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😣 Gastrites🚨 Objetivo 1→ Revisar a morfologia do estômago. Localizado logo abaixo do diafragma, no andar superior do abdome, o estômago é uma câmara única em forma de J, formado por uma pequena e uma grande curvatura, sendo dividido funcionalmente em quatro regiões: cárdia, fundo, corpo e antro. a. Cárdia: é a porção mais alta (ou proximal do estômago), localizada logo abaixo da transição esofagogástrica. b. Fundo: é a região que acomoda o bolo alimentar assim que ele chega ao estômago. É uma região de reservatório. c. Corpo: também funciona como reservatório, porém sua principal função é a digestão química/enzimática do alimento. Suas longas pregas permitem o contato do alimento com o ácido clorídrico e a pepsina produzidos aí. d. Antro: é uma região com funções nobres na digestão. Tem uma forte musculatura que macera e mistura o bolo alimentar, conhecida como bomba antral. Aí também são produzidos hormônios que regulam a produção ácida (gastrina e somatostatina). No antro, localiza-se o piloro, um forte esfíncter circular que limita o esvaziamento gástrico. → INERVAÇÃO: PARASSIMPÁTICA: é feita pelo nervo vago (NC X), que estimula tanto a peristalse quanto a produção de ácido. SIMPÁTICA: parte do plexo celíaco (T5-T12), que age inibindo tanto a motilidade quanto a secreção gástrica. → SUPRIMENTO SANGUÍNEO: O suprimento arterial do estômago é feito por quatro vasos: dois deles irrigam a pequena curvatura e outros dois, a grande curvatura. A partir desses quatro, outros ramos diretos distribuem-se pela parede do órgão. Fernanda Fraga - FIP GBI PEQUENA CURVATURA: é irrigada pelas artérias gástrica direita (ramo da artéria hepática comum) e gástrica esquerda (ramo do tronco celíaco). GRANDE CURVATURA: é irrigada pelas artérias gastroepiploicas (ou gastro-omentais) esquerda (ramo da artéria esplênica) e direita (ramo da artéria gastroduodenal). → HISTOLOGIA: Microscopicamente, a parede do estômago é dividida em camadas, assim como todos os órgãos do tubo digestivo. Da parte mais interna, em contato com a luz do órgão, até a parte mais externa, existem quatro camadas distintas. São elas: MUCOSA: camada mais interna, onde localizam-se as glândulas. É subdividida em epitélio, lâmina própria e muscular da mucosa. SUBMUCOSA: faixa de sustentação e suprimento, rica em vasos, colágeno e onde fica o plexo nervoso de Meissner, que regula a secreção das glândulas. MUSCULAR PRÓPRIA: espessa camada muscular responsável pela função motora do órgão. Entre as fibras, fica o plexo mioentérico de Auerbach, finos nervos que se comunicam diretamente com o vago e controlam a peristalse gástrica. SEROSA: formada por denso tecido conjuntivo, funciona como uma camada de revestimento externo do órgão, compondo o seu peritônio visceral. → DIVISÃO FUNCIONAL: No estômago, existem dois tipos diferentes de mucosa que se distinguem pelo tipo de glândula predominante e pela função exercida na digestão. São elas a mucosa oxíntica e a mucosa pilórica. MUCOSA OXÍNTICA: é composta pelas GLÂNDULAS OXÍNTICAS e tem como principais funções a produção de ácido clorídrico, pepsinogênio e fator Fernanda Fraga - FIP GBI intrínseco. Essa mucosa está presente no corpo e fundo gástricos. Células MUCOSAS: ficam na parte superior da glândula, produzindo muco e bicarbonato que formam a camada protetora da mucosa gástrica. Células PARIETAIS: localizam-se na parte média das glândulas oxínticas, responsáveis pela produção de ÁCIDO CLORÍDRICO e FATOR INTRÍNSECO. Lembre-se de que o fator Intrínseco liga-se à vitamina B12 e permite sua absorção no intestino. Células PRINCIPAIS: ficam na base da glândula e produzem PEPSINOGÊNIO I e II. Essa pró-enzima, quando secretada, entra em contato com o pH ácido e é convertida na PEPSINA, potente enzima proteolítica. Células ENTEROCROMAFINS: ficam bem na base da glândula e secretam histamina, uma das substâncias que estimulam as células parietais a produzirem ácido. MUCOSA PILÓRICA: é composta pelasGLÂNDULAS PILÓRICAS, tendo como principais funções a produção de gastrina e somatostatina, substâncias que regulam a produção ácida gástrica. Essa mucosa está presente no antro e no canal pilórico. Embora a cárdia também tenha mucosa do tipo pilórica, nessa região não há produção de gastrina, apenas muco. Células MUCOSAS: também são bastante numerosas nas glândulas pilóricas, produzindo muco e bicarbonato para a camada protetora da mucosa. Células PARIETAIS: presentes em pequena quantidade, com produção de ácido e fator intrínseco mínimos. Células PRINCIPAIS: no antro, produzem apenas o PEPSINOGÊNIO tipo II. Células G: estão bem na base das glândulas pilóricas e produzem gastrina, o principal hormônio estimulador da secreção ácida. Células D: também ficam na parte inferior da glândula e secretam a somatostatina, um hormônio inibitório que suprime a produção de gastrina pelas células G, diminuindo a produção de ácido quando o pH está muito baixo. Durante a mastigação, a musculatura lisa gástrica já começa a relaxar para a chegada do alimento, permitindo que o estômago aumente seu volume de 50 mL para cerca de 1500 mL, é o chamado RELAXAMENTO RECEPTIVO. Esse processo é mediado pelo nervo vago, por meio do plexo mioentérico de Auerbach. Com o alimento no estômago, surgem ondas de contrações rítmicas desde o fundo até o piloro, numa frequência de três por minuto. Esse ritmo é regulado pelo marca-passo endógeno no fundo Fernanda Fraga - FIP GBI gástrico; já a força de contração é controlada pelos estímulos vagal e mioentérico, que são influenciados pela distensão gástrica e pelos níveis da gastrina. Ou seja, se houver lesão nervosa (vagal ou mioentérica), o marca-passo mantém o mantém o ritmo das contrações, mas elas não terão força suficiente para esvaziar o estômago, levando a um quadro de gastroparesia. Existem três movimentos peristálticos gástricos, conforme descritos abaixo: • PROPULSÃO: ondas fracas, de baixa amplitude, conduzindo o bolo alimentar do fundo ao piloro. • MOAGEM OU TRITURAÇÃO: chegando ao antro, as ondas aumentam de intensidade, capazes de misturar e macerar o alimento. Uma pequena quantidade de quimo passa para o duodeno através do piloro, que está parcialmente aberto. • RETROPULSÃO: a bomba antral torna-se mais vigorosa e fecha abruptamente o piloro, fazendo com que o alimento sofra uma propulsão retrógrada para o corpo gástrico. Objetivo 2→ Discutir os mecanismos de agressão e proteção da mucosa gástrica. A mucosa gástrica é exposta, continuamente, aos efeitos lesivos de várias substâncias: ácido clorídrico, pepsina, bile, álcool, alimentos, bactérias, vírus e vários outros fatores. Porém, em condições normais, ela mantém-se íntegra devido a uma camada de proteção formada por muco, bicarbonato e fosfolipídios. Essa camada reveste o epitélio, mantendo o pH neutro no seu interior, ou seja, em torno de 7,0. Enquanto isso, na luz gástrica o pH está baixíssimo, em torno de 2,0, um ambiente bastante ácido. A principal glicoproteína do muco é a MUCINA, uma substância gelatinosa com boa aderência ao epitélio. A manutenção dessa camada protetora depende de vários fatores, entre eles: • CÉLULAS MUCOSAS: essas células têm que se renovar constantemente, receber aporte sanguíneo adequado e estímulo nervoso, pelo plexo de Meissner. Fernanda Fraga - FIP GBI • FLUXO VASCULAR: o fluxo sanguíneo submucoso deve estar normal, garantindo o suprimento das células epiteliais. • PLEXO DE MEISSNER: a inervação submucosa também deve estar íntegra. • PROSTAGLANDINA (PGE2 e PGI2): essa substância mantém o aporte sanguíneo por meio da liberação de óxido nítrico e estimula fatores de crescimento epitelial que garantem a renovação celular. Objetivo 3→ Descrever a epidemiologia, etiologia, manifestações clínicas, fisiopatologia, diagnóstico e complicações das gastrites aguda e crônica. O termogastrite refere -se à inflamação da mucosa gástrica. Ao longo dos anos, as gastrites receberam vários tipos diferentes de classificação, muitos dos quais perderam importância com o tempo. Atualmente, as que têm maior importância clínica são as que classificam a doença conforme as características histológicas da inflamação (AGUDA ou CRÔNICA) e conforme o seu MECANISMO ETIOPATOGÊNICO (de acordo com a causa). Há, ainda, um subtipo de gastrites que ocorrem em cenários específicos ou têm uma fisiopatologia bastante peculiar, são as chamadas gastrites ESPECIAIS. A distinção entre gastrite aguda e crônica baseia-se no tipo de infiltrado inflamatório encontrado na mucosa. → Gastrite aguda: A presença de um denso infiltrado de neutrófilos na mucosa, caracteriza a gastrite aguda, pois essas células estão