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ENSINO DE GEOGRAFIA NA EJA E 
SUAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS 
 
TOMITA, Luzia M. S. – ESAP 
luziatomita@usp.br 
 
 
Eixo Temático: Didática: Teorias, Metodologias e Práticas 
Agência Financiadora: não contou com financiamento 
 
Resumo 
 
O presente artigo pretende discutir sobre as bases fundamentais do estudo de representações 
sociais e destacar a sua importância para um novo olhar e desempenho de uma estratégia de 
aprendizagem no ensino da disciplina Geografia na EJA – Educação para Jovens e Adultos. 
Colocou-se em ênfase a questão da EJA evidenciando a dificuldade no acompanhamento do 
processo de aprendizagem em função de vários fatores, dentre eles a canseira provinda do 
trabalho do decorrer do dia, o tempo perdido na sequência regular de estudo, o preconceito, o 
desânimo e a falta de adequação da metodologia no ensino destinado à clientela de jovens e 
adultos com perfis e expectativas diferenciadas. Para a compreensão dessa realidade 
enfatizou, neste trabalho, a importância do estudo das representações sociais na prática de 
ensino, em especial na disciplina de Geografia recorrendo à leitura de autores em Geografia 
que demonstram a pertinência dessa teoria na prática. Essa pesquisa partiu do interesse em 
refletir sobre como o ensino na EJA vem sendo conduzido e como a aprendizagem está sendo 
concebido nesse universo escolar. Apoiou-se para isso no estudo de representações sociais 
que no processo de ensino-aprendizagem revelam toda sua importância pela propriedade 
peculiar em tratar de senso comum que, ao se construir coletivamente, influenciam nossas 
práticas sociais. Nesse sentido, realizou-se a pesquisa com professores atuantes da EJA para, a 
partir da coleta de informações, identificar as representações que servirão como meio 
norteador de processo de aprendizagem. As representações provindas de falas de professores 
demonstram a importância e a necessidade de um trabalho efetivo diferenciado, que servirão 
como suporte para o alcance de êxito na realização de tarefas educativas. 
 
Palavras-chave: Ensino de Geografia. EJA. Representações Sociais. 
Introdução 
O presente estudo é fruto da reflexão da leitura de mundo, tendo como ponto inicial, a 
necessidade de compreender que, inserido no quadro de um processo histórico e em resposta 
as novas demandas da educação, despontam escolas com uma nova característica que, requer 
um novo perfil do professor. Para atender esse quadro, mister se faz buscar apoio nas ciências 
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humanas, sociais econômicas e nas novas tecnologias para compreender o mundo atual. 
Aliada essa leitura à compreensão do mundo do trabalho, novas modalidades de ensino são 
propostas, entre elas, a EJA- Educação para Jovens e adultos que se destina aos jovens e 
adultos. 
A partir dessa reflexão desenvolveu-se o presente estudo somado à vivência e 
constatação das dificuldades de naturezas diversas enfrentadas pelos professores atuantes nos 
cursos de EJA para promoção de atividade para aprendizagem. A justificativa de se buscar 
uma reflexão sobre o ensino de Geografia na EJA através de representações sociais está 
justamente na compreensão da possibilidade de uma ponte para uma melhor leitura do 
universo escolar desta modalidade. Em virtude das peculiaridades das ciências sociais, 
percebe-se que existe um forte vínculo na análise e interpretação dos fatos, com base em 
representações sociais que, permitirão desenvolver um novo traçado com metodologia 
diferenciada adequada à realidade deste ensino. O trabalho será desenvolvido, iniciando com 
uma reflexão sobre a importância e os laços das representações sociais no ensino, 
especialmente no de Geografia na EJA. Em seguida, coloca-se uma breve discussão a respeito 
da EJA e, finalmente, o relato revelador das representações sociais provindas deste universo 
de ensino que servirão como indicador de reflexão para uma nova proposta para a efetivação 
do ensino. 
 
