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Bioquímica Cervejeira Me. Maycon Vinícius de Senna Ribeiro NEAD - Núcleo de Educação a Distância Av. Guedner, 1610, Bloco 4 - Jardim Aclimação CEP 87050-900 - Maringá - Paraná unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 Coordenador de Conteúdo Diogo Henrique Hendges. Designer Educacional Janaína de Souza Pontes. Revisão Textual Cintia Prezoto Ferreira e Erica Fer- nanda Orteg. Editoração André Morais de Freitas. Ilustração Natalia de Souza Scalassara e Welington Vainer Satin de Oliveira. Realidade Aumentada Matheus Alexander de Oli- veira Guandalini e Maicon Douglas Curriel. DIREÇÃO UNICESUMAR Reitor Wilson de Matos Silva, Vice-Reitor e Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor Executivo de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva, Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin, Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi. NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Diretoria Executiva Chrystiano Mincoff, James Prestes e Tiago Stachon; Diretoria de Graduação e Pós-graduação Kátia Coelho; Diretoria de Permanência Leonardo Spaine; Diretoria de Design Educacional Débora Leite;Fukushima; Gerência de Projetos Especiais Daniel F. Hey; Gerência de Produção de Conteúdos Diogo Ribeiro Garcia; Gerência de Curadoria Carolina Abdalla Normann de Freitas; Supervisão de Projetos Especiais Yasminn Talyta Tavares Zagonel; Projeto Gráfico José Jhonny Coelho e Thayla Guimarães Cripaldi; Fotos Shutterstock C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; Bioquímica Cervejeira. Maycon Vinícius de Senna Ribeiro. Maringá-PR.: Unicesumar, 2020. Reimpresso em 2024. 168 p. “Graduação - Híbridos”. 1. Bioquímica. 2. Cervejeira. 3. Industial 4. EaD. I. Título. ISBN 978-65-5615-016-1 CDD - 22 ed. 663.4 CIP - NBR 12899 - AACR/2 RIBEIRO, Maycon Vinícius de Senna. PALAVRA DO REITORPALAVRA DO REITOR Em um mundo global e dinâmico, nós trabalha- mos com princípios éticos e profissionalismo, não somente para oferecer uma educação de qualida- de, mas, acima de tudo, para gerar uma conversão integral das pessoas ao conhecimento. Baseamo- -nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emo- cional e espiritual. Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e pós-graduação. Produzimos e revi- samos 500 livros e distribuímos mais de 500 mil exemplares por ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos educacionais do Brasil. A rapidez do mundo moderno exige dos educadores soluções inteligentes para as ne- cessidades de todos. Para continuar relevante, a instituição de educação precisa ter pelo menos três virtudes: inovação, coragem e compromisso com a qualidade. Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária. Vamos juntos! BOAS-VINDAS Prezado(a) Acadêmico(a), bem-vindo(a) à Co- munidade do Conhecimento. Essa é a característica principal pela qual a Unicesumar tem sido conhecida pelos nossos alu- nos, professores e pela nossa sociedade. Porém, é importante destacar aqui que não estamos falando mais daquele conhecimento estático, repetitivo, local e elitizado, mas de um conhecimento dinâ- mico, renovável em minutos, atemporal, global, democratizado, transformado pelas tecnologias digitais e virtuais. De fato, as tecnologias de informação e comu- nicação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, lugares, informações, da educação por meio da conectividade via internet, do acesso wireless em diferentes lugares e da mobilidade dos celulares. As redes sociais, os sites, blogs e os tablets ace- leraram a informação e a produção do conheci- mento, que não reconhece mais fuso horário e atravessa oceanos em segundos. A apropriação dessa nova forma de conhecer transformou-se hoje em um dos principais fatores de agregação de valor, de superação das desigualdades, propagação de trabalho qualificado e de bem-estar. Logo, como agente social, convido você a saber cada vez mais, a conhecer, entender, selecionar e usar a tecnologia que temos e que está disponível. Da mesma forma que a imprensa de Gutenberg modificou toda uma cultura e forma de conhecer, as tecnologias atuais e suas novas ferramentas, equipamentos e aplicações estão mudando a nossa cultura e transformando a todos nós. Então, prio- rizar o conhecimento hoje, por meio da Educação a Distância (EAD), significa possibilitar o contato com ambientes cativantes, ricos em informações e interatividade. É um processo desafiador, que ao mesmo tempo abrirá as portas para melhores oportunidades. Como já disse Sócrates, “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida”. É isso que a EAD da Unicesumar se propõe a fazer. Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a so- ciedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportunidades e/ou estabe- lecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompa- nhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pedagógica, contribuindo no processo educa- cional, complementando sua formação profis- sional, desenvolvendo competências e habilida- des, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessários para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de crescimento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o Stu- deo, que é o seu Ambiente Virtual de Aprendiza- gem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das discussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de apren- dizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranquili- dade e segurança sua trajetória acadêmica. APRESENTAÇÃO Conhecer a produção cervejeira a nível molecular é de extrema importância para o profissional Tecnólogo em Produção Cervejeira. Aqui, entenderemos como a Bioquímica é no seu nível mais básico e contextualizaremos com todos os insumos e processos da produção de cervejas. Conheceremos cada etapa, da produção do malte até a cerveja engarrafada e como cada etapa exige conhecimentos bioquímicos. Iremos estudar quais são as ma- cromoléculas cervejeiras (carboidratos, proteínas e lipídeos) e em que mo- mento elas se fazem presentes. Veremos do amido do malte à fermentação da maltose, das proteínas estruturais à retenção de espuma, nutrição das leveduras e as enzimas cervejeiras. Amilases, proteases e glucanases, sua importância para o resultado final da cerveja, corpo, dulçor, álcool e demais consequências da atuação das enzimas cervejeiras. Suas faixas ótimas serão conhecidas aqui, e como utilizar cada rampa de temperatura a seu favor na produção dasno meio após a fermentação. Aos açúcares que as leveduras conseguem transformar, denominamos de açúcares fermentescíveis. Carboidratos de Amido no Mosto Cervejeiro Como dito anteriormente, os carboidratos são a principal fonte de energia dos seres vivos. As le- veduras possuem uma alta preferência pela glicose do que qualquer outra biomolécula para trans- formar em energia. A forma que elas conseguem realizar esse trabalho é por meio da respiração ou da fermentação. Quando em presença de oxigênio, as leveduras conseguem oxidar os carboidratos plenamente, liberando gás carbônico e água. Quando em ausência de oxigênio, a opção é a fermen- tação alcoólica (MALLETT, 2014). Durante a mosturação, o amido, enorme biomolécula de açúcares, é quebrado, liberando diversos açúcares no mosto. A priorização das enzimas cervejeiras é o que define quais açúcares estarão presentes em maior quantidade no mosto. O amido, quando quebrado aleatoriamente, produz o que chamamos de dextrinas, ou seja, carboidratos menores, porém de variada composição, não sendo fermentescíveis. Isso trará características como corpo para a cerveja, além de dulçor residual. Quando há a priorização da quebra do amido em suas extremidades, há maior formação de açúcares fermentescíveis no mosto cervejeiro, como principalmente a maltose. Isso trará maior teor alcoólico, menor corpo e mais sensa- ção de secura para a cerveja final. É muito importante ao cervejeiro conhecer a diferença entre essas moléculas e projetar sua receita com base nisso. 66 Macromoléculas Cervejeiras Função Estrutural dos Carboidratos Além da energética envolvida na quebra dos carboidratos, eles são importantes para questões estruturais. Como veremos na última unidade desse material, as riboses e desoxirriboses são açúcares presentes na constituição do DNA e do RNA, sendo imprescindí- vel sua presença para a manutenção da vida. Além disso, existem polissacarídeos estruturais, como a lignina e a celulose, que dão sustentação e auxiliam as plantas a obterem nutrientes. As cas- cas do malte são um exemplo de polissacarídeos estruturais, que participam da mosturação, mas não contribuem para açúcares de mosto, pois estão em uma forma que as enzimas cervejeiras não têm capacidade de quebrar, muito menos as leveduras. Figura 16 - Celulose em células vegetais 67UNIDADE 2 Prezado(a) estudante, agora que compreendemos as macromoléculas cervejeiras, vamos passar, dos insumos até a cerveja pronta, quais são as princi- pais biomoléculas envolvidas e sua importância. Cada insumo, cada parte do processo de produção deve ser estritamente avaliado de acordo com os principais parâmetros por exemplo, teor de umi- dade, porcentagem de carboidratos, lipídeos etc. Insumos Os insumos cervejeiros são a base para as ma- cromoléculas cervejeiras. A seguir, veremos os principais insumos cervejeiros e sua contribuição de macromoléculas cervejeiras. Insumos, Mosto e Cerveja 68 Macromoléculas Cervejeiras Malte Um dos mais importantes insumos do processo de produção cervejeira. O malte, como vimos na Uni- dade 1, é produzido pela germinação controlada de grãos, como cevada, trigo, sorgo e aveia, conferindo proteínas na forma de enzimas, responsáveis por quebrar o amido durante a mostura. Por isso, deve- mos compreender que a composição enzimática do malte deve estar clara para o cervejeiro, bem como a concentração de amido disponível na forma de extrato de malte. Com esses parâmetros em mãos, o cervejeiro tem a capacidade de uniformizar suas receitas, afinal, a cada safra, os maltes apresentam alterações nos teores de proteína, amido, entre ou- tros. Um malte com maior poder diastático tende a hidrolisar o amido em menor tempo, e o inverso é verificado para maltes com menor poder diastá- tico. A quantidade de malte utilizada também se modifica quando o cervejeiro replica sua receita usando um malte com menor teor de extrato. Tudo isso deve constar nas informações do fabricante do malte, que deve fornecer a ficha técnica com esses parâmetros. 69UNIDADE 2 Tabela 1 - Parâmetros do malte Pale Ale Agrária Parâmetro Mínimo Máximo Unidade Umidade - 4,5 % Extrato de moagem final 80,5 - % Friabilidade 83,0 - % Cor do mosto 5,5 7 EBC B-glucanas - 150 mg/L Viscosidade - 1,60 mPa/s Proteína 10,0 11,5 % Poder diastático 200 - Wk Fonte: Agraria ([2020], on-line)3. Lúpulo O lúpulo é principalmente utilizado como fonte de amargor para as cervejas. Além disso, seu uso também está vinculado à estabilidade da espuma, estabilidade microbio- lógica da cerveja pronta e aromas típicos das mais diversas variedades desta planta, que podem ser utilizados tanto no processo de fervura quanto no processo de maturação. O lúpulo também possui uma ficha técnica e nela é indicada a quantidade de alfa-ácidos, ou seja, as substâncias relacionadas ao amargor. Quanto maior o teor de alfa-ácidos, maior o amargor esperado. Apesar de existirem diversas fórmulas e calculadoras para estimar o amargor, existem algumas recomendações que o cervejeiro deve estar ciente para obter o resultado esperado: • Validade do lúpulo: os lúpulos mais frescos tendem a ter maior teor de alfa-ácidos (mais próximo do valor dado na ficha técnica), bem como preservar os aromas e sabores conferidos pela variedade em questão. • Conservação do lúpulo: o lúpulo deve ser mantido refrigerado justamente para que o que está na ficha técnica se mantenha o mais próximo possível, mesmo após sua colheita. Além disso, o lúpulo é extremamente sensível à luz, podendo esta causar degradações nas substâncias do lúpulo e proporcionar odores indesejáveis. As embalagens devem ser opacas e impermeáveis para garantir durabilidade do produto. • Tempo apropriado de ação: quando o objetivo é amargor, o cervejeiro deve estar ciente do tempo necessário de fervura para a isomerização dos alfa-ácidos. O amar- gor só passa a estar presente na cerveja quando há esse processo de isomerização, que ocorre apenas em altas temperaturas. Se o cervejeiro utilizar o lúpulo com pouco tempo de isomerização, ele também terá transmitido ao mosto menor amargor. 70 Macromoléculas Cervejeiras A oxidação pela luz das substâncias do lúpulo é comumente chamada de “lightstruck”. Também conhecido como aroma de “gambá”, é causado também por cervejas pron- tas expostas à luz. É por este motivo que as garrafas de cerveja costumam ser na cor âmbar. Utilizar lúpulos frescos, ao abrigo da luz, evitam esse off-flavor nas cervejas. Tabela 2 - Composição média do lúpulo Cascade Características Floral, com elementos cítricos e notas de toranja Proposta Aroma e amargor Composição de alfa-ácidos (%) 4,5-8,9 Composição de beta-ácidos (%) 3,6-7,5 Composição de co-humulonas (%) 33-40 País de origem Estados Unidos Tamanho do cone Médio Densidade do cone Compacto Maturidade sazonal Média Rendimento (kg/hectare) 2017-2465 Taxa de crescimento Moderada a alta Estocagem Retenção de 48 a 52% de alfa-ácidos após 6 meses guardado a 20 ºC Colheita Difícil Composição total de óleos (mL/100g) 0,8-1,5 Composição de óleo de mirceno (%) 45-60 Composição de óleo humuleno (%) 8-16 Fonte: Hopslist ([2020], on-line)4. 71UNIDADE 2 Macromoléculas Cervejeiras72 Fermento Os fermentos mais empregados na produção de cervejas são cepas isoladas, de uma única espécie, adaptadas para a produção de cerve- jas, tanto em microescala quanto em escala industrial. Hoje em dia, caracteriza-se os fer- mentos de acordo com seus perfis de fermen- tação, como geração de diacetil, requerimento de nitrogênio, geração de enxofre, capacidade de floculação, temperatura de atuação e poten- cial de esterificação. Cada fermento é empregado de acordo com o estilo projetado. Por exemplo, as leveduras belgas têm como característica alta esterifica- ção, característica desejada para cervejas da escola belga; enquanto para as lagers alemãs, os perfis neutros, com baixíssima produção de diacetil, são mais desejados. Os fermentos, porsua vez, também possuem uma ficha técnica, discriminando a forma de uso e a quantidade de células viáveis, seja na forma líquida ou seca. A quantidade de células, também chamado de pitching rate, é a quantidade de células viá- veis de acordo com o volume de produção e a quantidade de extrato. Por exemplo, cervejas com maiores gravidades necessitam de maior quantidade de células viáveis, para que a fer- mentação ocorra de maneira saudável. 73UNIDADE 2 Fermento Ale Porcentagem de sólidos: 93 a 96% Viabilidade: >= 5x 109 CFU por grama de levedura seca Estilo utilizados: Norwegian farmhouse Ale, ales de fermentação rápida Aroma: Relativamente neutro em altas temperaturas com baixas notas cítricas e de laranja Atenuação: Média à alta Faixa de temperatura: 25 a 40 ºC com faixa ótima em 35-40 ºC Floculação: Muito alta Tolerância alcoólica: 12% Taxa de inóculo: 50-100 g/hL para atingir um mínimo de 2,5 a 5 milhões de células/mL Ficha técnica Levedura Kveik N eu tro Maçã vermelha Frutas tropicais Banana M açã verde Alho Ácido Pim enta Al có ol ic o Tabela 3 - Característica da levedura Kveik Voss da Lallemand Fonte: Lallemand Brewing ([2020], on-line)5. 74 Macromoléculas Cervejeiras Perceba que, na produção cervejeira, os principais insumos cervejeiros estão repletos de biomolécu- las. A água, que aqui não citaremos, possui uma mínima quantidade de biomoléculas, sendo, em sua maioria, repleta de sais minerais. Entretanto, ao juntarmos tudo isso, teremos nosso mosto cervejeiro. Mosto Como já conhecemos o processo de produção cervejeira, falaremos apenas do mosto pronto, contex- tualizando todos os conhecimentos que vimos até agora sobre as biomoléculas. Adicionamos o malte à água, aquecemos o mosto cervejeiro para cada enzima atuar de maneira adequada, realizamos a finalização da mostura, filtramos e passamos para a fervura. Na fervura, calculamos e adicionamos os lúpulos, resfriamos nosso mosto e estamos quase indo para a fermentação. Estudante de Produção Cervejeira, afinal, o que é o mosto cervejeiro prévio à fermentação? O mosto cervejeiro pode ser definido como uma solução rica em carboidratos (dextrinas e açúcares fermentescíveis), proteínas coaguladas, aminoácidos livres, peptídeos livres e substâncias de sabor e aroma oriundas do malte e dos lúpulos. Esse balanço deve estar da maneira correta, de acordo com as receitas que o cervejeiro quer, porém em acordo com o que a levedura também precisa. Um mosto pobre de aminoácidos livres acarretará estresse fermentativo, causando uma fermentação lenta e com sabores e odores desagradáveis. Um mosto pobre de açúcares fermentescíveis, porém com alto teor de dextrinas, também será pobre para as leveduras, que sem alimento não trarão teor alcoólico suficiente para a cer- veja pronta. O inverso acarretará maiores teores alcoólicos, mas falta de corpo e dulçor para sustentar tanto álcool. Dessa maneira, perceba como a forma em que a mostura é conduzia impacta totalmente na cerveja pronta. O mosto, feito por nós, humanos, depende unicamente de nós e de nossas técnicas. Já a cerveja é produzida pelo fermento. Os guias de estilos são uma importante ferramenta para que o cervejeiro projete sua receita. Ele deve observar as características necessárias ao estilo e replicar utilizando os insumos corretos. Os guias de estilos mais utilizados são o Beer Judge Certification Program (BJCP) e o guia de estilos do Brewer’s Association (BA). Veja-os no links: https://www.bjcp.org/index.php e https://www.brewersassociation.org/edu/brewer- s-association-beer-style-guidelines/. https://www.bjcp.org/index.php https://www.brewersassociation.org/edu/brewers-association-beer-style-guidelines/ https://www.brewersassociation.org/edu/brewers-association-beer-style-guidelines/ 75UNIDADE 2 Cerveja Podemos generosamente chamar a cerveja de um mosto processado pela levedura ou, até mesmo, como sendo o resultado de uma vida toda de uma levedura. Apesar dessas colocações um pouco estranhas, a levedura viveu no mosto cervejeiro consumindo os açúcares fermentescíveis, minerais e aminoácidos livres, produzindo álcool, gás carbônico e outras substâncias secundárias. Todo esse conjunto de biomoléculas é a cerveja pronta. Fermentações saudáveis costumam apresentar boas cer- vejas, com características de acordo com os propósitos a serem alcançados. Os estresses fermentativos podem causar odor de ovo podre à cerveja (enxofre), característica de amanteigado (diacetil), solvente (álcoois superiores), entre outros defeitos, por exemplo. A má condução da fermentação e maturação pode causar sérios danos às cervejas prontas. Por isso, é sempre importante ressaltar alguns pontos: • O fermento deve estar saudável: entende-se por fermento saudável aquele que está dentro da vali- dade e é usado de acordo com as recomendações do fabricante (vitalidade). Para garantir a eficácia do fermento, é necessário que este esteja o mais fresco possível, que tenha sido mantido refrigerado e sua hidratação (caso necessária) tenha ocorrido da forma correta. • A temperatura de fermentação deve condizer com o estilo e o fermento empregado: o controle de temperatura da fermentação é algo crucial na produção moderna de cervejas. As variações de temperatura permitem que a levedura produza muitas substâncias indesejadas, além de causar dormência e até morte celular. Além disso, a temperatura deve estar de acordo com o estilo em- pregado. Fermentar uma lager acima de 15 ºC já se torna um grande risco, pois as características de fermentação neutra não serão respeitadas. • O mosto deve ser saudável: o mosto cervejeiro bem feito contém todas as necessidades em termos de aminoácidos, minerais e açúcares fermentescíveis necessários para a sobrevivência da levedura. Qualquer mudança na mostura, deve atender as necessidades da levedura. Além disso, um requisito muito necessário ao início da fermentação é a aeração adequada. • A maturação deve ser bem conduzida: a maturação também compreende o descanso de diacetil, por exemplo, por isso ela pode ter uma fase quente e uma fase fria. O importante é que haja tempo para que a levedura limpe o mosto dos compostos indesejáveis e que haja frio posterior para preservar as características da bebida, diminuindo proliferação de microrganismos e oxidação em tempera- turas superiores. Além disso, ocorre clarificação da bebida pela decantação das células da levedura. Perceba, prezado(a) estudante, como cada insumo, mosto e cerveja é composto por classes de moléculas específicas, como carboidratos, lipídeos e proteínas. Conhecer quais são essas biomoléculas e sua im- portância na produção de cervejas coloca a capacidade de replicação de receitas em um patamar muito alto. A estabilidade da espuma, a quebra do amido, a formação das proteínas, a atuação das enzimas cervejeiras e tantos outros conhecimentos aqui vistos darão as bases para que possamos seguir adiante. 7676 Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução. 1. Os aminoácidos são uma classe de moléculas que possuem um grupo amino e um grupo carboxil (ácido). A respeito da formação dos peptídeos, assinale a alternativa correta. a) As proteínas são formadas quando há a ligação apenas entre os grupos amino de um aminoácido. b) Existem apenas 4 aminoácidos na natureza: leucina, isoleucina, ácido glutâmico e fenilalanina. c) O grupo amino de um aminoácido se liga ao grupo carbonil do outro, formando uma ligação peptídica. d) Os aminoácidos são enzimas específicas em catalisar reações bioquímicas. e) Os aminoácidos são formados pela ligação entre duas ou mais proteínas. 2. Os óleos e gorduras fazem parte de uma classe de biomoléculas chamadas de lipídeos. A respeito dos lipídeos, afirma-se: I) A membrana celular das células é composta, principalmente, por uma camada dupla de carboidratos reguladores. II) As micelas são arranjos de lipídeos quando estes estão em contato com a água, de característica circular. III) A membrana celularé uma bicamada lipídica. IV) Em temperatura ambiente, os lipídeos se dissolvem facilmente na água. Assinale a alternativa correta. a) Apenas I e II estão corretas. b) Apenas II e III estão corretas. c) Apenas I está correta. d) Apenas II, III e IV estão corretas. e) Toda as alternativas estão corretas. 7776 3. Os carboidratos são biomoléculas caracterizadas por serem compostas de hidrogênio, carbono e oxigênio, por isso são chamados de hidratados de carbono. A respeito dos carboidratos, assinale Verdadeiro (V) ou Falso (F). ) ( Um monossacarídeo é um carboidrato composto por uma proteína e um lipídeo. ) ( A maltose é um dissacarídeo, pois é formado por duas unidades de glicose. ) ( O amido é uma molécula composta por duas unidades de maltose. Assinale a alternativa correta: a) V-V-V. b) V-F-F. c) F-F-F. d) F-V-V. e) F-V-F. 4. Você foi provar a cerveja de um colega, que está iniciando a produção de cer- vejas em casa. Contudo, a cerveja dele estava com baixo teor alcoólico, um odor característico de lúpulo velho e sabor amanteigado. Como você poderia recomendá-lo a agir para não errar nas próximas receitas? 