presentes em processos inflamatórios agudos, quando há uma abrupta injúria inflamatória do tecido. Grande parte das gastrites agudas são de natureza infecciosa, como acontece na infecção aguda pelo Helicobacter pylori, que é o agente mais comum. Outros agentes infecciosos também podem acometer agudamente o estômago em situações específicas. Além da etiologia infecciosa, destacam-se outras duas causas de gastrite aguda: os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) e o abuso de álcool. Nessas duas situações, pode haver ruptura abrupta da integridade da mucosa, com múltiplas erosões em todas as paredes gástricas e sangramento superficial autolimitado, chamado, classicamente, de gastrite erosiva hemorrágica. Fernanda Fraga - FIP GBI O tratamento da gastrite aguda inclui retirar o agente etiológico (seja infeccioso, medicamentoso ou tóxico), controlar os sintomas e reduzir o processo inflamatório com um antiácido ou antissecretório, como um IBP ou bloqueador H2. → Gastrite crônica: Caracteriza-se por infiltrado inflamatório rico em linfócitos e plasmócitos (infiltrado linfoplasmocitário), células associadas à injúria tecidual crônica, capazes de ativar o processo de reparo celular e fibrose. Essa é a forma mais comum de gastrite encontrada na prática, que evolui, inevitavelmente, com destruição glandular e atrofia da mucosa, tendo como causas mais comuns a infecção pelo Helicobacter pylori e gastrite autoimune. * Gastrite crônica ativa ativa é a presença de neutrófilos numa área onde já existe infiltrado linfoplasmocitário, revelando que, além da lesão crônica, há inflamação ativa no tecido. Gastrite crônica inativa significa que não há neutrófilos, apenas os marcadores de inflamação crônica. * ★ Gastrite autoimune: Essa doença caracteriza-se pela destruição imunológica das glândulas oxínticas do corpo e fundo gástricos, com progressiva redução na produção de ácido clorídrico, pepsina e fator intrínseco. O acometimento é exclusivo do corpo gástrico, poupando o antro, por isso há uma expressiva queda na produção do pepsinogênio tipo I (PEP-1), com predomínio do pepsinogênio tipo II (PEP-2), fazendo com que haja queda na relação PEP1/PEP2. Os autoanticorpos que marcam essa condição são o ANTIFATOR INTRÍNSECO e o ANTICÉLULA PARIETAL. A doença afeta cerca de 2% da população geral, ou seja, não é uma condição tão rara. Inicialmente assintomática, a gastrite autoimune tem três importantes repercussões: 1. Redução da absorção da vitamina B12 (cianocobalamina): essa vitamina está presente em alimentos de origem animal, como carne vermelha, leite, peixe e ovos. Após o consumo desses alimentos, a digestão proteica no estômago permite a liberação da vitamina B12, que precisa, então, ligar-se ao fator intrínseco, ainda no estômago, para que seja absorvida no íleo terminal. Conforme ocorre a destruição das glândulas oxínticas do corpo gástrico, há progressiva redução da produção do Fernanda Fraga - FIP GBI fator intrínseco, o que compromete sobremaneira a absorção. Se nenhuma reposição for feita, a deficiência de B12 poderá agravar-se, com o surgimento de alterações em múltiplos órgãos e sistemas, como as citadas abaixo: • sintomas gerais: mal-estar generalizado, fadiga, cansaço, sonolência; • hematológico: anemia megaloblástica (perniciosa); • neurológicos: tremores, desequilíbrio, paraparesia espástica; • psiquiátricos: raciocínio lento, sonolência, esquecimento, demência; • gastrointestinais: alterações do paladar e apetite, glossite, queilite angular. 2. A acentuada atrofia do corpo gástrico é acompanhada pelo surgimento de lesões precursoras do adenocarcinoma, como metaplasia intestinal e displasias glandulares. Sabe-se que o paciente com gastrite autoimune tem alto risco de evoluir para o câncer gástrico ao longo da vida. Isso justifica vigilância endoscópica com EDA, a cada um ou dois anos, para rastrear o surgimento de neoplasia superficial. 