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<p>UNIDADE 3.</p><p>Psicoterapia infantil de orientação</p><p>psicanalítica e comportamental</p><p>Juliana Zantut Nutti</p><p>OBJETIVOS DA UNIDADE</p><p> Caracterizar o lúdico e o brincar como ferramentas para o desenvolvimento psicológico,</p><p>diagnóstico e intervenção clínica infantil;</p><p> Analisar o papel dos pais ou responsáveis, da instituição escolar e outros grupos sociais no</p><p>desenvolvimento infantil;</p><p> Discutir os fundamentos da psicoterapia infantil de orientação psicanalítica;</p><p> Analisar os princípios da psicoterapia infantil na abordagem comportamental.</p><p>TÓPICOS DE ESTUDO</p><p>Diagnóstico e intervenção clínica por meio do brincar</p><p>// A importância do lúdico e do brincar no desenvolvimento infantil e na psicoterapia</p><p>// Neurose e psicose na infância e as modalidades de brincar</p><p>Desenvolvimento infantil: papel da família, escola e dos grupos sociais</p><p>// A transformação da organização familiar</p><p>// A família e a escola no desenvolvimento cognitivo, afetivo e social</p><p>// Redes de apoio dos grupos sociais</p><p>A utilização de jogos e brinquedos na psicoterapia psicanalítica</p><p>// Entrevistas preliminares com os pais</p><p>// A hora do jogo diagnóstica</p><p>A utilização de jogos e brinquedos na terapia comportamental infantil</p><p>// A terapia comportamental infantil (TCI) e a participação da criança</p><p>// A ludoterapia comportamental infantil</p><p>Diagnóstico e intervenção clínica por</p><p>meio do brincar</p><p>A brincadeira é um dos temas mais pesquisados na área da Psicologia, devido a sua importância no</p><p>desenvolvimento infantil e pelo interesse das pessoas, de todas as idades, por essa atividade.</p><p>O brincar, que é característico da infância, apresenta muitas vantagens para o desenvolvimento, ao</p><p>oportunizar a vivência de experiências que contribuem com a vida futura da criança.</p><p>Há décadas que as atividades lúdicas, como as brincadeiras, o uso de brinquedos e de jogos</p><p>simbólicos, têm sido usadas como recursos, com bons resultados terapêuticos, no atendimento</p><p>psicológico como forma de compreender e intervir na reabilitação emocional, afetiva, cognitiva e</p><p>social da criança.</p><p>O brincar traz a ideia de divertimento e distração, e a criança, ao brincar pode expressar sua</p><p>afetividade por meio da linguagem, gestos e atitudes repletos de simbolismos.</p><p>As crianças utilizam as brincadeiras e o brinquedo para exteriorizar suas emoções, e construir um</p><p>mundo próprio, em que podem até questionar o mundo dos adultos.</p><p>Na brincadeira, as normas impostas à criança pelo seu grupo social podem ser modificadas e</p><p>encaixadas no mundo lúdico. Por meio do brincar, a criança (re)constrói um mundo onde o seu</p><p>espaço é libertador e no qual as pressões do ambiente são aliviadas por meio da imaginação (MELO;</p><p>VALLE, 2005).</p><p>Segundo Vygotsky, ao brincar, a criança subordina as regras à renúncia de alguma coisa que deseja,</p><p>e é essa renúncia aos impulsos imediatos que poderá mediar o alcance do prazer na brincadeira.</p><p>Assim,</p><p>A criação de uma situação imaginária não é algo fortuito na vida da criança; pelo contrário, é a</p><p>primeira manifestação da emancipação da criança em relação às restrições situacionais. O primeiro</p><p>paradoxo contido no brinquedo é que a criança opera com um significado alienado numa situação</p><p>real. O segundo é que, no brinquedo, a criança segue o caminho do menor esforço – ela faz o que</p><p>mais gosta de fazer, porque o brinquedo está unido ao prazer – e ao mesmo tempo, aprende a seguir</p><p>os caminhos mais difíceis, subordinando-se a regras e, por conseguinte renunciando ao que ela</p><p>quer, uma vez que a sujeição a regras e a renúncia a ação impulsiva constitui o caminho para o</p><p>prazer do brinquedo (VYGOTSKY, 1991, p. 130).</p><p>Para Winnicott, o brincar é: “tudo já foi feito antes, sentido antes... o brincar é fazer... após ser, fazer</p><p>e deixar-se fazer, mas ser antes de tudo” (WINNICOTT, 1975).</p><p>Aberastury (1992) afirma que a brincadeira infantil é um meio de projetar medos, angústias e as</p><p>dificuldades que a criança enfrenta em sua vida cotidiana e que, por meio do brincar, revive-se</p><p>ativamente o que se sofreu ou se está sofrendo de forma passiva, alterando as trajetórias penosas e</p><p>consentindo a existência de relações que seriam proibidas na vida real.</p><p>O ato de brincar auxilia a enriquecer e fortalecer a identidade, autoestima e autoconfiança, pois a</p><p>criança que brinca e faz de conta tende a ser uma criança feliz.</p><p>A IMPORTÂNCIA DO LÚDICO E DO</p><p>BRINCAR NO DESENVOLVIMENTO</p><p>INFANTIL E NA PSICOTERAPIA</p><p>O termo lúdico vem do latim ludus, que se refere ao entretenimento e às atividades vinculadas com</p><p>o ato de brincar, como os brinquedos e as brincadeiras. Portanto, a atividade lúdica é aquela que</p><p>entretém e dá prazer às pessoas (SOUZA; DIAS; ERNESTO, 2017).</p><p>O termo lúdico vem do latim ludus, que se refere ao entretenimento e às atividades vinculadas com</p><p>o ato de brincar, como os brinquedos e as brincadeiras. Portanto, a atividade lúdica é aquela que</p><p>entretém e dá prazer às pessoas (SOUZA; DIAS; ERNESTO, 2017).</p><p>Quando falamos em ludicidade na psicoterapia, estamos nos referindo à função terapêutica que as</p><p>atividades lúdicas possuem, por estimularem o autoconhecimento, a autoestima positiva, a</p><p>exteriorização dos sintomas de forma simbólica e a compreensão de mundo interno e externo.</p><p>As atividades lúdicas contribuem significativamente para o desenvolvimento saudável das</p><p>dimensões afetiva, cognitiva e social de indivíduos em qualquer idade. Valorizam a livre expressão e</p><p>a espontaneidade dos indivíduos, estimulam a interação e proporcionam o conhecimento de si e do</p><p>outro, sendo assim, formas genuínas de expressão e aprendizagem. Por meio do brincar, a criança</p><p>conhece e interage com meio em que vive, desenvolve habilidades, como a criatividade, inteligência</p><p>e a imaginação.</p><p>Figura 1. O brincar é uma atividade lúdica. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 15/10/2021.