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e-Book 1
Larissa Lisboa
LITERATURAS 
AFRICANAS EM LÍNGUA 
PORTUGUESA
Sumário
INTRODUÇÃO ������������������������������������������������� 3
DESCONSTRUIR ÁFRICA: PRIMEIROS 
CAMINHOS REFLEXIVOS ������������������������������� 7
Conhecendo o continente africano�������������������������������������� 8
Desconstruindo estereótipos ��������������������������������������������� 13
OS PAÍSES AFRICANOS DE LÍNGUA 
PORTUGUESA ����������������������������������������������18
Um pouco das suas histórias ��������������������������������������������� 20
Novas abordagens: a teoria pós-colonial �������������������������� 30
CONSIDERAÇÕES FINAIS ����������������������������36
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS & 
CONSULTADAS ��������������������������������������������37
3
INTRODUÇÃO
Nos últimos vinte anos, no Brasil, houve um au-
mento da procura por escritores originários do 
continente africano� Esse interesse, todavia, não 
é resultado do acaso, mas sim de um contexto 
histórico que se inicia no final da década de 1970, 
nos processos de redemocratização do nosso 
país� Naquele período, foram criadas diretrizes 
que reformulariam o ensino a partir de diversos 
preceitos éticos, discutindo, inclusive, a importância 
da identidade afrodescendente para a formação 
da sociedade brasileira� Dessa forma, houve uma 
busca, também, pelas escritas africanas como 
forma de construir essa identidade, e a primeira 
disciplina de literaturas africanas de língua portu-
guesa, em uma universidade, foi inaugurada já no 
final da década de 1970.
Contudo, apenas a partir de duas leis específicas, 
criadas no início deste século, é que os currículos 
brasileiros, de fato, inseriram as literaturas africanas 
de língua portuguesa tanto no ensino básico como 
no ensino superior. As leis 10.639/03 (obrigato-
riedade do ensino e história da cultura africana e 
afro-brasileira) e 11.645/08 (reformula a anterior, 
inserindo a questão indígena) foram fundamentais 
para que um diálogo entre as relações étnico-raciais 
no Brasil e no continente africano fosse construído� 
4
A partir delas, o mercado editorial se expandiu, 
editoras brasileiras passaram a publicar obras de 
autores africanos (não apenas de língua portugue-
sa) e alguns desses textos se tornaram referência 
no Programa Nacional do Livro e Leitura (PNLL), 
além do aumento de disciplinas especializadas nos 
cursos superiores sobre o assunto, possibilitando 
que essas discussões fossem “descobertas” pelo 
público brasileiro�
A disciplina Literaturas Africanas de Língua Portugue-
sa está, portanto, inserida nesse contexto político� 
Todavia, estudá-la vai além de uma compreensão 
dialógica entre a África e o Brasil, ou mesmo en-
tre a África, o Brasil e Portugal� É preciso reiterar 
que as discussões propostas nesta disciplina 
possibilitarão a você não apenas o conhecimento 
sobre determinadas obras, mas sim uma descons-
trução de uma visão estereotipada do continente 
africano, pautando-se nas particulares dos cinco 
países africanos de língua portuguesa (Cabo Ver-
de, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola e 
Moçambique), através de suas histórias oficiais 
e de suas historiografias literárias. Como disse o 
escritor moçambicano Mia Couto, em seu ensaio 
“Que África escreve o escritor africano?” (2005), 
é preciso ir além de uma visão redutora sobre o 
escritor africano e sua obra artística, não apenas 
inserindo-o na perspectiva racial, por exemplo�
5
A crítica literária tem priorizado o estudo comparado 
dessas literaturas, haja vista a recente construção 
nacional de todos esses países, conquistando suas 
independências em 1975. Porém, isso não quer 
dizer que essas literaturas só existam a partir de 
1975. Pelo contrário, ainda sob o regime colonial 
português houve uma intensa produção literária 
veiculada, principalmente na imprensa� Por isso, a 
necessidade de um diálogo entre esses territórios 
e a produção literária portuguesa�
A presente disciplina terá como fio condutor, ao 
longo de todas as discussões propostas, refle-
xões sobre uma teoria que tensiona os preceitos 
hegemônicos e coloniais, além do lugar dessas 
literaturas: a teoria pós-colonial� Essa teoria propõe 
que algumas questões sejam revisitadas, como a 
necessidade de um sistema literário baseado ape-
nas nos modelos eurocêntricos, a ideia de cânone 
literário, a visibilidade do discurso do “outro”, as re-
alidades periféricas e as tensões colocadas nesses 
discursos, através de novas construções estéticas, 
seja antes ou depois da colonização, pois a teoria 
pós-colonial não tem a ver, necessariamente, com 
uma reflexão cronológica. A partir dela, você terá 
suficientes ferramentas teóricas para construir 
leituras críticas dos textos literários selecionados�
Serão abordadas as experiências literárias desde o 