3. Atrofia do corpo gástrico leva a uma importante hipocloridria e consequente alcalinização do lúmen gástrico (elevação do pH). Em resposta, há uma hiperplasia das células G antrais, que aumentam exageradamente a produção de gastrina, na tentativa de corrigir a acidez. Essa hipergastrinemia reativa estimula o crescimento das células enterocromafins, criando as condições para o surgimento de tumores carcinóides gástricos. A gastrite autoimune não tem tratamento, apenas a reposição periódica de cianocobalamina (vitamina B12) e a vigilância endoscópica de tumores gástricos (adenocarcinoma e tumor carcinoide). ★ Gastrite por estresse: Esse tipo de lesão faz parte de um grupo mais amplo, conhecido como lesão aguda da mucosa gástrica (LAMG). São pacientes gravemente enfermos, normalmente internados em CTI, que tiveram evolução rápida para o quadro crítico, gerando uma grande resposta ao estresse, com aumento da produção de ácido por estímulo central (colinérgico) e/ou perda dos mecanismos de proteção da mucosa (choque→ hipoperfusão tecidual→ redução abrupta da produção do muco protetor). As erosões ou úlceras não têm sinais de cronicidade, representando uma ruptura abrupta da integridade da mucosa. Fernanda Fraga - FIP GBI Na verdade, a lesão aguda por estresse pode gerar tanto gastrite quanto úlcera péptica (chamada de úlcera por estresse), ou seja, ambas têm a mesma fisiopatologia e fazem parte da mesma entidade, variando apenas conforme a profundidade das lesões (gastrite caracteriza lesões mais superficiais, enquanto úlceras são lesões mais profundas). Os principais eventos desencadeadores da LAMG são: • insuficiência respiratória aguda, com necessidade de ventilação mecânica; • choque, sepse ou trauma; • grandes queimaduras corporais; • lesão aguda grave ao sistema nervoso central (TCE, AVC, lesões com efeito de massa, hipertensão intracraniana). ★ Gastrite alcalina: A gastrite alcalina ocorre por refluxo de bile para o estômago, provocando lesões na mucosa gástrica que vão desde um enantema, edema de pregas, até metaplasia intestinal. Pode ser assintomática ou provocar epigastralgia, plenitude, náuseas e vômitos. A bile provoca edema, congestão, dilatação foveolar e cística nas glândulas, mas não há infiltrado inflamatório neutrofílico ou linfoplasmocitário típicos da gastrite. → Manifestações clínicas e diagnóstico da gastrite: Quanto há sintomas, esses são bastante variados, podendo incluir dor epigástrica, plenitude, empachamento, desconforto pós-prandial, náuseas e vômitos. Costumamos referir-nos a essas queixas, de uma forma geral, como sintomas dispépticos. A conduta varia conforme a faixa etária do paciente, já que a maioria dos pacientes jovens (abaixo de 40 anos) pode apresentar sintomas dispépticos transitórios por libação alimentar, abuso de bebida alcoólica, uso esporádico de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), gastroenterite infecciosa, ansiedade ou estresse. Não é necessária qualquer investigação complementar, apenas melhora dos hábitos alimentares e/ou uso empírico de inibidor da bomba de prótons (IBP), por cerca deduas a três semanas. Portanto: Pacientes jovens (abaixo de 40 anos) com sintomas dispépticos esporádicos, não precisam de investigação complementar, apenas orientação alimentar (reduzir consumo de gorduras e alimentos condimentados, fracionar as refeições de 3/3 horas) e/ou curso empírico de IBP. A necessidade de endoscopia digestiva alta (EDA) para investigação de gastrite Fernanda Fraga - FIP GBI ou outros diagnósticos diferenciais acontece apenas nas seguintes situações: 1. persistência dos sintomas e refratariedade à terapia empírica com IBP. No caso de pacientes jovens (abaixo dos 40 anos), moradores de áreas com grande prevalência de H. pylori, em vez da EDA pode-se adotar como conduta a estratégia “teste e trate”, que consiste em fazer um teste não invasivo para a pesquisa dessa bactéria (como o teste respiratório da urease) e, caso venha positivo, fazer o tratamento do H. pylori; 2. pacientes com quaisquer sinais de alarme: emagrecimento, anemia, suspeita de sangramento digestivo, disfagia, impactação alimentar; 3. pacientes acima dos 40 anos, com sintomas dispépticos crônicos. Sendo realizada a EDA, o tratamento será direcionado aos achados do exame, lembrando que a droga de escolha para reduzir os sintomas da gastrite e diminuir a inflamação gástrica são os inibidores da bomba de prótons (IBPs), tendo os bloqueadores H2 como alternativa. Objetivo 4→ Rever os aspectos microbiológicos das infecções por H. pylori e sua associação com a neoplasia gástrica e Conhecer os princípios do tratamento para erradicação da H. pylori. A infecção pelo H. pylori é uma das mais comuns do mundo, uma vez que a bactéria infecta