</p><p>O brincar e a brincadeira possibilitam à criança mais autoconhecimento e facilitam o processo de</p><p>socialização, devido à possibilidade de interação com as outras crianças.</p><p>No processo psicoterápico, a importância dos jogos e brincadeiras é conhecida há muito tempo,</p><p>assim como a eficácia do uso dos recursos lúdicos no âmbito da psicoterapia, da aprendizagem</p><p>escolar e nas intervenções psicopedagógicas, especialmente no trabalho com crianças com</p><p>dificuldades de aprendizagem (SOUZA; DIAS; ERNESTO, 2017).</p><p>O lúdico tem sido um instrumento favorável à busca de compreensão diagnóstica de casos em</p><p>psicoterapia infantil, assim como na intervenção mais específica, chamada de ludoterapia.</p><p>As crianças com transtornos psicológicos, variados em tipo e intensidade, precisam de</p><p>instrumentos de avaliação e de intervenção terapêuticas, que proporcionem um atendimento mais</p><p>adequado e mais prático às suas necessidades e características do que as técnicas utilizadas</p><p>tradicionalmente na psicoterapia com adultos.</p><p>Toda criança precisa e gosta de brincar, dessa forma, desenvolveu-se a ludoterapia, uma</p><p>metodologia que busca analisar e tratar as crianças com transtornos psicológicos diversos, por</p><p>meio do uso de brinquedos e brincadeiras.</p><p>O brincar, na terapia, tornou-se a base de trabalho de diversas linhas de teoria da Psicologia, como a</p><p>Psicanálise, Terapia Comportamental, Terapia Cognitivo-Comportamental e Humanismo, entre</p><p>outras.</p><p>A partir do processo ludoterapêutico, há a possibilidade de diagnóstico e de intervenção dentro dos</p><p>atendimentos clínicos.</p><p>Porém, o psicoterapeuta deve ter um conhecimento aprofundado da maneira de diagnosticar e</p><p>intervir usando a ludicidade em psicoterapia infantil, começando por conhecer as fases que</p><p>caracterizam a evolução cognitiva e afetiva do indivíduo em relação ao brincar. Poderá utilizar</p><p>atendimentos que envolvam jogos, atividades de expressão artística, dramatizações e outros tipos</p><p>de recursos que facilitem o desenvolvimento da capacidade de expressão, levando em</p><p>consideração as capacidades físicas, sociais</p><p>e emocionais da criança.</p><p>O uso dos jogos também é considerado uma atividade importante a ser empregada na psicoterapia</p><p>infantil. Nos contextos psicoterápicos, os jogos permitem investigar, diagnosticar e intervir em vários</p><p>tipos de dificuldades, sejam elas de ordem afetiva, cognitiva ou psicomotora.</p><p>EXEMPLIFICANDO...</p><p>A perspectiva construtivista defende a ideia de que os jogos de regras são recursos para a</p><p>observação e diálogo sobre os processos cognitivos e de construção de conhecimentos, de acordo</p><p>com os limites da criança. O uso dos jogos de regras no contexto psicoterápico permite, ainda que</p><p>indiretamente, uma aproximação ao mundo afetivo-cognitivo da criança, por meio da análise dos</p><p>procedimentos que são utilizados ou construídos durante o jogo.</p><p>NEUROSE E PSICOSE NA INFÂNCIA E AS</p><p>MODALIDADES DE BRINCAR</p><p>As observações do comportamento da criança auxiliam na avaliação dos sintomas neuróticos e</p><p>psicóticos e na intervenção em saúde mental de forma mais precoce (ROCHA, 1985).</p><p>Os comportamentos infantis sem neuroticidade, com neuroticidade e de criança com transtornos</p><p>psicóticos diferem em relação aos seguintes aspectos de comportamento:</p><p>Clique nos botões para saber mais</p><p>Esses dados, relativos à adequação à realidade, ao comportamento de brincar, escolha de</p><p>brinquedos, brincadeiras e às modalidades de brincadeiras preferidas entre crianças sem</p><p>transtornos neuróticos, neuróticas e psicóticas, são muito relevantes para a avaliação diagnóstica</p><p>na psicoterapia infantil.</p><p>icone.png</p><p>VAMOS REFORÇAR O QUE APRENDEMOS ATÉ AGORA?</p><p>Sobre a ludicidade na vida da criança, assinale a alternativa correta:</p><p>( X ) A ludicidade se refere à expressão simbólica da afetividade da criança.</p><p>( ) A ludicidade se refere às atividades que estimulam o conhecimento na escola.</p><p>( ) A ludicidade se refere às responsabilidades e obrigações da criança.</p><p>Desenvolvimento infantil: papel da</p><p>família, escola e dos grupos sociais</p><p>O relacionamento entre a família e a escola é um tema de grande relevância no meio educacional, e</p><p>vem sendo pesquisado e discutido com grande frequência.</p><p>Os dados de estudos sobre o relacionamento entre a família e a escola mostram que, para haver um</p><p>desenvolvimento integral da criança, pais e professores devem atuar em parceria para a evolução</p><p>adequada desses indivíduos.</p><p>Então, qual é a importância da família para o desenvolvimento da criança? E qual é o papel da</p><p>escola no desenvolvimento do indivíduo?</p><p>A importância entre a colaboração da escola - e da comunidade em geral -, para a formação e</p><p>desenvolvimento da criança, é bastante conhecida além da ideia de que educar não é dever da</p><p>escola ou da família, exclusivamente, mas sim uma responsabilidade conjunta, que contribui para a</p><p>formação do indivíduo.</p><p>A TRANSFORMAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO</p><p>FAMILIAR</p><p>O ambiente familiar é o primeiro lugar em que o indivíduo se socializa e, portanto, tem um grande</p><p>valor e impacto na formação da criança.</p><p>A estrutura e a organização dos ambientes familiares sofreram grandes modificações com o passar</p><p>dos anos, e isso não alterou o seu valor social, pois a família ainda é considerada a base da</p><p>sociedade e o espaço no qual são transmitidos os valores morais, que preparam o indivíduo para a</p><p>vida.</p><p>A estrutura familiar varia, portanto, conforme a latitude, distintas épocas históricas e fatores</p><p>sociopolíticos, econômicos ou religiosos prevalentes em um dado momento da evolução de</p><p>determinada cultura.</p><p>Figura 2. A família e suas composições. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 15/10/2021.</p><p>O conceito de família tem sido inovado, acompanhando as novas maneiras de relacionamento e</p><p>princípios morais estabelecidos socialmente.