78 Bebidas Alcoólicas: Ciência e Tecnologia Autor: Waldemar Gastoni Venturini Filho Editora: Blucher Sinopse: este livro faz parte da Série Bebidas (Volume 1 – Bebidas alcoólicas: ciência e tecnologia; Volume 2 – Bebidas não alcoólicas: ciência e tecnologia; Volume 3 – Indústria de bebidas: inovação, gestão e produção), que foi escrita por 147 autores brasileiros e estrangeiros. O Volume 1, com 28 capítulos sobre bebidas alcoólicas, foi dividido em quatro partes: I) Bebidas fermentadas; II) Be- bidas destiladas; III) Bebidas retificadas; IV) Bebidas obtidas por misturas. Neste volume, o leitor encontrará três capítulos sobre cachaça, três sobre cerveja, cinco sobre vinho e três sobre bebidas alcoólicas indígenas, entre outros. Dez de seus capítulos são dedicados às bebidas alcoólicas derivadas da uva. LIVRO 79 BARACAT-PEREIRA, M. C. Bioquímica de Proteínas: Fundamentos Estruturais e Funcionais. Viçosa: Editora UFV, 2014. BELLÉ, L. P.; SANDRI, S. Bioquímica aplicada: Reconhecimento e caracterização de biomoléculas. São Paulo: Érica, 2014. KUNZE, W. Technology Brewing and Malting. 6. ed. Berlin: VLB, 2004. MALCATA, F. X. Mathematics for Enzyme Reaction Kinetics and Reactor Performance. Wiley-Blackwell, 2020. MALLETT, J. Malt: A Practical Guide from Field to Brewhouse. Boulder: Brewer’s Publications, 2014. NELSON, D. L.; COX, M. M. Princípios de bioquímica de Lehninger. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. NELSON, D. L.; COX, M. M.; DALMAZ, C.; TERMIGNONI, C.; PEREIRA, M. L. S. Princípios de Bioquímica de Lehninger. Porto Alegre: Artmed, 2018. REFERÊNCIAS ON-LINE# 1Em: https://nutricionando.eu/quais-alimentos-possuem-o-sabor-umami/. Acesso em: 08 fev. 2020. 2Em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4111167/mod_resource/content/1/LIPIDIOS.pdf. Acesso em: 08 fev. 2020. 3Em: http://www.agraria.com.br/malte/produtos/pale-ale. Acesso em: 08 fev. 2020. 4Em: http://www.hopslist.com/hops/dual-purpose-hops/cascade-us/. Acesso em: 08 fev. 2020. 5Em: https://www.lallemandbrewing.com/en/australia/product-details/lalbrew-voss-kveik-ale-yeast/. Acesso em: 08 fev. 2020. https://www.lallemandbrewing.com/en/australia/product-details/lalbrew-voss-kveik-ale-yeast/ 80 1. C. 2. B. 3. E. 4. A primeira recomendação é deixar que as enzimas da mosturação atuem por mais tempo, fornecendo mais açúcares fermentescíveis. A segunda recomendação é utilizar lúpulos mais frescos, longe da data de validade e mantê-los refrigerados ao abrigo da luz. Maturação quente visando o descanso de diacetil também é recomendado. 81 82 PLANO DE ESTUDOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Me. Maycon Vinícius de Senna Ribeiro • Introduzir e conceituar os termos relacionados a enzimas cervejeiras. • Compreender como é realizada a catálise enzimática. • Analisar os conceitos de cinética enzimática e suas con- sequências na produção de cervejas. • Conhecer as amilases e seu papel na sacarificação do mosto cervejeiro. • Conhecer as proteases e seu papel na formação de ami- noácidos e peptídeos na mosturação cervejeira. Introdução às Enzimas Mecanismos de Reação Enzimática Amilases ProteasesCinética Enzimática Enzimas Cervejeiras Introdução às Enzimas Na Unidade 2, compreendemos como são for- madas as proteínas cervejeiras e nos atentamos a uma classe muito especial de proteínas: as en- zimas. Essas biomoléculas são tão importantes para o processo de produção de cervejas que de- dicamos uma unidade exclusivamente a elas. O conhecimento do funcionamento das enzimas é imprescindível ao cervejeiro, pois o manejo das condições ótimas de cada enzima está diretamen- te ligado à qualidade das cervejas. Compreende- remos como as enzimas atuam, condições ótimas e as principais enzimas do mosto cervejeiro. Pre- pare-se, pois esta unidade é um divisor de águas nos conhecimentos cervejeiros! 85UNIDADE 3 Enzimas Cervejeiras A cevada é uma semente e, como a maioria das sementes, ela busca germinar e se tornar uma nova planta. As plantas recobrem as sementes com amido (reserva energética) e material genético (informação genética), protegendo tudo isso em uma matriz proteica. Quando a semente de cevada encontra a água, prontamente seu material genético, recebe a ordem de produzir enzimas. É como se a semente tivesse muitos equipamentos para construir uma nova planta, mas não soubesse usá-los. Quando encontra condições de germinar (abundância de água), as “chaves” dos equipamentos são, então, fabricadas. A semente produz as enzimas capazes de quebrar o amido e formar açúcares simples, indispensáveis para que a semente inicie a germinação. Além disso, o amido está muito bem protegido com proteínas, em um sistema chamado de matriz proteica. A semente precisa, então, produzir enzimas quebradoras de proteínas, para liberar o amido. Percebe, aluno(a), de onde vem as enzimas cervejeiras? Elas surgem com o intuito de a planta germinar. Nós usamos toda essa energia para produzir ótimas cervejas. Dentre as enzimas presentes no malte, procura- mos sempre ressaltar as amilases e as proteases. Assim como dito anteriormente, as primeiras são responsáveis pela quebra do amido e as segundas são responsáveis pela quebra da matriz proteica. No processo de produção de cervejas, as primeiras irão ser responsáveis por formar dextrinas e açú- cares fermentescíveis, enquanto as segundas farão o papel de liberar aminoácidos livres e peptídeos. Além dessas enzimas, existem as beta-glucana- ses, dextrina-limites e muitas outras presentes, específicas de cada molécula. A alta seletivida- de das enzimas faz com que elas sejam um dos maiores objetos de estudo da biotecnologia. Para que possamos compreender como elas podem ser usadas na produção cervejeira, devemos passar pelo histórico de descoberta e pela forma como elas funcionam. Figura 1 - Desenho esquemático da semente de cevada Fonte: Mallett (2014, p. 103). Barba Lado ventral Paleia Pericárpio Aleuroma Escutelo Radícula Endosperma Embrião Extremidade basal Acróspire Testa Lado dorsal Lema 86 Enzimas Cervejeiras História Do fim do século XVII ao início do século XVIII, já era de conhecimento científico que as secreções do estômago eram capazes de digerir proteínas, assim como secreções de plantas eram capazes de converter o amido em açúcares. No entanto, os mecanismos envolvidos nessas reações não eram conhecidos. Em 1833, o químico francês Anselme Payen foi o primeiro a descobrir uma enzima: a diástase. Décadas depois, Louis Pasteur observou a conversão de açúcares em álcool e gás carbônico, associando essas transformações a organismos vivos: as leveduras. Em 1897, Eduard Buchner descobriu que os extratos de levedo também eram capazes de converter os açúcares em etanol e gás carbônico, desassociando a necessidade da vida nessas reações químicas. A essas enzimas,ele as denominou como sendo “zymases” (NOBEL PRI- ZE, [2020], on-line)1. Até os anos 1900, não se havia conhecimento das características bioquímicas das enzimas. Sabia-se que estavam associadas a proteínas, mas que as proteínas convencionais não eram capazes desse feito. Em 1926, outros cientistas conseguiram cris- talizar as enzimas de forma pura, como a urease, a catalase e a pepsina, evidenciando seu caráter proteico. Assim, as técnicas de cristalografia por raios-X permitiram o vislumbre de suas estrutu- ras. Esse foi o marco de estudos das enzimas, em que se iniciaram as investigações a nível atômico de como as enzimas atuavam. Figura 2 - Eduard Buchner em 1897 Fonte: Wikimedia ([2020], on-line)2. Figura 3 - Estrutura de uma enzima determinada por cris- talografia de raios-X 87UNIDADE 3 Enzimas como Maquinário da Vida Todas as transformações químicas da vida são assistidas por enzimas. Quando inoculamos os fer- mentos no mosto cervejeiro, a primeira coisa que as leveduras irão fazer é verificar o que elas têm nas proximidades. Há oxigênio? Está fácil de se obter? Há açúcares fermentescíveis, de fácil acesso? Mi- nerais? Aminoácidos? pH controlado? Temperatura em boas condições? O que há de novo e estranho nesse meio? Há frutose? Após todo esse reconhecimento, as leveduras passam, então, por expressão genética, a produzir todas as enzimas necessárias para trabalharem. Há frutose? Produz-se enzimas capazes de sintetizá-la. Há sacarose? Produz-se enzimas capazes de quebrá-la. Há fontes lipídicas no meio? Produz-se enzimas de quebra de lipídeos. E assim por diante. Quando você, cervejeiro, olhar novamente para o período de tempo entre o inóculo e a primeira atividade no airlock, lembrará: as leveduras estão sintetizando enzimas. As enzimas são as ferramentas necessárias para a obtenção de energia e sobrevivência. As leveduras criadas em diferentes ambientes muito provavelmente produzirão enzimas diferentes. Além disso, diversas outras proteínas serão sintetizadas de acordo com as necessidades do ambiente. Por esse motivo, as leveduras levam certo tempo para trabalharem de um ambiente rico em oxigênio para um com pouco. Muitas enzimas estão envolvidas nessa troca de regime. Figura 4 - Curva de Crescimento Microbiano Fonte: adaptada de Nelson e Cox (2014). Lo g do n úm er o de c él ul as Tempo Fase de Morte Fase Lag Fase Exponencial Fase Estacionária 88 Enzimas Cervejeiras Quando olhamos para enzimas, pode até parecer algo pequeno, mas em escalas microscópicas, elas são muito maiores que outras moléculas. Para se ter uma ideia, a enzima urease (responsável pela quebra da ureia) possui um peso molecular da ordem de 50.000 daltons, enquanto a própria ureia possui um peso molecular de 60 daltons, e a água, 18. Isso mostra que para a quebra de uma pequena molécula, a vida desprende uma enor- me quantidade de átomos, muito bem ordenados (BORZANI et al., 2008). Entretanto, você, caro(a) aluno(a), deve estar se perguntando o porquê. E a resposta está na seletividade. Você já imaginou se quando estivesse realizando a sua mostura, as amilases continuassem a quebrar o amido, que- brassem os açúcares e no fim não sobrasse nada além de gás carbônico e água? Ou se você estivesse nos patamares de temperatura para proteases e as enzimas amilases estivessem a todo vapor traba- lhando em alta velocidade e quebrando amido? Com certeza o controle do processo estaria total- mente arruinado. Mecanismos de Reação Enzimática 89UNIDADE 3 As enzimas são altamente específicas. Elas atuam em faixas de temperatura, pH, concentração de substratos e em moléculas muito bem definidas. As amilases apenas quebram o amido, as proteases quebram apenas as proteínas, as ureases a ureia, e assim por diante. As enzimas possuem alto peso molecular, pois necessitam que cada átomo esteja espacialmente no lugar correto, com a abertura correta para o encaixe do substrato, provendo a energia necessária para que essa reação ocorra, só assim a vida consegue controlar a velocidade das reações químicas, iniciando ou parando algumas, ao seu próprio ver. Figura 5 - Encaixe perfeito de enzima em uma cadeia a ser quebrada As enzimas podem atuar de diversas maneiras, como ativação por cofatores, especificidade de subs- tratos e, até mesmo, possuir mais do que um substrato. Os modelos de mecanismos enzimáticos são “chave-fechadura” e encaixe induzido. (Figura 5). A enzima se liga ao substrato formando um complexo enzima-substrato, reage formando um complexo enzima-produto e há a liberação do produto. A velo- cidade da reação química depende da formação do complexo, que pode depender de outros fatores. É por essa razão que a concentração de substrato e de enzimas é importante para o mecanismo ocorrer de maneira correta. Geralmente, quando se inicia a mosturação, recomenda-se uma razão água/malte de 2:1, devido às características das enzimas associadas nas primeiras rampas de mostura. A seguir, quando o foco é nos processos de sacarificação, recomenda-se a adição de mais duas partes de água, obtendo uma relação água/malte de 4:1. Isso demonstra que as amilases atuam melhor em mostos menos concentrados (KUNZE, 2004). 90 Enzimas Cervejeiras Figura 6 - Formação do complexo enzima-substrato Ativadores e Inibidores Algumas enzimas ainda atuam apenas na presença de ativadores e podem ser paradas pela presença de inibidores ou pela ausência de ativadores. Esses mecanismos permitem que os organismos vivos consigam regular a ocorrência das reações químicas, mesmo quando há contato entre enzimas e substratos no meio. Ativadores Também chamados de cofatores, são moléculas ou metais responsáveis por se ligarem às enzimas (não permanentemente) para que ela consiga atuar normalmente (Figura 7). Um cofator muito importante no meio cervejeiro é o zinco, oriundo do malte, capaz de garantir o desempenho das enzimas na mos- turação e a saúde da levedura no processo de fermentação. Além disso, algumas moléculas orgânicas na presença de cofatores também contribuem para o desempenho das enzimas. Essas substâncias são chamadas de coenzimas. Sítios ativos similares ao formato do substrato Substrato Enzima Complexo enzima substrato: sítios ativos se tornam se tornam exatamente do formato do substrato 91UNIDADE 3 Inibidores Os inibidores têm como princi- pal característica serem morfolo- gicamente similares ao substrato, fazendo com que se encaixem também nos sítios ativos das enzimas (Figura 8). Os inibido- res impedem que o substrato se acople às enzimas, criando com- petição pelos sítios ativos.Figura 7 - Esquema de ativação enzimática Figura 8 - Esquema de inibição enzimática INIBIDOR ENZIMÁTICO Inibição competitiva Substrato Sítio ativo Enzima Enzima Sabemos muito bem que as vitaminas são importantes para a nossa saúde e a saúde das leveduras, mas dificilmente sabemos o porquê. A questão principal é que muitas vitaminas são coenzimas e sem elas as reações catalisadas pelas enzimas não podem ocorrer. Esses mecanismos podem ser utilizados para prever a cinéti- ca enzimática, ramo responsável pelas velocidades de reação quí- mica das enzimas. Mais adiante, falaremos sobre isso. ATIVAÇÃO ENZIMÁTICA Enzima inativa Ativador Substrato Sítio aberto Produto Enzima ativa 1 2 3 4 92 Enzimas Cervejeiras Como foi dito anteriormente, as enzimas reduzem a energia de ativação das reações químicas, facili- tando que elas ocorram com menor energia. Dessa maneira, a probabilidade de as reações ocorrerem aumenta, pois, com menor energia disponível no sistema, a reação ocorre. Na Figura 9, temos um esquema energético entre uma reação assistida por um catalisador, biológico ou não. Cinética Enzimática 93UNIDADE 3 En er gi a Substratos Produtos sem catalisadorE a, = Energia de ativaçãoE a com catalisadorE a, Figura 9 - Diminuição da energia de ativação pela catálise Perceba como é vantajoso que uma reação ocorra sob o efeito de umcatalisador. Algumas reações, em específico a quebra da sacarose e da maltose, têm um tempo de reação de anos para que ocorra sua quebra nas condições ambientes. Imagine se a vida tivesse que espe- rar todo esse tempo para que se obtivesse energia? Provavelmente não haveria vida como a conhecemos. No entanto, já que falamos em velocidades de reação, iremos conhecer, neste tópico, o estudo das velocidades de reação: a cinética. Para isso, utilizaremos alguns termos matemáticos para que fique claro o entendimento. O mecanismo comum de reação enzimática é dado em três eta- pas: formação do complexo enzima-substrato, reação transforman- do o complexo enzima-substrato em enzima-produto e a liberação do produto ao meio (MALCATA, 2020). Cinética Enzimática E+S↔E•S↔E•P→E+P Levando-se em conta que cada enzima possui uma afinidade com seu substrato, podemos dizer que a velocidade da reação química enzimática depende da concentração do substrato, até certo limite, predefinido experimentalmente, a que chamamos de velocidade máxima. V0 = Km + S Vmax • S 94 Enzimas Cervejeiras O valor de Km define a afinidade da enzima com o substrato. Isto é, qual é a facilidade do substrato se ligar à enzima. Isso depende do substrato, da enzima e das condições do meio, como temperatura, pH etc., porém não depende da concentração do substrato. Figura 10 - Curva da concentração de substrato em relação à velocidade de reação Fonte: Nelson e Cox (2014, p. 201). Você deve estar se perguntando então: por que é necessário utilizar essas equações complexas? Quando se projeta um biorreator enzimático ou prevê-se a quantidade de tempo que uma enzima atua sobre um substrato, faz-se necessário ter as características da enzima como parâmetro, como o valor de Km e o valor de Vmax. Como exemplo, o tempo de hidrólise do amido na mostura foi definido com base na quantidade de enzimas presentes no malte, na concentração do substrato (relação água/malte) e na temperatura de atuação. Por essa razão, os valores de Km e Vmax podem ser afetados por condições do meio. Veremos essas condições a seguir. Vmáx Vmáx Km 1 2 Concentração de substrato, [S] (mM) Ve lo ci da de In ic ia l, V 0 (µ M /,m in ) Esse comportamento prediz que a velocidade de reação química assistida por uma enzima irá crescer com o aumento da concentração de substrato e, quanto mais rápido crescer, maior a afinidade química da enzima com o substrato. Quanto maior o valor de Km, menor é a afinidade química. 95UNIDADE 3 Fatores de Influência do Meio sobre a Atividade Enzimática Já verificamos que a concentração do substrato influencia diretamente na velocidade de reação enzimáti- ca, porém agora conheceremos outros fatores: pH, temperatura e desnaturação (BORZANI et al., 2008). As enzimas não são uma chave liga-desliga. Elas permanecem atuando mesmo não estando nas condições ótimas. Por menor que seja a atividade longe dos pontos ótimos, as enzimas permanecem catalisando reações químicas. pH As enzimas, de modo geral, possuem um valor de pH ótimo, em que, à medida que o meio passa para mais ou menos desse valor, a atividade en- zimática começa a decair. Isso se deve ao fato de que os aminoácidos que formam as enzimas têm caráter de ácidos fracos, podendo dissociar-se. Tanto em condições ácidas quanto em condições básicas, a dissociação desses aminoácidos é afeta- da, desbalanceando a atuação das cargas nos sítios ativos. A maneira ideal de se compreender o pH ótimo é experimentalmente. Temperatura A temperatura exerce grande influência na ativi- dade enzimática, pois quanto maior a temperatu- ra, maior a energia do meio e, consequentemente, a energia de ativação é atingida mais facilmente. Entretanto, devemos ter em mente que as enzimas são catalisadores proteicos, ou seja, são forma- dos por proteínas, com estruturas funcionais. O aumento desproporcional da temperatura pode desestruturar permanentemente a enzima, o que chamamos de desnaturação. Desnaturação A desnaturação é entendida como a perda da estrutura da proteína. Algumas ligações ainda se mantêm, porém outras, fundamentais para a funcionalidade, são perdidas. Existem outros agentes desnaturantes além da temperatura, como valores de pH extremos, uso de detergentes e sol- ventes apolares. Geralmente, a desnaturação é irreversível. O Mash out, ou também chamado de finalização, é a etapa do processo de mostura, prévia à fer- vura, responsável pela inativação das enzimas. Nele, o mosto é elevado a, aproximadamente, 78 ºC, temperatura suficiente para a desnatu- ração das enzimas cervejeiras. A partir desse ponto, entende-se que as enzimas terminaram seu trabalho. 96 Enzimas Cervejeiras Amilases Conforme as plantas realizam a fotossíntese, elas produzem açúcares e os guardam em reservas energéticas. Elas unem os açúcares pela retira- da de água, criando uma gigantesca molécula de açúcar: o amido. Dessa maneira, conseguem compactar utilizando menor espaço possível. Ao germinar, a semente irá precisar de energia para gerar raízes e iniciar o processo de fotossíntese por si só. Com o malte não é diferente. Quando iniciamos a mostura, temos muito amido dentro dos grãos, que por si só não é solúvel. Contudo, para que a semente utilize esse amido como ener- gia, ele precisa ser quebrado, pois cada célula só irá metabolizar açúcares simples, como a glicose. Para isso, são produzidas, no malte, enzimas capazes de quebrar esse amido, a que chamamos de amilases. Falamos no plural, pois não existe apenas um tipo de amilase. Neste tópico, falaremos das principais enzimas capazes de quebrar o amido em açúcares solúveis, como as dextrinas, e os açúcares fermen- tescíveis, como a maltose e a glicose, importantes para a produção cervejeira. Antes disso, porém, devemos conhecer a estrutura do amido. 97UNIDADE 3 Amido O amido é uma grande molécula composta por inúmeras unidades de glicose, ligadas tanto em con- figurações lineares (amiloses) quanto em configurações ramificadas (amilopectinas). Por esse motivo, as enzimas amilolíticas são diferentes. Cada uma irá atuar em um tipo de molécula. Figura 11 - Moléculas do amido: amilose e amilopectina O amido é a reserva energética das plantas, sendo composto por amiloses e amilopectinas em uma relação 1:3, aproximadamente. Quando ocorre a quebra das ligações do amido, são produzidas inú- meras moléculas possíveis de açúcares. Conforme as enzimas quebram, “pedaços” com 3, 4, 10 glicoses são formados e a esses açúcares chamamos de dextrinas. As dextrinas são responsáveis por dar corpo e dulçor residual à nossa cerveja, pois as leveduras são incapazes de metabolizar esses açúcares. Inver- samente, quando as pontas das moléculas de amido são quebradas, são liberados açúcares menores, como a maltose e a glicose, capazes de serem metabolizados e se tornarem álcool e gás carbônico. O balanço entre a quantidade de dextrinas e de açúcares fermentescíveis é de alto impacto à cerveja pronta (KUNZE, 2004). Amilose Amilopectina 98 Enzimas Cervejeiras αα-amilase Essa enzima é muito familiar aos cervejeiros. Ela é a enzima responsável pela quebra aleatória do amido. Isso quer dizer que ela pode atuar em qualquer ponto da cadeia de amido, podendo formar desde glicoses e maltoses (se atuar nas pontas) até dextrinas ramificadas (atuando em pontos no in- terior da cadeia). Esta enzima hidrolisa o amido, favorecendo mais as dextrinas do que os açúcares fermentescíveis, dando um caráter encorpado e com dulçor residual característico para a cerveja final. A priorização dessa enzima sobre as demais (deixando-a atuar por mais tempo em suas condições ótimas) irá trazer menor conteúdo alcoólico para a cerveja final. Nessas condições, você terá corpo, dulçor e pouco álcool. Perceba, como a manipulação da atuação das enzimas pode mudar totalmente as características finais da cerveja. Íon cálcio Íon cloro Aluno(a), não podemos confundir o íon cloreto (Cl-) com o gás cloro (Cl2). O primeiroé desejado no mosto cervejeiro para estabilização das en- zimas e para realçar características da cerveja final. O segundo é utilizado para estabilidade microbiana da água potável, porém reage com compostos da cerveja produzindo o off-flavor, chamado de clorofenol. Tenha sua dose extra de conhecimento assistindo ao vídeo. Para acessar, use seu leitor de QR Code. Figura 12 - Estrutura molecular da α-amilase Na Figura 12, está apresentada a estrutura mo- lecular da ∝-amilase. Podemos observar que os íons cálcio (Ca++) e cloreto (Cl-) estão presentes na estrutura, atuando como cofatores. Por essa razão, um mosto cervejeiro pobre em cálcio e cloro (na forma iônica) pode comprometer a atuação desta enzima. É por esse e outros motivos que a correção de sais da água cervejeira se faz necessária. 