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<p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>619</p><p>A R T I G O O R I G I N A L</p><p>A ANSIEDADE NO ADULTO E SUAS SEQUELAS</p><p>PSICOLÓGICAS INFANTIS: Um diálogo entre terapias</p><p>cognitivas e neurociências</p><p>DOI: 10.22289/2446-922X.V10N1A38</p><p>Laert Bruno de Andrade</p><p>Danilo Andrade de Meneses 1</p><p>Camila Teresa Ponce de Leon Mendonça Tagliaferro</p><p>RESUMO</p><p>Com base nos contínuos desenvolvimentos das Terapias Cognitivas, juntamente com o aporte da</p><p>Neurociência, a presente pesquisa teve por objetivos evidenciar a influência dos impactos</p><p>psicológicos da infância dos participantes no desenvolvimento de predisposições ansiosas em suas</p><p>fases adultas, assim como identificar a existência de possíveis abalos psicológicos em relação aos</p><p>seus cuidadores, ou núcleos familiares, e possíveis experiências negativas vividas nos ambientes</p><p>escolares. Os métodos de investigação foram o corte transversal para obtenção de dados, sendo a</p><p>pesquisa exploratória e descritiva, quantitativa e qualitativa, com amostragem aleatória simples para</p><p>260 participantes com faixas etárias entre 25 e 45 anos. Mediante o desenvolvimento e aplicação</p><p>de um questionário temático acerca de estressores experienciados no período infantil, assim como</p><p>a utilização da Escala de Ansiedade de Hamilton (HAM-A), foi possível verificar que para cada grau</p><p>de ansiedade, isto é, normal, leve, moderado e grave, houve um número crescente de estressores</p><p>infantis. Os participantes, portanto, com graus mais intensos de ansiedade vivenciaram mais</p><p>situações estressoras na infância quando comparados aos participantes com níveis de ansiedade</p><p>menos elevados. Assim, evidenciou-se a importância da preservação de interações humanas</p><p>funcionais nos núcleos familiares e instituições de ensino para o saudável desenvolvimento</p><p>psicoemocional infantil e adulto.</p><p>Palavras-chave: Transtornos de Ansiedade; Maus-Tratos Infantis; Inconsciente Psicológico;</p><p>Psicologia do Desenvolvimento; Terapia Cognitivo-Comportamental; Terapia do Esquema.</p><p>ADULT ANXIETY AND ITS PSYCHOLOGICAL SEQUELS</p><p>FROMCHILDHOOD: A dialog between cognitive therapies and</p><p>neurosciences</p><p>ABSTRACT</p><p>Based on the continuous development of Cognitive Therapies, together with the contribution of</p><p>Neuroscience, the aim of this research was to highlight the influence of the psychological impacts of</p><p>the participants' childhoods on the development of anxious predispositions in their adult phases, as</p><p>1 Endereço eletrônico de contato: danilo.eletrof@gmail.com</p><p>Recebido em 15/04/2024. Aprovado pelo conselho editorial para publicação em 16/05/2024.</p><p>http://crossmark.crossref.org/dialog/?doi=10.22289/2446-922X.V10N1A38&domain=pdf&date_stamp=2024-05-21</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>620</p><p>well as to identify the existence of possible psychological upheavals in relation to their caregivers or</p><p>family nuclei, and possible negative experiences in school environments. The research methods</p><p>were cross-sectional to obtain data, and the research was exploratory and descriptive, quantitative</p><p>and qualitative, with simple random sampling of 260 participants aged between 25 and 45. By</p><p>applying a thematic questionnaire about stressors experienced during childhood, as well as using</p><p>the Hamilton Anxiety Scale (HAM-A), it was possible to verify that for each degree of anxiety, i.e.</p><p>normal, mild, moderate and severe, there was an increasing number of childhood stressors.</p><p>Participants with higher levels of anxiety therefore experienced more stressful situations in childhood</p><p>than those with lower levels of anxiety. This highlights the importance of preserving functional human</p><p>interactions in families and educational institutions for healthy psycho-emotional development in</p><p>children and adults.</p><p>Keywords: Anxiety Disorders; Child Abuse; Unconscious, Psychology; Psychology, Developmental;</p><p>Cognitive Behavioral Therapy; Schema Therapy.</p><p>ANSIEDAD ADULTA Y SUS SECUELAS PSICOLÓGICAS DESDE</p><p>LA INFANCIA: Um diálogo entre terapias cognitivas y</p><p>neurociências</p><p>RESUMEN</p><p>Basándose en el continuo desarrollo de las Terapias Cognitivas, junto con la contribución de las</p><p>Neurociencias, el objetivo de esta investigación fue destacar la influencia de los impactos psicológicos</p><p>de la infancia de los participantes en el desarrollo de predisposiciones ansiosas en su fase adulta, así</p><p>como identificar la existencia de posibles trastornos psicológicos en relación con sus cuidadores o</p><p>núcleos familiares, y posibles experiencias negativas en entornos escolares. Los métodos de</p><p>investigación fueron transversales para la obtención de datos, y la investigación fue exploratoria y</p><p>descriptiva, cuantitativa y cualitativa, con un muestreo aleatorio simple de 260 participantes con edades</p><p>comprendidas entre 25 y 45 años. Mediante la aplicación de un cuestionario temático sobre los factores</p><p>estresantes experimentados durante la infancia, así como mediante el uso de la Escala de Ansiedad</p><p>de Hamilton (HAM-A), fue posible observar que para cada grado de ansiedad, es decir, normal, leve,</p><p>moderado y grave, había un número creciente de factores estresantes de la infancia. Por tanto, los</p><p>participantes con niveles más altos de ansiedad experimentaron más situaciones estresantes en la</p><p>infancia que los que tenían niveles más bajos. Esto demuestra la importancia de preservar las</p><p>interacciones humanas funcionales en las familias y los centros educativos para un desarrollo</p><p>psicoemocional saludable en niños y adultos.</p><p>Palabras clave: Transtornos de Ansiedad; Maltrato a los Niños; Inconsciente en Psicología; Psicología</p><p>del Desarrollo; Terapia Cognitivo-Conductual; Terapia de Esquemas.</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>O sistema límbico, entre suas funções emocionais, possui a operação de fornecer respostas</p><p>em situações nas quais o medo é atuante, logo, respostas de fuga, e em situações nas quais</p><p>existem necessidades de reações sem desvios, portanto, respostas de luta. Também é evidenciado</p><p>pela relação com as capacidades de sentimentos, desejos, motivações e impulsos básicos. Assim</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>621</p><p>sendo, todos os processos emocionais do ser humano possuem relação com o sistema límbico. É</p><p>com esse sistema que o sujeito enfrenta as situações vividas no cotidiano e no decorrer de sua vida.