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<p>Pierre Bourdieu</p><p>A Dominação Masculina</p><p>BERTRAND BRASIL</p><p>Em A Dominação Masculina, Pierre Bourdieu, mais uma</p><p>vez, aborda um controvertido tema atual, buscando</p><p>ver como esta estrutura de dominação se estabelece,</p><p>se "naturaliza" e assim se eterniza, perdendo-se de vista</p><p>ser parte de um processo histórico e,como tal, passível</p><p>de mudanças. Mudanças que esbarram num trabalho</p><p>incessante, ou seja, igualmente histórico, de reprodução,</p><p>pelos homens e instituições - Família, Escola, Igreja,</p><p>Estado - , lugares de elaboração e imposição de</p><p>princípios que fundamentam um acordo das estruturas</p><p>sociais e das estruturas cognitivas e se reforçam com</p><p>a violência simbólica, pela qual as estratégias e práticas</p><p>determinam a construção social dos corpos e fazem</p><p>do corpo uma realidade sexuada e depositário</p><p>dos princípios de visão e de divisão sexuaiizantes.</p><p>Recorrendo a uma estratégia de objetivação (como</p><p>as estruturas de dominação da ordem social masculina</p><p>se estabelecem na sociedade cabiia), percorre as</p><p>estratégias e práticas que determinam a construção</p><p>social dos corpos e resultam na incorporação da</p><p>dominação; a violência simbólica que se institui quando</p><p>o dominado só dispõe para pensar a dominação de</p><p>instrumentos ou classificações naturalizados de que seu</p><p>ser social é produto;a posição da mulher na economia</p><p>de bens simbólicos,com o apoio da família e da Igreja,</p><p>guardiãs do capital simbólico; as constantes ocultas que</p><p>geram um"natural"construído,de escolhas orientadas,</p><p>que têm o masculino como medida de todas as coisas</p><p>e a própria ordem social como imensa máquina</p><p>simbólica, que ratifica a dominação masculina na divisão</p><p>social do trabalho e na divisão do trabalho sexual,</p><p>na estruturação do espaço, do tempo e do corpo.</p><p>A DOMINAÇÃO MASCULINA</p><p>Do mesmo autor:</p><p>Livre-Troca</p><p>(com Hans Haacke)</p><p>Meditações Pascalianas</p><p>O Poder Simbólico</p><p>Pierre Bourdieu</p><p>A DOMINAÇÃO</p><p>MASCULINA</p><p>11a EDIÇÃO</p><p>Tradução</p><p>Maria Helena Kühner</p><p>BERTRAND BRASIL</p><p>Copyright © Editions du Seuil, 1998</p><p>Título original: La domination masculine</p><p>Capa: Simone Villas-Boas</p><p>Revisão da tradução: Gustavo Sora</p><p>Editoração: DFL</p><p>2012</p><p>Impresso no Brasil</p><p>Printed in Brazil</p><p>CIP-Brasil. Catalogação na fonte</p><p>Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ</p><p>B778d</p><p>lTed.</p><p>99-035:</p><p>Bourdieu, Pierre, 1930-2002</p><p>A dominação masculina/Pierre</p><p>Kühner. - 11° ed. - Rio de Janeiro</p><p>160p.</p><p>Bourdieu tradução Maria Helena</p><p>Bertrand Brasil, 2012.</p><p>Tradução de: La domination masculine</p><p>Inclui anexo</p><p>ISBN 978-85-286-0705-5</p><p>1. Papel sexual. 2. Dominação</p><p>sociais). 4. Homem - Psicologia. I</p><p>(Psicologia). 3. Poder (Ciências</p><p>Título. "</p><p>CDD -306.7</p><p>CDU-316.346.2</p><p>Todos os direitos reservados pela:</p><p>EDITORA BERTRAND BRASIL LTDA.</p><p>Rua Argentina, 171 - 2° andar - São Cristóvão</p><p>20921-380 - Rio de Janeiro - RJ</p><p>Tel.: (0XX21) 2585-2070 - Fax: (0XX21) 2585-2087</p><p>Não é permitida a reprodução total ou parcial desta obra, por quaisquer</p><p>meios, sem a prévia autorização por escrito da Editora.</p><p>Atendimento e venda direta ao leitor</p><p>mdireto@record.com.br ou (0XX21) 2585-2002</p><p>A ETERNIZAÇÃO DO ARBITRÁRIO</p><p>Este livro, em que pude precisar, reforçar e corrigir minhas análises</p><p>anteriores sobre o mesmo tema, apoiando-me no grande número de trabalhos dedicados às</p><p>relações entre os sexos, põe em questão explicitamente a questão, obsessivamente lembrada pela</p><p>maior parte dos analistas (e de meus críticos) da permanência ou da mudança (constatadas ou</p><p>desejadas), da ordem sexual: é, de fato, a importação e a imposição desta alternativa ingênua e</p><p>ingenuamente normativa que levam a perceber, contra toda evidência, a constatação da cons</p><p>tância relativa das estruturas sexuais e dos esquemas através do quais elas são percebidas como</p><p>uma maneira condenável e imediatamente condenada, falsa e imediatamente refutada (lem</p><p>brando todas as transformações na situação das mulheres), de negar e de condenar as</p><p>mudanças desta situação.</p><p>A esta questão torna-se necessário opor uma outra, mais pertinente cientificamente e</p><p>sem dúvida, também, a meu ver, mais urgente politicamente: se é verdade que as relações</p><p>entre os sexos se transformaram menos do que uma observação superficial poderia fazer crer</p><p>e que o conhecimento das estruturas objetivas e das estruturas cognitivas de uma sociedade</p><p>androcêntrica particularmente bem conservada (como a sociedade cabila, tal como pude</p><p>observá-la no início dos anos sessenta) fornece instrumentos que permitem compreender</p><p>alguns dos aspectos melhor dissimulados daquilo que são essas relações nas sociedades con</p><p>temporâneas mais avançadas economicamente, é preciso realmente perguntar-se quais são os</p><p>mecanismos históricos que são responsáveis pela des-historicização e pela eternização das estru</p><p>turas da divisão sexual e dos princípios de divisão correspondentes. Colocar o problema</p><p>nestes termos é marcar um progresso na ordem do conhecimento que pode estar no princípio</p><p>de um progresso decisivo na ordem da ação. Lembrar que aquilo que, na história, aparece</p><p>como eterno não é mais que o produto de um trabalho de eternização que compete a institui</p><p>ções interligadas tais como a família, a igreja, a escola, e também, em uma outra ordem, o</p><p>esporte e o jornalismo (estas noções abstratas sendo simples designações estenográficas de</p><p>mecanismos complexos, que devem ser analisados em cada caso em sua particularidade</p><p>histórica) é reinserir na história e, portanto, devolver à ação histórica, a relação entre os sexos</p><p>que a visão naturalista e essencialista dela arranca (e não, como quiseram me fazer dizer, ten</p><p>tar parar a história e retirar às mulheres seu papel de agentes históricos).</p><p>É contra estas forças históricas de des-historicização que deve orientar-se, prioritaria</p><p>mente, uma iniciativa de mobilização visando repor em marcha a história, neutralizando os</p><p>mecanismos de neutralização da história. Esta mobilização marcadamente política, que abriria</p><p>às mulheres a possibilidade de uma ação coletiva de resistência, orientada no sentido de refor</p><p>mas jurídicas e políticas, opõe-se tanto à resignação a que encorajam as visões essencialistas</p><p>(biologistas e psicanalíticas) da diferença entre os sexos quanto à resistência reduzida a atos</p><p>individuais ou a estes happenings discursivos sempre recomeçados que preconizam certas</p><p>doutrinas teóricas feministas: estas rupturas heróicas da rotina cotidiana, como as "parodie</p><p>performances" tão caras a Judith Butler, exigem, sem dúvida, demais para um resultado muito</p><p>diminuto e demasiado incerto.</p><p>Convocar as mulheres a se comprometerem com uma ação política que rompe com a</p><p>tentação da revolta introvertida de pequenos grupos de solidariedade e ajuda mútua, por mais</p><p>necessários que estes sejam nas vicissitudes da vida diária, na casa, na fábrica, ou no escritório,</p><p>não é, como se poderia crer, e temer, convidá-las a aliar-se sem luta às formas e às normas</p><p>ordinárias da luta política, com o risco de se verem atreladas ou engolfadas em movimentos</p><p>estranhos a suas preocupações e a seus interesses específicos. É desejar que elas saibam traba</p><p>lhar para inventar e impor, no seio mesmo do movimento social e apoiando-se em organiza</p><p>ções nascidas da revolta contra a discriminação simbólica, de que elas são, juntamente com os</p><p>(as) homossexuais, um dos alvos privilegiados, formas de organização e de ação coletivas e</p><p>armas eficazes, simbólicas sobretudo, capazes de abalar as instituições, estatais e jurídicas, que</p><p>contribuem para eternizar sua subordinação.</p><p>PIERRE BOURDIEU</p><p>Prefácio à edição alemã</p><p>mailto:mdireto@record.com.br</p><p>PREÂMBULO*</p><p>Certamente não me teria confrontado com as</p><p>sunto tão difícil se não tivesse sido levado a isso por toda a lógi</p><p>ca de minha pesquisa. De fato, jamais deixei de me espantar</p><p>diante do que poderíamos chamar de o paradoxo da ãóxa: o fato</p><p>de que a ordem do mundo, tal como está, com seus sentidos úni</p><p>cos e seus sentidos proibidos, em sentido próprio ou figurado,</p><p>suas obrigações e suas sanções, seja grosso</p><p>a maneira correta de amarrar</p><p>sua cintura ou seus cabelos, de mover ou manter imóvel tal ou</p><p>qual parte de seu corpo ao caminhar, de mostrar o rosto e de diri</p><p>gir o olhar.</p><p>38 PIERRE B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>Essa aprendizagem é ainda mais eficaz por se manter, no</p><p>essencial, tácita: a moral feminina se impõe, sobretudo, através de</p><p>uma disciplina incessante, relativa a todas as partes do corpo, e</p><p>que se faz lembrar e se exerce continuamente através da coação</p><p>quanto aos trajes ou aos penteados. Os princípios antagônicos da</p><p>identidade masculina e da identidade feminina se inscrevem,</p><p>assim, sob forma de maneiras permanentes de se servir do corpo,</p><p>ou de manter a postura, que são como que a realização, ou me</p><p>lhor, a naturalização de uma ética. Assim como a moral da honra</p><p>masculina pode ser resumida em uma palavra, cem vezes repetida</p><p>pelos informantes, qabel, enfrentar, olhar de frente e com a postu</p><p>ra ereta (que corresponde à de um militar perfilado entre nós),</p><p>prova da retidão que ela faz ver,43 do mesmo modo a submissão</p><p>feminina parece encontrar sua tradução natural no fato de se in</p><p>clinar, abaixar-se, curvar-se, de se submeter (o contrário de "pôr-</p><p>se acima de"), nas posturas curvas, flexíveis, e na docilidade cor</p><p>relativa que se julga convir à mulher. A educação elementar tende</p><p>a inculcar maneiras de postar todo o corpo, ou tal ou qual de suas</p><p>partes (a mão direita, masculina, ou a mão esquerda, feminina), a</p><p>maneira de andar, de erguer a cabeça ou os olhos, de olhar de</p><p>frente, nos olhos, ou, pelo contrário, abaixá-los para os pés etc,</p><p>maneiras que estão prenhes de uma ética, de uma política e de</p><p>uma cosmologia (toda a nossa ética, sem falar em nossa estética,</p><p>assenta-se no sistema dos adjetivos cardeais, elevado/baixo, direi</p><p>to/torto, rígido/flexível, aberto/fechado, uma boa parte dos quais</p><p>designa também posições ou disposições do corpo ou de alguma</p><p>de suas partes — e.g. a "fronte alta" ou a "cabeça baixa").</p><p>A postura submissa que se impõe às mulheres cabilas repre</p><p>senta o limite máximo da que até hoje se impõe às mulheres, tan</p><p>to nos Estados Unidos quanto na Europa, e que, como inúmeros</p><p>observadores já demonstraram, revela-se em alguns imperativos:</p><p>43. Sobre o termo qabel, que esto ele próprio ligado às orientações básicos do espa</p><p>ço e de toda a visão de mundo, cf. P. Bourdieu, Le Sens pratique, op. cit., p. 15).</p><p>UMA I M A G E M A M P L I A D A 39</p><p>sorrir, baixar os olhos, aceitar as interrupções etc. Nancy M.</p><p>Henley mostra como se ensina às mulheres ocupar o espaço,</p><p>caminhar e adotar posições corporais convenientes. Frigga Haug</p><p>também tentou fazer ressurgir (com um método que chamou de</p><p>memory work, visando a resgatar histórias de infância, discutidas</p><p>e interpretadas coletivamente) os sentimentos relacionados com</p><p>as diferentes partes do corpo, com as costas a serem mantidas</p><p>retas, com as pernas que não devem ser afastadas etc. e tantas</p><p>outras posturas que estão carregadas de uma significação moral</p><p>(sentar de pernas abertas é vulgar, ter barriga é prova de falta de</p><p>vontade etc.).44 Como se a feminilidade se medisse pela arte de "se</p><p>fazer pequena" (o feminino, em berbere, vem sempre em diminu</p><p>tivo), mantendo as mulheres encerradas em uma espécie de cerco</p><p>invisível (do qual o véu não é mais que a manifestação visível),</p><p>limitando o território deixado aos movimentos e aos deslocamen</p><p>tos de seu corpo — enquanto os homens tomam maior lugar com</p><p>seu corpo, sobretudo em lugares públicos. Essa espécie de confina-</p><p>mento simbólico é praticamente assegurado por suas roupas (o</p><p>que é algo mais evidente ainda em épocas mais antigas) e tem por</p><p>efeito não só dissimular o corpo, chamá-lo continuamente à</p><p>ordem (tendo a saia uma função semelhante à sotaina dos padres)</p><p>sem precisar de nada para prescrever ou proibir explicitamente</p><p>("minha mãe nunca me disse para não ficar de pernas abertas"):</p><p>ora com algo que limita de certo modo os movimentos, como os</p><p>saltos altos ou a bolsa que ocupa permanentemente as mãos, e</p><p>sobretudo a saia que impede ou desencoraja alguns tipos de ativi</p><p>dades (a corrida, algumas formas de se sentar etc); ora só as per</p><p>mitindo à custa de precauções constantes, como no caso das</p><p>jovens que puxam seguidamente para baixo uma saia demasiado</p><p>44. f. Haug et ai., Female Sexualization. A Collective Work of Memory, Londres,</p><p>Verso, 1987. Embora os autores não pareçam estar conscientes disso, essa aprendi</p><p>zagem da submissão do corpo, que se dá com a cumplicidade das mulheres, apesar</p><p>da obrigatoriedade que lhes impõe, é fortemente marcada socialmente, e a incorpo</p><p>ração da feminilidade é inseparável de uma incorporação da distinção, ou melhor,</p><p>do menosprezo pela vulgaridade atribuída aos decotes muito ousados, às minissaias</p><p>demasiado curtas e às maquilagens muito sobrecarregadas (mas no maior parte das</p><p>vezes vistas como muito "femininas"...).</p><p>40 P I E R R E B O U R D I E Ü / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>curta, ou se esforçam por cobrir com o antebraço uma blusa exces</p><p>sivamente decotada, ou têm que fazer verdadeiras acrobacias para</p><p>apanhar no chão um objeto mantendo as pernas fechadas.45 Essas</p><p>maneiras de usar o corpo, profundamente associadas à atitude</p><p>moral e à contenção que convêm às mulheres, continuam a lhes</p><p>ser impostas, como que à sua revelia, mesmo quando deixaram de</p><p>lhes ser impostas pela roupa (como o andar com passinhos rápi</p><p>dos de algumas jovens de calças compridas e sapatos baixos). E as</p><p>poses ou as posturas mais relaxadas, como o fato de se balançarem</p><p>na cadeira, ou de porem os pés sobre a mesa, que são por vezes</p><p>vistas nos homens — do mais alto escalão — como forma de</p><p>demonstração de poder, ou, o que dá no mesmo, de afirmação</p><p>são, para sermos exatos, impensáveis para uma mulher.46</p><p>Aos que objetariam que inúmeras mulheres romperam atual</p><p>mente com as normas e formas tradicionais daquela contenção,</p><p>apontando sua atual exibição controlada do corpo como um sinal</p><p>de "liberação", basta mostrar que este uso do próprio corpo conti</p><p>nua, de forma bastante evidente, subordinado ao ponto de vista</p><p>masculino (como bem se vê no uso que a publicidade faz da</p><p>mulher, ainda hoje, na França, após meio século de feminismo): o</p><p>corpo feminino, ao mesmo tempo oferecido e recusado, manifes</p><p>ta a disponibilidade simbólica que, como demonstraram inúme</p><p>ros trabalhos feministas, convém à mulher, e que combina um</p><p>poder de atração e de sedução conhecido e reconhecido por todos,</p><p>homens ou mulheres, e adequado a honrar os homens de quem</p><p>45. Cf. N. M. Henley, op. cit., pp. 38, 89-91 e também pp. 142-144: a reprodução</p><p>de um cartoon intitulado "Exercícios para Homens", que mostra "o absurdo das pos</p><p>turas" que se julgam convir às mulheres.</p><p>46. Tudo o que fica em estado implícito na aprendizagem da feminilidade é levado a</p><p>ser explicado nas "escolas de recepcionistas" e seus cursos de preparação e de boas</p><p>maneiras, onde, como observou Yvette Delsaut, aprende-se a caminhar, a manter-se de</p><p>pé (com as mãos atrás das costas, os pés paralelos], a sorrir, a subir e descer uma</p><p>escada (sem olhar para os pés), a sentar-se à mesa (a recepcionista tem que fazer com</p><p>que tudo saia correto, sem que se perceba), a tratar os hóspedes/clientes ("mostrar-se</p><p>amável", "responder gentilmente"/, a ter "compostura", no duplo sentido, de saber por</p><p>tar-se e da maneira de se vestir ("sem cores berrantes, demasiado fortes ou agressi</p><p>vas") e de se maquilar.</p><p>U M A I M A G E M A M P L I A D A 41</p><p>ela depende ou aos quais está ligada, com um dever de recusa sele</p><p>tiva que acrescenta, ao efeito de "consumo ostentatório", o preço</p><p>da exclusividade.</p><p>As divisões constitutivas da ordem social e, mais precisamen</p><p>te, as relações sociais de dominação e de exploração que estão ins</p><p>tituídas entre os gêneros se inscrevem, assim, progressivamente</p><p>em duas classes de habitus diferentes, sob a forma de hexis corpo</p><p>rais opostos e complementares e de princípios de visão e de divi</p><p>são, que levam a classificar todas</p><p>as coisas do mundo e todas as</p><p>práticas segundo distinções redutíveis à oposição entre o masculi</p><p>no e o feminino. Cabe aos homens, situados do lado do exterior,</p><p>do oficial, do público, do direito, do seco, do alto, do descontínuo,</p><p>realizar todos os atos ao mesmo tempo breves, perigosos e espeta</p><p>culares, como matar o boi, a lavoura ou a colheita, sem falar do</p><p>homicídio e da guerra, que marcam rupturas no curso ordinário</p><p>da vida. As mulheres, pelo contrário, estando situadas do lado do</p><p>úmido, do baixo, do curvo e do contínuo, vêem ser-lhes atribuí</p><p>dos todos os trabalhos domésticos, ou seja, privados e escondidos,</p><p>ou até mesmo invisíveis e vergonhosos, como o cuidado das</p><p>crianças e dos animais, bem como todos os trabalhos exteriores</p><p>que lhes são destinados pela razão mítica, isto é, os que levam a</p><p>lidar com a água, a erva, o verde (como arrancar as ervas daninhas</p><p>ou fazer a jardinagem), com o leite, com a madeira e, sobretudo,</p><p>os mais sujos, os mais monótonos e mais humildes. Pelo fato de o</p><p>mundo limitado em que elas estão confinadas, o espaço do vilare</p><p>jo, a casa, a linguagem, os utensílios, guardarem os mesmos ape</p><p>los à ordem silenciosa, as mulheres não podem senão tornar-se o</p><p>que elas são segundo a razão mítica, confirmando assim, e antes de</p><p>mais nada a seus próprios olhos, que elas estão naturalmente des</p><p>tinadas ao baixo, ao torto, ao pequeno, ao mesquinho, ao fútil etc.</p><p>Elas estão condenadas a dar, a todo instante, aparência de funda</p><p>mento natural à identidade minoritária que lhes é socialmente</p><p>designada: é a elas que cabe a tarefa longa, ingrata e minuciosa de</p><p>catar, no chão mesmo, as azeitonas ou achas de madeira, que os</p><p>homens, armados com a vara ou com o machado, deitaram por</p><p>42 PIERRE B O U B D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>terra; são elas que, encarregadas das preocupações vulgares da</p><p>gestão quotidiana da economia doméstica, parecem comprazer-se</p><p>com as mesquinharias do cálculo, das contas e dos ganhos que o</p><p>homem de honra deve ignorar. (Eu me lembro, assim, que em</p><p>minha infância os homens, vizinhos e amigos, que haviam mata</p><p>do o porco pela manhã, em uma breve exibição, sempre um tanto</p><p>ostentatória, de violência — gritos do animal fugindo, grandes</p><p>facões, sangue derramado etc. — ficavam a tarde toda, e às vezes</p><p>até o dia seguinte, jogando tranqüilamente baralho, interrompen</p><p>do apenas para erguer algum caldeirão mais pesado, enquanto as</p><p>mulheres da casa corriam para todos os lados preparando os</p><p>chouriços, as salsichas, os salsichões e os patês.) Os homens (e as</p><p>próprias mulheres) não podem senão ignorar que é a lógica da</p><p>relação de dominação que chega a impor e inculcar nas mulheres,</p><p>ao mesmo título das virtudes e da moral que lhes impõem, todas</p><p>as propriedades negativas que a visão dominante atribui à sua</p><p>natureza, como a astúcia ou, para lembrar um traço mais favorá</p><p>vel, a intuição.</p><p>Forma peculiar da lucidez especial dos dominados, o que cha</p><p>mamos de "intuição feminina" é, em nosso universo mesmo, inse</p><p>parável da submissão objetiva e subjetiva que estimula, ou obriga, à</p><p>atenção, e às atenções, à observação e à vigilância necessárias para</p><p>prever os desejos ou pressentir os desacordos. Muitas pesquisas</p><p>puseram em evidência a perspicácia peculiar dos dominados,</p><p>sobretudo das mulheres (e muito especialmente das mulheres</p><p>dupla ou triplicemente dominadas, como as donas de casa negras,</p><p>de que fala Judith Rollins em Between Women): mais sensíveis aos</p><p>sinais não verbais (sobretudo à inflexão) que os homens, as mulhe</p><p>res sabem identificar melhor uma emoção não representada verbal</p><p>mente e decifrar o que está implícito em um diálogo;47 segundo</p><p>uma pesquisa realizada por dois estudiosos holandeses, elas são</p><p>capazes de falar de seus maridos dando uma série de detalhes, ao</p><p>47. Cf. W. N. Thompson, Quantitative Research ín Public Address and Communi</p><p>cation, New York, Rondom House, 1967, pp. 47-48.</p><p>UMA I M A G E M AMP LI AD A 43</p><p>passo que os homens não conseguem descrever suas mulheres</p><p>senão com estereótipos muito vagos, válidos para "as mulheres em</p><p>geral".48 Os mesmos autores sugerem que os homossexuais, tendo</p><p>necessariamente sido educados como heterossexuais, interioriza</p><p>ram o ponto de vista dominante e podem assumir este ponto de vis</p><p>ta a respeito de si mesmos (o que os inclina a uma espécie de discor</p><p>dância cognitiva e avaliativa capaz de contribuir para sua especial</p><p>clarividência), bem como compreender o ponto de vista dos domi</p><p>nantes melhor do que eles podem compreender o seu.</p><p>Simbolicamente votadas à resignação e à discrição, as mulhe</p><p>res só podem exercer algum poder voltando contra o forte sua</p><p>própria força, ou aceitando se apagar, ou, pelo menos, negar um</p><p>poder que elas só podem exercer por procuração (como eminên</p><p>cias pardas). Mas, segundo a lei enunciada por Lucien Bianco ao</p><p>falar das resistências camponesas na China, "as armas do fraco são</p><p>sempre armas fracas".49 As próprias estratégias simbólicas que as</p><p>mulheres usam contra os homens, como as da magia, continuam</p><p>dominadas, pois o conjunto de símbolos e agentes míticos que</p><p>elas põem em ação, ou os fins que elas buscam (como o amor, ou</p><p>a impotência, do homem amado ou odiado), têm seu princípio</p><p>em uma visão androcêntrica em nome da qual elas são domina</p><p>das. Insuficientes para subverter realmente a relação de domina</p><p>ção, tais estratégias acabam resultando em confirmação da repre</p><p>sentação dominante das mulheres como seres maléficos, cuja</p><p>identidade, inteiramente negativa, é constituída essencialmente</p><p>de proibições, que acabam gerando igualmente ocasiões de trans</p><p>gressão. É o caso, sobretudo, de todas as formas de violência não</p><p>declarada, quase invisível por vezes, que as mulheres opõem à vio</p><p>lência física ou simbólica exercida sobre elas pelos homens, e que</p><p>vão da magia, da astúcia, da mentira ou da passividade (principal-</p><p>48. Cf. A. Van Stolk e C.Wouters, "Power Changes and Self-Respect: Comparison of</p><p>Two Cases of Established-Outsiders Relations", Theory, Culture and Society, 4 (2-3),</p><p>1987, pp. 477-488.</p><p>49. L. Bianco, "Résistance paysanne", Actuel Marx, 22, 22 semestre, 1997, pp. 138-</p><p>152.</p><p>44 P I E R R E B O U R P I Ë U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>mente no ato sexual) ao amor possessivo dos possessos, como o</p><p>da mãe mediterrânea ou da esposa maternal, que vitimiza e culpa</p><p>biliza, vitimizando-se e oferecendo a infinitude de sua devoção e</p><p>de seu sofrimento mudo em doação sem contrapartida possível,</p><p>ou tornada dívida sem resgate. As mulheres, façam o que fizerem,</p><p>estão, assim, condenadas a dar provas de sua malignidade e a jus</p><p>tificar a volta às proibições e ao preconceito que lhes atribui uma</p><p>essência maléfica — segundo a lógica, obviamente trágica, que</p><p>quer que a realidade social que produz a dominação venha muitas</p><p>vezes a confirmar as representações que ela invoca a seu favor,</p><p>para se exercer e se justificar.</p><p>A visão androcêntrica é assim continuamente legitimada pelas</p><p>próprias práticas que ela determina: pelo fato de suas disposições re</p><p>sultarem da incorporação do preconceito desfavorável contra o femi</p><p>nino, instituído na ordem das coisas, as mulheres não podem senão</p><p>confirmar seguidamente tal preconceito. Essa lógica é a de maldição,</p><p>no sentido profundo de uma self-fulfilling prophecy pessimista, que</p><p>provoca sua própria verificação e faz acontecer o que ela prognosti</p><p>ca. Ela está em curso, quotidianamente, em inúmeras trocas entre os</p><p>sexos: as mesmas disposições que levam os homens a deixar às</p><p>mulheres as tarefas inferiores e as providências ingratas e mesqui</p><p>nhas (tais como, em nosso universo, pedir preços, verificar faturas e</p><p>solicitar um desconto), desembaraçando-se de todas as condutas</p><p>pouco compatíveis com a idéia que eles têm de sua dignidade,</p><p>levam-nos igualmente a reprovar a "estreiteza de espírito" delas, ou</p><p>sua "mesquinharia terra-a-terra", ou até a culpá-las se elas fracassam</p><p>nos empreendimentos que deixaram a seu cargo — sem no entanto</p><p>chegar a lhes dar crédito no caso</p><p>de um sucesso eventual.50</p><p>50. As entrevistos e observações que realizamos quando de nossas pesquisas sobre a</p><p>economia da produção de bens simbólicos nos deram repetidas ocasiões de verificar</p><p>que essa lógica ainda é atuante hoje em dia e bem próxima a nós (Cf. P. Bourdieu,</p><p>"Un contrat sous contrainte", Actes de la recherche en sciences sociales, 81-82, março</p><p>1990, pp. 34-51]. Embora os homens não possam mais afetar sempre o mesmo arro</p><p>gante desprezo para com as preocupações mesquinhas da economia (salvo, talvez,</p><p>nos universos culturais), não é raro afirmarem sua altura estatutária, sobretudo quando</p><p>ocupam posições de autoridade, marcando sua indiferença em relação às questões</p><p>subalternas de intendência, quase sempre deixadas a cargo das mulheres.</p><p>U M A I M A G E M A M P L I A D A 45</p><p>A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA</p><p>A dominação masculina encontra, assim, reunidas todas as</p><p>condições de seu pleno exercício. A primazia universalmente con</p><p>cedida aos homens se afirma na objetividade de estruturas sociais</p><p>e de atividades produtivas e reprodutivas, baseadas em uma divi</p><p>são sexual do trabalho de produção e de reprodução biológica e</p><p>social, que confere aos homens a melhor parte, bem como nos</p><p>esquemas imanentes a todos os habitas: moldados por tais condi</p><p>ções, portanto objetivamente concordes, eles funcionam como</p><p>matrizes das percepções, dos pensamentos e das ações de todos os</p><p>membros da sociedade, como transcendentais históricos que, sen</p><p>do universalmente partilhados, impõem-se a cada agente como</p><p>transcendentes. Por conseguinte, a representação androcêntrica</p><p>da reprodução biológica e da reprodução social se vê investida da</p><p>objetividade do senso comum, visto como senso prático, dóxico,</p><p>sobre o sentido das práticas. E as próprias mulheres aplicam a</p><p>toda a realidade e, particularmente, às relações de poder em que se</p><p>vêem envolvidas esquemas de pensamento que são produto da</p><p>incorporação dessas relações de poder e que se expressam nas</p><p>oposições fondantes da ordem simbólica. Por conseguinte, seus</p><p>atos de conhecimento são, exatamente por isso, atos de reconheci</p><p>mento prático, de adesão dóxica, crença que não tem que se pen</p><p>sar e se afirmar como tal e que "faz", de certo modo, a violência</p><p>simbólica que ela sofre.51</p><p>Embora eu não tenha a menor ilusão quanto a meu poder de</p><p>dissipar de antemão todos os mal-entendidos, gostaria apenas de</p><p>prevenir contra os contra-sensos mais grosseiros que são comu-</p><p>mente cometidos a propósito da noção de violência simbólica e</p><p>que têm todos por princípio uma interpretação mais ou menos</p><p>redutora do adjetivo "simbólico", aqui usado em um sentido que</p><p>5 1 . Os indícios verbais ou não verbais que designam a posição simbolicamente</p><p>dominante (do homem, do nobre, do chefe etc.) só podem ser compreendidos (tal</p><p>como as insígnias militares, que se tem que saber 1er) pelas pessoas que aprenderam</p><p>a decifrar seu "código".</p><p>46 PIERRE B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>eu considero rigoroso e cujos fundamentos teóricos já expliquei</p><p>em trabalho anterior.52 Ao tomar "simbólico" em um de seus sen</p><p>tidos mais correntes, supõe-se, por vezes, que enfatizar a violência</p><p>simbólica é minimizar o papel da violência física e (fazer) esque</p><p>cer que há mulheres espancadas, violentadas, exploradas, ou, o</p><p>que é ainda pior, tentar desculpar os homens por essa forma de</p><p>violência. O que não é, obviamente, o caso. Ao se entender "sim</p><p>bólico" como o oposto de real, de efetivo, a suposição é de que a</p><p>violência simbólica seria uma violência meramente "espiritual" e,</p><p>indiscutivelmente, sem efeitos reais. É esta distinção simplista,</p><p>característica de um materialismo primário, que a teoria materia</p><p>lista da economia de bens simbólicos, em cuja elaboração eu</p><p>venho há muitos anos trabalhando, visa a destruir, fazendo ver, na</p><p>teoria, a objetividade da experiência subjetiva das relações de</p><p>dominação.</p><p>Outro mal-entendido: a referência à etnologia, cujas funções</p><p>heurísticas tentei mostrar aqui, é suspeita de ser um meio de res</p><p>taurar, sob uma capa científica, o mito do "eterno feminino" (ou</p><p>masculino) ou, o que é mais grave, de eternizar a estrutura de</p><p>dominação masculina descrevendo-a como invariável e eterna.</p><p>Ora, longe de afirmar que as estruturas de dominação são a-histó-</p><p>ricas, eu tentarei, pelo contrário, comprovar que elas são produto</p><p>de um trabalho incessante (e, como tal, histórico) de reprodução,</p><p>para o qual contribuem agentes específicos (entre os quais os</p><p>homens, com suas armas como a violência física e a violência sim</p><p>bólica) e instituições, famílias, Igreja, Escola, Estado.</p><p>Os dominados aplicam categorias construídas do ponto de</p><p>vista dos dominantes às relações de dominação, fazendo-as assim</p><p>ser vistas como naturais. O que pode levar a uma espécie de auto-</p><p>depreciação ou até de autodesprezo sistemáticos, principalmente</p><p>visíveis, como vimos acima, na representação que as mulheres</p><p>cabilas fazem de seu sexo como algo deficiente, feio ou até repul-</p><p>52. Cf. P. Bourdieu, "Sur le pouvoir symbolique", Annales, 3, maio-junho 1977, pp.</p><p>405-411.</p><p>UMA I M A G E M A M P L I A D A 47</p><p>sivo (ou, em nosso universo, na visão que inúmeras mulheres têm</p><p>do próprio corpo, quando não conforme aos cânones estéticos</p><p>impostos pela moda), e de maneira mais geral, em sua adesão a</p><p>uma imagem desvalorizadora da mulher.53 A violência simbólica</p><p>se institui por intermédio da adesão que o dominado não pode</p><p>deixar de conceder ao dominante (e, portanto, à dominação)</p><p>quando ele não dispõe, para pensá-la e para se pensar, ou melhor,</p><p>para pensar sua relação com ele, mais que de instrumentos de</p><p>conhecimento que ambos têm em comum e que, não sendo mais</p><p>que a forma incorporada da relação de dominação, fazem esta</p><p>relação ser vista como natural; ou, em outros termos, quando os</p><p>esquemas que ele põe em ação para se ver e se avaliar, ou para ver</p><p>e avaliar os dominantes (elevado/baixo, masculino/feminino,</p><p>branco/negro etc), resultam da incorporação de classificações,</p><p>assim naturalizadas, de que seu ser social é produto.</p><p>Por não poder evocar com sutileza suficiente (seria necessária</p><p>uma Virginia Woolf para tal) exemplos suficientemente numero</p><p>sos, bastante diversos e bem gritantes de situações concretas em</p><p>que esta violência doce e quase sempre invisível se exerce, limitar-</p><p>me-ei a observações que, em seu objetivismo, impõem-se de</p><p>maneira mais indiscutível que a descrição das interações em seus</p><p>mais mínimos detalhes. Constatou-se, por exemplo, que as</p><p>mulheres francesas, em sua grande maioria, declaram que elas</p><p>desejariam ter um cônjuge mais velho e, também, de modo intei</p><p>ramente coerente, mais alto que elas, dois terços delas chegando a</p><p>recusar explicitamente um homem menor.54 Que significa essa</p><p>53. É muito freqüente, como constatamos no decorrer de entrevistas realizadas na</p><p>França em 1996, as mulheres expressarem a dificuldade que têm em aceitar o pró</p><p>prio corpo.</p><p>54. Seguindo a mesma lógica, Myra Marx Ferrée lembra que o principal obstáculo à</p><p>divisão do trabalho doméstico reside no fato de que as tarefas domésticas são vistas</p><p>como algo que não cabe a "homens de verdade" {unfit for 'real men'j e observa que</p><p>as mulheres escondem a ajuda que recebem do marido por medo de diminuí-lo (cf. M.</p><p>Marx Ferrée, "Sacrifice, Satisfaction and Social Change: Employment and the Family",</p><p>em K. Brooklin Sacks e D. Remy [eds.], My Troubles are Coing to Hâve Trouble with</p><p>Me, New Brunswick, [N. J.J, Rutgers University Press, 1984, p. 73).</p><p>48 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>recusa de ver desaparecerem os signos correntes da "hierarquia"</p><p>sexual? "Aceitar uma inversão das aparências, responde Michel</p><p>Bozon, é fazer crer que é a mulher que domina, algo que (parado</p><p>xalmente) a rebaixa socialmente: ela se sente diminuída com um</p><p>homem diminuído".55 Portanto, não basta observar que as mulhe</p><p>res concordam em geral com os homens (que, por sua vez, prefe</p><p>rem mulheres mais jovens) na aceitação dos signos exteriores de</p><p>uma posição dominada; elas levam em conta, na representação</p><p>que se fazem de sua relação com o homem a que sua identidade</p><p>está (ou será) ligada, a representação que o conjunto dos homens</p><p>e mulheres serão inevitavelmente levados a fazer dele, aplicando</p><p>os esquemas de percepção e de avaliação universalmente partilha</p><p>dos (no grupo em questão). Pelo fato de esses princípios comuns</p><p>exigirem, de maneira tácita e indiscutível, que o homem ocupe,</p><p>pelo menos aparentemente e com relação ao exterior, a posição</p><p>dominante no casal, é por ele, pela dignidade que nele reconhe</p><p>cem a priori e querem ver universalmente reconhecida, mas tam</p><p>bém por elas próprias, para sua própria dignidade, que elas só</p><p>podem querer e amar um homem cuja dignidade esteja claramen</p><p>te afirmada e atestada no fato, e pelo fato, de que "ele as supera"</p><p>visivelmente. Isto, evidentemente, sem o menor cálculo, através</p><p>da arbitrariedade aparente de uma tendência que não se discute</p><p>nem se argumenta, mas que, como o comprova a observação des</p><p>sas distâncias não só desejadas como também reais, apenas pode</p><p>nascer e realizar-se na experiência de uma superioridade, cujos</p><p>signos mais indiscutíveis e mais reconhecidos por todos são a ida</p><p>de e o tamanho (justificados como índices de maturidade e garan</p><p>tias de segurança).56</p><p>55. M. Bozon, "Les femmes et l'écart d'âge entre conjoints: une domination consen</p><p>tie", I: "Types d'union et attentes en matière d'écart d'âge", Population, 2, 1990, pp.</p><p>327-360; II: "Modes d'entrée dans la vie adulte et représentations du conjoint", Popu</p><p>lation, 3, 1990, pp. 565-602; "Apparence physique et choix du conjoint", INED,</p><p>Congrès et colloques, 7, 1991, pp. 91 -110.</p><p>56. Deveríamos lembrar aqui os jogos sutis pelos quais, no Cabília, certas mulheres</p><p>(honradas), embora dominassem, sabiam adotar uma atitude de submissão que permi</p><p>tia ao homem parecer e sentir-se como dominante.</p><p>U M A I M A G E M A M P L I A D A 49</p><p>Para levar a cabo paradoxos que somente uma visão de tais</p><p>tendências permite compreender, basta notar que as mulheres que</p><p>se mostram mais submissas ao modelo "tradicional" — e que</p><p>dizem preferir uma maior diferença de idade — encontram-se</p><p>sobretudo entre as artesãs, as comerciantes, as camponesas e as</p><p>operárias, categorias nas quais o casamento continua sendo, para</p><p>as mulheres, o meio privilegiado de obter uma posição social;</p><p>como se, sendo resultantes de um ajustamento inconsciente às</p><p>probabilidades associadas a uma estrutura objetiva de domina</p><p>ção, as predisposições submissas, que se expressam naquelas pre</p><p>ferências, produzissem algo semelhante a um cálculo interessado,</p><p>bem-compreendido. Estas tendências, pelo contrário, tendem a</p><p>minimizar-se — com efeitos de hystérésis que uma análise das</p><p>variações das práticas não só segundo a posição ocupada, mas</p><p>também segundo a trajetória permitiria entrever — à medida que</p><p>decresce a dependência objetiva, que contribui para produzi-las e</p><p>mantê-las (a mesma lógica de ajustamento das tendências às</p><p>oportunidades objetivas explica por que se pode constatar que o</p><p>acesso das mulheres ao trabalho profissional é fator preponderan</p><p>te de seu acesso ao divórcio).57 O que tende a confirmar que, con</p><p>trariamente à representação romântica, a inclinação amorosa não</p><p>está isenta de uma forma de racionalidade que é muitas vezes, de</p><p>certo modo, amorfati, amor ao destino social.</p><p>Não se pode, portanto, pensar esta forma particular de domi</p><p>nação senão ultrapassando a alternativa da pressão (pelas forças)</p><p>e do consentimento (às razões), da coerção mecânica e da submis</p><p>são voluntária, livre, deliberada, ou até mesmo calculada. O efeito</p><p>da dominação simbólica (seja ela de etnia, de gênero, de cultura,</p><p>de língua etc.) se exerce não na lógica pura das consciências cog-</p><p>noscentes, mas através dos esquemas de percepção, de avaliação e</p><p>de ação que são constitutivos dos habitus e que fundamentam,</p><p>57. Cf. B. Bastard e L. Cardia-Vouèche, "L'activité professionelle des femmes: une res</p><p>source mais pour qui? Une réflexion sur l'accès au divorce", Sociologie du travail, 3,</p><p>1984, pp. 308-316.</p><p>50 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>aquém das decisões da consciência e dos controles da vontade,</p><p>uma relação de conhecimento profundamente obscura a ela mes</p><p>ma.58 Assim, a lógica paradoxal da dominação masculina e da</p><p>submissão feminina, que se pode dizer ser, ao mesmo tempo e</p><p>sem contradição, espontânea e extorquida, só pode ser compreen</p><p>dida se nos mantivermos atentos aos efeitos duradouros que a</p><p>ordem social exerce sobre as mulheres (e os homens), ou seja, às</p><p>disposições espontaneamente harmonizadas com esta ordem que</p><p>as impõe.</p><p>A força simbólica é uma forma de poder que se exerce sobre</p><p>os corpos, diretamente, e como que por magia, sem qualquer coa</p><p>ção física; mas essa magia só atua com o apoio de predisposições</p><p>colocadas, como molas propulsoras, na zona mais profunda dos</p><p>corpos.59 Se ela pode agir como um macaco mecânico, isto é, com</p><p>um gasto extremamente pequeno de energia, ela só o consegue</p><p>porque desencadeia disposições que o trabalho de inculcação e de</p><p>incorporação realizou naqueles ou naquelas que, em virtude des</p><p>se trabalho, se vêem por elas capturados. Em outros termos, ela</p><p>encontra suas condições de possibilidade e sua contrapartida eco</p><p>nômica (no sentido mais amplo da palavra) no imenso trabalho</p><p>prévio que é necessário para operar uma transformação duradou</p><p>ra dos corpos e produzir as disposições permanentes que ela</p><p>desencadeia e desperta; ação transformadora ainda mais poderosa</p><p>por se exercer, nos aspectos mais essenciais, de maneira invisível e</p><p>insidiosa, através da insensível familiarização com um mundo físi-</p><p>58. Entre inúmeros depoimentos e observações a respeito da experiência da violên</p><p>cia simbólica associada à dominação lingüística, citarei apenas, por seu caráter</p><p>exemplar, os que são trazidos por M. Abiodun Goke-Pariola sobre a Nigéria inde</p><p>pendente: a perpetuação de um "menosprezo interiorizado por tudo que é indígena"</p><p>se manifesta de maneira particularmente ostensiva na relação que os nigerianos têm</p><p>com a própria língua (que eles se recusam o ensinar nas escolas) e com a língua do</p><p>ex-colonizador, que eles falam "adotando o hexis corporal dos ingleses [...] para</p><p>obter o que consideram o sotaque nasal do inglês" (cf. A. Goke-Pariola, The Role of</p><p>Language in the Slwggle for Power and Legitimacy in Africo, African Studies, 3 1 ,</p><p>Lewiston, Queenston, Lampeter, The Edwin Mellen Press, 1993).</p><p>59. Pode-se pensar nestes termos a eficácia simbólico da mensagem religiosa (bula</p><p>papal, pregação, profecia etc), que repousa claramente em um trabalho prévio de</p><p>socialização religiosa (catecismo, freqüência ao culto e, sobretudo, imersão precoce</p><p>em um universo impregnado de religiosidade).</p><p>U M A I M A G E M A M P U A D A 51</p><p>co simbolicamente estruturado e da experiência precoce e prolon</p><p>gada de interações permeadas pelas estruturas de dominação.</p><p>Os atos de conhecimento e de reconhecimento práticos da</p><p>fronteira mágica entre os dominantes e os dominados, que a</p><p>magia do poder simbólico desencadeia, e pelos quais os domina</p><p>dos contribuem, muitas vezes à sua revelia, ou até contra sua von</p><p>tade, para sua própria dominação, aceitando tacitamente os limi</p><p>tes impostos, assumem muitas vezes a forma de emoções corporais</p><p>— vergonha, humilhação, timidez, ansiedade, culpa — ou de pai</p><p>xões e de sentimentos — amor, admiração, respeito —; emoções</p><p>que se mostram ainda mais dolorosas, por vezes, por se traírem</p><p>em manifestações visíveis, como o enrubescer, o gaguejar, o desa-</p><p>jeitamento, o tremor, a cólera ou a raiva onipotente, e outras tan</p><p>tas maneiras de se submeter, mesmo de má vontade ou até contra</p><p>a vontade, ao juízo dominante, ou outras tantas maneiras de</p><p>vivenciar, não raro com conflito interno e clivagem do ego, a cum</p><p>plicidade subterrânea que um corpo que se subtrai às diretivas da</p><p>consciência e da vontade estabelece com as censuras inerentes às</p><p>estruturas sociais.