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Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial Trauma e Cirurgia Ortognática Michael Ehrenfeld - Paul N Manson - Joachim Prein Revisão: Danilo de Moraes Castanha (danilo.castanha@hotmail.com) Tradução, formatação e revisão: Thaynan Escarião da Nóbrega (thaynan.en@gmail.com) 2 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Danilo de Moraes Castanha Residente em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial – Universidade Federal da Paraíba (HULW/UFPB) Graduação em Odontologia – Centro Universitário Tabosa de Almeida (ASCES/UNITA) Thaynan Escarião da Nóbrega Mestrando em Biologia Buco-Dental – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) Graduação em Odontologia – Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) Graduação Sanduíche (EUA) – State University of New York (SUNY) 3 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 4 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 5 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 6 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 7 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Sumário 1. Aspectos Gerais ................................................................................................................................ 15 1.1. Introdução ........................................................................................................................................ 15 1.1.1. A missão da fundação AO .................................................................................................... 15 1.1.2. Pesquisa e desenvolvimento dentro da fundação AO ........................................................... 16 1.1.3. O Sistema TK em CMF ........................................................................................................ 18 1.1.4. Educação............................................................................................................................... 20 1.1.5. Investigação clínica e documentação .................................................................................... 21 1.1.5.1. AOCID missão e estratégia .......................................................................................... 21 1.1.5.2. Fazendo a pesquisa clínica ........................................................................................... 21 1.1.5.3. Usando a pesquisa clínica ............................................................................................ 22 1.1.5.4. Resumo ........................................................................................................................ 23 1.1.6. Classificação das fraturas craniomaxilofacial segundo AO .................................................. 24 1.1.6.1. Conceito geral e objetivos de uma classificação das fraturas ...................................... 24 1.1.6.2. Uma breve história das classificações CMF ................................................................ 26 1.1.6.3. Evolução da moderna classificação das fraturas craniomaxilofacial da AO ................ 27 1.1.6.4. Perspectivas futuras ..................................................................................................... 32 1.2. Osso ................................................................................................................................................... 33 1.2.1. Origem dos ossos do crânio .................................................................................................. 33 1.2.2. Estrutura ............................................................................................................................... 33 1.2.3. Composição química ............................................................................................................ 36 1.2.4. Propriedades mecânicas ........................................................................................................ 36 1.2.5. Glossário mecânico............................................................................................................... 37 1.3. Fraturas no esqueleto craniomaxilofacial ...................................................................................... 38 1.3.1. Biomecânica do esqueleto craniomaxilofacial ...................................................................... 38 1.3.1.1. Introdução .................................................................................................................... 38 1.3.1.2. Biomecânica da mandíbula em detalhes ...................................................................... 42 1.3.1.3. Biomecânica do terço médio da face em detalhes........................................................ 44 1.3.1.4. Reparação de estruturas ............................................................................................... 44 1.3.2. Fratura e suprimento sanguíneo ............................................................................................ 45 1.3.3. Reação biológica e cicatrização óssea .................................................................................. 48 1.3.3.1. Cicatrização por primeira intenção .............................................................................. 49 1.3.3.2. Cicatrização por segunda intenção através da formação de calo ................................. 51 1.3.3.3. Passos da cascata de diferenciação .............................................................................. 52 1.3.3.4. Não-união .................................................................................................................... 55 1.3.3.5. União atrasada.............................................................................................................. 56 1.4. Material e tipos de implante ........................................................................................................... 57 1.4.1. Metais, superfície, e interações teciduais .............................................................................. 57 1.4.1.1. Metais .......................................................................................................................... 57 8 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.4.1.2. Superfícies ................................................................................................................... 60 1.4.1.3. Interações teciduais ...................................................................................................... 61 1.4.1.4. Resumo ........................................................................................................................ 65 1.4.2. Osteossíntese biodegradável: passado, presente e futuro...................................................... 66 1.4.2.1. Introdução .................................................................................................................... 66 1.4.2.2. História ........................................................................................................................ 67 1.4.2.3. Química de polímeros .................................................................................................. 69centro intermediário do terço médio da face (I); centro inferior do terço médio da face (L), frontal (F), parietal (P), esfenoidal (S), temporal (T). Na classificação de nível 2, o corpo mandibular é subdividido por linhas verticais em subdivisões orientadas horizontalmente (Fig 1.1.6-3). O estado dentário, a altura do osso vertical ou qualquer grau de atrofia não são itens explícitos no nível 2. No entanto, é necessário reconhecer a dentição uma vez que as raízes dos dentes são usadas para fornecer marcações de linha de base para dividir a mandíbula em regiões. Portanto, um conjunto completo de dentes permanentes é plotado nos gráficos de nível 2 da mandíbula. Quatro zonas de transição foram interpostas entre as regiões mandibulares para obter corredores na largura aproximada do canino ou do terceiro molar para a alocação inequívoco de cursos de fratura no limite, ou, passando obliquamente através dos limites de regiões adjacentes. 31 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig 1.1.6-3 – Proposta de classificação do nível 2 da terceira geração da AOCMF: vista panorâmica da mandíbula. Regiões do corpo = 1 (zonas transicional anterior) / Região do Ramo = 2 (zonas transicional posterior). processo condilar (P), coronoide (C), anglo/ramo (A), corpo (B), sínfise/parasínfise (S). Não é pura nostalgia que a classificação modular da fratura do nível 2 do terço médio da face se encaixa com o padrão clássico de fratura Le Fort. O desenho Le Fort é popular na comunidade médica e não deve ser substituído porque se encaixa idealmente nos requisitos atuais para uma classificação de fratura. É facilmente entendido, depende de programas visuais, e evita problemas de linguagem ou semântica. A classificação de fraturas do nível 2 do terço médio da face delineia os níveis de Le Fort (exceto o zigoma) com a ajuda de três partições horizontais empilhados um acima do outro, ao lado dos pilares do centro do terço médio da face (Fig. 1.1.6 - 2a-b): centro inferior do terço médio da face (LCM), centro intermediário do terço médio da face (ICM) e centro superior do terço médio da face (UCM). As deficiências óbvias da classificação de Le Fort são compensadas: cenários de padrão de fratura além das rupturas no esqueleto impactadas pela baixa energia monótona produzidas em seus experimentos (ou seja, golpes diretos com um taco de madeira ou pancadas de cabeça contra a borda redonda da mesa de autópsia) com cominuição, inclusão de múltiplas unidades do terço médio da face, extensão na base e calota craniana adjacente, ou envolvimento da mandíbula em termos de fraturas pancraniofaciais (pan = todo, por inteiro) são levado em consideração pela cartografia. Cada módulo de classificação específico de área será explicado em detalhes e ilustrado com exemplos de casos, em particular, brochuras instrutivas e em uma edição especial da Revista “Craniomaxilofacial Trauma and Reconstruction Journal” (Lê-se: Revista de Trauma e Reconstrução Craniomaxilofacial). Para facilitar a classificação e codificação de fraturas em procedimentos clínicos de rotina, o software foi lançado e pode 32 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática ser baixado: Classificador Automático de Lesões Compreendidas da AO (AOCOIAC), (http://www.aofoundation.org/aocoiac). 1.1.6.4. Perspectivas futuras Leva tempo para adquirir experiência em classificações de fraturas e as versões atuais certamente não representarão o fim de o processo de desenvolvimento. Embora o software existente de classificação CMF nível 2 forneça uma lógica visual quase não verbal, permitindo documentação sem esforço, ainda parece excessivamente ambicioso para gerar um software de interface de usuário intuitivo para caracterizar a morfologia da fratura no próximo nível. O nível 3 tem que lidar com um enorme número de variáveis (lesões dos dentes e periodonto, atrofia óssea, número e distribuição espacial das linhas de fratura), as quais dificilmente podem ser exibidas na forma de símbolos, ícones ou miniaturas, que podem ser marcadas simplesmente apontando e clicando. Outra questão não resolvida é a agravante restrição de tempo dos médicos. Fusão de imagens de tomografia computadorizada e gráficos de classificação, seguidos por análise automática, podem ser uma resposta técnica para o problema. Os avanços tecnológicos não irão apenas melhorar a precisão da avaliação e do diagnóstico, mas irão também detectar continuamente imperfeições desconhecidas de classificação anteriores. http://www.aofoundation.org/aocoiac 33 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.2. Osso 1.2.1. Origem dos ossos do crânio Durante a embriogênese, dois mecanismos diferentes de formação ocorrem no crânio. No dermatocrânio (exocrânio) a ossificação ocorre por deposição mineral direta na matriz orgânica do mesênquima ou tecido conjuntivo, resultando em um processo chamado formação óssea membranosa, o qual é o principal processo de ossificação do crânio. Ossos frontais, parietais, nasais, maxila, zigoma, e a mandíbula são todos formados por esse mecanismo. Formação óssea endocondral é o mecanismo no condrocrânio (endocrânio). Aqui um modelo cartilaginoso é formado, o qual se mineraliza e depois é substituído por osso. No crânio, a origem cartilaginosa do osso é confinada à base do crânio, osso occipital, septo nasal e componentes internos do nariz. Crescimento adicional em membranas, assim como em osso de origem endocondral, ocorre pelo mecanismo membranoso. Assim, quase nenhum osso de origem cartilaginosa pode ser observado após conclusão de todos os processos de modelação e remodelação que ocorrem durante o crescimento. Embora pareça haver diferenças no fenótipo de células ósseas de locais de origem diferente, os processos de reparo seguem os mesmos padrões membranosos independentemente da origem embriológica do osso. 1.2.2. Estrutura Dependendo das demandas funcionais, o osso apresenta-se como uma construção leve, osso esponjoso, ou de forma compacta, osso cortical. Essa aparência não está diretamente relacionada a composição microscópica e origem do tecido ósseo. A mandíbula consiste principalmente de osso compacto, com porções esponjosas no côndilo, ângulo e corpo. A calota craniana é uma construção de três camadas com as lâminas interna e externa formadas de osso compacto, separada pela região esponjosa (díploe). Os ossos do terço médio da face consistem principalmente de camadas finas e compactas, suportadas por uma estrutura óssea mais estável, enquanto os ossos da base do crânio têm uma aparência mais compacta. O osso como um tecido é formado primeiro como um material relativamente frouxo, osso não lamelar (matriz neoformado, inglês “woven bone”), em um processo que procede relativamente rápido. Em seguida é reforçado por deposição óssea adicional nas malhas desse material frouxo e em suas superfícies (Fig. 1.2-1). Este último tipo de 34 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática osso, osso lamelar, é formado mais lentamente, camada por camada, a uma velocidade de cerca de 1 a 2 mm por dia. Como resultado, esse osso é mais organizado e mais compacto. Uma vez formado, o osso passa por modelação e remodelação contínuas para se adaptar às demandas funcionais (Fig. 1.2-2). Fig. 1.2-1 - Formação óssea inicial como tecido ósseo não lamelar (woven bone) que depois será reforçado por deposição óssea lamelar. Em verde o osso não lamelar; vermelho indica a recente deposição de osso não lamelar; amarelo indica osteoide; setas indicam os osteócitos; e círculos indicam os vasos sanguíneos.Fig. 1.2-2 – O osso passa pelo processo contínuo de remodelação para se adaptar as demandas funcionais. O: osteócito vivo corado em rosa dentro da lacuna Dle: lacuna do osteócito vazia Bv: vaso sanguíneo (vermelho) Hc: Canal Haversinano Os osteoclastos são responsáveis por essas mudanças estruturais (Fig. 1.2-3), os quais são grandes células multinucleares, que localmente descalcificam e removem o osso. Os osteoblastos (Fig. 1.2-4) são responsáveis pela síntese da matriz orgânica e da mineralização de osso novo. Os osteoclastos são derivados do sistema hematopoiético, onde monócitos e macrófagos são considerados precursores. Os osteoblastos têm origem de células osteoprogenitoras e mesenquimais. Durante a deposição óssea, osteoblastos são aprisionados no novo osso, tornando-se osteócitos, que são conectados entre si por processos de células finas, canalículos (Fig. 1.2-5). Através dessa fina rede canalicular, a troca rápida de íons de cálcio é possível. Ocasionalmente, essa troca se torna visível como osteólise osteocítica ou mineralização periosteocítica. Para manter a massa óssea constante, a função dos osteoclastos e osteoblastos tem que ser bem balanceada. Um desequilíbrio pode ser observado em condições patológicas. Se a função osteoclástica dominar sobre a formação óssea osteoblástica o resultado será a perda óssea (osteoporose). Uma maior densidade óssea 35 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática resulta quando ocorre alteração nas funções dos osteoclastos, como por exemplo na osteopetrose ou por a influência de agentes terapêuticos (inibidores de osteoclastos). Fig. 1.2-3 – Osteoclastos, grandes células multinucleares, são capazes de descalcificar osso e então remover a matriz orgânica. Na zona periférica (entre as setas) os osteoclastos estão intimamente ligados a superfície do osso, criando uma zona subcelular entre o osso e a base do osteoclasto. Dentro desse compartimento de reabsorção superácido (pH 4,5), a desmineralização ocorre. N indica o núcleo. Fig. 1.2-4 – Osteoblasto (O) são responsáveis pela formação e mineralização do novo osso. Entre as setas, frente de mineralização. Fig. 1.2-5 – A nutrição do osso ocorre através da fina rede canalicular que conecta os osteócitos. Bv indica vasos sanguíneos. 36 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.2.3. Composição química O osso é composto por uma matriz orgânica preenchida de substâncias inorgânicas. A soma dos componentes inorgânicos representa aproximadamente 65% da massa total. O tecido ósseo é o reservatório mais importante de íons cálcio, permitindo a liberação rápida em casos de alta demanda, ou armazenamento rápido em casos de excesso. Isto é importante para manter estritamente o nível sérico de cálcio dentro dos limites. Hidroxiapatita [Ca10(PO4)6(OH)2], juntamente com outros sais de cálcio e fósforo, é o principal constituinte inorgânico. Além do cálcio, sais ósseos contêm quantidades relevantes de magnésio, potássio, cloro, ferro e carbonato. O componente orgânico do osso consiste em cerca de 90% de colágeno, principalmente do tipo I. Os 10% restantes são proteínas e lipídios não colagenosos. Essas proteínas incluem 23% de osteonectina, 15% de osteocalcina, 9% de sialoproteína, 9% de fosfoproteínas, 5% de α2-HS glicoproteína, 4% de proteoglicanos, 3% de albumina e outras proteínas em pequenas quantidades. Nos últimos anos, um grande grupo de proteínas ósseas tem sido identificado os quais têm funções importantes na renovação óssea e reparo ósseo quando liberados. 1.2.4. Propriedades mecânicas O osso como material é um compósito, comparável com materiais técnicos como concreto reforçado com aço ou polímero reforçado com fibra. As fibras de colágeno são responsáveis por assumir as forças de tração, enquanto a fase mineral absorve forças compressivas. A microestrutura determina as características mecânicas dos materiais. Foi demonstrado que as fibras mostram orientação específica dependendo da força aplicada. Isso resulta em características de um material anisotrópico, o que significa que as propriedades são diferentes em diferentes direções. Semelhante aos materiais técnicos, o comprimento da fibra influencia nas propriedades mecânicas. Uma remodelação intensa, que interrompe as estruturas existentes, leva a uma alteração nas propriedades do material. Isso é provavelmente menos importante para forças de compressão, mas pode desempenhar um papel nas forças de tensão ou cisalhamento. Osso é bastante frágil; tolera apenas um alongamento de 2% antes que quebre. O osso "material" tem uma força máxima de cerca de 1 MPa, em que a resistência à tração é de apenas dois terços da resistência à compressão. Isso explica por que osso geralmente falha primeiro no lado da tensão quando está dobrado. As propriedades mecânicas de um osso 37 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática não-vital não são dramaticamente diferentes dos ossos vivos, mas uma remodelação contínua é necessária para evitar acúmulo de lesões por microtrauma, o que pode resultar em uma fratura por fadiga. O osso como órgão possui características de design adaptadas aos requisitos mecânicos locais. O modelo normalmente inclui reserva ampla para cargas de pico. Dependendo das demandas locais, o osso aparece como vigas, compactas ou ocas, ou de construção leve, como osso esponjoso. As propriedades mecânicas do osso esponjoso dependem da quantidade de material, orientação, espessura e conectividade das trabéculas. A força do osso esponjoso cobre um amplo espectro, mas normalmente é menor que um décimo do osso cortical. 1.2.5. Glossário mecânico Terminologia técnica é encontrada ao lidar com biomecânica esquelética relacionada ao tratamento de fraturas. Uma pequena seleção é explicada aqui de maneira simplificada e mais detalhes podem ser encontrados nos livros. Quando uma força (Newton, N) atua sobre um corpo produz uma tensão interna (σ, força por unidade de área, N/m2). Um momento é a força atuando com um braço de alavanca, sua unidade sendo Newton vezes metros (Nm). Sob tal força, um corpo é deformado. A razão de deformação, sendo a mudança de comprimento por comprimento original é chamada de deformação específica (ε=δL/L). É sem unidade e descreve a alteração da dimensão original em porcentagem. A relação entre uma força e a deformação resultante é chamada de rigidez. Quanto menor a rigidez, maior a deformação. Uma carga pode consistir em até três vetores de força e três componentes de momento. Pode ser estático ou dinâmico, e pode ser produzido por tensão, compressão, flexão, torção, cisalhamento ou por uma combinação destes. A força pode ser descrita como a carga que um corpo pode suportar, e geralmente é dado como força final, o máximo que o corpo pode suportar. A palavra "estabilidade" é frequentemente usada em contexto com fixação de fraturas. Tecnicamente, este termo não está bem definido. É usado para descrever um certo grau de fixação considerado adequado para permitir a cicatrização de fraturas em uma situação específica. Assim, a personalidade do paciente, o tipo de fratura, situação esperada da carga, condições de tecidos moles, tempo de cicatrização, e muitos outros parâmetros são importantes no contexto clínico. 38 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.3. Fraturas no esqueleto craniomaxilofacial 1.3.1. Biomecânica do esqueleto craniomaxilofacial 1.3.1.1. Introdução O esqueleto craniomaxilofacial fornece uma estrutura de proteção aos órgãos moles, incluindo os olhos e o cérebro. Além disso, contém entidades funcionais importantes, comoas vias aéreas e o aparelho mastigatório. Os ossos do esqueleto facial, o crânio e a base do crânio formam uma estrutura óssea estruturalmente estável, na qual os músculos se inserem em locais que permitem suspensão e movimentos controlados de músculos e pele. O design hemisférico e a estrutura em camadas da calota craniana a torna especialmente adequada para proteger o cérebro contra impacto direto. A estrutura celular do terço médio da face, reforçado pelo sistema órbito-zigomático, funciona como uma estrutura de absorção de choque, absorvendo energia quando as fraturas ocorrem. A mandíbula age mecanicamente como um feixe curvo no plano axial e é sustentada pelos principais músculos que inserem na área do ângulo e do ramo ascendente, e por articulações em cada extremidade. Essa estrutura curva possui um par de suporte de cada lado, chamada de cinta ptérigo-massetérica. Consistente com as leis naturais da física, todas as barras curvas ou suportes desenvolverão regiões de tensão na compressão ou tensão em relação a um local de carga. Uma carga na linha média da mandíbula gerará tensão oposta à carga (ao longo da superfície inferior) e compressão no local de mordida quando visto no plano coronal. Uma carga posterior se desenvolverá em um padrão similar na posição de mordida vista no plano sagital, com uma reversão relativa de tensão na posição contralateral. Ainda permanece inconsistente com as leis da física para definir a superfície alveolar como uma zona de tensão para todos os cenários de força de mordida. Esta descrição continua a ser usada incorretamente na literatura em conflito com a ciência básica. Durante a mastigação, a mandíbula se move em relação ao resto do crânio. As forças atuam nos locais de fixação da musculatura de mastigação e no plano oclusal no local de mordida. Essas últimas forças de mordida são transmitidas dos dentes para o osso alveolar e de lá para as estruturas da mandíbula e maxila. A maxila é conectada por seis trajetórias verticais ao complexo órbito-zigomático, que é depois conectado ao neurocrânio (Fig. 1.3.1-1). 39 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.3.1-1 – Os pilares verticais do esqueleto facial (nasomaxilar, zigomático-maxilar e ptérigomaxilar). A carga do plano oclusal pode atingir altos valores de força. As forças máximas de mordida em uma população média são encontradas em uma ordem de magnitude de 200 a 300 N na área do incisivo, 300 a 500 N na região de pré-molar, e 500 a 700 N na região de molar. Os valores encontrados durante a mastigação normal geralmente são muito menores, atingindo apenas uma fração das forças máximas de mordida. Essas forças mastigatórias normais causam micro-deformações dos ossos da face como resultado das condições de tensão, mas as forças funcionais nunca causam fraturas em um esqueleto saudável. No momento da deformação dos ossos faciais, pressão, tensão, cisalhamento e zonas neutras são observadas. Durante as cargas mastigatórias complexas e fisiológicas, as áreas para as variadas forças mudam rapidamente ao longo do tempo e de acordo com a situação individual da carga. Deformações similares são observadas quando forças externas agem nos ossos faciais, entretanto, com condições de tensão que podem exceder as capacidades das estruturas de suportar carga. Nesse caso, as áreas de tensão, compressão ou cisalhamento dependem do vetor das forças externas (Fig. 1.3.1-2a-b, 1.3.1-3a-b). 40 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.3.1-2a-b – a – Força externa anteriormente resultando em forças de tensão superiormente e forças de compressão inferiormente no interior da mandíbula. b – Força externa posteriormente resultando em forças de tensão inferiormente e forças de compressão superiormente no interior da mandíbula. Fig. 1.3.1-3a-b a – O resultado de forças laterais agindo contra a mandíbula, a zona de compressão é lateral e a zona de tensão é medial. b – Fratura por deslocamento como resultado das forças agindo lateralmente contra a mandíbula. O comportamento biomecânico da mandíbula foi estudado usando Análise de Elementos Finitos (FEA). Esses estudos confirmam que áreas de compressão, tração, cisalhamento e forças neutras mudam dinamicamente com a carga do vetor e a quantidade absoluta de carga (Fig. 1.3.1-4a-c). 41 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática (Fig. 1.3.1-4a-c) a – Modelo de elemento finito da mandíbula, carga na linha média, e vista da linha média. Observar a região relativa de tensão na superfície lingual inferior. (Lê-se “tensão” para as cores quentes e “compressão” para as cores frias). b – Modelo de elemento finito da mandíbula, com carga na região molar. Vista posterior da linha média. c – Modelo de elemento finito do crânio. Parcialmente edêntulo. Pressão nos dentes anteriores. Zona de tensão na área inferior esquerda da mandíbula, bem como do lado esquerdo paranasalmente. Uma osteossíntese deve ser realizada com intrumentos de tamanho apropriado e colocados de modo que as forças fisiológicas sejam distribuídas de maneira consistente com os padrões normais de tensão. A mandíbula é constituída principalmente de um osso sólido. O terço médio da face inclui ambos, ossos finos semelhantes a conchas e fortes pilares verticais e horizontais ao redor das órbitas, cavidade nasal e seios paranasais. Localizados dentro deste sistema complexo compartimental, existem vários pilares que podem tolerar forças mais altas (Fig. 1.3.1-5). 42 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.3.1-5 – Pilares do esqueleto facial, transversal (azul), vertical (vermelho), e sagital (verde). 1.3.1.2. Biomecânica da mandíbula em detalhes • A mandíbula exibe comportamento consistente como uma barra curva estabilizada por uma cinta em cada extremidade (músculos). • A superfície de carga (superfície superior) funciona como o ponto de contato com o terço médio da face (dentes, próteses). • Os pontos de carga variam de localização de posterior para a linha média e para posterior (contralateral), sendo consistente com a física, os locais de pressão (tração e compressão) variam dependendo da localização da carga (mordida). 43 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática • Não há suporte muscular (dinâmico) na linha média durante o recebimento de carga. Cargas funcionais nesta região imediata desenvolvem pressões compressivas na margem superior e pressões de tração na margem inferior. • A geometria da mandíbula, consistente com barras curvas, desenvolve a maior parte da pressão em qualquer local de carga nas margens superior e inferior da estrutura. Quando a estrutura óssea é separada por lesão (por exemplo, fratura, osteotomia), os instrumentos usados para restaurar a geometria são mais eficientes em suporte funcional quando colocado em áreas de máxima pressão natural por tração. As pressões são tipicamente minimizadas na seção intermediária de uma barra curva suspensa (zona neutra), dependendo do padrão de carga. O aumento na pressão cria zonas de tração ou compressão. • No entanto, devido as mudanças que ocorrem rapidamente durante a função entre as zonas de compressão e tração, a colocação de material de osteossíntese na chamada zona neutra é uma técnica estabelecida, especialmente para tratar fraturas na lateral do corpo da mandíbula, sendo geralmente muito eficaz porque a “zona neutra” está descrita incorretamente, pois esta não é "neutra". • Os instrumentos usados para reparar uma mandíbula danificada terão resultados previsíveis a longo prazo se, apósaplicação, a distribuição original de pressão pré- lesão for restabelecida. Instrumentos, independentemente do tamanho (força, estabilidade), que alterem significativamente os padrões de pressão podem apresentar insucesso. A biologia também exige que o local de fratura tenha um ambiente “tranquilo” para cicatrização celular (ausência de movimento que iria dificultar/perturbar). • Áreas da mandíbula (parte média e corpo) que sofreram fratura e aplicação de placa para reparo, sofrerá pressões alternadas dependendo da localização da mordida. Cargas posterior ao local da fratura resultará em compressão na margem superior no local da fratura e tração na margem inferior. Cargas anteriores ao local levarão para padrões de pressão opostos. Somente à medida que a cicatrização progride que a pressão por tração pode ser transmitida na área de fratura. A pressão compressiva, entretanto, pode se apresentar pelo contato dos segmentos de fratura. 44 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.3.1.3. Biomecânica do terço médio da face em detalhes A biomecânica do terço médio da face é menos compreendida devido à geometria significantemente mais complicada e as condições de carga. No entanto, noções básicas de mecânica são aplicadas. • As superfícies oclusais do terço médio da face recebem carga de igual magnitude e direção oposta às da mandíbula. • As áreas da estrutura que são mais rígidas devido as propriedades do material e geometria têm a menor probabilidade de deformação quando submetidos a uma carga, e sofrem maiores forças durante a função. No terço médio da face, componentes mediais e verticais laterais da maxila e zigoma (pilares medial e lateral por convenção) suportam o fluxo de força preferencialmente através dessas estruturas durante a aplicação de carga na superfície oclusal. • Contração dos tecidos moles da cinta massetérica (grupos de músculos) desenvolve forças iguais na origem e inserção com tensões distribuídas diferencialmente devido a diferenças significativas na geometria do terço médio da face e mandíbula. • Os anexos de tecidos moles, incluindo a fáscia, contribuem para estabilidade geral dos componentes (isto é, fáscia temporal) e, quando danificado durante uma lesão ou reparo, alterará as distribuições de tensões de estruturas locais. 1.3.1.4. Reparação de estruturas • Serão mais previsíveis em resultados os sistemas que voltam com mais precisão para o estado de não lesão (incluindo geometria e propriedades do material), e os que resultam em menor dano possível às estruturas biológicas e mecanismos. • Danos a um sistema podem ocorrer com técnicas de reparo menos sensível às contribuições dos tecidos moles (suprimento sanguíneo) para função e cicatrização celular. Ao tratar uma fratura, deve-se entender que o osso e o material para osteossíntese constroem um sistema complexo de interação. A estabilidade de uma osteossíntese não é 45 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática apenas dependente do tamanho de uma placa ou parafuso, mas também da sua colocação, propriedades do material, técnica de aplicação, e a condição do osso (tamanho, densidade, orientação celular). Sob condições favoráveis, e com a aplicação adequada de instrumento, o osso serve como um pilar e fornece um caminho para forças funcionais atuarem em cada lado da fratura, desenvolvendo padrões de tensão, enquanto permanece estável suficiente para mastigação sem falha e cicatrização sem intercorrências. Quanto mais fraco é o osso, menos ele pode ajudar na estabilidade de um osteossíntese. Nesse caso, o material usado para osteossíntese deve ser mais forte (essencialmente deve permanecer estável sob carga funcional, servindo como um caminho para que as forças desenvolvam padrões de tensão). A abordagem mais previsível na reparação de qualquer sistema dinâmico e complexo é criar uma solução que mimetize o estado natural funcional e minimize danos adicionais ao sistema quando estão envolvidos no reparo (respeite os tecidos moles, delicadamente coloque dispositivos que são consistentes com as exigências materiais da estrutura natural, e retorna às forças de distribuição ao normal, permitindo a cicatrização sem intercorrências). 1.3.2. Fratura e suprimento sanguíneo Uma fratura interrompe não apenas a mecânica, mas também a continuidade biológica do osso. A situação circulatória após uma fratura influencia em grande parte o processo de cicatrização subsequente, através do qual o nível em que a circulação é interrompida tem grande impacto no resultado. Se vasos aferentes estiverem danificados fora do osso, ou se a fratura incluir vasos maiores, como uma artéria, as principais áreas ósseas ficaram comprometidas. Em todos os casos, vasos intracorticais como os dos canais Haversianos e de Volkmann são interrompidos ao longo do plano da fratura. A circulação intracortical é um sistema de pressão baixa. Após lesão, ocorre coagulação no interior dos vasos interrompidos, que param o sangramento. Além disso, a inibição do efluxo leva ao congestionamento, seguido por mais coagulação. Isso deixa a parte final do fragmento sem suprimento sanguíneo adequado. Se uma reconexão com a circulação não for obtida dentro de algumas horas, o fechamento dos vasos se torna irreversível e os osteócitos do osso comprometido sofrem necrose. Uma circulação em funcionamento é um pré-requisito para um processo bem sucedido de cicatrização. Enquanto a recuperação vascular ocorre relativamente rápida 46 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática nos tecidos moles, a situação é mais complexa no interior do osso, especialmente osso compacto, porque o espaço para novos vasos tem que ser primeiramente aberto. Após 2 a 3 semanas, uma recanalização das vias vasculares, porém com trombose, inicia-se (Fig. 1.3.2-1). As áreas do osso necrosado são removidas pela atividade osteoclástica, partindo do osso em perfusão e entrando gradualmente na área necrótica ao longo dos canais vasculares reabertos (Fig. 1.3.2-2), removendo osso necrótico. Fig. 1.3.2-1 – Perfusão interrompida de osso compacto. O corante azul marca a região de circulação intacta. Nas bordas da área interrompida (pontos finais formando uma linha) os vasos ganham novamente acesso a circulação (setas). Fig. 1.3.2-2 – Remodelação intracortical na área de perfusão interrompida. Osteoclastos (Oc) “furam” canais nos ossos antigos, osteoblastos (Ob) preenchem esses canais com osso novo. Setas indicam a direção do crescimento ósseo. Novos vasos seguem os osteoclastos; posteriormente, os osteoblastos preenchem os canais alargados com osso novo (Fig. 1.3.2-3). Normalmente, essa remodelação é limitada à zona em que a circulação foi comprometida. O osso não perfundido velho deve ser removido antes que o osso novo possa ser construído, há um período de transição em que um osso cicatrizante, especialmente nas extremidades do fragmento, aparece menos denso nos raios-x. 47 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.3.2-3 – Osso compacto parcialmente remodelado. Preto indica o osso antigo; verde indica o osso novo; e vermelho os vasos sanguíneos (Bv). O trauma da fratura deixa um hematoma entre as extremidades dos fragmentos. Existem evidências de que esse hematoma pode ser uma fonte de células precursoras envolvidas na diferenciação tecidual. A invasão vascular do hematoma da fratura é um pré-requisito para o início da cascata de diferenciação (consulte capítulo 1.3.3 Reação biológica e cicatrização óssea), que finalmente leva a uma ponte óssea da fratura. Durante este processo, o espaço entre os fragmentos permanecesem vasos através do plano de fratura, desde que haja significativo movimento entre os fragmentos. Uma reconstrução das principais estruturas intracorticais e vasos medulares é possível somente após união e remodelação da fratura em direção à forma original do osso. Uma desvantagem é que um hematoma oferece excelentes condições para o crescimento bacteriano. Isso aumenta a suscetibilidade à infecção, uma vez que os mecanismos naturais de defesa não têm acesso às áreas não perfundidas. Isso resultará em uma osteite e os osteoclastos tentaram remover o osso necrosado, resultando na formação de sequestro ósseo (Fig. 1.3.2-4) 48 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.3.2-4 – Sequestro ósseo de áreas não perfusadas (condição depois de uma osteossíntese com fio em uma fratura experimental mandibular em uma ovelha). A circulação está interrompida nas extremidades do fragmento e na área onde o procedimento operatório foi realizado. Osteoclastos estão tentando remover o osso necrosado, resultando na formação do sequestro ósseo. O tratamento operatório interfere no suprimento sanguíneo ósseo, além do dano produzido pelo trauma inicial. Manipulações para o alinhamento e a perfuração de furos danificam diretamente a circulação cortical, e as placas atrapalham o efluxo no lado periosteal. Por outro lado, a estabilização operativa oferece certas vantagens. Recuperação rápida da circulação intramedular se torna possível, e um cruzamento direto de capilares a partir de uma extremidade de um fragmento para o outro permite uma união exatamente na posição em que os fragmentos foram alinhados. 1.3.3. Reação biológica e cicatrização óssea Um suprimento sanguíneo suficiente, a presença de células específicas, e condições mecânicas adequadas são os pré-requisitos para a cicatrização de fraturas sem interferência. A cicatrização de fraturas pode ocorrer sob diferentes graus de movimento entre fragmentos, variando da imobilização absoluta da zona de fratura, ou seja, sem abertura e fechamento do plano de fratura sob carga funcional, para moderar excursões 49 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática das extremidades dos fragmentos quando uma fixação não estável é realizada. O alcance de movimento, que é dependente se a fratura é ou não tratada, desta maneira, determina o padrão de cura. Dependendo do ambiente biológico e biomecânico, três cenários básicos podem ser diferenciados: 1. Cicatrização óssea por primeira intenção (cicatrização por contato ou fenda) 2. Cicatrização óssea por segunda intenção via formação de calo 3. Sem cicatrização óssea 1.3.3.1. Cicatrização por primeira intenção Nos casos em que o movimento entre fragmentos pode ser completamente evitado, o padrão de cicatrização é obtido, o qual é caracterizado por aumento da remodelação intracortical, dentro e entre as extremidades do fragmento. O contato ósseo entre os fragmentos é necessário para manter a estabilidade. Este é o caso da osteossíntese por compressão, condições de suporte (apoio), ou osteossíntese load-bearing. As áreas de contato e as zonas em fenda de diferentes larguras caracterizam a situação morfológica entre a extremidade do fragmento. Nas zonas de contato, a remodelação Haversiana segue o plano de fratura. Isso leva a uma ponte óssea direta de uma estrutura a qual já é osso maduro e é orientada na direção axial pré-lesão (Fig. 1.3.3-1a-b). Fig. 1.3.3-1a-b – a – Fixação estável funcional de uma fratura mandibular com excelente reposição como uma pré- condição para cicatrização por primeira intenção. b – Seção ampliada de (a): área de contato da cicatrização por primeira intenção, ponte óssea direta mostrando os ósteons cruzando a área de fratura. 50 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Nas áreas vizinhas de não carga (fendas) uma quantidade mínima de movimento é possível, mas é limitado pela deformabilidade elástica das zonas de contato vizinhas. Enquanto não houver destruição de osso nas áreas de contato, o movimento na fenda é suficientemente pequeno para manter a tensão entre fragmentos abaixo de 2%. Esse processo também permite a formação direta de ossos. Dentro dessas fendas, o tecido de granulação aparece primeiro, trazendo novo suprimento sanguíneo. Embora o tecido conjuntivo frouxo possa ser observado apenas brevemente no centro da fenda, a deposição do osso lamelar começa cedo na superfície da extremidade do fragmento ósseo. Esta deposição óssea lamelar continua até que toda a fenda seja preenchida. Após o preenchimento completo das fendas com osso lamelar em direção paralela à superfície da fratura; os ósteons originários da extremidade do fragmento cruzam a fenda preenchida e entram no outro fragmento. Assim, os fragmentos são unidos por estruturas ósseas lamelares dispostas paralelas ao longo eixo do osso (Fig. 1.3.3-2a-b). (Fig. 1.3.3-2a-b) a – Fixação estável, superiormente a carga com área de contato e inferiormente a área de fenda. b – Seção ampliada de (a): área da fenda da cicatrização por primeira intenção: preenchimento completo da fenda de fratura com osso lamelar em direção paralela à superfície da fratura. 51 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Este processo é chamado de cicatrização óssea por primeira intenção ou direta, uma vez que não segue toda a cascata de diferenciação tecidual que se observa no processo de cicatrização por segunda intenção com formação de calo. O processo de cicatrização por primeira intenção leva a um desaparecimento gradual da linha de fratura no raio-x. Como esse padrão de cicatrização é caracterizado pela ausência de formação de calos, é difícil julgar o progresso da cicatrização em raios-x. O remodelamento intracortical de uma zona de fratura é um processo lento, e essa fratura precisa da proteção da placa por um período prolongado. O período pelo qual uma placa de fratura precisa estar no lugar depende de fatores individuais como padrões de carga, qualidade óssea, padrões de fratura, por exemplo, fraturas cominutivas versus simples, e conformidade do paciente. Em média, um período de 6 meses é suficiente para todos os cenários possíveis. O padrão de cicatrização direta por se só não é um objetivo pelo qual deve-se lutar, mas a ausência deste padrão, ou seja, a formação de um calo periosteal em condições de fixação de placas é um indicador que a completa imobilização não foi alcançada. Muito movimento, geralmente combinado com a circulação comprometida e, eventualmente, uma infecção, podem resultar em uma cicatrização tardia ou mesmo em uma não união. 1.3.3.2. Cicatrização por segunda intenção através da formação de calo Nos casos em que não há fixação da fratura ou uma fixação adaptada frouxa é conduzida, a grande movimentação entre as extremidades do fragmento ocorre. Sob essas condições, a cicatrização direta dos ossos não é possível. A tensão entre os fragmentos excede o que osso pode tolerar, e o novo osso que se desenvolve entre as extremidades da fratura podem ser destruídos antes de serem formadas. O rompimento da integridade do osso não é o único dano causado durante uma fratura. O trauma também causa uma interrupção na circulação de vasos maiores e principalmente a microcirculação dentro do osso. Os vasos dos canais Haversiano e de Volkman são ocluídos por uma distância de alguns milímetros da extremidade do fragmento dentro das primeiras horas após uma lesão. Esta é a causa da reabsorção na extremidade da fratura. Durante o progresso da cicatrização por segunda intenção, calos periosteal e endosteal são formados. Entre a extremidade da fratura umacascata de diferenciação tecidual ocorre, durante a qual a rigidez e a força aumentam enquanto a tolerância à deformação diminui gradualmente. A cascata de diferenciação começa com um hematoma, depois disso, desenvolve-se o tecido de granulação que resulta em tecido conjuntivo, 52 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática fibrocartilagem, cartilagem mineralizada, osso não lamelar, e finalmente, para o osso compacto. Durante este processo de diferenciação tecidual, a rigidez e a força aumentam até o fim, quando o espaço entre os fragmentos é totalmente ossificado. 1.3.3.3. Passos da cascata de diferenciação Hematoma Inicialmente, um hematoma é encontrado entre as extremidades do fragmento (Fig. 1.3.3-3a-b). A função do hematoma no curso de cicatrização da fratura ainda é controverso. Há algumas evidências que os leucócitos do sangue podem transformar-se em fibroblastos e em outras células do sistema tecidual de suporte. O hematoma também pode atuar como uma estrutura orientadora, que, como um espaçador, determina o tamanho e a forma do calo. Então, fibroblastos são produzidos dentro do hematoma. Fig. 1.3.3-3a-b a – Cicatrização por segunda intenção sob a condição de movimento entre as extremidades da fratura. b – Seção ampliada de (a): Cicatrização por segunda intenção, primeira fase: hematoma preenchendo a fenda da fratura. 53 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Tecido de granulação/Tecido conjuntivo Em seguida, o hematoma muda para o tecido de granulação e o tecido conjuntivo se desenvolve a partir do tecido de granulação (Fig. 1.3.3-3c). A maturação deste tecido de granulação resulta em uma rigidez aumentada. O aumento dessa rigidez à ruptura está entre 5% e 17%. O tecido fibroso é encontrado em áreas onde as forças de tração atuam, enquanto, de acordo com Pauwels, a cartilagem é formada em zonas de pressão hidrostática. Fig. 1.3.3-3c – Mesma seção de (a) como em (b). Cicatrização por segunda intenção, fase 2: tecido de granulação e tecido conjuntivo substituindo o hematoma na fenda da fratura. (Lê-se, de cima para baixo: “Hematoma”; “Tecido de granulação”; “Tecido conjuntivo entre fragmentos”). 