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ENSINO DE GEOGRAFIA NA EJA E SUAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS TOMITA, Luzia M. S. – ESAP luziatomita@usp.br Eixo Temático: Didática: Teorias, Metodologias e Práticas Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo O presente artigo pretende discutir sobre as bases fundamentais do estudo de representações sociais e destacar a sua importância para um novo olhar e desempenho de uma estratégia de aprendizagem no ensino da disciplina Geografia na EJA – Educação para Jovens e Adultos. Colocou-se em ênfase a questão da EJA evidenciando a dificuldade no acompanhamento do processo de aprendizagem em função de vários fatores, dentre eles a canseira provinda do trabalho do decorrer do dia, o tempo perdido na sequência regular de estudo, o preconceito, o desânimo e a falta de adequação da metodologia no ensino destinado à clientela de jovens e adultos com perfis e expectativas diferenciadas. Para a compreensão dessa realidade enfatizou, neste trabalho, a importância do estudo das representações sociais na prática de ensino, em especial na disciplina de Geografia recorrendo à leitura de autores em Geografia que demonstram a pertinência dessa teoria na prática. Essa pesquisa partiu do interesse em refletir sobre como o ensino na EJA vem sendo conduzido e como a aprendizagem está sendo concebido nesse universo escolar. Apoiou-se para isso no estudo de representações sociais que no processo de ensino-aprendizagem revelam toda sua importância pela propriedade peculiar em tratar de senso comum que, ao se construir coletivamente, influenciam nossas práticas sociais. Nesse sentido, realizou-se a pesquisa com professores atuantes da EJA para, a partir da coleta de informações, identificar as representações que servirão como meio norteador de processo de aprendizagem. As representações provindas de falas de professores demonstram a importância e a necessidade de um trabalho efetivo diferenciado, que servirão como suporte para o alcance de êxito na realização de tarefas educativas. Palavras-chave: Ensino de Geografia. EJA. Representações Sociais. Introdução O presente estudo é fruto da reflexão da leitura de mundo, tendo como ponto inicial, a necessidade de compreender que, inserido no quadro de um processo histórico e em resposta as novas demandas da educação, despontam escolas com uma nova característica que, requer um novo perfil do professor. Para atender esse quadro, mister se faz buscar apoio nas ciências 749 humanas, sociais econômicas e nas novas tecnologias para compreender o mundo atual. Aliada essa leitura à compreensão do mundo do trabalho, novas modalidades de ensino são propostas, entre elas, a EJA- Educação para Jovens e adultos que se destina aos jovens e adultos. A partir dessa reflexão desenvolveu-se o presente estudo somado à vivência e constatação das dificuldades de naturezas diversas enfrentadas pelos professores atuantes nos cursos de EJA para promoção de atividade para aprendizagem. A justificativa de se buscar uma reflexão sobre o ensino de Geografia na EJA através de representações sociais está justamente na compreensão da possibilidade de uma ponte para uma melhor leitura do universo escolar desta modalidade. Em virtude das peculiaridades das ciências sociais, percebe-se que existe um forte vínculo na análise e interpretação dos fatos, com base em representações sociais que, permitirão desenvolver um novo traçado com metodologia diferenciada adequada à realidade deste ensino. O trabalho será desenvolvido, iniciando com uma reflexão sobre a importância e os laços das representações sociais no ensino, especialmente no de Geografia na EJA. Em seguida, coloca-se uma breve discussão a respeito da EJA e, finalmente, o relato revelador das representações sociais provindas deste universo de ensino que servirão como indicador de reflexão para uma nova proposta para a efetivação do ensino. O ensino no contexto escolar A discussão acerca do ensino é um convite para um mergulho na condição em que se encontra a escola na atualidade. Alonso (1999) comenta que a situação das escolas em que os professores, os alunos, os diretores, os administradores e, também os pais revelam inquietudes e vivem as tensões provocadas pelas mudanças que vem ocorrendo aceleradamente no mundo atual. Como fruto deste evento, de um lado depara-se com a perplexidade e a