O ensino no contexto escolar 
 
A discussão acerca do ensino é um convite para um mergulho na condição em que se 
encontra a escola na atualidade. Alonso (1999) comenta que a situação das escolas em que os 
professores, os alunos, os diretores, os administradores e, também os pais revelam inquietudes 
e vivem as tensões provocadas pelas mudanças que vem ocorrendo aceleradamente no mundo 
atual. Como fruto deste evento, de um lado depara-se com a perplexidade e a instabilidade, 
por outro, abre-se a oportunidade para a reflexão crítica e consciente decorrentes de diferentes 
fatos, eventos e inúmeras situações que atraem não só os cientistas, mas toda comunidade do 
ambiente escolar, através de seu ensino e de pesquisa. 
Nesse ensejo, ressalta-se a importância de considerar que o aluno, sujeito de sua 
aprendizagem, traz consigo um referencial de conceitos, explicações e da produção embasada 
no seu histórico. Essa bagagem é o ponto fundamental em que a escola precisa apoiar 
propiciando aos professores, meios e recursos para possibilitar a aprendizagem significativa 
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(AUSUBEL,1980) para promover uma articulação entre os saberes provindos de senso 
comum das experiências do cotidiano, para torná-lo científico, em ambiente escolar através da 
transposição didática (CHEVALLAR, 1991). Entende-se que ensinar é criar condições para 
que os alunos desenvolvam as possibilidades básicas de domínio das diversas situações para 
aprender a fazer, aprender a aprender a enfrentar problemas de várias naturezas. 
Apesar do papel relevante da educação escolar como promotora de aprendizagem, é 
fundamental que considere a atuação do aluno inserido no contexto histórico e social da 
atualidade. Na escola, mesmo diante de um grande empenho e por mais rica seja a experiência 
escolar, percebe-se, nitidamente, a distancia existente na teoria e prática, ante a todas as 
expectativas que o aluno enfrentará fora dela. Portanto, é fundamental que no ambiente 
escolar haja maior reflexão e empenho para preparar os alunos para a vida. Para isso é 
desejável que se promova um ensino contemplando metodologias com atividades mais 
dinâmicas e diversificadas para promover a aprendizagem significativa. 
Por conseguinte, a escola não pode servir apenas como transmissor de conhecimento 
de repasse do conteúdo. Esse discernimento deve-se atrelar à compreensão da dinâmica do 
mundo atual em que qualquer conteúdo sofre a defasagem em tempo muito rápido. Dessa 
constatação, o papel da escola vai além da tarefa de produção de conhecimento científico, 
mas deve-se aliar ao empenho de acompanhar e promover o crescimento pessoal partindo da 
propriedade de aprender e ler o mundo conforme propõem inúmeros autores, como, Freire 
(1996); Callai (2000); Castrogiovanni(2005); Santos(2004); Straforini(2004) e outros. 
Freire (1996) chama a atenção para que a forma de se ensinar mude para atender as 
novas exigências sociais e exalta como uma das qualidades essenciais de um educador, a 
capacidade de acreditar e confiar em si mesmo. Ressalte-se que não existe apenas um modelo 
de formação de docente, mas modelos que se adapta às diferenças diante da realidade de cada 
sociedade. Ao mesmo tempo, é primordial respeitar as contradições existentes e traçar rumos 
para um consenso coerente entre atores atuantes no palco da realidade de cada universo 
escolar. 
Representações sociais e o Ensino de Geografia 
 
