARTA AO LEITOR</p><p>9 | ENTREVISTA</p><p>Sylvester Feddes, presidente da</p><p>Novartis: “Apostamos no Brasil”</p><p>12 | GIRO</p><p>Mercado livre de energia avança</p><p>no país e gera oportunidades</p><p>Publisher: Fabio Carvalho</p><p>Fundada em 1950</p><p>VICTOR CIVITA</p><p>(1907-1990)</p><p>ROBERTO CIVITA</p><p>(1936-2013)</p><p>Diretor de Redação: Mauricio Lima</p><p>CO-CEO Francisco Coimbra,</p><p>VP DE PUBLISHING (CPO) Andrea Abelleira,</p><p>VP DE TECNOLOGIA E OPERAÇÕES (COO)</p><p>Guilherme Valente, DIRETORIA DE</p><p>MONETIZAÇÃO, LOGÍSTICA E CLIENTES Erik</p><p>Carvalho, DIRETOR DE PUBLICIDADE Ciro</p><p>Hashimoto, GERENTE-EXECUTIVA DE</p><p>PROJETOS ESPECIAIS Juliana Caldas</p><p>VEJA NEGÓCIOS (EAN: 789.3614.11337-1),</p><p>ano 1/nº 6. VEJA NEGÓCIOS é uma</p><p>publicação mensal da Editora Abril.</p><p>Edições anteriores: venda exclusiva em bancas,</p><p>pelo preço da última edição em banca mais</p><p>despesa de remessa. Solicite ao seu jornaleiro.</p><p>VEJA NEGÓCIOS não admite publicidade redacional.</p><p>Redator-chefe: José Roberto Caetano</p><p>Editor-executivo: Amauri Barnabé Segalla</p><p>Editora: Juliana Machado</p><p>Editora-assistente: Larissa Vicente Quintino</p><p>Repórteres: Camila Barros, Camila Pati, Diego</p><p>Gimenes Bispo dos Santos, Juliana Soares Guimarães</p><p>Elias, Luana Meneghetti Zanobia, Pedro do Val de</p><p>Carvalho Gil Colaboração: Ernesto Yoshida,</p><p>Alessandro Giannini, Antônio Gioia,</p><p>Cinthia Rodrigues, Diogo Schelp, Felipe Soderini</p><p>Erlich, Márcio Juliboni, Marcos Coronato,</p><p>Raísa Boing, Tiago Cordeiro</p><p>Editor de Arte: Daniel Marucci</p><p>Designers: Ana Cristina Chimabuco, Arthur Galha</p><p>Pirino, Luciana Rivera, Ricardo Horvat Leite</p><p>Estagiária: Gisele Correia Ruggero</p><p>Editor de Fotografia: Rodrigo Guedes Sampaio</p><p>Pesquisadora: Iara Silvia Brezeguello Rodrigues</p><p>Revisão: Rosana Tanus</p><p>Secretárias de Produção: Andrea Caitano,</p><p>Patrícia Villas Bôas Cueva, Vera Fedschenko</p><p>Serviços Internacionais: Associated Press/</p><p>Agence France Presse/Reuters</p><p>www.veja.com</p><p>Redação e Correspondência: Rua Cerro Corá,</p><p>2175, lojas 101 a 105, 1º andar, Vila Romana,</p><p>São Paulo, SP, CEP 05061-450</p><p>IMPRESSA NA PLURAL INDÚSTRIA</p><p>GRÁFICA LTDA. Av. Marcos Penteado</p><p>de Ulhôa Rodrigues, 700, Tamboré,</p><p>Santana de Parnaíba, SP, CEP 06543-001</p><p>www.grupoabril.com.br</p><p>SUMÁRIO</p><p>4 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>34 | NEGÓCIOS</p><p>GPA lança plano de reestruturação,</p><p>mas será difícil voltar ao topo</p><p>38 | ESG</p><p>Preocupação com saúde mental</p><p>entra na agenda das empresas</p><p>42 | MUNDO</p><p>Novo premiê do Reino Unido quer</p><p>colocar contas públicas nos eixos</p><p>46 | FINANÇAS</p><p>Mercado de gestoras de recursos</p><p>passa por forte consolidação</p><p>50 | INOVAÇÃO</p><p>Startups brasileiras voltam</p><p>a atrair investimentos</p><p>54 | BEM-ESTAR</p><p>Estratégias para vencer a insônia</p><p>56 | BEM VIVER</p><p>Aos 178 anos, a grife Loewe</p><p>passa por um rejuvenescimento</p><p>58 | PALAVRA FINAL</p><p>Paulo Alvarenga, presidente da</p><p>thyssenkrupp América do Sul, fala</p><p>sobre transição energética global</p><p>22 | CAPA</p><p>O novo CEO da Vale</p><p>tem o desafio de tornar</p><p>a empresa mais verde</p><p>PA</p><p>U</p><p>LO</p><p>F</p><p>R</p><p>ID</p><p>M</p><p>A</p><p>N</p><p>/B</p><p>LO</p><p>O</p><p>M</p><p>BE</p><p>R</p><p>G</p><p>/G</p><p>ET</p><p>TY</p><p>IM</p><p>A</p><p>G</p><p>ES</p><p>M</p><p>A</p><p>U</p><p>R</p><p>O</p><p>P</p><p>IM</p><p>EN</p><p>TE</p><p>L/</p><p>A</p><p>FP</p><p>DIVULGAÇÃO/VALE</p><p>14 | BRASIL</p><p>Os equívocos das</p><p>renúncias fiscais</p><p>18 | EDUCAÇÃO</p><p>Quem é o padre que comanda</p><p>a PUC-Rio com visão executiva</p><p>30 | NEGÓCIOS</p><p>São Paulo se torna um polo de</p><p>grandes eventos da cultura pop</p><p>INÊS 249</p><p>INÊS 249</p><p>6 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>CARTA AO LEITOR</p><p>PRIVILÉGIOS CUSTAM. E MUITO</p><p>O Brasil é o país das isenções de impostos — que se revertem em aumento da própria carga</p><p>tributária, fazendo com que os benefícios de alguns sejam pagos por toda a sociedade</p><p>BANHADA PELO RIO NEGRO, perto de onde es-</p><p>se se encontra com o Solimões para formar o por-</p><p>tentoso Amazonas, Manaus é uma cidade de 2,3</p><p>milhões de habitantes. A metrópole tropical é uma</p><p>mancha urbana em meio à imensidão verde da Flo-</p><p>resta Amazônica. A concentração de tal número de</p><p>pessoas em boa medida se deve à Zona Franca de</p><p>Manaus, área de incentivos à produção industrial e</p><p>ao comércio. Quando a ZF foi criada, em 1967, eram</p><p>apenas cerca de 300 000 os habitantes daquele pon-</p><p>to isolado no coração da Amazônia. O polo ma-</p><p>nauara se mantém ao custo anual de 26 bilhões de</p><p>reais em benefícios fiscais a empresas. Isso, do go-</p><p>verno federal. O estadual entra com mais 6 bilhões.</p><p>Isenções e outros benefícios tributários são o as-</p><p>sunto da reportagem “O país das isenções”, que co-</p><p>meça na pág. 14 desta edição. Ali figuram dados</p><p>como o de que a União concedeu 646 bilhões de</p><p>reais em subsídios em 2023, dos quais 80% foram</p><p>isenções tributárias. Apenas essas corresponderam</p><p>a 4,8% do produto interno bruto. Isso é parte de um</p><p>custo que, se de um lado favorece alguns — inclusi-</p><p>ve com a oferta de empregos —, de outro, recai so-</p><p>bre toda a sociedade. Com resultados discutíveis,</p><p>para ficar num termo brando. Motos, televisores,</p><p>celulares e outros produtos que saem das linhas de</p><p>Manaus têm de percorrer 4 700 quilômetros, 1 600</p><p>deles por rio, durante onze dias, para chegar a São</p><p>Paulo, o principal centro consumidor do país. É</p><p>uma logística que desafia a racionalidade econômi-</p><p>ca. E é apenas um exemplo das distorções geradas</p><p>pelos incentivos fiscais que o país vai acumulando</p><p>— hoje já com mais que o dobro do volume que ti-</p><p>nha em 2003, quando significava 2% do PIB.</p><p>A reforma tributária vai melhorar esse quadro? É</p><p>o que se espera. Mas o que se tem visto são setores</p><p>bonificados conseguindo, de modo crescente, impor</p><p>seus argumentos nas discussões da reforma no Con-</p><p>gresso. Ainda é tempo de mudar. ƒ</p><p>B</p><p>R</p><p>U</p><p>N</p><p>O</p><p>Z</p><p>A</p><p>N</p><p>A</p><p>R</p><p>D</p><p>O</p><p>/F</p><p>O</p><p>T</p><p>O</p><p>A</p><p>R</p><p>E</p><p>N</p><p>A</p><p>P</p><p>A</p><p>U</p><p>LO</p><p>F</p><p>R</p><p>ID</p><p>M</p><p>A</p><p>N</p><p>/B</p><p>LO</p><p>O</p><p>M</p><p>B</p><p>E</p><p>R</p><p>G</p><p>/G</p><p>E</p><p>T</p><p>T</p><p>Y</p><p>I</p><p>M</p><p>A</p><p>G</p><p>E</p><p>S</p><p>Zona Franca</p><p>de Manaus:</p><p>a produção</p><p>no meio da</p><p>Amazônia</p><p>desafia a</p><p>racionalidade</p><p>econômica</p><p>INÊS 249</p><p>INÊS 249</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 9</p><p>DIRETO AO PONTO | SYLVESTER FEDDES</p><p>“NÃO PERDEMOS</p><p>A ONDA”</p><p>Feddes: “Com suas grandes dimensões e sérios problemas de desigualdade,</p><p>o Brasil também oferece grandes oportunidades de negócios e de causar impacto”</p><p>O novo presidente da farmacêutica suíça Novartis no Brasil rechaça a ideia de que a empresa</p><p>deveria ter desenvolvido um remédio para concorrer com o Ozempic</p><p>Pedro Gil</p><p>ECONOMISTA DE FORMAÇÃO, o holandês Sylves-</p><p>ter Feddes assumiu em fevereiro passado a presidência</p><p>da farmacêutica suíça Novartis no Brasil. Sua missão</p><p>não será nada fácil. Nos últimos anos, a concorrência</p><p>entre as empresas do setor ficou ainda mais acirrada e</p><p>a busca por novos medicamentos se tornou o melhor</p><p>caminho para trazer retorno aos acionistas. Nesse con-</p><p>texto, a Novartis perdeu duas grandes oportunidades:</p><p>desenvolver uma vacina para a covid-19 e remédios</p><p>para perda de peso, como o Ozempic, fabricado pela</p><p>dinamarquesa Novo Nordisk. Na entrevista a seguir,</p><p>Feddes diz que a Novartis, com faturamento anual de</p><p>mais de 45 bilhões de dólares no mundo, sendo 1 bilhão</p><p>no Brasil, pretende se destacar com medicamentos do-</p><p>tados de alta tecnologia, especialmente nas áreas de</p><p>oncologia, imunologia e cardiovascular. Ele também</p><p>fala sobre os investimentos no país e analisa o sistema</p><p>de saúde local. Confira os principais trechos.</p><p>A Novartis está sendo pressionada por acionistas</p><p>para encontrar remédios tão revolucionários</p><p>quanto</p><p>e atrações.</p><p>À medida que o Brasil se estabelece como um</p><p>destino primordial para feiras e convenções de cul-</p><p>tura geek, é provável que vejamos um aumento do</p><p>número e da escala desses eventos nos próximos</p><p>anos. Isso não apenas beneficiará os fãs locais com</p><p>acesso a experiências únicas, mas também impul-</p><p>sionará o turismo e a economia, consolidando o</p><p>país como um competidor importante no cenário</p><p>global de entretenimento e cultura pop. “O público</p><p>brasileiro é apaixonado por isso tudo, é um consu-</p><p>midor ávido e está sempre em busca de novas expe-</p><p>riências”, diz o analista Carlos Silva, professor da</p><p>Escola Superior de Propaganda e Marketing. “Além</p><p>disso, o Brasil possui uma estrutura cada vez mais</p><p>profissionalizada para a realização desses even-</p><p>tos.” São os nerds e geeks assumindo o protagonis-</p><p>mo da cena de eventos internacionais. ƒ</p><p>D23: São Paulo</p><p>vai sediar</p><p>o primeiro</p><p>encontro de fãs</p><p>da Disney na</p><p>América Latina</p><p>G-Star</p><p>Busan, Coreia do Sul</p><p>Visão geral:</p><p>importante</p><p>convenção de jogos</p><p>na Coreia do Sul com</p><p>foco em videogames e</p><p>entretenimento</p><p>interativo</p><p>New York</p><p>Comic Con (NYCC)</p><p>Nova York, EUA</p><p>Visão geral: grande</p><p>convenção que</p><p>celebra quadrinhos,</p><p>graphic novels, anime,</p><p>mangá, videogames,</p><p>brinquedos e</p><p>muito mais</p><p>Fan Expo</p><p>Canada</p><p>Toronto, Canadá</p><p>Visão geral:</p><p>convenção</p><p>multigênero com</p><p>foco em quadrinhos,</p><p>ficção científica,</p><p>terror, anime e jogos</p><p>D23</p><p>Anaheim, EUA</p><p>Visão geral: o evento</p><p>bienal inclui painéis e</p><p>apresentações com</p><p>prévias exclusivas de</p><p>filmes e atrações</p><p>futuros da Disney, Pixar,</p><p>Marvel e Lucasfilm</p><p>San Diego</p><p>Comic-Con (SDCC)</p><p>San Diego, EUA</p><p>Visão geral: evento</p><p>de cultura pop que</p><p>abrange quadrinhos,</p><p>filmes, programas de</p><p>TV e jogos</p><p>Público: 220 000 Público: 200 000 Público: 151 000 Público: 140 000 Público: 135 000</p><p>Z</p><p>U</p><p>M</p><p>A</p><p>P</p><p>R</p><p>E</p><p>S</p><p>S</p><p>/A</p><p>L</p><p>A</p><p>M</p><p>Y</p><p>/F</p><p>O</p><p>T</p><p>O</p><p>A</p><p>R</p><p>E</p><p>N</p><p>A</p><p>Colaborou Diego Gimenes</p><p>INÊS 249</p><p>34 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>NEGÓCIOS | VAREJO</p><p>BANHO DE LOJA</p><p>O Grupo Pão de Açúcar vende ativos, reestrutura dívidas e simplifica a operação,</p><p>mas os tempos de glória dificilmente voltarão tão cedo Pedro Gil e Felipe Erlich</p><p>m dezembro de 2021, a pandemia de co-</p><p>vid-19 havia arrefecido e Marcelo Pi-</p><p>mentel, um homem alto, grisalho e de</p><p>sorriso fácil, aproveitaria as festas de</p><p>fim de ano para reencontrar as irmãs na Inglater-</p><p>ra, país em que elas vivem. No aeroporto de Gua-</p><p>rulhos, enquanto aguardava seu voo, ele recebeu</p><p>uma ligação de um headhunter, como são chama-</p><p>dos os profissionais que caçam talentos para posi-</p><p>ções de destaque nas empresas. Pimentel já estava</p><p>há quase três anos como presidente da Lojas Mari-</p><p>sa, em grave crise financeira, e não descartava a</p><p>possibilidade de trocar de emprego. Do outro lado</p><p>da linha, o head hunter queria saber se Pimentel es-</p><p>tava interessado em um novo cargo. “Podemos</p><p>conversar”, respondeu. Assim que chegou à casa</p><p>da irmã, já tinha aparecido em seu WhatsApp a</p><p>mensagem do profissional. “Podemos falar ama-</p><p>nhã?” Dali em diante, tudo foi muito rápido. No dia</p><p>seguinte, ele passou por entrevistas com o conse-</p><p>lho de administração do Grupo Pão de Açúcar. No</p><p>outro, foi sabatinado por franceses do grupo Casi-</p><p>no, principal acionista da rede de supermercados</p><p>brasileira. Em pouco tempo, seria contratado.</p><p>Minuto Pão de</p><p>Açúcar: a rede</p><p>aposta agora</p><p>nos mercados</p><p>de proximidade</p><p>E</p><p>D</p><p>IV</p><p>U</p><p>LG</p><p>AÇ</p><p>ÃO</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 35</p><p>Pimentel assumiu a presidência do Grupo Pão de</p><p>Açúcar em março de 2022 com a difícil missão de</p><p>ajustar as finanças daquela que, por muitos anos, foi</p><p>a principal rede de supermercados do país. À época,</p><p>a dívida bruta da companhia superava a marca dos</p><p>8 bilhões de reais, valor que equivalia a dez vezes o</p><p>seu lucro anual antes de juros, impostos, deprecia-</p><p>ção e amortização (Ebitda). “O GPA tirou o olho da</p><p>bola”, disse Pimentel a VEJA NEGÓCIOS. Passados</p><p>dois anos e meio, a situação mudou. A dívida bruta</p><p>foi reduzida em cerca de 4 bilhões de reais. A pro-</p><p>porção da dívida líquida sobre o Ebitda caiu para</p><p>2,8 vezes, não muito distante do índice do Carrefour</p><p>(2,4 vezes) e inferior ao do Assaí (3,6 vezes), dois</p><p>importantes concorrentes.</p><p>Mesmo assim, os desafios pela frente continuam</p><p>grandes. Hoje o GPA é o quarto colocado no ran-</p><p>king dos supermercados do país. O faturamento do</p><p>atual líder, o Carrefour, de 115 bilhões de reais no</p><p>ano passado, foi 5,6 vezes superior ao do Pão de</p><p>Açúcar (veja o quadro abaixo). Voltar aos dias de</p><p>glória, quando encabeçava a lista dos maiores vare-</p><p>jistas do país, é tarefa árdua. “Por muito tempo no</p><p>Brasil, o Pão de Açúcar ditou tendências”, diz Cristi-</p><p>na Souza, presidente da consultoria especializada</p><p>Gouvêa Foodservice. A executiva elenca inovações</p><p>como a introdução, nos anos 1950, do autosserviço</p><p>— quando o cliente pega o produto nas prateleiras</p><p>em vez de solicitá-lo no balcão —, os antigos hiper-</p><p>mercados da bandeira Jumbo, nos anos 1970, e o</p><p>programa de fidelidade pioneiro, cujo anúncio é</p><p>amplamente conhecido: “É Cliente Mais?”.</p><p>O CEO do</p><p>GPA, Marcelo</p><p>Pimentel: venda</p><p>de ativos ajudou</p><p>a reduzir dívidas</p><p>A maior conquista do Pão de Açúcar nos últimos</p><p>anos, a redução do endividamento, foi alcançada após</p><p>a venda de uma série de ativos. A lista de desapegos</p><p>inclui onze lojas, um grande terreno no Rio de Janeiro,</p><p>participações na holandesa Cnova e no colombiano</p><p>Grupo Éxito, 71 postos de gasolina e até a sede da em-</p><p>presa, em São Paulo. Mais de 1,8 bilhão de reais foram</p><p>angariados como resultado dessas iniciativas. Outras</p><p>estratégias têm sido levadas adiante. São mudanças</p><p>que não estão voltadas para o portfólio de ativos da</p><p>companhia, mas para o que ela oferece aos clientes.</p><p>D</p><p>A</p><p>N</p><p>IE</p><p>L</p><p>A</p><p>T</p><p>O</p><p>V</p><p>IA</p><p>N</p><p>S</p><p>K</p><p>Y</p><p>Os gigantes de alimentos</p><p>Os maiores supermercados do Brasil em 2023 (faturamento em bilhões de reais)</p><p>CARREFOUR</p><p>ASSAÍ</p><p>ATACADISTA</p><p>GRUPO</p><p>MATEUS</p><p>GRUPO PÃO</p><p>DE AÇÚCAR</p><p>SUPERMERCADOS</p><p>BH</p><p>Fonte: Associação Brasileira de Supermercados (Abras)</p><p>115 73 30 21 17</p><p>INÊS 249</p><p>36 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>Negócios | VAREJO</p><p>Uma história marcada por altos e baixos</p><p>A trajetória da empresa que nas últimas décadas se tornou uma das referências do varejo brasileiro</p><p>1 9 4 8 1 9 5 9 A N O S 1 9 7 0 A N O S 1 9 8 0 1 9 8 9 1 9 9 9</p><p>O imigrante</p><p>português</p><p>Valentim</p><p>dos Santos</p><p>Diniz abriu a</p><p>então doceria</p><p>Pão de Açúcar</p><p>no Centro de</p><p>São Paulo</p><p>O Jumbo foi</p><p>transformado</p><p>em Extra e</p><p>Abilio se</p><p>afastou dos</p><p>negócios por</p><p>desavenças</p><p>com os irmãos</p><p>Arnaldo e</p><p>Alcides</p><p>Com o</p><p>grupo em</p><p>dificuldades</p><p>financeiras,</p><p>os irmãos</p><p>venderam</p><p>suas</p><p>participações</p><p>na empresa</p><p>para Abilio</p><p>O grupo</p><p>francês</p><p>Casino</p><p>comprou</p><p>25% da</p><p>empresa</p><p>brasileira</p><p>Nasceu o primeiro</p><p>supermercado da</p><p>companhia, que</p><p>também recebeu</p><p>o nome de Pão</p><p>de Açúcar. Abilio</p><p>Diniz, filho de</p><p>Valentim,</p><p>assumiu a gestão</p><p>do negócio</p><p>Sob a liderança de Abilio, a empresa apostou</p><p>na diversificação com a abertura do</p><p>hipermercado Jumbo</p><p>Há um esforço para descentralizar e aumentar o</p><p>alcance da rede por meio dos chamados mercados de</p><p>proximidade, os Minuto Pão de Açúcar. Nesse caso,</p><p>as entregas de compras feitas pela internet não saem</p><p>mais de grandes centros de distribuição em direção às</p><p>casas dos consumidores. Em vez disso, o GPA envia</p><p>os produtos a partir de uma loja próxima do destino.</p><p>Por um lado, é algo que reforça a necessidade de capi-</p><p>laridade, mas há ganhos consideráveis no encurta-</p><p>mento das distâncias. Pimentel nota que, graças à mu-</p><p>dança, os clientes podem comprar alimentos como</p><p>queijos e vegetais também no ambiente digital. Atual-</p><p>mente, os perecíveis são uma grande aposta da vare-</p><p>jista. “Eles já representam mais de 50% de toda a ven-</p><p>da do negócio”, diz o CEO.</p><p>A ascensão dos pequenos mercados, no entanto, é</p><p>liderada pela mexicana Oxxo, que se posiciona entre</p><p>lojas de conveniência e de proximidade e abriu mais de</p><p>500 lojas desde que desembarcou no Brasil, em 2020.</p><p>O Minuto Pão de Açúcar, com 186 unidades, está mui-</p><p>to distante da rival. Pimentel,</p><p>contudo, questiona a</p><p>operação 24 horas adotada em boa parte das Oxxo. “O</p><p>risco com segurança é alto e o custo não traz o retorno</p><p>esperado”, diz. A competição no setor, hoje muito mais</p><p>acirrada que nos tempos do pioneiro Abilio Diniz, que</p><p>morreu em fevereiro deste ano, é um dos pontos que</p><p>fazem alguns analistas adotarem uma postura de cau-</p><p>tela em relação ao GPA. A empresa, fundada pelo pai</p><p>de Abilio, Valentim Diniz, em 1948, foi inovadora em</p><p>parte porque, naquela época, o segmento não existia</p><p>nos moldes que a família apresentava. “A alta concor-</p><p>rência é algo que, principalmente nas regiões Sul e Su-</p><p>deste, tem impactado as margens do setor”, diz Caroli-</p><p>ne Sanchez, da casa de análise Levante.</p><p>O presidente do GPA considera que há espaço</p><p>para crescer especialmente em São Paulo, razão pe-</p><p>la qual está concentrando a expansão do Minuto no</p><p>estado para só depois partir para outras regiões.