instabilidade, por outro, abre-se a oportunidade para a reflexão crítica e consciente decorrentes de diferentes fatos, eventos e inúmeras situações que atraem não só os cientistas, mas toda comunidade do ambiente escolar, através de seu ensino e de pesquisa. Nesse ensejo, ressalta-se a importância de considerar que o aluno, sujeito de sua aprendizagem, traz consigo um referencial de conceitos, explicações e da produção embasada no seu histórico. Essa bagagem é o ponto fundamental em que a escola precisa apoiar propiciando aos professores, meios e recursos para possibilitar a aprendizagem significativa 750 (AUSUBEL,1980) para promover uma articulação entre os saberes provindos de senso comum das experiências do cotidiano, para torná-lo científico, em ambiente escolar através da transposição didática (CHEVALLAR, 1991). Entende-se que ensinar é criar condições para que os alunos desenvolvam as possibilidades básicas de domínio das diversas situações para aprender a fazer, aprender a aprender a enfrentar problemas de várias naturezas. Apesar do papel relevante da educação escolar como promotora de aprendizagem, é fundamental que considere a atuação do aluno inserido no contexto histórico e social da atualidade. Na escola, mesmo diante de um grande empenho e por mais rica seja a experiência escolar, percebe-se, nitidamente, a distancia existente na teoria e prática, ante a todas as expectativas que o aluno enfrentará fora dela. Portanto, é fundamental que no ambiente escolar haja maior reflexão e empenho para preparar os alunos para a vida. Para isso é desejável que se promova um ensino contemplando metodologias com atividades mais dinâmicas e diversificadas para promover a aprendizagem significativa. Por conseguinte, a escola não pode servir apenas como transmissor de conhecimento de repasse do conteúdo. Esse discernimento deve-se atrelar à compreensão da dinâmica do mundo atual em que qualquer conteúdo sofre a defasagem em tempo muito rápido. Dessa constatação, o papel da escola vai além da tarefa de produção de conhecimento científico, mas deve-se aliar ao empenho de acompanhar e promover o crescimento pessoal partindo da propriedade de aprender e ler o mundo conforme propõem inúmeros autores, como, Freire (1996); Callai (2000); Castrogiovanni(2005); Santos(2004); Straforini(2004) e outros. Freire (1996) chama a atenção para que a forma de se ensinar mude para atender as novas exigências sociais e exalta como uma das qualidades essenciais de um educador, a capacidade de acreditar e confiar em si mesmo. Ressalte-se que não existe apenas um modelo de formação de docente, mas modelos que se adapta às diferenças diante da realidade de cada sociedade. Ao mesmo tempo, é primordial respeitar as contradições existentes e traçar rumos para um consenso coerente entre atores atuantes no palco da realidade de cada universo escolar. Representações sociais e o Ensino de Geografia Partindo do pressuposto que o ato de ensinar não pode ser apenas de repasse do conhecimento através da explanação de um rol de conteúdos, mas como uma prática social 751 respeitando as contradições existentes para construir consensos entre alunos, professores, escola e políticas públicas condizentes à realidade de cada universo escolar. Nesse sentido, a teoria das representações sociais que tem relação com suas representações cotidianas do ambiente escolar, tem se revelado caráter de extrema importância ao abarcar uma gama de informações com diferentes fenômenos pertinentesa esse campo. Para Moscovici (2003, p.56-57), as representações sociais são produtos da atividade humana, fruto da dinâmica do contexto histórico em meio as mais amplas dimensões de saberes – “representar uma coisa não é, com efeito, simplesmente duplicá-la, modificar-lhe o texto. A comunicação que se estabelece entre o conceito e a percepção, um penetrando no outro, transformando a substância concreta comum, cria a impressão de realismo”. O autor ressalta que para estudar as representações sociais, é indispensável conhecer as condições em que os indivíduos estão inseridos mediantes a realização de uma cuidadosa análise contextual e espacial. A representação social criada por professores e alunos da EJA a respeito da Geografia escolar é trazida do senso comum, através das quais realidades sociais são interpretadas e construídas. São as representações sociais que acontecem de forma análoga