</p><p>A palavra família tem sua origem do latim famulus, que significa: conjunto de servos e dependentes</p><p>de um chefe ou senhor. Quando se refere aos tais dependentes, enquadram-se a esposa e os filhos,</p><p>pois a família greco-romana era composta por um patriarca e seus fâmulos: esposa, servos, filhos,</p><p>entre outros. É o modelo da família tradicional, como conhecemos.</p><p>EXPLICANDO...</p><p>As organizações familiares não se constituem apenas da família tradicional (pai, mãe e filhos</p><p>biológicos). A família atual é organizada de diversas formas: pode ser composta por pessoas do</p><p>mesmo sexo e/ou por parceiros divorciados que já trazem consigo filhos de outros casamentos, por</p><p>exemplo. Pode ser formada por mulheres independentes que decidiram criar seus filhos sem a</p><p>presença de um pai ou pais, sem a presença das mães, de avós que criam os netos ou, até mesmo,</p><p>de tios que exercem essa mesma função.</p><p>Preocupada com a educação, a sociedade, pouco a pouco, começou a sofrer transformações.</p><p>Dessa maneira, a família deixou de ser a única instituição responsável pela educação do indivíduo, e</p><p>a escola passa a ter um papel cada dia mais importante no desenvolvimento integral do ser</p><p>humano.</p><p>A FAMÍLIA E A ESCOLA NO</p><p>DESENVOLVIMENTO COGNITIVO,</p><p>AFETIVO E SOCIAL</p><p>A educação promove o desenvolvimento do ser humano do nascimento até a vida adulta, e não é</p><p>tarefa exclusiva da família ou da escola. O processo de humanização do indivíduo só obtém bons</p><p>resultados quando ambas as partes cooperam para o desenvolvimento da criança como um todo.</p><p>As outras instituições sociais - igrejas, os clubes e as comunidades socioculturais -, também são</p><p>responsáveis pela educação das crianças e adolescentes.</p><p>Os eventos culturais e os meios de comunicação também são uma forma de transmissão de</p><p>conhecimentos na vida contemporânea, pois trazem o conhecimento até o indivíduo. Com a era</p><p>digital, jovens e crianças têm acesso a diversas informações na internet, onde podem adquirir</p><p>conhecimento de forma rápida e eficaz.</p><p>Em relação à escola, a sua função é a de oferecer a educação formal para crianças, jovens e</p><p>adultos.</p><p>Os pais ou responsáveis legais são obrigados a realizarem a matrícula dos seus filhos/as na escola e</p><p>garantir que eles mantenham uma frequência adequada na instituição de ensino.</p><p>No entanto, a escola não tem somente a função de promover o ensino e de possibilitar o acesso aos</p><p>conteúdos escolares aos alunos. Deve promover a aprendizagem dos conteúdos assim como o</p><p>desenvolvimento físico, afetivo, cognitivo e social dos alunos, a construção de valores morais e</p><p>éticos e da cidadania, e auxiliar na promoção da saúde mental da criança e do adolescente.</p><p>REDES DE APOIO DOS GRUPOS SOCIAIS</p><p>Sabemos da importância do apoio familiar e da escola no desenvolvimento infantil, especialmente</p><p>para o processo de autonomia e independência do indivíduo.</p><p>Aspectos como a estabilidade e afetividade no contexto familiar contribuem positivamente para o</p><p>desenvolvimento psicológico saudável, enquanto as relações instáveis, pouco afetivas e a presença</p><p>de conflitos familiares/conjugais, assim como outros acontecimentos estressantes, são fatores que</p><p>contribuem para a ausência de saúde mental e disfunções psicológicas em jovens adultos.</p><p>Nem sempre, portanto, as famílias serão uma rede de apoio funcional ou mais adequada. Há outras</p><p>redes de apoio e cuidados, oferecidas por outros grupos sociais.</p><p>Estudos sobre formatos de enfrentamento de crianças institucionalizadas e crianças que viviam</p><p>com as suas famílias biológicas, não mostraram diferenças na necessidade de apoio social e na</p><p>apresentação de comportamentos agressivos. Em algumas instituições, as condições físicas e</p><p>organizacionais e o respaldo de profissionais estabeleciam redes sociais de apoio mais adequadas</p><p>do que as das famílias biológicas (CORREIA; e MOTA, 2017).</p><p>Isso ocorre porque a construção dos modelos ou estratégias de enfrentamento de conflitos é</p><p>influenciada pelas relações afetivas, coesão, segurança, ausência ou pouca frequência de</p><p>discórdia, seja nas famílias ou nas instituições.</p><p>Esses fatores contribuem para o desenvolvimento de uma boa saúde mental do indivíduo,</p><p>favorecendo</p><p>o desenvolvimento de habilidades sociais e de adaptação às situações cotidianas.</p><p>A presença de redes de apoio social e o oferecimento de cuidados comunitários contribuem para a</p><p>superação do estresse e o estabelecimento de uma dinâmica familiar saudável. A sua ausência</p><p>pode levar as famílias a desenvolverem formas de relacionamento disfuncionais, prática de maus</p><p>tratos à criança, violência doméstica, abuso de substâncias e conflitos.</p><p>As instituições públicas ou privadas, em especial, a escola, possuem um importante papel como</p><p>rede de apoio direta ou indireta por meio do oferecimento de programas de educação familiar</p><p>(CORREIA; e MOTA, 2017).</p><p>A utilização de jogos e brinquedos na</p><p>psicoterapia psicanalítica</p><p>A psicanálise é considerada a forma mais antiga de psicoterapia. Desenvolvida pelo médico</p><p>austríaco Sigmund Freud, entre o final do século XIX e o início do século XX, este método</p><p>terapêutico propôs que a pessoa em terapia se deitasse em um divã, a fim de expor oralmente os</p><p>seus pensamentos, em consultas realizadas de quatro a cinco vezes por semana.</p><p>O tratamento proposto por Freud procurava ajudar a pessoa a ter acesso aos seus conflitos</p><p>inconscientes e entender como as situações traumáticas e os relacionamentos afetivos da sua</p><p>infância se repetiam no momento presente.</p><p>EXPLICANDO...</p><p>A psicanálise se fundamenta na relação terapêutica entre paciente e psicanalista, que são os</p><p>personagens centrais do cenário em que se estabelece a transferência. Esta é o processo de</p><p>deslocar sentimentos e conflitos de forma inconsciente, de uma pessoa para outra. Na relação</p><p>terapeuta – paciente, a transferência se dá por meio da relação afetiva do paciente em relação ao</p><p>terapeuta, e esse relacionamento será alvo de análise na psicoterapia psicanalítica.