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GASTRONOMIA FUNCIONAL 2 APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA 3 1 INTRODUÇÃO À GASTRONOMIA FUNCIONAL 6 2 ASPECTOS NUTRICIONAIS ASSOCIADOS À GASTRONOMIA FUNCIONAL 17 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 25 GASTRONOMIA FUNCIONAL 3 APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA Objetivo da disciplina: Introduzir o tema gastronomia funcional, bem como explanar aspectos nutricionais vinculados à gastronomia funcional. Objetivos específicos: Discutir aspectos básicos sobre gastronomia funcional. Discorrer os aspectos nutricionais vinculados à gastronomia funcional. Habilidades e competências a serem alcançadas: Compreender fundamentos básicos da gastronomia funcional. Associar os aspectos nutricionais à gastronomia funcional, compreendendo a relação entre gastronomia funcional e nutrição. GASTRONOMIA FUNCIONAL 4 Ementa da disciplina: Discutir sobre princípios básicos que fundamentam a gastronomia funcional, bem como os aspectos nutricionais que devem ser levados em consideração na gastronomia funcional. As informações incluídas são fundamentadas em evidências científicas bem consolidadas. Bibliografia básica da disciplina: Costa, N.M.B.; Rosa, C.O.B. Livro: Alimentos funcionais: componentes bioativos e efeitos fisiológicos. Rubio, 2ª edição, 2015. Cozzolino, SMF; Cominetti, C. Livro: Bases bioquímicas e fisiológicas da nutrição, nas diferentes fases da vida, na saúde e na doença. Ed. Manole, 1ª edição, 2013. Fellows, P. Tecnologia do processamento de alimentos: princípios e prática. 2. Ed. Porto Alegre: Artmed, 2008. Mahan, L.K.; Escott-Stump, S.; Raymond, J.L. Krause Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 13ª Ed. Elsevier. 2012. Ornelas, L.H. Técnica dietética. Seleção e preparo de alimentos. 8ª Ed. 2013. Pimentel, C.V.M.B.; Elias, M.F.; Philippi, S.T. Alimentos funcionais e compostos bioativos. Manole, 2019. Pujol, A.P. Nutrição aplicada à estética. 2ª Ed. Rubio. 2019. 5 GASTRONOMIA FUNCIONAL 6 1 INTRODUÇÃO À GASTRONOMIA FUNCIONAL Introdução A gastronomia revolucionou o conceito de nutrição clínica e, com certeza, este impacto foi mútuo, visto que há todo um ramo da gastronomia que preocupa-se em tornar a prescrição nutricional mais prazerosa e aceitável ao cliente. O que antes tratava-se de "comida de hospital" ou "dieta sem graça e sem gosto" deu espaço à muita criatividade e sabor, termos que antes não combinavam tanto com a prescrição nutricional. Hoje, é objetivo e dever do nutricionista atentar-se a questões vinculadas à gastronomia, bem como é preocupação dos chefs de cozinha manter a saúde e funcionalidade de seus pratos. Nesta via de mão dupla, nasce a gastronomia funcional, com preocupação mútua de agradar o paladar do cliente, no mesmo tempo em que cuida da sua saúde e nutrição. Abordar aspectos da gastronomia funcional é o objetivo desta primeira seção. Tendências gastronômicas GASTRONOMIA FUNCIONAL 7 Como fruto da gastronomia funcional, inúmeras tendências passam a surgir, de modo a acompanhar as prescrições nutricionais mais comuns. Algumas das tendências gastronômicas mais presentes na gastronomia funcional são: (i) foco em baixas calorias, também chamada de "fit ou fitness", (ii) foco em baixo teor de carboidratos, também chamada de "low carb", (iii) foco em baixo teor de carboidratos e alto teor de lipídios mais saudáveis, como ácidos graxos poli-insaturados, baseada na dieta cetogênica, (iv) foco em alimentos saudáveis, com propriedades funcionais, que vão além de nutrir o organismo, exemplo: antioxidantes, anti- inflamatórios, imunomoduladores etc., usualmente chamada de funcional, entre outras. A Figura 1 apresenta as principais tendências da gastronomia funcional. Figura 1. Principais tendências da gastronomia funcional. Os