em todas as ocasiões e lugares onde as pessoas se encontram informalmente. Podem ser manifestadas através dos textos, sentimentos e comportamentos. É necessário que as representações sejam analisadas a partir da compreensão de condutas em família, na escola, nas ruas e demais lugares. Nesse sentido, pode-se considerar como formas de conhecimento que se manifestam como elementos que contribuem para a construção de uma realidade comum, possibilitando a comunicação entre os indivíduos. Para Moscovici (1978, p.77) a representação é produzida na coletividade, por isso, ela é social. “a representação contribui exclusivamente para os processos de formação de condutas e orientação das comunicações sociais”. Significa que além de representar objetos, abre leque que possibilita um novo repensar com um novo experimento para aplicar à nossa maneira, em nosso contexto e nos permite explicar o mundo que nos cerca. Por essa razão, as representações acerca da aprendizagem irão orientar as práticas com os alunos. Dentre inúmeros autores nos estudos ambientais destaca-se Reigota (2007, p.11) que argumenta que paisagem, sociedade território e natureza são considerados conceitos científicos, já que, na Geografia são “definidos, compreendidos e ensinados da mesma forma 752 pela comunidade científica internacional, caracterizando um consenso em relação a um determinado conhecimento”. As representações sociais para esse mesmo autor estão basicamente relacionadas com as pessoas que atuam fora da comunidade científica, a forma que foram apreendidos e internalizados pelas pessoas. A valorização das representações sociais na área da educação e de ensino de Geografia significa mais uma contribuição nos métodos de pesquisa desses campos de estudo e pode ser considerada ingrediente indispensávei para a melhor compreensão dessa sociedade. Inúmeros estudiosos geógrafos, dentre eles Cavalcanti (1998), Pontushka (2000) trabalharam com as representações sociais destacando a importância delas no entendimento de um coletivo e da sociedade. Cavalcanti (1998, p.30) apoiada em Moscovici (1994,p.31), afirma que representações sociais “são sistemas de preconcepções, imagens e valores que têm seu significado cultural próprio e persistem independentemente das experiências individuais”. Acrescenta, ainda que “[...] elas são sociais na media em que possibilitam a produção de certos processos claramente sociais, como a comunicação e a conversação; elas são sociais porque são coletivas, isto é, porque são compartilhadas por conjuntos de pessoas [...]”. A autora buscou em estudo das representações sociais que tem como suporte a vida cotidiana, considerando que “a geografia trabalha com conceitos que fazem parte da vida cotidiana das pessoas e em geral elas possuem representações sobre tais conceitos”. Reforça ainda que “[...] permite a convicção de que o estudo do conteúdo das representações dos alunos sobre Geografia é um caminho para melhor conhecer o mundo vivido dos alunos, suas concepções e seu processo de construção de conhecimento” (ibid, p.32-33) Baseado nesses argumentos, Cavalcanti realizou a pesquisa com estudo de representações sociais que culminou na primeira publicação em 1998 em que se buscou os dados de alunos quanto às representações de idades, estrutura da família, da renda familiar, das profissões, da disponibilidade aparelhos audiovisuais, atividades de lazer e graus de escolaridade. Por fim, buscou a informação quanto às preferências das matérias e canalizou para as informações se gostam ou não da matéria de Geografia e acrescentou com os dados de observações informais. A partir desses dados buscou as informações, dos alunos, a respeito dos conceitos-chave da geografia: espaço, lugar, paisagem e território. As práticas e o discurso presentes nas disciplinas escolares, inclusive a Geografia escolar carrega uma carga de papel ideológico. É notório conceber que não é possível a 753 neutralidade científica. Percebe-se que na escola e também nessa disciplina prevalece a atitude de dominação e a reprodução, conforme Bourdieu (1982). Por essa razão, é freqüente deparar com as lutas concretas dos educadores conclamando pela melhoria do ensino em geral. A colocação desses fatos justifica a preciosidade em trabalhar com representações sociais para obter informações que facilita compreender o universo de ensino, em especial o do campo de estudo. Nesse