</p><p>A psicanálise foi desenvolvida para o atendimento de pessoas adultas. Porém, Freud realizou</p><p>algumas compreensões de casos infantis e o primeiro registro de um caso clínico envolvendo uma</p><p>criança com sofrimento emocional, deu-se em 1909.</p><p>A experiência foi relatada por Freud, no texto Análise de uma fobia em um menino de cinco anos,</p><p>publicado em 1909. O caso em si não será analisado, mas podemos apresentar as contribuições</p><p>que Freud trouxe a partir da estratégia de intervenção nessa situação.</p><p>Hans é um menino de três anos cujo pai procurou Freud com a queixa de que seu filho tinha medo</p><p>extremo (fobia) de ser mordido por cavalos ou de cair de carros conduzidos por esses animais.</p><p>Porém, Freud cuidou do caso do pequeno Hans apenas por meio de cartas trocadas com o pai da</p><p>criança, e o encontro de Freud com Hans ocorreu apenas quando ele tinha cinco anos de idade.</p><p>Freud recebeu críticas pela forma como o tratamento de Hans foi realizado, mas a estratégia</p><p>desenvolvida permitiu reforçar a importância da inclusão dos pais na psicoterapia infantil, que,</p><p>atualmente, é obrigatória e necessária.</p><p>As entrevistas com os pais e/ou responsáveis legais de crianças e adolescentes para a obtenção de</p><p>informações sobre a queixa emocional e do histórico de vida do sujeito (da gestação até a idade</p><p>atual) é uma das etapas mais importantes do processo psicoterápico.</p><p>Freud, com a sua abordagem indireta no tratamento de Hans, promoveu a reflexão de que, para</p><p>tratar uma criança, é necessário que o adulto ingresse em seu mundo interior para possibilitar a</p><p>expressão do sofrimento emocional.</p><p>Afirmou, ainda, que o brincar é um dos aspectos a serem mais observados e considerados na</p><p>psicanálise infantil, pois é por meio das brincadeiras que a criança tem a chance de se expressar e</p><p>de elaborar os seus conflitos psíquicos.</p><p>A psicanálise em crianças teve início, oficialmente, com a atuação da psicanalista Hermine Von</p><p>Hug-Hellmuth, em 1920 (REGHELIN, 2008).</p><p>Hermine e Anna Freud acreditavam que as crianças não apresentavam condições para desenvolver</p><p>relações transferenciais com o terapeuta e que a psicoterapia infantil deveria ter uma abordagem</p><p>específica.</p><p>Anna, a filha primogênita de Freud e uma das mais importantes personagens da história da</p><p>psicanálise infantil, desenvolveu uma abordagem voltada para intervenções realizadas no ego, de</p><p>caráter mais pedagógico.</p><p>Anna Freud sugeriu que o ego infantil se protegia das forças internas e externas, por meio dos</p><p>seguintes princípios: o poder dos instintos do id, o poder punitivo do superego e das ameaças</p><p>causadas pelo meio. A fim de lidar com as forças internas e externas, o ego desenvolve mecanismos</p><p>de defesa como a formação reativa, o deslocamento, a introjeção, a negação, a projeção, a</p><p>regressão, a racionalização, a repressão e a sublimação.</p><p>A psicanalista Melaine Klein, em oposição às ideias de Anna Freud, desenvolveu uma abordagem</p><p>teórico-metodológica bastante relevante para a psicoterapia infantil, a partir dos pressupostos de</p><p>Sigmund Freud.</p><p>A partir da observação da relação mãe-bebê, Melaine Klein fundamentou o tratamento psicanalítico</p><p>com crianças, introduzindo o uso de brinquedos, desenhos e jogos nas sessões com a criança, o</p><p>que é denominado ludoterapia.</p><p>Melanie Klein propôs que o brincar, juntamente com a expressão pelos sons, movimentos e o</p><p>discurso espontâneo, equivaleriam à associação livre, utilizada por Freud nos atendimentos com</p><p>adultos (REGHELIN, 2008).</p><p>As diferenças entre as abordagens de Anna Freud e Melanie Klein são explicadas por Reghelin</p><p>(2008):</p><p>Anna Freud entendia o brincar como atividade expressiva e não simbólica (pois o simbólico estava</p><p>ligado ao reprimido) e Melanie Klein via o brincar como alocução e destinado ao analista,</p><p>pressupondo diferentes níveis de simbolização conforme idade, nível de funcionamento mental,</p><p>quantidade e qualidade das angústias da criança (REGHELIN, 2008, p. 170).</p><p>Vimos que a ludoterapia é o processo terapêutico voltado para as crianças, que utiliza o brincar</p><p>como forma de autoexpressão e que parte da premissa de que a ludicidade é uma ferramenta</p><p>essencial para a superação das dificuldades globais e o alcance das potencialidades de</p><p>desenvolvimento infantis.</p><p>O objetivo da técnica desenvolvida por Klein era trazer à tona os conteúdos do inconsciente das</p><p>crianças - fantasias, conflitos e uso de mecanismos de defesa do ego - por meio da sua atuação</p><p>diante de brincadeiras e do uso de brinquedos e jogos.</p><p>Muitos autores, ao longo do século XX, trouxeram contribuições, teorias e técnicas, para o</p><p>desenvolvimento da psicoterapia psicanalítica de crianças, como é possível verificar no Quadro 1.</p><p>Quadro 1. Autores relevantes para a psicoterapia psicanalítica infantil.</p><p>Conhecer as ideias e o trabalho da maioria desses autores é necessário para a formação do</p><p>psicoterapeuta infantil. Muitos deles seguem perspectivas diferentes, porém, todos apresentam a</p><p>intenção e de colocar a criança no centro da escuta, oferecendo um espaço para a expressão de</p><p>seus desejos.</p><p>Além disso, é essencial que o psicoterapeuta infantil adquira conhecimentos aprofundados sobre</p><p>os marcos maturativos do desenvolvimento infantil, para poder interpretar os dados fornecidos nas</p><p>entrevistas com os pais e outros profissionais e compreender os fatores que podem contribuir para</p><p>o desenvolvimento de transtornos emocionais.</p><p>ENTREVISTAS PRELIMINARES COM OS</p><p>PAIS</p><p>Apresentaremos as principais ideias e objetivos da entrevista preliminar com os pais ou</p><p>responsáveis legais da criança, e os temas que fundamentam o atendimento com o público</p><p>infantojuvenil.</p><p>Antes de iniciar o processo de intervenção psicoterápica, deve-se realizar o psicodiagnóstico para</p><p>compreender a demanda emocional da criança.