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AULA 5 ALFABETIZAÇÃO, LETRAMENTO E LITERATURA INFANTIL Profª Luciana Carolina Santos Zatera 2 INTRODUÇÃO Letramento literário e alfabetização Vamos abordar a questão da leitura como produção de sentido, pois a alfabetização e o letramento se complementam. Assim, o trabalho pedagógico com estratégias de compreensão leitora e com sequências didáticas de leitura são um possível caminho com vistas ao letramento literário. TEMA 1 – LEITURA E PRODUÇÃO DE SENTIDO A leitura é uma prática social, pois ocorre na interação entre autor e leitor, mediada pelo texto. Por essa razão, o sentido do texto não pode ser dado pelo autor e nem desvendado pelo leitor, tendo em vista que o sentido de um texto é construído na interação texto-sujeitos e não algo que preexista a essa interação. A leitura é, pois, uma atividade interativa altamente complexa de produção de sentidos, que se realiza evidentemente com base nos elementos linguísticos presentes na superfície textual e na sua forma de organização, mas requer a mobilização de um vasto conjunto de saberes no interior do evento comunicativo. (Koch; Elias, 2010, p. 11) Para exemplificar o que acabamos de afirmar, vamos analisar a obra Já pra cama, monstrinho, escrita e ilustrada por Mario Ramos. Essa história retrata uma cena corriqueira na casa de muitas famílias: o pai que tenta colocar o filho para dormir. No entanto, as ilustrações mostram o pai e a mãe como seres humanos e a criança representada como um monstrinho, semelhante a um jacaré. Cada leitor, especialmente a criança pequena, em fase de alfabetização, pode atribuir diferentes sentidos a essa escolha feita pelo autor. Trata-se de um monstrinho mesmo, como costuma aparecer nas histórias e que faz parte do imaginário infantil? Ou se trata de uma criança que, aos olhos do pai, é um monstrinho? O pai, ao longo da história, mostra-se muito zangado com a criança que resiste em ir para a cama: − Ah não, assim, vou ficar bravo! A cama é pra dormir, não pra sambar. − Tô com sede! − Mais um truque para me enrolar. Você já bebeu bastante água. − Aaaaaaargh! Tô morrendo de sede! − Está bem. Vou pegar um copo d’água. (Ramos, 2012, p. 22). 3 Depois de sair correndo pela casa, fazer bagunça na pia ao escovar os dentes, demorar para fazer cocô, pendurar-se na estante de livros para escolher uma história e pedir para tomar água, o pai, enfim, consegue colocar o monstrinho na cama e lhe dar um beijinho. Na última página, algo surpreendente acontece: o papai não mais tem a forma humana, mas aparece como um grande monstro saindo do quarto, enquanto a criança diz: “Boa noite, papai monstro”. A atribuição desses sentidos por parte do leitor, ao observar as imagens que ilustram a história e relacioná-las ao texto verbal, pode extrapolar a leitura daquilo que está explícito no texto. É fundamental destacar que construímos um sentido e não o sentido para essa obra, uma vez que buscamos fora do texto, ou seja, com base nas inferências, os conhecimentos necessários para elaborar o sentido para a história. O significado não está pronto nos textos, mas, ao observar as pistas existentes em sua superfície e acionar processos cognitivos, o leitor é capaz de construir sentidos aos enunciados. Isso acontece porque o autor não diz tudo no texto, e disso decorrem, especialmente em textos literários, os espaços vazios que devem ser preenchidos pelo leitor para atribuir significado à leitura. Por isso, a relevância do contexto nesse processo. Podemos utilizar a metáfora do iceberg para compreender a importância do contexto na leitura e produção de sentidos. A parte pequena que conseguimos enxergar seria o que está explícito no texto, porém a imensa parte que fica submersa na água seria aquilo que está implícito, ou seja, a interpretação textual. O contexto seria o iceberg como um todo, isto é, “tudo aquilo que, de alguma forma, contribui para ou determina a construção de sentido” (Koch; Elias, 2010, p. 59). O contexto é, por isso, imprescindível à compreensão dos textos. Ele diz respeito, de acordo com Koch e Elias (2010, p. 