</p><p>As paixões do habitus dominado (do ponto de vista do gêne</p><p>ro, da etnia, da cultura ou da língua), relação social somatizada,</p><p>lei social convertida em lei incorporada, não são das que se podem</p><p>sustar com um simples esforço de vontade, alicerçado em uma</p><p>tomada de consciência libertadora. Se é totalmente ilusório crer</p><p>que a violência simbólica pode ser vencida apenas com as armas</p><p>da consciência e da vontade, é porque os efeitos e as condições de</p><p>sua eficácia estão duradouramente inscritas no mais íntimo dos</p><p>corpos sob a forma de predisposições (aptidões, inclinações). É o</p><p>que se vê, sobretudo, no caso das relações de parentesco e de todas</p><p>as relações concebidas segundo este modelo, no qual essas tendên</p><p>cias permanentes do corpo socializado se expressam e se viven-</p><p>ciam dentro da lógica do sentimento (amor filial, fraterno etc),</p><p>ou do dever; sentimento e dever que, confundidos muitas vezes na</p><p>experiência do respeito e do devotamente afetivo, podem sobrevi</p><p>ver durante muito tempo depois de desaparecidas suas condições</p><p>sociais de produção. Observa-se assim que, mesmo quando as</p><p>52 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U I I N A</p><p>pressões externas são abolidas e as liberdades formais — direito</p><p>de voto, direito à educação, acesso a todas as profissões, inclusive</p><p>políticas — são adquiridas, a auto-exclusão e a "vocação" (que</p><p>"age" tanto de modo negativo quanto de modo positivo) vêm</p><p>substituir a exclusão expressa: a rejeição aos lugares públicos, que,</p><p>quando é explicitamente afirmada, como entre os Cabilas, conde</p><p>na as mulheres à discriminação de espaços e torna a aproximação</p><p>de um espaço masculino, como o local de assembléias, uma prova</p><p>terrível, pode também se dar em outros lugares, de maneira quase</p><p>igualmente eficaz, por meio de uma espécie de agorafobia social</p><p>mente imposta, que pode subsistir por longo tempo depois de</p><p>terem sido abolidas as proibições mais visíveis e que conduz as</p><p>mulheres a se excluírem motu próprio da agora.</p><p>Lembrar os traços que a dominação imprime perduravelmen-</p><p>te nos corpos e os efeitos que ela exerce através deles não significa</p><p>dar armas a essa maneira, particularmente viciosa, de ratificar a</p><p>dominação e que consiste em atribuir às mulheres a responsabili</p><p>dade de sua própria opressão, sugerindo, como já se fez algumas</p><p>vezes, que elas escolhem adotar práticas submissas ("as mulheres</p><p>são seus piores inimigos") ou mesmo que elas gostam dessa domi</p><p>nação, que elas "se deleitam" com os tratamentos que lhes são</p><p>inflingidos, devido a uma espécie de masoquismo constitutivo de</p><p>sua natureza. Pelo contrário, é preciso assinalar não só que as ten</p><p>dências à "submissão", dadas por vezes como pretexto para "cul</p><p>par a vítima", são resultantes das estruturas objetivas, como tam</p><p>bém que essas estruturas só devem sua eficácia aos mecanismos</p><p>que elas desencadeiam e que contribuem para sua reprodução. O</p><p>poder simbólico não pode se exercer sem a colaboração dos que</p><p>lhe são subordinados e que só se subordinam a ele porque o cons</p><p>troem como poder. Mas, evitando deter-nos nessa constatação</p><p>(como faz o construtivismo idealista, etnometodológico ou de</p><p>outro tipo), temos que registrar e levar em conta a construção</p><p>social das estruturas cognitivas que organizam os atos de constru</p><p>ção do mundo e de seus poderes. Assim se percebe que essa cons</p><p>trução prática, longe de ser um ato intelectual consciente, livre,</p><p>deliberado de um "sujeito" isolado, é, ela própria, resultante de</p><p>U M A I M A G E M A M P L I A D A 53</p><p>um poder, inscrito duradouramente no corpo dos dominados sob</p><p>forma de esquemas de percepção e de disposições (a admirar, res</p><p>peitar, amar etc.) que o tornam sensível a certas manifestações</p><p>simbólicas do poder.</p><p>Se a verdade é que, embora pareça apoiar-se na força bruta,</p><p>das armas ou do dinheiro, o reconhecimento da dominação supõe</p><p>sempre um ato de conhecimento, isso não implica igualmente que</p><p>estejamos embasados a descrevê-la com a linguagem da consciên</p><p>cia, por um "viés" intelectualista e escolático que, como em Marx</p><p>(e sobretudo nos que, depois de Lukács, falam em "falsa consciên</p><p>cia"), leva a esperar a liberação das mulheres como efeito automá</p><p>tico de sua "tomada de consciência", ignorando, por falta de uma</p><p>teoria tendencial das práticas, a opacidade e a inércia que resultam</p><p>da inscrição das estruturas sociais no corpo.</p><p>Jeanne Favret-Saada, embora tenha mostrado a inadequação</p><p>da noção de "consentimento" obtido pela "persuasão" e a "sedu</p><p>ção", não consegue sair realmente da alternativa entre coação ou</p><p>consentimento, como "livre aceitação" e "acordo explícito", por</p><p>que se mantém encerrada, como Marx, de quem ela toma de</p><p>empréstimo a terminologia da alienação, em uma filosofia da</p><p>"consciência" (ela fala em "consciência dominada, fragmentada,</p><p>contraditória do oprimido" ou em "invasão da consciência das</p><p>mulheres pelo poder físico, jurídico e mental dos homens"); por</p><p>não levar em conta os efeitos duradouros que a ordem masculina</p><p>exerce sobre os corpos, ela não pode compreender adequadamen</p><p>te a submissão encantada que constitui o efeito característico da</p><p>violência simbólica.60 A linguagem do "imaginário" que vemos</p><p>aqui e acolá ser utilizada, um pouco a torto e a direito, é sem dúvi</p><p>da ainda mais inadequada que a da "consciência", dado que tende</p><p>particularmente a esquecer que o princípio da visão dominante</p><p>não é uma simples representação mental, uma fantasia ("idéias na</p><p>cabeça"), uma "ideologia", e sim um sistema de estruturas dura-</p><p>60. F. Favret-Saada, "L'arraisonnement des femmes", Les Temps Modernes, fevereiro</p><p>1987, pp. 137-150.</p><p>54 PIERRE B O U R D i e u / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>douramente inscritas nas coisas e nos corpos. Nicole-Claude</p><p>Mathieu foi, sem dúvida, quem levou mais longe, em um texto</p><p>intitulado "Da consciência dominada"61, a crítica da noção de</p><p>consentimento que "anula quase toda responsabilidade da parte</p><p>do opressor"62 e "na realidade joga uma vez mais a culpa sobre o</p><p>oprimido(a)";63 mas, por não abandonar a linguagem da "cons</p><p>ciência", ela não levou a cabo a análise das limitações das possibili</p><p>dades de pensamento e de ação que a dominação impõe aos opri</p><p>midos64 e da "invasão de sua consciência pelo poder onipresente</p><p>dos homens".65</p><p>Essas distinções críticas nada têm de gratuito: elas implicam,</p><p>de fato, que a revolução simbólica a que o movimento feminista</p><p>convoca não pode se reduzir a uma simples conversão das cons</p><p>ciências e das vontades. Pelo fato de o fundamento da violência</p><p>simbólica residir não nas consciências mistificadas que bastaria</p><p>esclarecer, e sim nas disposições modeladas pelas estruturas de</p><p>dominação que as produzem, só se pode chegar a uma ruptura da</p><p>relação de cumplicidade que as vítimas da dominação simbólica</p><p>têm com os dominantes com uma transformação radical das con</p><p>dições sociais de produção das tendências que levam os domina</p><p>dos a adotar, sobre os dominantes e sobre si mesmos, o próprio</p><p>ponto de vista dos dominantes. A violência simbólica não se pro</p><p>cessa senão através de um ato de conhecimento e de desconheci</p><p>mento prático, ato este que se efetiva aquém da consciência e da</p><p>vontade e que confere seu "poder hipnótico" a todas as suas mani</p><p>festações, injunções, sugestões, seduções, ameaças, censuras,</p><p>6 1 . N.-C. Mathieu, Catégorisation et idéologies de sexe, Paris, Côté-femmes, 1991.</p><p>62. Ibid, p. 225.</p><p>63. Ibid, p. 226.</p><p>64. Ibid, p. 216.</p><p>65. Ibid, p. 180. Registre-se, de passagem, que os avanços mais decisivos da crítica</p><p>da visão masculina das relações de reprodução (como a minimização, no discurso e</p><p>no ritual, da contribuição propriamente feminina) encontraram alicerce seguro na aná</p><p>lise etnológica das práticas, sobretudo as rituais (cf., por exemplo, os textos reunidos</p><p>por N.-C. Mathieu, em N. Echard, O. Journef, C. Michard-Marchal, C. Ribéry, N.-C.</p><p>Mathieu, P. Tabet, L'Arraisonnement des femmes. Essais en anthropologie des sexes,</p><p>Paris, Ecole des hautes études en sciences sociales, 1985).</p><p>U M A IMA</p><p>G E M A M P L I A D A 55</p><p>ordens ou chamadas à ordem. Mas uma relação de dominação</p><p>que só funciona por meio dessa cumplicidade de tendências</p><p>depende, profundamente, para sua perpetuação ou para sua trans</p><p>formação, da perpetuação ou da transformação das estruturas de</p><p>que tais disposições são resultantes (particularmente da estrutura</p><p>de um mercado de bens simbólicos cuja lei fundamental é que as</p><p>mulheres nele são tratadas como objetos que circulam de baixo</p><p>para cima).</p><p>A S MULHERES NA ECONOMIA DE BENS SIMBÓLICOS</p><p>Assim, as disposições (habitus) são inseparáveis das estruturas</p><p>{habituâmes, no sentido de Leibniz) que as produzem e as repro</p><p>duzem, tanto nos homens como nas mulheres, e em particular de</p><p>toda a estrutura das atividades técnico-rituais, que encontra seu</p><p>fundamento último na estrutura do mercado de bens simbóli</p><p>cos.66 O princípio da inferioridade e da exclusão da mulher, que o</p><p>sistema mítico-ritual ratifica e amplia, a ponto de fazer dele o</p><p>princípio de divisão de todo o universo, não é mais que a dissime-</p><p>tria fundamental, a do sujeito e do objeto, do agente e do instrumen</p><p>to, instaurada entre o homem e a mulher no terreno das trocas</p><p>simbólicas, das relações de produção e reprodução do capital sim</p><p>bólico, cujo dispositivo central é o mercado matrimonial, que</p><p>estão na base de toda a ordem social: as mulheres só podem aí ser</p><p>vistas como objetos, ou melhor, como símbolos cujo sentido se</p><p>constitui fora delas e cuja função é contribuir para a perpetuação</p><p>ou o aumento do capital simbólico em poder dos homens.</p><p>Verdade do estatuto conferido às mulheres que se revela a contra</p><p>rio na situação limite em que, para evitar o aniquilamento da</p><p>linhagem, uma família sem descendentes do sexo masculino não</p><p>66. Antecipando certas intuições de filósofos modernos, como a de Peirce, Leibniz</p><p>fala de "habitudines", maneiras de ser duradouras, estruturas, surgidas com a evolu</p><p>ção, para designar o que se enuncia na expressão (G. W. Leibniz, "Quid sit idea",</p><p>em Gerhardt [éd.], Philosopkischen Scbriften, VII, pp. 263-264.)</p><p>56 PIERRE B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>tem outro recurso a não ser o de tomar para sua filha um homem,</p><p>o awrith, que, ao inverso do uso patri-local, vem residir na casa da</p><p>esposa e passa a circular como uma mulher, isto é, como um obje</p><p>to ("ele se faz de esposa", dizem os cabilas): a masculinidade mes</p><p>ma vendo-se assim posta em questão, observa-se, tanto em Bearn</p><p>como na Cabília, que todo o grupo vê com voluntária indulgência</p><p>os subterfúgios que a família humilhada põe em ação para salvar</p><p>a aparência de sua honra e, na medida do possível, a do "homem</p><p>objeto" que, anulando-se como homem, põe em questão a honra</p><p>da família que o recebe.</p><p>É na lógica da economia de trocas simbólicas — e, mais pre</p><p>cisamente, na construção social das relações de parentesco e do</p><p>casamento, em que se determina às mulheres seu estatuto social</p><p>de objetos de troca, definidos segundo os interesses masculinos, e</p><p>destinados assim a contribuir para a reprodução do capital sim</p><p>bólico dos homens —, que reside a explicação do primado conce</p><p>dido à masculinidade nas taxinomias culturais. O tabu do incesto,</p><p>em que Lévi-Strauss vê o ato fundador da sociedade, na medida</p><p>em que implica o imperativo de troca compreendido como igual</p><p>comunicação entre os homens, é correlativo da instituição da vio</p><p>lência pela qual as mulheres são negadas como sujeitos da troca e</p><p>da aliança que se instauram através delas, mas reduzindo-as à</p><p>condição de objetos, ou melhor, de instrumentos simbólicos da</p><p>política masculina: destinadas a circular como signos fiduciários e</p><p>a instituir assim relações entre os homens, elas ficam reduzidas à</p><p>condição de instrumentos de produção ou de reprodução do</p><p>capital simbólico e social. E talvez, levando às últimas conseqüên</p><p>cias a ruptura com a visão meramente "semiológica" de Lévi-</p><p>Strauss, seja necessário ver na circulação de cunho sádico que,</p><p>como diz Anne-Marie Dardigna, faz do "corpo feminino, literal</p><p>mente, um objeto que pode ser avaliado e intercambiado, circu</p><p>lando entre os homens ao mesmo título que uma moeda",67 o</p><p>limite, desencantado ou cínico, da circulação lévi-straussiana que,</p><p>67. A.-M. Dardigna, Les Châteaux d'Eros ou les infortunes du sexe des femmes, Paris,</p><p>Maspero, 1980, p. 88.</p><p>UMA I M A G E M A M P U ADA 57</p><p>sem dúvida tornado possível pelo desencanto (do qual o erotismo</p><p>é um dos aspectos) associado à generalização das trocas monetá</p><p>rias, exibe claramente a violência sobre a qual repousa, em última</p><p>análise, essa circulação legítima de mulheres legítimas.</p><p>A leitura estritamente semiológica que, concebendo a troca</p><p>de mulheres como relação de comunicação, oculta a dimensão</p><p>política da transação matrimonial, relação de força simbólica que</p><p>visa a conservar ou aumentar a força simbólica,68 e a interpreta</p><p>ção meramente "economicista", marxista ou outra, que, confun</p><p>dindo a lógica do modo de produção simbólica com a lógica do</p><p>modo de produção propriamente econômica, trata a troca de</p><p>mulheres como uma troca de mercadorias, têm em comum o fato</p><p>de deixarem escapar a ambigüidade essencial da economia de</p><p>bens simbólicos: orientada para a acumulação do capital simbóli</p><p>co (a honra), essa economia transforma diferentes materiais bru</p><p>tos, no primeiro nível dos quais está a mulher, mas também todos</p><p>os objetos suscetíveis de serem formalmente trocados, em dons (e</p><p>não em produtos), ou seja, em signos de comunicação que são,</p><p>indissociavelmente, instrumentos de dominação.69</p><p>Uma tal teoria leva em conta não só a estrutura específica des</p><p>sa troca, mas também o trabalho social que ela exige dos que a</p><p>realizam e, sobretudo, o que é necessário para dele produzir e</p><p>reproduzir não só os agentes (ativos, os homens, ou passivos, as</p><p>mulheres) como também a própria lógica — isso contra a ilusão</p><p>de que o capital simbólico se reproduz de certo modo por sua pró</p><p>pria força e fora da ação de agentes situados e datados. (Reprodu</p><p>zir os agentes é (re)produzir as categorias (no duplo sentido, de</p><p>esquemas de percepção e de avaliação e de grupos sociais) que</p><p>68. Sobre as conseqüências de ruptura com a visão semiológica da troca na com</p><p>preensão da troca linguistica, ver P. Bourdieu, Ce que parler veut dire, op. cit., pp.</p><p>13-21 e passim.</p><p>69. Esta análise materialista da economia de bens simbólicos permite escapar à ruino</p><p>sa alternativa entre o "material" e o "ideal", que se perpetua através da oposição entre</p><p>os estudos "materialistas" e os estudos "simbólicos" (muitas vezes realmente notáveis,</p><p>como os de Michèle Rosaldo, Sherry Ortner, Gayle Rubin, mas, a meu ver, parciais:</p><p>Rosaldo e Ortner viram o papel das posições simbólicas e a cumplicidade dos domina</p><p>dos; Rubin, a ligação com as trocas simbólicas e as estratégias matrimoniais).</p><p>58 PIERRE B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>organizam o mundo social, categorias não só de parentesco, evi</p><p>dentemente, mas também categorias mítico-rituais; (re)produzir</p><p>o jogo e seus lances é (re)produzir as condições de acesso à repro</p><p>dução social (e não apenas à sexualidade), garantida por uma tro</p><p>ca agonística que visa a acumular estatutos genealógicos, nomes</p><p>de linhagem ou de ancestrais, isto é, capital simbólico, e portanto,</p><p>poderes e direitos duradouros sobre pessoas: os homens produ</p><p>zem signos e os trocam ativamente, como parceiros-adversários</p><p>unidos por uma relação essencial de igualdade na honra, condição</p><p>mesma de uma troca que pode produzir a desigualdade na honra,</p><p>isto é, a dominação — o que falta em uma visão meramente</p><p>semiológica como a de Lévi-Strauss. A dissimetria é, pois, radical</p><p>entre o homem, sujeito, e a mulher, objeto de troca; entre o</p><p>homem, responsável pela produção e reprodução e seu senhor, e a</p><p>mulher, produto transformado desse trabalho.70</p><p>Quando — como se dá na Cabília — a aquisição do capital</p><p>simbólico e do capital social constitui, de certo modo, a única for</p><p>ma possível de acumulação, as mulheres são valores</p><p>que é preciso</p><p>conservar ao abrigo da ofensa e da suspeita; valores que, investi</p><p>dos nas trocas, podem produzir alianças, isto é, capital social e</p><p>aliados prestigiosos, isto é, capital simbólico. Na medida em que o</p><p>valor dessas alianças, e portanto o lucro simbólico que elas podem</p><p>trazer, depende, por um lado, do valor simbólico das mulheres</p><p>disponíveis para a troca, isto é, de sua reputação e sobretudo de</p><p>sua castidade — constituída em medida fetichista da reputação</p><p>masculina e, portanto, do capital simbólico de toda a linhagem —,</p><p>a honra dos irmãos e dos pais, que leva a uma vigilância tão cerra-</p><p>70. Eu teria podido (ou devido), a propósito de cado umo das proposições acima,</p><p>assinalar o que as distingue, por um lodo, das teses lévi-straussianas (como o fiz, em</p><p>um único ponto, que me parecia particularmente importante) e, por outro lado, de tal</p><p>ou qual análise próxima, sobretudo a de Gayle Rubin ("The Traffic in Women. The</p><p>Politicai Economy of Sex", em Toward an Anthropology of Women, New York,</p><p>Monthly Review Press, 1975) que, para tentar levar em conta a opressão das mulhe</p><p>res, retoma, com perspectiva diferente da minha, alguns tópicos da análise inaugural</p><p>de Lévi-Strauss. Isso me teria permitido fazer justiça a esses autores, embora fazendo</p><p>ver minha "diferença" e, sobretudo, evitando expor-me a parecer estar repetindo ou</p><p>retomando análises às quais me oponho.</p><p>UMA I M A G E M A M P L I A D A 59</p><p>da, quase paranóica, quanto a dos esposos, é uma forma de lucro</p><p>bem-compreendida.</p><p>O peso determinante da economia de bens simbólicos, que,</p><p>através do princípio de divisão fundamental, organiza toda a per</p><p>cepção do mundo social, impõe-se a todo o universo social, ou</p><p>seja, não só à economia da reprodução biológica. É assim que se</p><p>pode explicar por que, no caso da Cabília como em muitas outras</p><p>tradições, a obra propriamente feminina de gestação e de ama</p><p>mentação se vê quase que anulada em relação ao trabalho pro</p><p>priamente masculino de fecundação. (Observe-se de passagem</p><p>que se, a partir de uma perspectiva psicanalítica, Mary O'Brien</p><p>não está errada em ver na dominação masculina o resultado do</p><p>esforço dos homens para ultrapassar o fato de não possuírem os</p><p>meios de reprodução da espécie e para restaurar a primazia da</p><p>paternidade, dissimulando o trabalho real das mulheres na gesta</p><p>ção, ela se esquece de ligar este trabalho "ideológico" a seus verda</p><p>deiros fundamentos, isto é, às pressões da economia de bens sim</p><p>bólicos, que impõe a subordinação da reprodução biológica às</p><p>necessidades da reprodução do capital simbólico.71 No ciclo da</p><p>procriação, tanto quanto no ciclo agrário, a lógica mítico-ritual</p><p>privilegia a intervenção masculina, sempre enfatizada, por oca</p><p>sião do casamento ou do início dos trabalhos no campo, com ritos</p><p>públicos, oficiais, coletivos, em detrimento dos períodos de gesta</p><p>ção, tanto a da terra, durante o inverno, quanto a da mulher, que</p><p>não dão margem mais que a atos rituais facultativos e quase furti</p><p>vos: de um lado, uma intervenção descontínua e extraordinária no</p><p>curso da vida, ação arriscada e perigosa de abertura, que é solene</p><p>mente realizada — por vezes, como no caso do início das lavou</p><p>ras, publicamente, diante do grupo; do outro, uma espécie de pro</p><p>cesso natural e passivo de "enchimento", de que as mulheres são,</p><p>não o agente, mas apenas o local, a ocasião, o suporte, ou melhor,</p><p>que se localiza na mulher, como na terra, mas que não exige da</p><p>mulher mais que práticas técnicas ou rituais de acompanhamen-</p><p>7 1 . M. O'Brien, The Politics of Reproduction, Londres, Routledge and Kegan Paul,</p><p>1981.</p><p>60 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>to, atos destinados a ajudar a natureza em trabalho (como arrancar</p><p>ervas, ou reuni-las em feixes, para alimento dos animais); com este</p><p>fato, elas estão duplamente condenadas a permanecer ignoradas,</p><p>principalmente pelos homens: seus atos, familiares, contínuos,</p><p>rotineiros, repetitivos e monótonos, "humildes e fáceis", como diz</p><p>nosso poeta, são em sua maior parte realizados fora de vista, na</p><p>obscuridade da casa ou nos tempos mortos do ano agrário.72</p><p>A divisão sexual está inscrita, por um lado, na divisão das ati</p><p>vidades produtivas a que nós associamos a idéia de trabalho,</p><p>assim como, mais amplamente, na divisão do trabalho de manu</p><p>tenção do capital social e do capital simbólico, que atribui aos</p><p>homens o monopólio de todas as atividades oficiais, públicas, de</p><p>representação, e em particular de todas as trocas de honra, das tro</p><p>cas de palavras (nos encontros quotidianos e sobretudo nas</p><p>assembléias), trocas de dons, trocas de mulheres, trocas de desa</p><p>fios e de mortes (cujo limite é a guerra); ela está inscrita, por outro</p><p>lado, nas disposições (os habitus) dos protagonistas da economia</p><p>de bens simbólicos: as das mulheres, que esta economia reduz ao</p><p>estado de objetos de troca (mesmo quando, em determinadas con</p><p>dições, elas podem contribuir, pelo menos por procuração, para</p><p>orientar e organizar as trocas, sobretudo matrimoniais); as dos</p><p>homens, a quem toda a ordem social, e em particular as sanções</p><p>positivas ou negativas associadas ao funcionamento do mercado</p><p>de bens simbólicos, impõe adquirir a aptidão e a propensão, cons</p><p>titutivas do senso de honra, de levar a sério todos os jogos assim</p><p>constituídos como sérios.</p><p>Ao descrever, como o fiz em outros trabalhos,73 a propósito</p><p>da divisão do trabalho entre os sexos, a divisão unicamente das ati</p><p>vidades produtivas, adotei, erroneamente, uma definição etnocên-</p><p>72. Esta oposição entre o contínuo e o descontínuo se reencontra, em nosso universo,</p><p>na oposição entre as rotinas do trabalho doméstico feminino e os "grandes decisões"</p><p>que os homens em geral se arrogam (cf. M. Glaude, F. de Singly, "L'organisation</p><p>domestique: pouvoir et négociation", Économie et Statistique, 187, Paris, INSEE,</p><p>1986).</p><p>73. P. Bourdieu, Le Sens pratique, op. cit., p. 358.</p><p>U M A I M A G E M A M f L I A D A 61</p><p>trica de trabalho que eu próprio havia demonstrado,74 por outro</p><p>lado, que, sendo invenção histórica, é profundamente diferente da</p><p>definição pré-capitalista do "trabalho" como exercício de uma</p><p>função social que se pode dizer "total", ou indiferenciada, e que</p><p>engloba atividades que nossas sociedades considerariam como</p><p>não produtivas, porque desprovidas de sanção monetária: é o</p><p>caso, na sociedade cabila e na maior parte das sociedades pré-</p><p>capitalistas, mas também da nobreza do Ancien Régime e nas clas</p><p>ses privilegiadas das sociedades capitalistas, de todas as práticas</p><p>direta ou indiretamente orientadas para a reprodução do capital</p><p>social e do capital simbólico, como o fato de negociar um casa</p><p>mento, ou de tomar a palavra na assembléia dos homens entre os</p><p>cabilas, ou, algures, o fato de praticar um esporte refinado, de ter</p><p>um salão, de dar um baile ou inaugurar uma instituição de carida</p><p>de. Ora, aceitar aquela definição mutilada representa impedir-se</p><p>de apreender completamente a estrutura objetiva da divisão</p><p>sexual das "tarefas" ou dos encargos, que se estende a todos os</p><p>domínios da prática e, principalmente, às trocas (com a diferença</p><p>entre as trocas masculinas, públicas, descontínuas, extraordiná</p><p>rias e as trocas femininas, privadas, ou até secretas, contínuas e</p><p>rotineiras) e às atividades religiosas ou rituais, em que se obser</p><p>vam oposições do mesmo princípio.</p><p>Este investimento primordial nos jogos sociais (illusio), que</p><p>torna o homem verdadeiramente homem — senso de honra, viri</p><p>lidade, manliness, ou, como dizem os cabilas, "cabilidade" {thak-</p><p>baylith) —, é o princípio indiscutido de todos os deveres para</p><p>consigo mesmo, o motor ou móvel de tudo que ele se deve, isto é,</p><p>que deve cumprir para estar agindo corretamente consigo mes</p><p>mo, para permanecer digno, a seus próprios olhos, de uma certa</p><p>idéia de homem. É, de fato, na relação entre um habitus construí</p><p>do segundo a divisão fundamental do reto e do curvo, do apruma</p><p>do e do deitado, do forte e do fraco, em suma, do masculino e do</p><p>74. Cf. P.</p><p>Bourdieu, irava// et travailleurs en Algérie, Paris-La Haye, Mouton, 1963, e</p><p>Algérie 60, Paris, Éditions de Minuit, 1977.</p><p>62 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>feminino, e um espaço social organizado segundo essa divisão,</p><p>que se engendram, como igualmente urgentes, coisas a serem fei</p><p>tas, os investimentos em que se empenham os homens e as virtu</p><p>des, todas de abstenção e abstinência, das mulheres.</p><p>Assim, o ponto de honra, essa forma peculiar de sentido do</p><p>jogo que se adquire pela submissão prolongada às regularidades e</p><p>às regras da economia de bens simbólicos, é o princípio do siste</p><p>ma de estratégias de reprodução pelas quais os homens, detento</p><p>res do monopólio dos instrumentos de produção e de reprodução</p><p>do capital simbólico, visam a assegurar a conservação ou o au</p><p>mento deste capital: estratégias de fecundidade, estratégias matri</p><p>moniais, estratégias educativas, estratégias econômicas, estraté</p><p>gias de sucessão, todas elas orientadas no sentido de transmissão</p><p>dos poderes e dos privilégios herdados.75 Necessidade da ordem</p><p>simbólica tornada virtude, ele é produto da incorporação da ten</p><p>dência da honra (isto é, do capital simbólico possuído em comum</p><p>por uma linhagem, ou por uma "casa", como é o caso em Bearn e</p><p>nas famílias nobres da Idade Média, ou além dela) de se perpetuar</p><p>através da ação dos agentes.</p><p>As mulheres são excluídas de todos os lugares públicos</p><p>(assembléia, mercado), em que se realizam os jogos comumente</p><p>considerados os mais sérios da existência humana, que são os</p><p>jogos da honra. E excluídas, se assim podemos dizer, a priori, em</p><p>nome do princípio (tácito) da igualdade na honra, que exige que</p><p>o desafio, que honra quem o faz, só seja válido se dirigido a um</p><p>homem (em oposição a uma mulher) e a um homem honrado,</p><p>capaz de dar uma resposta que, por representar uma forma de</p><p>reconhecimento, é igualmente honrosa. A circularidade perfeita</p><p>do processo indica que se trata de uma partilha arbitrária.</p><p>75. Sobre a ligação entre a honra e as estratégias matrimoniais e de sucessão, pode-</p><p>se 1er: P. Bourdieu, "Célibat et condition paysanne", Études rurales, 5-6, abril-setem-</p><p>bro 1962, pp. 32-136; "Les stratégies matrimoniales dans le système des stratégies</p><p>de reproduction", Ânno/es, 4-5, julho-outubro 1972, pp. 1.105-1.127; Y. Castan,</p><p>Honnêteté et relations sociales en Languedoc (1/15-1780), Paris, Pion, 1974, pp.</p><p>17-18; R. A. Nye, Masculinity and Maie Codes of Honor in Modem France, New</p><p>York, Oxford University Press, 1993.</p><p>U M A I M A G E M A M P L I A D A 63</p><p>VIRILIDADE E VIOLÊNCIA</p><p>Se as mulheres, submetidas a um trabalho de socialização que</p><p>tende a diminuí-las, a negá-las, fazem a aprendizagem das virtu</p><p>des negativas da abnegação, da resignação e do silêncio, os ho</p><p>mens também estão prisioneiros e, sem se aperceberem, vítimas,</p><p>da representação dominante. Tal como as disposições à submis</p><p>são, as que levam a reivindicar e a exercer a dominação não estão</p><p>inscritas em uma natureza e têm que ser construídas ao longo de</p><p>todo um trabalho de socialização, isto é, como vimos, de diferen</p><p>ciação ativa em relação ao sexo oposto. Ser homem, no sentido de</p><p>vir, implica um dever-ser, uma virtus, que se impõe sob a forma</p><p>do "é evidente por si mesma", sem discussão. Semelhante à nobre</p><p>za, a honra — que se inscreveu no corpo sob forma de um con</p><p>junto de disposições aparentemente naturais, muitas vezes visíveis</p><p>na maneira peculiar de se manter de pé, de aprumar o corpo, de</p><p>erguer a cabeça, de uma atitude, uma postura, às quais correspon</p><p>de uma maneira de pensar e de agir, um éthos, uma crença etc. —</p><p>governa o homem de honra, independentemente de qualquer</p><p>pressão externa. Ela dirige (no duplo sentido do termo) seus pen</p><p>samentos e suas práticas, tal como uma força ("é mais forte que</p><p>ele") mas sem o obrigar automaticamente (ele pode furtar-se e</p><p>não estar à altura da exigência); ela guia sua ação tal qual uma</p><p>necessidade lógica ("ele não pode agir de outro modo", sob pena</p><p>de renegar-se), mas sem se impor a ele como uma regra ou como</p><p>o implacável veredicto lógico de uma espécie de cálculo racional.</p><p>Essa força superior, que pode fazê-lo aceitar como inevitáveis, ou</p><p>óbvios, isto é, sem deliberação nem exame, atos que seriam vistos</p><p>pelos outros como impossíveis ou impensáveis, é a transcendên</p><p>cia social que nele tomou corpo e que funciona como amorfati,</p><p>amor do destino, inclinação corporal a realizar uma identidade</p><p>constituída em essência social e assim transformada em destino. A</p><p>nobreza, ou a questão de honra (nif), no sentido do conjunto de</p><p>aptidões consideradas nobres (coragem física e moral, generosi</p><p>dade, magnanimidade etc), é produto de um trabalho social de</p><p>nominação e de inculcação, ao término do qual uma identidade</p><p>04 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U l I N A</p><p>social instituída por uma dessas "linhas de demarcação mística",</p><p>conhecidas e reconhecidas por todos, que o mundo social dese</p><p>nha, inscreve-se em uma natureza biológica e se torna um habitus,</p><p>lei social incorporada.</p><p>O privilégio masculino é também uma cilada e encontra sua</p><p>contrapartida na tensão e contensão permanentes, levadas por</p><p>vezes ao absurdo, que impõe a todo homem o dever de afirmar,</p><p>em toda e qualquer circunstância, sua virilidade.76 Na medida em</p><p>que ele tem como sujeito, de fato, um coletivo — a linhagem ou a</p><p>casa —, que está, por sua vez, submetido às exigências imanentes</p><p>à ordem simbólica, o ponto de honra se mostra, na realidade,</p><p>como um ideal, ou melhor, como um sistema de exigências que</p><p>está votado a se tornar, em mais de um caso, inacessível. A virili</p><p>dade, entendida como capacidade reprodutiva, sexual e social,</p><p>mas também como aptidão ao combate e ao exercício da violência</p><p>(sobretudo em caso de vingança), é, acima de tudo, uma carga.</p><p>Em oposição à mulher, cuja honra, essencialmente negativa, só</p><p>pode ser defendida ou perdida, sua virtude sendo sucessivamente</p><p>a virgindade e a fidelidade, o homem "verdadeiramente homem"</p><p>é aquele que se sente obrigado a estar à altura da possibilidade que</p><p>lhe é oferecida de fazer crescer sua honra buscando a glória e a dis</p><p>tinção na esfera pública. A exaltação dos valores masculinos tem</p><p>sua contrapartida tenebrosa nos medos e nas angústias que a fe</p><p>minilidade suscita: fracas e princípios de fraqueza enquanto en</p><p>carnações da vulnerabilidade da honra, da h'urma (o sagrado es</p><p>querdo feminino, oposto ao sagrado direito, masculino), sempre</p><p>expostas à ofensa, as mulheres são também fortes em tudo que re</p><p>presenta as armas da fraqueza, como a astúcia diabólica, thah'ray-</p><p>76. Em primeiro lugar, pelo menos no caso das sociedades norte-africanas, no plano</p><p>sexual, como o comprova, com testemunho de um farmacêutico, recolhido nos anos</p><p>60, o recurso freqüente e muito comum dos homens a afrodisíacos. A virilidade é, de</p><p>fato, submetida à prova de uma forma mais ou menos disfarçada de julgamento cole-</p><p>ivo, por ocasião dos ritos de defloroção do recém-casada, e também através das</p><p>conversas femininas, que dão muita margem às coisas sexuais e aos fracassos da</p><p>virilidade. A corrida que suscitou, tanto na Europa como nos Estados Unidos, o apa</p><p>recimento, em princípios de 1998, da pílula Viagra atesta, juntamente com inúmeros</p><p>escritos de psicoterapeutos e de médicos, que a ansiedade a propósito das manifes</p><p>tações físicas da virilidade nada tem de particularmente exótico</p><p>U M A I M A G E M A M P L I A D A ÓS</p><p>mith, e a magia.77 Tudo concorre, assim, para fazer do ideal</p><p>impossível de virilidade o princípio de uma enorme vulnerabili</p><p>dade. É esta que leva, paradoxalmente, ao investimento, obrigató</p><p>rio por vezes, em todos os jogos de violência masculinos, tais</p><p>como em nossas sociedades os esportes, e mais especialmente os</p><p>que são mais adequados a produzir os signos visíveis da masculi</p><p>nidade78 e para manifestar, bem como testar, as qualidades ditas</p><p>viris, como os esportes de luta.79</p><p>Como a honra — ou a vergonha, seu reverso, que, como sabe</p><p>mos, à diferença</p><p>da culpa, é experimentada diante dos outros—, a</p><p>virilidade tem que ser validada pelos outros homens, em sua ver</p><p>dade de violência real ou potencial, e atestada pelo reconhecimen</p><p>to de fazer parte de um grupo de "verdadeiros homens". Inúmeros</p><p>ritos de instituição, sobretudo os escolares ou militares, compor</p><p>tam verdadeiras provas de virilidade, orientadas no sentido de</p><p>reforçar solidariedades viris. Práticas como, por exemplo, os estu</p><p>pros coletivos praticados por bandos de adolescentes — variante</p><p>desclassificada da visita coletiva ao bordel, tão presente na memó</p><p>ria dos adolescentes burgueses —, têm por finalidade pôr os que</p><p>77. Como se pode ver no mito de origem, em que ele descobria com estupefação o</p><p>sexo da mulher e o prazer (sem reciprocidade) que ela lhe revelava, o homem se</p><p>coloca, no sistema de oposições que o ligam à mulher, do lado da boa-fé e da inge</p><p>nuidade (n/ya), antíteses totais da astúcia diabólica [fhah'raymith). Sobre essa oposi</p><p>ção, ver P. Bourdieu e A. Sayad, Le Déracinement. La crise de l'agriculture tradition</p><p>nelle en Algérie, Paris, Éditions de Minuit, 19Ó4, pp. 90-92.</p><p>78. Cf. S. W. Fussell, Muscle: Confessions oi an Unlikely 8ody Builder, New York,</p><p>Poséidon, 1991, e L. Wacquant, "A Body too Big to Feel", in /Vlascu/in/f/es, 2 (1], pri</p><p>mavera 1994, pp. 78-86. Loïc Wacquant insiste, e com razão, no paradoxo da mascu</p><p>linidade "tal qual se revela no body-building", "luta encarniçada, como diz B. Glassner,</p><p>contra o sentimento de vulnerabilidade", e no "processo complexo através do qual a illu-</p><p>sio masculina é implantada e inscrita em um indivíduo biológico particular".</p><p>79. A construção do habifus judaico tradicional nos países da Europa Central, em fins</p><p>do século XIX, mostra-se como uma inversão total do processo de construção do fiabi-</p><p>fus masculino toi como ele é aqui descrito; a recusa explícita ao culto da violência, mes</p><p>mo em suas formas mais ritualizadas, como o duelo ou o esporte, leva a desvalorizar</p><p>os exercícios físicos, sobretudo os mais violentos, em favor dos exercícios intelectuais e</p><p>espirituais, que favorecem o desenvolvimento de disposições ternas e "pacíficas" (com</p><p>provadas pela raridade de estupros ou crimes de sangue) na comunidade judia (cf. V.</p><p>Karady, "Les juifs et la violence stalinienne", Acfes de la recherche en sciences socia</p><p>les, 120, dezembro 1977, pp. 3-31).</p><p>60 PIERRE B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>estão sendo testados em situação de afirmar diante dos demais sua</p><p>virilidade pela verdade de sua violência,80 isto é, fora de todas as</p><p>ternuras e de todos os enternecimentos desvirilizantes do amor, e</p><p>manifestar de maneira ostensiva a heteronomia de todas as afir</p><p>mações da virilidade, sua dependência com relação ao julgamen</p><p>to do grupo viril.</p><p>Certas formas de "coragem", as que são exigidas ou reconheci</p><p>das pelas forças armadas, ou pelas polícias (e, especialmente, pelas</p><p>"corporações de elite"), e pelos bandos de delinqüentes, ou tam</p><p>bém, mais banalmente, certos coletivos de trabalho — como as</p><p>que, nos ofícios da construção, em particular, encorajam e pres</p><p>sionam a recusar as medidas de prudência e a negar ou a desafiar</p><p>o perigo com condutas de exibição de bravura, responsáveis por</p><p>numerosos acidentes — encontram seu princípio, paradoxalmen</p><p>te, no medo de perder a estima ou a consideração do grupo, de</p><p>"quebrar a cara" diante dos "companheiros" e de ser ver remetido</p><p>à categoria, tipicamente feminina, dos "fracos", dos "delicados",</p><p>dos "mulherzinhas", dos "veados". Por conseguinte, o que chama</p><p>mos de "coragem" muitas vezes tem suas raízes em uma forma de</p><p>covardia: para comprová-lo, basta lembrar todas as situações em</p><p>que, para lograr atos como matar, torturar ou violentar, a vontade</p><p>de dominação, de exploração ou de opressão baseou-se no medo</p><p>"viril" de ser excluído do mundo dos "homens" sem fraquezas,</p><p>dos que são por vezes chamados de "duros" porque são duros para</p><p>com o próprio sofrimento e sobretudo para com o sofrimento dos</p><p>outros — assassinos, torturadores e chefetes de todas as ditaduras</p><p>e de todas as "instituições totais", mesmo as mais ordinárias, como</p><p>as prisões, as casernas ou os internatos —, mas, igualmente, os</p><p>novos patrões de uma luta que a hagiografia neoliberal exalta e</p><p>que, não raro, quando submetidos, eles próprios, a provas de</p><p>coragem corporal, manifestam seu domínio atirando ao desem-</p><p>80. A ligação entre a virilidade e a violência é explícito na tradição brasileira, que</p><p>descreve o pênis como uma arma (R. G. Parker, Bodies, Pleasures and Passions:</p><p>Sexual Culture in Contemporary Brazil, Boston, Beacon Press, 1991, p. 37). A corre</p><p>lação é também explícita entre a penetração (feder) e a dominação (p. 42).</p><p>UMA I M A G E M A M P L I A D A 67</p><p>prego seus empregados excedentes. A virilidade, como se vê, é</p><p>uma noção eminentemente relacional, construída diante dos</p><p>outros homens, para os outros homens e contra a feminilidade,</p><p>por uma espécie de medo do feminino, e construída, primeira</p><p>mente, dentro de si mesmo.</p><p>CAPÍTULO II</p><p>ANAMNESE DAS CONSTANTES OCULTAS</p><p>Jr\ descrição etnológica de um mundo social, ao</p><p>mesmo tempo suficientemente distanciado para se prestar mais</p><p>facilmente à objetivação e inteiramente construído em torno da</p><p>dominação masculina, atua como uma espécie de "detector" de</p><p>traços infinitesimais e de fragmentos esparsos da visão androcên-</p><p>trica do mundo e, por isso, como instrumento de uma arqueologia</p><p>histórica do inconsciente que, originariamente construída, sem</p><p>dúvida alguma, em um estágio muito antigo e muito arcaico de</p><p>nossas sociedades, permanece em cada um de nós, homem ou</p><p>mulher. (Inconsciente histórico ligado, portanto, não a uma natu</p><p>reza biológica ou psicológica, e a propriedades inscritas nesta</p><p>natureza, como a diferença entre os sexos segundo a psicanálise,</p><p>mas a um trabalho de construção propriamente histórica — como</p><p>aquele que visa a produzir o desligamento do menino do universo</p><p>feminino — e, por conseguinte, suscetível de ser modificado por</p><p>uma transformação de suas condições históricas de produção.)</p><p>É preciso, portanto, começar desligando-nos de tudo aquilo</p><p>que o conhecimento do modelo acabado do "inconsciente"</p><p>androcêntrico permite detectar e compreender nas manifestações</p><p>do inconsciente que é o nosso, e que se entrega ou se trai, em</p><p>relances, nas metáforas do poeta ou nas comparações familiares,</p><p>destinadas, por sua evidência mesma, a passar despercebidas. A</p><p>experiência que um leitor desprevenido pode ter das relações de</p><p>oposição ou de homologia que estruturam as práticas (sobretudo</p><p>as rituais) e as representações da sociedade cabila — graças prin</p><p>cipalmente ao diagrama destinado a dela oferecer uma visão de</p><p>conjunto, totalmente ausente na prática indígena — pode ir de</p><p>70 PIERRE B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>um sentimento de evidência (que, se nele pensamos, nada tem de</p><p>evidente e que repousa no fato de partilharmos desse mesmo</p><p>inconsciente) a uma forma de desconcerto, a que pode seguir-se</p><p>uma impressão de revelação, ou melhor, de redescoberta, em tudo</p><p>semelhante à que traz o inesperado necessário de certas metáforas</p><p>poéticas. E a familiaridade que ele pode muito rapidamente</p><p>adquirir, tal como a que o etnólogo obteve, mais laboriosamente,</p><p>antes dele, com cada uma das relações de oposição e com a rede de</p><p>relações de equivalência direta ou mediatizada que une cada uma</p><p>delas a todas as demais em um sistema, conferindo-lhe assim sua</p><p>necessidade objetiva e subjetiva, não é a que traz a aquisição de um</p><p>simples saber, mas a que advém da reapropriação de um conheci</p><p>mento, ao mesmo tempo possuído e perdido desde sempre, que</p><p>Freud, seguindo Platão, chamava de "anamnese".</p><p>Mas essa anamnese não se refere apenas, como em Platão, a</p><p>conteúdos eidéticos; nem apenas, como em Freud, a um processo</p><p>individual de constituição do inconsciente, no qual o aspecto</p><p>social, sem chegar a estar excluído, reduz-se a uma estrutura fami</p><p>liar genérica e universal, jamais caracterizada</p><p>socialmente. Essa</p><p>anamnese se alicerça na filogênese e na ontogenèse de um incons</p><p>ciente ao mesmo tempo coletivo e individual, traço incorporado</p><p>de uma história coletiva e de uma história individual que impõe a</p><p>todos os agentes, homens ou mulheres, seu sistema de pressupos</p><p>tos imperativos — do qual a etnologia constrói a axiomática,</p><p>potencialmente libertadora.</p><p>O trabalho de transformação dos corpos, ao mesmo tempo</p><p>sexualmente diferenciado e sexualmente diferenciador, que se rea</p><p>liza em parte através dos efeitos de sugestão mimética, em parte</p><p>através de injunções explícitas, e em parte, enfim, através de toda</p><p>a construção simbólica da visão do corpo biológico (e em particu</p><p>lar do ato sexual, concebido como ato de dominação, de posse),</p><p>produz habitus automaticamente diferenciados e diferenciadores.