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Na primeira aula, vimos alguns fundamentos da Linguística e agora daremos início ao estudo de conceitos mais aprofundados na Fonética e na Fonologia. Uma primeira de�nição que ajuda a delimitar o campo de atuação dessas áreas é o tema que abordaremos neste encontro: a teoria da dupla articulação da linguagem, estruturada pelo linguista francês André Martinet. • De�nir o conceito elaborado por Martinet e sua relação com a produção de linguagem; • Comparar a comunicação animal com a linguagem humana. Você já se perguntou o quanto a comunicação humana difere da comunicação entre os outros animais? Se sim, já identi�cou o que as torna distintas? Nesta aula, vamos construir as respostas a essas duas perguntas por meio do entendimento do conceito que dá nome a este segundo encontro. Vamos, entretanto, elencar antes algumas semelhanças para, depois, entender alguns motivos que tornam a expressão do ser humano tão característica e única. Primeiro, nota-se que os animais conseguem, assim como o ser humano, transmitir informações entre si, inclusive por meio de sons e movimentos. Em segundo lugar, podemos também reconhecer que a recepção dessa mensagem é efetiva, tendo em vista que bandos inteiros são alertados quanto a determinados perigos, por exemplo. A partir dessas duas justi�cativas, já conseguimos entender que existe também na comunicação animal um código comum entre determinada espécie, que possibilita a transmissão bem-sucedida de uma mensagem. Ainda assim, é possível mencionar um terceiro aspecto, de acordo com o qual pode-se reconhecer que a comunicação entre animais também é afetada pelas emoções, que podem incluir, por exemplo, o aumento de volume na emissão sonora em contextos de gravidade. Tendo em vista essas semelhanças, vamos compreender agora a dupla articulação da linguagem e, assim, estabelecer uma diferença essencial que torna a comunicação humana bastante especí�ca. Como você já sabe, a dupla articulação da linguagem é um conceito sistematizado por André Martinet. Vamos, então, compreender essa teoria por partes, começando por de�nir o que é articulação. Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online Pense, por exemplo, na anatomia do corpo humano: os ossos interligam-se por meio das articulações. Assim, embora uns sejam menores que outros, todos estão unidos e formam grupos que, por sua vez, também conectados, constituem o corpo. Tendo em vista esse entendimento, vamos compreender quais são os dois planos em que, segundo Martinet, a linguagem é articulada. A dupla articulação Clique no botão acima. Todos os elementos de uma determinada língua são formados de unidades mínimas dotadas de sentido, os morfemas, a que Martinet se refere como monemas. Essas estruturas, por sua vez, para manterem seu sentido, não podem ser divididas em unidades menores, como o próprio linguista explica: [...] é o conjunto cabeça que signi�ca cabeça, e não a soma de eventuais sentidos de cada um dos segmentos em que podemos dividi-lo: ca -be e -ça, por exemplo. (MARTINET, 1978) Martinet ilustra de maneira bastante clara, mas é importante destacar que os morfemas nem sempre coincidem perfeitamente com vocábulos. Tomemos, por exemplo, a palavra gatos. Há mais de um elemento formando essa estrutura: • gat-, radical que signi�ca mamífero felino, geralmente pequeno e peludo, criado como bicho de estimação; • -o, morfema de masculino; • -s, morfema de plural. Esse radical ainda pode unir-se a outros morfemas e dar origem a mais vocábulos, como gatil, engatinhar, gatinho etc. Lembra-se de que dissemos que os morfemas não podem ser divididos? Isso ocorre porque, como também explicamos, eles são unidades mínimas. Assim, para manterem o sentido que veiculam, não podem ser partidos em elementos menores. Vamos fazer novamente um paralelo com os ossos do corpo humano: um osso longo (o fêmur, por exemplo) é composto pelas epí�ses (as extremidades do osso) e pela diá�se (o corpo do osso). Mas repare: a epí�se não é o osso, ela faz parte da composição do osso. Assim também, o /g/ de gatos não é um morfema porque gat- não pode ser dividido. A esse elemento dá-se o nome