63), “a todos os tipos de conhecimentos arquivados na memória dos atores sociais, que necessitam ser mobilizados por ocasião do intercâmbio verbal”. As autoras citam três tipos de conhecimentos contextuais: o situacional, o estilístico e o intertextual. O conhecimento situacional se refere ao conhecimento da situação comunicativa e de suas “regras”. O estilístico relaciona-se aos registros, às variedades da língua, de acordo com a situação de comunicação. E o intertextual diz respeito ao conhecimento de outros textos que permeiam nossa cultura. O contexto é, portanto, “um conjunto de suposições, baseadas nos saberes dos 4 interlocutores, mobilizadas para a interpretação de um texto” (Koch; Elias, 2010, p. 64). TEMA 2 – A ESCOLHA DO LIVRO LITERÁRIO Quando tratamos da leitura de obras literárias para infância, é muito comum os educadores se preocuparem com a escolha dos livros para as práticas de leitura em sala de aula. Obviamente, temos de considerar a faixa etária dos estudantes e suas capacidades leitoras. Mas também a escolha dependerá de cada comunidade de leitores, suas necessidades e preferências, o nível de aprendizagem em que se encontram, entre outros fatores. Diante dessa problemática, podemos refletir sobre algumas questões centrais quando tratamos de seleção e análise de livros literários. Uma delas remete à qualidade da obra, seja em relação ao texto verbal, seja no tocante às ilustrações, já que nosso foco são as obras infantis especialmente na alfabetização e nos anos iniciais. Quando um livro literário nos chega às mãos, é preciso ter em mente alguns critérios gerais para avaliá-lo. Quanto ao fato de saber o que agrada o leitor menos experiente, não é difícil responder. Em última análise, se a leitura da obra infantil desperta paixão no adulto, despertará também na criança. Além disso, vale destacar que o texto literário não tem em si uma utilidade. Não serve para ensinar conteúdos, valores, normas, comportamentos, lições objetivas e consensuais. Se esse for o propósito da obra, esteja certo, não é literatura, porque, segundo Sisto (2005, p. 133), “a história não pode ser óbvia, nem didática, nem moralista, nem doutrinária, nem preconceituosa (não se deve ter nenhuma preocupação em passar uma mensagem para o leitor!)”. A literatura, na condição de obra de arte, de acordo com Oliveira (2005), contribui para, por meio do belo, ampliar a percepção de mundo do leitor. É essencial, portanto, que a obra literária permita múltiplas leituras, não um entendimento único, igual para todos. Por isso, na opinião de Bernardo (2005), Azevedo, (2005) e Sisto (2005), a obra literária deve: • reinventar a realidade, apresentando-a sob nova face; • despertar no leitor a vontade de, mesmo quando termina o livro, continuar lendo; • tratar de questões subjetivas, psicológicas, emocionais, contraditórias, conflituosas, assuntos que geram diversidade de opiniões; 5 • explorar metáforas, imagens, ambiguidades, ironias, repetições, rimas, sonoridades; • provocar estranhamento, desviar o senso comum da linguagem (o jeito de contar, o vocabulário, os silêncios da narrativa); e • conter vazios para serem preenchidos pelo leitor, gerando possibilidade de interpretação das entrelinhas. Além do texto verbal, como a ilustração se faz presente em livros infantis, também podemos apresentar algumas considerações sobre a qualidade das imagens, visto que se configuram como texto, portanto, “um todo de sentido” (Barros, 2011), seja oral, escrito, visual, gestual ou formado por materialidades multissemióticas, caracterizado não apenas por aspectos linguísticos, mas cognitivos, sociais e interacionais.Portanto, podemos expor alguns apontamentos acerca da qualidade da imagem nos livros literários. Biazetto (2008) observa que as ilustrações nos livros literários devem: • ser compostas poética e metaforicamente e cheias de fantasia, a fim de possibilitar ao público leitor uma experiência prazerosa e enriquecedora, alimentando a imaginação e a criatividade do leitor; • apresentar correspondência com o texto verbal sem repetições, ou seja, a ilustração é uma