exercício, releva-se a importância em analisar os manuais didáticos, especialmente os de ensino de Geografia que, frequentemente, retratam uma realidade estereotipada, distante da realidade social e cultural do cotidiano dos alunos. Os manuais tradicionais, ao longo do tempo, tratou o espaço como fruto das relações entre o homem e a natureza de forma fragmentada. Os estudos críticos e consistentes têm trazido para os dias atuais, a nova leitura em que Castrogiovanni (2005, p.12) argumenta que “[...] o espaço é tudo e todos; compreende todas as estruturas e forma de organização e interações. E, portanto, compreensão da formação dos grupos sociais, a diversidade social e cultural, assim como apropriação da natureza por parte dos homens". Por essa razão, no repasse do conteúdo geográfico é preciso relevar os conhecimentos construídos culturalmente abordando o cotidiano da sala de aula. Dessa preocupação, vale-se do argumento de Callai (2000, p.93) que o conteúdo da Geografia, neste contexto, é o material necessário para que o aluno construa o seu conhecimento, aprenda a pensar. Aprender a pensar significa elaborar, a partir do senso comum, do conhecimento produzido pela humanidade e do confronto com outros saberes (do professor, de outros interlocutores), o seu conhecimento. Este conhecimento, partindo dos conteúdos da Geografia, significa uma consciência espacial das coisas, dos fenômenos, das relações sociais que travam no mundo. Nesse sentido reforça-se que a Geografia, ao tratar sobre a questão pertinente a organização espacial revela-se uma ciência fundamental para o entendimento das questões sociais. Para tanto, é válida uma abordagem interdisciplinar envolvendo contribuições dos mais variados saberes. Nessa trajetória, mister se faz entrelaçar o saber geográfico e o fazer pedagógico desvelando o cotidiano a partir das necessidades e interesses dos alunos para melhor conhecer suas representações. Ao caracterizar o lugar, o aluno é possível compreender as relações entre os diferentes fenômenos que, muitas vezes, não se limitam somente ao ambiente em que vivem, mas fazem 754 parte de um espaço maior, ou seja, deve considerar outras escalas espaciais permitindo decodificar a realidade sob o olhar espacial. Para Pontuschka (2000), os professores em geral e o de geografia em particular, precisam ter como ponto de partida as representações e os saberes que os alunos trazem para o espaço escolar. Não pode haver um vácuo entre o saber escolar - fundamentado nas teorias e metodologiasoriginárias da academia – e as múltiplas representações sociais que os jovens construíram no caminhar de sua existência. O aluno vive o espaço geográfico de diferentes maneiras, em diferentes lugares, mas muitas vezes não tem consciência desse espaço e de suas contradições. O papel do professor é o de despertar essa primeira consciência, permitindo que o aluno tenha voz sobre os vários objetos de estudo e estimulando o surgimento de novas ideias, na tentativa de conhecer raízes das representações sociais que podem. O estudo das representações sociais assume como ponto de partida para uma Geografia que vê o reforço no Certau (1994) em seu estudo sobre o cotidiano. A Geografia buscou nesse filão o enfoque no nosso dia-a-dia no seu modo de ser, fazer e viver, por onde os estudiosos a exemplo de Callai (2000), Castrogiovanni (1998; 2003), Kaercher (2003), Cavalcanti (1998) Castellar (2005) e outros, recomendam relevar essa prática no ensino de Geografia visando contribuir para o entendimento e intervenção na realidade concreta, construída e re-construída pelos sujeitos históricos. Em relação à representação social do ensinar geografia nas séries inicias encontramos a fundamentação teórica de Abric (2000, p. 27-18) denominado de teoria do núcleo central: [...] a representação social constitui um universo de opiniões e de crenças organizadas em torno de uma significação central em relação a um objeto determinado, tendo a estrutura interna de uma representação social como principal característica o fato de ser organizada em torno de um núcleo central. Este núcleo é o elemento ou conjunto de elementos que permite à representação social a sua significação e coerência. Gerador da significação da representação social, o núcleo central é visto em relação aos outros elementos presentes no campo da representação, sendo estes interpretados e avaliados. O núcleo