</p><p>Entretanto, o percurso de atravessamento individual por crenças, valores, experiências, geração</p><p>cultural e vivências familiares, por inúmeras vezes, resulta em repetições de padrões internalizados,</p><p>porém, não saudáveis (Dreher, 2020).</p><p>Diante disso, acerca da defesa e da sobrevivência humana, na condição das funções</p><p>emocionais, as inquietações e respostas ansiosas são reações típicas. Contudo, há de se</p><p>considerar, também, a existência de impulsos de ansiedade que podem ser conceituados como</p><p>disfuncionais. Entre as concepções da Terapia Cognitivo-comportamental, Clark e Beck (2010)</p><p>salientam que medo, ansiedade e preocupações em níveis acentuados se ampliam em razão das</p><p>experiências ocorridas por excessos de tensões, demandas e estresses que foram constantes na</p><p>história de vida dos sujeitos. Entretanto, Dalgalarrondo (2019) também destaca que algumas</p><p>condições ansiosas podem ser de bases orgânicas. Enfermidades físicas como doenças crônicas,</p><p>hipertireoidismo, utilização de substâncias medicamentosas como corticoides, medicações para</p><p>hipertensão, antiparkisonianos, além do uso de drogas como álcool, maconha e cocaína podem</p><p>levar a condições temporais de quadros ansiosos.</p><p>Ainda em um contexto vivencial, por efeito de casos com pacientes acometidos por</p><p>problemas psicológicos crônicos e difusos como traumas ou transtornos de personalidade,</p><p>considerados com êxito insuficiente no acompanhamento</p><p>com a Terapia Cognitivo-comportamental</p><p>tradicional, Jeffrey Young, em percepção da necessidade de inovação de uma psicoterapia cognitiva</p><p>mais aprofundada, elaborou a Terapia Cognitiva Focada em Esquemas, dando mais relevância à</p><p>análise das experiências infantis e adolescentes nas disfunções psicológicas. Ainda que opere</p><p>sobre o passado e infância do indivíduo, como na desconstrução de crenças centrais disfuncionais,</p><p>por exemplo, a terapia cognitivo-comportamental possui um foco de atuação mais direcionado para</p><p>problemas e pressupostos conscientes, onde o paciente consegue discernir conscientemente seus</p><p>problemas-alvo (Young et al., 2008).</p><p>Esquemas se conceituam como padrões cognitivos e emocionais autoderrotistas,</p><p>internalizados, que têm início no desenvolvimento do indivíduo desde seus primeiros anos de vida</p><p>e são replicados na continuidade da fase adulta. São resultantes de experiências negativas</p><p>ocorridas, sobretudo, na infância e possuem atributos como: a formação a partir de memórias,</p><p>emoções e sensações, o fato de estar relacionado com o próprio indivíduo e com outros sujeitos, o</p><p>padrão amplo e generalizado e a expressiva disfuncionalidade (Young et al., 2008).</p><p>O entendimento acerca dos efeitos negativos esquemáticos que foram consequências de</p><p>reações emocionais elevadas no período infantil também depende do conhecimento de eventos</p><p>impactantes e estressores dessa mesma fase. Atualmente, a conveniente recepção de uma</p><p>abordagem na área da psicoterapia acaba compreendendo a importância do suporte</p><p>neurobiológico. Logo, o entendimento dos neurocircuitos relacionados à execução emocional dos</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>622</p><p>esquemas iniciais desadaptativos possui uma importância basilar no que tange à formulação de</p><p>tratamentos clínicos que demonstrem um desfecho válido na concepção biológica (Nabinger, 2016).</p><p>Na continuidade da perspectiva neurológica, o hipocampo possui uma predisposição para</p><p>esquecimentos em relação a alguns períodos percorridos nos ciclos infantis. Assim, o indivíduo</p><p>pode ter memórias imprecisas e tênues, ou pode simplesmente não rememorar conscientemente</p><p>situações traumáticas que foram atravessadas. Embora haja a possibilidade de esquecimento</p><p>consciente de eventos estressores, o sistema de memória implícita (considerando os processos de</p><p>funcionamento da amígdala cerebral) mantém o registro acentuado de memórias que envolvem a</p><p>ansiedade e o medo, ocorrendo reações adaptativas de preservação quando há exposição a</p><p>situações ou gatilhos semelhantes aos traumas particulares. Dessa maneira, o sujeito é tomado por</p><p>emoções as quais não consegue conceber explicações conscientes para suas inquietações</p><p>ansiosas (Callegaro, 2011).</p><p>Os processos das estruturas cerebrais que operam no armazenamento e recuperação de</p><p>uma memória traumática, ou seja, de ordem emocional, diferem dos processos e estruturas</p><p>cerebrais que envolvem memórias por cognições conscientes sobre o mesmo fato recordado.</p><p>Enquanto a amígdala mantém a memória emotiva inconsciente, o hipocampo e o neocórtex</p><p>sustentam a memória cognitiva consciente. Todavia, reações emocionais podem surgir sem que</p><p>haja a participação dos conjuntos de funcionamentos superiores cerebrais que envolvam raciocínio</p><p>lógico e consciência (Young et al., 2008).</p><p>Em outras palavras, no referido contexto, os sistemas de aquisição de memórias explícitas</p><p>e implícitas acabam funcionando de modo associado. Os sistemas hipocampal e amigdaliano, por</p><p>operarem de modo paralelo, armazenando formas distintas de informações referentes às vivências,</p><p>quando se defrontam com experiências e estímulos semelhantes aos traumas e ocorrências</p><p>negativas vividas anteriormente, reativam ambas as memórias conservadas. Deste modo, enquanto</p><p>o sistema hipocampal recupera memórias conscientes, o sistema amigdaliano, por recuperar</p><p>memórias referentes ao medo, ocasiona reações relacionadas ao perigo, gerando, portanto,</p><p>respostas como tensão muscular, liberação hormonal, mudança nos batimentos cardíacos e demais</p><p>respostas do corpo e cérebro. Uma vez que os dois sistemas de memória são disparados pelos</p><p>mesmos gatilhos, impressões imediatas de que se trata de uma única memória são recorrentes.</p><p>Contudo, pesquisas realizadas com animais em laboratório e casos raros com seres humanos</p><p>corroboram para o entendimento da existência de memórias de naturezas diferenciadas, porém,</p><p>com funcionamento paralelo (LeDoux, 1996).</p><p>O processo de atividade amigdaliano é fundamental para o sistema neural de funcionamento</p><p>do medo. Com uma estrutura que se assemelha à forma de amêndoa, a amígdala se encontra</p><p>situada no lobo temporal de cada hemisfério cerebral. As informações que implicam em estímulos</p><p>que foram condicionados percorrem as vias sensoriais até o tálamo, que posteriormente as envia</p><p>para a amígdala (núcleo basolateral), bem como para as estruturas circunvizinhas e interligadas</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>623</p><p>dos córtices insular e perirrinal. Essas áreas-alvo que recebem comunicações da amígdala são</p><p>significativas para conceber o estado emocional do sujeito em referência às emoções e reações de</p><p>medo (Callegaro, 2011).