</p><p>A masculinização do corpo masculino e a feminilização do corpo</p><p>feminino, tarefas enormes e, em certo sentido, intermináveis que,</p><p>sem dúvida, hoje mais do que nunca, exigem quase sempre um</p><p>gasto considerável de tempo e de esforços, determinam uma</p><p>A N A M N ESE DAS C O N S T A N T E S O C U L T A S 7]</p><p>somatização da relação de dominação, assim naturalizada. É atra</p><p>vés do adestramento dos corpos que se impõem as disposições</p><p>mais fundamentais, as que tornam ao mesmo tempo inclinados e</p><p>aptos a entrar nos jogos sociais mais favoráveis ao desenvolvimen</p><p>to da virilidade: a política, os negócios, a ciência etc. (A educação</p><p>primária estimula desigualmente meninos e meninas a se engaja</p><p>rem nesses jogos e favorece mais nos meninos as diferentes formas</p><p>da libido dominandi, que pode encontrar expressões sublimadas</p><p>nas formas mais "puras" da libido social, como a libido sciendi.1)</p><p>A MASCULINIDADE COMO NOBREZA</p><p>Embora as condições "ideais" que a sociedade cabila oferecia às</p><p>pulsões do inconsciente androcêntrico tenham sido em grande par</p><p>te abolidas, e a dominação masculina tenha perdido algo de sua evi</p><p>dência imediata, alguns dos mecanismos que fundamentam essa</p><p>dominação continuam a funcionar, como a relação de causalidade</p><p>circular que se estabelece entre as estruturas objetivas do espaço</p><p>social e as disposições que elas produzem, tanto nos homens como</p><p>nas mulheres. As injunções continuadas, silenciosas e invisíveis, que</p><p>o mundo sexualmente hierarquizado no qual elas são lançadas lhes</p><p>dirige, preparam as mulheres, ao menos tanto quanto os explícitos</p><p>apelos à ordem, a aceitar como evidentes, naturais e inquestioná</p><p>veis prescrições e proscrições arbitrárias que, inscritas na ordem das</p><p>coisas, imprimem-se insensivelmente na ordem dos corpos.</p><p>Embora o mundo hoje se apresente como que semeado de</p><p>indícios e de signos que designam as coisas a serem feitas, ou não</p><p>factíveis, desenhando, como que em pontilhado, os movimentos e</p><p>deslocamentos possíveis, prováveis ou impossíveis, os "por fazer"</p><p>1. Deveríamos mencionar aqui todas as observações que atestam que, desde a mais</p><p>tenra infância, as crianças são objeto de expectativas coletivas muito diferentes se</p><p>gundo seu sexo e que, em situação escolar, os meninos são objeto de um tratamento</p><p>privilegiado (sabe-se que os professores lhes dedicam mais tempo, que são mais se</p><p>guidamente arguidos, mais raramente interrompidos e participam mais nos discus</p><p>sões gerais).</p><p>72 PIERRE B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>ou os "por vir" propostos por um universo a partir daí social e</p><p>economicamente diferenciado, tais indícios ou signos não se diri</p><p>gem a um agente qualquer, uma espécie de x intercambiável, mas</p><p>especificam-se segundo as posições e disposições de cada agente:</p><p>eles se apresentam como coisas a serem feitas, ou que não podem</p><p>ser feitas, naturais ou impensáveis, normais ou extraordinárias,</p><p>para tal ou qual categoria, isto é, particularmente para um homem</p><p>ou para uma mulher (e de tal ou qual condição). As "expectativas</p><p>coletivas", como diria Marcel Mauss, ou as "potencialidades obje</p><p>tivas", na expressão de Max Weber, que os agentes sociais desco</p><p>brem a todo instante, nada têm de abstrato, nem de teórico, mes</p><p>mo quando a ciência, para apreendê-las, tem que recorrer à estatís</p><p>tica. Elas estão inscritas na fisionomia do ambiente familiar, sob a</p><p>forma de oposição entre o universo público, masculino, e os mun</p><p>dos privados, femininos, entre a praça pública (ou a rua, lugar de</p><p>todos os perigos) e a casa (já foi inúmeras vezes observado que, na</p><p>publicidade ou nos desenhos humorísticos, as mulheres estão, na</p><p>maior parte do tempo, inseridas no espaço doméstico, à diferença</p><p>dos homens, que raramente se vêem associados à casa e são quase</p><p>sempre representados em lugares exóticos), entre os lugares desti</p><p>nados sobretudo aos homens, como os bares e os clubes do univer</p><p>so anglo-saxão, que, com seus couros, seus móveis pesados, angu</p><p>losos e de cor escura, remetem a uma imagem de dureza e de rude</p><p>za viril, e os espaços ditos "femininos", cujas cores suaves, bibelôs e</p><p>rendas ou fitas falam de fragilidade e de frivolidade.</p><p>É, sem dúvida, no encontro com as "expectativas objetivas" que</p><p>estão inscritas, sobretudo implicitamente, nas posições oferecidas</p><p>às mulheres pela estrutura, ainda fortemente sexuada, da divisão de</p><p>trabalho, que as disposições ditas "femininas", inculcadas pela</p><p>família e por toda a ordem social, podem se realizar, ou mesmo se</p><p>expandir, e se ver, no mesmo ato, recompensadas, contribuindo</p><p>assim para reforçar a dicotomia sexual fundamental, tanto nos car</p><p>gos, que parecem exigir a submissão e a necessidade de segurança,</p><p>quanto em seus ocupantes, identificados com posições nas quais,</p><p>encantados ou alienados, eles simultaneamente se encontram e se</p><p>perdem. A lógica, essencialmente social, do que chamamos de</p><p>A N A M N E S E DAS C O N S T A N T E S O C U L T A S 73</p><p>"vocação", tem por efeito produzir tais encontros harmoniosos</p><p>entre as disposições e as posições, encontros que fazem com que as</p><p>vítimas da dominação simbólica possam cumprir com felicidade</p><p>(no duplo sentido do termo) as tarefas subordinadas ou subalternas</p><p>que lhes são atribuídas por suas virtudes de submissão, de gentile</p><p>za, de docilidade, de devotamento e de abnegação.</p><p>A libido socialmente sexuada entra em comunicação com a</p><p>instituição que lhe censura ou lhe legitima a expressão. As "voca</p><p>ções" são sempre, por um lado, a antecipação mais ou menos fan</p><p>tasiosa do que o posto promete (por exemplo, a uma secretária,</p><p>datilografar os textos) e do que ele permite (por exemplo, manter</p><p>uma relação maternal ou de sedução com o patrão). O encontro</p><p>com o cargo pode ter um efeito de revelação na medida em que</p><p>autoriza e favorece, através das expectativas explícitas que ele</p><p>encerra, certas condutas, técnicas, sociais, mas também sexuais ou</p><p>sexualmente conotadas. O mundo do trabalho está, assim, reple</p><p>to de pequenos grupos profissionais isolados (serviços de hospi</p><p>tal, gabinetes de ministérios etc.) que funcionam como quase-</p><p>famílias, nos quais o chefe do serviço, quase sempre um homem,</p><p>exerce uma autoridade paternalista, baseada no envolvimento afe</p><p>tivo ou na sedução, e, ao mesmo tempo, sobrecarregado de traba</p><p>lho e tendo a seu encargo tudo que acontece na instituição, ofere</p><p>ce uma proteção generalizada a um pessoal subalterno, principal</p><p>mente feminino (enfermeiras, assistentes, secretárias) assim enco</p><p>rajado a um investimento intenso, muitas vezes patológico, na</p><p>instituição e naquele que a encarna.</p><p>Mas essas possibilidades objetivas se fazem lembrar também,</p><p>de maneira bem concreta e bem sensível, não apenas em todos os</p><p>signos hierárquicos da divisão do trabalho (médico/enfermeira,</p><p>chefe/secretária etc), bem como em todas as manifestações visí</p><p>veis das diferenças entre os sexos (atitude, roupas, penteado) e,</p><p>mais amplamente, nos detalhes, aparentemente insignificantes,</p><p>dos comportamentos quotidianos, que encerram inúmeros e</p><p>imperceptíveis apelos à ordem.2 Assim, nos tablados das televi-</p><p>2. Seria necessário analisar aqui todos os efeitos sociais daquilo que as estatísticas</p><p>registram como indices</p><p>modo respeitada, que</p><p>não haja um maior número de transgressões ou subversões, deli</p><p>tos e "loucuras" (basta pensar na extraordinária coordenação de</p><p>mi-lhares de disposições — ou de vontades — que cinco minu</p><p>tos de circulação automobilística na Praça da Bastilha ou da</p><p>Concorde requerem); ou, o que é ainda mais surpreendente, que</p><p>a ordem estabelecida, com suas relações de dominação, seus di</p><p>reitos e suas imunidades, seus privilégios e suas injustiças, salvo</p><p>uns poucos acidentes históricos, perpetue-se apesar de tudo tão</p><p>facilmente, e que condições de existência das mais intoleráveis</p><p>possam permanentemente ser vistas como aceitáveis ou até mes</p><p>mo como naturais. Também sempre vi na dominação masculina,</p><p>e no modo como é imposta e vivenciada, o exemplo por excelên</p><p>cia desta submissão paradoxal, resultante daquilo que eu chamo</p><p>de violência simbólica, violência suave, insensível, invisível a</p><p>suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias pu</p><p>ramente simbólicas da comunicação e do conhecimento, ou,</p><p>* Por não saber claramente se agradecimentos nominais seriam benéficos ou nefas</p><p>tos às pessoas a quem fossem dirigidos, contentar-me-ei em exprimir minha profunda</p><p>gratidão a todos aqueles e sobretudo a todas aquelas que me trouxeram teste</p><p>munhos, documentos, referências cientificas, idéias, e minha esperança de que este</p><p>trabalho venha a ser digno, sobretudo em seus efeitos, da confiança e das expectati</p><p>vas que eles ou elas nele depositaram.</p><p>PIERRE B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento</p><p>ou, em última instância, do sentimento. Essa relação social ex</p><p>traordinariamente ordinária oferece também uma ocasião única</p><p>de apreender a lógica da dominação, exercida em nome de um</p><p>princípio simbólico conhecido e reconhecido tanto pelo domi</p><p>nante quanto pelo dominado, de uma língua (ou uma maneira</p><p>de falar), de um estilo de vida (ou uma maneira de pensar, de fa</p><p>lar ou de agir) e, mais geralmente, de uma propriedade distinti</p><p>va, emblema ou estigma, dos quais o mais eficiente simbolica</p><p>mente é essa propriedade corporal inteiramente arbitrária e não</p><p>predicativa que é a cor da pele.</p><p>Torna-se evidente que, nessas matérias, nossa questão princi</p><p>pal tem que ser a de restituir à ãóxa seu caráter paradoxal e, ao</p><p>mesmo tempo, demonstrar os processos que são responsáveis pela</p><p>transformação da história em natureza, do arbitrário cultural em</p><p>natural. E, ao fazê-lo, nos pormos à altura de assumir, sobre nos</p><p>so próprio universo e nossa própria visão de mundo, o ponto de</p><p>vista do antropólogo capaz de, ao mesmo tempo, devolver à dife</p><p>rença entre o masculino e o feminino, tal como a (desconhece</p><p>mos, seu caráter arbitrário, contingente, e também, simultanea</p><p>mente, sua necessidade sócio-lógica. Não é por acaso que, quando</p><p>quis pôr em suspenso o que ela chama, magnificamente, de "o</p><p>poder hipnótico da dominação", Virginia Woolf se armou de uma</p><p>analogia etnográfica, religando geneticamente a segregação das</p><p>mulheres aos rituais de uma sociedade arcaica: "Inevitavelmente,</p><p>nós consideramos a sociedade um lugar de conspiração, que</p><p>engole o irmão que muitas de nós temos razões de respeitar na</p><p>vida privada, e impõe em seu lugar um macho monstruoso, de</p><p>voz tonitruante, de pulso rude, que, de forma pueril, inscreve no</p><p>chão signos em giz, místicas linhas de demarcação, entre as quais</p><p>os seres humanos ficam fixados, rígidos, separados, artificiais.</p><p>Lugares em que, ornado de ouro ou de púrpura, enfeitado de plu</p><p>mas como um selvagem, ele realiza seus ritos místicos e usufrui</p><p>dos prazeres suspeitos do poder e da dominação, enquanto nós,</p><p>'suas' mulheres, nos vemos fechadas na casa da família, sem que</p><p>nos seja dado participar de nenhuma das numerosas sociedades</p><p>P R E Â M B U L O 9</p><p>de que se compõe a sociedade".1 "Linhas de demarcação místicas"</p><p>"ritos místicos": esta linguagem — a da transfiguração mágica e</p><p>da conversão simbólica que produz a consagração ritual, princí</p><p>pio de um novo conhecimento — estimula a orientar a pesquisa</p><p>para um enfoque capaz de apreender a dimensão propriamente</p><p>simbólica da dominação masculina.</p><p>Será, portanto, necessário buscar em uma análise materialista</p><p>da economia os meios de escapar da ruinosa alternativa entre o</p><p>"material" e o "espiritual" ou "ideal" (mantida atualmente por</p><p>meio da oposição entre os estudos ditos "materialistas", que expli</p><p>cam a assimetria entre os sexos pelas condições de produção, e os</p><p>estudos ditos "simbólicos", muitas vezes notáveis, mas parciais).</p><p>Mas, primeiramente, só uma utilização muito especial da etnolo</p><p>gia pode permitir realizar o projeto, sugerido por Virginia Woolf,</p><p>de objetivar cientificamente a operação, corretamente dita místi</p><p>ca, na qual a divisão entre os sexos, tal como a conhecemos, se</p><p>produz; ou, em outros termos, de tratar a análise objetiva de uma</p><p>sociedade organizada de cima a baixo segundo o princípio andro-</p><p>cêntrico (a tradição cabila), como uma arqueologia objetiva de</p><p>nosso inconsciente, isto é, como instrumento de uma verdadeira</p><p>socioanálise.2</p><p>Esse desvio, indo a uma tradição exótica, é indispensável para</p><p>quebrar a relação de enganosa familiaridade que nos liga à nossa</p><p>própria tradição. As aparências biológicas e os efeitos, bem reais,</p><p>que um longo trabalho coletivo de socialização do biológico e de</p><p>biologização do social produziu nos corpos e nas mentes conju</p><p>gam-se para inverter a relação entre as causas e os efeitos e fazer ver</p><p>uma construção social naturalizada (os "gêneros" como habitus</p><p>sexuados), como o fundamento in natura da arbitrária divisão que</p><p>1. V. Woolf. Trois guinées, trad. V. Forrester, Paris, Éditions des Femmes, 1977, p.</p><p>200.</p><p>2. Nem que seja para comprovar que meu propósito atual não resulta de uma con</p><p>versão recente, remeto às páginas de um livro já antigo em que eu insistia no fato de</p><p>que, quando aplicada à divisão sexual do mundo, a etnologia pode "tornar-se uma</p><p>forma particularmente poderosa de socioanálise" (P. Bourdieu, le Sens pratique,</p><p>Paris, Éditions de Minuit, 1980, pp. 24Ó-247).</p><p>H) P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>está no princípio não só da realidade como também da represen</p><p>tação da realidade e que se impõe por vezes à própria pesquisa.3</p><p>Mas será que esse uso quase analítico da etnografia, que des</p><p>naturaliza, historicizando, o que é visto como o que há de mais</p><p>natural na ordem social, a divisão entre os sexos, não se arrisca a</p><p>pôr em destaque constantes e invariáveis — que estão no princí</p><p>pio mesmo da sua eficácia socioanalítica — e, com isso, a eterni</p><p>zar, ratificando-a, uma representação conservadora da relação</p><p>entre os sexos, a mesma que se condensa no mito do "eterno femi</p><p>nino"? É aqui que nos deparamos com um novo paradoxo, capaz</p><p>de obrigar a uma completa revolução na maneira de abordar o</p><p>que já se tentou estudar sob forma de "a história das mulheres":</p><p>será que as invariáveis que se mantêm, acima de todas as mudan</p><p>ças visíveis da condição feminina, e são ainda observadas nas rela</p><p>ções de dominação entre os sexos, não obrigam a tomar como</p><p>objeto privilegiado os mecanismos e as instituições históricas que,</p><p>no decurso da história, não cessaram de arrancar dessa mesma</p><p>história tais invariáveis?</p><p>Essa revolução no conhecimento não deixa de ter conseqüên</p><p>cias na prática e, particularmente, na concepção das estratégias</p><p>destinadas a transformar o estado atual da relação de forças mate</p><p>rial e simbólica entre os sexos. Se é verdade que o princípio de per</p><p>petuação dessa relação de dominação não reside verdadeiramen-</p><p>3. Assim, não é raro que os psicólogos retomem por conta própria a visão comum</p><p>dos sexos, como conjuntos radicalmente separados, sem interseção, e ignorem o grau</p><p>de recobrimento entre as distribuições de performances masculinas e femininas, e as</p><p>diferenças (de grandeza) entre as diferenças constatadas nos diversos domínios (da</p><p>anatomia sexual à inteligência). Ou, o que é mais grave, que, na construção</p><p>de feminilização. Sabe-se, por exemplo, que a perspectiva de</p><p>74 P I E R R E 8 Q U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>soes, as mulheres estão quase sempre acantonadas nos papéis</p><p>menores, que são outras tantas variantes da função de "anfitriãs",</p><p>tradicionalmente atribuídas ao "sexo frágil"; quando elas não</p><p>estão à frente de um homem, a quem visam a valorizar e que joga</p><p>muitas vezes, por meio de gracinhas ou de alusões mais ou menos</p><p>insistentes, com todas as ambigüidades inscritas na relação</p><p>"casal", elas têm dificuldade de se impor, ou de impor a própria</p><p>palavra, e ficam relegadas a um papel convencionado de "anima</p><p>dora" ou de "apresentadora". Quando elas participam de um</p><p>debate público, elas têm que lutar, permanentemente, para ter</p><p>acesso à palavra e para manter a atenção, e a diminuição que elas</p><p>sofrem é ainda mais implacável por não se inspirar em má vonta</p><p>de explícita e se exercer com a inocência total da inconsciência:</p><p>cortam-lhes a palavra, orientam, com a maior boa-fé, a um</p><p>homem a resposta a uma pergunta inteligente que elas acabam de</p><p>fazer (como se, enquanto tal, ela não pudesse, por definição, vir de</p><p>uma mulher). Esta espécie de negação à existência as obriga, mui</p><p>tas vezes, a recorrer, para se impor, às armas dos fracos, que só</p><p>reforçam seus estereótipos: o brilho, que acaba sendo visto como</p><p>capricho sem justificativa ou exibição imediatamente qualificada</p><p>de histérica; a sedução que, na medida em que se baseia em uma</p><p>forma de reconhecimento da dominação, vem reforçar a relação</p><p>estabelecida de dominação simbólica. Seria necessário enumerar</p><p>todos os casos em que os homens mais bem-intencionados (a vio</p><p>lência simbólica, como se sabe, não opera na ordem das intenções</p><p>conscientes) realizam atos discriminatórios, excluindo as mulhe</p><p>res, sem nem se colocar a questão, de posições de autoridade,</p><p>reduzindo suas reivindicações a caprichos, merecedores de uma</p><p>feminilizaçõo de uma profissão reduz sua desejabilidade e prestígio (cf. J. C.</p><p>Tonhey, "Effects of Additional Women Professionals on Rating of Occupational</p><p>Prestige and Desirability", Journal of Personaliry and Social Psychology, 1974, 29 [I],</p><p>pp. 86-89). É porém menos sabido que a sex-rar/o exerce por si mesma efeitos, favo</p><p>recendo, por exemplo, a aquisição de um conjunto de disposições que, sem estarem</p><p>inscritos explicitamente nos programas oficiais, são inculcadas de maneira difusa (cf.</p><p>M. Duru-Bellot, L'École des filles. Quelle formation pour quels rôles sociaux, Paris,</p><p>L'Harmattan, 1990, p. 27). E observa-se, inclusive, que as moças tendem a se sair</p><p>pior nas especialidades de ensino técnico, em que elas são minoritárias (cf. M. Duru-</p><p>Bellat, op.cit.)</p><p>A N A M N E S E D A S C O N S T A N T E S O C U L T A S 75</p><p>palavra de apaziguamento ou de um tapinha na face,3 ou então,</p><p>com intenção aparentemente oposta, chamando-as e reduzindo-</p><p>as, de algum modo, à sua feminilidade, pelo fato de desviar a aten</p><p>ção para seu penteado, ou para tal ou qual traço corporal, ou de</p><p>usar, para se dirigir a elas, de termos familiares (o nome próprio)</p><p>ou íntimos("minha menina", "querida" etc.) mesmo em uma</p><p>situação "formal" (uma médica diante de seus pacientes), ou</p><p>outras tantas "escolhas" infinitesimais do inconsciente que, acu-</p><p>mulando-se, contribuem para construir a situação diminuída das</p><p>mulheres e cujos efeitos cumulativos estão registrados nas estatís</p><p>ticas da diminuta representação das mulheres nas posições de</p><p>poder, sobretudo econômico e político.</p><p>Realmente, não seria exagero comparar a masculinidade a</p><p>uma nobreza. Para convencer-nos disso, basta observar a lógica,</p><p>bem conhecida dos cabilas, do double standard, como dizem os</p><p>anglo-saxões, que instaura uma dissimetria radical na avaliação</p><p>das atividades masculinas e femininas. Além do fato de que o ho</p><p>mem não pode, sem derrogação, rebaixar-se a realizar certas tare</p><p>fas socialmente designadas como inferiores (entre outras razões</p><p>porque está excluída a idéia de que ele possa realizá-las), as mes</p><p>mas tarefas podem ser nobres e difíceis quando são realizadas por</p><p>homens, ou insignificantes e imperceptíveis, fáceis e fúteis, quan</p><p>do são realizadas por mulheres, como nos faz lembrar a diferença</p><p>entre um cozinheiro e uma cozinheira, entre o costureiro e a cos</p><p>tureira; basta que os homens assumam tarefas reputadas femini</p><p>nas e as realizem fora da esfera privada para que elas se vejam com</p><p>isso enobrecidas e transfiguradas: "É o trabalho, observa Margaret</p><p>Maruani, que se constitui sempre como diferente segundo seja</p><p>efetuado por homens ou por mulheres". Se a estatística estabelece</p><p>que as profissões ditas qualificadas caibam sobretudo aos homens,</p><p>ao passo que os trabalhos atribuídos às mulheres sejam "sem qua</p><p>lificação", é, em parte, porque toda profissão, seja ela qual for, vê-</p><p>3. Inúmeras observadoras registraram a dissimetria entre os homens e as mulheres no</p><p>que Nancy Henley chamou de "a política do toque", isto é, a facilidade e a freqüên</p><p>cia dos contatos corporais (dar um tapinha no rosto, passar o braço nos ombros ou</p><p>pela cintura etc).</p><p>76 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>se de certo modo qualificada pelo fato de ser realizada por</p><p>homens (que, sob este ponto de vista, são todas, por definição, de</p><p>qualidade).4 Assim, do mesmo modo que a mais perfeita mestria</p><p>da esgrima não bastava para abrir a um plebeu as portas da nobre</p><p>za de espada, do mesmo modo, as digitadoras, cuja entrada nas</p><p>profissões gráficas suscitou enormes resistências por parte dos</p><p>homens, ameaçados em sua mitologia profissional do trabalho</p><p>altamente qualificado, não são reconhecidas como tendo a mesma</p><p>profissão que seus companheiros masculinos, do qual estão sepa</p><p>radas apenas por uma simples cortina, se bem que realizem o</p><p>mesmo trabalho: "Façam elas o que fizerem, as digitadoras serão</p><p>datilógrafas e, portanto, sem qualificação alguma. Façam eles o</p><p>que fizerem, os revisores serão profissionais do livro e, portanto,</p><p>muito qualificados".5 E, depois de longas lutas das mulheres para</p><p>fazer reconhecer suas qualificações, as tarefas que as mudanças tec</p><p>nológicas radicalmente redistribuíram entre os homens e as</p><p>mulheres serão arbitrariamente recompostas, de modo a empo</p><p>brecer o trabalho feminino, mantendo, decisoriamente, o valor,</p><p>superior do trabalho masculino.6 Vemos que o princípio cabila que</p><p>quer que o trabalho da mulher, destinado a se efetivar na casa</p><p>"como a mosca no leite, sem que nada apareça fora",7 fique conde</p><p>nado a permanecer invisível continua a aplicar-se em um contexto</p><p>que parece ter-se modificado radicalmente; como o atesta também</p><p>o fato de que as mulheres estão ainda muito comumente privadas</p><p>do título hierárquico correspondente a sua função real.</p><p>Através das esperanças subjetivas que elas impõem, as "expec</p><p>tativas coletivas", positivas ou negativas, tendem a se inscrever nos</p><p>4. M. Maruani e C. Nicole, Au Labeur des femmes. Métiers masculins, emplois fémi</p><p>nins, Paris, Syros/Alternatives, 1989, p. 15.</p><p>5. Ibid, pp. 34-77.</p><p>6. A perpetuação de diferenças arbitrárias pode basear-se em divisões das mais arcai</p><p>cas da visão mítica, por exemplo, entre o quente e o frio, como se vê no caso da indús</p><p>tria de vidro, em que se observa uma separação entre o setor quente (forno e fabrica</p><p>ção), masculino, considerado como nobre, e o setor frio (fiscalização, arte, embala</p><p>gem], menos nobre e deixado a cargo das mulheres (H. Sumiko Hirata, Paradigmes</p><p>d'organisation industriels et rapports sociaux. Comparaison Brésil-France-Japon, IRES-</p><p>CO, 1992).</p><p>7. P. Bourdieu, te Sens Pratique, op. cit., p. 450.</p><p>A N A M N E S E P A S C O N S T A N T E S O C U L T A S 77</p><p>corpos sob forma de disposições permanentes. Assim, segundo a</p><p>lei universal de ajustamento das esperanças às oportunidades, das</p><p>aspirações às possibilidades, a experiência prolongada e invisivel-</p><p>mente mutilada de um mundo sexuado de cima a baixo tende a</p><p>fazer desaparecer, desencorajando-a, a própria inclinação a reali</p><p>zar atos</p><p>que não são esperados das mulheres — mesmo sem estes</p><p>lhes serem recusados. Como o demonstra o seguinte testemunho</p><p>sobre as mudanças nas disposições que vão acompanhando a</p><p>mudança de sexo, aquela experiência favorece o aparecimento de</p><p>uma "impotência aprendida" {learneá helplessness): "Quanto mais</p><p>eu era tratada como uma mulher, mais eu me tornava mulher. Eu</p><p>me adaptava, com maior ou menor boa vontade. Se acreditavam</p><p>que eu era incapaz de dar marcha à ré, ou de abrir garrafas, eu</p><p>sentia, estranhamente, que me tornava incompetente para tal. Se</p><p>achavam que uma mala era muito pesada para mim, inexplicavel</p><p>mente, eu também achava que sim."8 Magnífica recordação, tor</p><p>nada possível pela comparação com esta espécie de efeito Pigma-</p><p>lião invertido ou negativo, que se exerce tão precoce e tão conti</p><p>nuamente sobre as mulheres e que acaba passando totalmente</p><p>despercebido (penso, por exemplo, na maneira pela qual os pais,</p><p>professores e colegas desestimulam — ou melhor, não estimulam</p><p>— a orientação das moças para certas carreiras, sobretudo as téc</p><p>nicas ou científicas: "Os professores dizem sempre que somos</p><p>mais frágeis e então... acabamos acreditando nisso", "Passam o</p><p>tempo todo repetindo que as carreiras científicas são mais fáceis</p><p>para os meninos. Então, forçosamente..."). E compreendemos</p><p>que, por essa lógica, a própria proteção "cavalheiresca", além de</p><p>poder conduzir a seu confinamento ou servir para justificá-lo,</p><p>pode igualmente contribuir para manter as mulheres afastadas de</p><p>todo contato com todos os aspectos do mundo real "para os quais</p><p>elas não foram feitas" porque não foram feitos para elas.</p><p>8. "The more I was treated as a woman, the more woman I become. / adapted willy-</p><p>nilly if I wos assumed to be incompétent at reversing cars, or opening bottles, oddly</p><p>incompétent I found myself becoming. If a cose wos lhought too heavy for me, I found</p><p>it so myself" (J. Morris, Conundrum, New York, Harcourt, Brace, Jovanovich, 1974,</p><p>pp. 165-166).</p><p>78 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>Todas as chamadas à ordem inscritas na ordem das coisas,</p><p>todas as injunções silenciosas ou as surdas ameaças inerentes à</p><p>marcha normal do mundo especificam-se, evidentemente, segun</p><p>do os campos, e a diferença entre os sexos se apresenta para as</p><p>mulheres, em cada um deles, sob formas específicas, através, por</p><p>exemplo, da definição dominante da prática, que é corrente e que</p><p>ninguém pensa em apreender como sexuada e, portanto, pôr em</p><p>questão. É característico dos dominantes estarem prontos a fazer</p><p>reconhecer sua maneira de ser particular como universal. A defi</p><p>nição de excelência está, em todos os aspectos, carregada de impli</p><p>cações masculinas, que têm a particularidade de não se mostra</p><p>rem como tais. A definição de um cargo, sobretudo de autoridade,</p><p>inclui todo tipo de capacitações e aptidões sexualmente conota</p><p>das: se tantas posições dificilmente são ocupadas por mulheres é</p><p>porque elas são talhadas sob medida para homens cuja virilidade</p><p>mesma se construiu como oposta às mulheres tais como elas são</p><p>hoje. Para chegar realmente a conseguir uma posição, uma</p><p>mulher teria que possuir não só o que é explicitamente exigido</p><p>pela descrição do cargo, como também todo um conjunto de atri</p><p>butos que os ocupantes masculinos atribuem usualmente ao car</p><p>go, uma estatura física, uma voz ou aptidões como a agressivida</p><p>de, a segurança, a "distância em relação ao papel", a autoridade</p><p>dita natural etc, para as quais os homens foram preparados e trei</p><p>nados tacitamente enquanto homens.</p><p>Em outros termos, as normas pelas quais as mulheres são</p><p>medidas nada têm de universais. O feminismo dito universalista,</p><p>por ignorar o efeito de dominação, e tudo aquilo que a universali</p><p>dade aparente do dominante deve à sua relação com o dominado</p><p>— no caso, tudo que diz respeito à virilidade —, inscreve na defi</p><p>nição universal do ser humano propriedades históricas do ho</p><p>mem viril, construído em oposição às mulheres. Mas a visão dita</p><p>diferencialista, por ignorar, igualmente, o que a definição domi</p><p>nante deve à relação histórica de dominação e à busca da diferen</p><p>ça que lhe é constitutiva (o que é, apesar de tudo, a virilidade</p><p>senão uma não-feminilidade?), não escapa também, em sua preo</p><p>cupação de revalorizar a experiência feminina, a uma forma</p><p>A N A M N E S E D A S C O N S T A N T E S O C U L T A S 79</p><p>abrandada de essencialismo: assim como a negritude à maneira de</p><p>Senghor aceitava alguns traços da definição dominante do Negro,</p><p>como a sensibilidade, ela esquece que a "diferença" só surge quan</p><p>do se assume sobre o dominado o ponto de vista do dominante e</p><p>que aquilo mesmo de que ela pretende se diferenciar (exaltando,</p><p>por exemplo, como Chodorow, a relatedness por oposição à sepa-</p><p>ratedness masculina ou, como certas advogadas da escritura femi</p><p>nista, uma relação particular com o corpo) é produto de uma rela</p><p>ção histórica de diferenciação.</p><p>O SER FEMININO COMO SER-PERCEBIDO</p><p>Tudo, na gênese do habitus feminino e nas condições sociais</p><p>de sua realização, concorre para fazer da experiência feminina do</p><p>corpo o limite da experiência universal do corpo-para-o-outro,</p><p>incessantemente exposto à objetivação operada pelo olhar e pelo</p><p>discurso dos outros. A relação com o próprio corpo não se reduz</p><p>a uma "imagem do corpo", isto é, à representação subjetiva (self-</p><p>image ou looking-glass self), associada a um determinado grau de</p><p>self-esteem, que um agente tem de seus efeitos sociais (de sua sedu</p><p>ção, de seu charme etc.) e que se constitui essencialmente a partir</p><p>da representação objetiva do corpo, feedback reenviado pelos</p><p>outros (pais e pares etc). Semelhante modelo esquece que toda a</p><p>estrutura social está presente no curso da interação, sob a forma</p><p>de esquemas de percepção e de apreciação inscritos no corpo dos</p><p>agentes em interação. Estes esquemas, nos quais um grupo depo</p><p>sita suas estruturas fundamentais (tais como grande/pequeno,</p><p>forte/fraco, grosso/fino etc.) interpõem-se desde a origem entre</p><p>cada agente e seu corpo, porque as reações ou as representações</p><p>que seu corpo suscita nos outros e sua própria percepção dessas</p><p>reações são elas mesmas construídas sobre tais esquemas: uma</p><p>reação produzida a partir das oposições grande/pequeno, mascu</p><p>lino/feminino (como todos os juízos do tipo "ela é muito grande</p><p>para uma menina", ou "é aborrecida para uma menina", ou "para</p><p>um menino isto não é grave", variante da expressão cabila "não há</p><p>80 PIERRE B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U I I N A</p><p>nunca tara no caso de um homem") é ocasião de adquirir os</p><p>esquemas referidos que, voltados pelo próprio sujeito sobre seu</p><p>próprio corpo, produzirão a mesma reação e de experimentar a</p><p>experiência prática do próprio corpo que eles acarretam.</p><p>Assim, o corpo percebido é duplamente determinado social</p><p>mente. Por um lado, ele é, até naquilo que parece mais natural</p><p>(seu volume, seu talhe, seu peso, sua musculatura etc), um pro</p><p>duto social, que depende de suas condições sociais de produção,</p><p>através de diversas mediações, tais como as condições de trabalho</p><p>(que abrangem as deformações e as doenças profissionais por ele</p><p>geradas) e os hábitos alimentares. O hexis corporal, no qual</p><p>entram, ao mesmo tempo, a conformação propriamente física de,</p><p>corpo (o "físico") e a maneira se servir dele, a postura, a atitude,</p><p>ao que se crê expressa o "ser profundo" a "natureza" da "pessoa"</p><p>em sua verdade, segundo o postulado da correspondência entre o</p><p>"físico" e o "moral" nascido do conhecimento prático ou raciona</p><p>lizado que permite associar propriedades "psicológicas" e</p><p>"morais" a traços corporais ou fisiognomônicos (um corpo delga</p><p>do e esbelto, por exemplo, percebido como sinal de um controle</p><p>viril de apetites corporais). Mas essa linguagem da natureza, que</p><p>se acredita trair o mais oculto e o mais verdadeiro ao mesmo tem</p><p>po, é, de fato, uma linguagem da identidade social, assim natura</p><p>lizada, sob forma, por exemplo, da "vulgaridade" ou da "distin</p><p>ção", ditas naturais.</p><p>Por outro lado, essas propriedades corporais são apreendidas</p><p>através de esquemas de percepção cujo uso nos atos de avaliação</p><p>depende da posição ocupada no espaço social: as taxinomias em</p><p>vigor tendem a contrapor, hierarquizando-as, as propriedades</p><p>mais freqüentes entre os dominantes e as que são mais freqüentes</p><p>entre os dominados (magro/gordo, grande/pequeno, elegante/</p><p>grosseiro, leve/pesado etc.9). A representação social do próprio</p><p>corpo é, assim, obtida através da aplicação de uma taxinomia</p><p>9. È um mecanismo desse tipo que Dominique Merllié põe em foco ao submeter à</p><p>análise a percepção diferenciada que os meninos e as meninas têm da diferença</p><p>entre as escrituras masculinas e femininas (cf. D. Merllié, art. cit.).</p><p>A N A M N E S E DAS C O N S T A N T E S O C U L T A S 8J_</p><p>social, cujo princípio é idêntico ao dos corpos aos quais se apli</p><p>ca.10 Assim, o olhar não é apenas um simples poder universal e</p><p>abstrato de objetivação, como supõe Sartre; é um poder simbóli</p><p>co cuja eficácia depende da posição relativa daquele que percebe e</p><p>daquele que é percebido, e do grau em que os esquemas de per</p><p>cepção e de apreciação postos em ação são conhecidos e reconhe</p><p>cidos por aquele a quem se aplicam.</p><p>A experiência prática do corpo, que se produz na aplicação,</p><p>ao corpo próprio, de esquemas fundamentais nascidos da incor</p><p>poração das estruturas sociais, e que é continuamente reforçada</p><p>pelas reações, suscitadas segundo os mesmos esquemas, que o</p><p>próprio corpo suscita nos outros, é um dos princípios da constru</p><p>ção, em cada agente, de uma relação duradoura para com seu cor</p><p>po: sua maneira particular de aprumar o corpo, de apresentá-lo</p><p>aos outros, expressa, antes de mais nada, a distância entre o corpo</p><p>praticamente experimentado e o corpo legítimo, e, simultanea</p><p>mente, uma antecipação prática das possibilidades de sucesso nas</p><p>interações sociais, que contribui para definir essas possibilidades</p><p>(pelos traços comumente descritos como segurança, confiança</p><p>em si, desenvoltura). A probabilidade de vivenciar com desagrado</p><p>o próprio corpo (forma característica da experiência do "corpo</p><p>alienado"), o mal-estar, a timidez ou a vergonha são tanto mais</p><p>fortes quanto maior a desproporção entre o corpo socialmente</p><p>exigido e a relação prática com o próprio corpo imposta pelos</p><p>olhares e as reações dos outros. Ela varia nitidamente segundo o</p><p>sexo e a posição no espaço social. Assim, a oposição entre o gran</p><p>de e o pequeno que, como inúmeras experiências demonstraram,</p><p>é um dos princípios fundamentais da experiência que os agentes</p><p>10. Assim, os corpos teriam todas as chances de receber um valor estritamente pro</p><p>porcional à posição de seus detentores no espaço social se a autonomia da lógica</p><p>da hereditariedade biológica em relação à lógica da hereditariedade social não con</p><p>cedesse por vezes, excepcionalmente, aos mais desfavorecidos econômica e social</p><p>mente as propriedades corporais mais raras, como a beleza, (que ora se diz "fatal"</p><p>porque ameaça a ordem estabelecida], e se, pelo contrário, os acidentes da genética</p><p>não privassem por vezes os "grandes" dos atributos corporais de suo posição, como</p><p>a beleza ou uma estatura elevada.</p><p>82 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U U N A</p><p>têm de seu corpo e de todo o uso prático que dele fazem, e princi</p><p>palmente do lugar que lhe dão11 (a representação comum conce</p><p>dendo ao homem a posição dominante, a do protetor que envol</p><p>ve, toma conta, olha de cima etc.12), especifica-se segundo os</p><p>sexos, que são eles próprios pensados através dessa oposição.</p><p>Segundo uma lógica que se observa também nas relações entre</p><p>dominantes e dominados, dentro do espaço social, e que faz com</p><p>que uns e outros ponham em ação a mesma oposição, mas dando</p><p>valores inversos aos termos que ele contrapõe, constatamos, como o</p><p>faz Seymour Fisher, que os homens tendem a se mostrar insatis</p><p>feitos com as partes de seu corpo que consideram "pequenas</p><p>demais", ao passo que as mulheres dirigem suas críticas sobretudo</p><p>às regiões de seu corpo que lhes parecem "demasiado grandes".</p><p>A dominação masculina, que constitui as mulheres como</p><p>objetos simbólicos, cujo ser {esse) é um ser-percebido (percipi),</p><p>tem por efeito colocá-las em permanente estado de insegurança</p><p>corporal, ou melhor, de dependência simbólica: elas existem pri</p><p>meiro pelo, e para, o olhar dos outros, ou seja, enquanto objetos</p><p>receptivos, atraentes, disponíveis. Delas se espera que sejam</p><p>"femininas", isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas,</p><p>discretas, contidas ou até mesmo apagadas. E a pretensa "femini</p><p>lidade" muitas vezes não é mais que uma forma de aquiescência</p><p>em relação às expectativas masculinas, reais ou supostas, princi</p><p>palmente em termos de engrandecimento do ego. Em conseqüên</p><p>cia, a dependência em relação aos outros (e não só aos homens)</p><p>tende a se tornar constitutiva de seu ser.</p><p>Esta heteronomia é o princípio de disposições como o desejo</p><p>de atrair a atenção e de agradar, designado por vezes como coque-</p><p>teria, ou a propensão a esperar muito do amor, o único capaz,</p><p>como diz Sartre, de fazer alguém sentir-se justificado nas particu-</p><p>11. Cf. sobre este aspecto S. Fisher e C. E. Cleveland, Body Image and Personality,</p><p>Princeton, New York, Van Nostrand, 1958.</p><p>12. Sobre esta relação de envolvimento protetor, tal como vem expressa na publicida</p><p>de, cf. E. Goffman, "La ritualisation de la féminité", Actes de la recherche en sciences</p><p>sociales, 14, 1977, pp. 34-50.</p><p>A N A M N E S E D A S C O N S T A N T E S O C U I T A S 83</p><p>laridades mais contingentes de seu ser, e antes de tudo de seu cor</p><p>po.13 Incessantemente sob o olhar dos outros, elas se vêem obriga</p><p>das a experimentar constantemente a distância entre o corpo real,</p><p>a que estão presas, e o corpo ideal, do qual procuram infatigavel</p><p>mente se aproximar.14 Tendo necessidade do olhar do outro para</p><p>se constituírem, elas estão continuamente orientadas em sua prá</p><p>tica pela avaliação antecipada do apreço que sua aparência corpo</p><p>ral e sua maneira de portar o corpo e exibi-lo poderão receber (daí</p><p>uma propensão, mais ou menos marcada, à autodepreciação e à</p><p>incorporação do julgamento social sob forma de desagrado do</p><p>próprio corpo ou de timidez).</p><p>É na pequena burguesia, que devido à sua posição no espaço</p><p>social está particularmente exposta a todos os efeitos da ansieda</p><p>de em relação ao olhar social, que as mulheres atingem a forma</p><p>extrema da alienação simbólica. (O que significa que os efeitos da</p><p>posição social podem, em certos casos, como os citados, reforçar</p><p>efeitos do mesmo gênero ou, em outros casos, atenuá-los, sem</p><p>nunca, ao que parece, chegar a anulá-los.) A contrario, a prática</p><p>intensiva de um determinado esporte determina nas mulheres</p><p>uma profunda transformação da experiência subjetiva e objetiva</p><p>do corpo: deixando de existir apenas para o outro ou, o que dá no</p><p>mesmo, para o espelho (instrumento que permite não só se ver,</p><p>mas também experimentar ver como é vista e se fazer ver como</p><p>deseja ser vista), isto é, deixando de ser apenas uma coisa feita</p><p>para ser olhada, ou que é preciso olhar visando a prepará-la para</p><p>ser vista, ela se converte de corpo-para-o-outro em corpo-para-si-</p><p>13. Se as mulheres se mostram particularmente inclinadas ao amor romântico ou</p><p>romanesco, é, sem dúvida, por um lado, porque elos têm nele particular interesse:</p><p>além do fato de prometer liberá-las da dominação masculina, ele lhes oferece, tanto</p><p>em sua forma mais comum, como o casamento, pelo quoi, nas sociedades masculi</p><p>nas, elas circulam em todos os lugares, como em suas formas extraordinárias, uma</p><p>via, às vezes a única, de ascensão social.</p><p>14. Os tratamentos de beleza que absorvem muito tempo, dinheiro e energia (em</p><p>graus diferentes, segundo as classes) têm seu limite extremo na cirurgia estético, que se</p><p>tornou uma enorme indústria nos Estados Unidos (um milhão e meio de pessoas recor</p><p>rem a cada ano a seus serviços — cf. S. Bordo, Unbearable Weight, Feminism,</p><p>Western Culture and the Body, Berkeley, University</p><p>of Califórnia Press, 1993, p. 25).</p><p>84 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>mesma, de corpo passivo e agido em corpo ativo e agente; no</p><p>entanto, aos olhos dos homens, aquelas que, rompendo a relação</p><p>tácita de disponibilidade, reapropriam-se de certa forma de sua</p><p>imagem corporal e, no mesmo ato, de seus corpos, são vistas</p><p>como "não femininas" ou até como lésbicas — a afirmação de</p><p>independência intelectual, que se traduz também em manifesta</p><p>ções corporais, produzindo efeitos em tudo semelhantes.15 De</p><p>maneira mais geral, o acesso ao poder, seja ele qual for, coloca as</p><p>mulheres em situação de double bina: se atuam como homens,</p><p>elas se expõem a perder os atributos obrigatórios da "feminilida</p><p>de" e põem em questão o direito natural dos homens às posições</p><p>de poder; se elas agem como mulheres, parecem incapazes e ina</p><p>daptadas à situação. Estas expectativas contraditórias não fazem</p><p>mais que substituir aquelas às quais elas são estruturalmente</p><p>expostas enquanto objetos oferecidos no mercado de bens simbó</p><p>licos, convidadas, ao mesmo tempo, a fazer tudo para agradar e</p><p>seduzir, e levadas a rejeitar as manobras de sedução que esta espé</p><p>cie de submissão prejudicial ao veredicto do olhar masculino po</p><p>de parecer ter suscitado. Essa contraditória combinação de fecha</p><p>mento e abertura, de contenção e sedução, é tanto mais difícil de</p><p>realizar quanto mais estiver submetida à apreciação dos homens,</p><p>que podem cometer erros de interpretação, inconscientes ou inte</p><p>ressados. É assim que, como observou uma pesquisada, diante das</p><p>brincadeiras sexuais, as mulheres muitas vezes não têm outra</p><p>escolha senão a de se excluir, ou de participar, pelo menos passiva</p><p>mente, para tentar se integrar, expondo-se, então, a não poder</p><p>protestar se forem vítimas de sexismo ou de assédio sexual.