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CÂNCER PULMONAR EPIDEMIOLOGIA E FATORES DE RISCO O câncer de pulmão é uma das neoplasias de maior importância mundial devido à sua elevada incidência e, principalmente, à alta mortalidade. A aula destaca que sua incidência aumenta principalmente entre 50–60 anos, embora possa ocorrer em outras faixas etárias. Os carcinomas pulmonares representam cerca de 90–95% das neoplasias malignas primárias do pulmão. Dentro deles, a divisão mais importante é entre carcinomas de não pequenas células e carcinoma de pequenas células. Os carcinomas de não pequenas células correspondem à maior parte dos casos, e o adenocarcinoma é atualmente o subtipo histológico mais frequente. TABAGISMO O tabagismo é o principal fator etiológico do câncer de pulmão. Aproximadamente 80% dos casos ocorrem em tabagistas, principalmente devido à exposição prolongada do epitélio respiratório aos carcinógenos presentes na fumaça do cigarro. O risco apresenta relação aproximadamente dose-dependente: quantidade de cigarros ↑ + duração do tabagismo ↑ → exposição aos carcinógenos ↑ → dano ao DNA ↑ → risco de câncer pulmonar ↑ Além disso, o tabagismo passivo também aumenta o risco, porque indivíduos não fumantes podem ser expostos aos mesmos carcinógenos presentes na fumaça ambiental. EFEITO DE CAMPO A exposição aos carcinógenos do tabaco não provoca alterações somente em uma célula isolada. Ela pode atingir extensas áreas do epitélio respiratório, produzindo o chamado efeito de campo. Assim: 1. exposição crônica à fumaça do cigarro; 2. carcinógenos atingem extensas regiões do epitélio respiratório; 3. ocorre dano repetido ao DNA; 4. diferentes células acumulam alterações genéticas; 5. surgem múltiplos clones celulares geneticamente alterados; 6. alguns desses clones podem adquirir alterações adicionais e evoluir para neoplasia. Por isso, o tabagismo produz uma mutagênese generalizada da mucosa respiratória, aumentando a possibilidade de surgimento de diferentes focos neoplásicos. FATORES DE RISCO OCUPACIONAIS E AMBIENTAIS Além do cigarro, algumas exposições ocupacionais aumentam o risco de câncer pulmonar, principalmente: ● asbesto; ● urânio; ● radônio; ● arsênio. TABAGISTAS × NÃO TABAGISTAS Um ponto muito importante é que o câncer pulmonar pode seguir rotas moleculares diferentes dependendo da exposição ao tabaco. TABAGISTAS Representam aproximadamente 80–90% dos casos e são predominantemente homens, com intensa exposição aos carcinógenos do cigarro. A exposição crônica produz inicialmente deleções cromossômicas e perda de genes supressores tumorais. Posteriormente podem surgir alterações importantes em: TP53, RB e MYC. Essas alterações são particularmente relacionadas a: carcinoma de células escamosas + carcinoma de pequenas células. De maneira geral: NÃO TABAGISTAS Os cânceres pulmonares de não tabagistas representam aproximadamente 10–15% dos casos no Ocidente e apresentam maior frequência relativa em mulheres. Nesses pacientes, predominam mutações oncogênicas que ativam receptores tirosina-quinase ou suas vias de sinalização, principalmente: EGFR, ALK, ROS1, MET e RET. O principal destino histológico dessa rota é o adenocarcinoma. PRINCIPAIS TIPOS HISTOLÓGICOS Os carcinomas pulmonares são divididos inicialmente em dois grandes grupos, principalmente porque eles apresentam comportamento biológico e abordagem clínica diferentes: 1. Carcinomas de não pequenas células: Correspondem à maior parte (85-90%) dos carcinomas pulmonares e incluem principalmente: ● Adenocarcinoma → é o subtipo mais frequente; ● Carcinoma de células escamosas (epidermoide); ● Carcinoma de grandes células → tumor pouco diferenciado, considerado principalmente um diagnóstico de exclusão. 