pratos elaborados com as tendências acima mencionadas buscam trazer sabor, criatividade, boas combinações e elegância (aspectos extremamente valorizados na gastronomia clássica), mas também respeitar aspectos de saúde e individualidade biológica do cliente, levando em consideração, inclusive, seus objetivos pessoais no que tange a questões estéticas, intolerâncias e alergias alimentares, condições clínicas etc. É possível perceber que as tendências de gastronomia funcional supracitadas aliam três importantes pilares: saúde, sabor e estética. A sinergia Tendências Gastronomia Funcional Fitness Low carb e cetogênica High protein S/ lactose e/ou glúten GASTRONOMIA FUNCIONAL 8 entre estes pilares favorece o alcance dos objetivos nutricionais e torna a adesão do plano alimentar mais agradável e fidelizada. Vale salientar que deve- se evitar o terrorismo nutricional qualquer que seja a área da nutrição ou da gastronomia. Em razão de tantos modismos nutricionais, os leigos, hoje, temem carboidratos, especialmente a lactose, glúten, ovos etc., e muitas vezes endeusam alimentos que não são tão milagrosos assim, como o óleo de coco que, apesar de ser adorado pela sociedade, é um produto rico em gorduras saturadas que, em excesso, pode favorecer o risco de doenças cardiovasculares. Deve-se ter em mente que nenhum alimento é “vilão ou mocinho” e que todos podem ter espaço em um plano alimentar bem planejado e estruturado por um nutricionista, desde que consideradas questões acerca de quantidade e frequência, devendo-se sempre respeitar as recomendações nutricionais estabelecidas por órgãos de renome, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Institute of Medicine (IOM). Do consultório ao prato do cliente O atendimento nutricional é extenso, haja vista o número de assuntos a serem discutidos na consulta, e longo, considerando que a maior parte dos nutricionistas tem consultas que duram mais de uma hora. A anamnese completa garante ao profissional conhecer detalhadamente o seu paciente, compreendendo as condições clínicas que ele apresenta ou tem maior risco de contrair, suas preferências e aversões alimentares, seu vínculo afetivo e emocional com o alimento (relação do indivíduo com a comida), suas necessidades nutricionais e objetivos etc. A avaliação dietética possibilitará compreender quais os hábitos alimentares e costumes do paciente, além de questões atreladas a aspectos culturais e financeiros, disponibilidade de tempo, necessidade de praticidade, rotina alimentar, onde e com GASTRONOMIA FUNCIONAL 9 quem realiza as refeições etc. É neste momento que se atenta, também, a questões vinculadas ao preparo dos alimentos, devendo-se perguntar fatores como: qual tipo de óleo/gordura é utilizado no preparo dos alimentos, quais temperos, qual o método de cocção, quais equipamentos e utensílios disponíveis, frequência de preparo dos alimentos, entre outros. Após avaliação física detalhada, o nutricionista é capaz de estabelecer se o paciente necessita emagrecer, manter o peso corporal, ganhar massa muscular, perder gordura corporal etc. Aspectos que determinarão parcialmente como será a conduta nutricional. Por fim, a elaboração do plano alimentar levará em conta inúmeros fatores e, na atualidade, há uma premissa muito latente de que à gastronomia funcional (sabor, boas combinações, diversas receitas etc.) seja um deles. Dentre os fatores que devem ser considerados para a prescrição dietética ressaltam- se: (i) objetivo pretendido, ex.: emagrecimento, ganho de massa muscular, controle da glicemia, do perfil lipídico e da pressão arterial, restrições alimentares etc., (ii) preferências e aversões alimentares, (iii) formas de preparo dos alimentos, enfatizando nas que gerem menos compostos potencialmente danosos (mais a diante falaremos sobre as AGEs) e nas