99UNIDADE 3 ββ-amilase A β-amilase é a enzima respon- sável pela quebra das ligações nas extremidades da molécula de amido. Ela tem por função pro- duzir a maior quantidade possí- vel de açúcares fermentescíveis para o mosto cervejeiro. Ela se encaixa perfeitamente no final das cadeias de amido, produzin- do maltoses. Esta enzima, quan- do priorizada na mosturação, dá caráter seco para a cerveja final, bem como maior teor alcoólico, em vista de maior capacidade de consumo pelas leveduras. Essa enzima tem como me- lhor faixa de atuação de 60 a 65 ºC, pH de 5,4 a 5,5 e é muito sensível em temperaturas altas, rapidamente inativada a 70 ºC (KUNZE, 2004). Por isso, é im- portante compreender que, se você deve produzir uma cer- veja com características inter- mediárias (corpo e teor alcoó- lico médio), você deve iniciar a mosturação de forma crescente de temperatura, pois a 70 ºC a β-amilase já não tem impacto suficiente. A ∝-amilase atua de 65 a 75 ºC, com pH de 5,6 a 5,8, em relações água malte de 3,5:1 a 4:1. Esses valores são faixas de atuação em que a enzima trabalha em suas melhores condições de velocidade de reação. Contudo, devemos estar cientes de que, nessas faixas, outras enzimas estarão igualmente atuando. Por essa razão, quando priorizamos a ∝-amilase sob as demais (principalmente em relação a β-amilase), devemos colocá-la para atuar nos limites de atuação das outras enzimas, ou seja, em um ponto em que ela se sobressaia às demais. Por isso, quando priorizamos a ∝-amilase, utilizamos temperaturas de 69 a 73 ºC. Em breve, veremos um comparativo a respeito das faixas ótimas. Figura 13 - Esquema de atuação das enzimas amilases na quebra das cadeias de amido Fonte: adaptada de Kunze (2004). a) b) c) d) α α α: α-amilase β: β-amilase α β ββ β β β β β β β β β β β β β β ββ β β β β α α Glicose Maltose Maltotriose Dextrina limite Resíduo de Glicose Por mais que pareçam básicos alguns conceitos, a forma de atuação das amilases tem alto impacto no mosto final, podendo arruinar uma cerveja pelo exagero em determinados patamares ou por atuar em faixas limites, 65 ºC, por exemplo, em que as duas enzimas estão atuando. Na Figura 13, temos um esquema de quebra das enzimas amilases nas cadeias de amido. 100 Enzimas Cervejeiras Outras Enzimas Amilolíticas Outras enzimas amilolíticas, de fato, estão presentes no malte, porém é importante compreender que, por estarem em menor quantidade e atuarem em outras faixas de temperatura menores, acabam por ter um efeito muito menor em relação à ∝-amilase e à β-amilase. No entanto, é importante seu conhecimento. Dextrinase limite As enzimas dextrinase limite são enzimas responsáveis por quebrar as ramificações das dextrinas. Essas enzimas atuam entre 50 ºC e 60 ºC, porém são rapidamente inativadas a 70 ºC. Amiloglicosidase Estas enzimas têm como objetivo fornecer glicose a partir do amido, ainda no processo de malteação. Elas têm a capacidade de atuar nas extremidades da molécula de amido, independentemente de quais, liberando apenas glicose. Sua importância está mais relacionada a reações de Maillard durante as torras dos grãos de malte, do que à mosturação propriamente dita. Por haver glicose disponível no grão, as torras produzem melanoidinas, que conferem cor, aroma e sabor aos grãos. β-glucanases Estas enzimas são responsáveis pela degradação dos β-glucanos, estruturas de glicose responsáveis por proteger o endosperma do grão. Quando o malte possui elevados teores de β-glucanos, reduzi- dos teores de β-glucanases e baixos valores de friabilidade (das fichas técnicas dos maltes e adjuntos, e completar, se necessário, com suplementos para garantir uma fermentação saudável. Além disso, em casos mais extremos, faz-se necessário o uso de estabili- zadores de espuma. Perceba, prezado(a) estudante, como é importante o conheci- mento das enzimas cervejeiras. Elas ditam praticamente tudo que o mosto terá no final prévio à fermentação. Como dizem os mais sábios, nós produzimos o mosto e o fermento produz a cerveja. Por esta razão, agora você já conhece os passos de como produzir um mosto de qualidade, levando em conta critérios como o pH de cada enzima, a relação água/malte (concentração) e as temperaturas ótimas. Você já compreende quais são as necessidades nutricionais da levedura e as características finais da cerveja que quer. Agora você está mais do que pronto para se aprofundar ainda mais no universo da bioquímica cervejeira. 105 Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução. 1. As enzimas são catalisadores biológicos, muito importantes no processo de produção cervejeira. Sobre as enzimas, assinale a alternativa correta. a) As proteases são enzimas responsáveis pela quebra dos ácidos graxos do mosto cervejeiro. b) As amilases só conseguem produzir glicose no mosto cervejeiro. c) As enzimas podem atuar em qualquer temperatura, pois não se alteram ao fim de uma reação química biológica. d) O pH é um fator de influência na atuação das enzimas no mosto cervejeiro. e) Quanto maior a concentração de substrato, maior a velocidade de atuação das enzimas. Por isso, é importante usar o máximo de malte possível em uma mosturação. 2. Diversos fatores, como temperatura e relação água/malte, podem influenciar a mosturação. Com base nos fatores de influência da atividade enzimática, afirma-se: I) As proteases possuem faixa de temperatura mais baixa do que as amilases, mas isso não quer dizer que em baixas temperaturas as amilases não estejam atuando, mesmo que de forma lenta. II) É perfeitamente possível iniciar a mosturação perto dos 90 ºC e ir abaixando a temperatura até passar pelos patamares das amilases e proteases. III) Após a fervura, todas as proteínas se quebram em aminoácidos, o que não faz necessário rampas de proteases no mosto cervejeiro. IV) A faixa ótima de pH das amilases está entre 2,0 e 3,5. Assinale a alternativa correta. a) Apenas I e II estão corretas. b) Apenas II e III estão corretas. c) Apenas I está correta. d) Apenas II, III e IV estão corretas. e) Todas as alternativas estão corretas. 106 3. As proteases são as enzimas responsáveis pela quebra das proteínas no mosto cervejeiro. Com base nesse exposto, assinale Verdadeiro (V) ou Falso (F): ) ( A produção de peptídeos se faz necessária para a formação e estabilidade da espuma. ) ( A concentração média ideal de aminoácidos livres está entre 14 e 20 mg/mL. ) ( Exceder o patamar de temperatura que libera aminoácidos livres pode preju- dicar a espuma da cerveja final. Assinale a alternativa correta. a) V-V-V. b) V-F-F. c) F-F-F. d) F-V-V. e) V-F-V. 4. No seu primeiro dia trabalhando como produtor cervejeiro da cervejaria Cesu- bier, o setor comercial informou que, devido à aceitação do público, as cervejas do tipo Ale estavam com alguns problemas. Elas estavam com uma fermentação e maturação lenta, e alguns lotes apresentavam baixa formação de espuma. Para verificar melhor, você solicitou a receita aos operadores e precisa verificar o que pode ser feito para melhorar a qualidade dessas cervejas, diminuindo seu tempo no tanque. Aquecer a água a 70 ºC. Adicionar o malte e verificar a temperatura do mosto a 65 ºC. Manter o mosto a 65 ºC até hidrólise total do amido (teste do iodo). Mash out a 78 ºC por 10 min. Fervura por 60 min. adição do lúpulo e resfriamento. Com base nanas informações apresentadas, quais medidas você alteraria ou adicionaria para que a cerveja melhorasse? 107106 Brewing Autor: James C. Hunter Editora: Royal Society of Chemistry Sinopse: acredita-se que a cerveja tenha sido produzida, de alguma forma, há milhares de anos – sendo os antigos egípcios uma civilização com conhecimento do processo de fermentação. A produção de cerveja sofreu muitas mudanças ao longo dos séculos e o livro “Brewing” atualiza o leitor com os avanços da última década. Cobrindo as várias etapas da produção de cerveja, também é feita referência à microbiologia dentro da cervejaria e alguns indicadores para a pesquisa sobre o tópico. Escrito por um cervejeiro recém-aposentado, este livro agradará a todos os amantes de cerveja, mas principalmente àqueles da indústria que desejam entender os processos e será relevante para estudantes de ciências biológicas ou alimentares. LIVRO Em busca da cerveja perfeita Ano: 2019 Sinopse: a cerveja perfeita existe? Descubra em um documentário que percorreu mais de 10 mil km ao redor do mundo. Uma viagem em busca do passado, do futuro e dos diferentes aromas, sabores, ingredientes e segredos que fazem da cerveja a bebida mais consumida do planeta. Ao todo, 22 dos maiores especia- listas do Brasil e do mundo, entre mestres cervejeiros, sommeliers, produtores de malte e lúpulo, entre outros, relatam a sua relação com a cerveja e o que, na opinião deles, a fez passar por tantos séculos e seguir como a bebida mais querida e desejada em todos os continentes. Um filme para pessoas apaixo- nadas por cerveja. FILME Tecnologia de fabricação de malte: uma revisão Nessa monografia de Paula Porto, é feita uma revisão a respeito da fabricação dos maltes a nível científico. Também é abordada todas as análises realizadas e como as enzimas desempenham o principal papel na produção de maltes. Para acessar, use seu leitor de QR Code. WEB https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/2661 108 BORZANI, W.; SCHMIDELL, W.; LIMA, U. de A.; AQUARONE, E. Biotecnologia Industrial: Fundamentos. São Paulo: Blucher, 2008. Volume 1. KUNZE, W. Technology Brewing and Malting. 6. ed. Berlin: VLB, 2004. MALCATA, F. X. Mathematics for Enzyme Reaction Kinetics and Reactor Performance. Wiley-Blackwell, 2020. MALLETT, J. Malt: A Practical Guide from Field to Brewhouse. Boulder: Brewer’s Publications, 2014. NELSON, D. L. COX, M. M. Princípios de bioquímica de Lehninger. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. REFERÊNCIAS ON-LINE 1Em: https://www.nobelprize.org/prizes/chemistry/1907/buchner/biographical/. Acesso em: 30 mar. 2020. 2Em: https://commons.wikimedia.org/wiki/Eduard_Buchner#/media/File:Eduardbuchner.jpg. Acesso em: 30 mar. 2020. 109 1. D. 2. C. 3. A. 4. A utilização de patamares de temperatura para as proteases poderia reduzir os tempos de fermentação e maturação, devido à produção de aminoácidos livres no mosto cervejeiro. Além disso, patamares para proteases produtoras de peptídeos de médio peso molecular poderiam melhorar a retenção de espuma. Para isso, seria interessante que a água fosse aquecida a, no máximo, 50 ºC, adicionado o malte e mantido por pelo menos 10 min. a 45 ºC. Depois mais 10 a 15 min. a 55 ºC e só assim partido para o patamar de 65 ºC. Os outros passos estão de acordo. 110 PLANO DE ESTUDOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Me. Maycon Vinícius de Senna Ribeiro • Compreender as demandas energéticas dos fermentos no mosto cervejeiro. • Analisar como os fermentos transformam a glicose para obterem energia. • Compreender as etapas do processo aeróbio. • Conhecer os mecanismos de oxidação dos ácidos graxos e do lúpulo. • Compreender como são formadas as biomoléculas a partir de suas unidades básicas. Sobrevivência por meio da Obtenção de Energia Glicólise Oxidação dos Ácidos Graxos e Compostos do Lúpulo Biossíntese de Biomoléculas Processo Aeróbio Processos de Obtenção de Energia pelos Organismos Sobrevivência por meio da Obtenção de Energia Quando inoculamos o fermento no mosto cer- vejeiro resfriado, mal sabemos o tanto de reações que ocorrem dentro das células até que o resulta- do final (a cerveja) seja alcançado.Os fermentos só buscam uma coisa no mosto cervejeiro: obter energia para sobreviver. Pode parecer um pouco estranho, mas os seres vivos tendem a sobreviver nos meios em que são colocados, alimentando-se para obter energia. Com os fermentos, a principal fonte de energia são os carboidratos fermentescí- veis que fornecemos a eles por meio da brasagem. Por haver oxigênio no início da fermentação e depois ele se tornar escasso, o fermento precisa modificar sua forma de degradação dos carboi- dratos, se não, ele perecerá. Como veremos nesta unidade, a degradação dos carboidratos através do oxigênio é muito mais energética, pois apro- veita-se a energia de cada ligação de carbono, eli- minando, ao final, apenas água e gás carbônico. Quando ocorre a fermentação alcoólica, entre- tanto, o ganho energético é muito menor. Por esta razão, o fermento tende a preferir as vias aeróbias (com oxigênio) do que vias anaeróbias (sem oxi- gênio), por sobrevivência. 113UNIDADE 4 A reação clássica da fermentação alcoólica é dada pela equação a seguir (BORZANI et al., 2008): C6 H12 O6→2CH3 CH2 OH+2CO2 ΔF=-56 kcal/mol Perceba que a quantidade de energia gerada pela transformação de 1 mol de glicose em álcool etílico e gás carbônico é a principal reação ocorrida dentro dos tanques de fermentação (Figura 1). Parece até simples, porém é importante ressaltar que essa reação não ocorre espontaneamente fora das células. Nós sabemos que é possível guardar açúcar em potes durante longos períodos de anos, claro que bem vedados e longe do consumo de outros microrganismos, mas que não se transformarão em álcool tão facilmente. Esta é a grande “sacada” da vida: ela utiliza enzimas para degradar essas substâncias e produzir energia. Um microrganismo é um grande “pacote” de enzimas, que trabalham incessantemente, reguladas geneticamente para a sobrevivência da célula. Transformar glicose em álcool não se consegue em apenas um passo, mas sim em vários, e em cada um deles, uma enzima extremamente específica atua. Nesse processo, diversas substâncias são produzidas, as quais chamaremos de intermediários. Estes são subs- tâncias produzidas e, posteriormente, consumidas para a conclusão do objetivo final: produzir energia. Figura 1 - Produção de gás em fermentação alcoólica Além disso, trataremos também, nesta unidade, sobre os processos de biossíntese. Assim como os microrganismos conseguem quebrar molécu- las para aproveitar a energia de suas reações, eles podem unir moléculas, servindo de estoque de energia. As leveduras, principalmente no início da fermentação, presenciam uma vasta quantidade de nutrientes disponíveis e, por regulação genética, unem glicoses em moléculas maiores, chamadas de glicogênio (HOHMANN; MAGER, 2010). Tenha sua dose extra de conhecimento assistindo ao vídeo. Para acessar, use seu leitor de QR Code. 114 Processos de Obtenção de Energia pelos Organismos Quando os nutrientes começam a se esvair, a célula passa a consumir suas reservas de glicogênio. Dessa maneira, entendemos que o meio no qual a vida está inserida regula a maior parte das trans- formações internas, e cada substância produzida nesse processo depende das condições do meio e da saúde das células. A todas estas transformações cha- mamos de metabolismo. E cada conjunto de pas- sos chamamos de rotas ou caminhos metabólicos. Você, futuro(a) profissional da Produção Cervejei- ra, deve conhecer os caminhos metabólicos para diagnosticar sintomas de estresse dos fermentos e atuar caso algum metabólico indesejável apareça no meio, dando odor ou sabor desagradável à cerveja. É muito importante ao cervejeiro conhecer os intermediários. Muitas vezes, as células não completam o ciclo de transformação da glicose e acabam por excretar intermediários no meio de cultivo (mosto), os quais, as vezes, são detec- táveis. Dessa forma, o cervejeiro consegue com- preender quais foram as circunstâncias do meio que impediram a conclusão do ciclo. Um exemplo clássico é que o excesso de aminoácidos, como a leucina, pode produzir álcoois superiores no mosto, dando sensação de solvente, quente, ao tragar um gole. 115UNIDADE 4 A glicólise, ou também chamada de via de Embden -Parnas-Meyerhof, é a transformação da glicose em uma substância chamada de piruvato. Essa rota metabólica envolve uma série de transfor- mações enzimáticas que veremos detalhadamente aqui. Entretanto, para que possamos compreender melhor como a vida aproveita a energia das liga- ções, precisamos conhecer algumas substâncias responsáveis por carregar energia para as células. Adenosina Trifosfato (ATP) e Adenosina Difosfato (ADP) O ATP é uma biomolécula formada por uma ribose (açúcar), um grupo adenina e um grupo trifosfato. É uma molécula formada por ligações entre fosfatos de alta energia. Quando as células quebram as ligações dos alimentos, essa energia é armazenada na forma de ATP, unindo os fosfatos. Quando a célula necessita de energia, ela rompe uma ligação fosfato, liberando a energia necessá- ria, seja para movimentação ou para formação de outras moléculas. Por esse motivo, chamamos o ciclo ADP-ATP, do ciclo de regeneração energéti- ca da célula, como pode ser observado na Figura 2. Glicólise 116 Processos de Obtenção de Energia pelos Organismos Dinucleótido de Nicotinamida e Adenina Oxidada (NAD) e Reduzida (NADH) Figura 2 - Ciclo de regeneração ADP-ATP Figura 3 - Estrutura molecular do NAD Dinucleótido de nicotinamida adenina Adenina Ribose Trifosfato Fosfato Energia liberada (para a célula) Adenina Difosfato Ribose Fosfato Energia absorvida (de alimentos) Ciclo ADP-ATP Para o correto aproveitamento da energia da quebra das bio- moléculas, como os carboidra- tos, deve haver grupos fosfato responsáveis por absorver essa energia, que a seguir será desti- nada para as moléculas de ATP. Esta substância é uma coenzima e também é conhecida como Vitamina B3. É extremamente necessária para o correto fun- cionamento da vida devido à sua capacidade de transportar elétrons durante as reações químicas. Assim como o ATP armazena energia por meio de ligações de fosfato, o NAD ar- mazena sob a forma de elétrons, tendo um papel fundamental na quebra da glicose, como vere- mos mais adiante. 117UNIDADE 4 1ª Fase: fosforilação do açúcar O primeiro passo da glicólise envolve a transformação da glicose em glicose-1-fosfato, por meio de uma enzima chamada de fosforilase. A seguir, a ligação 1 do grupo fosfato é transferida para 6, transforman- do a glicose-1-fosfato em glicose-6-fosfato, assistida por uma enzima chamada de fosfoglicomutase. Lembre-se, aluno(a): os grupos fosfatos ligados são originários das moléculas de ATP. Figura 4 - Conversão da Glicose em Glicose-6-fosfato Fonte: adaptada de Nelson e Cox (2014). CH2 O OH OH OPO2- H H HH H OH Mg2+ ATP ADP HO OH O OH H H HH H OHHO OH Glicose Glicose-6-fosfato CH2 Fosfoglicomutase 3 6 5 4 3 2 1 ΔG’o = - 16,7 kJ/mol A seguir, ocorre um fenômeno de isomerização, transformando a glicose-6-fosfato em frutose-6-fosfato. Essa reação é assistida pela enzima fosfohexoseisomerase, como cofator o magnésio. Fases da Glicólise Para que possamos compreender o caminho metabólico da glicose, dividiremos ele em fases, em que mostraremos o antes e o depois e qual a enzima responsável (BORZANI et al., 2008). 118 Processos de Obtenção de Energia pelos Organismos Figura 6 - Fosforilação da frutose-6-fosfato a frutose-1,6-bifosfato Fonte: adaptada de Nelson e Cox (2014). Frutose-6-fosfato ΔG’o = -14,2 kJ/mol OH OH HO H H H O CH2-OH 3CH2OPO2- 6 5 4 3 2 1 Frutose-1,6-bifosfato OH OH HO H H H O CH2-OPO2- 3CH2OPO2- 6 5 4 3 2 1 Mg2+ ATP ADP Fosfofrutoquinase (PFK-1) 3 Figura 5 - Conversão da Glicose-6-fosfato em Frutose-6-fosfato Fonte: adaptada de Nelson e Cox (2014). A frutose-6-fosfato recebe mais um grupo fosfato, vindo de outra molécula de ATP, formando fruto- se-1,6-difosfato assistidapela enzima fosfofrutoquinase na presença de íons magnésio. Mg2+ 3 H OH OH OH HO H H H O Glicose-6-fosfato Frutose-6-fosfato 3 O OH H HH CH2OPO2- CH2OHH OHHO 5 6 3CH2OPO2- 6 5 4 3 2 1 4 2 1 ΔG’o = 1,7 kJ/mol Fosfo-hexose- isomerase Perceba, prezado(a) estudante, como essas reações químicas são possíveis apenas na presença de fósforo, magnésio, vitamina B3 e, claro, aminoácidos utilizados para a formação dessas enzimas. A nutrição do mosto cervejeiro deve conter essas substâncias para uma fermentação saudável. 119UNIDADE 4 2ª Fase: desdobramento do açúcar fosforilado Por meio da atuação de uma enzima chamada de aldolase, a molécula de frutose-1,6-difosfato é que- brada em outras duas, chamadas de fosfodiihidroxiacetona (PDHA) e gliceraldeído-3-fosfato (GA-3P). ΔG’o = 23, kJ/mol Frutose-1,6-bifosfato OH OH C O C CHOH O H HO H H H O 3 3 3 3 CH2OPO2- CH2OPO2- CH2OPO2- CH2OPO2- 6 5 4 3 2 1 Fosfodiihidroxiacetona (PDHA) Gliceraldeído-3- -fosfato Aldolase (1) (2) (3) (4) (5) (6)CH2OH + Figura 7 - Quebra da frutose-1,6-fosfato Fonte: adaptada de Nelson e Cox (2014). 3ª Fase: interconversão das trioses-fosfato Observe que os dois produtos formados possuem os mesmos átomos. Dessa forma, uma enzima chama- da de triose-fosfato isomerase converterá a fosfodiihidroxiacetona (PDHA) em gliceraldeído-3-fosfato (GA-3P), pois apenas essa última dará sequência nas reações posteriores. Figura 8 - Interconversão das trioses-fosfato Fonte: adaptada de Nelson e Cox (2014). ΔG’o = 7,5 kJ/mol C O C HCOH O H 33CH2OPO2- CH2OPO2- Fosfodiihidroxiacetona Gliceraldeído-3- -fosfato Triose-fosfato isomerase CH2OH 120 Processos de Obtenção de Energia pelos Organismos Figura 9 - Conversão de 3-fosfoglicerilfosfato em 3-fosfoglicerato Fonte: adaptada de Nelson e Cox (2014). Uma enzima chamada de fosfogliceromutase, em conjunto com a coenzima ácido 2,3-difosfoglicérico (2,3-DPGA), desloca a ligação fosfórica, transformando o 3-fosfoglicerato em 2-fosfoglicerato. Fosfoglicerato-cinase 3-fosfoglicerilfosfato +C HCOH OO 3CH2OPO2- Mg2+ P O- O- O P P O Rip Adenina ADP ΔG’o = -18,5 kJ/mol 3-Fosfoglicerato 3 C HCOH O-O CH2OPO2- OPO- O- P P O Rip Adenina ATP Agora que duas moléculas de gliceraldeído-3-fosfato foram formadas, cada uma delas seguirá para a fase seguinte, sendo transformadas em 3-fosfoglicerilfosfato pela enzima gliceraldeído-3-fosfato desi- drogenase. Esse processo gera energia por meio da liberação de um grupo fosfato, este que se ligará a uma molécula de ADP formando um novo ATP. Como produto final, temos o 3-fosfoglicerato e uma molécula de ATP. Figura 10 - Conversão de 3-fosfoglicerato em 2-fosfoglicerato Fonte: adaptada de Nelson e Cox (2014). ΔG’o = 4,4 kJ/mol Fosfoglicerato- -mutase 3-Fosfoglicerato 2-Fosfoglicerato 3 3 Mg2+C HC OH O-O CH2 O PO2- C HC O-O CH2 OH PO2-O 121UNIDADE 4 4ª Fase: formação de piruvato O fim da glicólise é marcado pela formação do piruvato, que se dá pela retirada de água da molécula de 2-fosfoglicerato formando o fosfoenolpiruvato, assistida pela enzima enolase. Figura 11 - Conversão de 2-fosfoglicerato em fosfoenolpiruvato Fonte: adaptada de Nelson e Cox (2014). ΔG’o = 7,5 kJ/mol 2-Fosfoglicerato Fosfoenolpiruvato OPO2- C CH HO H2O CH2 CH2 O-O C O-O 3 OPO2-C 3 Enolase Por fim, o fosfoenolpiruvato é, de fato, convertido em piruvato, pela retirada do grupo fosfato para uma molécula de ADP, que agora se torna um ATP. Figura 12 - Conversão do fosfoenolpiruvato em piruvato Fonte: adaptada de Nelson e Cox (2014). Perceba como todas essas reações e transformações tiveram como objetivo aproveitar a energia das ligações da glicose para produzir ATP. Perceba também que, para que a reação inicie, também é for- necida uma energia na forma de ATP, para só então, ao fim, essa energia ter um balanço positivo. O ATP é como se fosse a “bateria” das células, armazenando energia e sendo utilizada posteriormente. Contudo, o piruvato é um íon negativo, com um elétron que ainda pode ser utilizado. É nesse mo- mento que o NAD atua, retirando esse elétron e reduzindo o piruvato. Dessa forma, o NAD consegue se tornar NADH e voltar ao ciclo. Tanto as moléculas de ATP quanto de NADH são imprescindíveis para deslocar elétrons e armazenar energia para as células. ΔG’o = -31,4 kJ/mol ΔG’o = kJ/mol C O-O CH2 C O +P O O- O- P P O Rip Adenina ADPFosfoenolpiruvato Mg2+, K+ Piruvato- -cinase C O-O CH3 C O + P O- OO- P P O Rip Adenina ATP Piruvato 122 Processos de Obtenção de Energia pelos Organismos Destinos do Piruvato Mais adiante, veremos como o piruvato é totalmente oxidado pelo oxigênio, quando há a presença deste. No entanto, como sabemos, as leveduras atuam na produção de cervejas por vias sob a ausência de oxigênio. Nestas situações, o piruvato é transformado em etanol e gás carbônico, como está apre- sentado a seguir. O primeiro passo é a transformação do piruvato em acetaldeído, por meio da enzima piruvato-descarboxilase (BORZANI et al., 2008). Fermentação alcoólica Figura 13 - Conversão do piruvato em acetaldeído Fonte: adaptada de Borzani et al. (2008). Ação da descarboxilase pirúvica COOH CHO+CO CH3 CH3 CO2 Piruvato Acetaldeído A seguir, a enzima desidrogenase alcoólica atua sobre o acetaldeído, transformando-o em etanol, utilizando o NADH como fornecedor de elétrons. Esta reação é prejudicada pela presença de sulfitos. Figura 14 - Conversão do acetaldeído em etanol Fonte: adaptada de Borzani et al. (2008). O acetaldeído é um conhecido off-favor do meio cervejeiro. Ele confere sabores exagerados de uvas e maçãs verdes, porém pode ser consumido durante a maturação das cervejas pelas leveduras. Perce- ba que ele é a molécula precursora da formação do etanol, dessa maneira, o acetaldeído presente na cerveja indica uma falha no metabolismo, causada por uma fermentação estressante. Fatores como leveduras com baixa atividade (vencidas e velhas) e falhas na oxigenação do mosto podem ser fatores influenciadores na formação do acetaldeído. Durante a fermentação alcoólica, outros subprodutos podem ser produzidos, dependendo das con- dições do meio. Assim como vimos para o acetaldeído que não consegue se tornar etanol, veremos, a seguir, algumas condições que podem gerar on/off-flavors em nossa cerveja. Ação da desidrogenase alcoólica CHO NADH NADH+ + ++ CH3 CH2OH CH3 Acetaldeído Etanol 123UNIDADE 4 Efeito Pasteur Em uma fermentação anaeróbia, a baixas concentrações de oxigênio no meio e concentrações moderadas de glicose, tudo ocorre como o esperado: a levedura acaba por fermentar a glicose em etanol. Entre- tanto, quando há a diminuição das concentrações de glicose, a leve- dura tende a respirar, devido à ação da enzima fosfofrutoquinase, que é inibida pelo ATP. Dessa maneira, baixas concentrações de glicose ainda podem forçar as leveduras a respirarem (BORZANI et al., 2008). Efeito Crabtree Quando em um meio com alta concentração de glicose, porém com altas concentrações de oxigênio, ainda assim as leveduras tendem a fermentar. Esse fenômeno ocorre na natureza, quando as leve- duras fermentam as frutas e demais fontes de açúcar, mesmo em locais abertos, como abaixo de árvores e no chão. Esse fenômeno é explicado pelo fato de a alta concentração de glicose interferir no funcionamento das vias respiratórias, impedindo que a levedura respire (BORZANI et al., 2008). Formação do glicerol Em unidades anteriores, comen- tamos a formação do glicerol pelas leveduras, que em vinhos é bastante aparente. Contudo, essa substância dá também sen- sação de “bebida arredondada”, aumentando sua qualidade. O glicerol é produzido como subs- tância de regulação da parede celular das leveduras, estando diretamente ligado à formação da biomassa. Quando o meio é concentrado (açúcares, sais etc.), a levedura acumula glicerol e, quando o meio abaixa sua con- centração, o glicerolé excretado (HOHMANN; MAGER, 2010). Choque hipertônico (sal, açúcar) AUMENTO DA OSMOLARIDADE DO MEIO HorasSegundos para minutos ACÚMULO DE GLICEROL Rápida perda de água pela célula, perda de estrutura e enrugamento da célula Adaptação: �uxo normal de água, crescimento normal DIMINUIÇÃO DA OSMOLARIDADE DO MEIO Choque hipotônico Rápido ganho de água, aumento da pressão interna e esticamento da célula FLUXO DE GLICEROL Adaptação: fluxo normal de água, crescimento normal Figura 15 - Osmorregularização das leveduras através de glicerol Fonte: adaptada de Hohmann e Mager (2010). 