54 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fibrocartilagem O próximo passo é o desenvolvimento da fibrocartilagem (Fig. 1.3.3-3d) que, com o desenvolvimento, se torna cartilagem mineralizada a qual é então substituída por osso não lamelar e finalmente por osso compacto (Fig. 1.3.3-3e). A mineralização da fibrocartilagem progride da extremidade do fragmento em direção ao centro da fenda da fratura. Esse padrão de cicatrização de fraturas resulta em um rápido ganho de força mecânica que pode ser atribuído à quantidade crescente de material ósseo formado. Em casos de muito movimento, essa cascata de cicatrização pode ser interrompida, tendo como consequência uma não união ou pseudoartrose. Fig. 1.3.3-3d – Mesma seção de (a) como em (b). Cicatrização por segunda intenção, fase 3: fibrocartilagem substituindo o tecido conjuntivo na fenda da fratura. 55 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.3.3-3e – Mesma seção de (a) como em (b). Cicatrização por segunda intenção, fase 4: osso não lamelar sendo substituindo por osso lamelar através da remodelação Haversiana. 1.3.3.4. Não-união A não-união existe quando o reparo não é possível inicialmente, e a cirurgia é necessária para promover a união. Naqueles casos em que a distância entre a extremidade do fragmento é muito grande; quando há muito movimento desfavorável entre as extremidades do fragmento; fatores biológicos como vascularização desfavorável; ou uma infecção acontece, a cicatrização completa poderá ser impossível, acarretando a não- união. A mobilidade não fisiológica será então o resultado. A não-união e a pseudoartrose (em alemão) caracterizam-se igualmente, enquanto na literatura inglesa uma pseudoartrose é apenas a condição que mostra uma articulação verdadeiramente falsa e, portanto, é considerado a fase final de uma não-união. Não-uniões na região craniofacial são raras. Na maioria dos casos o tratamento correto e suficiente é a estabilização com placas. 56 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.3.3.5. União atrasada A união atrasada é primeiramente um termo clínico que descreve um prolongado período de cicatrização, enquanto a cascata de cicatrização histológica é semelhante à uma cicatrização regular. A união atrasada pode resultar de um ambiente biologicamente difícil (por exemplo, suprimento sanguíneo reduzido, irradiação). 57 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.4. Material e tipos de implante 1.4.1. Metais, superfície, e interações teciduais Requisitos para implantes A seleção do material do implante depende predominantemente da função que este realizará e na maneira que o implante será aplicado. Materiais aplicados para a fixação interna devem cumprir vários requisitos mecânicos fundamentais. Dos possíveis biomateriais disponíveis, atualmente, apenas o metal pode fornecer rigidez e resistência necessária, bem como ductilidade e, principalmente, biopassividade para a maioria das aplicações de fixações de fraturas craniomaxilofaciais (CMF). Polímeros reabsorvíveis e não reabsorvíveis também são usados para aplicações CMF específicas, quando os implantes estão sujeitos a uma carga relativamente baixa. Em termos de fixação de fraturas ósseas e eventual cicatrização óssea, a rigidez do material é essencial, uma vez que funciona para evitar que o material se curve (dobre-se) no local da lesão, bem como reduzir o movimento do local de fratura para que o reparo do tecido ocorra corretamente. A ductilidade de um material determina o grau em que um dispositivo pode ser deformado ou contorcido. Como o titânio (Ti) tem menor ductilidade em comparação com o aço inoxidável (SS), o Ti fornece menos “aviso prévio” (de quando irá quebrar) e pode ser a causa de problemas de manuseio para o cirurgião. A força de um dispositivo (nível de carga que pode ser tolerado pelo implante antes da falha) também deve ser levado em consideração, pois é requisito para manter a redução e a estabilidade do local de fratura. Mais significante ainda é a resistência do material à fadiga provocada por carga repetitiva. Embora SS tenha uma melhor resistência à carga estática em comparação com o Ti, o Ti e suas ligas são superiores sob condições de alto ciclo de carga por fadiga. 1.4.1.1. Metais O SS do tipo 316L em conformidade com as normas padrões de materiais, ISO 5832- 1 e ASTM F 138/139, estão sendo utilizadas para implantes AOCMF por mais de 20 anos. A tendência nos últimos 20 anos tem sido uma substituição do SS pelo Ti para utilização em CMF porque a remoção não é necessária. A força motriz por trás dessa mudança está 58 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática relacionada primeiramente à resistência superior à corrosão, menor rigidez, e compatibilidade aprimorada das imagens de diagnóstico associada ao Ti e suas ligas. O implante 316L é uma liga à base de ferro com aproximadamente 62,5% de ferro, 18% de cromo, 14% de níquel, 2,5% de molibdênio, e pequenas adições elementares. O titânio é essencialmente Ti puro, disponível em cinco graus, de acordo com ISO 5832-2 com diferentes resistências à tração, limite ao escoamentoa 0,2%, e combinações de alongamento ou ductilidade. Propriedades de tração mínimas para Ti annealed (quando se aquece um material para aumentar a ductilidade e diminuir a dureza) grau 1 intersticial extra baixo, graus 1–4, liga Ti-6Al-7Nb, e liga Ti-15Mo são compiladas na Tab. 1.4.1-1 para os produtos. A liga titânio-15Mo pode ser fornecida na condição β ou α+β dependendo da temperatura de tratamento térmico que é selecionado. Tab. 1.4.1-1 – Propriedades mínimas de tração para os materiais de implante de titânio annealed (Ti). (Lê- se, da esquerda para a direita, “Liga”; “Resistência a tração, MPa”; “Limite de escoamento a 0,2%, Mpa”; “Alongamento, %”; “Padrões”). As ligas de titânio, como Ti-6Al-7Nb ou Ti-15Mo, podem ser selecionadas quando uma maior resistência a carga é necessária. O Ti-6Al- 7Nb tende a exibir maior resistência à tração, entretanto, menor ductilidade quando comparado com Ti. O Ti-15Mo é uma liga de Ti relativamente nova que oferece algumas propriedades aprimoradas de design de implantes devido à sensibilidade superior do encaixe e às propriedades de dobramento reverso quando comparadas com o Ti. A densidade do Ti é cerca de 57% da densidade do SS. Essa diminuição em densidade equivale a uma redução de peso de aproximadamente 50% ao comparar materiais de volumes semelhantes. O menor peso do implante, quando comparado com um implante SS idêntico, não é um fator importante para o conforto do paciente para implantes CMF relativamente pequenos. O módulo de elasticidade do Ti é cerca de 55% do SS, e para 59 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática uma área transversal equivalente, a rigidez de um implante de Ti é 55% de um implante SS. Propriedades físicas são mostrados na Tab. 1.4.1-2. Tab. 1.4.1-2 – Propriedades físicas das ligas de titânio (Ti). (Lê-se, da esquerda para a direita, “Liga”; “Densidade, gm/cc”; “Módulo de elasticidade, GPa”). As propriedades gerais de corrosão e corrosão por atrito do Ti, e placas e parafusos de liga de Ti são superiores ao SS. Uma redução na quantidade de produtos de corrosão in vivo minimizam as reações de corpos estranhos para manter uma resposta de biocompatibilidade satisfatória. Os implantes de titânio e de liga de Ti podem ser misturados sem causar efeitos de corrosão galvânica indesejável. A qualidade dos materiais de implante SS e Ti são completamente não-magnéticos e não causarão torque ou deslocamento durante a ressonância magnética (RM). O aquecimento na RM é uma questão a parte que está relacionada à geometria do implante. Implantes compridos e finos, como K-wires (fios de Kirschner ou K-fios), cabos etc., com relações específicas entre comprimento-diâmetro, podem mostrar um aumento de temperatura devido à ½ dos efeitos de aquecimento do comprimento de onda da ressonância. ASTM F 2182 afirma que estruturas metálicas com menos de 2 cm de dimensão não exibem aumento de temperatura clinicamente significativa após radiofrequência induzida durante a RM. Comparado com SS, a visualização do Ti por RM é significativamente melhorada porque menos artefato ou starburst (padrão radiográfico semelhante a uma estrela explodindo) é criado. Existe, aproximadamente, na RM, uma interferência 40% menor com dispositivos Ti quando comparados com dispositivos SS, devido à menor suscetibilidade magnética do Ti, dando aos implantes de Ti uma vantagem distinta sobre o SS na região CMF. Sequências de pulso de RM turbo spin-eco e spin-eco rápido tendem a fornecer a menor quantidade de artefato para todos os biomateriais metálicos. 60 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.4.1.2. Superfícies As reações alérgicas ao níquel foram identificadas em cerca de 3-5% de uma população de pacientes e pode se aproximar a 15%, ou mais, em subconjuntos de pacientes selecionados. 14,5% do conteúdo do níquel no SS é suficiente para causar reações de sensibilidade ao níquel em pacientes que já têm histórico de alergias a metais. O titânio não contém níquel como uma adição intencional e o teor típico de níquel é inferior a 0,02%. Uma vantagem do Ti é a sua capacidade de formar rapidamente uma camada natural de óxido em sua superfície, o que fornece proteção extra contra corrosão. Portanto, quando submetido a danos de deformação durante a cirurgia, a camada de óxido irá espontaneamente formar-se, enquanto houver oxigênio, protegendo assim o material. Esta camada varia entre 5 e 6 nm de espessura, mas a anodização pode aumentar esta espessura. O tratamento final para superfícies de implantes de Ti incluem imersão padrão em ácido nítrico ou reações eletroquímicas anodizantes que aumentam a espessura do óxido de proteção Ti (TiO2) ou o filme misturado de óxido (TiO2 + Al2O3 + Nb2O5). Os implantes de titânio são imersos em uma solução química e uma voltagem elétrica conhecida é aplicada por um tempo específico. A espessura do filme de óxido determina a cor que é observada devido à difração visível de luz dentro do filme de óxido. Nenhum pigmento ou corantes orgânicos estão presentes no filme de Ti anodizado. A anodização de titânio é capaz de produzir uma variedade de cores que permitem o design de sistemas de implantes com código de cores. Vários estudos indicam que a anodização remove contaminantes indesejáveis da superfície, melhora a resistência à corrosão, tem efeito mínimo nas propriedades de fadiga e fornece excelente biocompatibilidade. Vários ciclos de esterilização a vapor (autoclave) não alterarão significativamente a aparência do Ti anodizado. Filmes anodizados modificados com propriedades únicas e revestimentos orgânicos especializados estão em desenvolvimento para fornecer modificações específicas na superfície do implante. A camada anodizada repassa rapidamente se o óxido for danificado, tornando o Ti um material extremamente resistente à corrosão. A camada de óxido é capaz de proteger as células dos elementos tóxicos da liga e, finalmente, é a camada de óxido que produz uma resposta celular, não sendo o compósito do material. Anodização térmica e eletroquímica de superfícies de Ti não tem efeito deletério na citocompatibilidade de fibroblastos in vitro. Além disso, existe uma ausência de reação alérgica ao Ti atribuída à ausência de quantidades consideráveis de cromo, 61 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática cobalto e níquel, uma vantagem distinta sobre o SS. O dióxido de titânio é frequentemente usado como base para muitos cosméticos por causa da ausência de resposta alérgica. Em 1997, Rogers et al mostraram que os detritos de desgaste gerados por Ti-6Al-4V incitaram um aumento nos fatores de resposta inflamatória, como PGE2 e IL-1, em comparação com a TAN (Ti-6% alumínio-7% de nióbio) e Ti. Espectrometria de fotoelétrons por raios-x, para análises químicas de superfície, revela que um filme de óxido composto de TiO2, Al2O3 e NbO5 surge na superfície de TAN. A insolubilidade dessa camada estável de óxido é responsável pela excelente biopassividade relatada, e a variedade de filmes de óxido demonstrado por TAN é quimicamente mais estável em comparação com a camada de óxido formada no Ti. 1.4.1.3. Interações teciduais Ao inserir um fio, parafuso, pino, placa, ou qualquer outro dispositivo de fixação de fratura no corpo, independentemente do material ou materiais utilizados, o implante é revestido por um filme proteico dentro de segundos após o contato com o sangue. O sangue contém mais de 2.000 proteínas que podem interagir com a superfície de um implante. As proteínas fornecem uma matriz provisória para as células aderirem e representam a primeira matriz na qual as células interagem. As plaquetas chegam a partir do sangue e após adesão a uma superfície secontraem, resultando em um processo conhecido como degranulação. Isso envolve a liberação de conteúdo intracelular, como potentes ativadores de plaquetas, que por sua vez recrutam plaquetas adicionais ao local da ferida. Macrófagos e outras células inflamatórias (granulócitos, linfócitos e monócitos) também se infiltram no hematoma e agem tanto para prevenir infecções, quanto para secretar citocinas e fatores de crescimento. Os fatores de crescimento possuem atividade quimiotática, assim, servindo como sinais migratórios para células de reparo, como osteoblastos, fibroblastos, monócitos, neutrófilos e leucócitos. As células chegam por via sanguínea dentro de poucos minutos e podem aderir à matriz proteica a qual absorveu à superfície (determinada pelas propriedades dessa superfície). No entanto, as células nunca interagem diretamente com a superfície descoberta do implante (o óxido). As células se ligam ao Ti e suas ligas através de uma série de moléculas adesivas, como a vitronectina e fibronectina. O aumento da ligação celular é diretamente proporcional à quantidade de proteína pré-adsorvida. Microtopografia de superfície de implante é importante na adesão mediada por 62 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática osteoblastos. A ligação mediada por integrina, para proteínas pré-adsorvidas em um implante, dependem do substrato, por exemplo, α5β1 que é o receptor para a fibronectina, que aumenta em superfícies micro-rugosas de Ti. Ao mesmo tempo em que a migração celular para o implante começa, o hematoma se retrai. A capacidade de uma superfície de implante de reter a ligação da fibrina durante esta fase de retração é crucial para determinar se as células em migração atingirão a superfície do dispositivo. A complexidade da superfície micro-rugosa de Ti de um óxido fornece uma topografia tridimentsional para que a fibrina permaneça suficientemente fixada ao implante, para suportar a retração, permitindo a migração celular para a superfície. A adesão celular é frequentemente seguida mais tarde por adesão de tecidos moles, ou integração óssea eventual, dependendo da superfície do implante e local de implantação. Os eventos moleculares na interface entre a superfície do implante/tecido são controlados pelo propriedades da superfície (o óxido, não pelas propriedades do volume subjacente do material). As propriedades da superfície do óxido incluem carga, química, heterogeneidade, hidrofobicidade e topografia. A topografia tem o maior significado para interação entre os tecidos circundantes e os implantes clínicos de metal usados atualmente. Todas as propriedades ajudam a determinar quais proteínas adsorvem à superfície, sua orientação, e os tipos de forças intermoleculares que ocorrem entre a superfície e as proteínas adsorvidas. Essas propriedades da superfície não são diretamente visível ao cirurgião, mas são controladores fundamentais do sucesso biológico de um implante e todos as relações internas de uns com os outros, por exemplo, ao modificar a superfície química altera-se a carga superficial, o que pode influenciar na hidrofobicidade e topografia no nível nanoscópico (mas os efeitos das alterações associadas podem ser minimizados). Integração precoce de tecidos moles com vascularização associada na interface tecido-implante, sem formação de cápsula cheia de líquido, é geralmente desejável para muitas áreas do corpo. Sem adsorção de proteínas e adesão celular, sob a presença de micromoção, ocorre a formação de uma cápsula fibrosa, geralmente circundando um espaço oco preenchido de líquido na interface. Dentro de condições assépticas, o encapsulamento não é problemático, mas se torna difícil quando as bactérias estão presentes, uma vez que o sistema vascular é impedido de acessar o espaço oco preenchido de líquido, o qual protege as bactérias. Clinicamente, essa situação é mais prevalente com implantes de SS em comparação com implantes de Ti anodizado. Aumentando as micro- 63 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática descontinuidades de placas de SS para fixação interna evita-se a formação de cápsulas fibrosas cheias de líquido na interface de tecidos moles. O aumento das micro- descontinuidades de superfície, abaixo da superfície de placas de SS de fixação interna, também aumenta a integração óssea. Infelizmente, aumentando a micro-rugosidade do implante de SS com métodos industriais atuais pode-se reduzir a resistência deste à corrosão e, também, tem se observado o início de uma resposta de macrófagos ao implante. Pesquisas estão em andamento para aumentar as micro-rugosidade do implante de SS sem reduzir a sua resistência à corrosão, o que poderia trazer grandes benefícios para implantes percutâneos por permitir a integração e vascularização de tecidos moles diretamente na superfície do implante o que fecharia uma rota para invasão bacteriana. Em áreas especiais, a presença de uma placa pode produzir atrito para tecidos deslizantes, como os músculos, e na fixação orbital onde a placa é susceptível a tornar-se um local para a adesão tecidual e inflamação. Em tais áreas, o encapsulamento pode ser desejável para prevenir a adesão à superfície do implante e possíveis inflamações. Essas aplicações requerem o desenvolvimento de superfícies que impedem a fixação de tecidos moles e as consequentes irritações, permitindo também o deslizamento livre dos tecidos subjacentes. É extremamente improvável que um espaço oco cheio de líquido possa surgir dentro do espaço entre uma placa e o tendão deslizante sobrejacente, ou músculo, devido aos grandes deslocamentos teciduais durante o uso normal, além de que, esses movimentos também seriam muito grandes para permitir o encapsulamento fibroso da placa. Isso pode ser alcançado usando implantes de SS ou de Ti com bom polimento de superfície para reduzir a presença de microdiscontinuidades, enquanto mantém a biocompatibilidade do metal, uma vez que a superfície química não deveria ser alterada pelo método correto de polimento. O polimento mecânico tem sido aplicado com sucesso em cirurgias manuais com a liga de Ti, Ti-15Mo, para evitar a adesão do tendão e subsequente ruptura. Uma revisão geral do uso de Ti e de SS na fixação de fratura, em relação aos aspectos acima, foi recentemente publicado por Hayes e Richards. Atualmente, os implantes de Ti micro-rugosos usados clinicamente apresentam propriedades únicas de biocompatibilidade, as quais incluem adesão de tecidos moles e osso às suas superfícies. Superfícies com muita micro-descontinuidade sustentam diferenciação de osteoblastos. A vantagem da integração tecidual na superfície tem sido a possibilidade de uma menor colonização bacteriana e infecção reduzida. Recentemente, foi demonstrado in vivo que, para implantes onde ocorre dano periosteal mínimo, ambos, material e topografia, não influenciaram na suscetibilidade à infecção, com o SS e o Ti. 64 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática O mesmo resultado, que o material e a topografia não influenciam na suscetibilidade à infecção, foi encontrado com um modelo de pino intramedular (não travado) em coelhos. No entanto, um ponto para manter em mente é que os modelos de coelho in vivo incluídos nos estudos não abrangeram uma fratura, nem houve grandes traumas nos tecidos moles adjacentes. Outra desvantagem da integração tecidual nas superfícies de Ti e de TAN (juntamente com a prevenção de danos aos tecidos deslizantes, por exemplo, nervos, tendões, músculos) aparece durante a remoção do implante. Algumas indicações sugerem que a retenção de dispositivo não é ideal. Estudos ao longo dos anos mostraram que, subsequente para cumprir a sua função, um dispositivo pode afetar negativamente o hospedeiroao induzir respostas de corpos estranhos. Estes podem produzir complicações, como infecções tardias, quebra do implante, migração do dispositivo, impedimento da maturidade esquelética e crescimento, não-uniões, fixações não estáveis, protrusão/intrusão para as articulações, problemas estéticos, dor, e desconforto, incluindo protrusão sob a pele ou mesmo visivelmente. A exposição do implante na cavidade oral também pode exigir a remoção deste. Em cirurgia craniomaxilofacial, a remoção de implantes às vezes é indicada para permitir a inserção de implantes dentários e próteses. O crescimento ósseo, através e entre os espaços vazios de um dispositivo, como uma cabeça de um parafuso ou entre a rosca do parafuso e placa, aumentam significativamente a dificuldade de remoção de implantes. Somente em crianças, aproximadamente 13% das complicações encontradas durante a remoção de material de osteossíntese programada está relacionada à ocorrência de excesso crescimento ósseo no dispositivo. A redução na micro-topografia de superfície decorrente do polimento de superfície pode afetar a diferenciação de osteoblastos através da regulação genotípica. Estudos in vitro avaliaram o potencial de polimento da superfície dos materiais clínicos disponíveis, Ti, TAN e Ti15Mo, para aliviar excessos de crescimento ósseo. O polimento reduz microdiscontinuidades de superfície que podem ser “vistas” pelas células produzindo superfícies de alta suavidade (Ra menor que 0,2 μm) que, por este meio, reduzem a expressão e função de genes específicos para diferenciação e maturação dos osteoblastos, em comparação com micro-ásperos padrão. O polimento de superfície parece direcionar os eventos relacionados à diferenciação terminal, visto que, os níveis de mRNA da osteocalcina foram marcadamente reduzidos para amostras de Ti e ligas de Ti. Até agora, a osteocalcina é o único marcador "específico para osteoblastos", pois é sintetizado, secretado e depositado por osteoblastos diferenciados durante a mineralização. A 65 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática implicação dos resultados in vitro para a situação in vivo foi observada com o polimento de superfície de parafusos de TAN e Ti, que reduziu o torque de remoção e a porcentagem de contato ósseo no osso cortical e esponjoso. A facilidade de remoção de placa polida travada no osso cortical foi demonstrada in vivo. Esses resultados postulam que a aposição óssea não é afetada negativamente pelo polimento de superfícies, mas é acelerado por superfícies micro-rugosas, e, que, os dispositivos polidos previnem fortes aderências ósseas a longo prazo. Assim, a combinação da resistência reduzida da adesão a matriz de amostras polidas, com a menor taxa de remodelação/aposição relacionados com dispositivos micro-rugosos padrões, ambas poderiam influenciar diretamente na ocorrência de supercrescimento ósseo e remoção facilitada. 1.4.1.4. Resumo Para fixação interna de fratura, o metal atualmente permanece como o material de escolha, pois fornece resistência ao fragmento ósseo de suporte, boa ductilidade para contorno pré-cirúrgico e geralmente é bio-passivo. O grande uso de fixadores internos de metal vem provando o seu sucesso; contudo, mais aplicações desafiadoras para fixadores internos de metal estão emergindo. Por exemplo, dado o grande aumento na ocorrência desses procedimentos em crianças e os diferentes requisitos mecânicos e biológicos baseados no local anatômico, os requisitos para implantes metálicos tornaram-se mais exigentes. Portanto, a pesquisa atual relacionada a fixador interno de metal é baseada em definir respostas específicas para células e tecidos, para as superfícies do material, ambos, in vitro e in vivo, bem como descobrir formas de direcionar essas respostas teciduais específicas de local através de modificação na superfície do implante. Após a integração com os tecidos moles e duros circundantes, os implantes CMF têm requisitos diferentes dentro de diferentes áreas anatômicas. Os implantes permanentes, como de articulações mandibulares, necessitam de osseointegração direta permanente. Fixadores externos percutâneos devem se beneficiar da adesão dos tecidos moles para fechar a rota de entrada para possíveis patógenos microbiológicos. É extremamente importante que as placas na região CMF devam minimizar a aderência do tecido (nervos, músculos, osso). Implantes de fixação de fraturas, que precisam ser removidos após a cicatrização da fratura, devem evitar a osseointegração direta à sua superfície, pois isto não é necessário para sua estabilidade. Portanto, a pesquisa está focada em tentar diminuir a ocorrência de morbidade relacionada à remoção, através de planejamento de superfície. 66 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática As características do implante para controlar a integração com o tecido mole ou duro circundante incluem rugosidade da superfície, hidrofobicidade e química. Superfícies polidas com rugosidade média mínima inferior a 0,2 μm são capazes de impedir a osseointegração direta e reduzir o torque de extração dos parafusos para facilitar a remoção do implante. Quando polimento é realizado da melhor maneira possível, ele não altera a química da superfície, hidrofobicidade ou biocompatibilidade. O polimento não aumenta a suscetibilidade à infecção em osteossíntese mecanicamente estável (por exemplo, placas travadas). 1.4.2. Osteossíntese biodegradável: passado, presente e futuro 1.4.2.1. Introdução Hoje, a maioria dos procedimentos ortognáticos e de fraturas esqueléticas faciais são fixadas usando placas e parafusos de titânio. Os sistemas de fixação de titânio podem ser usados com segurança e eficácia, são fáceis de manusear, e as propriedades mecânicas intrínsecas garantem que as dimensões do dispositivo sejam mantidas dentro dos limites aceitáveis. No entanto, esses sistemas de metal têm algumas desvantagens. Efeitos adversos potenciais associados aos implantes de metal são as sensibilidades quentes e frias, placas palpáveis sob pele, possíveis efeitos mutagênicos, posterior interferência em diagnósticos ou investigações radiológicas terapêuticas, e interferência na função e/ou crescimento. Consequentemente, uma segunda operação para remover os implantes é realizada após a cicatrização óssea em 5 a 40% dos pacientes. As placas e parafusos biodegradáveis, degradando-se após o tempo de cicatrização, e com transferência gradual das forças funcionais para o osso cicatrizado durante a desintegração dos dispositivos biodegradáveis, parece ser a solução perfeita para a maior parte das potenciais desvantagens mencionadas acima. Não há necessidade de outra intervenção cirúrgica para remover as placas e os parafusos. Isso implica uma redução no desconforto adicional, riscos, tempo de operação e custos socioeconômicos associados. 67 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.4.2.2. História Dispositivos biodegradáveis têm sido utilizados na área médica por mais de quatro décadas. Em 1962, o ácido poliglicólico (PGA) (Dexon™) foi desenvolvido pela American Cyanamid Co. como a primeira sutura sintética absorvível. Está comercialmente disponível desde 1970. Um copolímero de 92% de PGA e 8% de ácido polilático (PLA) (Vicryl®) entrou no mercado em 1975 como uma sutura reabsorvível competitiva. Desde 1966, diferentes grupos de pesquisa têm desenvolvido sistemas de osteossíntese reabsorvíveis. Em 1966, Kulkarni publicou um artigo na implantação de filmes e membranas de poli (L-lactídeo) (PLLA). Os filmes poliméricos desapareceram dos locais subcutâneos de implantação em porquinhos da índia dentro de 6 semanas, causando apenas uma reação inflamatória leve. Uma camadade tecido fibroso foi formada ao redor dos implantes. Vários outros experimentos em animais com implantes de PLLA continuaram nos próximos anos. Fraturas mandibulares e na órbita foram reparadas com implantes PLLA. Embora tenha sido relatada boa biocompatibilidade e cicatrização óssea nesses experimentos, eles não resultaram em nenhum ensaio clínico. Isso pode ser devido ao fato de que os implantes não eram nem suficientemente fortes, nem tampouco suficientemente pequenos para uso clínico. Os ensaios clínicos foram realizados pela primeira vez na década de 1980. Rokkanen, Tormälä e outros pesquisadores da Finlândia produziram inúmeros relatórios sobre implantes biodegradáveis de PLLA e PGA para fixação de fraturas. Eles realizaram implantações clínicas em crianças e adultos. Törmälä et al desenvolveram as primeiras hastes biodegradáveis de PGA/PLA disponíveis comercialmente (Biofix®) que eram adequadas para fixação de fraturas. Bos et al corrigiram fraturas zigomático-maxilar em humanos com placas e parafusos PLLA e relatou bons resultados iniciais (Fig. 1.4.2-1). No entanto, todos os pacientes apresentaram um desfecho desfavorável de reação tecidual três anos após a implantação. O aumento de volume ao local da implantação foi clinicamente detectável (Fig. 1.4.2-2). Esse aumento de volume parecia estar relacionado à desintegração maciça dos implantes de PLLA em muitos cristais lamelares (Fig. 1.4.2-3), visto no exame histológico após remoção indicada. 68 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.4.2-1 – Fixação da fratura zigomático- maxilar do lado direito com uma placa de PLLA de 4-furos e parafusos PLLA na borda lateral da órbita. Fig. 1.4.2-2 – Aumento de volume na borda lateral da órbita três anos após a implantação da placa de PLLA e parafusos para fixação de uma fratura zigomática-maxilar do lado esquerdo. Fig. 1.4.2-3 – Imagem de microscópio eletrônico, 3,7 anos após a implantação, limite da membrana (triângulo), cristalização de um fagossomo (P) e uma combinação de um fagossomo e um vacúolo não-cristalino, juntos chamados de fagolisossomo (PL). R indica o retículo endoplasmático rugoso com aumento de volume; N para o núcleo das células; barra, 400 μm, coloração com acetato de uranil/citrato de chumbo. Bergsma et al realizaram vários experimentos com animais e foram capazes de demonstrar esse efeito novamente. Eles concluíram que um polímero de PLLA semi- cristalino pode induzir a um aumento de volume tardio e provavelmente persistente quando usado em local de implantação subcutânea. Embora experimentos tivessem sido feitos com outros materiais, por exemplo, a polidioxanona, a maioria deles foi realizada com PLLA puro, pois este possui as melhores propriedades de resistência. Entretanto, a reação tardia desfavorável do tecido induziu ao desenvolvimento de aditivos para PLLA puro e/ou outros materiais biodegradáveis para implantes médicos. Também, modificações não-química como auto-reforço foram desenvolvidas nas próximas décadas. Tormälä e Rokkanen desenvolveram a técnica do auto-reforço em 1985. Pesquisas extensivas (experimentais e estudos clínicos) foram realizadas nas placas e parafusos de PLLA auto-reforçadas por diferentes grupos de pesquisa. Os resultados a curto prazo 69 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática foram positivos; os dispositivos mantiveram sua força por tempo suficiente para as fraturas cicatrizarem. Contudo, a degradação de materiais PLLA auto-reforçados resultou nos mesmos cristais que podem causar aumento de volume após alguns anos. As placas e parafusos PLA auto-reforçadas (70L: 30DL) foram descritas por Haers e Sailer. Nos ensaios clínicos, obteve-se fixação rígida na fixação interna da mandíbula e da maxila. Outros materiais que foram desenvolvidos nas últimas décadas ainda são todos baseados em PLLA, mas com aditivos como poliglicólico e D-lactídeo. A degradação é mais rápida com estes aditivos, porém o PLLA puro ainda é muito forte. Os testes clínicos realizados com esses materiais mostraram bons resultados a curto prazo e estabilidade aceitável. Buijs et al revisaram sistematicamente a literatura disponível e concluíram que as implicações para a aplicabilidade clínica de sistemas de osteofixação biodegradáveis, a longo prazo, permanecem inconclusivas. Há evidências disponíveis em ensaios clínicos randomizados para apoiar a conclusão de que não há diferença significativa entre dispositivos de osteofixação biodegradáveis e de titânio em relação a resultados clínicos a curto prazo, taxa de complicações, e infecções na área da cirurgia ortognática. As taxas de reoperação não diferem significativamente nos grupos biodegradável e titânio. Os numerosos estudos com dispositivos de osteofixação biodegradável, que foram publicados até agora, ainda permanecem inconclusivos; eles não incluíram titânio como grupo controle, não houve randomização, ou pouquíssimas, e grupos de pacientes que não podiam ser comparados foram incluídos. 1.4.2.3. Química de polímeros Metais, cerâmica e polímeros são os três principais grupos de materiais de engenharia. Existem polímeros de origem natural (por exemplo, polissacarídeo, celulose, seda, borracha natural, algodão, lã e couro) e polímeros sintéticos (por exemplo, polietileno, poliestireno, policloreto de vinila, poliésteres, policarbonatos, poliuretanos e politetrafluoretileno). Os polímeros sintéticos são, em geral, fortes, não muito caros de se produzir e têm boas propriedades mecânicas em comparação com os seus homólogos naturais. Os polímeros sintéticos reabsorvíveis utilizados na fabricação de dispositivos de osteossíntese são certos poli (uretanos), alguns poli (ésteres) e poli (carbonatos), como poli (lactídeo), poli (glicolídeo), poli (dioxanona), poli (carbonato de trimetileno), poli- (ε-caprolactona) e seus copolímeros. 70 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Tipos de polímeros Um polímero é uma molécula grande que consiste em ligações covalentes entre unidades menores, chamadas monômeros. Essas unidades repetidas se assemelham aos elos de uma cadeia e, portanto, as moléculas são frequentemente chamadas de cadeias poliméricas. Se apenas um único tipo de monômero for usado, um homopolímero é formado (- AAAAA-). Se dois ou mais tipos de monômeros são usados, é chamado de copolímero. Em um copolímero aleatório, as diferentes subunidades de um copolímero são organizadas aleatoriamente (-AAAABBAABBBABABAA-). Em um copolímero em bloco, as subunidades são organizadas em regiões longas alternadas (- AAAABBBBAAAABBBBAAAA-). As propriedades de um copolímero diferem significativamente das propriedades dos homopolímeros constituídos por um dos monômeros do copolímero. As cadeias poliméricas podem ser lineares ou formar uma ramificação, reticulada, ou em rede tridimensional. Os polímeros lineares são aqueles em que as unidades de monômero são unidas ponta a ponta em uma única cadeia. Essas longas cadeias são flexíveis. Os polímeros ramificados são polímeros nos quais as cadeias de ramos laterais estão conectadas como os ramos principais. As ramificações, consideradas parte da molécula da cadeia principal, resultam de reações colaterais que ocorrem durante a síntese do polímero. A eficiência de síntese da cadeia é reduzida com a formação de ramos laterais, o que resulta na redução da densidade do polímero. Nos polímeros reticulados, cadeias lineares adjacentes são unidas umas às outras em várias posições por ligações covalentes. O processo de reticulação é alcançado durante a síntese ou por uma reação química irreversível que geralmente é realizada a uma temperatura elevada. Muitas vezes, essa reticulação1.4.2.4. Material ideal e propriedades mecânicas ..................................................................... 74 1.4.3. Design e função dos implantes ............................................................................................. 79 1.4.3.1. Introdução .................................................................................................................... 79 1.4.3.2. Implantes...................................................................................................................... 80 1.4.3.3. Placas ........................................................................................................................... 88 1.5. Princípios do tratamento do trauma craniomaxilofacial ........................................................... 113 1.5.1. Objetivos do tratamento do trauma CMF ........................................................................... 113 1.5.3. Plano de tratamento, considerações pré e pós-cirúrgicas .................................................... 117 1.5.4. Princípios do tratamento cirúrgico das fraturas .................................................................. 118 1.5.5. Biomecânica da unidade osso-implante .............................................................................. 119 1.5.6. Princípios de estabilização: splinting, adaptação, compressão, princípio do lag screw ..... 123 1.5.6.1. Splinting ..................................................................................................................... 123 1.5.6.2. Adaptação .................................................................................................................. 123 1.5.6.3. Compressão ................................................................................................................ 125 1.5.6.4. Compressão com uma placa ....................................................................................... 126 1.5.6.5. Compressão com lag screw ....................................................................................... 128 1.5.6.6. Compressão com uma placa em combinação com um lag screw .............................. 131 1.5.7. Trauma dental e alveolar .................................................................................................... 132 1.5.7.1. Introdução .................................................................................................................. 132 1.5.7.2. Fratura dentária .......................................................................................................... 132 1.5.7.3. Luxação dentária ........................................................................................................ 133 1.5.7.4. Avulsão dentária ........................................................................................................ 135 1.5.7.5. Trauma alveolar ......................................................................................................... 136 1.5.7.6. Dentição decídua........................................................................................................ 137 1.5.8. Dentes na linha de fratura ................................................................................................... 138 1.5.9. Remoção de implante e proteção à pressão ........................................................................ 139 1.5.9.1. Remoção antes da cicatrização completa da fratura ................................................... 140 1.5.9.2. Remoção depois da cicatrização da fratura ................................................................ 140 1.5.9.3. Proteção à pressão ...................................................................................................... 141 1.5.9.4. Implantes e trauma secundário ................................................................................... 142 1.5.9.5. Efeitos colaterais adversos de implantes de titânio .................................................... 142 1.5.9.6. Efeitos em imagiologia médica e radioterapia ........................................................... 142 1.5.9.7. Resumo ...................................................................................................................... 144 9 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.5.10. Técnicas de bloqueio maxilo-mandibular (BMM) ............................................................. 145 1.5.10.1. Considerações básicas ................................................................................................ 145 1.5.10.2. Opções de bloqueio maxilo-mandibular .................................................................... 146 1.5.10.3. Dispositivos dentários ................................................................................................ 146 1.5.10.4. Dispositivos ósseos .................................................................................................... 153 1.5.10.5. Próteses ou splints do tipo Gunning ........................................................................... 157 1.5.10.6. Aspectos importantes do BMM prolongado ou a longo prazo ................................... 158 1.5.10.7. Resumo ...................................................................................................................... 159 1.6. Referências e leitura sugerida ....................................................................................................... 160 2. Fraturas mandibulares .................................................................................................................. 168 2.1. Fraturas sinfisária e parassinfisária............................................................................................. 169 2.1.1. Anatomia e interpretação .................................................................................................... 169 2.1.2. Imagem ............................................................................................................................... 170 2.1.3. Abordagens cirúrgicas ........................................................................................................ 171 2.1.4. Técnicas de osteossíntese ................................................................................................... 173 2.1.4.1. Placa de osteossíntese ................................................................................................ 174 2.1.4.2. Osteossíntese com placa de compressão .................................................................... 175 2.1.4.3. Osteossíntese com lag screw ..................................................................................... 177 2.1.5. Tratamentos pré-operatório e pós-operatório...................................................................... 179 2.1.6. Complicações e erros .......................................................................................................... 180 2.2. Fraturas do corpo e ângulo da mandíbula................................................................................... 182 2.2.1. Anatomia e interpretação .................................................................................................... 182 2.2.2. Suprimento sanguíneo ........................................................................................................ 184 2.2.3. Imagem ............................................................................................................................... 185 2.2.4. Biomecânica ....................................................................................................................... 185 2.2.5. Padrões de fratura ............................................................................................................... 186 2.2.6. Plano de tratamento ............................................................................................................é realizado por átomos aditivos ou moléculas que são covalentemente ligadas às cadeias. Muitos dos materiais elásticos de borracha são reticulados. Unidades trifuncionais, com três ligações covalentes ativas, formam redes tridimensionais que criam polímeros chamados de polímeros de rede. Na verdade, um polímero altamente reticulado pode ser classificado como um polímero de rede. 71 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Peso molecular Ao formar-se um polímero, as reações químicas não resultam no mesmo peso molecular para cada molécula, mas ao contrário, uma distribuição em forma de sino está presente. Principalmente a média do peso molecular é citado para descrever isso - quanto maior a média do peso molecular e quanto mais estreito for o formato de sino na curva, melhores serão as propriedades mecânicas do polímero. Ou, quanto menos cadeias poliméricas de baixo peso molecular tiverem em uma amostra, melhores serão as propriedades. Microestrutura Um polímero pode ter uma microestrutura amorfa ou cristalina. Uma microestrutura amorfa significa que as cadeias poliméricas são orientadas aleatoriamente e, portanto, podem deslizar facilmente umas pelas outras (Fig. 1.4.2-4). O resultado é um polímero relativamente fraco. Polímeros cristalinos são polímeros ordenados em que as cadeias estão paralelas em estreita proximidade entre elas e são densamente compactadas e fortes. Repetibilidade ao longo do comprimento do polímero é uma condição para a cristalização. Assim, polímeros aleatórios têm poucas partes cristalinas e são de caráter amorfo. Mesmo homopolímeros cristalinos não são totalmente cristalinos e sempre terão partes cristalina e amorfa (semicristalina) (Fig. 1.4.2-4). Quando uma amostra de polímero é carregada, haverá uma tendência para que as cadeias de polímeros se deslizem e se movam, resultando em uma distorção da amostra. Quanto mais longa são as cadeias de polímeros, maior são as chances de se entrelaçarem. Isso torna o deslizamento mais difícil e aumenta força. Finalmente, sob a ação de uma carga aplicada, um tempo finito é necessário para que essas macromoléculas se reorganizem e movam-se. Um polímero parecerá mais forte se a carga for aplicada rapidamente, quando comparada com a aplicação lenta. Esta propriedade, tempo dependente, é chamada viscoelasticidade. 