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43 BOTÂNICA ECONÔMICA Unidade II 5 PLANTAS ALIMENTÍCIAS NÃO CONVENCIONAIS (PANCS) 5.1 Definição e potencial das Pancs Desde os primórdios as plantas fazem parte da alimentação humana. Consequentemente, foi preciso diferenciá‑las. Essa necessidade de distinguir o que poderia ser útil na alimentação ou não rendeu diversas descobertas a respeito da versatilidade e do grande potencial dessas plantas, que serviram como recurso fundamental para a sobrevivência do homem e seu desenvolvimento, conforme acentuamos. As plantas também vêm sendo usadas como matéria‑prima para a confecção de importantes ferramentas, além de servir como combustível para o fogo. Também foram incluídas em rituais religiosos, ganhando identidade mística e terapêutica. Ao longo dos tempos, muitos conhecimentos sobre as plantas foram adquiridos, os quais foram conservados e transmitidos de geração em geração, persistindo até hoje. Assim, pode‑se considerar que uma cultura alimentar foi construída durante todos esses anos, mas que infelizmente muitas foram dispersas no decorrer das últimas décadas. Sem dúvida, muitos hábitos alimentares são fatores importantes quando se trata da cultura de um povo, pois constituem sua identidade e expressam indiretamente suas necessidades e alternativas de subsistência, podendo servir como registros de contribuição para a economia local, bem como representar parte de suas histórias. Vale ressaltar que muito do que se conhece hoje deve‑se aos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas, quilombolas, das comunidades rurais e às trocas entre diferentes culturas. Tais hábitos fizeram parte da vida dessas comunidades e, mesmo hoje, após elas quase estarem completamente perdidas, resistem passando por um resgate sociocultural através de estudos científicos em busca das contribuições estabelecidas por elas. Qualquer pessoa é capaz de observar um quintal abandonado, uma horta ou mesmo um canteiro de praça pública (figura 29) e notar que esses lugares estão geralmente repletos de plantas silvestres e rústicas que nasceram ali espontaneamente. Também conhecidas pela sigla Pancs (plantas alimentícias não convencionais), são plantas comumente indesejadas e consideradas invasoras pela maioria da população, que as caracterizam de forma pejorativa, com termos reducionistas como pragas, inços, ervas‑daninhas ou mesmo como um simples mato. 44 Unidade II Figura 29 – Vegetação crescendo espontaneamente em uma praça No entanto, dados da literatura vêm mostrando que essas plantas em sua maioria apresentam potencial alimentício com alto teor nutricional, igual ou superior às quais consumimos em nosso dia a dia. Além disso, as Pancs têm mecanismos de adaptação que podem torná‑las extremamente resistentes a ambientes que sofrem alternâncias climáticas, por exemplo. Tais condições as tornam vantajosas em relação às plantas convencionais, considerando que a maioria delas são plantas exóticas e carecem de condições ideais para o cultivo. As Pancs têm inúmeras vantagens adaptativas: são de fácil manejo e têm uma diversidade fantástica de espécies. Vale ressaltar que muitas delas não necessitam de cultivo para o seu desenvolvimento e propagação, essa vantagem proporcionaria demanda suficiente durante o ano todo e um baixo custo ao produtor, sem gastos com adubos e manutenções no cultivo, como rega, podas, entre outros. O consumo de plantas não convencionais é um hábito nada recente. Atualmente, as Pancs passam por um resgate sociocultural, há algumas décadas, o homem do campo, os sertanejos e as demais comunidades tradicionais brasileiras já as usavam em sua alimentação. Nativas em seus respectivos biomas, muitas espécies ganharam visibilidade nessas regiões, como é o caso da famosa planta ora‑pro‑nóbis (Pereskia aculeata) (figura 30), que ainda hoje é amplamente consumida e supervalorizada em todo o estado de Minas Gerais. 45 BOTÂNICA ECONÔMICA Figura 30 – Ramos de ora‑pro‑nóbis (Pereskia aculeata) Os estudos mostram que o êxodo rural, influenciado pelo processo de urbanização durante a Revolução Industrial, se tornou uma alternativa a fim de obter renda para os pequenos produtores rurais e suas respectivas famílias. Consequentemente, o processo de homogeneização alimentar causado pela urbanização reduziu drasticamente a diversidade das espécies usadas pelo homem urbano, erradicando a maioria dos alimentos que antes eram consumidos e garantindo a segurança e a soberania alimentar dos povos que vivem nos grandes centros urbanos. Lembrete Muito do que se conhece hoje deve‑se aos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas, quilombolas, das comunidades rurais e às trocas entre diferentes culturas. 6 CONTRIBUIÇÃO DA BIODIVERSIDADE VEGETAL BRASILEIRA COMO ALIMENTO Atualmente, há muita divulgação a respeito da grande biodiversidade brasileira. Os jornais e a mídia em geral noticiam periodicamente conteúdos abordando temas como as queimadas e as demais faces do desmatamento no Brasil, além de importantes pautas sobre a necessidade de preservar a nossa biodiversidade. No entanto, pouco é realmente feito com intuito de estimular a real valorização dos nossos recursos. Tendo em vista que o Brasil possui umas das maiores diversidades florísticas do mundo, e considerando apenas as plantas com potencial alimentício, é possível perceber o quão pouco se conhece diante da imensidão de espécies endêmicas que possuímos distribuídas ao longo de todos os biomas brasileiros. 46 Unidade II As Pancs podem ser consideradas alimentos de fontes sustentáveis e serem uma estratégia de valorização da biodiversidade, pois seu cultivo não causa impactos ao meio ambiente, o que reforça a ideia de conservação ambiental e sustentabilidade, tornando‑as ainda mais interessantes tanto para o contexto ambiental quanto socioeconômico. Nossas florestas tropicais estão repletas de espécies de Panc, como a vitória‑régia (Victoria amazonica), na Amazônia; o mandacaru (Cereus jamacaru), na Caatinga (figura 32); e o jaracatiá (Jacaratia spinosa), na Mata Atlântica (figuras 33 e 34); são plantas com potencial alimentício e não são consideradas convencionais. Figura 31 – Folhas da vitória‑régia (Victoria amazonica) na Amazônia Disponível em: https://shre.ink/8vJB. Acesso em: 9 abr. 2024. Figura 32 – Frutos comestíveis do cacto mandacaru (Cereus jamacaru), comum em áreas de Caatinga Disponível em: https://shre.ink/8v0N. Acesso em: 9 abr. 2024. 