tradução entre códigos diferentes, mas não se restringe à transferência de um sistema de linguagem a outro; • desdobrar-se em imagens provocadoras de poesia, ultrapassando o óbvio, uma vez que o texto poético não necessita de repetições imagéticas; • colaborar na percepção do texto verbal, amplificando suas vozes e ampliando a imaginação dos leitores; • surgir a partir de detalhes menos óbvios da história narrada, proporcionando uma perspectiva inesperada, sem retratar exatamente o que está descrito no texto escrito; • possibilitar a fabricação de imagens mentais pelo leitor, sem tolher seu imaginário; e • proporcionar ao leitor a criação de experiências sensíveis, formais, afetivas e intelectuais que alimentam o imaginário. Enfim, a ilustração é uma nova criação e não pode se configurar como mera tradução do texto escrito. Por isso, por ser um tipo de linguagem, a ilustração nos livros literários proporciona ao leitor diálogos que não se encerram em uma única 6 leitura, mas convoca-o a revê-la várias vezes, atentando-se aos detalhes, traçando paralelos entre texto verbal e não verbal, interpretando-a; enfim, num movimento de ativa atribuição de sentidos. TEMA 3 – O QUE É LETRAMENTO LITERÁRIO Cosson (2020) relata que o termo letramento literário foi cunhado por Graça Paulino, no final da década de 1990, para se referir a um tipo específico de letramento no espaço escolar. A partir daí, a expressão passou a ser usada com recorrência, especialmente pelos membros do Grupo de Pesquisa do Letramento Literário (GPELL) do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale) da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. Entende-se por letramento literário “o processo de apropriação da literatura enquanto construção literária de sentidos” (Paulino; Cosson, 2009 citado por Cosson, 2020, p. 172). Por ser processo, o letramento literário se constrói ao longo do tempo, antes mesmo do ingresso do sujeito à escola – local onde esse processo será ampliado e aprimorado –, mas ultrapassa o ambiente acadêmico. Quanto ao fato de ser um processo de apropriação, Cosson (2020, p. 172) explica: um processo por meio do qual fazemos alguma coisa externa se tornar interna a nós mesmos, que nos permite tornar próprio o que é alheio. [...] Trata-se de um processo simultaneamente social e individual que nos insere em uma comunidade de leitores à medida que progressivamente nos constituímos como leitores. Por consequência, a literatura a ser apropriada é algo que existe coletivamente, mas é a incorporação privada dela pelo indivíduo que a torna viva. Nesse processo, Cosson (2020, p. 173) ainda destaca que a apropriação da literatura acontece de maneira literária, ou seja, usa os artefatos reconhecidos como literários, mas, principalmente, “adotando e respeitando o modo próprio de significar dado pela literatura, um modo que se funda na relação intensa de linguagem, pela qual construímos e reconstruímos a nós e ao mundo nas palavras da experiência e com a experiência do outro”. Cosson (2020, p. 177) define que a literatura é uma “linguagem que se apresenta como um repertório de textos e práticas de produção e interpretação, pelos quais simbolizamos nas palavras e pelas palavras a nós e o mundo que vivemos”. O objetivo do ensino da literatura é, segundo Cosson (2020), ampliar e aprimorar a competência literária do aluno, pois, quanto mais desenvolvida essa 7 competência, maior será o conhecimento do repertório e mais consolidada será sua experiência literária, ou seja, a apropriação literária do texto literário. A competência literária tem uma significação bastante ampla, conforme diferentes abordagens de ensino da literatura. Desenvolver competência literária é ensinar a converter enunciados linguísticos em estruturas e sentidos literários; reconhecer convenções literárias; dar sentido ao texto a partir das próprias experiências; dominar códigos interpretativos (entendimento do enredo, dos contextos socioculturais), narrativos, simbólicos etc. Pieper (2011, p. 15 citado por Cosson, 2020, p. 182) lista, ainda, alguns elementos da competência