Partindo do pressuposto que o ato de ensinar não pode ser apenas de repasse do 
conhecimento através da explanação de um rol de conteúdos, mas como uma prática social 
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respeitando as contradições existentes para construir consensos entre alunos, professores, 
escola e políticas públicas condizentes à realidade de cada universo escolar. 
 Nesse sentido, a teoria das representações sociais que tem relação com suas 
representações cotidianas do ambiente escolar, tem se revelado caráter de extrema 
importância ao abarcar uma gama de informações com diferentes fenômenos pertinentesa 
esse campo. Para Moscovici (2003, p.56-57), as representações sociais são produtos da 
atividade humana, fruto da dinâmica do contexto histórico em meio as mais amplas 
dimensões de saberes – “representar uma coisa não é, com efeito, simplesmente duplicá-la, 
modificar-lhe o texto. A comunicação que se estabelece entre o conceito e a percepção, um 
penetrando no outro, transformando a substância concreta comum, cria a impressão de 
realismo”. O autor ressalta que para estudar as representações sociais, é indispensável 
conhecer as condições em que os indivíduos estão inseridos mediantes a realização de uma 
cuidadosa análise contextual e espacial. 
A representação social criada por professores e alunos da EJA a respeito da Geografia 
escolar é trazida do senso comum, através das quais realidades sociais são interpretadas e 
construídas. São as representações sociais que acontecem de forma análoga em todas as 
ocasiões e lugares onde as pessoas se encontram informalmente. Podem ser manifestadas 
através dos textos, sentimentos e comportamentos. É necessário que as representações sejam 
analisadas a partir da compreensão de condutas em família, na escola, nas ruas e demais 
lugares. 
Nesse sentido, pode-se considerar como formas de conhecimento que se manifestam 
como elementos que contribuem para a construção de uma realidade comum, possibilitando a 
comunicação entre os indivíduos. Para Moscovici (1978, p.77) a representação é produzida na 
coletividade, por isso, ela é social. “a representação contribui exclusivamente para os 
processos de formação de condutas e orientação das comunicações sociais”. Significa que 
além de representar objetos, abre leque que possibilita um novo repensar com um novo 
experimento para aplicar à nossa maneira, em nosso contexto e nos permite explicar o mundo 
que nos cerca. Por essa razão, as representações acerca da aprendizagem irão orientar as 
práticas com os alunos. 
Dentre inúmeros autores nos estudos ambientais destaca-se Reigota (2007, p.11) que 
argumenta que paisagem, sociedade território e natureza são considerados conceitos 
científicos, já que, na Geografia são “definidos, compreendidos e ensinados da mesma forma 
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pela comunidade científica internacional, caracterizando um consenso em relação a um 
determinado conhecimento”. As representações sociais para esse mesmo autor estão 
basicamente relacionadas com as pessoas que atuam fora da comunidade científica, a forma 
que foram apreendidos e internalizados pelas pessoas. 
A valorização das representações sociais na área da educação e de ensino de Geografia 
significa mais uma contribuição nos métodos de pesquisa desses campos de estudo e pode ser 
considerada ingrediente indispensávei para a melhor compreensão dessa sociedade. Inúmeros 
estudiosos geógrafos, dentre eles Cavalcanti (1998), Pontushka (2000) trabalharam com as 