que aumentem a biodisponibilidade de nutrientes (exemplo: evitar a perda de vitaminas hidrossolúveis na cocção com água), (iv) priorizar alimentos de fácil acesso e da época, (v) respeitar hábitos e questões culturais e socioeconômicas, (vi) evitar desperdícios de alimentos e de nutrientes e, finalmente, (vii) elaborar, testar e propor receitas. A Figura 2 agrega os fatores mais importantes a serem considerados no momento do estabelecimento da conduta nutricional. GASTRONOMIA FUNCIONAL 10 Figura 2. Aspectos a serem considerados para estabelecimento da conduta nutricional. É inegável que os pacientes solicitam cada vez mais opções de preparações e cardápios para os nutricionistas. Poucas opções de receitas são mal vistas pelos clientes e podem, inclusive, diminuir a adesão ao cardápio, o qual passa a ser visto como algo monótono. É comum os pacientes relatarem que enjoaram das opções e, portanto, pararam de segui-las. Neste cenário, faz-se necessário fornecer uma abundância de receitas que, ao mesmo tempo, respeitem os objetivos do cliente e sejam atrativas ao seu paladar, caso contrário o plano alimentar pode não ser respeitado e o profissional pode ser mal visto e mal avaliado, o que pode reduzir sua popularidade entre seus clientes e prejudicar os negócios. Uma ferramenta que pode auxiliar muito no Estabelecimento da Conduta Nutricional Objetivo pretendido Preferênci as e aversões Métodos de cocção mais saudáveis Alimentos de fácil acesso e de épocaHábitos, cultura e questões socioeconô -micas Evitar desperdício (alimentos e nutrientes) Sustentabi- lidade Receitas e gastronom ia funcional GASTRONOMIA FUNCIONAL 11 atendimento nutricional é a Teia de Inter-Relações Metabólicas da Nutrição Funcional, a qual foi proposta pelo Centro Brasileiro de Nutrição Funcional. Após o atendimento nutricional, o preenchimento da teia pode trazer maior clareza e conhecimento sobre o paciente, de modo a identificar melhor suas necessidades e propor um tratamento nutricional mais individualizado e assertivo. Alguns dos tópicos inseridos na teia são: desequilíbrios nutricionais (exemplo: ingestão desequilibrada de macronutrientes), disfunções neuroendócrinas (exemplo: presença de hipotireoidismo), interação corpo-mente (exemplo: presença de estresse, ansiedade e/ou depressão), problemas de detoxificação (exemplo: exposição excessiva a xenobióticos), desequilíbrios estruturais (exemplo: desvio do padrão anatômico), alterações gastrointestinais (exemplo: disbiose intestinal), estresse oxidativos e metabolismo energético (exemplo: baixa ingestão de compostos antioxidantes), disfunção imunológica e inflamação (exemplo: presença de doença autoimune). A Figura 3 apresenta a Teia de Inter-Relações Metabólicas da Nutrição Funcional proposta pelo Centro Brasileiro de Nutrição Funcional. GASTRONOMIA FUNCIONAL 12 Figura 3. Teia de Inter-Relações Metabólicas da Nutrição Funcional proposta pelo Centro Brasileiro de Nutrição Funcional. GASTRONOMIA FUNCIONAL 13 Nutrição e gastronomia funcional aliadas com fins de saúde Não é segredo que a população está cada vez mais doente, apesar da expectativa de vida ser muito mais alta do que era no passado. Como fruto deste evento, nossa população envelhece, mas não de forma saudável (fenômeno que chamamos de transição demográfica – envelhecimento da população). Dentre os fatores que contribuem com o envelhecimento não saudável, os atrelados aos hábitos de vida são os mais relevantes, como a dieta. É inegável que a alimentação mudou muito nos últimos anos, sendo que o consumo de fast food e ultra processados se aumentou a níveis alarmantes. Como resultado, a prevalência e a incidência de sobrepeso e obesidade crescem a cada dia (processo chamado de transição nutricional, em que há redução da prevalência de desnutrição e aumento da prevalência de