</p><p>Os estímulos externos que partem do tálamo chegam à amígdala por intermédio da via</p><p>direta, também chamada de via secundária, e por intermédio da via principal, que passa pelo córtex</p><p>antes de chegar à amígdala. No entanto, a via direta, por ter um percurso mais curto, age de um</p><p>modo a gerar reações mais rápidas do que o percurso gerado pela via principal, que, por passar</p><p>pela área cortical para que possa ter uma avaliação mais cognitiva e consciente, torna-se uma via</p><p>mais longa. Deste modo, a via direta tálamo-amígdala, diferentemente da via que perpassa o</p><p>tálamo, o córtex e a amígdala, permite reações mais aceleradas em decorrência de um estímulo</p><p>considerado perigoso antes que haja uma concepção consciente do mesmo estímulo. Logo, há a</p><p>possibilidade de que o processo da via direta seja uma razão para respostas emocionais não</p><p>compreendidas. As memórias inconscientes referentes ao medo e ao trauma aparentam ser</p><p>duráveis e provavelmente ficam por toda a vida, pois pertencem ao processo de defesa, sendo,</p><p>portanto, um valor de sobrevivência que impede que estímulos perigosos sejam esquecidos. Não</p><p>havendo possibilidade para a eliminação de memórias traumáticas presentes na memória</p><p>amigdaliana, o controle cortical é significativo para que haja um maior domínio sobre as respostas</p><p>da amígdala (LeDoux 1996).</p><p>Apesar de a utilização da expressão “inconsciente” não ter sido tão utilizada por Beck e</p><p>outros autores da Terapia Cognitiva para denominar os esquemas, é possível considerá-los</p><p>inconscientes, porém, são inconscientes cognitivos e não inconscientes dinâmicos, como nas</p><p>formulações da psicanálise. Evitar uma desorganização de conceitos talvez tenha sido a razão</p><p>principal que levou autores clássicos a não utilizarem a palavra inconsciente, ou seja, não gerar</p><p>equívocos em relação à teoria de Freud (Callegaro, 2005).</p><p>De acordo com LeDoux (2003), o cérebro emocional possui conexões neuronais que se</p><p>estendem por todas as demais regiões cerebrais, exercendo atuação sobre todas as etapas dos</p><p>processos cognitivos, das próprias percepções do medo até as consolidações de decisões.</p><p>Entretanto, não são todos os processamentos de cognição que possuem atuação sobre os centros</p><p>emocionais. A partir desse reconhecimento, o autor considerou que as emoções do indivíduo</p><p>possuem influência no que é interpretado conscientemente a partir dos fenômenos captados no</p><p>ambiente (LeDoux, 2003 como citado em Nabinger, 2016).</p><p>Damásio (2000) aponta para a existência de um agrupamento de distribuições neurais,</p><p>situadas em regiões subcorticais do tronco cerebral,</p><p>também no prosencéfalo basal, no hipotálamo</p><p>e na amígdala. Esse agrupamento, em razão de sua posição cerebral, forma as bases potenciais</p><p>do desempenho emocional de modo implícito, indisponível à consciência. Porém, quando</p><p>estimulado, produz emoções percebidas em si mesmas e reações fisiológicas. Ao citar pacientes</p><p>lesionados nas regiões do córtex pré-frontal ventromedial e da amígdala, o autor lembra que nesses</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>624</p><p>casos existe um comprometimento no mecanismo das tomadas de decisões, indicando que o</p><p>sistema inconsciente está fortemente relacionado com o sistema consciente. Isto é, alterações no</p><p>sistema inconsciente ocasionam alterações no sistema consciente.</p><p>À vista disso, diante da argumentação, por parte da Terapia do Esquema, enquanto</p><p>extensão da Terapia Cognitivo-comportamental, sobre a influência de fatores estressores ou</p><p>traumáticos da infância na presença de comportamentos disfuncionais ou psicopatologias na fase</p><p>adulta, bem como das exposições neurológicas acerca das consolidações das memórias</p><p>inconscientes e conscientes, este artigo expõe o seguinte problema: é possível identificar que a</p><p>existência de fatores emocionalmente negativos ocorridos nas vivências infantis podem ser</p><p>influentes na existência da ansiedade acentuada na fase adulta?</p><p>Nos âmbitos das ciências e sociedade, a presente pesquisa justifica-se por colaborar com o</p><p>entendimento da importância de uma análise mais criteriosa das consequências de situações</p><p>ocorridas nos períodos da infância dos sujeitos e nas suas relações com o desenvolvimento futuro</p><p>de ansiedades acentuadas, transtornos de ansiedade e transtornos com componentes ansiosos</p><p>durante a fase adulta. Em outras palavras, busca intensificar o entendimento de que a qualidade da</p><p>relação entre cuidadores, ambientes vividos e indivíduo criança pode interferir na saúde mental em</p><p>períodos posteriores do indivíduo adulto. Uma maior avaliação do estágio infantil não se faz</p><p>importante por tão somente ampliar a visão do terapeuta sobre a construção do sujeito, mas também</p><p>por conscientizar cientificamente cuidadores, instituições ou outros círculos sociais em seus papéis</p><p>influenciadores e educacionais.</p><p>Nesse contexto, partindo de uma perspectiva psicológica cognitiva e neurocientífica, o</p><p>estudo teve como objetivo geral relacionar a existência de impasses psicologicamente estressores,</p><p>vividos durante a infância dos indivíduos, com o desenvolvimento de propensões ansiosas na fase</p><p>adulta. De igual modo, os objetivos específicos foram identificar a presença de abalos psicológicos</p><p>relacionados aos pais, cuidadores ou núcleos familiares; verificar a existência de traumas ou</p><p>eventos estressores no período infantil de pessoas com transtornos, clinicamente diagnosticados,</p><p>relacionados à ansiedade; investigar as vivências negativas ocorridas nas interações sociais do</p><p>ambiente escolar e apontar o perfil sociodemográfico dos participantes da pesquisa.