2. Carcinoma de pequenas células: É uma categoria separada devido ao seu comportamento característico. Trata-se de um carcinoma neuroendócrino de alto grau, fortemente associado ao tabagismo, com crescimento rápido e disseminação metastática precoce. Além do carcinoma de pequenas células, existem outros tumores pulmonares com diferenciação neuroendócrina, como o carcinoma neuroendócrino de grandes células e os tumores carcinoides típico e atípico. ADENOCARCINOMA O adenocarcinoma é atualmente o carcinoma pulmonar mais frequente. Apresenta maior incidência relativa em mulheres e não tabagistas e costuma apresentar localização periférica. Sua principal característica histológica é a presença de diferenciação glandular e/ou produção de mucina. Assim, na lâmina podem ser encontradas: ● formações glandulares; ● produção de mucina; ● diferentes padrões arquiteturais de crescimento. Os principais padrões são: lepídico, acinar, papilar, micropapilar e sólido. PADRÃO LEPÍDICO No padrão lepídico, as células neoplásicas crescem revestindo os septos alveolares preexistentes, como se utilizassem a estrutura alveolar como um “tapete” para seu crescimento. A arquitetura alveolar permanece preservada. PADRÃO MUCINOSO Apresenta produção abundante de mucina pelas células tumorais. A mucina pode acumular-se dentro dos espaços alveolares, enquanto células tumorais podem parecer “flutuar” em lagos de mucina. Essas células também podem apresentar citoplasma claro ou vacuolizado devido à presença de mucina. IMUNO-HISTOQUÍMICA DO ADENOCARCINOMA Os principais marcadores são: ● TTF-1 (+) ● Napsina A (+) O TTF-1 é um fator de transcrição nuclear de tireóide expresso em aproximadamente 70–80% dos adenocarcinomas pulmonares. Entretanto, ele também pode estar presente em carcinomas da tireoide, portanto deve ser interpretado junto ao contexto clínico. A Napsina A apresenta expressão citoplasmática e está relacionada à diferenciação pneumocítica tipo II. Ela é frequentemente utilizada junto ao TTF-1 porque os dois marcadores apresentam características complementares. CARCINOMA DE CÉLULAS ESCAMOSAS / EPIDERMOIDE O carcinoma escamoso apresenta forte associação com o tabagismo, ocorrendo principalmente em homens tabagistas, e costuma apresentar localização central, principalmente próxima ao hilo e aos brônquios maiores. A exposição crônica aos carcinógenos do cigarro provoca agressões repetidas ao epitélio brônquico, podendo levar a uma sequência progressiva: epitélio normal → hiperplasia de células basais → metaplasia escamosa → displasia escamosa → carcinoma in situ → carcinoma escamoso invasivo. Na metaplasia escamosa, o epitélio respiratório normal é substituído por epitélio escamoso como resposta adaptativa à agressão crônica. Com a persistência do estímulo carcinogênico, podem surgir displasia, perda da polaridade e pleomorfismo. No carcinoma in situ, as células neoplásicas ocupam o epitélio, porém ainda estão limitadas pela membrana basal. Uma lesão precursora não necessariamente evoluirá para câncer, podendo permanecer localizada ou até regredir. HISTOLOGIA DO CARCINOMA ESCAMOSO As características mais importantes são: queratinização + pérolas córneas + pontes intercelulares. As pérolas córneas são formadas por queratinização concêntrica das células tumorais e constituem um achado clássico dos carcinomas escamosos bem diferenciados. Também podem ser observadas células com citoplasma eosinofílico denso e pontes intercelulares. Por sua localização central, o tumor pode crescer para dentro do brônquio e provocar: massa endobrônquica → obstrução brônquica → atelectasia distal + infecções/pneumonias pós-obstrutivas. Além disso, pode ocorrer cavitação central devido à necrose da massa tumoral. IMUNO-HISTOQUÍMICA Os principais marcadores são: ● p40 (+) ● p63 (+) O p63 é um marcador nuclear de diferenciação basal/escamosa, porém apresenta menor especificidade porque também pode ser positivo em alguns adenocarcinomase outros tumores. O p40 é uma isoforma do