sobrepeso/obesidade). Sabe-se que o sobrepeso e a obesidade são fatores de risco diretos para o desenvolvimento de diversas comorbidades, como hipertensão arterial sistêmica, resistência à insulina, diabetes mellitus, doenças cardiovasculares, doença renal, dislipidemias etc. Para cada um dos desfechos acima pontuados, há uma dietoterapia associada. Por exemplo: restrição de carboidratos com alto índice glicêmico para pacientes com resistência à insulina ou diabetes mellitus, redução do consumo de gorduras saturadas para pacientes com dislipidemias e doenças cardiovasculares, restrição do consumo de proteínas, potássio e fósforo para pacientes com doença renal etc. No entanto, quando as modulações dietéticas resultam em dietas desagradáveis ao paladar, a adesão é bastante dificultada. Inclusive, esse é um dos motivos pelos quais as pessoas continuamente emagrecem e depois engordam ou não conseguem manter os parâmetros clínicos em níveis saudáveis (exemplo: glicemia, GASTRONOMIA FUNCIONAL 14 colesterol total e frações, triglicerídeos, pressão arterial etc.) Neste cenário, a gastronomia funcional posiciona-se como uma ferramenta para melhorar a adesão dos pacientes ao plano alimentar, de modo a ofertar preparações que sejam saudáveis, funcionais, respeitando as individualidades do cliente, ao mesmo tempo em que ofertam sabor e prazer. Este, inclusive, pode ser o caminho para melhorar a relação das pessoas com a comida, a qual, muitas vezes, apresenta-se deveras prejudicada. Principais objetivos da técnica dietética Como previamente mencionado, uma prescrição dietética desagradável ao paladar do cliente não é efetiva, mesmo que tenha respaldo científico. Isso porque é inviável seguir uma dieta que não oferte sabor e prazer por longos períodos, o que leva ao abandono da estratégia. Há de se admitir, portanto, que o prazer em comer é algo de extrema importância ao ser humano, talvez até mais importante do que a sua própria preocupação com saúde e bem- estar. Neste cenário, a gastronomia funcional ganha força e, aliada à nutrição, atende aos aspectos saúde e paladar. Grande parte deste feito é propiciado pelo uso de técnicas dietéticas adequadas. Os principais objetivos das técnicas dietéticas são: (i) utilizar de métodos de cocção que mantenham as características nutricionais dos alimentos (exemplos: cocção no vapor para manter vitaminas hidrossolúveis e potássio, cocção de leguminosas para desativar inibidores de tripsina, cocção de carnes, como peixes, para desativar inibidores de tiamina e eliminar patógenos, cocção de ovos, para desativar a avidina que inibe a biotina e evitar Salmonelose etc.), (ii) utilizar de métodos de cocção que evitem a geração de compostos tóxicos (exemplo: formação de produtos de glicação avançada AGEs como resultado da reação de Maillard), (iii) utilizar métodos para exterminar patógenos e garantir a segurança biológica dos alimentos (exemplo: cocção, congelamento, GASTRONOMIA FUNCIONAL 15 refrigeração, boas práticas), (iv) princípios da gastronomia clássica, como combinações harmônicas de sabores e ingredientes, (v) combinações harmônicas entre nutrientes, evitando combinações que afetem a biodisponibilidade (exemplo: preferir combinações que levem ferro e vitamina C, ao invés de ferro e cálcio, visto que enquanto a vitamina C favorece a absorção de ferro, o cálcio prejudica). Quando os principais objetivos de técnica dietética são atingidos, o resultado são preparações nutritivas, funcionais e saborosas. A Figura 4 contempla os principais objetivos do uso de técnicas dietéticas adequadas. Figura 4. Principais objetivos das técnicas dietéticas. Siglas: CBAs – compostos bioativos de alimentos e AGEs – produtos de glicação avançada. Objetivos Técnicas Dietéticas Manter a concentração de nutrientes nos alimentos Favorecer a