literária: delinear o jogo entre forma e conteúdo, as estruturas intertextuais, as relações interculturais e intermídias; processar/interpretar a linguagem metafórica e simbólica; identificar camadas de sentido; escrever/falar sobre um texto literário e defender uma interpretação; e participar de conversas e discussões literárias. Se o objetivo do letramento literário é desenvolver a competência literária dos estudantes, qual é, então, o conteúdo a ser ensinado? Cosson (2020, p. 183) afirma que o que deve ser ensinado é “a linguagem literária, compreendida como um repertório de textos e práticas de ler e produzir obras literárias”. Em relação à metodologia, esse conteúdo deve ser organizado sempre por meio do manuseio do texto literário e do compartilhamento da experiência literária pelos alunos. Para isso, Cosson (2020) sugere o que chama de três estações obrigatórias: o encontro pessoal do aluno com a obra, por meio da leitura do texto literário; a leitura responsiva (externalizar a experiência por meio de atividades orais ou escritas); e a leitura como prática interpretativa (análise das obras, realizada pelos alunos e conduzida pelo professor). Nesse percurso, o papel do professor é planejar atividades e projetar os caminhos que serão percorridos pelos estudantes, sendo um guia ou condutor da experiência literária. É importante ressaltar que o professor é um leitor literário, então, antes de propor determinada leitura aos seus alunos, deve ter vivenciado a leitura literária dessa obra. Isso não significa que, por já conhecer a obra e ter competência literária mais desenvolvida que a dos alunos, fará a sua análise da obra ou imporá a sua leitura. Diferentemente, como um mediador, acompanha a leitura do aluno, apontando caminhos para que este possa construir sua própria experiência literária. Há, ainda, outro papel do professor elencado por Cosson (2020): a constituição de uma comunidade de leitores em sala de aula, 8 estabelecendo condições para que os alunos compartilhem suas experiências literárias, ampliem e fortaleçam a competência literária. O aluno, por sua vez, é ativo, colaborativo e o principal agente do processo pedagógico. É necessário seu empenho em participar e colaborar em todo o processo formativo, pois a experiência literária só ocorre quando é efetivada, não é possível simulá-la. Cosson (2020) assevera que a escola deve garantir um espaço próprio e condições adequadas para o ensino da literatura, uma vez que é a instituição responsável pela formação integral do indivíduo. No entanto, não é necessário que haja um componente curricular específico, denominado Literatura. O mais importante é reconhecer a especificidade do letramento literário enquanto modo de ensinar literatura na escola. Sobre a seleção de textos e material de ensino, Cosson (2020) enfatiza a autonomia do professor em fazer as escolhas mais adequadas no sentido de que sejam obras (textos escritos, orais, vídeos, canções, cartas, performance artística, obra de arte etc.) significativas para a experiência literária dos alunos, e que sejam plurais e diversas, tanto em relação à temática e aos gêneros quanto à complexidade. Quanto à avaliação, Cosson (2020) sugere que, para avaliar a competêncialiterária do aluno, o professor deve observar o andamento das atividades de sala, pois elas orientam o diagnóstico contínuo do progresso do aluno em direção ao objetivo traçado. Pode-se, ainda, avaliar por meio de diários de leitura, portfólios ou propor a escrita de um memorial de leitura, isto é, um relato autobiográfico sobre o percurso do aluno na construção de seu repertório literário. TEMA 4 – SEQUÊNCIA BÁSICA DE LEITURA LITERÁRIA Nesta seção, vamos apresentar uma sugestão de trabalho com a literatura infantil em sala de aula, especialmente em classes de alfabetização. O exemplo será baseado em uma sequência básica, recomendada por Cosson (2019), que pode ser utilizada para a prática com narrativas curtas ou longas, como é o caso de um livro mais extenso, que será lido em vários momentos. Vamos exemplificar essa sequência por meio da obra O canto do passarinho, escrita por Ana Neila Torquato (2019) e ilustrada por Sami Ribeiro. Apresentamos, brevemente, no Quadro 1, os momentos que constituem a sequência básica de leitura. 