47 BOTÂNICA ECONÔMICA Figura 33 – Frutos do jaracatiá (Jacaratia spinosa) Disponível em: https://shre.ink/8v0z. Acesso em: 9 abr. 2024. Figura 34 – Árvore com frutos do jaracatiá (Jacaratia spinosa), espécie comum na Mata Atlântica Disponível em: https://shre.ink/8v0C. Acesso em: 9 abr. 2024. Estudos mostram que, além de implementar a ideia de agroecologia e o conceito de etnobotânica por meio da manutenção das florestas, áreas preservadas e suas respectivas comunidades, o consumo dessas plantas pode ser considerado uma ferramenta estratégica para garantir inúmeros benefícios à população, como a diversificação alimentar, que reforça o conceito de soberania e segurança alimentar e nutricional, e a consequente diminuição do consumo de alimentos produzidos à base de defensivos agrícolas, que estão cada vez mais presentes na mesa do consumidor, bem como o suprimento nutricional de baixo custo para as comunidades que apresentam deficiências nutricionais devido às condições econômicas desfavoráveis. A má distribuição de renda e a desigualdade social ainda são alguns dos problemas sociais que mais assolam a humanidade. Segundo dados do IBGE de 2017, cerca de 26,5% da população brasileira está 48 Unidade II abaixo da linha da pobreza, e a maioria é das regiões Norte e Nordeste (Souza; Lorenzi, 2019). Contudo, essas regiões ainda apresentam grandes áreas preservadas com recursos florísticos endêmicos de seus respectivos ecossistemas, além de inúmeras plantas com alto potencial nutritivo, porém não conhecidas ou subutilizadaspelas comunidades locais. Alguns autores consideram que o real problema da fome não está relacionado a crises econômicas, mas sim ao mau uso, os desperdícios e a má distribuição de renda (Souza; Lorenzi, 2019). A produção de alimentos ultrapassa o considerado suficiente para a população mundial, porém os problemas causados pela miséria persistem. Ou seja, a falta de informação sobre o grande potencial alimentício e a versatilidade dos recursos disponíveis, bem como a má distribuição dos alimentos produzidos em grandes escalas pela agricultura convencional, sem dúvida, contribuem muito para esse triste cenário que atinge diversos países ainda hoje, inclusive os grandes exportadores de alimentos, como é o caso do Brasil. Atualmente, os alimentos convencionais produzidos no Brasil apresentam uma cadeia preestabelecida, planta‑se um número irrelevante de espécies, geralmente não nativas; em contrapartida, essas poucas espécies em quantidades exacerbadas ocupam boa parte do território nacional. A agricultura é um dos setores envolvidos nas derrubadas de florestas e na consequente degradação dos ecossistemas. Vale salientar que essas plantas cultivadas necessitam de insumos e cuidados específicos, pois muitas das espécies cultivadas são exóticas e não estão adaptadas a grandes alterações climáticas. Portanto, além da exigência de mais cuidados, os custos são superiores aos necessários para cultivar espécies nativas e espontâneas. No Brasil, os estudos mostram que as Pancs são diversas e devem ser interpretadas de acordo com a cultura local/regional de cada comunidade. Como no país existem biomas distintos e esses ecossistemas podem apresentar fitofisionomias distintas, isso acarreta enormes contrastes no quesito gastronômico. Alguns exemplos clássicos são o jambu (Acmella oleracea) (figura 35), muito utilizado no Pará, a taioba (Xanthosoma sagittifolium), no Espírito Santo, e a ora‑pro‑nóbis (Pereskia aculeata), em Minas Gerais. Ou seja, uma planta considerada Panc na região Sudeste pode não ser na região Norte ou Nordeste. Vale ressaltar que mesmo as plantas convencionais presentes em nosso cotidiano, mas que denotam partes comestíveis consideradas não convencionais para a comunidade local, têm o mesmo conceito. Figura 35 – Jambu (Acmella oleracea), muito utilizado na culinária do Pará Disponível em: https://shre.ink/8v0e. Acesso em: 9 abr. 2024. 49 BOTÂNICA ECONÔMICA Pesquisas a respeito do comércio de Pancs em grandes centros urbanos mostram uma pequena diversidade de espécies sendo negociadas, entre elas podemos destacar: cará (Dioscorea dodecaneura), açafrão‑da‑terra (Curcuma longa), inhame (Colocasia esculenta), bambu (Phyllostachys edulis), maxixe (Cucumis anguria), mandioquinha‑salsa (Arracacia xanthorrhiza) e pitaia vermelha (Hylocereus lemaire). Todas essas espécies são acentuadas na literatura como Pancs (Souza; Lorenzi, 2019). Lembrete As Pancs podem ser consideradas alimentos de fontes sustentáveis e serem uma estratégia de valorização da biodiversidade, pois seu cultivo não causa impactos ao meio ambiente. 7 ESPÉCIES DE PANCS EM DESTAQUE Uma das espécies mais conhecidas citadas na literatura como uma Panc é a cúrcuma ou o açafrão‑da‑terra (Curcuma longa). Pertencente à família Zingiberaceae, é uma planta herbácea, com folhas em tufos, grandes e longas; sua superfície é marcada por nervuras e tem caule de aspecto rizomatoso (figura 36). O caule tem uma forte coloração amarelo‑avermelhado devido à alta concentração de curcumina. Figura 36 – Caule do tipo rizomas da cúrcuma ou açafrão‑da‑terra (Curcuma longa) e do caule moído preparado na forma de pó usado como tempero Disponível em: https://tinyurl.com/46wy3r5x. Acesso em: 18 abr. 2024. A parte reprodutiva da cúrcuma tem flores brancas e amarelas, com brácteas branco‑esverdeadas dispostas em uma inflorescência na forma de espiga cilíndrica pouco densa (figura 37). Originária da Índia e do sudeste da Ásia, ela é popularmente conhecida como açafrão‑da‑índia, açafrão‑da‑terra, cúrcuma e gengibre‑amarelo. 50 Unidade II Figura 37 – Aspecto geral da inflorescência do açafrão‑da‑terra (Curcuma longa) Disponível em: https://shre.ink/8v0I. Acesso em: 9 abr. 2024. Cultivada em quase todo o território brasileiro, a cúrcuma é muito utilizada na culinária no preparo de molhos, curry, mostarda, queijos e manteiga. É um excelente corante condimentar comercializado em forma de pó, fonte de curcumina (figura 38), minerais, vitamina A e C, ácido fólico e riboflavina, essenciais para a manutenção da saúde. HO OH O O O O H3C CH3 Figura 38 – Estrutura da molécula de curcumina Disponível em: https://shre.ink/8v0s. Acesso em: 9 abr. 2024. 