</p><p>Devem ser realizadas entrevistas com os pais ou responsáveis legais, assim como com a criança,</p><p>para que o psicoterapeuta possa conhecer de forma aprofundada a queixa emocional do ponto de</p><p>vista manifesto e latente, e, assim, traçar estratégias de intervenção apropriadas ao caso.</p><p>O sentido da entrevista com os pais (dois pais ou duas</p><p>mães) almeja alguns objetivos. Em primeiro</p><p>lugar, deve ser cumprida a questão legal, pois, nenhum menor de idade pode ser atendido por</p><p>especialistas sem a autorização prévia dos responsáveis.</p><p>O mais comum é que a mãe compareça à entrevista preliminar com o terapeuta, e, se isso</p><p>acontecer, devem ser realizados novos convites ao pai. Se ele não comparecer, deve ser levado em</p><p>consideração na devolutiva do processo psicodiagnóstico. O mesmo deve ser feito se a mãe não</p><p>comparecer. É desejável que ambos os pais participem das entrevistas preliminares.</p><p>O processo de entrevista com os pais poderá ocorrer em mais de uma sessão e o psicoterapeuta</p><p>infantil poderá solicitar outras entrevistas, se for necessário. O objetivo é compreender o motivo do</p><p>encaminhamento ao terapeuta, e a anamnese, que é a descrição do histórico da criança, com as</p><p>informações sobre a história da gestação, nascimento, ocorrências no parto, puerpério, doenças na</p><p>família, dinâmica familiar, história escolar, de aprendizagem, de socialização, além da percepção</p><p>dos pais sobre a criança.</p><p>Se a criança estiver em idade escolar, o psicoterapeuta infantil pode verificar a possibilidade de</p><p>visitas à escola para conversar com o docente e saber sobre o seu comportamento para coletar</p><p>mais informações sobre o seu funcionamento psicológico e a percepção que se tem da criança,</p><p>mas essas ações prescindem de autorização dos pais.</p><p>A entrevista preliminar cumpre dois objetivos imediatos. O primeiro, é a coleta das informações</p><p>sobre a vida da criança e o segundo, é a realização de esclarecimentos sobre as ideias dos</p><p>envolvidos na tríade pai-mãe-criança.</p><p>Por exemplo, é importante identificar se a ida ao psicoterapeuta infantil é uma forma de um dos</p><p>responsáveis manter sintomas familiares. Se isso estiver ocorrendo, é necessário que o</p><p>psicoterapeuta sinalize aos pais e os encaminhe para um trabalho psicoterapêutico específico.</p><p>É na entrevista preliminar que haverá o reconhecimento se a queixa é um sintoma familiar ou uma</p><p>questão relativa à própria criança, pois, há o risco de que a análise da criança fique atrelada à</p><p>demanda inicial dos pais e isso é um erro grave por parte do psicoterapeuta infantil.</p><p>O profissional deverá identificar e distinguir as demandas emocionais dos pais e da criança que,</p><p>possivelmente, poderá iniciar a psicoterapia.</p><p>Para isso, o psicoterapeuta deve ser teórica e tecnicamente capacitado para manejar a situação.</p><p>O término das entrevistas com os pais ocorrerá, quando o psicoterapeuta tiver a compreensão</p><p>adequada da demanda emocional trazida por eles.</p><p>A partir de então, é possível iniciar as entrevistas com a criança, já ciente de informações gerais</p><p>sobre o caso clínico, que podem garantir que a sua escuta vá além das fantasias que se formam em</p><p>torno da queixa emocional trazida pelos pais.</p><p>É importante que o psicoterapeuta saiba que a criança tem potencial para elaborar a sua queixa de</p><p>atendimento.</p><p>A HORA DO JOGO DIAGNÓSTICA</p><p>A hora do jogo diagnóstica é um instrumento utilizado no processo psicodiagnóstico, que busca</p><p>conhecer e compreender a realidade da criança (ARZENO, 1995</p><p>A atividade lúdica é um meio de comunicação semelhante à expressão verbal nos adultos, na qual</p><p>se instrumentalizam as possibilidades de interação para conceituar a realidade apresentada.</p><p>O contexto particular de brincar se dá pela ação de um mediador, que é o brinquedo oferecido, do</p><p>enquadramento que é o espaço, o tempo, a explicação de papéis, a finalidade das sessões, a</p><p>criação de um campo baseado em variáveis internas da personalidade da criança e do conjunto de</p><p>fantasias e relações que expressam o que a criança está vivenciando no momento (ARZENO, 1995).</p><p>O psicoterapeuta recupera o material apresentado pela criança para integrá-lo aos elementos</p><p>verbais e pré-verbais, em uma totalidade.</p><p>Existem diferenças entre a hora do jogo diagnóstica e a hora do jogo terapêutica: a primeira tem</p><p>começo, desenvolvimento e fim e objetiva conhecer o problema e as possíveis causas; a segunda é</p><p>um elo a mais de um amplo continuum, pois existem modificações estruturais advindas da</p><p>intervenção do terapeuta.</p><p>A hora do jogo diagnóstica é precedida das entrevistas realizadas com os pais e, logo no primeiro</p><p>contato com a criança, deve-se dar as instruções sobre a sessão de forma clara (ARZENO, 1995).</p><p>Figura 3. Contato do profissional com a criança. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 11/10/2021.</p><p>As sessões devem ser realizadas em um ambiente espaçoso, que possibilite boa movimentação,</p><p>com pouca mobília, piso e paredes laváveis.</p><p>Deve ser permitida a brincadeira com água e materiais diversos, que podem estar em cima de uma</p><p>mesa e em parte dentro de uma caixa aberta, mas não devem estar organizados em agrupamentos</p><p>de classes.</p><p>Os brinquedos não devem ser escolhidos aleatoriamente, mas em função das respostas específicas</p><p>que provocam (ARZENO, 1995).</p><p>E quando se fala do brincar, na hora do jogo diagnóstico, automaticamente fala-se da caixa lúdica de</p><p>brinquedos. Ressalta-se aqui a utilização dessa caixa, que consiste em um lugar que serão</p><p>guardados os itens que facilitarão o brincar da criança. A introdução a caixa de brinquedos ou caixa</p><p>lúdica no cenário terapêutico foi realizada pela psicanalista Arminda Aberastury, que via o recurso</p><p>como a representação do mundo interno da criança e o contingente para as suas representações</p><p>inconscientes e relações objetais (REGHELIN, 2008).</p><p>A caixa lúdica pode ser de madeira ou de plástico, sendo importante que cada criança tenha a sua</p><p>caixa, pois enquanto ela estiver em psicoterapia a caixa simbolizará o seu mundo interno.