</p><p>O foco no mercado paulista exemplifica a filosofia</p><p>que tem sido adotada no GPA: fazer menos para ten-</p><p>tar fazer melhor. A atual gestão dos supermercados</p><p>afirma que reduziu o contingente de projetos de</p><p>mais de 300 para apenas dez nos últimos dois anos</p><p>e meio. Um exemplo é o abandono da plataforma de</p><p>Casino: o grupo</p><p>francês estaria</p><p>interessado em</p><p>se desfazer de</p><p>sua participação</p><p>no GPA</p><p>pa</p><p>g</p><p>e</p><p>fr</p><p>ed</p><p>er</p><p>iq</p><p>u</p><p>e/</p><p>sh</p><p>u</p><p>tt</p><p>er</p><p>st</p><p>o</p><p>ck</p><p>fa</p><p>ce</p><p>bo</p><p>o</p><p>k</p><p>@</p><p>a</p><p>bi</p><p>li</p><p>o</p><p>d</p><p>iN</p><p>iz</p><p>d</p><p>iv</p><p>u</p><p>lg</p><p>aç</p><p>ão</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 37</p><p>2 0 0 3 2 0 0 5 2 0 0 7 2 0 1 0 2 0 1 2 2 0 1 3 2 0 1 9 2 0 2 1</p><p>Abilio propôs</p><p>fundir Pão</p><p>de Açúcar e</p><p>Carrefour,</p><p>rival do</p><p>Casino na</p><p>França, mas</p><p>o negócio</p><p>não foi para</p><p>a frente</p><p>Abilio</p><p>renunciou à</p><p>presidência</p><p>do conselho e</p><p>se afastou de</p><p>vez da</p><p>empresa</p><p>criada por</p><p>sua família</p><p>O GPA</p><p>vendeu</p><p>toda a sua</p><p>participação</p><p>na Via</p><p>Varejo após</p><p>10 anos de</p><p>união</p><p>Abilio</p><p>trocou a</p><p>presidência</p><p>da companhia</p><p>pelo comando</p><p>do conselho</p><p>Foi criada</p><p>uma nova</p><p>holding, com</p><p>50% para</p><p>Abilio e 50%</p><p>para o</p><p>Casino</p><p>A holding</p><p>incorporou</p><p>o Assaí,</p><p>explorando</p><p>o modelo</p><p>conhecido</p><p>como</p><p>atacarejo</p><p>O GPA</p><p>vendeu a</p><p>bandeira</p><p>Extra para</p><p>o Assaí</p><p>O presidente do Casino,</p><p>Jean-Charles Naouri,</p><p>assumiu o comando do GPA</p><p>entregas James, cujo custo foi considerado alto de-</p><p>mais ante o retorno modesto.</p><p>A arrumação do GPA vem em hora que pode se</p><p>provar especialmente oportuna. O grupo francês</p><p>Casino estaria interessado em se desfazer de sua</p><p>participação de 22,5% na empresa, segundo rumo-</p><p>res que circulam no mercado. Os franceses entra-</p><p>ram no negócio em 1999, com 25% de participação,</p><p>e chegaram ao posto de controladores, com 40%</p><p>das ações em março deste ano, quando esse percen-</p><p>tual foi diluído com uma emissão de ações de 704</p><p>milhões de reais. Segundo Cristina Souza, da Gou-</p><p>vêa Foodservice, o GPA pode estar tentando “se tor-</p><p>nar sexy para uma potencial negociação a médio</p><p>prazo”. Já Caroline Sanchez, da Levante, diz que os</p><p>rumores têm animado investidores a aumentar a</p><p>sua participação na empresa. Questionado por</p><p>VEJA NEGÓCIOS, Pimentel nega qualquer relação</p><p>entre as mudanças que estão sendo implementadas</p><p>no GPA e a posição do Casino. “Isso tem zero im-</p><p>pacto na operação”, afirma. “Embelezar a noiva não</p><p>é o caso aqui.” De todo modo, ela está bem mais bo-</p><p>nita do que em 2021, quando o então futuro CEO</p><p>recebeu o telefonema do headhunter. ƒ</p><p>A mexicana</p><p>Oxxo: expansão</p><p>agressiva levou</p><p>à abertura de</p><p>mais de 500 lojas</p><p>no Brasil</p><p>M</p><p>A</p><p>T</p><p>H</p><p>EU</p><p>S</p><p>C</p><p>EZ</p><p>A</p><p>R</p><p>P</p><p>H</p><p>IL</p><p>IP</p><p>P</p><p>E</p><p>W</p><p>O</p><p>JA</p><p>Z</p><p>ER</p><p>/A</p><p>P</p><p>INÊS 249</p><p>38 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>ESG | TRABALHO</p><p>CABEÇA FEITA</p><p>Empresas de diversos setores criam programas para promover a saúde mental de seus funcionários,</p><p>um tema que ganhou relevância com o estresse trazido pela nova realidade do trabalho Camila Pati</p><p>m 1869, o neurologista americano Geor-</p><p>ge Beard observou que seus conterrâ-</p><p>neos estavam exaustos. Trens a vapor</p><p>corriam rápido demais, jornais despeja-</p><p>vam notícias diariamente e o telégrafo espalhava</p><p>informações urgentes mundo afora. Com os nervos</p><p>esgotados, todo o corpo sentia. As noites eram mal-</p><p>dormidas, dores de cabeça se tornavam comuns e,</p><p>como efeito direto desse processo, as pessoas de-</p><p>monstravam insatisfação generalizada com o traba-</p><p>lho. Beard chamou isso de neurastenia. Em 1974,</p><p>E</p><p>G</p><p>IR</p><p>T</p><p>S</p><p>R</p><p>A</p><p>G</p><p>EL</p><p>IS</p><p>/S</p><p>H</p><p>U</p><p>T</p><p>T</p><p>ER</p><p>ST</p><p>O</p><p>C</p><p>K</p><p>Reunião</p><p>por vídeo:</p><p>empregados</p><p>permanecem</p><p>conectados</p><p>o tempo todo</p><p>um século depois, o psicólogo, também americano,</p><p>Herbert Freudenberger rebatizou a síndrome como</p><p>burnout e ligou o termo ao trabalho. Desde então,</p><p>milhões de pessoas de todas as partes do mundo são</p><p>acometidas pelo problema — que, registre-se, não</p><p>para de crescer diante dos desafios da vida corpora-</p><p>tiva contemporânea.</p><p>Uma pesquisa recente realizada pela Gattaz</p><p>Health & Results (GHR), consultoria especializada</p><p>em desenvolver soluções para a saúde mental e o</p><p>bem-estar no ambiente de trabalho, mostrou que o</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 39</p><p>burnout é uma realidade onipresente nas empresas.</p><p>Segundo o médico Wagner Gattaz, fundador da</p><p>GHR, cerca de 20% dos profissionais consultados na</p><p>pesquisa sofrem do transtorno. Outro estudo, este</p><p>feito pela Associação Nacional de Medicina do Tra-</p><p>balho, apontou que aproximadamente 30% dos tra-</p><p>balhadores brasileiros enfrentam crises desse tipo.</p><p>Apesar de detectado no ambiente corporativo há</p><p>muito tempo, o burnout despertou maior preocupa-</p><p>ção após a pandemia de covid-19. Desde então, a</p><p>proliferação de casos de afastamentos por transtor-</p><p>F</p><p>0</p><p>1</p><p>P</p><p>H</p><p>O</p><p>T</p><p>O</p><p>/S</p><p>H</p><p>U</p><p>T</p><p>T</p><p>E</p><p>R</p><p>S</p><p>T</p><p>O</p><p>C</p><p>K</p><p>Estresse em alta</p><p>Os números que dimensionam o problema</p><p>7 em cada 10 funcionários</p><p>gostariam que suas empresas fizessem mais</p><p>para apoiar a sua saúde mental</p><p>80% dos funcionários</p><p>preferem ter boa saúde mental a um emprego</p><p>com alto salário</p><p>40% dos funcionários</p><p>estão frequentemente ou sempre estressados</p><p>com o trabalho</p><p>Mesmo ao reconhecerem que sua carga</p><p>de trabalho é um problema,</p><p>38% dos funcionários</p><p>dizem que raramente ou nunca conversaram</p><p>com seu superior hierárquico sobre isso</p><p>35% dos líderes</p><p>de alto escalão estão frequentemente</p><p>ou sempre estressados com o trabalho</p><p>42% dos executivos</p><p>de alto escalão afirmam que sua maior fonte de</p><p>estresse no trabalho é a pressão que colocam</p><p>sobre si mesmos</p><p>Fonte: UKG</p><p>Apoio: terapias</p><p>bancadas pelas</p><p>empresas</p><p>trazem alívio</p><p>a funcionários</p><p>estressados</p><p>nos mentais é uma realidade nas estatísticas do Mi-</p><p>nistério da Previdência. Em 2023, foram 288 000,</p><p>um avanço de 38% sobre 2022.</p><p>O crescimento do número de casos obrigou o go-</p><p>verno a se mobilizar. Em março, uma lei sancionada</p><p>pelo presidente Lula criou uma certificação para em-</p><p>presas que promovem a saúde mental dos funcioná-</p><p>rios. “Com o certificado, todo mundo ganha”, diz a</p><p>deputada Maria Arraes (Solidariedade-PE), autora</p><p>do projeto. “A empresa e o governo param de gastar</p><p>com o afastamento do trabalho, e o funcionário fica</p><p>protegido.” Os requisitos para o certificado incluem</p><p>a oferta de apoio psicológico e psiquiátrico, capacita-</p><p>ção de lideranças para lidar com o tema, combate à</p><p>discriminação e ao assédio e a promoção de equilí-</p><p>brio entre vida pessoal e profissional. A expectativa</p><p>é de que a regulamentação saia até o final do ano.</p><p>Com duas décadas de serviços prestados à ame-</p><p>ricana Johnson & Johnson, uma das maiores em-</p><p>presas de saúde do mundo, a gerente de tributos</p><p>Marcela Andrade consulta-se com um psicólogo in-</p><p>dicado pela companhia uma vez por semana. A te-</p><p>rapia faz parte do Programa de Apoio ao Emprega-</p><p>do, criado pela J&J para oferecer amparo psicológi-</p><p>INÊS 249</p><p>40 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>ESG | TRABALHO</p><p>co aos seus empregados. O programa inclui assis-</p><p>tência 24 horas, serviço que é fundamental nos ca-</p><p>sos em que um funcionário enfrenta situação consi-</p><p>derada crítica. “Esta é uma empresa que se preocu-</p><p>pa com o bem-estar físico e mental dos funcioná-</p><p>rios”, diz Marcela, que também participa de progra-</p><p>mas</p><p>de corrida promovidos por lá. Líder em saúde e</p><p>bem-estar da própria J&J, a médica Gisela Figueire-</p><p>do argumenta que a estratégia faz parte da cultura</p><p>global da multinacional. Em 2023, 15 000 funcio-</p><p>nários no mundo completaram o treinamento de</p><p>bem-estar, refletindo o peso dado ao tema.</p><p>Gisela ressalta que programas bem-sucedidos de</p><p>saúde mental devem incluir ferramentas e métricas</p><p>que avaliem a participação e o engajamento dos fun-</p><p>cionários em iniciativas como terapias e workshops.</p><p>Além disso, pesquisas de clima ajudam a entender a</p><p>percepção sobre o apoio da empresa e a participação</p><p>em campanhas de conscientização. “Temos obser-</p><p>vado resultados muito significativos”, afirma a mé-</p><p>dica. “Um dos exemplos é a taxa de 88% de concor-</p><p>dância dos funcionários com a afirmação de que a</p><p>Gattaz, da GHR:</p><p>pesquisa indicou</p><p>alta incidência</p><p>de burnout</p><p>nas empresas</p><p>brasileiras</p><p>J&J apoia a saúde e o bem-estar dos colaboradores.”</p><p>Entre as unidades da América Latina, os cerca de</p><p>4 000 funcionários do Brasil se destacam no uso do</p><p>reembolso financeiro de 2 050 reais anuais para a</p><p>compra de itens de exercício físico, nutrição ou servi-</p><p>ços de bem-estar emocional.</p><p>Um dos pontos centrais para a efetividade dos</p><p>programas de saúde mental é o treinamento das li-</p><p>deranças. Na linha de frente da relação com o fun-</p><p>cionário, os gestores têm peso enorme na satisfação</p><p>no trabalho. Um relatório da americana UKG, em-</p><p>presa que desenvolve sistemas de tecnologia para as</p><p>áreas de recursos humanos, indica que o papel do</p><p>chefe no ambiente de trabalho tem um impacto ex-</p><p>pressivo (de 69%) na saúde mental dos empregados,</p><p>uma taxa de influência semelhante à de um parceiro</p><p>em uma relação pessoal. “O maior desafio é prepa-</p><p>rar as lideranças para lidar adequadamente com o</p><p>tema da saúde mental, sem estigmas ou velhos pre-</p><p>conceitos”, afirma Andrea Ziravello, gerente-geral</p><p>no Brasil da Thomson Reuters, empresa global de</p><p>conteúdo e tecnologia.</p><p>Corrida:</p><p>a atividade física</p><p>regular é ajuda</p><p>valiosa para</p><p>manter a saúde</p><p>mental em dia</p><p>R</p><p>EB</p><p>EC</p><p>C</p><p>A</p><p>O</p><p>M</p><p>EN</p><p>A</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 41</p><p>Lívia Andrade,</p><p>da Heineken:</p><p>diretoria de</p><p>felicidade</p><p>para inspirar</p><p>funcionários</p><p>Assim como na J&J, a saúde mental está na agen-</p><p>da da alta liderança da Thomson Reuters. “Nós fo-</p><p>mentamos diálogos, com exemplos de vulnerabili-</p><p>dade de executivos, e preparamos líderes para aco-</p><p>lher pessoas com esse tipo de problema”, diz An-</p><p>drea. Em setembro de 2020, por iniciativa do presi-</p><p>dente global, Steve Hasker, foi criado o Dia da Saúde</p><p>Mental. A cada semestre, funcionários têm folga pa-</p><p>ra cuidar de questões emocionais. No segundo se-</p><p>mestre, o feriado é perto de 10 de outubro, o Dia</p><p>Mundial da Saúde Mental. “Outubro é dedicado à</p><p>questão, com palestras e treinamentos”, acrescenta</p><p>Andrea. A empresa também dá apoio psicológico e</p><p>jurídico em caso de necessidade e faz parcerias para</p><p>oferecer sessões periódicas de terapia para o time.</p><p>A saúde mental está, de fato, na lista de preocu-</p><p>pações de empresas de diversos setores. A cerveja-</p><p>ria Heineken oferece há um bom tempo apoio psico-</p><p>lógico aos funcionários, mas a agenda ganhou força</p><p>na gestão do presidente da empresa, Mauricio Gia-</p><p>mellaro, que em 2021 propôs ao RH um estudo so-</p><p>bre felicidade corporativa. No ano seguinte, a com-</p><p>panhia começou a pesquisar, duas vezes por mês, os</p><p>índices de felicidade dos 14 000 funcionários, o que</p><p>resultou na criação de uma diretoria voltada para o</p><p>tema, algo único entre todas as unidades da cerveja-</p><p>ria holandesa no mundo.</p><p>No cargo há um ano e meio, Lívia Andrade diz</p><p>que a adesão às pesquisas sobre felicidade é sur-</p><p>preendente. “Fazer um levantamento quinzenal vo-</p><p>luntário com 14 000 colaboradores é um grande de-</p><p>safio”, diz a executiva. “Conquistamos 80% de parti-</p><p>cipação em dezembro de 2023 e mantivemos esse</p><p>nível até agora.” Na Heineken, aponta ela, os líderes</p><p>são estimulados a conversar com a equipe a partir</p><p>dos resultados apurados. “Não sou eu que trago feli-</p><p>cidade, é a liderança”, diz Lívia. Com ações que vão</p><p>de workshops a capacitações sobre como lidar com o</p><p>estresse, a Heineken vem mantendo um nível de feli-</p><p>cidade entre os funcionários de 8,5, numa escala que</p><p>vai de 0 a 10. “Cria-se um ambiente em que as pes-</p><p>soas sentem que podem ser ouvidas”, diz a diretora</p><p>de felicidade. Na era moderna do trabalho, a saúde</p><p>mental é, de fato, um bem inestimável. ƒ</p><p>B</p><p>R</p><p>U</p><p>N</p><p>O</p><p>V</p><p>A</p><p>N</p><p>E</p><p>N</p><p>C</p><p>K</p><p>R</p><p>O</p><p>C</p><p>K</p><p>S</p><p>W</p><p>E</p><p>E</p><p>P</p><p>E</p><p>R</p><p>/S</p><p>H</p><p>U</p><p>T</p><p>T</p><p>E</p><p>R</p><p>S</p><p>T</p><p>O</p><p>C</p><p>K</p><p>INÊS 249</p><p>42 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>MUNDO | REINO UNIDO</p><p>O DESAFIO DA</p><p>NOVA DIREÇÃO</p><p>O premiê Keir Starmer descreve a economia britânica como um “buraco negro” e prepara ajustes</p><p>nas contas públicas, mas, no longo prazo, precisa aumentar a produtividade Diogo Schelp</p><p>s londrinos costumam dizer que o seu</p><p>notório pessimismo faz com que</p><p>saiam de casa preparados para chuva</p><p>mesmo quando vai ter tempo bom e,</p><p>com isso, acabam aproveitando mais a grata sur-</p><p>presa com o clima. O novo primeiro-ministro britâ-</p><p>nico, Keir Starmer, eleito em julho, está adotando a</p><p>tática do guarda-chuva em dia nublado com a espe-</p><p>rança de surpreender a população com raios de sol</p><p>mais adiante. Starmer é o primeiro trabalhista a go-</p><p>vernar o Reino Unido depois de catorze anos de co-</p><p>mando do Partido Conservador. Ele diz ter herda-</p><p>do um “buraco negro” de 22 bilhões de libras nas</p><p>contas públicas, o equivalente a 158 bilhões de</p><p>reais, e que as “coisas ainda vão piorar antes de me-</p><p>lhorar”. Sua ministra das Finanças, Rachel Reeves,</p><p>afirma que o conjunto dos indicadores econômicos</p><p>é o pior desde a Segunda Guerra Mundial e que o</p><p>orçamento anual que ela irá apresentar no final de</p><p>outubro exigirá “decisões difíceis” em termos de</p><p>aumento de impostos e cortes de gastos.</p><p>A economia britânica teve, de fato, um desempe-</p><p>nho pior do que outras nações desenvolvidas nos úl-</p><p>timos anos. O crescimento do produto interno bruto</p><p>Renda</p><p>estagnada: em</p><p>julho, médicos</p><p>residentes</p><p>fizeram greve</p><p>por melhores</p><p>salários</p><p>O</p><p>P</p><p>E</p><p>T</p><p>E</p><p>R</p><p>N</p><p>IC</p><p>H</p><p>O</p><p>L</p><p>L</p><p>S</p><p>/G</p><p>E</p><p>T</p><p>T</p><p>Y</p><p>I</p><p>M</p><p>A</p><p>G</p><p>E</p><p>S</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 43</p><p>é baixo, ainda que nos primeiros meses deste ano te-</p><p>nha sido um pouco mais alto que na média dos paí-</p><p>ses da zona do euro. A renda dos britânicos é prati-</p><p>camente a mesma desde 2007 — o aumento real de</p><p>lá para cá foi de apenas 5,6%. A dívida pública está</p><p>próxima de 100% do PIB, o nível mais alto desde a</p><p>década de 1960 e cerca de 10 pontos percentuais aci-</p><p>ma da média dos países europeus. A taxa de juros</p><p>está em um patamar elevado para os padrões britâ-</p><p>nicos, em torno de 5% por ano, sendo que em 2021</p><p>era zero. O aperto monetário nos últimos anos foi</p><p>necessário para conter a inflação, que chegou a mais</p><p>de 11% ao ano em 2022 — atualmente está em 2,2%,</p><p>ainda acima da meta do Banco da Inglaterra, que é</p><p>de 2%. O nível de investimentos e o comércio exte-</p><p>rior também estão estagnados. Em anos recentes, as</p><p>exportações, por exemplo, estiveram 15% abaixo do</p><p>seu potencial, quando confrontadas com o desempe-</p><p>nho de outras economias avançadas.</p><p>Atribui-se grande parte desse cenário ao Brexit,</p><p>o processo de saída do Reino Unido da União Euro-</p><p>peia (UE), decidido em referendo realizado em</p><p>2016. A motivação do divórcio tinha mais a ver com</p><p>a soberania e a identidade nacionais do que com a</p><p>economia, cujos impactos têm sido mais difíceis de</p><p>Starmer e</p><p>Reeves: novo</p><p>orçamento</p><p>para aumentar</p><p>receitas e cortar</p><p>benefícios</p><p>D</p><p>A</p><p>N</p><p>K</p><p>IT</p><p>W</p><p>O</p><p>O</p><p>D</p><p>/G</p><p>E</p><p>T</p><p>T</p><p>Y</p><p>I</p><p>M</p><p>A</p><p>G</p><p>E</p><p>S</p><p>Fonte: Gabinete de Responsabilidade Orçamentária</p><p>O impacto do Brexit</p><p>O “divórcio” com a União Europeia prejudicou a</p><p>economia e as finanças públicas do Reino Unido.</p><p>Segundo estimativas do governo britânico,</p><p>até 2028 vai ocorrer:</p><p>UMA REDUÇÃO DE...</p><p>...4% da produtividade no país</p><p>...15% nas exportações e importações</p><p>...0,2% no PIB per capita</p><p>...1,5% na</p><p>taxa de ocupação dos</p><p>britânicos em idade de trabalho</p><p>E UM AUMENTO DE...</p><p>...4% dos impostos em proporção ao PIB</p><p>...0,6% no déficit primário</p><p>...3% nos gastos públicos em</p><p>proporção ao PIB</p><p>INÊS 249</p><p>44 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>MUNDO | REINO UNIDO</p><p>contornar do que muitos brexiters imaginavam. Por</p><p>exemplo, acreditava-se que a saída do bloco euro-</p><p>peu poderia ser compensada com tratados comer-</p><p>ciais bilaterais com outros países e com a própria</p><p>UE. Não é tão simples. Um acordo fechado no final</p><p>de 2020 com a UE derrubou tarifas e cotas para as</p><p>trocas comerciais, mas as barreiras não tarifárias</p><p>ainda atrapalham. Isso afetou principalmente as pe-</p><p>quenas empresas britânicas, que tiveram queda de</p><p>30% nas exportações. “É justamente nessa faixa que</p><p>estão as startups de alta tecnologia e inovação que</p><p>poderiam ajudar a aumentar a produtividade do</p><p>Reino Unido”, diz Natália Poiatti, doutora em eco-</p><p>nomia pela London Business School e professora do</p><p>Instituto de Relações Internacionais da Universida-</p><p>de de São Paulo. “Por essa razão, uma das grandes</p><p>incertezas em relação ao novo governo trabalhista</p><p>diz respeito a como vai ficar a relação com a UE.”</p><p>Uma reversão do Brexit está descartada, mas</p><p>Starmer promete fazer novos acordos para derrubar</p><p>o que ele chama de “barreiras desnecessárias ao co-</p><p>mércio”. São ajustes regulatórios em áreas como a</p><p>indústria química e o agronegócio que poderiam, no</p><p>primeiro caso, evitar 14,4 bilhões de reais em custos</p><p>e, no segundo, aumentar em 22,5% a exportação de</p><p>City de Londres:</p><p>serviços</p><p>financeiros e</p><p>investimentos</p><p>estagnados pela</p><p>saída da UE</p><p>20232022202120202019201820172016</p><p>-12</p><p>-10</p><p>-8</p><p>-6</p><p>-4</p><p>-2</p><p>0</p><p>2</p><p>4</p><p>6</p><p>8</p><p>10</p><p>Pior que os iguais</p><p>Nos últimos oito anos o Reino Unido cresceu 5% menos do</p><p>que outros países com economias avançadas comparáveis</p><p>Reino Unido União Europeia Estados Unidos</p><p>Fontes: Parlamento Britânico, Gabinete de Estatísticas Nacionais, Escritório de</p><p>Análises Econômicas dos Estados Unidos e Comissão Europeia</p><p>Crescimento do PIB (em %)</p><p>0,1</p><p>4,3</p><p>8,7</p><p>-10,4</p><p>1,61,42,71,9 2,5</p><p>1,95,8-2,2</p><p>2,532,5</p><p>1,8</p><p>0,4</p><p>3,4</p><p>6</p><p>-5,6</p><p>1,82,12,82</p><p>V</p><p>U</p><p>K</p><p>V</p><p>A</p><p>L</p><p>C</p><p>IC</p><p>/S</p><p>O</p><p>P</p><p>A</p><p>I</p><p>M</p><p>A</p><p>G</p><p>E</p><p>S</p><p>/L</p><p>IG</p><p>H</p><p>T</p><p>R</p><p>O</p><p>C</p><p>K</p><p>E</p><p>T</p><p>/G</p><p>E</p><p>T</p><p>T</p><p>Y</p><p>I</p><p>M</p><p>A</p><p>G</p><p>E</p><p>S</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 45</p><p>alimentos, beneficiando, por exemplo, os pequenos</p><p>produtores britânicos de ovelhas. Trata-se, porém,</p><p>de medidas de baixo impacto na balança comercial.