51 BOTÂNICA ECONÔMICA A cúrcuma também vem sendo muito aplicada na indústria farmacêutica e para fabricar óleo e oleorresina. Muitas propriedades medicinais estão presentes no açafrão‑da‑terra, como a ação anti‑inflamatória, antibacteriana, cicatrizante, neuroprotetora, antimalárica e antifúngica. Ela também pode ser utilizada para tratar problemas estomacais, bem como câncer de esôfago e garganta. Outra espécie de Panc que vale acentuar é a taioba (Xanthosoma sagittifolium). Pertencente à família Araceae, é uma planta herbácea tuberosa e com folhas membranáceas de coloração verde‑escuro (figura 39). Originária da América Tropical, é comestível e de elevado valor nutritivo. Seus órgãos subterrâneos (caules do tipo cormos) são consumidos por algumas populações no mundo e constituem fonte energética importante na dieta. O consumo de suas folhas, no entanto, não é muito difundido, sendo considerada uma hortaliça não convencional. Figura 39 – Folhas de taioba (Xanthosoma sagittifolium), da família Araceae A literatura relata que a utilização da taioba pode ser tanto das folhas (talos/pecíolo), no preparo de refogados, como dos rizomas amiláceos, usados no preparo de purês, cozidos e fritos. A taioba é comumente confundida com outras plantas da família Araceae por apresentar morfologia muito semelhante, diferenciando‑se destas por suas folhas sagitadas e seiva de aparência esbranquiçada. A identificação correta dessas plantas é vital, pois muitas espécies de gêneros pertencentes a essa família têm alto potencial tóxico. Entre as dicas para reconhecer a taioba verdadeira é observar a presença de uma linha circundante na margem da folha (figura 40). O pecíolo (talo) das folhas tem inserção que sai da união da margem da folha (figuras 40 e 42). A taioba verdadeira tem uma coloração verde uniforme na folha e no pecíolo (figura 42). 52 Unidade II Figura 40 – Desenho esquemático de folha da taioba. As setas na imagem evidenciam a linha circundante na margem da folha e a inserção do pecíolo na união da margem foliar Nas espécies de falsa taioba, é comum existirem folhas parecidas com as da verdadeira taioba, mas sem a presença da linha circundante na margem da folha (figura a seguir). Figura 41 – Desenho esquemático de folha da falsa taioba. As setas na imagem evidenciam a falta da linha circundante na margem da folha e a inserção do pecíolo no meio da folha 53 BOTÂNICA ECONÔMICA Outro aspecto da falsa taioba é a presença de um pecíolo que sai do meio da folha (figuras 41 e 42). Há também a falsa taioba que tem um pecíolo de coloração roxa (figura a seguir). Figura 42 – Desenho esquemático de folha da verdadeira taioba e da falsa taioba. As setas na imagem evidenciam a inserção do pecíolo e a coloração do pecíolo roxo Observação É importante salientar que a taioba também tem peculiaridades quanto ao seu potencial alimentício, uma vez que ela precisa ser submetida ao calor do cozimento antes do consumo. Assim, suas substâncias prejudiciais podem ser eliminadas ou ao menos serem reduzidas, podendo inclusive apresentar respostas tóxicas caso sejam ingeridas de maneira inadequada, pois suas substâncias podem interferir no processo de absorção de nutrientes. Essas substâncias são decorrentes de um mecanismo de defesa que aplanta desenvolveu contra a herbivoria e os possíveis organismos patógenos. Contudo, a toxicidade não é obrigatória, mas ajuda a impedir que organismos estranhos possam predá‑la. Quanto às propriedades medicinais, as folhas da taioba são constituídas principalmente de fibra alimentar, que auxiliam no processo de digestão, diminuem a glicemia e o colesterol, previnem doenças inflamatórias intestinais e a obesidade, além de apresentarem grande quantidade de ferro entre os nutrientes. Outra espécie que merece destaque é o ora‑pro‑nóbis (Pereskia aculeata). Planta pertencente à família Cactaceae, é um arbusto semilenhoso muito espinescente, com folhas simples e de textura carnosa. Na alimentação as folhas podem ser utilizadas no preparo de saladas, farinhas, pães e bolos. Já os frutos podem ser usados no preparo de sucos, licores, geleias e musses. 54 Unidade II Figura 43 – Ramo florido de ora‑pro‑nóbis (Pereskia aculeata) Disponível em: https://shre.ink/8v6Z. Acesso em: 9 abr. 2024. Nativo do Brasil, o ora‑pro‑nóbis é uma planta de fácil propagação devido a sua rusticidade e resistência a períodos de estiagem, podendo substituir hortaliças folhosas menos resistentes. Seus frutos são ricos em carotenoides e vitamina C, o que vem despertando interesse agrícola e farmacológico, pois apresenta alto teor de proteínas e aminoácidos essenciais e mucilagem. Estudos revelam que o ora‑pro‑nóbis é também uma ótima fonte de minerais, vitaminas e aminoácidos. A alta concentração de proteínas e de triptofano, principalmente, é elevada quando comparada ao teor presente nos alimentos convencionais como o arroz e o feijão. Também vale ressaltar que o triptofano é essencial para a síntese de serotonina, hormônio que regula o sono e humor. Foram observadas substâncias antinutricionais em concentrações reduzidas, entretanto não existe evidência alguma de que o consumo possa trazer quaisquer prejuízos à saúde humana. Outro aspecto importante sobre as Pancs é que a maioria da população não as conhece, em especial nos grandes centros, onde predominam os famosos fast‑foods. Embora esses alimentos sejam muito nocivos à saúde, a exemplo da obesidade, apresentando altas quantidades de carboidrato e lipídeo, acabaram conquistando espaço no cardápio do mundo globalizado por venderem uma ideia de praticidade e baixo custo. A literatura mostra que muitas plantas usadas tradicionalmente na alimentação humana, entre elas as Pancs, podem apresentar aspectos bioativos medicinais (Barbieri; Stumpf, 2008). As plantas medicinais constituem parte significativa da biodiversidade mundial, e o uso de recursos florísticos na medicina é uma das práticas mais antigas ainda presentes. O ser humano sempre demonstrou interesse em encontrar formas que pudessem auxiliar no tratamento para curar enfermidades, e por muitos séculos as plantas foram o único recurso utilizado. 55 BOTÂNICA ECONÔMICA Estudos mostram que algumas espécies amplamente comercializadas no mercado convencional podem causar intoxicação aos seres humanos e demais animais quando consumidas ou preparadas para o consumo de forma inadequada. Contudo, a prudência na identificação dessas plantas é vital, uma vez que muitas espécies podem ser confundidas com plantas tóxicas pela simples aparência morfológica (Barbieri; Stumpf, 2008). Portanto, a validação científica a respeito desses conhecimentos é o principal caminho para obter o aproveitamento adequado desse recurso e é preciso que a população tenha acesso às informações científicas sobre as substâncias presentes nessas plantas. Devem‑se conhecer os possíveis efeitos que elas podem causar aos humanos e demais seres vivos, garantindo mais segurança e benefícios à saúde. Observação Você sabia que estudos propõem estratégias para ampliar o consumo de Pancs no país? Saiba mais Para entender melhor o que estamos estudando, leia o seguinte artigo: QUEIROZ, C. Panc na dieta dos brasileiros. Pesquisa FAPESP, ed. 320, out. 2022. Disponível em: https://shre.ink/8uP7. Acesso em: 11 abr. 2024. 