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NUTRIÇÃO E DIETÉTICA I Paula Gabriela Loss Neto Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Reconhecer os valores de ingestão dietética de referência. � Distinguir os quatros conceitos de referência para consumo de nu- trientes que compõem os valores de ingestão dietética de referência. � Interpretar as recomendações de macro e micronutrientes de acordo com os quadros de ingestão dietética de referência. Introdução Décadas de pesquisas e evoluções metodológicas permitiram a publi- cação de diretrizes adequadas à avaliação de grupos e indivíduos, são as chamadas ingestões dietéticas de referência, comumente conhecidas por sua sigla em inglês, dietary reference intakes (DRIs). Examinar a adequação de planos alimentares e dietas, de adultos e idosos, é necessário para o desempenho das atribuições básicas de um nutricionista. Neste capítulo, você vai estudar sobre como as principais referências para ingestão de macro e de micronutrientes foram elaboradas, quais são seus conceitos de referência para o consumo de nutrientes e como interpretá-los. Ingestão dietética de referência As DRIs foram a consolidação de mais de meio século de pesquisas no âmbito das ciências da nutrição, da química e da toxicologia, possuindo um contexto histórico-científico anterior ao de sua publicação. Ao final da década de 1930, o conselho canadense de nutrição já havia lançado valores de referência de ingestão dietética, com o objetivo de estabelecer as recomendações nutricionais para população canadense. Estas referências com o passar do tempo — e o surgimento de novas tecnologias e de novos estudos — foram revisadas algumas vezes, até serem denominadas, em 1983, como Recomendações de Ingestão de Nutrientes, do inglês Recommneded Nutrient Intakes (RNI). As RNIs, no final da década de 1990, foram revisadas, levando em consideração a crescente preocupação com o risco de doenças crônicas não transmissíveis, sendo publicadas no The Report of the Scientific Review Committee (INSTI- TUTE OF MEDICINE et al., 2006). Enquanto os canadenses seguiam os estudos e atualizações de suas re- comendações, em 1941, instituição norte-americana publicou as primeiras orientações sobre esse assunto, conhecidas como Quotas Dietéticas Recomen- dadas, do inglês, Recommended Dietary Allowances (RDAs) para vitaminas, proteínas e energia. O objetivo dessas recomendações era basear em dados científicos — e recomendações claras — uma nutrição adequada. As RDAs passaram, então, a ser utilizadas para guiar programas de alimentação e de nutrição, tanto nos Estados Unidos quanto em outros países. Entre 1941 e 1989, as RDAs sofreram nove revisões, com uma significativa expansão, inicialmente de 8 nutrientes para 27. Tanto as recomendações canadenses quando as americanas foram lar- gamente aplicadas no Brasil e no mundo, seja no planejamento de dietas, servindo com um verdadeiro guia nutricional, seja na rotulagem, auxiliando a referenciar fortificações e adições de nutrientes. Porém, com tantas evoluções nos conhecimentos estatísticos e científicos, além de mudanças epidemiológicas — principalmente no cenário canadense e norte-americano — reconhecia-se a necessidade de novos valores e da elabora- ção de um guia mais completo. Desta forma, a Food Nutrition Board, apoiada pelos governos americano e canadense, trabalhou na criação e implementação de uma nova diretriz estabelecedora de referências nutricionais que viriam a expandir e substituir as RDAs e RNIs. Assim, em 1997, surgiram as DRIs, constituindo a mais robusta recomen- dação de valores de referência de ingestão de nutrientes. Sua publicação é organizada pelo Institute of Medicine norte-americano e pela agência Health, no Canadá, na forma de relatórios parciais realizados por comitês de especialistas. No final de 1999, a Food and Nutrition Board publicou o último dos três primeiros volumes sobre as novas DRIs. Esse último volume continha refe- rências para três grupos de nutrientes interconectados entre si: Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos2 1. DRI para cálcio, fósforo, magnésio, vitamina D e fluoreto; 2. DRI para tiamina, riboflavina, niacina, vitamina B6, folato, vitamina B12, pantotenato, biotina e colina; 3. DRI para os antioxidantes vitamina C, vitamina E, selênio e carotenóides. Afastando-se da proposta clássica, a comissão optou