124 Processos de Obtenção de Energia pelos Organismos Álcoois superiores são uma classe de álcoois também cha- mados de óleos fúseis, aos quais muitas vezes é atribuída a sen- sação de solvente, queimação, ocasionada por algumas bebi- das alcoólicas. Nem todos os ál- coois superiores são off-flavors, porém em excesso podem pre- judicar a bebida final. Eles são formados durante a biossíntese de alguns aminoácidos, como a valina, a treonina e a leucina. Quadro 1 - Biossíntese de aminoácidos e respectivos álcoois superiores Aminoácido Cetoácido intermediário Álcool superior Leucina alfacetoisocapróico álcool isoamílico Valina alfacetoisovalérico álcool isobutílico Isoleucina alfaceto betametil- valérico Álcool isoamílico Treonina alfacetobutírico Álcool n-propílico Fonte: adaptada de Borzani et al. (2008). Fermentação lática Algumas bactérias dão outro destino para o piruvato, e não é o etanol. Lactobacillus, Streptococcus e Pedicoccus fermentam glicose, frutose, galactose, manose e lactose formando ácido lático como pro- duto final. Nesse caso, o piruvato é assistido pela enzima lactato desidrogenase, conforme Figura 16. Figura 16 - Conversão do piruvato em lactato Fonte: adaptada de Nelson e Cox (2014). Algumas cervejas, principalmente as ácidas (ou sour, em inglês) são assistidas por uma acidificação lática, fazendo uso de microrganismos que fermentam até ácido lático. Dessa maneira, o pH é reduzido como ação das bactérias e uma fermentação alcoólica posterior é conduzida. C O-O C HO H O-O CH3 C CH3 CO Piruvato L-Lactato Lactato- -desidrogenase NADH + H+ NAD+ �G’º = -25,1kJ/mol Formação dos álcoois superiores Como já estudado, os organismos, como as leve- duras, que podem trabalhar tanto em condições com oxigênio quanto em condições sem oxigênio, o fazem porque o oxigênio tem a capacidade de aproveitar ainda mais a energia das ligações da glicose. Além disso, o oxigênio consegue aprovei- tar a energia de ácidos graxos e de aminoácidos. Contudo, para compreender como esse processo ocorre, vamos partir do piruvato, pois até ali o processo é o mesmo, ou seja, por via glicolítica. Chamamos a completa conversão do piruvato em gás carbônico e água de ciclo de Krebs, ou também chamado de ciclo do ácido cítrico. Processo Aeróbio 126 Processos de Obtenção de Energia pelos Organismos Para que ele se inicie, o piruvato é convertido em acetil-coenzima A, exigindo cofatores como o NAD, a coenzima A, pirofosfato de tiamina, ácido lipóico e magnésio, conforme Equação 1. Piruvato + NAD + HS-CoA → Acetil-CoA + NADH + H+ Eq. 01 A seguir, a Acetil-CoA entra no ciclo de Krebs e coenzimas como NAD e FAD são reoxidadas pelo acoplamento de elétrons das moléculas de oxigênio, conforme Figura 18. Mais importante que compreender os passos para que o ciclo ocorra de maneira correta, cada passo exige cofatores, coenzimas, íons metálicos e outras substâncias. Fica fácil analisar que a ausência deles pode complicar a correta conversão das substâncias. Você, como profissional da Produção Cervejeira, ao diagnosticar substâncias “indevidas” na fermentação, deve se atentar para em qual parte do processo os fermentos não conseguiram completar o ciclo, muito provavelmente pela ausência de cofatores e coenzimas. É muito importante que o mosto seja saudável e que os fermentos possuam células saudáveis. Figura 17 - Ciclo de Krebs Fonte: adaptada de Borzani et al. (2008). HS-CoA Citrato Isocitrato Cetroglutarato Succinil-CoA Succinato CO2 CO2 NADH2 NADH2 + H2O + H2O + H2O FADH2 NADH2 NAD FAD Fumarato Malato Oxaloacetato Acetil-CoA NAD TPP + HS-CoA HS-CoA GDP + Pi GTP NAD Fe+2 Mg+2 127UNIDADE 4 Figura 18 - Reoxidação de coenzimas assistidas pelo oxigênio Fonte: adaptada de Borzani et al. (2008). NAD ATP ATP ATP Flavoproteína I Flavoproteína II Coenzima Q Citrocromo b Citrocromo c Citrocromo a/a3 FADH2 Rotenona FAD Cianeto Antimicina A Sulfeto O O-2 NADH2 Bactérias Acéticas Uma característica muito conhecida quando se trata de contamina- ção é a acidificação acética das bebidas alcoólicas. O famoso aroma/ sabor de vinagre está associado à contaminação por bactérias acé- ticas, que sob condições aeróbias convertem o etanol das leveduras em ácido acético (BORZANI et al., 2008). CH3 CH2OH etanol CH3 CHO acetaldeído + Coenzima ox. + Coenzima red. H2O CH3 COOH CH3 CHO ácido acético + Coenzima red.+ Coenzima ox. Figura 19 - Conversão do etanol em ácido acético pelas bactérias acéticas Fonte: adaptada de Borzani et al. (2008). Quando há a ausência de eta- nol no meio, as bactérias acéti- cas convertem a glicose em gás carbônico e água, utilizando do ciclo de Krebs normalmente. No entanto, em vias aeróbias, outras moléculas podem ser convertidas a acetil-coenzima A. Ácidos graxos e aminoácidos, por exemplo. A seguir, veremos como os microrganismos con- seguem converter ácidos graxos e metabolizá-los. Nas unidades anteriores, conhecemos sobre as biomoléculas e demos um enfoque aos ácidos gra- xos, pelo papel que desempenham na membrana das células. Contudo, neste tópico, daremos enfo- que em como os ácidos graxos são degradados e que, muitas vezes, essa degradação está associada a problemas na cerveja final. As leveduras, por exemplo, quando não são retiradas ao fim da fer- mentação, acabam por morrer, tendo seu conteú- do intracelular disperso na cerveja fermentada. Os ácidos graxos da parede celular serão de- gradados pelas enzimas ali presentes e o off-flavor de autólise, por exemplo, aparecerá. Além dessa situação, as substâncias do lúpulo são sensíveis a luz, que, quando em exposição delongada, pode conferir o off-flavor lightstruck. Agora, com- preenderemos como eles ocorrem e como pode- mos evitar, conhecendo os princípios da oxidação dos ácidos graxos. Oxidação dos Ácidos Graxos e Compostos do Lúpulo 129UNIDADE 4 Mecanismos de Reação Os lipídeos podem ser degradados de duas maneiras: por vias enzimáticas, sendo assistidos por li- pases em presença de oxigênio, ou pelo mecanismo que chamamos de auto-oxidação. De qualquer forma, essas duas vias chegam a um resultado final de uma molécula chamada de trans-2-nonenal, que é caracterizada pelo off-flavor de papelão. A oxidação do mosto e da cerveja pronta pode acelerar o processo de formação dessa substância. Podemos verificar os mecanismos por meio da Figura 20. Figura 20 - Oxidação de lipídeos a trans-2-nonenal Fonte: adaptada de Nelson e Cox (2014 apud WECKL, 2017, on-line, aos 15 min.)1. Lipídios Enzimático Lipase Lipoxygenase Precursores T-2-nonenal 9 - LOOH 9 - LOOH O2 Ác. Graxos livres Auto-oxidação Não Enzimático Além das leveduras, os lipídeos e ácidos graxos estão presentes no malte e nas resinas do lúpulo, sendo extremamente sensíveis à oxidação. Quando a mosturação é bem conduzida, dificilmente as lipases do malte atuarão degradando essas substâncias, porém processos de autólise e oxigenação incorreta do mosto podem prejudicar sensorialmente a cerveja, com relação aos lipídeos. As resinas do lúpulo, principalmente as iso-humulonas pós-fervura, são facilmente oxidadas pela ação da luz, produzindo um composto conhecido como metilbut-2-eno-1-tiol (MTB), sendo sensorialmente percebido na ordem de ng/L. Esse off-flavor também é conhecido como “lightstruck” e está presente na maioria das cervejas que nãocervejas. Depois disso, teremos bagagem suficiente para entender como a levedura transforma os açúcares do mosto em etanol e outras tantas substâncias que compõe o aroma e o sabor das cervejas, como tudo isso faz parte da sobrevivência da levedura, e poderemos prever as mudanças no metabolismo, baseando-se na forma que a fermentação é conduzida. Como o malte produz o amido e como o lúpulo produz seus óleos essenciais também será abordado aqui. Finalmente, entenderemos como a genética está presente no processo de produção cervejeira e como os insumos, principalmente as leveduras, são selecionados para produzir cervejas com aromas e sabores diferentes. A bioética da manipulação de ge- nes de seres vivos será abordada de forma sucinta para que compreendamos como os genes regulam o metabolismo dos seres vivos e até onde podemos atuar nos processos de manipulação. Será visto, ainda, como as leveduras e bactérias podem cruzar material genético e produzir microrganismos mais resistentes a condições de estresse e até produzirem metabólitos de interesse. A produção cervejeira exige do profissional essa vasta quantidade de conhecimento bioquímico. No entanto, tenho certeza de que você será muito bem guiado. Aproveite! CURRÍCULO DOS PROFESSORES Me. Maycon Vinícius de Senna Ribeiro Mestre em Engenharia Química pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e Engenheiro Químico pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Atualmente é Dou- torando em Engenharia Química, com ênfase em Bioprocessos e Biocatálise também pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Atua na pesquisa desde 2013 na área de alimentos e bebidas fermentadas, com ênfase na produção de hidromel, cervejas e kombucha. Currículo Lattes disponível em: http://lattes.cnpq.br/5538576381987603 Macromoléculas Cervejeiras 13 45 Introdução à Bioquímica Cervejeira Biotecnologia Cervejeira 143 Processos de Obtenção de Energia pelos Organismos 111 83 Enzimas Cervejeiras Utilize o aplicativo Unicesumar Experience para visualizar a Realidade Aumentada. Transporte passivo na célula do fermento cervejeiro 93 Cinética Enzimática 19 PLANO DE ESTUDOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Me. Maycon Vinícius de Senna Ribeiro • Conhecer a unidade básica da vida, as células envolvidas nos processos cervejeiros. • Analisar as características da estrutura celular e sua in- fluência nos processos cervejeiros. • Compreender a composição das biomoléculas cervejeiras. • Entender como a água influenciou no surgimento da vida e nos processos cervejeiros. • Introduzir os conceitos da bioquímica cervejeira. A Vida e a Cerveja Células Cervejeiras Água Cervejeira Produção CervejeiraO que Há no Mosto Cervejeiro Introdução à Bioquímica Cervejeira 14 Introdução à Bioquímica Cervejeira A Vida e a Cerveja Saudações, aspirante profissional da Produção Cervejeira! É com enorme satisfação que te apre- sento a Bioquímica Cervejeira. Esse é o momento de compreender quais são as principais diferenças entre o que é vivo e o que não é, e como essas características influenciam em todas as etapas da produção de cervejas. Desde o fermento que se se- dimenta ao fundo do fermentador até as proteínas estabilizadoras das espumas nos copos, você terá a capacidade de manipular as biomoléculas a seu favor, aumentando a qualidade do produto final. Embarquemos nesta confraria, vamos lá! 15UNIDADE 1 Quando fermentamos nossa cerveja, assim como nosso aluno na Figura 1, seja em casa ou na indústria, utilizamos uma suspensão líquida ou granulada, geralmente de cor bege, que chamamos de fermento. O fermento é adicionado no nosso mosto, fermenta nossa cerveja e, ao final do processo sedimenta-se, acumulando-se no fun- do dos fermentadores. O fermento é um ser vivo, assim como nós, que tem como objetivo sobreviver no mosto cervejeiro, realizando diversos processos para se manter e se replicar. A cevada é um grão originário de uma planta viva, e durante a malteação tudo o que uma semente tenta fazer é germinar, para sobreviver e se replicar. Agora te faço um desafio: como pode o granulado ou uma sus- pensão líquida ser algo vivo? Como pode um grão germinar e se multiplicar? O que os diferencia dos grãos de areia, por exemplo? É nesta unidade que entenderemos como esses processos funcionam. Figura 1 - Fermento em suspensão adicionado ao fermentador O fermento, como o conhecemos, nem sempre foi conhecido e manipulado como é hoje. Na promulgação da Lei da Pureza alemã, em 1516, a cerveja só poderia ser produzida a partir de três ingre- dientes: água, malte de cevada e lúpulo. Não havia conhecimento para compreender que quem transformava o mosto em cerveja era um ser vivo, e que este também era um ingrediente. Apenas misturavam-se os ingredientes, processos de cozimento e infusão eram aplicados e aquela mistura “estragava” para se tornar cerveja. Nessa época, era também expressamente proibida a produção de cervejas no verão, devido à sua baixa qualidade durante essa época (DANIELS, 1998). Você consegue dizer por que a qualidade das cervejas produzidas no verão era ruim? 16 Introdução à Bioquímica Cervejeira Em temperaturas maiores, a velocidade de reações químicas que acontecem pelos seres vivos é muito maior. Alguns, inclusive, se multiplicam muito mais rapidamente em altas temperaturas. Por isso, em temperaturas maiores, sem os controles que possuí- mos hoje, as cervejas eram habitadas por leveduras e bactérias, em uma guerra bioquímica pelos nutrientes do mosto cervejeiro. As bactérias, apesar de mais poderosas no quesito de se multiplicar, são seres vivos menos complexos que as leveduras, forma que são chamados os nossos fermentos. No entanto, todas elas têm algo em comum: são formadas por uma unidade chamada de célula, que nada mais é do que um conjunto de biomoléculas delimitado por uma membrana, caracterizando um organismo unicelular, ou seja, ser vivo de uma única célula (Figura 2). Figura 2 - Células de leveduras observadas a microscópio 17UNIDADE 1 Figura 3 - Cevada germinando e radículas aparentes antes da secagem A célula é a estrutura básica da vida. Todos os seres vivos são com- postos por células, umas maiores, outras menores. As leveduras são constituídas por células, o malte é formado por células e nós também somos um amontoado de células vivas, trabalhando em conjunto. A célula, por sua vez, é formada de muitas biomoléculas, que nada mais são do que muitos átomos, bem organizados para formar uma estrutura funcional. Por exemplo, durante a malteação, o grão de cevada inicia o processo de germinação; nesse momento, biomoléculas formam as radículas, que são as primeiras raízes do grão para formar uma nova planta, como podemos observar na Figura 3 (MALLETT, 2014). Para evitar a germinação e produzir o malte, o grão é seco e suas radículas são retiradas, porém fica o entendimento que a vida sempre luta pela sobrevivência. A Bioquí- mica Cervejeira é a ciência que estuda as biomoléculas envolvidas na produção cervejeira. 18 Introdução à Bioquímica Cervejeira O fermento cervejeiro, que são as leveduras cer- vejeiras, são enxergados por nós quando estão em suspensão, como no caso de uma turva cerveja de trigo ou quando aguardamos as leveduras de- cantarem ao fundo do fermentador para que as retiremos. Se elas não chegassem ao fundo ou se não fossem visíveis por nós, seria muito difícil re- tirá-las de nossa cerveja pronta e até de manipular nosso fermento para uma nova fermentação. A levedura se sedimenta por diversas razões, mas a principal delas é que ela possui uma parede celu- lar, que se une à parede celular de outras células, formando flocos maiores, que pelo peso chegam ao fundo. A parede celular e a membrana celular das células são as estruturas que delimitam a uni- dade da vida, separando o que é ambiente e o que é o ser vivo (Figura 4). Células Cervejeiras 19UNIDADE 1 Figura 4 - Desenho esquemático de uma célula de levedurasão acondicionadas em garrafas âmbares ou quando lúpulo utilizado não é fresco. 130 Processos de Obtenção de Energia pelos Organismos Medidas de Prevenção de Oxidação Para evitar problemas relacionados à oxidação nas cervejas, algumas medidas merecem certa atenção: • Evitar usar insumos velhos, como malte e lúpulo. • Manter o lúpulo refrigerado, sem contato com a luz e oxi- gênio. • Oxigenar o mosto quando ele estiver resfriado. • Evitar todo contato da cerveja a partir do momento que ela sair do fermentador. • Acondicionar garrafas, barris e latas longe do calor e da luz. • Ao fim da fermentação, não demorar a trasfegar e retirar a levedura. • Atenção ao utilizar adjuntos ricos em ácidos graxos, como chocolate, por exemplo. • Utilizar estabilizantes e conservantes quando a vida de pra- teleira for longa. O mecanismo de formação do “lightstruck” está esquematizado na Figura 21. Figura 21 - Formação do off-flavor lighstruck Fonte: adaptada de De Keukeleire et al. (2008). O O O HO OH HS R O O HO OH R O ISOHUMULONAS Sensitizador (Ribo�avina) RADICAL 4-METILPENT-3-ENOIL 3-METILBUT-2-ENO-1-TIOL (MBT) RADICAL 3-METILBUT-2-ENIL Fonte de enxofre a: R = CH2CH(CH3)2 b: R = CH(CH3)2 c: R = CH(CH3)CH2CH3 -CO h (350-500 nm)� Brassagem finalizada, hora de resfriar o mosto, oxigenar e inocular a levedura, enviando o mosto para o fermentador. E afinal, por que é que oxi- genamos o mosto cervejeiro se queremos que a levedura trabalhe em condições anaeróbias? Você já se perguntou isso antes? A resposta para essa pergunta você encontrará neste último tópico da nossa unidade, que após estudarmos os processos de quebra das moléculas para a geração de ener- gia, entenderemos como as moléculas são forma- das, a partir das unidades base de cada uma delas. As leveduras absorvem os aminoácidos do meio, produzindo proteínas, enzimas e outras estruturas necessárias para o seu funcionamento. Você já viu a vasta quantidade de enzimas, cofato- res e metais necessários para todas essas enzimas atuarem. Agora você verá como a levedura pro- duz reservas energéticas de carboidratos e produz novas membranas celulares, multiplicando-se em células saudáveis. Biossíntese de Biomoléculas 132 Processos de Obtenção de Energia pelos Organismos Biossíntese O termo “biossíntese” vem de uma síntese biológica, ou seja, a geração de um produto por fins biológicos, em que duas ou mais unidades formam uma única, maior em tamanho e de maior peso molecular. Esse termo é empregado quando falamos de construção das biomoléculas cervejeiras, que verificamos na Unidade 2; e a construção de proteínas, que depois se tornarão enzimas, de lipídeos, de coenzimas, ATP, NAD e tantas outras necessidades que a célula precisa para que, de fato, ela consiga sobreviver. Quando uma célula vai se multiplicar, dividindo-se, ela precisa produzir tudo que ela já tem, só que em dobro. A nova célula precisa possuir uma carga nova das mesmas substâncias, garantindo sua propagação. Figura 22 - Divisão celular Os sistemas que envolvem a biossíntese são complexos, porém devemos compreender que há uma regulação genética que auxilia a célula a produzir novas biomoléculas. Na próxima unidade, com- preenderemos como essa regulação ocorre, mas por hora, é importante entender que a célula com- preende o que ocorre no seu meio e se divide, geralmente, quando há condições saudáveis no meio. Sua levedura só irá se multiplicar se o mosto cervejeiro estiver com boa quantidade de nutrientes e, claro, depende também das características genéticas da levedura. 133UNIDADE 4 Figura 23 - Esquema básico da fotossíntese Oxigênio Luz Dióxido de carbono Açúcar Água Minerais As plantas guardam os açúca- res na forma de amido, porém as leveduras em meios ricos de açúcar também fazem suas re- servas. Na fase de crescimento exponencial, as leveduras acu- mulam unidades de glicose na forma de glicogênio e trealoses, que na fase estacionária serão consumidos para garantir a so- brevivência das células. Quan- do as leveduras percebem que o meio está se tornando escasso, interrompem seu crescimento e começam a consumir suas re- servas. Algumas variedades de fermentos começam a flocular nesse momento, pois a obtenção de nutrientes começa a ficar di- ficultosa. Biossíntese de Carboidratos Quando falamos sobre biossíntese de carboidratos, não podemos deixar de falar sobre o malte. Você já parou para pensar como o grão de malte adquiriu todo aquele amido? O amido que vai ser quebrado e se transformará na sua cerveja veio da fotossíntese da planta, antes da colheita do grão de cevada. As plantas, principalmente, têm a capacidade de utilizar a energia oriunda da luz para agregar gás carbônico e água em unidades maiores, ou seja, em açúcares prontos para serem utilizados como energia (Figura 23). As leveduras não têm essa capacidade, e apenas conseguem sobreviver em meios que possuem açúcares, para só assim quebrá-los e aproveitarem sua energia. Ao longo do ciclo de vida da planta, unidades de glicose são formadas, oxigênio é liberado na atmosfera e a planta consegue acumular energia na forma de açúcares. Para compactá-los em unidades menores, a planta retira água das cadeias e as une, formando o amido. 