biodisponibilidade de nutrientes e CBAs Evitar a competição entre nutrientes Evitar a geração de compostos tóxicos, exemplo: AGEs Combinações harmoniosas entre nutrientes Combinações harmoniosas entre sabores Manter propriedades funcionais 16 GASTRONOMIA FUNCIONAL 17 2 ASPECTOS NUTRICIONAIS ASSOCIADOS À GASTRONOMIA FUNCIONAL Introdução Como introduzido na aula 01, a gastronomia funcional e a nutrição estão atreladas em prol de uma dieta ao mesmo tempo saudável e prazerosa. Logo, para total compreensão da gastronomia funcional, é imprescindível que haja clareza em alguns conceitos da área de nutrição, sendo este o objetivo desta segunda seção. Alimentos com alegação de propriedade funcional Apesar do termo alimentos funcionais ser frequentemente utilizado, ele é desencorajado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), pois pessoas leigas poderiam ter a falsa impressão de que alguns alimentos funcionam ao passo que outros não, o que seria uma inverdade. Todos os alimentos têm o potencial de nutrir o nosso organismo, fornecendo macronutrientes (fontes de energia) e micronutrientes (substratos para vias metabólicas orgânicas), ou seja, todos os alimentos têm sua importância e podem ser inseridos na dieta, desde que respeitadas questões acerca de quantidade e frequência. GASTRONOMIA FUNCIONAL 18 Salienta-se, ainda, que nenhum alimento isolado é capaz de garantir saúde e/ou prevenir doenças. Por exemplo, ingerir fibras alimentares, mas ter hábitos inadequados de saúde (ex.: dieta rica em ultra processados, tabagismo, etilismo etc.), não garante saúde intestinal e não previne câncer de cólon. Com isso, compreende-se que é o conjunto que garante ou não saúde e redução do risco de doenças, e não alimentos isolados. Esta crença errônea leva a população a crer em alimentos milagrosos, que teriam potencial benéfico, independente de mudanças no estilo de vida. Este tipo de pensamento deve ser desencorajado e não estimulado por profissionais da área da saúde. Posto isso, os alimentos com alegação de propriedade funcional são definidos, de acordo com a ANVISA, como: “todo aquele alimento ou ingrediente que, além das funções nutricionais básicas, quando consumido na dieta usual, produz efeitos metabólicos e/ou fisiológicos e/ou efeitos benéficos à saúde, devendo ser seguro para consumo sem supervisão médica”. O efeito dos alimentos com alegação de propriedade funcional está, normalmente, vinculado a um ou mais compostos bioativos. As classes de alimentos com alegação de propriedade funcional estabelecidas pela ANVISA são: fibras alimentares (exemplo: quitosana, psyllium e betaglucana), incluindo fibras prebióticas (fruto- oligossacarídeos – FOS – e inulina), probióticos, fitoesteróis, proteína de soja, ômega 3 (especialmente os ácidos graxos provenientes do óleo de peixe – ácido eicosapentaenoico (EPA) e ácido docosa-hexaenoico (DHA)), licopeno, luteína e zeaxantina. Salienta-se que, no futuro, é bastante possível que esta lista de alimentos com alegação de propriedade funcional aumente ainda mais, haja vista que os estudos demonstram benefícios de inúmeros outros compostos e alimentos, como: curcumina na cúrcuma, catequinas no chá verde, resveratrol nas uvas, suco de uva e vinho, gingeróis GASTRONOMIA FUNCIONAL 19 no gengibre etc. O ramo de alimentos com alegação de propriedades funcionais vem crescendo exponencialmente e revolucionando a atuação profissional de nutricionistas, médicos, dentistas, esteticistas etc. A Figura 5 apresenta os principais alimentos com alegação de propriedades funcionais aceitos pela ANVISA e supramencionados. Figura 5. Alimentos com alegação de propriedades funcionais de acordo com a ANVISA. Cuidados necessários para manter o teor nutricional e a funcionalidade de alimentos Alguns cuidados devem ser tomados a fim de garantir as