início do século 20 até as produções mais contem-
6
porâneas� As escritas do período colonial tratarão 
da construção dos discursos revolucionários para a 
formação dos nacionalismos africanos. Após 1975, 
os diferentes projetos literários serão estudados, 
os quais demonstravam a utópica esperança das 
nações libertas, como também os seus primeiros 
desencantos, relacionados, principalmente, aos 
contextos de guerra civis que se desenrolaram em 
Angola e Moçambique� Também serão abordadas 
as multiplicidades literárias que surgiram a partir 
dos anos 2000, com um maior número de editoras 
nesses países, além de muitos escritores africanos 
que publicam em editoras portuguesas e brasileiras, 
visibilizando, cada vez mais, as suas escritas� Alguns 
nomes talvez já sejam conhecidos por você, como 
Pepetela, Ondjaki ou Paulina Chiziane� Outros, ainda 
que menos conhecidos pelo público brasileiro, não 
deixam de ter a sua importância, como Paula Tavares, 
Germano de Almeida, Odete Semedo, Vera Duarte, 
Ungulani Ba ka khosa, Rui Duarte de Carvalho, Evel 
Rocha, Noémia de Sousa e tantos outros�
Portanto, convidamos você a descobrir os países 
africanos de língua portuguesa e suas literaturas, 
desconstruindo, assim, possíveis visões distor-
cidas sobre essas realidades. Afinal, como dizia 
o escritor e dirigente político guineense Amílcar 
Cabral, junto ao nosso educador Paulo Freire, é 
preciso descolonizar as mentes�
77
DESCONSTRUIR ÁFRICA: 
PRIMEIROS CAMINHOS 
REFLEXIVOS
Para iniciarmos nossos estudos sobre as litera-
turas africanas de língua portuguesa é preciso, 
anteriormente, construirmos algumas reflexões 
sobre o continente africano� Por isso, convidamos 
você a realizar um exercício reflexivo:
Observe as fotografias atentamente. Você reco-
nhece alguma dessas pessoas? Se sim, quem são 
elas? Se não, observando cada uma, você poderia 
supor suas origens?
Figura 1: Escritores africanos�
Fonte: Wikipedia�
Difícil, não? Para nós, brasileiros, a origem de cada 
pessoa está muito atrelada ao fenótipo� Provavel-
88
mente, você supôs que as pessoas negras poderiam 
ser originárias de algum país africano, enquanto as 
pessoas brancas, de países europeus, por exemplo�
A verdade é que todas elas são africanas! Você 
verá que, embora todos sejam originários de um 
mesmo continente, essas pessoas são escritores e 
escritoras com nacionalidades diversas e escrevem 
em língua portuguesa� São eles: Paulinha Chiziane, 
Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Isabela Figuei-
redo, Vera Duarte, Luandino Vieira, Ungulani Ba Ka 
Khosa e Ondjaki.
Essa importante discussão fará parte deste e-book� 
Para que você possa compreender as obras ar-
tísticas literárias e seus autores, é preciso, antes, 
desconstruir alguns olhares sobre o continente 
africano e suas diversidades�
CONHECENDO O CONTINENTE 
AFRICANO
O Brasil ainda conhece pouco sobre a África, 
infelizmente� Fazemos referência a esse conti-
nente quando refletimos sobre o nosso passado 
histórico, principalmente no período colonial, e 
também sobre as manifestações culturais que 
dialogam com essas experiências� Porém, pouco 
realmente conhecemos sobre sua história, sua 
geografia, suas regiões e culturas, além de todaa diversidade que se apresenta como um quadro 
99
complexo� Nesse sentido, vamos propor a você 
outro exercício reflexivo.
Você encontrará abaixo o mapa contemporâneo do 
continente africano com os seus limites territoriais, 
contudo, sem os nomes dos países� O exercício é 
que você aponte no mapa os territórios africanos 
que você conhece� Será que serão muitos?
Figura 2: Mapa da África sem os nomes dos países�
Fonte: Wikipedia�
1010
Agora, vamos comparar os seus palpites com o 
mapa contemporâneo atualizado, com todos os 
54 países, além dos 7 territórios independentes. 
E então, conseguiu acertar muitos deles?
Figura 3: Mapa da África�
O C E A N O
A T L Â N T I C O
O C E A N O
Í N D I C O
MAR MEDITERRÂNEO
M
AR
 VER
M
ELH
O
GOLFO DE ÁDEN
Lago
Vitória
MARROCOS
ARGÉLIA
LÍBIA
EGITO
MAURITÂNIA
MALI NÍGER
CHADE
SUDÃO
SUDÃO
DO SUL
ETIÓPIA
REPÚBLICA
CENTRO-AFRICANA
NIGÉRIA
CONGO-
KINSHASA
TANZÂNIA
QUÊNIA
ANGOLA
ZÂMBIA
BOTSUANA
NAMÍBIA
ÁFRICA
DO SUL
ZIMBÁBUE
GABÃO
CA
M
AR
Õ
ES
UGANDA
GUINÉ-
CONACRI
COSTA
DO 
MARFIM GA
NA
CO
NG
O
-B
RA
ZZ
AV
IL
LE
SENEGAL
BURKINA
FASO
LIBÉRIA
GÂMBIA
GUINÉ-BISSAU
GUINÉ EQUATORIAL
SÃO TOMÉ
E PRÍNCIPE
SERRA LEOA
1
2
3
4
5
6
7
8
SOMÁLIA
JIBUTI
MAURÍCIA
M
AD
AG
AS
CA
R
M
OÇAM
BI
QUE
COMORES
9
REUNIÃO
(França)
CABO VERDE
ILHAS CANÁRIAS
(Espanha)
SAARA 
OCIDENTAL
(Reivindicado
pelo Marrocos)
TUNÍSIA
Fonte: Wikipedia�
Provavelmente, você deve ter uma ideia vaga de 
onde fica o Egito, a África do Sul, o Marrocos ou 
Angola� A maior parte dos brasileiros, em verdade, 
1111
desconhece por completo o mapa do continente 
africano. E esse desconhecimento geográfico re-
flete no desconhecimento como um todo sobre a 
África. Vamos, então, mudar esse cenário?