72 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.4.2-4 – Desenho esquemático da microestrutura de um polímero com domínios cristalino e amorfo. (Lê-se, de cima para baixo, “Regiões cristalina”, “Regiões amorfa”). Isomerismo Dois ou mais compostos com a mesma fórmula molecular, mas com um arranjo atômico diferente são chamados isômeros. Por exemplo, o ácido lático possui dois isômeros: D-lactídeo e L-lactídeo. Temperatura de transição do vidro Os metais são frequentemente classificados pelo seu ponto de fusão. Os polímeros exibem uma temperatura de transição vítrea (Tg) que pode ser usada para classificar o comportamento térmico de muitos plásticos. Abaixo desta temperatura o polímero é rígido e duro, e, acima da Tg é macio, flexível e emborrachado. A Tg é característica dos domínios amorfos de um polímero. Um implante polimérico será capaz de suportar cargas maiores quando sua temperatura está abaixo da Tg, a Tg dos implantes de fixação polimérica deve estar acima da temperatura corporal. Deformação (creep) O creep é uma deformação plástica dos materiais tempo dependente, submetida a uma temperatura constante e/ou carga ou tensão. Isso significa uma reorientação das moléculas 73 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática do polímero pelo qual um implante é deformado. Na prática, isso pode resultar, por exemplo, no afrouxamento de um parafuso. Não há literatura disponível sobre a combinação de implantes biodegradáveis e creep. Auto-reforço O auto-reforço é um processo no qual cristais orientados aleatoriamente são reorganizados em fibrilas altamente orientadas. Por este meio, as propriedades mecânicas melhoram e os elementos são mais rígidos e fortes na direção de seu longo eixo. Esses dispositivos devem ser dobrados à temperatura ambiente com um alicate, contrariamente aos dispositivos de não auto-reforço que requerem aquecimento. A forma desejada é mantida após a dobra. As placas também podem ser cortadas com tesoura e um orifício adicional pode ser perfurado. Métodos de processamento Os métodos de processamento usados atualmente para a preparação de dispositivos experimentais ou dispositivos comerciais reabsorvíveis internos, por exemplo, parafusos, placas, hastes, pinos e fibras, geralmente envolvem o processamento por fusão e/ou usinagem, extrusão ou molde de compressão de material polimérico. Todos esses métodos estão longe de serem ótimos, pois eles afetam significativamente a molécula, e, portanto, as propriedades mecânicas dos implantes resultantes. Esterilização Vapor, irradiação de alta energia (gama, beta), e óxido de etileno (ETO) sozinho ou em mistura com outros gases são os meios comumente usados para esterilização de polímeros. Idealmente, o meio usado para esterilização deve esterilizar adequadamente o dispositivo sem afetar sua forma, e propriedades físicas ou químicas. Na prática, este nunca é o caso dos dispositivos biodegradáveis poliméricos. Tratamentos à vapor e calor, a temperaturas de até 190 °C causam deformação plástica extensa e degradação de implantes reabsorvíveis, portanto, não podem ser usados. A irradiação de alta energia pode resultar em polímeros semicristalinos devido à despolimerização, cisão de cadeia e 74 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática reticulação. Podem acontecer alterações de cor, causada pela diminuição da pureza. Consequentemente, as características do material como a resistência à tração e a elasticidade podem mudar ao se usar a irradiação. A esterilização com ETO pode deixar resíduos em quantidades perigosas nos implantes e nas suas superfícies. O ETO é mutagênico e carcinogênico. No entanto, quando realizada com cuidado, não deixa resíduos. Na prática, apenas ETO ou irradiação de alta energia é usado para esterilização de materiais reabsorvíveis, embora ambos tenham desvantagens. 1.4.2.4. Material ideal e propriedades mecânicas Material ideal Um implante biodegradável ideal é feito de um material que atende aos seguintes critérios (alguns dos quais são discutidos neste capítulo): • Pode ser fabricado e projetado com a força inicial apropriada para atender às demandas biomecânicas • Degrada de maneira previsível e permite a inserção progressiva de carga com segurança durante cada estágio da cicatrização óssea • Não causa respostas teciduais que exijam a remoção do dispositivo • Desaparece completamente • Fácil de usar • Tem custo-benefício • Compatível com diagnóstico ou radiação terapêutica Demandas biomecânicas As demandas biomecânicas dependem da região maxilo-facial onde o dispositivo será usado e no tipo de fratura ou osteotomia. Geralmente, um sistema de osteossíntese biodegradável é exposto a forças de tração, flexão, cisalhamento e compressão. Os parafusos são especialmente expostos as forças de torção durante a inserção. As propriedades mecânicas intrínsecas dos sistemas de osteofixação biodegradáveis são menos favoráveis que as do titânio. Durante o aperto do parafuso, grandes forças de torção se desenvolvem ao longo de seu eixo, o que pode quebrar a cabeça do parafuso. Em caso 75 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática de quebra de parafuso, um novo furo podeser facilmente perfurado através do parafuso quebrado e um novo parafuso inserido. Degradação Materiais biodegradáveis geralmente degradam in vivo através de um processo de duas fases. Durante a fase 1, as moléculas de água hidroliticamente atacam as ligações químicas, quebrando longas cadeias de polímeros para muitas cadeias curtas. As enzimas podem melhorar este processo. Outros fatores que podem influenciar a degradação são, por exemplo, peso molecular, orientação, isomerismo e cristalinidade. O efeito mais importante durante a fase 1 é uma redução no peso molecular, porque é mais fácil para cadeias curtas deslizarem umas pelas outras do que para as cadeias longas, a força do polímero também diminui. Enquanto esse processo continua, o implante polimérico perde sua integridade e é fragmentado. A fase 2 envolve a resposta celular pela qual os macrófagos e células gigantes metabolizam os produtos da degradação da fase 1 em substâncias, como água e dióxido de carbono. A massa do implante desaparece rapidamente. Assim, o implante terá perdido sua força muito antes de perder sua massa. Logo após a implantação ocorre uma resposta inflamatória inicial pelo corpo, como normalmente ocorre durante a cicatrização da ferida. Isto é seguido pelo encapsulamento do implante em uma membrana fibrosa fina, que acontece em resposta aos implantes feito de qualquer material (por exemplo, aço inoxidável, titânio, polietileno). Pelo menos um resíduo da membrana fibrosa permanecerá após reabsorção total. Portanto, materiais biodegradáveis também são chamados de bioabsorvíveis ou materiais bioabsorvíveis, mas na literatura não há evidência de reabsorção total in vivo, pelo menos em nível de microscopia eletrônica, de qualquer material biodegradável de osteossíntese. Bergsma et al concluíram que a reabsorção completa do PLLA não ocorre após 5,7 anos. O 50:50-poli(D, L)lactídeo amorfo (PDLLA, ResorbX®) e o 82:18-poli(L- lactídeo-co-glicolídeo) (PGLA, Lactosorb®) são reabsorvidos completamente entre 12 e 14 meses a nível microscópico de fluorescência. O microscópio eletrônico não foi utilizado. Edwards et al também mostraram reabsorção completa de dispositivos de fixação PLLA-PGA de 18 a 24 meses após a cirurgia. A avaliação consistia em raios-x e microscopia óptica. O material residual do implante de 82:12:6-poli(lactídeo-co- glicoleco-carbonato de trimetileno) amorfo (Inion CPS® baby) foi encontrado no exame histológico e macroscópico (microscopia óptica) aos 18 meses. Nieminen et al não 76 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática conseguiram detectar Inion CPS (composto de L-lactídeo, D-lactídeo e carbonato de trimetileno em proporções variáveis por produto) em microscopia óptica depois de 2 anos. Propriedades de manuseio Embora as propriedades biomecânicas e a biocompatibilidade sejam condições prévias no uso de sistemas de osteossíntese biodegradáveis, características de manuseio também são aspectos de uma seleção bem escolhida e a aplicação de sistemas de osteossíntese (Fig. 1.4.2-5). Fig. 1.4.2-5 – Duas placas de titânio com tamanhos diferentes e duas placas biodegradáveis com tamanhos diferentes. Da esquerda para a direita: placa suporte MatrixMIDFACE, titânio puro; placa suporte RapidSorb 1.5; placa de adaptação RapidSorb 1.5; placa de adaptação MatrixMIDFACE, titânio puro. Acima: parafuso de titânio 1.5; parafuso de reabsorção rápida 1.5. Cirurgiões apreciam boas propriedades de manuseio, como maleabilidade de placas à temperatura ambiente e prevenções de cortes ósseos. Jain et al afirmaram que contornar placas reabsorvíveis é mais fácil do que placas metálicas. Com poucas ferramentas extras (ou seja, um aquecimento em água), os sistemas de placas reabsorvíveis podem ser facilmente manuseados e adaptados. Contudo, parafusos biodegradáveis só podem ser inseridos após pré-perfuração e pré-corte. Ao contrário dos parafusos de titânio, que podem ser inseridos diretamente após a perfuração de um orifício guia (parafuso autorroscante) ou mesmo sem perfurar um orifício guia (parafuso autoperfurante). O 77 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática dobramento (curvatura) na placa biodegradável e a inserção de parafuso consomem muito tempo, e ainda é muito mais complicado quando em comparação com placas de titânio. Situação presente Mais de dez sistemas diferentes de osteossíntese biodegradáveis estão disponíveis comercialmente. Todos são copolímeros ainda baseado em PLLA. Apesar das supostas vantagens dos dispositivos de osteofixação biodegradável, esses sistemas ainda não substituíram os sistemas de titânio, e atualmente são aplicados apenas em números limitados. As propriedades mecânicas intrínsecas dos sistemas de osteofixação biodegradáveis ainda são menos favoráveis do que as propriedades mecânicas intrínsecas do titânio. A aplicação é, portanto, especialmente recomendada para a estabilização de seções da face que não são sofrem cargas excessivas (terço médio da face e crânio). Além disso, atualmente, os sistemas biodegradáveis são muito mais aceitos na cirurgia ortognática e craniofacial do que na traumatologia. Provavelmente isso se deve à contaminação, atípica, as frequentes fraturas cominutivas em traumatologia, quando comparadas com as vertentes limpas, simples e previsíveis da osteomia em cirurgia ortognática e craniofacial. As ações que demandam tempo de pré-corte, inserção de parafuso, e possível quebra do parafuso, podem ser evitadas usando a técnica relativamente nova do SonicWeld®. A aplicação deste sistema de osteossíntese é baseado em dois componentes: o sistema já bem estabelecido de placas e malhas reabsorvíveis, ResorbX®, em combinação com um sistema novo especial e configurado de pinos, SonicWeld®. O pino (que substitui o parafuso conhecido de outros sistemas) é inserido por uma peça de mão ultrassônica. Devido à aplicação do ultrassom, o pino é soldado na microestrutura córtico-esponjosa do osso e se funde junto com a placa. A combinação pino-placa fornece um complexo mais estável do que pela combinação de placa e parafusos. A pressão térmica causada pela inserção de pinos, auxiliada por ultrassom, não leva a uma reação de corpo estranho ou necrose induzida. A principal desvantagem do uso de dispositivos biodegradáveis é a falta de evidência clínica de que eles se dissolvem completamente sem complicações ou remanescentes, enquanto desempenham função biomecanicamente semelhante aos implantes de titânio. 78 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Perspectiva futura • Da demanda clínica ao implante O processo completo de desenvolvimento de um novo sistema de osteossíntese biodegradável pode facilmente levar uns 15 anos. Primeiro, um cirurgião identifica uma demanda ou necessidade clínica. Depois, um tecnólogo e um pesquisador de material desenvolvem o material e protótipo. Este material deve ser avaliado em laboratório, por exemplo, por um biólogo e um pesquisador de material para toxicidade. Posteriormente, estudos em animais devem ser realizados por um cirurgião e um biólogo celular. Um designer industrial cuidará da fabricação, esterilização e embalagem. Finalmente, o cirurgião pode avaliar clinicamente o produto. • Objetivos futuros Alguns objetivos para pesquisas futuras podem ser formulados. As potenciais propriedades mecânicas ainda são inexploradas, e placas e parafusos biodegradáveis mais rígidos e fortes poderiam ser desenvolvidos. Com um material mais forte, as dimensões poderiam ser reduzidas para dimensões de microplacas que gerariam mais indicações. O mecanismo de degradação ainda não está totalmente compreendido e mais pesquisas sobre esse tópico poderiammelhorar a segurança no uso de implantes biodegradáveis, especialmente em crianças. As reações adversas poderiam ser observadas com mais detalhes. Novos métodos de esterilização que não causem degradação devem ser uma grande vantagem no uso prático dos materiais. Além desses objetivos para pesquisas adicionais sobre os materiais atuais, novos materiais também podem ser desenvolvidos para a osteossíntese. Existe também uma necessidade urgente de ensaios randomizados fortes, de alta qualidade e adequados em relação a dispositivos de osteofixação biodegradáveis vs dispositivos de osteofixação não degradável para fraturas maxilo-faciais bem definidas e osteotomias. Estudos futuros devem incluir uma análise custo-benefício, como os custos de internação hospitalar, custos cirúrgicos (material e tempo no bloco cirúrgico), e os custos associados à atestado médico para os pacientes. 79 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Conclusões Apesar de estudos extensos por mais de 40 anos, os materiais biodegradáveis não substituíram os dispositivos de osteossíntese metálicos, exceto por algumas indicações limitadas. Pesquisas atuais e futuras terão que resolver problemas como limitações nas propriedades mecânicas, degradação apropriada, biocompatibilidade, esterilização, vida útil e manuseio confortável, para que os dispositivos biodegradáveis sejam tão seguros e eficazes quanto os metálicos. As vantagens socioeconômicas e psicológicas dos dispositivos de osteossíntese reabsorvíveis, sobre os metálicos, torna a sua fabricação valiosa. Considerando as propriedades intrínsecas dos polímeros, é questionável se as osteossínteses poliméricas biodegradáveis eliminarão totalmente as osteossínteses metálicas do mercado. 1.4.3. Design e função dos implantes 1.4.3.1. Introdução Implantes e instrumentos de alta qualidade são essenciais para o sucesso na fixação interna e na reconstrução. Os implantes devem vir com propriedades mecânicas e biológicas definidas e confiáveis. Eles devem ser biocompatíveis, não tóxicos e resistentes a corrosão. O controle de qualidade meticuloso durante o processo de produção é necessário. Implantes e instrumentos requerem, na maioria dos países, certificação oficial de sua segurança e eficácia baseada em regulamentos de conformidade legislativa como a Diretiva Europeia para Dispositivos Médicos (93/42/EEC) ou o Código de Regulamentos Federais (21 CFR 860) nos Estados Unidos da América. O material padrão ouro para implantes craniofaciais é o titânio e suas ligas, contudo, para algumas aplicações, os implantes biodegradáveis podem ser considerados. No passado, os implantes de aço inoxidável e vitálio foram utilizados (Tab. 1.4.3-1). A maioria dos instrumentos são feitos de aço inoxidável, mas instrumentos feitos de um material não ferroso também estão disponíveis para uso na ressonância magnética aberta. 80 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Tab. 1.4.3-1 – Materiais de placas e parafusos (exemplos); (Lê-se, primeira coluna: “material do implante”; “titânio puro comercial”; “liga de aço inoxidável”; “liga cobalto-cromo”; “liga titânio- alumínio-nióbio”; “liga titânio-molibdênio”; “combinação de ácido poli-L-lactídeo (PLLA) e ácido poli- D-lactídeo (PDLA)”; “poli(L-lactídeo-co-glicolídeo)”; segunda coluna: “especificação”; terceira coluna: “composição”. 1.4.3.2. Implantes Parafusos A base atual para a fixação interna rígida é a interação entre parafusos, placas e osso. Para entender essa interação, o cirurgião deve primeiro entender o parafuso, seus componentes e funções pretendidas. Para simplificar a descrição dos componentes do parafuso, o glossário de terminologia de parafuso deve ser revisado (Tab. 1.4.3-2) junto com uma representação esquemática de um parafuso típico (Tab. 1.4.3-1). O primeiro componente básico do parafuso é a alma. Esta tem geralmente o mesmo diâmetro que a broca necessária para criar o orifício dentro do osso que receberá o parafuso. O diâmetro externo é a largura da rosca. As roscas engatam no osso e fornece resistência às forças de extração. O diâmetro externo da rosca é o que determina o nome do parafuso específico ou sistema parafuso/placa (por exemplo, 1,0 mm, 1,3 mm, 1,5 mm, 2,0 mm e assim por diante) em sistemas convencionais. 81 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Cabeça A parte superior ou cápsula de um parafuso que é ligada a alma. Contém fendas para inserção da chave de fendas. Alma A parte central substantiva do parafuso a qual a cabeça e as roscas estão ligadas. Rosca A parte do parafuso ligada a alma que se rosqueia no osso. O diâmetro da rosca é descrito pela largura do parafuso medida de uma ponta para outra da parte roscável. O diâmetro externo roscável é associado com a descrição do sistema de parafuso e placa (por exemplo, 1.0, 1.3, 1.5) em sistemas convencionais, não no sistema Matrix. Pitch Distância entre as roscas. Bisel Os canais que cortam através da parte externa roscável, na ponta da alma do parafuso, para coletar os debris ósseos. Autorroscante O parafuso que foi projetado para ser usado sem rosquear. Isto requer pelo menos dois biseis na ponta do parafuso que se estendem superiormente para pelo menos duas roscas. Autoperfurante O parafuso que foi projetado para ser usado sem perfurar e rosquear. Este é um parafuso que é cônico em um ponto e possui pelo menos dois biseis na ponta do parafuso que se estendem superiormente para pelo menos três roscas. Cabeça cruciforme A cabeça de parafuso que tem uma fenda plana em forma de cruz com um sulco centrado que se encaixa perfeitamente com a chave de fenda correspondente. Cabeça PlusDrive Uma cabeça cruciforme optimizada: • Fácil de pegar os parafusos • Retenção melhorada quando comparada com a cruciforme convencional • Fácil de adaptar a chave de fenda in situ Cabeça Matrix PlusDrive optimizada Parafuso de emergência Quando as roscas se desgastam no osso, ou o orifício criado ficou muito largo, então, o parafuso com maior diâmetro externo roscável é chamado de parafuso de emergência na terminologia clínica. Um termo mais preciso deveria ser um parafuso de salvamento. Tab. 1.4.3-2 – Glossário de termos para parafusos. 82 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Tab. 1.4.3-1 – Os parafusos craniomaxilofaciais possuem roscas. Parafusos autorroscantes e autoperfurantes estão disponíveis. (Lê-se, primeiro parafuso: “diâmetro da cabeça”, “pitch”, “diâmetro externo roscável”, “diâmetro da alma”; segundo parafuso: “ponta autoperfurante”; terceiro parafuso: “ponta autorroscante”, “bisel”; cabeças: “sulcos cruciforme”; “PlusDrive”; “sulco Matrix”). Os sistemas Matrix galvanizados para o esqueleto craniomaxilofacial tem uma denominação diferente de acordo com as áreas de aplicação (terço médio da face, mandíbula, ortognática) e os tamanhos das placas. A cabeça do parafuso se prende na placa ou no osso para manter estabilidade, e é usada também pela chave de fenda para inserir o parafuso. Os diferentes tipos de cabeças de parafuso correspondem à diferentes tipos de chave de fenda. Para parafusos de titânio Synthes, que são cruciformes, PlusDrive ou Matrix. A distância entre as roscas é o pitch. Os parafusos de bloqueio maxilo-mandibular (BMM) têm dois orifícios abaixo da cabeça em um ângulo de 90 graus entre si. Os parafusos RapidSorb são feitos de 85% de L-lactídeo/15% de glicolídeo. Eles estão disponíveis em 1,5, 2,0 e 2,5 mm (parafuso de emergência) com uma cabeça com sulcos cruciforme. Para inserção dos parafusos reabsorvíveis, a perfuração e o rosqueamentosão obrigatórios. Como uma alternativa para os parafusos, roscas reabsorvíveis com um diâmetro de 1,5 mm estão disponíveis. Após a perfuração, a rosca é pressionada através da placa para o orifício criado, assim, fixando a placa no osso (Tab. 1.4.3-3a-c). 83 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Tab. 1.4.3-3a – Parafusos craniofaciais: terço médio da face (Sistemas Compact e Matrix). *Números sublinhados indicam o comprimento dos parafusos que foram mostrados na tabela. (Lê-se, no topo: “parafuso (terço médio da face)”, “rosca (mm)”, “alma (mm)”, “pitch (mm)”, “cabeça Ø (mm)”, “comprimento (mm)*”; “Chave de fenda”; Aplicar autorroscante para “self-tapping”, autoperfurante para “self-drilling” e parafuso de emergência para “emergency”; Sistemas em ordem: Compact, Matrix e parafusos reabsorvíveis. 84 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Tab. 1.4.3-3b – Parafusos mandibulares (Sistemas Compact e Matrix). *Números sublinhados indicam o comprimento dos parafusos que foram mostrados na tabela. (Lê-se, no topo: “parafuso (mandíbula)”, “rosca (mm)”, “alma (mm)”, “pitch (mm)”, “cabeça Ø (mm)”, “comprimento (mm)*”; “Chave de fenda”; Aplicar autorroscante para “self-tapping”, autoperfurante para “self-drilling” e parafuso de emergência para “emergency”; Sistemas em ordem: Compact e Matrix. Tab. 1.4.3-3c – Parafusos para bloqueio maxilo-madibular (BMM). *Números sublinhados indicam o comprimento dos parafusos que foram mostrados na tabela. (Lê-se, no topo: “parafuso (BMM)”, “rosca (mm)”, “alma (mm)”, “pitch (mm)”, “cabeça Ø (mm)”, “comprimento (mm)*”; “Chave de fenda”. 85 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Função dos parafusos O objetivo dos parafusos é estabilizar os ossos, fixar um osso a uma placa ou uma placa em direção ao osso, comprimir o osso, ou para fixar aparelhos especiais, como distratores. A estabilização óssea pode ser realizada apenas com parafusos (técnica de compressão ou posição) ou prendendo o osso a uma placa. A compressão pode ser obtida através do princípio do lag screw ou pelo princípio de deslizamento esférico com compressão dinâmica da placa. Embora o conceito de compressão seja atualmente controverso quanto à necessidade de cicatrização óssea, a compressão ajuda a aumentar a estabilidade da redução. Tipos de parafusos A nomenclatura para parafusos (e todo o sistema placa/parafuso) em sistemas convencionais segue a medida do diâmetro externo roscável e do tipo de parafuso. O diâmetro externo roscável é medido em milímetros. Assim, 2,4 refere-se a um diâmetro externo da rosca de 2,4 mm. Dois tipos básicos de parafusos de metal estão em uso clínico, parafusos convencionais com rosca única e parafusos locking head. Todos os parafusos Matrix do terço médio da face têm um diâmetro idêntico de 1,5 mm e parafusos de emergência de 1,8 mm. Entretanto, os parafusos mandibulares Matrix são fornecidos em diferentes diâmetros da parte externa roscável [2,0, 2,4, 2,7 e 2,9 mm (emergência)] e pode ser usado com todas as placas de mandíbula Matrix. Existem três subtipos de parafusos convencionais. A primeira geração de parafuso precisou de uma pré-rosca com a rosca correspondente ao tamanho. Atualmente, apenas os parafusos biodegradáveis precisam de uma pré-rosca para evitar a quebra da cabeça dos parafusos durante a inserção. Um parafuso autorroscante elimina a necessidade de preparar o osso com uma broca. Isto inevitavelmente elimina etapas no procedimento, e, portanto, tempo. O procedimento roscável remove quantidades selecionadas de osso e cria um orifício único para o parafuso. Os biseis no final do parafuso autorroscante atuam como uma broca e coleta detritos ósseos à medida que o parafuso avança. Os parafusos autoperfurantes e autorroscantes eliminam a necessidade de uma broca, economizando tempo com a redução das etapas. A ponta cônica deste tipo de parafuso atua como uma broca, mas é apenas usada em circunstâncias limitadas com base na qualidade óssea. 86 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Os parafusos locking head são parafusos com duas roscas, uma para ancorar o parafuso no osso e uma segunda rosca para travar o parafuso na placa. Para parafusos locking head, o pitch ao longo da alma deve ser proporcional em relação ao pitch ao longo da cabeça (Fig. 1.4.3-2). Isso permite o travamento de ambos, o osso e a placa. Um pitch desproporcional não permite o travamento da placa. Fig. 1.4.3-2 – Parafusos locking head. (Lê-se, primeiro parafuso: “rosca para a placa”, “rosca para o osso”; segundo parafuso: “sulco do parafuso locking head”. Os parafusos locking head são um avanço considerável na tecnologia placa/parafuso. Enquanto os parafusos convencionais agem pressionando a placa no osso, os parafusos locking head são apertados na placa (Fig. 1.4.3-3a-b). A combinação placa-parafuso apertada torna-se, assim, uma forma interna de "fixador externo". Esta combinação não depende da integridade da tábua óssea externa para manter a interface placa/parafuso/osso intacta e estável. Elas são particularmente vantajosas em ossos de qualidade reduzida. Além disso, porque o parafuso está travado tanto na placa, quanto no osso, os movimentos relativos entre a placa, o parafuso e o osso não ocorrerão. Isso reduz fretting (desgaste) (movimento entre placa, parafuso e tecidos adjacentes ou sobrejacentes) e, por fim, desgaste por corrosão, bem como afrouxamento de parafuso. 87 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.4.3-3a-b – a – Parafuso convencional pressionando a placa contra o osso. b – Parafuso locking head estabilizando a placa sem contato direto osso/placa. Técnica e instrumentos para a inserção de parafuso Embora a colocação dos parafusos possa parecer relativamente simples, existem certas ressalvas que garantem maior estabilidade, melhor cicatrização e menos quebra do parafuso. A broca correspondente ao parafuso a ser inserido tem o mesmo diâmetro que a alma do parafuso (Fig. 1.4.3-4). A broca deve ser usada com a ferramenta apropriada descritas nas seções a seguir. Deve ser estabilizada adjacente ao o osso ou a placa com a guia de perfuração correspondente. Isto permite concentricidade do orifício e parafuso durante posicionamento. Sem isso, há uma chance maior da cabeça do parafuso quebrar- se da alma do parafuso. A guia de perfuração e o osso devem ser resfriados durante a perfuração para garantir que o osso permanece a uma temperatura inferior a 47 ° C. Isso minimiza dano ósseo e necrose. Fig. 1.4.3-4– O diâmetro da broca corresponde com o diâmetro da alma do parafuso correspondente. 88 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática A broca deve ser removida do osso enquanto ainda está girando. Se a broca parar de girar enquanto estiver no osso, pode ficar alojada no osso e quebrar. Uma vez que a broca for removida, para fixação de parafusos bicorticais, é necessário um medidor de profundidade usado para medir o comprimento do parafuso a ser colocado. Finalmente, o parafuso é colocado. Ao prender placas com parafusos, a placa é fixada primeiro ao osso com a pinça apropriada. Uma guia de broca é colocada dentro do orifício da placa para manter a concentricidade (parafuso de neutralidade) ou excentricidade (parafuso de compressão). Para o posicionamento de parafusos locking head são recomendadas guias especiais de broca que são parafusadas no orifício da placa antes da perfuração. 1.4.3.3. Placas Desdea aplicação inicial da fixação rígida na mandíbula, vários designs de placas, de diferentes tamanhos, forma, dimensão, e propósito foram desenvolvidos e introduzidos para uso na fixação craniomaxilofacial. Desde a aplicação inicial há quatro décadas, as modificações contínuas de materiais e design foram feitas para melhorar os implantes e, portanto, a assistência ao paciente. Os desenvolvimentos da década passada incluem o design de placas específicas para determinadas regiões anatómicas, tecnologia de travamento e malha, entre outros exemplos. Função das placas As funções básicas de uma placa são estabilizar ossos e/ou preencher um vazio ou uma fenda, temporariamente ou permanentemente. A estabilização do osso pode ser realizada pelas mais diversas formas e tipos de placas, usando diferentes técnicas (Tab. 1.4.3-4). De acordo com o design da placa, as placas podem ser classificadas em placas de adaptação, placas de compressão e placas de travamento. 89 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Placa de adaptação Uma placa de 1,0 a 2,0mm ou placa Matrix com um design de elo de corrente que permite a ligação dos segmentos ósseos. Placa de compressão dinâmica (DCP) Uma placa que usa o princípio de deslizamento do orifício para comprimir os fragmentos. Placa de travamento Uma placa com um orifício roscável. Essa placa é roscável e, portanto, travada ao parafuso criando deste modo uma unidade estável. Placa de compressão dinâmica com contato limitado (LC-DCP) Uma placa de compressão com canais removidos do lado de baixo para permitir menos contato com a superfície óssea e mais crescimento de tecidos moles. Placa de reconstrução Uma placa larga com perfil alto e, portanto, forte suficiente para fornecer os efeitos de pilar (sustentação). Placa de fratura universal Uma placa com o design de elo de corrente. Parece com uma placa de reconstrução, mas não é tão larga, nem tão fina, portanto, também não é forte. É uma forma de placa de estabilização. Placa perfil A altura dessa placa é medida da superfície de baixo (a porção em contato com o osso) e da superfície externa. Barra de intersecção A conexão entre dois orifícios de uma placa. Placa de suporte Uma placa composta da união de duas placas com barras de interconexão. Tab. 1.4.3-4 – Glossário de termos para placas. As placas de adaptação têm orifícios redondos. Os parafusos são normalmente colocados no centro de cada orifício (Fig. 1.4.3-5). As placas de compressão têm orifícios ovais especificamente projetados com uma superfície interna oblíqua, que permite excentricidade dos parafusos colocados, para deslizar para baixo da superfície interna oblíqua do orifício, e, finalmente, ser centralizada dentro do orifício da placa (Fig. 1.4.3-6). Fig. 1.4.3-5 – Seção de uma placa de adaptação, titânio, espessura 0,8mm. 90 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.4.3-6 – Placa de compressão dinâmica com contato limitado (LC-DCP). Contato limitado projetado para mínimo contato com o osso sem prejudicar a força do implante. (Lê-se, “superfície do LC-DCP”; “superfície da parte de baixo do LC-DCP”; “superfície da placa MatrixMANDIBLE DCP”; “orifício com formato ovalado”). Durante esse processo, o parafuso, que é firmemente ancorado em um fragmento, tem o osso subjacente a ele. Isso facilita um movimento definido do fragmento em direção à linha de fratura. Se este procedimento for realizado em ambos os lados de uma fratura, enfim, os dois fragmentos são comprimidos, e o procedimento é descrito como osteossíntese por compressão (Fig. 1.4.3-7a-f, 1.4.3-8a-c). 91 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.4.3-7a-f – Compressão com uma placa. a – A cabeça do parafuso move em direção ao orifício ovalado na placa como uma bola em um cilindro angulado. b – O orifício pode ser visto com uma seção de um cilindro inclinado e horizontal. c – A cabeça do parafuso pode ser interpretada como a seção de uma bola que desliza para baixo no orifício da placa DC por causa de sua superfície esférica na parte de baixo. d – O parafuso excentricamente colocado chega na borda do orifício da placa. e-f – À medida que o parafuso vai sendo colocado, ele desliza dentro do orifício da placa para a posição final centrada. Fig. 1.4.3-8a-c – Compressão com uma placa. a – Os dois parafusos internos devem ser colocados excentricamente dentro dos orifícios da placa DC. b – À medida que os parafusos vão sendo colocados, eles aproximam os fragmentos. c – Com o aperto final dos parafusos, a compressão é alcançada. Os parafusos restantes são colocados em posição neutra. 92 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática As placas de travamento têm orifícios roscáveis. Uma vez que um parafuso de bloqueio (locking screw) sempre travará centricamente no orifício da placa, ele deve ser inserido estritamente perpendicular à placa no sistema 2,4. As placas de travamento Matrix Mandible (mandíbula) permitem para um parafuso a angulação de até 15 graus. Contudo, deve-se notar que parafusos convencionais também podem ser usados com uma placa de travamento (Fig. 1.4.3-9), mas neste caso a placa não será travada ao parafuso. Fig. 1.4.3-9 – Placa de reconstrução com travamento com orifícios roscáveis. Parafuso do córtex 2,4mm (pode ser colocado em uma posição angulada) (a). Parafuso locking head de 2,4mm (b). Parafuso locking head de 3,0mm (c). Além disso, as placas têm tamanhos diferentes (altura, largura, comprimento), mas em sistemas de placas convencionais elas são normalmente descritas pelo diâmetro externo da alma dos parafusos que são usados junto com a placa. Portanto, o termo "placa 2,0" significa que a placa é usada junto com parafusos 2,0 mm. Esta denominação não diz nada sobre as dimensões da placa e foi escolhida para tornar a comunicação entre o pessoal da sala de operações e os cirurgiões mais fácil. As placas têm tamanhos diferentes de acordo com sua finalidade. Placas usadas para unir defeitos em áreas que recebem carga, como a mandíbula (placas de suporte de carga) precisam ser maiores em tamanho em comparação com placas utilizadas para fixação em áreas que não recebem carga, como o osso frontal. As placas também vêm em modelos diferentes, que evoluíram através de muitos anos de desenvolvimento de produtos e pesquisa clínica. Considerando que as primeiras placas tinham uma forma simples de barra, os designs mais recentes de placas possuem características laterais que facilitam o dobramento tridimensional, ou cortes para reduzir a área de contato entre a placa e o osso, assim, permitindo o crescimento de tecidos moles e melhor vascularização do osso subjacente. Outros designs de placas incluem placas especiais para regiões anatômicas definidas, como as placas orbitais. Sua função não é tanta para a fixação de fragmentos ósseos, mas reconstrução de paredes orbitais ou faciais. 93 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Placas craniofaciais A maior oferta em termos de diversidade em tamanho, forma e aplicação são para placas craniofaciais. As placas craniofaciais estão disponíveis nos sistemas de placa Matrix e convencional 1,0, 1,3, 1,5, e 2,0 mm. As placas oferecidas variam muito em comprimento, largura e perfil (Fig. 1.4.3-10). As placas retas, placas de adaptação de elos múltiplos, placas orbitais curvas, e placas de suporte compõem a maioria das placas oferecidas. A placa de suporte tem a vantagem de maior estabilidade devido ao seu design reticulado. Placas L, placas L oblíquas,placas X, Placas Y, placas Z, placas T, placas H, placas Y duplas, e placa em caixa de vários tamanhos e comprimentos complementam a sistemas (Fig. 1.4.3-11). 94 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.4.3-10 – Placas craniofaciais do sistema de placas MatrixMIDFACE são codificadas por cores de acordo com a espessura da placa (0,4 mm – 0,8 mm). Todas as placas são usadas com um parafuso de dimensão única. (Lê-se: “Placas micro ou mini (prata) – espessura da placa: 0,4 mm / Comparável com o sistema craniofacial de fixação 1,0” “Placas mini (azul) – espessura da placa: 0,5 mm / Comparável com o sistema craniofacial de fixação 1,3” “Placas média (rosa) – espessura da placa: 0,7 mm / Comparável com o sistema craniofacial de fixação 1,5” “Placas larga (ouro) – espessura da placa: 0,8 mm / Comparável com o sistema craniofacial de fixação 2,0”) 95 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Existem oito placas orbitais internas diferentes para a reconstrução personalizada da órbita interna. Entre outros dispositivos de fixação estão as capas para cobertura dos orifícios cranianos, braçadeiras cranianas e vários tipos de malha (Fig. 1.4.3-12). Fig. 1.4.3-11 – Placas craniofaciais Matrix são projetadas para parafusos MatrixMIDFACE. Estas placas são usadas principalmente para o terço médio da face e áreas craniais. Elas estão disponíveis em diferentes tamanhos, variando de 0,4 mm a 0,8 mm. (Lê-se, da esquerda para a direita em linha horizontal: 1- “Placa H de titânio”; “Placa L obliqua de titânio, disponível em diferentes tamanhos, para esquerda ou direita”; 2- “Placa Y e Y dupla de titânio”; “Placa em caixa de titânio”; “Placa X de titânio”; “Placa T de titânio”; 3- “Placa de suporte de titânio”; “Placa para borda orbital de titânio”; 4- “Placa de adaptação de titânio (reta)”). 96 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.4.3-12 – Placas craniofaciais: placas orbitais MatrixMIDFACE, capas de orifício, e malhas. (Lê-se, da esquerda para a direita em linha horizontal: 1- “Placa de titânio para assoalho da órbita, anatômica, pequena”; “Placa de titânio para assoalho da órbita, anatômica, grande”; “Placa de titânio universal para assoalho da órbita”; “Placa de titânio universal para parede medial, (disponível para esquerda e direita)”; 2- “Placa orbital em malha de titânio; “Placa MatrixNEURO contornável em malha de titânio, maleável”; “Placa SynPOR de titânio reforçada em leque, com orifícios de fixação expostos” 3- “Placa de titânio orbital pré-formada (disponível em tamanhos pequeno e largo, versões esquerda e direita”; “Capas de orifícios com e sem shant”; “Dois tipos diferentes de malhas e capas de orifício no local (malha contornável, placa mastoide, capa de orifício, placa Y dupla” 97 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Placas mandibulares Numerosas formas de placas mandibulares foram desenvolvidas para diferentes condições e circunstâncias. Miniplacas são indicadas para fraturas que requerem resistência mínima ou moderada a forças de deformação tridimensionais, para as chamadas situações de load-sharing (consulte o capítulo 1.5.6. princípios de estabilização). Estes podem ou não usar a tecnologia de travamento (Fig. 1.4.3-13a-b). Fig. 1.4.3-13a-b – Placas mandibulares. a – Placa Compact LOCK 2,0. b – Sistema de placa MatrixMANDIBLE. (Lê-se, “gradiente de força da placa). 98 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática As placas mandibulares mais rígidas são fabricadas de várias formas. Estas incluem a placa de fratura universal e placa de compressão dinâmica com contato limitado (LC- DCP). A placa de fratura universal possui um design de elo de corrente que torna o dobramento fácil e contato ósseo limitado que permite o crescimento periosteal (Fig. 1.4.3-14). A superfície de baixo da placa LC-DCP também permite contato ósseo limitado, facilitando o crescimento periosteal. Fig. 1.4.3-14 – Placa de fratura universal. As placas de reconstrução foram desenvolvidas para fixação de mandíbulas atróficas edêntulas, fraturas multifragmentárias, ou reconstrução que exija os efeitos de suporte de carga de uma placa maior. Estas podem ou não utilizar a tecnologia de travamento (Fig. 1.4.3-15). Fig. 1.4.3-15 – Placa de reconstrução UniLOCK 2,4. 99 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Além disso, quatro complementos de cabeça condilar estão disponíveis para placas de reconstrução, cuja altura pode ser ajustada em incrementos de 2 milímetros (0–6 mm) (Fig. 1.4.3-16). Placas mandibulares semelhantes estão disponíveis no sistema Matrix Mandible. Um desenvolvimento mais recente são as placas pré-formadas de reconstrução. Essas placas foram projetadas após a análise de 1.000 tomografias computadorizadas de mandíbulas humanas e vem em três tamanhos diferentes (Fig. 1.4.3-17a-b). Placas anatômicas especiais foram projetadas para a região subcondilar (Fig. 1.4.3-18). Fig. 1.4.3-16 – Placa de reconstrução MatrixMANDIBLE com complemento de cabeça condilar. Fig. 1.4.3-17a-b – Placas de reconstrução pré-formada MatrixMANDIBLE (a) e os moldes dobráveis correspondentes (b). Fig. 1.4.3-18 – Placas subcondilar MatrixMANDIBLE. 100 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fixadores externos Os fixadores externos estão disponíveis para a mandíbula. Fixadores externos são utilizados para estabilização imediata em emergências (ferimentos por arma de fogo, trauma de alta energia) e para uniões provisórias de defeitos em oncologia. Os componentes são parafusos Schanz, hastes mandibulares e braçadeiras (Fig. 1.4.3-19a-d). Fig. 1.4.3-19a-d – Fixadores externos. a – Fixador externo fixado a mandíbula do lado esquerdo. b – Hastes pré-curvadas. c – Parafusos Schanz. d – Braçadeiras. 101 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Distratores Décadas após o desenvolvimento da distração osteogênica, um ressurgimento de interesse ocorreu dentro da comunidade cirúrgica. Embora inicialmente o foco de atenção fossem os cirurgiões ortopedistas, agora, existe muito entusiasmo entre cirurgiões craniomaxilofaciais para esta tecnologia. O primeiro dos distratores a ganhar popularidade foi o distrator de vetor único para aplicação mandibular. Enquanto os primeiros distratores desse tipo foram aplicados externamente, distratores internos de vetor único foram com o tempo se tornando disponíveis (Fig. 1.4.3-20a-b). Como a tecnologia avançou e a nossa compreensão referente as complexidades da osteogênese amadureceu, os distratores multivetoriais foram desenvolvidos. Esses distratores multivetoriais têm a capacidade de permitir o alongamento do corpo e do ramo simultaneamente (Fig. 1.4.3-20c). Os contornos da mandíbula e, portanto, a estética da face é estabelecida com mais precisão. Distratores segmentares para aumento de crista também foram desenvolvidos (Fig. 1.4.3-20d). A combinação da experiência com distração mandibular e cirurgia ortognática tem permitido o desenvolvimento e o aperfeiçoamento de distratores maxilares externos (Fig. 1.4.3-20e) e distratores maxilares internos (Fig. 1.4.3-20f). Esses distratores permitem o avanço controlado da maxila apesar dos contornos desafiadores do terço médio da face. Para deformidades craniomaxilofaciais,osteotomias em combinação com aparelhos de distração externos e tração são alternativas para osteotomias, posicionamento de fragmentos e enxertos ósseos. Os distratores internos do terço médio da face (Fig. 1.4.3-20g) permitem o avanço controlado sem os efeitos psicossociais de um aparelho externo. 102 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.4.3-20a-g – Distratores. a – Distrator interno mandibular de vetor único. b – Distrator interno mandibular de vetor único com haste flexível. c – Distrator externo mandibular mutivetorial. d – Distrator de crista alveolar com dois vetores. e – Distrator externo mutivetorial do terço médio da face. f – Distrator interno de vetor único da parte inferior do terço médio da face. g – Distrator interno de vetor único do terço médio da face. Instrumentos Brocas: Uma seleção de brocas é usada com os parafusos correspondentes. Estas são brocas helicoidais que são padrão (sem parada), ou com parada, e têm a extremidade do eixo compatíveis com qualquer ferramenta elétrica. Estes incluem acoplamento hexagonal, trava em J, e acoplamento rápido (Fig. 1.4.3-21a-b). Os diâmetros das brocas correspondem ao diâmetro da alma dos parafusos correspondentes (Fig. 1.4.3-4). As brocas vêm em diferentes comprimentos para uso com ou sem trocarte. Tap: Quando o tap é preferível ou necessário (isso ocorre especialmente em sistemas reabsorvíveis), uma variedade destes estão disponíveis. Estes são biselados e vêm com diâmetros que correspondem ao diâmetro da rosca externa dos parafusos, além de terem comprimentos variados (Fig. 1.4.3-22). As taps têm acoplamento rápido, acoplamento hexagonal ou trava em J que correspondem ao cabo apropriado. As bordas afiadas das 103 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática roscas da tap cortam o osso enquanto os biseis juntam os debris ósseos. Estes devem avançar três voltas no sentido horário, depois uma volta no sentido anti-horário, e avançar novamente três voltas no sentido horário. Isso permite que os biseis coletem adequadamente os debris ósseos, ao invés dos detritos se acumularem ao longo das roscas, prevenindo assim o corte preciso do local em que o parafuso será inserido. As batidas devem ser sempre feitas à mão e não com ferramentas elétricas para evitar descascamento e distração das roscas dentro do osso. Fig. 1.4.3-21a-b a – Os variados acoplamentos das brocas e chaves de fenda. b – A broca é constituída de eixo com acoplamento, o comprimento de broca, diâmetro da broca que corresponde a alma do parafuso, e corte do orifício inicial. A ponta da broca pode ter ou não paradas (stop). (Lê-se, primeira broca: “com parada (stop)”; “profundidade de perfuração”; segunda broca “acoplamento”; “sem parada”; “comprimento da broca”; “diâmetro da broca”). Fig. 1.4.3-22 – Tap. 104 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Cabos: Os cabos podem ser necessários para taps, escareadores, ou lâminas de chave de fenda. Esses cabos podem estar estacionários sem local para aperto manual, ou como o cabo de joalheiro que permite rotação, ou movimento de catraca (Fig. 1.4.3-23a-d). Fig. 1.4.3-23a-d – Cabos. a – Cabo pequeno com acoplamento hexagonal. b – Cabo médio com acoplamento hexagonal. c – Cabo grande com acoplamento hexagonal. d – Cabo de chave de fenda estrela com acoplamento hexagonal. Chaves de fenda: Um número variado de chaves de fenda está disponível. As lâminas de chave de fenda estão disponíveis em um formato que se encaixa nos cabos. Estes vêm em variações que se ajustam com parafusos cruciformes, PlusDrive e Matrix. Eles são de retenção automática ou são usados com uma bucha que segura o parafuso. O mais exclusivo é a chave de fenda de 90°, ou ângulo reto, que é útil para abordagens no ramo transoral ou para endoscopia. Esta chave de fenda possui um cabo, corpo principal, peça de cabeça, braço de extensão e parafuso de suporte (Fig. 1.4.3-24a-c). Fig. 1.4.3-23a-d – Chave de fenda. a – Chave de fenda eixo MatrixMIDFACE, presa automática, com acoplamento hexagonal. Pequena, comprimento 52 mm. Média, comprimento 76 mm. Longa, comprimento 96 mm. b – Chave de fenda eixo MatrixMIDFACE, com bucha e acoplamento hexagonal. 105 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Média, comprimento 79 mm. Longa, comprimento 95 mm (na imagem). c – Chave de fenda com ângulo de 90º. Guias de perfuração: As guias de perfuração estão disponíveis para diversos propósitos. O diâmetro interno corresponde à broca apropriada a ser usada. Elas vêm em comprimentos para brocas padrão, ou para uso com um trocarte. Guias de perfuração neutros são projetados para inserir um parafuso centralmente (neutro) no orifício de uma placa. As guias de perfuração excêntricas são projetadas para colocar um parafuso excentricamente no orifício de uma placa de compressão (consulte Fig. 1.4.3-7). As guias de perfuração rosqueadas estão disponíveis para uso com os sistemas de travamento placa/parafuso. Eles são rosqueados na placa antes da broca ser introduzida. As guias de perfuração destinam-se a manter concentricidade do furo e da alma do parafuso para proteção de tecidos moles (Fig. 1.4.3-25a-e). Fig. 1.4.3-25a-e – Guias de perfuração. a – Guia de perfuração duplo não roscável 2,4/1,8. b – Guia de perfuração duplo não roscável 2,0/1,5. c – Guia de perfuração roscável 1.5 (prata). d – Guia de perfuração roscável 1.8 (azul). e – Guia de perfuração roscável 2.4 (ouro). Medidores de profundidade: Embora vários tipos de medidores de profundidade estejam disponíveis para diferentes aplicações, eles têm o mesmo design básico. O eixo do instrumento contém as marcações graduadas. A lâmina tem uma ponta que prende a parte de baixo do osso e está conectada a um cabo separado que é ajustado pelo polegar da mão dominante. Diferentes comprimentos de eixo são fornecidos para permitir o uso através de um trocarte (Fig. 1.4.3-26). 