134 Processos de Obtenção de Energia pelos Organismos Biossíntese de Ácidos Graxos A síntese de ácidos graxos tem um papel importante na produção cervejeira, pois está relacionada com a formação de novas membranas celulares, o que é imprescindível para a replicação das levedu- ras. Como vimos várias vezes neste livro, uma bicamada lipídica produz o lisossomo para as células. Assim, o principal “ingrediente” para a síntese dos lipídeos é biossíntese de ácidos graxos. Para isso, a biossíntese se inicia a partir da coenzima acetil-CoA, que surge do ciclo de Krebs. Sabe o que isso quer dizer? Há necessidade de vias aeróbias para a formação de ácidos graxos, devido a essa coenzima ser sintetizada apenas no ciclo de Krebs. O oxigênio, ou melhor, a oxigenação do mosto é fundamental para garantir aceti-CoA suficiente para a replicação celular, no início da fase de fermentação. Além disso, é um processo cíclico de incorporação até a formação de ácido mirístico ou ácido palmítico (BORZANI et al., 2008). Figura 24 - Comparação entre as estruturas do amido (esquerda) e do glicogênio (direita) Amilase Amilopectina Assim como as plantas possuem as enzimas ideais para a união das unidades de glicose, elas possuem as enzimas necessárias para a quebra do amido. As uni- dades de glicose serão absorvi- das pela planta nos estágios de germinação, assim como ocorre com o malte. As leveduras ab- sorvem os açúcares, utilizando- -os e acumulando-os, de acordo com as necessidades, sendo um equilíbrio de transferência de energia dentro da nossa cerveja. 135UNIDADE 4 Figura 25 - Biossíntese de ácidos graxos Fonte: adaptada de Borzani et al. (2008). O composto butiril-SACP, da Figura 26, retorna para a reação inicial de condensação de malonil em um processo de agregação. Quanto conhecimento a respeito do processo cervejeiro você compreendeu até aqui, não é mesmo? Entendeu como os fermentos cervejeiros transformam os açúcares em álcool e em outros subprodutos, compreendeu como a nutrição do mosto cervejeiro evita estresses e produz uma cerveja mais limpa e neutra. Agora, após mais um passo na escadaria do conhecimento, você analisou a nível molecular como as reações químicas dentro das células ocorrem, e em cada ciclo você conseguirá analisar problemas e verificar quando um produto indesejado aparece na sua cerveja, oriundo de um passo mal sucedido. Por fim, compreendeu as reservas energéticas das células, como elas são produzidas e a importância da oxigenação do mosto cervejeiro. Acetil-CoA + Co2 Acetil-SACP + malonil-SACP Acetoacetil-SACP + NADPH + H D(-)-beta-oh-butiril-SACP Crotonil-SACP + NADPH + H malonil-CoA acetoacetil-SACP D(-)-beta-OH-butiril-SACP crotonil-SACP butiril-SACP++ (iniciador) A oxigenação do mosto cervejeiro é extremamente importante para que a fermentação seja saudável. Caso haja falta de oxigênio no início, as leveduras irão produzir acetil-CoA por meio da degradação de outros produtos ali presentes, que podem produzir off-flavors como subprodutos. Normalmente, satura-se o meio de oxigênio para a inoculação da levedura. Para saber mais, acesse: https://learn.kegerator.com/wort-aeration-and-oxygenation/. 136136 Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução. 1. A glicólise é descrita como o primeiro caminho de aproveitamento da energia oriunda das ligações da glicose. Com base nesse exposto, assinale a alternativa correta. a) As dextrinas fazem parte da glicólise, por isso as cervejas são secas. b) Os três primeiros passos da glicólise não necessitam de enzimas. c) Sem oxigênio não há como quebrar a glicose. d) O produto final da glicólise é o piruvato. e) A glicólise é conhecida como a quebra da sacarose em glicose e frutose. 2. Quando a glicólise termina, duas moléculas de ATP são formadas. Contudo, há a necessidade de regeneração do NADH em NAD para que a glicólise não cesse. Com base nesse exposto, leia as afirmativas a seguir. I) O ATP é uma molécula que aproveita a energia oriunda da glicose sob a forma de fosfatos. II) Quando o ATP fornece um grupo fosfato ele se torna um ADP. III) O NAD é a forma reduzida da glicose após o ciclo de Krebs. IV) O NADH é o NAD na sua forma reduzida. Assinale a alternativa correta: a) Apenas I e II estão corretas. b) Apenas II e III estão corretas. c) Apenas I está correta. d) Apenas I, II e IV estão corretas. e) Todas as alternativas estão corretas. 137136 3. O ciclo de Krebs é a via aeróbia de aproveitamento das ligações do piruvato. Por vias aeróbias, a glicose fornece 32 ATPs por molécula. Assinale Verdadeiro (V) ou Falso (F): ) ( O oxigênio do ciclo de Krebs serve para reagir com o piruvato em uma reação semelhante a uma queima, gerando energia de combustão. ) ( O oxigênio atua como o aceptor final de elétrons. ) ( Por vias anaeróbias, há maior geração de energia do que por via aeróbias. Assinale a alternativa correta: a) V-V-V. b) V-F-F. c) F-F-F. d) F-V-F. e) V-F-V. 4. Você está trabalhando com adjuntos em sua cerveja, por esse motivo você anda tomando muito cuidado com o processo. Contudo, tem percebido que suas cervejas mais alcoólicas estão com sensação de solvente, quando tragadas. O tecnólogo em produção cervejeira de sua cervejaria alerta que as cervejas estão produzindo álcoois superiores. Disserte sucintamente o que pode estar ocorrendo para a formação de álcoois superiores e sugira uma maneira de evitar esse transtorno. 138 A Arte da Fermentação Autor: Sandor Ellix Katz Editora: Tapioca Sinopse: Sandor Ellix Katz é um experimentalista autodidata da fermentação. Ele também escreveu Wild fermentation: the flavor, nutrition and craft of live-cul- ture food (Chelsea Green, 2003), que a revista Newsweek chamou de “a bíblia da fermentação”, para divulgar a sabedoria da fermentação e desmitificar a fermentação caseira. Desde a publicação do livro, Katz conduziu centenas de workshops por toda a América do Norte e ao redor do mundo, na função do que ele descreve como um “revivalista da fermentação”. LIVRO Fusel alcohols Nesse artigo da Beer and Brewing, o autor explica a formação dos álcoois su- periores na produção cervejeira e a sua contribuição no aroma e sabor final. Além disso, o site promove muitos artigos interessantes a respeito da produção de cervejas. Para acessar, use seu leitor de QR Code. WEB Oxygen’s Role in the Fermentation of Beer Neste artigo da More Beer, o autor explica bioquimicamente a necessidade de oxigenar o mosto cervejeiro, utilizando os conceitos científicos da proliferação das leveduras para embasar seu conteúdo. Para acessar, use seu leitor de QR Code. WEB https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/2663 https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/2662 139 BORZANI, W.; SCHMIDELL, W.; LIMA, U. de A.; AQUARONE, E. Biotecnologia Industrial: Fundamentos. São Paulo: Blucher, 2008. Volume 1. DE KEUKELEIRE, D.; HEYERICK, A.; HUVAERE, K.; SKIBSTED, L. H.; ANDERSEN, M. L. The Lighstruck Flavor: The Full History. Cerevisia, 33, pp. 133-144, 2008. HOHMANN, S.; MAGER, W. H. Yeast Stress Responses. New York: Springer, 2010. NELSON, D. L.; COX, M. M. Princípios de bioquímica de Lehninger. 6. ed. São Paulo: Artmed, 2014. REFERÊNCIA ON-LINE 1Em: https://www.youtube.com/watch?v=Ii5QrDYAVjo. Acesso em: 31 mar. 2020. 140 1. D. 2. D. 3. D. 4. Os álcoois superiores são produzidos quando há sintetização de aminoácidos, o que pode estar relacionado à pouca ação de enzimas proteolíticas, devido ao baixo teor proteico dos adjuntos. Deve-se substituir os adjuntos por grãos com maior nível de proteínas ou utilizar nutrientes comerciais. 141 142 PLANO DE ESTUDOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Me. Maycon Vinícius de Senna Ribeiro • Compreender os mecanismos de síntese proteica através de ácidos nucléicos e cromossomos. • Elucidar a seleção de fermentos, lúpulos e maltes cerve- jeiros através da seleção artificial. • Analisar recombinação gênica e seu impacto em micror- ganismos. • Compartilhar conhecimentos a respeito de ética e segu- rança referentes a modificação genética. Ácidos Nucleicos e Cromossomos Genética e Seleção Artificial Bioética e Biossegurança Recombinação em Microrganismos Biotecnologia Cervejeira Ácidos Nucleicos e Cromossomos Olá, aluno(a)! Acredito que algumas lacunas te- nham aparecido até aqui. Você já compreendeu as estruturas das moléculas cervejeiras e já analisou sua quebra e sua síntese, com base em conceitos energéticos de sobrevivência. Entendeu como as plantas acumulam amido, como as enzimas que- bram o amido e como as leveduras utilizam dos açúcares para sua perpetuação no mosto cerve- jeiro. Contudo, o que não deve ter ficado claro é como tudo isso é, qual o comandante desse navio, ou seja, qual é a molécula responsável por desen- cadear todas essas transformações. Iniciaremos esta unidade voltando ao malte, em como, no pro- cesso de germinação, o grão entende que deve produzir enzimas para o crescimento da planta. 145UNIDADE 5 Durante o processo de maceração, ou seja, quando o grão de cevada é embebido em água (40% de umidade), as enzimas começam a ser produzidas. Contudo, quem manda produzir? Como a planta sabe qual enzima produzir e como essas enzimas são produzidas? Tudo isso está guardado no DNA da planta. O DNA nada mais é do que uma gigantesca molécula carregadora de informação. Assim como o seu pen drive grava seus arquivos, o DNA grava como produzir todas as proteínas e enzimas necessárias para que aquele organismo possa desempenhar suas funções de sobrevivência. Incrível, não é mesmo?! Agora, conheceremos a estrutura do DNA e como ele passa a informação genética adiante. Nucleotídeos e Ácidos Nucleicos Assim como na Unidade 2 estudamos os aminoácidos para compreender as proteínas e as enzimas, aqui compreenderemos as bases do DNA e do RNA. Um nucleotídeo é dado como uma combinação de três moléculas: uma pentose (ribose ou desoxirribose), uma base nitrogenada e um grupo fosfato (Figura 1). Vários nucleotídeos ligados formam os ácidos nucleicos. Figura 1 - Unidades formadoras dos nucleotídeos P D A D+ + = D AP Grupo fosfato Pentose Base nitrogenadaNucleotídeo Pentoses As pentoses nada mais são do que tipos de açúcares formados por 5 carbonos em uma cadeia fechada. São conhecidas como pentoses a ribose e a desoxirri- bose. As palavras DNA e RNA são dadas com base no tipo de pentose encontrada na molé- cula, as riboses para o RNA e as desoxirriboses para o DNA (Figura 2). H H H H OH H H OH H O OH OH OH OH H H H H H O CH2 H H H H OH H H OH O OH OH OH OH H H H H O CH2 OH OH Ribose Desoxirribose Figura 2 - Pentoses formadoras do RNA e do DNA 146 Biotecnologia CervejeiraGrupo fosfato O grupo fosfato encontrado nos nucleotídeos é o mesmo encontrado nas moléculas de ATP (Unidade 4). Afinal, o próprio ATP, como o estudamos, é um nucleotídeo. Bases nitrogenadas É importante compreender que, quando falamos de regulação gênica, DNA e RNA, estamos falando de informações criptografadas por seres vivos. A levedura sabe qual enzima produzir para metabolizar os açúcares, pois seu DNA possui a informação correta para que ela produza tal enzima. Essa informação vem da disposição das bases nitrogenadas ao longo da cadeia. Cada base é um código que irá determinar a união de um aminoácido, produzindo, assim, a proteína necessária. As bases nitrogenadas são ao todo 5, sendo 4 para o DNA e 4 para o RNA, com a mudança de apenas uma do DNA para o RNA (Figura 3). Adenina Guanina Timina Citosina Uracila Figura 3 - Bases nitrogenadas dos nucleotídeos No RNA, são encontradas as ba- ses Adenina, Guanina, Citosina e Uracila, enquanto no DNA são encontradas as bases Adenina, Guanina, Citosina e Timina. As bases nitrogenadas irão for- mar um código, de acordo com a forma como estão dispostas. Em programas de computador, os códigos são formados pelos numerais 0 e 1, e no DNA e no RNA os códigos são as próprias bases (A, G, C, T, U). Perceba como é complexa a disposição da informação gené- tica das células. Quando a leve- dura se replica, um dos passos desse processo é a criação de uma nova molécula de DNA e, posteriormente, RNA. Imagine como é necessário para esse microrganismo a disposição de nutrien- tes no mosto cervejeiro. Já falamos anteriormente, na Unidade 1, mas os perfis de cada levedura, suas características, são todas determinadas pelo seu DNA. Agora, conheceremos o DNA e o RNA a fundo. 147UNIDADE 5 Ácido Desoxirribonucleico (DNA) e Ácido Ribonucleico (RNA) Formados os nucleotídeos, agora eles serão unidos para a construção de uma molécula maior, que possa decodificar a produção de todas as proteínas e enzimas da célula. Em uma única molécula, todos os passos da vida estão inseridos. Os nucleotídeos se ligam por meio das ligações do grupo fosfato com as pentoses, pois, como sabemos, o grupo fosfato agrega alta energia em suas ligações, impedindo o rompimento dessa cadeia. O DNA, em particular, irá se comportar como uma fita dupla, em que as bases nitrogenadas de uma fita se ligarão às bases nitrogenadas da outra, como está apresentado na Figura 4. Figura 4 - Estrutura de fita dupla do DNA A Timina Adenina Citosina Guanina Açúcar Grupo Fosfato ligação de hidrogênio T G C G C AT 148 Biotecnologia Cervejeira Em particular, a molécula de DNA é muito grande. Pense: ela deve conter o “script” de toda uma vida de uma célula. A fita ensina como a célula re- plica, como sintetiza proteínas, enzimas, paredes celulares, en- zimas de reservas energéticas, de locomoção e tantas outras necessidades de sobrevivência das células. Tudo decodificado em uma única molécula. Ape- sar de imensa, a molécula de DNA é fina, e consegue reali- zar um empacotamento per- feito para caber dentro de uma célula. Uma molécula de DNA pode ter centenas de milhões de nucleotídeos. Na Figura 5, vemos a diferença de tamanho de uma cápsula viral e seu DNA que foi retirado. Figura 5 - Cápsula de um vírus e sua fita única de DNA em seu entorno Fonte: Nelson e Cox (2014, p. 979). O RNA é composto de fita única, e isso se deve ao fato de que essa fita irá encaixar perfeitamente quando for necessária a produção de proteínas. O DNA carrega a informação genética que será repassada ao RNA, este que irá se responsabilizar pela síntese de proteínas (Figura 6). Figura 6 - Síntese proteica a partir do DNA Dentre os diversos tipos de RNA, daremos enfoque a alguns tipos que possuem consequências diretas na produção cervejeira. Replicação Transcrição Transcrição reversa Translação Proteína 149UNIDADE 5 RNA mensageiro (mRNA) O RNA mensageiro é o RNA apresentado na Fi- gura 6. Ele surge da fita original de DNA da célula e leva essa informação para a síntese de proteínas. Ele irá encaixar nos ribossomos: organelas celu- lares responsáveis por produzir proteínas. Cada base nitrogenada irá determinar o encaixe de um aminoácido específico. Figura 7 - Determinação da cadeia de aminoácidos através da fita original de DNA e de mRNA Fonte: Nelson e Cox (2014, p. 980). DNA mRNA Polipeptídeo Aminoterminal Arg Gly Tyr Thr Phe Ala Val Ser Carboxiterminal C G U G G A U A C A C U U U U G C C G U U U C U 3’5’3’ 3’5’ 5’ Fita-molde C G T G C A G G A C C T T A C A T G A C T T G A T T T A A A G C C C G G G T T C A A T C T A G A RNA transportador (tRNA) Outro tipo de RNA, o transportador, tem como fi- nalidade levar os aminoácidos até o ribossomo para que eles se unam e formem proteínas. Eles possuem sítios específicos para carregar os aminoácidos. RNA ribossômico (rRNA) A união do RNA ribossômico e uma proteína forma o ribossomo por si só. Ele é o sítio geral em que ocorre a síntese proteica propriamente dita. Na Figura 8, está representado o esquema de sín- tese proteica envolvendo os três RNAs descritos anteriormente. Figura 8 - Esquema da síntese proteica no ribossomo Proteína formando Sítio ativo Subunidade longa Aminoácido tRNA mRNA Subunidade pequena 150 Biotecnologia Cervejeira Cromossomos Já compreendemos como as proteínas são formadas, onde a informação genética se encontra e a complexidade das moléculas dos ácidos nucleicos. No entan- to, por várias vezes, falamos do tamanho dessas moléculas. Uma única fita de DNA pode chegar a 8,5 cm de comprimento! É um comprimento muito gran- de para uma única molécula. A vida criou uma maneira de organizar essa fita de forma que ela não se enrole desgovernada- mente e consiga ser replicada fa- cilmente quando as leveduras se dividem e formam novas células. Para isso, proteínas chamadas de chaperonas dão cabo de enrolar o DNA de forma correta, con- densando-o em uma estrutura chamada de cromossomo. O cromossomo carrega o mate- rial genético do DNA de forma compacta, auxiliando a célula a transmitir essas informações. Figura 9 - Proteínas chaperonas condensam o DNA formando o cromossomo Agora que você já compreendeu como a informação gênica se manifesta e é guardada nos seres vivos, entenderemos como que determinadas partes do DNA podem determinar características, como, por exemplo, a capacidade de esterificação das leveduras belgas, que conferem aromas e sabores variados à cerveja. 151UNIDADE 5 Hoje em dia, percebemos a vasta quantidade de matérias-primas para a produção cervejeira. Observamos a variedade de lúpulos, maltes e fermentos, e cada dia que passa nos atentamos a uma descoberta nova, fascinante, que revoluciona a produção de bebidas. Tudo isso é produzido por meio de um grande esforço de estudiosos em compreender como os seres vivos adquirem determinadas características. Antigamente, as le- veduras empregadas no processo cervejeiro eram basicamente duas: as Ales e as Lagers, sendo a principal diferença entre elas a espécie utilizada. As Ales eram Saccharomyces cerevisiae e as La- gers as Saccharomyces pastorianus. Contudo, os avanços científicos nos deram uma vasta quanti- dade de leveduras dessas mesmas espécies, mas com perfis totalmente diferentes. Genética e Seleção Artificial Tenha sua dose extra de conhecimento assistindo ao vídeo. Para acessar, use seu leitor de QR Code. 152 Biotecnologia Cervejeira Com os lúpulos, não foi diferente. O cruzamento e seleção de plantas, principalmente quando nos referimos a lúpulos americanos, trouxeram aromas e sabores de frutas amarelas, abacaxi, manga e maracujá, coisas impensadas nos cultivos de lúpulo da Alemanha antigamente. Devemos reforçar, aqui, que não se trata de organismos geneticamente modificados, assunto que veremos no próximo tópico, mas são apenas fruto da seleção artificial, do simples mecanismo de orientar as mutações parauma determinada direção. Mutações Toda mudança natural no material genético de um ser vivo é considerada uma mutação. Algumas mutações ocorrem durante a divisão celular, em que alguns nucleotídeos são alterados, podendo sequenciar uma proteína totalmente diferente da- quela anterior. Muitas vezes, as mutações podem ser benéficas, como a capacidade de algumas le- veduras em metabolizar a galactose, por exemplo, ou podem ser maléficas, como alguma deficiência respiratória que as impeça de utilizar o oxigênio. Independentemente de quais, elas são ao acaso, raras e acontecem em todos os seres vivos, sendo mais ou menos percebidas. Além disso, existem as mutações induzidas. A metilação do DNA, como podemos chamar as suas alterações, podem ser induzidas por radiação, como o UV e raios ionizantes. É sabido que os seres vivos sofrem danos com a radiação, podendo atingir a esterilidade. Entretanto, são utilizadas radiações de forma controlada para que as mutações sejam me- nos raras e possam produzir organismos diferentes. Quando sequenciaram o material genético das leveduras Lagers, de cervejas produzidas na Alema- nha, observou-se grande similaridade com uma levedura patagônica. Por esse motivo, acredita-se que leveduras originárias da Argentina tenham sido trazidas em porões de navios e se adaptado às condições das cervejarias alemãs. Com o tempo, as mutações as tornaram uma nova espécie. Para saber mais, acesse: https://www.latimes.com/science/sciencenow/la-sci-sn-lager-yeast-geno- me-20150811-story.html. Figura 10 - A metilação do DNA https://www.latimes.com/science/sciencenow/la-sci-sn-lager-yeast-genome-20150811-story.html https://www.latimes.com/science/sciencenow/la-sci-sn-lager-yeast-genome-20150811-story.html 153UNIDADE 5 Seleção Artificial Como vimos anteriormente, as mutações ocor- rem ao acaso, seja de forma natural por erros de duplicação genética, ou induzidas. No entanto, daí em diante, o processo pode ser conduzido para a direção da criação de uma nova linhagem ou até de uma nova espécie. Selecionar os microrganis- mos de interesse para determinado fim é o que caracteriza o estudo das linhagens de fermentos para a produção cervejeira. Se em um estudo observa-se leveduras com alta tolerância alcoólica, elas podem ser seleciona- das utilizando ambientes com alto teor alcoólico e usadas para produzir bebidas mais fortes. Ou também leveduras com a característica de pro- duzir ésteres frutados ou opcionalmente as mais neutras. Cada linhagem pode ser selecionada, ve- rificada e isolada. O isolamento é importante para que o cervejeiro tenha sempre o mesmo perfil em sua bebida, sem surpresas inesperadas. Figura 11 - Cerveja belga Dubbel - como característica a esterificação pelas leveduras O geneticista seleciona as células de interesse, coloca-as em um ambiente propício e seletivo, de modo que apenas elas cresçam e se propaguem. Isso pode levar gerações, ou ser um processo mais rápido, a depender dos objetivos. A seguir, seu material genético é sequenciado e tem-se uma nova linhagem. As mutações ocorrem ao acaso, quem as direciona para a criação de uma nova linhagem é a seleção artificial. Fazemos isso com fermentos, lúpulo e até cevada. Dessa maneira, conseguimos fermentos mais resistentes, lúpulos com aromas diversos e cevadas mais resistentes a temperaturas altas. 154 Biotecnologia Cervejeira No tópico anterior, verificamos como a mutação pode ser guiada pela seleção artificial, criando novas linhagens. Agora, compreenderemos como ocorre a recombinação. Dado um organismo mu- tante, uma levedura capaz de fermentar em altas temperaturas, por exemplo, ela só poderá ser iso- lada e se tornar uma espécie propriamente dita por meio da recombinação. Existem diversos me- canismos de recombinação, o mais comum deles é a recombinação sexual, conhecida a mais de 50 anos em fungos. Veremos, a seguir, como ocorre a recombinação em bactérias e fungos (leveduras). Recombinação em Bactérias Como a maioria de nós sabe, os seres vivos unice- lulares se reproduzem por divisão celular, em que uma célula se torna duas, quando há condições de nutrição adequada no ambiente. Contudo, a recombinação sexual é uma maneira em que seres vivos trocam material genético, podendo incorpo- rar características de outra linhagem. Nas bacté- rias, são conhecidos três mecanismos de recom- binação: conjugação, transformação e transdução. Recombinação em Microrganismos 155UNIDADE 5 Conjugação bacteriana A conjugação bacteriana foi descoberta com ex- perimentos com a bactéria Escherichia coli, em que duas linhagens com problemas nutricionais entraram em contato durante certo tempo e pas- saram a desenvolver células recombinantes sem problemas nutricionais (BORZANI et al., 2008). Se apenas uma nova mutação tivesse ocorrido, não seriam apresentadas tantas células sem deficiên- cias, nem em tão pouco tempo. Era evidente que as linhagens haviam trocado seu material genético. A B C A B C B B a b c a c Lise da célula Fragmentos livres de DNA Fragmentos incorporados à bactéria Recombinação Transformação bacteriana Quando uma bactéria ou uma linhagem morre, seu material genético é expulso da célula e ele fica à deriva. Contudo, se uma linhagem conseguir absorver esse material genético, ele poderá pro- duzir recombinantes com características da célula morta (BORZANI et al., 2008). Esse mecanismo é chamado de transformação bacteriana e está apresentado na Figura 12. Figura 12 - Mecanismo de transformação bacteriana Fonte: adaptada de Borzani et al. (2008). Transdução A transdução é muito similar à transformação, porém é realizada por um vírus. Um vírus infecta a célula e compartilha com ela um material genético, que agora a bactéria passará a ter. A partir dela, surgem bactérias transformadas e, por assim dizer, recombinantes (BORZANI et al., 2008). Hoje em dia é o método mais comum para seleção de características e de modificação genética. A A a Infecção e Recombinação AA Nova bactéria Lise da célula DNA do vírus Infecção Capa viral Vírus Novas partículas do vírusBactéria Figura 13 - Mecanismo de transdução bacteriana Fonte: adaptada de Borzani et al. (2008). 