representações sociais destacando a importância delas no entendimento de um coletivo e da 
sociedade. 
Cavalcanti (1998, p.30) apoiada em Moscovici (1994,p.31), afirma que representações 
sociais “são sistemas de preconcepções, imagens e valores que têm seu significado cultural 
próprio e persistem independentemente das experiências individuais”. Acrescenta, ainda que 
“[...] elas são sociais na media em que possibilitam a produção de certos processos claramente 
sociais, como a comunicação e a conversação; elas são sociais porque são coletivas, isto é, 
porque são compartilhadas por conjuntos de pessoas [...]”. 
A autora buscou em estudo das representações sociais que tem como suporte a vida 
cotidiana, considerando que “a geografia trabalha com conceitos que fazem parte da vida 
cotidiana das pessoas e em geral elas possuem representações sobre tais conceitos”. Reforça 
ainda que “[...] permite a convicção de que o estudo do conteúdo das representações dos 
alunos sobre Geografia é um caminho para melhor conhecer o mundo vivido dos alunos, suas 
concepções e seu processo de construção de conhecimento” (ibid, p.32-33) 
Baseado nesses argumentos, Cavalcanti realizou a pesquisa com estudo de 
representações sociais que culminou na primeira publicação em 1998 em que se buscou os 
dados de alunos quanto às representações de idades, estrutura da família, da renda familiar, 
das profissões, da disponibilidade aparelhos audiovisuais, atividades de lazer e graus de 
escolaridade. Por fim, buscou a informação quanto às preferências das matérias e canalizou 
para as informações se gostam ou não da matéria de Geografia e acrescentou com os dados de 
observações informais. A partir desses dados buscou as informações, dos alunos, a respeito 
dos conceitos-chave da geografia: espaço, lugar, paisagem e território. 
As práticas e o discurso presentes nas disciplinas escolares, inclusive a Geografia 
escolar carrega uma carga de papel ideológico. É notório conceber que não é possível a 
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neutralidade científica. Percebe-se que na escola e também nessa disciplina prevalece a 
atitude de dominação e a reprodução, conforme Bourdieu (1982). Por essa razão, é freqüente 
deparar com as lutas concretas dos educadores conclamando pela melhoria do ensino em 
geral. A colocação desses fatos justifica a preciosidade em trabalhar com representações 
sociais para obter informações que facilita compreender o universo de ensino, em especial o 
do campo de estudo. 
Nesse exercício, releva-se a importância em analisar os manuais didáticos, 
especialmente os de ensino de Geografia que, frequentemente, retratam uma realidade 
estereotipada, distante da realidade social e cultural do cotidiano dos alunos. Os manuais 
tradicionais, ao longo do tempo, tratou o espaço como fruto das relações entre o homem e a 
natureza de forma fragmentada. Os estudos críticos e consistentes têm trazido para os dias 
atuais, a nova leitura em que Castrogiovanni (2005, p.12) argumenta que “[...] o espaço é tudo 
e todos; compreende todas as estruturas e forma de organização e interações. E, portanto, 
compreensão da formação dos grupos sociais, a diversidade social e cultural, assim como 
apropriação da natureza por parte dos homens". Por essa razão, no repasse do conteúdo 
geográfico é preciso relevar os conhecimentos construídos culturalmente abordando o 
cotidiano da sala de aula. 
Dessa preocupação, vale-se do argumento de Callai (2000, p.93) que 
 