</p><p>2 MATERIAIS E MÉTODOS</p><p>A pesquisa utilizou a técnica do estudo de corte transversal. Conforme Zangirolami-</p><p>Raimundo et al. (2018), o método transversal visa a obtenção de informações seguras para a</p><p>estruturação de conclusões e, também, a partir disso, a motivação de novas hipóteses para</p><p>pesquisas posteriores. Ainda conforme os autores, o estudo transversal é um estudo observacional</p><p>realizado em um único momento, além de favorecer pesquisas que se propõem à investigação por</p><p>implicações qualitativas e quantitativas. Foi utilizado o método exploratório e descritivo. De acordo</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>625</p><p>com Gil (2002), pesquisas exploratórias têm como objetivo obter uma maior proximidade com a</p><p>problemática da averiguação, facilitando a construção de hipóteses e exploração de intuições,</p><p>enquanto pesquisas descritivas buscam descrever particularidades de uma população ou fenômeno</p><p>específico com o auxílio de coletas de dados. Por fim, a pesquisa também contou com o método</p><p>misto, isto é, método qualitativo e quantitativo. Galvão et al. (2017) salientam que a pesquisa</p><p>qualitativa expõe aspectos mais detalhados sobre fenômenos em seus contextos mais complexos,</p><p>mais aprofundados, enquanto a pesquisa quantitativa opera por intermédio de análises de variáveis</p><p>por valores estatísticos.</p><p>O processo de pesquisa ocorreu por meios eletrônicos mediante a disponibilização do link</p><p>do formulário desenvolvido na plataforma Google Forms. A população foi composta por 260</p><p>participantes com idade entre 25 e 45 anos, sendo a faixa etária e a concordância do termo de</p><p>consentimento livre e esclarecido (TCLE), os critérios de inclusão da pesquisa. A mostra foi dada</p><p>por conveniência. Como critérios de exclusão foram estabelecidos o impedimento de participação</p><p>para pessoas que não estivessem dentro das faixas etárias definidas ou a negação do termo de</p><p>consentimento. A técnica de amostragem foi a aleatória simples para a quantidade mencionada de</p><p>participantes colaboradores. Conforme Martins (2018), a amostragem aleatória simples é o tipo de</p><p>amostra que se pode obter de uma população a partir de probabilidades iguais de ser selecionada</p><p>se comparada a outra amostra da mesma dimensão e do mesmo grupo.</p><p>A primeira parte da coleta de dados foi realizada a partir de um questionário</p><p>sociodemográfico para o levantamento de dados como faixa etária, escolaridade e nível</p><p>socioeconômico. A aplicação da Escala de Avaliação de Ansiedade de Hamilton (HAM-A) foi</p><p>utilizada para a obtenção de dados na segunda parte do estudo.</p><p>A Escala de Hamilton (HAM-A) foi desenvolvida em 1959 e trata-se de um instrumento</p><p>clássico extensamente utilizado para a verificação de níveis de ansiedade, dispondo de 14 tópicos,</p><p>sendo 7 direcionados à análise dos sintomas de humor e 7 direcionados à análise de sintomas</p><p>físicos. Possui quatro níveis de sintomas para cada tópico: nenhum = 0, leve = 1, médio = 2, forte =</p><p>3 e máximo = 4. O resultado final tem por base o cálculo da somatória dos valores dos 14 tópicos,</p><p>isto é, de 0 a 56. A pontuação</p><p>de um ou vários</p><p>assuntos que possuam significados codificados por frases (unidades de codificação).</p><p>Este projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética (CAAE: 73768023.4.0000.5184).</p><p>Foi desenvolvido de modo que foram observados os aspectos éticos pertinentes às pesquisas</p><p>envolvendo seres humanos em conformidade a Resolução nº 510 de abril de 2016 de 12 de</p><p>dezembro de 2012 e a Resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 016 de 20 de dezembro de</p><p>2000. O termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi disponibilizado aos participantes,</p><p>de forma remota pelo Google Forms. No que diz respeito às informações coletadas, sua utilização</p><p>teve como fins a realização deste projeto de pesquisa, de artigo ou publicações que dela resultem,</p><p>observando-se o necessário sigilo das informações quanto à identificação dos participantes.</p><p>Em resumo, a metodologia teve abordagem tanto quantitativa quanto qualitativa. Não</p><p>formam utilizados testes estatísticos. A avaliação quantitativa foi apenas comparação das</p><p>frequências médias das varáveis entre os questionários de Hamilton e o questionário sobre</p><p>vivências traumáticas, criado pelos autores. Por sua vez, a qualitativa, a análise de conteúdo de</p><p>Bardin.</p><p>3 RESULTADOS E DISCUSSÃO</p><p>Conforme é possível observar na Tabela 1, a partir da obtenção das informações</p><p>sociodemográficas dos participantes da pesquisa, constatou-se que os grupos com quantidades</p><p>mais expressivas foram compostos por indivíduos com faixas etárias entre 36 e 40 anos, casados,</p><p>com escolaridade em nível superior completo, de cor parda e com até 3 salários mínimos de renda</p><p>mensal.</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>627</p><p>Tabela 1</p><p>Dados sociodemográficos</p><p>Participantes (N=260)</p><p>Variáveis Frequência %</p><p>Faixa etária Entre 25 e 30 anos 72 27,7</p><p>Entre 31 e 35 anos 58 22,3</p><p>Entre 36 e 40 anos 78 30,0</p><p>Entre 41 e 45 anos 52 20,0</p><p>Estado Civil Casado 137 52,7</p><p>Solteiro 100 38,5</p><p>Divorciado 21 8,1</p><p>Viúvo 2 0,8</p><p>Escolaridade Fundamental Incompleto 1 0,4</p><p>Fundamental Completo 7 2,7</p><p>Médio Incompleto 9 3,5</p><p>Médio Completo 75 28,8</p><p>Superior Incompleto 52 20,0</p><p>Superior Completo 116 44,6</p><p>Cor Amarelo 6 2,3</p><p>Branco 110 42,3</p><p>Indígena 4 1,5</p><p>Pardo 111 42,7</p><p>Preto 29 11,2</p><p>Renda Familiar Até 3 salários mínimos 181 69,6</p><p>De 4 a 6 salários mínimos 52 20,0</p><p>De 7 a 8 salários mínimos 12 4,6</p><p>Mais de 9 salários mínimos 15 5,8</p><p>No que concerne às características clínicas da amostra dos participantes, conforme</p><p>expostas na Figura 1, os graus de ansiedade presentes nos 260 participantes (quadro A) obtidos</p><p>pela escala de Hamilton (HAM-A) apresentaram a maioria dos participantes com níveis normais</p><p>sendo acompanhada, em ordem decrescente, pelos grupos com ansiedade leve, ansiedade grave</p><p>e ansiedade moderada. Acerca das 76 pessoas que possuem transtornos diagnosticados de</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>628</p><p>ansiedade ou com componentes ansiosos (quadro B), o maior corpo foi de pessoas com Transtorno</p><p>de Ansiedade Generalizada, sendo acompanhado em ordem decrescente, pelos grupos com</p><p>transtornos não especificados (Outros), Transtorno do Estresse Pós-traumático, Transtorno de</p><p>Pânico, Transtorno de Ansiedade social e TOC (em igual número) e Fobia Específica.</p><p>Figura 1</p><p>Caracterização clínica da amostra</p><p>.