8 PLANTAS COMO FONTE ENERGÉTICA E OUTRAS APLICAÇÕES 8.1 Plantas como fonte energética Há muitos anos vem‑se alertando que é preciso desenvolver técnicas para obtenção de matéria‑prima e transformação de biomassa vegetal em fontes energéticas para combustíveis que possam substituir o grande volume de combustíveis fósseis usado em quantidade crescente todos os anos. A obtenção de combustíveis a partir de biomassa vegetal é uma recomendação em todas as propostas para um desenvolvimento sustentável. Além de ser um recurso praticamente inesgotável e de estar disponível em quase toda a superfície terrestre (o que não acontece com os combustíveis fósseis), a biomassa é um combustível muito menos poluente. Em geral, a biomassa contém menos de 0,1% de enxofre e 3‑5% de cinzas, enquanto o carvão libera em sua queima 2‑3% e 10‑15%, respectivamente, desses produtos (Barbieri; Stumpf, 2008). Outra enorme vantagem da biomassa sobre os combustíveis fósseis é que a sua produção não compromete as condições atmosféricas, como o aumento da quantidade de CO2, gerando o efeito estufa. Se a biomassa for produzida em escala sustentável, o CO2 liberado pela queima será todo reabsorvido durante a fotossíntese das plantas cultivadas para suprir futuras demandas. Desse modo, a bioenergia não representaria nenhuma contribuição para o aquecimento do planeta. 56 Unidade II Embora os combustíveis fósseis contribuam com aproximadamente 80% do consumo mundial de fontes energéticas e a biomassa venha tendo uma participação muito pequena, já existe há muito tempo em numerosos países (especialmente naqueles em desenvolvimento) uma tradição em explorar os recursos energéticos de plantas. Em muitos casos, emprega‑se a madeira diretamente como combustível. Em outros, a madeira sofre uma transformação relativamente simples (em termos técnicos), sendo queimada e convertendo‑se em carvão, que será o gerador de energia a ser usada. Também processos industriais mais complexos são utilizados para obter os combustíveis líquidos, como o metanol e o etanol, a partir da madeira e de outras partes de plantas. Além dos processos convencionais para obter recursos energéticos de plantas, há atualmente uma busca muito intensa por formas alternativas de uso de energia a partir de plantas inteiras, de determinados órgãos ou até mesmo de secreções de plantas. Esses processos não convencionais são pesquisados a fim de ampliar o espectro de utilização dos recursos energéticos oriundos de plantas, além de tentar obter combustíveis mais baratos e cultivar plantas fornecedoras de combustíveis em áreas inexploradas para a produção de alimentos. Entre os processos convencionais para obter combustíveis, cita‑se a produção de lenha. O simples uso de madeira seca ao ar para gerar calor é a forma mais tradicional de geração de energia a partir de biomassa. Nas regiões agrícolas dos países em desenvolvimento, a lenha representa ainda a principal forma de energia para uso residencial. O uso de lenha nos fogões das residências pobres na zona rural é uma causa de intoxicação, principalmente nos lares em que a cozinha não dispõe de boa ventilação, o que causa alta concentração de gases tóxicos resultantes da queima da lenha, inclusive do monóxido de carbono (figura a seguir). Figura 44 – Lenha no fogão de uma residência na zona rural Disponível em: https://shre.ink/8v6u. Acesso em: 9 abr. 2024. 57 BOTÂNICA ECONÔMICA Nos grandes centros urbanos, a lenha ainda é muito aplicada para determinados fins. Em São Paulo, muitas vezes, a produção de pão e pizza é dependente de lenha, que representa uma fonte de calor mais barata que a da energia elétrica. É interessante acrescentar também o uso da lenha nas grandes cidades como combustível para lareiras. Paradoxalmente, o uso doméstico da lenha no Brasil une os dois extremos do espectro socioeconômico: de um lado, as populações mais pobres, da zona rural, dependem da lenha comocombustível para a cozinha; de outro, as populações citadinas mais abastadas têm no uso da lenha um item luxuoso para alimentar as suas lareiras. O desenvolvimento do transporte ferroviário no estado de São Paulo tornou‑se possível no início do século XX graças à introdução do eucalipto, realizada por Edmundo Navarro de Andrade, com o patrocínio da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Foi também Andrade quem estabeleceu o famoso horto localizado em Rio Claro, que contém o principal banco de germoplasma de espécies de eucalipto do Brasil. A lenha obtida do eucalipto era consumida para alimentar as caldeiras das locomotivas (marias‑fumaças). A madeira, combustível usado hoje no Brasil, provém em sua maior parte do eucalipto (figura 45). As duas principais espécies utilizadas são Eucalyptus saligna e Eucalyptus grandis. O Brasil é atualmente o maior produtor mundial de eucalipto, e a maior parte de sua madeira é destinada à indústria de celulose e papel. São Paulo é o estado com a maior produção. A segunda maior aplicação do eucalipto é para a produção de carvão. Em menor escala, utilizam‑se para fins semelhantes as madeiras de coníferas, principalmente o pinus. Figura 45 – Plantação de eucalipto usado para a produção de lenha Disponível em: https://shre.ink/8v6h. Acesso em: 9 abr. 2024. 