156 Biotecnologia Cervejeira Recombinação em Leveduras Anteriormente, falamos sobre a hibridização das leveduras para a criação da levedura Lager, falando sobre um cruzamento das Ales com uma levedura patagônica. Agora, entenderemos como ocorreu esse cruzamento e como podemos utilizar dos ciclos sexuais das leveduras para produzir recombinantes. Figura 14 - Ciclo sexual da levedura Saccharomyces cerevisiae Fonte: adaptada de Borzani et al. (2008). Além do ciclo normal sexual das leveduras, apresentado na Figura 14, as leveduras Saccharomyces ce- revisiae e outros fungos realizam o ciclo parassexual dos fungos. Esse ciclo descreve o cruzamento com linhagens distintas com fases diploides e haploides, em que há troca genética e surgem recombinantes. Além disso, as leveduras também podem sofrer os processos de transformação e transdução, em ambientes específicos. Hoje, a maioria das recombinações de leveduras ocorre por um desses processos descritos anteriormente. Gemulação diploide Fusão nuclear Asco Meiose Ascóporos Gemulação haplóide a Heterocário transitório Fusão nuclear Recentemente uma empresa desenvolveu uma linhagem de leveduras para vinho incapaz de produ- zir sulfeto. Esse foi um marco para a produção de vinhos, que sempre sofreu com a geração desse produto em seus mostos. Os geneticistas encontraram o gene responsável por essa produção e o impediram de ser passado adiante, criando uma linhagem sem o gene em questão. 157UNIDADE 5 Bioética e Biossegurança Imagine um cientista, sedento por criar um mal- te resistente a altas temperaturas para cultivo em todo o Brasil. Em busca por sua experiência, ele acaba descobrindo posteriormente que precisaria utilizar os genes de alguns animais resistentes ao calor, para assim transferi-lospara o malte, através da tecnologia do DNA recombinante que vimos anteriormente. O que você acha disso? A que tipos de experiências esses animais seriam submetidos? Como seriam os padrões de experimentação e até que ponto ter um malte de cultivo em todo o Brasil valeria a pena? Agora, imagine uma outra situação. Foi iso- lado o gene de uma bactéria que faz com que ela consuma açúcares complexos, como as dextrinas do mosto cervejeiro. Alguns cientistas pretendem transferir esse gene para leveduras para produzir uma linhagem de fermentos consumidores de dextrinas, com alto poder de atenuação. No entan- to, a bactéria original é altamente perigosa, e sua manipulação oferece muitos riscos aos cientistas e ao público em geral. Quais os níveis de segurança que esses laboratórios devem possuir para que uma eventual contaminação não ocorra? Até que 158 Biotecnologia Cervejeira ponto é seguro trabalhar com essas bactérias em vez de procurar o gene em outros microrganismos? É sobre essas questões que este último tópico irá tratar: os conceitos de bioética e biossegurança nos processos biotecnológicos. Bioética Da década de 70 em diante, já era muito grande o número de denúncias em relação a experimentos com seres humanos ao redor do mundo. A pesquisa médica ainda era muito fechada e pouco se sabia sobre seus métodos. Contudo, muitos casos tomaram a mídia, em que pessoas negras, deficientes, presi- diários e outros grupos, sem poder de tomada de decisão, estavam sendo submetidos a procedimentos de pesquisa médica e farmacológicas em situações de sofrimento. Dessa maneira, foi decidido criar protocolos para evitar que situações similares acontecessem, com base em que os anseios culturais, religiosos, econômicos e ambientais fossem respeitados. O primeiro código ético foi o código de Nu- remberg, surgido a partir de decisões de tribunais em Nuremberg, incluindo dez tópicos que deveriam ser considerados ao pesquisar humanos (FONSECA; MELLO, 2015, on-line)1. O código de Nuremberg surgiu a partir de um tribunal no mesmo local, em que dez tópicos foram descritos como necessários a serem seguidos quando algum tipo de pesquisa com seres humanos fosse adotado. Foi o marco dos conceitos bioéticos da década de 70. Para saber mais, acesse: http://www.bioetica.org.br/?siteAcao=DiretrizesDeclaracoesIntegra&id=2. No Brasil, seguindo as tendências mundiais, em 1988, o Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde editou a resolução nº 1/88, passando a obrigar pesquisas científicas com humanos a terem protocolos aprovados por Comitês de Ética. Entretanto, apenas em 1996 foi criado o sistema CONEP/ CNS/MS, composto pelo Comitê Nacional de Ética em Pesquisa, do Conselho Nacional de Saúde, estabelecendo normativas para orientar a condução de pesquisas com seres humanos dentro dos parâmetros éticos (FONSECA; MELLO, 2015, on-line)1. Entenda que a ética de pesquisa é mutável e depende de diversos fatores externos, pressões políticas, questões sociais, religiosas que podem permitir ou proibir determinados procedimentos mesmo sob a ausência de qualquer sofrimento. E isso não se refere apenas a seres humanos, mas, principalmente nos últimos anos, o Brasil teve grandes avanços nos direitos dos animais e do meio-ambiente. A clonagem, a utilização de células tronco, os procedimentos abortivos, testes em animais, criação de transgênicos são exemplos de polêmicas que envolvem fatores éticos regionais. 159UNIDADE 5 Biossegurança A biossegurança está mais envolvida em relação a patologias, seja direta ou indiretamente. Ao longo dos anos, as populações, desconhecedoras dos procedimentos sanitários, tiveram muito do seu povo dizimado, principalmente durante a Idade Média. Com a criação do microscópio, em 1676, pode-se observar que as doenças eram causadas por criaturas vivas muito pequenas. No entanto, apenas no fim do século XVIII é que as cidades passaram a ter condições sanitárias que evitassem as doenças contagiosas. Os trabalhos de Pasteur evidenciaram a eficácia das condições de assepsia para evitar contágios e contaminações (FONSECA; MELLO, 2015, on-line)1. Em 1995, com a aprovação da Lei nº 8.974, de 5 de janeiro de 1995 (BRASIL, 1995), o Brasil evoluiu em termos de procedimentos de segurança em laboratórios e serviços de saúde. A biossegurança no Brasil possui duas vertentes: a legal, que engloba os procedimentos realizados em relação ao uso de DNA recombinante, células-tronco; e a praticada, que se refere aos procedimentos de químicos, biólogos e físicos no dia a dia de experimentos e identificação de perigos. Além disso, existe a biossegurança do dia a dia da população, que se refere às condições de trabalho de diversos trabalhadores que estejam direta ou indiretamente em contato com situações similares de patogenia. É muito comum que alguns conceitos de Bioética e Biossegurança sejam, muitas vezes, os mesmos. Isso ocorre, porque as duas vertentes caminham juntas, com um único objetivo em comum: o bem- -estar social, livre das patologias e dos sofrimentos, humanos e não humanos. Bioética e Biossegurança na Produção Cervejeira Iniciamos este tópico levantando algumas situações em que os conceitos de bioética e biossegurança fossem testados. Muitas vezes, as principais polêmicas possam estar envolvidas apenas nas patologias da medicina e pouco tenham a ver conosco. No entanto, é importante que você compreenda que as cervejas são alimentos, e que são muito passíveis de contaminação. Além disso, o uso de matérias- -primas de procedência duvidosa pode causar problemas a longo prazo. Em uma era em que testar de tudo é diferencial, esteja atento e observe o que é seguro e o que não é. E, principalmente, utilize os equipamentos de segurança e adote os procedimentos de assepsia e sanitização em todos os processos que envolvam a produção cervejeira. 160 Biotecnologia Cervejeira Caro(a) aluno(a), percorremos um grande trecho na estrada do conhecimento. Nesta última unidade, conhecemos como a síntese proteica ocorre, como os seres vivos desenvolvem outras características baseando-se no seu DNA e como isso afeta os descendentes. Além disso, você conheceu como os orga- nismos se modificam para obterem características diferenciadas e como elas podem ser selecionadas por meio da seleção artificial. Depois, você analisou a tecnologia do DNA recombinante e como ele pode ser utilizado para direcionar as mutações nos seres vivos, produzindo leveduras diferenciadas para a produção cervejeira. Por fim, com todo esse conhecimento, você verificou a história dos padrões éticos e seguros da biotecnologia e como você, produtor de cervejas, tem tudo a ver nessa história. Despedimo-nos aqui, mas a caminhada continua. 160 Biotecnologia Cervejeira 161 Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução. 1. A união dos nucleotídeos forma os ácidos nucleicos. Com base no exposto, assinale a alternativa correta. a) O DNA é formado por uma fita única, composto de bases nitrogenadas, açúcar na forma de pentoses e grupos fosfato. b) O DNA se transcreve para o RNA, este que irá participar da síntese dos car- boidratos. c) As proteínas são produzidas pela união dos monossacarídeos dentro das mitocôndrias celulares. d) RNA transportador tem como função levar os aminoácidos para gerar uma proteína. e) Existem três tipos de ácidos nucleicos: DNA, RNA e JRNA. 2. Sobre os processos de recombinação, observe as afirmativas a seguir. I) As bactérias possuem um ciclo sexuado, porém é impossível que elas troquem material genético. II) As bactérias podem absorver DNA do meio por um processo chamado de transformação. III) As leveduras não possuem ciclos sexuais. IV) As leveduras do gênero Saccharomyces possuem ciclo parassexual. Assinale a alternativa correta. a) Apenas I e II estão corretas. b) Apenas II e IV estão corretas. c) Apenas I está correta. d) Apenas II, III e IV estão corretas. e) Todas as alternativas estão corretas. 162 3. Sobre mutações eseleção artificial, assinale Verdadeiro (V) ou Falso (F): ) ( As mutações ocorrem ao acaso e podem ou não ser úteis aos seres vivos. ) ( As mutações sempre são úteis e sempre geram uma nova espécie. ) ( A seleção artificial nada mais é do que o direcionamento de organismos mu- tantes a se tornarem uma nova linhagem. Assinale a alternativa correta. a) V-V-V. b) V-F-F. c) F-F-F. d) F-V-V. e) V-F-V. 4. Segundo os protocolos bioéticos de cada país, determinados procedimentos podem ser liberados ou proibidos, e isto se deve ao fato de que cada lugar possui uma cultura, uma religião e que tudo isso deve ser respeitado. Quais foram os anseios mundiais que culminaram na criação de comitês de ética? 163162 A Origem das Espécies Autor: Charles Darwin Editora: Martin Claret Sinopse: ainda considerado como um dos mais inovadores e desafiantes tra- tados biológicos já escritos, A origem das espécies, com sua abordagem sobre os processos evolutivos, chocou grande parte do mundo ocidental quando foi lançado em 1859. Nesta nova edição, com ilustrações em cada capítulo e prefácio de Nélio Bizzo, especialista no assunto e professor da Universidade de São Paulo, os leitores terão contato com a mais importante obra sobre Biologia jamais escrita. LIVRO Clube de Compras Dallas Ano: 2013 Sinopse: Ron Woodroof, um eletricista heterossexual de Dallas, foi diagnosti- cado com AIDS, em 1986, durante uma das épocas mais obscuras da doença. Embora os médicos lhe tenham dado apenas alguns meses de vida, Woodroof se recusou a aceitar o prognóstico e, procurando tratamentos alternativos, ele passa a contrabandear drogas ilegais do México. Comentário: neste filme, você verá como era um tempo em que os fatores bioéticos ainda estavam iniciando. FILME DNA recombinante Neste conteúdo do site Toda Matéria, há explicações alternativas para a tecno- logia do DNA recombinante. Para acessar, use seu leitor de QR Code. WEB https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/2664 164 BORZANI, W.; SCHMIDELL, W.; LIMA, U. de A.; AQUARONE, E. Biotecnologia Industrial: Fundamentos. São Paulo: Blucher, 2008. Volume 1. BRASIL. Lei nº 8.974, de 5 de janeiro de 1995. Regulamenta os incisos II e V do § 1º do art. 225 da Consti- tuição Federal, estabelece normas para o uso das técnicas de engenharia genética e liberação no meio ambiente de organismos geneticamente modificados, autoriza o Poder Executivo a criar, no âmbito da Presidência da República, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, e dá outras providências. Brasília: Presidência da República, 1995. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8974.htm. Acesso em: 01 abr. 2020. NELSON, D. L.; COX, M. M. Princípios de bioquímica de Lehninger. 6. ed. São Paulo: Artmed, 2014. REFERÊNCIA ON-LINE 1Em: https://www.researchgate.net/publication/330422009_BIOETICA_E_BIOSSEGURANCA. Acesso em: 28 fev. 2020. 165 1. D. 2. B. 3. D. 4. As diversas denúncias de procedimentos de experimentação humana e de sofrimento de não humanos, além de anseios culturais, religiosos e econômicos, fez com que a população necessitasse de conceitos éticos nas pesquisas científicas. 166 167 CONCLUSÃO Caro (a) aluno (a), como é bom olhar para trás e ver o quanto aprendemos nestas 5 unidades. Iniciamos nossos estudos compreendendo e contextualizando a bioquímica com a produção cervejeira. Compreendemos como o fato de produzir cervejas não só tem tudo a ver com a bioquímica, mas como pode ser muito bem analisada por esse ponto, por meio do conhecimento das biomoléculas. A seguir, compreendemos cada um dos tipos de biomoléculas no mosto cervejeiro e a importância de cada uma delas para o resultado final. Entendemos como o malte influencia nas características desde sua germinação até a cerveja final. Depois disso, compartilhamos os conhecimentos a respeito das enzimas cervejeiras, como elas funcionam e quais são as consequências de otimizar a atuação de umas em relação a outras, do parâmetro bioquímico ao parâmetro cervejeiro. Vimos como as leveduras e bactérias (fermentos cervejeiros) transformam as biomoléculas do mosto em cerveja, tudo isso para obterem energia e sobreviverem. Entendemos, também, a importância da oxigenação do mosto cer- vejeiro e o que isso tem a ver com a sobrevivência do fermento. Por fim, vimos porque os seres vivos são tão diferentes, principalmente as nossas leveduras com características tão diferentes e guiadas pela molécula de DNA. Anali- samos como as mutações podem criar linhagens diferenciadas, guiadas pela seleção artificial. O DNA recombinante e sua capacidade de transferir características entre espécie também foi nosso objeto de estudo. Para fechar nosso conhecimento da Bio- química Cervejeira, vimos os conceitos de Bioética e Biossegurança, compreendendo os anseios e as necessidades de padronizações seguras e livre de sofrimentos para humanos e não humanos. Agora, caro(a) aluno(a), é com você! E lembre-se: a estrada do conhecimento nunca termina. Abraços! AVA_CAPA_Bioquímica Cervejeira_2020.pdf AVA_Bioquímica Cervejeira_2020.pdf Transporte passivo na célula do fermento cervejeiro Cinética Enzimática Introdução à Bioquímica Cervejeira Macromoléculas Cervejeiras Enzimas Cervejeiras Processos de Obtenção de Energia pelos Organismos Biotecnologia Cervejeira AVA_CAPA_Bioquímica Cervejeira_2020 Button 9: Button 6: Botão 1: Button 12: Botão 2:A membrana celular é a estrutura mais importante da célula. Ela é responsável por permitir o que entra e o que sai, o que impacta diretamente nas reações químicas que ocorrem pelas leveduras. Nosso mosto cervejeiro é basicamente composto de água. A célula dos seres vivos também, e para poder delimitá-las, é necessária uma membrana que não se dissolva na água, ou seja, que mantenha sua estrutura íntegra e fechada, sendo aberta (permeável) quando for da necessidade do ser vivo. Por isso, a membrana plasmática é formada por uma camada bilipídica, ou seja, duas camadas de lipídios, que são biomoléculas com uma parte hidrofóbica (que não se liga com a água) e uma hidrofí- lica (que se liga com a água). Algumas proteínas também estão presentes na membrana, atuando como sinalizadores. Afinal, a célula precisa saber o que há dentro e o que há fora antes de permitir a entrada de algum composto. A levedura, especifica- mente, consegue reconhecer rapidamente a presença de açúcar no mosto cervejeiro e permite que ele entre sem esforços. Esse transporte na membrana chamamos de transporte passivo. CÉLULA DE LEVEDURA Mitocôndria Parede Celular Membrana Celular Vacúolo Grânulo de lipídio Complexo de Golgi Núcleo Citoplasma Cicatriz do Broto Transporte passivo na célula do fermento cervejeiro 20 Introdução à Bioquímica Cervejeira Figura 5 - Diferenças esquemáticas entre células eucarióticas (leveduras) e procarióticas (bactérias) Por vezes, alguns açúcares maiores e outras biomoléculas do mosto cervejeiro precisam de uma avaliação mais criteriosa por parte das células. As dextrinas, por exemplo, que são os açúcares com- plexos do mosto cervejeiro não são utilizados pelas leveduras. Seus sensores reconhecem que ela não consegue quebrá-los. Por outro lado, a maltose pode ser quebrada. Nesse caso, os sensores da mem- brana reconhecem que o açúcar pode ser quebrado, realizando o transporte interno da molécula para posterior quebra. A esse tipo de transporte, denominados de transporte ativo. Célula ProcarióticaCélula Eucariótica Cápsula Ribossomo DNA Citoplasma Lisossomo Citoplasma Mitocôndria Membrana plasmática Retículo endoplasmático Parede celular Membrana plasmática Complexo de Golgi Ribossomos Núcleo Muitas vezes, em cervejas muito alcoólicas, observamos as chamadas “lágrimas” ou “pernas” nas taças e copos. Esse aspecto é relacionado a um composto chamado de glicerol e é produzido quando a levedura sente que está perdendo água para o meio ambiente, principalmente em mostos de alta gravidade, com elevadas concentrações de açúcar. A produção de glicerol é uma forma de proteger a membrana plasmática do rompimento celular. Para saber mais acesse: https://blog.famigliavalduga. com.br/lagrimas-do-vinho-saiba-o-que-sao-e-como-identifica-las. Fonte: adaptado de Beronia (2017, on-line)1. 21UNIDADE 1 Indo mais adentro na nossa célula, observamos que o conteúdo aquoso interno da unidade da vida é chamado de citoplasma. É um grande conjunto organizado de biomoléculas, desempenhando as funções necessárias para a manutenção da vida. Ali, o açúcar e outros nutrientes são transportados para os locais adequados, produzindo outras biomoléculas e energia. As células em meios ricos em nutrientes percebem que podem construir uma outra célula usando os materiais disponíveis. Essa capacidade permite a replicação, que nada mais é do que a reprodução celular (Figura 6), a forma que uma célula produz outra e se divide. Caro(a) aluno(a), como a célula “sabe” como produzir uma nova? Será que ela possui um script? Figura 6 - Esquema de duplicação de uma célula de levedura Sim, a célula possui um script. Quando ela vai se duplicar, uma biomolécula muito importante entra em cena: o DNA. Este é uma molécula carregadora de informação, mais especificamente, o DNA car- rega todas as informações da célula. É conhecido como ácido desoxirribonucleico e é formado pelos grupos fosfato, desoxirribose e bases nitrogenadas. Em sua totalidade, ele é uma fita dupla, formado por repetições desses conjuntos. Entretanto, as bases nitrogenadas se alternam, formando sequências diferentes por toda a biomolécula. Essas sequências diferentes são o coração da informação. Assim como os computadores possuem sequências de 1 e 0, o DNA possui sequências em bases nitrogenadas, T, G, C e A (Figura 7) (CHAUDHURI, 2015). 22 Introdução à Bioquímica Cervejeira Figura 7 - Estrutura em dupla hélice do DNA Já percebeu a vasta quantidade de fermentos disponíveis para produzir cervejas? Cada um deles com um comportamento diferente, uns produzindo mais aromas, outros com maior neutralidade. Isso acontece porque o DNA desses fermentos é diferente. Cada célula segue o script do seu DNA para sobreviver, e nele está gravado alguns comportamentos que observamos na produção de nossa cer- veja. Os fermentos de trigo, por exemplo, têm a capacidade de produzir aroma de banana. Para saber mais, acesse: https://www.hominilupulo.com.br/cervejas-caseiras/guia-basico/escolher-fermento/. Fonte: adaptado de White e Zainasheff (2010). ESTRUTURA DO DNA Timina Citosina Ligação de hidrogênio Adenina Guanina Desoxirribose Base nitrogenada Base nitrogenada Grupo fosfato 23UNIDADE 1 Na guerra bioquímica que citamos anteriormente, as bactérias com- petem com as leveduras nos dias quentes e sem sanitização. Por esse motivo, em tempos remotos, era muito difícil produzir cervejas no verão, sem métodos de sanitização e esterilização. Entretanto, as células das bactérias são diferentes das células das leveduras, em tamanho e em estrutura interna (como vistona Figura 5). As bactérias são menores, muitas vezes possuindo estruturas externas, como cílios e flagelos. Essas estruturas permitem que elas se movam pelo mosto cervejeiro, produzindo aromas desagradá- veis, como vinagre, por exemplo. Internamente, o seu DNA está disperso no citoplasma, no meio de todas as outras biomoléculas fundamentais da vida. Nas leveduras, as coisas são um pouco diferentes. Elas possuem células maiores, com parede celular rígida e com seu DNA encap- sulado dentro da célula, em uma estrutura que denominamos de núcleo. Por isso, as bactérias são classificadas como procariontes (pro-antes, karyon-núcleo), enquanto as leveduras são eucariontes (eu-verdadeiro, karyon-núcleo). Por essa razão, o nível de comple- xidade das leveduras em comparação às bactérias é muito maior, originando fermentos das mais diversas variedades para produzir- mos nossas cervejas. 