por publicar os nu- trientes por meio de grupos correlatos, em lugar dos convencionais grupos de vitaminas hidrossolúveis, vitaminas lipossolúveis, elementos traço etc. Essas mudanças permitiram ao leitor a utilização de um material mais integrado e intuitivo. As evidências científicas que compõem as DRIs são relacionadas ao estudo do consumo de nutrientes, buscando indicadores de adequação nutricional, além de observar a importância da prevenção de doenças crônicas nas populações previamente hígidas. As alterações do perfil epidemiológico e social da popula- ção, nas últimas décadas, alterou, de certa maneira, o foco das DRIs em relação às suas antecessoras RDAs e RNIs. Enquanto essas últimas mantiveram como prioridade a diminuição da incidência de doenças resultantes de deficiências nutricionais, as DRIs abrangeram um cuidado com a prevenção de doenças e na redução dos riscos de consumo excessivo de nutrientes (INSTITUTE OF MEDICINE et al., 2006). As DRIs também diferem de suas antecessoras RDAs e RNIs em muitos pontos interessantes: ao passo que essas últimas levavam em conta apenas a ausência de sinais e sintomas de deficiências nutricionais, as DRIs levaram em consideração a importância de alguns nutrientes na prevenção de doenças crônicas e degenerativas, de forma a cuidar ainda mais para que seu consumo fosse indicado em níveis não só suficientes para evitar a deficiência, mas também, para se precaver da situação-problema. Em termos estatísticos, as DRIs também evoluíram. As antigas RDAs e RNIs foram pensadas para servir como referências para a adequação de planejamento nutricional de grupos. Você sabe que do ponto de vista esta- tístico, um cálculo de recomendação geral para grupos se difere do cálculo individualizado. Porém, mesmo com a aplicação irregular, as RDAs e RNIs eram utilizadas para avaliar e planejar a dieta de indivíduos, uma vez que eram os únicos referenciais disponíveis. Observando esse fato, as DRIs foram elaboradas de modo a incluir metodologia científica e estatística para que pudessem ser aplicadas tanto no atendimento individual quanto para grupos (INSTITUTE OF MEDICINE et al., 2006). 3Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos Elas também inovaram ao considerar o conceito de risco medição da in- certeza. Sabe-se que há um nível considerável de variabilidade nos inquéritos dietéticos, nos planos individual e populacional, sendo a estimativa de carências obtidas por intermédio da descrição de probabilidades ou de riscos, seja de adequação ou de inadequação. Assim, foram estabelecidos limites de consumo visando à diminuição dos riscos de efeitos adversos à saúde — considerando ainda o contexto cultural e epidemiológico de fácil acesso a suplementos vitamínicos e minerais (INSTITUTE OF MEDICINE et al., 2006). Devido à sua robustez metodológica e estatística, os valores contidos nas DRIs podem ser aplicados tanto para a análise e preparação de dietas como na rotulagem de alimentos, além de diversos outros propósitos. Apesar das análises confiáveis e a sólida metodologia científica, você deve ter em mente que as DRIs são uma boa estimativa da realidade, uma vez que a necessidade de nutrientes varia entre indivíduos, mesmo quando pareados por sexo, idade, composição corporal e nível de atividade. Por essa razão, há que se trabalhar com o coeficiente de variação do nutriente, logo, é muito importante saber que não considerar a variação pode levar o nutricionista a superestimarou a subestimar a ingestão habitual, tornando a avaliação do paciente irregular. Para evitar a taxa de erro, advinda da interpretação literal das DRIs, foi formado um subcomitê apenas para tratar do uso e da interpretação das recomendações. Este subcomitê orienta a utilização da estimativa da variabilidade obtida em estudos de consumo alimentar populacionais. Contudo, no Brasil, ainda não há um banco de dados populacional a respeito da variabilidade da ingestão intrapessoal, restando como opção a utilização dos dados americanos. O subcomitê ainda aborda a importância da distinção de métodos para analisar os níveis de conformidade de ingestão entre indivíduos e grupos. Quando a diferença de consumo individual e populacional não é considerada e anali- sada da mesma forma, os resultados dessa avaliação podem ser incorretos (PADOVANI et al., 2006). Conceitos de referência das DRIs Quando é pensado em valores de