</p><p>De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), os</p><p>diferentes transtornos de ansiedade possuem características específicas que variam em</p><p>consequência do objeto ou situações que provoquem a ansiedade, o medo, o comportamento</p><p>esquivante ou cognições relacionadas (pensamentos e crenças). Em geral, indivíduos que possuem</p><p>algum transtorno de ansiedade exageram na concepção de perigo em vista do objeto ou situações</p><p>temidas, assim, cabe ao clínico encarregar-se da análise acerca da existência de uma</p><p>desproporcionalidade ansiosa, considerando, além disso, o contexto cultural. Inúmeros transtornos</p><p>ansiosos podem ter início na infância e persistirem em caso de não tratamento. O DSM-5 também</p><p>ressalta que para a cogitação de transtornos ansiosos isolados, os sintomas não devem ser</p><p>causados em razão da utilização de substâncias ou medicações específicas (American Psychiatric</p><p>Association, 2014).</p><p>O Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) é caracterizado pela permanência de</p><p>sintomas de ansiedade em demasia que perpassam vários dias e meses. A presença de</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>629</p><p>preocupação, irritação, nervosismo permanente, angústia e tensão são sintomas relacionados. Os</p><p>indivíduos acometidos com esse transtorno frequentemente apresentam sinais e sintomas que</p><p>incluem dificuldade para relaxar, dificuldade de concentração, irritabilidade alterada, insônia e</p><p>angústia permanente. Entre os sintomas fisiológicos frequentes podem ocorrer taquicardias, dores</p><p>de cabeça, tonturas, sudoreses frias, dores musculares, formigamentos e dores estomacais</p><p>(Dalgalarrondo, 2019).</p><p>Os dados apresentados na Tabela 2 correspondem à comparação das médias das</p><p>frequências entre os níveis de ansiedade e o questionário criado pelos autores referente aos 12</p><p>possíveis eventos estressores que podem ter sido experienciados durante a infância dos</p><p>participantes. Assim, observou-se que houve diferenças nos participantes com ansiedade grave em</p><p>relação ao estressor Excesso de autoritarismo, onde nota-se que entre os 34 participantes desse</p><p>grupo, o maior número alegou ter atravessado pelo impasse. O estressor Ausência de autonomia,</p><p>quando observado, também, entre o grupo com ansiedade grave, de igual modo, apresentou a</p><p>maioria tendo passado pela adversidade. Ainda em relação ao grupo da ansiedade grave, o</p><p>estressor Desprezo emocional também classificou uma maior parte tendo passado pelo infortúnio.</p><p>Porém, é de suma importância destacar que, na sua generalidade, quando comparadas</p><p>todas as médias percentuais da quantidade de participantes que marcaram positivamente acerca</p><p>de todos os estressores familiares, de acordo com os quatro grupos categorizados por níveis de</p><p>ansiedade, as discrepâncias percebidas foram significativamente crescentes.</p><p>Sobre a relevância do histórico infantil, John Bowlby e Mary Ainsworth formularam a Teoria</p><p>do Apego e tal perspectiva contribuiu como um dos aportes para a formulação da Terapia do</p><p>Esquema, no âmbito das Terapias Cognitivas. Com influências da Etologia e da Psicanálise, Bowlby</p><p>concebeu a Teoria do Apego considerando os seres humanos e outros animais como dotados de</p><p>um instinto natural de relação que possui o intuito de formar um elo estável com a mãe ou com outro</p><p>ser que tenha o papel de cuidador (Young et al., 2008).</p><p>O apego, na teoria de Bowlby e Ainsworth, assume uma função na qual o senso de</p><p>segurança do indivíduo começa a ser formado a partir das relações com figuras de apego primárias.</p><p>Em outros termos, vínculos iniciais entre cuidadores e filhos. A qualidade e os modos de relações</p><p>que se formam a partir dos referidos vínculos acabam por fornecer internalizações psicológicas que</p><p>influenciam o sujeito nas suas relações posteriores em relação ao mundo. O apego, portanto, possui</p><p>uma importância fundamental para a sobrevivência, dado que sua presença objetiva a garantia de</p><p>segurança, conforto e bases seguras (Ramires & Schneider, 2010).</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>630</p><p>Tabela 2</p><p>Estressores no contexto familiar</p><p>Variáveis</p><p>Participantes (N=260)</p><p>NÍVEIS DE ANSIEDADE/ADULTO (25 – 45 anos)</p><p>Normal Leve Moderada Grave</p><p>Freq. % Freq. % Freq. % Freq. %</p><p>Excesso de autoritarismo</p><p>Não 110 71,43 29 61,70 12</p><p>48 12 35,29</p><p>Sim 44 28,57 18 38,30 13 52 22 64,71</p><p>Excesso de humilhações</p><p>Não 139 90,26 38 80,85 14 56 21 61,76</p><p>Sim 15 9,74 9 19,15 11 44 13 38,24</p><p>Excesso de comparações</p><p>Não 118 76,62 28 59,57 14 56 19 55,88</p><p>Sim 36 23,38 19 40,43 11 44 15 44,12</p><p>Excesso de zombarias</p><p>Não 129 83,77 34 72,34 18 72 21 61,76</p><p>Sim 25 16,23 13 27,66 7 28 13 38,24</p><p>Castigos com violência</p><p>física</p><p>Não 110 71,43 31 65,96 12 48 17 50</p><p>Sim 44 28,57 16 34,04 13 52 17 50</p><p>Castigos sem violência</p><p>física</p><p>Não 123 79,87 32 68,09 21 84 26 76,47</p><p>Sim 31 20,13 15 31,91 4 16 8 23,53</p><p>Ausência de autonomia</p><p>Não 115 74,68 33 70,21 12 48 15 44,12</p><p>Sim 39 25,32 14 29,79 13 52 19 55,88</p><p>Ausência de liberdade</p><p>Não 130 84,42 38 80,85 17 68 17 50</p><p>Sim 24 15,58 9 19,15 8 32 17 50</p><p>Excesso de controle</p><p>Não 122 79,22 30 63,83 16 64 17 50</p><p>Sim 32 20,78 17 36,17 9 36 17 50</p><p>Excesso de exigências</p><p>Não 135 87,66 38 80,85 22 88 18 52,94</p><p>Sim 19 12,34 9 19,15 3 12 16 47,06</p><p>Desprezo emocional</p><p>Não 126 81,82 37 78,72 15 60 15 44,12</p><p>Sim 28 18,18 10 21,28 10 40 19 55,88</p><p>Conflitos familiares</p><p>Não 105 68,18 28 59,57 14 56 15 44,12</p><p>Sim 49 31,82 19 40,43 11 44 19 55,88</p><p>Médias 32,16 20.88 14 29,78 9,41 37,66 16,25 47,79</p><p>Nota: Freq. = Frequência</p><p>Diante das observações da Terapia do Esquema, onde os esquemas são padrões de</p><p>pensamentos e comportamentos resultantes de vivências negativas da infância que são</p><p>reproduzidos na fase adulta, os comportamentos ativados pelos sujeitos em decorrência da ativação</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>631</p><p>de seus esquemas foram denominados estilos de enfrentamento. Contudo, os estilos de</p><p>enfrentamento configuram uma forma desadaptativa de reação, pois o indivíduo manifesta um tipo</p><p>de comportamento específico de sua fase infantil em decorrência da existência de situações</p><p>desconfortantes, conflituosas ou traumatizantes que se assemelham às situações vividas nos seus</p><p>primeiros anos. Não obstante, tal comportamento que pode ter sido funcional nos primeiros anos</p><p>de vida não assegura funcionalidade na vida adulta, embora seja, muitas vezes, perpetuado pelos</p><p>pacientes. Isto é, os estilos de enfrentamento são compatíveis com a realidade e contexto infantis,</p><p>pois se configuravam como formas de defesa disponíveis para o que estava ocorrendo naquele</p><p>período, mas vão se tornando incompatíveis com a realidade no decorrer do crescimento do sujeito,</p><p>uma vez que a fase adulta possibilita condições mais adequadas e menos desconfortáveis de</p><p>reações (Young et al., 2008).