p63 e apresenta maior especificidade para diferenciação escamosa, sendo, portanto, o marcador preferencial entre os dois. CARCINOMA DE PEQUENAS CÉLULAS O carcinoma de pequenas células apresenta associação quase absoluta com o tabagismo, localização predominantemente central e comportamento extremamente agressivo. É um carcinoma neuroendócrino de alto grau, caracterizado por: crescimento muito rápido + invasão precoce + metástases precoces. Histologicamente, apresenta: ● células pequenas, aproximadamente 2–3 vezes o tamanho de um linfócito; ● citoplasma escasso; ● limites celulares pouco definidos; ● cromatina em “sal e pimenta”; ● alta atividade mitótica; ● necrose extensa. A necrose intensa pode ser explicada pelo próprio crescimento acelerado. DIFERENCIAÇÃO NEUROENDÓCRINA As células apresentam grânulos neurossecretores e expressam marcadores neuroendócrinos, principalmente: ● Cromogranina A (+) ● Sinaptofisina (+) ● CD57 (+) A diferenciação neuroendócrina também ajuda a explicar a forte associação do carcinoma de pequenas células com síndromes paraneoplásicas. Outro achado destacado é a expressão aumentada de BCL2, proteína antiapoptótica presente em grande parte desses tumores. CARCINOMA DE GRANDES CÉLULAS É um tumor epitelial maligno indiferenciado que não apresenta características suficientes para ser classificado como adenocarcinoma, carcinoma escamoso ou outro subtipo. Por isso, é considerado principalmente um diagnóstico de exclusão. Histologicamente apresenta: ● células grandes; ● pleomorfismo acentuado; ● núcleos volumosos; ● nucléolos proeminentes; ● quantidade moderada de citoplasma. Para classificá-lo, é necessário demonstrar ausência de diferenciação glandular e escamosa. Assim: TTF-1/Napsina A negativos + p63/p40 negativos + ausência de diferenciação morfológica específica → favorece carcinoma de grandes células. SINAIS, SINTOMAS E SÍNDROMES PARANEOPLÁSICAS Os sintomas podem ocorrer devido à obstrução das vias aéreas, invasão de estruturas adjacentes ou disseminação tumoral. OBSTRUÇÃO DAS VIAS AÉREAS Pode provocar: tosse + hemoptise + atelectasia + pneumonia pós-obstrutiva/abscesso. Assim: INVASÃO PLEURAL E PERICÁRDICA A invasão da pleura pode provocar derrame pleural maligno. SÍNDROME DA VEIA CAVA SUPERIOR A massa tumoral pode comprimir a veia cava superior, dificultando o retorno venoso da cabeça, pescoço e membros superiores. TUMOR DE PANCOAST E SÍNDROME DE HORNER O tumor de Pancoast localiza-se no ápice pulmonar e pode invadir estruturas próximas. Quando invade o plexo braquial, pode provocar: ● dor no ombro; ● face medial do braço/antebraço; ● podendo irradiar para a mão. Quando invade a cadeia simpática cervical, principalmente as fibras simpáticas destinadas ao olho, pode causar síndrome de Horner: ● ptose; ● miose; ● anidrose; ● enoftalmia. NERVO LARÍNGEO RECORRENTE E NERVO FRÊNICO ● Invasão do nervo laríngeo recorrente → paralisia da prega vocal → rouquidão. ● Invasão do nervo frênico → comprometimento da inervação do diafragma → paralisia diafragmática. SÍNDROMES PARANEOPLÁSICAS As síndromes paraneoplásicas são manifestações sistêmicas causadas por substâncias produzidas pelo tumor ou por respostas imunológicas induzidas por ele, sem decorrer diretamente da invasão local ou das metástases. São especialmente importantes no carcinoma de pequenas células, devido à sua diferenciação neuroendócrina. CPPC → ACTH produção ectópica de ACTH → estimulação adrenal → cortisol ↑ → síndrome de Cushing. CPPC → ADH produção inadequada de ADH → retenção de água ↑ → diluição do Na⁺ plasmático → hiponatremia = SIADH. CPPC → LAMBERT-EATON Pode ocorrer síndrome miastênica de Lambert-Eaton, manifestação neurológica paraneoplásica associada ao carcinoma de pequenas células. CARCINOMA ESCAMOSO → PTHrP O carcinoma escamoso pode produzir PTHrP, proteína relacionada ao paratormônio. PTHrP ↑ → efeito