o conteúdo da Geografia, neste contexto, é o material necessário para que o 
aluno construa o seu conhecimento, aprenda a pensar. Aprender a pensar 
significa elaborar, a partir do senso comum, do conhecimento produzido 
pela humanidade e do confronto com outros saberes (do professor, de outros 
interlocutores), o seu conhecimento. Este conhecimento, partindo dos 
conteúdos da Geografia, significa uma consciência espacial das coisas, dos 
fenômenos, das relações sociais que travam no mundo. 
 
Nesse sentido reforça-se que a Geografia, ao tratar sobre a questão pertinente a 
organização espacial revela-se uma ciência fundamental para o entendimento das questões 
sociais. Para tanto, é válida uma abordagem interdisciplinar envolvendo contribuições dos 
mais variados saberes. Nessa trajetória, mister se faz entrelaçar o saber geográfico e o fazer 
pedagógico desvelando o cotidiano a partir das necessidades e interesses dos alunos para 
melhor conhecer suas representações. 
Ao caracterizar o lugar, o aluno é possível compreender as relações entre os diferentes 
fenômenos que, muitas vezes, não se limitam somente ao ambiente em que vivem, mas fazem 
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parte de um espaço maior, ou seja, deve considerar outras escalas espaciais permitindo 
decodificar a realidade sob o olhar espacial. 
Para Pontuschka (2000), os professores em geral e o de geografia em particular, 
precisam ter como ponto de partida as representações e os saberes que os alunos trazem para o 
espaço escolar. Não pode haver um vácuo entre o saber escolar - fundamentado nas teorias e 
metodologiasoriginárias da academia – e as múltiplas representações sociais que os jovens 
construíram no caminhar de sua existência. 
O aluno vive o espaço geográfico de diferentes maneiras, em diferentes lugares, mas 
muitas vezes não tem consciência desse espaço e de suas contradições. O papel do professor é 
o de despertar essa primeira consciência, permitindo que o aluno tenha voz sobre os vários 
objetos de estudo e estimulando o surgimento de novas ideias, na tentativa de conhecer raízes 
das representações sociais que podem. 
O estudo das representações sociais assume como ponto de partida para uma 
Geografia que vê o reforço no Certau (1994) em seu estudo sobre o cotidiano. A Geografia 
buscou nesse filão o enfoque no nosso dia-a-dia no seu modo de ser, fazer e viver, por onde os 
estudiosos a exemplo de Callai (2000), Castrogiovanni (1998; 2003), Kaercher (2003), 
Cavalcanti (1998) Castellar (2005) e outros, recomendam relevar essa prática no ensino de 
Geografia visando contribuir para o entendimento e intervenção na realidade concreta, 
construída e re-construída pelos sujeitos históricos. 
Em relação à representação social do ensinar geografia nas séries inicias encontramos 
a fundamentação teórica de Abric (2000, p. 27-18) denominado de teoria do núcleo central: 
 
[...] a representação social constitui um universo de opiniões e de crenças 
organizadas em torno de uma significação central em relação a um objeto 
determinado, tendo a estrutura interna de uma representação social como 
principal característica o fato de ser organizada em torno de um núcleo 
central. Este núcleo é o elemento ou conjunto de elementos que permite à 
representação social a sua significação e coerência. Gerador da significação 
da representação social, o núcleo central é visto em relação aos outros 
elementos presentes no campo da representação, sendo estes interpretados e 
avaliados. O núcleo central tem assim uma função importante como 
elemento gerador, organizador e estabilizador da representação social. 
 