características nutricionais e as propriedades funcionais dos alimentos, dentre eles: (i) buscar alimentos da época, que estejam com um nível de maturação adequado (evitar incluir apenas alimentos sazonais nos planos Alimentos com alegação de propriedade funcional Fibras alimentares, incluindo prebióticos Probióticos Ômega 3 Fitoesteróis Luteína, licopeno e zeaxantina Proteína da soja GASTRONOMIA FUNCIONAL 20 alimentares e ofertar várias opções de substituições aos pacientes), (ii) atentar-se a questões higiênico-sanitárias, inclusive, apenas adquirir produtos de comerciantes idôneos, (iii) atentar-se ao prazo de validade dos produtos, inclusive de preparações (produtos não industriais). É, inclusive, importante demonstrar essa preocupação aos pacientes, para que eles atentem-se à vida de prateleira dos produtos e ao tempo de duração das preparações feitas em casa, (iv) sempre que possível, preferir comprar de comerciantes e agrônomos locais, a fim de favorecer o comércio local, (iv) priorizar a compra de alimentos orgânicos, haja vista que o consumo de agrotóxicos traz inúmeros prejuízos à saúde, tanto de forma aguda quanto crônica, (v) antes de prescrever o cardápio, verificar questões socioeconômicas e acessibilidade aos alimentos incluídos do plano alimentar. Fatores que afetam na biodisponibilidade de nutrientes Diversos são os fatores que prejudicam a biodisponibilidade de nutrientes. Seguem alguns exemplos: Cocção em água para alguns nutrientes hidrossolúveis, como potássio, vitamina C e algumas vitaminas do complexo B (preferir cocção à vapor). Exposição à luz solar e/ou sintética para alguns nutrientes fotossensíveis, como vitamina C e algumas vitaminas do complexo B (evitar manter o alimento descoberto e, de preferência, consumir o alimento fresco o quanto antes, ex.: laranja). Ausência de processamento térmico para alimentos proteicos, como carnes (não há desnaturação proteica prévia e, por isso, a digestão é dificultada). Ausência de processamento térmico para leguminosas (apresentam GASTRONOMIA FUNCIONAL 21 inibidores de tripsina que são desativados com processamento térmico). Ausência de processamento térmico e de ingestão conjunta com lipídios para alimentos fontes de licopeno (os alimentos fontes de licopeno, ex.: tomate, são mais biodisponíveis quando fracionados, esquentados e consumidos junto com lipídios). Excesso da ingestão de fibras alimentares (quelam-se com alguns nutrientes, ex.: cálcio e ferro, impedindo a absorção deles). Ingestão de nutrientes lipídicos distantes de refeições que contenham lipídicos (ex.: suplementar vitamina D ou ômega 3 em jejum, sem estar próximo de uma refeição com lipídios). Competição entre nutrientes (ex.: ofertar ferro vegetal e cálcio em uma mesma refeição). Comprometimento da saúde intestinal (se o intestino não estiver saudável, tanto a digestão quanto a absorção de nutrientes podem ser prejudicadas, ex.: um intestino com microvilosidades atrofiadas pode não sintetizar lactase suficientemente e, em razão disso, o indivíduo pode apresentar sinais e sintomas de intolerância à lactose). Disbiose intestinal (os microrganismos sintetizam ácidos graxos de cadeia curta e, portanto, favorecem a redução do pH intestinal, o que facilita a absorção de alguns minerais, como o cálcio. Além disso, a microbiota, per se, sintetiza vários nutrientes, como vitamina K e vitaminas do complexo B). Presença de doenças, incluindo GASTRONOMIA FUNCIONAL 22 intolerâncias e alergias alimentares. Idade (o envelhecimento prejudica os processos digestivos, absortivos e a composição da microbiota. Não obstante, crianças com trato gastrointestinal ainda imaturo – antes dos 6 meses de idade – podem ter dificuldade em digerir carboidratos e lipídios, pois ainda não têm ação ótima das enzimas responsáveis pela digestão destes