central tem assim uma função importante como elemento gerador, organizador e estabilizador da representação social. Em busca da leitura da EJA 755 As mudanças ocorridas na sociedade atual impõem a necessidade de uma mudança de procedimentos urgentes de nossas escolas e de educadores, no sentido de promover a formação de cidadãos pensantes, críticos, criativos, conscientes e participativos para desafiar a complexidade pela qual passa o mundo atual. Isso carece de uma garantia de um ensino incrementando novas modalidades de ensino que estejam adequadas à nossa época para nos conduzir a algumas reflexões, dentre elas a que se destinam aos jovens e adultos. Assim, a EJA é uma modalidade de ensino público no Brasil que visa oferecer uma educação de qualidade para as pessoas que, por mais variados motivos, não tiveram a oportunidade de estudar na idade que seria destinada para este fim. É uma modalidade da educação que possibilita ao indivíduo jovem e adulto regularizar o seu histórico escolar, ao mesmo tempo em que oportuniza retomar seu potencial para desenvolver suas habilidades e competências acumuladas na vida extra-escolar e na experiência da vida. É uma modalidade de ensino em que se revela importância de imensurável envergadura que ganha uma grande dimensão de responsabilidade social e educacional em que recai um peso sobre os professores e administradores de ensino no seu papel de cumprimento da nobre missão, através de um eficaz planejamento e de sua execução no processo de mediar o desenvolvimento pessoal e da produção de conhecimento. Nessa investida, é de salutar importância relevar a condição que o aluno chega à vida escolar. Resende (1986) descreve o perfil dos alunos que chegam a EJA e reforça que eles chegam dotados de uma grande carga de experiência de vida e merece o estímulo e consideração no percurso de ensino. A autora expõe vários relatos de experiência desses alunos jovens e adultos que chegam à sala de aula depois de um dia de trabalho que alicerça a economia doméstica revelando uma atitude de um grande desafio. Por essa razão, há que adequar a metodologia, diferenciando da empregada nos cursos diurnos ou regulares. É importante o professor da EJA observar e considerar a situação de cada aluno, identificando o seu potencial para a melhor realização de aprendizagem. Nessa realização, é fundamental que a relação professor-aluno ocorra de forma harmônica, estabelecendo muito diálogo para melhor organizar, visando facilitar assimilação dos conteúdos trabalhados. É necessário ter muita responsabilidade e dedicação para evitar a evasão dos alunos. Ressalte-se que, além do empenho da escola, é preciso que a sociedade compreenda que alunos de EJA deparam com problemas como preconceito, vergonha, discriminação, 756 críticas dentre tantos outros. Diluir esses problemas não só cabe aos professores, mas ao conjunto pertencente ao universo escolar como a direção, equipe pedagógica, funcionários envolvidos no processo e de um novo olhar e novas reflexões dos políticos e pesquisadores. Representações: o que dizem da/na EJA Essa pesquisa partiu do interesse em refletir sobre como o ensino na EJA vem sendo conduzido e como a aprendizagem está sendo concebido nesse universo escolar. Apoiou-se para isso no estudo de representações sociais que no processo de ensino-aprendizagem revelam toda sua importância pela propriedade peculiar em tratar de senso comum que, ao se construir coletivamente, influenciam nossas práticas sociais. Buscou-se as representações sociais dos professores da EJA por entender que esse processo, de acordo com as palavras de Abric (1998, p.28), “a representação funciona como um sistema de interpretação da realidade que rege as relações dos indivíduos com seu meio físico e social, ela vai determinar seus comportamentos e suas práticas”. Acredita-se que a partir das representações acerca da aprendizagem, novas orientações poderão despontar para orientar as práticas com os alunos da EJA. Com base nos pressupostos das representações sociais, foi realizado um levantamento com 37 alunos cursandos de pós-graduação no Ensino de EJA, no município de Cascavel-PR. Na coleta foi utilizado como instrumento a aplicação de questões para serem respondidos utilizando-se de identificação fictícia, para afastar qualquer constrangimento no fornecimento de dados. Como técnica complementar foi utilizada a observação