Em busca da leitura da EJA 
 
755 
 
As mudanças ocorridas na sociedade atual impõem a necessidade de uma mudança de 
procedimentos urgentes de nossas escolas e de educadores, no sentido de promover a 
formação de cidadãos pensantes, críticos, criativos, conscientes e participativos para desafiar 
a complexidade pela qual passa o mundo atual. Isso carece de uma garantia de um ensino 
incrementando novas modalidades de ensino que estejam adequadas à nossa época para nos 
conduzir a algumas reflexões, dentre elas a que se destinam aos jovens e adultos. 
Assim, a EJA é uma modalidade de ensino público no Brasil que visa oferecer uma 
educação de qualidade para as pessoas que, por mais variados motivos, não tiveram a 
oportunidade de estudar na idade que seria destinada para este fim. É uma modalidade da 
educação que possibilita ao indivíduo jovem e adulto regularizar o seu histórico escolar, ao 
mesmo tempo em que oportuniza retomar seu potencial para desenvolver suas habilidades e 
competências acumuladas na vida extra-escolar e na experiência da vida. 
É uma modalidade de ensino em que se revela importância de imensurável 
envergadura que ganha uma grande dimensão de responsabilidade social e educacional em 
que recai um peso sobre os professores e administradores de ensino no seu papel de 
cumprimento da nobre missão, através de um eficaz planejamento e de sua execução no 
processo de mediar o desenvolvimento pessoal e da produção de conhecimento. 
Nessa investida, é de salutar importância relevar a condição que o aluno chega à vida 
escolar. Resende (1986) descreve o perfil dos alunos que chegam a EJA e reforça que eles 
chegam dotados de uma grande carga de experiência de vida e merece o estímulo e 
consideração no percurso de ensino. A autora expõe vários relatos de experiência desses 
alunos jovens e adultos que chegam à sala de aula depois de um dia de trabalho que alicerça a 
economia doméstica revelando uma atitude de um grande desafio. Por essa razão, há que adequar a 
metodologia, diferenciando da empregada nos cursos diurnos ou regulares. É importante o professor 
da EJA observar e considerar a situação de cada aluno, identificando o seu potencial para a 
melhor realização de aprendizagem. 
Nessa realização, é fundamental que a relação professor-aluno ocorra de forma 
harmônica, estabelecendo muito diálogo para melhor organizar, visando facilitar assimilação 
dos conteúdos trabalhados. É necessário ter muita responsabilidade e dedicação para evitar a 
evasão dos alunos. 
Ressalte-se que, além do empenho da escola, é preciso que a sociedade compreenda 
que alunos de EJA deparam com problemas como preconceito, vergonha, discriminação, 
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críticas dentre tantos outros. Diluir esses problemas não só cabe aos professores, mas ao 
conjunto pertencente ao universo escolar como a direção, equipe pedagógica, funcionários 
envolvidos no processo e de um novo olhar e novas reflexões dos políticos e pesquisadores. 
Representações: o que dizem da/na EJA 
Essa pesquisa partiu do interesse em refletir sobre como o ensino na EJA vem sendo 
conduzido e como a aprendizagem está sendo concebido nesse universo escolar. Apoiou-se 
para isso no estudo de representações sociais que no processo de ensino-aprendizagem 
revelam toda sua importância pela propriedade peculiar em tratar de senso comum que, ao se 
construir coletivamente, influenciam nossas práticas sociais. Buscou-se as representações 
sociais dos professores da EJA por entender que esse processo, de acordo com as palavras de 
Abric (1998, p.28), “a representação funciona como um sistema de interpretação da realidade 
que rege as relações dos indivíduos com seu meio físico e social, ela vai determinar seus 
comportamentos e suas práticas”. Acredita-se que a partir das representações acerca da 
aprendizagem, novas orientações poderão despontar para orientar as práticas com os alunos da 
EJA. 
Com base nos pressupostos das representações sociais, foi realizado um levantamento 
com 37 alunos cursandos de pós-graduação no Ensino de EJA, no município de Cascavel-PR. 
Na coleta foi utilizado como instrumento a aplicação de questões para serem respondidos 
utilizando-se de identificação fictícia, para afastar qualquer constrangimento no fornecimento 
de dados. Como técnica complementar foi utilizada a observação e diálogo por acreditar que 
pelo fato de estar em contato com a realidade dos sujeitos de pesquisa, qualquer informação 
seria relevante para este estudo para assim, constatar as representações sociais acerca da 
aprendizagem em Geografia dos alunos da EJA. 
Nesse procedimento, deu-se ênfase para a compreensão do espaço escolar para fazer 
deste, um instrumento primordial para o ensino de Geografia como forma de promover a 
orientação do aluno à leitura e compreensão do mundo, a partir do seu espaço imediato, para 
nele se inserir e, assim promover uma aprendizagem com base concreta de relação entre a 
teoria e a prática. Baseada nessa ideia, buscou-se a representação de que leitura fazem os 
professores da EJA. 
A coleta de informação foi conduzida por quatro perguntas, cujas respostas são 
dispostas por ordem de maior freqüência: 
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1) Que tipo de queixa é mais freqüente entre os alunos da EJA? 
- transmissão ativa do professor e passividade dos alunos; 
- professores desmotivados, sem preparo que visavam só salário; 
- conteúdos mal ministrados e cobrados para decorar; 
- perseguição e falta de arbitrariedade do professor; 
- dúvida da capacidade do aluno; 
- preconceito e discriminação por parte dos colegas e professores; 
- avaliação duvidosa 
 