24 Introdução à Bioquímica Cervejeira As biomoléculas são formadas unicamente dentro das células. O extrato de malte (DME) é composto por biomoléculas. Os floculantes de cerveja, como a gelatina, são biomoléculas. De alguma maneira, essas moléculas foram retiradas de alguma célula, seja animal ou vegetal. As biomoléculas desempenham diversos pa- péis no desenvolvimento celular e, quando na nos- sa cerveja, conferem características únicas. As pro- teínas, quando quebradas em porções menores, auxiliam a espuma da cerveja a ser mais estável. Os ésteres produzidos pelos fermentos dão aromas de banana, abacaxi e frutas vermelhas nas nossas cervejas (Figura 8). Conhecê-las e compreender sua estrutura nos permite manipular melhor a cerveja pronta. O que Há no Mosto Cervejeiro 25UNIDADE 1 Figura 8 - O aroma de banana das cervejas de trigo advém das leveduras durante a fermentação Quimicamente, o que muda nos seres vivos para os não vivos? São, de fato, formados pelas mesmas coisas? Aproximadamente 99% da matéria viva é formada por, basicamente, quatro elementos: car- bono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio (CHON). O que muda é a incrível capacidade que o carbono tem de formar quatro ligações. Dessa maneira, compostos a base de carbono podem ter tamanhos variados, além da complexidade, alternando-se os elementos de sua composição. Os açúcares, por exemplo, são denominados de hidratados de carbono ou car- boidratos, que são formados por carbono, oxigênioe hidrogênio. De acordo com as disposições da cadeia, tamanho e arranjo espacial, um fermento conse- gue ou não quebrar e usar esse açúcar como energia. Na mosturação, o amido, que é um grande arranjo de açúcares, dissolve-se na água e é quebra- do, produzindo açúcares meno- res e menos complexos, que ser- virão tanto como corpo quanto como fonte de açúcares para os fermentos transformarem-se em álcool. Essa capacidade de aumento de complexidade só é possível nas biomoléculas, e se não fosse pelo carbono, a vida não seria tão diversa como é. Figura 9 - Estrutura esquemática do amido AMIDO 26 Introdução à Bioquímica Cervejeira Os compostos formados majoritariamente por carbono são chamados de compostos orgânicos. As biomoléculas são compostos orgânicos, porém de complexidade elevada, sendo formados por grupos diversos. O aumento da complexidade dos compostos orgânicos cria moléculas maiores, com maior número de átomos e com estrutura tridi- mensional. Isso possibilita que uma molécula de- sempenhe funções específicas. A quebra do amido em açúcares menores só é possível devido a uma macromolécula que se encaixa aos filamentos do amido e rompe as ligações (Figura 10). Essa ma- cromolécula é chamada de enzima, e por ser tão grande e complexa cria um espaço com o único objetivo de quebrar ligações (MALCATA, 2020). A casca do malte é formada por celuloses. As celuloses nada mais são do que açúcares arran- jados e ligados de forma diferente do amido do interior do grão. Uma única diferença de liga- ção permite que um tipo de açúcar se dissolva e seja quebrado, enquanto o outro permanece no mosto durante todo o processo de mosturação. Tudo isso tem como objetivo proteger o grão da umidade, do calor e do frio durante o plantio. Para saber mais, acesse: http://cti.ufpel.edu.br/ siepe/arquivos/2014/CA_01770.pdf. Fonte: adaptado de Study ([2020], on-line)2. Figura 10 - A complexa estrutura de uma enzima 27UNIDADE 1 Aproximadamente 95% da cerveja é água, e essa alta composição de água também é observada em todos os seres vivos. A água é fundamental para a vida da forma que conhecemos, pois permite a dissolução dos nutrientes, sendo palco para as mais diversas reações químicas, pois permite os balanços iônicos necessários à formação das li- gações químicas. Os conceitos de pH, acidez, salinidade e con- centração de íons, que fazem tanta diferença na produção de cervejas, só fazem sentido quando há água envolvida. Como a água possui tantas características interessantes, a vida provavelmente surgiu nela, possibilitando a mistura e disponibi- lidade dos mais variados compostos necessários à vida. Contudo, a vida precisa de limites, o que torna a membrana celular fundamental para a estruturação das células. Dessa maneira, o balanço de forças envolvidas entre as biomoléculas e água disponível é o que cria os processos de entrada e saída das células e o que promove as reações químicas de manutenção e crescimento celular. E afinal, por que a água é tão especial? Água Cervejeira 28 Introdução à Bioquímica Cervejeira A água é uma molécula pequena, polar e com características específicas para interagir com outras moléculas, por exemplo sua angulação e capacidade de dissociação natural (Figura 11). A diferença de eletronegatividade entre os átomos de hidrogênio e do oxigênio criam um ângulo de 104,5º, com uma nuvem eletrônica no ângulo maior, responsável por deslocar um dipolo negativo para a nuvem (CK12, [2020], on-line)3. Figura 11 - Desenho esquemático da molécula de água O arranjo espacial e a polaridade da molécula permitem que a água seja líquida em temperaturas medianas, o que aumenta sua interação com diversos componentes nas temperaturas médias do nos- so planeta. Além disso, a água no estado sólido possui menor densidade em relação ao estado líquido, o que permite deslocamento de componentes conforme a temperatura da água varia. Essa capacidade permitiu que nutrientes da superfície dos oceanos fossem levados ao fundo, garantindo a formação da vida em condições submersas. O processo de fervura na produção cervejeira permite que biomoléculas oriundas do malte e do lúpulo se agreguem e precipitem (trub), devido à energia transferida para a água. Previamente ao processo, essas moléculas estão dissolvidas em água, devido à grande capacidade da molécula de água em solubilizar substâncias. Para saber mais, acesse: https://www.youtube.com/watch?v=G21aF7OsEZM. Fonte: adaptado de Palmer (2017). 29UNIDADE 1 Um exemplo muito interessante de como a água interage com as biomoléculas é a formação do “chill haze” ou “turbidez a frio”, fenômeno causado pela interação da água da cerveja com os polifenóis do lúpulo. Quando a cerveja possui polifenóis em suspensão, como no caso de cervejas muito lupuladas, eles se agregam em baixas temperaturas, causando uma turbidez da cerveja resfriada. Conforme a cerveja esquenta, a turbidez desaparece. Esse fenômeno demonstra como a ordenação da molécula de água em baixas temperaturas diminui a interação com as biomoléculas, deixando os polifenóis se agregarem e turvarem o líquido. Ao receber energia, a molécula de água se desorganiza e solubiliza os polifenóis, atacando os pontos polares da molécula (HIERONYMUS, 2012). Figura 12 - Fenômeno de Chill Haze (da esquerda para a direita) As principais interações da molécula de água com outros componentes são as interações hidrofílicas e as interações hidrofóbicas. A primeira se refere a interações maiores, com as cargas positivas e negativas parciais da água interagindo com as opostas de determinado composto. Podemos utilizar como exemplo as interações dos sais com a água. Os sais se dissociam na água, formando íons positivos e negativos. A região positiva da molécula de água se liga ao íon negativo, enquanto a região negativa da água se liga ao íon positivo. Essas interações permitem que substâncias polares se dissolvam facilmente na água. 30 Introdução à Bioquímica Cervejeira Figura 13 - Estrutura do cloreto de sódio, quando dissociado em água, formando íons Fonte: adaptada de Nelson e Cox (2014). As interações hidrofóbicas se referem a substâncias com baixa polaridade, por exemplo, os componen- tes da parede celular. A água interage muito mais fracamente com essas substâncias do que as polares. Por esse motivo, biomoléculas apolares são de interesse para a vida, pois permitem a transferência de componentes, regulando a força das interações. Elas garantem a integridade da membrana celular e a movimentação interna dos nutrientes na célula. δ+ δ+ δ+ δ+ δ+ δ+ δ+ δ+ δ+ δ- δ- δ- δ- δ- δ- δ- δ- H H O δ+ δ+ H H O H H H H O δ+ δ+ H H O O δ+ δ+ H H O H H O δ+ H H O Na+ Cl- Figura 14 - Estrutura de transporte de nutrientes da célula 31UNIDADE 1 Outro fenômeno comum do meio cervejeiro é observar como o malte se encharca ao entrar em con- tato com a água. Ao adicionar o malte seco na panela de mostura, observa-se o rápido aumento do volume do grão pela água que entra. Essa capacidade de absorver água está diretamente relacionada a um conceito chamado de pressão osmótica. A pressão osmótica é definida como a pressão exercida pelo solvente, do meio menos concentrado para o mais concentrado, através de uma membrana semipermeável. Ela demonstra que os dois siste- mas tendem a equilibrar suas concentrações por meio do fluxo do solvente, que atravessa a membrana (Figura 15). O malte está com uma concentração alta de amido, proteínas e outros constituintes, en- quanto a água de mostura está com baixo ou quase nada desses componentes no início do processo. A água naturalmente tende a atravessar a membrana das células, com o objetivo de solubilizar os componentes do malte. As forças hidrofóbicas permitem a formação de micelas, que são aglomerados de moléculas com cauda apolar e cabeça polar. Esse mecanismo permite que a célula absorva ou possa expelir subs- tâncias do meio aquoso sem dissolver a parede celularna água (Figura 14). As micelas também são observadas quando o detergente, também de cauda apolar e cabeça polar, interage com as sujeiras apolares e com a água polar, removendo sujidades. Fonte: Borges ([2020], on-line)4. Figura 15 - Transporte de água através da membrana celular 32 Introdução à Bioquímica Cervejeira A osmose não é totalmente controlada pela célula. Como a molécula de água é pequena, ela atravessa a membrana de forma passiva. Por isso, se uma célula se situa em um meio muito concentrado de sais, as células murcham, perdendo água para o meio. Se estiverem em um meio muito pouco con- centrado, a água entra nas células, inchando-as. Se as condições não forem favoráveis, esses processos podem, inclusive, causar morte celular. Por isso sempre devemos estar atentos às condições de fermentação que não exerçam pressões osmóticas altas para as células de leveduras. Por mais que al- gumas espécies tenham capacidade de se proteger dos estresses osmóticos, alguns choques podem ser fatais, prejudicando a fermentação por baixo número de células viáveis. Você se lembra do glicerol? Ele é uma molécula produzida para que a levedura se proteja da per- da da água para o meio. Por esse motivo, fermen- tações em mostos concentrados tendem a for- mar maior concentração de glicerol. A levedura o produz para que ele retenha o fluxo de água de dentro para fora. Quando as condições do meio se tornam favoráveis novamente, como o con- sumo dos açúcares, a levedura expele o glicerol para o meio. Para saber mais, acesse: https://aca- demic.oup.com/femsre/article/21/3/231/571796. Fonte: adaptado de Hohmann e Mager (2010). 33UNIDADE 1 Caro(a) aluno(a), observamos muitos fenôme- nos bioquímicos em contexto com o dia a dia da produção cervejeira. Agora, porém, é hora de olharmos a produção cervejeira e compreen- der sucintamente como os conhecimentos bio- químicos irão auxiliá-lo(a) em cada etapa do processo, da obtenção das matérias-primas até a cerveja pronta. Registros datando de até 10.000 anos atrás apresentam evidências de que fermentados de cereais já eram produzidos por chineses, sumérios e egípcios (Figura 16). Contudo, cerveja como conhecemos é muito mais recente, e surgiu apenas com o advento das tecnologias de refrigeração industriais. Desde então, maltes, leveduras e lú- pulos são cada vez mais selecionados genetica- mente para conferirem características agradáveis e facilitadoras de controle de processo. Em todo o processo de produção cervejeira (inclusive de malteação dos grãos), os conhecimentos bioquí- micos são aplicados (KUNZE, 2004). Produção Cervejeira 34 Introdução à Bioquímica Cervejeira Figura 16 - Nativos de Uganda preparando e bebendo cervejas antigas Malteação Primeiro processo de produção de cerveja, a malteação é a transformação dos cereais em malte, por meio da germinação controlada e posterior secagem (Figura 17). O principal malte é o malte de ce- vada, devido às características únicas da cevada, mas também pode ser obtido de grãos, como sorgo, milho, trigo e outros. O processo de malteação é necessário por diversos motivos, porém devemos nos atentar a alguns descritos a seguir: 35UNIDADE 1 • Quebra das proteínas que compõem a ca- mada vítrea das células de amido. • Produção das enzimas amilolíticas, que serão responsáveis pela hidrólise do amido. • Produção das enzimas proteolíticas, que serão responsáveis pela quebra de outras proteínas contidas no malte. A malteação torna o grão pronto para conferir os atributos necessários às leveduras para transfor- marem o mosto cervejeiro em cerveja.Figura 17 - Processo de malteação de grãos de cevada Mosturação Durante a mosturação, como o próprio nome já sugere, a mistura das substâncias do interior do malte e da água se tornam o mosto cervejei- ro, ocorrendo reações bioquímicas importantes para os atributos finais da bebida. As enzimas presentes no malte irão realizar a quebra das moléculas de amido, de proteínas e demais subs- tâncias, tornando os nutrientes disponíveis para a fermentação (Figura 18). Cada enzima tra- balha em determinadas faixas de temperatura, por isso o cervejeiro mantém a temperatura de mosturação em rampas, favorecendo enzimas e desfavorecendo outras, de acordo com o dese- jado. Mais adiante, falaremos sobre enzimas e entraremos em maiores detalhes a respeito da mosturação. Figura 18 - Processo de mosturação Tenha sua dose extra de conhecimento assistindo ao vídeo. Para acessar, use seu leitor de QR Code. 36 Introdução à Bioquímica Cervejeira Fermentação O mosto resfriado recebe as leveduras e se inicia o processo de fermentação. Aqui, a temperatura é controlada de acordo com o estilo de cerveja a ser produzido e o fermento realiza a transformação bioquímica do mosto em cerveja. As principais reações que ocorrem são a conversão de açúcares fermentescíveis em gás carbônico e álcool etílico, sendo intermediada por diversas reações no in- terior das células de leveduras, podendo conferir subprodutos que impactam sensorialmente na cerveja (Figura 20). A genética do fermento, as características do mosto resfriado e a temperatura de fermentação são os principais atributos que impactam no processo fermentativo. Figura 20 - O processo de fermentação ocorre geralmente em tanques cilindro cônicos Figura 19 - O lúpulo é adicionado no processo de fervura do mosto Fervura A fervura do mosto cervejeiro tem como fun- ção esterilizar e impedir microrganismos não desejados de adentrarem a fermentação, além de conferir amargor por meio da isomerização dos compostos do lúpulo, bem como a eliminação de compostos indesejáveis pela volatilização (Figura 19). O lúpulo pode ser adicionado em momentos distintos do processo de fervura, e o tempo de contato com a fervura irá determinar o amargor final. Ao fim da fervura, o mosto é resfriado e des- tinado à fermentação. 37UNIDADE 1 Maturação Ao fim do processo fermentativo, a cerveja ainda não está pronta para o consumo. Células de fer- mento estão em suspensão e subprodutos inde- sejáveis foram produzidos, necessitando de um tempo para que sejam reincorporados pelas leve- duras. Normalmente, a maturação é dividida em uma etapa quente, também chamada de “descanso de diacetil”, e outra fria, prévia ao envase (Figura 21). A primeira é responsável por transformar um composto chamado de diacetil, produzido pela levedura e que pode ser reincorporado por ela, dado tempo e temperatura correta. A segunda tem como objetivo estabilizar a bebida, prevenir oxidações e polir a bebida final. Figura 21 - Maturação em barris Quanto conhecimento assimilamos até aqui! Percebemos que produzir cervejas está muito mais relacionado à bioquímica do que imaginávamos. Essas bases nos darão sustentação para todo o co- nhecimento que ainda está por vir. Do processo de produção do malte até a seleção de linhagens de leveduras, as bases da vida estão totalmente presentes, assim como a influência da água. Seguimos, então, na caminhada do aprendizado. Não há um consenso referente à maturação de cervejas. Alguns autores consideram a maturação apenas como sendo o descanso de diacetil, enquanto outros acreditam que a cerveja melhore com algum tempo em maturação fria. Fonte: adaptado de Kunze (2004). 38 Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução. 1. A unidade básica dos seres vivos é a célula. Qual é a composição de sua camada? a) Unicamente proteínas de alto peso molecular. b) Uma mistura de ácidos graxos e RNA. c) Unicamente de proteínas de baixo peso molecular. d) Camada bilipídica. e) Camada biproteica. 2. Os fermentos cervejeiros são utilizados para transformar o mosto produzido por nós em cerveja. Sobre as leveduras: I) O fermento cervejeiro é composto de microrganismos unicelulares, como as leveduras. II) As leveduras são todas iguais, afinal são da mesma espécie. III) A informação genética das leveduras não é diferente em cepas da mesma espécie. IV)É impossível um fermento cervejeiro conferir ésteres provindos da levedura. Assinale a alternativa correta. a) Apenas I e II estão corretas. b) Apenas I e III estão corretas. c) Apenas I está correta. d) Apenas II, III e IV estão corretas. e) Apenas I, II e III estão corretas. 39 3. A produção de cervejas envolve quatro processos básicos: mosturação, fervura, fermentação e maturação. Sobre os processos de produção das cervejas, assinale Verdadeiro (V) ou Falso (F): ) ( Na malteação, o grão germina e se torna uma nova planta, para só assim uti- lizarmos a planta para extrair o líquido cervejeiro. ) ( Na mosturação, as enzimas presentes no malte atuam quebrando moléculas grandes em menores. ) ( Na maturação, ocorre a incorporação de algumas substâncias geradas pela própria levedura. Assinale a alternativa correta. a) V-V-V. b) V-F-F. c) F-F-F. d) F-V-V. e) V-F-V. 4. Descreva sucintamente por que a célula das bactérias é diferente das leveduras. 40 Guia Mangá - Bioquímica Autor: Masaharu Takemura, Kikuyaro e Office Sawa Editora: Novatec Sinopse: ciência, romance e robô-gatos! Kumi adora comer, mas está preocu- pada que sua paixão por alimentos pouco saudáveis esteja afetando sua saúde. Determinada a desvendar os segredos do regime perfeito, ela decide buscar a ajuda de seu estudioso amigo, Nemoto, e de sua bela professora de Bioquímica, dra. Kurosaka. Assim tem início nossa aventura... Acompanhe essa viagem no Guia Mangá Bioquímica enquanto Kumi explora os mistérios do funcionamento de seu corpo. Com o auxílio do robô-gato, o simpático robô endoscópico da professora, você conhecerá a incrível máquina química que nos mantém vivos e verá de perto biopolímeros, como o DNA e as proteínas, processos metabólicos que transformam os alimentos em energia e enzimas que catalisam as reações químicas do nosso corpo. Ao pesquisar células animais e vegetais, você aprende- rá sobre: o metabolismo de substâncias como carboidratos, lipídeos, proteínas e álcool; de que forma a usina energética conhecida como mitocôndria produz ATP; a transcrição do DNA e os três tipos de RNA que trabalham juntos para traduzir nosso código genético em proteínas; e o modo de medir a cinética das enzimas e como funciona a inibição enzimática. Se você é um cientista amador, um estudante de Medicina ou apenas alguém curioso e que deseja descobrir como nosso corpo transforma bolinhos (cupcakes) em energia, o Guia Mangá Bioquímica é a chave para entender a ciência da vida. Comentário: Masaharu Takemura, PhD, é professor adjunto da Universidade de Ciências de Tóquio. Suas especialidades são biologia molecular e educação biológica. Criada em 2006, a Office Sawa já produziu inúmeros textos práticos e materiais publicitários nos campos da medicina, informática e educação. A Office Sawa se especializa em manuais, guias de referência e materiais promocionais que frequentemente utilizam textos educativos e mangá. LIVRO 41 Brewer’s Association O Brewer’s Association é a maior associação de cervejeiros dos Estados Unidos, inclusive sendo responsável pela elaboração de um dos mais utilizados guias de estilos no mundo. O site da BAs apresenta notícias do meio cervejeiro, mapas interativos e diversos conteúdos gratuitos. Para acessar, use seu leitor de QR Code. WEB Crisp Malting Group - The Process of Making Barley into Malt No vídeo Crisp Malting Group - The Process of Making Barley into Malt, a Brewd.com apresenta o processo de produção do malte, nas maltearias inglesas. Mostra a escolha da cevada nas plantações, até os processos de germinação e secagem. Ative as legendas para aproveitar ao máximo essa experiência. Para acessar, use seu leitor de QR Code. WEB https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/2660 https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/2659 42 CHAUDHURI, K. Microbial Genetics. The Energy and Resources Institute (e-Book), 2015. DANIELS, R. Designing Great Beers: The Ultimate Guide to Brewing Classic Beer Styles. Brewer’s Publica- tions, 1998. HIERONYMUS, S. For the Love of Hops: The Practical Guide to Aroma, Bitterness and the Culture of Hops. Boulder: Brewer’s Publications, 2012. HOHMANN, S.; MAGER, W. H. Yeast Stress Responses. New York: Springer, 2010. KUNZE, W. Technology Brewing and Malting. 6. ed. Berlin: VLB, 2004. MALCATA, F. X. Mathematics or Enzyme Reaction Kinetics and Reactor Performance. Vol. 2. 1. ed. Wiley-Blackwell, 2020. MALLETT, J. Malt: A Practical Guide from Field to Brewhouse, Boulder: Brewer’s Publications, 2014. NELSON, D. L.; COX, M. M. Princípios de bioquímica de Lehninger. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. PALMER, J. How to Brew: Everything You Need to Know to Brew Great Beer Every Time. 4th Edition. Boulder: Brewer’s Publications, 2017. WHITE, C.; ZAINASHEFF, J. Yeast: The Practical Guide to Beer Fermentation. Boulder: Brewer’s Publications, 2010. REFERÊNCIAS ON-LINE 1Em: https://www.beronia.com/blog/en/what-are-the-legs-in-a-wine/. Acesso em: 08 fev. 2020. 2Em: https://study.com/academy/lesson/the-biological-function-of-cellulose.html. Acesso em: 08 fev. 2020. 3Em: https://www.ck12.org/biology/structure-and-properties-of-water/lesson/Biochemical-Properties-of- Water-Advanced-BIO-ADV/. Acesso em: 08 fev. 2020. 4Em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/1202527/mod_resource/content/1/Aula13BioqAvan_ Membranas.pdf. Acesso em: 08 fev. 2020. 43 1. D. 2. B. 3. D. 4. As bactérias são microrganismos procariontes, ou seja, não possuem um núcleo definido que guarde o material genético. Seu DNA está inserido no citoplasma. As leveduras são microrganismos eucariontes, ou seja, possuem um núcleo definido, que guarda o material genético. 