106 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.4.3-26 – Medidores de profundidade. Escareador: Ao usar a técnica do lag screw, o escareador do córtex externo do osso garante o local adequado para a cabeça do parafuso. Eles são fornecidos com pinos de centralização que correspondem ao diâmetro da alma apropriada. São fornecidos com um acoplamento que se encaixa com a chave de fenda apropriada (Fig. 1.4.3-27). Escareadores não deve ser usado com ferramentas elétricas. Fig. 1.4.3-27 – Escareador. Modelos: Modelos de alumínio estão disponíveis para placas. Esses modelos são facilmente dobráveis em três dimensões permitindo a recriação dos contornos complexos do esqueleto craniofacial. Eles também podem ser cortados para se ajustarem às dimensões a serem recriadas. As placas podem ser contornadas usando o modelo como uma guia. Esses modelos podem ser esterilizados e reutilizado (Fig. 1.4.3-17b). Ferros dobráveis e alicates: A dobra de placas pode ser realizada com três formas básicas de instrumentos. O primeiro e mais simples são os ferros dobráveis. Eles são instrumentos de unidade única com cabo e placa de aço inoxidável que são usados para dobrar e contornar as placas mandibulares. Embora simples, eles são capazes de engatar na placa para fornecer contorno em três dimensões (Fig. 1.4.3-28a-f). O alicate de dobra vem em duas formas básicas. A primeira é uma dobradiça única e é útil para contornar miniplacas e microplacas (Fig. 1.4.3-29). O segundo tipo de alicate usa a vantagem mecânicade um ponto de apoio. Esta vantagem mecânica adicional permite um contorno mais fácil de miniplacas ou grandes placas mandibulares (Fig. 1.4.3-30a-b). A bigorna com contornos dentro das pontas dos alicates permite a criação de curvas suaves. 107 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.4.3-28a-f – Ferros dobráveis e alicates para placas MatrixMandible. a – Ferro dobrável: no plano de flexão. b – Ferro dobrável: fora do plano de flexão. c – Ferro dobrável: dobrando o último segmento da placa e torcendo. d – Alicate de dobra: no plano de flexão. e – Alicate de dobra: fora do plano de flexão. f – Dobrando o ultimo segmento da placa. Fig. 1.4.3-29 – Alicate de dobra para placas MatrixMIDFACE. Fig. 1.4.3-30a-b – Alicate de dobra de três pontos com nariz para placas MatrixMIDFACE (apoio). a – No plano de dobra. b – Fora do plano de dobra. Cortadores de placas: Três formas diferentes de cortadores de placas estão disponíveis para placas de titânio. A construção de tesouras simples funciona efetivamente para malhas e placas craniofaciais (Fig. 1.4.3-31a-b). O mesmo conceito de tesoura é usado com o cortador de placas ShortcutTM, mas sem o ponto de apoio no instrumento (Fig. 1.4.3- 108 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 31d). As duas tesouras separadas e individuais engatam a placa que então atua como ponto de apoio. Isto é projetado para corte de reconstrução mandibular ou placas de fratura universal. A terceira forma é a de um alicate com ponto de apoio e usa essa eficiência mecânica adicional para cortar placas maiores (Fig. 1.4.3-31c). Fig. 1.4.3-31a-d – Instrumentos de corte de placas. a – Cortador de placas para placas MatrixMIDFACE. b – Tesouras cortantes para placas em malha, longa. c – Alicates cortantes para placas MatrixMANDIBLE 1,0 a 1,5, comprimento 175mm. d – ShortcutTM para placas MatrixMANDIBLE, espessura 1,5 a 2,8 mm, com ranhuras, usada em pares. Pinça: As pinças são projetadas para empunhar parafusos e placas, para prender as placas ao osso, para contorno de placas e para pré-tensão óssea. As pinças de placas e parafusos para microplacas e miniplacas assumem a forma de um hemostato ou o design Castroviejo. Estas pinças de trava fina são projetadas para garantir transferência e estabilização de placas e parafusos menores. Elas também podem ser liberadas rapidamente, posteriormente. Para a mandíbula, as pinças de fixação de placa com uma bola (pinça bolinha) ou pé, são usadas para prender a placa ao osso (Fig. 1.4.3-32a). A ponta pontiaguda da pinça trava no osso, enquanto a bola trava no orifício para o parafuso, ou o pé engata no eixo da placa. As pinças de redução com pontos são essencialmente braçadeiras com um ângulo mais oblíquo das pontas (Fig. 1.4.3-32b). As pontas são inseridas diretamente na superfície óssea ou nos orifícios criados no córtex externo. Como a chave estrela está engatada, o osso é pré-tensionado. 109 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.4.3-31a-d – Pinças para a mandíbula. a – Pinça de retenção de osso. b – Pinça de redução. Instrumentos transbucais: Para evitar abordagens transcutâneas abertas, especialmente para o ramo da mandíbula, trocateres transcutâneos foram desenvolvidos. Os componentes básicos são o cabo do trocarte (Fig. 1.4.3-33a), a cânula (Fig. 1.4.3-33b) e as buchas de broca (Fig. 1.4.3-33c). O diâmetro interno da cânula é ligeiramente maior que o diâmetro externo da bucha da broca e da chave de fenda inseridas através dela. Alguns modelos permitem cânulas trocáveis e buchas de brocas de diâmetros internos diferentes, permitindo usos múltiplos para o cabo e a cânula do trocarte. Várias formas de afastadores de bochecha podem ser aplicadas à cânula (Fig. 1.4.3-33d-f) Um trocarte se encaixa na cânula para permitir entrada e passagem pela pele, tecidos moles e mucosa. A técnica transbucal é ilustrada na Fig. 1.4.3-34a-c. Fig. 1.4.3-33a-f – Instrumentos transbucais. a – Cabo. b – Cânula com obturador. c – Bucha de broca. d-f – Afastadores bucal. 110 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.4.3-34a-c – Técnica de fixação transbucal. a – Perfuração transbucal. b – Mensuração da profundidade. c – Inserção do parafuso transbucal. Instrumentação de placa reabsorvível: Na maioria dos sistemas disponíveis, elas só podem ser maleáveis se forem aquecidas previamente. Ao colocar a placa de molho na água (sob uma bandeja), isto permite o aquecimento da placa a ponto de poder ser manuseada. O aquecedor da água não é estéril, mas a bandeja de água e a tampa são. A água estéril é colocada na bandeja e o aquecedor ligado (Fig. 1.4.3-35a-b). Fig. 1.4.3-35a-b – Instrumentação de placa reabsorvível. a – Banho de água. b – Placas reabsorvíveis. 111 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Caixas: A organização de placas, parafusos e instrumentos em caixas é uma melhora substancial. As caixas atuais são tão numerosas em variedade e versatilidade em sua capacidade modular que existe um “lugar para tudo e tudo tem o seu lugar”, não importa quão grande ou pequena é a sala de operações, ou hospital. Além disso, o design modular permite adaptabilidade ou personalização de armazenamento para praticamente todo cirurgião, procedimento ou problema de espaço (Fig. 1.4.3-36a-b). Fig. 1.4.3-36a-b – Instrumentos e conjuntos de implantes. a – Conjunto internacional MatrixMIDFACE. b – Conjunto americano MatrixMIDFACE. Ferramentas elétricas As ferramentas elétricas são usadas para perfurar e cortar ossos. Os instrumentos elétricos do passado foram aprimorados, com um peso mais leve, compactos, com fonte de energia rotativa pneumática eficiente, bem como a introdução de fontes de energia independentes (bateria) para brocas e chaves de fenda (Fig. 1.4.3-37a-b). Agradecimentos Agradecemos a Regan Barber, Valerie Biggers, Ralph Zwirnmann, Bryan Griffiths, Chuck Goudy, Paul Ciccone e Samuel Leuenberger por seus esforços na elaboração das tabelas para placas, parafusos e equipamentos. 112 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.4.3-37a-b – Ferramentas elétricas. a – Colibri. b – E-pen (caneta elétrica). 113 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.5. Princípios do tratamento do trauma craniomaxilofacial 1.5.1. Objetivos do tratamento do trauma CMF O objetivo final do tratamento do trauma craniomaxilofacial moderno é a restauração imediata ou precoce da forma e função de todas as estruturas da face e do crânio, com cicatrização completa, previsível e sem complicações. Isso também se aplica à cirurgia óssea corretiva da face e do esqueleto do crânio, bem como para cirurgias ablativas e reconstrutivas de tumores. Dependendo do tipo e extensão das lesões craniofaciais ou patologia, esse objetivo nem sempre pode ser alcançado. Por exemplo, quando tecidos específicos são severamente danificados ou perdidos, como globos oculares, dentes, e nervos, a anatomia ou a função não podem ser restaurados. Entretanto, mesmo nesses casos graves, os pacientes devem ser tratados o mais completo possível; sempre mantendo o objetivo final em mente, que é alcançar o melhor resultado. O objetivo crucial da cirurgia craniomaxilofacial moderna é alcançar a mais alta qualidade de vida retornando os pacientes para a melhor condição possível. Os tratamentosmodernos de trauma, bem como a cirurgia óssea corretiva e a cirurgia tumoral são baseados em vários pré-requisitos: • Abordagem interdisciplinar envolvendo todas as especialidades necessárias de acordo com as lesões específicas do paciente • Imagem adequada • Planejamento do tratamento individual baseado na ciência e experiências individuais • Momento adequado da cirurgia • O tratamento, principalmente a cirurgia, devem ser realizados de acordo com os mais altos padrões, envolvendo técnicas modernas e equipamentos. Na traumatologia craniofacial, isso implica o uso de sistemas modernos de fixação interna, materiais de substituição de tecido (osso), transferência de tecido, e ressuspensão de tecidos moles ao osso como componentes padrão. No entanto, a endoscopia virtual pode ser usada em circunstâncias especiais. • Cuidados pós-operatórios e acompanhamento adaptados ao caso. Todos os pontos mencionados acima são quase igualmente importantes para obter um resultado de tratamento de última geração. 114 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.5.2. Indicações cirúrgicas, não-cirúrgicas, ou nenhum tratamento para fraturas craniomaxilofacial As fraturas craniomaxilofaciais podem ser tratadas em diferentes maneiras. Em muitos casos, há mais de uma opção para lidar com uma situação clínica ou problema. A princípio, existem três opções de tratamento para a conduta de fraturas CMF. Elas são: • Nenhum tratamento • Tratamento não-cirúrgico • Tratamento cirúrgico Dentro de cada uma das três opções de tratamento existem subgrupos com diferentes algoritmos de tratamento, por exemplo, dentro do grupo cirúrgico, fixação rígida versus não-rígida. “Nenhum tratamento” significa nenhum tratamento ativo e nenhum acompanhamento estruturado. O tratamento não-cirúrgico por muitos anos também foi chamado de tratamento conservador ou tratamento fechado. Isto significa o tratamento da fratura sem abrir a pele ou mucosa, e sem visualização direta de fragmentos. Dentro deste grupo há uma ampla gama de possibilidades de tratamento, como dieta leve e observação, tratamento funcional com aparelhos ortodônticos, bloqueio maxilo-mandibular (BMM) com fios, barras em arco, ou outros dispositivos BMM, e às vezes com terapias funcionais subsequentes. É importante notar que “a observação somente” e o acompanhamento, por exemplo, em uma fratura greenstick (quando o osso jovem se dobra e se quebra mas a fratura não se estende por todo o osso) em uma criança, ou em fraturas não deslocadas, é considerado tratamento e não como nenhum tratamento. Os termos tratamento cirúrgico, tratamento aberto, e tratamento operatório são substituíveis. O tratamento cirúrgico de fraturas normalmente envolve estas etapas: • Exposição do local da fratura • Redução dos fragmentos • Fixação interna 115 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática A redução aberta e fixação interna (RAFI) sempre envolvem cirurgia de tecidos moles, pode envolver transplante de tecido, e o uso de enxertos ou substituição por tecido aloplástico (osso). Geralmente todas as opções de tratamento para fraturas faciais podem ser associadas com complicações específicas e efeitos adversos. Um cirurgião deve estar familiarizado com as complicações e ser capaz de comunicá-las ao paciente de maneira apropriada pelo processo de consentimento informado. O objetivo principal do tratamento de fraturas CMF é uma cicatrização previsível, segura, imperturbável e sem complicações. Às vezes, esse objetivo pode ser alcançado com mais de uma opção de tratamento. Há situações em que o conforto do paciente é um fator principal com impacto dominante na decisão de tratamento; por exemplo, em uma situação em que um paciente pode escolher entre um tratamento não-cirúrgico de uma fratura do corpo da mandíbula com barras em arco e quatro semanas de BMM, ou um tratamento cirúrgico. Este último pode ter complicações cirúrgicas mais específicas, mas permite a função imediatamente ou logo após a cirurgia. Além disso, a capacidade de cooperação é um fator na decisão, especialmente em pacientes idosos. É extremamente importante lembrar sempre que os cirurgiões não tratam apenas fraturas, mas pacientes com fraturas. Portanto, a tomada de decisão sobre as opções de tratamento envolve mais do que o tipo e a gravidade da fratura. O estado geral de saúde, doenças intercorrentes, idade, conformidade estimada, status social dos pacientes, e seus desejos e expectativas precisam ser considerado. Das várias opções de tratamento, as selecionadas são aquelas que provavelmente fornecerão o melhor resultado possível. Na mandíbula, nenhum tratamento e observação podem somente ser considerados para fraturas incompletas e/ou não deslocadas sem má oclusão, dor, ou outros distúrbios funcionais sem nenhuma patologia adicional, como cistos dentígeros, no local da fratura. No terço médio da face, isso se aplica às fraturas laterais do terço médio da face (zigoma) com deslocamento mínimo ou nenhum deslocamento, arco zigomático não deslocado e fraturas da parede orbital. No centro do terço médio da face, o mesmo se aplica às fraturas nasais e fraturas naso-órbito-etmoidal (NOE) com pouco ou nenhum deslocamento. As fraturas do seio frontal, fraturas da calota craniana, e fraturas da base do crânio sem deslocamento ou com deslocamento mínimo e sem patologia adicional também não requerem cirurgia. As fraturas do tipo Le Fort no terço médio da face, móveis ou deslocados (impactados ou incompletas) devem sempre ser tratadas cirurgicamente em 116 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática adultos. Neste caso, o tratamento não-cirúrgico deve ser limitado a crianças com fraturas greenstick (página 114). O tratamento não-cirúrgico com BMM a curto prazo e/ou tratamento ortodôntico deve ser considerado em adultos para o não deslocamento do côndilo e fraturas da cabeça do côndilo associadas com má oclusão, dor, ou déficits funcionais. As fraturas não deslocadas do corpo mandibular com dor e/ou problemas funcionais também podem ser tratadas com sucesso com o BMM, e, às vezes, terapia funcional subsequente. O tratamento não-cirúrgico de fraturas corporais em adultos requer imobilização mais longa, aproximadamente 4-6 semanas. Portanto, muitos pacientes solicitam a cirurgia aberta e a fixação interna para conforto e função melhorada. Para crianças menores de 12 anos, a conduta não-cirúrgica com o BMM para fraturas de côndilo deslocado e não deslocado, com problemas funcionais e/ou dor ainda é considerado o tratamento de escolha, embora, tentativas recentes foram feitas em direção ao tratamento cirúrgico especialmente para fraturas deslocadas. Para fraturas centrais do terço médio da face com má oclusão, mobilidade, dor e/ou outros problemas funcionais não há possibilidade de tratamento de fraturas com BMM sozinho em adultos ou crianças, exceto para fraturas isoladas do processo alveolar. Tanto na mandíbula quanto no terço médio da face, o tratamento cirúrgico é indicado para todas as fraturas com mais que o deslocamento mínimo. Eles exigem redução aberta, fixação interna, e/ou reconstrução de subunidades ósseas da face, como paredes orbitais, nariz e zigoma. Para todas as fraturas com potencial impacto na oclusão é de suma importância aplicar o BMM na oclusão adequada antes de executar a fixação interna. Uma fixação interna com placas e parafusos deve ser tridimensionalmente estável. A má oclusão resultante de uma osteossíntese incorretamente reduzida não pode ser corrigida mantendo um paciente em BMM no pós-operatório ou usando tração elástica. A profilaxia antibiótica é indicada em lesões graves, principalmente para pessoas com tecidos molescomprometidos, como lesões por esmagamento avulsivo ou por arma de fogo. Em lesões menos severas a profilaxia com antibióticos é opcional. Os antibióticos são rotineiros no tratamento de todas as fraturas com sinais de infecção. 117 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.5.3. Plano de tratamento, considerações pré e pós-cirúrgicas A preparação meticulosa e o planejamento do tratamento são essenciais para alcançar os melhores resultados possíveis no tratamento de traumas, bem como nas cirurgias corretiva e reconstrutiva dos sistemas musculoesqueléticos. Envolve: • Exame clínico detalhado • Imagem pré-operatória adequada • Análise de dados e desenvolvimento de um plano de tratamento incluindo alternativas • Comunicação com o paciente • Consentimento informado Essas etapas precisam ser documentadas e os dados precisam ser arquivado de acordo com os regulamentos legais locais. Listas de verificação (checklists) pré-operatória foram introduzidas para simplificar e padronizar o processo. Não apenas a severidade e o tipo de fraturas, defeitos ou malformações, mas também a personalidade individual do paciente, idade, sexo, e condições gerais são fatores importantes para o planejamento do tratamento. Assim, uma técnica de osteossíntese ou reconstrução deve abordar tanto as características de uma fratura quanto a características do paciente. Personalidade do paciente: Os pacientes altamente educados e inteligentes tendem a ter uma melhor adesão às medidas terapêuticas e conselhos, enquanto aqueles com níveis de educação e padrões social inferiores podem ser negligentes no pós-operatório. Esses pacientes requerem supervisão mais próxima e técnicas mais confiáveis, por exemplo, uma abordagem mais rígida de fixação em um caso de trauma. Idade e gênero do paciente: Cicatrização, principalmente o reparo ósseo é geralmente melhor em pacientes mais jovens. Além disso, as forças de mordida de homens jovens que possuem dentes são maiores em comparação com mulheres jovens. As forças de mordida em geral tendem a ser menores em indivíduos mais velhos e serem maiores nas pessoas que possuem dentes em comparação com indivíduos parcialmente dentados ou desdentados. Como consequência, a fixação interna deve ser mais rígida em jovens totalmente dentados. 118 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Pacientes com comprometimento médico: Pacientes com doenças metabólicas como diabetes, alergias, distúrbios hemorrágicos, e aqueles com uso de substâncias devem ser tratados com cuidado particular. As doenças metabólicas, distúrbios na função do fígado e formação excessiva de hematoma podem afetar a cicatrização pós-operatória de tecidos moles e osso. As doenças psiquiátricas e neurológicas (como a epilepsia) e o uso de substâncias são contraindicações para o pós-operatório de bloqueio maxilo-mandibular (BMM). Os cuidados pós-operatórios incluem controles clínicos e imagens adequadas. As imagens intra ou pós-operatória precisam ser realizadas e documentadas para provar a qualidade da redução e a colocação adequada do dispositivo (controle de qualidade). Isso pode ser feito com imagens em 2-D, geralmente raios-x, em dois planos para cenários de fratura simples, como fraturas simples da mandíbula. Para cenários de fraturas e reconstrução mais complexos, incluindo todas as fraturas orbitais com reparo da parede orbital, imagem em 3-D, geralmente com TC ou TC de feixe cônico, tornou-se quase o padrão terapêutico. 1.5.4. Princípios do tratamento cirúrgico das fraturas Além do planejamento meticuloso, o reparo cirúrgico da fratura envolve quatro etapas cirúrgicas sequenciais: • Exposição adequada • Redução de fragmentos • Fixação interna adequada • Fechamento meticuloso da ferida Exposição adequada: A abordagem cirúrgica é escolhida de acordo com à localização e severidade das fraturas. Em geral, uma abordagem cirúrgica deve ser a menor e mais escondida possível, mas deve fornecer acesso adequado para o manuseio do osso e colocação do material de osteossíntese. Redução de fragmentos: O objetivo da redução de fragmentos é estabelecer anatomia óssea pré-lesão antes da fixação interna. A redução indireta de fragmentos é possível, por exemplo, aplicando barras em arco e colocando o paciente em oclusão. O manuseio direto do fragmentos ocorre com a ajuda de pinça de redução, ganchos ósseos 119 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática ou dispositivos ósseos ancorados como um dispositivo Caroll-Girard, e possíveis combinações destes. Os fragmentos são mantidos no lugar enquanto a fixação interna é realizada. Para todas as fraturas com potencial impacto na oclusão, como as fraturas mandibulares ou do tipo Le Fort, o bloqueio maxilo-mandibular (BMM) intraoperatório temporário é recomendado. Fixação interna adequada: Primeiro, o dispositivo adequado deve ser selecionado, de acordo com a severidade da lesão e a personalidade do paciente. Além disso, inclui-se a colocação e fixação apropriadas do dispositivo de acordo com às tensões biomecânicas e forças esperadas nas áreas de fratura. Fechamento meticuloso da ferida: Isto inclui o fechamento da ferida em camadas, incluindo ressuspensão muscular e periosteal. A necessidade de ressuspensão meticulosa de tecidos moles aumenta com a quantidade de tecidos moles removidos para exposição, redução e fixação. A indicação para drenagem de feridas deve ser considerada, mas é sempre uma decisão cirúrgica individual. Em casos com defeitos nos tecidos moles, como lesões por tiro, a reconstrução imediata versus a tardia dos tecidos moles precisa ser discutida. 1.5.5. Biomecânica da unidade osso-implante Para obter estabilidade adequada no tratamento de fraturas, é essencial considerar não apenas os fatores pertinentes ao tipo de fratura e ao local nos tecidos moles em que a lesão ocorreu, mas também fatores relacionados ao paciente. Esses fatores incluem o paciente, as doenças intercorrentes (comorbidade), os hábitos de fumar e beber bebidas alcoólicas, a ocupação, a personalidade, e a conformidade de cada paciente, assim, todas essas características afetam a escolha apropriada do implante. O implante escolhido deve acomodar a magnitude esperada e a duração da carga para cada caso específico (Fig. 1.5.5-1). O perigo é subestimação de certas condições de carga tais como fraturas do côndilo mandibular e atrofia mandibular. Enquanto miniplacas no corpo da mandíbula podem funcionar perfeitamente sob cargas de tensão, sua função estabilizadora pode ser insuficiente se colocado em um local sujeito a vários tipos de carga. Além disso, os requisitos que o dispositivo de fixação deve atender mudam em função e na anatomia do osso ao longo do tempo. Durante o processo de cicatrização fisiológico e sem intercorrências, o osso gradualmente assume as tensões de carga através do local da fratura e o implante fica descarregado. Se o processo de cicatrização é atrasado, por 120 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática exemplo, pelos fatores do paciente como o tabagismo, falta de higiene oral, ou cicatrização comprometida em casos de imunocomprometidos, a situação biomecânica estimada pode ser diferente devido as condições prolongadas de carga. Como consequência, um pequeno implante pode falhar por fadiga. Nesta osteossíntese, na qual o implante e o osso precisam compartilhar a carga, este tipo de fixação é chamada de fixação load-sharing. Fig. 1.5.5-1 – Interrelação do paciente, fratura, e fatores de fixação na cicatrização da fratura. Lê-se: Fatores do paciente Fatores da fratura Fatores de fixação • Saúde geral:186 2.2.7. Abordagens cirúrgicas ........................................................................................................ 187 2.2.8. Técnica de osteossíntese ..................................................................................................... 190 2.2.9. Tratamento pré-operatório .................................................................................................. 195 2.2.10. Tratamento pós-operatório.................................................................................................. 195 2.2.11. Complicações e erros .......................................................................................................... 196 2.3. Fraturas do côndilo, ramo ascendente, e processo coronoide .................................................... 197 2.3.1. Anatomia e interpretação .................................................................................................... 197 2.3.2. Imagem ............................................................................................................................... 198 2.3.3. Tratamento não-cirúrgico ................................................................................................... 200 2.3.4. Tratamento cirúrgico .......................................................................................................... 202 2.3.5. Abordagem cirúrgica .......................................................................................................... 203 2.3.6. Técnicas cirúrgicas ............................................................................................................. 203 2.3.7. Tratamento pós-operatório.................................................................................................. 207 10 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 2.3.8. Complicações e erros .......................................................................................................... 208 2.4. Fraturas em osso com qualidade reduzida .................................................................................. 210 2.4.1. Introdução ........................................................................................................................... 210 2.4.2. Imagem ............................................................................................................................... 211 2.4.3. Abordagens cirúrgicas ........................................................................................................ 211 2.4.4. Técnicas de osteossíntese ................................................................................................... 212 2.4.5. Tratamento .......................................................................................................................... 212 2.4.5.1. Fraturas mandibulares atróficas ................................................................................. 212 2.4.5.2. Fraturas mandibulares multifragmentárias ................................................................. 215 2.4.5.3. Fraturas mandibulares defeituosas ............................................................................. 218 2.4.5.4. Fraturas mandibulares infeccionadas ......................................................................... 218 2.4.5.5. Tratamento pré-operatório ......................................................................................... 221 2.4.5.6. Complicações e erros ................................................................................................. 221 2.5. Referências e leitura sugerida ....................................................................................................... 222 3. Fraturas do terço médio da face ................................................................................................... 225 3.1. Fraturas inferiores do terço médio da face (Le Fort I e fraturas palatinas) ............................ 226 3.1.1. Interpretação ....................................................................................................................... 226 3.1.2. Imagem ............................................................................................................................... 227 3.1.3. Abordagens ......................................................................................................................... 228 3.1.4. Técnica de osteossíntese ..................................................................................................... 230 3.1.5. Conduta para as vias aéreas ................................................................................................ 235 3.1.6. Tratamentos pré-operatório e pós-operatório...................................................................... 235 3.1.7. Complicações e erros .......................................................................................................... 236 3.2. Fraturas superiores do terço médio da face (Le Fort II e III) ................................................... 237 3.2.1. Anatomia e interpretação .................................................................................................... 237 3.2.2. Diagnóstico ......................................................................................................................... 238 3.2.3. Abordagens ......................................................................................................................... 239 3.2.4. Técnica de osteossíntese ..................................................................................................... 243 3.2.5. Conduta para as vias áreas .................................................................................................. 248 3.2.6. Tratamentos pré-operatório e pós-operatório...................................................................... 249 3.2.7. Complicações e erros .......................................................................................................... 249 3.3. Fraturas do complexo zigomático-maxilar (CZM), fraturas do arco zigomático .................... 251 3.3.1. Anatomia e interpretação .................................................................................................... 251 3.3.2. Imagem ............................................................................................................................... 254 3.3.3. Abordagens ......................................................................................................................... 259 3.3.4. Técnicas de osteossíntese ................................................................................................... 261 3.3.4.1. Redução ..................................................................................................................... 263 3.3.4.2. Estabilização .............................................................................................................. 267 3.3.5. Tratamento da órbita interna ............................................................................................... 272 3.3.6. Tratamento pré-operatório e pós-operatório ....................................................................... 272 11 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 3.3.7. Complicações e erros .......................................................................................................... 273 3.4. Fraturas da órbita.......................................................................................................................... 274 3.4.1. Interpretação ....................................................................................................................... 274 3.4.2. Anatomia ............................................................................................................................Diabetes, etc • Hábitos: tabagismo, bebidas alcoólicas, drogas • Conformidade: Higiene oral, comparecimento • Simples/Complicada • Lesão nos tecidos moles • Tempo desde a lesão • Presença de infecção • Presença de dentes na linha de fratura • Redução adequada • Estabilização adequada • Técnica atraumática Os fragmentos de fraturas e implantes devem ser considerados como uma unidade única que deve ser capaz de lidar com o tipo e o grau de carga exercida através da fratura. Uma fratura relativamente não deslocada e bem reduzida, por exemplo, é capaz de transmitir algumas das forças de compressão através do plano de fratura. O implante, contudo, deve substituir pela perda das propriedades de tração através do plano de fratura. 121 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Essa capacidade de dividir a carga entre o osso e o implante permite que as dimensões do implante sejam usadas em uma escala muito menor que a necessária para uma situação de carga total (Fig. 1.5.5-2). Fig. 1.5.5-2 – Fixação com miniplaca do ângulo mandibular. Fratura linear simples. Osteossíntese load-sharing. O objetivo é, portanto, usar um sistema de implantes que forneça estabilidade suficiente para a fratura cicatrizar de forma previsível, mas ao mesmo tempo isto deve estabilizar adequadamente a fratura, preservando o suprimento sanguíneo e reduzindo a morbidade associada a inserção do implante. A tendência atual é usar mais técnicas de fixação biologicamente “amigáveis”, onde a exposição adicional resultaria em distúrbios iatrogênicos do suprimento sanguíneo. A esperança é que um certo comprometimento no lado mecânico é compensado por um ganho no lado biológico por preservar a conexão vascular com os fragmentos ósseos. Além disso, danos a estruturas associadas como os nervos podem ser reduzidos usando técnicas minimamente invasivas em oposição aos grandes procedimentos abertos. Em caso de qualidade e quantidade ósseas reduzidas (defeitos, infecção, atrofia, multifragmentação) o dispositivo de fixação deve tolerar a maioria, se não toda a carga. Se não existe osso suficiente ou a cicatrização não progride de maneira satisfatória, uma intervenção ativa adicional, como enxertos ósseos, pode ser necessária, pois mesmo as maiores placas eventualmente irão falhar por fadiga. Em algumas situações, o sistema de fixação ósseo deve ser capaz de tolerar a carga total. Idealmente, a maioria da carga é suportada pelos fragmentos, permitindo a inserção 122 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática da menor fixação. Contudo, um intervalo então existe pelo qual menos suporte pode ser fornecido pelos fragmentos, devido as condições mecânicas ou biológicas (por exemplo, atrofia, defeitos). Então, é necessário que mais carga seja absorvida pela unidade implante. Nestes casos, o implante deve ter rigidez e força suficientes para executar esta função completamente e, então, mudamos de um cenário simples de load-sharing, como um fratura linear simples no corpo da mandíbula em uma extremidade do espectro, para um cenário de load-bearing como uma fratura grosseiramente cominutiva ou uma fratura defeituosa na outra extremidade do espectro (Fig. 1.5.5-3). Fig. 1.5.5-3 – Placa de reconstrução no ângulo mandibular. Apoio reduzido com o defeito ósseo. Osteossíntese load- sharing e enxerto ósseo. A decisão de qual implante usar é baseada na experiência do cirurgião e a ênfase relativa que ele/ela coloca sobre os fatores relevantes, como tipo de fratura e deslocamento, e fatores relacionados ao paciente. Os sistemas de fixação raramente falham se usados adequadamente. O insucesso geralmente ocorre devido ao cirurgião não avaliar corretamente a situação e por subestimar as condições de carga para uma cicatrização ininterrupta, excedendo assim as cargas exigidas para a unidade de osso- implante. 123 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.5.6. Princípios de estabilização: splinting, adaptação, compressão, princípio do lag screw 1.5.6.1. Splinting Splinting externo é a aplicação de um dispositivo que reduz a mobilidade dos fragmentos ósseos em um lado, ou ambos, da mandíbula. Os ossos fraturados não são expostos e manuseados sob visão direta, portanto, esta técnica para tratar fraturas é também chamado de manejo fechado ou indireto. Splinting externo na área craniomaxilofacial pode ser aplicado internamente nos dentes (em pacientes dentados) com barras em arco, fios, ou talas personalizadas. Também pode ser aplicado na mucosa e osso subjacente (por exemplo, em pacientes desdentados), fixando uma prótese ou uma tala Gunning diretamente a um lado, ou ambos, da mandíbula. Os aparelhos para o manuseio da fratura indireta podem ser aplicados diretamente ao osso transmucosalmente usando parafusos BMM ou dispositivos semelhantes, ou por via transcutânea usando pinos e um fixador externo. A redução precisa da fratura nem sempre é possível usando esses métodos indiretos de fixação e a estabilidade absoluta da fratura é raramente alcançada. Desde que a redução e a estabilidade sejam adequadas, e a mobilidade não interfira no processo de cicatrização, esses métodos podem ser suficientes para obter a união óssea se o movimento e as forças na fratura forem minimizados. Entretanto, o splinting externo é frequentemente um método não confiável para manter um bom alinhamento de fratura enquanto o osso se une. A fixação dos implantes de osteossíntese diretamente nos fragmentos da fratura, após exposição e redução, são os splinting internos. Contudo, para evitar confusão com splinting externos, o melhor termo é osteossíntese ou fixação interna. O splinting interno ainda pode permitir alguns movimentos entre fragmentos, mas em geral isso tende a ser menor do que com splinting externos. O grau de estabilidade produzido pelo material de osteossíntese em geral varia consideravelmente, iniciando com a osteossíntese com fio, para placas razoavelmente flexíveis, e, finalmente, os dispositivos mais rígidos. 1.5.6.2. Adaptação Na aplicação de dispositivos de fixação interna a uma fratura, alguns juntam os fragmentos e outros realmente forçam as bordas da fratura em estreita aproximação sob 124 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática pressão. Todavia, na maioria das fraturas simples e sem complicações da mandíbula e na maioria das situações no terço médio da face e crânio, o dispositivo de fixação apenas mantém os fragmentos juntos, após redução, sem qualquer tentativa de aplicar forças aos fragmentos para comprimi-los. A adaptação pode ser alcançada com fios intraósseos ou combinações de placa de adaptação e parafusos. A placa de adaptação típica contém orifícios redondos que permitem somente a colocação de parafuso central (Fig. 1.5.6-1a- b). Fig. 1.5.6-1a-b a – Fixação da fratura da lateral da mandíbula com uma placa de adaptação. Situação de load- sharing. b – Vista aproximada do orifício redondo de uma placa de adaptação. As combinações de placas e parafusos de travamento, também são, típicas placas de adaptação. A osteossíntese da placa de adaptação pode ser realizada com microplacas, miniplacas ou com placas mais fortes como a placa de reconstrução 2,4 ou placas mandibulares Matrix. A osteossíntese de adaptação com fios limitou a estabilidade tridimensional. Para fraturas mandibulares, a osteossíntese de fio é indicada apenas em combinação com um período de bloqueio maxilo-mandibular (BMM). Também apresenta desvantagens na fixação do terço médio da face e raramente é usada nos métodos modernos de fixação. Especialmente nas áreas mandibulares dentadas,as placas de adaptação são geralmente fixadas com parafuso monocortical de ancoragem. Para a colocação do parafuso monocortical, a perfuração precisa em uma direção única é essencial para manter um bom contato entre o parafuso e o osso (Fig. 1.5.6-2). Atualmente, a osteossíntese de placas de adaptação com micro, mini ou placas mais fortes (dependendo da situação biomecânica) é a técnica de escolha para a maioria das fraturas craniomaxilofaciais. 125 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.5.6-2 – Perfuração sem precisão leva ao alargamento do ofício que o parafuso será inserido, e resulta em contato indesejável e limitado entre o parafuso e o osso. 1.5.6.3. Compressão A compressão é um meio de impedir o movimento entre fragmentos ao pressionar duas superfícies juntas. Em um osso fraturado, a consequência é o aumento da fricção entre fragmentos e um pré-carregamento a fratura. A compressão permite a cicatrização sem intercorrências por garantir a estabilidade mesmo durante a função. Isto permite a distribuição de carga entre o osso e os implantes (placas e/ou parafusos). As placas, nesta situação de load-sharing, não precisam ser tão grandes e fortes quanto as de uma situação de load-bearing (por exemplo, um defeito de ressecção mandibular), quando as placas e os parafusos devem suportar toda a carga. A compressão não é um requisito para fixação de fraturas do esqueleto craniomaxilofacial, mas é um método que, nas circunstâncias certas, aumentará a estabilidade e a cicatrização. Desde que os fragmentos sejam bem reduzidos e mantidos em aproximação direta, a osteossíntese por compressão pode permitir a cicatrização óssea por primeira intenção (osteonal) na qual os ósteons cruzam diretamente a fenda da fratura (Fig. 1.3.3-1a-b, página 49). Isto se aplica na mandíbula, apenas em fraturas simples e não cominutivas, e ocasionalmente em outros lugares do esqueleto facial. Não se aplica a um defeito na fratura, ou quando as extremidades ósseas são reabsorvidas (por exemplo, infecção), nem geralmente na maxila onde os ossos são finos demais para suportar a compressão. Neste caso, a osteossíntese de adaptação é apropriada. 126 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Situações em que a osteossíntese por compressão podem ser consideradas: • Fraturas lineares da mandíbula • Sutura fronto-zigomática • Raiz do arco zigomático • Reposicionando pequenos fragmentos (com lag screws) • Fixação de enxertos ósseos (com lag screws) Ambos, placas e parafusos, e parafusos sozinhos (consulte a próxima seção) podem ser usados para obter compressão. 1.5.6.4. Compressão com uma placa Uma placa de compressão é uma placa com orifícios especiais ovalados que juntamente com um parafuso forma a unidade de compressão dinâmica (DCU) (Fig. 1.4.3-8, página 91). Para permitir a compressão, é necessário que as extremidades ósseas fraturadas estejam bem aproximadas antes dos implantes serem colocados. As placas de compressão, em geral, devem ser colocadas perpendicularmente à linha de fratura. A compressão entre fragmentos pode ser alcançada criando-se orifícios elípticos na placa (como em uma seção de um cilindro inclinado e horizontal), de modo que quando o orifício é perfurado lateralmente (distante) da fratura, o parafuso, conforme ele é inserido, tenta alcançar uma posição mais central no orifício da placa (Fig. 1.4.3-8, página 91). A superfície inferior da cabeça do parafuso é moldada na seção transversal de uma bola que se moverá no orifício da placa abaixo do plano inclinado do cilindro angulado. Ao fazê-lo, move a unidade osso-parafuso na direção da linha de fratura. Quando realizado nos dois lados da fratura, a carga compressiva é dobrada. Não se deve inserir mais que um parafuso em cada lado da fratura porque as forças aplicadas podem danificar o osso. Todos os outros parafusos devem ser colocados em posição neutra, ou seja, no centro do orifício da placa (a parte do orifício mais próxima a linha de fratura). As placas de compressão são projetadas um pouco mais fortes e mais rígida que as placas de adaptação, pois a compressão só é possível enquanto a placa não se deforma sob as forças aplicadas. Por causa das forças resultantes, a inserção bicortical do parafuso é obrigatória na osteossíntese com placa de compressão. Isso cria um problema no tratamento de fraturas na lateral do corpo mandibular. Devido ao canal mandibular e as 127 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática raízes dos dentes, as placas de compressão só podem ser aplicadas à borda inferior da mandíbula. Consequentemente, quando a compressão é aplicada em um lado de uma fratura, os lados opostos tendem a se abrir. No caso da mandíbula, estes são o lado lingual e a borda superior. A abertura de uma fenda por lingual pode ser evitada dobrando a placa antes de ser fixada, e a abertura de uma fenda na borda superior pode ser evitada com bandas de tensão (Fig. 1.5.6-3a-c). Fig. 1.5.6-3a-c – a – Placa corretamente dobrada sob uma fratura. b – O parafuso interno deve ser colocado primeiro excentricamente e depois apertado. Como resultado do dobramento excessivo da placa, a fenda da fratura do lado oposto é fechada. c – Depois, todos os outros parafusos são colocados em posição neutra dentro dos orifícios da placa. As bandas de tensão podem ser realizadas com um splint de banda de tensão ou uma placa de banda de tensão, que normalmente é uma miniplaca fixada monocorticalmente. As placas ou splint de banda de tensão devem ser aplicadas antes de realizar a osteossíntese por compressão (Fig. 1.5.6-4a-b). A compressão das placas é pouco utilizada no tratamento de fraturas do terço médio da face. Isto é devido à capacidade reduzida de suporte dos ossos relativamente finos do terço médio da face, o que pode alterar a oclusão por causa da telescopia ou causar necrose óssea na fenda da fratura. 128 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.5.6-4a-b a – Bandas de tensão colocadas com uma barra em arco reforçada com acrílico. Adicionalmente, uma placa de fratura universal 2,4 foi colocada na borda inferior. b – Fixação com duas placas, uma miniplaca funcionado com uma banda de tensão acima do nervo mandibular, e uma placa de fratura universal 2,4 na borda inferior da mandíbula. Deve ser levado em consideração a proteção do nervo alveolar inferior. 