e diálogo por acreditar que pelo fato de estar em contato com a realidade dos sujeitos de pesquisa, qualquer informação seria relevante para este estudo para assim, constatar as representações sociais acerca da aprendizagem em Geografia dos alunos da EJA. Nesse procedimento, deu-se ênfase para a compreensão do espaço escolar para fazer deste, um instrumento primordial para o ensino de Geografia como forma de promover a orientação do aluno à leitura e compreensão do mundo, a partir do seu espaço imediato, para nele se inserir e, assim promover uma aprendizagem com base concreta de relação entre a teoria e a prática. Baseada nessa ideia, buscou-se a representação de que leitura fazem os professores da EJA. A coleta de informação foi conduzida por quatro perguntas, cujas respostas são dispostas por ordem de maior freqüência: 757 1) Que tipo de queixa é mais freqüente entre os alunos da EJA? - transmissão ativa do professor e passividade dos alunos; - professores desmotivados, sem preparo que visavam só salário; - conteúdos mal ministrados e cobrados para decorar; - perseguição e falta de arbitrariedade do professor; - dúvida da capacidade do aluno; - preconceito e discriminação por parte dos colegas e professores; - avaliação duvidosa 2) Que tipo de professor pretende ser para atuar na EJA? - ser dedicada, responsável, atualizada e disposta a aprender; - envolver com a verdadeira aprendizagem; - valorizar o conhecimento do aluno; - ser renovador e disposto a mudar - variar metodologia e avaliar bem - ser justa,criativo e fazer valer para a vida; - transformar o conhecimento aluno em conhecimento científico; 3) Mencione 6 conceitos que lembram a aula de Geografia do seu período escolar - relevo, planaltos, planícies, rios, montanhas - mapas; (desenhar mapas) - cidades, países, capitais; - clima; - latitude, longitude; - florestas, matas; - mares / oceanos; - população (número e etnia) 4) Quais comentários mais freqüentes que circulam no ambiente escolar da EJA 758 - até chegar onde estou sofri decepções com professores que não estavam preparados, sem conteúdos consistentes, sem vontade de trabalhar e lutar pelo ensino de qualidade. - hoje tendo consciência me revolto e procuro atrás do tempo perdido; - com aula em que a professora só fala e fala, a gente acaba dormindo; - o que deixou triste na vida escolar era que a professora não explicava o conteúdo, ela apenas lia a apostila. E depois nos fazia decorar as perguntas e respostas para a prova. Por isso nunca gostei de Geografia; - o que mais me decepcionou foi quando errei alguns exercícios e a professora me chamou de tapada. Eu não sabia o significado da palavra e fui zombada pelos colegas; - não estou na escola para brincar, eu quero aprender para melhorar na vida; - o que mais me decepcionou na vida escolar foram as contradições do ensino,ou seja, o corpo docente ensinava na teoria, ele próprio não se comprometia na prática. E outra questão foi a indiferença por parte de professores e equipe pedagógica para com as críticas e sugestões dos educandos em relação aos diferentes assuntos na escola; - eu não gostava de estudar, mas a professora usou metodologia diferenciada e me fez ver com outros olhos e acabei gostando de estudar; - a disposição da professora me agradou e me ajudou aprender; - desejo de uma escola que ensinasse conteúdos em que os alunos percebessem a utilidade dele em sua vida e professores que encaram dar aula como um dom e não como somente um trabalho; - que seja uma escola comprometida com o ensino e aprendizado do aluno, e que esta escola trate todos com igualdade sem excluir ninguém independente de cor, raça, cultura, pobre ou rico. Na coleta de dados informais em busca da representação no que concerne o procedimento de ensino da EJA foi solicitado aos professores para enumerar, num painel fixado na parede, principais problemas encontrados na EJA e em seguida a lista referente ao ideal e desejado, descrito a seguir: 759 Foram listados como principais problemas para a EJA: falta de materiais; diversidade etária e cultural; trabalhadores cansados; reprovação e desistência; defasagem, dificuldade e insegurança; moradia longe; baixo auto-estima; alunos tímidos; resistência dos alunos / professores; evasão; interesse pelo diploma. Em relação ao que seria ideal e ao seria o desejado para a EJA: capacitação específica do professor; professor fixo; espaço