58 Unidade II Outro processo convencional de obtenção de combustíveis é a produção de carvão vegetal. Figura 46 – Carvão vegetal Disponível em: https://shre.ink/8v6L. Acesso em: 9 abr. 2024. A conversão da madeira em carvão leva a uma perda de 2/3 do conteúdo calórico original. No entanto, a obtenção do carvão oferece vantagens importantes sobre o uso da madeira como combustível. Em certos casos, o carvão não pode ser substituído pela madeira como gerador de calor. Por exemplo, na indústria do ferro e do aço, exigem‑se altas temperaturas nos fornos. Essa condição é satisfeita pelo carvão, e não pela madeira, pois o primeiro tem um poder calorífico maior que a segunda, no caso do eucalipto, os valores são 28 mil kJ/kg (quilojoules/quilograma) para o carvão e 16 mil kJ/kg para a madeira seca ao ar. Além disso, o carvão não se deteriora (o que simplifica o armazenamento), é mais leve que a lenha (o que barateia o transporte) e queima com a formação de pouca fumaça (embora, em ambientes pouco ventilados, ele ofereça o risco de intoxicação por CO). No Brasil, Minas Gerais é o segundo estado com plantação de eucalipto. Boa parte da madeira destina‑se à produção de carvão, que é consumido na siderurgia, pois é nesse estado que ocorre a mais intensa atividade no país. Outro processo convencional para obter combustíveis é a produção de etanol a partir de espécies vegetais. O etanol pode ser retirado de diversas fontes, dependendo das características agrícolas de cada região e do grau de desenvolvimento tecnológico conseguido para a implementação de cada processo. Nos países cujas condições climáticas são propícias para o cultivo da cana‑de‑açúcar (Saccharum officinarum, Poaceae) (figura 47), ela é normalmente a fonte de biomassa preferida para obter álcool, sobretudo porque essa espécie é a planta que tem o maior rendimento fotossintético que se conhece (3% da energia solar incidente é convertida em energia química, enquanto outras espécies têm rendimento fotossintético situado entre 1 e 2%). 59 BOTÂNICA ECONÔMICA Figura 47 – Cana‑de‑açúcar usada para a produção do etanol Disponível em: https://shre.ink/8v6q. Acesso em: 9 abr. 2024. O Brasil é um dos grandes produtores de cana‑de‑açúcar. A planta foi introduzida no início da colonização, havendo registros de sua presença no Rio de Janeiro em 1519. A cultura da cana teve grande importância no período colonial, constituindo um dos ciclos da história econômica do país (figura a seguir). Figura 48 – Colheita da cana‑de‑açúcar usada para a produção do etanol Disponível em: https://shre.ink/8v6r. Acesso em: 9 abr. 2024. 60 Unidade II No século XX, o maior incentivo para produzir a cana no Brasil veio com o programa Proálcool, instituído em 1975 como reação ao embargo do petróleo determinado pelos países produtores em 1973. A partir de então, observou‑se uma grande expansão da área cultivada, principalmente no estado de São Paulo, e do número de usinas. Houve também um substancial aumento na produtividade da cultura, de 55 ton/ha em 1971 para 72 ton/ha em 1981. O álcool é obtido por fermentação da sacarose contida no caldo de cana. O rendimento de álcool é de 60‑70 litros por tonelada de cana‑de‑açúcar. Em 1981, o Brasil produziu cerca de 3,7 bilhões de litros de etanol; em 1983‑1984, a produção elevou‑se para 7,8 bilhões de litros, a maior parte destinada ao consumo como combustível de automóveis, quer como álcool hidratado (consumo correspondente a 51% do total), quer como álcool anidro adicionado à gasolina (25% do total produzido). A partir de meados da década de 1990, observou‑se um gradual e forte declínio do preço internacional do petróleo. Com isso, ocorreu um desestímulo na produção do álcool e, consequentemente, uma séria crise no Proálcool. Em 1984 a maioria dos automóveis novos era movida a álcool, hoje observamos o inverso. O Brasil desenvolveu nas décadas de 1970‑1980 avançada tecnologia para produzir o etanol a partir da cana‑de‑açúcar, mantendo hoje uma liderança no setor e operando as refinarias mais eficientes do mundo. Sua utilização é ainda mais eficiente se o bagaço da cana passar a ser extensivamente aplicado como combustível para operar pequenas usinas geradoras de eletricidade movidas a vapor. Tais usinas poderiam gerar eletricidade suficiente para alimentar energeticamente a produção local de açúcar e álcool. O bagaço da cana vem sendo usado com essa finalidade, mas ainda em pequena escala e por poucos usineiros. Com a introdução do Proálcool, houve progressos consideráveis em vários aspectos do cultivo da cana‑de‑açúcar e da produção de etanol. Por exemplo, desenvolveram‑se projetos bem‑sucedidos para o controle biológico da cultura. Assim, as grandes usinas têm laboratórios que produzem o fungo Metarrhizium anisopliae, que controla a cigarrinha Mahanarva posticata. Também se utiliza a mosca Apanteles flavipes, que ataca lagartas do gênero Diatraea. A extração do caldo de cana evoluiu de uma eficiência de 88% antes do programa para 95% atualmente. O tempo de fermentação passou de 18‑24 h para 5‑8 h. A eficiência fermentativa evoluiu de 70‑80% para 88‑92%. A desvantagem da cana‑de‑açúcar como biomassa para produzir combustíveis é ela ser uma cultura exigente quanto a solo e clima. Ela prefere solos profundos, argilosos e de boa fertilidade, não sendo competitiva, por exemplo, nas condições do Cerrado, a não ser que se façam correções com calcário e fertilizantes. A cana exige também precipitações anuais mínimas de 1.200 mm e não tolera baixas temperaturas, essa é uma das razões pelas quais São Paulo é o principal produtor brasileiro, respondendo sozinho por cerca de 70% da produção do país. Devido a suas exigências, a opção pela cana‑de‑açúcar acaba se revestindo de um caráter perverso, pois ela compete com outras culturas, como as alimentícias, que deveriam em princípio merecer prioridade no planejamento agrícola de um país com uma população que tem um alto contingente de famílias subnutridas e famintas. 61 BOTÂNICA ECONÔMICA Observação Em alguns países, as condições climáticas não permitem que a cana‑de‑açúcar se desenvolva, por isso outras fontes potenciais de etanol são a beterraba (Beta vulgaris) e as culturas amiláceas, com destaque para o milho (Zea mays, Poaceae). A beterraba é uma fonte viável para os países europeus, que dependem dessa cultura para a obtenção de açúcar. O milho é uma opção interessante, sobretudo para os EUA, graças à gigantesca produção desse país. Outra espécie interessante para a produção de etanol seria a mandioca (Manihot esculenta) (figura 49), que representa uma opção para o Brasil como fonte amilácea para a produçãode etanol, mas ainda não vem sendo usada com esse objetivo. O país é um grande produtor desse tubérculo, e a mandioca não impõe tantas exigências para o cultivo como as da cana‑de‑açúcar. No entanto, não se dispõe ainda de tecnologia que permita à mandioca concorrer com a cana como matéria‑prima para a produção de etanol, principalmente porque, enquanto a cana fornece o caldo contendo sacarose, que pode ser imediatamente posto a fermentar; a mandioca fornece amido, que deve ser previamente hidrolisado para liberar açúcares, que serão fermentados depois. Figura 49 – Raízes da mandioca: potencial para uso como fonte amilácea e produção de etanol Vale a pena também mencionar como