9 Quadro 1 – Sequência básica para o ensino de literatura Motivação Preparar os estudantes para a leitura do texto, motivando- os para a tarefa a ser realizada. Introdução Introduzir a leitura da obra por meio de elementos extratextuais, como informações sobre o autor, contexto da obra, capa, título e levantamento de hipóteses sobre o que será lido. Leitura Leitura do texto literário. Se for longo, deve ser dividido em partes, em várias aulas. Acompanhamento dessa leitura durante o processo para discutir o texto, perceber dificuldades e realizar ajustes das condições de leitura. Interpretação Partilha das interpretações pessoais que cada leitor fez da obra. Apreensão global da obra, cujo objetivo é levar o aluno a traduzir a impressão geral da obra e o impacto que ele teve sobre sua sensibilidade de leitor. Fonte: Elaborado por Zatera com base em Cosson, 2019. Detalhando o quadro apresentado, a primeira etapa dessa sequência consiste na motivação, de modo a favorecer o processo de leitura, preparando o aluno para “entrar” no texto. Esse momento pode ser feito de diferentes formas, utilizando dinâmicas, brincadeiras, jogos. O importante é que o professor planeje o trabalho de leitura pensando em como aproximar o leitor do texto. Normalmente, usa-se a temática da obra como disparador para a motivação. No caso da obra escolhida, por exemplo, pode-se fazer uma pesquisa com os alunos sobre os pássaros comuns da região onde a escola está localizada ou de determinado bioma. Apresentar algumas curiosidades sobre o canto dos passarinhos ou sobre outros aspectos da vida dos pássaros (alimentação, habitat, hábitos, reprodução etc.). A segunda fase da sequência, a introdução, acontece quando o professor apresenta o autor e a obra. A apresentação do autor deve ser breve, fornecendo ao aluno informações básicas, de preferência relacionadas ao texto que será lido. Para iniciar a apresentação da obra, é importante explorar os paratextos (capa, prefácio, dedicatória, orelha, quarta capa, dados biográficos do autor/ilustrador etc.). Uma ideia é incentivar os alunos a levantarem hipóteses com base na capa e no título da obra. As ilustrações da capa do livro O canto do passarinho parecem ser feitas com recortes e colagens, como se fosse um trabalho manual. O passarinho, o galho onde está empoleirado, as linhas (que simulam pauta musical) e as notas 10 musicais foram feitos em alto-relevo e, ao passar os dedos sobre toda a ilustração, sente-se uma textura áspera, semelhante a uma lixa fina. Então, além de a criança poder manusear o livro e desfrutar dessa sensação tátil, é possível explorar o título da história e promover o levantamento de hipóteses sobre o que o texto trata. Para o terceiro momento, denominado leitura, é importante destacar que toda leitura escolar precisa de acompanhamento “porque tem uma direção, um objetivo a cumprir”, de acordo com Cosson (2019, p. 62). Além disso, durante a leitura feita pelos alunos, é possível diagnosticar possíveis dificuldades em relação à compreensão do texto, ao vocabulário, à estrutura composicional etc. Em turmas de alfabetização, a leitura pode ser feita aos poucos, pela professora, coletivamente, com ajuda dos alunos, página a página. Para turmas mais avançadas, é possível solicitar primeiramente uma leitura silenciosa e individual. Depois da leitura coletiva ou individual, pode-se retomar a leitura completa da história e ampliar a interpretação, que é o quarto momento da sequência. Cosson (2019) propõe dois momentos de interpretação para o letramento literário: um interior e outro exterior. O interior refere-se ao momento de decifrar o texto, palavra por palavra, parágrafo por parágrafo, página por página e somente é finalizado quando apreendemos a obra globalmente, ao terminarmos a leitura. Esse encontro é individual, ou seja, do leitor com o texto, e não pode ser substituído pela explicação do professor, pela leitura de um resumo ou