</p><p>O maior desafio trazido pelo Brexit é o da mudan-</p><p>ça abrupta no padrão da mão de obra. Antes, havia</p><p>um influxo muito grande de trabalhadores euro-</p><p>peus, não só de garçons espanhóis e encanadores po-</p><p>loneses, mas também de profissionais altamente</p><p>qualificados, que agora estão em falta. Em 2016, o</p><p>Reino Unido recebeu um recorde de 300 000 imi-</p><p>grantes da UE. Atualmente, o saldo é negativo, ou</p><p>seja, há mais cidadãos da UE saindo do país do que</p><p>vice-versa. Por outro lado, a entrada de imigrantes</p><p>não europeus no país aumentou, em sua maioria es-</p><p>tudantes ou trabalhadores com baixa qualificação.</p><p>“A carência de mão de obra, principalmente em ser-</p><p>viços ou funções que exigem alta qualificação, dimi-</p><p>nui o potencial de crescimento econômico e de ga-</p><p>nhos de renda no Reino Unido”, diz Walter Franco</p><p>Lopes, mestre em economia pela Universidade de</p><p>Londres e professor do Ibmec, em São Paulo.</p><p>O que realmente importa nos planos do novo go-</p><p>verno trabalhista, portanto, são mais as reformas es-</p><p>truturais com impacto de longo prazo na economia e</p><p>na sociedade do que propriamente os ajustes com</p><p>efeito imediato nos indicadores. Isso significa, entre</p><p>outras medidas, investir fortemente em políticas</p><p>educacionais para ampliar a oferta de profissionais</p><p>STEM (sigla em inglês para ciência, tecnologia, en-</p><p>genharia e matemática), com o objetivo de aumentar</p><p>a produtividade nos próximos anos. É o que pode</p><p>voltar a fazer do Reino Unido uma potência exporta-</p><p>dora, mesmo estando fora do bloco europeu.</p><p>O Reino Unido, como lembra Lopes, tem uma eco-</p><p>nomia robusta e estável, e, por mais que impressio-</p><p>nem os debates acalorados no Parlamento, não cos-</p><p>tuma haver mudanças radicais ou grandes aventuras</p><p>quando o governo muda de trabalhista para conser-</p><p>vador ou o contrário. No orçamento a ser apresenta-</p><p>do em 30 de outubro, Rachel Reeves deve atacar o</p><p>problema das contas públicas com o aumento de im-</p><p>postos para os mais ricos, como os sobre herança e</p><p>ganhos de capital, e com a redução de alguns benefí-</p><p>cios, como a dedução de taxas para quem tem previ-</p><p>dência privada ou os subsídios para combustíveis.</p><p>Criação de</p><p>ovinos: acordo</p><p>com a UE para</p><p>aumentar</p><p>exportação de</p><p>alimentos</p><p>Por outro lado, espera-se que os gastos com o sistema</p><p>de saúde, conhecido pela sigla NHS, aumentem, para</p><p>enfrentar a reclamação dos cidadãos com esse servi-</p><p>ço público. Calcula-se que a lista de espera para aten-</p><p>dimento no NHS aumentou de 2,5 milhões de pacien-</p><p>tes em 2010 para 7,6 milhões no final de 2023.</p><p>Os ajustes de curto e médio prazo são necessá-</p><p>rios, mas a situação econômica do país está longe de</p><p>ser apocalíptica como pintam Starmer e Reeves.</p><p>A inflação está quase sob controle e a expectativa é</p><p>de redução gradual dos juros. “A dívida pública é</p><p>bem maior do que a de outros países com classifica-</p><p>ção de risco triplo A, mas é uma dívida de qualidade,</p><p>com prazo médio de catorze anos de maturidade e</p><p>risco cambial baixíssimo, por ser denominada em</p><p>uma moeda de reserva, que é a libra”, diz Natália</p><p>Poiatti, que pesquisou o assunto para o livro Redu-</p><p>ção de Exposição ao Risco Cambial, previsto para</p><p>2025 pela Editora Unicamp. Além disso, os períodos</p><p>de gastos públicos elevados no Reino Unido costu-</p><p>mam ter um caráter anticíclico, ou seja, ocorrem pa-</p><p>ra segurar o PIB em momentos de crise, como em</p><p>2007-2008 ou durante a pandemia de covid-19. O</p><p>pessimismo do governo, sob nova direção, pode ser</p><p>entendido como uma forma de colher, mais à frente,</p><p>os frutos políticos de ajustes, pequenos ou grandes,</p><p>que estão prestes a entrar no forno. ƒ</p><p>P</p><p>A</p><p>O</p><p>L</p><p>O</p><p>P</p><p>IC</p><p>C</p><p>IO</p><p>T</p><p>T</p><p>O</p><p>/R</p><p>E</p><p>D</p><p>A</p><p>&</p><p>C</p><p>O</p><p>/U</p><p>N</p><p>IV</p><p>E</p><p>R</p><p>S</p><p>A</p><p>L</p><p>I</p><p>M</p><p>A</p><p>G</p><p>E</p><p>S</p><p>G</p><p>R</p><p>O</p><p>U</p><p>P</p><p>/G</p><p>E</p><p>T</p><p>T</p><p>Y</p><p>I</p><p>M</p><p>A</p><p>G</p><p>E</p><p>S</p><p>INÊS 249</p><p>46 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>FINANÇAS | MERCADO</p><p>TEMPORADA</p><p>DE CASAMENTOS</p><p>Juros altos, custos maiores e regras mais rígidas vêm provocando um movimento de consolidação</p><p>entre as gestoras de recursos brasileiras Por Juliana Machado e Antônio Gioia</p><p>agenda de João Carlos Mansur, funda-</p><p>dor e presidente da gestora de recursos</p><p>Reag, nunca esteve tão concorrida. A</p><p>empresa surgiu em 2012 com foco em</p><p>fundos imobiliários, mas foi diversificando suas ati-</p><p>vidades até se consolidar como uma das mais rele-</p><p>vantes gestoras independentes do país, com 180 bi-</p><p>lhões de reais em ativos sob gestão. Boa parte do</p><p>crescimento veloz da companhia deve ser atribuída</p><p>ao apetite por aquisições. A Reag comprou casas co-</p><p>mo a Empírica e a Quasar, especializadas em crédi-</p><p>to, mas não pretende parar por aí. “O mercado está</p><p>maduro para uma consolidação”, diz Mansur, em</p><p>entrevista exclusiva a VEJA NEGÓCIOS. “A junção</p><p>entre a necessidade de ganhar escala e o aumento</p><p>das exigências regulatórias tem estimulado vários</p><p>negócios.” Como bom mineiro, Mansur trabalha em</p><p>silêncio. No entanto, quem circula pela região da</p><p>Avenida Faria Lima, coração do mercado financeiro</p><p>de São Paulo, sabe que a sua próxima tacada será na</p><p>gestão de patrimônio, ou wealth management.</p><p>Atualmente, a Reag tem cerca de 8 bilhões de reais</p><p>geridos nessa atividade. A meta é triplicar esse nú-</p><p>mero no curto prazo, por meio de novas aquisições.</p><p>A trajetória da Reag traduz um movimento que</p><p>se intensificou nos últimos dois anos no Brasil: a</p><p>consolidação do mercado de gestoras de recursos,</p><p>que envolve desde a aquisição ou fusão de concor-</p><p>rentes até o lançamento de produtos com novas es-</p><p>tratégias, sobretudo nos segmentos imobiliário e</p><p>de crédito privado. O objetivo é um só: sobreviver.</p><p>“Com um ciclo longo de juros altos no Brasil e no</p><p>mercado americano, o negócio de gestão virou um</p><p>grande desafio”, afirma Guilherme Malouf, sócio</p><p>do escritório de advocacia Machado Meyer e res-</p><p>ponsável por fusões e aquisições grandes no setor</p><p>de gestão, como a venda da Panorama Capital para</p><p>a AZ Quest. “Nesse ambiente, é mais complicado</p><p>captar recursos. Combinar operações vira uma</p><p>saída de injeção de capital.”</p><p>A vida dos gestores, de fato, ficou mais difícil.</p><p>Esses profissionais costumam ser remunerados de</p><p>duas maneiras: cobrando taxa de administração</p><p>(um percentual sobre o montante total gerido) e</p><p>embolsando parte do ganho que superar um indi-</p><p>cador financeiro (por exemplo, 20% sobre o que</p><p>A</p><p>Retorno</p><p>Sem fôlego</p><p>O retorno* dos fundos de ações está atrás de</p><p>indicadores há dois anos (set/22 a set/24) — em %</p><p>Fonte: Elos Ayta Consultoria</p><p>0</p><p>10</p><p>20</p><p>30</p><p>IPCA</p><p>9</p><p>FUNDOS</p><p>DE AÇÕES</p><p>18,8</p><p>IBOVESPA</p><p>24,2</p><p>CDI</p><p>26,3</p><p>* Retorno calculado pela mediana, ou seja, valor central da amostra</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 47</p><p>exceder o CDI). O problema é que, com o aumento</p><p>da competição e da taxa de juros, as duas fontes de</p><p>receita vêm sendo pressionadas. Para ter ideia, es-</p><p>tatísticas da Anbima, entidade que regula o merca-</p><p>do de capitais, mostram que a taxa média de admi-</p><p>nistração dos fundos multimercados, que são livres</p><p>para aplicar em quaisquer classes de ativos, caiu</p><p>pela metade em cinco anos. No fim de 2019, a taxa</p><p>média era de 1,87% ao ano. Em junho de 2024, en-</p><p>colheu para 0,95%. Ou seja: para ganhar 1 real por</p><p>ano, o gestor tinha de gerir 53,48 reais em 2019 e</p><p>105,26 em 2024. O total de recursos administra-</p><p>Mansur,</p><p>presidente</p><p>da Reag: em</p><p>breve, mais</p><p>aquisições na</p><p>área de gestão</p><p>patrimonial</p><p>RE</p><p>AG</p><p>/D</p><p>IV</p><p>U</p><p>LG</p><p>AÇ</p><p>ÃO</p><p>dos, porém, não cresceu na mesma proporção.</p><p>Considerando valores deflacionados, o patrimônio</p><p>líquido dos fundos multimercados diminuiu 6,6%</p><p>de 2019 a 2024, dinâmica semelhante à que se viu</p><p>nos fundos de ações, em que a contração foi de</p><p>17,3%, também conforme a Anbima.</p><p>Uma situação parecida ocorreu com a taxa de</p><p>performance. O retorno da maioria dos fundos</p><p>multimercados é comparado ao CDI. Segundo le-</p><p>vantamento da consultoria Elos Ayta, em 2024, até</p><p>agosto, o CDI rendeu 7,43%, enquanto o IHFA, que</p><p>mede a rentabilidade média dos fundos multimer-</p><p>INÊS 249</p><p>48 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>FINANÇAS | MERCADO</p><p>cados, variou 2,86%. Em outras palavras: poucas</p><p>gestoras de fundos multimercados conseguiram</p><p>cobrar taxa de performance, um drama que se re-</p><p>pete também com os gestores de ações.</p><p>Ao que tudo indica, a situação não deverá ficar</p><p>mais fácil. Segundo o Boletim Focus mais recente,</p><p>divulgado pelo Banco Central, a expectativa do mer-</p><p>cado para a Selic no fim de 2024 é de 11,25% ao ano.</p><p>Com Roberto Campos Neto, presidente do BC, en-</p><p>durecendo a política monetária para conter a infla-</p><p>ção, o cenário piora para os investimentos de risco</p><p>(como ações) e melhora para a renda fixa em geral.</p><p>Para tornar o panorama ainda mais complexo, a</p><p>Comissão de Valores Mobiliários (CVM) endure-</p><p>ceu o jogo. No fim de 2023, a autarquia publicou a</p><p>Resolução 175, que traz uma série de atribuições</p><p>novas para as gestoras. “Há mais obrigações rela-</p><p>cionadas ao compliance, à prevenção da lavagem</p><p>de dinheiro, ao conhecimento do cliente, entre ou-</p><p>tras”, diz Fernando Camargo Luiz, gestor da Tró-</p><p>pico Investimentos. Isso eleva estruturalmente os</p><p>custos e a complexidade do trabalho, e estimula as</p><p>fusões para fatiar as dificuldades.</p><p>Na corrida pela sobrevivência, grandes nomes</p><p>entraram no jogo. É o caso da gestora Pátria, que</p><p>pagou 650 milhões de reais pelos fundos imobiliá-</p><p>rios do banco Credit Suisse. No início do segundo</p><p>semestre, a empresa fechou mais duas aquisições. A</p><p>primeira foi a da VBI Real Estate, que administra 10</p><p>bilhões de reais em fundos imobiliários. O Pátria</p><p>detinha 50% das ações da gestora e comprou os de-</p><p>mais 50%. O outro negócio envolveu a compra da</p><p>Campos Neto,</p><p>presidente do</p><p>Banco Central:</p><p>a taxa básica</p><p>Selic deve subir</p><p>até o fim</p><p>deste ano</p><p>RA</p><p>PH</p><p>A</p><p>EL</p><p>R</p><p>IB</p><p>EI</p><p>R</p><p>O</p><p>/B</p><p>C</p><p>B</p><p>Captação</p><p>Sem força</p><p>Os fundos de ações captam pouco e os multimercados</p><p>sofrem resgates em 2024* — em bilhões de reais</p><p>Fonte: Anbima</p><p>* Dados até o dia 10/9</p><p>0</p><p>100</p><p>-100</p><p>-200</p><p>200</p><p>300</p><p>MULTIMERCADOS</p><p>-184</p><p>AÇÕES</p><p>0,5</p><p>RENDA FIXA</p><p>337</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 49</p><p>Pátio Victor</p><p>Malzoni</p><p>(SP): prédios</p><p>corporativos</p><p>estão no</p><p>portfólio da</p><p>gestora Pátria</p><p>D</p><p>A</p><p>N</p><p>IE</p><p>L</p><p>C</p><p>Y</p><p>M</p><p>B</p><p>A</p><p>L</p><p>IS</p><p>T</p><p>A</p><p>/F</p><p>O</p><p>T</p><p>O</p><p>A</p><p>R</p><p>E</p><p>N</p><p>A</p><p>Fonte: Quantum Axis</p><p>* Retorno dos multimercados medido pelo Índice de Hedge Funds da Anbima (IHFA).</p><p>Número-índice = mede o comportamento de diferentes variáveis na mesma base comparativa</p><p>IBOVESPA 0</p><p>IHFA 0</p><p>CDI 0</p><p>-15</p><p>-10</p><p>-5</p><p>0</p><p>5</p><p>10</p><p>15</p><p>19,6</p><p>14</p><p>26,2</p><p>10/SET</p><p>2022 2023 2024</p><p>Na lanterna</p><p>Os fundos multimercados têm pior retorno ante o CDI e</p><p>o Ibovespa há dois anos — em % e em número-índice*</p><p>colombiana Nexus Capital, casa com 800 milhões</p><p>de dólares em fundos imobiliários. Ao que tudo in-</p><p>dica, as aquisições devem seguir. “Todos na gestão</p><p>de fundos imobiliários estão sentindo o aumento do</p><p>interesse por aquisições”, afirma Paulo Bilyk, presi-</p><p>dente da Rio Bravo Investimentos. “Fundos abertos</p><p>sofrem saques em períodos difíceis, como tem sido</p><p>nos últimos anos. Fundos listados, que pagam ren-</p><p>da, garantem maior estabilidade de patrimônio.”</p><p>Outra área promissora é a de crédito, em que os</p><p>produtos têm retorno atrelado ao CDI ou à inflação.</p><p>Não à toa, nos últimos dois anos, diversas casas tra-</p><p>dicionais em multimercado investiram em novos ti-</p><p>mes para entrar nesse campo, como é o caso de Ibiú-</p><p>na, Absolute, Occam Brasil e Legacy. Há exemplos</p><p>até entre as gestoras de ações, como a Drýs Capital,</p><p>antiga Equitas, que montou no ano passado uma ver-</p><p>tical de crédito privado e infraestrutura, em um mo-</p><p>vimento defendido pela casa como estratégico.</p><p>Para os profissionais do mercado, o processo de</p><p>consolidação está longe de acabar e deverá alterar</p><p>o perfil das gestoras. “Há cerca de 1 000 empresas</p><p>de gestão de recursos registradas na CVM e esse</p><p>número pode quase dobrar em cinco anos”, afirma</p><p>João Baptista Peixoto Neto, presidente da Ouro</p><p>Preto Investimentos. Isso abre espaço para fusões</p><p>e aquisições não só pela necessidade de cortar cus-</p><p>tos e de entrar em novos negócios, mas pela vonta-</p><p>de de acelerar o crescimento. “Logo teremos vá-</p><p>rias empresas independentes fazendo a gestão de</p><p>centenas de bilhões de reais, assim como ocorre</p><p>nos Estados Unidos”, diz. O mercado de gestão de</p><p>recursos no Brasil deverá continuar amadurecen-</p><p>do nos próximos anos — e a perenidade dos negó-</p><p>cios certamente seguirá sendo testada. ƒ</p><p>INÊS 249</p><p>50 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>INOVAÇÃO | STARTUPS</p><p>A PRIMAVERA</p><p>ESTÁ DE VOLTA?</p><p>A previsão é de tempo melhor para investimentos neste final de 2024. Mas, além de festejar o retorno do venture</p><p>capital, vale observar o que o mercado aprendeu no período gelado que atravessou Marcos Coronato</p><p>omeçou como um raiozinho de sol atra-</p><p>vés da névoa: depois de um período de</p><p>dois anos de queda contínua no volume</p><p>de investimentos em startups no mun-</p><p>do, o fluxo se estabilizou, no início deste ano. O fe-</p><p>nômeno ocorreu, com alguns meses de diferença,</p><p>no Brasil, nos Estados Unidos e em outros merca-</p><p>dos, principalmente por causa do ânimo dos investi-</p><p>dores de venture capital com novas empresas cons-</p><p>truindo ou usando inteligência artificial. O número</p><p>de negócios fechados continuou em queda (ou seja,</p><p>menos start ups conseguem ser selecionadas), mas o</p><p>dinheiro voltar a correr é uma mudança importante.</p><p>O segundo semestre começou com expectativas</p><p>moderadas, mas melhores, de que o investimento</p><p>vai aumentar nos próximos meses. Isso encerraria</p><p>um período de seca brava — e de aprendizado bem</p><p>valioso para empreendedores e investidores.</p><p>O tempo que termina (ou que parece terminar,</p><p>pelos sinais deste momento) ficou conhecido, no</p><p>Brasil, nos Estados Unidos e em outras grandes eco-</p><p>nomias, como</p><p>“o inverno das start ups”. Foi uma fa-</p><p>se feia, mesmo. No Brasil, o ritmo de investimentos</p><p>começou a cair em 2021 — de 200 operações por</p><p>trimestre, no fim daquele ano, para menos da meta-</p><p>de no início de 2024. As start ups selecionadas ainda</p><p>poderiam ter alguma alegria, já que havia menos</p><p>delas para dividir o bolo e cada uma poderia ter re-</p><p>cebido mais dinheiro. Nada disso. As escolhidas</p><p>passaram a receber, em média, bem menos capital,</p><p>porque o volume total investido despencou da casa</p><p>de 2,6 bilhões de dólares no segundo trimestre de</p><p>2021 para um sétimo disso no primeiro trimestre</p><p>deste ano, pelas contas da consultoria KPMG. O nú-</p><p>mero de novas start ups unicórnios — aquelas ava-</p><p>liadas em ao menos 1 bilhão de dólares — passou de</p><p>dez em 2021 para uma em 2023. E a mais reluzente</p><p>oportunidade de lucro para os grandes investidores,</p><p>a abertura de capital da start up (ou IPO, oferta pú-</p><p>blica inicial de ações), apagou-se. Não houve mais</p><p>nenhuma desde 2021. O inverno das start ups foi</p><p>ruim mesmo em nações com forte base tecnológica,</p><p>como China, Japão e Israel. Mas períodos assim são</p><p>péssimos para uma economia que precisa de muito</p><p>mais inovação e produtividade, como a brasileira.</p><p>Agora, aparecem sinais de que entramos numa</p><p>nova fase. O volume de investimento em startups no</p><p>C</p><p>PI</p><p>A</p><p>RA</p><p>S</p><p>Ó</p><p>M</p><p>ÍD</p><p>H</p><p>EA</p><p>CH</p><p>/G</p><p>ET</p><p>TY</p><p>IM</p><p>AG</p><p>ES</p><p>Eric Acher, da</p><p>Monashees: a</p><p>empresa liderou</p><p>investimento</p><p>no Brasil, na</p><p>fintech NG.Cash</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 51</p><p>D</p><p>IV</p><p>U</p><p>LG</p><p>AÇ</p><p>ÃO</p><p>Brasil cresceu no segundo trimestre deste ano de</p><p>forma expressiva, em comparação com o mesmo pe-</p><p>ríodo no ano anterior — um salto de 160%, segundo</p><p>a KPMG. Desde 2022 não se via uma evolução as-</p><p>sim. Algumas operações chamaram atenção: em</p><p>março, a climatech Umgrauemeio, que oferece tec-</p><p>nologia para enfrentar queimadas e incêndios flores-</p><p>tais, captou 18,7 milhões de reais de um grupo de in-</p><p>vestidores, incluindo a gestora brasileira Baraúna</p><p>Investimentos; em abril, a fintech QI Tech estendeu</p><p>uma rodada de investimentos (iniciada em 2023) e</p><p>captou 50 milhões de dólares adicionais, numa ope-</p><p>ração comandada pela americana General Atlantic;</p><p>em maio foi a vez de outra fintech, a NG.Cash, que</p><p>captou 65 milhões de reais com um grupo de investi-</p><p>dores liderado pela brasileira Monashees.