O continente africano é uma extensão territorial 
com mais de 30 milhões de quilômetros quadrados, 
com territórios muito diversos e mais de 1 bilhão de 
habitantes, que falam mais de mil línguas! Desse 
modo, você consegue perceber a complexidade 
de refletir sobre ele?
A divisão geográfica que você observou nos mapas 
tem relação com o contexto colonial que quase 
todo o continente vivenciou� A partilha do território 
africano aconteceu no século 19, com a explora-
ção massiva por alguns países europeus, como a 
Inglaterra e a França� No século 20, uma série de 
mudanças ocorreu, graças às independências de 
grande parte desses territórios, mas, atualmente, 
ainda existem impasses, como a reivindicação 
de alguns locais por autonomias, a exemplo de 
Cabinda, um pequeno território ao norte de Angola�
Os estudiosos sobre o continente africano geralmen-
te dividem esse grande território em cinco partes:
1212
Figura 4: Mapa da subdivisão do continente africano�
Fonte: Wikipedia��
1) África setentrional (em azul na Figura 4), ao 
norte do continente (o Egito está neste território);
2) África ocidental (em verde na Figura 4), à parte 
oeste, com alguns países banhados pelo oceano 
atlântico e outros com uma porção do deserto do 
Saara (o Mali está localizado neste território);
1313
3) África central (em rosa na Figura 4), ao centro 
do continente (a República Democrática do Congo, 
outro importante país, faz parte deste território);
4) África oriental (em amarelo na Figura 4), à parte 
leste, banhada pelo oceano índico (Madagascar, 
país considerado a quarta maior ilha do mundo, 
está localizado neste território);
5) África austral (em vermelho na Figura 4), ao sul 
do continente, banhada tanto pelo oceano índico 
como pelo atlântico (a África do Sul é o maior país 
deste território)�
Ainda, há outra classificação para esses territórios, 
a partir da divisão étnica e religiosa� Nessa, sub-
divide-se o continente africano em 2 categorias: 
África Setentrional, formada pelos 8 países da 
parte norte (também considerada como a “África 
branca”), e a África Subsaariana, formada pelos 
outros 44 países do continente (a “África negra”).
DESCONSTRUINDO ESTEREÓTIPOS
Grande parte das informações veiculadas sobre o 
continente africano trazem muitas imagens nega-
tivas� Se você pesquisar rapidamente, perceberá 
que muitas dessas notícias e reportagens estão 
relacionadas com o que o cientista político moçam-
bicano Elísio Macamo reflete sobre o problema da 
1414
“falta” (MACAMO, 2016); o que falta ao continente 
africano, não o que ele oferece�
É preciso lembrar que as grandes agências in-
ternacionais de notícias estão ligadas a grandes 
empresas dos blocos hegemônicos� Logo, há 
um interesse em reiterar essa “falta” como um 
processo de continuidade de exploração, o que 
muitos teóricos chamam de “neocolonialismo” no 
mundo globalizado� Porém, há outros discursos que 
também trazem as experiências desses territórios, 
observando as suas potencialidades�
A geógrafa moçambicana Inês Macamo (2009), 
por exemplo, alerta-nos para o desenvolvimento 
científico no continente e a chamada “exportação 
de cérebros”: imigrantes africanos que chegam a 
outros países não na condição de refugiados, mas 
sim como profissionais qualificados.
Além disso, dados de 2017 apontaram que das 
20 economias que mais cresceram no mundo, 5 
estavam no continente africano� Há alguns países, 
como a África do Sul, a Líbia, a Argélia, o Gabão, o 
Egito e a Tunísia, com índices de desenvolvimento 
humano (IDH) considerados altos. Enquanto Sei-
chelles, um país insular no oceano índico, tem o 
IDH muito alto, ocupando a posição 63 no ranking 
entre todos os países do globo, com o maior pro-
duto interno bruto (PIB) do continente africano.