pelo ato de assistir a um filme sobre a obra. Isso não significa que seja um momento isolado, pois o processo de interpretação é influenciado pelo que se faz antes e depois da leitura. “Em outras palavras, a motivação, a introdução e a leitura [...] são elementos de interferência da escola no letramento literário” (Cosson, 2019, p. 65). Esse momento interno também é afetado pela história de leitor do aluno, portanto, por mais íntimo que seja, é um ato social. Já o momento exterior refere-se à concretização da interpretação como ato de construção coletiva de sentido. Segundo Cosson (2019, p. 65), ao interpretarmos uma obra e nos sentirmos “tocados pela verdade do mundo que ela nos revela”, precisamos compartilhar a interpretação com outros leitores, ampliando os sentidos que construímos individualmente, a fim de possibilitar a ampliação de nosso horizonte de leitura e dos demais leitores envolvidos nesse processo. 11 Para o momento de interpretação da obra O canto do passarinho, é necessário permitir que os alunos dialoguem sobre o que foi lido, sobretudo porque o enredo, além de ser constituído por versos rimados, sonoridade e linguagem poética, explora amplamente a polissemia da palavra canto (canto do pássaro e canto como lugar): O passarinho canta, Canta sem parar. Mas, às vezes, Tudo o que ele quer É um canto para descansar. (Torquato, 2019, p. 7-8) Na continuidade da narrativa, surgem outras personagens que são bem conhecidas das crianças em idade escolar: o triângulo, o círculo e o quadrado. Essas formas geométricas apresentam rosto, olhos, boca e sobrancelhas. Estão todas tristes: o triângulo tem três cantos, o quadrado, quatro, e o círculo, apesar de seu encanto, não tem canto algum. As crianças podem ser questionadas: por que essas formas estão tristes? Serão muitas as interpretações; uma delas pode ser: porque elas estão sozinhas, sem canto ou com os cantos vazios, sem alegria. Então, as formas se unem e constroem uma casa para o passarinho morar: “Desde esse dia, nunca mais houve cansaço, nunca mais houve tristeza nem vazios” (Torquato, p. 18). A palavra vazios também pode ser explorada em seu duplo sentido: o vazio físico, a casa vazia; o vazio emocional, a tristeza. É oportuno ressaltar que essa sequência didática de leitura apresentada é exemplar e não modelar, pois há diversas possibilidades de combinarmos atividades e criarmos outras práticas que atendam às necessidades de cada comunidade de leitores. TEMA 5 – ESTRATÉGIAS DE COMPREENSÃO LEITORA A leitura é um processo dinâmico e ativo, que vai além da decodificação de letras, palavras e frases. Isto é, ler significa construir sentidos que não estão presentes no texto e vão além do “querer dizer” do autor. O ato de ler concretiza- se no diálogo que o leitor estabelece entre seu repertórioprévio (de mundo, linguístico, de outras áreas etc.) e o texto. Por essa razão, é necessário ao professor aprofundar seus conhecimentos a respeito de estratégias que possam auxiliar no processo de leitura mediada, a fim de capacitar o leitor em formação a ler de maneira autônoma e produtiva, estabelecendo relações com seus conhecimentos prévios e aprendendo a 12 generalizar essas estratégias para leituras futuras, construindo os significados dos textos que lê. Solé (1998) apresenta estratégias para serem desenvolvidas antes, durante e após a leitura, que são chamadas de estratégias de compreensão leitora. Isto é, são “procedimentos de caráter elevado, que envolvem a presença de objetivos a serem realizados, o planejamento das ações que se desencadeiam para atingi-los, assim como sua avaliação e possível mudança” (Solé, 1998, p. 69- 70). As estratégias de leitura não se desenvolvem naturalmente no leitor, elas precisam ser ensinadas. Ademais, elas não são técnicas precisas e infalíveis. Ainda de acordo com Solé (1998, p. 70), elas se caracterizam por serem capazes de “representar e analisar os problemas e a flexibilidade para encontrar soluções”. Assim, elas podem ser transferidas para as mais variadas situações de leitura. Desse modo, vamos verificar como algumas estratégias podem