</p><p>Sandra Lee Bartky, que propõe uma das mais argutas descri</p><p>ções da experiência feminina do corpo, erra, a meu ver, ao atribuir</p><p>apenas à ação, sem dúvida muito importante, do "complexo</p><p>moda/beleza" (fashion beauty complex) a introjeção, nas mulhe</p><p>res, de "profundas ansiedades a respeito de seu corpo" e de um</p><p>15. Cf. C. A. MocKinnon, op. cil, pp. 121 e seg.</p><p>A N A M N E S E D A S C O N S T A N T E S O C U L T A S 85</p><p>"sentimento agudo de sua indignidade corporal".16 Embora o efei</p><p>to dessas instituições seja inegável, não se trata mais que de um</p><p>reforço do efeito da relação fundamental que institui a mulher na</p><p>posição de ser-percebido, condenado a se ver através das categorias</p><p>dominantes, isto é, masculinas. E para compreender a "dimensão</p><p>masoquista" do desejo feminino, isto é, esta espécie de "erotização</p><p>das relações sociais de dominação",17 que faz com que, como diz</p><p>ainda Sandra Lee Bartky, "para muitas mulheres, a posição domi</p><p>nante dos homens seja excitante",18 é preciso levantar a hipótese de</p><p>que as mulheres pedem aos homens (e também, mas secundaria</p><p>mente, às instituições do complexo moda/beleza) que lhes ofere</p><p>çam subterfúgios para reduzir seu "sentimento de deficiência cor</p><p>poral". Ora, podemos supor que o olhar dos poderosos, que tem</p><p>autoridade sobretudo sobre os outros homens, é particularmente</p><p>apto a preencher esta função reasseguradora.19</p><p>A VISÃO FEMININA DA VISÃO MASCULINA</p><p>A estrutura impõe suas pressões aos dois termos da relação de</p><p>dominação, portanto aos próprios dominantes, que podem disto</p><p>se beneficiar, por serem, como diz Marx, "dominados por sua</p><p>dominação". E isso porque, como já o demonstram sobejamente</p><p>todos os jogos associados à oposição do grande e do pequeno, os</p><p>dominantes não podem deixar de aplicar a si mesmos, isto é, a seu</p><p>corpo e a tudo aquilo que são e fazem, os esquemas do incons</p><p>ciente; esquemas que, em seu caso, engendram exigências terríveis</p><p>— como pressentem, ou reconhecem tacitamente, as mulheres</p><p>16. S. Lee Bartky, Feminity and Domination, Studies in lhe Phenomenology oi Oppres</p><p>sion, New York-Londres, Routledge, 1990, p. 41 .</p><p>17. Ibid., p. 5 1 .</p><p>18. Ibid. ["For many women, dominance in men is exciling") e também p. 47.</p><p>19. O dominante tem, principalmente, o poder de impor sua visão de si mesmo como</p><p>algo objetivo e coletivo (sendo seu auge representado pelas estátuas eqüestres ou</p><p>pelos retratos majestáticos], e de obter dos outros que, tal como se dá no amor ou na</p><p>crença, eles abdiquem de seu poder genérico de objetivaçõo, constituindo-se, assim,</p><p>em sujeito absoluto, sem exterior, plenamente justificado de existir tal como existe.</p><p>86 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>que não querem um marido menor do que elas. Temos, portanto,</p><p>que analisar, em suas contradições, a experiência masculina da</p><p>dominação, tomando como referência Virginia Woolf— embora</p><p>menos a autora de seus clássicos, incansavelmente citados, do</p><p>feminismo, que são A Room ofOne's Own (Um Quarto Só Seu) ou</p><p>Three Guineas (Três Guinéus), e mais a romancista de To the</p><p>Lighthouse (Passeio ao Farol), que, graças sem dúvida à anamnese</p><p>propiciada pelo trabalho de escrever,20 oferece uma evocação das</p><p>relações entre os sexos desembaraçada de todos os clichês sobre o</p><p>sexo, o dinheiro e o poder que seus textos mais teóricos ainda vei</p><p>culam. Podemos, realmente, descobrir, por sob esta narrativa,</p><p>uma evocação incomparavelmente lúcida do olhar feminino, ele</p><p>mesmo particularmente lúcido com relação a essa espécie de</p><p>esforço desesperado, e bastante patético, mesmo em sua triunfal</p><p>inconsciência, que todo homem tem que fazer para estar à altura</p><p>de sua idéia infantil de homem.</p><p>É essa lucidez inquieta e indulgente que Virginia Woolf evoca,</p><p>desde as primeiras páginas do romance. É provável, de fato, que, à</p><p>diferença da Sra. Ramsay, que teme que seu marido tenha sido</p><p>escutado, a maioria dos leitores, sobretudo masculinos, não com</p><p>preenda, ou não perceba, a uma primeira leitura, a situação estra</p><p>nha, ou até mesmo um tanto ridícula, em que se meteu o Sr.</p><p>Ramsay: "Súbito um grito violento, semelhante ao de um sonâm</p><p>bulo semidesperto, no qual se distinguia algo como 'sob as balas,</p><p>sob os obuses, saraivada ardente', ressoou com extrema intensida</p><p>de em seus ouvidos e a fez voltar-se, muito inquieta, para ver se</p><p>alguém havia escutado seu marido".21 E é provável que eles ainda</p><p>20. Virginia Woolf tinha consciência do poradoxo, que só poderá surpreender os</p><p>que têm da literatura e de suas vias para a verdade uma visão simplista: "/ prefer,</p><p>where truth is important, to write fiction" (V. Woolf, The Pargiters, New York,</p><p>Harcourt, Brace Jovanovich, 1977, p. 9). Ou então: "Fiction hère is likely to contain</p><p>more truth thon facts" (V. Woolf, A Room of One's Ovin, Londres, Léonard and</p><p>Virginia Woolf, 1935, p. 7).</p><p>2 1 V . Woolf, La Promenade au phare, op. cit, p. 24. Embora, na leitura do romance,</p><p>isto só se compreenda pouco o pouco, é bom saber que o Sr. Ramsay, um professor</p><p>que vive cercado de alunos e de colegas, foi surpreendido no momento em que estava</p><p>declamando em voz alta o poema famoso de Tennyson intitulado "A Carga da briga</p><p>da de cavalaria ligeira".</p><p>A N A M N E S E D A S C O N S T A N T E S O C U L T A S 87</p><p>não compreendam quando, algumas páginas adiante, o Sr.</p><p>Ramsay é surpreendido por outros personagens, Lily Briscoe e seu</p><p>amigo. É só pouco a pouco, através de visões diversas que os dife</p><p>rentes personagens dele puderam ter, que eles compreenderão a</p><p>conduta do Sr. Ramsay e a inquietação de sua mulher a seu respei</p><p>to: "E seu hábito de falar sozinho ou de recitar para si mesmo ver</p><p>sos grandiloqüentes, como ela temera, estava sendo crescente. E</p><p>disso resultando situações embaraçosas".22 O Sr. Ramsay, que ha</p><p>via surgido nas primeiras páginas do romance como um podero</p><p>so personagem masculino, e paternal, é pego em flagrante delito</p><p>de infantilidade.</p><p>Toda a lógica do personagem reside nesta aparente contradi</p><p>ção. O Sr. Ramsay, tal como o rei arcaico de que fala Benveniste</p><p>em seu Vocabulário das Instituições Indo-européias, é aquele cujas</p><p>palavras são veredictos; aquele que pode aniquilar com</p><p>uma frase</p><p>a "alegria extraordinária" de seu filho James, de seis anos, inteira</p><p>mente voltado para o passeio ao farol no dia seguinte ("Mas, diz o</p><p>pai detendo-se diante da janela do salão, não vai fazer tempo</p><p>bom"). Suas previsões têm o poder de se verem confirmadas, no</p><p>sentido literal, ou seja, de se mostrarem "verdadeiras": seja por</p><p>atuarem como ordens, bênçãos ou maldições que fazem aconte</p><p>cer, magicamente, o que elas enunciam; seja porque, por um efei</p><p>to infinitamente mais temível, elas enunciam o que se anuncia por</p><p>signos acessíveis somente à presciência do visionário quase divi</p><p>no, daquele que é capaz de dar razão ao mudo, de redobrar a for</p><p>ça das leis da natureza natural ou social convertendo-as em leis da</p><p>razão e da experiência, em enunciados ao mesmo tempo racionais</p><p>e razoáveis da ciência e da sabedoria. Previsão científica, a consta</p><p>tação imperativa da profecia paterna remete o futuro ao passado;</p><p>previdência da sabedoria, ela dá a este futuro ainda irreal a sanção</p><p>da experiência e do conformismo absoluto que ela implica.</p><p>É principalmente por intermédio daquele que detém o</p><p>monopólio da violência simbólica legítima (e não apenas da</p><p>potência sexual) dentro da família que se exerce a ação psicosso-</p><p>22. /b/d., p. 87.</p><p>88 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>mática que leva à somatização da lei. As proposições paternas têm</p><p>um efeito mágico de constituição, de nominação criadora, porque</p><p>falam diretamente ao corpo, que, como lembrou Freud, toma ao</p><p>pé da letra as metáforas; e, se as "vocações" parecem em geral tão</p><p>espantosamente ajustadas aos lugares efetivamente acessíveis</p><p>(segundo o sexo, mas também segundo o nível do nascimento e de</p><p>inúmeras outras variáveis), isto se deve, sem dúvida, em grande</p><p>parte, ao fato de que, mesmo quando parecem obedecer apenas à</p><p>arbitrariedade do prazer, os ditos e os juízos da paterna potestas</p><p>que contribuem grandemente para modelá-los emanam de um</p><p>personagem que é, ele próprio, modelado por, e para, as censuras</p><p>da necessidade e levado, por tal, a considerar o princípio de reali</p><p>dade como princípio do prazer.</p><p>Adesão incondicional à ordem das coisas, o corte paterno se</p><p>opõe à compreensão materna, que objeta ao veredicto paterno</p><p>uma contestação da necessidade e uma afirmação da contingência</p><p>baseadas em um puro ato de fé ("Mas pode fazer tempo bom, eu</p><p>acho que fará bom tempo"23); e acrescenta uma adesão de evidên</p><p>cia à lei do desejo e do prazer, mas dobrada de uma dupla conces</p><p>são condicional ao princípio de realidade: "Sim, com certeza, se o</p><p>tempo estiver bom amanhã, diz a Sra. Ramsay. Mas você vai ter</p><p>que se levantar de madrugada", acrescenta ela. O não do pai não</p><p>precisa ser expresso, nem se justificar: não há, para qualquer pes</p><p>soa sensata ("tenha senso", "mais tarde você vai compreender"),</p><p>outra escolha a não ser a de se inclinar, sem frases, diante da força</p><p>maior das coisas. A palavra paterna é particularmente terrível em</p><p>sua implacável solicitude quando ela se coloca na lógica da predi</p><p>ção profilática, que só fala de um futuro temível para exorcizá-lo</p><p>("você vai se dar mal", "você vai desonrar a todos nós", "você nun</p><p>ca vai conseguir se formar" etc.) e cuja contínua confirmação nos</p><p>fatos é motivo para um triunfo retrospectivo ("bem que eu dis</p><p>se"), compensação desencantada do sofrimento causado pela</p><p>decepção de não ter sido desenganado ("eu esperava que você me</p><p>desmentisse").</p><p>23. /t/c/., p. 11 (grifos do Autor).</p><p>A N A M N E S E D A S C O N S T A N T E S O C U L T A S 89</p><p>É esse realismo desmancha-prazeres e cúmplice da ordem do</p><p>mundo que desencadeia o ódio ao pai, ódio dirigido, como na</p><p>revolta adolescente, menos contra a necessidade que o discurso</p><p>paterno pretende desvelar e mais contra a adesão arbitrária ao que</p><p>o pai todo-poderoso lhe exige, provando assim sua fragilidade:</p><p>fragilidade da cumplicidade resignada, que concorda sem resis</p><p>tência; fragilidade da complacência que extrai satisfação e vaidade</p><p>do prazer cruel de desiludir, isto é, de fazer partilhar de sua pró</p><p>pria desilusão, de sua própria resignação, de sua própria derrota.</p><p>"Se James tivesse à mão um machado, um atiçador ou qualquer</p><p>outro instrumento capaz de abrir o peito de seu pai e matá-lo ali</p><p>mesmo, com um único golpe, ele o teria usado. Tais eram, e tão</p><p>extremas, as emoções que o Sr. Ramsay despertava no coração de</p><p>seus filhos apenas com sua presença, quando se colocava de pé</p><p>diante deles, como o fazia atualmente, magro como uma faca, fino</p><p>como uma lâmina, com o sorriso sarcástico que nele provocava</p><p>não só o prazer de desiludir o filho e ridicularizar a mulher, que</p><p>lhe era, no entanto, dez mil vezes superior em todos os pontos</p><p>(aos olhos de James), como também a secreta vaidade que tinha</p><p>da justeza do próprio julgamento".24 As revoltas mais radicais da</p><p>infância e da adolescência são, talvez, menos voltadas contra o pai</p><p>que contra a submissão espontaneamente prestada ao pai que</p><p>submete, contra o movimento imediato para lhe obedecer e ren</p><p>der-se a suas razões.</p><p>Nesse aspecto, graças à indeterminação que o uso do estilo</p><p>indireto livre permite, passamos insensivelmente do ponto de vis</p><p>ta dos filhos sobre o pai ao ponto de vista do pai sobre si mesmo.</p><p>Ponto de vista que não tem, na realidade, nada de pessoal, pois,</p><p>como ponto de vista dominante e legítimo, não é mais que a alta</p><p>idéia de si mesmo que tem o direito e o dever de formar a seu res</p><p>peito aquele que pretende realizar em seu ser o dever-ser que o</p><p>mundo social lhe destina — no caso, o ideal de homem e de pai</p><p>que ele tem que realizar: "O que ele dizia era a verdade. Era sem-</p><p>24. Ibid, p. 10 (grifos do Autor).</p><p>90 PIEBBE B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>pre a verdade. Ele era incapaz de não dizer a verdade; ele nunca</p><p>alterava um fato, nunca mudava uma palavra desagradável, para</p><p>conforto ou concordância de qualquer alma viva, nem, ou princi</p><p>palmente, a de seus próprios filhos, carne de sua carne, e educados</p><p>visando a que soubessem o mais cedo possível que a vida é difícil,</p><p>que os fatos não admitem compromisso e que a passagem ao país</p><p>fabuloso em que nossas mais brilhantes esperanças se desfazem,</p><p>em que nossos frágeis barcos são engolidos pelas trevas (ao chegar</p><p>a este ponto o Sr. Ramsay endireitava o corpo e fixava o horizonte,</p><p>apertando seus pequenos olhos azuis), representa uma prova que</p><p>exige antes de tudo coragem, sinceridade e resistência".25</p><p>Vista por este ângulo, a dureza gratuita do Sr. Ramsay deixa</p><p>de ser resultante de uma pulsão tão egoísta quanto a do prazer de</p><p>desiludir: ela é a afirmação livre de uma escolha, a da retidão, e</p><p>também a do amor paterno bem-compreendido, que, recusando</p><p>abandonar-se à censurável facilidade da indulgência feminina e à</p><p>cegueira materna, tem que se mostrar a expressão da necessidade</p><p>do mundo no que ela tem de mais impiedoso. É, sem dúvida, isso</p><p>que significa a metáfora da faca ou da lâmina, que uma interpre</p><p>tação ingenuamente freudiana reduziria e que, como entre os</p><p>cabilas, situa o papel masculino — o termo e a metáfora teatrais</p><p>aqui se impõem, mais uma vez — do lado do corte, da violência,</p><p>do assassinato, isto é, do lado de uma ordem cultural construída</p><p>contra a fusão original com a natureza materna e contra o aban</p><p>dono ao laisser-faire e ao laisser-aller, às pulsões e aos impulsos da</p><p>natureza feminina. Começamos a suspeitar que o carrasco é tam</p><p>bém vítima e que a palavra paterna se arrisca, pelo próprio fato de</p><p>ser poderosa, a converter a probabilidade em fatalidade.</p><p>Essa impressão se aprofunda quando se descobre que o pai</p><p>inflexível, que, em uma frase sem apelo, acaba de matar os sonhos,</p><p>de seu filho, foi surpreendido divertindo-se como uma criança,</p><p>mostrando aos que se viram "introduzidos em um recinto priva</p><p>do", Lily Briscoe e seu amigo, "uma coisa que não se tinha inten-</p><p>25. Ibid., pp. 1 a i 1 (grifo do Autor).</p><p>A N A M N E S E DAS C O N S T A N T E S O C U l T A S 91</p><p>ção de lhes mostrar":26 as fantasias</p><p>da libido acadêmica, que se</p><p>expressam metaforicamente nos jogos de guerra. Mas é preferível</p><p>citar todo o longo devaneio que o poema de Tennyson desenca</p><p>deia no Sr. Ramsay e no qual a evocação da aventura guerreira —</p><p>a carga no vale da Morte, a batalha perdida e o heroísmo do chefe</p><p>("Mas ele não queria morrer escondido: ele encontraria alguma</p><p>aresta do rochedo e aí morreria de pé, com os olhos fixos na tem</p><p>pestade...") — mescla-se intimamente com o pensamento ansioso</p><p>quanto ao destino póstumo do filósofo ("o Z só se atinge uma vez</p><p>em cada geração", "Ele jamais atingiria o R"): "Quantos homens,</p><p>entre milhões, perguntava-se ele, chegam a atingir o Z? Sem dúvi</p><p>da o comandante de uma coluna infernal pode se fazer essa per</p><p>gunta e responder, sem trair os que o seguem: 'Um, talvez'. Um em</p><p>cada geração. Pode ele, então, ser culpado se for este um? Desde</p><p>que ele tenha sinceramente se esforçado, e dado tudo que podia,</p><p>até não ter mais o que dar? E seu renome, quanto tempo há de</p><p>durar? Mesmo um herói pode se perguntar, no momento da ago</p><p>nia, o que vão dizer dele após sua morte. Seu renome poderá</p><p>durar dois mil anos.[...] Como, então, culpar o comandante dessa</p><p>coluna infernal que, apesar de tudo, subiu suficientemente alto</p><p>para ver a perspectiva estéril dos anos e a morte das estrelas se,</p><p>antes que a morte enrijeça seus membros e lhe tolha até o movi</p><p>mento, ele ergue solenemente seus dedos já quase paralisados até</p><p>afronte e se reapruma. É assim que a expedição de socorro que se</p><p>pôs à sua procura o encontrará morto, em seu posto de grande sol</p><p>dado. O Sr. Ramsay ficou de pé e se colocou muito espigado ao lado</p><p>da urna. Quem o culpará se, enquanto assim fica por instantes,</p><p>seu pensamento se detém em seu renome, nas expedições de</p><p>socorro, nas pirâmides de pedra erguidas sobre sua ossada por dis</p><p>cípulos agradecidos? Enfim, quem culparia o comandante da infe</p><p>liz expedição se.. ."27</p><p>26. Ibid, p. 27.</p><p>27. Ibid, pp. 45-46 (grifos do Autor). Seria necessário reintroduzir aquela evocação</p><p>da libido académico, que pode se expressar acobertado pela neutralização literária,</p><p>na base mesmo das análises do campo universitário, tais como elas se apresentam em</p><p>Homo académicas (P. Bourdieu, Paris, Éditions de Minuit, 1984).</p><p>92 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>A técnica de fusão de seqüências, tão cara a Virginia Woolf,</p><p>aqui se ajusta as mil maravilhas. A aventura guerreira e o renome</p><p>que a consagra, sendo uma metáfora da aventura intelectual e do</p><p>capital simbólico de celebridade que ela persegue, a illusio lúdica</p><p>permite reproduzir, com alto grau de desrealização e, portanto,</p><p>com menor custo, a illusio acadêmica da existência comum, com</p><p>seus lances vitais e seus investimentos apaixonados — tudo aquilo</p><p>que movimenta as discussões do Sr. Ramsay e de seus discípulos:</p><p>ela autoriza o trabalho de desinvestimento parcial e controlado que</p><p>é necessário para assumir e superar a desilusão ("Ele não tinha ta</p><p>lento"; "ele não tinha a menor pretensão neste sentido"28), salvan</p><p>do igualmente a illusio fundamental, o investimento no jogo em si,</p><p>a convicção de que, apesar de tudo, o jogo merece ser jogado até o</p><p>fim, e segundo as regras (pois, ao final, o último dos não-gradua-</p><p>dos sempre pode, pelo menos, "morrer de pé"...). Esse investimen</p><p>to visceral, cuja expressão é basicamente uma questão de postura,</p><p>realiza-se em poses, posições ou gestos corporais que estão todos</p><p>orientados no sentido da inteireza, da retidão, da ereção do corpo</p><p>ou de seus substitutos simbólicos, a pirâmide de pedra, a estátua.</p><p>A illusio original, constitutiva da masculinidade, está sem dúvi</p><p>da na base da libido dominandi, sob todas as formas específicas que</p><p>ela reveste nos diferentes campos.29 É ela que faz com que os</p><p>homens (ao contrário das mulheres) sejam socialmente instituídos</p><p>e instruídos de modo a se deixarem prender, como crianças, em</p><p>todos os jogos que lhes são socialmente destinados e cuja forma por</p><p>excelência é a guerra. Ao deixar-se surpreender sonhando acordado</p><p>com algo que trai a vaidade pueril de seus investimentos mais pro</p><p>fundos, o Sr. Ramsay desvela, repentinamente, que os jogos a que se</p><p>entrega, como os outros homens, são jogos infantis — o que não se</p><p>percebe em toda a sua verdade exatamente porque a conivência cole</p><p>tiva lhes confere a necessidade e a realidade das evidências partilha</p><p>das. O fato de que, entre os jogos constitutivos da existência social,</p><p>os que são considerados sérios sejam reservados aos homens,</p><p>28. V. Woolf, io Promenade au phare, op. ci)., p. 44.</p><p>29. Cf. a esse respeito P. Bourdieu, Méditations pascaliennes, Paris, Éditions du Seuil,</p><p>1997. pp. 199eseg.</p><p>A N A M N E S E P A S C O N S T A N T E S O C U L T A S 93</p><p>enquanto as mulheres são votadas às crianças e à criancice ('sem</p><p>replicar, e assumindo a atitude de uma pessoa tonta e cega, ela abai</p><p>xou a cabeça[...]. Não havia nada a dizer"30), contribui para fazer</p><p>esquecer que o homem é, também, uma criança que brinca de ser</p><p>homem. A alienação genérica está na base de seu privilégio especí</p><p>fico: os homens são educados no sentido de reconhecer os jogos</p><p>sociais que apostam em uma forma qualquer de dominação; jogos</p><p>estes que lhes são designados, desde muito cedo, e sobretudo pelos</p><p>ritos de instituição, como dominantes, e dotados, a este título, da</p><p>libido dominandi; o que lhes dá o privilégio, que é uma arma de dois</p><p>gumes, de se entregarem seguidamente aos jogos de dominação.</p><p>Por sua vez, as mulheres têm o privilégio, inteiramente negati</p><p>vo, de não serem enganadas nos jogos em que se disputam esses</p><p>privilégios e, na maior parte das vezes, de não se verem aí apanha</p><p>das, pelo menos diretamente, em primeira pessoa. Elas podem até</p><p>perceber a vaidade daqueles jogos e, desde que não se envolvam</p><p>neles por procuração, considerar com divertida indulgência os</p><p>desesperados esforços do "homem-criança" para se fazer de ho</p><p>mem e o infantil desespero em que o jogam suas derrotas. Elas</p><p>podem assumir em relação aos jogos mais sérios o ponto de vista</p><p>distante do espectador que observa de longe a tempestade — o</p><p>que pode fazer com que venham a ser vistas como frívolas e inca</p><p>pazes de se interessar por coisas sérias, tais como a política. Mas</p><p>sendo essa distância um efeito da dominação, elas estão quase</p><p>sempre condenadas a participar, por uma solidariedade afetiva</p><p>para com o jogador, que não implica uma verdadeira participação</p><p>intelectual e afetiva no jogo, e que faz delas, na maior parte das</p><p>vezes, torcedoras incondicionais, mas mal informadas sobre a rea</p><p>lidade do jogo e seus lances.31</p><p>30. V. Woolf, to Promenade au phare, op. cit. p. 41 .</p><p>31 . O que fica particularmente evidente na participação que as moças das camadas</p><p>populares têm nas "paixões esportivas de seus homens" — e que, devido a seu cará</p><p>ter afetivo e de autodecisão, só pode ser vista por eles como frívola ou até como absur</p><p>da. Do mesmo modo, aliás, que a atitude oposta, mais freqüente depois do casamen</p><p>to, isto é, a hostilidade ciumenta em relação a uma paixão por coisas às quais elas não</p><p>têm acesso.</p><p>94 PIERRE B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U U N A</p><p>É por isso que a Sra. Ramsay compreende imediatamente a</p><p>situação embaraçosa em que seu marido se meteu ao recitar em</p><p>voz alta "A Carga da brigada de cavalaria ligeira". Ele teme menos</p><p>o sofrimento que pode causar a ele o ridículo de ter sido assim fla</p><p>grado do que o que está na origem desta sua estranha conduta.</p><p>Todo o seu comportamento o expressará quando, magoado e</p><p>assim reduzido à sua verdade de criança grande, o pai severo, que</p><p>acabara de ceder a seu gosto (compensatório) de "desiludir seu</p><p>filho e ridicularizar sua esposa",32 vem pedir sua compaixão para</p><p>com um sofrimento nascido da illusio e da desilusão: "Ela acari</p><p>ciou a testa de James, transferindo para seu filho os sentimentos</p><p>que tinha para com seu marido".33 Por uma dessas condensações</p><p>que a lógica da prática autoriza, a Sra. Ramsay, em um gesto de</p><p>proteção afetuosa</p><p>para o qual a preparou e destinou todo o seu ser</p><p>social,34 identifica o homenzinho que acaba de descobrir a insu</p><p>portável negatividade do real e o adulto que aceita deixar ver toda</p><p>a verdade do desnorteamento, aparentemente incomensurável,</p><p>em que o atirou seu "desastre". Lembrando explicitamente seu</p><p>veredicto a respeito do passeio ao farol e pedindo perdão à Sra.</p><p>Ramsay pela brutalidade com que o proferiu (ele toca, "não sem</p><p>timidez, as pernas nuas do filho" e propõe "humildemente" ir</p><p>perguntar aos guardas costeiros seu parecer), o Sr. Ramsay trai</p><p>claramente que aquela recusa grosseira tem relação com a ridícu</p><p>la cena anterior e com o jogo da illusio e da desilusão.35 Mesmo</p><p>tendo o cuidado de dissimular sua clarividência, e sem dúvida</p><p>para proteger a dignidade do marido, a Sra. Ramsay sabe perfeita</p><p>mente que o veredicto enunciado sem piedade emana de um ser</p><p>lamentável que, sendo também uma vítima dos veredictos inexo-</p><p>32. V. Woolf, La Promenade au phare, op. cit., p. 47.</p><p>33. Ibid., p. 40.</p><p>34. A função de protetora da Sra. Ramsay é, em vários momentos, lembrada, sobretu</p><p>do através da metáfora da galinha que bate as asas para proteger seus pintinhos</p><p>{ibid., pp. 29, 30 e 31): "Ela tomava sob sua proteção todos os do sexo que não era</p><p>o seu e isto por razões de que eh mesma não podia dar-se conta" (p. 12, grifo do</p><p>Autor, e também p. 48).</p><p>35. Ibid, p. 42.</p><p>AN A M N E S E DAS C O N S T A NTE S OC U LT AS 95</p><p>ráveis da realidade, precisa de compaixão; descobre-se, posterior</p><p>mente, que ela conhecia perfeitamente o ponto sensível em que</p><p>poderia a qualquer momento tocar seu marido: "Ah! mas quanto</p><p>tempo você acha que isso vai durar?", pergunta alguém. Era como</p><p>se ela tivesse antenas que se projetassem para seu exterior, antenas</p><p>que, interceptando certas frases, as impunham à sua atenção. Essa</p><p>era uma delas. Ela sentiu o perigo que vinha de seu marido. Uma</p><p>pergunta como essa conduziria, era quase certo, a alguma afirma</p><p>ção que o faria pensar no que sua própria carreira havia tido de</p><p>fracassada. Por quanto tempo continuariam a 1er suas obras?, ele</p><p>se perguntaria em seguida.36 E talvez ela assim sucumbisse a uma</p><p>última estratégia: a do homem infeliz que, fazendo-se de criança,</p><p>consegue despertar as tendências de compaixão maternal que são,</p><p>por definição, exigidas das mulheres.37</p><p>Deve ser citado aqui o extraordinário diálogo em meias pala</p><p>vras no qual a Sra. Ramsay manipula permanentemente o marido,</p><p>primeiro aceitando o lance aparente da cena doméstica, em lugar</p><p>de tentar argumentar, por exemplo, sobre a desproporção entre a</p><p>fúria do Sr. Ramsay e sua causa confessa. Cada uma das frases,</p><p>aparentemente anódinas, dos dois locutores envolve lances muito</p><p>mais amplos e mais fundamentais, e cada um dos dois adversá-</p><p>rios-parceiros sabe disso, devido a seu íntimo conhecimento, qua</p><p>se total, de seu interlocutor; conhecimento que, à custa de um</p><p>mínimo de cumplicidade com a má-fé, permite jogar no diálogo,</p><p>a propósito de nadas, conflitos últimos sobre o todo. Essa lógica</p><p>do todo e do nada deixa aos interlocutores a liberdade de escolher,</p><p>a cada instante, a incompreensão mais total — que reduz o dis</p><p>curso adverso ao absurdo, ligando-o a seu objeto aparente (no</p><p>caso, o tempo que faria no dia seguinte) —, ou a compreensão,</p><p>também quase total, que é a condição tácita da disputa por suben-</p><p>36. Ibid., pp. 12Ó-127.</p><p>37. Já se observou muitas vezes que as mulheres preenchem uma função catártica e</p><p>quase que terapêutica de equilíbrio da vida emocional dos homens, acalmando sua</p><p>cólera, ajudando-os a aceitar as injustiças ou as dificuldades da vida (cf., por exem</p><p>plo, N. M. Henley, op. cit., p. 89).</p><p>96 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>tendidos e também da reconciliação. "Não havia a menor espe</p><p>rança de poder ir no dia seguinte ao farol, declarou secamente o</p><p>Sr. Ramsay, tornando-se irascível. Como é que ele podia saber?,</p><p>perguntou ela. O vento muitas vezes muda. O caráter extraordi</p><p>nariamente irracional dessa observação, a absurdidade do espíri</p><p>to feminino levaram o Sr. Ramsay a um acesso de raiva. Ele se ha</p><p>via atirado no vale em que a Morte está sempre à espera; ele havia</p><p>sido feito em pedaços e farrapos; e eis que agora ela feria frontal</p><p>mente a realidade, dando a seu filho esperanças manifestamente</p><p>absurdas, dizendo, em suma, mentiras. Ele bateu com o pé no</p><p>degrau de pedra. 'Vai debochar de você mesma!', disse ele. Mas o</p><p>que é que ela tinha dito? Simplesmente que poderia fazer tempo</p><p>bom amanhã. E isso poderia de fato acontecer. Embora não com</p><p>um barómetro em baixa e um vento todo do oeste."38</p><p>A Sra. Ramsay deve sua condição de mulher à sua extraordi</p><p>nária perspicácia, que faz com que ela possa "arrancar o véu de</p><p>cada um destes seres"39, quando ela ouve, por exemplo, uma des</p><p>sas discussões entre homens sobre assuntos futilmente sérios</p><p>como as raízes cúbicas ou quadradas, Voltaire e Madame de Staël,</p><p>o caráter de Napoleão ou o sistema francês de propriedade rural.</p><p>Alheia aos jogos masculinos, à exaltação obsessional do ego e às</p><p>pulsões sociais que eles impõem, ela vê muito naturalmente que</p><p>as tomadas de posição aparentemente mais puras e mais apaixo</p><p>nadas a favor ou contra Walter Scott não têm outro motivo senão</p><p>o desejo de "chegar na frente"(o que é ainda um dos movimentos</p><p>fundamentais do corpo, semelhante ao "fazer frente" dos cabilas),</p><p>à maneira de Tansley, outra encarnação do egotismo masculino:</p><p>"Ele faria sempre a mesma coisa, até que obtivesse a cátedra de</p><p>professor ou se casasse; então ele não precisaria mais dizer: 'Eu,</p><p>eu, eu'. Pois é a isto que se referia sua crítica ao pobre Sir Walter,</p><p>ou, quem sabe, talvez fosse a Jane Austen: 'Eu, eu, eu'. Ele pensava</p><p>apenas em si e na impressão que produzia; ela sabia disto pelo tom</p><p>38 . V. Wool f , to Promenade au phare, op. cit., p. 41 (grifos do Autor).</p><p>39 . Ibid., pp. 125-126.</p><p>A N A M N E S E P A S C O N S T A N T E S O C U L T A S 97</p><p>de sua voz, por sua ênfase e pela hesitação de sua fala. Sentir-se</p><p>vencedor lhe faria bem".40</p><p>De fato, é raro as mulheres estarem suficientemente livres de</p><p>total dependência, senão dos jogos sociais, pelo menos com rela</p><p>ção aos homens que os jogam, para poderem levar o desencanto a</p><p>esta espécie de comiseração um tanto condescendente para com a</p><p>illusio masculina. Toda a sua educação as prepara, pelo contrário,</p><p>a entrar no jogo por procuração, isto é, em uma posição ao mesmo</p><p>tempo exterior e subordinada, e a dedicar ao cuidado do homem,</p><p>como a Sra. Ramsay, uma espécie de terna atenção e de confiante</p><p>compreensão, geradoras também de um profundo sentimento de</p><p>segurança.41 Excluídas dos jogos do poder, elas são preparadas</p><p>para deles participar por intermédio dos homens que neles estão</p><p>envolvidos, quer se trate de seu marido, quer, como no caso da</p><p>Sra. Ramsay, de seu filho: "(...) sua mãe, vendo-o manejar com</p><p>destreza suas tesouras, o imaginava sentado em uma cadeira de</p><p>juiz, todo em vermelho e arminho, ou dirigindo algum sério</p><p>empreendimento em uma hora crítica do governo de seu país".42</p><p>O princípio dessas tendências afetivas reside no estatuto que é</p><p>atribuído à mulher na divisão do trabalho de dominação: "As</p><p>mulheres, diz Kant, não podem mais defender pessoalmente seus</p><p>direitos e seus assuntos civis, assim como não lhes cabe fazer a</p><p>guerra: elas só podem fazê-lo por meio de um representante".40 A</p><p>renúncia, que Kant imputa à natureza feminina, está inscrita no</p><p>mais profundo das disposições constitutivas do habitas, segunda</p><p>40 . Ibid., p. 126.</p><p>4 1 . Inúmeras sondagens de opinião demonstraram que as mulheres tendem a medir</p><p>seu sucesso pelo de seu marido.</p><p>4 2 . V. Woolf , to Promenade au phare, op. c/t, p. 10.</p><p>43 . Vemos que Otto Weininger não estova totalmente errado ao invocar em seu favor</p><p>a filosofia kantiana quando, depois de ter censurado as mulheres pela facil idade com</p><p>que abandonam seu nome e assumem o do marido, ele concluiu que "a mulher é, por</p><p>essência, sem nome e isso</p><p>porque lhe falta, por natureza, personalidade". N a seqüên</p><p>cia do texto, Kant, por associação com o inconsciente social, passa das mulheres às</p><p>"massas" (tradicionalmente pensadas como femininas) e da renúncia inscrita na neces</p><p>sidade de delegação à "doci l idade" que leva os povos a igualmente abdicar em favor</p><p>dos "pais da pátria" (E. Kant, Anthropologie du point de vue pragmatique, trad. de M.</p><p>Foucault, Paris, Vrin, 1964, p. 77).</p><p>98 P I E R R E B O U 8 D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>natureza, que não apresenta nunca tantas aparências de natureza</p><p>quanto quando a libido socialmente instituída se realiza em uma</p><p>forma peculiar de libido, no sentido ordinário de desejo. A socia</p><p>lização diferencial predispõe os homens a amar os jogos de poder</p><p>e as mulheres a amar os homens que os jogam; o carisma mascu</p><p>lino é, por um lado, o charme do poder, a sedução que a posse do</p><p>poder exerce, por si mesma, sobre os corpos cujas próprias pul-</p><p>sões e cujos desejos são politicamente socializados.44 A domina</p><p>ção masculina encontra um de seus melhores suportes no desco</p><p>nhecimento, que favorece a aplicação, ao dominante, de catego</p><p>rias de pensamento engendradas na própria relação de domina</p><p>ção e que pode conduzir a esta forma limite do amorfati, que é o</p><p>amor do dominante e de sua dominação, libido dominantis (dese</p><p>jo do dominante) que implica renúncia a exercer em primeira</p><p>pessoa a libido dominandi (o desejo de dominar).</p><p>44. Isso contrariando a tendência a enquadrar todas as trocas sexuais do universo</p><p>burocrático, sobretudo entre chefes e secretárias (cf. R. Pringle, Secretaries Talk,</p><p>Sexuoliry, Power and Work, Londres-New York, Allen and Unwin, 1988, especial</p><p>mente pp. 84-103), na alternativa do "sexual harassment" [assédio sexual] (sem dúvi</p><p>da ainda subestimado pelas denúncias mais "radicais") e do uso cinico e instrumen</p><p>tal do charme feminino como instrumento de acesso ao poder (cf. J. Pinto, "Une rela</p><p>tion enchantée: la secrétaire et son patron", Actes de la recherche en sciences socia</p><p>les, 84, 1990, pp. 32-48).</p><p>CAPÍTULO III</p><p>PERMANÊNCIAS E MUDANÇA</p><p>^eria preciso toda a acuidade de Virginia Woolf</p><p>e o infinito refinamento de sua escritura para levar até as últimas</p><p>conseqüências a análise de uma forma de dominação inscrita em</p><p>toda a ordem social e operando na obscuridade dos corpos, que</p><p>são, ao mesmo tempo, lugares de investimento e princípios de sua</p><p>eficácia. Talvez tivéssemos que apelar também para a autoridade</p><p>da autora de A Room ofOne's Own para dar alguma credibilidade</p><p>à ação mobilizadora das constantes ocultas da relação de domina</p><p>ção sexual — de tal forma são poderosos os fatores que, além da</p><p>simples cegueira, levam a ignorá-las (como o orgulho, legítimo,</p><p>do movimento feminista, que o leva a pôr em destaque os avanços</p><p>obtidos com suas lutas).</p><p>Constatação realmente espantosa, a da extraordinária auto</p><p>nomia das estruturas sexuais em relação às estruturas econômi</p><p>cas, dos modos de reprodução em relação aos modos de produ</p><p>ção: o mesmo sistema de esquemas classificatórios se encontra,</p><p>em seus aspectos essenciais e ultrapassando os séculos e as dife</p><p>renças econômicas e sociais, nos dois extremos do espaço dos pos</p><p>síveis antropológicos: entre os camponeses da montanha da Cabí-</p><p>lia e entre os grandes burgueses ingleses de Bloomsbury; pesqui</p><p>sadores, quase sempre ligados à psicanálise, descobrem, na expe</p><p>riência psíquica de homens e mulheres de hoje, processos, em sua</p><p>maioria muito profundamente inculcados, que, tal como o traba</p><p>lho necessário para separar o menino de sua mãe ou os efeitos</p><p>simbólicos da divisão sexual de tarefas e de tempos na produção e</p><p>na reprodução, observam-se também claramente nas práticas</p><p>rituais, realizadas pública e coletivamente, e integradas no sistema</p><p>100 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>simbólico de uma sociedade organizada de cima a baixo segundo</p><p>o princípio do primado da masculinidade. Como explicar que a</p><p>visão androcêntrica de um mundo em que as disposições ultra-</p><p>masculinas encontram condições das mais íavoráveis à sua reali</p><p>zação n ^ estruturas da atividade agrária — ordenada segundo a</p><p>oposição entre o tempo de trabalho, masculino, e o tempo de pro</p><p>dução, feminino1 — e também na lógica de uma economia de</p><p>bens simbólicos plenamente realizada tenha podido sobreviver,</p><p>sem atenuações nem concessões, às profundas mutações que afe</p><p>taram as atividades produtivas e a divisão do trabalho, confinan</p><p>do a economia de bens simbólicos em um pequeno número de</p><p>ilhotas, cercadas pelas águas frias do interesse e do cálculo? E</p><p>como registrar esta aparente perenidade, que contribui igualmen</p><p>te, e muito, para conferir a uma construção histórica feições de</p><p>uma essência natural, sem nos expormos a ratificá-la inscreven-</p><p>do-a na eternidade de uma natureza?</p><p>O TRABALHO HISTÓRICO DE DES-HISTORICIZAÇÃO</p><p>Realmente, é claro que o eterno, na história, não pode ser</p><p>senão produto de um trabalho histórico de eternização. O que sig</p><p>nifica que, para escapar totalmente do essencialismo, o importan</p><p>te não é negar as constantes e as invariáveis, que fazem parte,</p><p>incontestavelmente, da realidade histórica:2 é preciso reconstruir a</p><p>história do trabalho histórico de des-historicização, ou, se assim</p><p>preferirem, a história da (re)criação continuada das estruturas</p><p>objetivas e subjetivas da dominação masculina, que se realiza per-</p><p>1. Esta distinção, proposta por Marx, entre os períodos de trabalho (isto é, para a</p><p>atividade agrícola, as lavouras e a colheita que competem aos homens) e os perío</p><p>dos de produção (germinação etc), em que o grão passa por um processo puramen</p><p>te natural de transformação, homólogo ao que se realiza no ventre materno durante</p><p>a gestação, tem seu equivalente no ciclo da reprodução, com a oposição entre o tem</p><p>po da procriação, em que o homem desempenha um papel otivo e determinante, e o</p><p>tempo da gestação (cf. P. Bourdieu, te Sens protique, op. cit., pp. 360-3Ó2).</p><p>2. Para nos convencermos disso, basta 1er atentamente os cinco volumes de L'Histoire</p><p>des femmes, dirigida por Georges Duby e Michèle Perrot (Paris, Pion, 1991, 1992).</p><p>PE RM A N Ê N C I A S E M U D A N Ç A 101</p><p>manentemente, desde que existem homens e mulheres, e através</p><p>da qual a ordem masculina se vê continuamente reproduzida</p><p>através dos tempos. Em outros termos, uma "história das mulhe</p><p>res", que faz aparecer, mesmo à sua revelia, uma grande parte de</p><p>constância, de permanência, se quiser ser conseqüente, tem que</p><p>dar lugar, e sem dúvida o primeiro lugar, à história dos agentes e</p><p>das instituições que concorrem permanentemente para garantir</p><p>essas permanências, ou seja, Igreja, Estado, Escola etc, cujo peso</p><p>relativo e funções podem ser diferentes, nas diferentes épocas. Tal</p><p>história não pode se contentar com registrar, por exemplo, a</p><p>exclusão das mulheres de tal ou qual profissão, de tal ou qual car</p><p>reira, de tal ou qual disciplina; ela também tem que assinalar e</p><p>levar em conta a reprodução e as hierarquias (profissionais, disci</p><p>plinares etc.), bem como as predisposições hierárquicas que elas</p><p>favorecem e que levam as mulheres a contribuir para sua própria</p><p>exclusão dos lugares de que elas são sistematicamente excluídas.3</p><p>A pesquisa histórica não pode se limitar a descrever as trans</p><p>formações da condição das mulheres no decurso dos tempos, nem</p><p>mesmo a relação entre os gêneros nas diferentes épocas; ela deve</p><p>empenhar-se em estabelecer, para cada período, o estado do siste</p><p>ma de agentes e das instituições, Família, Igreja, Estado, Escola</p><p>etc, que, com pesos e medidas diversas em diferentes momentos,</p><p>contribuíram para arrancar da História, mais ou menos completa</p><p>mente, as relações de dominação masculina. O verdadeiro objeto</p><p>de uma história das relações entre os sexos é, portanto, a história</p><p>das combinações sucessivas (diferentes na Idade Média e no sécu</p><p>lo XVIII, sob Pétain no início dos anos 40 e sob de Gaulle depois</p><p>de 1945) de mecanismos estruturais (como os que asseguram</p><p>a</p><p>reprodução da divisão sexual do trabalho) e de estratégias que,</p><p>por meio das instituições e dos agentes singulares, perpetuaram,</p><p>no curso de uma história bastante longa, e por vezes à custa de</p><p>mudanças reais ou aparentes, a estrutura das relações de domina-</p><p>3. Foi o uma pequena parte dessa imensa tarefa que me dediquei, desde meus pri</p><p>meiros trabalhos, tentando mostrar como o sistema escolar contribuía para reproduzir</p><p>as diferenças, não apenas entre as categorias sociais, mas também entre os gêneros.</p><p>102 PIERRE g O U R D [ E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>ção entre os sexos; a subordinação da mulher podendo vir expres</p><p>sa em sua entrada no trabalho, como na maior parte das socieda</p><p>des pré-industriais, ou, ao contrário, em sua exclusão do trabalho</p><p>como se deu depois da Revolução Industrial, com a separação</p><p>entre o trabalho e a casa, com o declínio do peso econômico das</p><p>mulheres da burguesia, a partir daí votadas pelo puritanismo</p><p>vitoriano ao culto da castidade e das prendas do lar, à aquarela e</p><p>ao piano, e também, pelo menos nos países de tradição católica, à</p><p>prática religiosa, cada vez mais exclusivamente feminina.