1515
No âmbito cultural, há uma enorme variedade de 
expressões ao longo de todo o continente, o que 
muito representa a riqueza criativa desses diver-
sos países� A Nigéria, por exemplo, é o país com a 
maior produção cinematográfica do continente e o 
terceiro maior do mundo, ficando atrás apenas de 
Hollywood e Bollywood (o cinema indiano). Chamada 
de “Nollywood”, a produção interna distribui seus 
filmes em vídeos, visto que o país possui poucas 
salas de cinema� Contudo, há uma estimativa de 
mais de 1000 vídeos feitos por ano e, ainda que 
a distribuição seja informal, não deixa de ser um 
impulso cultural relevante ao continente�
Além do cinema, as artes plásticas foram e são 
importantes expressões culturais, seja através 
dos interessantes caixões decorativos feitos em 
Gana, da inovadora arte em tecido no Mali, da arte 
reciclável dos dejetos de guerra em Moçambique, 
do grafite no Quênia etc. No contexto musical, em 
Burkina Faso há um dos mais importantes museus 
sobre a música tradicional africana, contudo, não 
é preciso visitar um museu para conhecê-la, visto 
que há particulares estilos musicais e instrumen-
tos específicos de outros territórios que marcam 
as experiências da cultura musical tradicional, em 
diálogo com as manifestações mais contemporâ-
neas, como a mbira, no Zimbábue�
1616
A diversidade natural do continente é outra caracte-
rística que contribui para a construção de imagens 
positivas, uma vez que oferece uma infinidade de 
atrações ambientais� Atualmente, com o chamado 
“boom das unidades de conservação e do ecoturis-
mo” (AFREAKA, 2017, p.25), há inúmeras atrações 
naturais; desde passeios com os povos Bérbères 
no deserto do Saara, no Marrocos, museus a céu 
aberto no Zimbábue e safaris na África do Sul a 
vulcões e gorilas no Monte Nyiragongo, no Congo� 
Para quem é menos aventureiro, há uma intensa 
atividade cosmopolita ao longo de todo o extenso 
território, afinal, o continente africano conta com 
cidades de alta densidade populacional, oferecen-
do aos turistas uma diversidade de atrações em 
suas cidades, como em Cape Town, na África do 
Sul, Luanda, em Angola, Marrakesh, no Marrocos, 
Alexandria, no Egito, etc�
Ainda que o continente africano tenha inúmeros 
problemas em grande parte de seu território, refle-
xo principalmente dos séculos de colonialismo e 
exploração europeia, compreende-se, portanto, que 
a sua variedade artística, as potências científicas 
e seus crescimentoseconômicos têm favorecido, 
cada vez mais, a desconstrução da imagem da 
“falta”, observando, também, como essas experi-
ências bem-sucedidas são um convite a uma nova 
1717
visão sobre este território, conhecendo a fundo as 
suas particularidades�
Certamente, a literatura, como expressão cultural 
que tem a palavra escrita ou oralizada como arte 
maior, não estaria de fora dessa desconstrução 
reflexiva.
Conheça a coleção da Unesco História Geral da África� 
Uma série de livros com os maiores especialistas do 
continente africano refletindo sobre a história, a cultura, 
a geografia e as questões contemporâneas. Disponível 
para download em: portal�mec�gov�br�
Conheça o projeto Afreaka, em parceria com a prefeitura 
de São Paulo, que conta com uma coleção intitulada 
África sem estereótipos� Disponível em: www�afreaka�
com�br�
Saiba mais sobre o continente africano como uma das 
principais economias do mundo em: www�bbc�com�
SAIBA MAIS
http://portal.mec.gov.br/?option=com_content&view=article&id=16146
http://www.afreaka.com.br/notas/afreaka-e-educacao-uma-abordagem-sem-estereotipos-para-tratar-de-afr
http://www.afreaka.com.br/notas/afreaka-e-educacao-uma-abordagem-sem-estereotipos-para-tratar-de-afr
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-40603081
18
OS PAÍSES AFRICANOS DE 
LÍNGUA PORTUGUESA
Para discutirmos as literaturas africanas de língua 
portuguesa precisamos, também, conhecer um 
pouco de cada um desses 5 países� Assim, con-
vidamos você a fazer mais um exercício reflexivo: 
desses 5 territórios, Cabo Verde, Guiné-Bissau, 
São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, você 
saberia dizer algo sobre eles, como suas histórias, 
culturas, economias etc�?
Bem, esse exercício também não é simples, visto 
que pouco sabemos sobre esses países, ainda 
que todos tenham suas histórias atravessadas 
pela história brasileira, seja através do processo de 
colonização portuguesa, do tráfico de africanos na 
condição de escravizados para o Brasil, ou mesmo 
dos contemporâneos intercâmbios culturais�
Nas décadas de 50 e 60 do século 20, por exemplo, 
a literatura brasileira influenciou muitos intelectuais 
africanos, principalmente com as obras do baiano 
Jorge Amado� Muitos desses países receberam e 
recebem a influência brasileira em diversos segmen-
tos, mas não apenas no âmbito literário� Inclusive, 
nem todas elas são atravessadas pela perspectiva 
positiva de intercâmbio� Nessas últimas décadas, 
as novelas brasileiras, por exemplo, são muito 
19
vistas pelos africanos e, claro, recebendo duras 
críticas por esses trânsitos da cultura de massa� 
Além desses exemplos, a religião pentecostal e 
as igrejas evangélicas brasileiras também estão 
presentes, cada vez mais, nesses países, muitas 
vezes, resultando em alguns conflitos, seja pela 
interferência nas tradições religiosas locais, como 
na imposição de culturas estrangeiras�
O contrário, contudo, pouco acontece no Brasil� 
Poucos são os escritores africanos de língua 
portuguesa lidos pelo público brasileiro e pouco 
é sabido das produções culturais desses países� 
Enquanto Portugal recebe mais fortemente as 
culturas africanas, principalmente através das 
músicas cabo-verdiana e angolana, por exemplo, 
o brasileiro pouco as conhece� Quanto à cultura 
religiosa, ainda que existam intercâmbios entre as 
religiões de matrizes africanas, como o Candom-
blé e a Umbanda junto às religiões africanas, os 
preconceitos e estereótipos dessas manifestações 
sincréticas no Brasil desfavorecem o interesse 
em conhecer as raízes africanas dessas culturas 
tradicionais�
Nesse sentido, conhecer as literaturas africanas 
de língua portuguesa é, acima de tudo, conhecer 
um pouco de cada um desses 5 países� Ainda que 
todos eles tenham suas histórias recentes em 
comum, dado o processo de colonização, descolo-
20
nização e exercício de construção de seus estados 
nacionais, cada país tem as suas particularidades 
e experiências contemporâneas, e essas diferen-
ças também são observáveis nos textos literários, 
principalmente nas obras mais recentes�
UM POUCO DAS SUAS HISTÓRIAS
Ainda que os 5 países africanos de língua portu-
guesa tenham “nascido” em 1974 e 1975 (Guiné-
-Bissau oficializou a sua independência em 1974, 
enquanto o restante em 1975), suas histórias são 
muito mais antigas (COSTA & SILVA, 2011).