</p><p>Algumas caixas lúdicas, principalmente as de madeira, podem ter cadeados. É possível fornecer</p><p>uma cópia da chave da caixa lúdica para a criança, para que ela a leve para a casa, a fim de dar o</p><p>sentido de que ela está cuidando de algo que lhe pertence. É fundamental, ainda, assegurar para a</p><p>criança que a caixa lúdica é dela e que será aberta somente na sua presença, o que significa sigilo,</p><p>privacidade, confiança e respeito ao mundo interno da criança (ARZENO, 1995).</p><p>Assim, a caixa lúdica tem um sentido muito importante na relação psicoterapêutica e é de</p><p>responsabilidade do psicoterapeuta zelar pela sua integridade.</p><p>Os materiais para a criação permitem à criança construir algo livremente, dando vazão às suas</p><p>emoções. Os jogos têm como finalidade a observação de como a criança lida com as regras, com o</p><p>perder e o ganhar, já que geralmente apresenta uma estrutura definida para brincar. E os brinquedos</p><p>facilitam que a criança construa cenas envolvendo as emoções e as situações de seu cotidiano</p><p>(ARZENO, 1995).</p><p>O Quadro 2 lista os materiais que devem, em geral, ser oferecidos na caixa lúdica.</p><p>Quadro 2. Materiais da caixa lúdica. Fonte: ARZENO, 1995, n.p. (Adaptado).</p><p>Os materiais devem estar em bom estado e ser de boa qualidade para evitar estragos. Deve-se evitar</p><p>os que possam colocar em risco a integridade física do terapeuta e da criança, como vidros,</p><p>tesouras com ponta e fósforos. Assim, a escolha de itens precisa considerar a faixa etária da criança</p><p>e acrescentar outros que julgar pertinentes para facilitar a expressão da criança.</p><p>O Quadro 3 expõe algumas orientações sobre o que e como avaliar a forma como a criança se</p><p>relaciona com a caixa lúdica e com cada tipo de material.</p><p>Quadro 3. Orientações para observar a relação da criança com a caixa lúdica. Fonte: REGHELIN,</p><p>2008, n. p. (Adaptado).</p><p>O psicoterapeuta deve desempenhar um papel passivo, de observador e ativo, em relação à atenção</p><p>flutuante para a compreensão e formulação de hipóteses sobre a problemática da criança.</p><p>Caso a criança solicite a participação do psicoterapeuta nas brincadeiras, esse deverá</p><p>desempenhar um papel complementar. E, se houver a necessidade de sinalização de bloqueios,</p><p>rejeição e inibição da atividade lúdica, será preciso explicitar</p><p>os aspectos manifestados na conduta,</p><p>mas evitar a atitude de interpretar. É importante o estabelecimento de limites, proporcionando, no</p><p>entanto, condições para que a criança brinque de forma mais espontânea possível.</p><p>As observações são realizadas em relação às atitudes da criança, como ela manifesta as emoções,</p><p>que tipo de linguagem utiliza mais (verbal ou não verbal), como se relaciona com o psicoterapeuta,</p><p>ou seja, perceber em qual lugar mental a criança o coloca.</p><p>As observações feitas enquanto a criança brinca, associadas aos subsídios teóricos, darão as</p><p>condições para o psicoterapeuta analisar e compreender o funcionamento psíquico da criança,</p><p>relacionando ou não à queixa emocional levantada pelos seus pais.</p><p>Considerando que a caixa lúdica cumpre a finalidade de propiciar uma comunicação entre a criança</p><p>e o psicoterapeuta, para que este mergulhe no mundo subjetivo da criança, atualmente, aborda-se a</p><p>discussão sobre a adaptação dos itens da caixa lúdica às formas tecnológicas de brincar.</p><p>Um argumento utilizado por grande parte dos psicoterapeutas é que as telas de computadores</p><p>propiciam pouca ou nenhuma criatividade se comparadas com o ato de brincar com a caixa lúdica</p><p>tradicional.</p><p>A finalização da avaliação psicológica com a criança e com os pais se dá quando o profissional tiver</p><p>a compreensão do funcionamento psíquico da criança, e obtiver dados sobre os conteúdos</p><p>emocionais que precisam ser trabalhados na psicoterapia infantil.</p><p>O psicoterapeuta precisa avisar a criança sobre o término dos encontros em uma linguagem</p><p>adaptada à faixa etária de seu paciente, ao menos com duas sessões de antecedência, para que</p><p>uma possível despedida seja trabalhada. Terminadas as sessões com a criança, deve-se seguir com</p><p>a entrevista devolutiva aos pais ou responsáveis legais, ou seja, a quem foram feitas as entrevistas</p><p>preliminares. Devolutiva é o nome dado ao momento que o psicoterapeuta infantil relata aos pais o</p><p>que foi percebido na criança e quais as estratégias de intervenção possíveis. E, ainda, é quando os</p><p>responsáveis podem esclarecer as dúvidas sobre a psicoterapia.</p><p>Caso haja necessidade de acompanhamento psicoterápico com a criança, nesse momento, são</p><p>discutidas as possibilidades com os pais. Se eles concordarem em iniciar a psicoterapia, deve ser</p><p>apresentada a quantidade de sessões semanais sugeridas pelo profissional, bem como o valor da</p><p>sessão (no caso de atendimento na rede privada), a quantidade e o período em que são feitas as</p><p>novas sessões de devolutivas. É ressaltada, portanto, toda a estrutura do processo inicial da</p><p>avaliação psicoterapêutica na clínica psicanalítica com a criança, enfatizando métodos e recursos</p><p>indispensáveis.</p><p>VAMOS REFORÇAR O QUE APRENDEMOS ATÉ AGORA?</p><p>O que significa o ato de brincar na perspectiva da psicanálise infantil?</p><p>( X ) O brincar é uma atividade pouco utilizada na psicanálise infantil.</p><p>( ) É uma forma de comunicação entre a criança e o psicoterapeuta.</p><p>( ) É uma atividade diretiva em que o terapeuta indica o brinquedo a ser utilizado.</p><p>A utilização de jogos e brinquedos na</p><p>terapia comportamental infantil</p><p>A utilização de jogos e brinquedos na terapia comportamental infantil é algo bastante novo</p><p>(GADELHA; MENEZES, 2004).</p><p>Skinner, o inspirador da teoria comportamental, não abordou a ludicidade de forma ampla, mas</p><p>propôs diferenciações entre o jogar e o brincar livre, no qual o jogar é uma atividade que possui</p><p>regras verbais com contingências de reforçamento bem planejados, enquanto o brincar não é</p><p>necessariamente controlado pelo ambiente verbal, mas ambas as atividades possuem funções</p><p>reforçadoras positivas. A relação da criança com o brinquedo na psicoterapia passou por uma</p><p>evolução desde a modificação do comportamento infantil até a terapia comportamental infantil.