1.5.6.5. Compressão com lag screw A fixação do lag screw é particularmente aplicável a qualquer situação em que duas grandes superfícies planas precisam ser aproximadas. Por conseguinte, tem uma aplicação particular à: • Fraturas oblíquas • Fraturas sinfisárias • Fixação de enxertos ósseos • Osteotomias sagitais divididas Foi demonstrado que a fixação com lag screw nos enxertos ósseos produz uma melhor adaptação e menor reabsorção do enxerto, quando comparado a maioria das alternativas comumente usadas. Alguns fabricantes produziram lag screw especiais. Eles são caracterizados por um eixo sem rosca, que é suave e perto da cabeça, enquanto a ponta é roscável. Entretanto, qualquer parafuso pode ser usado na técnica do lag screw. A maioria dos parafusos encontrados em caixas maxilofaciais serão totalmente roscáveis. Para usar um parafuso totalmente roscável como um lag screw, o córtex proximal do osso deve ser perfurado até um diâmetro do mesmo tamanho, ou maior que, a largura do 129 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática diâmetro externo roscável. Isto é chamado de orifício deslizante porque o parafuso desliza atravésdele sem se prender ao osso. Neste orifício deslizante, uma guia de perfuração especial precisa ser inserida, o que então permite que o córtex distal do osso, no lado oposto a fratura, seja perfurado centralmente até um diâmetro menor que o da largura das roscas dos parafusos, que normalmente é o diâmetro da alma do parafuso. Isso é chamado de orifício roscável porque o parafuso vai se prendendo enquanto ele é inserido. Dependendo da situação (por exemplo, quão grosso e forte o osso é) e o tipo de parafuso usado, esse orifício roscável pode ou não ser perfurado antes da inserção do parafuso. À medida que as roscas do parafuso se encaixam com o orifício distal roscável e a cabeça do parafuso trava no córtex externo adjacente ao orifício de deslizamento, os dois fragmentos são apertados e uma compressão entre fragmentos resulta através da fratura. Os lag screws sempre precisam ser colocados exatamente perpendicular à linha da fratura para evitar deslocamento secundário (Fig. 1.5.6-5). Se o córtex subjacente à cabeça do parafuso for espesso e forte o suficiente, um orifício escareador deve ser criado para receber a cabeça do parafuso e impedir que ela se torne proeminente e palpável. O escareamento permite o contato completo entre a cabeça do parafuso e o osso, minimizando assim o risco de microfraturas do córtex, o que de outra forma pode ser visto em situações com contato mínimo e subsequentes sobrecarga (Fig. 1.5.6-6a-b). Deve-se tomar cuidado para não penetrar o córtex. Uma maneira alternativa, embora um pouco menos precisa, de inserir um lag screw é perfurar todo o caminho tanto na parte proximal quanto na distal do córtex do osso e, em seguida, perfurar um orifício deslizante no córtex proximal. Isto é menos preciso porque os dois orifícios não estão necessariamente localizados centralmente e existem um risco aumentado de perfurar profundamente o orifício deslizante. Se apenas um lag screw for inserido, os fragmentos podem girar facilmente tornando a redução instável. Portanto, pelo menos dois lag screws sempre devem ser inseridos. Se apenas um parafuso pode ser inserido (como às vezes é possível, por exemplo, na raiz do arco zigomático), alguma outra forma de fixação adicional deve ser usada (por exemplo, uma placa). 130 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.5.6-5 – Compressão entre fragmentos sendo exercida por dois lag screws. Observe: os orifícios externos são orifícios deslizantes que não se prendem as roscas, os orifícios internos são orifícios de retardo que se prendem as roscas. Fig. 1.5.6-6a-b a – A inserção obliqua de um lag screw leva a uma força excêntrica ponto-a-ponto quando o parafuso alcança o osso, e isto pode induzir microfraturas no córtex externo. b – O escareamento leva a um contato total com a superfície entre o parafuso e o osso. O risco de microfraturas é minimizado. Para usar um parafuso totalmente roscável como um lag screw, o córtex proximal do osso deve ser perfurado até um diâmetro do mesmo tamanho, ou maior que, a largura do diâmetro externo roscável. A compressão entre fragmentos através de uma osteotomia sagital pode comprimir, e, assim, danificar o nervo alveolar inferior. Também é incomum que as superfícies divididas em uma osteotomia sagital dividida, se encaixem completamente e com precisão na nova posição da mandíbula. Geralmente, existem áreas de contato e áreas de fenda. Consequentemente, o uso da compressão entre fragmentos através de uma fenda geralmente desloca os fragmentos e, portanto, modifica a posição da oclusão e do côndilo. Como resultado, o uso dos chamados parafusos de posição se tornou popular (Fig. 1.5.6- 7). Para colocar um parafuso de posição, um orifício é perfurado em ambos os córtices que correspondem ao diâmetro do eixo do parafuso. O parafuso que é então inserido aperta os dois lados da fratura e mantém apenas os fragmentos em posição relativa de um para o outro. Não comprime os fragmentos unidos, rotaciona, ou os move. 131 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.5.6-7 – Fixação da fratura com um parafuso de posição, deste modo, a fratura ou fenda da osteotomia é mantida. Observe: os orifícios interno e externo predem-se as roscas do parafuso. 1.5.6.6. Compressão com uma placa em combinação com um lag screw Outra maneira de obter compressão entre fragmentos através da fratura é usar um parafuso que passa através da placa e depois através da fratura (Fig. 1.5.6-8). Esse parafuso deve ser colocado como um lag screw, para que as roscas do parafuso se prendam apenas ao fragmento distal e a cabeça se prenda a região proximal do fragmento, unindo os dois. Quando um lag screw é inserido através de uma placa desta maneira, todos os outros parafusos na placa precisam ser inseridos secundariamente e colocadas de maneira neutra. Este tipo de fixação é particularmente aplicável as fraturas oblíquas mandibulares. Fig. 1.5.6-8 – Compressão com um lag screw e uma placa. O lag screw deve ser colocado primeiro. Depois, os parafusos restantes devem ser colocados em posição neutra. 132 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.5.7. Trauma dental e alveolar 1.5.7.1. Introdução O trauma dentário e o trauma alveolar podem ocorrer como uma lesão isolada ou como parte de um trauma craniomaxilofacial mais complexo. As lesões dentárias e alveolares menores geralmente resultam de forças diretas em acidentes como quedas, brigas ou colisões relacionadas a esportes. Em lesões mais graves, o impacto do trauma pode ser direto, mas também indireto, como quando a mandíbula é forçada contra a maxila com uma força que os dentes e tecidos alveolares são lesionados. Existe uma contradição no tratamento de traumatismos dentários. Certas lesões dentárias isoladas receberão, frequentemente, tratamento imediato, enquanto lesões dento-alveolares mais graves, especialmente quando ocorrem em combinação com lesões faciais ósseas graves ou lesões de tecidos moles, e em pacientes com comprometimento sistêmico, podem ter o tratamento atrasado. Assim, uma fratura isolada na coroa do dente com exposição pulpar exigirá o tratamento do canal radicular para aliviar a dor, e um dente avulsionado deve ser reimplantado imediatamente para melhorar o prognóstico. Em lesões mais complexas, no entanto, as medidas para salvar a vida terão prioridade sobre os procedimentos dentários. As modalidades óbvias de tratamento de lesões dentárias podem ser adiadas. Nestes casos, ainda deve-se lembrar que a dor da polpa exposta pode contribuir para a inquietação de um paciente inconsciente. Está fora do escopo deste texto fornecer uma classificação detalhada de todos os tipos de lesões dento-alveolares e seus tratamentos. Essas informações podem ser encontradas em publicações especializadas sobre o assunto. A seguir, o foco será na fratura dentária, luxação ou avulsão dentária, e trauma alveolar. 1.5.7.2. Fratura dentária As fraturas dentárias isoladas são as mais comuns na região do incisivo superior. Em um trauma direto resultando em uma fratura horizontal da coroa, geralmente os tecidos periodontais estão ilesos. Então, o prognóstico da vitalidade dentária vai depender da condição pulpar e da profundidade que fratura entrou no dente. Em um dente jovem com um ápice aberto, existe uma boa chance da vitalidade pulpar permanecer. Quanto mais estreita a polpa, maior é a probabilidade da polpa de sofrer necrose devido ao colapso circulatório secundário. 133 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Se a polpa não for exposta, a dentina deve ser tratada com cimento de hidróxidode cálcio e o dente revestido com restauração com condicionamento ácido. As técnicas de condicionamento ácido também podem ser usadas para recolocar um fragmento de coroa no dente. Recomenda-se um acompanhamento com raios-x. Deve ser mencionado que imediatamente após a lesão, e até algum tempo depois disto, o teste pulpar com um estimulador elétrico de polpa ou o gelo é de valor limitado como teste de sensibilidade. O trauma pode alterar a função nervosa, de modo que o teste é falso negativo. Um dente não sensível pode ainda ser vital. Se a fratura da coroa for suficientemente profunda para expor a polpa, o dente sentirá muita dor para todos os tipos de estímulos. Geralmente, a pulpectomia em diferentes níveis (dependendo do desenvolvimento radicular) deve ser realizada, seguida de curativo com hidróxido de cálcio e posterior preenchimento do canal radicular. Um tipo relativamente comum de fratura de dente é aquele em que a linha de fratura é oblíqua, estendendo-se subgengivalmente. Em fraturas profundas, esse dente deve ser extraído. Apesar da profundidade da fratura, outros fatores também podem influenciar na decisão de salvar ou extrair o dente. Tais fatores podem incluir as considerações endodônticas e protéticas, o resto da dentição do paciente e fatores econômicos. As fraturas dentárias com fragmentos ausentes em associação com lacerações de tecidos moles requerem um exame minucioso, incluindo raios-x, para confirmar que fragmentos de dente não estão incorporados nos tecidos moles. A mesma precaução deve ser tomada se um dente ou fragmento de dente tenha sido inalado. Em seguida, uma radiografia de tórax deve ser feita. 1.5.7.3. Luxação dentária A luxação dentária pode envolver luxações intrusivas e extrusivas bem como luxações laterais. Elas podem vir juntas com fraturas do osso alveolar. A luxação dentária com a fratura bucal do processo alveolar simultânea, geralmente afeta os incisivos superiores. Frequentemente, nesses casos, o complexo dente/osso será deslocado superiormente. Após reposicionar, é importante, primeiro puxar o dente para baixo, depois recolocá-lo em seu lugar adjacente ao restante do osso alveolar (Fig. 1.5.7-1a-c). 134 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.5.7-1a-c a – Uma parte do osso alveolar está fraturada junto com um incisivo superior luxado. O complexo dente/osso está deslocado superiormente. b – Antes do dente ser recolocado, ele deve ser puxado para baixo para a margem óssea. c – Depois do dente ter sido devidamente posicionado, ele pode ser fixado com dispositivos de fixação semirrígidos. Depois que o dente ou grupo de dentes tiver sido reposicionado adequadamente, eles devem ser unidos com algum tipo de estabilização. A fixação rígida ou semi-rígida, confiável, pode ser planejada com técnicas de ataque ácido, ou em combinação com fios ortodônticos, fios de aço liso, ou dispositivo similar (Fig. 1.5.7-2a-c). Para luxações isoladas de dentes, a fixação semirrígida é preferível quando comparada a fixação rígida com splints estáveis ou barras em arco. Os dispositivos rígidos são usados em pacientes com fraturas faciais em combinação com luxações dentárias. Para melhorar a capacidade do paciente de manter uma boa higiene oral, os dispositivos de fixação devem ser feitos do menor tamanho possível. A duração da fixação varia de acordo com o tipo e extensão da lesão. As lesões por extrusão devem ter fixação semirrígida de 7-10 dias; lesões de luxação lateral devem ter fixação semirrígida de 2-3 semanas; lesões de luxação com fraturas simultâneas da placa óssea vestibular ou lingual deve ter fixação semi-rígida de 4-6 semanas. Após as lesões de luxação, o tratamento do canal radicular é indicado para todos os dentes envolvidos com o ápice fechado. Geralmente é feito logo após o tratamento inicial, quando a cicatrização primária da ferida é concluída. Durante o acompanhamento, deve- se prestar atenção especial a possíveis sinais de reabsorção radicular. 135 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.5.7-2a-c a – Os dois incisivos centrais foram luxados e deslocados. b – Após o reposicionamento, deve-se inspecionar a fratura reduzida e a tabua óssea vestibular através da laceração da mucosa pré-existente. Em casos sem laceração de tecidos moles, fragmentos ósseos pequenos não devem ser descobertos. A fixação semirrígida foi criada com técnicas de ataque ácido em combinação com fios de ações lisos e finos, revestidos com resina fotopolimerizável. c – O aspecto final depois do fechamento das lacerações da mucosa. 1.5.7.4. Avulsão dentária Vários fatores terão um impacto na decisão de reimplantar, ou não, um dente avulsionado. A maioria das lesões por avulsão envolvem os incisivos superiores, o que por si só cria indicações estéticas convincentes para recolocação. O desenvolvimento da raiz, o estado periodontal, e a condição geral dos demais dentes são outros fatores a serem considerados. O fator mais importante, no entanto, é o período em que o dente avulsionado ficou fora da cavidade oral “secando”. Fora da cavidade oral, após um período superior a 30 minutos, as células do ligamento periodontal terão secado até certo ponto onde será baixa a chance de sucesso após a reimplantação. Assim, a reimplantação imediata ou muito precoce deve ser o tratamento na maioria das vezes, embora a reposição imediata não seja possível. A viabilidade das células periodontais é garantida se o dente for mantido em um fluido de transporte adequado. As células periodontais podem manter 136 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática sua viabilidade de até duas horas na saliva do paciente e até seis horas em leite fresco. A água não deve ser usada, pois as células morrem de lise osmolítica. Antes de reimplantar o dente, ele deve ser lavado suavemente com solução salina até estar livre de todos os detritos. Deve-se evitar esfregar ou causar trauma na camada de células periodontais. Se houver uma razão para suspeitar de material estranho no alvéolo do dente, este deve ser cuidadosamente limpo por sucção. Caso contrário, não é necessária uma atenção especial para o alvéolo. O dente é firmemente reimplantado no alvéolo segurando-o firmemente pela coroa. Deve-se prestar atenção a possíveis lesões nas margens ósseas após luxações do dente. Quando o dente tiver sido reimplantado na posição correta, ele pode ser corrigido com métodos semelhantes aos empregados após luxação. Após a avulsão dentária, uma fixação semirrígida de 7-10 dias deve ser realizada. Geralmente, o tratamento com antibióticos é recomendado após a reimplantação de dentes avulsionados. O tratamento pós-operatório será semelhante ao usado após lesões por luxação. Um dente avulsionado com um ápice fechado deve ser submetido a pulpectomia e tratamento do canal radicular. Assim, o risco de reabsorção radicular será maior em proporção à duração do período "seco". Frequentemente, o prognóstico pode ser considerado tão ruim que é preferível não reimplantar o dente avulsionado. Porém, mesmo neste caso, pode haver vantagens com a recolocação. O osso alveolar pode ser preservado em um grau muito maior com o dente dentro do alvéolo, mesmo que por um período limitado, do que se o dente não tivesse sido reimplantado. Assim, as condições para a futura instalação de implantes dentários podem ser melhoradas. 1.5.7.5. Trauma alveolar Obviamente, o trauma alveolar raramente ocorre sozinho, quase invariavelmente, um dente ou grupo de dentes está envolvido. Tipicamente as fraturas do processo alveolar são estabilizadas por condutas indiretas através do splinting da dentição. Somente em indicações raras,na presença de blocos ósseos maiores, as microplacas ou as miniplacas de fixação dos segmentos alveolares são indicadas. Deve-se tomar cuidado para preservar ao máximo o suprimento sanguíneo e, portanto, a viabilidade dos segmentos. Uma fratura de um bloco dentado do processo alveolar deve ser tratada por mais tempo, com barras 137 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática em arco ou splints mais rígidos, do que as mencionadas para outras condições isoladas neste capítulo. Tal fixação deve ser mantida por 6 semanas. Em traumas de alta energia, a mandíbula às vezes é forçada em direção à maxila com uma força que divide os dentes e o processo alveolar (Fig. 1.5.7-3a-b). Tais lesões podem exigir extração de muitos dentes. Devido a lesão esmagadora, pode haver a necessidade de remover grandes quantidades de osso alveolar. Deve-se tomar cuidado para preservar qualquer osso que possa ter uma chance de sobreviver. O sucesso dos esforços da reconstrução futura será bastante aprimorado se for possível salvar ao máximo a estrutura óssea original. Fig. 1.5.7-3a-b a – Trauma de alta energia resultante de uma queda de alta altitude. A mandíbula atingiu a maxila e as dentições superior e inferior impactaram-se. As fraturas axiais severas dos dentes foram obtidas em combinação com fraturas correspondentes do osso alveolar de suporte. b – Aspecto da lesão na tomografia computadorizada. 1.5.7.6. Dentição decídua Em geral, o trauma na dentição decídua raramente deve ter um tratamento sofisticado. A extração é o tratamento de escolha para a maioria dos dentes fraturados ou luxados na dentição primária. A reimplantação de dentes decíduos avulsos deve ser evitada devido ao risco de danos às estruturas dos dentes permanentes e o mau prognóstico dos dentes reimplantados. As lesões por intrusão podem ser deixadas sem tratamento, uma vez que a maioria dos dentes decíduos terão o potencial de reerupcionar espontaneamente. 138 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.5.8. Dentes na linha de fratura O destino e as consequências dos dentes envolvidos na linha de fratura foram debatidos por um longo tempo. É quase um motivo exclusivo de preocupação em fraturas mandibulares. A controvérsia é se eles devem ser extraídos ou preservados, e qual será o risco de infecção para a fratura. O medo de infecção foi a principal razão para se extrair um dente na linha de fratura. Esse medo foi em grande parte herdado do passado, especialmente na era pré-antibiótica. Naqueles dias, era mais ou menos obrigatório remover um dente na linha de fratura. Caso contrário, presumia-se que a comunicação da cavidade oral com uma membrana periodontal rompida, na linha de fratura, criaria uma infecção que resultaria em cicatrização tardia, não-união ou mesmo osteomielite. Outras fontes de infecção de um dente na linha de fratura podem incluir o dente desvitalizado, que poderia ser infectado secundariamente, e depois infectar a fratura. Atualmente, com a estabilização rígida de fraturas e antibióticos disponíveis, muitos dentes nas linhas de fratura são preservados e não extraído durante o tratamento primário de fraturas. Embora muitos estudos científicos tenham oferecido informações sobre o assunto, a controvérsia persiste. Em um estudo, Ellis trabalhou com 402 pacientes com fraturas no ângulo mandibular. Os dentes foram removidos em 75% das fraturas que continham dentes. As complicações pós-operatórias ocorreram em 19% da amostra, contra 19,5% quando o dente foi mantido. As fraturas sem dentes apresentaram taxa de infecção pós- operatória de 15,8% comparada a 19,1% para aqueles que tinham dentes na fratura. As diferenças, no entanto, não foram significativas. Resultados semelhantes foram demonstrados por outros pesquisadores. Portanto, nos encontramos sem fortes evidências científicas para apoiar os dois lados da controvérsia. Outros fatores também devem ser considerados. A higiene oral do paciente e a cooperação sempre influenciam a decisão. O local da fratura pode ser importante. O ângulo mandibular é mais propenso a infecção na fratura do que outros locais na mandíbula. Um terceiro molar impactado com poucas perspectivas de erupção dentro da normalidade deve ser removido no momento do tratamento da fratura aberta, se isto não tornar o tratamento da fratura mais complexo. Em qualquer área, sem necessidade de ser falado, a presença de infecção periapical, perirradicular, ou pericoronal, ao redor de um dente na fratura, é uma indicação para remoção. Isso vale para dentes muito fraturados, ou dentes deslocados de seus alvéolos. Por outro lado, um 139 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática dente saudável, cercado por membrana periodontal saudável, e com boas condições gengivais, deve ser mantido. Às vezes, mas nem sempre, um dente na linha de fratura pode facilitar a redução de fraturas. Se esse dente precisa ser removido, ainda é aconselhável adiar a extração até que a fratura seja estabilizada por fixação interna. A remoção cirúrgica de um dente impactado pode levar a redução de suporte ósseo, e como consequência, pode ser necessária uma fixação interna mais forte e mais rígida, ou pode reduzir o potencial de cicatrização do osso restante. Finalmente, o prognóstico para os dentes deixados na linha de fraturas mandibulares precisa ser discutido. Kahnberg e Ridell estudaram 185 dentes na linha de fraturas mandibulares. Os achados clínicos e radiológicos revelaram recuperação completa em 59% desses dentes. Obviamente, 41% não se saíram tão bem. Portanto, se os dentes são deixados nas linhas de fratura mandibular, eles devem ser acompanhados clinicamente e radiologicamente, com ênfase nas condições marginal e periapical. Em suma, o manejo dos dentes nas linhas de fratura mandibular deve continuar sendo um julgamento clínico individual, avaliando caso a caso, e considerando todos os aspectos da lesão. 1.5.9. Remoção de implante e proteção à pressão Juntamente com o desenvolvimento e o primeiro uso clínico dos materiais modernos de fixação interna, que começaram com implantes metálicos fabricado pela primeira vez em aço inoxidável e cobalto-cromo-molibdênio (vitálio), posteriormente titânio, levaram a questionamentos sobre a necessidade de remoção de implantes. Estas questões estão intimamente relacionadas ao comportamento biológico daqueles materiais no corpo humano, isto é, a resistência à corrosão, o comportamento na presença de infecção, e o potencial de criar outros fenômenos adversos como as alergias. Além disto, perguntas sobre o desempenho a longo prazo de implantes relativamente rígidos foram discutidas, porque obviamente não há necessidade de um implante estar presente após a cicatrização da fratura. Salienta-se que um implante pode ter efeitos adversos a longo prazo na estabilidade óssea, pois a presença do implante pode impedir que o osso retorne à força máxima sob uma dada situação fisiológica. Uma quantidade considerável de pesquisa científica e clínica foi realizada ao longo dos anos, e com resultados de que todos os materiais mencionados acima interferem no ambiente biológico até certo ponto. Contudo, 140 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática a interpretação desses resultados e sua relevância clínica ainda é discutida controversamente. Além disso, a remoção do implante sempre leva uma intervenção cirúrgica adicional, com riscos associados resultantes de cirurgia e/ou anestesia, e com custos adicionais. Os cientistas tinham a intenção de encontrar um material biocompatível, sem a necessidade de remoção, idealmente um implante biodegradável que desapareceria completamenteapós uma fratura ter cicatrizado. As experiências iniciais com corrosão de dispositivos de fixação interna, fabricados em aço inoxidável, e os relatos sobre reações alérgicas direcionaram a prática da remoção do implante. O desenvolvimento e a distribuição mundial de implantes de titânio puro para aplicações craniomaxilofaciais, os quais tenham demonstrado biocompatibilidade sem evidência de quaisquer reações colaterais, e que são amplamente utilizados como implantes permanentes para reabilitação dentária, superou a necessidade de remoção de implantes como uma técnica principal. Portanto, toda decisão para a remoção de um implante não reabsorvível deve ter uma indicação individual clara, dependendo do material e da situação clínica. 1.5.9.1. Remoção antes da cicatrização completa da fratura As indicações para remover e substituir implantes durante a cicatrização da fratura estão principalmente associadas a placas fraturadas, placas mal posicionadas ou peças soltas (como parafusos soltos) com ou sem infecção consecutiva. A infecção sozinha com o material de osteossíntese adequadamente instalado não é uma indicação para remoção do implante. A cicatrização da fratura em uma área infectada é possível, mas somente se não houver movimento entre os fragmentos e tiver uma estabilidade adequada, geralmente sob a condição de fixação de carga. 1.5.9.2. Remoção depois da cicatrização da fratura As indicações absolutas para remover implantes metálicos após a fratura ter cicatrizado está relacionada principalmente a placas e parafusos fraturados ou frouxos, problemas com infecção, e/ou penetração do dispositivo através dos tecidos moles. As indicações relativas à remoção do implante são possíveis interferências dos implantes com intervenções cirúrgicas adicionais, tais como operações sinusais após 141 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática fraturas do terço médio da face, procedimentos de aumento ósseo, ou reabilitação dentária, por exemplo, colocação de implantes dentários. Em crianças, a remoção de implantes metálicos ainda é recomendada. Os ossos em expansão e em crescimento tendem a crescer mais que os implantes metálicos, o que leva a uma mudança relativa na posição de um implante, que finalmente pode ser incorporado no osso ou até aparecer no lado oposto. Esse fenômeno foi falsamente chamado de "migração de placa", que é um nome impróprio porque não há movimento ativo (migração) do implante, mas uma translação passiva. Apesar disto, em cirurgia craniofacial, esta translação pode levar a um deslocamento intracraniano de dispositivos metálicos de fixação. Alguns cirurgiões acreditam que deixar implantes no terço médio da face e na mandíbula pode ter um impacto negativo em crescimentos futuros, mesmo que haja relatos controversos sobre problemas de crescimento após tratamento de trauma em crianças. As indicações relativas adicionais surgem de preocupações individuais de pacientes, como placas palpáveis, placas visíveis através de camadas de sobreposição de pele, sensibilidade ao frio, ou distúrbios não-característicos e inespecíficos. Entretanto, a grande maioria dos dispositivos de fixação não reabsorvível de titânio puro não causam problemas durante ou após a cicatrização de fraturas. Portanto, geralmente não há indicação objetiva para sua remoção. 1.5.9.3. Proteção à pressão As placas para fixação interna reduzem a carga no local da fratura para evitar o movimento entre fragmentos e apoiar a cicatrização da fratura. Os termos “proteção à pressão”, ou “escudo à pressão” foram usados pela primeira vez na cicatrização de ossos longos para descrever mudanças estruturais desfavoráveis, na forma de porose, sob as respectivas placas nas áreas fraturadas após a cicatrização. Acreditou-se que esse efeito foi o resultado da redução da pressão (carga) causada pelas placas. Enquanto isso, ficou evidente que a porosidade cortical em ossos longos ocorreu por causa do comprometimento de suprimento sanguíneo periosteal devido à pressão das placas contra a superfície óssea. Os perfis de placas de pouco contato ajudaram a superar esse problema. Na área craniomaxilofacial, a maioria esmagadora dos dados publicados mostram que não há boas evidências para um efeito negativo das chamadas “proteção à pressão”, nem na 142 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática mandíbula, nem no terço médio da face. Achados experimentais, evidenciados com observações clínicas, mostram que não há sinais de osteoporose ou atrofia óssea em pacientes com implantes não reabsorvíveis de qualquer tamanho no lugar. A prevenção da “proteção à pressão” hoje não é um argumento válido para remoção de implante. 1.5.9.4. Implantes e trauma secundário A estrutura e as propriedades biomecânicas do esqueleto facial ajudam a proteger as unidades funcionais, como os olhos e cérebro, em caso de lesão. Os dispositivos de fixação colocados internamente, que são deixados no lugar após a cicatrização óssea, podem mudar o comportamento biomecânico da parte do esqueleto facial onde eles estão localizados. Está sendo discutido, se essa mudança no comportamento biomecânico pode levar a padrões de fraturas atípicos, e talvez mais complexos, no caso de traumas secundários, que podem apresentar maiores riscos de lesões de unidades funcionais. Contudo, um trauma secundário com fraturas secundárias em uma área idêntica é muito raro, e não há dados relevantes disponíveis até agora para apoiar a tese de que padrões de fraturas mais complexos podem ser observados nesses casos. 1.5.9.5. Efeitos colaterais adversos de implantes de titânio A maioria dos implantes metálicos aprovados para trauma e reconstrução, atualmente, são feitos de titânio puro. O corpo humano é saturado com titânio, assim, nenhum titânio solúvel adicional pode tornar-se ativo. Os implantes de titânio, usados na área craniomaxilofacial, são totalmente biocompatíveis e até agora nenhum efeito adverso à saúde é conhecido. 1.5.9.6. Efeitos em imagiologia médica e radioterapia Raios-x e tomografia computadorizada (TC) A atenuação e o retrodispersão das radiografias médicas de diagnóstico levam em consideração a energia do raio-x, a espessura e densidade do objeto, e o número atômico dos constituintes. As ligas de aço inoxidável e cobalto-cromo-molibdênio, que têm densidades duas vezes maiores que o titânio, diminuem a penetração de raios-x por três 143 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática ordens de magnitude a mais que o titânio, e quatro ordens de magnitude a mais que o cálcio. Portanto, comparado ao aço inoxidável, o grau de criação de artefato com implantes de titânio não é relevante em quase todas as situações clínicas. Ressonância magnética (RM) A ressonância magnética baseia-se na resposta de substâncias a campos magnéticos estáticos e dinâmicos de magnitudes significativas. Algumas preocupações menores surgem com objetos metálicos em um campo magnético, estas são a introdução de artefatos na imagem de diagnóstico, os movimentos do implante dentro do campo magnético, produção de calor ou corrente elétrica no local do implante. Os materiais ferromagnéticos são uma grande preocupação. Diferente do aço inoxidável, a capacidade de ferromagnetismo do titânio é muito baixa. Portanto, ele causa artefatos de imagens mínimos ou retrodispersão. Radioterapia Devido os fenômenos de retrodispersão, a distribuição da radiação em torno de placas e parafusos é preocupante, quando a radiação pós-operatória é necessária. Comparado ao diagnóstico por raios-x, a radioterapia por feixe externo tem muito mais penetração e características diferentes de absorção. Relatórios mostraram doseselevadas de 10-15% com titânio na interface placa-tecido, e 15-25% com aço inoxidável devido os efeitos de retrodispersão. Estudos recentes não encontraram aumento significante das doses de radiação nas proximidades dos implantes de titânio. Como consequência, uma remoção rotineira de placa não é recomendada antes da radioterapia pós-operatória. Aumento dos riscos associados com a remoção tardia de implante em idade avançada Um argumento para promover a remoção precoce do implante, após a cicatrização da fratura ou reconstrução, é o fato de que a remoção tardia do implante pode ser necessária após muitos anos, devido alterações secundárias como a exposição de placas seguido de atrofia da crista alveolar. Após um intervalo de muitos anos, a condição geral do paciente pode ter mudado para pior, criando assim um cenário de risco desnecessário que não estaria presente na remoção precoce do implante. No entanto, as indicações para remoção 144 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática tardia do implante são muito raras, e não há evidência estatística de um aumento no risco de complicações nesses casos apresentaria um problema clínico que é estatisticamente mais significativo que os problemas potenciais associados com a remoção precoce do implante. 1.5.9.7. Resumo Em resumo, além das indicações absolutas acima mencionadas, nenhuma recomendação geral para remoção de material de osteossíntese metálico pode ser fornecida. Deve-se notar que, antes de tudo, a decisão é do paciente, se ele/ela quer ou não remover os implantes. 145 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.5.10. Técnicas de bloqueio maxilo-mandibular (BMM) O bloqueio maxilo-mandibular (BMM) correto e preciso no intraoperatório, também chamada de fixação intermaxilar (BMM), é a chave para o sucesso do estabelecimento ou preservação da relação oclusal da maxila com a mandíbula em trauma facial, cirurgia ortognática e reconstrutiva. Historicamente, a imobilização maxilo-mandibular tem sido documentada por mais de 2.000 anos e uma variedade de diferentes técnicas e dispositivos foram desenvolvidos ao longo tempo em estreita relação com a evolução do tratamento ao trauma e a pesquisa de material. Especialmente durante o século passado, vários métodos novos e aperfeiçoados foram estabelecidos. A discussão sobre a necessidade de BMM em combinação com a redução aberta e a fixação interna em padrões simples de fraturas é controverso, mas não há dúvida sobre sua necessidade em fraturas complexas. Nesse contexto, deve-se notar que as técnicas de fixação internas em combinação, ou não, com dispositivos inadequados para corrigir a oclusão, pode levar a falhas evitáveis, principalmente nas mãos de cirurgiões inexperientes. 1.5.10.1. Considerações básicas A adequação dos dispositivos BMM depende de vários critérios, como estabilidade, aplicabilidade em pacientes dentados e edêntulos, crianças, adultos, a imobilização à curto e longo prazo, o dano adicional ao paciente (dor, dentes, gengiva), o risco para o cirurgião (como lesões), tempo de instalação, custos e outros. As principais indicações no trauma são: • Estabilização temporária de fragmento em casos de emergência antes do tratamento definitivo • Fixação intraoperatória em combinação com fixação interna • Uso como banda de tensão • Fixação a longo prazo na conduta não-cirúrgica • Fixação de dentes avulsos e fragmentos da crista alveolar. 146 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática O BMM também é utilizado para manutenção da oclusão na reconstrução mandibular e no controle da distância interalveolar ao reconstruir as cristas alveolares ou a maxila. Na cirurgia ortognática, o BMM é necessário no intraoperatório para garantir a nova relação da mandíbula antes e durante a fixação interna. No pós-operatório, o dispositivo de fixação pode ser usado para fixar elásticos de orientação para treinamento funcional ou em complicações; por exemplo, divisões (splits) ruins, como suporte para uma cicatrização óssea sem intercorrências. 1.5.10.2. Opções de bloqueio maxilo-mandibular Uma variedade de dispositivos de imobilização foi descrita. A maioria é de origem dentária, como amarrias de fio, barras em arco, splints com capa, splints adesivos, braquetes, e amarrias de plástico auto-fixantes. Outros são fixados ao osso, como próteses e splints, placas, pinos e parafusos. De acordo com as escolas médicas de diferentes países, existem preferências para uma ou outra técnica, dependendo principalmente na tradição e não na ciência. 1.5.10.3. Dispositivos dentários Fixação com fio Existem muitas técnicas diferentes para fixação de fios. Amarrias Ivy, amarrias Ernst, amarria de fio robusta maxilo-mandibular, e amarria de fio múltiplos de Obwegeser são apenas algumas das mais populares. As técnicas de fixação de fios para o BMM têm a estabilidade um pouco reduzida. As vantagens são que os procedimentos são rápidos e simples, além da disponibilidade quase irrestrita e do custo-benefício. As desvantagens são a falta de estabilidade, não há bandas de tensão adequadas em combinação com a fixação interna, o trauma na gengiva, e o risco de extrusão dos dentes. Portanto, a fixação com fio é indicada principalmente em casos de emergência para imobilização de curta duração em uma dentição parcial ou completa antes da cirurgia, e, em casos específicos com padrões de fraturas simples para fixação intraoperatória. Vários aspectos importantes devem ser mencionados antes de iniciar: 147 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática • No caso de má oclusão severa, pode ser impossível usar amarrias de fio. • Dentes soltos não devem ser incluídos nas amarrias. • As amarrias da maxila e mandíbula devem estar em posição oposta e simétrica para imobilização correta. • Profissionais médicos são confrontados com o risco de contaminação em acidentes por perfuração. Duas das técnicas mais populares, e tecnicamente semelhantes, são o uso de amarrias Ivy e amarrias Ernst que são brevemente descritos aqui. Amarrias Ivy O posicionamento e inserção das amarrias: dobre um fio pela metade, um círculo pequeno é criado na parte do meio ao girá-lo em torno do eixo. As duas extremidades livres do fio são colocadas interdentalmente do lado vestibular entre dois dentes estáveis. As extremidades do fio são enroladas em torno de cada dente vizinho e colocados no próximo espaço entre os dentes. O fio posterior é passado através do círculo original e depois apertado ao torcer as extremidades anterior e posterior juntas. O mesmo procedimento é realizado para o outro arco dentário, diretamente oposto a primeira amarria Ivy. Os círculos podem ser cada vez mais apertados sobre o fio para diminuir o tamanho e o comprimento do círculo. O BMM é finalmente alcançado passando e apertando um segundo fio através de duas amarrias Ivy opostas ou, se preferir, colocando bandas elásticas sobre os círculos (Fig. 1.5.10-1a-e). 148 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.5.10-1a-e – Laços Ivy a – Um pequeno círculo é criado com um fio de 0,4mm. b – Após passar as duas extremidades livres através do espaço entre os pré-molares, as extremidades do fio são então passadas em volta destes pré-molares e puxadas de volta através do próximo espaço interdental. c – O fio distal é passado através do círculo original. d – As extremidades do fio são então torcidas juntas e o excesso cortado. O mesmo procedimentoé realizado na arcada dentária oposta. e – Finalmente, o bloqueio maxilo-mandibular é alcançado ao passar um fio através das duas amarrias de Ivy opostas, a qual é então apertada. Amarrias Ernst O posicionamento e inserção das amarrias: uma amarria Ernst é aplicado a dois dentes vizinhos, preferencialmente os pré-molares. Uma extremidade do fio é passada do lado vestibular através do espaço interdental entre o canino e o pré-molar. A outra extremidade é passada entre o segundo pré-molar e o molar. Ambas as extremidades são retornadas por palatina/lingual para o lado vestibular através do espaço interdental entre os pré-molares 4 e 5. Uma extremidade do fio deve passar abaixo, a outra no topo da porção horizontal do fio no lado vestibular. Ao torcer com o twister (instrumento para torcer fio), o fio é então apertado. As amarrias são colocadas em todas as quatro seções dos arcos dentários em uma posição simétrica. O BMM é alcançado torcendo as extremidades dos fios de duas amarrias opostas juntas, após assegurar oclusão adequada (Fig. 1.5.10-2a-b). Deve-se tomar cuidado para não quebrar os fios neste momento pois seria necessário reiniciar o procedimento. As extremidades dos fios são cortadas e dobradas em direção à superfície dentária para proteger a mucosa oral. 149 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.5.10-2a-b – Amarria Ernst a – Um fio de 0,3 ou 0,4mm é colocado entre e em volta dos pré-molares. As duas extremidades são torcidas juntas. b – Após posicionamento das duas amarrias opostas na área dos pré-molares na maxila e na mandíbula, essas amarrias são torcidas juntas. Barras em arco As barras em arco são dispositivos dentários para BMM de pacientes dentados. Elas podem ser usadas: • Para estabilização temporária de fragmentos em casos emergenciais antes do tratamento definitivo • Como banda de tensão em combinação com fixação interna rígida • Como fixação a longo prazo para conduta de fratura não-cirúrgica • Para fixação de dentes avulsos e fraturas na crista alveolar Devido a essa ampla aplicabilidade, as barras em arco ainda são consideradas o padrão ouro para o BMM. As vantagens são a estabilidade, a simplicidade do procedimento e a possibilidade de consertar dentes soltos. As desvantagens são as dolorosas e demoradas aplicações, os danos à gengiva associados com vários tipos de barras em arco, e o alto potencial de acidentes por perfuração com risco de inoculação de material infectado. Diferentes tipos de barras em arco estão em uso. Elas vêm personalizadas ou fabricadas comercialmente como dispositivos médicos. As barras em arco personalizadas permitem o posicionamento preciso da barra para evitar danos aos tecidos moles circundantes, se aplicadas adequadamente. O tempo para inserção é curto. A desvantagem 150 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática é a necessidade de um técnico experiente que nem sempre está disponível, especialmente em casos de emergência. As barras em arco fabricadas comercialmente são, por exemplo, as barras em arco Schuchardt, Erich e Dautreys. As barras em arco estão disponíveis em alumínio, aço inoxidável e atualmente também em titânio, bem como em várias ligas. Antes da aplicação das barras em arco, a oclusão deve ser verificada. O objetivo é alcançar a interdigitação completa dos dentes com contatos regulares. Em caso de má oclusão severa, como deformidade de mordida profunda, pode ser impossível usar as barras. Para se ter vetores de tensão calculáveis entre os fios em laço ou elásticos maxilo-mandibulares colocados, deve haver um posicionamento simétrico dos ganchos na maxila e na mandíbula. Isso é essencial para o treinamento funcional com elásticos. Se as barras em arco são usadas para imobilização a longo prazo, os dentes devem ser fluoretados antes da inserção para evitar a desmineralização na zona de contato entre a superfície do dente e a bar. Dois dos tipos mais comuns de barras em arco pré-fabricadas, Schuchardt e Erich, são brevemente descritas. Barras em arco Schuchardt As barras em arco pré-fabricadas devem ser ajustadas em forma e comprimento para a situação individual. As barras em arco não devem danificar a gengiva. Portanto, as barras em arco Schuchardt são disponíveis com stops oclusais para impedir a migração da barra para a gengiva. Em uma dentição completa, a quantidade de stops oclusais pode ser reduzida para um de cada lado, e um na frente. Antes da fixação, as barras são adaptadas perto dos dentes. Se a estabilidade máxima é necessária, por exemplo, para fixação a longo prazo em fraturas múltiplas, a barra é cortada posteriormente ao segundo molar. Se a estabilidade reduzida for adequada, por exemplo, para fixação temporária em fraturas do pescoço condilar, a barra pode ser aparada posteriormente ao segundo pré-molar. Para estabilidade máxima, a barra é fixada em cada dente saudável (Fig. 1.5.10-3a-c). Dentes avulsos isolados em combinação com fraturas da mandíbula podem ser estabilizados. Para imobilização a longo prazo, bandagem de tensão, ou fixação de dentes avulsos, Schuchardt recomendou o uso de metil metacrilato. O metil metacrilato é colocado em uma fina camada na superfície vestibular da barra e fios (Fig. 1.5.10-3d-e). Os objetivos são proteger os fios e as barras contra o afrouxamento sob função, para 151 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática manter os fios e as barras na posição desejada, evitando migração para a gengiva, e para cobrir todas as extremidades afiadas dos fios para proteger os tecidos moles circundantes. Para BMM de curto prazo, as barras em arco são normalmente usadas sem metil metacrilato. Após a remoção dos stops oclusais, a oclusão é estabelecida e os elásticos ou fios de amarria 0,5 mm são inseridos de maneira simétrica. A imobilização estável da maxila e da mandíbula em uma intercuspidação máxima é alcançada (Fig. 1.5.10-3f). Fig. 1.5.10-3a-f – Barras em arco Schuchardt. a – A barra em arco Schuchardt pré-fabricada tem o comprimento ajustado e cortado de acordo com a situação individual. Os stops oclusais previnem a migração para a gengiva. A primeira amarria com fio de 0,3mm é colocada em volta do segundo pré-molar esquerdo, uma extremidade acima e outra abaixo da barra em arco. b – Após passar os fios em volta de cada dente, eles são torcidos e cortados. c – Todas as extremidades dos fios são colocadas na barra em arco. d – Uma fina camada de metil metacrilato é colocada na barra e para cobrir os fios. 152 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.5.10-3a-f (continuação) – Barras em arco Schuchardt. e – Após remoção dos stops oclusais, as extremidades são suavizadas com rebolo. f – O bloqueio maxilo-mandibular é alcançado com fio de 0,5mm ou elásticos. Barras em arco Erich As barras em arco Erich pertencem aos dispositivos mais populares do BMM. Geralmente são feitos de uma liga relativamente macia, eles não têm stops oclusais. A fixação nos dentes é semelhante à fixação das barras em arco de Schuchardt (Fig. 1.5.10- 4). Fig. 1.5.10-4 – BMM com barras em arco Erich. Como nas barras em arco Schuchardt, as barras em arco Erich são fixadas em cada dente saudável com amarrias de fio de 0,3mm. O bloqueio maxilo- mandibular é obtido com elásticos que são colocados nos ganchos das barras. 153 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Braquetes Esses dispositivos dentários são diretamente ligados a superfície do dente. Geralmente usados para tratamento ortodôntico, eles podem também ser aplicadospara o BMM. Eles são comumente usados em cirurgia ortognática e em casos específicos de trauma com dentição permanente e dentes saudáveis. As vantagens são as aplicações não invasivas e a simplicidade do procedimento. As desvantagens são a necessidade de acesso à tecnologia em emergências, o problema de manter as superfícies dos dentes secas para colagem, os custos, e o risco de extrusão de dentes quando utilizados para fixação a longo prazo. 