Considerados, desde o século 16, como “territórios 
ultramarinos” (terminologia para caracterizar os 
espaços colonizados por Portugal), o processo 
de colonização de cada um desses países foi 
construído de forma diversificada. O território 
angolano, por exemplo, antes mesmo da chegada 
dos portugueses, já contava com uma importância 
no continente� Como parte do antigo Império do 
Congo, esse extenso território mantinha uma in-
tensa comercialização de mercadorias e pessoas� 
Com a chegada dos portugueses, acordos foram 
feitos, mas inicialmente não se deu um processo de 
colonização efetivo� Por isso, é nesse período que 
se conhece a história da Rainha Nzinga, conhecida 
como uma figura feminina de poder do império, 
haja vista suas negociações com os portugueses�
21
Figura 5: Desenho da Rainha Nzinga�
Fonte: Wikipedia�
Durante o período efetivo da colonização, Angola 
foi um dos territórios africanos mais explorados, 
e diversas cidades foram criadas� Algumas benes-
ses foram possíveis, certamente, a exemplo do 
22
surgimento de gráficas, as quais possibilitaram o 
início da imprensa, mas apenas no século 19. Ao 
longo do século 20, a Guerra pela Independência 
(1961-1974) foi importantíssima para a indepen-
dência e formação do estado nacional� Contudo, a 
Guerra Civil (1975-2002) que se sucedeu arrasou 
o país, desestabilizando sua economia� Ainda se 
recuperando dos efeitos da guerra, Angola é o ter-
ritório de língua portuguesa com o maior número 
de investimentos no mercado financeiro, visto 
contar com jazidas de diamante, além de poços 
de petróleo� O mercado também se aquece devido 
aos investimentos parceiros com a China� Mas isso 
não quer dizer, necessariamente, uma distribuição 
econômica e social melhor para todos os seus ci-
dadãos, pelo contrário� Angola tem um alto índice 
de pobreza e uma das maiores concentrações de 
renda do mundo�
Quanto à perspectiva cultural, o país conta com 
inúmeros artistas que visibilizam suas expressões 
ao longo do país e em territórios estrangeiros� O 
estilo de dança Kuduro, por exemplo, ultrapassou 
a sua geografia, chegando até mesmo aqui no 
Brasil, quando fez parte de uma trilha sonora de 
novela, enquanto o rap angolano faz muito sucesso 
em Portugal� No cenário literário, como veremos, 
o país conta com os principais escritores, sendo, 
portanto, referência aos estudos literários africanos�
23
Cabo Verde é exemplo completamente distinto 
de Angola� Dentre os países africanos de língua 
portuguesa, esse é o único com um processo de 
colonização particular, visto que ainda no século 
17 já era possível encontrar grupos privilegiados 
de negros e mestiços� Além disso, o arquipélago 
fora pouco habitado até o século 19 pela sua 
precária condição climática, tendo pouquíssimas 
chuvas ao longo de anos e um solo improdutivo, 
devido ao magma vulcânico� Atualmente, o país 
tem certa estabilidade econômica e social e con-
ta com uma série de intelectuais e artistas que 
levam a cultura cabo-verdiana e a língua crioula 
para diversos lugares� Em contrapartida, é o ter-
ritório de língua portuguesa com o maior número 
de imigrantes, demonstrando que os problemas 
ainda existem�
No âmbito cultural, Cabo Verde conta com um 
presidente escritor, Jorge Carlos Fonseca, que tem 
como uma das prioridades políticas a cultura cabo-
-verdiana. Logo, o país investe em financiamentos 
internos e estrangeiros que garantem ao pequeno 
arquipélago grande visibilidade artística� No cenário 
fonográfico, por exemplo, cantoras como Cesária 
Évora foram fundamentais para a circulação inter-
nacional de um estilo musical particular, a morna� 
Já com um estilo mais contemporâneo e híbrido,a cantora Mayra Andrade faz sucesso em muitos 
24
países, inclusive no Brasil� No cenário literário, Cabo 
Verde conta com um seleto grupo de escritores 
que visibilizam suas literaturas, principalmente 
em Portugal, haja vista haver nesse país uma co-
munidade migrante considerável (ARENAS, 2019).