</p><p>Na proposta original de terapia comportamental, a criança quase não participava diretamente do</p><p>processo, pois a utilização de entrevistas infantis não eram uma prática comum. As crianças</p><p>chegavam para a terapia com a queixa dos pais sobre seus comportamentos, e não eram</p><p>perguntadas sobre como se sentiam ou sobre o que observavam de seu próprio comportamento ou</p><p>do comportamento dos pais (GADELHA; MENEZES, 2004).</p><p>As entrevistas geralmente eram feitas com os adultos e as dificuldades da criança eram analisadas</p><p>por meio do uso de inventários e formulários tipo checklists, os quais identificavam tipos de</p><p>comportamentos-problema em quadros de ansiedade, depressão, introversão e agressividade</p><p>(WATSON; GRESHAM, 1998 apud GADELHA; MENEZES, 2004).</p><p>Os problemas das filhas ou filhos estavam sempre associados às preocupações dos pais, com</p><p>quem o terapeuta trabalha para identificar os comportamentos-problema da criança.</p><p>As práticas experimentais realizadas em laboratórios para alterar os comportamentos inadequados</p><p>da criança eram as técnicas mais utilizadas para a intervenção nesse contexto.</p><p>A TERAPIA COMPORTAMENTAL INFANTIL</p><p>(TCI) E A PARTICIPAÇÃO DA CRIANÇA</p><p>Segundo Monteiro e Amaral (2019, p. 245), “Um dos principais aspectos que caracteriza a Terapia</p><p>Comportamental Infantil (TCI) atual e a diferencia dos períodos anteriores é a participação ativa da</p><p>criança no processo terapêutico”.</p><p>A presença da criança no setting ou cenário terapêutico levou à necessidade de serem incluídas as</p><p>formas de obtenção de dados e o uso de intervenções mais adaptadas à realidade infantil. Assim,</p><p>houve a adoção de estratégias lúdicas nos procedimentos adotados pelos psicoterapeutas a fim de</p><p>suprir essas necessidades (GADELHA; MENEZES, 2004).</p><p>Com a especialização do uso de entrevistas infantis no processo psicoterapêutico, houve a</p><p>implantação dessa técnica na terapia comportamental infantil. As crianças passaram a informar os</p><p>seus sentimentos, comportamentos e relacionamento social, oportunizando o estabelecimento de</p><p>um vínculo afetivo com o terapeuta e possibilitando avaliar a sua habilidade verbal.</p><p>A entrevista passou a ser uma fonte importante de informação adicional sobre as interações da</p><p>criança. Devido à participação mais ativa da criança no processo terapêutico, os terapeutas</p><p>precisaram se apoiar nas estratégias lúdicas, o que ocorreu a partir da década de 1960. Ainda, o</p><p>aprofundamento dos estudos em psicologia infantil e do brincar no desenvolvimento, elevou a</p><p>importância do uso de jogos e brinquedos na TCI, mas foi em meados da década de 1980 que as</p><p>comunicações científicas sobre o brincar com a criança em terapia comportamental passaram a ter</p><p>um maior impacto no cenário psicoterapêutico (GADELHA; MENEZES, 2004).</p><p>O termo ludoterapia comportamental infantil, importado da psicanálise, passou a ser utilizado pela</p><p>primeira em 1998, designando a inserção de atividades lúdicas nos procedimentos terapêuticos</p><p>comportamentais com crianças (SILVARES, 2000).</p><p>A LUDOTERAPIA COMPORTAMENTAL</p><p>INFANTIL</p><p>A terapia comportamental voltada para adultos e para crianças possuem uma diferença essencial: a</p><p>busca constante do terapeuta comportamental infantil pela utilização de procedimentos</p><p>alternativos à comunicação verbal para a obtenção de informações sobre as variáveis, que</p><p>controlam o comportamento da criança em atendimento (GADELHA; MENEZES, 2004).</p><p>Na terapia comportamental de adultos, os clientes descrevem os seus comportamentos e relatam</p><p>seus sentimentos de forma verbal com certa desenvoltura, mas, na terapia infantil, o repertório</p><p>verbal da criança para a descrição de seus sentimentos e lembranças é mais restrito, o que dificulta</p><p>a ação do terapeuta para estabelecer o contato da criança/cliente com as variáveis que estão</p><p>interferindo em seus comportamentos e sentimentos (KOHLENBERG; TSAI, 2001 apud GADELHA;</p><p>MENEZES, 2004).</p><p>De acordo com Silvares (2000), a observação da criança é essencial para a avaliação e o</p><p>planejamento das intervenções em terapia comportamental infantil e, sem essa observação, o</p><p>tratamento pode ficar apenas</p><p>calcado no relato dos pais. Sendo assim, as crianças precisam de</p><p>formas diversas para a expressão de seus sentimentos que não somente a verbal, a fim de obter as</p><p>vantagens que essa expressão traz para o desenvolvimento da terapia.</p><p>As outras formas de expressão incluem o desenhar, o contar histórias, o fantasiar, o imaginar e o</p><p>interpretar situações, ao usar bonecos e jogos, fazer pinturas, colagens, manipular argila, massa de</p><p>modelagem, música e dança, dentre outras linguagens e ferramentas que fazem parte da vida</p><p>natural da criança, em um ambiente sem censura para sua exposição de seus sentimentos</p><p>(GADELHA; MENEZES, 2004). O uso desses instrumentos implica um esforço do terapeuta infantil</p><p>para possibilitar a identificação das variáveis de controle sobre o comportamento da criança.</p><p>Figura 4. Uso de estratégias não verbais na TCI. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 18/10/2021.</p><p>As estratégias lúdicas que envolvem a utilização de jogos, brinquedos, desenhos e livros de histórias</p><p>com objetivos específicos na terapia comportamental infantil são extremamente importantes.</p><p>A ideia é que é possível considerar a atividade como lúdica, uma vez que os objetos podem ser</p><p>utilizados como brinquedos pela criança, por exemplo, um lençol pode se transformar em uma</p><p>cabana e um pedaço de madeira pode se transformar em carrinho.</p><p>Portanto, segundo Rose (1993 apud GADELHA; MENEZES, 2004), o brinquedo se torna uma classe</p><p>de estímulos desde que, na sua presença, a criança seja capaz de emitir uma única resposta que é o</p><p>brincar.</p><p>Qual é o objetivo de se trabalhar com estratégias lúdicas na TCI? A utilização de jogos e brinquedos</p><p>é reforçadora para a criança, pois muitas tarefas propostas às crianças envolvem as situações</p><p>lúdicas, o que facilita a participação da criança na atividade proposta.