1.5.10.4. Dispositivos ósseos Recentemente, os dispositivos de origem óssea ganharam popularidade crescente para imobilização maxilo-mandibular. Além dos ganchos ancorados com parafusos, placas de 2 ou 3 orifícios com parafusos ancorados (“placas gancho”) e parafusos para osteossíntese convencional fixado através da mucosa como retenções para o BMM, hoje, conjuntos específicos com parafusos BMM especializados estão disponíveis comercialmente. A maioria destes parafusos são autoperfurantes e autorroscante, e as cabeças do parafuso apresentam uma geometria especial que serve como retenção para fios ou elásticos. A crescente popularidade se deve à inserção rápida, o baixo risco de acidentes por perfuração para cirurgiões, a falta de tração nos dentes, por exemplo, em cirurgia ortognática, e a facilidade de remoção. A forte promoção comercial se concentra nessas vantagens, mas deve-se perceber também que existem desvantagens consideráveis relatadas como lesões na raiz do dente, danos aos tecidos moles (mucosa e nervos), deslocamento indesejado dos fragmentos por rotação externa, fraturas e afrouxamento de parafusos. O treinamento funcional pós-operatório com elásticos torna-se mais difícil pela falta de pontos de retenção adequados para orientação direcionada. As indicações típicas são as imobilizações intraoperatórias de curto prazo, especialmente para o tratamento de padrões de fratura simples em cirurgia ortognática e reconstrutiva. O uso de placas, pinos e parafusos é limitado em fraturas severas cominutivas e deslocadas, em fraturas segmentadas instáveis, em fraturas do processo alveolar, e em crianças, se os germes do dente ainda estiverem no lugar. 154 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Os aspectos importantes antes da aplicação de dispositivos ósseos são: • Verificar a posição das raízes dentárias, e os nervos infraorbital e mandibular • Posicionar os parafusos ou pinos de maneira simétrica da maxila para a mandíbula se for possível • Evitar interferência na abordagem cirúrgica e nos dispositivos de fixação interna Parafusos BMM Os parafusos de bloqueio maxilo-mandibular (BMM) são feitos de aço inoxidável. Eles são autoperfurantes e autorroscante. A cabeça do parafuso é alongada e contém dois orifícios de orientação cruciforme para colocação dos fios. A inserção do parafuso pode ser realizada diretamente através da mucosa. É preciso ter cuidado para que a cabeça do parafuso não comprima a gengiva quando estiver totalmente posicionada. Vários padrões de posicionamento de parafusos BMM existem e são ditados pela localização da fratura. As áreas de aplicação do parafuso são limitadas pelas raízes dentárias e pela posição dos nervos infraorbital e alveolar inferior. A recomendação da colocação dos parafusos BMM é superior as raízes dos dentes na maxila, inferior as raízes dos dentes na mandíbula, e lateral ou medial ao longo eixo das raízes caninas. Para BMM, fios de 0,4 mm são inseridos através dos orifícios do parafuso BMM. As amarrias de fio também podem ser enroladas em volta das ranhuras da cabeça do parafuso. Antes de apertar os fios, a oclusão correta tem que ser estabelecida. Para estabilidade adicional, pode-se colocar os fios em padrão X. Alternativamente, os elásticos podem ser inseridos (Fig. 1.5.10-5). Alguns problemas foram relatados ao observar os resultados de acordo com a técnica originalmente recomendada. A falta de estabilidade pode ocorrer devido à longa distância entre os parafusos BMM que são conectados com fios não rígidos. Além disso, o aperto dos fios anteriormente pode criar uma mordida aberta posterior. Para superar este problema adicional, parafusos BMM adicionais ou amarrias Ernst podem ser usados na dentição posterior. O aperto excessivo dos fios pode levar a rotação de um fragmento devido à posição dos parafusos e o braço de alavanca longo. Outros problemas adicionais são o travamento das cabeças dos parafusos nos tecidos moles, principalmente no vestíbulo mandibular anterior, e a interferência das amarrias com as bordas dos incisivos superiores ou facetas caninas. 155 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.5.10-5 – BMM com parafusos especiais BMM colocados opostamente na maxila e na mandíbula. Fios de 0,4mm foram colocados através dos orifícios dos parafusos BMM. Com pesquisa e experiência na área de colocação de parafusos perto e entre os dentes, principalmente provenientes de aplicação de miniparafusos em ortognática, novos tipos de parafusos estão sendo desenvolvidos, os quais podem também ser usados para técnicas de BMM. Placas Em pacientes dentados, as chamadas “placas gancho” podem ser usadas para BMM de curto prazo. Para isso, a partir de uma placa de adaptação 2,0 são cortadas peças com 2 ou 3 orifícios. Essas peças são dobradas em uma forma angular ou como pequenos ganchos. Depois de usar uma broca de 1,5 mm, as placas de 2 orifícios são fixadas monocorticalmente com parafusos de 2,0 mm, de 6 mm de comprimento, na posição planejada. Depois de estabelecer oclusão, o BMM é realizado com fios ou elásticos através dos orifícios da placa ou ao redor dos ganchos (Fig. 1.5.10-6). Comparado aos parafusos BMM, há menos risco de danos às raízes e nervos dos dentes, principalmente na vista lateral da mandíbula. Em pacientes edêntulos, as placas podem ser usadas como "placas entrearcos" para fixar e manter a dimensão vertical entre a maxila e a mandíbula (Fig. 1.5.10-7) 156 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.5.10-6 – BMM com placas de adaptação 2,0 com 2 orifícios. Fig. 1.5.10-7 – BMM em paciente edêntulo, com uma placa de adaptação ajustando a dimensão vertical entre a maxila e a mandíbula. Fixação espino-mentual Essa técnica óssea é um método simples de BMM usado em pacientes dentados ou que usam próteses dentárias, especialmente com fraturas subcondilares. Sob anestesia local, os ganchos de fio de aço em forma de S são colocados abaixo da espinha nasal anterior e ligeiramente acima da protuberância mentual na região sinfisária, e fixada com mini parafusos. O BMM é alcançado usando amarrias de fio ou elásticos. Semelhante aos problemas relacionados aos parafusos BMM, pode ocorrer o travamento dos ganchos no vestíbulo mandibular anterior, além da interferência das amarrias com as bordas dos incisivos superiores (Fig. 1.5.10-8). 157 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 1.5.10-8 – BMM com ganchos de fio de aço em forma de S. Um splinting acrílico parcial é usado para separar os elásticos dos dentes anteriores. 1.5.10.5. Próteses ou splints do tipo Gunning BMM em pacientes edêntulos ou parcialmente desdentados pode ser alcançado com a ajuda de próteses. Se estas não estiverem disponíveis, splints acrílicos podem ser confeccionados. Os aspectos gerais como a idade e a condição do paciente devem ser considerados. Especialmente em pacientes idosos, o período de imobilização que é muitas vezes doloroso, deve restringir-se ao mínimo, e o uso a longo prazo deve ser evitado sempre que possível. Para retenção do BMM, elementos podem ser aplicados nas próteses ou splints.Isto pode ser alcançado através da fixação de barras em arco, ganchos de metal, ou parafusos nas próteses ou nos splints. Alternativamente, parafusos BMM para osso também podem ser usados para o BMM em casos com estoque ósseo suficiente. A nutrição deve ser assegurada reduzindo a parte acrílica retromolar da prótese dentária, ou criando um “orifício de alimentação” na região incisiva da prótese ou splint. A relação maxilo-mandibular correta deve ser estabelecida ou por uma intercuspidação oclusal apropriada das próteses, ou posicionando batentes (stops) nas superfícies oclusais dos splints do tipo Gunning. As próteses ou splints podem ser fixados com fios de suspensão ao osso, como fios transalveolar, zigomático-maxilar, ou mandibular circunferencial, mais facilmente com parafusos. A prótese superior ou splint deve ser fixada na parte anterior compacta do 158 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática palato duro. A prótese inferior pode ser facilmente fixada na área sinfisária por causa do osso denso nesta região. Um ou dois parafusos são geralmente suficientes (Fig. 1.5.10-9). Fig. 1.5.10-9 – BMM com splints do tipo Gunning. As próteses dos pacientes são fixadas com parafusos na maxila e na mandíbula, os incisivos são removidos para criar um orifício de alimentação. 1.5.10.6. Aspectos importantes do BMM prolongado ou a longo prazo Se o BMM a longo prazo for planejado, vários aspectos importantes devem ser respeitados. O paciente deve receber um cortador de fio ou tesoura para cortar elásticos ou fios em caso de emergência, para evitar problemas nas vias aéreas após êmese, desmaio, ou ataque epiléptico, e ele/ela ou acompanhante deve ser instruído em seu uso para permitir a remoção urgente se necessária. Uma boa higiene oral é obrigatória durante os períodos de imobilização. Para esse objetivo, um dispositivo de coleta de água é útil. O uso de géis fluoretados evita a desmineralização do dente e reduz o risco de cárie. Durante o período de imobilização, o peso corporal deve ser controlado. O aconselhamento nutricional e o uso de dietas leves ou suaves devem fazer parte do tratamento. Recomenda-se, pelo menos, consultas semanais de acompanhamento para verificar a estabilidade da relação oclusal. Fadiga de fios, bruxismo, ou a remoção dos fios ou elásticos pelo paciente pode reduzir a estabilidade e levar a complicações evitáveis, por exemplo, má oclusão, não-união e infecção. 159 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.5.10.7. Resumo O bloqueio maxilo-mandibular (BMM) pode ser alcançado com muitos dispositivos diferentes, dependendo do local e das condições gerais do paciente, das necessidades médicas em trauma, das cirurgias ortognática e ablativa ou reconstrutiva, a disponibilidade de tecnologias e o suporte técnico. Todos os métodos mostram vantagens e desvantagens. Em pacientes dentados ou parcialmente dentados, as barras em arco ainda são o padrão ouro para estabelecer a oclusão. Elas têm comprovado sua utilidade na imobilização de curto e longo prazo. Qualquer cirurgião que lide com cirurgia craniofacial deve estar hábil a usá-las adequadamente. Dispositivos com estabilidade reduzida a longo prazo não devem ser usados para imobilização a longo prazo. Em casos específicos e de emergência, amarrias de fio, placas, parafusos, e pinos podem ser uma alternativa às barras em arco. O crescente interesse em dispositivos de fixação óssea, leva, na verdade, ao aumento de atividades para criar melhores dispositivos. Em pacientes edêntulos, as próteses e splints são ferramentas úteis para o BMM, embora o uso a longo prazo deva ser evitado. Em casos específicos, o revestimento a placa entrearco pode ser uma alternativa. 160 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.6. Referências e leitura sugerida 161 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 162 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 163 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 164 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 165 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 166 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 167 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 168 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 2. Fraturas mandibulares 169 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 2.1. Fraturas sinfisária e parassinfisária 2.1.1. Anatomia e interpretação A sínfise da mandíbula é definida como a região entre as raízes dos incisivos centrais, e a parasínfise como a região lateral entre as raízes dos caninos e os incisivos centrais. Juntas, elas podem ser referidas como o queixo ou a região mentual (Fig. 2.1-1). Fig. 2.1-1 – Anatomia da sínfise (vermelho) e parasínfise (verde). Esta região é caracterizada por um osso muito vascular cujo suprimento sanguíneo vem do lado lingual da região mentual, através dos anexos musculares linguais e sublinguais. Além disso, ramos terminais da artéria lingual podem entrar diretamente no osso. Sob carga mastigatória, forças rotacionais podem ocasionalmente ser observadas nesta região em particular; isto deve ser levado em conta quando a fixação interna é realizada. A lesão característica nesta região são as fraturas lineares e oblíquas. Cominuição ou perda óssea é relativamente raro. Ocasionalmente, existe um fragmento inferior em forma de borboleta que, se for grande, pode envolver a inserção da musculatura supra-hióidea, e geralmente está associado ao trauma de alta energia visto em lesões de alta velocidade, como acidentes de automóvel e disparo por arma de fogo. 170 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 2.1.2. Imagem Os raios-x em dois planos, como um ortopantomograma (panorâmica) e uma visão de Clementschitsch são suficientes (Fig. 2.1-2a-b). A vista panorâmica tende a desfocar o centro (seção de sínfise), enquanto a tomográfica computadorizada (TC) é a única que fornece uma imagem clara de ambos córtices (Fig. 2.1-3). Nos casos em que uma tomografia computadorizada da cabeça deve ser realizada devido a lesões adicionais, escaneamentos axiais são geralmente suficientes e podem ser usados em vez de filmes comuns. Fig. 2.1-2a-b a – ortopantomograma (OPT) de uma fratura de linha média. b – Raio-x de acordo com Clementschitsch com fratura subcondilar do lado esquerdo. 171 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 2.1-3 – TC de uma fratura de linha média. 2.1.3. Abordagens cirúrgicas Normalmente, uma abordagem transoral é usada, porém, sob circunstâncias especiais uma abordagem transcutânea deve ser considerada. A abordagem padrão da área mentual é através de uma abordagem transoral por vestibular. Em pacientes dentados, a linha de incisão geralmente fica na mucosa alveolar a uma distância274 3.4.2.1. Seção orbital anterior .......................................................................................................... 275 3.4.2.2. Seção orbital central............................................................................................................ 276 3.4.2.3. Seção orbital posterior ........................................................................................................ 279 3.4.3. Diagnóstico ......................................................................................................................... 279 3.4.3.1. Avaliação clínica ................................................................................................................ 279 3.4.3.1. Imagem ............................................................................................................................... 280 3.4.4. Tratamento .......................................................................................................................... 281 3.4.4.1. Indicações ........................................................................................................................... 281 3.4.4.2. Exposição ............................................................................................................................ 282 3.4.4.3. Materiais para reconstrução ................................................................................................ 283 3.4.4.4. Princípio da reparação de fraturas orbitais .......................................................................... 286 3.4.4.5. Fraturas da borda orbital superior e teto ............................................................................. 289 3.4.5. Tratamento pré-operativo e pós-operativo .......................................................................... 290 3.4.6. Complicações e erros .......................................................................................................... 291 3.5. Fraturas naso-órbito-etmoidais (NOE) ........................................................................................ 295 3.5.1. Anatomia, interpretação e classificação .............................................................................. 295 3.5.2. Imagem ............................................................................................................................... 297 3.5.3. Abordagens ......................................................................................................................... 298 3.5.4. Técnicas de osteossíntese ................................................................................................... 299 3.5.4.1. Sequência de redução ................................................................................................. 299 3.5.4.2. Fixação esquelética rígida .......................................................................................... 300 3.5.4.3. Enxerto ósseo primário .............................................................................................. 300 3.5.5. Conduta para o segmento central ........................................................................................ 301 3.5.6. Cantoplastia medial ............................................................................................................ 304 3.5.7. Reconstrução nasal ............................................................................................................. 306 3.5.7.1. Fixação do osso nasal ................................................................................................ 306 3.5.7.2. Enxerto ósseo nasal cantilever ................................................................................... 307 3.5.8. Problemas relacionados à fratura NOE ............................................................................... 308 3.5.9. Lesões no ducto lacrimal .................................................................................................... 309 3.5.10. Lesões no seio frontal ......................................................................................................... 309 3.5.11. Lesões na base do crânio .................................................................................................... 310 3.5.12. Conduta para as vias aéreas ................................................................................................ 310 3.5.13. Tratamento pré-operatório e pós-operatório ....................................................................... 311 3.5.14. Complicações e erros .......................................................................................................... 311 3.6. Fraturas do esqueleto nasal .......................................................................................................... 313 3.6.1. Anatomia e interpretação .................................................................................................... 313 12 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 3.6.2. Imagem ............................................................................................................................... 314 3.6.3. Abordagens ......................................................................................................................... 314 3.6.3.1. Abordagem coronal .................................................................................................... 314 3.6.3.2. Abordagem gull-wing (asa de gaivota) ...................................................................... 315 3.6.3.3. Lacerações ................................................................................................................. 316 3.6.3.4. Abordagem sublabial ................................................................................................. 316 3.6.4. Classificação das fraturas do esqueleto nasal ..................................................................... 316 3.6.5. Tratamento das fraturas do esqueleto nasal ........................................................................ 320 3.6.5.1. Fraturas deslocadas medialmente e lateralmente ....................................................... 320 3.6.5.2. Fraturas deprimidas centralmente .............................................................................. 321 3.6.5.3. Cartilagens lateral superior avulsionadas ................................................................... 321 3.6.5.4. Fraturas nasais cominutivas ....................................................................................... 322 3.6.5.5. Fraturas septais .......................................................................................................... 322 3.6.6. Tratamento pré-operatório e pós-operatório ....................................................................... 323 3.6.7. Complicações e erros .......................................................................................................... 324 3.7. Referências e leitura sugerida ....................................................................................................... 325 4. Fraturas do crânio e base do crânio ............................................................................................. 328 4.1. Seio frontal, osso frontal e base anterior do crânio..................................................................... 329 4.1.1. Interpretação ....................................................................................................................... 329 4.1.2. Imagem ............................................................................................................................... 331 4.1.3. Abordagens ......................................................................................................................... 331 4.1.4. Condições especiais que influenciam a reduçãode 8-10 mm à junção entre a gengiva inserida e a livre (Fig. 2.1-4). Em pacientes edêntulos é preferível uma incisão na crista. Inicialmente, uma incisão menor de canino a canino é feita. Alguns cirurgiões preferem cortar através da mucosa, subjacente aos músculos faciais e ao periósteo diretamente ao osso, outros preferem mobilizar primeiro a mucosa e incisar os músculos e o periósteo em um nível diferente (Fig. 2.1-5a-b). Da incisão central menor, os tecidos moles laterais podem ser elevados subperiostalmente para expor os nervos mentuais e o forame mentual. Em seguida, o corte pode ser estendido lateralmente sem grande risco de danificar permanentemente o nervo mentual. A superfície labial completa da região mentual, incluindo a borda inferior da mandíbula, pode ser exposta por essa abordagem. No entanto, essa abordagem não permite o controle visual do córtex lingual. Consequentemente, sob algumas circunstâncias, uma abordagem externa deve ser considerada. 172 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 2.1-4 – Linha de incisão para uma abordagem transoral por vestibular (Incisão com um bisturi elétrico). Fig. 2.1-5a-b a – Passo a passo da incisão, primeiramente através da mucosa, seguido da incisão dos músculos e do periósteo. b – Duas camadas de sutura para músculos e mucosa. As abordagens transcutâneas também podem ser consideradas nos casos de lacerações preexistentes na área mentual. Rotineiramente, elas são indicadas quando cominuição significativa ou perda óssea está presente. Em casos raros, elas são realizadas secundariamente a uma abordagem transoral, quando o reposicionamento é difícil e a vista lingual deve ser visualizado. Uma incisão transcutânea planejada é realizada na 173 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática área submentual, levando as linhas de tensão da pele relaxadas em consideração. Uma incisão submental isolada também pode ser feita em uma linha curva diretamente posterior à borda da mandíbula. É preciso ter cuidado para não a estender demais lateralmente para evitar danos ao ramo marginal do nervo facial. Nos casos em que uma abordagem submandibular estendida é necessária, uma incisão na dobra submandibular é recomendada (Fig. 2.1-6). As abordagens transoral e transcutânea são sempre fechadas em camadas com material de sutura reabsorvível ou não reabsorvível (pele e mucosa apenas), dependendo da preferência do cirurgião. É importante restaurar o músculo mentual cortado com uma sutura meticulosa para evitar um queixo caído. Fig. 2.1-6 – Linhas de incisão para abordagens transcutâneas seguindo as dobras da pele. 2.1.4. Técnicas de osteossíntese Em ossos saudáveis, as fraturas nas regiões sinfisária e parassinfisária podem ser tratadas com sucesso com uma variedade de opções. Inclui-se miniplaca, placa de compressão ou osteossíntese com lag screw. As fraturas multifragmentárias, defeituosas e infectadas, bem como as fraturas de uma mandíbula atrófica devem ser tratadas com placas de reconstrução de acordo com as técnicas que serão descritas no 174 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática capítulo 2.4 (Fraturas em osso com qualidade reduzida). Em fraturas não deslocadas e não móveis, a terapia não-cirúrgica pode ocasionalmente ser considerada. Antes de executar a fixação interna com placas e parafusos, o bloqueio maxilo- mandibular (BMM) deve ser aplicado com barras em arco ou splints. Os parafusos BMM também podem ser usados. A redução de fragmentos na área mentual pode ser realizada manualmente, com a ajuda de pinças de redução ou com um fio de posicionamento. 2.1.4.1. Placa de osteossíntese A osteossíntese de miniplaca é provavelmente a técnica mais aplicada frequentemente para essas fraturas em todo o mundo. A técnica padrão envolve a colocação de duas miniplacas 2,0 ou placas correspondentes do sistema Matrix com 4 ou 5 orifícios. Uma placa é colocada diretamente acima da parte inferior da borda, e uma segunda placa é colocada na porção central da mandíbula, em uma posição consideravelmente mais alta, abaixo das raízes dos dentes (Fig. 2.1-7a). Podem ser usadas placas com ou sem travamento. Primeiro, uma placa é dobrada e contorcida na superfície do osso. Esta placa pode ser colocada na borda superior ou inferior. Nas fraturas subcondilares bilaterais em combinação com uma fratura da linha média, ao pressionar os ângulos e o ramo superior bilateralmente cria-se uma fenda no córtex labial. O córtex lingual da fratura mandibular é aproximado e a largura da mandíbula é corrigida. A fixação do parafuso para a placa superior é sempre monocortical para evitar danos às raízes dos dentes (Fig. 2.1-7b). Para a fixação inferior da placa, tanto o parafuso monocortical, quanto bicortical são passiveis de colocação. Os mini-parafusos são inseridos monocorticalmente (sem furo prévio) no modo de perfuração automático. Se os parafusos forem inseridos bicorticalmente, o furo prévio reduz o torque. Sem o furo prévio, existe um risco de fratura ou torção das cabeças dos parafusos ao usar mini-parafusos. 175 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 2.1-7a-b a – A técnica padrão de osteossíntese com placa na região mentual envolve duas miniplacas 2,0 com 4 ou 5 orifícios. b – A fixação do parafuso para a placa superior é sempre monocortical para evitar danos as raízes dos dentes. 2.1.4.2. Osteossíntese com placa de compressão Placas de compressão na área mentual podem ser colocadas no centro da sínfise a uma distância segura das raízes dos dentes. Biomecanicamente, uma placa de compressão no centro (zona neutra) da mandíbula é suficiente para neutralizar todos forças dentro de uma distância normal. Nesta área, uma placa de compressão de 4 orifícios é normalmente usada, seja uma placa de compressão dinâmica com contato limitado (LC-DCP) 2,4, uma placa de fratura universal 2,4, ou uma placa de compressão do sistema Matrix Mandible. O uso de um splint de banda de tensão, ou pelo menos um fio, é fortemente recomendado para neutralizar as forças de distração na borda superior da mandíbula (Fig. 2.1-8). Alternativamente, se a colocação de um splint de banda de tensão não for possível ou não é aceitável, uma osteossíntese de placa de compressão pode ser realizada com uma técnica de duas placas. Em uma osteossíntese de compressão com duas placas, uma miniplaca é usada como placa de tensão em banda diretamente abaixo dos ápices dos dentes anteriores. A segunda é uma placa de compressão que é colocado próximo à borda inferior da mandíbula (Fig. 2.1-9). 176 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Após a redução, a placa de tensão em banda é aplicada primeiro, geralmente com colocação de parafuso monocortical. Então, a placa de compressão é inserida. Fig. 2.1-8 – Osteossíntese com placa de compressão com uma LC-DCP e um splint de banda de tensão. Fig. 2.1-9 – Osteossíntese com placa de compressão com uma LC-DCP e uma miniplaca de 4 orifícios como uma banda de tensão. Uma placa de compressão é contorcida principalmente à superfície óssea, mas deve ser ligeiramente dobrada para evitar a formação de fendas linguais durante o aperto dos parafusos. Apenas um parafuso em cada lado da linha de fratura é colocado de forma excêntrica para exercer compressão na superfície da fratura. Os parafusos de compressão são colocados excentricamente na direção externa dos orifícios da placa com a ajuda de uma guia de perfuração (Fig. 2.1-10a-b). Após a colocação do parafuso, os parafusos decompressão são apertados alternadamente, aplicando compressão na interface do fragmento. Os parafusos restantes são colocados de modo neutro em direção ao interior dos orifícios das placas, novamente, com a ajuda de uma guia de perfuração (Fig. 2.1-11a-b). 177 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 2.1-10a-b – Colocação de parafusos excêntricos nos orifícios ovalados de uma placa DCP em ambos os lados da fratura. A seta na guia de perfuração está apontando para a linha de fratura. A guia de perfuração excêntrica tem um marcador de banda dourado. Apertos alternados dos parafusos levam a compressão da fratura. Fig. 2.1-9 – Colocação de parafusos neutros nos orifícios externos, após apertar os parafusos internos. O guia de perfuração neutro tem uma banda de marcação verde. 2.1.4.3. Osteossíntese com lag screw A osteossíntese com lag screw é outro tipo de osteossíntese por compressão. Normalmente, dois lag screws de 2,4 mm são usados para evitar torção e para melhorar a estabilidade, mas um lag screw de 2,4 mm em combinação com um splint de banda de tensão pode ser suficientemente rígido. Se dois lag screws forem utilizados, o primeiro parafuso é colocado na borda inferior, enquanto o segundo parafuso é colocado alguns milímetros superiormente ao primeiro parafuso, a uma distância segura das raízes dos dentes (Fig. 2.1-12a-b). Primeiro, os fragmentos são reduzidos. O orifício deslizante para o primeiro parafuso é perfurado usando uma broca de 2,4 mm, e uma guia de perfuração de 2,4 mm para 178 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática proteção dos tecidos moles (Fig. 2.1-13a-b). O orifício deslizante penetra apenas o fragmento proximal. Ele termina na superfície da fratura, criando um canal no qual o parafuso desliza. Após a conclusão do canal deslizante, um segundo canal no fragmento oposto é perfurado usando uma broca de 1,8 mm e uma guia de perfuração de 1,8 mm. Fig. 2.1-12a-b a – Posicionamento de dois lag screws. b – Com essa técnica as roscas do parafuso travam-se apenas no fragmento de fratura oposto no córtex distante. Fig. 2.1-13a-b – O orifício deslizante é perfurado no mesmo diâmetro do diâmetro externo roscável do parafuso (2,4 mm) usando uma guia de perfuração de 2,4 mm. Uma guia de perfuração de 1,8 mm é inserida no orifício deslizante para determinar a direção correta para a perfuração (Fig. 2.1-14a-b). A profundidade é medida com um medidor de profundidade, depois, o canal de 1,8 mm é perfurado (Fig. 2.1-15a-b). O osso cortical no qual a cabeça do parafuso vai se encaixar é rebaixado para permitir que a cabeça do parafuso se encaixe perfeitamente no osso, assim, evitando microfraturas na camada cortical durante o aperto e reduzindo a palpabilidade (Fig. 2.1-16a-b). Finalmente, o primeiro parafuso é inserido e totalmente apertado. O segundo parafuso é inserido usando a mesma técnica. Ele pode ser colocado na mesma direção ou do lado oposto. Não importa qual parafuso é inserido primeiro, mas o segundo orifício deve ser perfurado somente após o primeiro parafuso ser apertado. 179 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 2.1-14a-b – O orifício de tração é perfurado no mesmo diâmetro da alma do parafuso (1,8 mm) usando uma guia de perfuração de 1,8 mm. Fig. 2.1-15a-b – O orifício de tração é perfurado. Fig. 2.1-16a-b - Escareamento para a cabeça do parafuso. 2.1.5. Tratamentos pré-operatório e pós-operatório A osteossíntese de miniplaca na mandíbula é comumente abordada como sendo semirrígida. Os pacientes estão liberados para as funções normais passivamente (abertura irrestrita da boca). Eles não são colocados em BMM, a menos que outras lesões ou circunstâncias especiais sejam exigidas. Recomenda-se uma dieta leve por 180 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática aproximadamente 4 semanas de pós-operatório. Neste período, a função mastigatória completa e sem restrições deve ser evitada. A osteossíntese com placa de compressão e a osteossíntese com lag screw são funcionalmente estáveis, e uma dieta leve não é necessária. A profilaxia antibiótica pode ser usada, mas não é necessária, a menos que a área da fratura mostre sinais primários de infecção ou contaminação, por exemplo, com corpos estranhos. É altamente recomendável enfaixar os tecidos moles da região metual, de 2-3 dias, para evitar inchaço significativo que pode levar a deiscência e a cicatrização por segunda intenção dos tecidos moles (Fig. 2.1-17). O BMM por alguns dias também pode ser usado para imobilizar os tecidos moles. Fig. 2.1-17 – No pós-operatório, recomenda-se enfaixar a área mentual de 2-3 dias. 2.1.6. Complicações e erros Conforme descrito, deve-se tomar cuidado com as incisões transorais. Uma incisão incorreta pode levar a cicatrização por segunda intenção dos tecidos moles e danos ao nervo mentual. Mobile User Mobile User 181 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Deve-se evitar danos as raízes dentárias através da colocação adequada do parafuso. Especialmente em mandíbulas massivas e maiores, o contorno externo do alvéolo nem sempre indica a localização anatômica dos ápices dos dentes. Uma radiografia panorâmica pré-operatória sempre mostra o comprimento exato dos dentes. As fraturas mandibulares sinfisárias ou parassinfisárias em conjunto com as fraturas condilares deslocadas bilaterais, particularmente em combinação com as fraturas cominutivas no terço médio da face, tem o risco de perda das dimensões transversais da mandíbula resultando no alargamento posterior (flaring). Nestes casos, é essencial verificar o lado lingual da mandíbula após redução, e após osteossíntese, se necessário, através de uma incisão transcutânea. Estas lesões são melhor corrigidas usando placas pesadas mais longas invés de miniplacas, como placas de reconstrução de 10 a 12 orifícios para controlar a largura da mandíbula através dos ângulos, e lag screw também podem ser usados. As miniplacas podem não ser forte o suficiente para cenários biomecânicos desafiadores. Mobile User 182 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 2.2. Fraturas do corpo e ângulo da mandíbula 2.2.1. Anatomia e interpretação O corpo lateral da mandíbula é definido como a porção distal ao canino (parasínfise), mas próximo ao terceiro molar. O ângulo da mandíbula inclui a região de terceiro molar e junção do corpo e ramo (Fig. 2.2-1). Fig. 2.2-1 – O corpo lateral da mandíbula (vermelho): distal do canino, mas próximo ao terceiro molar. Ângulo da mandíbula (verde): da área entre o terceiro molar e a junção do ramo ascendente. A anatomia do corpo e ângulo da mandíbula inclui os córtices vestibular e lingual bem definidos, o osso alveolar na porção dentária, o canal alveolar inferior localizado em uma porção central ou inferior, internamente a linha milo-hióidea, e externamente a linha oblíqua. O ângulo da mandíbula é mais fino inferiormente, com uma concreção dos córtices vestibular e lingual. Uma depressão óssea anterior ao ângulo é observada anteriormente ao ângulo propriamente dito da mandíbula. Os músculos do ângulo e do corpo mandibular geralmente definem um padrão de fratura e incisões de acesso projetadas para dissecar entre eles, e elevam aponeuroses. Os anexos musculares importantes são: • Músculo masseter: inserção na borda lateral inferior do ângulo (tuberosidademassetérica) • Músculo pterigoideo medial: inserção na borda medial inferior do ângulo (tuberosidade pterigoidea) 183 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática • Músculo temporal: inserção no processo coronoide e borda anterior do ramo • Músculo bucinador: origem nos processos alveolares dos molares da maxila e mandíbula (próximo a linha oblíqua) • Constrictor faríngeo superior: fixação na vista medial do ângulo • Músculo milo-hióideo: origem bem definida ao longo da linha milo-hióidea O corpo lateral da mandíbula é caracterizado pela presença de dois pré-molares e três dentes molares. O terceiro molar, se ainda presente, é frequentemente impactado, parcial ou totalmente nos tecidos moles e osso. Os nervos periféricos aferentes somatossensitivos do corpo e da região angular também são fatores a serem considerados em trauma e fixação interna desta região (Fig. 2.2-2): • Nervo alveolar inferior: contido no canal mandibular, saindo da região pré-molar pelo forame mentual, com terminações de nervos incisivos na sínfise. O nervo mentual se curva imediatamente para baixo antes de sua saída para fornecer inervação do lábio, queixo e dentes mandibulares. • Nervo lingual: aproximadamente 1–2 mm medialmente a linha oblíqua interna da mandíbula no ângulo, movendo-se mais medialmente no assoalho da boca e língua. Ele transmite sensação e paladar (com o nervo corda do tímpano) para os dois terços anteriores da língua. Está em risco durante redução e fixação de parafuso na borda superior da região angular. • Nervo bucal: sensibilidade a mucosa da bochecha e gengiva vestibular dos molares de uma hemiarcada. Atravessa o ramo anterior acima do ângulo, e está em risco durante a incisão intra oral para acesso ao ângulo. 184 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 2.2-2 - Nervos periféricos aferentes somatossensitivos do corpo e da região angular. A inervação motora na região inclui a divisão motora do nervo trigêmeo suprindo os músculos da mastigação, o milo-hióideo e o ventre anterior do músculo digástrico. O nervo facial supre os músculos da expressão facial com os ramos marginal e cervical no triângulo submandibular. Os depressores do lábio e da região mentual podem sofrer paresia se não for dada atenção ao ramo marginal mandibular conforme ele percorre 0-10 mm abaixo da depressão óssea anterior ao ângulo. 2.2.2. Suprimento sanguíneo O suprimento sanguíneo e a oxigenação para esta região é geralmente excelente, mas pode ser comprometida devido a trauma, incisões de acesso, idade e doença. O suprimento arterial para o ângulo e corpo inclui o plexo periosteal dos vasos, bem como a artéria alveolar inferior. Pacientes edêntulos e mais velhos raramente têm uma artéria alveolar inferior patente devido a arteriosclerose e atrofia. Em situações de fratura, essa artéria muitas vezes pode ser danificada. Quando o periósteo é rompido, especialmente em fraturas multissegmentadas do corpo, os fragmentos podem ficar totalmente desconectados, e sob essa condição, eles podem ser comparados com um enxerto ósseo livre. Muitas vezes, é um desafio fechar a mucosa nessa região. Todos esses fatores predispõem fraturas cominutivas à infecção. 185 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 2.2.3. Imagem Duas incidências são necessárias, de preferência em ângulo reto, para imagem efetiva de fraturas do ângulo e corpo mandibular. As imagens a seguir são de grande valor nas fraturas da região do corpo e do ângulo: • Ortopantomograma (OPT) [panorâmica]: o método de imagem universal padrão para avaliação da mandíbula, raramente falha na identificação de fraturas do ângulo e do corpo. Um OPT novo calculado pode oferecer transmissão de contraste e potencial de magnificação. • Vista póstero-anterior da mandíbula: pode identificar fratura obliquamente na região do corpo e ângulo. • Vista oblíqua lateral da mandíbula: uma alternativa para OPT, quando esta não estiver disponível. • Vista oclusal da mandíbula: um filme intraoral onde a vista vestibular e lingual do córtex, na região do corpo e do ângulo, podem ser delineados. • Tomografia computadorizada (TC) da mandíbula: vistas axial, coronal, e sagital, bem como a reconstrução tridimensional, esta pode ser usada para identificar a maioria das fraturas, assim como delinear completamente a anatomia da fratura. Raramente, uma TC não identifica fraturas, devido à média de volume que são observadas na OPT. Raramente, uma fratura não é identificada por qualquer técnica de raio-x. As fraturas não identificadas são não-deslocadas. Nesta situação, os sinais clínicos são as únicas indicações para identificação. 2.2.4. Biomecânica Conforme observado no capítulo 1.3.1 (biomecânica do esqueleto craniomaxilofacial), após carga axial, a área do corpo e ângulo constitui uma zona de tensão na borda superior (arco dental), e uma zona de compressão na borda inferior. 186 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática A zona neutra fica no centro da mandíbula e muitas vezes corresponde à região do canal mandibular. Biomecanicamente, o ângulo mandibular é uma região desafiadora porque alterações anatômicas do corpo para ramo levam para uma mudança de vetores durante a carga. 2.2.5. Padrões de fratura Os padrões de fratura no corpo mandibular dependem da energia do impacto e do vetor. Elas podem ser fraturas diretas ou indiretas. Elas são principalmente lineares, às vezes com uma cunha basal ou superfície oblíqua. A cominuição é vista em trauma de alta energia. A maioria das fraturas do ângulo da mandíbula ocorrem na localização do terceiro molar e se estendem até a depressão óssea anterior ao ângulo propriamente dito. Elas são frequentemente oblíquas, estendendo-se mais anteriormente na região da linha oblíqua externa do que na linha oblíqua interna. Uma cominuição triangular na vista inferior da mandíbula é comum. 2.2.6. Plano de tratamento As incisões de acesso e os métodos propostos de osteossíntese são selecionados antes da cirurgia. Conduta para terceiro molar impactado O terceiro molar pode ser extraído ou retido quando associado com a fratura. Dependendo da situação, os terceiros molares infectado, fraturado ou completamente mobilizado devem ser removidos antes ou depois da redução e estabilização. 187 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Conduta para nervo alveolar inferior A avaliação neurossensorial pré-operatória é indicada para determinar se a neurotmese pode ser um fator na seleção do tratamento. O reparo microcirúrgico simultâneo desse nervo geralmente não é realizado, mas pode ser considerado como uma opção de tratamento. 2.2.7. Abordagens cirúrgicas O bloqueio maxilo-mandibular (BMM) é normalmente aplicado antes da abordagem cirúrgica. As abordagens transoral e transcervical da região do ângulo e do corpo têm sua utilidade. Para fraturas angulares, a abordagem transoral padrão é uma incisão no vestíbulo bucal, medialmente à bola de bichat e lateralmente ao músculo temporal, separando as fibras bucinadoras. Se a remoção do terceiro molar não for necessária, a incisão pode permanecer no vestíbulo bucal. A incisão continua através da mucosa bucal anteriormente, tendo o cuidado de permanecer atrás ou acima da saída do nervo mentual (Fig. 2.2-3). Fig. 2.2-3 – Abordagem transoral para fraturas angulares. A incisão é iniciada na mucosa vestibular. 188 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia OrtognáticaPara fraturas do corpo mandibular, a abordagem transoral é através de uma incisão vestibular biselada próxima as raízes dos pré-molares para proteger a saída do nervo mentual. A dissecção subperiosteal circunferencial ao redor do nervo mentual pode ser realizada para expor a fratura e fornecer espaço para fixação. Incisões gengivais marginais também são possíveis. O acesso transcervical é realizado através das abordagens padrão submandibular. Deve-se ter atenção às linhas de relaxamento da pele, linhas de Langer, que permitirá uma cicatriz estética. A dissecção é realizada através do tecido subcutâneo, platisma, fáscia de revestimento superficial e periósteo. Pode ser útil empregar um estimulador de nervo para avaliar e proteger o ramo mandibular marginal do nervo fácil. A ligadura da veia e/ou artéria facial é frequentemente indicada e pode ser útil para a proteção do nervo facial (Fig. 2.2-4a-b). 189 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 2.2-4a-b – Acesso transcervical da abordagem padrão submandibular. a – Dissecação passo a passo através da pele (linha vermelha), platisma, e fáscia cervical superficial (linha vermelha pontilhada). b – A ligadura da veia e/ou artéria facial é frequentemente indicada. A superfície óssea é alcançada em uma camada abaixo da fáscia cervical superior. 190 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 2.2.8. Técnica de osteossíntese O BMM é aplicado e a redução das fraturas é obtida manualmente ou com a ajuda de pinças de redução. Se uma barra em arco é aplicada através de uma fratura no segmento dental, o diastema no local da fratura deve ser eliminado. Isto permite que a barra em arco atue como uma banda de tensão. Dependendo da qualidade, quantidade e circunstâncias especiais do osso, como cominuição ou perda óssea, a osteossíntese load-sharing ou a osteossíntese load-bearing é indicada. A load-sharing pode ser alcançada com miniplacas 2,0, placas correspondentes do sistema Matrix Mandible, placas de compressão, ou lag screws. A osteossíntese de miniplaca na lateral do corpo é normalmente realizada transoralmente com uma única miniplaca no centro da mandíbula (zona neutra), e com parafusos travando apenas o córtex próximo à placa, ou seja, a inserção de parafuso monocortical (Fig. 2.2-5). No ângulo, uma miniplaca é normalmente colocada na região da borda superior (zona de tensão), na linha oblíqua, a partir de uma abordagem transoral (Fig. 2.2-6a-b), ou na superfície lateral superior da mandíbula com a ajuda instrumentação transbucal ou uma chave de fenda angulada (Fig. 2.2-7a-b). Deve-se tomar cuidado para evitar as raízes do dentes. A fixação monocortical permite uma colocação segura. Se uma única miniplaca for usada, ela deve possuir 6 orifícios com três parafusos em ambos os lados da fratura. 191 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 2.2-5 – Fixação transoral com apenas uma miniplaca no centro da mandíbula (zona neutra) com parafusos apertados apenas no córtex próximo a placa. Fig. 2.2-6a-b – Fixação de miniplaca no ângulo da mandíbula na linha obliqua. 