referência, comumente, se imagina um valor indicado, que seria considerado ideal para um grupo de indivíduos. Porém, as DRIs são mais complexas porque foram elaboradas considerando não apenas um, mas quatro valores: Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos4 � seu primeiro componente é a denominada necessidade média estimada ou, em inglês, Estimated Average Requirement (EAR); � o segundo componente refere-se à quota diária recomendada, em inglês, Recommended Dietary Allowances (RDA); � o terceiro componente refere-se à ingestão adequada, em inglês, Ade- quate Intake (AI); � o quarto e último componente refere-se ao limite superior tolerável de ingestão, em inglês, Tolerable Upper Intake Level, (UL). Agora, será apresentado cada componente em detalhes. É importante que você já tenha em mente que os valores são sempre indicados para uma faixa etária e gênero específico (INSTITUTE OF MEDICINE et al., 2006). EAR — Estimated Average Requirement: corresponde ao valor da mediana de distribuição da necessidade de um nutriente para um determinado gênero e faixa etária. Portanto, é um valor estimado para cobrir as carências de metade da população saudável de gênero e da faixa determinados. Quando se olha para um valor de EAR, sabe-se que metade da população que consumir o nutriente na quantidade indicada, terá suas necessidades do nutriente, em questão, atendidas, porém para a outra metade da população, esse valor não será suficiente (INSTITUTE OF MEDICINE et al., 2006; INTERNATIONAL LIFE SCIENCES INSTITUTE, 2001). RDA — Recommended Dietary Allowances: a RDA utiliza a mesma distribui- ção consumo que uma EAR. Mas, em vez de se concentrar no valor suficiente para cobrir as necessidades de metade da população, ela possui uma área de cobertura maior: de 97 a 98% de uma população de gênero e faixa etária específica tem as suas necessidades suprimidas com a quantidade de nutriente indicada na RDA. Se sabe que as insuficiências, de um determinado nutriente, podem ser expressas em uma curva de distribuição normal, em que a RDA situa-se a dois desvios-padrão positivos da EAR. Na Figura 1, você poderá acompanhar um gráfico com a curva normal para compreender a distribuição e onde se situam a EAR e a RDA (INSTI- TUTE OF MEDICINE et al., 2006; INTERNATIONAL LIFE SCIENCES INSTITUTE, 2001): 5Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos Figura 1. Exemplo de gráfico com a curva normal que demonstra a distribuição e onde situam-se a EAR e a RDA. Distribuição da necessidade média do nutriente Po rc en ta ge m d e in di ví du os EAR RDA AI UL + 2 DP (*) EAR: necessidade média estimada; RDA: ingestão dietética recomendada; AI: ingestão adequada; UL: nível máximo tolerável de ingestão Ainda, é preciso considerar que pode haver variabilidade de necessidades nutricionais, então, foi elaborado o coeficiente de variação — CV que pode ser descrito como: CV = desvio-padrão da necessidade/necessidade média × 100 Contudo, estudos demonstrando os valores exatos de desvio-padrão da ingestão para alguns nutrientes, forneceram dados insuficientes, levando os pesquisadores responsáveis pelas DRIs a assumirem um coeficiente de variação teórico de 10% para maioria dos nutrientes. Logo, se a distribuição da recomendação de um nutriente possui uma distribuição normal, um co- eficiente de variação quer dizer que aproximadamente 95% dos indivíduos terão suas necessidades atendidas, satisfatoriamente, com valores entre 80 a 120% da EAR. Se for considerado um coeficiente de 15%, como o da niacina, a amplitude da variação seria maior, entre 70 e 130% da EAR. Dessa forma, você percebe Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos6 que quanto maior o coeficiente de variação, maior será a faixa de valores plausíveis para a recomendação individual daquele nutriente. Por outro lado, isto demonstra um maior grau de incerteza sobre os valores mais apropria- dos de recomendação individual (INSTITUTE OF MEDICINE et al., 2006; INTERNATIONAL LIFE SCIENCES INSTITUTE, 2001). AI — Adequate Intake: nem sempre há dados possíveis para determinação de uma EAR e, por consequência, de uma RDA também. Para se obter uma referência nessas circunstâncias, foi desenvolvida a AI, que é a referência obtida por meio do estudo experimental, com ajuste dos níveis de ingestão de nutrientes ou via observação da ingestão deles, em um grupo de indivíduos, aparentemente, saudáveis, com