</p><p>O uso de brinquedos e jogos na TCI oferece à criança um ambiente estruturado em que é possível</p><p>aprender habilidades, além de possibilitar o desenvolvimento social, emocional e intelectual da</p><p>criança, possibilitando que as crianças sejam esclarecidas sobre os seus sentimentos e que</p><p>descrevam os comportamentos e situações importantes do cotidiano, além de que as brincadeiras</p><p>orientadas podem permitir que elas aprendam a responder, de modo alternativo, aos</p><p>comportamentos disfuncionais como bater, gritar, chorar, xingar, dentre outros.</p><p>Por meio do brincar, a criança se torna capaz de analisar o seu próprio comportamento, ficando</p><p>mais consciente das contingências que o determinam, podendo alterar a sua relação com o</p><p>ambiente.</p><p>A fantasia e a brincadeira levam a criança ao encontro de novos comportamentos, começando</p><p>pelos personagens das brincadeiras e, posteriormente, levando essa aprendizagem para as</p><p>situações do dia a dia (GADELHA; MENEZES, 2004).</p><p>A discussão sobre os personagens de uma história é um instrumento útil na TCI, pois se falar</p><p>primeiro dos personagens, realiza-se uma aproximação gradual para que a criança possa falar de si</p><p>mesmo. Ao falar sobre o comportamento dos personagens, a criança aprende a fazer uma análise</p><p>funcional do comportamento e, posteriormente, se transpõe essa análise para o seu próprio</p><p>comportamento. A ponte entre a fantasia e a realidade, que se dá pela identificação dos padrões de</p><p>comportamento dos personagens da história, possibilita que a criança possa falar de si e das suas</p><p>relações, diante de uma atitude não punitiva do psicoterapeuta (REGRA, 2000 apud GADELHA;</p><p>MENEZES, 2004).</p><p>O uso de desenho é uma outra maneira de trabalhar com os sentimentos das crianças na</p><p>psicoterapia, que tem se mostrado efetivo, como quando se pede que crianças desenhem as suas</p><p>famílias como símbolos ou animais. A informação sobre os sentimentos e comportamentos pode</p><p>ser obtida dessa maneira e, no decorrer da atividade, as variáveis que atuam sobre o</p><p>comportamento podem ser esclarecidas.</p><p>Figura 5. Utilização de desenhos na TCI. Fonte: Adobe Stock. Acesso em: 18/10/2021.</p><p>Finalizando, as estratégias lúdicas são instrumentos importantes para a relação terapêutica bem</p><p>sucedida com as crianças, já que, por meio dessas, a sessão terapêutica se transforma em um</p><p>ambiente enriquecido para a aplicação de procedimentos comportamentais, como o reforço de</p><p>comportamentos adequados e a extinção de inadequados.</p><p>VAMOS REFORÇAR O QUE APRENDEMOS ATÉ AGORA?</p><p>Levando em consideração os procedimentos realizados no processo de terapia, relacione o nome</p><p>do procedimento à sua definição:</p><p> Anamnese - Análise do histórico de desenvolvimento da criança desde a gestação até os</p><p>dias atuais.</p><p> A hora do jogo - Instrumento utilizado para compreender a realidade da criança por meio da</p><p>ludicidade.</p><p> Devolutiva - Situação em que o psicoterapeuta infantil fala aos pais o que foi percebido na</p><p>avaliação.</p><p>Muito bem, a resposta está correta!</p><p>A anamnese é o procedimento utilizado para coletar as informações sobre a história de</p><p>desenvolvimento da criança, sobre a gestação, parto, marcos maturativos do desenvolvimento,</p><p>desenvolvimento social e da aprendizagem, a fim de compor o diagnóstico. A devolutiva consiste na</p><p>entrevista realizada ao final do processo de diagnóstico, em que o(a) psicoterapeuta infantil relata</p><p>aos pais/responsáveis o que foi encontrado no processo de avaliação. A hora do jogo é o processo</p><p>com recursos lúdicos para conhecer e compreender a realidade da criança.</p><p>Agora é a hora de sintetizar tudo o que aprendemos nessa unidade. Vamos lá?!</p><p>SINTETIZANDO...</p><p>O brincar e a brincadeira são temas muito relevantes e estudados em psicologia por serem</p><p>extremamente relevantes para o desenvolvimento infantil saudável. Brincar traz muitos benefícios e</p><p>vantagens para o desenvolvimento da criança, pois possibilita experiências enriquecedoras, que</p><p>auxiliam na adaptação à realidade e no exercício das atividades no cotidiano.</p><p>A brincadeira na infância ajuda na projetação de medos e angústias e na exposição dos problemas</p><p>enfrentados pela criança no dia a dia. Por sua vez, o brincar auxilia a desenvolver um bom</p><p>autoconhecimento, aumentando a autoestima e a autoconfiança da criança.</p><p>Além da ludicidade, o relacionamento adequado entre a família e instituições, como a escola, é</p><p>fundamental para o desenvolvimento integral na infância.</p><p>As atividades lúdicas são as que divertem, entretém e na psicoterapia infantil auxiliam na</p><p>exteriorização dos sintomas e no entendimento de como funciona o mundo interno e externo da</p><p>criança. A intervenção específica em psicoterapia usando a ludicidade é denominada ludoterapia,</p><p>que é uma metodologia cujo objetivo é o diagnóstico e intervenções com crianças com transtornos</p><p>emocionais, por meio do uso de brinquedos e brincadeiras.</p><p>A ludoterapia pode ser utilizada em diversas abordagens em psicoterapia infantil e é bastante</p><p>utilizada na psicanálise e na terapia comportamental.</p><p>Em qualquer abordagem, a premissa é que o processo ludoterapêutico possibilita o diagnóstico e</p><p>de intervenção dos casos clínicos e que os atendimentos que envolvam jogos, as atividades de</p><p>expressão artística, desenhos, dramatizações e outros tipos de recursos auxiliam no</p><p>desenvolvimento da expressão não verbal e verbal da criança sobre os seus sentimentos e</p><p>comportamentos.</p><p>Na hora do jogo diagnóstica, pode-se compreender a realidade e o mundo interno da criança em</p><p>atendimento, pois a atividade lúdica comunica os sentimentos e significados dos sintomas de modo</p><p>semelhante à verbalização que é utilizada na psicoterapia de adultos.</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>ABERASTURY, A. 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