</p><p>Dessa forma, as reações emocionais, por serem mais imediatas, em razão de uma função</p><p>evolutiva de proteção, não dispõem da mesma eficácia cognitiva existente em atividades mais</p><p>corriqueiras. Os indivíduos que internalizaram memórias associadas com situações dolorosas em</p><p>suas infâncias parecem ter mais predisposições a serem mais reativos e sensíveis emocionalmente,</p><p>embora muitas vezes não possuam uma cognição consciente que justifique racionalmente o grau</p><p>de suas respostas emotivas. O núcleo familiar, por conseguinte, possui um intenso encargo na</p><p>formação do sujeito, tanto em referência de formação de cidadania, quanto em referência de</p><p>construção psicoemocional. O excesso de convivências afetivas desestruturadas no</p><p>desenvolvimento da criança pode gerar crenças centrais disfuncionais ou até mesmo esquemas</p><p>iniciais desadaptativos (Bücker et al., 2012; Fondren et al., 2020; Majer et al.,2010).</p><p>Os dados expostos na Tabela 3 correspondem à análise da associação entre os níveis de</p><p>ansiedade e 5 possíveis eventos estressores que podem ter sido experienciados durante a infância</p><p>dos participantes em seus contextos escolares, compreendendo estressores que podem ter</p><p>ocorrido nas relações interpessoais com colegas, professores ou outros indivíduos nos ambientes</p><p>educacionais. Desse modo, foi possível observar alguns pontos relevantes no estudo.</p><p>Quando observadas as médias dos participantes que sofreram com o estressor bullying por</p><p>parte de colegas, percebeu-se que o maior número percentual foi do grupo com ansiedade</p><p>moderada. Os grupos com ansiedade leve e grave obtiveram médias semelhantes, enquanto o</p><p>grupo com ansiedade leve atingiu a menor média.</p><p>Porém, acerca dos participantes que declararam o atravessamento pelo receio de ir à escola</p><p>devido ao bullying, resultados mais ordenadamente crescentes foram observados. Os indivíduos</p><p>com ansiedade normal obtiveram a menor média. Participantes com ansiedade leve e moderada</p><p>expuseram valores intermediários, sendo o nível leve inferior ao nível moderado. O grupo com</p><p>ansiedade grave apresentou o nível mais relevante de vivências no estressor.</p><p>De modo similar, o estressor isolamento social no ambiente escolar também trouxe</p><p>resultados crescentes para cada nível de ansiedade. Os participantes com ansiedade normal</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>632</p><p>apresentaram a menor média, enquanto os indivíduos com ansiedade leve e moderada sinalizaram</p><p>valores intermediários, sendo o nível leve inferior ao nível moderado, assim como no estressor</p><p>mencionado anteriormente. Os adultos com ansiedade grave apontaram a maior média de</p><p>isolamento social durante o período escolar.</p><p>Em síntese, quando comparadas todas as médias percentuais da quantidade de</p><p>participantes que marcaram positivamente acerca de todos os estressores escolares, de acordo</p><p>com os quatro grupos categorizados por níveis de ansiedade, as discrepâncias percebidas</p><p>continuaram ordenada e significativamente crescentes, sendo o grupo com ansiedade leve</p><p>indicando a menor média e o grupo com ansiedade grave indicando a maior média, bem como na</p><p>Tabela 2.</p><p>Tabela 3</p><p>Estressores no ambiente escolar</p><p>Variáveis</p><p>Participantes (N=260)</p><p>NÍVEIS DE ANSIEDADE/ADULTO (25 – 45 anos)</p><p>Normal Leve Moderada Grave</p><p>Freq. % Freq. % Freq. % Freq. %</p><p>Bullying por parte de colegas</p><p>Não 100 64,94 26 55,32 12 48 19 55,88</p><p>Sim 54 35,06 21 44,68 13 52 15 44,12</p><p>Receio de ir à escola devido ao</p><p>bullying</p><p>Não 136 88,31 40 85,11 21 84 25 73,53</p><p>Sim 18 11,69 7 14,89 4 16 9 26,47</p><p>Perseguição por parte de</p><p>educadores</p><p>Não 145 94,16 43 91,49 24 96 31 91,18</p><p>Sim 9 5,84 4 8,51 1 4 3 8,82</p><p>Humilhações e</p><p>constrangimentos</p><p>Não 131 85,06 36 76,60 19 76 21 61,76</p><p>Sim 23 14,94 11 23,40 6 24 13 38,24</p><p>Isolamento Social</p><p>Não 143 92,86 41 87,23 18 72 21 61,76</p><p>Sim 11 7,14 6 12,77 7 28 13 38,24</p><p>Médias 23 14,93 9,8 20,85 6,2 24,8 10,6 31,17</p><p>Nota: Freq. = Frequência</p><p>O período escolar, que se insere tipicamente no ciclo de etapas da infância e adolescência,</p><p>pode trazer o bullying enquanto estressor psicossocial, ou seja, práticas rotineiras de violências nas</p><p>escolas, sendo uma forma de excluir, intimidar, lesionar ou oprimir gradativamente. A prática pode</p><p>surgir como apelidos de mau gosto, situações onde há ameaças de agressão ou posturas de</p><p>desprezo. A escola, portanto, passa a ser considerada um local aversivo por parte do adolescente</p><p>e não um ambiente de socialização (Oliveira & Antonio, 2006).</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>633</p><p>Nesse âmbito, o bullying é mais bem descrito como um agrupamento de “brincadeiras”</p><p>realizadas a partir de comportamentos agressivos, intencionais e contínuos, sem justificação</p><p>plausível, onde um ou mais de um aluno, considerados “mais fortes” exercem sobre outros, que são</p><p>considerados “mais frágeis”, ações de humilhações, maus-tratos, intimidações e medo (Silva, 2008).</p><p>Adolescentes que foram vítimas de bullying podem se tornar adultos com a saúde mental</p><p>comprometida, incluindo o desenvolvimento de transtorno de pânico e crises de ansiedade. Em</p><p>casos mais complexos, o adolescente pode chegar ao cometimento de suicídio ou homicídios</p><p>(Oliveira</p><p>& Antonio, 2006).</p><p>Considerando os ambientes escolares como os primeiros meios sociais de inserção em que</p><p>o indivíduo geralmente inicia seu processo de socialização para além do âmbito familiar, é</p><p>conveniente ressaltar que situações angustiantes vivenciadas nesses espaços podem gerar</p><p>significados prejudiciais para sua funcionalidade perante os eventos posteriores no seu contexto de</p><p>vida ou até mesmo implicar no surgimento de traumas. O modo de saber lidar com situações,</p><p>enfrentar problemas e atribuir sentido a fenômenos específicos pode ser amplamente prejudicado</p><p>em razão de um histórico psicologicamente danoso de experiências em instituições de ensino</p><p>(Fondren et al., 2020).