</p><p>A mudança no ambiente também apareceu no ra-</p><p>dar da consultoria Distrito, especializada em formar</p><p>parcerias entre start ups e grandes empresas. “O</p><p>mercado de VC global deve se aquecer ainda mais</p><p>nos próximos meses com a redução das taxas de ju-</p><p>ros nos Estados Unidos, o que atrai capital para ati-</p><p>vos de risco, incluindo os destinados a países emer-</p><p>gentes. Já vemos a retomada das grandes rodadas de</p><p>investimento”, diz Victor Harano, coordenador de</p><p>pesquisas da consultoria. Em 18 de setembro, mes-</p><p>mo dia em que houve corte de juros básicos nos</p><p>EUA, houve aumento no Brasil, e com expectativa de</p><p>mais alta pela frente. Mas, no mundo do venture ca-</p><p>pital, os juros brasileiros devem pesar menos. A Dis-</p><p>trito estima que o volume de aportes na América La-</p><p>tina avance 15% este ano, e a fatia do Brasil no bolo</p><p>já está crescendo: passou de 43% no primeiro tri-</p><p>mestre para 57% no segundo. Para esse leve aqueci-</p><p>mento mandar o inverno embora de uma vez, os in-</p><p>vestidores precisam voltar a enxergar a possibilida-</p><p>de de IPOs. O presidente da B3, Gilson Finkelsztain,</p><p>apresentou à XP uma avaliação de que há de cin-</p><p>Maria Tereza</p><p>Azevedo, do</p><p>SoftBank: o setor</p><p>entrou em nova</p><p>fase, mas ainda</p><p>exige cautela</p><p>Parou de cair</p><p>2019 2020 2021 2022 2023 2024</p><p>Fontes: KPMG e Sling Hub</p><p>TRI 1º 2º 3º 4º1º 2º 3º 4º1º 2º 3º 4º1º 2º 3º 4º 1º 2º 3º 4º 1º 2º</p><p>126 555 1 150 390 578 582 895 764 900 2628 1916 2 370 1 870 851 878 334 311 315 535 587 353 817</p><p>Depois da euforia de 2021, o volume de venture capital no Brasil encolheu continuamente — até este ano,</p><p>quando voltou a crescer entre abril e junho (em milhões de dólares)</p><p>INÊS 249</p><p>52 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>INOVAÇÃO | STARTUPS</p><p>quenta a 100 empresas preparadas para fazer aber-</p><p>tura de capital, que deve retornar no início de 2025.</p><p>A primavera parece próxima — mas o mercado</p><p>aprendeu alguma coisa com o inverno que passou?</p><p>Ciclos com altas e baixas intensas sempre vão</p><p>fazer parte desse mercado. Nos Estados Unidos, o</p><p>francês Georges Doriot, considerado o pai do ven-</p><p>ture capital, queria aproveitar o aquecimento da</p><p>economia pós-Segunda Guerra Mundial, por isso</p><p>fundou sua empresa de investimentos, a ARDC, em</p><p>1946 — só para ver o país entrar em recessão em</p><p>1948. Foi uma recessão curta, e Doriot enriqueceu</p><p>nas décadas seguintes graças às start ups, mas o</p><p>alerta estava lá, desde o início. Neste século, o seg-</p><p>mento sofreu com o estouro da bolha da internet</p><p>em 2000 e com a crise nascida nas hipotecas ame-</p><p>ricanas em 2008. De 2010 em diante, porém, vá-</p><p>rios fatores se alinharam para formar um, digamos,</p><p>verão perfeito para as start ups: a difusão comercial</p><p>de tecnologias revolucionárias, como telefonia 4G,</p><p>cloud, big data, carros elétricos, energia renovável</p><p>e plataformas de economia colaborativa, a dispara-</p><p>da no número de investidores em start ups nascen-</p><p>tes, o encorpamento dos investidores em start ups</p><p>maduras. Em 2018 surgiu o primeiro unicórnio bra-</p><p>sileiro, a 99. Na América Latina, foi marcante o lan-</p><p>çamento de um fundo regional do SoftBank, em</p><p>2019. O ambiente já era muito favorável aos investi-</p><p>mentos. Aí veio o fator imprevisível que transfor-</p><p>mou aquele verão em superaquecimento.</p><p>A pandemia de covid-19 prejudicou setores tra-</p><p>dicionais, mas acelerou ainda mais negócios inova-</p><p>dores, por causa do estímulo à digitalização e das</p><p>injeções de dinheiro dos governos para tentar rea-</p><p>nimar o mercado. Esses fatores pesaram no rumo</p><p>profissional de Carlos Simonsen, que entrou na dé-</p><p>cada passada como executivo financeiro em gran-</p><p>des companhias (passou por gigantes como Itaú</p><p>BBA e AB InBev) e saiu como investidor e caçador</p><p>de start ups promissoras. Simonsen é cofundador da</p><p>Upload Ventures, com participações em empresas</p><p>como Digibee, Olist e Wildlife. “Os anos de 2020 e</p><p>2021 foram de capital abundante — houve excesso</p><p>de fundos”, diz o investidor. “E depois disso veio</p><p>uma correção brutal.” Mas isso não quer dizer que o</p><p>inverno das start ups tenha sido tempo perdido.</p><p>Pedro Mac</p><p>Dowell, da QI</p><p>Tech: primeira</p><p>startup brasileira</p><p>a virar unicórnio</p><p>em 2024</p><p>D</p><p>IV</p><p>U</p><p>LG</p><p>AÇ</p><p>ÃO</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 53</p><p>Eimi Arikawa</p><p>e Rogerio</p><p>Cavalcante, da</p><p>Umgrauemeio:</p><p>captação de 18,7</p><p>milhões de reais</p><p>para tecnologia</p><p>de combate</p><p>a queimadas</p><p>Foi um período de reforçar as startu ps que ha-</p><p>viam recebido investimento na alta — refinar mode-</p><p>los de negócio, enxugar operações, melhorar a ges-</p><p>tão. O processo foi doloroso mas, em retrospecto, é</p><p>possível ver que o mercado apenas retoma a trajetó-</p><p>ria de crescimento mais moderada, sem superaque-</p><p>cimento, que havia sido interrompida em 2020.</p><p>O gigante SoftBank nunca parou de investir —</p><p>mesmo na secura de 2023, analisou 106 empresas e</p><p>colocou dinheiro em sete na América Latina. Outra</p><p>parte do trabalho, menos visível e igualmente difícil,</p><p>seguiu em ritmo forte o tempo todo. “Dispendemos</p><p>bastante energia e capital na gestão do nosso portfó-</p><p>lio (com 75 empresas latino-americanas e 470 no</p><p>mundo). Estamos mais criteriosos em relação a efi-</p><p>ciência na alocação de capital”, diz Maria Tereza Aze-</p><p>vedo, líder de investimentos do SoftBank para a</p><p>América Latina. “Os últimos anos forçaram empresas</p><p>e investidores a ser mais eficientes. Não há mais espa-</p><p>ço para crescimento a qualquer custo.” O SoftBank</p><p>ficou mais rigoroso também ao estudar tamanhos de</p><p>mercados e enxergar saídas no investimento. A exe-</p><p>cutiva acredita que o período de seca tenha seleciona-</p><p>do as boas empresas e trazido as valorações para ní-</p><p>veis mais razoáveis. Harano, da Distrito, concorda:</p><p>“O mercado</p><p>amadureceu. Os grandes fundos exigem</p><p>mais na avaliação das empresas, na análise das mé-</p><p>tricas de crescimento e na responsabilidade financei-</p><p>ra dos sócios, para evitar crescimento incompatível</p><p>com o aumento das receitas”. Houve outro desdobra-</p><p>mento positivo desse inverno que passou.</p><p>As fontes de investimento e financiamento para</p><p>start ups se tornaram mais diversas. Há opções como</p><p>venture debt, debt financing e créditos em serviços,</p><p>formatos adaptados para empresas que correm os</p><p>riscos inerentes à inovação tecnológica, mas já estão</p><p>no mercado. Um dos participantes nesse segmento é</p><p>a AWS, braço da Amazon que ofereceu, nos últimos</p><p>sete anos, 6 bilhões de dólares em créditos de servi-</p><p>ços para start ups selecionadas, juntamente com</p><p>mentorias e conexões com investidores. A aposta da</p><p>AWS é que essas empresas cresçam e se tornem</p><p>clientes de serviços como cloud e inteligência artifi-</p><p>cial. Em setembro, a companhia anunciou que mais</p><p>dez jovens empresas brasileiras estão em seu progra-</p><p>ma global de incentivo ao uso inovador de IA. “Aca-</p><p>bou a fase de buscar crescimento sem se importar</p><p>com o custo”, afirma Alvaro Echeverria, diretor de</p><p>startups da AWS na América Latina. “Mas, para as</p><p>start ups mais sólidas e rigorosas com suas opera-</p><p>ções, as oportunidades são ilimitadas.” ƒ</p><p>D</p><p>IV</p><p>U</p><p>LG</p><p>AÇ</p><p>ÃO</p><p>D</p><p>IV</p><p>U</p><p>LG</p><p>AÇ</p><p>ÃO</p><p>INÊS 249</p><p>54 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>BEM-ESTAR</p><p>CONTRA NOITES</p><p>MALDORMIDAS</p><p>A luta contra a insônia depende de uma rotina consistente, um ambiente propício ao sono</p><p>e hábitos saudáveis que favoreçam o relaxamento da mente e do corpo Tiago Cordeiro</p><p>insônia é um problema de saúde públi-</p><p>ca que atinge aproximadamente um</p><p>terço da população global. No Brasil,</p><p>segundo a Associação Brasileira do</p><p>Sono (ABS), 73 milhões de pessoas sofrem com o</p><p>distúrbio do sono. A forma crônica, caracterizada</p><p>por noites maldormidas pelo menos três vezes por</p><p>semana durante três meses, aflige até 15% das pes-</p><p>soas no mundo.</p><p>As causas da insônia são diversas, incluindo fato-</p><p>res genéticos, transtornos psicológicos como ansie-</p><p>dade e depressão, doenças como dor crônica e pro-</p><p>blemas respiratórios ou questões hormonais. O dis-</p><p>túrbio também pode ser desencadeado por situa-</p><p>ções causadoras de estresse, como divórcio, luto ou</p><p>Insônia crônica:</p><p>um problema</p><p>que atinge 15%</p><p>da população</p><p>no mundo</p><p>perda de emprego. Ou por hábitos que não contri-</p><p>buem para a melhor qualidade do sono.</p><p>Mulheres e idosos tendem a sofrer mais com o</p><p>problema, assim como pessoas com sobrepeso, que</p><p>pode resultar em problemas físicos que atrapalham</p><p>o repouso. São muitas as possíveis causas, mas o cer-</p><p>to é que as consequências do distúrbio podem preju-</p><p>dicar a saúde física e mental, além de comprometer a</p><p>produtividade profissional. Mas é possível superar a</p><p>dificuldade para pegar no sono, ou para sustentar</p><p>uma noite repousante o suficiente para o organismo.</p><p>CINCO RECOMENDAÇÕES</p><p>“O ideal é desenvolver bons hábitos de higiene do</p><p>sono, ajustar rotinas comportamentais e tratar as</p><p>A</p><p>P</p><p>O</p><p>R</p><p>M</p><p>E</p><p>Z</p><p>Z</p><p>/I</p><p>S</p><p>T</p><p>O</p><p>C</p><p>K</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 55</p><p>É comum ouvir que beber todos os dias uma taça</p><p>de vinho, especialmente o tinto, é benéfico à saúde,</p><p>graças aos antioxidantes presentes na uva. Estudos</p><p>recentes, no entanto, indicam que os benefícios do</p><p>vinho poderiam ser substituídos por hábitos mais</p><p>saudáveis, como o de beber suco de uva natural.</p><p>Além disso, o consumo diário de álcool, mesmo em</p><p>pequenas quantidades, pode levar ao abuso e au-</p><p>mentar o risco de outros problemas de saúde, apon-</p><p>ta uma pesquisa publicada no periódico científico</p><p>americano Journal of Studies on Alcohol and Drugs,</p><p>que avaliou 107 estudos sobre o tema.</p><p>“De acordo com a Organização Mundial da Saú-</p><p>de, não existe consumo de álcool que não traga ne-</p><p>nhum risco para a saúde”, afirma Arthur Guerra, psi-</p><p>quiatra e presidente do Centro de Informações sobre</p><p>Saúde e Álcool (Cisa). “Ainda que exista literatura</p><p>científica apontando o álcool como fator de proteção</p><p>para algumas doenças do coração, é preciso conside-</p><p>rar que ele é fator de risco para mais de 200 tipos de</p><p>agravos e transtornos.” É pena, mas são os fatos. ƒ</p><p>O risco de uma taça</p><p>de vinho por dia</p><p>Estudos recentes apontam que o consumo</p><p>rotineiro da bebida pode trazer muito</p><p>mais danos do que benefícios</p><p>doenças que se associam à insônia”, recomenda Ali-</p><p>cia Carissimi, psicóloga clínica e do sono e represen-</p><p>tante do Conselho de Psicologia na ABS.</p><p>“Os cuidados iniciam pela manhã, com a exposi-</p><p>ção à luz natural durante o dia. Praticar exercícios</p><p>físicos regulares, limitar cochilos durante o dia, ter</p><p>pausas na rotina e investir em estratégias para geren-</p><p>ciar o estresse também ajuda”, diz Carissimi, que re-</p><p>laciona o problema a questões de contexto que afe-</p><p>tam a rotina. “Se o nosso corpo e a nossa mente esti-</p><p>verem sob pressão constante durante o dia, pode ser</p><p>mais difícil descansar e relaxar durante a noite.”</p><p>Entre as estratégias bem-sucedidas que a psicólo-</p><p>ga recomenda, destacam-se:</p><p>ƒ Estabelecer uma rotina de sono consistente, in-</p><p>clusive nos fins de semana (dormir e acordar muito</p><p>mais tarde fora dos dias úteis atrapalha);</p><p>ƒ Desenvolver uma rotina relaxante antes de</p><p>dormir, com práticas que podem incluir leitura, me-</p><p>ditação e um banho morno;</p><p>ƒ Promover um ambiente propício ao sono, escu-</p><p>ro, silencioso e com uma temperatura agradável;</p><p>ƒ Evitar o consumo de estimulantes antes de</p><p>dormir, como bebidas com cafeína, e evitar também</p><p>o uso de nicotina e álcool;</p><p>ƒ Limitar o uso de eletrônicos ao menos uma hora</p><p>antes de deitar, já que a luz emitida por celulares, tele-</p><p>visores e computadores pode acionar o alerta do cor-</p><p>po, bem como atrasar a liberação do hormônio mela-</p><p>tonina, fazendo com que o sono inicie mais tarde.</p><p>TERAPIA FUNCIONA</p><p>Existem medicações úteis, desde que prescritas</p><p>por médicos. Mas a principal recomendação para</p><p>tratar da insônia, de acordo com as diretrizes na-</p><p>cionais e internacionais de saúde atuais, é a cha-</p><p>mada terapia cognitivo-comportamental para in-</p><p>sônia, focada em entender as causas da dificuldade</p><p>para dormir com saúde.</p><p>A terapia também ajuda o paciente a superar a</p><p>resistência ao adormecimento, que frequentemente</p><p>causa tensão e frustração. “Essa abordagem ajuda a</p><p>identificar e reformular padrões de comportamen-</p><p>tos e pensamentos negativos ou distorcidos relacio-</p><p>nados ao sono”, diz Carissimi. Bom descanso. ƒ</p><p>S</p><p>T</p><p>O</p><p>C</p><p>K</p><p>L</p><p>IT</p><p>E</p><p>/I</p><p>S</p><p>T</p><p>O</p><p>C</p><p>K</p><p>Vinho tinto:</p><p>por que não</p><p>trocar pelo suco</p><p>de uva natural?</p><p>INÊS 249</p><p>56 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>BEM VIVER</p><p>CHEIA DE</p><p>VIDA AOS</p><p>178 ANOS</p><p>Como o estilista Jonathan Anderson rejuvenesceu a Loewe</p><p>transcendendo a vocação original da marca — criar bolsas</p><p>para a realeza espanhola Cinthia Rodrigues, de Roma</p><p>ltimo tapete vermelho do Festival de</p><p>Cinema de Veneza, uma das vitrines</p><p>mais glamourosas do mundo. Jona-</p><p>than Anderson, diretor criativo da</p><p>Loewe, caminha junto ao elenco do filme Queer,</p><p>do italiano Luca Guadagnino. O convidado exter-</p><p>no a esse mundo ganhou lugar de honra, pois criou</p><p>os figurinos que os atores usam na história inspira-</p><p>da no livro escrito por William Burroughs (1914-</p><p>1997). O protagonista Daniel Craig, ex-007, in-</p><p>clusive, é a estrela da última campanha da</p><p>marca, inspirada no trabalho do artista</p><p>plástico americano Richard Hawkins.</p><p>O projeto orquestrado entre moda e arte é</p><p>o trunfo do estilista. “Trabalhar nesse fil-</p><p>me mudou a minha vida”, afirma Ander-</p><p>son, reforçando a narrativa de que a sua</p><p>concepção de criatividade é ampla.</p><p>Transcender a reputação da marca com par-</p><p>cerias criativas é apenas um dos talentos que dis-</p><p>tinguem o irlandês de 40 anos no cenário compe-</p><p>titivo das marcas de luxo. Acima de tudo, ele é vi-</p><p>sionário, tem liberdade para criar, entende o po-</p><p>der das redes sociais e se conecta muito bem à ge-</p><p>ração Z — consumidores com alto poder de in-</p><p>fluência. Ele também criou os looks de Rivais,</p><p>A atriz Zendaya</p><p>e o salto de</p><p>seu escarpim:</p><p>brincadeira</p><p>com</p><p>modelagens</p><p>e proporções</p><p>Ú</p><p>M</p><p>O</p><p>N</p><p>D</p><p>A</p><p>D</p><p>O</p><p>R</p><p>I</p><p>P</p><p>O</p><p>R</p><p>T</p><p>FO</p><p>L</p><p>IO</p><p>/G</p><p>E</p><p>T</p><p>T</p><p>Y</p><p>I</p><p>M</p><p>A</p><p>G</p><p>E</p><p>S</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 57</p><p>Penazzi, da Setai: “No mar, vejo</p><p>tudo sob outra perspectiva”</p><p>SE</p><p>TA</p><p>I/D</p><p>IV</p><p>U</p><p>LG</p><p>AÇ</p><p>ÃO</p><p>D</p><p>IV</p><p>U</p><p>LG</p><p>AÇ</p><p>ÃO</p><p>Um cenário adverso e em transformação. A princípio,</p><p>a descrição poderia ser do dia a dia do universo corpora-</p><p>tivo, e talvez seja por causa dessa semelhança que cada</p><p>vez mais executivos estão se jogando ao mar para prati-</p><p>car o surfe e melhorar a sua visão de negócio. “Ondas</p><p>intimidam. Escolher a hora certa de entrar na água e en-</p><p>tender que os processos levam tempo é um aprendizado</p><p>gigante”, diz Alex Avramov, diretor-geral da edtech</p><p>Ebac. O executivo André Penazzi, presidente da incor-</p><p>poradora paraibana Setai, encontrou a sinergia perfeita</p><p>entre o seu negócio e a prática do esporte. “No mar, vejo</p><p>tudo sob outra perspectiva”, diz ele. Suas residências à</p><p>beira-mar, que chegam a valer 9 milhões de reais, vêm</p><p>com pranchas de surfe.</p><p>Sérgio Suchodolski,</p><p>consultor de investimen-</p><p>tos de impacto da empre-</p><p>sa de benefícios VR, apro-</p><p>veita as ondas para en-</p><p>tender a resiliência do</p><p>mar. “A natureza não</p><p>está entre quatro li-</p><p>nhas.” Para quem qui-</p><p>ser se aventurar, a dica</p><p>é reservar um bangalô</p><p>no resort Niyama Priva-</p><p>te Islands, nas Maldivas,</p><p>que tem uma onda parti-</p><p>cular acessível apenas</p><p>aos que podem pagar</p><p>1 060 dólares a diária. ƒ</p><p>Executivos das ondas</p><p>O desafio de enfrentar o mar em cima de uma</p><p>prancha atrai cada vez mais líderes de empresas</p><p>com a atriz e cantora americana Zendaya, que</p><p>lançou a tendência do tenniscore no estilo de rua.</p><p>Anderson foi eleito pela revista Time como uma</p><p>das personalidades mais influentes do mundo e</p><p>conseguiu que sua Loewe desbancasse a Prada e a</p><p>Miu Miu como a marca mais amada pelo mundo</p><p>da moda na pesquisa de dados The Lyst Index.</p><p>A Loewe nasceu em Madri, em 1846, como um</p><p>coletivo de artesãos que trabalhavam com couro</p><p>para atender à realeza espanhola e cresceu com a</p><p>chegada do alemão Heinrich Loewe Rössberg. Hoje,</p><p>pertence ao bilionário grupo francês LVMH, que</p><p>em 2013 comprou parte da marca própria de An-</p><p>derson e o convidou para criar para a Loewe (pro-</p><p>nuncia-se “louvé”). Nascia uma estrela na eterna fo-</p><p>gueira das vaidades que é o mundo da moda.</p><p>As roupas Loewe se distinguem por brincar</p><p>com proporções e modelagens. Um vestido ganha</p><p>a aplicação de um antúrio gigante. O cós de uma</p><p>calça sobe quase até o peito. O salto de um escar-</p><p>pim é uma bola de tênis. A estrutura de uma bota</p><p>lembra a perna de uma calça, a bolsa tem formato</p><p>de maço de aspargos. O universo lúdico se mistura</p><p>a arte, móveis Chippendale e cerâmicas inglesas,</p><p>frutas e flores, levando ao delírio clientes ansiosos</p><p>pelo próximo desfile. Entre as celebridades que</p><p>são fãs da marca estão as cantoras Beyoncé e</p><p>Rihanna, o ator Jeff Goldblum, a rainha Letizia da</p><p>Espanha e a influencer Caroline Daur. Tudo isso</p><p>tem preço: jaqueta de couro de cordeiro, 5 500 eu-</p><p>ros; bolsa Flamenco, 3 300 euros; tênis bordado</p><p>com miçangas, 2 500 euros.</p><p>O investimento duradouro está rendendo óti-</p><p>mos dividendos. A Loewe encerrou o ano de 2022</p><p>com um lucro de 128 milhões de euros, marcando</p><p>um aumento de 87% em relação ao ano fiscal ante-</p><p>rior. Especula-se no mercado que a empresa teria</p><p>faturado 1,5 bilhão de euros em 2023 — a marca</p><p>não confirma. Em maio, a Loewe abriu uma loja no</p><p>Shopping Iguatemi, em São Paulo, e os produtos</p><p>mais vendidos são a bolsa Flamenco, por 21 180</p><p>reais, a camiseta de manga longa Top, por 5 090</p><p>reais, e o tênis Flow Runner, por 4 950 reais. Os ar-</p><p>tesãos espanhóis que criaram a marca teriam mui-</p><p>to orgulho do legado que deixaram. ƒ</p><p>Maldivas: praias</p><p>restritas a poucos</p><p>INÊS 249</p><p>58 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>PALAVRA FINAL | PAULO ALVARENGA</p><p>O BRASIL AVANÇOU com a legislação sobre hi-</p><p>drogênio de baixo carbono, o que pode lhe assegurar</p><p>papel de destaque na transição energética global.