*</p><p>Em suma, ao trazer à luz as invariantes trans-históricas da</p><p>relação entre os "gêneros", a história se obriga a tomar como obje</p><p>to o trabalho histórico de des-historicização que as produziu e</p><p>reproduziu continuamente, isto é, o trabalho constante de dife</p><p>renciação a que homens e mulheres não cessam de estar submeti</p><p>dos e que os leva a distinguir-se masculinizando-se ou feminili-</p><p>zando-se. Ela deveria empenhar-se particularmente em descrever</p><p>e analisar a (re)construção social, sempre recomeçada, dos princí</p><p>pios de visão e de divisão geradores dos "gêneros" e, mais ampla</p><p>mente, das diferentes categorias de práticas sexuais (sobretudo</p><p>heterossexuais e homossexuais), sendo a própria heterossexuali-</p><p>dade construída socialmente e socialmente constituída como</p><p>padrão universal de toda prática sexual "normal", isto é, distancia</p><p>da da ignomínia da "contranatureza".5 Uma verdadeira com</p><p>preensão das mudanças sobrevindas, não só na condição das</p><p>mulheres, como também nas relações entre os sexos, não pode ser</p><p>esperada, paradoxalmente, a não ser de uma análise das transfor-</p><p>4. V. L. Bullough, B. Shelton, S. Slovin, The Svbordinaied Sex, A History of Attitudes</p><p>toward Women, Athens (Ga) e Londres, The University of Geórgia Press, 1988 (2g éd.).</p><p>5. Sabemos, sobretudo graças ao livro de George Chauncey, Gay New York, que o</p><p>advento da oposição entre homossexuais e heterossexuais é algo muito recente e que</p><p>foi sem dúvida só depois da Segunda Guerra Mundial que a heterossexualidade ou a</p><p>homossexualidade se impôs como escolha exclusiva. Até então inúmeros eram os que</p><p>passavam de um parceiro masculino a uma parceira feminina, podendo homens ditos</p><p>"normais" deitar com um "efeminado" com a condição de se limitar ao lado dito "mas</p><p>culino" da relação. Os "invertidos", ou seja, os homens que desejavam homens, ado</p><p>tavam maneiras e trajes efeminados, que começaram a regredir quando a distinção</p><p>entre homossexuais e heterossexuais se afirmou mais claramente.</p><p>P E R M A N Ê N C I A S E M U D A N Ç A 103</p><p>mações dos mecanismos e das instituições encarregadas de garan</p><p>tir a perpetuação da ordem dos gêneros.</p><p>O trabalho de reprodução esteve garantido, até época recente,</p><p>por três instâncias principais, a Família, a Igreja e a Escola, que,</p><p>objetivamente orquestradas, tinham em comum o fato de agirem</p><p>sobre as estruturas inconscientes. É, sem dúvida, à família que</p><p>cabe o papel principal na reprodução da dominação e da visão</p><p>masculinas;6 é na família que se impõe a experiência precoce da</p><p>divisão sexual do trabalho e da representação legítima dessa divi</p><p>são, garantida pelo direito e inscrita na linguagem. Quanto à</p><p>Igreja, marcada pelo antifeminismo profundo de um clero pronto</p><p>a condenar todas as faltas femininas à decência, sobretudo em</p><p>matéria de trajes, e a reproduzir, do alto de sua sabedoria, uma</p><p>visão pessimista das mulheres e da feminilidade,7 ela inculca (ou</p><p>inculcava) explicitamente uma moral familiarista, completamen</p><p>te dominada pelos valores patriarcais e principalmente pelo dog</p><p>ma da inata inferioridade das mulheres. Ela age, além disso, de</p><p>maneira mais indireta, sobre as estruturas históricas do incons</p><p>ciente, por meio sobretudo da simbólica dos textos sagrados,8 da</p><p>liturgia e até do espaço e do tempo religiosos (marcado pela cor</p><p>respondência entre a estrutura do ano litúrgico e a do ano agrá</p><p>rio). Em certas épocas, ela chegou a basear-se em um sistema de</p><p>oposições éticas que correspondia a um modelo cosmológico para</p><p>justificar a hierarquia no seio da família — monarquia de direito</p><p>6. Cf. N. J. Chodorow, op. cit.</p><p>7. Sobre o papel da Igreja espanhola na perpetuação da visão pessimista sobre as</p><p>mulheres, tidas como responsáveis pela degradação moral, e portanto merecedoras de</p><p>sofrer para a expiação de todos os pecados do mundo, cf. W. A. Christian Jr.,</p><p>Visionnaires. The Spanish Republic and the Reign of Christ, Berkeley, University of</p><p>Califórnia Press, 1997. Essa ética de expiação está também no centro da restauração</p><p>operada pelo governo de Vichy, que se arma da representação mais arcaica da</p><p>mulher e com apoio das mulheres, tal como os párocos espanhóis que, no momento</p><p>mesmo em que condenavam a impureza feminina, exploravam os pequenos "visioná</p><p>rios", que eram sobretudo mulheres, e suas visões milagrosas (cf. F. Muel-Dreyfus,</p><p>Vichy et l'Eternel féminin, Paris, Éditions du Seuil, 1996).</p><p>8. Cf. J. Maître, Mystique et féminité. Essai de psychanalyse sociohistorique, Paris,</p><p>Éditions du Cerf, 1997.</p><p>104 P I E R R E B O U R D i e U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>divino baseada na autoridade do pai — e para impor uma visão</p><p>do mundo social e do lugar que aí cabe à mulher por meio de uma</p><p>verdadeira "propaganda iconográfica".9</p><p>Por fim, a Escola, mesmo quando já liberta da tutela da Igreja,</p><p>continua a transmitir os pressupostos da representação patriarca]</p><p>(baseada na homologia entre a relação homem/mulher e a relação</p><p>adulto/criança) e sobretudo, talvez, os que estão inscritos em suas</p><p>próprias estruturas hierárquicas, todas sexualmente conotadas,</p><p>entre as diferentes escolas ou as diferentes faculdades, entre as dis</p><p>ciplinas ("moles" ou "duras" — ou, mais próximas da inquietação</p><p>mítica original, "ressecantes"), entre as especialidades, isto é,</p><p>entre as maneiras de ser e as maneiras de ver, de se ver, de se repre</p><p>sentarem as próprias aptidões e inclinações, em suma, tudo aqui</p><p>lo que contribui para traçar não só os destinos sociais como tam</p><p>bém a intimidade das imagens de si mesmo.10 De fato, é toda a</p><p>cultura acadêmica, veiculada pela instituição escolar, que, em suas</p><p>variáveis tanto literárias ou filosóficas quanto médicas ou jurídi</p><p>cas, nunca deixou de encaminhar, até época recente, modos de</p><p>pensar e modelos arcaicos (tendo, por exemplo, o peso da tradi</p><p>ção aristotélica que faz do homem o princípio ativo e da mulher o</p><p>elemento passivo) e um discurso oficial sobre o segundo sexo,</p><p>para o qual colaboram teólogos, legistas, médicos e moralistas;</p><p>discurso que visa a restringir a autonomia da esposa, sobretudo</p><p>em matéria de trabalho, em nome de sua natureza "pueril" e tola,</p><p>cada época valendo-se para tal dos "tesouros" da época anterior</p><p>(por exemplo, no século XVI os fabliaux em língua vulgar ou as</p><p>9. Cf. S. F. Matthews-Grieco, Ange ou diablesse. Lo représentation de la femme au</p><p>XWe siècle, Paris, Flammarion, 1991, p. 387. "Os meios de comunicação estão sem</p><p>pre em mãos do sexo forte: livros, imagens e sermões são compostos, desenhados,</p><p>declamados por homens, ao passo que às mulheres é vetado, por sua falta de instru</p><p>ção mesma, o acesso à cultura e ao saber escrito" (p. 327).</p><p>10. Poder-se-ia retirar desta evocação das formas específicas que assume a domina</p><p>ção masculina na instituição escolar o que elo pode ter de aparentemente abstrato, se</p><p>gundo Toril Moi em sua análise das representações</p><p>e das classificações escolares, atra</p><p>vés das quais a influência de Sortre se impôs a Simone de Beauvoir (cf. T. Moi, Simone</p><p>de Beauvoir, The Moking ofan Intellectual Womon, Cambridge, Blackwell, 1994; e P.</p><p>Bourdieu, "Apologie pour une femme rangée", prefácio do livro de T. Moi, Simone de</p><p>Beauvoir. Conflits d'une intellectuelle, Paris, Diderot Editeur, 1995, pp. Vl-X).</p><p>P E R M A N Ê N C I A S E M U D A N Ç A 105</p><p>dissertações teológicas em latim).11 Mas ela é, ao mesmo tempo,</p><p>como veremos, um dos princípios mais decisivos da mudança nas</p><p>relações entre os sexos, devido às contradições que nela ocorrem e</p><p>às que ela própria introduz.</p><p>Para terminar este recenseamento dos fatores institucionais</p><p>da reprodução da divisão dos gêneros, teríamos que levar em con</p><p>ta o papel do Estado, que veio ratificar e reforçar as prescrições e</p><p>as proscrições do patriarcado privado com as de um patriarcado</p><p>público, inscrito em todas as instituições encarregadas de gerir e</p><p>regulamentar a existência quotidiana da unidade doméstica. Sem</p><p>falar no caso extremo dos estados paternalistas e autoritários</p><p>(como a França de Pétain ou a Espanha de Franco), realizações</p><p>acabadas da visão ultraconservadora que faz da família patriarcal</p><p>o princípio e modelo da ordem social como ordem moral, funda</p><p>mentada na preeminência absoluta dos homens em relação às</p><p>mulheres, dos adultos sobre as crianças e na identificação da</p><p>moralidade com a força, da coragem com o domínio do corpo,</p><p>lugar de tentações e de desejos,12 os Estados modernos inscreve</p><p>ram no direito de família, especialmente nas regras que definem o</p><p>estado civil dos cidadãos, todos os princípios fundamentais da</p><p>visão androcêntrica.13 E a ambigüidade essencial do Estado con</p><p>siste, por um lado, determinante, no fato de que ele reproduz em</p><p>sua estrutura mesma, com a oposição entre os ministérios finan-</p><p>! 1. A medicina ofereceu, até o século XIX, justificativas anatômicas e fisiológicas</p><p>para o estatuto da mulher (sobretudo em relação à sua ação reprodutora). Cf. P.</p><p>Perrot, te Travail des apparences, ou les transformations du corps féminin, XW//8-X/Xe</p><p>siècle, Paris, Éditions du Seuil, 1984.</p><p>12. Cf. G. Lakoff, Moral Politics. Wfiat Conservatives Know thaï Liberais Don't,</p><p>Chicago, The University of Chicago Press, 1996.</p><p>13. Seria necessário lembrar aqui, em detalhe, as políticas de gestão dos corpos sob</p><p>os diferentes regimes políticos. Nos regimes autoritários, em primeiro lugar, com as</p><p>grandes paradas militares ou as enormes exibições de ginástico, em que se expressa</p><p>a filosofia ultramasculina da revolução conservadora, baseada no culto do macho sol</p><p>dado, da comunidade masculino e da moral heróica de ascese da tensão (cf. G.</p><p>Mosse, L'Image de l'homme: l'invention de la virilité moderne, Paris, Abbeville, 1997)</p><p>ou o folclore paternalista e regressivo do governo de Vichy (cf. F. Muel-Dreyfus, op.</p><p>cit.). Mas também, nos regimes democráticos, sobretudo com a político de família, e</p><p>em particular o que Rémi Lenoir chama de familiarismo (cf. R. Lenoir, "La famille, une</p><p>affaire d'État", em Acfes de lo recherche en sciences sociales, 113, junho, 1996,</p><p>pp. 16-30) e ainda através de toda a ação educativo.</p><p>106 PIERRE B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>ceiros e os ministérios de administração, entre sua mão direita,</p><p>paternalista, familiarista e protetora, e sua mão esquerda, voltada</p><p>para o social, a divisão arquetípica entre o masculino e o femini</p><p>no, ficando as mulheres com a parte ligada ao Estado social, não</p><p>só como responsáveis por, como enquanto destinatárias privile</p><p>giadas de seus cuidados e de seus serviços.14</p><p>Essa evocação do conjunto de instâncias que contribuem para</p><p>reproduzir a hierarquia dos gêneros deveria permitir esboçar o pro</p><p>grama de uma análise histórica do que permaneceu e do que se</p><p>transformou naquelas instâncias; análise esta que, por si só, pode</p><p>fornecer os instrumentos indispensáveis à compreensão tanto da</p><p>quilo que podemos constatar ter, não raro de forma surpreendente,</p><p>permanecido constante na condição das mulheres (e isto sem pre</p><p>cisar invocar a resistência e a má-vontade masculina15 ou a respon</p><p>sabilidade das próprias mulheres), quanto as mudanças visíveis ou</p><p>invisíveis que tal condição experimentou em período recente</p><p>O s FATORES DE MUDANÇA</p><p>A maior mudança está, sem dúvida, no fato de que a domina</p><p>ção masculina não se impõe mais com a evidência de algo que é</p><p>indiscutível. Em razão, sobretudo, do enorme trabalho crítico do</p><p>movimento feminista que, pelo menos em determinadas áreas do</p><p>espaço social, conseguiu romper o círculo do reforço generalizado,</p><p>esta evidência passou a ser vista, em muitas ocasiões, como algo que</p><p>é preciso defender ou justificar, ou algo de que é preciso se defender</p><p>ou se justificar. O questionamento das evidências caminha pari pas-</p><p>su com as profundas transformações por que passou a condição</p><p>14. Lembrar a função do Estado como instrumento de um exercício mediatizado do</p><p>poder é fugir da tendência a fazer do poder masculino sobre as mulheres (e as crian</p><p>ças) na família o lugar principal da dominação masculina; lembrar a diferenciação</p><p>desta função é afastar o falso debate, que põe em conflito certas feministas, sobre a</p><p>questão de saber se o Estado é, para as mulheres, opressor ou liberador.</p><p>15. Fator que, evidentemente, nada tem de negligenciável e que atua através da agre</p><p>gação de ações individuais, tanto dentro das unidades domésticas quanto no mundo</p><p>do trabalho, e também através de ações simbólicas semiconcatenadas, como as do</p><p>"neomachismo" ou de certa crítica do "politicamente correto".</p><p>P E R M A N Ê N C I A S E M U D A N Ç A 107</p><p>feminina, sobretudo nas categorias sociais mais favorecidas: é o</p><p>caso, por exemplo, do aumento do acesso ao ensino secundário e</p><p>superior, ao trabalho assalariado e, com isso, à esfera pública; é</p><p>também o distanciamento em relação às tarefas domésticas16 e às</p><p>funções de reprodução (relacionado com o progresso e o uso gene</p><p>ralizado de técnicas anticonceptivas e à redução de tamanho das</p><p>famílias); é, sobretudo, o adiamento da idade do casamento e da</p><p>procriação, a abreviação da interrupção da atividade profissional</p><p>por ocasião do nascimento de um filho, e também a elevação dos</p><p>percentuais de divórcio e queda dos percentuais de casamento.17</p><p>De todos os fatores de mudança, os mais importantes são os</p><p>que estão relacionados com a transformação decisiva da função da</p><p>instituição escolar na reprodução da diferença entre os gêneros, tais</p><p>como o aumento do acesso das mulheres à instrução e, correlativa</p><p>mente, à independência econômica e à transformação das estrutu</p><p>ras familiares (em conseqüência, sobretudo, da elevação nos índi</p><p>ces de divórcios): assim, embora a inércia dos habitus, e do direito,</p><p>ultrapassando as transformações da família real, tenda a perpetuar</p><p>o modelo dominante da estrutura familiar e, no mesmo ato, o da</p><p>sexualidade legítima, heterossexual e orientada para a reprodução;</p><p>embora se organize tacitamente em relação a ela a socialização e,</p><p>simultaneamente, a transmissão dos princípios de divisão tradicio</p><p>nais, o surgimento de novos tipos de família, como as famílias</p><p>compostas e o acesso à visibilidade pública de novos modelos de</p><p>1 ó. Um fator de mudança que não pode ser negligenciado é, sem dúvida, a multiplica</p><p>ção dos instrumentos técnicos e dos bens de consumo, que contribuíram para aliviar (de</p><p>maneira diferenciada segundo a posição social) as tarefas domésticas como cozinhar,</p><p>lavar, limpar, fazer compras etc. (como o comprova o fato de que o tempo dedicado ao</p><p>trabalho doméstico diminuiu regularmente tanto na Europa quanto nos Estados Unidos),</p><p>ficando o cuidado das crianças como algo mais difícil de ser diminuído (mesmo quando</p><p>partilhado), apesar do aumento do número de creches ou escolas maternais.</p><p>17. Cf. L. W. Hoffman, "Changes in Family Roles, Socialization and Sex Différences",</p><p>American Psychologist, 1977, 32, pp. 644-657. Não é possível lembrar, mesmo em</p><p>poucas palavras,</p><p>e</p><p>descrição de seu objeto, muitas vezes eles se deixem guiar pelos princípios de visão e</p><p>de divisão inscritos na linguagem comum, seja quando se empenham em medir dife</p><p>renças evocadas na linguagem — como o fato de que os homens seriam mais "agres</p><p>sivos" e as mulheres mais "temerosas"—, seja quando usam termos correntes, e por</p><p>tanto prenhes de juízos de valor, para descrever tais diferenças. Cf., por exemplo,</p><p>entre outros, J. A. Sherman, Sex-related Cognilive Différences: An Essay on Theory</p><p>and Evidence, Springfield (Illinois), Thomas, 1978; M. B. Parlée, "Psychology: re-view</p><p>essay", Signs: Journal of Women in Culture and Society, I, 1975, pp. 119-139 — a</p><p>propósito, sobretudo, do balanço das diferenças mentais e comportamentais entre os</p><p>sexos estabelecido por J. E. Garai e A. Scheinfeld em 1968; M. B. Parlée, "The</p><p>Premenstrual Syndrome", Psychologicol Bulletin, 80, 1973, pp. 454-465.</p><p>P R E Â M B U L O 11</p><p>te, ou pelo menos principalmente, em um dos lugares mais visí</p><p>veis de seu exercício, isto é, dentro da unidade doméstica, sobre a</p><p>qual um certo discurso feminista concentrou todos os olhares,</p><p>mas em instâncias como a Escola ou o Estado, lugares de elabora</p><p>ção e de imposição de princípios de dominação que se exercem</p><p>dentro mesmo do universo mais privado, é um campo de ação</p><p>imensa que se encontra aberto às lutas feministas, chamadas</p><p>então a assumir um papel original, e bem-definido, no seio mes</p><p>mo das lutas políticas contra todas as formas de dominação.</p><p>CAPÍTULO I</p><p>UMA IMAGEM AMPLIADA</p><p>v o m o estamos incluídos, como homem ou</p><p>mulher, no próprio objeto que nos esforçamos por apreender,</p><p>incorporamos, sob a forma de esquemas inconscientes de percep</p><p>ção e de apreciação, as estruturas históricas da ordem masculina;</p><p>arriscamo-nos, pois, a recorrer, para pensar a dominação mascu</p><p>lina, a modos de pensamento que são eles próprios produto da</p><p>dominação. Não podemos esperar sair deste círculo se não encon</p><p>trarmos uma estratégia prática para efetivar uma objetivação do</p><p>sujeito da objetivação científica. Essa estratégia, que é a que vamos</p><p>aqui adotar, consiste em transformar um exercício de reflexão</p><p>transcendental visando a explorar as "categorias do entendimen</p><p>to" ou, na expressão de Durkheim, "as formas de classificação"</p><p>com as quais construímos o mundo (mas que, originárias deste</p><p>mundo, estão essencialmente de acordo com ele, mesmo que per</p><p>maneçam desapercebidas), em uma espécie de experiência de</p><p>laboratório: a que consistirá em tratar a análise etnográfica das</p><p>estruturas objetivas e das formas cognitivas de uma sociedade his</p><p>tórica específica, ao mesmo tempo exótica e íntima, estranha e</p><p>familiar, a dos berberes da Cabília, como instrumento de um tra</p><p>balho de socioanálise do inconsciente androcêntrico capaz de</p><p>operar a objetivação das categorias deste inconsciente.1</p><p>1. Sem dúvida, eu não teria sido capaz de recuperar em ia Promenade au phare</p><p>(Passeio ao farol), de Virginia Woolf , a análise do olhar masculino que a obra encer</p><p>ra (e que apresento adiante} se não a tivesse relido com o olhar informado pela visão</p><p>cabila (V. Wool f , ta Promenade au phare, To lhe Üghthouse, trad. de M. Lanoire,</p><p>Paris, Stock, 1929, p. 24).</p><p>U P I E R R E B O U R P I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>realização no erotismo) nos fez perder o senso da cosmologia</p><p>sexualizada, que se enraíza em uma topologia sexual do corpo</p><p>socializado, de seus movimentos e seus deslocamentos, imediata</p><p>mente revestidos de significação social — o movimento para o</p><p>alto sendo, por exemplo, associado ao masculino, como a ereção,</p><p>ou a posição superior no ato sexual.</p><p>Arbitrária em estado isolado, a divisão das coisas e das ativi</p><p>dades (sexuais e outras) segundo a oposição entre o masculino e o</p><p>feminino recebe sua necessidade objetiva e subjetiva de sua inser</p><p>ção em um sistema de oposições homólogas, alto/baixo, em cima</p><p>/embaixo, na frente/atrás, direita/esquerda, reto/curvo (e falso),</p><p>seco/úmido, duro/mole, temperado/insosso, claro/escuro, fora</p><p>(público)/dentro (privado) etc., que, para alguns, correspondem</p><p>a movimentos do corpo (alto/baixo//subir/descer, fora/dentro//</p><p>sair/entrar). Semelhantes na diferença, tais oposições são suficien</p><p>temente concordes para se sustentarem mutuamente, no jogo e</p><p>pelo jogo inesgotável de transferências práticas e metáforas; e</p><p>também suficientemente divergentes para conferir, a cada uma,</p><p>uma espécie de espessura semântica, nascida da sobredetermina-</p><p>ção pelas harmonias, conotações e correspondências.5</p><p>Esses esquemas de pensamento, de aplicação universal, regis</p><p>tram como que diferenças de natureza, inscritas na objetividade,</p><p>das variações e dos traços distintivos (por exemplo em matéria</p><p>corporal) que eles contribuem para fazer existir, ao mesmo tempo</p><p>que as "naturalizam", inscrevendo-as em um sistema de diferen</p><p>ças, todas igualmente naturais em aparência; de modo que as pre</p><p>visões que elas engendram são incessantemente confirmadas pelo</p><p>curso do mundo, sobretudo por todos os ciclos biológicos e cós</p><p>micos. Assim, não vemos como poderia emergir na consciência a</p><p>relação social de dominação que está em sua base e que, por uma</p><p>inversão completa de causas e efeitos, surge como uma aplicação</p><p>entre outras, de um sistema de relações de sentido totalmente</p><p>5. Para um quadro detalhado da distribuição das atividades entre os sexos, cf. P.</p><p>Bourdieu, Le Sens pratique, op.cit., p. 358.</p><p>U M A I M A G E M A M P L I A D A 17</p><p>independente das relações de força. O sistema mítico-ritual</p><p>desempenha aqui um papel equivalente ao que incumbe ao cam</p><p>po jurídico nas sociedades diferenciadas: na medida em que os</p><p>princípios de visão e divisão que ele propõe estão objetivamente</p><p>ajustados às divisões pré-existentes, ele consagra a ordem estabe</p><p>lecida, trazendo-a à existência conhecida e reconhecida, oficial.</p><p>A divisão entre os sexos parece estar "na ordem das coisas",</p><p>como se diz por vezes para falar do que é normal, natural, a pon</p><p>to de ser inevitável: ela está presente, ao mesmo tempo, em estado</p><p>objetivado nas coisas (na casa, por exemplo, cujas partes são todas</p><p>"sexuadas"), em todo o mundo social e, em estado incorporado,</p><p>nos corpos e nos habitus dos agentes, funcionando como sistemas</p><p>de esquemas de percepção, de pensamento e de ação. (Quando,</p><p>por necessidade de comunicação, eu falo, como aqui, em catego</p><p>rias ou estruturas cognitivas, arriscando-me a parecer cair na filo</p><p>sofia intelectualista que tenho seguidamente criticado, seria</p><p>melhor falar de esquemas práticos ou de disposições; mas a pala</p><p>vra "categoria" impõe-se por vezes porque tem o mérito de desig</p><p>nar ao mesmo tempo uma unidade social — a categoria dos agri</p><p>cultores — e uma estrutura cognitiva, e de tornar manifesto o elo</p><p>que as une.) É a concordância entre as estruturas objetivas e as</p><p>estruturas cognitivas, entre a conformação do ser e as formas do</p><p>conhecer, entre o curso do mundo e as expectativas a esse respei</p><p>to, que torna possível esta referência ao mundo que Husserl des</p><p>crevia com o nome de "atitude natural", ou de "experiência dóxi-</p><p>ca" — deixando, porém, de lembrar as condições sociais de sua</p><p>possibilidade. Essa experiência apreende o mundo social e suas</p><p>arbitrárias divisões, a começar pela divisão socialmente construí</p><p>da entre os sexos, como naturais, evidentes, e adquire, assim, todo</p><p>um reconhecimento de legitimação. É por não perceberem os</p><p>mecanismos profundos, tais como os que fundamentam a con</p><p>cordância entre as estruturas cognitivas e as estruturas sociais, e,</p><p>por tal, a experiência dóxica do mundo social (por exemplo, em</p><p>nossas sociedades, a lógica reprodutora do sistema educacional),</p><p>que pensadores de linhas filosóficas muito diferentes podem</p><p>\S P I E R R E B O U 8 D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U U N A</p><p>imputar todos os efeitos simbólicos de legitimação (ou de socio-</p><p>dicéia) a fatores que decorrem da ordem da representação mais ou</p><p>menos consciente e intencional ("ideologia", "discurso" etc).</p><p>A força da ordem masculina se</p><p>todas as mudanças que o acesso em massa das mulheres à educa</p><p>ção secundária e superior pôde determinar, sobretudo nos campos político e religioso,</p><p>e também em todas as profissões forçosamente feminilizadas. Citarei simplesmente, a</p><p>título de exemplo, os movimentos, de tipo inteiramente novo, que se autodenominaram</p><p>"coordenações" (cf. D. Kargoat [éd.], Les Infirmières et leur coordination, 1988-1989,</p><p>Paris, Lamarre, 1992).</p><p>108 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>sexualidade (sobretudo os homossexuais), contribuem para que</p><p>brar a dóxa e ampliar o espaço das possibilidades em matéria de</p><p>sexualidade. Do mesmo modo, e mais banalmente, o aumento do</p><p>número de mulheres que trabalham não pode deixar de afetar a</p><p>divisão de tarefas domésticas e, ao mesmo tempo, os modelos tra</p><p>dicionais masculinos e femininos, acarretando, sem dúvida, conse</p><p>qüências na aquisição de posições sexualmente diferenciadas no</p><p>seio da família: pode-se, assim, observar que as filhas de mães que</p><p>trabalham têm aspirações de carreira mais elevadas e são menos</p><p>apegadas ao modelo tradicional da condição feminina.18</p><p>Mas uma das mudanças mais importantes na condição das</p><p>mulheres e um dos fatores mais decisivos da transformação dessa</p><p>condição é, sem sombra de dúvida, o aumento do acesso das</p><p>jovens ao ensino secundário e superior que, estando relacionado</p><p>com as transformações das estruturas produtivas (sobretudo o</p><p>desenvolvimento das grandes administrações públicas ou priva</p><p>das e das novas tecnologias sociais de organização de quadros),</p><p>levou a uma modificação realmente importante da posição das</p><p>mulheres na divisão do trabalho: observa-se, assim, um forte</p><p>aumento da representação de mulheres nas profissões intelectuais</p><p>ou na administração e nas diferentes formas de venda de serviços</p><p>simbólicos (jornalismo, televisão, cinema, rádio, relações públi</p><p>cas, publicidade, decoração) e também uma intensificação de sua</p><p>participação nas profissões mais próximas da definição tradicio</p><p>nal de atividades femininas (ensino, assistência social, atividades</p><p>paramédicas). Apesar disso, as diplomadas encontraram sua prin</p><p>cipal oferta de trabalho nas profissões intermediárias de nível</p><p>médio (quadros administrativos de nível médio, técnicos, mem</p><p>bros do corpo médico e social etc), mas continuam vendo-se pra</p><p>ticamente excluídas dos cargos de autoridade e de responsabilida</p><p>de, sobretudo na economia, nas finanças e na política.</p><p>As mudanças visíveis de condições ocultam, de fato, a perma</p><p>nência nas posições relativas: a igualização de oportunidades de</p><p>18. L W. Hoffmon, art. cil.</p><p>P E R M A N Ê N C I A S E M U D A N Ç A 109</p><p>acesso e índices de representação não deve mascarar as desigualda</p><p>des que persistem na distribuição entre os diferentes níveis escola</p><p>res e, simultaneamente, entre as carreiras possíveis. Em número</p><p>maior que os rapazes, quer para obtenção do bacharelado, quer nos</p><p>estudos universitários, as moças estão bem menos representadas</p><p>nos departamentos mais cotados, mantendo-se sua representação</p><p>inferior nos Departamentos de Ciências, ao passo que cresce nos</p><p>Departamentos de Letras. Nos liceus profissionais elas permane</p><p>cem, igualmente, direcionadas sobretudo para as especializações</p><p>tradicionalmente consideradas "femininas" e pouco qualificadas</p><p>(como as de empregadas da coletividade ou do comércio, secreta</p><p>riado e profissões da área de saúde), ficando certas especialidades</p><p>(mecânica, eletricidade, eletrônica) praticamente reservadas aos</p><p>rapazes. A mesma persistência de desigualdades se verifica nas clas</p><p>ses preparatórias para as grandes escolas científicas e para essas</p><p>mesmas escolas. Nas faculdades de Medicina, a porção de mulheres</p><p>decresce à medida que se sobe na hierarquia das especialidades,</p><p>algumas das quais, como a cirurgia, lhes estão praticamente interdi</p><p>tadas, ao passo que outras, como a pediatria, ou a ginecologia, lhes</p><p>estão quase que reservadas. Como se vê, a estrutura se perpetua nos</p><p>pares de oposição homólogos às grandes divisões tradicionais, com</p><p>a oposição entre as grandes escolas e as faculdades, ou, dentro des</p><p>tas, entre as faculdades de Direito e de Medicina e as faculdades de</p><p>Letras, ou, dentro destas, entre a Filosofia ou a Sociologia e a</p><p>Psicologia ou a História da Arte. E é sabido que o mesmo princípio</p><p>de divisão é ainda aplicado, dentro de cada disciplina, atribuindo</p><p>aos homens o mais nobre, o mais sintético, o mais teórico e às</p><p>mulheres o mais analítico, o mais prático, o menos prestigioso.19</p><p>A mesma lógica rege o acesso às diferentes profissões e às dife</p><p>rentes posições dentro de cada uma delas: no trabalho, tal como</p><p>na educação, os progressos das mulheres não devem dissimular os</p><p>19. Sobre a diferença entre os sexos nas escolhas filosóficas, cf. Charles Soulié,</p><p>"Anatomie du goût philosophique", /Actes de la recherche en sciences sociales, 109,</p><p>outubro 1995, pp. 3-28.</p><p>1 10 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>avanços correspondentes dos homens, que fazem com que, como</p><p>em uma corrida com handicap, a estrutura das distâncias se man</p><p>tenha.20 O exemplo mais flagrante dessa permanência dentro da</p><p>mudança e pela mudança é o fato de que as posições que se femi-</p><p>nilizam estejam ou desvalorizadas (os operários especializados</p><p>são majoritariamente mulheres ou imigrantes) ou declinantes,</p><p>com sua desvalorização duplicada, em um efeito de bola de neve,</p><p>pela deserção dos homens, que ela contribuiu para provocar.</p><p>Além disso, embora seja verdade que encontramos mulheres em</p><p>todos os níveis do espaço social, suas oportunidades de acesso</p><p>(seus índices de representação) decrescem à medida que se atin</p><p>gem posições mais raras e mais elevadas (de modo que o índice</p><p>real e potencial de feminilização é, sem dúvida, o melhor indício</p><p>da posição e do valor ainda relativos das diferentes profissões21)-</p><p>Assim, em cada nível, apesar dos efeitos de uma super-seleção,</p><p>a igualdade formal entre os homens e as mulheres tende a dissimu</p><p>lar que, sendo as coisas em tudo iguais, as mulheres ocupam sem</p><p>pre as posições menos favorecidas. Por exemplo, sendo embora</p><p>verdade que as mulheres estão cada vez mais representadas em fun</p><p>ções públicas, são sempre as posições mais baixas e mais precárias</p><p>que lhes são reservadas (elas são particularmente numerosas entre</p><p>as não tituladas e os agentes de tempo parcial, e, na administração</p><p>local, por exemplo, vêem ser-lhes atribuídas posições subalternas e</p><p>ancilares, de assistência e cuidados — mulheres da limpeza, meren</p><p>deiras, crecheiras etc.)-22 A melhor prova das incertezas do estatuto</p><p>atribuído às mulheres no mercado de trabalho reside, sem dúvida,</p><p>no fato de que elas são sempre menos remuneradas que os homens,</p><p>e mesmo quando todas as coisas são em tudo iguais, elas obtêm</p><p>cargos menos elevados com os mesmos diplomas e, sobretudo, são</p><p>20. R. M. Lagrave, "Une Émancipation sous-tutelle. Éducation et travail des Femmes au</p><p>XXe siècle", em G. Duby e M. Perrot (éd.), Histoire des femmes, Paris, Pion, 1992.</p><p>21 . H. Y. Meynaud, "L'accès au dernier cercle: la participation des femmes aux instan</p><p>ces de pouvoir dans les entreprises", Revue française des affaires sociales, 42e année,</p><p>I, janeiro-março 1988, pp. 67-87; "Au coeur de l'entreprise EDF, la lente montée des</p><p>électriciens dans les postes de pouvoir", Bulletin d'histoire de l'électricité, Actes de la</p><p>journée de la Femme et l'électricité, 1993.</p><p>22. Cf. M. Aminé, Les Personnels territoriaux, Paris, Éditions du CNFPT, 1994.</p><p>P E R M A N Ê N C I A S E M U D A N Ç A 111</p><p>mais atingidas, proporcionalmente, pelo desemprego, pela preca</p><p>riedade de empregos e relegadas com mais facilidade a cargos de</p><p>trabalho parcial — o que tem, entre outros efeitos, o de excluí-las</p><p>quase que infalivelmente dos jogos de poder e das perspectivas de</p><p>carreira.23 Daí, pelo fato de estarem ligadas ao Estado social e às</p><p>posições "sociais" dentro do campo burocrático, bem como aos</p><p>setores das empresas privadas mais vulneráveis às políticas</p><p>de "pre-</p><p>carização", tudo permite prever que elas serão as principais vítimas</p><p>da política neoliberal, que visa a reduzir a dimensão social do</p><p>Estado e favorecer a "desregulamentação" do mercado de trabalho.</p><p>As posições dominantes, que elas ocupam em número cada</p><p>vez maior, situam-se essencialmente nas regiões dominadas da</p><p>área do poder, isto é, no domínio da produção e da circulação de</p><p>bens simbólicos (como a edição, o jornalismo, a mídia, o ensino).</p><p>"Elites discriminadas", segundo a expressão de Maria Antónia</p><p>Garcia de León, elas têm que pagar sua eleição com um esforço</p><p>constante no sentido de satisfazer as exigências suplementares que</p><p>lhes são quase sempre impostas e de banir toda conotação sexual</p><p>de seu hexis corporal e de seus trajes.24</p><p>Para compreender adequadamente a distribuição estatística</p><p>dos poderes e privilégios entre os homens e as mulheres, e sua evo</p><p>lução no decurso do tempo, é preciso levar em conta, simultanea</p><p>mente, duas propriedades que, à primeira vista, podem parecer</p><p>contraditórias. Por um lado, qualquer que seja sua posição no</p><p>espaço social, as mulheres têm em comum o fato de estarem sepa</p><p>radas dos homens por um coeficiente simbólico negativo que, tal</p><p>como a cor da pele para os negros, ou qualquer outro sinal de per</p><p>tencer a um grupo social estigmatizado, afeta negativamente tudo</p><p>que elas são e fazem, e está na própria base de um conjunto siste</p><p>mático de diferenças homólogas: há algo em comum, apesar da</p><p>23. Cf. M. Maruani, "Féminisation et discrimination. Évolution de l'activité féminine en</p><p>France", L'Orientation scolaire et professionnelle, 1991, 20, 3, pp. 243-256; "Le mi-temps</p><p>ou la porte", Le Monde des débats, I, outubro 1992, pp. 8-9; "Statut social et mode</p><p>d'emploi", Revue française de sociologie, XXX, 1989, pp. 31 -39; J. Laufer e A. Fouquet,</p><p>"Effet de plafonnement de carrière des femmes cadres et accès des femmes à la décision</p><p>dans la sphère économique", Rapport du Centre d'études de l'emploi, 97/90, 117p.</p><p>24. Cf. H. Y. Meynaud, art. cit.</p><p>112 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>enormidade da distância, entre a mulher PDG*, que, para ter a for</p><p>ça de enfrentar a tensão ligada ao exercício do poder sobre os</p><p>homens — ou ao meio masculino —, tem que se massagear a cada</p><p>manhã, e a mulher OS* da metalurgia, que tem que buscar na soli</p><p>dariedade das "companheiras" um conforto contra as provações</p><p>ligadas ao trabalho em meio masculino, como o assédio sexual ou,</p><p>simplesmente, a degradação da própria imagem e da auto-estima</p><p>infringidas pela feiúra e sujeira impostas pelas condições de traba</p><p>lho. Por outro lado, apesar das experiências específicas que as</p><p>aproximam (como algo infinitamente pequeno da dominação que</p><p>são as inúmeras feridas, às vezes subliminares, causadas pela</p><p>ordem masculina), as mulheres continuam separadas umas das</p><p>outras por diferenças econômicas e culturais, que afetam, entre</p><p>outras coisas, sua maneira objetiva e subjetiva de sentir e vivenciar</p><p>a dominação masculina — sem com isso anular tudo que está liga</p><p>do à diminuição do capital simbólico trazido pela feminilidade.</p><p>Enfim, as próprias mudanças da condição feminina obede</p><p>cem sempre à lógica do modelo tradicional entre o masculino e o</p><p>feminino. Os homens continuam a dominar o espaço público e a</p><p>área de poder (sobretudo econômico, sobre a produção), ao passo</p><p>que as mulheres ficam destinadas (predominantemente) ao espa</p><p>ço privado (doméstico, lugar da reprodução) em que se perpetua</p><p>a lógica da economia de bens simbólicos, ou a essas espécies de</p><p>extensões deste espaço, que são os serviços sociais (sobretudo hos</p><p>pitalares) e educativos, ou ainda aos universos da produção sim</p><p>bólica (áreas literária e artística, jornalismo etc).</p><p>Se as estruturas antigas da divisão sexual parecem ainda</p><p>determinar a direção e a forma das mudanças, é porque, além de</p><p>estarem objetivadas nos níveis, nas carreiras, nos cargos mais ou</p><p>menos fortemente sexuados, elas atuam através de três princípios</p><p>práticos que não só as mulheres, mas também seu próprio am</p><p>biente, põem em ação em suas escolhas: de acordo com o primei</p><p>ro destes princípios, as funções que convêm às mulheres se situam</p><p>no prolongamento das funções domésticas: ensino, cuidados, ser-</p><p>PDG — Abreviatura de Président-directeur general (N. T.t</p><p>4 OS — Abreviatura de Ouvrier-spécialisé (N. T.).</p><p>P E R M A N Ê N C I A S E M U D A N Ç A 1J3</p><p>viço; segundo, que uma mulher não pode ter autoridade sobre</p><p>homens e tem, portanto, todas as possibilidades de, sendo todas as</p><p>coisas em tudo iguais, ver-se preterida por um homem para uma</p><p>posição de autoridade ou de ser relegada a funções subordinadas,</p><p>de auxiliar; o terceiro confere ao homem o monopólio da manu</p><p>tenção dos objetos técnicos e das máquinas.25</p><p>Quando indagamos de adolescentes a respeito de sua expe</p><p>riência escolar, não podemos deixar de chocar-nos com o peso das</p><p>incitações e injunções, positivas ou negativas, dos pais, dos pro</p><p>fessores e sobretudo dos orientadores escolares, ou dos colegas,</p><p>sempre prontos a lembrar-lhes, de maneira tácita ou implícita, o</p><p>destino que lhes é indicado pelo princípio da divisão tradicional:</p><p>assim, grande número delas observa como os professores das dis</p><p>ciplinas científicas solicitam e estimulam menos as moças que os</p><p>rapazes, e como os pais, tais como os professores ou os orientado</p><p>res, as desviam, "para seu bem", de determinadas carreiras consi</p><p>deradas masculinas ("Quando seu pai lhe diz: 'você nunca vai se</p><p>dar bem nesta profissão', isto é estupidamente vexaminoso"), ain</p><p>da mais porque eles encorajam seus irmãos a segui-las. Mas estas</p><p>chamadas à ordem devem grande parte de sua eficácia ao fato de</p><p>que toda uma série de experiências anteriores, sobretudo o espor</p><p>te, que é muitas vezes ocasião de se confrontar com a discrimina</p><p>ção, prepararam-nas para aceitar antecipadamente tais sugestões,</p><p>fazendo-as introjetar a visão dominante: elas "não se sentem bem</p><p>dando ordens" a homens, ou simplesmente trabalhando em uma</p><p>função tipicamente masculina. A divisão social de tarefas, inscrita</p><p>na objetividade de categorias sociais diretamente visíveis, e a esta</p><p>tística espontânea, através da qual se forma a representação que</p><p>cada um de nós tem do normal, ensinaram-lhes que, como disse</p><p>uma delas em uma dessas magníficas tautologias em que se enun-</p><p>25. Em uma listagem de 335 carreiras segundo a percentagem de seus membros que</p><p>são mulheres, vemos aparecer, no primeiro nivel das carreiras femininas, as profis</p><p>sões que têm por eixo o cuidar de crianças [child care, ensino), de doenças (enfer</p><p>meiras, nutricionistas), de casas (house/io/a1 cleaners and servants), de pessoas (secre</p><p>tárias, recepcionistas e "domesticidade burocrática") (cf. B. R. Bergman, The Econo</p><p>mie Emergence o! Work, New York, Basic Books, 1986, pp. 317e seg.).</p><p>114 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U l I N A</p><p>ciam as evidências sociais, "hoje em dia, não se vêem muitas</p><p>mulheres fazendo o trabalho de homens."</p><p>Em suma, através da experiência de uma ordem social "sexual</p><p>mente" ordenada e das chamadas à ordem explícitas que lhes são</p><p>dirigidas por seus pais, seus professores e seus colegas, e dotadas de</p><p>princípios de visão que elas próprias adquiriram em experiências</p><p>de mundo semelhantes, as meninas incorporam, sob forma de es</p><p>quemas de percepção e de avaliação dificilmente acessíveis à cons</p><p>ciência, os princípios da visão dominante que as levam a achar</p><p>normal, ou mesmo natural, a ordem social tal como é e a prever, de</p><p>certo modo, o próprio destino, recusando as posições ou as carrei</p><p>ras de que estão sistematicamente excluídas e encaminhando-se</p><p>para as que lhes são sistematicamente destinadas. A constância dos</p><p>habitus que daí resulta é, assim, um dos fatores mais importantes</p><p>da relativa constância da estrutura da divisão sexual de trabalho:</p><p>pelo fato de serem estes princípios transmitidos, essencialmente,</p><p>corpo a corpo, aquém da consciência e do discurso, eles escapam,</p><p>em grande</p><p>parte, às tomadas de controle consciente e, simultanea</p><p>mente, às transformações ou às correções (como o comprovam as</p><p>defasagens, não raro observadas, entre as declarações e as práticas,</p><p>os homens que se dizem favoráveis à igualdade entre os sexos não</p><p>participando mais do trabalho doméstico, por exemplo, que os</p><p>outros); além disso, sendo objetivamente orquestrados, eles se</p><p>confirmam e se reforçam mutuamente.</p><p>Além disso, sem que se atribuam aos homens estratégias</p><p>organizadas de resistência, pode-se supor que a lógica espontânea</p><p>das operações de cooptação — que tende sempre a conservar as</p><p>propriedades mais raras dos corpos sociais, das quais a sex ratio26</p><p>ocupa o primeiro lugar — enraíza-se em uma apreensão confusa,</p><p>e muito carregada de emoção, do perigo que a raridade, e portan</p><p>to o valor de uma posição social, bem como, de algum modo, a</p><p>identidade sexual de seus ocupantes, corre com a feminilização. A</p><p>26. Por vezes de maneira "milagrosa", como no caso dos recrutamentos de professo</p><p>res auxiliares do ensino superior que foram realizados na França nos anos 70, para</p><p>fazer face ao afluxo de estudantes (cf. P. Bourdieu, Homo academicus, op. cil,</p><p>pp. 171-205, sobretudo pp. 182-183).