biomassa para a produção de etanol a madeira e os resíduos celulósicos vegetais, a exemplo do bagaço de cana. No caso desses resíduos, o álcool seria obtido por fermentação da glicose, que por sua vez seria proveniente de hidrólise da celulose da madeira. A obtenção da glicose pode ocorrer via enzimas (celulases, de fungos) ou por hidrólise ácida. Ainda não houve rendimentos que trouxessem alguma esperança de viabilizar tecnologicamente a potencialidade da 62 Unidade II madeira como matéria‑prima para a obtenção de etanol, que é considerado etanol de segunda geração quando produzido a partir da celulose. Assim, há uma mudança na forma de enxergar os subprodutos da cana‑de‑açúcar: a palha e o bagaço de cana, antes resíduos, agora passam por um novo tratamento, um processo altamente tecnológico de hidrólise e dupla fermentação que dá origem ao chamado de álcool de segunda geração. Figura 50 – Aspectos gerais do resíduo da cana‑de‑açúcar com potencial para gerar etanol a partir da celulose Disponível em: https://shre.ink/8v6c. Acesso em: 9 abr. 2024. Tem‑se pesquisado muito nos últimos 20 anos a possibilidade de conversão de plantas vasculares aquáticas em metano por meio de processos de digestão anaeróbica. As plantas que normalmente são usadas como biomassa para a conversão em combustível são aquelas que frequentemente se enquadram em uma ou ambas as condições. Elas representam problemas para as hidroelétricas, para a navegação e para outros organismos aquáticos, pois têm crescimento muito vigoroso, chegando às vezes a cobrir toda a superfície da água, impedindo a penetração da luz nos lagos. Também há as plantas que são cultivadas como parte do tratamento de águas de esgoto. No último caso, a energia obtida da planta poderia ser investida nos próprios processos de tratamento do esgoto, como nas etapas de aeração da água, importante para auxiliar na oxidação da matéria orgânica. Esses processos que utilizam biomassa representam um problema a várias atividades econômicas. Em outros casos, afetam o tratamento de águas residuais. Em ambos os casos, não temos os inconvenientes da cana‑de‑açúcar, uma cultura que compete com outras consideradas nobres, como as alimentícias ou as produtoras de fibras e madeiras. Uma planta que se enquadra nas condições referidas e que vem sendo investigada como fonte viável de biomassa para a produção de biogás é o aguapé (Eichhornia crassipes), provavelmente devido à altíssima produção que ele apresenta e aos sérios problemas que ele causa nos ambientes aquáticos artificiais ou perturbados. Em um dos experimentos realizados nos EUA, conseguiu‑se um rendimento de metano de 198 l/kg de peso seco de aguapé. 63 BOTÂNICA ECONÔMICA Existem grandes esforços para pesquisar plantas produtoras de substâncias líquidas e que gerem bons combustíveis com o objetivo de substituir os derivados de petróleo. Em geral, um combustível orgânico libera tanto mais energia por unidade de massa quanto mais rico ele for em ligações C‑H. Quanto mais oxigenado for o material, menor será o conteúdo de energia liberada na combustão. A gasolina e o querosene, por exemplo, são constituídos por misturas de hidrocarbonetos, ou seja, substâncias cujas moléculas apresentam apenas C e H. Assim, as plantas procuradas como fontes de combustíveis devem preferencialmente produzir grandes quantidades de hidrocarbonetos, embora não necessariamente tendo composições semelhantes às dos combustíveis fósseis. Vários autores fazem triagem de muitas plantas simultaneamente, seguindo uma sequência analítica que permite avaliar o conteúdo de fibras, proteínas, óleos (glicerídeos) e hidrocarbonetos (Souza; Lorenzi, 2019). Muitas plantas são grandes produtoras de glicerídeos. Esses produtos costumam ser acumulados em sementes, sob a forma de reserva energética para o embrião, especialmente as palmeiras e sementes oleaginoas. Propõe‑se o cultivo de algumas dessas plantas para produzir óleo, que poderia substituir o diesel, sobretudo para mover as máquinas agrícolas. Assim, as fazendas poderiam cultivar plantas energéticas, que seriam industrializadas em pequenas usinas locais para a produção de óleo, que seria então consumido na própria região, evitando o custo do transporte. O óleo de dendê (Elaeis guineensis) vem sendo usado em certas regiões da África como combustível sucedâneo do diesel (figura 51). Esse é um enorme campo para pesquisa, não apenas das potencialidades dos óleos como eventuais combustíveis, mas também como matéria‑prima para múltiplas aplicações na alimentação e na indústria. Figura 51 – Colheita dos frutos do dendê para a produção de biodiesel Disponível em: https://shre.ink/8v6a. Acesso em: 9 abr. 2024. 64 Unidade II 8.2 Outras aplicações para produtos de origem vegetal Várias são as aplicações para os produtos de origem vegetal além dos fins alimentícios e medicinais, mas alguns se destacam, como a madeira, a celulose, a fibra têxtil, o látex, a cera, a resina, as gomas etc. Entre as aplicações para os produtos vegetais, podemos destacar a produção de madeira. A exploração madeireira no Brasil é realizada em sua maioria a partir da extração de madeira em florestas nativas, com exceção para as plantações de pinus e eucaliptos. Essa forma de extração se concentrou durante muito tempo na Mata Atlântica e na Floresta Amazônica, reduzindo muitas espécies. Existe uma pressão internacional e de exigências legais para a definição de planos de manejo sustentável. Alguns exemplos desse tipo de exploração foi o que ocorreu com o jacarandá‑da‑bahia (Dalbergia nigra), uma Fabaceae, na Mata Atlântica, e o mogno (Swietenia macrophylla), uma Meliaceae, na região da Amazônia. A diminuição da exploração de madeiras nativas e a crescente demanda do mercado por recursos madeireiros levaram à formação de florestas de pinus (Pinus spp.), que também é explorado para a produção de resina; eucaliptos (Eucalyptus spp.); e mais recentemente a teca (Tectona grandis), a qual lidera a produção de madeira. Essas espécies citadas também são fonte de celulose, que no Brasil tem predomínio na exploração da celulose do eucalipto e do pinus (figura 52). Vale salientar que existem fontes potenciais para possível exploração econômica como fonte de celulose, tais como o sisal, o bagaço da cana‑de‑açúcar e as folhas de palmeiras. Figura 52 – Exploração de madeira para a exploração de celulose Disponível em: https://shre.ink/8v6n. Acesso em: 9 abr. 2024. 