</p><p>Com a aprovação da Lei 14.948/2024, que define ba-</p><p>ses jurídicas para a promoção do hidrogênio, e do PL</p><p>3.027/2024, que prevê 18 bilhões de reais em créditos</p><p>fiscais de 2028 a 2032, o país se fortalece como po-</p><p>tencial líder em produção e uso dessa energia limpa.</p><p>A integração de regulamentação e incentivos cria</p><p>um ambiente econômico-regulatório favorável para</p><p>projetos estruturantes. Com uma matriz energética</p><p>renovável, o Brasil está criando as condições para</p><p>tornar o hidrogênio verde um pilar de sua economia</p><p>de baixo carbono, que pode induzir arrecadação tri-</p><p>butária adicional de mais de 700 bilhões de reais até</p><p>2050, o que por si só explica sua importância.</p><p>No entanto, a aprovação das leis é apenas o come-</p><p>ço. A regulamentação precisa ser rápida para evitar</p><p>desvantagens frente a outros países. Nas últimas se-</p><p>manas, Canadá e Holanda anunciaram novas medi-</p><p>das de incentivo, juntando-se a uma lista de outros</p><p>países, como Estados Unidos, Austrália e os da</p><p>União Europeia. Existe uma concorrência entre na-</p><p>ções e regiões para se estabelecerem como centros</p><p>de produção, tendo como pano de fundo a segurança</p><p>energética e a industrialização de suas economias.</p><p>Dessa forma, os incentivos devem priorizar proje-</p><p>tos estruturantes, capazes de promover o adensa-</p><p>mento da cadeia produtiva local e privilegiar rotas de</p><p>menor emissão. A criação de economia de escala é</p><p>crucial para garantir a competitividade global.</p><p>O hidrogênio verde pode descarbonizar setores</p><p>intensivos em emissões, como a siderurgia e os trans-</p><p>portes, mas a transformação tem pressa, dado o</p><p>avanço dos impactos climáticos. Esse crescimento</p><p>dependerá do desenvolvimento de infraestrutura e</p><p>da sua competitividade, que vem com os ganhos da</p><p>economia de escala. Assim, a expansão da geração e</p><p>da transmissão de energia renovável é essencial, bem</p><p>como a resolução do problema do curtailment, uma</p><p>espécie de corte do despacho da energia renovável</p><p>oriunda sobretudo dos parques eólicos no Nordeste</p><p>pelo operador do sistema elétrico, como precaução</p><p>para aumentar a segurança do sistema. Mas, em</p><p>contrapartida, aumenta o custo ao despachar ener-</p><p>gia das usinas térmicas, e assim aumenta também as</p><p>emissões. Isso afeta a viabilidade econômica e de-</p><p>sestimula a criação de novos projetos eólicos. Resol-</p><p>ver esse impasse é fundamental para o desenvolvi-</p><p>mento do mercado de hidrogênio, que depende de</p><p>oferta abundante e barata de eletricidade renovável.</p><p>Com incentivos fiscais e suporte regulatório</p><p>adequados, o Brasil pode desenvolver projetos de</p><p>grande escala não só para o mercado interno, co-</p><p>mo também se tornar exportador de hidrogênio</p><p>verde embarcado em produtos de alto valor agre-</p><p>gado. A oportunidade está à nossa frente. ƒ</p><p>Os textos dos</p><p>colunistas</p><p>não refletem</p><p>necessariamente</p><p>as opiniões</p><p>de VEJA</p><p>NEGÓCIOS</p><p>Paulo Alvarenga é CEO da thyssenkrupp América</p><p>do Sul, presidente da Câmara Brasil-Alemanha e</p><p>fundador e membro do Conselho da Associação</p><p>Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde</p><p>G</p><p>LA</p><p>D</p><p>ST</p><p>O</p><p>N</p><p>E</p><p>C</p><p>A</p><p>M</p><p>P</p><p>O</p><p>S</p><p>/R</p><p>EA</p><p>LP</p><p>H</p><p>O</p><p>T</p><p>O</p><p>S</p><p>Hidrogênio verde: a lei é um bom</p><p>passo, mas há ainda desafios</p><p>O Brasil avançou e pode ter papel de destaque na transição energética global</p><p>A prioridade deve ser dada a</p><p>projetos estruturantes, rotas de</p><p>menor emissão, ganho de escala”</p><p>INÊS 249</p><p>INÊS 249</p><p>INÊS 249</p><p>Capa</p><p>Sumário</p><p>Carta ao Leitor</p><p>Direto ao ponto</p><p>Giro</p><p>Brasil Tributos</p><p>Brasil Educação</p><p>Negócios Gestão</p><p>Negócios Eventos</p><p>Negócios Varejo</p><p>ESG Trabalho</p><p>Mundo Reino Unido</p><p>Finanças Mercado</p><p>Inovação Startups</p><p>Bem-Estar</p><p>Bem Viver</p><p>Palavra Final</p><p>o Ozempic? Primeiro de tudo, você tem que</p><p>tomar cuidado com hypes. É preciso ser muito estra-</p><p>tégico sobre aonde quer ir e onde quer fazer a dife-</p><p>rença. A empresa tem uma direção clara, tomada</p><p>quando começamos a desinvestir em unidades como</p><p>as de saúde animal e cuidados com os olhos, para ser</p><p>uma farmacêutica pura, que investe em pesquisa e</p><p>alta tecnologia. Nessa jornada, há muitas oportuni-</p><p>dades: oncologia, cardiovascular e imunologia, para</p><p>citar algumas. Então, no final das contas, embora</p><p>sejamos bastante grandes, ainda precisamos fazer</p><p>escolhas estratégicas sobre onde queremos atuar.</p><p>N</p><p>O</p><p>VA</p><p>RT</p><p>IS</p><p>/D</p><p>IV</p><p>U</p><p>LG</p><p>AÇ</p><p>ÃO</p><p>INÊS 249</p><p>10 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>DIRETO AO PONTO | SYLVESTER FEDDES</p><p>Ter abandonado pesquisas na área de emagreci-</p><p>mento não foi um erro? Não acho que perdemos a on-</p><p>da. É apenas outra direção estratégica. O mercado de</p><p>perda de peso está muito saturado e não tivemos</p><p>massa crítica em nossa pesquisa para fazer a diferen-</p><p>ça. Nunca tivemos esse tratamento específico em</p><p>nosso portfólio, então não foi uma perda. Se você me</p><p>perguntasse, eu adoraria ter isso. Eu adoraria tam-</p><p>bém ter tido uma vacina durante a pandemia. Às ve-</p><p>zes, você precisa ter também um pouco de sorte.</p><p>Por que a Novartis saiu do mercado de vacinas?</p><p>Nós desinvestimos em vacinas dois anos antes da</p><p>pandemia. Éramos o segundo ou terceiro maior fa-</p><p>bricante, mas vendemos essa unidade porque quería-</p><p>mos seguir por um caminho diferente,</p><p>que é o de áreas de alta tecnologia. É difí-</p><p>cil investir em vacinas, os custos são al-</p><p>tos e os riscos, também.</p><p>O que a Novartis está fazendo para res-</p><p>ponder aos apelos dos acionistas por</p><p>maior rentabilidade? Temos uma exce-</p><p>lente posição. A área de oncologia, que é</p><p>a que mais cresce, tem necessidades</p><p>enormes não atendidas. Diabetes é um</p><p>campo que estamos desenvolvendo, e te-</p><p>mos um portfólio de (remédios para)</p><p>doenças cardiovasculares novamente.</p><p>A Novartis vai lançar novos medicamentos no mer-</p><p>cado brasileiro? Sim, claro. Lançamos um medica-</p><p>mento para câncer de próstata e queremos levá-lo</p><p>para o SUS. Oferecemos para o governo: se o produto</p><p>funcionar, podemos receber em parcelas. Se não fun-</p><p>cionar, não precisa pagar. É algo novo, também esta-</p><p>mos aprendendo com essa tecnologia.</p><p>Há alguma chance de o medicamento não funcio-</p><p>nar? Geralmente funciona, mas o governo teria um</p><p>seguro. É como comprar um carro, sair da loja e ele</p><p>não funcionar. O que estamos dizendo é o seguinte:</p><p>não pague agora pelo carro, pague ao longo de três</p><p>anos. Se durante esses três anos o carro quebrar, você</p><p>não precisa pagar.</p><p>A Novartis pretende aumentar os investimentos no</p><p>Brasil? Sim. Às vezes, somos um pouco cínicos em</p><p>relação ao governo, mas também precisamos reco-</p><p>nhecer quando as coisas vão bem. Por exemplo, no</p><p>caso do Brasil, uma das áreas em que vejo que passos</p><p>positivos estão sendo dados é a de pesquisa clínica.</p><p>Existem novas leis e projetos sendo aprovados.</p><p>Quanto a Novartis investe no mercado brasileiro?</p><p>Atualmente, estamos investindo 90 milhões de reais</p><p>em pesquisa clínica no Brasil. Globalmente, desem-</p><p>bolsamos cerca de 9 bilhões de dólares em pesquisa.</p><p>Se o governo continuar a tomar medidas para garan-</p><p>tir que o ambiente seja favorável, a indústria certa-</p><p>mente investirá mais. O Brasil tem uma população</p><p>muito heterogênea, o que proporciona</p><p>uma enorme riqueza de dados que favo-</p><p>recem a pesquisa clínica.</p><p>Que tipo de parceria a Novartis tem com</p><p>o governo brasileiro? Há muitas doen-</p><p>ças tropicais com que as pessoas não se</p><p>preocupam mais, como hanseníase, Cha-</p><p>gas e malária. A Novartis é uma das úni-</p><p>cas empresas que ainda fazem pesquisa</p><p>nessas áreas. Não cobramos pelo trata-</p><p>mento, nós o trazemos para o Brasil. E o</p><p>governo está disposto a fazer parcerias</p><p>nessas áreas. Além disso, somos a pri-</p><p>meira empresa que trouxe terapia celular</p><p>e terapia gênica para o Brasil.</p><p>É difícil trabalhar com o poder público? Um dos de-</p><p>safios é o conceito de que todos têm acesso à saúde.</p><p>Ou seja, se você estiver doente, pode processar o go-</p><p>verno por tecnologias e procedimentos. Se o juiz</p><p>aprovar, você consegue o que precisa. Isso é um con-</p><p>ceito intrigante, porque não necessariamente oferece</p><p>a melhor negociação para o governo. O que me deixa</p><p>confuso é por que o governo entra em uma negocia-</p><p>ção e não negocia da maneira correta. Por que o go-</p><p>verno não é mais flexível em alguns acordos, para</p><p>evitar todos esses processos? No final das contas, é</p><p>mais barato para o governo, oferece melhor acesso,</p><p>melhores cuidados, mais previsibilidade. Isso é algo</p><p>“Eu adoraria ter</p><p>uma vacina</p><p>durante a</p><p>pandemia. Às</p><p>vezes, você precisa</p><p>ter também um</p><p>pouco de sorte”</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 11</p><p>que eu ainda não entendo completamente, mas é uma</p><p>realidade no Brasil. Então eu acho que ainda há algu-</p><p>mas ineficiências.</p><p>Quem é o principal cliente da Novartis no Brasil? Vo-</p><p>cê tem o SUS, que, claro, é um sistema público, com</p><p>uma grande população e menos acesso à inovação.</p><p>E então você tem a medicina privada, que atende a</p><p>uma população menor, para a qual, talvez, a inovação</p><p>seja um pouco mais acessível.</p><p>O senhor já esteve em um hospital público no Bra-</p><p>sil? Sim. É um mundo diferente. Você vê muito mais</p><p>pacientes esperando nos corredores, é muito mais lo-</p><p>tado, os médicos estão sob muita pressão para aten-</p><p>der mais pacientes por hora. São muitas</p><p>necessidades. Mas os profissionais que lá</p><p>estão são muito competentes, mesmo em</p><p>condições que não são nada fáceis.</p><p>Entre os países onde o senhor já traba-</p><p>lhou, quais possuem os melhores siste-</p><p>mas públicos de saúde? Essa é uma da-</p><p>quelas perguntas sobre as quais você po-</p><p>de ter um grande debate. São muitas</p><p>abordagens diferentes. O Canadá defini-</p><p>tivamente tem um sistema de saúde</p><p>avançado. A maneira como os canaden-</p><p>ses abordam a tecnologia, a maneira co-</p><p>mo trabalham com a tecnologia, como</p><p>pensam sobre os indicadores de qualidade, é bem</p><p>avançada, mas eles também têm desafios quando se</p><p>trata de acesso. A diferença entre os diferentes terri-</p><p>tórios, e eles têm muitos territórios, é bastante signifi-</p><p>cativa. Então, dependendo de onde você mora no Ca-</p><p>nadá, você pode ou não ter acesso a certos procedi-</p><p>mentos ou medicamentos. Mas, sim, de forma geral,</p><p>é claro que é um pouco mais desenvolvido.</p><p>Como enxerga o sistema de saúde no Brasil? Eu di-</p><p>ria que, na América Latina, o Brasil tem um sistema</p><p>de saúde privado bastante bom. Vocês têm alguns</p><p>dos melhores centros, as melhores pesquisas, profis-</p><p>sionais incríveis. O desafio está no setor público, no</p><p>qual o acesso se torna um pouco mais desafiador.</p><p>Quais são os principais desafios ao trabalhar com</p><p>o SUS? O sistema precisa ser mais sustentável. São</p><p>cerca de 200 milhões de pessoas que utilizam de al-</p><p>guma forma o SUS. Outro ponto é que o Brasil é um</p><p>país grande. Então, como você pode distribuir pro-</p><p>dutos por toda a geografia? Isso não é nem um pou-</p><p>co fácil. Há um claro mandato federal de centraliza-</p><p>ção, mas existem várias outras áreas em nível esta-</p><p>dual e até municipal, com diferentes mecanismos de</p><p>financiamento, o que dificulta todo o trabalho que</p><p>deve ser realizado. Acho que, devido ao tamanho do</p><p>Brasil e aos mecanismos de financiamento comple-</p><p>xos, às vezes os desafios relacionados à compreen-</p><p>são dos impactos fiscais tornam o ambiente regula-</p><p>tório e tributário bastante difícil.</p><p>Como foi feito o convite para vir ao</p><p>Brasil? Foi pura coincidência. Eu já mo-</p><p>rei na Colômbia, Equador e Chile, então</p><p>conheço bem os países vizinhos, mas</p><p>nunca tinha trabalhado no Brasil de for-</p><p>ma permanente. Meu chefe perguntou</p><p>se eu me interessaria, e eu apenas res-</p><p>pondi que sim. Minha esposa é colom-</p><p>biana, ficamos vinte anos longe de casa.</p><p>Temos três filhos, uma de 17 anos e dois</p><p>gêmeos de 14 anos. Trabalhar no Brasil</p><p>representou uma oportunidade para</p><p>que meus filhos tivessem um pouco de</p><p>contato com suas raízes. O Brasil, afi-</p><p>nal, é muito parecido com a Colômbia.</p><p>Quais são os maiores desafios do mercado brasi-</p><p>leiro? No Brasil,</p><p>você pode realmente causar um</p><p>grande impacto. É um país com sérios problemas de</p><p>desigualdade, mas a cultura é agradável e as pes-</p><p>soas são muito acolhedoras. Além disso, as oportu-</p><p>nidades do mercado brasileiro também parecem ser</p><p>grandes. É um país enorme, que precisa de pessoas</p><p>e corporações que se posicionem de maneira objeti-</p><p>va. Somos uma dessas empresas. Meu discurso po-</p><p>de parecer um pouco sonhador, porque, no final das</p><p>contas, somos uma organização comercial, temos</p><p>acionistas e buscamos lucros. Mas, definitivamente,</p><p>podemos fazer a diferença para as pessoas. ƒ</p><p>“Na América</p><p>Latina,</p><p>o Brasil tem</p><p>os melhores</p><p>centros e os</p><p>melhores</p><p>profissionais”</p><p>INÊS 249</p><p>12 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>GIRO</p><p>O mercado livre de energia deverá chegar a cerca</p><p>de 60 000 empresas participantes em outubro, um</p><p>salto de 62% ante o número do ano passado. O moti-</p><p>vo é que, desde janeiro, vigora uma portaria do go-</p><p>verno autorizando todos os consumidores de média</p><p>e alta tensão — e não apenas as grandes companhias</p><p>— a ingressar no mercado livre. Ao contrário do seg-</p><p>mento cativo, em que o cliente é obrigado a comprar</p><p>energia da concessionária que atende sua região, no</p><p>livre é possível negociar com diversos ofertantes.</p><p>Com isso, a economia na tarifa chega a 35%. “Am-</p><p>pliar o acesso ao mercado livre pode gerar uma revo-</p><p>lução no setor elétrico, comparável à privatização</p><p>das operadoras de telefonia”, diz Bernardo Sicsú,</p><p>vice- presidente da Abraceel, a associação que reúne</p><p>as comercializadoras de energia elétrica.</p><p>Livres para economizar</p><p>Medidores: energia até 35% mais barata no mercado livre</p><p>L</p><p>IN</p><p>D</p><p>S</p><p>E</p><p>Y</p><p>N</p><p>IC</p><p>H</p><p>O</p><p>L</p><p>S</p><p>O</p><p>N</p><p>/U</p><p>C</p><p>G</p><p>/U</p><p>N</p><p>IV</p><p>E</p><p>R</p><p>S</p><p>A</p><p>L</p><p>IM</p><p>A</p><p>G</p><p>E</p><p>S</p><p>G</p><p>R</p><p>O</p><p>U</p><p>P</p><p>/G</p><p>E</p><p>T</p><p>T</p><p>Y</p><p>I</p><p>M</p><p>A</p><p>G</p><p>E</p><p>S</p><p>Fome de Brasil</p><p>Com 300 milhões de reais recém-captados, a Cayena, market-</p><p>place on-line que conecta fornecedores a restaurantes, hotéis, mer-</p><p>cados e cozinhas industriais, prepara sua expansão. Presente em</p><p>100 municípios paulistas, a empresa planeja chegar a mais 500 ci-</p><p>dades Brasil afora em dois anos. Criada em 2020, a Cayena movi-</p><p>menta 1 bilhão de reais em vendas por ano. Seu foco é servir peque-</p><p>nas empresas que precisam comprar insumos por atacado. A plata-</p><p>forma vai dobrar o número de fornecedores cadastrados, hoje em</p><p>100 e responsáveis por um portfólio de 50 000 itens.</p><p>Expediente aos domingos</p><p>A financeira Omni aposta nos feirões de veículos</p><p>realizados nos fins de semana para aumentar a cartei-</p><p>ra de crédito automotivo, seu principal negócio. A es-</p><p>tratégia já rende resultados encorajadores. Em agosto,</p><p>a empresa bateu seu recorde de financiamentos apro-</p><p>vados num único fim de semana: 8 milhões de reais,</p><p>o dobro do registrado normalmente. A carteira da</p><p>Omni, especializada em financiar a compra de carros</p><p>usados para clientes de baixa renda, cresceu 300 mi-</p><p>lhões de reais no ano passado, totalizando 4,4 bilhões.</p><p>Quem pode entrar</p><p>A Portaria 50/2022, do Ministério de Minas e Energia, entrou em vigor em</p><p>janeiro deste ano. Veja quem ela autoriza a participar do mercado livre</p><p>Todas as empresas classificadas no Grupo A</p><p>da Resolução Normativa Nº 1.000 da Aneel poderão migrar</p><p>para o mercado livre de energia</p><p>O Grupo A envolve estabelecimentos que consomem</p><p>energia com tensão a partir de 2,3 quilovolts (kV)</p><p>Com isso, empresas que gastam, mensalmente, a partir</p><p>de 10 000 reais com a conta de luz estão aptas a migrar</p><p>Antes da portaria, o mercado livre era acessível apenas a grandes</p><p>consumidores, com contas acima de 100 000 reais por mês</p><p>Ao negociar livremente a compra de energia, as empresas</p><p>conseguem economizar de 20% a 35% na tarifa</p><p>Consumidores residenciais não estão</p><p>autorizados a migrar</p><p>Fontes: Abraceel, MME e Conceg</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 13</p><p>Cenário mais difícil</p><p>A consultoria britânica L.E.K. assessora</p><p>planos de fundos de investimento em</p><p>participações e de empresas. Paulo</p><p>Vandor, seu sócio no Brasil, conta</p><p>como os juros altos atrapalham na</p><p>prática o desenvolvimento de negócios</p><p>Como a Selic em 10,75% afeta as decisões de</p><p>investimento das empresas? O que define se</p><p>um projeto será aprovado é a taxa interna de re-</p><p>torno, a TIR, que representa sua rentabilidade.</p><p>No Brasil, sempre se trabalhou com uma TIR</p><p>de dois dígitos. Com essa Selic, estamos falando</p><p>de uma taxa interna de retorno de 15% a 20%</p><p>ao ano para tirar um projeto do papel.</p><p>Esse é o único efeito? Os acionistas também</p><p>estão encurtando o prazo exigido de retorno</p><p>dos projetos. Em tempos normais, espera-se</p><p>que cerca de 30% do investimento volte em</p><p>um prazo de cinco a dez anos. Agora, essa fatia</p><p>é de, pelo menos, 40%.</p><p>A insegurança leva empresas a reter caixa?</p><p>A incerteza torna caro ir ao banco pedir um</p><p>empréstimo para novos projetos. Mesmo pe-</p><p>dir dinheiro a acionistas mFD mais difícil.</p><p>Os estrangeiros estão receosos? Sim. Um</p><p>grande fundo de private equity me disse que</p><p>prefere deixar o dinheiro aplicado em títulos do</p><p>governo brasileiro do que assumir o risco de in-</p><p>vestir nas empresas daqui.