o estômago de mais de 50% da população mundial. Infecção por Helicobacter pylori é a causa mais comum de gastrite crônica. As doenças mais graves e que exigem erradicação da bactéria são a úlcera péptica, o linfoma MALT e o adenocarcinoma gástrico. A gastrite não faz parte das indicações absolutas de erradicação, uma vez que a imensa maioria dos infectados evoluirá apenas com uma gastrite crônica leve, sem qualquer repercussão clínica, enquanto apenas uma minoria terá ativação da via oncogênica. Ao contaminar um indivíduo, o H. pylori aloja-se, inicialmente, na mucosa pilórica (antro), provocando uma gastrite aguda que pode ser assintomática ou sintomática, causando dor epigástrica, plenitude, náuseas ou vômitos. Porém, raramente é feito o diagnóstico na fase aguda e a bactéria pode permanecer no antro por longos anos. A forma clínica mais comum, entretanto, é a pangastrite crônica pelo H. pylori, quando a bactéria estende-se do antro para o corpo gástrico, podendo cursar com normo ou hipocloridria pela destruição das glândulas oxínticas do corpo. Esse tipo de pangastrite crônica com Fernanda Fraga - FIP GBI atividade antral era, antigamente, classificada como gastrite tipo B. A pangastrite pelo H. pylori pode evoluir com atrofia apenas do corpo ou de toda a mucosa gástrica (incluindo o antro), provocando o surgimento de lesões precursoras do adenocarcinoma gástrico, como metaplasia intestinal e displasia. Pacientes com essas alterações beneficiam-se de vigilância endoscópica para o câncer gástrico, submetendo-se a endoscopias digestivas a cada 2 - 3 anos. Atualmente, não há nenhuma indicação absoluta de investigar e tratar o H. pylori em paciente com gastrite. Porém, há três indicações relativas que precisam ser mencionadas: - paciente com história familiar de adenocarcinoma gástrico em parente de 1º grau; - pacientes com sintomas dispépticos crônicos, refratários ao tratamento com IBP; - pacientes que farão uso contínuo de AAS e/ou AINEs. Nessas condições, com ou sem gastrite, é recomendável a erradicação do H. pylori. E a primeira linha de tratatamento é: IBP ( lansoprazol ou esomeprazol) + amoxicilina 2g/dia + claritromicina 1g/dia, durante 14 dias. Para o alívio sintomático e a redução do processo inflamatório, recomenda-se um curso de inibidores da bomba de prótons (IBPs) ou bloqueador do receptor H2 (ranitidina), por 4 a 6 semanas. O Helicobacter pylori é um bastonete gram negativo diminuto, espiralado ou curvo (protobactéria), que pode colonizar as células epiteliais secretoras de muco do estômago. O H. pylori tem vários flagelos que lhe possibilitam movimentar -se na camada mucosa do estômago; ele também secreta urease, que contribui para que produza amônia suficiente para tamponar a acidez do seu ambiente imediato. Essas peculiaridades ajudam a explicar por que esse microrganismo consegue sobreviver no ambiente ácido do estômago. O Helicobacter pylori produz Fernanda Fraga - FIP GBI enzimas e toxinas que têm a capacidade de interferir com a proteção local da mucosa gástrica contra a ação do ácido, causar inflamação intensa e desencadear uma reação imune. Desse modo, há aumento da produção de citocinas pró- inflamatórias (IL 6, IL 8), que ajudam a recrutar e ativar neutrófilos. Várias proteínas do H. pylori são imunogênicas e desencadeiam uma reação imune intensa na mucosa. Linfócitos B e T podem ser encontrados com a gastrite crônica causada por esse microrganismo. Os linfócitos T podem ser responsáveis pela atenuação da resposta inflamatória contínua causada pelas citocinas, possibilitando que o H. pylori mantenha sua colonização do estômago por períodos longos. Os métodos usados para confirmar a existência de infecção por H. pylori são teste respiratório da ureia marcada com carbono (C) radioativo, que utiliza um isótopo radioativo do carbono ( C ou C- ureia); testes sorológicos; teste do antígeno fecal; e biopsia endoscópica para determinar se há urease. Os títulos sorológicos dos anticorpos contra H. pylori isolam especificamente as imunoglobulinas G e A (IgG e IgA). Referências: - Fisiopatologia - Porth 9ºed. - Harrison - Medicina Interna, Mc Graw Hill, 20a ed, 2020. - Sleisenger & Fordtran. Tratado Gastrointestinal e Doenças do Fígado. Feldman M, Friedman LS, Brandt LJ.Tradução da 9 ed. Editora Elsevier, 2017. Fernanda Fraga - FIP GBI