</p><p>P E R M A N Ê N C I A S E M U D A N Ç A 115</p><p>violência de certas reações emocionais contra a entrada das</p><p>mulheres em tal ou qual profissão é compreensível, se virmos que</p><p>as próprias posições sociais são sexuadas, e sexualizantes, e que</p><p>ao defender seus cargos contra a feminilização, é sua idéia mais</p><p>profunda de si mesmos como homens que os homens estão pre</p><p>tendendo proteger, sobretudo no caso de categorias sociais como</p><p>os trabalhadores manuais, ou de profissões como as das forças</p><p>armadas, que devem boa parte, senão a totalidade, de seu valor,</p><p>até mesmo a seus próprios olhos, à sua imagem de virilidade.27</p><p>ECONOMIA DOS BENS SIMBÓLICOS E</p><p>ESTRATÉGIAS DE REPRODUÇÃO</p><p>Mas um outro fator determinante da perpetuação das dife</p><p>renças é a permanência que a economia dos bens simbólicos (do</p><p>qual o casamento é uma peça central) deve à sua autonomia rela</p><p>tiva, que permite à dominação masculina nela perpetuar-se, aci</p><p>ma das transformações dos modos de produção econômica; isto,</p><p>com o apoio permanente e explícito que a família, principal guar</p><p>diã do capital simbólico, recebe das Igrejas e do Direito. O exercí</p><p>cio legítimo da sexualidade, embora possa parecer cada vez mais</p><p>liberto da obrigação matrimonial, permanece ordenado e subor</p><p>dinado à transmissão do patrimônio, através do casamento, que</p><p>continua sendo uma das vias legítimas da transferência da rique</p><p>za. Como Robert A. Nye se esforça por demonstrar, as famílias</p><p>burguesas não deixaram de investir nas estratégias de reprodução,</p><p>sobretudo matrimoniais, visando a conservar ou aumentar seu</p><p>capital simbólico. E isto muito mais que as famílias do Ancien</p><p>Régime, porque a manutenção de sua posição depende estrita</p><p>mente da reprodução de seu capital simbólico, através da produ</p><p>ção de herdeiros capazes de perpetuar a herança do grupo e a</p><p>aquisição de aliados de prestígio;28 e, se, na França moderna, as</p><p>27. Cf. C. L. Williams, Gender Différences at Work: Women and Men in Non-lradi-</p><p>tional Occupations, Berkeley, Universiry of Califórnia Press 1989, e também M.</p><p>Maruani e C. Nicole, op. cit.</p><p>28. R. A. Nye, op. cit, p. 9.</p><p>116 P I E R R E B O U I D I E Ü / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>disposições da honra masculina continuam a reger as atividades</p><p>públicas dos homens, do duelo à polidez ou ao esporte, é porque,</p><p>tal como se dá na sociedade cabila, elas não fazem mais que mani</p><p>festar e realizar a tendência da família (burguesa) de se perpetuar,</p><p>por meio das estratégias de reprodução impostas pela lógica da</p><p>economia de bens simbólicos; lógica que, sobretudo no universo</p><p>da economia doméstica, manteve suas exigências específicas, dis</p><p>tintas das que regem a economia abertamente econômica do</p><p>mundo dos negócios.</p><p>Excluídas do universo das coisas sérias, dos assuntos públicos,</p><p>e mais especialmente dos econômicos, as mulheres ficaram</p><p>durante muito tempo confinadas ao universo doméstico e às ati</p><p>vidades associadas à reprodução biológica e social da descendên</p><p>cia; atividades (principalmente maternas) que, mesmo quando</p><p>aparentemente reconhecidas e por vezes ritualmente celebradas,</p><p>só o são realmente enquanto permanecem subordinadas às ativi</p><p>dades de produção, as únicas que recebem uma verdadeira sanção</p><p>econômica e social, e organizadas em relação aos interesses mate</p><p>riais e simbólicos da descendência, isto é, dos homens. É assim que</p><p>uma parte muito importante do trabalho doméstico que cabe às</p><p>mulheres tem ainda hoje por finalidade, em diferentes meios, man</p><p>ter a solidariedade e a integração da família, sustentando relações</p><p>de parentesco e todo o capital social com a organização de toda uma</p><p>série de atividades sociais ordinárias, como as refeições, em que</p><p>toda a família se encontra,29 ou extraordinárias, como as cerimô</p><p>nias e as festas (aniversários etc.) destinadas a celebrar ritualmente</p><p>os laços de parentesco e a assegurar a manutenção das relações</p><p>sociais e da projeção social da família, ou as trocas de presentes, de</p><p>visitas, de cartas ou de cartões postais e telefonemas.30</p><p>29. Já vimos o papel importante que tem a refeição na vida da família, tal como a</p><p>organiza a Sra. Ramsay, encarnação do "espírito de família", cujo desaparecimento</p><p>acarreta a ruína da vida coletiva e da unidade da vida doméstica.</p><p>30. No caso da burguesia e da pequena burguesia dos Estados Unidos, este trabalho</p><p>de manutenção do capital social da família e, portanto, de sua unidade, cabe quase que</p><p>exclusivamente à mulher, que garante inclusive a manutenção de relações com os paren</p><p>tes do marido (cf. M. di Leonardo, "The Female World of Cards and Holidays: Women,</p><p>Families ond the World of Kinship", S/gns, 12, primavera 1987, pp. 410-453; e sobre</p><p>P E R M A N Ê N C I A S E M U D A N Ç A 117</p><p>Esse trabalho doméstico passa, em sua maior parte, desperce</p><p>bido, ou mesmo malvisto (por exemplo, a denúncia permanente</p><p>do prazer feminino com a "fofoca", sobretudo por telefone...) e,</p><p>quando ele se impõe ao olhar, ele é desrealizado, transferindo-o</p><p>ao plano da espiritualidade, da moral e do sentimento, o que faci</p><p>lita seu caráter não lucrativo e "desinteressado". O fato de que o</p><p>trabalho doméstico da mulher não tenha uma retribuição em</p><p>dinheiro contribui realmente para desvalorizá-lo, inclusive a seus</p><p>próprios olhos, como se este tempo, não tendo valor de mercado,</p><p>fosse sem importância e pudesse ser dado sem contrapartida, e</p><p>sem limites, primeiro aos membros da família, e sobretudo às</p><p>crianças (já foi comentado que o tempo materno pode mais facil</p><p>mente ser interrompido), mas também externamente, em tarefas</p><p>de beneficência, sobretudo para a Igreja, em instituições de cari</p><p>dade ou, cada vez mais, em associações ou partidos. Não raro con</p><p>finadas nessas atividades não remuneradas, e pouco inclinadas,</p><p>por isso, a pensar em termos de equivalência entre o trabalho e o</p><p>dinheiro, as mulheres estão, muito mais que os homens, dispostas</p><p>à beneficência, sobretudo religiosa ou de caridade.</p><p>Do mesmo modo que, nas sociedades menos diferenciadas,</p><p>elas eram tratadas como meios de troca, permitindo aos homens</p><p>acumular capital social e capital simbólico através de casamentos</p><p>— verdadeiros investimentos que permitiam instaurar alianças</p><p>mais ou menos amplas e prestigiosas —, também hoje elas trazem</p><p>uma contribuição decisiva à produção e à reprodução do capital</p><p>simbólico da família, antes de mais nada expressando o capital sim</p><p>bólico do grupo doméstico com tudo que concorre para sua apa-</p><p>o papel determinante das conversas telefônicas neste trabalho: C. S. Fischer,</p><p>"Gender and the Residential Téléphone, 1890-19640, Technologies of Sociability",</p><p>Sociobgical Forum, 3 [2], primavera 1988, pp. 211-233). (Não posso deixar de ver</p><p>como efeito da submissão aos modelos dominantes o fato de que, tanto na França</p><p>quanto nos Estados Unidos, são algumas teóricas,</p><p>capazes de se mostrarem excelen</p><p>tes no que uma de suas críticas chama de "a corrida à teoria" [race for ffieory], que</p><p>concentram toda a atenção e a discussão, eclipsando magníficos trabalhos — tais</p><p>como estes, infinitamente mais ricos e mais fecundos, mesmo do ponto de vista teóri</p><p>co, mas menos conformes à idéia, tipicamente masculina, da "grande teoria".)</p><p>118 PIERRE B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U U N A</p><p>rência—maquilagem, trajes, porte etc.: daí ficarem, por esse fato,</p><p>classificadas do lado do parecer e do agradar.31 O mundo social</p><p>funciona (em graus diferentes, segundo as áreas) como um mer</p><p>cado de bens simbólicos dominado pela visão masculina: ser,</p><p>quando se trata de mulheres, é, como vimos, ser-percebido, e per</p><p>cebido pelo olhar masculino, ou por um olhar marcado pelas</p><p>categorias masculinas — as que entram em ação, mesmo sem se</p><p>conseguir enunciá-las explicitamente, quando se elogia uma obra</p><p>de mulher por ser "feminina", ou, ao contrário, "não ser em abso</p><p>luto feminina". Ser "feminina" é essencialmente evitar todas as</p><p>propriedades e práticas que podem funcionar como sinais de viri</p><p>lidade; e dizer de uma mulher de poder que ela é "muito femini</p><p>na" não é mais que um modo particularmente sutil de negar-lhe</p><p>qualquer direito a este atributo caracteristicamente masculino</p><p>que é o poder.</p><p>A posição peculiar das mulheres no mercado de bens simbó</p><p>licos explica o que há de mais essencial nas disposições femininas:</p><p>se toda relação social é, sob certos aspectos, o lugar de troca no</p><p>qual cada um oferece à avaliação seu aparecer sensível, é maior</p><p>para a mulher que para o homem a parte que, em seu ser-percebi</p><p>do, compete ao corpo, reduzindo-o ao que se chama por vezes de</p><p>o "físico" (potencialmente sexualizado), em relação a proprieda</p><p>des menos diretamente sensíveis, como a linguagem. Enquanto</p><p>que, para os homens, a aparência e os trajes tendem a apagar o</p><p>corpo em proveito de signos sociais de posição social (roupas,</p><p>ornamentos, uniformes etc), nas mulheres, eles tendem a exaltá-</p><p>lo e a dele fazer uma linguagem de sedução. O que explica que o</p><p>investimento (em tempo, em dinheiro, em energia) no trabalho</p><p>de apresentação seja muito maior na mulher.</p><p>31 . Aqui cabe um indício, que poderá parecer insignificante, da posição diferencial</p><p>dos homens e das mulheres nas relações de reprodução do capital simbólico: nos</p><p>Estados Unidos, na grande burguesia, há uma tendência a dar nomes franceses às</p><p>filhas, vistas como objetos da moda e de sedução, ao passo que os rapazes, guar</p><p>diães do nome de família e sujeitos dos atos destinados a perpetuá-lo, recebem</p><p>nomes próprios escolhidos no estoque de nomes antigos entesourados pela linhagem.</p><p>P E R M A N Ê N C I A S E M U D A N Ç A 119</p><p>Estando, assim, socialmente levadas a tratar a si próprias como</p><p>objetos estéticos e, por conseguinte, a dedicar uma atenção cons</p><p>tante a tudo que se refere à beleza, à elegância do corpo, das vestes,</p><p>da postura, elas têm naturalmente a seu cargo, na divisão do traba</p><p>lho doméstico, tudo que se refere à estética e, mais amplamente, à</p><p>gestão da imagem pública e das aparências sociais dos membros da</p><p>unidade doméstica, dos filhos, obviamente, mas também do espo</p><p>so, que lhes delega muitas vezes a escolha de sua indumentária. São</p><p>também elas que assumem o cuidado e a preocupação com a deco</p><p>ração na vida quotidiana, da casa e de sua decoração interior, da</p><p>parte de gratuidade e de finalidade sem fim que aí tem sempre</p><p>lugar, mesmo entre os mais despossuídos (assim como as antigas</p><p>hortas camponesas tinham um canto reservado às flores ornamen</p><p>tais, os apartamentos mais pobres das cidades operárias têm seus</p><p>vasos de flores, seus bibelôs e seus cromos).</p><p>Direcionadas à gestão do capital simbólico das famílias, as</p><p>mulheres são logicamente levadas a transportar este papel para</p><p>dentro da empresa, onde se lhes pede quase sempre para coorde</p><p>nar as atividades de apresentação e de representação, de recepção</p><p>e acolhida (aeromoça, recepcionista, anfitriã, guia turístico, aten-</p><p>dente, recepcionista de congresso, acompanhante etc.), e também</p><p>a gestão dos grandes rituais burocráticos que, tais como os rituais</p><p>domésticos, contribuem para a manutenção e o aumento do capi</p><p>tal social de relações e do capital simbólico da empresa.</p><p>Limite extremo de todas as espécies de serviços simbólicos que</p><p>o universo burocrático exige das mulheres, os luxuosos clubes de</p><p>hospedagem japoneses, para os quais as grandes empresas gostam</p><p>de convidar seus quadros, oferecem, não serviços sexuais, como</p><p>os lugares de prazer comuns, mas serviços simbólicos altamente</p><p>personalizados, com alusões a detalhes da vida pessoal dos clien</p><p>tes e referências admirativas a sua função ou profissão. Quanto</p><p>mais elevada for a posição de um clube na hierarquia dos prestí</p><p>gios e preços, mais os serviços serão particularizados e dessexuali-</p><p>zados, e tendentes a fazer a entrega feminina parecer totalmente</p><p>gratuita, realizada por amor e não por dinheiro; o que se dá à cus-</p><p>120 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>ta de um trabalho propriamente cultural de eufemização (o mes</p><p>mo que impõe a prostituição nos hotéis e que as prostitutas con</p><p>sideram infinitamente mais penoso e custoso que as rápidas tro</p><p>cas sexuais da prostituição de rua32). A demonstração de atenções</p><p>particulares e de artifícios de sedução, entre os quais uma conver</p><p>sa refinada não é um dos menores, podendo implicar certa provo</p><p>cação erótica, visa a dar a clientes que não querem ser vistos como</p><p>tais a impressão de serem apreciados, admirados e até mesmo</p><p>desejados ou amados por eles mesmos, por sua pessoa em sua sin</p><p>gularidade, e não por seu dinheiro, e de serem muito importantes</p><p>— ou, simplesmente, "de se sentirem homens".33</p><p>Desnecessário dizer que essas atividades de comércio simbóli</p><p>co, que são para as empresas o que as estratégias de apresentação</p><p>são para os indivíduos, exigem, para serem adequadamente reali</p><p>zadas, uma extrema atenção à aparência física e predisposições à</p><p>sedução que estão de acordo com o papel que, tradicionalmente,</p><p>compete mais à mulher. E compreende-se que, de modo geral, se</p><p>possa confiar às mulheres, por uma simples extensão de seu papel</p><p>tradicional, funções (na maior parte das vezes subordinadas,</p><p>embora a área cultural seja uma das únicas em que elas podem</p><p>ocupar cargos de direção) na produção ou no consumo de bens e</p><p>serviços simbólicos, ou, mais precisamente, sinais de distinção,</p><p>que vão dos produtos ou serviços de estética (cabeleireiras, esteti</p><p>cistas, manicuras etc.) à alta costura ou à cultura erudita. Respon</p><p>sáveis dentro da unidade doméstica pela conversão do capital eco</p><p>nômico em capital simbólico, elas tendem a entrar na dialética</p><p>permanente da pretensão e da distinção, à qual a moda oferece</p><p>um de seus campos prediletos e que é também o motor da vida</p><p>cultural, com o movimento permanente de ultrapassagem e de</p><p>escalada simbólicas. As mulheres da pequena burguesia, que,</p><p>32. Cf. C. Hoigard e L. Finstad, Backstreets, Prostitution, Money and Love, Cam</p><p>bridge, Polity Press, 1992.</p><p>33. Cf. A. Allison, Nightwork, Pieosure and Corporate Masculinity in a Tokyo Hostess</p><p>Club, Chicago, University of Chicago Press, 1994.</p><p>P E R M A N Ê N C I AS E M U D A N Ç A 121</p><p>como se sabe, levam a extremos a atenção aos cuidados com o</p><p>corpo ou com a aparência física34 e, por extensão, ao cuidado com</p><p>a respeitabilidade ética e estética, são as vítimas privilegiadas da</p><p>dominação simbólica, mas também os instrumentos mais ade</p><p>quados para modificar seus efeitos em relação às categorias domi</p><p>nadas. Marcadas pela aspiração de se identificarem com os mode</p><p>los dominantes — como o comprova sua tendência à hipercorre-</p><p>ção estética e lingüística —, elas estão particularmente inclinadas</p><p>a se apropriarem, a qualquer preço (isto é, na maior parte das</p><p>vezes, a crédito), das propriedades distintivas, por serem as que</p><p>distinguem os dominantes, e a contribuírem para sua imperativa</p><p>divulgação em</p><p>favor, sobretudo, do poder simbólico circunstan</p><p>cial, que pode assegurar a seu proselitismo de recém-convertidas</p><p>uma posição no aparelho de produção e de circulação dos bens</p><p>culturais (por exemplo, em um jornal feminino).35 Tudo se passa,</p><p>então, como se o mercado de bens simbólicos, ao qual as mulhe</p><p>res devem as melhores provas de sua emancipação profissional, só</p><p>concedesse a essas "trabalhadoras livres" da produção simbólica</p><p>uma aparente liberdade visando a melhor obter delas uma sub</p><p>missão diligente e uma contribuição para a dominação simbólica,</p><p>que se exerce através dos mecanismos da economia de bens sim</p><p>bólicos e dos quais elas são, igualmente, as vítimas prediletas. A</p><p>intuição desses mecanismos, que está, sem dúvida, à base de cer</p><p>tas estratégias de subversão propostas pelo movimento feminista,</p><p>como a defesa do natural look, deveria estender-se a todas as situa</p><p>ções em que as mulheres podem crer, e fazer crer, que elas exercem</p><p>as responsabilidades de um agente que se põe em ação no</p><p>momento mesmo que elas se vêem reduzidas na condição de ins</p><p>trumentos de exibição ou de manipulação simbólicas.</p><p>34. Cf. P. Bourdieu, La Distinction. Critique sociole du jugement, Paris, Éditions de</p><p>Minuit, 1979, pp. 22Ó-229.</p><p>35. Nicole Woolsey-Biggart oferece uma descrição exemplar de uma forma paradig</p><p>mática de proselitismo cultural na base da mão-de-obra feminina em seu livro</p><p>Charismatic Capitalism (Chicago, Universiry of Chicago Press, 1988).</p><p>122 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>A FORÇA DA ESTRUTURA</p><p>Assim, uma apreensão verdadeiramente relacional da relação</p><p>de dominação entre os homens e as mulheres, tal como ela se esta</p><p>belece em todos os espaços e subespaços sociais, isto é, não só na famí</p><p>lia, mas também no universo escolar e no mundo do trabalho, no</p><p>universo burocrático e no campo da mídia, leva a deixar em peda</p><p>ços a imagem fantasiosa de um "eterno feminino", para fazer ver</p><p>melhor a permanência da estrutura da relação de dominação entre</p><p>os homens e as mulheres, que se mantém acima das diferenças subs</p><p>tanciais de condição, ligadas aos momentos da história e às posições</p><p>no espaço social. Esta constatação da constância trans-histórica da</p><p>relação de dominação masculina, longe de produzir, como por vezes</p><p>se finge temer, um efeito de des-historicização, e portanto de natu</p><p>ralização, obriga a reverter a problemática ordinária, fundamenta</p><p>da na constatação das mudanças mais visíveis na condição das</p><p>mulheres: na realidade, isto obriga a colocar a questão, sempre</p><p>ignorada, do trabalho histórico, sempre renovado, que se desenvol</p><p>ve para arrancar da História a dominação masculina e os mecanis</p><p>mos e as ações históricas; trabalho este que é responsável por sua</p><p>aparente des-historicização e que toda a política de transformação</p><p>histórica tem que conhecer sob pena de se ver fadada à impotência.</p><p>Ele obriga, enfim, e principalmente, a perceber a vaidade dos</p><p>apelos ostentatórios dos filósofos "pós-modernos" no sentido de</p><p>"ultrapassar os dualismos": estes, profundamente enraizados nas</p><p>coisas (as estruturas) e nos corpos, não nasceram de um simples</p><p>feito de nominação verbal e não podem ser abolidos com um ato</p><p>de magia performática — os gêneros, longe de serem simples</p><p>"papéis" com que se poderia jogar à vontade (à maneira das drag</p><p>queens), estão inscritos nos corpos e em todo um universo do qual</p><p>extraem sua força.36 É a ordem dos gêneros que fundamenta a efi-</p><p>36. Judith Butler parece ela própria rejeitar a visão 'voluntarista" de género que ela</p><p>parecia antes propor em Gender Trouble quando escreve: "The misapprehension about</p><p>gender performativity is this: that gender is a choice, or that gender is a role, or that gen</p><p>der is a construction that one puis on, as one puis clothes in the morning" (J. Butler, 8o-</p><p>dies thatMatter: On the Discursive Limits of "Sen" New York, Routledge, 1993, p. 94).</p><p>P E R M A N Ê N C I A S E M U D A N Ç A !23</p><p>cácia performativa das palavras — e mais especialmente dos in</p><p>sultos — e é também ela que resiste às definições falsamente revo</p><p>lucionárias do voluntarismo subversivo.</p><p>Tal como Michel Foucault, que pretende re-historicizar a</p><p>sexualidade contra a naturalização psicanalítica, descrevendo, em</p><p>uma História da Sexualidade concebida como "uma arqueologia</p><p>da psicanálise", uma genealogia do homem ocidental enquanto</p><p>"sujeito de desejo", esforçamo-nos aqui por fazer ver o incons</p><p>ciente que governa as relações sexuais e, de modo mais geral, as</p><p>relações entre os sexos, não só em sua ontogenèse individual,</p><p>como também em sua filogênese coletiva, isto é, em sua longa his</p><p>tória, em parte imóvel, do inconsciente androcêntrico. Mas, para</p><p>levar a bom termo o projeto de compreender o que caracteriza</p><p>propriamente a experiência moderna da sexualidade, não pode</p><p>mos contentar-nos, com ele o fez, em insistir no que a diferencia</p><p>sobretudo da Antiguidade grega ou romana, na qual "teríamos</p><p>realmente dificuldade em encontrar uma noção semelhante à de</p><p>'sexualidade' ou de 'carne'", isto é, "uma noção referente a uma</p><p>entidade única e permitindo reagrupar, como sendo da mesma</p><p>natureza [...], fenômenos diversos e aparentemente distanciados</p><p>uns dos outros, não só comportamentos, mas também sensações,</p><p>imagens, desejos, instintos, paixões".37</p><p>A sexualidade, tal como a entendemos, é efetivamente uma</p><p>invenção histórica, mas que se efetivou progressivamente à medi</p><p>da que se realizava o processo de diferenciação dos diferentes</p><p>campos e de suas lógicas específicas. É por isso que foi preciso pri</p><p>meiro que o princípio de divisão sexuada (e não sexual), que</p><p>constituía a oposição fundamental da razão mítica, deixasse de se</p><p>aplicar a toda a ordem do mundo, tanto física quanto política, e</p><p>portanto de definir, por exemplo, os fundamentos da cosmologia,</p><p>como nos pensadores pré-socráticos: a constituição, em domínios</p><p>separados, das práticas e dos discursos ligados ao sexo é insepará</p><p>vel, de fato, da dissociação progressiva entre a razão mítica, com</p><p>37. M. Foucault, Histoire de la sexualité, t. 2: L'Usage des plaisirs, Paris, Gallimard,</p><p>1984, p. 43.</p><p>124 P I E R R E B O U 8 D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>suas analogias polissêmicas e vagas, e a razão lógica, que, nascida</p><p>da discussão em um campo escolástico, vem pouco a pouco tomar</p><p>a própria analogia como objeto (com Aristóteles, sobretudo). E a</p><p>emergência da sexualidade como tal é indissociável também do</p><p>surgimento de todo um conjunto de campos e de agentes concor</p><p>rendo pelo monopólio da definição legítima das práticas e dos</p><p>discursos sexuais — campo religioso, campo jurídico, campo</p><p>burocrático — e capazes de impor esta definição nas práticas,</p><p>sobretudo através das famílias e da visão familiarista.</p><p>Os esquemas do inconsciente sexuado não são alternativas es</p><p>truturantes fundamentais (fundamental structuring alternatives),</p><p>como quer Goffman, e sim estruturas históricas, altamente dife</p><p>renciadas, nascidas de um espaço social por sua vez altamente di</p><p>ferenciado e que se reproduzem através da aprendizagem ligada à</p><p>experiência que os agentes têm das estruturas desses espaços. É</p><p>assim que a inserção em diferentes campos organizados de acordo</p><p>com oposições (entre forte e fraco, grande e pequeno, pesado e</p><p>leve, gordo e magro, tenso e solto, hard e soft etc.), que mantêm</p><p>sempre uma relação de homologia com a distinção fundamental</p><p>entre o masculino e o feminino e as alternativas secundárias nas</p><p>quais ela se expressa (dominante/dominado, acima/abaixo, ativo-</p><p>penetrar/passivo-ser penetrado38) vem seguida da inscrição, nos</p><p>corpos, de uma série de oposições sexuais homólogas entre elas e</p><p>também com a oposição fundamental.</p><p>As oposições inscritas na estrutura social dos campos servem</p><p>de suporte a estruturas cognitivas, taxinomias práticas, muitas</p><p>vezes registradas em sistemas de adjetivos, que permitem produ</p><p>zir julgamentos éticos, estéticos, cognitivos. É, por exemplo, na</p><p>área universitária, a oposição entre as disciplinas</p><p>temporalmente</p><p>dominantes, Direito e Medicina, e as disciplinas temporalmente do</p><p>minadas, Ciências e Letras, e, dentro destas, entre as ciências, com</p><p>38. Michel Foucault viu bem a ligação entre a sexualidade e o poder (masculino),</p><p>sobretudo na ética grega, que, feita por homens e para homens, leva a conceber</p><p>"toda relação sexual segundo o esquema da penetração e da dominação do macho"</p><p>(M. Foucault, op. cit., p. 242).</p><p>P E R M A N Ê N C I A S E M U D A N Ç A 125</p><p>tudo que está do lado do hard, e as letras, isto é, o soft, ou ainda,</p><p>sempre em descida, entre a Sociologia, situada do lado da agora e</p><p>da política, e a Psicologia, voltada à interioridade, tal como a</p><p>Literatura39. Ou, ainda no campo do poder, a oposição, profunda</p><p>mente marcada na objetividade das práticas e das propriedades,</p><p>entre patrões da indústria e do comércio e intelectuais, e inscrita</p><p>também nos cérebros, sob a forma de taxinomias explícitas ou</p><p>implícitas que fazem com que o intelectual seja, aos olhos do</p><p>"burguês", um ser dotado de propriedades situadas, todas, do lado</p><p>do feminino, do irrealismo, da irresponsabilidade (como se vê</p><p>sobejamente naquelas situações em que dominantes seculares</p><p>resolvem dar lições ao intelectual ou ao artista e, tal como o fazem</p><p>os homens com as mulheres, lhes "explicar o que é a vida").</p><p>Isto quer dizer que a sociologia genética do inconsciente</p><p>sexual encontra seu prolongamento lógico na análise das estrutu</p><p>ras dos universos sociais em que este inconsciente se enraíza e se</p><p>reproduz, quer se trate de divisões incorporadas sob forma de</p><p>princípios de divisão, ou das divisões objetivadas que se estabele</p><p>cem entre as posições sociais (e seus ocupantes, preferencialmen</p><p>te masculinos ou femininos: médicos/enfermeiras, patrões/inte</p><p>lectuais, etc.) e das quais a mais importante, do ponto de vista da</p><p>perpetuação dessas divisões, é, sem dúvida, a que distingue os</p><p>campos destinados à produção simbólica. A oposição fundamen</p><p>tal, cuja forma canónica a sociedade cabila nos mostra, vê-se desa-</p><p>39. Sabe-se que a oposição entre hard e soft é a forma que assume no terreno da</p><p>ciência a divisão do trabalho entre os sexos; e isto tanto na divisão do trabalho cienti</p><p>fico quanto nas representações, na avaliação de resultados etc. Em uma ordem total</p><p>mente diversa, os críticos literários do século XVI opunham o épico, masculino e gra</p><p>ve, ao lírico, feminino, visto como ornamental. A oposição matricial se reencontra até</p><p>no campo das relações internacionais, em que a França ocupa, em relação a diferen</p><p>tes países, Estados Unidos, Inglaterra ou Alemanha, uma posição que poderia ser dita</p><p>"feminina", como o prova o fato de que, em países muito diversos, Egito, Grécia ou</p><p>Japão, os rapazes se orientam mais para esses países ao passo que as moças vão</p><p>mais para a França; ou ainda que se vai para os Estados Unidos ou para a Inglaterra</p><p>mais para fazer estudos de economia, de tecnologia ou de direito, e mais para a</p><p>França para estudar letras, filosofia ou ciências humanas (cf. N. Panayotopoulos, "Les</p><p>'grandes écoles' d'un petit pays. Les études à l'étranger: le cas de la Grèce", Actes de</p><p>h recherche en sciences sociales, 121-122, março 1998, pp. 77-91.)</p><p>12ó P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>celerada e como que difratada em uma série de oposições homó</p><p>logas, que a reproduzem, mas sob formas dispersas e muitas vezes</p><p>já irreconhecíveis (como ciências e letras, ou cirurgia e dermato</p><p>logia). Estas oposições específicas confinam o espírito, de forma</p><p>mais ou menos insidiosa, sem se deixarem nunca apreender em</p><p>sua unidade e em sua verdade, isto é, como tantas facetas de uma</p><p>mesma estrutura das relações de dominação sexual.</p><p>É, portanto, sob a condição de manter juntas a totalidade dos</p><p>lugares e a das formas nas quais se exerce esta espécie de domina</p><p>ção — que tem a particularidade de poder realizar-se em escalas</p><p>bem diferentes, em todos os espaços sociais, dos mais limitados,</p><p>como as famílias, aos mais vastos — que podemos captar as cons</p><p>tantes de sua estrutura e os mecanismos de sua reprodução. As</p><p>mudanças visíveis que afetaram a condição feminina mascaram a</p><p>permanência de estruturas invisíveis que só podem ser esclareci</p><p>das por um pensamento relacional, capaz de pôr em relação a eco</p><p>nomia doméstica, e portanto a divisão de trabalho e de poderes que</p><p>a caracteriza, e os diferentes setores do mercado de trabalho (os cam</p><p>pos) em que estão situados os homens e as mulheres. Isto, em vez</p><p>de apreender separadamente, como tem sido feito em geral, a dis</p><p>tribuição de tarefas entre os sexos, e sobretudo os níveis, no traba</p><p>lho doméstico e no trabalho não doméstico.</p><p>A verdade das relações estruturais de dominação sexual se</p><p>deixa realmente entrever a partir do momento em que observa</p><p>mos, por exemplo, que as mulheres que atingiram os mais altos</p><p>cargos (chefe, diretora em um ministério etc.) têm que "pagar", de</p><p>certo modo, por este sucesso profissional com um menor "suces</p><p>so" na ordem doméstica (divórcio, casamento tardio, celibato,</p><p>dificuldades ou fracassos com os filhos etc.) e na economia de</p><p>bens simbólicos; ou, ao contrário, que o sucesso na empresa</p><p>doméstica tem muitas vezes por contrapartida uma renúncia par</p><p>cial ou total a maior sucesso profissional (através, sobretudo, da</p><p>aceitação de "vantagens" que não são muito facilmente dadas às</p><p>mulheres, a não ser quando as põem fora da corrida pelo poder:</p><p>meio expediente ou "quatro quintos"). É, de fato, sob a condição</p><p>de levar em conta as obrigações que a estrutura do espaço domés-</p><p>P E R M A N Ê N C I A S E M U D A N Ç A 127</p><p>tico (real ou potencial) faz pesar sobre a estrutura do espaço pro</p><p>fissional (através, por exemplo, da representação de uma distância</p><p>necessária, inevitável ou aceitável, entre a posição do marido e a</p><p>posição da esposa) que podemos compreender a homologia entre</p><p>as estruturas das posições masculinas e das posições femininas</p><p>nos diferentes espaços sociais, homologia esta que tende a man</p><p>ter-se mesmo quando os termos não param de mudar de conteú</p><p>do substancial, em uma espécie de corrida de obstáculos em que</p><p>as mulheres jamais eliminam seu handicapa</p><p>Estabelecendo relações, podemos também compreender que</p><p>a mesma relação de dominação pode ser observada, sob formas</p><p>diferentes, nas condições femininas mais diversas, que vão da</p><p>dedicação benévola das mulheres da grande burguesia dos negó</p><p>cios e do dinheiro a seu lar, ou a suas boas obras, à dedicação anci</p><p>lar e "mercenária" das empregadas da casa, passando, no nível da</p><p>pequena burguesia, pela ocupação de um emprego assalariado</p><p>complementar ao do marido, compatível com ele, e quase sempre</p><p>exercido como algo inferior. A estrutura da dominação masculina</p><p>é o princípio último dessas inúmeras relações de dominação/sub</p><p>missão singulares que, diferentes em sua forma segundo a posi</p><p>ção, no espaço social, dos agentes envolvidos (diferenças às vezes</p><p>enormes e visíveis; outras vezes infinitesimais e quase invisíveis,</p><p>mas homólogas e unidas, por isso mesmo, por um ar de família)</p><p>separam e unem, em cada um dos universos sociais, os homens e</p><p>as mulheres, mantendo assim entre eles a "linha de demarcação</p><p>mística" de que falava Virginia Woolf.</p><p>40. Possuir um grande capital cultural não basta por si só para dar acesso às condi</p><p>ções de uma verdadeira autonomia econômica e cultural em relação aos homens. Se</p><p>dermos crédito aos que constatam que, em um casal em que o homem ganha muito</p><p>dinheiro, o trabalho da mulher aparece como privilégio eletivo, que tem que se justifi</p><p>car com um suplemento de atividades e de sucesso, ou que o homem que traz mais</p><p>da metade dos rendimentos espera que a mulher faça mais da metade do trabalho</p><p>doméstico, a independência econômica, condição necessária, não é suficiente por si</p><p>mesma para permitir que a mulher se livre das pressões do modelo dominante, que</p><p>pode continuar a povoar os habilus masculinos e femininos.</p><p>POST-SCRIPTUM SOBRE A DOMINAÇÃO E O AMOR</p><p>Parar aqui representaria abandonar-nos</p><p>ao > a -</p><p>zer de desiludir" de que falava Virginia Woolf (prazer que faz par</p><p>te, sem dúvida, das satisfações por vezes sub-repticiamente busca</p><p>das pela sociologia), deixando de lado na pesquisa todo o universo</p><p>encantado das relações amorosas.1 Tentação tanto mais forte</p><p>quanto mais difícil se mostra, sem se expor a cair na "comicidade</p><p>pedante", falar do amor na linguagem da análise e, mais precisa</p><p>mente, escapar da alternativa entre lirismo e cinismo, entre o con</p><p>to de fadas e o da fábula, ou do fabliau. Seria o amor uma exceção,</p><p>a única, mas de primeira grandeza, à lei da dominação masculina,</p><p>uma suspensão da violência simbólica, ou a forma suprema, por</p><p>que a mais sutil e a mais invisível, desta violência? Quando ele</p><p>assume a forma do amor marcado pelo destino, do amorfati, em</p><p>uma ou outra de suas variantes, quer se trate, por exemplo, da ade</p><p>são ao inevitável que levava um sem-número de mulheres, pelo</p><p>menos na Cabília antiga ou na Bearn de outras eras, e sem dúvida</p><p>muito além (como o atestam as estatísticas da homogamia), a jul</p><p>gar amável e chegar a amar aquele que o destino social lhes desig</p><p>nava, o amor é dominação aceita, não percebida como tal e prati</p><p>camente reconhecida, na paixão, feliz ou infeliz. E o que dizer do</p><p>investimento, imposto pela necessidade e pelo hábito, nas condi</p><p>ções de existência mais odiosas ou nas profissões mais perigosas?</p><p>1. Já ressaltei muitas vezes, sobretudo no fina! de La Distinction (op. cit., p. 566), a</p><p>parte que a busca dos prazeres da "visão lúcida" poderia ter na libido sciendi, espe</p><p>cificamente sociológica, sem ver que o "prazer de desiludir" (de fazer perder as ilu</p><p>sões), que lhe é inseparável, poderia explicar, e em parte justificar, certas reações</p><p>mais violentamente negativas que a sociologia provoca.</p><p>130 PIERRE B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>Mas o nariz de Cleópatra está aí mesmo para nos lembrar,</p><p>juntamente com toda a mitologia sobre o poder maléfico, terrifi</p><p>cante e fascinante da mulher em todas as mitologias — da Eva</p><p>tentadora, da envolvente Ônfale, de Circe, cheia de sortilégios ou</p><p>feiticeira manipuladora de destinos —, que o misterioso envolvi</p><p>mento do amor pode também se exercer sobre os homens. As for</p><p>ças que suspeitamos agir na obscuridade e no segredo das relações</p><p>íntimas ("ditas ao ouvido") e que prendem os homens com a</p><p>magia dos arroubos da paixão, fazendo-os esquecer dos deveres</p><p>ligados a sua dignidade social, determinam uma inversão na rela</p><p>ção de dominação; inversão que, ruptura fatal da ordem comum,</p><p>normal, natural, é condenada como uma falta contra a natureza e</p><p>destinada, como tal, a reforçar a mitologia androcêntrica.</p><p>Mas assim ficamos com a perspectiva da luta ou da guerra,</p><p>excluindo a possibilidade mesma de suspensão da força e das rela</p><p>ções de força que parece constitutiva da experiência do amor e da</p><p>amizade. Ora, nesta espécie de trégua milagrosa, em que a domi</p><p>nação parece dominada, ou melhor, anulada, e a violência viril</p><p>apaziguada (as mulheres, como já foi dito inúmeras vezes, civili</p><p>zam, despojando as relações sociais de sua grosseria e de sua bru</p><p>talidade), cessa a visão masculina, sempre cinegética ou guerreira,</p><p>das relações entre os sexos; cessam, no mesmo ato, as estratégias</p><p>de dominação que visam a atrelar, prender, submeter, rebaixar ou</p><p>subordinar, suscitando inquietações, incertezas, expectativas,</p><p>frustrações, mágoas, humilhações, e reintroduzindo assim a dissi-</p><p>metria de uma troca desigual.</p><p>Mas, como bem disse Sasha Weitman, o corte com a ordem</p><p>comum não se realiza de um só golpe e de uma vez por todas. É</p><p>somente com um trabalho de todos os instantes, sem cessar reco</p><p>meçado, que pode ser arrancada das águas frias do cálculo, da vio</p><p>lência e do interesse a "ilha encantada" do amor, este mundo</p><p>fechado e totalmente autárquico em que se dá toda uma série con</p><p>tínua de milagres: o milagre da não-violência, que torna possível</p><p>a instauração de relações baseadas em total reciprocidade e autori</p><p>zando o abandono e a retomada de si mesmo; o milagre do reco-</p><p>P O S T - S C R I PTUM SOBRE A D O M I N A Ç Ã O E O AMOR 13J.</p><p>nhecimento mútuo, que permite, como diz Sartre, sentir "justifi</p><p>cado o próprio existir", assumido, até em suas particularidades</p><p>mais contingentes ou mais negativas, na e por uma espécie de</p><p>absolutização arbitrária da arbitrariedade de um encontro ("por</p><p>que era ele, porque era eu"); o milagre do desinteresse, que torna</p><p>possíveis relações desinstrumentalizadas, geradas pela felicidade</p><p>de fazer feliz,2 de encontrar no encantamento do outro, e sobretu</p><p>do no encantamento que ele suscita, razões inesgotáveis de mara</p><p>vilhar-se. Todos traços, levados a seu mais alto grau, da economia</p><p>das trocas simbólicas, cuja forma suprema é a doação de si mesmo</p><p>e de seu corpo, objeto agradado, excluído da circulação mercantil</p><p>e que, por suporem e produzirem relações duradouras e não ins</p><p>trumentalizadas, opõem-se diametralmente, como mostrou Da</p><p>vid Schneider, às trocas do mercado de trabalho, transações tem</p><p>porárias e estritamente instrumentais entre agentes indistintos,</p><p>ou seja, indiferentes e intercambiáveis — cujo amor venal, ou</p><p>mercenário, verdadeira contradição nos termos, representa o</p><p>limite universalmente reconhecido como sacrilégio.3</p><p>O "amor puro", esta arte pela arte do amor, é uma invenção</p><p>histórica relativamente recente, como a arte pela arte, o amor</p><p>puro da arte com o qual ele tem relação, histórica e estrutural</p><p>mente.4 Não há dúvida de que só muito raramente o encontramos</p><p>em sua forma mais perfeita e, limite quase nunca atingido — che</p><p>ga-se a falar no caso em "amor louco" —, ele é intrinsecamente</p><p>frágil, porque sempre associado a exigências excessivas, a "loucu</p><p>ras" (não é por nele se investir demasiado que o casamento se vê</p><p>tão fortemente arriscado ao divórcio?), e sem cessar ameaçado pe</p><p>la crise que suscita o retorno do cálculo egoísta ou em simples</p><p>conseqüência da rotina. Mas ele existe suficientemente, apesar de</p><p>2. Que se opõe fundamentalmente ao fato de trator o outro como instrumento, como</p><p>puro meio de gozo, sem levar em conta suas próprias finalidades.</p><p>3. Cf. P. Bourdieu, "Le corps et le sacré", Actes de la recherche en sciences sociales,</p><p>104, setembro 1994, p. 2.</p><p>4. Cf. P. Bourdieu, tes Règles de l'art. Genèse et structure du champ littéraire, Paris,</p><p>Éditions du Seuil, 1992.</p><p>132 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>tudo, sobretudo nas mulheres, para poder ser instituído em nor</p><p>ma, ou em ideal prático, digno de ser perseguido por ele mesmo e</p><p>pelas experiências de exceção que ele traz. A aura de mistério que</p><p>o cerca, sobretudo na tradição literária, pode ser facilmente com</p><p>preendida de um ponto de vista estritamente antropológico: basea</p><p>do na suspensão da luta pelo poder simbólico que a busca de reco</p><p>nhecimento e a tentação correlativa de dominar suscitam, o reco</p><p>nhecimento mútuo pelo qual cada um se reconhece no outro e o</p><p>reconhece também como tal pode levar, em sua perfeita reflexivi</p><p>dade, para além da alternativa do egoísmo e do altruísmo ou até</p><p>da distinção do sujeito e do objeto, a um estado de fusão e de</p><p>comunhão, muitas vezes evocado em metáforas próximas às do</p><p>místico, em que dois seres podem "perder-se um no outro" sem se</p><p>perder. Conseguindo sair da instabilidade e da insegurança carac</p><p>terísticas da dialética da honra que, embora baseada em uma pos</p><p>tulação de igualdade, está sempre exposta ao impulso do domina</p><p>dor da escalada, o sujeito amoroso só pode obter o reconhecimen</p><p>to de um outro sujeito, mas que abdique, como ele o fez, da inten</p><p>ção de dominar. Ele entrega livremente sua liberdade a um dono</p><p>que lhe entrega igualmente a sua, coincidindo com ele em um ato</p><p>de livre alienação indefinidamente afirmado (através da repetição,</p><p>sem redundâncias, do "eu te amo"). Ele se vivência como um cria</p><p>dor quase divino que faz, ex nihilo, a pessoa amada através do</p><p>poder que esta lhe concede (sobretudo o poder de nominação,</p><p>manifesto em todos</p><p>os nomes únicos e conhecidos apenas de</p><p>ambos que os apaixonados se dão mutuamente e que, como em</p><p>um ritual iniciático, marcam um novo nascimento, um primeiro</p><p>começo absoluto, uma mudança de estatuto ontológico); mas um</p><p>criador que, em retorno e simultaneamente, vê-se, à diferença de</p><p>um Pigmalião egocêntrico e dominador, como o criador de sua</p><p>criatura.</p><p>Reconhecimento mútuo, troca de justificações de existência e</p><p>de razões de ser, testemunhos recíprocos de confiança, signos,</p><p>todos, da total-reciprocidade que confere ao círculo em que se</p><p>P O S T - S C R I P T U M S O B R E A D O M I N A Ç Ã O E O A M O R 133</p><p>encerra a díade amorosa, unidade social elementar, indivisível e</p><p>dotada de uma potência autárquica simbólica, o poder de rivalizar</p><p>vitoriosamente com todas as consagrações que ordinariamente se</p><p>pedem às instituições e aos ritos da "Sociedade", este substituto</p><p>mundano de Deus.5</p><p>5. Sobre a função propriamente teológico-politíca da instituição e de seus ritos, ver P.</p><p>Bourdieu, Méditations pascaliennes (op. cit., pp. 279-288).</p><p>CONCLUSÃO</p><p>/ \ divulgação da análise científica de uma forma</p><p>de dominação tem necessariamente efeitos sociais, mas que</p><p>podem ser de sentidos opostos: ela pode reforçar simbolicamente</p><p>a dominação, quando suas constatações parecerem retomar ou</p><p>recortar o discurso dominante (cujos veredictos negativos assu</p><p>mem muitas vezes os contornos de um puro registro comprovan</p><p>te), ou contribuir para neutralizá-la, à maneira da divulgação de</p><p>um segredo de Estado, favorecendo a mobilização das vítimas. Ela</p><p>está, portanto, exposta a toda sorte de mal-entendidos, mais fáceis</p><p>de serem revistos que de serem de antemão dissipados.</p><p>Diante de tão difíceis condições de recepção, o analista ficaria</p><p>tentado a simplesmente invocar sua boa-fé, se não soubesse que, em</p><p>assuntos tão sensíveis, esta é insuficiente; como o é, igualmente, a</p><p>convicção militante que inspira um sem-número de escritos dedi</p><p>cados à condição feminina (e que está no princípio do interesse por</p><p>objetos até então ignorados ou negligenciados). Não poderíamos,</p><p>realmente, subestimar os riscos a que está exposto todo projeto</p><p>científico que se deixa impor seu objeto por considerações externas,</p><p>por mais nobres e generosas que sejam: As "boas causas" não</p><p>podem servir de justificativas epistemológicas e dispensar a análise</p><p>reflexiva, que por vezes obriga a descobrir que a prioridade conce</p><p>dida aos "bons sentimentos" não exclui necessariamente o interes</p><p>se pelos lucros associados às "boas lutas" (o que não significa, em</p><p>absoluto, que, como já fui obrigado a dizer de outras vezes, "todo</p><p>projeto militante seja acientífico". Se não se trata de excluir da ciên</p><p>cia, em nome de alguma utópica Wertfreiheit ("abstenção — de juí</p><p>zo de valor"), a motivação individual ou coletiva que suscita a exis-</p><p>136 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>tência de uma mobilização política e intelectual, o que se pode dizer</p><p>é que o melhor dos movimentos políticos está fadado a fazer uma</p><p>má ciência e, em última instância, uma má política, se não conse</p><p>guir transformar suas disposições subversivas em inspiração crítica</p><p>— e, antes de mais nada, em autocrítica.