</p><p>D</p><p>IV</p><p>U</p><p>LG</p><p>AÇ</p><p>ÃO</p><p>Com reportagem de Camila Pati</p><p>Edição: Márcio Juliboni</p><p>Esta década nem chegou à metade, mas já deixou claro o agravamento</p><p>das mudanças climáticas – e dos prejuízos causados. De 2021 a 2023,</p><p>o mundo registrou, em média, 406 desastres naturais de grandes</p><p>proporções por ano. O número é 29% maior que a média do período</p><p>de 2011 a 2013. Eventos relacionados ao clima, como enchentes e</p><p>secas, respondem por 86% dos casos. Terremotos, tsunâmis e outros</p><p>fenômenos geológicos ficam com o resto. Os desastres naturais</p><p>já causam, em média, 226 bilhões de dólares em perdas por ano,</p><p>9% mais que no início da década passada, segundo o Centro de</p><p>Pesquisa Epidemiológica de Desastres, mantido pela Organização</p><p>Mundial da Saúde e pela Universidade de Lovania, na Bélgica</p><p>Fonte: CRED, OMS e Universidade de Lovania</p><p>TOTAL DE</p><p>DESASTRES</p><p>CAUSADOS</p><p>PELO CLIMA</p><p>(em %)</p><p>PESSOAS</p><p>ATINGIDAS</p><p>(em milhões)</p><p>PREJUÍZOS</p><p>(em bilhões</p><p>de dólares)</p><p>2011</p><p>2012</p><p>2013</p><p>2014</p><p>2015</p><p>2016</p><p>2017</p><p>2018</p><p>2019</p><p>2020</p><p>2021</p><p>2022</p><p>2023</p><p>302</p><p>310</p><p>334</p><p>271</p><p>346</p><p>342</p><p>318</p><p>315</p><p>396</p><p>389</p><p>432</p><p>387</p><p>399</p><p>366</p><p>138</p><p>118</p><p>85</p><p>67</p><p>154</p><p>334</p><p>132</p><p>130</p><p>171</p><p>252</p><p>224</p><p>203</p><p>82</p><p>87</p><p>91</p><p>88</p><p>86</p><p>86</p><p>90</p><p>87</p><p>84</p><p>90</p><p>88</p><p>86</p><p>85</p><p>206</p><p>106</p><p>97</p><p>102</p><p>99</p><p>569</p><p>96</p><p>66</p><p>95</p><p>98</p><p>102</p><p>185</p><p>93</p><p>Paulo Vandor: ficou caro ir ao banco</p><p>INÊS 249</p><p>14 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>BRASIL | TRIBUTOS</p><p>Concentradas em um punhado de setores, as renúncias fiscais perpetuam privilégios</p><p>e agravam o desequilíbrio nas contas públicas no país Raísa Boing</p><p>a noite de 11 de setembro, faltando</p><p>dois minutos para o fim do prazo esti-</p><p>pulado pelo Supremo Tribunal Fede-</p><p>ral (STF), a Câmara dos Deputados</p><p>aprovou o Projeto de Lei 1.847/24, que estabelece</p><p>uma transição de três anos para o fim da desonera-</p><p>ção da folha de pagamentos de dezessete setores da</p><p>economia. A medida reintroduzirá, de forma gra-</p><p>dual, uma carga tributária de 20% sobre a folha —</p><p>alterando o cenário para muitas empresas que se</p><p>beneficiavam de alíquotas reduzidas desde 2011.</p><p>Embora seja um passo significativo, trata-se de</p><p>uma exceção em um país conhecido pela generosa</p><p>concessão de isenções fiscais, que drenam bilhões</p><p>de reais dos cofres públicos.</p><p>Nos últimos vinte anos, o Brasil expandiu suas re-</p><p>núncias fiscais a ponto de elas representarem 4,8%</p><p>do produto interno bruto em 2023, o equivalente a</p><p>Montagem</p><p>de carros:</p><p>os setores com</p><p>lobby mais forte</p><p>preservam</p><p>seus subsídios</p><p>N</p><p>G</p><p>ER</p><p>M</p><p>A</p><p>N</p><p>O</p><p>L</p><p>U</p><p>D</p><p>ER</p><p>S</p><p>O PAÍS DAS</p><p>ISENÇÕES</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 15</p><p>519 bilhões de reais — três vezes o valor gasto com o</p><p>Bolsa Família. Historicamente favorecidos, o setor</p><p>automotivo, a Zona Franca de Manaus e o Simples</p><p>Nacional continuam a desfrutar de isenções, mesmo</p><p>em meio a tentativas de reforma tributária. Enquan-</p><p>to a reoneração da folha de dezessete setores sinaliza</p><p>um movimento para equilibrar as contas públicas, as</p><p>isenções concedidas a outros grupos permanecem</p><p>intactas, levantando questionamentos sobre a eficá-</p><p>cia e a equidade dessas medidas fiscais.</p><p>“Essas concessões de benefícios em geral têm</p><p>como justificativas gerar empregos no setor agra-</p><p>ciado. O problema é que essa arrecadação é com-</p><p>pensada tributando mais os outros setores ou se</p><p>transformando em dívida pública”, afirma o eco-</p><p>nomista Marcos Mendes, pesquisador associado</p><p>do Insper e especialista em contas públicas. “Nos</p><p>dois casos, é possível afirmar que haverá destrui-</p><p>ção de empregos — seja porque a taxa de juros so-</p><p>be em decorrência do aumento da dívida pública,</p><p>desestimulando o investimento e o emprego, seja</p><p>porque os setores que sofrem com uma tributação</p><p>maior acabam empregando menos.”</p><p>Em 2003, as renúncias fiscais representavam 2%</p><p>do PIB, mas esse percentual cresceu de forma contí-</p><p>nua nos anos seguintes, até o patamar atual de</p><p>4,8%. Com grande influência política, a Zona Fran-</p><p>ca de Manaus e o setor automotivo são alguns dos</p><p>principais beneficiados — enquanto o Brasil enfren-</p><p>ta dificuldades para realizar uma reforma tributária</p><p>que dê conta dessas distorções históricas.</p><p>A Zona Franca de Manaus, junto de outras áreas</p><p>de livre comércio, por exemplo, representa 9,1% de</p><p>todas as isenções concedidas durante o período, um</p><p>percentual três vezes maior que o concedido aos de-</p><p>zessete setores que agora terão a vantagem da deso-</p><p>neração retirada gradualmente. Já o Perse, programa</p><p>criado para ajudar o setor de eventos a se recuperar</p><p>das perdas causadas pela pandemia da covid-19, hoje</p><p>representa 2% do total de subsídios — superando até</p><p>mesmo o programa Minha Casa, Minha Vida. Embo-</p><p>ra seu propósito original tenha sido temporário, a</p><p>isenção para o setor de eventos permanece em vigor,</p><p>levantando questionamentos sobre a dificuldade de</p><p>encerrar políticas que já não são mais justificáveis.</p><p>O debate sobre a eficácia dessas medidas é antigo</p><p>e recorrente. “As evidências para o Brasil não são fa-</p><p>voráveis. Avaliações da política de desoneração da</p><p>folha de salários introduzida em 2011 indicam que</p><p>seus efeitos sobre a geração de emprego foram mo-</p><p>destos e que o custo de cada posto de trabalho cria-</p><p>do foi bastante elevado”, analisa Fernando Veloso,</p><p>pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da</p><p>Fundação Getulio Vargas. “Embora a ideia de deso-</p><p>nerar a folha tenha méritos, sua concepção e sua im-</p><p>plementação precisam ser feitas com muito cuida-</p><p>do, para não comprometer as contas públicas.”</p><p>O Simples Nacional, o principal regime tributá-</p><p>rio para micro e pequenas empresas, concentra qua-</p><p>se um quarto de todas as renúncias fiscais. Segundo</p><p>Décio Lima, presidente do Sebrae, o Simples Nacio-</p><p>nal é o principal aliado das empresas ao evitar a in-</p><p>formalidade e garantir a sobrevivência de milhões</p><p>de empreendimentos. “As micro e pequenas empre-</p><p>Fontes: Secretaria de Monitoramento de Avaliação de Políticas Públicas e Assuntos</p><p>Econômicos/Ministério do Planejamento e Orçamento (SMA/MPO) e Receita Federal</p><p>A origem da renúncia</p><p>Em 2023, a União concedeu 646 bilhões de reais em subsídios.</p><p>As isenções tributárias representaram cerca de 80% do total</p><p>2022</p><p>MODALIDADE (em bilhões de reais correntes)</p><p>2023</p><p>TOTAL</p><p>BENEFÍCIOS</p><p>CREDITÍCIOS</p><p>BENEFÍCIOS</p><p>FINANCEIROS</p><p>BENEFÍCIOS</p><p>TRIBUTÁRIOS</p><p>95 83</p><p>28 44</p><p>480 519</p><p>603 646</p><p>VARIAÇÃO</p><p>PERCENTUAL</p><p>-12,3%</p><p>56,4%</p><p>8,2%</p><p>7,2%</p><p>INÊS 249</p><p>16 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>BRASIL | TRIBUTOS</p><p>sas acumulam conquistas compatíveis com sua con-</p><p>tribuição para a economia do país, respondendo por</p><p>seis em cada dez empregos no Brasil e por aproxi-</p><p>madamente 30% do PIB”, afirma Lima. Ele ainda</p><p>argumenta que o Simples Nacional é essencial para</p><p>manter essas empresas operando e evitar que mui-</p><p>tas caiam na informalidade.</p><p>Embora o Simples Nacional seja amplamente de-</p><p>fendido como uma política essencial para a sobrevi-</p><p>vência de empresas de pequeno porte, há críticas</p><p>contundentes sobre sua eficácia. Um relatório do</p><p>Banco Mundial, encomendado em 2015 pelo então</p><p>ministro da Fazenda, Joaquim Levy, apontou que o</p><p>programa, ao reduzir significativamente a carga tri-</p><p>butária, acaba desestimulando o crescimento das</p><p>empresas. O relatório sugere que muitos negócios</p><p>preferem permanecer pequenos para continuar se</p><p>beneficiando das isenções — o que limita a expan-</p><p>são, a competitividade e a inovação.</p><p>Com um endividamento crescente e um déficit fis-</p><p>cal que ainda é uma preocupação central do governo,</p><p>as renúncias fiscais têm se tornado um ponto crítico</p><p>para o equilíbrio das contas públicas. A reoneração</p><p>de dezessete setores marca um movimento tímido em</p><p>direção à responsabilidade fiscal, mas deixa de fora</p><p>muitos dos maiores beneficiados, cujas isenções con-</p><p>tinuam a exercer pressão sobre a economia.</p><p>Um fardo para os cofres públicos</p><p>Em duas décadas, a participação dos subsídios tributários no PIB mais do que dobrou — e os valores concedidos,</p><p>já descontada a inflação, cresceram cinco vezes</p><p>2</p><p>2003</p><p>1,8</p><p>2004</p><p>2</p><p>2005</p><p>3,2</p><p>2006</p><p>3,8</p><p>2007</p><p>3,7</p><p>2008</p><p>3,5</p><p>2009</p><p>3,5</p><p>2010</p><p>3,5</p><p>2011</p><p>3,8</p><p>2012</p><p>4,2</p><p>2013</p><p>4,5</p><p>2014</p><p>4,5</p><p>2015</p><p>4,3</p><p>2016</p><p>4,4</p><p>2017</p><p>4,4</p><p>2018</p><p>4,4</p><p>2019</p><p>4,3</p><p>2020</p><p>4,7</p><p>2021</p><p>4,8</p><p>2022</p><p>4,8</p><p>2023</p><p>Participação dos subsídios tributários no PIB (em %)</p><p>0</p><p>1</p><p>2</p><p>3</p><p>4</p><p>5</p><p>Desfile de moda:</p><p>o benefício fiscal</p><p>do setor de</p><p>eventos supera</p><p>o Minha Casa,</p><p>Minha Vida</p><p>A</p><p>LE</p><p>X</p><p>A</p><p>N</p><p>D</p><p>R</p><p>E</p><p>M</p><p>A</p><p>R</p><p>ET</p><p>T</p><p>I/</p><p>FO</p><p>LH</p><p>A</p><p>P</p><p>R</p><p>ES</p><p>S</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 17</p><p>Fontes: Secretaria de Monitoramento de Avaliação de Políticas Públicas e Assuntos Econômicos/Ministério do Planejamento e Orçamento (SMA/MPO) e Receita Federal</p><p>Subsídios tributários da União (em bilhões de reais — 2023)</p><p>0</p><p>100</p><p>200</p><p>300</p><p>400</p><p>500</p><p>600</p><p>103</p><p>2003</p><p>100</p><p>2004</p><p>118</p><p>2005</p><p>200</p><p>2006</p><p>256</p><p>2007</p><p>270</p><p>2008</p><p>261</p><p>2009</p><p>291</p><p>2010</p><p>306</p><p>2011</p><p>346</p><p>2012</p><p>400</p><p>2013</p><p>433</p><p>2014</p><p>417</p><p>2015</p><p>381</p><p>2016</p><p>396</p><p>2017</p><p>412</p><p>2018</p><p>414</p><p>2019</p><p>407</p><p>2020</p><p>481</p><p>2021</p><p>502</p><p>2022</p><p>519</p><p>2023</p><p>“As renúncias são formas de realizar políticas</p><p>públicas por meio do sistema tributário. Os grandes</p><p>problemas são a (falta de) transparência e a (baixa)</p><p>efetividade desses recursos”, afirma Vilma Pinto,</p><p>diretora da Instituição Fiscal Independente, órgão</p><p>ligado ao Senado Federal que monitora as contas</p><p>públicas e analisa a sustentabilidade fiscal do país.</p><p>Ela reforça que a falta de clareza nas políticas de re-</p><p>núncia fiscal contribui para perpetuar ineficiências</p><p>do sistema tributário. “Muitas vezes, esses gastos</p><p>tributários são pouco avaliados, o que levanta ques-</p><p>tionamentos sobre sua eficiência e qualidade.”</p><p>No setor têxtil, um dos principais afetados pela</p><p>reoneração da folha, o presidente da Abit, Fernando</p><p>Pimentel, avalia que, embora o fim gradual da deso-</p><p>neração não tenha sido o resultado esperado, a me-</p><p>dida traz alívio por acabar com a incerteza que ron-</p><p>dava o setor nos últimos anos. “Agora precisamos</p><p>nos debruçar sobre uma agenda que cuide de uma</p><p>redução estrutural do custo do emprego formal no</p><p>país e reduza os 40 milhões de informais que traba-</p><p>lham na nossa economia”, afirma Pimentel.</p><p>Ao passo que o Brasil avança com a reoneração de</p><p>dezessete setores, os grandes subsídios que historica-</p><p>mente pesam sobre as contas públicas permanecem</p><p>intactos. Setores poderosos continuam a usufruir de</p><p>benefícios que, na prática, trazem poucos resultados</p><p>efetivos para a economia. A Zona Franca de Manaus,</p><p>existente desde 1967, e o setor automotivo seguem</p><p>como exemplos de privilégios garantidos por lobbies,</p><p>enquanto reformas profundas são adiadas.</p><p>Diante da pressão crescente sobre as contas pú-</p><p>blicas, fica cada vez mais evidente que a revisão das</p><p>renúncias e subsídios é uma tarefa inadiável. A reo-</p><p>neração é um primeiro passo, mas o verdadeiro de-</p><p>safio está em enfrentar os setores mais influentes,</p><p>cujos privilégios continuam a sobrecarregar a eco-</p><p>nomia brasileira. “Essas concessões acabam benefi-</p><p>ciando setores específicos em detrimento do equilí-</p><p>brio fiscal. Muitas vezes, a justificativa</p><p>de geração de</p><p>empregos não se sustenta, e o custo recai sobre toda</p><p>a sociedade, seja por meio de endividamento públi-</p><p>co, seja por tributação mais elevada sobre outros se-</p><p>tores”, afirma Mendes, do Insper. Sem um movimen-</p><p>to firme para mudar isso, o Brasil permanecerá sen-</p><p>do “o país das isenções” — um lugar onde apenas al-</p><p>guns se beneficiam, mas todos pagam a conta. ƒ</p><p>Produção na</p><p>Zona Franca</p><p>de Manaus:</p><p>o incentivo da</p><p>região é mantido</p><p>há 57 anos</p><p>D</p><p>IV</p><p>U</p><p>LG</p><p>AÇ</p><p>ÃO</p><p>INÊS 249</p><p>18 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>BRASIL | EDUCAÇÃO</p><p>O PADRE</p><p>CAPITALISTA</p><p>Com o desafio de dar sustentabilidade financeira e ampliar o caráter comunitário da PUC-Rio,</p><p>o padre Anderson Pedroso adotou gestão com foco em redução de custos, parcerias</p><p>com o setor privado e doações para o fundo patrimonial da instituição Diogo Schelp</p><p>o comentar sobre uma viagem de ne-</p><p>gócios recente que fez à China, o pa-</p><p>dre Anderson Pedroso lembra com</p><p>empolgação da história do missioná-</p><p>rio italiano Matteo Ricci, um jesuíta como ele, que</p><p>foi o primeiro ocidental a ser recebido pelo impe-</p><p>rador chinês na Cidade Proibida, em 1601, depois</p><p>de muitos anos vivendo no interior, aprendendo a</p><p>língua e os costumes locais. Ricci abriu as portas</p><p>de Pequim para a Igreja por meio do diálogo, do</p><p>intercâmbio de conhecimentos e da adaptação a</p><p>uma cultura diferente da sua. “Para entrar na Chi-</p><p>na, ele tirou a batina de padre e colocou as roupas</p><p>de um sábio do confucionismo, que ele considera-</p><p>va uma filosofia e não uma religião concorrente”,</p><p>diz o padre Anderson, produzindo assim, quase</p><p>sem querer, uma metáfora do movimento que ele</p><p>próprio precisou fazer ao assumir o papel de reitor</p><p>da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Ja-</p><p>neiro, a PUC-Rio, em 2022.</p><p>O jovem reitor, hoje com 49 anos, encontrou</p><p>uma universidade respeitada, com um corpo do-</p><p>cente de primeira e uma forte tradição em pesquisa,</p><p>mas com um “equilíbrio fiscal frágil”. O prejuízo no</p><p>ano passado foi de 5,6 milhões de reais. O número</p><p>de alunos na graduação, que já foi de 13 000, em</p><p>2015, está em 9 100. Para promover as mudanças</p><p>que considera necessárias, o padre Anderson pas-</p><p>sou a vestir as roupas de um CEO, adotando na ins-</p><p>tituição sem fins lucrativos um estilo de gestão</p><p>mais comum em grandes empresas privadas. Para</p><p>ele, nada disso concorre com a tradição dos jesuí-</p><p>tas, que descreve como focada na resiliência, na</p><p>disciplina e na entrega de resultados (“para usar</p><p>um termo caro à Faria Lima”, destaca Anderson).</p><p>O reitor fala em métricas, em reduzir custos —</p><p>não por meio de demissões, mas conectando de-</p><p>partamentos e ganhando eficiência na unificação</p><p>de serviços —, em diversificar para crescer, em</p><p>atrair investimentos, em redesenhar os processos,</p><p>em compliance e sustentabilidade. A meta é alcan-</p><p>çar, dentro de dois anos, uma situação de seguran-</p><p>ça na questão fiscal. Para arrumar as contas, neste</p><p>ano o reitor trouxe para o Rio, como seu assessor</p><p>especial, o padre espanhol Juan Antonio Guerrero</p><p>Alves, que entre 2019 e 2022 ocupou um cargo</p><p>Sem batina:</p><p>o reitor Pedroso</p><p>administra com</p><p>métodos de</p><p>empresa privada</p><p>Laboratório: a PUC-Rio tem forte tradição em pesquisa</p><p>A</p><p>D</p><p>IV</p><p>U</p><p>LG</p><p>AÇ</p><p>ÃO</p><p>D</p><p>IV</p><p>U</p><p>LG</p><p>AÇ</p><p>ÃO</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 19</p><p>Campus no Rio: a graduação teve queda no número de alunos</p><p>Com a ajuda dos ex-alunos</p><p>As opiniões sobre o fundo patrimonial colhidas</p><p>em enquete com quem estudou na PUC-Rio</p><p>39,9% dos alumni veem no</p><p>fundo uma chance de desenvolver</p><p>projetos com a universidade</p><p>22% consideram o fundo uma</p><p>oportunidade de doar para projetos</p><p>estratégicos da PUC-Rio</p><p>38,9% estão dispostos a ser</p><p>mentores e compartilhar</p><p>experiências com os atuais alunos</p><p>20,8% querem ajudar na</p><p>divulgação das ações e do impacto</p><p>da universidade</p><p>37% esperam poder fazer parcerias</p><p>com a PUC-Rio</p><p>Fonte: Pesquisa “Por Onde Você Anda?”, da</p><p>Associação dos Antigos Alunos da PUC-Rio (junho de 2024)</p><p>equivalente ao de ministro da Economia do Vati-</p><p>cano, cumprindo a missão de sanear as finanças e</p><p>dar transparência ao banco ligado à Santa Sé.</p><p>Já no longo prazo, em dez anos, o padre Ander-</p><p>son ambiciona transformar a PUC-Rio em uma</p><p>universidade privada que, além de não ter fins lu-</p><p>crativos, seja totalmente gratuita. Para isso, o Mat-</p><p>teo Ricci da Gávea aposta em duas frentes. Primei-</p><p>ro, ampliar as parcerias com a iniciativa privada.</p><p>A PUC-Rio já é considerada uma potência nessa</p><p>área, com contratos da ordem de 50 milhões de</p><p>M</p><p>A</p><p>T</p><p>H</p><p>E</p><p>U</p><p>S</p><p>A</p><p>G</p><p>U</p><p>IA</p><p>R</p><p>INÊS 249</p><p>20 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>BRASIL | EDUCAÇÃO</p><p>dólares em projetos de pesquisa e desenvolvimen-</p><p>to com empresas de diferentes áreas, como energia</p><p>(Petrobras, Shell e Eletrobras, entre outras), mine-</p><p>ração (Vale), financeira (Itaú e Santander) e trans-</p><p>portes (Randon e Embraer).</p><p>Além dos estudos com petróleo e gás, a univer-</p><p>sidade é referência em informática (responsável</p><p>pela criação da Lua, uma linguagem de programa-</p><p>ção leve e rápida, ideal para jogos on-line, e pelo</p><p>sistema da TV digital brasileira); em desenvolvi-</p><p>mento de materiais, como o de concretos mais du-</p><p>ráveis para torres de eletricidade e barragens; em</p><p>biodesign, na vanguarda das aplicações da impres-</p><p>são 3D na medicina; e em economia, tendo sido o</p><p>berço acadêmico dos pais do Plano Real, como</p><p>Pérsio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha,</p><p>Pedro Malan e Gustavo Franco. A nova gestão da</p><p>PUC-Rio quer aproveitar essa tradição em pesqui-</p><p>sa para diversificar as parcerias com o setor priva-</p><p>do, com foco na transição energética e nos aspec-</p><p>tos econômicos da sustentabilidade ambiental. Um</p><p>exemplo disso é o Projeto Amazonizar, que busca</p><p>abarcar os conhecimentos de diversas disciplinas</p><p>para promover soluções e ações sociais in loco pa-</p><p>ra a região amazônica.