192 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 2.2-7a-b – Fixação de miniplaca na superfície lateral superior da mandíbula com a ajuda de instrumentação transbucal. Em caso de redução de suporte ósseo, por exemplo, após remoção de terceiro molar, alguns cirurgiões preferem usar duas miniplacas, um na borda superior e outra na borda inferior da mandíbula, com no mínimo dois parafusos em ambos os lados da fratura (Fig. 2.2-8, Fig. 2.2-9). A fixação da miniplaca sozinha é geralmente adequada para fraturas bem reforçadas do ângulo e corpo. Uma fratura bem reforçada não tem cominuição e existe contato adequado de osso sadio no local da fratura. O ato de mastigar pode causar uma inversão de forças, resultando em uma abertura da borda inferior se apenas a borda superior for estabilizada com uma banda de tensão. A utilização de uma placa de rigidez suficiente atenuará esse efeito. Se for necessária uma estabilidade maior, uma placa de osteossíntese de compressão load-sharing pode ser colocada como uma LCDCP 2,4, uma placa de fratura universal 2,4, ou placa correspondente do sistema Matrix Mandible. A osteossíntese com placa de compressão é realizada na borda inferior da mandíbula; a fixação do parafuso é bicortical. Este tipo de osteossíntese normalmente cria forças de distração no nível superior da borda da mandíbula e na superfície lingual. Para evitar a formação de fenda superiormente, deve-se realizar uma bandagem de tensão com um splint de banda de tensão, ou uma placa de banda de tensão, antes da colocação das placas de compressão. Um splint de banda de tensão pode ser aplicado usando uma barra em arco, que pode ser reforçada com acrílico (Fig. 2.2-10). O bloqueio maxilo-mandibular com fio não é forte o 193 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática suficiente para as bandas de tensão. Alternativamente, uma placa de banda de tensão pode ser usada perto da borda superior da mandíbula (Fig. 2.2-11). A colocação de placas de compressão dinâmica, no corpo e ângulo, geralmente é possível para a proteção do nervo alveolar inferior, mas a avaliação pré-operatório da localização desse nervo é útil. Fig. 2.2-8 – Fixação com placa dupla, usando miniplacas para fratura levemente deslocada na lateral do corpo mandibular. A fixação monocortical da placa superior evita danos as raízes dos dentes. Fig. 2.2-9 – Fixação de miniplacas com duas placas para uma fratura do ângulo mandibular. Fig. 2.2-10 – Bandagem de tensão realizada com uma barra em arco reforçada com acrílico. Além disso, uma placa universal 2,4 foi colocada na borda inferior. Fig. 2.2-11 – Fixação com placa dupla, usando miniplaca como uma banda de tensão acima do nervo alveolar inferior, e uma placa universal de fratura 2,4 na borda inferior da mandíbula. Deve ser levado em consideração a proteção do nervo alveolar inferior. 194 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática A fixação com lag screw é outra técnica para realizar a fixação por load-sharing. Normalmente, a fixação do lag screw é indicada para fraturas com superfícies oblíquas. Para estabilizar estas, múltiplos lag screws (pelo menos dois) podem ser usados no lugar de uma estabilização com placa. O princípio para a colocação desses lag screws é criar uma compressão através da porção sagital da fratura. Pelo menos dois parafusos perpendiculares à superfície da fratura são necessários para estabilidade tridimensional e para neutralizar as forças rotacionais (Fig. 2.2-12a-b). A osteossíntese load-bearing, com técnica de reconstrução com ou sem travamento, é indicada para fraturas com suporte ósseo reduzido, como as fraturas cominutivas, defeituosas ou infectadas; fraturas de mandíbulas atróficas ou tratamento de fraturas atrasadas com não-união (capítulo 2.4, fraturas em osso com qualidade reduzida). Combinações são possíveis, por exemplo, fixação de lag screw com fixação de placa (Fig. 2.2-13a-b). Fig. 2.2-12a-b – Fratura obliqua estabilizada com fixação de lag screw. Um mínimo de dois parafusos perpendiculares a superfície da fratura é necessária para uma estabilidade tridimensional. Fig. 2.2-13a-b – Osteossíntese load-bearing em uma fratura obliqua na latera do corpo. Placa de fixação regular combinada com a técnica do lag screw para a áreaobliqua. 195 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 2.2.9. Tratamento pré-operatório O uso de profilaxia antibiótica para redução aberta da fratura do corpo e do ângulo permanece controverso. Os antibióticos devem ser administrados a todos os pacientes com fraturas quando o tratamento está atrasado. Se os antibióticos forem usados profilaticamente, a aplicação parenteral em altas doses no pré-operatório é recomendada com boa cobertura para anaeróbicos gram-positivos. Clindamicina, penicilinas ou cefalosporinas de primeira geração são as mais utilizadas. Devido surgimento de staphylococcus aureus resistentes à meticilina, em infecção de paciente com trauma maxilofacial, o regime profilático em alguns centros foi alterado. Eles preferem a penicilina de amplo espectro em combinação com o ácido clavulânico. O uso de drenos em incisões bucais e transcutâneas ficam a critério do cirurgião. 2.2.10. Tratamento pós-operatório Todos os métodos de fixação interna estável, das fraturas da região do corpo e ângulo, devem ter o objetivo de restauração precoce da função completa, incluindo dieta, vias aéreas e fala. No entanto, as técnicas de fixação apresentam graus variados de estabilidade. Nenhum BMM é indicado, a menos que seja necessário devido a fraturas adicionais que tenham sido submetidas a tratamento não-cirúrgico (por exemplo, fraturas condilares associadas). As placas únicas de borda superior para fraturas angulares fornecem estabilidade suficiente se houver bom suporte da fratura no ângulo da mandíbula. Os fatores que podem comprometer o suporte incluem a remoção de terceiros molares impactados, linhas de fratura oblíqua, ou cominuição na borda inferior. Se for realizada a colocação de placa na borda superior, nestas circunstâncias, sem uma placa adicional na borda inferior, um breve período de BMM pode ser necessário. Um período de repouso dos tecidos moles na oclusão, usando BMM, pode ajudar na cicatrização dos tecidos moles. 196 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 2.2.11. Complicações e erros Durante a fixação interna, a visualização completa da fratura pode ser problemática nas fraturas do ângulo e do corpo. O fracasso em identificar completamente a anatomia da fratura pode resultar em fixação inapropriada. A abertura da borda inferior durante a colocação de placa na borda superior deve ser antecipada e controlada, normalmente com uma segunda placa. O alargamento na região dos ramos também é um risco grave devido a fraca adaptação da vista lingual da mandíbula. A colocação de parafuso no canal mandibular pode ser evitada através de um planejamento cuidadoso. 197 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 2.3. Fraturas do côndilo, ramo ascendente, e processo coronoide 2.3.1. Anatomia e interpretação As fraturas da área do côndilo mandibular são comuns e representam 9-45% de todas as fraturas mandibulares em adultos, e aproximadamente 50% de todas as fraturas mandibulares em crianças. Muitos sistemas de classificação descrevem as fraturas condilares e subcondilares, mas nenhum é comumente aceito e universalmente usado. Isso representa um problema principalmente quando estudos de fraturas de côndilo são comparados. Atualmente, sistemas de classificação simples são amplamente utilizados. Eles abordam a localização anatômica da fratura e distinção entre a cabeça condilar, fraturas subcondilares (Fig. 2.3-1), e condições patológicas como a luxação da cabeça condilar. Eles também abordam a angulação dos ossos que compreendem os segmentos da fratura e descrevem o contato entre os fragmentos. Fig. 2.3-1 – A localização da fratura pode ser distinguida anatomicamente. (Lê-se: “processo coronoide”, “cabeça do côndilo”, “subcondilar: alta = pescoço do côndilo (a), baixa = subcondilar (b)” e “ramo ascendente”). Nas fraturas da cabeça do côndilo, a linha de fratura pode percorrer dentro da cápsula da articulação temporomandibular (ATM), mas, frequentemente, as fraturas da cabeça condilar têm um componente extracapsular. Algumas fraturas da cabeça do côndilo dividem a cabeça sagitalmente, onde uma porção permanece intacta com o resto do ramo. As fraturas subcondilares estão localizadas abaixo do côndilo e podem ser classificadas em alta (pescoço do côndilo) e fraturas subcondilares baixas. 198 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática As fraturas subcondilares estão localizadas na base do processo condilar no nível, ou abaixo, da chanfradura ou incisura sigmoide. As fraturas abaixo da incisura sigmoide são as fraturas do ramo ascendente mandibular. Vários padrões de deslocamento e luxação do fragmento proximal são possíveis. As fraturas condilares e subcondilares são geralmente fraturas fechadas. As fraturas do processo coronoide são raras e podem ocorrer sem envolvimento do processo condilar. Fraturas isoladas ocorrem em combinação com fraturas zigomáticas ou do arco zigomático, e os tipos marginal, submarginal e submuscular têm sido descritos. As fraturas coronoides podem ser uma porção de uma fratura cominutiva do ângulo e ramo. 2.3.2. Imagem Para o planejamento do tratamento, são avaliados no pré-operatório a localização anatômica, a cominuição da fratura, o grau de deslocamento e a luxação. O padrão mínimo exigido é uma radiografia simples em dois planos apropriados, por exemplo, projeções em PA, como a vista de Towne, lateral oblíqua, e radiografias panorâmicas (OPTs). As fraturas da cabeça do côndilo geralmente não são vistas em raios-x padrão. Tomografia computadorizada (TC) ou tomografia de feixe cônico nos planos axial, sagital e coronal permite uma avaliação mais detalhada dos componentes da fratura e são considerados o padrão-ouro de diagnóstico pré-operatório (Fig. 2.3-2a-b, Fig. 2.3-3). Em muitos centros, as fraturas da cabeça do côndilo e as fraturas do processo coronoide são tratadas de maneira não-cirúrgica, embora resultados promissores foram relatados para tratamento cirúrgico de fraturas da cabeça condilar. O pescoço do côndilo, fraturas subcondilares, e fraturas do ramo ascendente podem ser tratadas não cirurgicamente, ou cirurgicamente, por redução aberta e fixação. 199 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 2.3-2a-b – A tomografia computadorizada permite uma avaliação detalhada dos componentes da fratura. a – Vista coronal. b – Vista axial. Fig. 2.3-3 – Raio-x simples, como a panorâmica, é o padrão mínimo para a avaliação pré-operatória. A decisão a favor, ou contra a redução aberta, depende dos seguintes fatores: • Condição do paciente (ou seja, lesão na coluna cervical) • Conformidade do paciente • Comprometimento funcional (má oclusão, abertura limitada da boca) • Fraturas concomitantes da mandíbula (corpo e sínfise/parasínfise, côndilo bilateral) ou terço médio da face (especialmente fraturas panfaciais) 200 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática • Luxação da cabeça condilar • Grau de deslocamento e contato ósseo na interface da fratura • Condição da dentição 2.3.3. Tratamento não-cirúrgico A conduta não-cirúrgica (também chamada de tratamento conservador ou redução fechada) ainda é amplamente praticada. Para a maioria dos padrões de fratura pediátrica, para fraturas não deslocadas, fraturas com ou sem pequenas alterações funcionais, e fraturas da cabeça condilar, excelentes resultados a longo prazo podem ser obtidos com o tratamento não-cirúrgico.A conduta não-cirúrgica pode significar nenhum tratamento, observação, e principalmente um período com dieta leve ou suave. Pode ser indicada para pacientes com fraturas não deslocadas, ou levemente deslocadas, na região condilar sem comprometimento funcional significativo. O tratamento não-cirúrgico também pode incluir o bloqueio maxilo-mandibular (BMM) por um curto período. Isto pode ser alcançado com dispositivos dentários como barras em arco, amarrias de arame, braquetes, ou dispositivos ancorados no osso [ganchos e parafusos de bloqueio intermaxilar (BMM)]. Para BMM, os elásticos são amplamente utilizados, normalmente por um curto período de até duas semanas. Esse tipo de tratamento não-cirúrgico é indicado para pacientes com problemas funcionas, dor, alteração da oclusão e fraturas deslocadas. O BMM é mais amplamente realizado com barras em arco, mas também pode ser executado com dois mini-ganchos transmucosos de aço inoxidável, sendo cada um destes fixado com um parafuso de osso, ou dois parafusos BMM ancorados na região mediana anterior da mandíbula e maxila (Fig. 2.3-4). As barras em arco permitem o BMM em um contato múltiplo de interdentação. O BMM estabelecido com pontos limitados de contato (por exemplo, parafusos BMM) pode criar uma mordida aberta fracionada. Os parafusos BMM e os dispositivos de fixação de ponto único não têm flexibilidade. Deve-se tomar cuidado para não danificar as raízes dos dentes. A fixação de dispositivos ancorados ao osso consome menos tempo para o paciente quando comparada à aplicação de barras em arco, já que a abertura da boca não é necessária. O BMM pode 201 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática ser difícil de executar se os pacientes são parcialmente ou totalmente edêntulos, apresentam deformidades de mordida preexistentes, ou quando eles não cooperam. Ao contrário dos dispositivos ancorados ao osso, o BMM com barras em arco permite maior flexibilidade com a terapia funcional pós-operatórias com elásticos de orientação, especialmente se o posicionamento excêntrico é indicado (Fig. 2.3-5). Fig. 2.3-4 – Bloqueio maxilo-mandibular (BMM) realizado com dois mini-ganchos transmucosos de aço inoxidável, sendo cada um destes fixado com um parafuso de osso, ancorados na região mediana anterior da mandíbula e maxila. Após o tratamento não-cirúrgico, a função da articulação temporomandibular (ATM) depende da regeneração da área condilar e adaptação dos tecidos. Em crianças com menos de 6-8 anos, o tratamento não-cirúrgico é considerado o tratamento de escolha para a maioria das fraturas da cabeça condilar e subcondilar devido ao alto potencial de regeneração do processo condilar em crescimento. Entretanto, em fraturas subcondilares severamente deslocadas a remodelação nem sempre é alcançada e anomalias de crescimento podem ocorrer com assimetria facial. 202 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 2.3-5 – BMM com barras em arco e elásticos de orientação permite maior flexibilidade durante a terapia funcional pós-operatória, especialmente se o posicionamento excêntrico é indicado para corrigir o desvio da mandíbula. 2.3.4. Tratamento cirúrgico O tratamento cirúrgico das fraturas condilares deslocadas visa a redução anatômica e restauração da altura vertical do ramo mandibular ascendente para restabelecer a oclusão pré-lesão e a função adequada da ATM. As lesões na área da ATM geralmente incluem envolvimento de tecidos moles com ruptura da cápsula e ligamentos, e deslocamento ou ruptura do disco. Essas lesões de tecidos moles geralmente não são cirurgicamente abordadas, embora a exposição e redução anatômica dos ossos pode permitir o reposicionamento de tecidos moles lacerados na área da ATM. Resultados funcionais superiores são relatados após o tratamento cirúrgico, quando comparado com o tratamento não-cirúrgico, para fraturas com luxação da cabeça condilar e fraturas deslocadas com comprometimento funcional, como má oclusão, e deformidade por mordida aberta devido ao encurtamento da altura do ramo mandibular. 203 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 2.3.5. Abordagem cirúrgica A redução aberta pode ser realizada por via transcutânea (Fig. 2.3-6a-b) e abordagens transorais. As abordagens endoscopicamente assistidas também são possíveis. As abordagens coronais também têm sido usadas. Fig. 2.3-6a-b – Diferentes abordagens externas são possíveis: 1 – Abordagem pré-auricular 2 – Abordagem transparótida 3 – Abordagem retromandibular 4 – Abordagem submandibular 5 – Abordagem retroauricular 2.3.6. Técnicas cirúrgicas As condições biomecânicas na área condilar requerem esforço, e devido às dimensões reduzidas, o osso só pode apoiar-se em uma base limitada. Atualmente, a osteossíntese é tipicamente realizada com placas e parafusos. Recomenda-se duas miniplacas. Uma placa mais forte, como uma placa de fratura universal, também pode ser usada. Nos casos em que a anatomia só permite a colocação de uma miniplaca, deve-se utilizar miniplacas de 204 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática mandíbula mais fortes. Um mínimo de dois parafusos precisam estar ancorados no fragmento condilar proximal para permitir estabilidade rotacional. A fixação do lag screw nas fraturas da área condilar ainda não é aceita como um método rotineiro de tratamento. Na maioria das vezes, a redução aberta e a fixação interna (RAFI) das fraturas da cabeça condilar é a única opção cirúrgica porque normalmente não existe espaço suficiente para a colocação da placa. A distração intraoperatória da área da ATM por pressão abaixo dos molares posteriores facilita a localização do fragmento proximal e a redução anatômica. Portanto, um paciente não deve estar sob BMM no início da cirurgia, mas após abordagem e redução de fragmento. Um fio pode ser inserido temporariamente no ângulo para puxar a mandíbula inferiormente para distrair a fratura. As miniplacas 2,0, ou placas correspondentes do sistema Matrix Mandible devem ser firmemente ancoradas com dois parafusos em cada lado da fratura para a osteossíntese. Para fixação da miniplaca no osso cortical forte, ao longo da borda posterior do ramo ascendente mandibular, recomenda-se a fixação com parafuso bicortical. Como a área subcondilar é um local que exige esforço mecânico, duas miniplacas permitem maior estabilidade e segurança (Fig. 2.3-7a-c). Fig. 2.3-7a-c a – Duas miniplacas (2,0 e 1,5) devem ser ancoradas seguramente com dois parafusos em cada lado da fratura. Como a área subcondilar é um local que exige esforço mecânico, duas miniplacas permitem maior estabilidade e segurança. b-c – Fixação com implantes específicos para região subcondilar. 205 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Alternativamente, pode-se usar placas condilares com formato anatômico. Quando duas placas podem ser usadas para osteossíntese, a redução anatômica precisa é facilitada por uma primeira placa inserida perto da chanfradura sigmoide. A fixação inicial com apenas dois parafusos posiciona os segmentos da fratura. Isso facilita a colocação precisa de uma segunda placa (idealmente mais rígida) ao longo da borda posterior, especialmente em fraturas severamente deslocadas. Se o tamanho da mandíbula permitir a colocação de uma placa mais forte, como uma placa de fratura universal, isto pode ser usado para aumentar a estabilidade (Fig. 2.3-8a-b). Fig. 2.3-8a-b - Se o tamanho da mandíbula permitir, uma placa mais forte (placa de fratura universal) pode ser usadapara aumentar a estabilidade. 206 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática De preferência, uma miniplaca 2,0 de não compressão de 4 orifícios com espaço (placa de banda de tensão) é colocada ao longo da borda posterior. As miniplacas do sistema 2,0 ou 1,5, ou placas correspondentes do sistema Matrix podem ser usadas na área da incisura sigmoide (consulte Fig. 2.3-7a-c). As placas mais rígidas, como as placas de mandíbula 2,0, placas de fratura universal, ou placas correspondentes do sistema Matrix Mandible podem ser difíceis de serem colocadas em uma abordagem endoscopicamente assistida. O dobramento preciso de placas mais fortes nessas condições nem sempre é possível, e o deslocamento ou o desalinhamento da fratura pode acontecer ao apertar os parafusos. Para osteossíntese transoral, brocas anguladas e chaves de fenda com um dispositivo de retenção de parafuso facilitam a inserção do primeiro parafuso junto a placa. A inserção transbucal dos parafusos pode ser realizada sem uma chave de fenda angulada. As abordagens transorais endoscopicamente assistidas, com alcance angulado, permitem o controle preciso da redução anatômica em áreas de visibilidade limitada. As fraturas do ramo ascendente são tratadas de acordo com os requisitos biomecânicos associados ao tipo de fratura (Fig. 2.3-9). As fraturas multifragmentárias são tipicamente tratados com osteossíntese load-bearing, se necessário, após simplificação com miniplacas. A função pós-operatória imediata sem BMM é alcançada após redução anatômica e osteossíntese adequada das fraturas subcondilares. Alguns cirurgiões preferem um curto período de BMM com elásticos para permitir que o tecido mole e a articulação descansem (até 7 dias). Depois disto, utiliza-se elásticos de orientação que são geralmente elásticos de uso noturno. Este tratamento é propositadamente mais conservador, mas pode ocasionar alguns problemas, especialmente quando as fraturas do terço médio da face estão presentes. 207 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 2.3.7. Tratamento pós-operatório A má oclusão e a função comprometida da ATM podem ocorrer em fraturas da área condilar mesmo após o tratamento. Para avaliar o resultado do tratamento e para corrigir quaisquer resultados indesejados, o acompanhamento dos pacientes é obrigatório, até que estes retornem para a função quase completa. Fig. 2.3-9 – Fratura do ramo ascendente estabilizada com uma miniplaca 2,0 posteriormente e uma miniplaca 1,5 colocada anteriormente. Problemas funcionais temporários ou distúrbios da oclusão são normalmente tratados com elásticos de orientação, ambos após a conduta aberta ou não-cirúrgica. Para alcançar resultados funcionais adequados, com abertura bucal superior a 40 mm, uma terapia funcional prolongada pode ser necessária. Isso vai evitar desvio e protrusão bilateral, principalmente após a conduta não-cirúrgica. Além do uso de elásticos de orientação, a terapia funcional pode envolver fisioterapia ou o uso de aparelhos ortodônticos. Quando o tratamento funcional é ofertado, resultados excelentes também podem ser alcançados em fraturas severamente deslocadas tratadas não-cirurgicamente. Entretanto, o tratamento funcional com aparelhos ortodônticos (ou seja, um ativador) para a reabilitação é demorado e caro, podendo levar até 1 ano. Portanto, só pode ser utilizado em pacientes que cooperam e aqueles que podem custear 208 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática tal tratamento. Se as complicações após tratamento cirúrgico levarem a resultados pós- operatórios insatisfatórios, o tratamento funcional pode ser realizado até certo ponto. 2.3.8. Complicações e erros As complicações cirúrgicas, como a lesão do nervo facial (especialmente o ramo temporal nas incisões pré-auriculares e o ramo marginal nas incisões submandibulares) ou cicatrizes visíveis, podem ocorrer quando a redução aberta é realizada por abordagens transcutâneas. Para minimizar o risco destas complicações, desenvolveu-se as técnicas endoscopicamente assistidas usando incisões transorais limitadas. O tratamento cirúrgico das fraturas condilares continua exigindo esforço técnico. O tipo de fratura influencia a dificuldade da redução. Em fraturas severamente deslocados e medialmente deslocadas, a redução aberta pode ser um desafio e o posicionamento anatômico do fragmento condilar nem sempre é possível. É importante detectar a posição da cabeça do côndilo e as zonas de cominuição nas imagens pré-operatórias, para permitir uma redução adequada, com uma abordagem específica ou com a fixação de placa, minimizando assim surpresas intra operativas. Devido as forças mecânicas intensas na área do processo condilar, insucesso na osteossíntese devido a fraturas por fadiga das placas, ou afrouxamento dos parafusos, ocorrem em 5 a 10% dos casos de fraturas subcondilares (Fig. 2.3-10a-b), principalmente quando se realiza fixação limitada com placas instáveis. Para evitar micromovimento no local da fratura, recomenda-se redução precisa e osteossíntese com duas placas. A necrose avascular da cabeça condilar é raramente vista, talvez pela remoção excessiva de tecidos moles após o tratamento cirúrgico. Para evitar isto, é recomendável sempre deixar o músculo pterigoideo lateral anexado. Após o tratamento não-cirúrgico ou cirúrgico, a função da ATM pode ser comprometida a longo prazo devido o formato anormal das cabeças condilares, o encurtamento da altura do ramo mandibular, ou anomalias de crescimento com assimetria facial. A mobilidade limitada da ATM de um processo condilar desarranjado pode levar à luxação funcional do côndilo contralateral na abertura bucal com dor crônica na ATM. 209 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 2.3-10a-b – a – Raio-x mostrando uma fratura condilar bilateral. b – Insucesso na osteossíntese com miniplaca, com placas fracas no terço médio da face em ambas áreas subcondilares. Complicações nos tecidos moles, como formação de cicatrizes, distúrbios internos, dor, ou distúrbios funcionais, podem ser observados após a conduta cirúrgica e não- cirúrgica. 210 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 2.4. Fraturas em osso com qualidade reduzida 2.4.1. Introdução O osso de qualidade (e quantidade) reduzidas pode ser resultado de atrofia, infecção, cominuição e defeitos. O denominador comum nessas fraturas é a incapacidade de efetivamente usar qualquer forma de load-sharing, pois o osso é inadequado em qualidade e quantidade. Fraturas mandibulares atróficas Nessas fraturas, o processo alveolar e muitas vezes o osso basilar foram perdidos. Isto é geralmente resultado de um edentulismo a longo prazo, embora a atrofia e o edentulismo sejam condições diferentes, pois o edêntulo não significa necessariamente atrófico. O osso restante é acentuadamente diminuído em altura e largura, e, frequentemente, é inteiramente cortical (e quebradiço) por natureza. O grau mais alto de atrofia é visto tipicamente no corpo lateral da mandíbula, uma área sem grandes anexos musculares. Não existe suprimento sanguíneo endosteal efetivo. O vaso responsável pela nutrição (artéria alveolar inferior) geralmente está fora do osso. Fraturas mandibulares multifragmentárias Esse tipo de fratura geralmente surge de trauma de alta velocidade, trauma intensamente brusco, ou ferimentos por mísseis, e resulta em fragmentação do osso em vários pedaços. Os fragmentos são frequentemente localizados em feridas abertas. Fraturas mandibularesdefeituosas Essas fraturas são caracterizadas pela perda de substância óssea no local da fratura, criando uma fenda de tamanho variável com perda de suporte ósseo. Esta perda de substância pode ser secundária à perda de um dente, avulsão de um fragmento 211 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática cominutivo, sequestro ósseo, ou após uma osteotomia para remoção do dente. Uma patologia associada, como um cisto ou metástase, também pode resultar em um defeito. Fraturas mandibulares infeccionadas Quando as fraturas mandibulares abertas não são tratadas e se o tratamento está atrasado, é inevitável a infecção do local da fratura e/ou dos tecidos moles circundantes. Inicialmente, o processo infeccioso é caracterizado por drenagem purulenta; depois, envolvimento de osso difuso com sequestro ósseo. Todas essas fraturas ósseas com qualidade reduzida são frequentemente complicadas por estarem abertas e deslocadas. Elas são algumas das fraturas mais difíceis de tratar e historicamente estavam sujeitas a uma alta taxa de complicações. 2.4.2. Imagem A imagem em dois planos é obrigatória para avaliar as fraturas. As radiografias panorâmicas são geralmente necessárias para delimitar essas fraturas. Embora muitas vezes elas sejam inadequadas para o diagnóstico quando usadas sozinhas, ainda são necessárias para fornecer uma "imagem geral". As tomografias computadorizadas com cortes axial e coronal mostram adequadamente as fraturas individuais em relação à cominuição, splaying, inclinação condilar, e assim por diante. Elas também são úteis para julgar a simetria. 2.4.3. Abordagens cirúrgicas As fraturas ósseas de qualidade reduzida são geralmente abordadas transfacialmente e requerem ampla exposição para visualizar e concluir uma fixação estável. Embora as abordagens transorais possam ser usadas às vezes, a exposição pode ser aquém do ideal, comprometendo a redução aberta final e a fixação interna (RAFI). As abordagens transorais podem danificar o nervo e artéria alveolar inferior, pois estes podem estar em tecidos moles na superfície da mandíbula. Além disso, as placas longas de reconstrução 212 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática necessárias para a fixação load-bearing são difíceis de serem colocadas transoralmente. Nestes casos, o cirurgião deve estar preparado para complementar a exposição com uma abordagem transcutânea. 2.4.4. Técnicas de osteossíntese A fixação interna rígida (RIF) tem sido mais eficaz nessas lesões complexas do que em todos os outros tipos de fraturas mandibulares, tanto melhorando os resultados, como encurtando o percurso do tratamento. No passado, as técnicas fechadas com o bloqueio maxilo-mandibular (BMM) pesado e/ou fixadores externos que frequentemente requerem períodos prolongados de imobilização da maxila e mandíbula, eram o padrão para essas fraturas. Resultavam, frequentemente, em não-união, desunião, sequestro ósseo e trismo. O RIF contemporâneo na forma de osteossíntese load-bearing é o tratamento indicado, pois não requer enxerto ósseo autógeno medular particulado em áreas de defeito ósseo ou de capacidade de cicatrização diminuída. As placas de reconstrução de bloqueio modernas ancoradas por pelo menos três parafusos em ambos os lados a fratura, ou defeito, permite a cicatrização sem intercorrências. Se complicações acontecerem na ferida, o fixador interno estabiliza os segmentos durante desbridamentos adicionais, enxertos, etc., com a paciente em função. 2.4.5. Tratamento 2.4.5.1. Fraturas mandibulares atróficas Ao longo dos anos, diversos tratamentos foram utilizados na conduta de fraturas atróficas da mandíbula. A "negligência hábil" significa remover as próteses dentárias do paciente e impor uma dieta leve para fraturas não deslocadas. A redução fechada com próteses dentárias ou splints, estabilizados com a suspensão e fios circulares mandibulares foram utilizados para fixação monomaxilar e maxilo-mandibular. Esses aparelhos são pesados, dolorosos e sujeitos a infecção. Os resultados não são previsíveis. 213 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Os fixadores externos foram usados com graus variados de sucesso. A RAFI transoral e transcutânea com fios, com e sem BMM, foram utilizados com sucesso limitado, com a RAFI de malha de titânio ou aço inoxidável e parafusos. Os k-wires, tanto intramedulares, quanto na borda inferior, tiveram seus defensores. Recomendou-se a RAFI estabilizada com fio, e splints para suporte e para osteogênese. Com o advento de placas e parafusos, muitos cirurgiões tentaram a fixação com miniplacas por abordagens transoral e transcutânea. A experiência mostrou duas coisas: primeira, pacientes idosos enfermos não toleram bem o BMM. Eles sofrem muito e podem até morrer. Segunda, no tratamento dessas fraturas, deve-se fazer o que se sabe que funcionará, não o que se espera que funcione. Nesse sentido, o tratamento mais eficaz é um procedimento cirúrgico inicial definitivo. Atualmente, isto significa uma placa de reconstrução bem ancorada, se necessário, com enxerto ósseo autógeno medular particulado. Como a mandíbula atrófica diminuiu a vascularização, não há capacidade de load- sharing, que geralmente é frágil, e o dispositivo de fixação interna na forma de uma placa de reconstrução, ou na forma de um placa de reconstrução com travamento com parafusos colocados bicorticalmente, devem suportar a carga funcional (Fig. 2.4-1). O ângulo e sínfise normalmente fornecem os locais de inserção dos parafusos porque são nestes locais onde o osso é de melhor qualidade e geralmente de maior quantidade. A remoção periosteal desnecessária deve ser evitada. Os enxertos ósseos podem ser colocados primariamente ou secundariamente. O osso pode ser esponjoso, coletado da crista ilíaca ou da tíbia. Nenhuma forma de BMM é usado. As forças funcionais na mandíbula atrófica não devem ser subestimadas. A bifurcação óssea, que é a deformação que acontece no osso durante a função, causará rapidamente a falha por fadiga das miniplacas (Fig. 2.4-2a-b). São indicadas as placas de reconstrução ou placas de reconstrução com travamento com parafusos ancorados bicorticalmente. 214 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 2.4-1 – Uma placa de reconstrução (com ou sem travamento) com colocação de parafusos bicorticais (na maioria das vezes só é possível na região mentual e ângulo) deve suportar a carga funcional em uma mandíbula atrófica. Fig. 2.4-2a-b a – Fixação com miniplacas de fraturas bilaterais em uma mandíbula atrófica. b – Insucesso na fixação de miniplaca (fraturas nas placas em ambos os lados). 215 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática As mandíbulas atróficas fraturadas podem ser abordadas transoralmente com dificuldade por uma equipe experiente, mas a abordagem mais previsível é através de uma incisão transcutânea submandibular. As técnicas anestésicas devem usar relaxantes musculares para melhorar a redução, após isolamento e proteção dos ramos do nervo facial. As miniplacas podem ser úteis para fornecer estabilização temporária. Então, coloca-se uma placa de reconstrução load-bearing. Esta fixação pode ser maior em altura e circunferência do que o osso no local da fratura. Um enxerto ósseo específico é colocado em volta do defeito ósseo. 2.4.5.2. Fraturas mandibulares multifragmentárias As fraturas multifragmentárias da mandíbula são geralmente o resultado de um impacto significativo em uma área localizada, causando o despedaçamento do osso. A maioria são fraturasexpostas que são difíceis de tratar e tem uma alta taxa de complicação. O tratamento tradicional consiste em técnicas fechadas que foram projetadas para evitar fragmentos ósseos desvitalizados, que frequentemente levam a infecção e sequestro ósseo. Isso foi obtido com BMM, splints e fixadores externos. Acreditava-se que a RAFI deveria ser contraindicada. A conduta contemporânea envolve a fixação rígida dos dentes em oclusão adequada com barras em arco, fios e acrílico. Depois da redução, os fragmentos são pré-localizados com miniplacas, normalmente com parafusos colocados monocorticalmente, e/ou lag screws para posicionar os segmentos da fratura. Os anexos periosteais lingual são preservados. Toda a área de cominuição é então estendida com uma placa de reconstrução, fixada com parafusos bicorticalmente ancorados que completam uma osteossíntese load-bearing. Pelo menos três parafusos são colocados em cada lado da área de cominuição (Fig. 2.4-3a-c, Fig. 2.4-4a-b, Fig. 2.4-5a-b). Parafusos adicionais podem ser usados para retardar ou consertar os fragmentos menores da placa. Os pequenos fragmentos dentários sempre devem estar alinhados com uma barra em arco. Deve-se ter cuidado para evitar excesso de remoção periosteal, o que pode resultar em uma desvascularização e necrose. 216 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 2.4-3a-c a – Fratura cominutiva da área do ângulo e ramo mandibular. b – Adaptação primária dos fragmentos com miniplacas e parafusos posicionados monocorticalmente. c – Subsequente estabilização da área cominutiva com uma placa de reconstrução 2,4 e colocação de parafusos bicorticais. Fig. 2.4-4a-b a – Fratura multifragmentária no lado esquerdo do corpo da mandíbula. O nervo permanece intacto. b – Estabilização da fratura com duas miniplacas como banda de tensão (colocação de parafusos monocorticalmente) e uma placa de reconstrução para unir e estabilizar a área cominutiva. Os fragmentos dentários devem ser alinhados com uma barra em arco. 217 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 2.4-5a-b a – Fratura cominutiva na região mentual com deslocamento considerável de vários fragmentos, incluindo uma fratura subcondilar no lado esquerdo. b – Adaptação e estabilização dos fragmentos dentários com uma barra em arco. União e estabilização da área cominutiva com uma placa de reconstrução e pelo menos três parafusos na área não-fraturada do corpo. Pequenos fragmentos superiores são alinhados através da barra em arco. Os fragmentos suficientemente maiores também são fixados na placa. Fixação da fratura subcondilar com duas miniplacas. Os defeitos ósseos podem ser enxertados primariamente, conforme necessário, se for possível o fechamento com tecidos moles apropriados ao redor do enxerto ósseo. Obviamente, a abordagem preferida é a transcutânea com exposição suficientemente ampla para observar o alinhamento e a estabilização adequada dos fragmentos. Após a fixação load-bearing, o BMM é removido e o paciente tem função limitada. Esta forma de tratamento reduz drasticamente o percurso da cicatrização e melhora os resultados nessas fraturas complexas. Os fragmentos rigidamente fixos, embora desvitalizados pela remoção do periósteo, geralmente não sofrem sequestro ósseo. A manutenção da função minimiza o trismo decorrente de cicatrizes e a atrofia por desuso, que é observada após períodos prolongados de BMM. Essas fraturas não são adequadas para splints, fios ou miniplacas. A redução aberta e a fixação interna sem osteossíntese load-bearing, como a fixação de miniplaca, é imprevisível e geralmente leva à infecção e sequestro ósseo. 218 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 2.4.5.3. Fraturas mandibulares defeituosas As fraturas defeituosas resultam da perda de substância óssea devido a doença, lesão, desbridamento ou infecção. Nesses casos, o contato ósseo no local da fratura geralmente é inadequado para que a união ocorra. Como em outras fraturas complexas da mandíbula, a osteossíntese load-bearing é realizada, seguida do BMM em uma relação correta de oclusão. O acesso transfacial é tradicionalmente usado, mas as abordagens transorais para fraturas defeituosas anteriores ao primeiro molar podem ser efetivamente usadas para o RIF e enxerto. Uma placa de reconstrução ou placa de reconstrução com travamento é ancorado bicorticalmente com três parafusos de cada lado, bem longe da fratura e do defeito (Fig. 2.4-6a-c). Os defeitos menores são tipicamente enxertados com osso não vascularizado livre, com um retalho de tecido mole intacto e viável, desde que as condições do tecido mole permitam uma tensão livre e o fechamento completo da ferida. A qualidade dos tecidos moles não permite o enxerto ósseo primário, e os enxertos ósseos secundários são uma opção. A exposição temporária de uma placa de reconstrução não é um problema. Em defeitos ósseos maiores e em defeitos associados a má condição dos tecidos moles, bem como na combinação de ossos e tecidos moles defeituosos, como ferimentos por arma de fogo, é preferível o transplante de osso microvascular e de tecidos moles. 2.4.5.4. Fraturas mandibulares infeccionadas Historicamente, todas as fraturas expostas da mandíbula foram consideradas potencialmente infectadas se não forem tratadas dentro de 24 horas. De fato, as fraturas expostas foram tratadas com técnicas fechadas na forma de dispositivos BMM, splints e fixadores externos. Todos os dentes foram removidos dos locais de fratura e acreditava- se que a fixação interna deveria ser contraindicada. Se a fratura se tornava infectada, eram realizadas drenagem e sequestrectomia enquanto a oclusão era controlada com BMM. 219 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 2.4-6a-c a – Fratura multifragmentária defeituosa na região mentual. Fratura da cabeça condilar no lado esquerdo. b – Adaptação primária da zona de fratura multifragmentada através da BMM com barras em arco. c – Estabilização da zona de fratura com uma placa de reconstrução fixada com três parafusos em cada lado da área cominutiva. O fragmento (dentário) é fixado com miniplaca. A área defeituosa é preenchida com enxerto ósseo. A fratura da cabeça condilar é tratada não- cirurgicamente. À medida que o tratamento evoluiu, os antibióticos foram adicionados ao protocolo de tratamento, mas com pouco benefício. O desbridamento foi iniciado somente após evidência radiográfica de formação de sequestro ósseo e o tempo para a união foi calculado a partir do momento que a drenagem cessou. Se fosse necessário um enxerto ósseo, este era feito 3-6 meses após o cessamento da drenagem. A terapia moderna é baseada no princípio da AO que a fratura infectada é melhor tratada pela imobilização rígida dos fragmentos. Isso permite que as defesas do corpo eliminem a infecção e permitam a cicatrização. 220 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática O protocolo exige a incisão e a drenagem da infecção aguda, antibióticos e remoção de dentes envolvidos não preserváveis. Se o processo se tornar crônico, o BMM será realizado, a fratura é adequadamente exposta e desbridada, e a osteossíntese load-bearing é realizada (Fig. 2.4-7a-b). Fig. 2.4-7a-b a – Uma fratura agudamente infectada no ângulo mandibular. b – União da área infectada com uma placa de reconstrução. Pelo menos três parafusos são inseridos em cada lado, distantes da zona infectada. Se o tecido mole permitir, um enxerto ósseo esponjoso é colocado na zona defeituosa.Podem ser usados o acesso transoral para fraturas na região mentual ou o acesso transcutâneo. A fixação load-bearing é realizada com uma placa de reconstrução, ou com uma placa de reconstrução com travamento ancorada bicorticalmente com três ou quatro parafusos em ambos os lados, bem longe do local de fratura infectado. Os modelos de dobragem de alumínio facilitam bastante a dobragem da placa, a qual deve ser precisa para placas de reconstrução, para prevenir que o osso seja adaptado a uma placa contorcida inadequadamente. A dobragem da placa de reconstrução com travamento não necessita ser tão precisa, pois ela é uma verdadeira fixadora interna que não depende da interface placa-osso para estabilidade. Deve-se estar ciente da anatomia da área ao colocar parafusos. Evitar as raízes dentárias e os grupos neurovasculares do alveolar inferior. As complicações do tratamento não devem ser adicionadas as complicações da lesão. Se o tecido mole permitir, o enxerto ósseo autógeno medular 221 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática particulado pode ser colocado primariamente no defeito ósseo resultante. O BMM é removido e o paciente está autorizado a realizar as funções normais. Esse protocolo contemporâneo de fraturas infectadas diminuiu drasticamente o percurso do tratamento para esses pacientes. Se for bem sucedido, o que é na maioria das vezes, a cicatrização e a união ocorrem rapidamente. Quando não é, com drenagem contínua, perda do enxerto e posterior sequestro ósseo, o fixador interno permite a função mandibular e fornece uma plataforma para o futuro desbridamento e enxerto secundário. Este conceito tem sido usado com sucesso e apenas pequenas taxas de complicações foram relatadas. 2.4.5.5. Tratamento pré-operatório Os antibióticos baseados em cultura específica são indicados no pré-operatório, e estendem-se para o pós-operatório. Se usados a longo prazo, eles irão apenas atrasar, ao invés de impedir, o surgimento de uma infecção pós-operatório. Se a ferida estiver molhada ou potencialmente infectada, deve-se drenar. Isto raramente é necessário, mas é preferível por alguns cirurgiões (por vácuo ou simplesmente por um dreno). 2.4.5.6. Complicações e erros Essas fraturas complexas estão sujeitas a complicações como a não-união, má união, infecção, sequestro ósseo, perda de dentes e déficits neurossensoriais. O tratamento moderno com a osteossíntese load-bearing minimizou muitos deles. As complicações da osteossíntese load-bearing são geralmente relacionados à redução e/ou fixação inadequadas as quais são erros de julgamento ou técnica do operador. A redução adequada é facilitada por imagem e exposição adequadas. A aplicação de fixação adequada é geralmente governada pelo entendimento de que é raro ter muita fixação, mas é muito comum ter muito pouca. 222 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 2.5. Referências e leitura sugerida 223 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 224 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 225 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 3. Fraturas do terço médio da face 226 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 3.1. Fraturas inferiores do terço médio da face (Le Fort I e fraturas palatinas) 3.1.1. Interpretação As fraturas Le Fort I ou Guérin são fraturas centrais do terço médio da face, localizadas transversalmente acima dos ápices dentários, separando, normalmente em um bloco único, a maxila logo acima do processo alveolar juntamente com o palato duro e os processos pterigoides. A fratura ocorre horizontalmente, atravessando a base do seio maxilar e a borda inferior da abertura piriforme (Fig. 3.1-1a-b). As fraturas centrais do terço médio da face foram classificadas em três tipos por René Le Fort em 1901, referindo-se a impactos de baixa energia. Hoje, entretanto, esses padrões clássicos raramente são encontrados, já que muitas fraturas Le Fort são causadas por mecanismos de alta energia, frequentemente com cominuição e combinações de tipos de fratura. Geralmente, com lesões de alta energia e vetores de força oblíqua, a fratura é maior de um lado do que do outro. Fig. 3.1-1a-b – Fratura Le Fort I, localizada transversalmente acima dos ápices dentários e separando o processo alveolar, o palato duro, e os processos pterigoides. As fraturas palatinas medianas estão presentes em 8–15% das fraturas de Le Fort, ou elas podem fazer parte de lesões mais complexas. Elas geralmente seguem uma direção sagital ou parasagital, dividindo a maxila longitudinalmente próxima à linha média (Fig. 3.1-2a-b). Elas estão associadas à instabilidade rotacional dos segmentos dento-alveolar. 227 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática As fraturas palatinas geralmente terminam anteriormente entre os incisivos centrais, ou entre o incisivo lateral e o canino. Elas também podem envolver a tuberosidade da maxila, separando um segmento dento-alveolar contendo os dentes molares com deslocamento superior, lateral e posterior. Fig. 3.1-2a-b – Fratura Le Fort I associada com uma fratura sagital palatina. A maxila é dividida longitudinalmente perto da linha média. 