65 BOTÂNICA ECONÔMICA Várias espécies vegetais se evidenciam por ter fibras que podem ser utilizadas para produzir tecidos, vassouras, entre outros. O algodão é o maior destaque econômico para o país, pois as fibras do algodão são usadas na produção de tecidos com muito sucesso. O algodoeiro mais cultivado e de maior importância comercial é o herbáceo (Gossypium hirsutum), sendo amplamente cultivado na região do Centro‑Oeste brasileiro. Ele envolve uma enorme agroindústria, desde de seu plantio até o enfardamento e posterior produção de fios e tecidos (figura 53). Figura 53 – Frutos do algodão aplicados para a exploração das fibras usadas na produção de tecidos Disponível em: https://shre.ink/8v4J. Acesso em: 9 abr. 2024. Entre as outras aplicações para os vegetais, podemos acentuar as plantas fornecedoras de látex,como a seringueira (Hevea spp.), da família Euphorbiaceae, que é a espécie mais usada. A espécie é nativa da região amazônica brasileira. Já tivemos o Brasil como o maior produtor no mercado da borracha. Contudo, no século XIX, mudas da espécie foram levadas para Londres e depois para suas colônias. Assim, a espécie passou a ser cultivada com sucesso em outros países, sobretudo no Oriente, como na Malásia. Outro aspecto que causou a diminuição na produção da borracha em escala comercial no Brasil foi o surgimento de um fungo contaminante nas plantações da Amazônia brasileira, que provocou o fracasso no cultivo da seringueira. Outro produto de origem vegetal em destaque é a cera. A extração de cera de carnaúba (Copernicia prunifera) é a mais produtiva e importante, ela ocorre no Nordeste. Ela sempre foi usada para as seguintes finalidades: polimento, impermeabilização, como selador, fabricação de sabonete e batom. Todavia, o aparecimento de ceras sintéticas e mais baratas diminuiu o uso da cera de carnaúba, embora ainda exista sua exploração para fins específicos. 66 Unidade II Figura 54 – Folhas da carnaúba, espécie usada na exploração da cera das folhas Disponível em: https://shre.ink/8v4R. Acesso em: 9 abr. 2024. Diversas árvores produzem exsudatos do tronco conhecidos como bálsamos ou, em alguns casos, como gomas, no Brasil. Ressaltam‑se as espécies do gênero Protium, conhecidas por breu‑branco. Tais resinas são terpenos, que podem ser utilizados no preparo de tintas e vernizes ou como aromáticos em incensos. Também temos o oleorresina, exsudato com ácidos resinosos e compostos voláteis. Ele é extraído da copaíba (Copaifera sp.) e é muito usado como medicinal. A elevada diversidade vegetal brasileira e o clima tropical (que permite o cultivo de inúmeras espécies exóticas) tornam o Brasil riquíssimo em possibilidades de cultivo de plantas ornamentais e domesticação de plantas da nossa própria flora. Entre as espécies ornamentais brasileira, orquídeas, bromélias e aráceas se destacam pela beleza, resistência, diversidade de espécies e adaptabilidade. Podemos fazer uma reflexão a respeito da aplicação do conhecimento sobre a flora nativa na bioeconomia, em destaque nos dias atuais, como um modelo de produção baseado na utilização de matérias‑primas naturais renováveis e de origem não fóssil, como florestas, animais, plantas e até microrganismos, para o desenvolvimento, a produção e comercialização de bioprodutos e energia. 67 BOTÂNICA ECONÔMICA Observação Você sabia que pesquisadores pretendem estimar o potencial que o setor sucroalcooleiro apresenta para a produção de hidrogênio (H2) no país? A ideia é extrair o hidrogênio da biomassa que sobra da produção e do próprio etanol da cana‑de‑açúcar. Saiba mais Para se aprofundar no tema estudado, leia: GRUPO pretende mapear o potencial de produção de hidrogênio no setor sucroalcooleiro. Agência FAPESP, 22 nov. 2023. Disponível em: https://shre.ink/8ha2. Acesso em: 11 abr. 2024. 68 Unidade II Resumo Estudamos nesta unidade os aspectos das plantas alimentícias, com destaque para as Pancs. Elas podem ser consideradas alimentos de fontes sustentáveis e serem uma estratégia de valorização da biodiversidade, pois seu cultivo não causa impactos ao meio ambiente, o que reforça a ideia de conservação ambiental e sustentabilidade. Vimos que os vegetais são fontes energéticas. A obtenção de combustíveis a partir de biomassa vegetal é uma recomendação em todas as propostas com vistas a um desenvolvimento sustentável. Além de ser um recurso praticamente inesgotável e disponível em quase toda a superfície terrestre (o que não acontece com os combustíveis fósseis), a biomassa é um combustível muito menos poluente. Outra enorme vantagem da biomassa sobre os combustíveis fósseis é que a sua produção não compromete as condições atmosféricas, como aumentar a quantidade de CO2 e assim gerar o efeito estufa. Por fim, destacamos várias outras aplicações para os produtos de origem vegetal além dos fins alimentícios e medicinais, como a madeira, a celulose, a fibra têxtil, o látex, a cera, a resina e as gomas. 69 BOTÂNICA ECONÔMICA Exercícios Questão 1. Examine o quadro a seguir. Quadro 2 – Resumo das formas de preparo de Panc relatadas pelos informantes da comunidade rural de São José da Figueira, Durandé, Minas Gerais Preparo Modo de preparo Refogado Temperos como alho e cebola (ou outros) são fritos em uma panela com pouca gordura. Acrescente as folhas picadas ou rasgadas e refogue até que as folhas murchem In natura Indicado para frutos e sementes que são consumidos sem nenhuma forma de preparo Salada Folhas são lavadas, picadas e podem ser consumidas sem tempero ou temperadas com sal, vinagre, limão ou outros ingredientes Tempero Folhas e caules são lavados, picados e usados como temperos para carnes, legumes e saladas Suco Frutos, talos ou folhas são triturados no liquidificador com água e acrescidos de açúcar branco ou açúcar mascavo Pó Folhas ou sementes são lavadas, secas e torradas em panela de ferro ou levadas ao forno e depois são trituradas em pilão ou liquidificador até formarem um pó, sendo consumidas com as refeições, ou são diluídas em água Empanado Folhas lavadas e secas são mergulhadas em uma mistura para empanar (ovo batido acrescido de trigo, fubá ou farinha de mandioca e temperos) e depois são fritas em óleo quente Molho Frutos são lavados, retiradas as sementes e cozidos (com temperos variados) até que formem um molho encorpado. O molho é utilizado no preparo de massas e carnes Conserva Frutos são servidos por cerca de 30 minutos para retirar o amargor, adicionando‑se a salmoura de vinagre e água e temperos variados Doce Frutos são ralados e deixados de molho por cerca de 8 horas, trocando‑se a água a cada 2 horas. Prepara‑se a calda com água e açúcar e adicionam‑se os frutos ralados para cozimento TULER, A. C.; PEIXOTO, A. L.; SILVA, N. C. B. Plantas alimentícias não convencionais (Panc) na comunidade rural de São José da Figueira, Durandé, Minas Gerais, Brasil. Rodriguésia, v. 70, 2019. Disponível em: https://shre.ink/8KUW. Acesso em: 9 abr. 2024 (com adaptações). 