</p><p>A segunda frente consiste em captar doações</p><p>para o seu fundo patrimonial, conhecido como En-</p><p>dowment PUC-Rio, que hoje é apenas o nono</p><p>maior entre os fundos de universidades brasileiras</p><p>(veja o quadro abaixo). Pretende-se receber os re-</p><p>cursos em dois formatos. Primeiro, por meio de</p><p>doações para projetos específicos, como a constru-</p><p>ção de um laboratório. Segundo, atraindo grandes</p><p>filantropos para contribuir com um montante que</p><p>deve permanecer no fundo apenas para gerar ren-</p><p>dimento e, no futuro, custear melhorias na infraes-</p><p>trutura e bolsas estudantis. É aí que entra a meta</p><p>de gratuidade: atualmente, 40% dos alunos da</p><p>graduação são bolsistas integrais ou parciais.</p><p>Quando o fundo da PUC-Rio alcançar um patri-</p><p>mônio dedicado de 500 milhões de reais, será pos-</p><p>sível oferecer bolsas de estudos para todos.</p><p>Para acelerar as doações, foram reformuladas a</p><p>Associação dos Antigos Alunos (AAA) e o Conse-</p><p>Arminio Fraga:</p><p>relação com</p><p>ex-alunos é</p><p>oportunidade</p><p>para a escola</p><p>PA</p><p>U</p><p>LO</p><p>F</p><p>R</p><p>ID</p><p>M</p><p>A</p><p>N</p><p>/C</p><p>O</p><p>R</p><p>B</p><p>IS</p><p>/G</p><p>ET</p><p>T</p><p>Y</p><p>IM</p><p>A</p><p>G</p><p>ES</p><p>2021</p><p>18</p><p>2º</p><p>Fundo</p><p>Patrimonial da USP</p><p>2018</p><p>14</p><p>3º</p><p>Reditus</p><p>(UFRJ — alunos)</p><p>Longe do topo</p><p>A PUC-Rio está em 9º lugar</p><p>no ranking dos maiores</p><p>fundos patrimoniais vinculados</p><p>a universidades no Brasil</p><p>(em milhões de reais, dez. 2023)</p><p>Fonte: Monitor de Fundos Patrimoniais</p><p>do Instituto para o Desenvolvimento do</p><p>Investimento Social (Idis)</p><p>52,3</p><p>ANO DE</p><p>CRIAÇÃO</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 21</p><p>lho de Desenvolvimento. A AAA existe há 73 anos</p><p>e tem como função conectar uma rede de cerca de</p><p>80 000 ex-alunos. A associação, que antes funcio-</p><p>nava apenas na base do voluntariado, foi profis-</p><p>sionalizada para focar na gestão e captação de re-</p><p>cursos para o fundo. “Neste semestre iniciamos</p><p>uma série de eventos e ações de comunicação para</p><p>engajar os ex-alunos a contribuir com a PUC-Rio,</p><p>não só com doações grandes ou pequenas, mas de</p><p>muitas outras formas”, diz a nova presidente da</p><p>AAA, Barbara Cristhian.</p><p>O Conselho de Desenvolvimento, que assessora</p><p>a reitoria em questões estratégicas, também foi re-</p><p>novado com a função de somar-se aos esforços pa-</p><p>ra robustecer o fundo patrimonial, reunindo-se</p><p>com mais frequência</p><p>e emprestando a credibilida-</p><p>de de novos integrantes ilustres, como os ex-alu-</p><p>nos Simone Grossmann, vice-presidente global de</p><p>recursos humanos da área de tecnologia da Coca-</p><p>Cola, e Arminio Fraga, ex-presidente do Banco</p><p>Central, para atrair filantropos. “A minha leitura é</p><p>a de que o fundo patrimonial pode ir além do bási-</p><p>co, que é apoiar o funcionamento da universidade</p><p>através dos recursos que ele gera. Trata-se tam-</p><p>bém de uma oportunidade para reforçar a relação</p><p>da PUC com seus ex-alunos, como acontece em</p><p>universidades fora do Brasil”, diz Fraga.</p><p>Mudanças como as que estão ocorrendo na</p><p>PUC- Rio, por óbvio, não se dão sem resistências.</p><p>Aqui e ali surgem reclamações de alunos e profes-</p><p>sores, cartas abertas anônimas ou pressões para</p><p>uma intervenção da arquidiocese (que não vinga-</p><p>ram), mas que vão se dissipando conforme apare-</p><p>cem os primeiros resultados. Neste ano foi concluí-</p><p>da a primeira orçamentação da universidade desde</p><p>2004, o que permitiu melhorar os custos operacio-</p><p>nais para contrabalançar com a perda de receita</p><p>dos anos anteriores. Mas o reitor está convencido</p><p>de que a sustentabilidade só será alcançada com</p><p>mais inovação e mais parcerias. Foi em busca des-</p><p>se tipo de investimento que ele esteve recentemen-</p><p>te em mais uma viagem à China, país que já man-</p><p>tém diversos projetos na PUC-Rio, na trilha des-</p><p>bravada por Matteo Ricci há mais de 400 anos. ƒ</p><p>Gustavo Franco:</p><p>a PUC-Rio foi o</p><p>berço acadêmico</p><p>dos criadores</p><p>do Plano Real</p><p>M</p><p>A</p><p>R</p><p>C</p><p>IO</p><p>A</p><p>R</p><p>R</p><p>U</p><p>D</p><p>A</p><p>/F</p><p>O</p><p>L</p><p>H</p><p>A</p><p>P</p><p>R</p><p>E</p><p>S</p><p>S</p><p>2021</p><p>12,3</p><p>4º</p><p>Sempre Sanfran</p><p>(Faculdade de Direito</p><p>USP — alunos)</p><p>2016</p><p>11,1</p><p>5º</p><p>Fundo Areguá</p><p>(Santa Casa de</p><p>São Paulo)</p><p>2020</p><p>10,2</p><p>6º</p><p>Endowment</p><p>Sempre FEA</p><p>(FEAUSP — alunos)</p><p>2022</p><p>8,5</p><p>7º</p><p>Insper</p><p>2011</p><p>5,8</p><p>8º</p><p>Endowment</p><p>Direito GV</p><p>2019</p><p>3,6</p><p>9º</p><p>Endowment</p><p>PUC-Rio</p><p>2020</p><p>3,2</p><p>10º</p><p>Lumina</p><p>(Unicamp —</p><p>reitoria)</p><p>INÊS 249</p><p>22 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>NEGÓCIOS | GESTÃO</p><p>os últimos meses, o Brasil acompanhou</p><p>com atenção o embate de personagens</p><p>poderosos da política e do mundo dos</p><p>negócios para definir quem comandará</p><p>uma potência multinacional com operações em de-</p><p>zessete paí ses, dezenas de milhares de empregados e</p><p>lucros bilionários. O que estava em jogo não era ape-</p><p>nas um cargo cujo salário anual pode ultrapassar os</p><p>50 milhões de reais, entre renumeração fixa, bônus e</p><p>incentivos de longo prazo, mas também um orçamen-</p><p>to de dezenas de bilhões, capaz de impulsionar a eco-</p><p>nomia de regiões inteiras e extensas cadeias de forne-</p><p>N</p><p>F</p><p>E</p><p>L</p><p>IP</p><p>E</p><p>B</p><p>O</p><p>R</p><p>G</p><p>E</p><p>S</p><p>UMA NOVA ERA</p><p>A escolha do próximo executivo-chefe pôs à prova a governança da Vale. Agora, caberá a Gustavo Pimenta,</p><p>o escolhido, torná-la uma empresa mais sustentável não só financeira, mas ambientalmente Márcio Juliboni</p><p>cedores. A trama, recheada de intrigas de bastidor,</p><p>ataques públicos e reviravoltas, seria digna das me-</p><p>lhores séries de streaming, mas não vem de Holly-</p><p>wood. Esses foram os ingredientes que temperaram o</p><p>processo de sucessão na Vale, o qual culminou na in-</p><p>dicação de Gustavo Pimenta, seu atual diretor-finan-</p><p>ceiro, para substituir Eduardo Bartolomeo na cadeira</p><p>de executivo-chefe a partir de outubro. “Não imaginá-</p><p>vamos que isso geraria tanto ruído”, afirmou Daniel</p><p>Stieler, presidente do conselho de administração da</p><p>empresa, a VEJA NEGÓCIOS (leia a entrevista).</p><p>“Mas a Vale saiu mais forte desse processo.”</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 23</p><p>Instalações</p><p>da Vale em</p><p>Carajás (PA):</p><p>o maior projeto</p><p>de expansão</p><p>da história</p><p>da empresa</p><p>A apreensão do mercado, contudo, voltou em</p><p>meados de fevereiro, quando o conselho de adminis-</p><p>tração da companhia rachou, com seis membros de-</p><p>fendendo a renovação do mandato de Bartolomeo, e</p><p>outros seis, sua saída. O resultado foi visto como a</p><p>prova de que Brasília ainda operava nas sombras, já</p><p>que conselheiros independentes, mais alinhados ao</p><p>mercado, teriam apoiado a permanência de Bartolo-</p><p>meo, enquanto representantes da Previ (incluindo</p><p>Stieler), o fundo de pensão dos funcionários do Ban-</p><p>co do Brasil, maior acionista da Vale e visto como</p><p>mais suscetível a Lula, pediam sua saída. Semanas</p><p>Em matéria de barulho, ninguém foi páreo para o</p><p>presidente Lula neste caso. Ciente de que o mandato</p><p>de Bartolomeo terminaria em maio, Lula começou a</p><p>articular, um ano antes, a nomeação de seu ex-minis-</p><p>tro da Fazenda Guido Mantega. No início de 2024, o</p><p>presidente saiu a campo e passou a criticar publica-</p><p>mente o comando da Vale. As manobras envolveriam,</p><p>inclusive, Alexandre Silveira, ministro de Minas e</p><p>Energia, que teria ligado para alguns acionistas da mi-</p><p>neradora em janeiro para deixar claro que seu chefe</p><p>queria Mantega na cadeira de CEO. Pegou tão mal</p><p>que Lula abandonou o plano no fim de janeiro.</p><p>A força da Vale</p><p>A mineradora é um dos grandes motores</p><p>da economia brasileira</p><p>A empresa opera em 17 países, além do Brasil</p><p>Em 2023, a Vale:</p><p>GEROU</p><p>208 BILHÕES DE REAIS</p><p>EM RECEITA LÍQUIDA</p><p>PAGOU</p><p>30 BILHÕES DE REAIS</p><p>EM JUROS SOBRE CAPITAL E DIVIDENDOS</p><p>PAGOU</p><p>3,6 BILHÕES DE REAIS*</p><p>DE ROYALTIES DE MINERAÇÃO, O EQUIVALENTE A</p><p>53% DO TOTAL ARRECADADO PELA UNIÃO</p><p>PRODUZIU</p><p>321 MILHÕES DE TONELADAS</p><p>DE MINÉRIO DE FERRO</p><p>MANTINHA</p><p>67 000 EMPREGOS DIRETOS</p><p>E 168 000 TERCEIRIZADOS</p><p>Em 2024, a empresa deve investir 6,5 bilhões</p><p>de dólares, ante 5,9 bilhões em 2023</p><p>SEU VALOR DE MERCADO É DE APROXIMADAMENTE</p><p>250 BILHÕES DE REAIS**</p><p>*Não inclui controladas</p><p>**Em 16 de setembro</p><p>Fontes: Vale, Investing.com e Agência Nacional de Mineração</p><p>INÊS 249</p><p>24 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>NEGÓCIOS | GESTÃO</p><p>depois, o conselho estendeu o mandato do atual</p><p>CEO até dezembro, a fim de selecionar o sucessor. A</p><p>decisão causou a última explosão na cúpula da Vale,</p><p>com a renúncia de dois conselheiros. Um deles, José</p><p>Penido, acusou seus ex-colegas de agirem com obje-</p><p>tivos políticos. Dias depois, questionado pela Co-</p><p>missão de Valores Mobiliários, Penido se retratou e</p><p>afirmou que se baseara em notícias de jornal. “Essa</p><p>resposta foi bastante esclarecedora, porque mostra</p><p>que as acusações eram infundadas”, diz Stieler.</p><p>“Nunca houve pressão política do governo.”</p><p>Para ele, esses episódios representam apenas o de-</p><p>bate franco que ocorre em qualquer conselho diante</p><p>de uma decisão desse porte. “A beleza do debate está</p><p>em saber ouvir e se posicionar”, afirma. O embate</p><p>acalorado reflete também os novos tempos da Vale.</p><p>Até 2020, as decisões eram ditadas por um bloco de</p><p>M A R I A N A E</p><p>B R U M A D I N H O</p><p>Os atingidos pelas tragédias e os</p><p>familiares dos quase 300 mortos ainda lutam</p><p>na Justiça para obter indenizações que</p><p>considerem adequadas. Somente o escritório</p><p>britânico Pogust Goodhead move duas ações</p><p>em cortes europeias que representam mais de</p><p>700 000 vítimas e somam 250 bilhões de reais</p><p>em indenizações exigidas</p><p>B A R R A G E N S</p><p>A empresa ainda precisa reformar</p><p>17 barragens do mesmo tipo das que</p><p>romperam em Mariana e Brumadinho, chamadas</p><p>de barragens a montante. Em paralelo, a Vale</p><p>planeja fechar 2025 com todos os reservatórios</p><p>abaixo do nível 3 de emergência — o mais grave</p><p>M U D A N Ç A S N A C H I N A</p><p>Até 2010, a economia chinesa cresceu</p><p>à base de grandes investimentos em</p><p>infraestrutura e no mercado</p><p>imobiliário, o que expandiu a demanda e os</p><p>preços globais do minério de ferro. Agora, a China</p><p>espera que o consumo das famílias sustente o</p><p>crescimento. Com isso, a produção de aço tende</p><p>a declinar lentamente até 2040</p><p>M U D A N Ç A S C L I M Á T I C A S</p><p>De um lado, a Vale vai investir cada</p><p>vez mais na redução das emissões</p><p>de carbono, seja na sua própria produção, seja</p><p>por pressão das siderúrgicas, que demandam</p><p>minerais e tecnologias menos poluidores.</p><p>De outro, a empresa está de olho na transição</p><p>energética. A eletrificação de veículos, por</p><p>exemplo, deve impulsionar a demanda por</p><p>metais como cobre e níquel</p><p>Os desafios</p><p>do futuro CEO</p><p>Gustavo Pimenta se ocupará de diversas</p><p>questões, quando assumir. Veja algumas</p><p>das principais</p><p>Qual é seu balanço</p><p>da Vale? A Vale avançou</p><p>muito nos últimos anos, sobretudo em seguran-</p><p>ça e na estabilização das operações. Para o pró-</p><p>ximo ciclo, precisamos acelerar para sermos lí-</p><p>deres em mineração sustentável, com mais diá-</p><p>logo e conexão com a sociedade. Tudo isso, cla-</p><p>ro, com a entrega de resultados positivos. Dedi-</p><p>carei muito tempo a me relacionar com os diver-</p><p>sos públicos, como comunidades, poder conce-</p><p>dente e investidores. Estou muito otimista com o</p><p>futuro da Vale e certo de que há enorme conver-</p><p>gência entre a nossa agenda e a do Brasil.</p><p>Como o senhor vai lidar com pressões políti-</p><p>cas? A Vale é uma companhia sólida, que segue</p><p>as melhores práticas em termos de ética e go-</p><p>“Seremos uma empresa</p><p>mais aberta ao diálogo”</p><p>Em entrevista exclusiva concedida por e-mail</p><p>a VEJA NEGÓCIOS, Gustavo Pimenta, o futuro presidente</p><p>da Vale, afirma esperar que a companhia seja vista, cada</p><p>vez mais, como parceira do governo e da sociedade</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 25</p><p>controle composto, entre outros, por Bradespar, Mit-</p><p>sui e BNDESPar, o braço de participações do BNDES.</p><p>Com o fim do acordo de acionistas, alguns dos antigos</p><p>sócios venderam uma fatia de suas ações, a fim de re-</p><p>duzir seu peso no capital da mineradora. Outros, co-</p><p>mo o BNDESPar, deixaram a empresa. Com isso, a</p><p>Vale se tornou uma companhia de capital pulveriza-</p><p>do, sem a figura de um controlador. Hoje em dia, seu</p><p>maior investidor é a Previ, que detém 8% do capital,</p><p>seguida pela Mitsui, com 6%. Como ocorre com em-</p><p>presas do tipo, sem ninguém com força suficiente para</p><p>dar as cartas, o poder se concentrou na cúpula da Va-</p><p>le. “São os conselheiros e os diretores-executivos que</p><p>tomam as decisões importantes”, diz Luiz Martha, di-</p><p>retor do Instituto Brasileiro de Governança Corpora-</p><p>tiva. “Por isso, o processo de indicação dos adminis-</p><p>tradores precisa ser muito bem conduzido.”</p><p>Coube à Russell Reynolds, uma das maiores</p><p>empresas de recrutamento de executivos do mun-</p><p>do, a missão de identificar os possíveis substitutos</p><p>de Bartolomeo. A lista inicial, com quinze nomes,</p><p>foi apresentada no início de julho. Após algumas</p><p>rodadas de reuniões extraordinárias, assessoradas</p><p>pelos headhunters e limitadas por um rigoroso</p><p>protocolo para evitar o vazamento de informa-</p><p>ções, o conselho de administração chegou a um</p><p>veredicto no fim de agosto. Pimenta, um econo-</p><p>mista mineiro de 46 anos e mestre pela Fundação</p><p>Getulio Vargas, foi eleito por unanimidade. Na se-</p><p>mana de seu anúncio, enquanto o Atlético Mineiro,</p><p>time pelo qual torce, enfrentava o São Paulo pela</p><p>Copa do Brasil, as ações da companhia acumula-</p><p>vam uma alta de 4%, em um claro sinal de que o</p><p>mercado chancelava seu nome.</p><p>vernança corporativa. Vamos seguir trabalhando</p><p>com todas as esferas de governo, buscando ser um</p><p>parceiro ativo na construção de soluções conjuntas</p><p>para o desenvolvimento do Brasil. Aprofundare-</p><p>mos nossa conexão com diferentes setores da so-</p><p>ciedade para ser uma companhia mais próxima e</p><p>aberta ao diálogo. Acredito que é por meio da es-</p><p>cuta ativa e do avanço em pautas comuns que po-</p><p>demos gerar valor compartilhado e trazer resulta-</p><p>dos positivos para a sociedade.</p><p>Como o senhor lidará com a tendência de queda</p><p>da produção de aço na China? A demanda segue</p><p>crescendo, e a transição energética exige mais aço</p><p>de alta qualidade, inclusive na China. Isso au-</p><p>menta a busca por minério de alta qualidade. A</p><p>Vale está muito bem posicionada, com ativos es-</p><p>tratégicos como Carajás. Nosso portfólio será</p><p>fundamental na descarbonização da siderurgia</p><p>mundial. Além disso, mercados emergentes, co-</p><p>mo o Sudeste Asiático, a Índia e o Oriente Mé-</p><p>dio, crescem aceleradamente e demandarão</p><p>mais minério nas próximas décadas.</p><p>Quais são os planos para os metais de transi-</p><p>ção energética? Somos o maior produtor oci-</p><p>dental de níquel, e um grande produtor de co-</p><p>bre. Temos enorme potencial de crescimento,</p><p>sobretudo em cobre, já que nossas reservas são</p><p>de classe mundial. Desde 2023, adotamos um</p><p>modelo de gestão mais dedicado ao negócio de</p><p>metais de transição. Como parte desse maior</p><p>foco, implementamos uma profunda revisão de</p><p>nossos ativos, a fim de capturar maior valor.</p><p>Em Sudbury (Canadá), por exemplo, houve au-</p><p>mento de cerca de 30% na produção. Essa revi-</p><p>são de ativos nos permite identifcar oportuni-</p><p>dades de melhorar a operação e a estabilidade</p><p>da produção de níquel e cobre.</p><p>Pimenta:</p><p>“Há enorme</p><p>convergência</p><p>entre a nossa</p><p>agenda e a</p><p>do Brasil”</p><p>B</p><p>E</p><p>N</p><p>H</p><p>ID</p><p>E</p><p>R</p><p>INÊS 249</p><p>26 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>NEGÓCIOS | GESTÃO</p><p>Antes de ingressar na Vale, em 2021, Pimenta</p><p>atuou em corporações de destaque, como o Citi-</p><p>group, onde chegou a vice-presidente, e o grupo</p><p>americano de energia AES, no qual atuou como di-</p><p>retor-financeiro global. Além dessa bagagem exe-</p><p>cutiva, seu principal trunfo é uma soft skill, no jar-</p><p>gão dos recrutadores: saber se relacionar com todo</p><p>mundo. “Essa competência é imprescindível para</p><p>um CEO de uma mineradora que depende de con-</p><p>cessões para seu negócio”, diz Stieler. O próprio</p><p>Pimenta compreende bem seu novo papel. “Dedi-</p><p>carei muito tempo a me relacionar com os diversos</p><p>públicos, como comunidades, poder concedente e</p><p>investidores”, afirmou a VEJA NEGÓCIOS, em en-</p><p>trevista por e-mail, publicada nesta reportagem,</p><p>na pág. 24 — a primeira concedida à imprensa,</p><p>desde que foi confirmado no cargo.</p><p>Não faltará gente querendo conversar. Entre os</p><p>primeiros da fila, estão os familiares dos quase 300</p><p>mortos e os milhares de atingidos pelas tragédias de</p><p>Mariana, em 2015, e de Brumadinho, quatro anos</p><p>depois. “A sensação é de que nossas demandas não</p><p>chegam à cúpula da Vale”, diz Josiane Melo, que per-</p><p>deu a irmã, Eliane, grávida de sua sobrinha, Maria</p><p>Elisa, em 2019, e dirige a Avabrum, associação que</p><p>representa as vítimas de Brumadinho. “Queremos</p><p>um encontro com Pimenta e todo o conselho.” Em</p><p>nota, a Vale declarou que “reafirma seu respeito às</p><p>famílias impactadas pelo rompimento da barragem</p><p>e segue comprometida com a reparação dos danos”.</p><p>C</p><p>F</p><p>O</p><p>T</p><p>O</p><p>/F</p><p>U</p><p>T</p><p>U</p><p>R</p><p>E</p><p>P</p><p>U</p><p>B</p><p>L</p><p>IS</p><p>H</p><p>IN</p><p>G</p><p>/G</p><p>E</p><p>T</p><p>T</p><p>Y</p><p>I</p><p>M</p><p>A</p><p>G</p><p>E</p><p>S</p><p>Canteiro de</p><p>obras na China:</p><p>o crescimento</p><p>não virá mais</p><p>dos imóveis e da</p><p>infraestrutura</p><p>por lá</p><p>BHP</p><p>CHINA SHENHUA</p><p>RIO TINTO</p><p>GLENCORE</p><p>FREEPORT-MCMORAN</p><p>ZIJIN MINING</p><p>VALE</p><p>NEWMONT</p><p>FORTESCUE</p><p>SAUDI ARABIAN MINING</p><p>Austrália</p><p>China</p><p>Reino Unido</p><p>Suíça</p><p>Estados Unidos</p><p>China</p><p>Brasil</p><p>Estados Unidos</p><p>Austrália</p><p>Arábia Saudita</p><p>144</p><p>116</p><p>111</p><p>70</p><p>70</p><p>62</p><p>50</p><p>48</p><p>44</p><p>42</p><p>(valor de mercado, em bilhões de dólares*)Veja o ranking das maiores mineradoras do mundo</p><p>*Em 30 de junho de 2024 Fonte: GlobalData</p><p>Entre os gigantes globais</p><p>No caso de Mariana, o próximo capítulo começa</p><p>em outubro, quando a Justiça britânica iniciará o</p><p>julgamento de uma ação movida pelo escritório Po-</p><p>gust Goodhead contra a mineradora anglo-austra-</p><p>liana BHP, sócia da Vale na Samarco — a empresa</p><p>responsável pela barragem do Fundão, em Maria-</p><p>na. A causa representa 700 000 vítimas e reivindi-</p><p>ca mais de 250 bilhões de reais em indenizações.