3.1.2. Imagem O diagnóstico deve ser inicialmente clínico, auxiliado por estudos de imagem. As fraturas maxilares são confirmadas por tomografias computadorizadas nos cortes axial, coronal e sagital. As radiografias simples são de menor valor. As tomografias computadorizadas fornecem imagens detalhadas dos padrões de fratura, grau de cominuição, ou perda óssea (Fig. 3.1-3a-b). A reconstrução tridimensional fornece informações sobre o grau de deslocamento do terço médio da face em relação à mandíbula e às órbitas. Deve-se tomar cuidado especial ao diagnosticar fraturas em pacientes edêntulos ou com prótese dentária. Uma prótese superior pode atuar como um splint, direcionando as forças de fratura à diferentes áreas do esqueleto do terço médio da face. 228 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 3.1-3a-b – Avaliação pré-operativa a – Raio-x (vista de Waters) mostrando a fratura Le Fort I. b – Tomografia computadorizada (vista coronal) mostrando uma fratura Le Fort I com mais detalhes. Se não for feito um diagnóstico clínico e de imagem adequado, as fraturas Le Fort I com extensão à borda infraorbital podem ser diagnosticadas incorretamente como Le Fort II, especialmente em radiografias simples. O diagnóstico diferencial depende da presença ou ausência de fraturas na região frontonasal. As fraturas mandibulares coexistentes, principalmente as fraturas subcondilares, também devem ser excluídas. 3.1.3. Abordagens A abordagem padrão das fraturas Le Fort I é através de uma incisão vestibular transoral. Essa abordagem é rápida e simples, com poucas complicações, e oferece o benefício adicional de não deixar cicatriz visível. Para os tipos de fraturas irregulares com linhas de fratura mais altas, uma abordagem facial de “desenluvamento” (degloving) também pode ser apropriada. 229 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática A incisão é tipicamente na mucosa alveolar de 5-10 mm acima da gengiva inserida ao redor do arco maxilar, deixando umaberta e a fixação interna ........................ 333 4.1.5. Função e técnica operativa do seio ..................................................................................... 335 4.1.6. Técnicas de osteossíntese ................................................................................................... 339 4.1.7. Tratamento pré-operatório e pós-operatório ....................................................................... 341 4.1.8. Complicações e erros .......................................................................................................... 342 4.2. Fraturas laterais da base do crânio .............................................................................................. 344 4.2.1. Introdução ........................................................................................................................... 344 4.2.2. Interpretações ..................................................................................................................... 344 4.2.2.1. Anatomia da lateral da base do crânio ....................................................................... 344 4.2.2.2. Demografia da lesão do osso temporal ...................................................................... 346 4.2.2.3. Lesões associadas ...................................................................................................... 347 4.2.2.4. Classificação das fraturas do osso temporal............................................................... 348 4.2.3. Imagem ............................................................................................................................... 351 4.2.4. Estratégia de tratamento e abordagens ................................................................................ 353 4.2.5. Tratamento pré-operatório e pós-operatório ....................................................................... 356 4.2.6. Conclusão ........................................................................................................................... 356 4.3. Fraturas da abóbada craniana ..................................................................................................... 358 4.3.1. Anatomia, padrões de fratura, e fisiopatologia ................................................................... 358 4.3.2. Imagem ............................................................................................................................... 360 13 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 4.3.3. Estratégias de tratamento .................................................................................................... 361 4.3.4. Sintomas que exigem operação .......................................................................................... 362 4.3.5. Abordagens ......................................................................................................................... 363 4.3.6. Técnica cirúrgica incluindo a redução ................................................................................ 363 4.3.7. Tipos de fixação.................................................................................................................. 365 4.3.8. Efeitos colaterais do tratamento e complicações ................................................................ 366 4.3.9. Conclusão ........................................................................................................................... 368 4.4. Referências e leitura sugerida ....................................................................................................... 369 5. Fraturas panfaciais ........................................................................................................................ 372 5.1. Fraturas panfaciais ........................................................................................................................ 373 5.1.1. Introdução ........................................................................................................................... 373 5.1.2. Anatomia e interpretação .................................................................................................... 373 5.1.3. Ordem de tratamento .......................................................................................................... 374 5.1.4. Classificação das abordagens (anterior e posterior) ............................................................ 375 5.1.5. Subunidades faciais e energia do trauma ............................................................................ 376 5.1.6. A importância de primeiramente excluir outras lesões na cabeça e pescoço ...................... 376 5.1.7. A oclusão ............................................................................................................................ 377 5.1.8. A maxila, o palato duro, e fraturas alveolares da maxila e mandíbula ............................... 377 5.1.9. Fotografias pré-lesão .......................................................................................................... 379 5.1.10. Porção superior da face: a unidade craniana ....................................................................... 379 5.1.11. Porção superior da face: a unidade do terço médio da face ................................................ 380 5.1.12. Porção inferior da face ........................................................................................................ 384 5.1.13. União da porção superior da face à inferior ........................................................................ 387 5.1.14. Pacientes edêntulos com fraturas panfaciais ....................................................................... 388 5.1.15. Considerações para os tecidos moles .................................................................................. 389 5.2. Referências e leitura sugerida ....................................................................................................... 393 6. Fraturas no esqueleto em crescimento ......................................................................................... 394 6.1. Fraturas no esqueleto em crescimento ......................................................................................... 395 6.1.1. Introdução ........................................................................................................................... 395 6.1.2. Crescimento facial e trauma ............................................................................................... 396 6.1.3. Fixação rígida ..................................................................................................................... 396 6.1.4. Bloqueio maxilo-mandibular (BMM) ................................................................................. 397 6.1.5. Abordagens cirúrgicas ........................................................................................................ 398 6.1.6. Reconstrução cirúrgica ....................................................................................................... 399 6.1.6.1. Fraturas dento-alveolar .............................................................................................. 399 6.1.6.2. Fraturas da mandíbula ................................................................................................ 399 6.1.6.3. Fraturas do terço médio da face ................................................................................. 400 6.1.6.4. Fraturas orbitais ......................................................................................................... 402 6.1.6.5. Fraturas nasais ........................................................................................................... 404 6.1.7. Conclusão ..........................................................................................................................."rebordo" para facilitar a sutura. Uma ponte central intacta de mucosa pode ser preservada para o alinhamento. Uma alternativa é a incisão na crista em pacientes edêntulos. Antes da incisão é aconselhável a anestesia local infiltrativa com adrenalina diluída, o que reduz o sangramento consideravelmente (Fig. 3.1-4). Raramente, as fraturas são intraoralmente ou extraoralmente abertas e podem ser tratadas através das lacerações. As lacerações nunca devem ser estendidas em preferência às incisões transorais. Uma dissecção subperiosteal torna possível identificar os quatro pilares verticais anteriores do terço médio da face, que são cirurgicamente acessíveis. Para evitar lesões no nervo infraorbital deve-se realizar primeiro a dissecção cuidadosa medial e lateral a este, então, aproxima-se o nervo entre o caminho que agora está completamente dissecado. Se as fraturas alveolares segmentares também estiverem presentes, cuidados especiais devem ser tomados para manter o suprimento sanguíneo para os segmentos lesionados. O fechamento da abordagem vestibular pode ser feito com suturas reabsorvível ou não-reabsorvíveis. Identifique e reposicione a base alar com uma sutura (Fig. 3.1-5a-b) para evitar a posição lateral das bases alares (a “técnica da plicatura da base alar”). 230 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 3.1-4 – Incisão vestibular superior para exposição de uma fratura Le Fort. A incisão é normalmente longa e alta lateralmente. Fig. 3.1-5a-b – Técnica da plicatura da base alar. 3.1.4. Técnica de osteossíntese O objetivo do tratamento nas fraturas Le Fort I é o reposicionamento correto dos ossos fraturados para restaurar sua relação com a mandíbula, a base do crânio, e o restante das estruturas do terço médio da face. Uma reconstrução maxilar bem-sucedida deve envolver a recuperação de continuidade, a altura alveolar, a largura e a forma arqueada da maxila, preservação do osso, e restauração do contorno facial. A osteossíntese com placas e parafusos oferece a vantagem de uma reconstrução precisa por meio de uma fixação estável tridimensional e melhores chances de sobrevivência dos enxertos ósseos. Além disto, o uso de placas e parafusos para o tratamento de fraturas maxilares tornaram o bloqueio maxilo-mandibular (BMM) pós-operatório desnecessário, reduzindo tanto os custos de cuidados quanto o tempo de recuperação. 231 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática A redução deve ser realizada antes da fixação, com a ajuda de pinças de redução como a pinça de Rowe, de amarrias estáveis colocadas através de um orifício próximo ao osso denso da espinha nasal anterior, ou simplesmente aplicando barras em arco e reposicionando os elementos fraturados por tração com elásticos (Fig. 3.1-6). As fraturas incompletas ou greenstick (página 114) podem exigir uma osteotomia, se a redução não for possível. Se o tratamento for atrasado, osteotomias podem ser necessárias. As fraturas impactadas podem parecer relativamente estáveis e mostrar deformidade mínimas. Contudo, uma vez desimpactada ou reduzida, elas podem ser muito instáveis e requerem osteossíntese extensa e enxerto ósseo. Fig. 3.1-6 – Reposicionamento de uma fratura Le Fort I com a ajuda de pinças de redução, aqui mostrada com a pinça Rowe. Antes da fixação interna rígida, a oclusão dental deve ser restabelecida e mantida utilizando o BMM. A oclusão inapropriada durante a cirurgia levará a uma má oclusão no pós-operatório, mais comumente uma mordida aberta anterior. A fragmentação 232 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática unilateral e a perda de comprimento podem levar a uma mordida aberta unilateral. Em pacientes edêntulos e pacientes com uma dentição reduzida, na qual uma relação oclusal não pode ser restabelecida, a prótese dentária do paciente ou um splint Gunning pode ser usado para o reposicionamento correto da mandíbula. Em caso de fragmentação do pilar, os pilares ósseos não danificados devem ser usados como um ponto de referência anatômico estável para a manutenção da altura vertical e fixação. A fixação interna é obtida aplicando miniplacas de 1,5 ou 2,0, ou placas correspondentes do sistema Matrix Midface, e parafusos nos pilares ósseos medial e lateral (paranasal e zigomático-maxilar). Estes pilares têm a maior densidade óssea e, portanto, fornecem estoque ósseo adequado para ancoragem estável do parafuso. Se os parafusos estiverem ancorados em áreas de baixa densidade, existe um risco de afrouxamento destes, seguido de fraturas de placa e subsequente colapso do terço médio da face. A osteossíntese é realizada principalmente com placas em forma de L ou Y, sempre colocando dois parafusos em ambos os lados da linha de fratura para evitar instabilidade rotacional dos segmentos da fratura (Fig. 3.1-7). As placas devem ser cuidadosamente adaptadas às superfícies ósseas a fim de manter a forma adequada e dimensões da maxila, para evitar forças como tração no osso subjacente. A adaptação precisa evita deslocação secundária e a pressão mecânica excessiva no local dos parafusos, o que pode levar a microfraturas no osso. Especialmente se as linhas de fratura forem baixas, deve-se ter cuidado ao colocar os parafusos no espaço entre raízes dentárias. A fixação das fraturas palatinas objetiva restaurar a largura e a projeção do arco maxilar. A fixação convencional de fraturas palatinas envolve a colocação de placas longas e parafusos anteriormente sob a abertura piriforme e a espinha nasal anterior, e submucosamente na abóbada palatina. Esta última estabiliza a largura palatina posterior e previne a rotação dos segmentos dento-alveolares. A colocação de uma placa no palato duro posterior, após a redução, controla a largura do palato posteriormente. Esta placa pode ser colocada transmucosamente se uma miniplaca de travamento é usada para evitar a compressão da mucosa. Realiza-se a fixação adicional dos pilares ósseos anterior e lateral (Fig. 3.1-8a-b). 233 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig. 3.1-7 – Estabilização com miniplacas em forma de L (1,5 ou 2,0). Fixação com pelo menos dois parafusos em cada lado da linha de fratura para evitar instabilidade rotacional. BMM é mantido apenas durante a cirurgia. Fig. 3.1-8a-b a – Estabilização da fratura Le Fort como descrito na Fig. 3.1-7. A fratura sagital adicional é estabilizada subnasalmente com uma miniplaca 1,5 ou 2,0. b – Fixação de uma fratura palatina com uma miniplaca. 234 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Na presença de cominuição, placas mais longas devem ser usadas para unir as zonas fragmentadas com um mínimo de dois parafusos em ambos os lados da zona cominutiva. Se possível, os fragmentos ósseos devem ser preservados e reposicionados. Se os fragmentos são pequenos demais para serem fixados com placas e parafusos, as áreas cominutivas devem ser enxertadas com osso (Fig. 3.1-9a-c). O mesmo se aplica para defeitos nos pilares ósseos. Os enxertos ósseos devem ser fixados com lag screws ou placas e parafusos separados. Os enxertos ósseos instáveis "flutuantes" devem ser evitados. Se as placas são usadas para unir zonas de defeitos ósseos sem a reconstrução de pilares ósseos, as forças mastigatórias podem levar à fadiga, ruptura das placas, e deslocamento. Fig. 3.1-9a-c a – Fratura Le Fort I com cominuição em ambos os lados. b – Estabilização com placas longas unindo as áreas de cominuição. Reconstrução e estabilização da parede anterior do seio407 14 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 6.1.8. Referências e leitura sugerida .......................................................................................... 408 7. Técnicas de fixação de osteotomias padrão do esqueleto facial (cirurgia ortognática)............ 410 7.1. Interpretação, diagnostico e plano de tratamento ...................................................................... 411 7.1.1. Introdução ........................................................................................................................... 411 7.1.2. Indicações ........................................................................................................................... 412 7.1.3. Exame clínico e diagnóstico ............................................................................................... 413 7.1.3.1. Frontal ........................................................................................................................ 413 7.1.3.2. Perfil .......................................................................................................................... 417 7.1.3.3. Articulações temporomandibulares e função ............................................................. 418 7.1.3.4. Exame de raio-X ........................................................................................................ 418 7.1.3.5. Modelos ..................................................................................................................... 420 7.1.4. Classificação ....................................................................................................................... 421 7.1.4.1. Excesso mandibular ................................................................................................... 421 7.1.4.2. Deficiência mandibular .............................................................................................. 421 7.1.4.3. Assimetria mandibular ............................................................................................... 422 7.1.4.4. Discrepâncias verticais da mandíbula ........................................................................ 422 7.1.4.5. Hiperplasia maxilar .................................................................................................... 423 7.1.4.6. Apertognatia (mordida aberta) ................................................................................... 423 7.1.4.7. Hipoplasia maxilar ..................................................................................................... 424 7.1.5. Plano de tratamento ............................................................................................................ 427 7.1.5.1. Considerações gerais .................................................................................................. 427 7.1.5.2. Cirurgia ortognática versus distração osteogênica ..................................................... 429 7.1.5.3. Estabilidade ................................................................................................................ 430 7.1.5.4. Tratamento ................................................................................................................. 431 7.1.5.5. Morbidade dos procedimentos cirúrgicos .................................................................. 432 15 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1. Aspectos Gerais 1.1. Introdução 1.1.1. A missão da fundação AO A fundação AO é uma organização sem fins lucrativos, medicamente orientada e liderada por um grupo internacional de cirurgiões especializados no tratamento de trauma e desordens do sistema musculoesquelético. Foi fundada em 1958 como um grupo de estudo por 13 cirurgiões suíços visionários e transformada em uma fundação em 1984. A visão da fundação AO é a excelência na gestão cirúrgica de trauma e distúrbios do sistema musculoesquelético. A missão é promover e expandir a rede AO de profissionais de saúde em educação, pesquisa, desenvolvimento, e investigação clínica para obter mais cuidados efetivos aos pacientes em todo o mundo. Para adaptar-se às necessidades específicas de cada região anatômica bem como as diferenças nas cirurgias em humanos e animais, a AO estabeleceu áreas autônomas especializadas para trauma, coluna, cirurgia craniomaxilofacial e veterinária. Todas as especialidades da AO redefinem continuamente o estado da arte em seu campo, mantendo atividades de pesquisa, desenvolvimento, investigação clínica, e educação. Além disso, a AO criou uma entidade para educar o Pessoal da Sala de Operações (ORP) e para que se obtenha a melhor interação possível entre especialidades e entre cirurgiões e ORP. 16 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.1.2. Pesquisa e desenvolvimento dentro da fundação AO Um dos objetivos da Fundação AO é promover a pesquisa e o desenvolvimento dentro do escopo das atividades da Fundação AO. A pesquisa dentro da Fundação AO é conduzida e promovida através de diferentes canais. • O Instituto Davos de Pesquisa da AO (ARI) é dedicado a pesquisa e desenvolvimento básico e aplicado na área de trauma, distúrbios do sistema esquelético, e tópicos relacionadas. O instituto emprega especialistas em cirurgia, biologia, materiais, ciência, medicina veterinária, odontologia, biomecânica, engenharia biomédica, entre outros. Grupos de pesquisa definidos são especializados em tópicos relacionados a trauma (mais informações em: www.aofoundation.org). • As bolsas de pesquisa estão disponíveis nos Programas de Prioridade Clínica (CPPs). Os CPPs são programas de pesquisas baseadas em especialidades que promovem pesquisas em áreas de grande interesse para cada especialidade. Atualmente, o principal tópico do CPP craniomaxilofacial é “Imagem e Planejamento em Cirurgia” (www.aofoundation.org). Este programa é liderado por um comitê do programa que reporta os dados ao AOCMF Comissão de Pesquisa e Desenvolvimento. O programa emitiu o primeiro edital aberto para aplicações de bolsas em 2009. Detalhes destes editais e dos estudos financiados podem ser encontrados no site da AOCMF. • O Fundo de Pesquisa da AO (AORF), desde 1983, emite editais abertos duas vezes por ano para bolsistas que aplicam pela primeira vez, especialmente para apoiar jovens pesquisadores. Essas bolsas cobrem as amplas áreas de interesse da AO. Elas continuarão sendo disponíveis pelo sucessor da AORF, a Comissão de Pesquisa e Revisão da AO (AORRC), na mesma base, mas será financiado pelo Conselho Acadêmico da AO. • Entre 2005 e 2009, o Fundo de Pesquisa da AO também emitiu editais abertas duas vezes por ano para bolsas com focos maiores. Estes foram especificamente http://www.aofoundation.org/ http://www.aofoundation.org/ 17 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática focados nas áreas das especialidades e projetado para ser aplicado por pesquisadores experientes. Desde 2010, essas bolsas estão disponíveis pelas comissões especializadas de pesquisa e desenvolvimento. • O Conselho de Pesquisa Exploratória da AO (AOERB), no qual todas as especialidades e o ARI estão representados, tem como principal responsabilidade à supervisão e financiamento de pesquisa básica na Fundação AO. Atualmente, a maioria está focado na reconstrução de grandes defeitos ósseos. O AOERB também aprova e fornece financiamento de projetos para centros de pesquisa colaborativa em todo o mundo que trabalhem com a AO e seus pesquisadores em seus objetivos específicos de pesquisa. • O trabalho de desenvolvimento também podeser feito no ARI. Cada vez mais, essa é uma colaboração com pesquisadores externos. Entretanto, a maioria dos produtos desenvolvidos é feito em cooperação fechada com parceiros industriais. Geralmente todos os produtos comercializáveis vão para o sistema TK (consulte o capítulo 1.1.3) e está sujeito a ensaios clínicos intensivos antes de ser liberado para comercialização através dos respectivos parceiros industriais. O ambiente de pesquisa e desenvolvimento dentro da AOCMF pode mudar enquanto este livro estiver no mercado. Para informações atuais, procure o site da AO em: www.aofoundation.org. http://www.aofoundation.org/ 18 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.1.3. O Sistema TK em CMF A Fundação AO tem uma longa história de estreita colaboração com parceiros industriais. O controle do cirurgião sobre o design de implantes e instrumentos foi e ainda é um dos princípios fundamentais da AO. Dentro da Fundação AO, a responsabilidade pelo desenvolvimento e testes clínicos de novos dispositivos é do TK (“Technische Kommission” ou Comissão técnica). A abreviação alemã "TK" foi mantida mesmo depois que a fundação AO se tornou uma organização global. O TK é uma organização de comitês compostos por cirurgiões, equipe de desenvolvimento de produtos, e engenheiros. Na especialidade da cirurgia craniomaxilofacial, existe uma Comissão Técnica com vários Grupos de Especialistas (EGs) dos quais aproximadamente 40 cirurgiões trabalham com os engenheiros em soluções para problemas clínicos. Desde o início, o objetivo do TK era garantir que todos os implantes e instrumentos que eram fabricados de acordo com padrões da AO tenham um histórico comprovado de segurança, simplicidade e universalidade na aplicação. Há três EGs trabalhando com os parceiros industriais da AO no desenvolvimento de novos instrumentos, implantes e técnicas em cirurgia CMF. Comitês ad-hoc, como forças tarefa ou grupos de trabalho focados em novas tecnologias, ou seja, cirurgia assistida por computador e biomateriais, também foram estabelecidos para apoiar os esforços dos TK e EGs quando necessário. Sem a aprovação prévia do TK, quase nenhum implante Synthes ou instrumento fica disponível para a comunidade cirúrgica. No entanto, o sistema TK é mais do que a decisão final sobre a aprovação do produto. Todos os EGs trabalham em estreita colaboração com os engenheiros desde a primeira ideia até o uso clínico, e todos os instrumentos e implantes passam por vários estágios de avaliação com membros médicos independentes do EGs, que tomam a decisão final, se o respectivo projeto deve ou não ser aprovado. É tomado cuidado especial para garantir que os Grupos de Especialistas evoluam em linha de acordo com as mudanças de requisitos e reajam prontamente às necessidades da comunidade médica. Assim, novas ideias de pesquisa são consideradas, novas possibilidades de desenvolvimento são avaliadas e novas necessidades e tendências são estudadas. Outras tarefas dos grupos de especialistas e de trabalho são avaliar dispositivos e métodos identificados por cirurgiões, ou qualquer outra parte interessada, além de definir 19 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática e aprovar um processo de avaliação clínica. Eles também monitoram o sucesso clínico de dispositivos aprovados e métodos, uma vez que estejam no mercado por um tempo. Cada grupo dentro do Sistema TK consiste em cinco membros médicos, bem como engenheiros, pesquisadores e outros representantes dos parceiros industriais da AO. Apesar de termos de filiação para membros serem bem definidos, o Sistema TK é tudo menos um círculo fechado, permanecendo aberto a ideias de fora. Todo mundo é convidado a participar e apresentar suas ideias ao Presidente da TK (consulte o formulário de inovação da TK disponível na Web: http://courses.aocmf.org/files/editor/documents/TK_Idea_Form_CMF_2009.pdf). http://courses.aocmf.org/files/editor/documents/TK_Idea_Form_CMF_2009.pdf 20 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.1.4. Educação A educação mundial é provavelmente a missão mais importante da Fundação AO no que diz respeito à melhoria da assistência médica. As atividades educacionais eram tradicionalmente coordenadas pela AO Internacional (AOI), e, posteriormente, através da AO Educação (AOE) de maneira supra especialidade. Hoje a educação é organizada pelas quatro especialidades (AOTrauma, AOSpine, AOCMF e AOVET) e é entregue através de diferentes canais educacionais: • Educação presencial por meio de cursos, oficinas, seminários e simpósios. • Mídia impressa, como periódicos (isto é, Revista de Trauma e Reconstrução Craniomaxilofacial) e livros. • Mídia audiovisual (por exemplo, vídeos e DVDs). • Internet. • Bolsas de Estudo: O programa AO de bolsas de estudo oferece bolsas para ambos: cirurgiões e o Pessoal da Sala de Operações (ORP), em Centros de Bolsas de Estudo aprovados pela AOCMF. Cirurgiões e ORP interessados podem solicitar bolsas de estudo no site da Fundação AO (www.aofoundation.org/fellowships). http://www.aofoundation.org/fellowships 21 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.1.5. Investigação clínica e documentação 1.1.5.1. AOCID missão e estratégia A Investigação Clínica e Documentação da AO (AOCID) realiza estudos clínicos multicêntricos para documentar a segurança, eficácia e resultado do tratamento das fraturas, promovendo assim a aplicação de cirurgia baseada em evidências. As atividades estão aumentando constantemente no mundo todo. A estratégia da AOCID é promover a ciência da pesquisa clínica aplicada. A pesquisa clínica aplicada envolve tanto o “fazendo” como o “usando” a pesquisa clínica. AOCID dirige e auxilia cirurgiões na condução de estudos clínicos. Também uxilia cirurgiões a pesquisar e avaliar criticamente a literatura disponível para responder perguntas clínicas (Tab.1.1.5-1). FAZENDO pesquisa clínica USANDO pesquisa clínica • Como delinear e conduzir testes clínicos. • Como pesquisar a literatura para responder uma pergunta clínica. • Como avaliar criticamente um artigo médico científico (Tab.1.1.5-1). AOCID é comprometida no “fazendo” e “usando” pesquisa clínica. 1.1.5.2. Fazendo a pesquisa clínica Delinear e conduzir um ensaio clínico pode ser uma tarefa assustadora. A chave para delinear e conduzir pesquisas com sucesso é ser criativo e cuidadoso. Os pesquisadores devem articular corretamente a pergunta do estudo, escolher o desenho de estudo correto, e garantir que os dados sejam extraídos, registrados, gerenciados e analisado cuidadosamente. A precisão dos resultados depende das validades interna e externa. Validade interna refere-se aos efeitos obtidos em um estudo devido à intervenção sob avaliação. A validade interna é alcançada através de um estudo forte dos métodos. Se houver explicações alternativas para os dados (por exemplo, viés de seleção), o estudo pode não ter validade interna. A validade externa refere-se a se os resultados podem ser generalizados fora dos participantes e situações específicas do estudo. A seleção cuidadosa dos sujeitos do estudo garante que os resultados do estudo são generalizáveis. 22 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Cinco passos principais estão envolvidos na condução bem-sucedida de um estudo clínico que possui validações interna e externa: 1. Desenvolvendo uma ideia de estudo. 2. Elaboração cuidadosa de um plano de estudo. 3.Garantindo que procedimentos operacionais padrão detalhados são seguidos durante a implementação do estudo. 4. Realizando uma análise cuidadosa dos dados. 5. Publicando os resultados com reflexão e atenção (Tab 1.1.5-2). Tab. 1.1.5-2 – Cinco principais passos para conduzir uma estudo clínico com sucesso. (Lê-se: Passo 1 – Ideia do estudo; Passo 2 – Plano do estudo; Passo 3 – Implementação do estudo; Passo 4 - Análise dos dados; Passo 5 – Publicação). 1.1.5.3. Usando a pesquisa clínica O estudo e entendimento dos mecanismos básicos da lesão e a cura por si só não são guias suficientes para prática clínica. Além disso, a experiência clínica, embora valiosa, pode ser ilusória na solução de problemas clínicos. Existe um crescente acordo na área da cirurgia no qual os cirurgiões precisam ir além dos princípios fisiológicos e experiência clínica em direção à medicina baseada em evidências e suas rigorosas avaliações das consequências de ações clínicas. Saber como usar a literatura clínica (ou seja, pesquisa bibliográfica, revisão de literatura, e avaliação crítica) é imprescindível para garantir que os cirurgiões estão oferecendo o melhor atendimento ao paciente. Os cirurgiões precisam focar em uma pergunta clínica específica, saber onde procurar por artigos pertinentes que abordem a questão, e selecionar apenas as informações que provavelmente fornecerão resultados com a melhor evidência. A habilidade final da avaliação crítica permite que os cirurgiões pesem as evidências contra as conclusões publicadas. 23 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.1.5.4. Resumo O AOCID é dedicado a ajudar os clínicos a alcançar o sucesso em pesquisa clínica. AOCID fornece serviços úteis e ferramentas para cirurgiões avaliarem seus dispositivos e intervenções. Informações detalhadas sobre o AOCID e seus serviços estão disponíveis online em: www.aofoundation.org/cid. http://www.aofoundation.org/cid 24 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática 1.1.6. Classificação das fraturas craniomaxilofacial segundo AO 1.1.6.1. Conceito geral e objetivos de uma classificação das fraturas Nas biociências e na medicina, as classificações são onipresentes. Quase todo advento de novas tecnologias e novos diagnósticos ou regimes terapêuticos são divulgados juntamente com o estímulo de se repensar a antiga sistematização e concepções. Isso se reflete em títulos que contêm vocabulário como agrupamento, codificação, avaliação, classificação, dimensionamento, pontuação, tipificação, que é indicativo para um processo de classificação. As fraturas do esqueleto humano ocorrem em muitas variações dificultando a identificação de parâmetros apropriados para atribuição de uma série clínica de casos únicos a um número fixo de categorias possíveis. Hoje, o denominador menos utilizado para uma classificação convencional de uma fratura é a descrição da topografia da fratura e sua morfologia baseada na análise de raios- X de diagnóstico ou tomografia computadorizada (TC). Existem várias outras variáveis e fatores para retratar completamente um paciente e sua lesão, como etiologia, severidade do trauma, quantidade e qualidade óssea, tecidos moles associados ao dano, comprometimento funcional, idade, comorbidades físicas ou psíquicas, e integração social. Em teoria, pode parecer razoável incluir todas as variáveis concebíveis e detalhes do paciente em uma classificação de fratura; no entanto, isso levaria a uma diversificação em pequenas subcategorias, o qual seria pouco manejável no uso clínico de rotina. O que realmente importa no tratamento de um paciente é, em primeiro lugar, utilidade e facilidade de comunicação, e, em segundo, a relevância terapêutica da classificação. Por esta razão, a hierarquia de categorias e grupos em um sistema de classificação de fraturas deveria melhor correlacionar com a severidade da lesão e/ou a dificuldade de tratamento. Um conjunto de regras e definições é obrigatório para identificar os grupos dentro de uma ordem crescente de severidade da lesão. Um modelo de classificação deve ser minimalista. Assim, a pré-seleção de parâmetros pertinentes em virtude de um conceito rigoroso de validação metodológica é crucial. Um problema inerente no desenvolvimento de um modelo conciso de classificação de fraturas é delinear os critérios de corte entre os grupos do início para prever os resultados do tratamento. 25 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Nos primeiros estágios de desenvolvimento, uma proposta de classificação de fraturas deve se referir exclusivamente ao substrato biológico (natureza) de uma lesão, como localização anatômica, fragmentação, e assim por diante. As modificações necessárias devem ser seguidas em um processo iterativo de fases de ensaios exploratórios em um estudo piloto e estudos de concordância (Fig. 1.1.6-1). Somente após a validação, o resultado de procedimentos de tratamento diferentes e o risco potencial de complicações podem ser analisados prospectivamente em estudos baseados em evidências. Fig, 1.1.6-1 – Desenvolvimento metodológico e validação dentro de um caminho de 3-fases (Audigê et al 2005). A proposta de classificação e o estudo piloto estão repetidamente em círculo até que a aceitável reprodução e o consenso sejam alcançados. (Lê-se: Fase 1- “Fase de desenvolvimento” – Classificação da proposta/Concordância com o estudo piloto/ Fase 2- “Confiabilidade e precisão nas condições clínicas” – Concordância do estudo multicêntrico/ Fase 3- “Associação com resultado(s) de pacientes” – Estudos clínicos). Informações empíricas obtidas por caminhos específicos de tratamento não devem ser implementadas na versão inicial de uma classificação de uma fratura. Estes critérios baseados em tratamento resultam em viés ao invés de produzir uma base racional para as avaliações prospectivas de qualquer terapia direcionada. Além de fornecer diretrizes para o atendimento individual de pacientes, uma classificação de fratura serve para outros propósitos. Uma classificação consistente e reproduzível fornece uma linguagem universal e codificação que facilita a comunicação e a colaboração. Codificação e indexação são pré-requisitos para o uso atual da mídia de informação e computação para troca via Web e armazenamento de registros de fraturas 26 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática em bancos de dados de trauma. Isto permite uma documentação em larga escala, comparações interinstitucionais, vigilância de qualidade dos resultados clínicos, a adoção de métodos de avaliação comparativa (benchmarking), a fim de otimizar os procedimentos cirúrgicos e, por último, mas não menos importante, análise econômica. Em 1986, a Fundação AO adotou oficialmente “A classificação compreensiva de fraturas dos ossos longos” desenvolvido por Maurice Müller e seu grupo com base por suas atividades na documentação. Este precursor da classificação atual da AO introduziu um código alfanumérico padronizado para indicar o osso afetado, o tipo de fratura, e a complexidade de sua morfologia. A identificação topográfica análoga a essa codificação inicial ainda está em uso, por exemplo, na região CMF: 91 para mandíbula, 92 para terço médio da face, 93 para base do crânio e 94 para calota craniana. Os códigos de fratura (ou classes) foram montados de acordo com o chamado conceito de tripartição da AO, tratava-se de um ranking que escalava a severidade da fratura em 27 graus diferentes com uma arquitetura hierárquica em forma de árvore. Por muitos anos, a ideia foi aplicar o conceito detripartição universalmente para todos os locais de fratura no esqueleto humano. Curiosamente, os manuais de classificação da AO desde então baseiam-se em representações diagramáticas de amplo escopo. Ainda é baseado no visual, mais ou menos não-verbal, autoexplicativo, e com procedimento de codificação intuitivo, sendo considerado como essencial para o desenvolvimento de um esquema de classificação de fratura o fácil uso, a aceitação internacional, e sua implementação com sucesso no trabalho de rotina dos clínicos. 1.1.6.2. Uma breve história das classificações CMF Até o momento, fraturas centrais do terço médio da face com um impacto potencial na oclusão são referidas mundialmente pelo nome do Le Fort. A distinção simples de três fraturas do tipo Le Fort é considerada como um protótipo de um sistema de classificação para fraturas faciais. Os estudos experimentais em cadáveres feitos pelo médico e patologista francês René Le Fort (1901), datados no início do século XX, levaram ao entendimento da construção alveolar do terço médio do esqueleto, por sua vez, das principais linhas de fraqueza. Essa arquitetura óssea explica por que as fraturas podem seguir um curso previsível que pode ser dividido em um número limitado de padrões bem definidos. 27 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Ao longo de mais de um século, várias classificações foram criadas para detalhar entidades de fratura com locais específicos para fraturas craniofaciais: • Terço médio da face (Guérin 1866, Le Fort 1901, Wassmund 1927, Donat et al 1998) • Zigoma, fraturas do complexo zigomático-maxilar (Zingg et al 1992) • Região órbito-zigomática e órbito-etmoidal (Jackson 1989) • Região Naso-órbito-etmoidal (NOE) (Markowitz et al 1991) • Órbito (Hammer 1995, Carinici 2006, Jacquiéry et al. 2007) • Parede medial da órbita (Nolasco e Mathog 1995) • Palato (Chen et al 2008) • Terço médio da face em conjunto com a base do crânio (Buitrago-Téllez et al 1992, 2002, Bächli et al 2009) • Base anterior do crânio (Madhusdan et al 2006) • Osso temporal (Rafferty et al 2006) • Mandíbula (Spiessl 1989, Roth et al 2005, Buitrago-Téllez et al. 2007) • Processo condilar da mandíbula (Spiessl, Schroll 1972, Loukota et al 2005) • Lesões panfaciais e avulsões (Clark et al 1995) Várias tentativas foram feitas para aumentar os escores de severidade da fratura para a região CMF por Cooter e David 1989, Joos et al 1999, Bagheri et al 2006, Zhang et al 2006, com base em escalas categóricas (ordenadas ou ordinais). 1.1.6.3. Evolução da moderna classificação das fraturas craniomaxilofacial da AO Há vários anos, a Fundação AO começou a criar uma classificação atualizada das lesões craniofaciais. O projeto foi lançado pela pesquisa de Buitrago-Téllez, que inicialmente projetou um algoritmo de diagnóstico baseado em tomografia computadorizada para fraturas do crânio e terço médio da face, objetivando estabelecer uma classificação hierárquica de acordo com o aumento da severidade. O conceito elementar era dividir os padrões de fraturas craniofaciais análogos ao sistema de tripartição da AO. A inovação desta classificação CMF de primeira geração foi a incorporação do acompanhamento de fraturas anterior e lateral da base do crânio e linhas de fratura desviando dos níveis de Le Fort. Em 2008, um modelo de classificação para a 28 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática mandíbula que diferencia os compartimentos mandibulares verticalmente e uma subdivisão horizontal do corpo e região parassinfisária foi associado. Inconsistências persistentes na confiabilidade entre observadores deste sistema CMF de primeira geração, bem como, um modelo de segunda geração realizado em várias sessões de classificação pelos membros de um grupo internacional de traumatologistas do CMF, não atingiram os padrões metodológicos. A complexidade dos modelos possibilitou uma compreensão do mapeamento de cada linha de fratura concebível e possíveis combinações, sendo revelada como a principal razão pelo desempenho limitado das propostas de classificação. A solução plausível foi uma mudança de paradigma, passando para um modelo de classificação simplificado considerado como prático, clinicamente significativo e cientificamente forte. A fim de acompanhar o pedido de simplificação, o roteiro para o desenvolvimento da atual classificação de CMF da AO, terceira geração, leva os seguintes aspectos em conta: • Para falar de trauma de: mandíbula (91), esqueleto do terço médio da face (92), base do crânio (93) e calota craniana (94) • Para usar as informações de imagem como base comum para todos níveis e módulos: (91–94: tomografias computadorizadas/ressonância magnética suplementar, 91 alternativamente: radiografia panorâmica, raios-X convencionais em dois planos) • Incluir descrição topográfica da localização da fratura • Integrar a classificação de Le Fort no esqueleto do terço médio da face (92) • Descrever a morfologia da fratura • Incorporar um caminho metodológico rigoroso (confiabilidade entre observador, validade) • Desenvolvimento gradual do sistema em três níveis, com progressão da precisão e significado clínico: o Nível 1: Sistema elementar para localização de fratura geral (mandíbula, terço médio da face, base do crânio, calota craniana) o Nível 2: Sistema básico para localização refinada de fraturas no esqueleto CMF (delineando os limites topográficos das regiões 29 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática anatômicas dentro das unidades fundamentais do esqueleto CMF como base para uma localização precisa) o Nível 3: Sistema modular focado na avaliação da morfologia da fratura (ou seja, fragmentação e deslocamento) o Os níveis 1 e 2 servem como localizadores anatômicos, enquanto nível 3 descreve a morfologia da fratura em uma matriz de módulos representando regiões e sub-regiões anatômicas. • Construir um sistema hierárquico de classificação que permita graduar a severidade da fratura • Fornecer uma base racional para prospectivas (funcionais e relato do paciente) estudos de resultados do tratamento, dos quais algoritmos para tomada de decisão clínica podem ser derivados As unidades anatômicas do esqueleto craniofacial produzem os modelos (Fig 1.1.6-2-3) nos quais o sistema geral é gradualmente construído em uma série de módulos. Um módulo é representando pelas regiões anatômicas circunscritas, seja em conjunto (por exemplo, corpo mandibular, região parassinfisária e ângulo) ou sozinho (por exemplo, processo condilar). Cada um dos módulos é desenvolvido passo a passo para definir diferentes níveis de precisão relacionada às necessidades de documentação e diferentes escopos de aplicação clínica. A abordagem em estágios com teste piloto dos itens garante a eliminação de todas as ambiguidades e verifica a confiabilidade e adequação antes de qualquer progressão para o próximo nível permitido. A proposta final dos níveis 1 a 3 para todo esqueleto craniofacial foram recentemente concluídos pelo grupo CMF de classificação. Isso é considerado um sinal de que o atual processo de desenvolvimento de uma classificação modular de fraturas CMF está no caminho certo, embora, ainda exista um longo e árduo caminho a ser percorrido para gerar medidas que reflitam a severidade da fratura. 30 Princípios de fixação interna do esqueleto craniomaxilofacial - Trauma e Cirurgia Ortognática Fig 1.1.6-2a-b – Classificação terceira geração AOCMF a Nível 1 – Mandíbula, terço médio da face, base do crânio e calota craniana. b Nível 2 – Proposta de classificação: vista frontal do crânio. Diferenciação das regiões anatômicas: zigoma (Z). centro superior do terço médio da face (U),