de fonema, que é uma unidade desprovida de sentido e que compõe o morfema gat-, junto com os fonemas /a/ e /t/. Os fonemas, então, fazem parte da segunda articulação da linguagem e têm apenas valor distintivo, o que signi�ca dizer que, se substituirmos, no morfema gat-, o fonema /g/ por /p/, teremos outro radical, pat-, que forma patos, por exemplo. Quanto ao caráter distintivo dos fonemas, que não possuem signi�cado, observe, ainda, a seguinte explicação: Fonte: //ral.fmrp.usp.br/tumores_osseos.pdf https://ral.fmrp.usp.br/tumores_osseos.pdf https://ral.fmrp.usp.br/tumores_osseos.pdf https://ral.fmrp.usp.br/tumores_osseos.pdf https://ral.fmrp.usp.br/tumores_osseos.pdf https://ral.fmrp.usp.br/tumores_osseos.pdf https://ral.fmrp.usp.br/tumores_osseos.pdf Um simples grito de dor, inanalisável e inserido no contexto da expressão, pode ser o mesmo em comunidades diferentes. Já a construção estou com dor de cabeça, na exempli�cação de Martinet, além de ser analisável em unidades dotadas de uma expressão fônica e de um conteúdo semântico, será também diferentemente construída conforme o sistema linguístico em que se situa. (VIEGAS, 1986) Para sistematizar, podemos pontuar que a primeira articulação diz respeito às unidades signi�cativas, situadas no plano do conteúdo, relaciona-se, portanto, com a morfologia. Já a segunda articulação, que aponta as relações entre os fonemas, opera no plano da expressão e está inserida no campo da fonologia. Repare também que os morfemas são sempre indicados utilizando-se hífen para limitar seu início ou �m. Já os fonemas são sempre representados entre barras. Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online Repare no fato de que unidades mínimas podem, nos dois planos identi�cados por Martinet, unirem-se a outras unidades e, mesmo dentro de um conjunto �nito de itens, formar uma in�nidade de estruturas. resume bem essa qualidade: PIETROFORTE, 2004 Uma forma muito palpável de analisar o domínio da dupla articulação proposta por Martinet é observar como poetas de todos os tempos valeram-se dessa possibilidade para expressar conceitos novos, unindo, por exemplo, morfemas que nunca haviam sido utilizados conjuntamente. É provável que, ao mencionar essa forma de manipular a linguagem, você logo pense em Guimarães Rosa ou, mais contemporaneamente, em Manoel de Barros e Ondjaki. Esses são, de fato, bons exemplos do trabalho minucioso de observação do comportamento da língua e do polimento linguístico que possibilita a expressão poética. Iniciamos esta aula propondo a questão de se a linguagem é uma faculdade exclusiva dos seres humanos ou se os outros animais também a possuem. Esse assunto foi tópico de ampla explicação de Margarida Petter (2004), que menciona estudo de Karl von Frisch sobre a estrutura e a comunicação das colmeias, especialmente quanto a fontes de alimentos encontradas por abelhas-obreiras. Neste estudo, foi possível observar a precisão com que a abelha informa, por meio de dança, a distância do alimento, a direção em que se encontra e a natureza da comida, por exemplo. Essas são informações muito sensíveis e que são codi�cadas por uma componente da colmeia e decodi�cadas pelas outras. Porém, mesmo diante desse exemplo de tamanha habilidade em comunicar-se e de exatas informações transmitidas, vamos elencar alguns exemplos que se relacionam com o conteúdo que estudamos nesta aula. O primeiro ponto a ser citado é que a qualidade articulatória da linguagem humana não se replica na comunicação animal: não há a possibilidade de se decompor uma determinada mensagem em elementos mínimos que sejam combinados com outros elementos em outras situações para formar uma mensagem distinta. A dança feita pela abelha, por exemplo, atende ao propósito único deinformar determinadas coordenadas quanto à posição e tipo do alimento encontrado. Uma segunda questão diz respeito ao conteúdo da mensagem: enquanto animais têm certa limitação sobre o que comunicar, a linguagem humana permite que se produza conteúdo sobre basicamente tudo, inclusive — e aqui está a terceira diferença — sobre a própria linguagem, que é o que temos feito ao estudar Linguística. O exercício metalinguístico permite-nos pensar concreta e abstratamente sobre a linguagem humana. Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online 1. Explique o que postula a dupla articulação da linguagem e quais são as áreas da Linguística que se relacionam diretamente com cada uma delas. 2. Estudamos, nesta aula, que a dupla articulação da linguagem sistematiza a análise da constituição lexical em nível morfológico e fonológico. Vamos, então, praticar, relembrando as aulas dos ensinos fundamental e médio. Para isso, decomponha as seguintes palavras, apontando os morfemas que as compõem (lembre-se de que a divisão dos morfemas é apontada com hífen): meninos; bobo; falamos; �ta; in�nitamente. Após, escolha quatro desses morfemas e faça novas composições. 3. Observe o seguinte texto do poeta Manoel de Barros: Escrever nem uma coisa Nem outra — A �m de dizer todas — Ou, pelo menos, nenhumas. Assim, Ao poeta faz bem Desexplicar — Tanto quanto escurecer acende os vagalumes. (BARROS, 2009) O autor cria a palavra desexplicar, uma palavra ainda não dicionarizada. Qual é o sentido que o morfema des- confere ao sentido de explicar: a) Certeza. b) A�rmação. c) Dúvida. d) Negação. e) N.R.A. 4. Quantos morfemas compõem a palavra menininhos? a) 2. b) 3. c) 4. d) 5. e) 6. 5. O estudo da dupla articulação da linguagem permite que a�rmemos que: a) O falante faz uso de um número ilimitado de fonemas para criar dezenas de morfemas que, combinados, dão origem a uma �nitude de palavras, qualidade expressa no princípio da economia linguística. b) O falante faz uso de um número limitado de morfemas para criar milhares de fonemas que, combinados, dão origem a uma in�nidade de palavras, qualidade expressa no princípio da economia linguística. c) O falante faz uso de um número limitado de fonemas para criar milhares de palavras que, combinados, dão origem a uma in�nidade de morfemas, qualidade expressa no princípio da economia linguística. d) O falante faz uso de um número limitado de fonemas para criar milhares de morfemas que, combinados, dão origem a uma in�nidade de palavras, qualidade expressa no princípio do desperdício linguístico. e) O falante faz uso de um número limitado de fonemas para criar milhares de morfemas que, combinados, dão origem a uma in�nidade de palavras, qualidade expressa no princípio da economia linguística. BARROS, M. O guardador de águas. Rio de Janeiro: Record, 2009. MARTINET, A. Elementos de linguística geral. São Paulo: Martins Fontes, 1978. PETTER, M. Linguagem, língua, linguística. In: FIORIN, J. L. Introdução à linguística. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2004. PIETROFORTE, A. V. A língua como objeto da Linguística. In: FIORIN, J. L. Introdução à linguística. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2004. VIEGAS, A. M. A dupla articulação da linguagem. In: Revista do Centro de Estudos Portugueses, [S.l.], v. 9, n. 12, p. 53-57, dez. 1986. ISSN 2359-0076. Disponível em: //www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/cesp/article/view/4442/4217 . Acesso em: 4 jun. 2019. • Bases �siológicas da produção da fala; https://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/cesp/article/view/4442/4217 https://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/cesp/article/view/4442/4217 https://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/cesp/article/view/4442/4217 https://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/cesp/article/view/4442/4217 https://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/cesp/article/view/4442/4217 https://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/cesp/article/view/4442/4217 https://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/cesp/article/view/4442/4217 https://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/cesp/article/view/4442/4217 https://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/cesp/article/view/4442/4217 • Aparelho fonador; • Fonética articulatória. Além das obras indicadas no decorrer da aula e nas referências, você pode ler mais sobre o assunto em: • MARTELOTTA, M. E. Dupla articulação. In: MARTELOTTA, M. E. Manual de Linguística. São Paulo: Editora Contexto, 2008.