70 Unidade II Com base nas informações do quadro e nos seus conhecimentos sobre plantas alimentícias não convencionais (Pancs), assinale a alternativa correta. A) A pouca aceitação das Pancs deve‑se à pequena variedade de espécies vegetais que servem a essa finalidade. B) Diferentes partes das Pancs, como frutos e raiz, podem ser usadas como fonte de alimento e nutrientes. C) Embora existam muitas espécies disponíveis, a falta de sabor e os limitados modos de preparo desestimulam os brasileiros a incluírem as Pancs em sua dieta. D) A denominação de Panc aplica‑se apenas às folhas dos vegetais. E) A maior vantagem do uso de Pancs é o fato de elas serem de fácil acesso, podendo ser encontradas em terrenos e jardins. Contudo, em termos nutricionais, elas são muito inferiores aos vegetais que já consumimos. Resposta correta: alternativa B. Análise das alternativas A) Alternativa incorreta. Justificativa: a lista de vegetais considerados Pancs cresce ano a ano, conforme novos estudos vão sendo realizados. B) Alternativa correta. Justificativa: a observação do quadro permite verificar que diversas partes das plantas são aproveitadas na alimentação e que existem tipos diferentes de preparo. C) Alternativa incorreta. Justificativa: a observação do quadro permite verificar que existem diversas maneiras diferentes de preparo para as Pancs. D) Alternativa incorreta. Justificativa: a observação do quadro permite verificar que diversas partes das plantas são aproveitadas na alimentação. E) Alternativa incorreta. Justificativa: a facilidade no acesso às Pancs deve ser somada ao teor nutritivo elevado, que se equipara ao das plantas convencionais que já fazem parte de nossa dieta. 71 BOTÂNICA ECONÔMICA Questão 2. Leia o texto a seguir. Desde o surgimento da espéciehumana, tanto os vegetais quanto o estudo e o seu conhecimento foram importantes para o homem de várias formas, recebendo diferentes classificações em diversas sociedades. De fato, a história da humanidade confunde‑se com a história do uso das plantas. A agricultura, por exemplo, iniciada há cerca de 11 mil anos, contribuiu para sobrevivência das populações humanas sedentárias. Autores apontam o amplo uso dos vegetais, que, além de servirem como alimento, são utilizados na cura de doenças, em festejos e em atos religiosos, sendo por isso considerados sagrados em muitas culturas. Embora pela etnobotânica e pela botânica econômica diversas plantas tenham seu uso classificado e explicitado, essas áreas revelaram, de forma fragmentada, apenas uma parte da utilização possível dos vegetais pelo ser humano, o que provavelmente está contribuindo para a cegueira botânica. CORRÊA, A. M.; ALVES, L. A.; ROCHA, J. A. Organizando os usos e funções dos vegetais: a etnobotânica auxiliando na prevenção e diminuição da Cegueira Botânica. Educação, v. 46, n. 1, p. 1‑26, 2021 (com adaptações). Considerando as informações apresentadas no texto e os seus conhecimentos, avalie as asserções e a relação proposta entre elas. I – O conhecimento dos vegetais como importantes fontes de alimento desenvolveu‑se durante a história da humanidade. porque II – Conforme as civilizações desenvolveram‑se, cresceu a percepção de que os vegetais não podem ser empregados de maneira eficiente em nenhuma outra finalidade, restando a eles a tarefa de alimentar nossos ancestrais, a geração atual e as futuras gerações. A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta. A) As asserções I e II são verdadeiras, e a asserção II justifica a I. B) As asserções I e II são verdadeiras, e a asserção II não justifica a I. C) A asserção I é verdadeira, e a II é falsa. D) A asserção I é falsa, e a II é verdadeira. E) As asserções I e II são falsas. Resposta correta: alternativa C. 72 Unidade II Análise das asserções I – Asserção verdadeira. Justificativa: o acompanhamento da história das diferentes civilizações ao redor do mundo permite compreender que a integração com a natureza trouxe os vegetais para a vida cotidiana, especialmente pela alimentação, mas também por outros caminhos. II – Asserção falsa. Justificativa: desde as épocas mais antigas, desenvolveu‑se a percepção de que os vegetais poderiam ser úteis de outras maneiras, além da alimentação, como no fornecimento de energia e em construções. 73 REFERÊNCIAS Textuais BARBIERI, R. L.; STUMPF, E. R. T. Origem e evolução de plantas cultivadas. Brasília: Embrapa, 2008. BELLWOOD, P. First farmers: the origins of agricultural societies. Malden: Blackwell, 2005. BROWN, T. A. et al. The complex origin of domesticated crops in the fertile crescent. Trends in Ecology & Evolution, v. 24, p. 103‑109, 2009. GRUPO pretende mapear o potencial de produção de hidrogênio no setor sucroalcooleiro. Agência FAPESP, 22 nov. 2023. Disponível em: https://shre.ink/8ha2. Acesso em: 11 abr. 2024. GUIMARÃES, M. Os primeiros agricultores na Amazônia. Pesquisa FAPESP, 11 out. 2023. Disponível em: https://shre.ink/8KmK. Acesso em: 9 abr. 2024. IBGE. PEVS: produção da extração vegetal e da silvicultura. Rio de Janeiro: IBGE, 2002. KINUPP, V. F.; LORENZI, H. Plantas alimentícias não convencionais (Panc) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas. Nova Odessa: Instituto Plantarum, 2014. LEWINGTON, A. Plants for people. London: Eden Project Books, 2003. QUEIROZ, C. Panc na dieta dos brasileiros. Pesquisa FAPESP, ed. 320, out. 2022. Disponível em: https://shre.ink/8uP7. Acesso em: 11 abr. 2024. RIZZINI, C. T.; MORS, W. B. Botânica econômica brasileira. Rio de Janeiro: Âmbito Cultural, 1995. SANTOS, R. D. et al. I Diretriz sobre o consumo de gorduras e saúde cardiovascular. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 100, n. 1, Supl. 3, p. 1‑40, jan. 2013. Disponível em: https://shre.ink/8uHf. Acesso em: 10 abr. 2024. SIMPSON, B. B.; OGORZALY, M. C. Economic botany: plants in our world. 3. ed. New York: McGraw‑Hill, 2001. SOUZA, V. C.; LORENZI, H. S. Botânica sistemática: guia ilustrado para identificação das famílias de fanerógamas nativas e exóticas no Brasil, baseado em APG IV. São Paulo: Instituto Plantarum, 2019. 74 Informações: www.sepi.unip.br ou 0800 010 9000