ser aplicadas na leitura literária, em sala de aula. Como base teórica, adotaremos os estudos de Girotto e Souza (2010) que, assim como Solé, dedicam-se a pesquisas sobre o ensino da leitura por meio de estratégias. Girotto e Souza (2010) realizaram uma releitura da proposta norte- americana das autoras Harvey e Goudvis, que se basearam em pesquisas sobre as estratégias que leitores proficientes utilizam para ler: fazer conexões entre o que sabem e a nova informação; elaborar perguntas ao texto; estabelecer inferências; visualizar imagens; localizar as ideias importantes do texto; sintetizar informações e monitorar o entendimento, esclarecendo as falhas na compreensão. Na releitura brasileira, Girotto e Souza (2010) elegeram a leitura literária como objeto, propondo oficinas de leitura para ensinar a compreensão de textos por meio de estratégias metacognitivas. Essas oficinas são momentos específicos em que o professor planeja o ensino de estratégias, conforme a estrutura exposta a seguir. 13 Figura 1 – Estrutura modelar das oficinas de leitura Fonte: Elaborado por Zatera com base em Girotto e Souza, 2010. A aula introdutória é o momento em que o professor explica aos estudantes a estratégia escolhida para ser ensinada. O docente faz, portanto, uma modelagem, ou seja, demonstra como usá-la efetivamente; lê em voz alta e verbaliza seus pensamentos, mostrando como raciocina ao fazer uso da estratégia. O ensino da leitura é, nesse caso, explícito, mas não deve ultrapassar 10 minutos do tempo da oficina. Na prática guiada, o professor orienta os grupos de alunos (de três a seis componentes), que devem ler os textos selecionados para tal tarefa. Eles conversam sobre o texto, praticando, junto com o professor, a estratégia ensinada, “refletindo por meio do texto e construindo significados através da discussão” (Girotto; Souza, 2010, p. 62). Nesse momento, o professor estimula o uso da estratégia, recuperando as tentativas de compreensão, dando feedbacks e certificando-se de que os alunos estão entendendo a tarefa. A leitura independente consiste no trabalho autônomo dos estudantes ao praticar a estratégia ensinada. Leem individual e silenciosamente. Usar post-it ou mesmo escrever ao lado do texto, nesse momento, é importante para registrar o que se pensa sobre a leitura. Para a prática guiada e a leitura independente são reservados de 35 a 50 minutos da oficina. Durante a avaliação (de 5 a 10 minutos), professor e alunos refletem sobre a oficina como um todo: utilidade dessa proposta, recepção dos alunos, continuidade ou não da prática, experiências atendidas, objetivos alcançados. “O professor precisa, ainda, retomar o processo de leitura, a fim de verificar o quê, para quê, como e em que momento os alunos utilizaram a referida estratégia de leitura” (Girotto; Souza, 2010, p. 63). Aula introdutória (modelação do professor) Prática guiada Leitura independente Partilha em grupo e avaliação 14 Agora, vamos acompanhar no Quadro 2 quais são as sete estratégias de compreensão leitora propostas por Souza (2019): conhecimento prévio, conexões, inferência, visualização, perguntas ao texto, sumarização e síntese. Quadro 2 – Estratégias de leitura Estratégias de leitura Conceito Sugestões de atividades Conhecimento prévio - É a base para as demais estratégias (estratégia “guarda- chuva”). - São as informações que temos acerca do mundo em relação àquilo que estamos lendo. - Relação entre o que já sabemos e a nova informação sobre o texto lido. - Ativar os conhecimentos linguísticos (pronúncia, vocabulário, regras da língua), o conhecimento textual (estrutura textual, tipos de texto, gêneros) e o conhecimento de mundo (adquirido pela escola ou por vivência). - Ensinar os alunos a relacionar suas experiências, seus conhecimentos sobre o mundo e as leituras feitas antes, por meio das seguintes questões: 1) O que eu sei sobre? 2) O que eu quero saber? 3) O que eu aprendi? Conexões - Conexões texto-texto: relação entre o texto que está lendo e outros textos lidos. - Conexão texto-leitor: relação entre o texto lido e as experiências do leitor. - Conexão texto-mundo: relação entre o texto lido e o mundo que rodeia o leitor. - Levar os alunos a realizar conexões por meio das seguintes questões: 1) O texto diz... 2) Isto me lembra outro texto... 