44 PLANO DE ESTUDOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Me. Maycon Vinícius de Senna Ribeiro • Conceituar a estrutura e importância dos aminoácidos e de seus aglomerados peptídeos. • Compreender as formas estruturais das proteínas e suas funções na produção cervejeira. • Contextualizar os lipídeos e suas respectivas funções no desempenho celular. • Conhecer os carboidratos presentes na produção de cervejas. • Analisar os insumos, mostos e cerveja em relação às bio- moléculas cervejeiras. Aminoácidos e Peptídeos Proteínas Carboidratos Insumos, Mosto e CervejaLipídeos Macromoléculas Cervejeiras 46 Macromoléculas Cervejeiras Aminoácidos e Peptídeos Caro(a) aluno(a), chegamos à segunda unidade deste livro com o objetivo de compreender a im- portância das macromoléculas na produção de cervejas. Nosso querido malte confere diversas moléculas ao mosto cervejeiro que desempenha- rão importantes funções ao decorrer da mostura- ção e para a qualidade da cerveja final. Uma dessas funções, por exemplo, é a estabilidade da espuma cervejeira. Observamos que a espuma é extre- mamente importante para a estética da cerveja, além de reter a transferência de calor do ambiente, dando cremosidade ao paladar. Você sabia que uma classe de macromoléculas está diretamente ligada à estabilidade da espuma? A partir de agora desvendaremos os segredos de cada molécula e suas características. Vamos lá! 47UNIDADE 2 Aminoácidos A palavra aminoácido pode soar um tanto quanto estranha para você, porém fica mais fácil compreen- der o que é um aminoácido quando falamos em proteínas. De senso comum, sabemos que as proteínas são moléculas presentes em alimentos como as carnes e alguns grãos e fazem parte dos músculos nos dando força. Mais à frente, falaremos sobre proteínas, entretanto o que devemos compreender aqui é que os aminoácidos são os blocos de construção das proteínas. Pequenas unidades que, juntas, tor- nam-se proteínas. Para conhecer o todo, devemos conhecer suas parcelas e, principalmente, a função que desempenham. O malte por si só possui uma quantidade de proteínas, que serão conferidas ao mosto, durante o processo de mosturação. Essas proteínas serão quebradas pela ação de enzimas e, assim, seus blocos de construção estarão mais presentes no mosto cervejeiro. Quandoas proteínas se quebram, elas podem se tornar aminoácidos livres ou o que chamamos de peptídeos, que são alguns aminoácidos ligados, mas que não são uma proteína. Figura 1 - Aminoácidos são os blocos de construção das proteínas Se as proteínas são feitas de aminoácidos, então do que são feitos aminoácidos? Eles possuem esse nome, pois são ácidos orgânicos ligados a um grupo amina. O que difere um aminoácido de outro é a ligação com o radical, que é variável. Aminoácido Peptídeo Proteína 48 Macromoléculas Cervejeiras Figura 2 - Fórmula genérica dos aminoácidos A maioria dos seres vivos utiliza os aminoácidos para formar proteínas e, assim, auxiliar o orga- nismo em todas as suas tarefas. Todos necessitam produzir proteínas, porém nem todos conseguem absorver a proteína (como nós fazemos), quebrá- -la internamente e produzir proteínas à própria maneira. É por esse motivo que o cervejeiro deve manter aminoácidos no seu mosto. As leveduras não conseguem quebrar as proteínas do mosto, H H H N R C O OH C Grupo amino Grupo carboxílico (ácido) Radical apenas utilizar aminoácidos livres. Um mosto cervejeiro sem aminoácidos pode trazer sérios problemas de fermentação, como odores e sabores desagradáveis, fermentação lenta e travada, e até turbidez indesejada pela quantidade de proteínas inteiras. Por isso, é importante que o cervejeiro siga uma rampa de proteases, enzimas responsá- veis pela quebra das proteínas. Desde a descoberta dos aminoácidos até o descobrimento do último e vigésimo – treonina – passaram-se mais de 130 anos. Os aminoácidos, hoje, são compostos por 20 unidades diferentes, com seu radical sendo o ponto de mudança. Re- cebem seus nomes como sendo uma referência à sua fonte: a asparagina foi isolada primeiramente do aspargo, por isso recebeu esse nome (BELLÉ; SANDRI, 2014). Perceba, caro(a) aluno(a), que todas as proteínas e peptídeos são compostos por apenas 20 aminoácidos. No entanto, imagine a in- finidade de combinações que 20 unidades podem gerar, produzindo proteínas diferentes. O quinto e último gosto básico, chamado de umami, nada mais é do que a percepção humana para aminoácidos. Geralmente, quando é utilizado ácido glutâmico nos alimentos, ou é reali- zado algum tipo de cocção em carnes e alimentos proteicos, o umami se torna muito evidente. Fonte: Wash (2019, on-line)1. 49UNIDADE 2 Figura 3 - Os 20 aminoácidos essenciais Fonte: adaptada de Bellé e Sandri (2014). Alanina Arginina Asparagina Ácido aspártico Cisteina Ácido glutâmico Glutamina Glicina Histidina Isoleucina ProlinaFenilaninaMetioninaLisinaLeucina Serina Treonina Triptofano Tirosina Valina CH3 CC H H H N O HO CC C N H H O HO H OH2N CH2 CC C N H H O HO H OHO CH2 CC N H H O HO H CH2 SH CC N H H O HO H CH2 CH2 C HO O O O OHH2N NH2 H CC H H H N O HO CH3 CC H H H N O HO CH CH2H3C CC H H H N O HO CH2 CH3H3C CH CC H H H N O HO CH2 H O OH NH CC H H H N O HO CH2 CH2 S CH3 CH3 CC H H H N O HO CH H3C CH2 CC H H H N O HO OH CH CC H H H N O HO CH3HO CC H H H N O HO CH2 HN CC H H H N O HO CH2 OH CC H H H N O HO CH2 CH2 CH2 CH2 NH2 CC H H H N O HO CH2 CH2 CH2 NH C NHH2N CC H H H N O HO CH2 C C C N N H H H Peptídeos Quando os aminoácidos se ligam, formam-se peptídeos. Estes são cadeias de aminoácidos, com ta- manhos variados, sem função específica. Quando um peptídeo começa a exercer alguma função, é denominado proteína. Eles formados pelo que chamamos de ligações peptídicas. Os aminoácidos se unem pela ligação do grupo amino de um deles com o grupo carboxílico (ou grupo ácido) de outro, liberando uma água como produto final. Dessa maneira, os organismos vivos conseguem desempenhar diversas funções, unindo aminoácidos para formar peptídeos e proteínas (BARACAT-PEREIRA, 2014). 50 Macromoléculas Cervejeiras Figura 4 - Formação dos peptídeos por ligações peptídicas Os peptídeos desempenham uma importante função na nossa cer- veja: a formação e a estabilidade da espuma. Devido às suas forças polares, eles impedem a dispersão do gás carbônico, formando uma camada de transição mais estável, a que chamamos de espu- ma (KUNZE, 2004). É muito importante que uma cerveja que se deseja possuir uma espuma cremosa, elegante e persistente possua peptídeos de menor peso molecular em suspensão. Como podemos garantir isso? Contribuindo com a ação das proteases durante a mosturação. AMINOÁCIDO 1 AMINOÁCIDO 2 ÁGUA PEPTÍDEO Ligação peptídica Aminoácido 1 Aminoácido 2 Peptídeo Água As proteases quebram as proteínas do malte, gerando aminoácidos e peptídeos menores. Como vimos anteriormente, os aminoácidos são nutrientes para a levedura, mas qual a função dos peptídeos no seu mosto? 51UNIDADE 2 Prezado(a) estudante, já compreendemos as bases formadoras das proteínas e a função dos aminoá- cidos e dos peptídeos no nosso mosto e na nossa cerveja. Agora é a hora de entendermos as proteí- nas, ou seja, longas cadeias formadas por milhares de aminoácidos em ligações peptídicas, com im- portantes funções no funcionamento dos orga- nismos vivos. Por mais que não seja conveniente proteínas em nosso mosto ou em nossa cerveja final, há uma classe de proteínas na produção de cervejas que nos faz entender mais ainda como a bioquímica está presente no processo: as enzimas. Proteínas 52 Macromoléculas Cervejeiras Enzimas As enzimas são uma classe de proteínas com uma importante função: catalisar reações biológicas. E afinal, o que é catalisar? Veremos a seguir. Figura 5 - Enzimas são grandes cadeias proteicas tridimensionais Os organismos biológicos necessitam desempenhar reações químicas para produzirem energia, seja para manutenção ou movimento. Essa energia vem dos alimentos, seja qual for. Para transformar esse alimento em energia, são necessárias diversas reações químicas de quebra de moléculas, e para isso as enzimas entram em cena: aceleram as reações biológicas, tornando-as possíveis em poucos segundos (MALCATA, 2020). Para que uma mistura de água e malte se torne um mosto cervejeiro, muitas enzimas precisam que- brar as moléculas de amido, de proteínas do malte, entre outros compostos e, assim, liberar moléculas menores, as quais podem ser absorvidas pelas leveduras. O amido é uma imensa molécula de açúcares que, com a ação das enzimas amilolíticas, fornece ao mosto dextrinas (cadeias complexas de açúcares que dão corpo à nossa cerveja) e açúcares fermen- tescíveis (pequenos aglomerados de maltose, glicose e maltotriose, que serão transformados em álcool pelas leveduras). Além disso, vimos, anteriormente, a importância da enzima protease, que quebra as proteínas do malte liberando peptídeos e aminoácidos. Devemos sempre lembrar que as enzimas são proteínas responsáveis pela catálise das reações bioló- gicas. Por esse motivo, as proteases são proteínas responsáveis por quebrar outras proteínas. Quando se fala em conteúdo proteico do malte, fala-se também em proteínas e em enzimas importantes. 53UNIDADE 2 Uma reação química ocorre quando se tem três situações favoráveis: • Deve haver uma concentração de substratos razoável no meio. • A reação deve ser termodinamicamente possível. • A energia de ativação deve ser alcançada. Quando nos atentamos para o terceiro item, percebemos que o sistema deve conter energia suficiente para que a reação ocorra. Vamos exemplificar no nosso dia a dia. O cervejeiro pretende brassar uma cerveja no fim de semana e, para isso, arruma seu fogareiro, conectando a um botijão de gás. Para dar a ignição, ele acende um fósforo e abre a válvula. Perceba, caro(a) aluno(a), a ignição é a energia necessária para que a reação do gás com o oxigênio do ar se inicie. Sem o fogo (energia na forma de calor), a reação não ocorre tão facilmente. Dizemos, então, que a energia de ativação da reação gás e oxigênio é fornecida com uma ignição, uma chama inicial. En er gi a fo rn ec id a Sem enzimaEn er gi a de at iv aç ão Reagentes Produtos En er gi a lib er ad a Progresso de uma reação sem enzimas Progresso de uma reação com enzimas Energia de ativação Com enzima En er gi a fo rn ec id a En er gi a lib er ad a Reagentes Produtos Figura 6 - Esquema de diminuição da energia de ativação da reação química sem e com enzimas Com as enzimas, a energia de ativação das reações é reduzida, possibilitando que a reação ocorra sem muita energia inicial. Afinal, seria muito difícil para uma célula controlar uma ignição, por isso as reações biológicas podem ocorrer em temperaturas amenas. As enzimas se ligam aos substratos (ou reagentes), ativam determinadas regiões responsáveis pela diminuição da energia de ativação, porém sem a modificação da enzima. Ao final da reação, a enzima não é consumida ou modificada, ela está pronta para participar de outra reação. Os mecanismos mais conhecidos e aceitos são o do sistema chave-fechadura e de encaixe induzido, para enzimas. As enzimas são específicas, ligam-se ao substrato ao qual foram criadas para atuar, com uma imensa seletividade. Por exemplo, as proteases só podem quebrar proteínas, não conseguirão quebrar moléculas de açúcar devido à sua especificidade (MALCATA, 2020). 54 Macromoléculas Cervejeiras Figura 7 - Esquema chave-fechadura para a atuação das enzimas Complexo enzima-substrato Complexo enzima-produto Produtos Enzima Substratos Enzima Facilmente confundimos os termos enzimas e proteínas no dia a dia, porém devemos deixar claro que as enzimas são um tipo de proteína, ou seja, todas as enzimas são proteínas, mas nem todas as proteínas são enzimas. aumentam muito, pode ocorrer a desnaturação da enzima, ou seja, irreversivelmente sua estrutura se rompe, danifica-se, e a enzima passa apenas a ser uma proteína inativa em suspensão. Na fervura, muitas proteínas se coagulam pela desnaturação pelo calor, sendo retiradas por decantação (KUNZE, 2004). No entanto, as enzimas são apenas um tipo de proteína e estão por toda a parte, em alimentos, produtos de limpeza, entre outros. Estrutura das Proteínas As proteínas podem ter outras funções além de serem enzimas. Muitas proteínas são fundamentais para a manutenção da vida, por exemplo, as hemoglobinas presentes no nosso sangue e a clorofila nas plan- tas. Sem elas, não poderíamos viver da forma como vivemos. Elas têm a importante função de auxiliar na troca gasosa para nós respirarmos e para as plantas realizarem a fotossíntese. Por isso, aluno(a), as proteínas são a base das funções de todos os seres vivos. Como compreendemos, as en- zimas são muito específicas. As amilases só atuam quebrando cadeias de amido, as glucanases só atuam quebrando glucanos e assim por diante. E para que isso ocorra, as enzimas atuam em faixas específicas de tem- peratura e pH, pois mínimas variações no ambiente podem danificar regiões importantes das enzimas. Na mosturação, cada pata- mar de temperatura favorece uma enzima específica, mes- mo que outras estejam atuan- do simultaneamente, porém de maneira mais lenta. Entre- tanto, quando as temperaturas 55UNIDADE 2 Conforme os aminoácidos se ligam, formam-se peptídeos, depois polipeptídeos e, por fim, proteínas. Quando as cadeias de ligações crescem, outras forças intermoleculares atuam, criando estruturas es- paciais. Dessa maneira, dividimos as estruturas das proteínas em quatro classes: proteínas de estrutura primária, secundária, terciária e quaternária (BARACAT-PEREIRA, 2014). Veremos, a seguir, como funcionam cada uma delas. • Estrutura primária: é a ligação dos aminoácidos formando peptídeos. Dizemos que essa estrutura é linear, geralmente representa peptídeos de baixo peso molecular. • Estrutura secundária: os resíduos dos aminoácidos começam a exercer forças intermoleculares, causando a torção da cadeia, que começa a se dispor em hélice. Dessa forma, estruturas como alfa-hélice e beta pregueada são possíveis. • Estrutura terciária: as hélices, conforme ficam maiores, começam a se enrolar sobre si, como se fossem novelos de lã. A molécula possui alto peso molecular e começa a produzir regiões fun- cionais em escala tridimensional. • Estrutura quaternária: a disposição tridimensional da proteína começa a desempenhar funções específicas em cada região dela, que podem ser chamadas de subunidades. Figura 8 - Estruturas proteicas Quanto maior a estrutura da proteína, mais funcional ela se torna. A interação dos resíduos dos ami- noácidos com as forças intermoleculares pode produzir proteínas com funções ilimitadas. Algumas proteínas ainda possuem metais fazendo parte de sua estrutura, como a hemoglobina que possui ferro. Toda essa complexidade torna cada ser vivo único, com um conjunto de interações e reações químicas, criando enzimas específicas. Estrutura primária: cadeia de aminoácidos Estrutura secundária: alfa hélice Estrutura terciária: cadeia polipeptídica torcida sobre si Estrutura quaternária: subunidades reunidas 56 Macromoléculas Cervejeiras Funções das Proteínas Caro(a) aluno(a), por que é tão importante manter aminoácidos no mosto para as leveduras? Parece um pouco óbvio que elas usem esses aminoácidos para produzir suas enzimas e conseguirem se ali- mentar dos açúcares, mas vai muito além disso. Os aminoácidos servirão como matéria-prima para as proteínas, e estas desempenharão muitas outras funções, além das enzimas que já vimos anterior- mente. Vamos, agora, conhecer um pouco das outras funções das proteínas nos organismos vivos (BARACAT-PEREIRA, 2014). Proteínas transportadoras Algumas proteínas facilitam o transporte de nu- trientes, tanto do meio extracelular para intrace- lular, como no interior da célula. A própria parede celular possui proteínas para desempenhar essa função. Quanto mais específica for essa proteína, mais específico será o substrato a ser transportado. Proteínas Estruturais Essa classe de proteínas é de extrema importân- cia para os organismos mais desenvolvidos, pois garante estrutura, servindo de suporte para o ser vivo. Podemos citar como exemplo o colágeno, proteína presente nas cartilagens e tendões dos animais, responsáveis pela sustentação e o movi- mento. Os cílios e flagelos bacterianos são protei- cos, a parede celular das leveduras possui camadas proteicas, e até a cápsula que envolve os vírus é proteica. Perceba, prezado(a) estudante, como uma pequena mudança na estrutura proteica pode criar funções totalmente novas para o ser vivo. Proteínas de defesa Algumas leveduras, principalmente do gênero Saccharomyces, apresentam o que chamamos de fator killer. Elas têm a capacidade de secretar subs- tâncias que podem matar bactérias e até outras leveduras presentes no meio. Esse fenômeno é muito importante na competição por nutrientes e contribui para que a linhagem resistente à to- xina se sobressaia perante as demais. Essa toxina geralmente é constituída de proteínas, que atuam como defesa, destruindo a membrana celular de outros microrganismos. Perceba, futuro(a) profissional da Produção Cervejeira, como as proteínas são a chave da vida: podem desempenhar diversas funções e são, prin- cipalmente, responsáveis pelas novidades que a vida pode trazer, contribuindo com a sobrevi- vência. Mais adiante, na Unidade 5, entenderemos como é possível um microrganismo produzir pro- teínas tão diferentes e tão funcionais. 57UNIDADE 2 Durante a fervura da cerveja, são adicionados lúpulos para conferir amargor e aroma. Nesse momento, algo que observamos é uma caracterís- tica “oleosa” proporcionada pelo lúpulo, que faz o mosto brilhar em alguns momentos. Percebemos, assim, que essas substâncias têm certa dificulda- de em se dissolver no mosto, principalmente em grandes quantidades. Apesar de o lúpulo possuir diversos tipos de óleos essenciais em sua com- posição, chamamos a atenção para uma classe de biomoléculas que chamamos de lipídeos. Os óleos e gorduras são lipídeos e são basicamente a estruturasustentadora da membrana celular, que vimos no início deste livro. Aluno(a), agora conheceremos o que são os lipídeos e qual a sua importância na produção das cervejas. Lipídeos 58 Macromoléculas Cervejeiras Figura 9 - Lúpulo e seus óleos essenciais Os lipídeos são derivados dos ácidos graxos, que nada mais são do que cadeias hidrocarbonadas com um grupo carboxil em uma das extremidades. Esse grupo carboxil, também chamado de grupo ácido, torna essas substâncias com uma característica hidrofóbica (que não se liga à água) em uma substância hidrofílica (que pode se ligar à água), como é o caso dos ácidos graxos. A polaridade da extremidade carboxílica permite a interação com a água, enquanto as cadeias não polares repelem a água. Dessa maneira, essas substân- cias são essenciais para a existência da vida. Sem elas, as membranas celulares dos microrganismos não existiriam, seriam totalmente dissolvidas pela água interna e externa (NELSON et al., 2018). Os ácidos graxos se diferenciam por meio do tamanho da sua cadeia e da sua quantidade de insaturações. O tamanho da cadeia é determinado pela quantidade de carbonos presentes, que abrevia- mos pela letra “C” e o número de carbonos na cadeia. Por exemplo, um ácido graxo com 9 carbonos é referenciado como C-9. Quando falamos de insaturações, dizemos que no meio da cadeia podem haver ligações duplas, o que chamamos de insaturação. Ácidos gra- xos insaturados são aqueles que possuem ligações duplas na cadeia. Devido às características hidrofóbicas dos lipídeos, não é possível solubilizar óleos e gorduras em da água. Para isso, utilizam-se solventes como hexano, éter de petróleo e outros. Muitas análises de conteúdo lipídico são obtidas por extração. Fonte: USP ([2020], on-line)2. 59UNIDADE 2 Figura 10 - Imagem ilustrativa dos ácidos graxos saturados e insaturados, indicando o grupo carboxila Fonte: adaptada de Nelson e Cox (2014). Grupo carboxil Cadeia hidrocarbonada C OO C OO Triacilgliceróis como Fonte de Energia Os ácidos graxos podem se ligar a uma molécula de glicerol, formando uma cadeia neutra chamada de triacilglicerídeos (ou triacilgliceróis). Dessa maneira, é possível que os seres vivos armazenem esses ácidos graxos, para serem utilizados como reserva energética. Para formar um triacilglicerol, é necessário que uma molécula de glicerol se ligue a três ácidos graxos, construindo, assim, uma reserva energética para os seres vivos. Mais adiante, falaremos sobre os carboidratos e sua importância energética, porém devemos salientar que a energia de triacilgliceróis é superior à fornecida por carboidratos. Além disso, há menor requerimento de água para a transformação dessas moléculas em energia. Figura 11 - Representação de um triglicerídeo 60 Macromoléculas Cervejeiras Ácidos graxos e triacilglicerí- deos são fundamentais para o correto funcionamento dos organismos vivos. Para as le- veduras, esses compostos são utilizados para a sintetização de novas membranas celulares, imprescindível para a repro- dução celular. Em organismos superiores, como nós humanos, eles são reservas energéticas e constituem grande parte dos hormônios, que são substân- cias necessárias para a comu- nicação interna do corpo. A hidrólise dos triacilglicerídeos é facilmente assistida por ácidos ou bases, gerando sabões que diminuem a tensão superficial da água (NELSON et al., 2018). Esses sabões são conhecidos por promover a solubilização de gorduras em água. Figura 12 - Representação da atuação dos sabões na solubilização de sujeiras Podemos perceber que a polaridade da molécula tem efeito sobre a sua solubilização. Tanto os fosfolipídeos das membranas celulares quanto os sabões conseguem ser polares em uma região e apolares em outra região da molécula, produzindo o que chamamos de micelas. Estas são aglo- merados de ácidos graxos ou sais de ácidos graxos que podem solubilizar substâncias em água ou manter uma bicamada estável, como as membranas celulares. 61UNIDADE 2 Formação de Estrutura de Membrana Como já vimos até aqui, a membrana celular, além de fundamental para a vida, é necessariamente com- posta por uma bicamada lipídica, que chamamos de lipossomo. A principal diferença entre a micela e o lipossomo é a presença de duas camadas, ao invés de uma. Isso permite polaridade nas extremidades e no centro, possibilitando uma unidade aquosa interna e externa. Figura 13 - Esquema da formação do lipossomo e das micelas Dessa maneira, prezado(a) estudante, percebemos como é importante a presença de ácidos graxos para a manutenção da vida. Normalmente, as leveduras conseguem sintetizar os ácidos graxos a partir dos demais compostos presentes no mosto, para assim se reproduzirem. Contudo, só o conseguem na presença de oxigênio. Por esse motivo, é fundamental que o mosto cervejeiro seja aerado previamente à fermentação, pela necessidade de as células produzirem ácidos graxos. A falta de oxigênio pode causar estresses, gerando subprodutos indesejáveis na cerveja pronta. Lipossomo Micela Bicamada lipídica 62 Macromoléculas Cervejeiras Profissional da Produção Cervejeira, acredito que agora já esteja muito mais claro o que são proteínas, aminoácidos e lipídeos presentes no mosto cervejeiro, porém há uma classe muito im- portante para o resultado final da nossa cerveja: os carboidratos. Quando chamados de açúcares, fica mais intuitivo compreender sua aparência e importância à produção de cervejas. As cervejas com menos corpo, mais secas, possuem diferen- ças significativas em relação a carboidratos do que as bebidas encorpadas, alcoólicas e até doces. A presença dos carboidratos e da forma em que estes estão no mosto cervejeiro definem essas e outras características da cerveja pronta (MAL- LETT, 2014). Carboidratos 63UNIDADE 2 Os carboidratos são chamados assim por se tratarem de hidratados de carbono, ou seja, a mistura das moléculas de gás carbônico (CO2) e água (H2O). Dessa maneira, após a sua quebra, são liberadas quantidades de energia e essas duas moléculas. Os carboidratos são a classe mais numerosa de biomo- léculas do planeta, sendo a fonte principal de energia para os seres vivos. Não é por acaso que a nossa levedura cervejeira aguarde ansiosamente os açúcares do mosto para transformá-los. Afinal, essa é a maneira que o fermento tem para sobreviver naquele meio. Dividem-se os carboidratos de acordo com a composição de sua molécula. Dos mais simples, com apenas uma unidade, até os mais complexos, com numerosas unidades, podemos destacar a glicose e o amido, sendo o último uma longa cadeia de glicoses ligadas. Aos carboidratos de uma única unidade, damos o nome de monossacarídeos, os de duas chamamos de dissacarídeos e os grandes carboidratos denominamos de polissacarídeos (BELLÉ; SANDRI, 2014). Exemplificaremos para que fique mais claro. Figura 14 - O malte tem como principais constituintes os carboidratos Tenha sua dose extra de conhecimento assistindo ao vídeo. Para acessar, use seu leitor de QR Code. 64 Macromoléculas Cervejeiras Figura 15 - Monossacarídeos e dissacarídeos Observe pela Figura 15 como a união das unidades pode formar dissacarídeos. Eles são muito presen- tes no nosso dia a dia. A sacarose, por exemplo, está presente na cana-de-açúcar e na forma de açúcar refinado nas nossas casas, a maltose está presente no nosso mosto cervejeiro e a lactose nos leites. Todas essas substâncias são utilizadas pelo nosso organismo como fonte de energia. Para as leveduras, são os precursores do álcool, do gás carbônico e de outros subprodutos da fermentação. Glicose Galactose Frutose Sacarose Maltose Lactose 65UNIDADE 2 São numerosas as quantidades de carboidratos existentes. As nossas leveduras cervejeiras só conseguem trabalhar com alguns carboidratos em específico: glicose, frutose, sacarose, maltose e maltotrioses (com algumas exceções). A leveduras não conseguem quebrar os outros carboidratos, o que faz com que estes, se presentes, permaneçam