</p><p>É, sem dúvida, plenamente compreensível que, para evitar</p><p>ratificar o real aparentando registrá-lo cientificamente, possamos</p><p>ver-nos levados a deixar passar em silêncio os efeitos mais visivel</p><p>mente negativos da dominação e da exploração: quer quando, por</p><p>um cuidado de reabilitação, ou por medo de dar armas ao racis</p><p>mo, que inscreve exatamente as diferenças culturais na natureza</p><p>dos dominados e que autoriza a "culpar as vítimas", põem-se entre</p><p>parênteses as condições de existência de que elas são produto, ou</p><p>se toma partido, mais ou menos consciente, de falar em "cultura</p><p>popular" ou, a propósito dos negros dos Estados Unidos, em "cul</p><p>tura da pobreza"; quer quando, como no caso de algumas femi</p><p>nistas atuais, se prefere "deixar de lado a análise da submissão, por</p><p>medo de que, ao admitir a participação das mulheres na relação</p><p>de dominação, não se leve a transferir dos homens para as mulhe</p><p>res a carga de responsabilidade".1 De fato, contra a tentação, apa</p><p>rentemente generosa e à qual foram sacrificados tantos movimen</p><p>tos subversivos, de, em nome da simpatia, da solidariedade ou da</p><p>indignação, dar uma representação idealizada dos oprimidos e</p><p>dos estigmatizados, deixando passar em silêncio os próprios efei</p><p>tos da dominação, principalmente os mais negativos, é preciso</p><p>assumir o risco de parecer justificar a ordem estabelecida, trazen</p><p>do à luz as propriedades pelas quais os dominados (mulheres,</p><p>operários etc), tais como a dominação os fez, podem contribuir</p><p>para sua própria dominação.2 As aparências — será preciso lem-</p><p>1. J. Benjamin, The Bonds oi Love, Psychoanalysis, Feminism and the Problems of Do</p><p>mination, New York, Panthéon Books, 1988, p. 9.</p><p>2. Do mesmo modo, pôr em foco os efeitos que a dominação masculina exerce sobre</p><p>os habitus masculinos não é, como alguns poderão crer, tentar desculpar os homens.</p><p>É mostrar que o esforço no sentido de libertar as mulheres da dominação, isto é, das</p><p>estruturas objetivas e incorporadas que se lhes impõem, não pode se dar sem um esfor</p><p>ço paralelo no sentido de liberar os homens dessas mesmas estruturas que fazem com</p><p>que eles contribuam para impô-la.</p><p>C O N C L U S Ã O 137</p><p>brar mais uma vez? — são sempre pela aparência, e a tentativa de</p><p>desvelá-las se expõe a suscitar ao mesmo tempo as condenações</p><p>indignadas do conservadorismo e as denúncias farisaicas do revo-</p><p>lucionarismo. Particularmente lúcida, exatamente por isso, quan</p><p>to aos efeitos prováveis da lucidez, Catharine MacKinnon deplo</p><p>ra, assim, que, quando ela se esforça por descrever a verdade das</p><p>relações entre os sexos, acusam-na imediatamente de ser "condes</p><p>cendente para com as mulheres" (condescending to women), quan</p><p>do ela não faz mais que dizer como "as mulheres são objeto de</p><p>condescendência" {women are condescended ío).3 Acusação ainda</p><p>mais provável quando se trata de um homem, que evidentemente</p><p>nada pode contrapor àquelas que se arrogam, em nome da auto</p><p>ridade absoluta que representa a "experiência" da feminilidade, o</p><p>direito de condenar sem apelação toda tentativa de pensar o obje</p><p>to cujo monopólio elas assim detêm sem dificuldade.4</p><p>Em suma, a prejudicial suspeita que pesa muitas vezes sobre</p><p>os escritos masculinos a respeito da diferença entre os sexos não é</p><p>inteiramente infundada. Não só porque o analista, que está envol</p><p>vido por aquilo que ele crê compreender, pode, obedecendo sem</p><p>perceber a intenções justificativas, tomar pressupostos que ele</p><p>próprio adotou como revelações sobre os pressupostos dos agen</p><p>tes. Mas sobretudo porque, ao lidar com uma instituição que está</p><p>há milênios inscrita na objetividade das estruturas sociais e na</p><p>subjetividade das estruturas cognitivas, e não tendo, portanto,</p><p>para pensar a oposição entre o masculino e o feminino mais que</p><p>um espírito estruturado segundo esta oposição, ele se expõe a</p><p>usar, como instrumentos de conhecimento, esquemas de percep-</p><p>3. Cf. C. A. MacKinnon, Feminism Unmodified, Discourses on Life and Law, Cam</p><p>bridge (Mass.) e Londres, Harvard Universify Press, 1987.</p><p>4. Reivindicar o monopólio de um objeto, qualquer que seja (nem que seja com o sim</p><p>ples uso do "nós", corrente em certos escritos feministas), em nome do privilégio cog</p><p>nitivo que se crê estar assegurado apenas pelo fato de ser ao mesmo tempo sujeito o</p><p>objeto, e, mais precisamente, de ter experimentado em primeira pessoa a forma singu</p><p>lar da condição humana que se busca analisar cientificamente, é importar para o cam</p><p>po científico a defesa política de particularismos que autoriza uma desconfiança a</p><p>priori e pôr em questão o universalismo que, através sobretudo do direito de acesso a</p><p>todos os objetos, é um dos fundamentos da República das ciências.</p><p>138 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>ção e de pensamento que ele deveria</p><p>tratar como objetos de</p><p>conhecimento. E mesmo o analista mais esclarecido (um Kant ou</p><p>um Sartre, um Freud ou até um Lacan...) está arriscado a extrair</p><p>sem o saber, de um inconsciente impensado, os instrumentos de</p><p>pensamento que ele usa para tentar pensar o inconsciente.</p><p>Se me aventurei, pois, depois de muita hesitação e com a</p><p>maior apreensão, por um terreno extremamente difícil e quase</p><p>que inteiramente monopolizado hoje pelas mulheres, é porque eu</p><p>tinha o sentimento de que a relação de exterioridade na simpatia</p><p>em que eu me havia colocado poderia permitir-me produzir, com</p><p>o apoio do imenso trabalho estimulado pelo movimento feminis</p><p>ta, e também dos resultados de minha própria pesquisa a respeito</p><p>das causas e dos efeitos sociais da dominação simbólica, uma aná</p><p>lise capaz de orientar de outro modo não só a pesquisa sobre a</p><p>condição feminina, ou, de maneira mais relacional, sobre as rela</p><p>ções entre os gêneros, como também a ação destinada a transfor</p><p>má-las. Realmente, creio que, se a unidade doméstica é um dos</p><p>lugares em que a dominação masculina se manifesta de maneira</p><p>mais indiscutível (e não só através do recurso à violência física), o</p><p>princípio de perpetuação das relações de força materiais e simbó</p><p>licas que aí se exercem se coloca essencialmente fora desta unida</p><p>de, em instâncias como a Igreja, a Escola ou o Estado e em suas</p><p>ações propriamente políticas, declaradas ou escondidas, oficiais</p><p>ou oficiosas (basta, para nos convencermos disto, observar, na</p><p>realidade imediata, as reações e as resistências ao projeto de con</p><p>trato de união social).</p><p>O que significa que o movimento feminista contribuiu muito</p><p>para uma considerável ampliação da área política ou do politizá-</p><p>vel, fazendo entrar na esfera do politicamente discutível ou con</p><p>testável objetos e preocupações afastadas ou ignoradas pela tradi,</p><p>ção política, porque parecem pertencer à ordem do privado; mas</p><p>não deve igualmente deixar-se levar a excluir, sob pretexto de elas</p><p>pertencerem à lógica mais tradicional da política, as lutas a propó</p><p>sito de instâncias que, com sua ação negativa, e em grande parte</p><p>invisível — porque elas estão ligadas às estruturas dos inconscien</p><p>tes masculinos e também femininos —, contribuem fortemente</p><p>C O N C LU S Ã O</p><p>139</p><p>para a perpetuação das relações sociais de dominação entre os</p><p>sexos. O movimento feminista não deve mais deixar-se encerrar</p><p>apenas em formas de luta política rotuladas de feministas, como a</p><p>reivindicação de paridade entre os homens e as mulheres nas ins</p><p>tâncias políticas: se elas têm o mérito de lembrar que o universa</p><p>lismo de princípio que postula o Direito Constitucional não é tão</p><p>universal quanto parece — sobretudo por só reconhecer indiví</p><p>duos abstratos e desprovidos de qualificações sociais —, estas</p><p>lutas correm o risco de redobrar os efeitos de uma outra forma de</p><p>universalismo fictício, favorecendo prioritariamente mulheres</p><p>saídas das mesmas áreas do espaço social que os homens que ocu</p><p>pam atualmente as posições dominantes.</p><p>Só uma ação política que leve realmente em conta todos os</p><p>efeitos de dominação que se exercem através da cumplicidade obje</p><p>tiva entre as estruturas incorporadas (tanto entre as mulheres</p><p>quanto entre os homens) e as estruturas de grandes instituições em</p><p>que se realizam e se produzem não só a ordem masculina, mas tam</p><p>bém toda a ordem social (a começar pelo Estado, estruturado em</p><p>torno da oposição entre sua "mão direita", masculina, e sua "mão</p><p>esquerda", feminina, e a Escola, responsável pela reprodução efeti</p><p>va de todos os princípios de visão e de divisão fundamentais, e</p><p>organizada também em torno de oposições homólogas) poderá, a</p><p>longo prazo, sem dúvida, e trabalhando com as contradições ine</p><p>rentes aos diferentes mecanismos ou instituições referidas, contri</p><p>buir para o desaparecimento progressivo da dominação masculina.</p><p>Ânexo</p><p>ALGUMAS QUESTÕES</p><p>SOBRE O MOVIMENTO GAY E LÉSBICO</p><p>\J movimento gay e lésbico coloca, ao mesmo</p><p>tempo, tacitamente, com sua existência e suas ações simbólicas, e</p><p>explicitamente, com os discursos e teorias que produz, ou a que</p><p>dá lugar, um certo número de questões que estão entre as mais</p><p>importantes das ciências sociais e que, para alguns, são totalmen</p><p>te novas.1 Esse movimento de revolta contra uma forma particu</p><p>lar de violência simbólica, além de suscitar novos objetos de aná</p><p>lise, põe profundamente em questão a ordem simbólica vigente e</p><p>coloca de maneira bastante radical a questão dos fundamentos</p><p>desta ordem e das condições de uma mobilização bem-sucedida</p><p>visando a subvertê-la.</p><p>A forma particular de dominação simbólica de que são víti</p><p>mas os homossexuais, marcados por um estigma que, à diferença</p><p>da cor da pele ou da feminilidade, pode ser ocultado (ou exibido),</p><p>impõe-se através de atos coletivos de categorização que dão mar</p><p>gem a diferenças significativas, negativamente marcadas, e com</p><p>isso a grupos ou categorias sociais estigmatizadas. Como em cer</p><p>tos tipos de racismo, ela assume, no caso, a forma de uma negação</p><p>da sua existência pública, visível. A opressão como forma de "in-</p><p>visibilização" traduz uma recusa à existência legítima, pública,</p><p>1. Neste texto, de que apresentei um primeiro esboço em um encontro consagrado a</p><p>pesquisas sobre os gays e as lésbicas, falarei apenas do "movimento", sem tomar</p><p>partido sobre a relação, bastante complexa, que os diferentes grupos, coletivos e</p><p>associações que o animam mantêm com a (ou as) "coletividade(s)" ou "categoria(s)"</p><p>— mais que "comunidade(s)" — de gays e lésbicas, ela(s) mesmajs) de difícil defini</p><p>ção (deveríamos tomar como critério as práticas sexuais — mas declaradas ou escon</p><p>didas, efetivas ou potenciais — o u a freqüência a determinados lugares ou um certo</p><p>estilo de vida?).</p><p>144 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>isto é, conhecida e reconhecida, sobretudo pelo Direito, e por uma</p><p>estigmatização que só aparece de forma realmente declarada</p><p>quando o movimento reivindica a visibilidade. Alega-se, então,</p><p>explicitamente, a "discrição" ou a dissimulação que ele é ordina</p><p>riamente obrigado a se impor.</p><p>Falar de dominação, ou de violência simbólica, é dizer que,</p><p>salvo uma revolta subversiva que conduza à inversão das catego</p><p>rias de percepção e de avaliação, o dominado tende a assumir a</p><p>respeito de si mesmo o ponto de vista dominante: através, princi</p><p>palmente, do efeito de destino que a categorização estigmatizante</p><p>produz, e em particular do insulto, real ou potencial, ele pode ser</p><p>assim levado a aplicar a si mesmo e a aceitar, constrangido e for</p><p>çado, as categorias de percepção direitas (straight, em oposição a</p><p>crooked, tortas), e a viver envergonhadamente a experiência sexual</p><p>que, do ponto de vista das categorias dominantes, o define, equi-</p><p>librando-se entre o medo de ser visto, desmascarado, e o desejo de</p><p>ser reconhecido pelos demais homossexuais.</p><p>A particularidade desta relação de dominação simbólica é que</p><p>ela não está ligada aos signos sexuais visíveis, e sim à prática se</p><p>xual. A definição dominante da forma legítima desta prática, vis</p><p>ta como relação de dominação do princípio masculino (ativo,</p><p>penetrante) sobre o princípio feminino (passivo, penetrado)</p><p>implica o tabu da feminilização, sacrilégio do masculino, isto é, do</p><p>princípio dominante, que está inscrito na relação homossexual.</p><p>Comprovando a universalidade do reconhecimento concedido à</p><p>mitologia androcêntrica, os próprios homossexuais, embora</p><p>sejam disso (tal como as mulheres) as primeiras vítimas, aplicam</p><p>a si mesmos muitas vezes os princípios dominantes: tal como as</p><p>lésbicas, eles não raro reproduzem, nos casais que formam, uma</p><p>divisão dos papéis masculino e feminino (inadequada a aproxi</p><p>má-los das feministas, sempre prontas a suspeitar de sua cumpli</p><p>cidade com o gênero masculino a que pertencem, mesmo se este</p><p>os oprime) e levam por vezes a extremos a afirmação da virilidade</p><p>em sua forma mais comum, sem dúvida em reação contra o estilo</p><p>"efeminado" antes dominante.</p><p>A N E X O 145</p><p>Inscritos</p><p>ao mesmo tempo na objetividade, sob forma das</p><p>divisões instituídas, e nos corpos, sob a forma de uma relação de</p><p>dominação somatizada (que se trai na vergonha), as oposições</p><p>paralelas que são constitutivas dessa mitologia estruturam a per</p><p>cepção dos próprios corpos e dos usos, sobretudo sexuais, que</p><p>deles se fazem, isto é, ao mesmo tempo, a divisão sexual do traba</p><p>lho e a divisão do trabalho sexual. E é, talvez, por lembrar de for</p><p>ma particularmente aguda o laço que une a sexualidade ao poder,</p><p>e portanto à política (evocando, por exemplo, o caráter mons</p><p>truoso, porque duplamente "contra a natureza", de que se reveste,</p><p>em inúmeras sociedades, a homossexualidade passiva com um</p><p>dominado), que a análise da homossexualidade pode levar a uma</p><p>política (ou a uma utopia) da sexualidade visando a diferenciar</p><p>radicalmente a relação sexual de uma relação de poder.</p><p>Mas, por não querer, ou não poder, dar-se como objetivo uma</p><p>tal subversão radical das estruturas sociais e das estruturas cogni</p><p>tivas, subversão essa que deveria mobilizar todas as vítimas de</p><p>uma discriminação de base sexual (e, de maneira mais geral, todos</p><p>os estigmatizados), condenam-se não raro a se encerrar em uma</p><p>das mais trágicas antinomias de dominação simbólica: como se</p><p>revoltar contra uma categorização socialmente imposta organi-</p><p>zando-se como uma categoria construída segundo esta categori</p><p>zação e fazendo assim existirem as classificações e as restrições às</p><p>quais se pretende resistir — em vez de, por exemplo, lutar por</p><p>uma nova ordem sexual em que a distinção entre os diferentes</p><p>estatutos sexuais fosse indiferente? Como o movimento que con-</p><p>tiibuiu para lembrar que, assim como a família, a região, a nação</p><p>ou qualquer outra entidade coletiva, o estatuto de gay ou de lésbi</p><p>ca não passa de uma construção social, baseada na crença, pode-</p><p>se contentar com uma revolução simbólica capaz de dar visibili</p><p>dade, conhecida e reconhecida, a esta construção, com conferir-</p><p>lhe a existência plena e total de uma categoria realizada, inverten</p><p>do o sinal de estigmatização para transformá-lo em emblema —</p><p>como o faz o gay pride em sua manifestação pública, pontual e</p><p>extra-ordinária da existência coletiva do grupo invisível? Ainda</p><p>mais porque, ao fazer ver que o estatuto de "gay" ou de "lésbica" e</p><p>146 P I E R R E B O U R D ! E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>uma construção social, uma ficção coletiva da ordem "heteronor-</p><p>mativa", que se construiu, aliás, em parte contra o homossexual, e</p><p>lembrando a diversidade extrema de todos os membros dessa</p><p>categoria construída, o movimento tende (é uma outra antino</p><p>mia) a dissolver de certo modo suas próprias bases sociais, aque</p><p>las mesmas que ele tem que construir para existir enquanto força</p><p>social capaz de reverter a ordem simbólica dominante e para dar</p><p>força à reivindicação de que é portador.</p><p>E deve ele levar a cabo sua ação reivindicatória (e sua contra</p><p>dição) exigindo do Estado que confira ao grupo estigmatizado o</p><p>reconhecimento duradouro e comum de um estatuto público e</p><p>publicado, por meio de um ato solene de estado civil? A verdade é</p><p>que, de fato, a ação de subversão simbólica, se quiser ser realista,</p><p>não pode se limitar a rupturas simbólicas — mesmo quando,</p><p>como se dá em certas provocações estéticas, elas sejam eficazes'no</p><p>sentido de levar à suspensão das evidências. Para mudar duradou</p><p>ramente as representações, o movimento tem que operar e impor</p><p>uma transformação duradoura das categorias incorporadas (dos</p><p>esquemas de pensamento) que, através da educação, conferem</p><p>um estatuto de realidade evidente, necessária, indiscutida, natu</p><p>ral, nos limites de sua alçada de validade, às categorias sociais que</p><p>elas produzem. Ele tem que exigir do Direito (que, como a palavra</p><p>mesma diz, está parcialmente ligado ao straight...) um reconheci</p><p>mento da particularidade, que implica sua anulação: tudo se pas</p><p>sa, de fato, como se os homossexuais, que tiveram que lutar para</p><p>passar da invisibilidade para a visibilidade, para deixarem de ser</p><p>excluídos e invisibilizados, visassem a voltar a ser invisíveis, e de</p><p>certo modo neutros e neutralizados, pela submissão à norma</p><p>dominante.2 Basta pensar em todas as contradições que a noção</p><p>de "arrimo de família" implica quando aplicada a um dos mem-</p><p>2. A contradição estrutural existente em seu princípio condena os movimentos nasci</p><p>dos dos grupos dominados e estigmatizados a uma tal pendulação entre a invisibili-</p><p>zação e a exibição, entre a anulação e a celebração de diferença, que faz com que,</p><p>assim como o movimento dos Direitos Civis ou o movimento feminista, eles adotem,</p><p>segundo as circunstâncias, uma ou outra estratégia, em função da estrutura das orga</p><p>nizações, do acesso à política e das formas de oposição encontradas (M. Bernstein,</p><p>"Célébration and Suppression: The Stratégie Uses of Identity by the Lesbian and Gay</p><p>Movement", American Journal of Sociology, 103, novembro 1997, pp. 531-565).</p><p>A N E X O</p><p>147</p><p>bros de um casal homossexual para compreender que o realismo</p><p>que leva a ver no contrato de união civil o preço a ser pago para</p><p>"retornar à ordem" e obter o direito à visibilidade invisível do bom</p><p>soldado, do bom cidadão ou do bom cônjuge, e, no mesmo ato, de</p><p>uma parte mínima dos direitos normalmente concedidos a todos</p><p>os membros da parte inteira, que é a comunidade (tais como os</p><p>direitos de sucessão), dificilmente possam justificar totalmente,</p><p>para inúmeros homossexuais, as concessões à ordem simbólica</p><p>que um tal contrato implica, como, por exemplo, a condição de</p><p>dependente de um dos membros do casal. (É significativo que,</p><p>para minimizar a inconsequência que resulta da manutenção da</p><p>diferença, ou até da hierarquia, em casais que realizaram a trans</p><p>gressão escandalosa da fronteira sagrada entre o masculino e o</p><p>feminino, as associações de homossexuais dos países nórdicos que</p><p>obtiveram o reconhecimento da união civil de homossexuais</p><p>tenham escolhido, como observou Annick Prieur,3 exibir publica</p><p>mente casais de quase-gêmeos, que não apresentam nenhum dos</p><p>signos capazes de fazer lembrar aquela divisão simbólica e a opo</p><p>sição ativo/passivo que ela subentende.)</p><p>Será possível converter a antinomia em alternativa suscetível</p><p>de ser dirigida por uma escolha racional? A força da ortodoxia,</p><p>isto é, da dóxa direita e de direita que impõe todo tipo de domínio</p><p>simbólico (branco, masculino, burguês), provém do fato de que</p><p>ela transforma particularidades nascidas da discriminação histó</p><p>rica em disposições incorporadas, revestidas de todos os signos do</p><p>natural; estas disposições, que na maior parte das vezes são pro</p><p>fundamente ajustadas às pressões objetivas de que são produto e</p><p>que implicam uma forma de aceitação tácita dessas pressões (por</p><p>exemplo, fazendo da guetização "amor ao gueto"), estão fadadas a</p><p>aparecer, quando ligadas aos dominantes, quer como atributos</p><p>não marcados, neutros, universais, isto é, ao mesmo tempo visí</p><p>veis, distintivos, e invisíveis, não marcados, "naturais" (a "distin</p><p>ção natural"); quer, quando ligadas aos dominados, como "dife-</p><p>3. A. Prieur, R. S. Halvorsen, "Le droit à l'indifférence: le mariage homosexuel", Actes</p><p>de la recherche en sciences sociales, 113, 1996, pp. 6-15.</p><p>148 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>renças", isto é, como marcas negativas, falhas, ou até estigmas, que</p><p>exigem justificação. Esta dóxa dá, assim, uma base objetiva e uma</p><p>ameaçadora eficácia a todas as estratégias da hipocrisia universa</p><p>lista que, invertendo as responsabilidades, denuncia como ruptu</p><p>ra particularista ou "comunitarista" do contrato universalista</p><p>toda e qualquer reivindicação de acesso dos dominados ao direito</p><p>e ao destino comum: de fato, paradoxalmente, é quando se mobi</p><p>lizam para reivindicar os direitos universais que lhes foram de fato</p><p>recusados que os membros dessas minorias simbólicas são cha</p><p>mados à ordem do universal. Jamais o particularisme e o "comu</p><p>nitarismo" do movimento gay e lésbico foi tão violentamente con</p><p>denado quanto</p><p>evidencia no fato de que ela</p><p>dispensa justificação:6 a visão androcêntrica impõe-se como neu</p><p>tra e não tem necessidade de se enunciar em discursos que visem</p><p>a legitimá-la.7 A ordem social funciona como uma imensa máqui</p><p>na simbólica que tende a ratificar a dominação masculina sobre a</p><p>qual se alicerça: é a divisão social do trabalho, distribuição bastan</p><p>te estrita das atividades atribuídas a cada um dos dois sexos, de</p><p>seu local, seu momento, seus instrumentos; é a estrutura do espa</p><p>ço, opondo o lugar de assembléia ou de mercado, reservados aos</p><p>homens, e a casa, reservada às mulheres; ou, no interior desta,</p><p>entre a parte masculina, com o salão, e a parte feminina, com o</p><p>estábulo, a água e os vegetais; é a estrutura do tempo, a jornada, o</p><p>ano agrário, ou o ciclo de vida, com momentos de ruptura, mas</p><p>culinos, e longos períodos de gestação, femininos.8</p><p>O mundo social constrói o corpo como realidade sexuada e</p><p>como depositário de princípios de visão e de divisão sexualizan-</p><p>tes. Esse programa social de percepção incorporada aplica-se a</p><p>todas as coisas do mundo e, antes de tudo, ao próprio corpo, em sua</p><p>6 . Muitas vezes já se observou que, tanto na percepção social quanto na l inguagem,</p><p>o gênero masculino se mostra como algo não marcado, de certa forma neutro, a o</p><p>contrário do feminino, que é explicitamente caracterizado. Dominique Merl l ié verifi</p><p>cou, a o tratar d o reconhecimento do "sexo" da escritura, que os traços femininos são</p><p>percebidos apenas como presentes ou ausentes (Cf. D. Merl l ié, "Le sexe de l'écriture,</p><p>notes sur la perception sociale de la féminité", Actes de la recherche en sciences</p><p>sociales, 8 3 , junho 1990, pp. 40-51).</p><p>7 . E impressionante que praticamente não se encontrem mitos justificativos da hierar</p><p>quia sexual (salvo, talvez, o mito do nascimento da cevada [Cf. P. Bourdieu, Le Sens</p><p>pratique, op. cit., p. 128] e o mito que busca racional izar a posição "norma l " d o</p><p>homem e da mulher no ato sexual, de que falarei adiante).</p><p>8 . Seria necessário poder lembrar aqui toda a análise do sistema mítico-ritual (por</p><p>exemplo, sobre a estrutura do espaço interno da casa: cf. P. Bourdieu, Le Sens prati</p><p>que, op. cit., pp. 4 4 1 - 4 6 1 ; sobre a organização da Jornada: pp . 4 1 5 - 4 2 1 ; sobre a</p><p>organização do ano agrár io: pp. 361-409) . Obr igado a só falar aqui do mínimo estri</p><p>tamente necessário à construção do modelo, gostaria de convidar o leitor que quises</p><p>se dar toda a sua força ao "analisador" etnográfico, a 1er diretamente t e Sens pratique</p><p>ou, pelo menos, o esquema sinóptico reproduzido a o lado.</p><p>^ a esquerda para a ^</p><p>^ M E I O - D , * ^</p><p>Lqj °J</p><p>á " oO^ANTE S , G ^</p><p>**0r y°o</p><p>• % $ -^ togo, sol, ouro</p><p>águia, luz, céu</p><p>henné', n i f " , vermelho</p><p>kanun, assado, temperado, maduro, massa folhada, seksu, trigo, sal</p><p>laca, luzil, saco/saque, foice, pente de cardar, aliados</p><p>velhice</p><p>SECO</p><p>SOBRE (EM CIMA) (viga mestra)</p><p>FORA (campos, assembléia, mercado)</p><p>ABERTO</p><p>VAZIO</p><p>colheita (homicídio)</p><p>corte da tecelagem</p><p>idade madura</p><p>t\ lâmpada, lavoura</p><p>g fava, ovo, serpente</p><p>inicio de tecelagem</p><p>boi, azeite</p><p>casamento</p><p>verde, cru</p><p>vaca, erva, leite, manteiga</p><p>CHEIO (encher) ^ \ trigo em grão</p><p>FECHADO (difícil, clausura)</p><p>DENTRO (casa, jardim, fonte, bosque)</p><p>SOB (EMBAIXO) (deitado, pilastra central)</p><p>•5 z</p><p>interdições da noite</p><p>gestação</p><p>ÚMIDO</p><p>ventre, romã, perdiz, galinha</p><p>thamgharth, prima paralela, segredo, preto</p><p>) marmita, cozido, cevada, doce, insosso</p><p>A, sangue, h'urma</p><p>^f), estábulo, sono (morte), terra ^</p><p>/ í fc>, túmulo, obscuridade, lua rí$^</p><p>. ATIVADA SAGrVD0 ^</p><p>% * * * NOITE *</p><p>9 ° 4 ícfa direita pata a «® ̂</p><p>t&</p><p>no momento em que, com o contrato de união</p><p>social, sobretudo, ele exige que a lei comum seja aplicada aos gays</p><p>e às lésbicas (que são duplamente dominadas, mesmo dentro de</p><p>um movimento que comporta 90% de gays e 10% de lésbicas e é</p><p>ainda marcado por uma forte tradição masculinista).</p><p>Como, então, se contrapor ao universalismo hipócrita sem uni</p><p>versalizar um particularisme? Como, em termos mais realistas, isto</p><p>é, mais diretamente políticos, evitar que as conquistas do movi</p><p>mento não terminem em uma forma de guetização? Pelo fato de</p><p>estar baseado em uma particularidade de comportamento, que não</p><p>acarreta necessariamente handicaps econômicos e sociais, o movi</p><p>mento gay e lésbico reúne indivíduos que, embora estigmatizados,</p><p>são relativamente privilegiados, sobretudo do ponto de vista do</p><p>capital cultural, que constitui um trunfo considerável nas lutas sim</p><p>bólicas. Ora, o objetivo de todo movimento de subversão simbólica</p><p>é operar um trabalho de destruição e de construção simbólicas vi</p><p>sando a impor novas categorias de percepção e de avaliação, de</p><p>modo a construir um grupo, ou, mais radicalmente, a destruir o</p><p>princípio mesmo de divisão segundo o qual são produzidos não só</p><p>o grupo estigmatizante, como também o grupo estigmatizado. Este</p><p>trabalho, os homossexuais estão particularmente armados para</p><p>realizar: eles podem pôr a serviço do universalismo, sobretudo nas</p><p>lutas subversivas, as vantagens ligadas ao particularismo.</p><p>Dito isso, uma última dificuldade: o movimento, tendo esta</p><p>particularidade, tal como o movimento feminista, de reunir agen-</p><p>A N E X O</p><p>149</p><p>tes dotados de um forte capital cultural, está fadado a encontrar,</p><p>sob uma forma particularmente contundente, o problema da</p><p>delegação a um porta-voz, capaz de formar o grupo, encarnando-o</p><p>e expressando-o; no entanto, como em certos movimentos de</p><p>extrema esquerda, ele tende a se atomizar em seitas engajadas em</p><p>lutas pelo monopólio da expressão pública do grupo. Embora se</p><p>possa indagar se a única maneira, para este movimento, de fugir</p><p>de uma guetização e de um sectarismo que se reforçam mutua</p><p>mente não seria pôr suas capacidade específicas, que ele deve à</p><p>combinação relativamente inusitada, de uma forte disposição</p><p>subversiva, ligada a um estatuto estigmatizado, e de um forte capi</p><p>tal cultural, a serviço do movimento social como um todo; ou</p><p>mesmo se, para sacrificar um instante ao utopismo, colocar-se na</p><p>vanguarda, pelo menos no plano do trabalho teórico e da ação</p><p>simbólica (em que certos grupos homossexuais são mestres decla</p><p>rados) dos movimentos políticos e científicos subversivos, pondo,</p><p>assim, a serviço do universal, as vantagens particulares que distin</p><p>guem os homossexuais dos outros grupos estigmatizados.</p><p>T</p><p>índice</p><p>ÍNDICE DAS NOÇÕES*</p><p>Adesão, 47, 89, 129.</p><p>Agorafobia, 52.</p><p>Alienação, 132;</p><p>— simbólica, 82, 83.</p><p>Amor, 49, 66, 82, 83, 83n, 85n, 129-</p><p>133.</p><p>Amor fati, 49, 63, 129.</p><p>Anamnese, 69, 70, 85.</p><p>Androcêntrico:</p><p>— cosmologia —, 13; inconscien</p><p>te —, 13, 69, 71, 124; mitologia</p><p>—, 130, 144; princípio —, 9.</p><p>Capital:</p><p>— cultural, 127, 149; — econômi</p><p>co, 120; — simbólico (v. simbóli</p><p>co).—social, 58, 60, 61, 116;</p><p>Categoria(s), 13, 15, 16, 46, 57, 84, 98,</p><p>107,113, 114,121, 143,144,145,</p><p>148.</p><p>Cintura, 24, 25.</p><p>Circuncisão, 35, 36.</p><p>Classificatório (esquema), 13, 16, 20,</p><p>49,79,99, 114.</p><p>Conhecimento, 7, 22, 45, 46, 49, 50,</p><p>79, 137.</p><p>Contínuo/descontínuo, 59.</p><p>Cooptação, 114.</p><p>Corpo, 8, 15, 18, 24, 25, 26, 32, 33, 34,</p><p>50,51,63,70,71,79,80,81,82,</p><p>83,84,87,88,89,99, 114, 122,</p><p>131, 144.</p><p>Des-historicização, 100, 101,122.</p><p>Desinteresse, 130.</p><p>Desejo (v. libido) 97,123.</p><p>Diferenciação, 35, 78,102,123;</p><p>princípio de —-, 29, 30.</p><p>Disciplina, 38.</p><p>Disposição (v. habitus) 17, 44, 49, 50,</p><p>51,52, 55, 60, 63, 57n, 70, 71,72,</p><p>77,82,101,102, 118,136,147,148</p><p>Divisão (entre os sexos); 9, 10, 16, 17,</p><p>18, 112, 144; — princípios de —,</p><p>18,28,33,60,61,99, 113, 144; —</p><p>sexual do trabalho, 10n, 18, 24, 31,</p><p>59, 76n, 101, 102, 107, 114, 123,</p><p>126, 148.</p><p>Dominação (relação de), 10,17, 19,</p><p>29, 31, 33, 41,42,43,46,47, 54, 55,</p><p>78,85,98,99,122,123,126,127,</p><p>129, 130.</p><p>Doação, 44, 130.</p><p>Double bind, 84.</p><p>Direita/esquerda: 15, 38, 41; mão —</p><p>do Estado, 106, 139.</p><p>Dáxa: 45, 46, 108, 148;</p><p>— paradoxo da —, 7, 8.</p><p>Emoção, 51, 114</p><p>Enchimento, 21, 22, 59.</p><p>Erotismo, 57, 85, 119.</p><p>Escola, 11,99, 100, 101,102, 103,107,</p><p>108, 120, 138, 139.</p><p>Espelho, 37, 83.</p><p>* Indice elaborado por Franck Poupeau.</p><p>154 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>Estética, 38, 119, 121.</p><p>Estado, 11, 101, 102,106,111,138,</p><p>139.146.</p><p>Estigma, 8, 26,143, 145,146,147,</p><p>148.</p><p>Estruturas:</p><p>— cognitivas, 13, 17, 52, 100, 124,</p><p>137, 139, 145; — objetivas, 13, 17,</p><p>52, 71, 79, 81, 100, 125, 126, 136,</p><p>137, 138,145.</p><p>Ética, 20, 34, 38, 124.</p><p>Face, 26.</p><p>Falo,20n, 21,22,23, 26, 27, 32.</p><p>Família, 72, 73,101,102, 103, 107,</p><p>115,116,117,122,124.</p><p>Feminina (condição), 10, 38, 107,</p><p>108, 126, 127, 135, 138.</p><p>Feminista (movimento), 10, 11, 36,</p><p>53, 99, 106, 121, 138, 148.</p><p>Gay (movimento), 143-149.</p><p>Gênero(s), 9, 18n, 20, 32, 33,41,101,</p><p>102, 106, 107, 122, 138.</p><p>Guerra, 41, 60,90, 91,130.</p><p>Habitus (v. disposição), 9, 34,41, 45,</p><p>51, 55, 60, 61, 64, 65n, 70, 79, 97,</p><p>107,114.</p><p>Hexis corporal, 41, 80, 111.</p><p>Hierarquia, 71, 73,101,103,104,106,</p><p>147.</p><p>Homossexualidade, 26, 31, 32,43,</p><p>102n, 143, 144, 145.</p><p>Honra, 20, 29, 38, 40, 41, 58, 62,65,</p><p>132.</p><p>— ponto de—, 33, 37, 56, 60, 61,</p><p>64, 116.</p><p>Igreja, 101,102, 103,104,117, 138.</p><p>Illusio, 61, 92, 93, 94,95,97.</p><p>Inconsciente, 15, 69, 70, 75, 85, 103,</p><p>123, 124; —sexual, 123, 125,138.</p><p>Incorporação, 44,47, 62, 70, 81, 83,</p><p>139.147.</p><p>Infância/infantil, 85, 88, 93, 94.</p><p>Intelectualismo, 17.</p><p>Intuição feminina (cf. perspicácia), 42.</p><p>Invariáveis, 1U, 102.</p><p>Investimento (cf. illusio), 61, 65,117,</p><p>129.</p><p>Lésbico (movimento), 143-149.</p><p>Libido, 31, 71, 73, 98; — acadêmica,</p><p>91; — dominandi, 31, 71, 92, 98;</p><p>— sciendi, 71.</p><p>Magia, 9,43, 50,65, 122,123.</p><p>Matrimonial (mercado), 56, 57.</p><p>Medo, 66; — do feminino, 67.</p><p>Naturalização, 10, 17, 32,123.</p><p>Natureza/natural, 8,10, 22, 29, 33,42,</p><p>64, 69, 80, 99, 123, 136.</p><p>Nobreza (cf. honra, questão de hon</p><p>ra), 63, 75, 76.</p><p>Nominação, 33, 63, 132.</p><p>Nomos, 22, 29.</p><p>Oposições: — sistemas de, 15, 19, 23,</p><p>27,41,61,70,72,79,80,81,85,</p><p>109, 124, 139.</p><p>Ordem: 17, 130,136; — da sexuali</p><p>dade, 15; — do mundo, 7, 28, 71,</p><p>78, 88; — masculina, 18, 34, 53,</p><p>101; — moral, 105; — simbólica,</p><p>63, 143, 144, 145; —social, 10, 17,</p><p>18,28,29,33,34,41,50,55,60,</p><p>72,99,105,114,139.</p><p>Parentesco, 56, 58, 116.</p><p>Paternal/paternalista, 73, 87, 88, 89,</p><p>105,105n.</p><p>Patriarcado: 103; — público, 105.</p><p>Performativo, 33, 123.</p><p>Perspicácia (cf. intuição), 96.</p><p>Psicanálise, 35, 36, 99, 123.</p><p>Público/privado, 16, 26, 41, 52, 59,</p><p>61,62,63,107,112,143,149.</p><p>Recepcionista, 40n, 119.</p><p>Reconhecimento, 7, 22, 45, 51, 52, 53,</p><p>54, 65, 74, 78, 130, 131, 132, 133,</p><p>144, 146.</p><p>Reprodução, 107, 124, 126, 139; —</p><p>biológica, 33, 45, 57, 116; — modo</p><p>de, 45; — social, 45, 57; — do ca-</p><p>Í N D I C E 155</p><p>pitai simbólico, 55-56, 59, 61,115,</p><p>117; estratégias de—, 62,101,114,</p><p>115, 116; — estruturas de domi</p><p>nação, 46, 101.</p><p>Resistência, 114.</p><p>Revolução, 10,54,145.</p><p>Ritos de instituição, 10, 34, 35, 35n,</p><p>65, 93.</p><p>Sagrado, 25,37,131,147.</p><p>Sentimentos, 51,135.</p><p>Ser-percebido, 79,80,85.</p><p>Sexual (ato), 27,28,29,30,70.</p><p>Sexualidade, 15,29,30,58,107,108,</p><p>115,123,145.</p><p>Simbólico: — capital — 55, 56, 57,</p><p>58,62,63,112,115,117,118n,</p><p>119,120; coeficiente — negativo,</p><p>111; economia de bens —, 9,46,</p><p>56,58,60,62,99,115,121,126,</p><p>130; mercado de bens—, 55,60,</p><p>84,118,121; poder—, 81,132.</p><p>Socioanálise, 9, 9n, 10,11.</p><p>Sociodicéia, 28,33.</p><p>Somatização (cf. incorporação), 37,</p><p>71,88.</p><p>Submissão, 7, 22, 29, 38, 39, 48n, 49,</p><p>50, 52, 53,62, 63, 72, 84,127,136.</p><p>Transgressão, 7,26,29.</p><p>Troca(s), 44, 55, 58, 60, 61, 117, 131;</p><p>economia das — simbólicas, 56,</p><p>57, 57n, 131; — das mulheres, 57,</p><p>60; — de honra, 60.</p><p>Universalismo/universal, 77,78,79,</p><p>81,137n, 139,147,148.</p><p>Vagina, 23,24,25,27.</p><p>Violência simbólica, 7,45,46,47,51,</p><p>53, 54, 74,87,143,144.</p><p>Virilidade, 20, 20n, 29, 32, 35, 37, 61,</p><p>63, 64, 64n, 65, 66, 67, 78, 115,</p><p>129,144.</p><p>Vocação, 73,88.</p><p>INDICE DE INIOMES PRÓPRIOS</p><p>Allison, A., 120.</p><p>Aminé, M., 110.</p><p>Anderson, E., 29.</p><p>Aristóteles, 124.</p><p>Baca-Zinn, M., 30.</p><p>Bastard, B., 49.</p><p>Benjamin, J-, 136.</p><p>Benveniste, É., 87.</p><p>Bergman, B. R., 113</p><p>Bernstein, M., 146.</p><p>Bianco, L., 43.</p><p>Biggs, M. A., 25.</p><p>Bordo, S., 83.</p><p>Boswell.J.,31,32.</p><p>Bozon, M., 48.</p><p>Bullough, V. L., 102</p><p>Butler, J., 122.</p><p>Cardia-Vouèche, L., 49.</p><p>Castan, Y., 62.</p><p>Chauncey, G., 102.</p><p>Chodorow, N. J., 35,79,102.</p><p>Christian, W. A., 103.</p><p>Christin, R., 31.</p><p>Cleveland, C. E., 82.</p><p>Corradi, J. E., 31</p><p>Dardigna, A.-M., 56</p><p>Delsaut, Y., 40.</p><p>Dover, K. J., 31.</p><p>Duby,G.,100,110.</p><p>Duru-Bellat, M., 74.</p><p>Echard, N., 54.</p><p>Ehrenreich, B., 29.</p><p>Eitzen, S., 30.</p><p>Favret-Saada, J., 53,73.</p><p>Feher, M., 24.</p><p>Finstad, L., 120.</p><p>Fischer, C. S., 117,182.</p><p>Fisher, S., 82.</p><p>Foucault, M., 15,123,124.</p><p>Fouquet, A., 111.</p><p>Franco, J., 32.</p><p>Freud, S., 33,70,88.</p><p>Fussel.S.W.,65.</p><p>Gallagherand, C, 24.</p><p>Garcia de Léon, M. A., 111.</p><p>Garreton, M. A., 32.</p><p>Glaude, M., 60.</p><p>Goffman, E., 82,124.</p><p>Goke-Pariola, A., 50.</p><p>Halvorsen, R. S., 147,</p><p>Haug, F., 39,71.</p><p>Henley, N. M., 25,39,40,75,95</p><p>Henslin, J. M., 25.</p><p>Hoffman, L. W., 107,108.</p><p>Hoigard, C, 120.</p><p>Í N D I C E 157</p><p>Journet, O., 54. Ortner, S., 57.</p><p>Kant, E., 97,138.</p><p>Karady, V., 65.</p><p>Kargoat, D., 107.</p><p>Klein, M., 36.</p><p>Klossowski, P., 26.</p><p>Knibiehler,Y.,24.</p><p>Lacan, J., 138.</p><p>Lagrave, R.-M., 110.</p><p>Lakoff, G., 105.</p><p>Laqueur, T., 24, 69.</p><p>Laufer, J., 111.</p><p>Lee Bartky, S., 84, 85</p><p>Leibniz, G. W., 55.</p><p>Lenoir, R., 105.</p><p>Leonardo, M. di, 116.</p><p>Lévi-Strauss, C, 58.</p><p>Lukács, G., 53.</p><p>MacKinnon, C. A., 30, 84, 137.</p><p>Maître, J., 103.</p><p>Malamoud, C., 27.</p><p>Maruani, M., 75,111, 115.</p><p>Marx, K., 53, 85.</p><p>Marx Ferrée, M., 47.</p><p>Mathieu, N.-C, 54.</p><p>Mauss, M., 72.</p><p>Merllié, D., 18, 80.</p><p>Meynaud, H. Y., 110, 111.</p><p>Michard-Marchal, C, 54.</p><p>Morris, J., 77.</p><p>Mosse, G., 105.</p><p>Muel-Dreyfus, F., 103,105.</p><p>Naddaf, R., 24.</p><p>Nicole, C , 75, 115.</p><p>Nye,R.A.,62,115</p><p>O'Brien, M-, 59.</p><p>Parker, R. G., 66.</p><p>Parlée, M. B., 10.</p><p>Peirce, C. S., 55.</p><p>Peristiany, J., 14.</p><p>Perrot,M., 110.</p><p>Perrot, P., 100,105.</p><p>Pheterson, G., 26.</p><p>Pinto, J., 98.</p><p>Pitt-Rivers, J., 14.</p><p>Pouchelle, M.-C, 23.</p><p>Prieur, A., 147.</p><p>Pringle, R., 98.</p><p>Reinisch, J., 32.</p><p>Ribéry, C , 54.</p><p>Rollins, J., 42.</p><p>Rosaldo, M., 57.</p><p>Rubin, G., 57, 58.</p><p>Rubin, L., 30.</p><p>Russell, D., 30.</p><p>Sanders, S., 71.</p><p>Sartre, J.-P., 81,131, 138.</p><p>Sayad, A., 65.</p><p>Schiebinger, L., 24.</p><p>Shelton, B., 102.</p><p>Sherman, J. A., 10.</p><p>Singly, F. de, 74.</p><p>Slavin, S., 102.</p><p>Soulié, C., 109.</p><p>Sumiro Hirata, H., 76.</p><p>Tabet, P., 54.</p><p>Tazi, N., 24.</p><p>Tennyson, A., 86, 91.</p><p>Thompson, W. N., 42.</p><p>Tonhey, J. C, 74.</p><p>Van Gennep, A., 14.</p><p>Van Stolk, A., 43.</p><p>158 P I E R R E B O U R D</p><p>Veyne, P., 31.</p><p>Wacquant, L., 65.</p><p>Weber, M., 72.</p><p>Weininger, O., 97.</p><p>Weiss Fagen, P., 32.</p><p>Weitman, S., 130.</p><p>EU / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>Williams, CL. , 115.</p><p>Woolf, V., 8, 9,13,45, 86,92, 93, 94,</p><p>95, 96, 97, 99,127,129.</p><p>Woolsey-Biggart, N., 121.</p><p>Wouters, C , 43.</p><p>Yacine-Titouh, T., 21,23, 27,28.</p><p>SUMARIO</p><p>A ETERNIZAÇÃO DO ARBITRÁRIO 5</p><p>PREÂMBULO 7</p><p>I UMA IMAGEM AMPLIADA 1 3</p><p>A construção social dos corpos 15</p><p>A incorporação da dominação 32</p><p>A violência simbólica 45</p><p>As mulheres na economia de bens simbólicos 55</p><p>Virilidade e violência 63</p><p>II ANAMNESE DAS CONSTANTES OCULTAS 6 9</p><p>A masculinidade como nobreza 71</p><p>O ser feminino como ser-percebido 79</p><p>A visão feminina da visão masculina 85</p><p>Hl PERMANÊNCIAS E MUDANÇA 99</p><p>O trabalho histórico de des-historicização 100</p><p>Os fatores de mudança 106</p><p>Economia dos bens simbólicos e estratégias de reprodução 115</p><p>A força da estrutura 122</p><p>POST-SCRIPTUM SOBRE A DOMINAÇÃO E O AMOR 129</p><p>CONCLUSÃO 135</p><p>ANEXO: ALGUMAS QUESTÕES SOBRE O MOVIMENTO GAYÍ LÉSBICO 1 4 3</p><p>ÍNDICE DAS NOÇÕES 153</p><p>INDICE DE NOMES PRÓPRIOS 156</p><p>Impresso no Brasil pelo</p><p>Sistema Cameron da Divisão Gráfica da</p><p>DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A.</p><p>Rua Argentina 171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 - Tel.: 2585-2000</p><p>nador e polêmico, inverte uma relação</p><p>causa-efeito afirmando que não é biológico, mas uma</p><p>construção arbitrária do biológico que dá fundamento</p><p>aparentemente natural às divisões sexuais estabelecidas;</p><p>contesta que a dominação simbólica possa ser vencida</p><p>apenas com a alardeada "tomada de consciência"ou com</p><p>a simples visão do imaginário;assinala que na própria</p><p>"história das mulheres" não basta constatar a condição</p><p>das mulheres ou suas mudanças, sem atentar para</p><p>o sempre renovado trabalho de des-historicização, com</p><p>seus mecanismos estruturais e suas estratégias que</p><p>podem levar as próprias mulheres a contribuir para sua</p><p>exclusão; coloca os homens como igualmente vítimas</p><p>de representações que os obrigam a estar à altura de sua</p><p>idéia infantil de homem; pergunta se o amor seria</p><p>uma exceção à lei da dominação ou a forma suprema</p><p>e sutil dessa violência; conclui com uma afirmação</p><p>de importância política: de que esta forma de dominação,</p><p>que se inscreve em toda a ordem social e opera na</p><p>obscuridade dos corpos, muito dela, e nela,permanece,</p><p>apesar dos inegáveis avanços obtidos pelo feminismo</p><p>e das transformações nas condições - que não são uma</p><p>mudança na posição das mulheres. O que comprova que</p><p>esta ordem injusta,violenta e dominadora só pode ser</p><p>transformada por uma ação política que leve em conta</p><p>todos os efeitos da dominação.</p><p>Para concordar, ou mesmo para discordar, o Autor exige</p><p>do leitor(a) uma postura crítica - por si só extremamente</p><p>necessária e saudável nos dias que correm.</p><p>Mario Helena Kühner</p><p>dominação masculina está de tal maneira ancorada em nosso</p><p>inconsciente que não a percebemos mais, de tal maneira afinada com</p><p>nossas expectativas que dificilmente conseguimos repô-la em questão.</p><p>A descrição etnográfica da sociedade cabila, verdadeira depositária do</p><p>inconsciente mediterrâneo, oferece um instrumento realmente valioso</p><p>para dissolver as evidências e explorar as estruturas simbólicas deste</p><p>inconsciente androcêntrico, que sobrevive nos homens e mulheres de hoje.