</p><p>As informações apresentadas na Tabela 4 expõem as categorias presentes nas respostas</p><p>sobre a associação da existência de traumas vividos na infância em relação aos 76 casos de</p><p>diagnósticos de transtornos entre os 260 participantes da pesquisa. Por intermédio da análise</p><p>temática de conteúdo por frequência, de Laurence Bardin, foram realizadas as seleções do material,</p><p>codificações de trechos relevantes, categorizações por agrupamento de códigos para a</p><p>identificação de padrões e análise de resultados. A pergunta utilizada para o recolhimento desses</p><p>dados foi de natureza dissertativa acerca da existência de traumas no período infantil, porém, os</p><p>participantes foram orientados a responder apenas “sim” ou “não”, se assim julgassem o ato mais</p><p>cômodo. Considerando que em inúmeros casos os indivíduos poderiam sentir desconfortos ao</p><p>tratarem de determinadas ocorrências traumáticas que tenham atravessado, a instrução para a</p><p>possibilidade de respostas curtas foi adotada. “Sim” ou “não”, em razão disso, englobaram a maioria</p><p>das respostas.</p><p>Organizadas em ordem decrescente, as categorias verificadas foram: “Sim”, “Não”, “Luto”,</p><p>“Abuso sexual”, “Violência”, “Família”, “Separação Materna”, “Opiniões invalidadas” e “Fome”. A</p><p>totalização das experiências de eventos traumáticos em relação aos indivíduos com diagnósticos</p><p>expôs um número consideravelmente maior para casos de eventos sobre casos de não eventos.</p><p>Os índices mais altos de casos com componentes traumáticos corroboram para plausibilidade da</p><p>concepção de que tensões emocionais excessivas na infância também podem contribuir para o</p><p>desenvolvimento de transtornos psicológicos relacionados à ansiedade no estágio adulto.</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>634</p><p>Tabela 4</p><p>Transtornos com diagnósticos e análise de conteúdo</p><p>Acerca da análise em volta dos transtornos mentais, Dalgalarrondo (2019) ressalta a</p><p>importância de avaliar a história de vida e acontecimentos substanciais na trajetória do indivíduo.</p><p>Em relação aos sintomas e, também, às síndromes, é importante investigar a perspectiva de</p><p>interferências provocadas a partir de fatores predisponentes e fatores precipitantes. Consideram-se</p><p>fatores predisponentes as vivências emocionais no histórico infantil, vivências da adolescência,</p><p>heranças genéticas, bem como outras circunstâncias antecedentes que foram vividas. Fatores</p><p>precipitantes são ocorrências estressantes, perdas ou impactos mais atuais no contexto do sujeito.</p><p>População (N=76) – Vivências de eventos traumáticos</p><p>Transtornos com</p><p>diagnósticos</p><p>Frequência % Categorias</p><p>Transtorno de</p><p>Ansiedade</p><p>Generalizada (TAG)</p><p>32 42,11</p><p>Sim (13x), Não (11x), Abuso sexual (3x),</p><p>Luto (2x), Família (1x), Violência (1x),</p><p>Separação materna (1x)</p><p>Transtorno de</p><p>Ansiedade Social</p><p>(TAS)</p><p>6 7,89 Sim (4x), Não (2x)</p><p>Transtorno do Pânico</p><p>(TP)</p><p>7 9,21 Não (4x), Sim (2x), Luto (1x)</p><p>Transtorno do</p><p>Estresse Pós-</p><p>traumático (TEPT)</p><p>10 13,16</p><p>Sim (6x), Não (2x), Violência (1x),</p><p>Opiniões invalidadas (1x)</p><p>Transtorno</p><p>Obsessivo-</p><p>compulsivo (TOC)</p><p>6 7,89</p><p>Sim (3x), Abuso sexual (1x),</p><p>Separação materna (1x), Família (1x)</p><p>Fobia Específica (FE) 3 3,95 Sim (1x), Não (1x), Luto (1x)</p><p>Outro 12 15,79 Sim (5x), Não (5x), Luto (1x), Fome (1x)</p><p>Total por categorias 76 100</p><p>Sim (34x), Não (25x), Luto (5x), Abuso sexual</p><p>(4x), Violência (2x), Família (2x), Separação</p><p>materna (2x), Opiniões invalidadas (1x), Fome</p><p>(1x)</p><p>Total de experiências</p><p>traumáticas</p><p>76 100</p><p>Ocorridas – 51 casos</p><p>Não ocorridas – 25 casos</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>635</p><p>Dessa forma, fatores predisponentes e precipitantes compõem a junção de particularidades</p><p>psicológicas, biológicas e sociais.</p><p>Clark e Beck (2010) sugeriram cinco critérios que podem ser utilizados para a categorização</p><p>de estados disfuncionais de ansiedade e medo, sendo importante que todos se encontrem em uma</p><p>ocorrência isolada. Logo, consideram-se a cognição disfuncional, quando os pensamentos,</p><p>ajuizamentos, suposições sobre algum evento são incompatíveis com a realidade objetiva. São</p><p>conjecturas errôneas de avaliações cognitivas que acabam por conduzir o sujeito a uma ansiedade</p><p>resultante de erros de julgamento. Pensamentos disfuncionais geram ansiedades incongruentes</p><p>com a ocasião. O funcionamento prejudicado ocorre quando as reações ansiosas acabam gerando</p><p>efeitos comportamentais que prejudicam o funcionamento social e cotidiano do indivíduo. Indivíduos</p><p>que “paralisam” perante o medo ou deixam de realizar tarefas em virtude da ansiedade são</p><p>exemplos plausíveis.</p><p>A manutenção se refere à condição em que o sujeito mantém a ansiedade por mais duração</p><p>do que em situações típicas, além de haver uma intensidade ansiosa apenas em virtude de pensar</p><p>em algo que pode ser considerado uma ameaça em potencial, ainda que não haja certeza de</p><p>materialização. Os alarmes falsos se particularizam pela ocorrência de um medo intensificado,</p><p>mesmo quando não há evidências de quaisquer ameaças concretas, ou quando os estímulos</p><p>externos podem ser considerados mínimos e não plausíveis para a intensidade da reação. Ataques</p><p>de pânico podem ser tomados como exemplos. A hipersensibilidade a estímulo é especificada na</p><p>condição de ansiedade extrema perante a um estímulo considerado tipicamente inofensivo. Um</p><p>exemplo característico de hipersensibilidade a estímulo é um paciente com fobia de aranhas, não</p><p>importando o grau de periculosidade, de toxicidade ou tamanho do aracnídeo (Clark & Beck, 2010).</p><p>Os dados evidenciados na composição da Tabela 5 correspondem à junção dos 12</p><p>estressores infantis do contexto familiar com os 5 estressores infantis do contexto escolar,</p><p>agrupando, portanto, os 17 estressores totais. Tal convergência, ainda na Tabela 5, foi associada,</p><p>também, aos níveis de ansiedade obtidos através dos resultados da escala de ansiedade de</p><p>Hamilton (HAM-A). O grupo com ansiedade normal obteve a menor média em porcentagem de</p><p>estressores equivalentes; os grupos constituídos por pessoas com ansiedade leve e ansiedade</p><p>moderada obtiveram as médias intermediárias, sendo novamente o nível leve inferior ao nível</p><p>moderado, enquanto o grupo com ansiedade grave obteve a maior média de estressores gerais.