3) Isto me lembra minhas experiências... 4) Isto me lembra eventos do mundo... 5) Esta conexão me ajuda a entender o texto... Inferência - Conclusão lógica feita pelo leitor, baseada em pistas encontradas no texto. - Formular uma opinião por meio do raciocínio dos fatos dispostos no texto. - Compreender o que está implícito, nas entrelinhas. - Estimular os alunos a antecipar o conteúdo do texto, formular hipóteses e emitir opiniões sobre o texto, anotando: 1) Minhas questões 2) Pistas no texto 3) O que já sei 4) Minhas inferências Visualização - Formar imagens mentais que representam a interpretação do leitor - Selecionar textos com passagens descritivas e solicitar que os alunos anotem: 1) Eu li ou ouvi... 2) Eu visualizei... Perguntas ao texto - Esclarecimento de informações - Busca explicar aspectos narrativos não entendidos - Ensinar os alunos a pensarem em voz alta, a ouvirem sua voz interior e a pensarem nas 15 - Localização de informações específicas no texto perguntas que vêm à mente, elaborando: 1) Perguntas magras (aspectos específicos do texto) 2) Perguntas gordas (envolvem conceitos mais aprofundados) Sumarização - Determinar a importância do texto - Verificar o que é mais relevante - Auxiliar o aluno a identificar no texto: 1) Ideia principal 2) Primeiro detalhe importante 3) Segundo detalhe importante 4) Terceiro detalhe importante 5) Sumário da passagem em uma oração/parágrafo Síntese - Organização de diferentes elementos que criam significados - Ajudar os alunos a escolher que partes do texto podem ser reunidas para formar um todo significativo, com base nas seguintes questões: 1) Título do texto/livro 2) Lista de palavras-chave da narrativa 3) Registro de breves passagens da história que norteiam a estrutura narrativa 4) Registro do que é importante Fonte: Elaborado por Zatera com base em Souza (2019). Como se pode ver, com base no conhecimento de estratégias de compreensão leitora é possível programar atividades, desenvolver projetos e incentivar a leitura naescola de modo a enriquecer o trabalho com a literatura infantil, sobretudo nas classes de alfabetização. 16 REFERÊNCIAS AZEVEDO, R. Aspectos instigantes da literatura infantil e juvenil. In: OLIVEIRA, I. (org.). O que é qualidade em literatura infantil e juvenil?: com a palavra, o escritor. São Paulo: DCL, 2005. BARROS, D. L. P. Teoria semiótica do texto. 5. ed. São Paulo: Ática, 2011. BERNARDO, G. A qualidade da invenção. In: OLIVEIRA, I. (org.). O que é qualidade em literatura infantil e juvenil?: com a palavra, o escritor. São Paulo: DCL, 2005. BIAZETTO, C. As cores na ilustração do livro infantil e juvenil. In: OLIVEIRA, I. (org.). O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil?: com a palavra, o ilustrador. São Paulo: DCL, 2008. COSSON, R. Letramento literário: teoria e prática. 2 ed. 9 reimp. São Paulo: Contexto, 2019. COSSON, R. Paradigmas do ensino da literatura. São Paulo: Contexto, 2020. GIROTTO, C. G. G. S.; SOUZA, R. J. Estratégias de leitura: para ensinar alunos a compreender o que leem. In: SOUZA, R. J. et al. Ler e compreender: estratégias de leitura. Campinas: Mercado de Letras, 2010. KOCH, I. V.; ELIAS, V. M. Ler e compreender: os sentidos do texto. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2010. OLIVEIRA, I. Contrato de comunicação, projeto de comunicação e qualidade em literatura infantil e juvenil. In: OLIVEIRA, I. (org.). O que é qualidade em literatura infantil e juvenil?: com a palavra, o escritor. São Paulo: DCL, 2005. RAMOS, M. Já para cama, monstrinho! Ilustrações do autor. Tradução de Bruno Berlendis de Carvalho. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2012. SISTO, C. A pretexto de se escrever, publicar e ler bons textos. In: OLIVEIRA, I. (org.). O que é qualidade em literatura infantil e juvenil?: com a palavra, o escritor. São Paulo: DCL, 2005. SOLÉ, I. 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