Guiné-Bissau é um pequeno país na parte conti-
nental da África Ocidental e está mais próximo 
geograficamente de Cabo Verde. Contudo, a sua 
relação com os países de fronteira traz caracte-
rísticas particulares a ele� O território fez parte do 
antigo Império do Mali e do Reino de Gabu, e teve 
uma colonização portuguesa efetiva apenas a 
partir do século 19, como entreposto de escravos 
e fortificação militar. Durante o período da Guerra 
de Libertação Nacional (1963-1974), teve figuras 
protagonistas fundamentais para a construção 
do Nacionalismo Africano em todos os países de 
língua portuguesa, como Amílcar Cabral, e uma 
relação de acordos e união coletiva de luta com 
Cabo Verde (VILLEN, 2013). No pós-independência, 
todavia, as benesses não se mantiveram� O país 
atualmente conta com uma precária economia, 
com inúmeros problemas políticos e sociais, que 
dificultam o seu crescimento.
25
No cenário cultural, o país tenta resgatar as suas 
culturas locais através de trabalhos artísticos que 
dialogam a cultura estrangeira com as culturas 
tradicionais, a exemplo de publicações bilíngues 
a partir de textos em português junto ao crioulo 
guineense (SEMEDO, 2011).
São Tomé e Príncipe também é um arquipélago, 
como Cabo Verde. Tornando-se um entreposto 
de escoamento de produtos e pessoas, durante a 
colonização, o cultivo inicial de cana-de-açúcar foi 
a principal economia do território, estagnando-se 
devido ao mercado brasileiro� Posteriormente, o 
cultivo de cacau, importante produto de expor-
tação, tornou-se o carro-chefe de sua economia, 
inclusive atualmente� As suas duas ilhas, São 
Tomé e Príncipe, eram temidas por grande parte 
das pessoas escravizadas durante o século 19, e 
esse característica se manteve até o fim da co-
lonização, por conta dos presídios e campos de 
trabalho forçado� Atualmente, com uma economia 
relativamente estável, São Tomé e Príncipe conta 
com problemáticas relacionadas à sua construção 
étnica, nos conflitos entre os povos Forro, Angolares 
e Principenses (MATA, 1993).
26
O teatro é uma das manifestações artísticas mais 
importantes quanto à cultura contemporânea do 
país� Os teatros de rua, como o Auto do Floripes, 
congregam não apenas o desenvolvimento cênico, 
como também as manifestações carnavalescas� 
Quanto à dança, o estilo congo, também conhecido 
aqui no Brasil, é uma das marcas culturais de São 
Tomé e Príncipe�
Moçambique é o único país que fora colônia por-
tuguesa na margem índica do continente africano� 
Como esse território era muito mais distante de 
Portugal, geograficamente, a Coroa Portuguesa não 
o ocupou até o século 19, apenas criando alguns 
portos de navegação� Contudo, com as investidas 
inglesa e alemã, na tentativa de tomada do lugar, 
Portugal iniciou o processo de ocupação� Por 
isso, ainda no século 19 se veiculou na imprensa 
portuguesa os conflitos com grupos originários 
do território� O maior deles, o Império de Gaza, 
com o imperador Ngungunhane, que lutou por 
décadas contra os portugueses, sendo vencido 
no final do século.
27
Figura 6: Ngungunhane, o último imperador do Império de Gaza� 
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ngungunhane
Durante o século 20, Moçambique passou por inú-
meras transformações relacionadas ao desenvol-
vimento das cidades coloniais, aos processos de 
28
independência e às gestões democráticas pós-1975, 
em meio à Guerra Civil (1975-1992). Atualmente, 
o país enfrenta diversos desafios relacionados à 
sua condição climática, longos períodos de seca 
em determinados territórios e grandes quantidades 
de chuva em outros�
Quanto à produção cultural, a diversidade regio-
nal, étnica e religiosa possibilita ao país uma di-
versidade artística� Seja no teatro e na dança, na 
união do estilo da marrabenta com questões que 
envolvem o novo homem pós-1975, a exemplo dos 
trabalhos artísticos do bailarino Panaibra Gabriel, 
seja nas artes plásticas, com o renomado artista 
Malangatana, ou mesmo nas expressões literárias, 
a exemplo da visibilidade do escritor Mia Couto, 
Moçambique é um dos principais países africanos 
de língua portuguesa que disseminam suas culturas 
para além do continente�
Certamente, essas questões são pontuais e ape-
nas ilustram a você a complexidade de se pensar 
sobre esses cinco países tão diversos em suas 
geografias, histórias e processos culturais. Nesse 
sentido, esperamos que as poucas questões que 
foram colocadas, inicialmente, instiguem o seu 
interesse em conhecer mais sobre eles, compreen-
dendo, assim, a importância de se conhecer suas 
particularidades para entender as suas literaturas�
29
Saiba mais sobre os 5 países africanos de língua por-
tuguesa no site da Comunidade dos países de língua 
portuguesa: www�cplp�org�
O Instituto Camões é uma das mais importantes institui-
ções que promovem intercâmbios culturais e acadêmicos 