semelhante ao PTH → cálcio sanguíneo ↑ → hipercalcemia. Assim, um paciente com carcinoma escamoso e hipercalcemia não necessariamente apresenta metástase óssea; a alteração pode ser paraneoplásica. ASPECTOS MOLECULARES DO CÂNCER DE PULMÃO ADENOCARCINOMA As principais alterações apresentadas são: EGFR, ALK, ROS1, KRAS, BRAF, MET, RET e NTRK. ● EGFR O EGFR é um receptor tirosina-quinase. Quando existe mutação ativadora de EGFR, o receptor pode permanecer excessivamente ativo: EGFR ativado → RAS/RAF/MEK/ERK continuamente estimulada → expressão de genes proliferativos ↑ → proliferação celular ↑. Também pode ocorrer ativação de: PI3K → AKT → mTOR → sobrevivência celular ↑. ● KRAS Uma mutação ativadora faz com que a proteína permaneça sinalizando mesmo sem o estímulo normal: KRAS mutado → RAS constitutivamente ativa → RAF → MEK → ERK → proliferação ↑. ● ALK, ROS1, RET E NTRK Podem sofrer fusões/rearranjos gênicos, formando proteínas com atividade anormal. Amplificação → cópias extras do gene → quantidade de proteína/receptor ↑. Mutação ativadora → alteração da sequência → proteína constitutivamente ativa. Fusão/rearranjo → partes de genes diferentes se unem → formação de proteína com atividade anormal. CARCINOMA ESCAMOSO As principais alterações apresentadas são: TP53 + RB + deleção de 3p + FGFR1. ● TP53 Quando TP53 perde sua função: p53 ↓ → parada do ciclo/reparo/apoptose ↓ → células com DNA alterado sobrevivem → acúmulo de mutações ↑ → progressão tumoral. ● RB Quando RB perde sua função: RB ↓ → E2F fica livre → genes necessários à fase S são transcritos → progressão G1→S ↑ → proliferação ↑. ● FGFR1 A amplificação de FGFR1 aumenta o número de cópias do gene e consequentemente a sinalização por esse receptor: FGFR1 amplificado → sinalização proliferativa ↑ → RAS/MAPK ↑ → crescimento e sobrevivência celular ↑. CARCINOMA DE PEQUENAS CÉLULAS As alterações centrais são: TP53 + RB + amplificação de MYC. A perda simultânea de TP53 e RB remove importantes mecanismos de controle do ciclo celular. Além disso, ocorre frequentemente amplificação de MYC, promovendo a transcrição de genes relacionados ao crescimento e à proliferação celular. Associado à perda de p53: MYC ↑ + p53 ↓ → proliferação intensa + resposta apoptótica ↓ → rápida progressão tumoral. PAPEL DA IMUNO-HISTOQUÍMICA A imuno-histoquímica (IHQ) utiliza anticorpos capazes de reconhecer proteínas específicas presentes nas células tumorais. Ela é especialmente importante quando a biópsia demonstra um carcinoma pulmonar pouco diferenciado, porque apenas a morfologia pode não ser suficiente para determinar sua linhagem. ADENOCARCINOMA ● TTF-1 (+) ● Napsina A (+) CARCINOMA ESCAMOSO ● p40 (+) ● p63 (+). TUMORES NEUROENDÓCRINOS ● Sinaptofisina (+) ● Cromogranina A (+) Favorecem diferenciação neuroendócrina, sendo importantes principalmente na avaliação do carcinoma de pequenas células. EPIDEMIOLOGIA E FATORES DE RISCO EFEITO DE CAMPO FATORES DE RISCO OCUPACIONAIS E AMBIENTAIS TABAGISTAS × NÃO TABAGISTAS TABAGISTAS NÃO TABAGISTAS PRINCIPAIS TIPOS HISTOLÓGICOS ADENOCARCINOMA PADRÃO LEPÍDICO PADRÃO MUCINOSO IMUNO-HISTOQUÍMICA DO ADENOCARCINOMA CARCINOMA DE CÉLULAS ESCAMOSAS / EPIDERMOIDE HISTOLOGIA DO CARCINOMA ESCAMOSO IMUNO-HISTOQUÍMICA CARCINOMA DE PEQUENAS CÉLULAS DIFERENCIAÇÃO NEUROENDÓCRINA CARCINOMA DE GRANDES CÉLULAS SINAIS, SINTOMAS E SÍNDROMES PARANEOPLÁSICAS OBSTRUÇÃO DAS VIAS AÉREAS INVASÃO PLEURAL E PERICÁRDICA SÍNDROME DA VEIA CAVA SUPERIOR TUMOR DE PANCOAST E SÍNDROME DE HORNER NERVO LARÍNGEO RECORRENTE E NERVO FRÊNICO SÍNDROMES PARANEOPLÁSICAS CPPC → ACTH CPPC → ADH CPPC → LAMBERT-EATON CARCINOMA ESCAMOSO → PTHrP ASPECTOS MOLECULARES DO CÂNCER DE PULMÃO ADENOCARCINOMA●EGFR ●KRAS ●ALK, ROS1, RET E NTRK CARCINOMA ESCAMOSO ●TP53 ●RB ●FGFR1 CARCINOMA DE PEQUENAS CÉLULAS PAPEL DA IMUNO-HISTOQUÍMICA ADENOCARCINOMA CARCINOMA ESCAMOSO TUMORES NEUROENDÓCRINOS