</p><p>Embora não seja ré, a Vale selou um acordo com a</p><p>BHP para arcar com metade das despesas em caso</p><p>de derrota. “Não se trata apenas de uma questão fi-</p><p>nanceira, mas de garantir às vítimas do maior de-</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 27</p><p>A</p><p>L</p><p>E</p><p>X</p><p>A</p><p>N</p><p>D</p><p>R</p><p>E</p><p>M</p><p>O</p><p>T</p><p>A</p><p>/</p><p>N</p><p>IT</p><p>R</p><p>O</p><p>Resgate em</p><p>Brumadinho:</p><p>cinco anos</p><p>depois, a</p><p>tragédia ainda</p><p>pesa sobre</p><p>a Vale</p><p>cer um acordo que garanta a reparação justa e inte-</p><p>gral às pessoas atingidas e ao meio ambiente”.</p><p>Outro desafio de Pimenta será encontrar novas</p><p>vias de crescimento. Roger Agnelli, que comandou</p><p>a Vale de 2001 a 2011, costumava dizer que acendia</p><p>uma vela todos os dias para a China, cuja economia</p><p>despontava entre as maiores do mundo naquela</p><p>época, à base de grandes investimentos em infraes-</p><p>trutura — o que catapultou o preço do minério de</p><p>ferro. Nos últimos anos, contudo, o país asiático</p><p>vem adotando novas estratégias para crescer: au-</p><p>mentar as exportações de produtos de alta</p><p>tecnolo-</p><p>gia e o consumo interno. “A China não desacelerou e</p><p>ainda cresce 5% ao ano”, diz Hsia Hua Sheng, vice-</p><p>presidente do Bank of China no Brasil e professor da</p><p>Fundação Getulio Vargas. “Mas a forte expansão</p><p>baseada apenas no setor imobiliário e em infraes-</p><p>trutura não acontecerá mais.”</p><p>A própria Vale reconhece que a produção chine-</p><p>sa de aço vai declinar nas próximas décadas, ao</p><p>mesmo tempo que a empresa conclui investimentos</p><p>para colocar mais 50 milhões de toneladas por ano</p><p>de minério no mercado. Segundo Pimenta, a saída</p><p>será investir em novos compradores, como os do Su-</p><p>deste Asiático, da Índia e do Oriente Médio. Outra</p><p>aposta se dá nos chamados metais de transição</p><p>energética, como o níquel e o cobre. Em 2023, foi</p><p>concluída a criação da VBM, subsidiária que passou</p><p>a tocar as operações de metais básicos da Vale. Na</p><p>próxima década, a VBM investirá até 30 bilhões de</p><p>dólares para garantir à Vale uma posição de desta-</p><p>que quando os veículos elétricos sobrepujarem os</p><p>movidos a combustíveis fósseis.</p><p>Para Stieler, se Pimenta for bem-sucedido, o</p><p>maior valor que criará é intangível: o resgate da re-</p><p>putação da empresa. “Essa reputação será construí-</p><p>da a partir de muita confiança e de um processo de</p><p>crescimento consistente, estável e seguro, que res-</p><p>peite o meio ambiente e as comunidades, que engaje</p><p>os funcionários, o poder concedente, os acionistas e</p><p>os parceiros da companhia”, diz o conselheiro. “As-</p><p>sim, todos os que participam do nosso ecossistema</p><p>terão benefícios que vão muito além dos financei-</p><p>ros.” A partir de outubro, todos saberão se Pimenta</p><p>corresponderá a essas toneladas de expectativas.</p><p>sastre ambiental da história do Brasil o direito de</p><p>processar os responsáveis e serem indenizadas inte-</p><p>gralmente pelos danos que sofreram”, afirma Tom</p><p>Goodhead, sócio do escritório. “Mariana é um</p><p>exemplo emblemático de negligência corporativa</p><p>com graves consequências ambientais, políticas e</p><p>sociais.” Em nota, a Vale declarou que, “como uma</p><p>das acionistas da Samarco, segue engajada nas ne-</p><p>gociações para a repactuação do acordo de Mariana</p><p>e busca, junto às autoridades envolvidas, estabele-</p><p>INÊS 249</p><p>28 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>NEGÓCIOS | GESTÃO</p><p>“Não recebi telefonema com indicação política”</p><p>Daniel Stieler, presidente do conselho de administração da Vale, negou em entrevista</p><p>a VEJA NEGÓCIOS que Lula tentou interferir diretamente na escolha do novo CEO</p><p>O que levou à escolha de Gustavo Pimenta?</p><p>Gustavo se consolidou por sua excelente atua-</p><p>ção como executivo. Nos últimos anos, ele con-</p><p>duziu processos relevantes com efciência e fo-</p><p>co em resultados. É um executivo com expe-</p><p>riência internacional e tem habilidade de rela-</p><p>cionar-se com o comitê executivo, o conselho</p><p>de administração e os acionistas. Estou certo</p><p>de que a Vale está em boas mãos.</p><p>Como o conselho lidou com a pressão política</p><p>do governo, que pretendia interferir na suces-</p><p>são? Como presidente do conselho, posso afir-</p><p>mar que não houve pressão do governo. O conse-</p><p>lho atuou de maneira independente, seguindo a</p><p>governança estabelecida na companhia. Os úni-</p><p>cos candidatos avaliados foram os selecionados</p><p>pela Russell Reynolds, empresa de recrutamento</p><p>com reconhecimento e atuação internacionais,</p><p>como determina a governança da Vale. A escolha</p><p>foi feita com base nas habilidades dos candidatos</p><p>e nas competências e experiências exigidas.</p><p>Em entrevista a VEJA, o ex-ministro Guido</p><p>Mantega, que Lula queria emplacar, se disse</p><p>indignado por não ser visto como alguém</p><p>qualificado para o cargo. Seu nome foi pro-</p><p>posto? Eu nunca recebi nenhum telefonema</p><p>com indicação de candidato, e o conselho ja-</p><p>mais debateu nenhum nome, além dos selecio-</p><p>nados pela Russell Reynolds. Vimos e ouvimos</p><p>muito ruído veiculado na imprensa, e não nos</p><p>manifestamos porque entendemos que não ha-</p><p>via motivos para tanto.</p><p>Estender o mandato de Bartolomeo, que ven-</p><p>ceria em maio deste ano, até dezembro foi vis-</p><p>to por muita gente como um sinal de que a Va-</p><p>le estava cedendo a ingerências externas. O que</p><p>houve? Decidimos buscar um novo CEO em março.</p><p>Naquele momento, achávamos que precisaríamos</p><p>de sessenta dias para contratar uma empresa de re-</p><p>crutamento. Além disso, seriam necessárias várias</p><p>reuniões do conselho de administração para chegar</p><p>ao escolhido. Isso adicionou alguns meses ao crono-</p><p>grama. Não houve nenhum viés político. Foi apenas</p><p>um cronograma de trabalho.</p><p>Por que a Vale antecipou a divulgação do execu-</p><p>tivo escolhido para a presidência executiva para</p><p>agosto se tinha até dezembro? Nós não imaginá-</p><p>vamos que o processo geraria tanto ruído. Então,</p><p>adotamos uma série de protocolos para impedir o</p><p>vazamento de informações e fzemos reuniões ex-</p><p>traordinárias para acelerar o trabalho. Não pula-</p><p>mos nenhuma etapa. Em agosto, o conselho estava</p><p>seguro de ter encontrado um bom executivo para o</p><p>cargo, e o comunicamos ao mercado.</p><p>Como o senhor avalia a renúncia de dois conse-</p><p>lheiros, sendo que um deles acusou os demais de</p><p>serem influenciados politicamente? Os ruídos são</p><p>ruins, mas trabalhamos para preservar os interesses</p><p>da companhia. Toda acusação que chegou ao cole-</p><p>giado foi apurada. Nenhuma foi considerada proce-</p><p>dente. Tivemos uma investigação conduzida por um</p><p>escritório independente, que concluiu pela diligên-</p><p>cia do processo. Quanto à acusação do conselheiro</p><p>renunciante, sua resposta à interpelação da CVM já</p><p>é bastante esclarecedora. Evidenciou que as poten-</p><p>ciais acusações eram infundadas. A motivação das</p><p>renúncias, a meu ver, só encontra respaldo em senti-</p><p>mentos particulares desses conselheiros. O nome de</p><p>Gustavo Pimenta foi bem recebido pelo mercado.</p><p>Trata-se de um executivo de classe mundial, sem</p><p>qualquer viés político e confituoso.</p><p>Stieler: “A</p><p>governança</p><p>prevaleceu</p><p>no processo</p><p>sucessório e sai</p><p>fortalecida”</p><p>D</p><p>IV</p><p>U</p><p>LG</p><p>A</p><p>Ç</p><p>Ã</p><p>O</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 29</p><p>Essa foi a primeira troca de comando, após a</p><p>Vale se tornar uma empresa de capital pulveri-</p><p>zado. Isso complicou o processo? Pela primeira</p><p>vez, a Vale teve um processo sucessório estrutu-</p><p>rado do começo ao fm. A governança prevaleceu</p><p>e sai fortalecida. Debater e convergir opiniões de</p><p>forma diligente, com o respaldo das melhores</p><p>práticas de governança, foi desafador e realiza-</p><p>dor. Eduardo Bartolomeo fez um excelente</p><p>trabalho. Selecionar alguém para suceder-lhe</p><p>foi um desafo. Buscamos alguém que conti-</p><p>nuasse seu legado e, ao mesmo tempo, ini-</p><p>ciasse um ciclo de transformação em agendas</p><p>importantes que criam valor para todos os</p><p>stakeholders, como a estabilidade operacio-</p><p>nal com aumento de produção e inovação, a</p><p>diversificação de portfólio com ênfase na</p><p>descarbonização, o fortalecimento das rela-</p><p>ções institucionais e uma comunicação com</p><p>mais proximidade.</p><p>O que a Vale aprendeu nesse processo?</p><p>Uma decisão dessa magnitude exige muito</p><p>debate e surgem opiniões diferentes dentro</p><p>do conselho, o que é positivo. Não há verda-</p><p>de absoluta. O debate exige tempo e apoio de</p><p>consultores independentes. Como lição, eu</p><p>destaco o aprimoramento do cronograma</p><p>entre as etapas do processo, para não deixar</p><p>o tema ser alvo de especulações. Mas o pon-</p><p>to mais relevante é que, pela primeira vez na</p><p>sua história, a Vale faz uma transição orde-</p><p>nada entre CEOs.</p><p>Dada a experiência de Pimenta na área fi-</p><p>nanceira de grandes empresas, espera-se</p><p>que sua gestão enfatize esses aspectos na</p><p>Vale? Pimenta tem muitas habilidades, como a</p><p>boa relação com todo o ecossistema da Vale.</p><p>Ele provou ser muito hábil nos relacionamen-</p><p>tos com esses stakeholders nas vezes em que</p><p>foi testado. Essa competência é imprescindível</p><p>para um CEO de uma mineradora que depen-</p><p>de de concessões para seu negócio. Sua comu-</p><p>nicação é muito objetiva, adapta-se fácil a to-</p><p>dos os seus interlocutores e mostra-se sempre</p><p>disponível ao diálogo. Ele sabe montar times</p><p>de alta performance e desenvolver talentos. A</p><p>Vale precisa e vai se comunicar melhor com a</p><p>sociedade. Com o Gustavo, esperamos</p><p>uma</p><p>companhia muito mais aberta e próxima. ƒ</p><p>INÊS 249</p><p>30 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>NEGÓCIOS | EVENTOS</p><p>m dos primeiros encontros de fãs do</p><p>mundo ocorreu em 30 de março de</p><p>1889, nos Estados Unidos, quando os</p><p>leitores do Golden Hours, um jornal</p><p>ilustrado destinado a jovens e crianças, se juntaram</p><p>no Brooklyn Ice Palace, em Nova York, para uma</p><p>tarde de diversão, com direito a apresentações musi-</p><p>cais, shows de ventríloquos, desenhos com caricatu-</p><p>ristas e conversas com veteranos da guerra civil e</p><p>autores de livros infantojuvenis. A Convenção do</p><p>Clube Golden Hours teve apresentação de P.T. Bar-</p><p>num, empresário e criador do lendário circo Rin-</p><p>gling Brothers, e atraiu cerca de 2 000 crianças, de</p><p>acordo com os relatos dos jornais da época. O evento</p><p>abriu caminho para o que hoje em dia é considerado</p><p>um negócio altamente lucrativo no mundo do entre-</p><p>tenimento: as feiras e convenções de cultura pop.</p><p>Nos últimos dez anos, o Brasil se consolidou co-</p><p>mo um novo polo mundial do segmento, em razão</p><p>do crescimento de marcas locais como a Comic Con</p><p>Experience (CCXP) e o Brasil Game Show (BGS),</p><p>além da entrada de atores internacionais como a ale-</p><p>mã Gamescom. Prova dessa maturidade é uma deci-</p><p>são recente da Walt Disney Company, confirmando</p><p>que a D23, convenção de fãs oficial da empresa, rea-</p><p>lizada bienalmente em Anaheim, na Califórnia,</p><p>U</p><p>P</p><p>X</p><p>I</p><p>M</p><p>A</p><p>G</p><p>E</p><p>S</p><p>/A</p><p>L</p><p>A</p><p>M</p><p>Y</p><p>/F</p><p>O</p><p>T</p><p>O</p><p>A</p><p>R</p><p>E</p><p>N</p><p>A</p><p>ONDE OS NERDS</p><p>SE ENCONTRAM</p><p>O Brasil se transforma em um polo de feiras e convenções da cultura pop, atraindo atenção</p><p>internacional e gerando bilhões de reais em negócios Alessandro Giannini</p><p>CCXP: o maior</p><p>evento de cultura</p><p>geek do Brasil</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 31</p><p>Gamescom:</p><p>primeira edição</p><p>do evento no</p><p>Brasil gerou</p><p>200 milhões</p><p>de dólares</p><p>acontecerá pela primeira vez na América Latina, em</p><p>São Paulo. Batizada D23 Brasil — Uma Experiência</p><p>Disney, ocorrerá nos dias 8, 9 e 10 de novembro, no</p><p>Transamérica Expo Center, ocupando uma área de</p><p>41 000 metros quadrados, com uma infraestrutura</p><p>que inclui um auditório principal com capacidade</p><p>para 2 400 pessoas, um segundo palco para apresen-</p><p>tações e pocket shows, espaços de exposição imersi-</p><p>vos e uma megaloja com produtos exclusivos.</p><p>A escolha do Brasil para sediar uma edição es-</p><p>trangeira da D23, que tem esse nome como referên-</p><p>cia ao ano de 1923, em que Walt Disney fundou o es-</p><p>túdio, não é apenas um reconhecimento da base de</p><p>fãs local, mas também um reflexo do potencial do</p><p>mercado brasileiro de entretenimento, considerado</p><p>um dos mais dinâmicos da América Latina. “O Bra-</p><p>sil é um dos nossos mercados mais vibrantes e enga-</p><p>jados, com uma comunidade que abraça nossas his-</p><p>tórias, personagens e experiências de maneira singu-</p><p>lar”, disse a VEJA Renato D’Angelo, gerente-geral da</p><p>Walt Disney Company Brasil. Anteriormente, só o</p><p>Japão havia recebido recortes da convenção bienal</p><p>americana, em 2013, 2015 e 2018.</p><p>A magnitude da D23 Brasil é evidenciada também</p><p>pela participação de marcas como Bradesco, Visa,</p><p>Mercado Livre, Claro e Zurich Seguros. Embora a</p><p>Disney não revele valores de investimento, o impacto</p><p>econômico de um evento desse porte é multifacetado.</p><p>Primeiramente, há o influxo direto de receita prove-</p><p>niente da venda de ingressos. Com preços variando</p><p>de 174,95 reais (meia-entrada) a 999,90 reais (Magic</p><p>Pass de três dias), as estimativas de arrecadação são</p><p>substanciais. “Isso tudo reforça a importância de São</p><p>Paulo como um dos maiores hubs de eventos do mun-</p><p>do e mostra o potencial do Brasil para receber encon-</p><p>tros internacionais de grande porte, consolidando</p><p>ainda mais a cidade como um destino preferencial</p><p>para eventos globais”, afirma D’Angelo.</p><p>A realização da D23 no Brasil não é um caso iso-</p><p>lado, mas parte de uma tendência crescente. A Co-</p><p>mic Con Experience, idealizada e produzida pela</p><p>Omelete Company, vem ampliando seu alcance no</p><p>cenário internacional. Desde a primeira edição, em</p><p>2014, já recebeu 1,7 milhão de pessoas ao longo de</p><p>sua existência, incluindo uma feira itinerante, em</p><p>Recife, e duas internacionais, em Colônia, na Ale-</p><p>manha, e na Cidade do México. Com dois eventos</p><p>digitais, sob o selo de CCXP Worlds, a marca al-</p><p>cançou uma audiência de 7,5 milhões de usuários,</p><p>distribuídos em 139 países.</p><p>Em 2024, a CCXP ocorrerá de 5 a 8 de dezem-</p><p>bro, no São Paulo Expo, com entradas a partir de</p><p>Z</p><p>U</p><p>M</p><p>A</p><p>P</p><p>R</p><p>E</p><p>S</p><p>S</p><p>/A</p><p>L</p><p>A</p><p>M</p><p>Y</p><p>/F</p><p>O</p><p>T</p><p>O</p><p>A</p><p>R</p><p>E</p><p>N</p><p>A</p><p>INÊS 249</p><p>32 Veja Negócios setembro, 2024</p><p>NEGÓCIOS | EVENTOS</p><p>190 reais (meia-entrada) até 2 300 reais pelo Epic</p><p>Pass, que dá direito aos quatro dias, mais mimos</p><p>que incluem descontos e foto com um dos convida-</p><p>dos — entre eles os atores Giancarlo Esposito, das</p><p>séries Breaking Bad e Better Call Saul, e Matt</p><p>Smith, de Doctor Who e A Casa do Dragão. É um</p><p>fenômeno não apenas cultural, mas também eco-</p><p>nômico. “Só na cidade de São Paulo, ela tem um</p><p>impacto de quase 1 bilhão de reais, gerando</p><p>24 000 empregos diretos e indiretos”, afirma Re-</p><p>nato Fabri, presidente da CCXP. Apesar do suces-</p><p>so, a CCXP enfrenta desafios, principalmente rela-</p><p>cionados à flutuação cambial. “Acaba influencian-</p><p>do”, diz Fabri. “Os cachês são em dólares, os voos,</p><p>tudo o que a gente faz, mas as receitas aqui do Bra-</p><p>sil são em reais.” De qualquer maneira, o executivo</p><p>é otimista quanto ao futuro do evento e do merca-</p><p>do de cultura pop no Brasil: “O céu é o limite para</p><p>esse segmento”.</p><p>Em meio a esse cenário, a Gamescom Latam, que</p><p>adquiriu o antigo BIG Festival, emerge como um</p><p>evento transformador para a indústria de jogos.</p><p>Realizada no fim de junho, a primeira edição latino-</p><p>americana do maior encontro de gamers do mundo</p><p>superou as expectativas, atraindo mais de 100 000</p><p>visitantes de setenta países. O sucesso foi tamanho</p><p>Brasil</p><p>Game Show:</p><p>lançamentos,</p><p>competições</p><p>de eSports e</p><p>áreas temáticas</p><p>Cultura geek Onde os nerds se encontram no mundo</p><p>Gamescom</p><p>Colônia, Alemanha</p><p>Visão geral: maior</p><p>feira de videogames</p><p>da Europa, com</p><p>expositores do mundo</p><p>todo apresentando</p><p>novos jogos</p><p>Anime Expo</p><p>Los Angeles, EUA</p><p>Brasil Game</p><p>Show</p><p>São Paulo, Brasil</p><p>Comic Con</p><p>Experience (CCXP)</p><p>São Paulo, Brasil</p><p>Visão geral: grande</p><p>convenção focada</p><p>em anime e cultura</p><p>pop japonesa,</p><p>atraindo público</p><p>diversificado</p><p>Visão geral: a maior</p><p>exposição de jogos e</p><p>entretenimento digital</p><p>da Ásia, apresentando o</p><p>que há de mais moderno</p><p>em videogames</p><p>e tecnologia</p><p>Visão geral: uma das</p><p>maiores convenções</p><p>de jogos da América</p><p>Latina, com grandes</p><p>editoras e</p><p>desenvolvedores</p><p>Visão geral: maior</p><p>evento de cultura pop</p><p>do Brasil, apresenta</p><p>painéis, exposições e</p><p>participações de</p><p>celebridades</p><p>internacionais</p><p>China Digital</p><p>Entertainment Expo</p><p>& Conference (ChinaJoy)</p><p>Xangai, China</p><p>Público: 370 000 Público: 350 000 Público: 338 000 Público: 328 000 Público: 280 000</p><p>que a edição de 2025 já foi agendada para o fim de</p><p>abril, no Centro de Convenções Anhembi. “No úl-</p><p>timo evento, geramos 200 milhões de dólares em</p><p>negócios”, afirma Gustavo Steinberg, presidente da</p><p>Gamescom Latam. Além disso, a cidade de São</p><p>Paulo se beneficiou com uma injeção de 23 mi-</p><p>lhões de reais em hospedagem e alimentação.</p><p>O sucesso da Gamescom Latam e da concorren-</p><p>te Brasil Game Show reflete o crescimento explosi-</p><p>vo da indústria de games no Brasil. Há uma década,</p><p>existiam cerca de vinte estúdios de desenvolvimen-</p><p>to de jogos eletrônicos no país. Hoje em dia, o nú-</p><p>mero se aproxima de 1 200, evidenciando um boom</p><p>no setor. A BGS começou em 2009, no Rio de Janei- A</p><p>R</p><p>A</p><p>Y</p><p>A</p><p>D</p><p>O</p><p>H</p><p>E</p><p>N</p><p>Y</p><p>/D</p><p>IS</p><p>N</p><p>E</p><p>Y</p><p>/G</p><p>E</p><p>T</p><p>T</p><p>Y</p><p>I</p><p>M</p><p>A</p><p>G</p><p>E</p><p>S</p><p>INÊS 249</p><p>Veja Negócios setembro, 2024 33</p><p>ro, e depois se mudou para a capital paulista, ocu-</p><p>pando atualmente todos os pavilhões do Expo Cen-</p><p>ter Norte. Mais de 2 milhões de pessoas já passaram</p><p>pela feira. A edição deste ano, de 9 a 13 de outubro,</p><p>contará com cerca de 400 estandes, mais de 3 000</p><p>influenciadores, campeonatos de eSports, áreas te-</p><p>máticas e centenas de lançamentos</p>