nutrientes). É possível compreender que diversos fatores podem contribuir ou prejudicar a digestão e absorção de nutrientes, sendo que estes fatores são muito singulares ao alimento/nutriente em questão. Por exemplo: aquecer uma laranja prejudica a biodisponibilidade de vitamina C, mas aquecer uma carne favorece os seus processos digestivos e absortivos. Assim, fica cada vez mais claro que a conduta nutricional deve ser individualizada a cada paciente, com cuidados especiais endereçados a cada nutriente, sendo que casos específicos exigem priorizar um nutriente além do outro, por exemplo, para um paciente com anemia ferropriva será mais interessante pensar no aumento da absorção de ferro do que de cálcio. Qual método de cocção preferir? Na atualidade, há um enfoque grande nos produtos de glicação avançada, do inglês advanced glycation end- products, cuja sigla adotada em inglês e usada em português é AGEs. Estes produtos são derivados da Reação de Maillard e ocorrem entre carboidratos e proteínas com o escurecimento dos alimentos durante processos de cocção a seco (ex.: grelhar e assar). Evidências indicam que as AGEs poderiam favorecer o estresse oxidativo e reduzir as capacidades de defesa antioxidante do organismo GASTRONOMIA FUNCIONAL 23 (menor ativação de SIRT-1, por exemplo), contribuir com o desenvolvimento de diabetes mellitus, favorecer o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer, aumentar o risco de desenvolvimento de diversos tipos de câncer etc. Considerando o potencial negativo das AGEs, uma estratégia seria reduzir o consumo de alimentos preparados por cocção a seco, preferindo alimentos crus ou submetidos à cocção úmida, como refogados. Logicamente, excluir completamente alimentos grelhados e assados da dieta pode não ser uma possibilidade para o paciente (especialmente aqueles que não se agradam de alimentos refogados). Neste sentido, uma estratégia é reduzir o consumo de alimentos grelhados e assados (não excluir), incentivando o paciente a mesclar as técnicas de cocção utilizadas para cozinhar os alimentos. Não obstante, algumas outras ferramentas podem ser utilizadas, por exemplo, incluir alecrim e cúrcuma nas preparações, haja vista que estes alimentos apresentam antioxidantes, controlar o tempo e a temperatura (de modo que ambos não excedam e otimizem a Reação de Mailard), branqueamento dos alimentos e, até mesmo, inclusão de bicarbonato de sódio em produtos de panificação parece atenuar a formação de AGEs. Vale lembrar que alimentos muito tostados (quase queimados), comuns no churrasco ou no pão na chapa, por exemplo, fornecem acroleína e derivados, que também são compostos com caráter tóxico e prejudiciais à saúde, podendo, até mesmo, aumentar o risco de câncer. Salienta-se, ainda, que as AGEs e a acroleína e derivados não são os únicos xenobióticos presentes em alimentos, devendo-se, ainda, evitar o uso de plásticos, pois estes conferem substâncias químicas prejudiciais à saúde (ex.: bisfenol A), alimentos contaminados com metais pesados, como chumbo, mercúrio e arsênico, bem como alimentos com agrotóxicos. 24 GASTRONOMIA FUNCIONAL 25 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANVISA - Ministério da Saúde. Resolução RDC nº 2, de 7 de janeiro de 2002. Regulamento Técnico de Substâncias Bioativas e Probióticos Isolados com Alegação de Propriedades Funcional ou de Saúde. 2008. [resolução na internet]. [capturado em 2017 mar 13]. Disponível em: http://elegis.anvisa.gov.br/leis ref/public/showAct.php?id=15 67. Costa, N.M.B.; Rosa, C.O.B. Livro: Alimentos funcionais: componentes bioativos e efeitos fisiológicos. Rubio, 2ª edição, 2015. Costa, N.M.B.; Rosa, C.O.B. Livro: Alimentos funcionais: componentes bioativos e efeitos fisiológicos. Rubio, 2ª edição, 2015. 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