</p><p>Mas a descoberta do que ainda permanece obriga a reverter o modo</p><p>habitual de colocar o problema: como se processa o trabalho histórico</p><p>de des-historicização? Quais os mecanismos e instituições - Família, Igreja,</p><p>Escola ou Estado - , que realizam o trabalho de reprodução? É possível</p><p>neutralizá-los para liberar as forças de transformação que eles estão</p><p>conseguindo entravar?</p><p>Pierre Bourdieu é antropólogo, sociólogo, professor</p><p>no Collège de France, diretor do Departamento de Pesquisas</p><p>da École de Hautes Études en Sciences Sociales.</p><p>BERTRAND BRASIL</p><p>derramou o leitinho sobre a barba"; yec-</p><p>ca yeswa, "ele comeu e bebeu", significa que ele fez amor; e resistir</p><p>à sedução é "não derramar o leite no peito"). A mesma relação</p><p>morfológica se estabelece entre thamellalts, o óvulo, símbolo por</p><p>excelência da fecundidade feminina, e imellalen, os testículos:</p><p>dizem que o pênis é o único macho que choca dois ovos. E as mes</p><p>mas associações podem ser encontradas nas palavras que desig</p><p>nam o esperma, zzel e principalmente laâmara, que, por sua raiz</p><p>— aàmmar, que significa encher, prosperar etc. — evoca a pleni-</p><p>10. Sobre os alimentos que enchem (Inflam) ou que fazem inflar, cf. P. Bourdieu, te</p><p>Sens pratique, op.cil., pp. 412-415, e sobre a função dos atos ou dos objetos mitica-</p><p>mente ambíguos, sobredeterminados ou soltos, pp. 426 e seg.</p><p>11. O termo mais evocador é ombul, em sentido próprio bexiga ou chouriço, mas tam</p><p>bém falo (cf. T. Yacine-Titouh: "Anthropologie de la peur. L'exemple des rapports</p><p>hommes-femmes, Algérie", em T. Yacine-Titouh [éd.], Amour, phantasmes et sociétés en</p><p>Afrique du Nord et au Sahara, Paris, L'Harmattan, 1992, pp. 3-27; e "La féminité ou</p><p>la représentation de la peur dans l'imaginaire social kabyle", em Cahiers de la littéra</p><p>ture orale, 34, INALCO, 1993. pp. 19-43).</p><p>22 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>tude, o que está cheio de vida e que enche de vida, o esquema de</p><p>preenchimento (cheio/vazio, fecundo/estéril, etc.) combinando-se</p><p>regularmente com o esquema do enchimento na criação dos ritos</p><p>de fertilidade.12</p><p>Ao associar a ereção fálica à dinâmica vital do enchimento, que</p><p>é imanente a todo o processo de reprodução natural (germinação,</p><p>gestação etc), a construção social dos órgãos sexuais registra e rati</p><p>fica simbolicamente certas propriedades naturais indiscutíveis: ela</p><p>contribui, assim, juntamente com outros mecanismos, dos quais o</p><p>mais importante é, sem dúvida, como vimos, a inserção de cada</p><p>relação (cheio/vazio, por exemplo) em um sistema de relações</p><p>homólogas e interconectadas, para converter a arbitrariedade do</p><p>nomos social em necessidade da natureza (physis). (Essa lógica da</p><p>consagração simbólica dos processos objetivos, cósmicos e biológi</p><p>cos principalmente, que opera em todo o sistema mítico-ritual —</p><p>como, por exemplo, o fato de tratar a germinação do grão como</p><p>ressurreição, acontecimento homólogo ao do renascimento do avô</p><p>no neto, sancionado ao ser-lhe dado o mesmo nome —, dá um</p><p>fundamento quase objetivo a esse sistema e, com isso, à crença,</p><p>reforçada também por sua unanimidade, de que ele é objeto.)</p><p>Quando os dominados aplicam àquilo que os domina esque</p><p>mas que são produto da dominação ou, em outros termos, quando</p><p>seus pensamentos e suas percepções estão estruturados de confor</p><p>midade com as estruturas mesmas da relação da dominação que</p><p>lhes é imposta, seus atos de conhecimento são, inevitavelmente, atos</p><p>de reconhecimento, de submissão. Porém, por mais exata que seja a</p><p>correspondência entre as realidades, ou os processos do mundo</p><p>natural, e os princípios de visão e de divisão que lhes são aplicados,</p><p>há sempre lugar para uma luta cognitiva a propósito do sentido das</p><p>coisas do mundo e particularmente das realidades sexuais. A inde</p><p>terminação parcial de certos objetos autoriza, de fato, interpreta</p><p>ções antagônicas, oferecendo aos dominados uma possibilidade de</p><p>resistência contra o efeito de imposição simbólica. É por isso que as</p><p>12. Sobre os esquemas de cheio/vazio e seu preenchimento, cf. P. Bourdieu, Le Sens</p><p>pratique, op. cit., pp. 452-453, ou ainda p. 397 (a propósito da serpente).</p><p>U M A I M A G E M A M P L I A D A 23</p><p>mulheres podem se alicerçar nos esquemas de percepção dominan</p><p>tes (alto/baixo, duro/mole, reto/curvo, seco/úmido) que as levam a</p><p>uma representação bastante negativa do próprio sexo,13 para pen</p><p>sar os atributos sexuais masculinos por analogia com as coisas que</p><p>pendem, moles, sem vigor (laâlaleq, asaâlaq, usados também para</p><p>a cebola ou a carne em postas, ou acherbub, sexo mole, sem vigor,</p><p>de velho, por vezes associado a ajerbub, andrajo);14 ou até tirar par</p><p>tido do estado minimizado do sexo masculino para afirmar a supe</p><p>rioridade do sexo feminino — como no ditado: "Você, sua equipa</p><p>gem (laâlaleq) despenca, diz a mulher ao homem, ao passo que eu,</p><p>eu sou uma pedra bem soldada".15</p><p>Assim, a definição social dos órgãos sexuais, longe de ser um</p><p>simples registro de propriedades naturais, diretamente expostas à</p><p>percepção, é produto de uma construção efetuada à custa de uma</p><p>série de escolhas orientadas, ou melhor, através da acentuação de</p><p>certas diferenças, ou do obscurecimento de certas semelhanças. A</p><p>representação da vagina como um falo invertido, que Marie-</p><p>Christine Pouchelle descobriu nos escritos de um cirurgião da</p><p>Idade Média, obedece às mesmas oposições fundamentais entre o</p><p>positivo e o negativo, o direito e o avesso, que se impõem a partir</p><p>do momento em que o princípio masculino é tomado como medi</p><p>da de todas as coisas.16 Sabendo, assim, que o homem e a mulher</p><p>13. As mulheres acham que seu sexo só é bonito quando oculto ("a pedra soldada"),</p><p>guardado (yejmaâ) e colocado sob o proteção do serr, o charme (ó diferença do</p><p>sexo masculino, que não tem serr porque não pode ser escondido). Uma das pala</p><p>vras que o designam, tokhna, é, como o nosso "idiota", empregado como interjeição</p><p>[A takhna\) para expressar a tolice (cara de "tokhna" é o rosto amorfo, achatado,</p><p>sem a modelagem que dá um belo nariz). Outro dos termos berberes que designam</p><p>o vagina, aliás um dos mais pejorativos, significa também viscoso.</p><p>14. Todas essas palavras são, evidentemente, marcadas por tabus, de modo que ter</p><p>mos aparentemente anódinos como duzan, os negócios, laqlul, a louça, lah'wal, os</p><p>ingredientes, ou azaâkuk, o rabo, lhes servem muitas vezes como substitutivos eufemís-</p><p>ticos. Entre os cabilas, como em nossa própria tradição, os órgãos sexuais masculinos</p><p>são, pelo menos nas designações eufemísticas, comparados a instrumentos ("apare</p><p>lho", "máquina" etc), o que talvez se deva relacionar com o fato de que, até hoje, a</p><p>manipulação dos objetos técnicos caibo sistematicamente aos homens.</p><p>15. Cf. T. Yacine-Titouh, "Anthropologie de la peur", toc. cit.</p><p>16. M.-C. Pouchelle, Corps et Chirurgie à l'apogée du Moyen Age, Paris, Flammarion,</p><p>1983.</p><p>24 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U l I N A</p><p>são vistos como duas variantes, superior e inferior, da mesma</p><p>fisiologia, compreendemos por que, até o Renascimento, não se</p><p>dispusesse de terminologia anatômica para descrever em detalhes</p><p>o sexo da mulher, que é representado como composto dos mesmos</p><p>órgãos que o do homem, apenas dispostos de maneira diversa.17</p><p>Por isso, como demonstra Yvonne Knibiehler, os anatomistas de</p><p>princípios do século XIX (sobretudo Virey), ampliando o discur</p><p>so dos moralistas, tentam encontrar no corpo da mulher a justifi</p><p>cativa do estatuto social que lhes é imposto, apelando para oposi</p><p>ções tradicionais entre o interior e o exterior, a sensibilidade e a</p><p>razão, a passividade e a atividade.18 Bastaria seguir a história da</p><p>"descoberta" do clitóris, tal como a relata Thomas Laqueur,19 pro-</p><p>longando-a até a teoria freudiana da ligação da sexualidade femi</p><p>nina do clitóris para a vagina, para acabar de demonstrar que, lon</p><p>ge de desempenhar o papel fundante que lhes é atribuído, as dife</p><p>renças visíveis entre os órgãos sexuais masculino e feminino são</p><p>uma construção social que encontra seu princípio nos princípios</p><p>de divisão da razão androcêntrica, ela própria fundamentada na</p><p>divisão dos estatutos sociais atribuídos ao homem e à mulher.20</p><p>Os esquemas que estruturam a percepção dos órgãos sexuais</p><p>e, mais ainda, da atividade sexual se aplicam também ao próprio</p><p>corpo, masculino ou feminino, que tem seu alto e seu baixo —</p><p>17. Cf. T.W. laqueur, "Orgasm, Génération and lhe Politics of Reproductive Bio-</p><p>logy", em C. Gallagherand, T. W. Laqueur (eds.), The Making of lhe Modem Body:</p><p>Sexuality and Society in the Nineteenlh</p><p>Century, Berkeley, University of Califórnia</p><p>Press, 1987.</p><p>18. Y. Knibiehler,"Les médecins et la 'nature féminine' au temps du Code Civil",</p><p>Annales, 31 (4), 1976, pp.824-845.</p><p>19. T. W. Laqueur, "Amor Veneris, Vel Dulcedo Appeletur", em M. Feher, R. Naddaf</p><p>e N. Tazi (eds.], Zone, Parte III, New York, Zone, 1989.</p><p>20. Entre os inúmeros estudos que mostram a contribuição da história natural e dos</p><p>naturalistas para a naturalização das diferenças sexuais (e raciais: a lógica é a mes</p><p>ma], podemos citar o de Londa Schiebinger [Nature's Body, Boston, Beacon Press,</p><p>1993), que mostra como os naturalistas "atribuíam às fêmeas dos animais o pudor</p><p>[modesly] que esperavam encontrar em suas esposas e filhas" (p. 78); ou como, ao</p><p>final de sua pesquisa sobre o himen, concluíam que "apenas as mulheres foram provi-</p><p>dencialmente agraciados [and blessed wilh] com um himen", "guardião de sua casti</p><p>dade", "vestíbulo de seu santuário" (pp. 93-94), e que a barba, muitas vezes associa</p><p>da à honra masculino, diferencia os homens das mulheres, menos nobres (p. 1 15), e</p><p>de outras "roças".</p><p>U M A I M A G E M A M P L I A D A 25</p><p>sendo a fronteira delimitada pela cintura, signo de clausura (aque</p><p>la que mantém sua cintura fechada, que não a desamarra, é consi</p><p>derada virtuosa, casta) e limite simbólico, pelo menos para a</p><p>mulher, entre o puro e o impuro.</p><p>A cintura é um dos signos de fechamento do corpo feminino,</p><p>braços cruzados sobre o peito, pernas unidas, vestes amarradas,</p><p>que, como inúmeros analistas apontaram, ainda hoje se impõe às</p><p>mulheres nas sociedades euro-americanas atuais.21 Ela simboliza a</p><p>barreira sagrada que protege a vagina, socialmente constituída em</p><p>objeto sagrado, e portanto submetido, como o demonstra a análi</p><p>se durkheimiana, a regras estritas de esquivança ou de acesso, que</p><p>determinam muito rigorosamente as condições do contato consa</p><p>grado, isto é, os agentes, momentos e atos legítimos ou, pelo con</p><p>trário, profanadores. Tais regras, particularmente visíveis nos ritos</p><p>matrimoniais, podem também ser observadas, até nos Estados</p><p>Unidos de hoje, nas situações em que um médico do sexo masculi</p><p>no tem que praticar o exame vaginal. Como se se tratasse de neu</p><p>tralizar simbólica e praticamente todas as conotações potencial</p><p>mente sexuais do exame ginecológico, o médico se submete a um</p><p>verdadeiro ritual visando a manter a barreira, simbolizada pela</p><p>cintura, entre a pessoa pública e a vagina, jamais vistas simultanea</p><p>mente: em um primeiro momento, ele se dirige a uma pessoa, face</p><p>a face; a seguir, após a pessoa ter-se despido para ser examinada,</p><p>em presença de uma enfermeira, ele a examina, deitada e recober</p><p>ta por um lençol que lhe cobre a parte superior do corpo, obser</p><p>vando a vagina como algo dissociado da pessoa e, por tal, reduzida</p><p>à condição de coisa, em presença da enfermeira, a quem ele faz</p><p>suas observações, falando da paciente em terceira pessoa; enfim,</p><p>em um terceiro momento, ele se dirige novamente à mulher, que já</p><p>se vestiu de novo fora de seus olhares.22 É, evidentemente, porque</p><p>21. Cf. por exemplo N. M. Henley, Body Politics, Power, Sex and Non-verbal Commu</p><p>nication, Englewood Cliffs (N. J.), Prentice Hall, 1977, especialmente pp. 89 e ség.</p><p>22. J. M. Henslin, M. A. Biggs, "The Sociology of the Vaginal Examination", em J. M.</p><p>Henslin (éd.), Down to Eorth Sociology, New York-Oxford, The free Press, pp. 235-</p><p>247.</p><p>26 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>a vagina continua sendo constituída como fetiche e tratada como</p><p>sagrada, segredo e tabu, que o comércio do sexo continua a ser</p><p>estigmatizado, tanto na consciência comum quanto no Direito,</p><p>que literalmente exclui que as mulheres possam escolher dedicar-</p><p>se à prostituição como a um trabalho.23 Ao fazer intervir o dinhei</p><p>ro, certo erotismo masculino associa a busca do gozo ao exercício</p><p>brutal do poder sobre os corpos reduzidos ao estado de objetos e</p><p>ao sacrilégio que consiste em transgredir a lei segundo a qual o cor</p><p>po (como o sangue) não pode ser senão doado, em um ato de ofer</p><p>ta inteiramente gratuito, que supõe a suspensão da violência.24</p><p>O corpo tem sua frente, lugar da diferença sexual, e suas cos</p><p>tas, sexualmente indiferenciadas e potencialmente femininas, ou</p><p>seja, algo passivo, submisso, como nos fazem lembrar, pelo gesto</p><p>ou pela palavra, os insultos mediterrâneos contra a homossexua</p><p>lidade (sobretudo o famoso "bras d'honneur"— "dar uma bana</p><p>na")25; tem suas partes públicas, face, fronte, olhos, bigode, boca,</p><p>órgãos nobres da apresentação, nos quais se condensa a identidade</p><p>social, o ponto de honra, o nif, que obriga a enfrentar ou a olhar</p><p>os outros de frente, e suas partes privadas, escondidas ou vergo</p><p>nhosas, que a honra manda dissimular. É igualmente através da</p><p>divisão sexual dos usos legítimos do corpo que se estabelece o vín</p><p>culo (enunciado pela psicanálise) entre o falo e o lógos: os usos</p><p>públicos e ativos, de parte alta, masculina, do corpo — fazer fren</p><p>te a, enfrentar, frente a frente (qabel), olhar no rosto, nos olhos,</p><p>23. A lei americana proíbe "viver de ganhos imorais", o que significa que só a livre</p><p>doação do sexo é legítimo e que o amor venal é o sacrilégio por excelência, por ser o</p><p>comércio com o que o corpo tem de mais sagrado (cf. G. Pheterson, "The Whore</p><p>Stigma, Female Dishonor and Male Unworthiness", Social Texl, 37, 1993, pp. 39-64).</p><p>24. "O dinheiro é parte integrante do modo representativo da perversão. Como a fan</p><p>tasia perversa é em si ininteligível e incomunicável, o numerário, por seu caráter abstra</p><p>to, constitui seu equivalente universalmente inteligível". (P. Klossowski, Sade et Fourier,</p><p>Paris, Falo Morgano, 1974, pp. 59-60.) "Com esta espécie de desafio, Sade prova</p><p>exatamente que a noção de valor e de preço está inscrita no fundo mesmo da emoção</p><p>voluptuosa e que nada é mais contrário ao gozo que a gratuidade." (P. Klossowski, La</p><p>Révocation de 1'éditde Nantes, Paris, Éditions de Minuit, 1959, p. 102.)</p><p>25. Não há insulto pior que as palavras que designam o homem "possuído", "fodido"</p><p>[maniuk, qawad).</p><p>U M A I M A G E M A M P U A D A 27</p><p>tomar a palavra publicamente — são monopólio dos homens; a</p><p>mulher, que, na Cabííia, mantém-se afastada dos lugares públicos,</p><p>deve de algum modo renunciar a fazer uso público do próprio</p><p>rosto e de sua palavra (ela anda em público com os olhos baixos,</p><p>voltados para os pés, e a única expressão que lhe convém é "eu não</p><p>sei", antítese da palavra viril, que é afirmação decisiva, cortante, ao</p><p>mesmo tempo que refletida e calculada).26</p><p>Embora possa ser visto como a matriz original a partir da qual</p><p>são engendradas todas as formas de união dos dois princípios</p><p>opostos—arado e sulco, céu e terra, fogo e água etc. —, o próprio</p><p>ato sexual é pensado em função do princípio do primado da mas</p><p>culinidade. A oposição entre os sexos se inscreve na série de opo</p><p>sições mítico-rituais: alto/baixo, em cima/embaixo, seco/úmido,</p><p>quente/frio (do homem desejante se diz: "seu kanoun está verme</p><p>lho", "sua panela está pegando fogo", "seu tambor está quente";</p><p>das mulheres se diz que eles têm a capacidade de "apagar o fogo"</p><p>"refrescar", "dar de beber"), ativo/passivo, móvel/imóvel (o ato</p><p>sexual é comparado à mó do moinho, com sua parte superior,</p><p>móvel, e sua parte inferior, imóvel, fixada à terra, ou à relação</p><p>entre a vassoura, que vai e vem, e a casa).27 Resulta daí que a posi</p><p>ção considerada normal é, logicamente, aquela em que o homem</p><p>"fica por cima". Assim como a vagina deve, sem dúvida, seu cará</p><p>ter funesto, maléfico, ao fato de que não só é vista como vazia, mas</p><p>também como o inverso, o negativo do falo, a posição amorosa na</p><p>qual a mulher se põe por sobre o homem é também explicitamen</p><p>te condenada em inúmeras civilizações.28 E a tradição cabila,</p><p>embora seja pouco pródiga em discursos justificativos, apela para</p><p>26. Segundo a lógica habitual, que é a do preconceito desfavorável, a representa</p><p>ção masculino pode condenar as capacidades ou as incapacidades femininas que</p><p>ela exige, ou</p><p>que ela mesma contribui para produzir: observa-se, assim, que "o mer</p><p>cado das mulheres não pára" — elas são faladeiras e, sobretudo, podem ficar sete</p><p>dias e sete noites discutindo sem se decidir; ou que, para demonstrar sua concordân</p><p>cia, as mulheres devem dizer duas vezes sim.</p><p>27. Cf. T. Yacine-Titouh, "Anthropologie de la peur", loc. cit.</p><p>28. Segundo Charles Malamoud, o sânscrito usa para qualificá-la a palavra Viparita,</p><p>"invertido", empregada também para designar o mundo ao contrário, o sentido de</p><p>cima embaixo.</p><p>28 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>uma espécie de mito de origem para legitimar as posições atribuí</p><p>das aos dois sexos na divisão do trabalho sexual e, em decorrência</p><p>da divisão do trabalho de produção e reprodução, em toda a</p><p>ordem social, e, ultrapassando-a, na ordem cósmica.</p><p>"Foi na fonte (tala) que o primeiro homem encontrou a pri</p><p>meira mulher. Ela estava apanhando água quando o homem,</p><p>arrogante, aproximou-se dela e pediu de beber. Mas ela havia che</p><p>gado primeiro e ela também estava com sede. Descontente, o</p><p>homem a empurrou. Ela deu um passo em falso e caiu por terra.</p><p>Então o homem viu as coxas da mulher, que eram diferentes das</p><p>suas. E ficou paralisado de espanto. A mulher, mais astuciosa,</p><p>ensinou-lhe muitas coisas: 'Deita-te, disse ela, e eu te direi para</p><p>que servem teus órgãos'. Ele se estendeu por terra. Ela acariciou</p><p>seu pênis, que se tornou duas vezes maior, e deitou-se sobre ele. O</p><p>homem experimentou um prazer enorme. Ele passou a seguir a</p><p>mulher por toda parte, para voltar a fazer o mesmo, pois ela sabia</p><p>mais coisas que ele, como acender o fogo etc. Um dia, o homem</p><p>disse à mulher: 'Eu quero te mostrar que eu também sei fazer coi</p><p>sas. Estende-te, e eu me deitarei sobre ti'. A mulher se deitou por</p><p>terra, e o homem se pôs sobre ela. E ele sentiu o mesmo prazer. E</p><p>disse então à mulher: 'Na fonte, és tu (quem dominas); na casa,</p><p>sou eu'. No espírito do homem são sempre estes últimos propósi</p><p>tos que contam, e desde então os homens gostam sempre de mon</p><p>tar sobre as mulheres. Foi assim que eles se tornaram os primeiros</p><p>e são eles que devem governar".29</p><p>A intenção da sociodicéia se afirma aqui sem subterfúgios: o</p><p>mito fundador institui, na origem mesma da cultura entendida</p><p>como ordem social dominada pelo princípio masculino, a oposi</p><p>ção constituinte (já infiltrada, de fato, através, por exemplo, da</p><p>oposição entre a fonte e a casa, nos dados que servem para justifi</p><p>cá-la) entre a natureza e a cultura, entre a "sexualidade" da natu</p><p>reza e a "sexualidade" da cultura: ao ato anêmico, realizado na</p><p>29. Cf. T, Yacine-Titouh, "Anth.opologie de la peur", loc. cit</p><p>U M A I M A G E M A M P L I A D A 29</p><p>fonte, lugar feminino por excelência, e à iniciativa da mulher, ini</p><p>ciadora perversa, naturalmente instruída nas coisas do amor,</p><p>opõe-se o ato submetido ao nomos, doméstico e domesticado, exe</p><p>cutado por exigência do homem e conforme a ordem das coisas, a</p><p>hierarquia fundamental da ordem social e da ordem cósmica; e</p><p>realizado na casa, lugar da natureza cultivada, da dominação legí</p><p>tima do princípio masculino sobre o princípio feminino, simboli</p><p>zada na supremacia da viga mestra {asalas alemmas) sobre o pilar</p><p>central vertical {thigejdith), forquilha feminina aberta para o céu.</p><p>Mas, em cima ou embaixo, ativo ou passivo, essas alternativas</p><p>paralelas descrevem o ato sexual como uma relação de dominação.</p><p>De modo geral, possuir sexualmente, como em francês baiser ou em</p><p>inglês to fuck, é dominar no sentido de submeter a seu poder, mas</p><p>significa também enganar, abusar ou, como nós dizemos, "possuir"</p><p>(ao passo que resistir à sedução é não se deixar enganar, não se dei</p><p>xar "possuir"). As manifestações (legítimas ou ilegítimas) da virili</p><p>dade se situam na lógica da proeza, da exploração, do que traz hon</p><p>ra. E, embora a extrema gravidade de qualquer transgressão sexual</p><p>proíba de expressá-la abertamente, o desafio indireto à integridade</p><p>masculina dos outros homens, que encerra toda afirmação viril,</p><p>contém o princípio da visão agonística da sexualidade masculina,</p><p>que se declara em outras regiões da área mediterrânea e além dela.</p><p>Uma sociologia política do alto sexual faria ver que, como</p><p>sempre se dá em uma relação de dominação, as práticas e as repre</p><p>sentações dos dois sexos não são, de maneira alguma, simétricas.</p><p>Não só porque as moças e os rapazes têm, até mesmo nas socieda</p><p>des euro-americanas de hoje, pontos de vista muito diferentes</p><p>sobre a relação amorosa, na maior parte das vezes pensada pelos</p><p>homens com a lógica da conquista (sobretudo nas conversas entre</p><p>amigos, que dão bastante espaço a um contar vantagens a respei</p><p>to das conquistas femininas),30 mas também porque o ato sexual</p><p>30. Cf. B. Ehrenreich, The Hearts of Men, American Dreams and the Flight írom</p><p>Commitment, Doubleday Anchor, Garden City, New York, 1983; E. Anderson,</p><p>Streetwise: Race, Cíass ond Change in an Urbon Cornmuniry, Chicago, Chicago</p><p>University Press, 1990.</p><p>30 P I E R R E B O U E D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>em si é concebido pelos homens como uma forma de dominação,</p><p>de apropriação, de "posse". Daí a distância entre as expectativas</p><p>prováveis dos homens e das mulheres em matéria de sexualidade</p><p>— e os mal-entendidos que deles resultam, ligados a más inter</p><p>pretações de "sinais", às vezes deliberadamente ambíguos ou</p><p>enganadores. À diferença das mulheres, que estão socialmente</p><p>preparadas para viver a sexualidade como uma experiência íntima</p><p>e fortemente carregada de afetividade, que não inclui necessaria</p><p>mente a penetração, mas que pode incluir um amplo leque de ati</p><p>vidades (falar, tocar, acariciar, abraçar etc.31), os rapazes tendem a</p><p>"compartimentar" a sexualidade, concebida como um ato agressi</p><p>vo, e sobretudo físico, de conquista orientada para a penetração e</p><p>o orgasmo.32 Embora neste ponto, como em todos os outros, as</p><p>variações sejam evidentemente consideráveis, segundo a posição</p><p>social,33 a idade — e as experiências anteriores —, pode-se inferir,</p><p>por uma série de entrevistas, que práticas aparentemente simétri</p><p>cas (como a felação e o cunnilingus) tendem a revestir-se de signi</p><p>ficações muito diversas para os homens (que tendem a ver nelas</p><p>atos de domínio, pela submissão ou o gozo obtidos) e para as</p><p>mulheres. O gozo masculino é, por um lado, gozo do gozo femini</p><p>no, do poder de fazer gozar: assim Catharine MacKinnon sem</p><p>dúvida tem razão de ver na "simulação do orgasmo" (faking</p><p>orgasm) uma comprovação exemplar do poder masculino de fazer</p><p>com que a interação entre os sexos se dê de acordo com a visão dos</p><p>homens, que esperam do orgasmo feminino uma prova de sua</p><p>virilidade e do gozo garantido por essa forma suprema da submis</p><p>são.34 Do mesmo modo, o assédio sexual nem sempre tem por fim</p><p>3 1 . M. Baca-Zinn, S. Eitzen, Diversity in American Families, New York, Harper and</p><p>Row, 1990, pp. 249-254; L. Rubin, Intimate Strangers, New York, Basic, 1983.</p><p>32. D. Russell, The Politics oi Rape, New York, Stein and Day, 1975, p. 272; D.</p><p>Russell, Sexual Exploitation, Beverly Hills, Sage, 1984, p. 162.</p><p>33. Embora, por razões da exposição, eu lenha sido levado a falar de mulheres ou de</p><p>homens sem fazer referência a sua posição social, tenho consciência de que seria</p><p>necessário levar em conta, em cada caso, como farei repetidamente na seqüência des</p><p>te livro, as especificações que o princípio de diferenciação social impõe ao principio</p><p>da diferenciação sexual (ou vice-versa).</p><p>34. C. A. MacKinnon, Feminism Unmodified, Discourses on Life and Law, Cambridge</p><p>(Mass.) e Londres, Harvard University Press, 1987, p. 58.</p><p>U M A I M A G E M A M P L I A D A 31</p><p>exclusivamente a posse sexual que ele parece perseguir: o que</p><p>acontece é que ele visa, com a posse, a nada mais que a simples</p><p>afirmação da dominação em estado puro.35</p><p>Se a relação sexual se mostra como uma relação social de</p><p>dominação, é porque ela está construída através do princípio de</p><p>divisão fundamental entre o masculino, ativo,</p><p>e o feminino, passi</p><p>vo, e porque este princípio cria, organiza, expressa e dirige o dese</p><p>jo — o desejo masculino como desejo de posse, como dominação</p><p>erotizada, e o desejo feminino como desejo da dominação mascu</p><p>lina, como subordinação erotizada, ou mesmo, em última instân</p><p>cia, como reconhecimento erotizado da dominação. No caso em</p><p>que, como se dá nas relações homossexuais, a reciprocidade é pos</p><p>sível, os laços entre a sexualidade e o poder se desvelam de manei</p><p>ra particularmente clara, e as posições e os papéis assumidos nas</p><p>relações sexuais, ativos ou passivos principalmente, mostram-se</p><p>indissociáveis das relações entre as condições sociais que determi</p><p>nam, ao mesmo tempo, sua possibilidade e sua significação. A</p><p>penetração, sobretudo quando se exerce sobre um homem, é uma</p><p>das afirmações da libido dominandi, que jamais está de todo</p><p>ausente na libido masculina. Sabe-se que, em inúmeras socieda</p><p>des, a posse homossexual é vista como uma manifestação de</p><p>"potência", um ato de dominação (exercido como tal, em certos</p><p>casos, para afirmar a superioridade "feminizando" o outro) e que</p><p>é a este título que, entre os gregos, ela leva aquele que a sofre à</p><p>desonra e à perda do estatuto de homem íntegro e de cidadão;36</p><p>ao passo que, para um cidadão romano, a homossexualidade</p><p>"passiva" com um escravo é considerada algo "monstruoso".37 Do</p><p>mesmo modo, segundo John Boswell, "penetração e poder esta</p><p>vam entre as inúmeras prerrogativas da elite dirigente masculina;</p><p>ceder à penetração era uma ab-rogação simbólica do poder e da</p><p>35. Cf. R. Christin, "La possession", em P. Bourdieu ef a/., ia Misère du monde, Paris,</p><p>Éditions du Seuil, 1993, pp. 383-391.</p><p>36. Cf., por exemplo, K. J. Dover, Homosexualité grecque, Paris, La Pensée sauvage,</p><p>1982, pp. 130eseg.</p><p>37. P. Veyne, "L'homosexualité à Rome", Communications, 35, 1982, pp. 26-32.</p><p>32 PIERRE B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>autoridade".38 Compreende-se que, sob esse ponto de vista, que</p><p>liga sexualidade a poder, a pior humilhação, para um homem,</p><p>consiste em ser transformado em mulher. E poderíamos lembrar</p><p>aqui os testemunhos de homens a quem torturas foram delibera</p><p>damente infringidas no sentido de feminilizá-los, sobretudo pela</p><p>humilhação sexual, com deboches a respeito de sua virilidade,</p><p>acusações de homossexualidade ou, simplesmente, a necessidade</p><p>de se conduzir com eles como se fossem mulheres, fazendo desco</p><p>brir "o que significa o fato de estar sem cessar consciente de seu</p><p>corpo, de estar sempre exposto à humilhação ou ao ridículo e de</p><p>encontrar um reconforto nas tarefas domésticas ou na conversa</p><p>fiada com os amigos".39</p><p>A INCORPORAÇÃO DA DOMINAÇÃO</p><p>Embora a idéia de que a definição social do corpo, e especial</p><p>mente dos órgãos sexuais, é produto de um trabalho social de</p><p>construção se tenha banalizado de todo por ter sido defendida por</p><p>toda a tradição antropológica, o mecanismo de inversão da rela</p><p>ção entre causas e efeitos, que eu tento aqui demonstrar, e pelo</p><p>qual se efetua a naturalização desta construção social, não foi, a</p><p>meu ver, totalmente descrito. O paradoxo está no fato de que são</p><p>as diferenças visíveis entre o corpo feminino e o corpo masculino</p><p>que, sendo percebidas e construídas segundo os esquemas práti</p><p>cos da visão androcêntrica, tornam-se o penhor mais perfeita</p><p>mente indiscutível de significações e valores que estão de acordo</p><p>com os princípios desta visão: não é o falo (ou a falta de) que é o</p><p>fundamento dessa visão de mundo, e sim é essa visão de mundo</p><p>que, estando organizada segundo a divisão em gêneros relacionais,</p><p>38. J. Boswell, "Sexual and Ethical Catégories in Premodern Europe", em P. Mc-</p><p>Whirter, S. Sanders, J. Reinisch, Homosexuality/Heterosexuality: Concepts of Sexual</p><p>Orientation, New York, Oxford University Press, 1990.</p><p>39. Cf. J. Franco, "Gender, Death and Résistance, Facing the Ethical Vacuum", em J.</p><p>E. Corradi, P. Weiss Fagen, M. A. Garreton, Fear at the Edge, State Terror and</p><p>Résistance in Latin America, Berkeley, University of Califórnia Press, 1992.</p><p>UMA I M A G E M A M P L I A D A 33</p><p>masculino e feminino, pode instituir o falo, constituído em sím</p><p>bolo da virilidade, de ponto de honra (nif) caracteristicamente</p><p>masculino; e instituir a diferença entre os corpos biológicos em</p><p>fundamentos objetivos da diferença entre os sexos, no sentido de</p><p>gêneros construídos como duas essências sociais hierarquizadas.</p><p>Longe de as necessidades da reprodução biológica determinarem</p><p>a organização simbólica da divisão social do trabalho e, progressi</p><p>vamente, de toda a ordem natural e social, é uma construção arbi</p><p>trária do biológico, e particularmente do corpo, masculino e</p><p>feminino, de seus usos e de suas funções, sobretudo na reprodu</p><p>ção biológica, que dá um fundamento aparentemente natural à</p><p>visão androcêntrica da divisão de trabalho sexual e da divisão</p><p>sexual do trabalho e, a partir daí, de todo o cosmos. A força parti</p><p>cular da sociodicéia masculina lhe vem do fato de ela acumular e</p><p>condensar duas operações: ela legitima uma relação de dominação</p><p>inscrevendo-a em uma natureza biológica que é, por sua vez, ela</p><p>própria uma construção social naturalizada.</p><p>O trabalho de construção simbólica não se reduz a uma ope</p><p>ração estritamente performativa de nominação que oriente e</p><p>estruture as representações, a começar pelas representações do cor</p><p>po (o que ainda não é nada); ele se completa e se realiza em uma</p><p>transformação profunda e duradoura dos corpos (e dos cérebros),</p><p>isto é, em um trabalho e por um trabalho de construção prática,</p><p>que impõe uma definição diferencial dos usos legítimos do corpo,</p><p>sobretudo os sexuais, e tende a excluir do universo do pensável e</p><p>do factível tudo que caracteriza pertencer ao outro gênero — e em</p><p>particular todas as virtualidades biologicamente inscritas no "per</p><p>verso polimorfo" que, se dermos crédito a Freud, toda criança é</p><p>— para produzir este artefato social que é um homem viril ou</p><p>uma mulher feminina. O nomos arbitrário que institui as duas</p><p>classes na objetividade não reveste as aparências de uma lei da</p><p>natureza (fala-se comumente de sexualidade ou, hoje em dia mes</p><p>mo, de casamento "contra a natureza") senão ao término de uma</p><p>somatização das relações sociais de dominação: é à custa, e ao final,</p><p>de um extraordinário trabalho coletivo de socialização difusa e</p><p>contínua que as identidades distintivas que a arbitrariedade cultu-</p><p>34 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>ral institui se encarnam em habitus claramente diferenciados</p><p>segundo o princípio de divisão dominante e capazes de perceber o</p><p>mundo segundo este princípio.</p><p>Tendo apenas uma existência relacional, cada um dos dois</p><p>gêneros é produto do trabalho de construção diacrítica, ao mesmo</p><p>tempo teórica e prática, que é necessário à sua produção como cor</p><p>po socialmente diferenciado do gênero oposto (sob todos os pontos</p><p>de vista culturalmente pertinentes), isto é, como habitus viril, e por</p><p>tanto não feminino, ou feminino, e portanto não masculino. A ação</p><p>de formação, de Bildung, no sentido amplo do termo, que opera</p><p>esta construção social do corpo não assume senão muito parcial</p><p>mente a forma de uma ação pedagógica explícita e expressa. Ela é,</p><p>em sua maior parte, o efeito automático, e sem agente, de uma</p><p>ordem física e social inteiramente organizada segundo o princípio</p><p>de divisão androcêntrico (o que explica a enorme força de pressão</p><p>que ela exerce). Inscrita nas coisas, a ordem masculina se inscreve</p><p>também nos corpos através de injunções tácitas, implícitas nas roti</p><p>nas da divisão do trabalho ou dos rituais coletivos ou privados (bas</p><p>ta lembrarmos, por exemplo, as condutas de marginalização</p><p>impostas às mulheres com sua exclusão dos lugares masculinos). As</p><p>regularidades da ordem física e da ordem social impõem e inculcam</p><p>as medidas que excluem as mulheres das tarefas mais nobres (con</p><p>duzir a charrua, por exemplo), assinalando-lhes lugares inferiores</p><p>(a parte baixa da estrada ou do talude), ensinando-lhes</p><p>a postura</p><p>correta do corpo (por exemplo, curvadas, com os braços fechados</p><p>sobre o peito, diante de homens respeitáveis), atribuindo-lhes tare</p><p>fas penosas, baixas e mesquinhas (são elas que carregam o estrume,</p><p>e, na colheita das azeitonas, são elas que as juntam no chão, com as</p><p>crianças, enquanto os homens manejam a vara para fazê-las cair</p><p>das árvores), enfim, em geral tirando partido, no sentido dos pres</p><p>supostos fundamentais, das diferenças biológicas que parecem</p><p>assim estar à base das diferenças sociais.</p><p>Na longa seqüência de mudas chamadas à ordem, os ritos de</p><p>instituição ocupam um lugar à parte, em virtude de seu caráter</p><p>solene e extra-ordinário: eles visam a instaurar, em nome e em</p><p>presença de toda a coletividade para tal mobilizada, uma separa</p><p>ção sacralizante, não só como faz crer a noção de rito de passa-</p><p>U M A I M A G E M A M P L I A D A 35</p><p>gem, entre os que já receberam a marca distintiva e os que ainda</p><p>não a receberam, por serem ainda muito jovens, como também, e</p><p>sobretudo, entre os que são socialmente dignos de recebê-la e as</p><p>que dela estão definitivamente excluídas, isto é, as mulheres.40 Ou,</p><p>como no caso da circuncisão, rito por excelência de instituição da</p><p>masculinidade, entre aqueles cuja virilidade ele consagra ao pre</p><p>pará-los simbolicamente para exercê-la, e aquelas que não estão</p><p>em condições de ter tal iniciação, e que não podem deixar de se</p><p>sentir privadas daquilo que a ocasião e o suporte do ritual de con</p><p>firmação da virilidade representam.</p><p>Assim, o que o discurso mítico professa de maneira, apesar de</p><p>tudo, bastante ingênua, os ritos de instituição realizam da forma</p><p>mais insidiosa, sem dúvida, porém mais eficaz simbolicamente.</p><p>Eles se inscrevem na série de operações de diferenciação visando a</p><p>destacar em cada agente, homem ou mulher, os signos exteriores</p><p>mais imediatamente conformes à definição social de sua distinção</p><p>sexual, ou a estimular as práticas que convêm a seu sexo, proibin</p><p>do ou desencorajando as condutas impróprias, sobretudo na rela</p><p>ção com o outro sexo. É, por exemplo, o caso dos ritos ditos "de</p><p>separação", que têm por função emancipar um menino com rela</p><p>ção à sua mãe e garantir sua progressiva masculinização, incitan-</p><p>do-o e preparando-o para enfrentar o mundo exterior. A pesqui</p><p>sa antropológica descobre, realmente, que o trabalho psicológico</p><p>que, segundo certa tradição psicanalítica,41 os meninos têm que</p><p>4 0 . À contribuição que os ritos de instituição dão à instituição da viri l idade nos cor</p><p>pos masculinos, teríamos que acrescentar todos os jogos infantis, sobretudo aquele»</p><p>que têm conotação sexual mais ou menos evidente (como o que consiste em mijar o</p><p>mais longe possível ou os jogos homossexuais dos pequenos pastores) e que, em sua</p><p>aparente insignificância, estão sobrecarregados de conotações éticas, muitas vezes</p><p>inscritas na linguagem (por exemplo, picheprim, o que tem mijada fraca, significa,</p><p>em bearnês, avaro, pouco generoso). Quanto às razões que me levaram o substituir</p><p>por rito de instituição (expressão que deve ser compreendida ao mesmo tempo no</p><p>sentido daqui lo que está institucionalizado — a instituição do casamento — e do ato</p><p>institutor — a instituição de um herdeiro) a noção de r/to de passagem, que sem dúvi</p><p>da deveu seu imediato sucesso ao fato de que ela não é mais que uma pré-noção do</p><p>senso comum convertida em conceito de feição erudita, ver P. Bourdieu, "Les rites</p><p>d'institution" (em Ce que parler veut dire, Paris, Fayard, 1982 , pp. 121-134) .</p><p>4 1 . Cf. principalmente N . J. Chodorow, The Reproduction of Mothering: Psychoanalysis</p><p>and the Sociology of Gender, Berkeley, University of Califórnia Press, 1978.</p><p>36 P I E R R E B O U R D I E U / A D O M I N A Ç Ã O M A S C U L I N A</p><p>realizar para cortar a quase-simbiose original com a mãe e afirmar</p><p>uma identidade sexual própria é expresso e explicitamente acom</p><p>panhado, ou mesmo organizado, pelo grupo que, em toda uma</p><p>série de ritos de instituição sexuais orientados no sentido da viri-</p><p>lização e, mais amplamente, em todas as práticas diferenciadas e</p><p>diferenciadoras da existência diária (esportes e jogos viris, caça</p><p>etc.) encorajam a ruptura com o mundo materno; ruptura da qual</p><p>as filhas (bem como, para sua infelicidade, os "filhos de viúva")</p><p>estão isentos — o que lhes permite viver em uma espécie de con</p><p>tinuidade com a mãe.42</p><p>A "intenção" objetiva de negar a parte feminina do masculino</p><p>(esta mesma que Melanie Klein pedia à psicanálise para resgatar,</p><p>por uma operação inversa à que realiza o ritual), de abolir os laços</p><p>e os vínculos com a mãe, com a terra, com a umidade, com a noi</p><p>te, com a natureza, manifesta-se, por exemplo, nos ritos que se</p><p>realizam no momento denominado "a separação en ennayer" {ei</p><p>âazla gennayer), como o primeiro corte de cabelos do menino, e</p><p>em todas as cerimônias que marcam a ultrapassagem do limiar do</p><p>mundo masculino e que terão seu coroamento na circuncisão.</p><p>Seria infindável a enumeração dos atos que visam a separar o</p><p>menino de sua mãe — pondo em ação objetos fabricados pelo</p><p>fogo e adequados a simbolizar o corte (e a sexualidade viril): faca,</p><p>punhal, relho etc. Assim, depois do nascimento, a criança é colo</p><p>cada à direita (lado masculino) de sua mãe, que está por sua vez</p><p>deitada do lado direito, e colocam-se entre eles objetos tipicamen</p><p>te masculinos, tais como um pente de cardar lã, uma grande faca,</p><p>um relho, uma das pedras do lar. Daí a importância do primeiro</p><p>corte de cabelos, que está, igualmente, ligado ao fato de que a</p><p>cabeleira, feminina, é um dos elos simbólicos que unem o menino</p><p>ao mundo materno. É ao pai que incumbe dar este corte inaugu-</p><p>42 . Em oposição aos que são chamados por vezes na Cabíl ia de "filhos dos</p><p>homens", cuja educação compete a vários homens, os "filhos de viúva" são vistos</p><p>com suspeição de terem escapado ao trabalho de todos os instantes que é necessário</p><p>para evitar que os meninos se tornem mulheres e de terem sido abandonados à ação</p><p>feminilizante da própria mãe.</p><p>U M A I M A G E M A M P L I A D A 37</p><p>ral, com a navalha, instrumento masculino, no dia da "separação</p><p>en ennayer" e pouco antes da primeira entrada no mercado, isto é,</p><p>em uma idade situada entre os seis e os dez anos. E o trabalho de</p><p>virilização (ou de desfeminização) prossegue por ocasião desta</p><p>introdução no mundo dos homens, do ponto de honra (nif) e das</p><p>lutas simbólicas, que é a primeira entrada no mercado: a criança,</p><p>em trajes novos e com a cabeça enfeitada com um turbante de</p><p>seda, recebe uma espada, um cadeado e um espelho, enquanto sua</p><p>mãe depõe um ovo fresco no capuz de seu capote. Na porta do</p><p>mercado, ele quebra o ovo e abre o cadeado, atos viris de deflora-</p><p>ção, e se olha no espelho, que, tal como o limiar, é um operador de</p><p>inversão. Seu pai o guia no mercado, mundo exclusivamente mas</p><p>culino, apresentando-o aos outros homens. Na volta, eles com</p><p>pram uma cabeça de boi, símbolo fálico — por seus cornos —</p><p>associado ao nif.</p><p>O mesmo trabalho psicossomático que, aplicado aos meni</p><p>nos, visa a virilizá-los, despojando-os de tudo aquilo que poderia</p><p>neles restar de feminino — como no caso do "filho de viúva' —</p><p>assume, no caso das meninas, uma forma mais radical: a mulher</p><p>estando constituída como uma entidade negativa, definida apenas</p><p>por falta, suas virtudes mesmas só podem se afirmar em uma</p><p>dupla negação, como vício negado ou superado, ou como mal</p><p>menor. Todo o trabalho de socialização tende, por conseguinte, a</p><p>impor-lhe limites, todos eles referentes ao corpo, definido para tal</p><p>como sagrado, h'aram, e todos devendo ser inscritos nas disposi</p><p>ções corporais. É assim que a jovem cabila interiorizava os princí</p><p>pios fundamentais da arte de viver feminina, da boa conduta,</p><p>inseparavelmente corporal e moral, aprendendo a vestir e usar as</p><p>diferentes vestimentas que correspondem a seus diferentes esta</p><p>dos sucessivos, menina, virgem núbil, esposa, mãe de família, e,</p><p>adquirindo insensivelmente, tanto por mimetismo inconsciente</p><p>quanto por obediência expressa,</p>