entre todos os países de língua portuguesa. Vale a pena 
conferir o seu site: https://www.instituto-camoes.pt/
Conheça algumas expressões artísticas da música 
africana:
Kuduro – Daddy Kall (Angola) e Latino (Brasil)
https://www.youtube.com/watch?v=com8zsb73aY
Morna – Cesária Évora (Cabo Verde)
https://www.youtube.com/watch?v=ERYY8GJ-i0I
Mayra Andrade (Cabo Verde)
https://www.youtube.com/watch?v=nTrtasaAO1A
Vanda Mãe Grande (Angola)
https://www.youtube.com/watch?v=CzVcLz1Y6g4
Érico Daro (Guiné-Bissau)
https://www.youtube.com/watch?v=SQdMMh1QsQY
Marllen (Moçambique)
https://www.youtube.com/watch?v=2l4zHqZmn8Y&lis-
t=PLW_A2a5tteuRczChtyb963MEE_mPYWQ3j
Bodon Culu (São Tomé e Príncipe)
https://www.youtube.com/watch?v=6bjjQHj2IC0
SAIBA MAIS
https://www.cplp.org/
https://www.youtube.com/watch?v=com8zsb73aY
https://www.youtube.com/watch?v=ERYY8GJ-i0I
https://www.youtube.com/watch?v=nTrtasaAO1A
https://www.youtube.com/watch?v=CzVcLz1Y6g4
https://www.youtube.com/watch?v=SQdMMh1QsQY
https://www.youtube.com/watch?v=2l4zHqZmn8Y&list=PLW_A2a5tteuRczChtyb963MEE_mPYWQ3j
https://www.youtube.com/watch?v=2l4zHqZmn8Y&list=PLW_A2a5tteuRczChtyb963MEE_mPYWQ3j
https://www.youtube.com/watch?v=6bjjQHj2IC0
30
NOVAS ABORDAGENS: A TEORIA 
PÓS-COLONIAL
Figura 7: A primeira missa no Brasil, de Paula Rego (1993).
Fonte: http://poscolonial.dlc.ua.pt/P_Inicio.aspx�
Os estudos críticos mais contemporâneos têm 
buscado teorias e terminologias específicas para 
abarcar a gama de discussões e reflexões parti-
culares de seus espaços, além das experiências 
de diásporas e dos processos de colonização� No 
âmbito cultural, ainda na década de 1970, originou-se 
o termo “pós-colonial”, vindo de uma perspectiva 
anglo-saxônica e de movimentos anticoloniais que 
se disseminavam�
http://poscolonial.dlc.ua.pt/P_Inicio.aspx
31
Para grande parte desses teóricos, ainda que a 
terminologia sugira pensar no prefixo “pós” de 
forma datada, ou seja, depois das independên-
cias de diversos países, o pós-colonialismo não 
pode ser pensado por uma vertente cronológica� 
Logo, não há uma linha temporal definida (antes 
e após as independências) para compreendê-lo, 
mas sim a preocupação com toda a interferência 
colonial imposta, inclusive na contemporaneidade� 
Segundo a teórica Ana Mafalda Leite, “o termo 
Pós-colonialismo pode entender-se como incluindo 
todas as estratégias discursivas e performativas 
(criativas, críticas e teóricas) que frustram a visão 
colonial, incluindo, obviamente, a época colonial” 
(LEITE, 2013, p.10), o que podemos muito bem 
compreender quando observamos o quadro da 
artista plástica Paula Rego, acima, trazendo outra 
perspectiva sobre a colonização no Brasil�
Nesse sentido, na adequação da terminologia aos 
estudos literários, a literatura pós-colonial seria toda 
a produção artística produzida pelas populaçõescolonizadas, o que insere, inclusive, a produção 
literária brasileira, propondo, portanto, a ruptura de 
uma visão ocidental eurocêntrica e estadunidense, 
tanto da teoria literária como da própria construção 
estético-discursiva dos textos literários�
Bill Ashcroft, importante teórico dos estudos pós-
-coloniais, afirma que todas essas escritas repre-
32
sentam as “experiências de colonização, afirmando 
a tensão com o poder imperial e enfatizando suas 
diferenças dos pressupostos do centro imperial” 
(ASHCROFT apud BONNICI, 1998, p. 9) e, atualmente, 
como explicita Thomas Bonnici (1998), através de 
uma abordagem alternativa para compreender os 
efeitos da globalização e do imperialismo�
Algumas obras teóricas são fundamentais para se 
compreender a terminologia� Muitas delas foram 
publicadas em inglês e sem traduções para a lín-
gua portuguesa� Entretanto, há um extenso debate 
acadêmico, em língua portuguesa, sobre o tema� 
No cenário anticolonial, os textos do martinicano 
Frantz Fanon são referência imprescindível, com 
os seus Pele negra, máscaras brancas (2008) e 
Os condenados da terra (2015). Esses são estu-
dos que uniram os trabalhos de Fanon no campo 
da psiquiatria com os sobreviventes da guerra 
na Argélia junto às questões raciais� Quanto à 
perspectiva literária, o livro pioneiro é, sem dúvida, 
The Empire Writes Back – Theory and Practice in 
Post-Colonial Literatures, de Bill Ashcroft, Gareth 
Griffiths e Helen Tiffin (1989), que traz as primei-
ras proposições pós-coloniais para a análise dos 
textos artísticos�
No âmbito discursivo, o crítico literário palestino 
Edward Said foi um dos pioneiros da teoria, com 
a publicação de Orientalismo (2007), em 1978, 
33
observando como as narrativas ocidentais im-
perialistas criaram a própria dicotomia oriente 
x ocidente� Além dele, a crítica literária indiana 
Gayatri Spivak é outra referência, com textos como 
Pode o Subalterno Falar? (2017), como também 
o crítico indiano Homi Bhabha, com Nation and 
Narration (1990).