</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>636</p><p>Tabela 5</p><p>Média geral de estressores</p><p>Participantes (N=260)</p><p>NÍVEIS DE ANSIEDADE/ADULTO (25 – 45 anos)</p><p>Normal Leve Moderada Grave</p><p>Frequência 154 47 25 34</p><p>% 59,2 18,1 9,6 13,1</p><p>Soma 17 estressores 501 217 144 248</p><p>Médias/estressores 3,25 4,62 5,76 7,29</p><p>Conforme Aaron Beck (1987), no início da infância, as crianças passam a desenvolver e</p><p>potencializar ideias específicas sobre o mundo, sobre as pessoas e sobre si mesmas. Essas ideias</p><p>são chamadas de crenças nucleares e tornam-se extremamente profundas e contínuas. Crenças</p><p>nucleares são ideias tão enraizadas que inúmeras vezes não são bem explicadas pelo próprio</p><p>indivíduo que as possui. O sujeito, portanto, dispõe dessas ideias para si como</p><p>verdades absolutas</p><p>(Beck, A. 1987 como citado em Beck, J. 2013). Além das influências por predisposições genéticas,</p><p>o convívio com o mundo e com os outros sujeitos faz com que o indivíduo desenvolva perspectivas</p><p>cognitivas específicas, ou seja, crenças nucleares que podem ser distintas de acordo com seus</p><p>contextos de interações (Beck, 2013).</p><p>As interações primárias através dos ambientes familiares, ambientes escolares, bem como</p><p>quaisquer outros espaços nos quais o indivíduo criança inicia suas construções cognitivas,</p><p>solidificações de memórias emocionais, esquemas ou estruturações de sentimentos e</p><p>comportamentos reativos, possuem acentuadas influências para o decorrer de aspectos em sua</p><p>vida subsequente. Impactos emocionalmente negativos do período infantil podem se tornar</p><p>memórias conscientes ou inconscientes de sua origem. Embora sejam tipos de internalizações</p><p>dolorosas, as estruturas cerebrais límbicas associadas atuam através de desempenhos de defesas</p><p>não necessariamente funcionais, uma vez que podem desenvolver mecanismos excessivos de</p><p>esquiva, evitação, raiva, aversão ou ansiedade, a depender da qualidade afetiva da vida pregressa</p><p>do sujeito (Bücker et al., 2012; Daneshmandi et al., 2018; Majer et al.,2010; Schneider et al., 2022).</p><p>4 CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>O presente estudo teve como objetivo primordial relacionar a existência de experiências</p><p>psicologicamente estressoras, vivenciadas durante a infância dos indivíduos, com o</p><p>desenvolvimento de propensões ansiosas em suas fases adultas. Partindo da perspectiva citada, é</p><p>plausível atestar que, por intermédio da pesquisa de campo, os objetivos foram exitosamente</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>637</p><p>atingidos, visto que foi possível constatar que os participantes que apresentaram níveis mais altos</p><p>de ansiedade tiveram mais estressores infantis quando comparados aos participantes com níveis</p><p>ansiosos mais baixos. É válido destacar que a pesquisa também confirmou que houve um aumento</p><p>progressivo na quantidade de estressores para cada grau verificado de ansiedade. A qualidade das</p><p>relações sociais da infância em ambientes familiares e escolares, assim como as experiências</p><p>traumáticas, também foi evidenciada como fator relevante para o surgimento da ansiedade</p><p>disfuncional ou transtornos ansiosos em períodos posteriores. Componentes como</p><p>atravessamentos por excessos de autoritarismo, ausência de autonomia e desprezo emocional</p><p>parecem possuir influências acentuadas quando presentes nos primeiros anos de vida.</p><p>No que se refere às limitações do estudo, evidencia-se que uma amostra com um maior</p><p>número de indivíduos poderia trazer resultados ainda mais satisfatórios, bem como uma análise a</p><p>partir de grupos com quantidades mais exatas para cada nível de ansiedade. Também é oportuno</p><p>considerar a possibilidade da continuidade da pesquisa com outras análises estatísticas a partir de</p><p>padrões definidos por estatística inferencial. Todavia, o conteúdo exposto proporciona estímulos</p><p>para a continuidade dos estudos acerca da ansiedade desestruturada no que diz respeito,</p><p>especialmente, às causas psicossociais que a circundam.</p><p>Posto isto, com base nos dados destacados nesta pesquisa, compreende-se a importância</p><p>do tema para a ciência psicológica, sobretudo no âmbito do inconsciente cognitivo e suas</p><p>inferências nas reações emocionais. De igual modo, e não menos importante, também se</p><p>compreende a importância da temática para a conscientização acerca da qualidade de vida e</p><p>desenvolvimentos saudáveis que devem ser proporcionados por cuidadores, núcleos familiares e</p><p>demais instituições no que tange ao bem-estar infantil.</p><p>5 REFERÊNCIAS</p><p>American Pyschiatric Association (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais.</p><p>(5a ed). Artmed.</p><p>Bardin, L. (1977). Análise de Conteúdo. Edições 70.</p><p>Beck, J. (2013). Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. (2a ed). Artmed.</p><p>BRASIL. Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012. Dispõe sobre diretrizes e normas</p><p>regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Diário Oficial [da] República</p><p>Federativa do Brasil, Brasília, DF, 13 jun.</p><p>https://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2012/Reso466.pdf.</p><p>BRASIL. Resolução nº 510, de 07 de abril de 2016. Dispõe sobre as normas aplicáveis a</p><p>pesquisas em Ciências Humanas e Sociais. Diário Oficial [da] República Federativa do</p><p>PSICOLOGIA E SAÚDE EM DEBATE</p><p>ISSN (eletrônico) 2446-922X</p><p>Rev. Psicol Saúde e Debate. Mai., 2024:10(1): 619-639.</p><p>638</p><p>Brasil, Brasília, DF, 24 maio 2016. https://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2016</p><p>/Reso510.pdf.</p><p>Bücker, J., Kapczinski, F., Post, R., Ceresér, K. M., Szobot, C., Yatham, L. N., Kapczinski, N. S., &</p><p>Kauer-Sant’Anna, M. (2012). Cognitive impairment in school-aged children with early</p><p>trauma. Comprehensive Psychiatry, 53(6), 758–764.</p><p>https://doi.org/10.1016/j.comppsych.2011.12.006</p><p>Callegaro, M. M. (2005). A neurobiologia da terapia do esquema e o processamento</p><p>inconsciente. Revista brasileira de terapias cognitivas, 01, (01), 09-20.</p><p>http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S180856872005000100002&ln</p><p>g=pt&nrm=iso.</p><p>Callegaro, M. M. (2011). O novo inconsciente: como a terapia cognitiva e as neurociências</p><p>revolucionaram o modelo de processamento mental. Artmed.</p><p>Clark, D. & Beck, A. (2010). Terapia cognitiva para os transtornos de ansiedade: tratamentos que</p><p>funcionam. Artmed.</p><p>Dalgalarrondo, P. (2019) Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. (3a ed). Artmed.</p><p>Damásio, A. (2000). 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