2) Que tipo de professor pretende ser para atuar na EJA? 
- ser dedicada, responsável, atualizada e disposta a aprender; 
- envolver com a verdadeira aprendizagem; 
- valorizar o conhecimento do aluno; 
- ser renovador e disposto a mudar 
- variar metodologia e avaliar bem 
- ser justa,criativo e fazer valer para a vida; 
- transformar o conhecimento aluno em conhecimento científico; 
 
3) Mencione 6 conceitos que lembram a aula de Geografia do seu período escolar 
- relevo, planaltos, planícies, rios, montanhas 
- mapas; (desenhar mapas) 
- cidades, países, capitais; 
- clima; 
- latitude, longitude; 
- florestas, matas; 
- mares / oceanos; 
- população (número e etnia) 
 
4) Quais comentários mais freqüentes que circulam no ambiente escolar da EJA 
758 
 
- até chegar onde estou sofri decepções com professores que não estavam preparados, 
sem conteúdos consistentes, sem vontade de trabalhar e lutar pelo ensino de 
qualidade. - hoje tendo consciência me revolto e procuro atrás do tempo perdido; 
- com aula em que a professora só fala e fala, a gente acaba dormindo; 
- o que deixou triste na vida escolar era que a professora não explicava o conteúdo, 
ela apenas lia a apostila. E depois nos fazia decorar as perguntas e respostas para 
a prova. Por isso nunca gostei de Geografia; 
- o que mais me decepcionou foi quando errei alguns exercícios e a professora me 
chamou de tapada. Eu não sabia o significado da palavra e fui zombada pelos 
colegas; 
- não estou na escola para brincar, eu quero aprender para melhorar na vida; 
- o que mais me decepcionou na vida escolar foram as contradições do ensino,ou seja, 
o corpo docente ensinava na teoria, ele próprio não se comprometia na prática. E 
outra questão foi a indiferença por parte de professores e equipe pedagógica para 
com as críticas e sugestões dos educandos em relação aos diferentes assuntos na 
escola; 
- eu não gostava de estudar, mas a professora usou metodologia diferenciada e me fez 
ver com outros olhos e acabei gostando de estudar; 
- a disposição da professora me agradou e me ajudou aprender; 
- desejo de uma escola que ensinasse conteúdos em que os alunos percebessem a 
utilidade dele em sua vida e professores que encaram dar aula como um dom e não 
como somente um trabalho; 
- que seja uma escola comprometida com o ensino e aprendizado do aluno, e que esta 
escola trate todos com igualdade sem excluir ninguém independente de cor, raça, 
cultura, pobre ou rico. 
 
Na coleta de dados informais em busca da representação no que concerne o 
procedimento de ensino da EJA foi solicitado aos professores para enumerar, num painel 
fixado na parede, principais problemas encontrados na EJA e em seguida a lista referente ao 
ideal e desejado, descrito a seguir: 
 
759 
 
Foram listados como principais problemas para a EJA: falta de materiais; diversidade 
etária e cultural; trabalhadores cansados; reprovação e desistência; defasagem, dificuldade 
e insegurança; moradia longe; baixo auto-estima; alunos tímidos; resistência dos alunos / 
professores; evasão; interesse pelo diploma. 
Em relação ao que seria ideal e ao seria o desejado para a EJA: capacitação específica 
do professor; professor fixo; espaço físico adequado; educadores motivados; suprir a 
resistência dos alunos; mais recursos financeiros; muito diálogo; discussão para a 
adequação da política da EJA; adequar à realidade; resgatar auto-estima; adequar carga 
horária; metodologia diferenciada; preparar para o mundo; mais investimento; espaço para 
opinião; objetivos claros com perspectivas positivas; classes menos numerosas. 
 