físico adequado; educadores motivados; suprir a resistência dos alunos; mais recursos financeiros; muito diálogo; discussão para a adequação da política da EJA; adequar à realidade; resgatar auto-estima; adequar carga horária; metodologia diferenciada; preparar para o mundo; mais investimento; espaço para opinião; objetivos claros com perspectivas positivas; classes menos numerosas. Discussão e comentários Analisando as falas, pode-se afirmar que, apesar do grande avanço, o ensino de Geografia, precisa ir além da informação, transmissão de conteúdos e troca de materiais e manuais didático-pedagógicos. As falas retratam o que Callai (2000), Castrogiovanni (2005), Castellar (2005) alegam que os procedimentos tradicionais não enfatizam a compreensão do saber geográfico historicamente acumulado, dificultando a visão da Geografia real, vivenciada no seu cotidiano e tão necessária para melhorar as relações entre o homem e a natureza. O profissional de Geografia precisa partir de análises críticas, com olhar crítico, frente aos conteúdos, conceituações e definições apresentados nos materiais de apoio ao ensino. Ressalte-se que, os conteúdos trabalhados nos cursos da EJA são necessários para o reconhecimento e organização dessa área acadêmica, mas não basta dominar conceitos teóricos, é preciso refletir sobre as concepções pedagógicas que perpassam a relação teoria e prática, revendo a didática e metodologia que instrumentalizem esses trabalhadores para o exercício da profissão. Os dados aqui coletados revelam que para o ensino da EJA não se trata apenas de aplicar modelos pré-estabelecidos, mas possibilitar formas para que os profissionais experimentem novas metodologias e ensino, que venham ao encontro das necessidades concretas dos alunos que favoreça a produção dos saberes reais. Resende (1986) reforça que trata-se da necessidade de um repensar entre o que e como se ensina para os alunos da EJA. A 760 efetivação da proposta perpassa pelo reconhecimento que, dentre inúmeros caminhos, o apelo ao estudo de representações sociais, aponta como um rico instrumento norteador para a adoção de uma metodologia diferenciada, adequada à realidade deste universo escolar. O professor demonstra sua preocupação em relação à aprendizagem com o aluno, existe fala acerca do importante trabalho realizado na escola em relação à realização, porém não descarta a defasagem e dificuldade na prática. Percebem–se lacunas na precariedade da escolarização desses alunos ao lado da adequação do procedimento pelo professor. Portanto, a discussão é longa e de extrema importância. Cabe enfatizar que ensinar, segundo Vlach (1990) é, antes de mais nada, o trabalho do aluno com o saber sob a mediação do professor. O ensino de Geografia possibilita ao aluno a compreensão da realidade, entendendo que esta é uma construção social sobre a natureza, uma construção internamente diferenciada. Considerações A partir do estudo, pode-se traçar uma nova reflexão para que, na prática, o papel da escola e dos professores não se restrinja somente a um espaço em que movimenta apenas atividades ligadas ao ensino e aprendizagem dos alunos. É preciso mergulhar em uma reflexão maior sobre a EJA, acreditando que, mesmo apresentando limitações de tempo para estudar e outros fatores, são alunos dotados de muita força de vontade com um potencial para aprender. Para tanto, merece um empenho especial em além de adotar uma metodologia diferenciada no ensino, procurar entender a condição em que os alunos chegam às escolas. As representações provindas de falas de professores demonstram a importância e a necessidade de um trabalho efetivo diferenciado, que servirão como suporte para o alcance de êxito na realização de tarefas educativas. Em outras palavras significa, possibilidade para encontrar medidas que possam dinamizar o processo educativo voltado para o ensino na EJA. Nesse processo, o mais importante é acreditar no trabalho efetivo do professor e da vontade e capacidade em aprender dos alunos para a investida no processo de aprendizagem. Assim, espera-se que este estudo possa proporcionar reflexões importantes que venham impulsionar a prática motivadora para o exercício dos professores e contribuir para o processo de escolarização dos alunos da EJA. 761 REFERÊNCIAS ABRIC, J.C. A abordagem estrutural das representações sociais. 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