No contexto africano de língua portuguesa, a termi-
nologia também teve que se adaptar às particulares 
realidades desses territórios que conquistaram 
suas independências mais tardiamente (quando 
comparados aos outros territórios africanos), além 
das experiências particulares do colonialismo 
português no século 20, considerado por alguns 
críticos, como Perry Anderson (1966), um dos 
piores regimes colonialistas que se perpetuou 
no século 20, chamando-o de “ultracolonialista” 
(ANDERSON, 1966).
Segundo a teórica sãotomense Inocência Mata, 
pensar o pós-colonial nas literaturas africanas é 
refletir sobre a própria condição periférica nesses 
locais� Para Mata, o escritor africano é munido 
de uma “consciência pós-colonial” (MATA, 2013) 
já observada nas produções de língua francesa e 
inglesa, como nas obras literárias O sol das Inde-
pendências, do escritor costa-marfinense Ahmadou 
Kourouma (1970) e Quando tudo se desmorona, 
do nigeriano Chinua Achebe (2009).
34
No âmbito crítico, também há mudanças� O pós-
-colonial propõe, através de suas rupturas, a rein-
terpretação e reescrita de obras canônicas, nas 
discussões sobre o lugar que essas obras sempre 
ocuparam, marginalizando outras experiências his-
toriográficas, a exemplo de novos olhares sobre as 
obras de William Shakespeare, especificamente a 
peça A tempestade, demonstrando a marginalização 
e as atitudes colonialistas (SOUSA SANTOS, 2003), 
e, até mesmo, nas nossas experiências literárias 
brasileiras, como os textos infantis de Monteiro 
Lobato, observando a marginalização e o lugar 
problemático da personagem Tia Anastácia, em 
O Sítio do pica-pau amarelo (BODÊ DE MORAES, 
1997).
Quanto às literaturas africanas de língua portuguesa, 
há novas abordagens que propõem releituras de 
textos ainda do período colonial, além da percepção 
de uma visão pós-colonial em alguns escritores, 
tais como João Dias, Luandino Vieira, Noémia de 
Souza e José Craveirinha, como veremos�
Certamente, é preciso finalizar a discussão com-
preendendo que o termo, hoje, abrange questões 
mais complexas e interdisciplinares, a exemplo do 
feminismo, das diásporas, dos nacionalismos, das 
zonas de contato, do racismo, do pós-modernismo, 
ecologia, ensino etc. Thomas Bonnici afirma que 
há muito ainda a ser desenvolvido:
35
“Sem dúvida, muitas questões ainda não foram 
resolvidas, como: a relação da língua europeia tra-
zida pelos colonizadores e as línguas indígenas; a 
conveniência das traduções; a influência cultural 
híbrida dentro de uma mesma cultura e fora dela; a 
paridade da oratura (narrativas orais) com a litera-
tura; os padrões de valores estéticos; a importância 
das instituições (como as universidades) para a 
produção literária e crítica; a revisão do cânone 
literário (BONNICI, 1998, p.10).”
Portanto, essa é uma discussão apenas iniciática 
sobre o termo� Esperamos que você tenha se inte-
ressado mais sobre essas questões e que procure 
pelas referências que oferecemos� A terminologia 
faz parte tanto das questões históricas sobre os 
países africanos de língua portuguesa como das 
próprias análises das obras literárias�
3636
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste e-book você entrou em contato com impor-
tantes discussões aos estudos africanos� Iniciamos 
este material com a perspectiva da desconstrução 
porque acreditamos ser fundamental a você com-
preender a necessidade de estudar as literaturas 
africanas através de pensamentos e reflexões que 
não sejam essencialistas� Além disso, você pôde 
conhecer um pouco da riqueza contemporânea do 
continente, bem como uma breve passagem pelas 
histórias dos cinco países de língua portuguesa, 
pela perspectiva pós-colonial�
Acreditamos que com essas ferramentas básicas 
você terá muito êxito tanto na compreensão como 
na análise dos textos literários que estudará�
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	Introdução
	Desconstruir África: primeiros caminhos reflexivos
	Conhecendo o continente africano
	Desconstruindo estereótipos
	Os países africanos de língua portuguesa
	Um pouco das suas histórias
	Novas abordagens: a teoria pós-colonial
	Considerações finais
	Referências Bibliográficas & Consultadas

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