Discussão e comentários 
 
Analisando as falas, pode-se afirmar que, apesar do grande avanço, o ensino de 
Geografia, precisa ir além da informação, transmissão de conteúdos e troca de materiais e 
manuais didático-pedagógicos. As falas retratam o que Callai (2000), Castrogiovanni (2005), 
Castellar (2005) alegam que os procedimentos tradicionais não enfatizam a compreensão do 
saber geográfico historicamente acumulado, dificultando a visão da Geografia real, 
vivenciada no seu cotidiano e tão necessária para melhorar as relações entre o homem e a 
natureza. O profissional de Geografia precisa partir de análises críticas, com olhar crítico, 
frente aos conteúdos, conceituações e definições apresentados nos materiais de apoio ao 
ensino. 
Ressalte-se que, os conteúdos trabalhados nos cursos da EJA são necessários para o 
reconhecimento e organização dessa área acadêmica, mas não basta dominar conceitos 
teóricos, é preciso refletir sobre as concepções pedagógicas que perpassam a relação teoria e 
prática, revendo a didática e metodologia que instrumentalizem esses trabalhadores para o 
exercício da profissão. 
Os dados aqui coletados revelam que para o ensino da EJA não se trata apenas de 
aplicar modelos pré-estabelecidos, mas possibilitar formas para que os profissionais 
experimentem novas metodologias e ensino, que venham ao encontro das necessidades 
concretas dos alunos que favoreça a produção dos saberes reais. Resende (1986) reforça que 
trata-se da necessidade de um repensar entre o que e como se ensina para os alunos da EJA. A 
760 
 
efetivação da proposta perpassa pelo reconhecimento que, dentre inúmeros caminhos, o apelo 
ao estudo de representações sociais, aponta como um rico instrumento norteador para a 
adoção de uma metodologia diferenciada, adequada à realidade deste universo escolar. 
O professor demonstra sua preocupação em relação à aprendizagem com o aluno, 
existe fala acerca do importante trabalho realizado na escola em relação à realização, porém 
não descarta a defasagem e dificuldade na prática. Percebem–se lacunas na precariedade da 
escolarização desses alunos ao lado da adequação do procedimento pelo professor. Portanto, a 
discussão é longa e de extrema importância. 
Cabe enfatizar que ensinar, segundo Vlach (1990) é, antes de mais nada, o trabalho do 
aluno com o saber sob a mediação do professor. O ensino de Geografia possibilita ao aluno a 
compreensão da realidade, entendendo que esta é uma construção social sobre a natureza, uma 
construção internamente diferenciada. 
 
Considerações 
 
A partir do estudo, pode-se traçar uma nova reflexão para que, na prática, o papel da 
escola e dos professores não se restrinja somente a um espaço em que movimenta apenas 
atividades ligadas ao ensino e aprendizagem dos alunos. É preciso mergulhar em uma 
reflexão maior sobre a EJA, acreditando que, mesmo apresentando limitações de tempo para 
estudar e outros fatores, são alunos dotados de muita força de vontade com um potencial para 
aprender. Para tanto, merece um empenho especial em além de adotar uma metodologia 
diferenciada no ensino, procurar entender a condição em que os alunos chegam às escolas. 
As representações provindas de falas de professores demonstram a importância e a 
necessidade de um trabalho efetivo diferenciado, que servirão como suporte para o alcance de 
êxito na realização de tarefas educativas. Em outras palavras significa, possibilidade para 
encontrar medidas que possam dinamizar o processo educativo voltado para o ensino na EJA. 
Nesse processo, o mais importante é acreditar no trabalho efetivo do professor e da vontade e 
capacidade em aprender dos alunos para a investida no processo de aprendizagem. Assim, 
espera-se que este estudo possa proporcionar reflexões importantes que venham impulsionar a 
prática motivadora para o exercício dos professores e contribuir para o processo de 
escolarização dos alunos da EJA. 
 
761 
 
REFERÊNCIAS 
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OLIVEIRA, D.C. de (org.) Estudos interdisciplinares de representação sociais. Goiânia: 
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BOURDIEU, P. Passeron, J.C. A reprodução. Elementos para uma teoria do sistema de 
ensino. 2.ed. trad, Reynaldo Bairão. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982. 
 
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