crescimento adequado (INSTITUTE OF MEDI- CINE et al., 2006; INTERNATIONAL LIFE SCIENCES INSTITUTE, 2001). UL — Upper Intake Level: trata dos limites da ingestão segura de um nutriente. Considerando, o aumento significativo da fortificação de alimentos e do uso indiscriminado de suplementos, de vitaminas e de minerais, o estabeleci- mento de parâmetros máximos (e não apenas mínimos) de ingestão, já era uma necessidade em termos de saúde pública. A UL corresponde ao valor máximo de ingestão (já observando um consumo diário e continuado) que não oferecerá riscos à saúde da maior parte da população, em questão. Conforme os níveis de consumo vão ultrapassando a UL, o risco de efeitos adversos vai se tornando maior. Esse parâmetro ainda não está estabelecido para todos os nutrientes. Além disso, para cada nutriente, um método foi utilizado. Em alguns nutrientes, considerou-se a ingestão total dele (dieta + suplementos) e para outros nutrientes, os estudos consideraram, unicamente, a fonte não alimentar (INSTITUTE OF MEDICINE et al., 2006; INTERNATIONAL LIFE SCIENCES INSTITUTE, 2001). Até agora, você estudou conceitos importantes, principalmente para os micronutrientes — vitaminas e minerais. Agora, será apresentado como as DRIs abordam a recomendação e, mais especificamente, a distribuição de macronutrientes na dieta. Pode-se pensar a ingestão de macronutrientes sob duas perspectivas: a primeira se refere à quantidade bruta de nutriente ingerida em um dia, e a segunda se refere à proporção que esta quantidade bruta ocupa em relação ao valor calórico total da dieta (MOREIRA et al., 2012). 7Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos A respeito dessa proporção, as DRIs trouxeram o conceito da chamada acceptable macronutrients of distribution ranges (AMDR) ou, em português, faixa de distribuição aceitável de macronutrientes. A AMDR trata do alcance que o consumo de nutriente, relacionado a uma fonte de macronutrientes específica, deve possuir para diminuir o risco de doenças crônicas advindas da ausência ou excesso de consumo destes nutrientes essenciais (MOREIRA et al., 2012). Ela é representada em valores percentuais da energia total oriunda de proteína, carboidrato ou lipídio, não sendo um valor absoluto e, sim, uma expressão relativa de um macronutriente a outro, considerando-se uma ingestão calórica adequada para manter o equilíbrio energético. O consumo de um macronutriente, em valores superiores ao preconizado pela AMDR, aponta para o risco potencial de desenvolvimento de doenças crônicas, ao passoque um consumo inferior alerta sobre o perigo da ingestão insatisfatória de nutrientes essenciais ligados à ingestão de macronutrientes. Você conhecerá as recomendações para cada macronutriente e, posterior- mente, será abordada a AMDR (MOREIRA et al., 2012): Proteínas: a EAR para proteínas, foi fundamentada na menor ingestão inin- terrupta de proteína capaz de alcançar o equilíbrio de nitrogênio corporal (saldo zero), garantindo, dessa forma, que as funções vitais executadas por este macronutriente fossem plenamente atendidas. Alguns estudos se basearam nas indicações proteicas das DRIs, eviden- ciando a não existência de diferença significativa na necessidade proteica entre os sexos, faixa etária, fonte de proteica e clima. Contudo, cabe considerar que qualquer pesquisa tem seus limites metodológicos e, que a metodologia utili- zada, balanço nitrogenado e oscilação entre indivíduos, pode ter influenciado os resultados encontrados. A RDA também foi calculada com base nas evidências do mesmo estudo, e assumiu-se que as necessidades proteicas possuem uma distribuição normal (como a curva apresentada na Figura 1). Os cálculos realizados levaram a concluir que a RDA, para proteína, é de 0,80 g de proteína/kg/dia (arredon- damento de 0,1 g) para indivíduos entre 19 a 50 anos, reconhecendo, assim, uma variabilidade para outras faixas etárias (MOREIRA et al., 2012). Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos8 Conforme a IOM, a proteína vegetal, presente em maior quantidade nas leguminosas, nozes, grãos, legumes e sementes, tende a apresentar deficiência de um ou mais aminoácidos indispensáveis. Por isto, são denominadas proteínas incompletas. Em contrapartida, a proteína de origem animal provê todos os aminoácidos impres- cindíveis, assim, é chamada de proteína completa. Os aminoácidos imprescindíveis são: fenilalanina, histidina, isoleucina, leucina, lisina, metionina, treonina, triptofano e valina. Eles são essenciais ao funcionamento fisiológico, porém, o corpo não é capaz de sintetizá-los. Por essa razão, devem ser providos pela dieta (INSTITUTE OF MEDICINE et al., 2006). Como visto, para as recomendações mínimas, as DRIs discutiram a respeito do limite de ingestão de proteína. Elas consideraram os efeitos adversos, associados à ingestão excessiva de proteínas, principalmente, via suplementos alimentares. Foi consistente a associação com problemas renais, tais como cálculos e insuficiência do órgão. Problemas como câncer, doença arterial coronariana, obesidade e, até mesmo, osteoporose foram associadas à exces- siva ingestão proteica. Porém, cabe ressaltar que as evidências trazidas pela literatura, muitas vezes, são conflitantes, dificultando o trabalho de estabelecer uma margem de risco. Por esse motivo, não houve evidências suficientes para determinar valores de UL para ingestão proteica (MOREIRA et al., 2012). Carboidratos: a EAR determinada para carboidratos foi de 100 g ao dia para homens e mulheres acima de 19 anos. Cabe lembrar que o cérebro é extre- mamente dependente de glicose, sendo a principal função dos carboidratos abastecer energeticamente todo o corpo, com prioridade para o cérebro. Logo, a EAR foi calculada pensando no suprimento de carboidratos para o sistema nervoso central. Este ponto de corte mínimo, geralmente, é ultrapassado em uma dieta que atenda às necessidades energéticas, tendo a proporção de lipídios e proteínas dentro das recomendações. Para ilustrar melhor a facilidade em atingir as metas de ingestão de carboi- dratos, saiba que a ingestão média deste macronutriente é de em torno de 220 a 230 g/dia para homens e de 180 a 230 g/dia para mulheres. Para a definição da RDA, considerou-se um coeficiente de variação de 15%, respaldado na observação da variação da utilização da glicose pelo cérebro. Dessa forma, a RDA foi determinada em 130 g ao dia para adultos e idosos. Semelhante ao que ocorreu com as proteínas, não foram levantadas evi- dências capazes de fixar um limite para a ingestão de carboidratos. Contudo, 9Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos a IOM alerta para potenciais efeitos indesejados do consumo de uma dieta excessiva em carboidratos (que incluam açúcar e amido), problemas como cárie dentária, alterações de comportamento e, até mesmo, câncer podem ocorrer (MOREIRA et al., 2012; INSTITUTE OF MEDICINE et al., 2006). Atualmente, muito se tem discutido sobre o índice glicêmico dos alimentos. Com relação a esse assunto, a IOM admitiu como provável, que dietas com índice glicêmico menor possuam efeitos metabólicos benéficos, influenciando na prevenção de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e obesidade. Contudo, é importante ter em mente que nem sempre os resultados de estudos populacionais são coesos, e que a dificuldade em aferir com precisão o índice glicêmico dietético é um importante limitador dos resultados. Dessa forma, ainda é necessário que mais estudos descrevam precisamente a influência do índice glicêmico para o estabelecimento de recomendações à população em geral (MOREIRA et al., 2012). Lipídios: não houve estabelecimento de valores de EAR e RDA para lipídios — nem mesmo AI. Da mesma maneira, não foi possível fixar uma UL, visto a complexidade para a elaboração da estimativa de valor em que uma reação adversa, como por exemplo, a obesidade, pudesse ocorrer (MOREIRA et al., 2012; INSTITUTE OF MEDICINE et al., 2006). Algumas recomendações foram fixadas para ácidos graxos, com base na ingestão média da população norte-americana. Assim, há fixação de valores de AI para o ácido linoleico e para o ácido alfa linolênico, importantes para a cadeia inflamatória e composição de membranas celulares, respectivamente. A IOM ainda ressalta que não há qualquer benefício advindo do consumo de ácidos graxos saturados e trans, além de não serem necessários em nenhuma quantidade na dieta, pois ambos elevam o risco de doenças cardiovasculares. Desta forma, não há AI, RDA e UL para esses ácidos graxos, e orienta-se que a ingestão seja a mínima possível, contudo, destaca-se que alimentos ricos em ácidos graxos saturados também podem fornecer outros nutrientes importantes (MOREIRA et al., 2012). Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos10 AMDR A AMDR para proteínas foi estipulada na faixa de 10 a 15% da energia total da dieta, enquanto que para lipídios a faixa foi fixada em 20 a 35% da energia total da dieta, ao mesmo tempo que para o ácido graxo linoleico, a faixa fica entre 5 a 10%. Já, o ácido α-linolênico possui uma AMDR fixada em 0,6 a 1,2% da energia. Em relação aos carboidratos, os valores estabelecidos estão na faixa de 45 a 65% da energia total da dieta, além de uma recomendação para consumo de açúcares inferior a 25% da dieta. Este último valor foi baseado no fato de que, nos Estados Unidos, muitos micronutrientes são consumidos em bebidas ricas em açúcar de adição. Com isso, foi elaborada uma recomendação que limita o consumo deste tipo de açúcar, mas garante o consumo de micronutrientes presentes neste tipo de alimento (MOREIRA et al., 2012). Interpretação das DRIs Interpretar corretamente as informações fornecidas pelas DRIs é fundamental para o atendimento adequado de indivíduos ou de grupos. Este é um processo que deve conter os seguintes passos: 1. elaboração de registros precisos a respeito da ingestão alimentar; 2. escolha da DRI apropriada; 3. comparação dos valores. Elaboração dos registros precisos de ingestão alimentar É importante que você tenha em mente que está sendo tratada de toda inges- tão, isso inclui alimentos e suplementos. Você deve também estar atento para reconhecer os pontos de imprecisão dos registros, a omissão de dados e o fato de o consumo alimentar poder sofrer drásticas alterações de um dia para o outro. Por isso, é importante investigar, durante a avaliação nutricional, a variedade ou monotonia na escolha dos alimentos, bem como se há algum padrão que se repetedurante a semana, estações do ano e ocasiões especiais, enfim, como se comporta o apetite. Todos esses fatores são influenciados tanto por fatores intrínsecos do indivíduo, como por exemplo, flutuações hormonais, com por fatores extrín- secos, como ansiedade, mudanças de rotina, trabalho, férias, realização de 11Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos nova atividade física etc. Assim, é importante checar com o paciente como se dá sua rotina e quais são as suas alterações. Quanto maior a variabilidade entre os dias de ingestão, mais dias de ava- liação serão necessários para estimar-se uma média confiável de ingestão. Contudo, cabe considerar que o registro de consumo de três dias nesta semana será diferente de um registro de três dias da semana anterior — e os dois ainda serão diferentes da verdadeira ingestão usual. Por isso, a história alimentar pode induzir a uma taxa de erro menor na variabilidade intraindivíduo, porém, com o uso deste dado não se conseguirá mensurar o tamanho da margem de erro. Contudo, o item poderá ser avaliado, quando se conhecer a magnitude da variação intrapessoal do consumo do nutriente. Desta forma, acredita-se que uma média da ingestão, observada pelo próprio indivíduo, seja a estimativa mais adequada para a ingestão habitual de um nu- triente específico (INTERNATIONAL LIFE SCIENCES INSTITUTE, 2001). Escolha da DRI adequada Uma vez realizada a estimativa de ingestão do nutriente, é hora de escolher a referência adequada para realizar uma comparação correta. A informação sobre a necessidade individual é, quase sempre, rara e indisponível. Logo, mais uma vez, se recorrerá às estimativas: a EAR e seu coeficiente de variação (em torno de 10% para a maioria dos nutrientes) constituem bons parâmetros, é claro que a RDA foi concebida como alvo de ingestão individual também. Assim, quando o consumo do indivíduo excede o valor proposto pela RDA, a ingestão pode ser considerada adequada. Porém, é importante frisar, o con- trário não é verdadeiro. Isso significa que uma ingestão inferior ao indicado na RDA nem sempre será indicador de baixo consumo do nutriente. A explicação está nos parâmetros estatísticos que foram vistos no item anterior: para uma cobertura efetiva de toda a população, a RDA excede os valores necessários para suprir as necessidades da maioria dos indivíduos. Por esta razão, é que a simples comparação entre o valor de consumo do paciente com a RDA, pode levar a conclusões equivocadas, já que uma série de pessoas apresentarão ingestão usual inferior a recomendada pela RDA e, ainda assim, possuirão suas carências do nutriente plenamente atendidas. Para aqueles nutrientes em que EAR não estiver estabelecida, será utilizada a AI, lembrando que isso implica ainda mais limitações (INTERNATIONAL LIFE SCIENCES INSTITUTE, 2001). Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos12 Etapa final para comparação Finalmente, uma vez calculada a ingestão e escolhida qual a referência mais adequada, é preciso ainda realizar alguns cálculos para se estimar algum nível de adequação. Para começar, será calculada a diferença (chamada de D) entre a ingestão média do indivíduo (chamada de y) e a EAR para seu gênero e faixa etária. A equação ficará assim: D = y — EAR Se o resultado obtido for positivo e alto, é bastante provável que o indivíduo esteja com seu consumo adequado. Contudo, uma diferença grande e nega- tiva indica que a ingestão registrada foi bem menor do que o valor mediano recomendado, então, a probabilidade é de que a ingestão esteja insuficiente. Valores intermediários deixam a incerteza sobre a adequação da ingestão do nutriente. Esse método não poderá ser utilizado caso a distribuição das recomendações não seja normal. Como você percebeu, os extremos são mais fáceis de identificar. Agora, para as diferenças intermediárias, fica a dúvida sobre o quão grande ela deverá ser, para se poder afirmar que há deficiência na ingestão do nutriente. Para avaliar essa situação, uma série de cálculos podem ser realizados, e isso vai demandar algum conhecimento sobre estatística básica. Visando à praticidade, inúmeros profissionais, que se utilizam das DRIs, pensam que é pertinente considerar que a ingestão observada de um nutriente, abaixo da EAR, possui alta probabilidade de precisar ser otimizada, bem como valores de ingestão entre a EAR e a RDA. Dessa forma, apenas se a ingestão for avaliada por um alto número de dias, e na sua maior parte, ela estiver acima das RDAs ou se em um número menor de dias avaliados, a ingestão de nutrientes se der em níveis bem acima das RDAs, se poderá afirmar, com alto nível de confiança, que a ingestão está adequada (INTERNATIONAL LIFE SCIENCES INSTITUTE, 2001). 13Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos Utilização da AI Como você já sabe, a AI representa um valor de ingestão (não uma reco- mendação). Por isso, é razoável considerar que ela pode exceder o que seria a real (e desconhecida) necessidade da maioria dos indivíduos saudáveis, em um determinado estágio da vida. Sob esse ponto de vista, a AI guarda esta característica em comum com a RDA, podendo, inclusive, superar os valores de RDA, se eles fossem conhecidos. Devido às suas limitações, a única comparação que pode ser realizada, com o uso de uma AI, é verificar se a ingestão média do indivíduo encontra-se acima ou abaixo dela. Então, é importante que você perceba que agora se pode afirmar, com um certo nível de confiança, que quando um valor de ingestão está acima da AI, certamente, a ingestão estará adequada. No entanto, não se pode fazer o contrário, pois não será possível fazer a mesma coisa que foi feita com a EAR: calcular a diferença entre o consumido e a EAR e, ainda assim, poder calcular o risco da diferença obtida indicar inadequação. Isso ocorre porque a EAR não é determinada, justamente, quando não há dados acessíveis sobre a distribuição das necessidades da população. (INTERNATIONAL LIFE SCIENCES INSTITUTE, 2001) Interpretação da UL Cabe observar que o risco de ingestão excessiva existe, potencialmente, quando doses iguais ou superiores que as estabelecidas pelas UL são consumidas em grande número de dias. Valores próximos, porém, inferiores ao valor da UL, mesmo que por um grande número de dias, possuem grande probabilidade de serem seguros. Como você percebeu, os parâmetros devem ser utilizados conforme o objetivo a se alcançar. Para avaliar se os valores ingeridos ou prescritos de micronutrientes serão suficientes, sempre que disponível, serão usadas a EAR e a RDA e, na indisponibilidade delas, a AI. Para checar o risco de con- sumo excessivo, a UL. O mesmo se aplica aos macronutrientes: é observado, principalmente, se as proteínas estão adequadas à recomendação mínima e, depois, será verificado se as proporções de macronutrientes estão dentro das faixas recomendadas. Na sequência, é importante checar se os açúcares de adição não estão excedendo a faixa recomendada e os ácidos graxos essen- ciais estão, minimamente, adequados (INTERNATIONAL LIFE SCIENCES INSTITUTE, 2001). Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos14 Ao calcular um recordatório alimentar, referido por um paciente, os seguintes valores foram encontrados: Calorias totais: 1850 kcal Proteínas: 65 g de proteína / 260 kcal Carboidratos: 740 kcal Lipídios: 850 kcal Trata-se de um paciente adulto, do sexo feminino, cujo peso atual é 60 kg. Dessa forma, pode-se analisar: Proteínas: 1,08 g/kg e 14,05% das calorias totais. Carboidratos: 40% das calorias totais Lipídios: 45,94% das calorias totais É concluído que o consumo de proteínas está adequado quanto à quantidade de proteína por quilograma de peso. A proporção, embora próxima do limite superior de adequação, ainda se encontra na faixa desejada. O consumo de carboidratos está na faixa desejada, porém, o de lipídios excede esse valor. Você pode observar que o valor de 40% de carboidratosé obtido às custas do aumento da proporção de proteínas e lipídios. A primeira, quase ultrapassando a faixa desejada e a segunda, já ultrapassando esse limite. Apenas com estes dados, você já pode concluir que este dia alimentar reflete a rotina da paciente e seus hábitos alimentares precisam ser avaliados com cuidado. Só com estas informações, você poderá direcionar o seu atendimento para observar com atenção a qualidade dos lipídios ingeridos e checar se não há consumo desne- cessário de gorduras trans e saturadas. Também poderá conferir se está há alguma restrição de carboidratos e, em caso positivo, quais alimentos estão sendo evitados e se eles podemser fonte de micronutrientes de interesse. Por isso, a análise da distribuição de macronutrientes é essencial para um eficaz atendimento nutricional. Minimização de erro na avaliação de adequação do nutriente para adultos e idosos Antes de avaliar a adequação da ingestão de um nutriente, é preciso pensar em um método apropriado para captar as informações, isso é ainda mais impor- tante no atendimento de idosos. Certifique-se de que o paciente compreendeu 15Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos os questionamentos e tem habilidades cognitivas suficientes para realizar as tarefas solicitadas ou se algum familiar poderá ajudar no registro alimentar. Instrumentos físicos ou ilustrações que ajudem o indivíduo a dimensionar as porções consumidas, também podem ser bons auxiliares, além de aumen- tar a eficácia da investigação de consumo de alimentos. Esteja atento para transições alimentares de curto prazo: viagens, doenças, férias etc. A exceção não deverá entrar como rotina. Lembre-se de examinar se há medicações utilizadas, e pesquise se existe interferência na absorção ou metabolismo de algum nutriente. Ainda, ao atender idosos ou indivíduos com dificuldades de deglutição, checar se há mudança de consistência na dieta e, se isso leva ao consumo de alimentos mais diluídos, como em sopas ou vitaminas. Isso permite que você ajuste a quantidade de alimentos realmente consumido pelo paciente (INTERNATIONAL LIFE SCIENCES INSTITUTE, 2001). Biodisponibilidade de nutrientes O consumo, teoricamente, adequado de um nutriente, não é garantia de que a ab- sorção se dará nos níveis esperados. Outros elementos disputando o mesmo sítio de absorção intestinal e outros mecanismos bioquímicos estão envolvidos em processos que podem diminuir a disponibilidade de nutrientes. INTERNATIONAL LIFE SCIENCES INSTITUTE. Usos e aplicações das Dietary Reference Intakes DRIs. São Paulo: ILSI, 2001. Disponível em: . Acesso em: 05 out. 2018. INSTITUTE OF MEDICINE et al. Dietary reference intakes: for energy, carbohydrate, fiber, fat, fatty acids, cholesterol, protein, and amino acids (macronutrients). Washington, DC: The National Academies Press, 2002. MOREIRA, A. P. B. et al. Evolução e interpretação das recomendações nutricionais para os macronutrientes. Revista Brasileira de Nutrição Clínica, v. 27, n. 1, p. 51-59, 2012. Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos16 PADOVANI, R. M. et al. Dietary reference intakes: aplicabilidade das tabelas em estudos nutricionais. Revista Nutrição, v. 19, n. 6, p. 741-760, dez. 2006. Disponível em: . Acesso em: 05 out. 2018. Leitura recomendada CALLOU, K. R. de A.; SILVA, M. C. F. da. Biodisponibilidade de micronutrientes e compos- tos bioativos: aspectos atuais. Revista Eletrônica da Estácio Recife, v. 2, n. 1, p. 1-15, 2016. 17Recomendações de macro e micronutrientes: adultos e idosos Conteúdo: