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Neurologia na rotina clínica Exame clínico → Os objetivos durante o exame clínico são entender os achados neurológicos do paciente, localizar a lesão (encéfalo, medula, nervos), avaliar se há uma enfermidade não neurológica concomitante (por exemplo a síndrome vestibular decorrente de otite) e se há diagnósticos diferenciais Agente infeccioso, defeito congênito, intoxicação e trauma → Histórico e anamnese: animal preferencialmente vai estar solto no consultório e é possível analisar a atitude mental, comportamento e andadura. Somado à isso, analisamos as reações posturais, por meio de testes como carrinho de de mão (também chamado de bipedal), hemissaltitamento (torácico e pélvico direito ou esquerdo), testes dos saltos e propriocepção. Também observamos os reflexos nervosos espinhais e reflexos nervosos craniais É necessário para realizar o exame instrumentos como pinça, martelo, lanterna e placas antiderrapantes de fácil higienização Nomenclaturas: Paraparesia é a perda de movimentos reversível, de acordo com os testes / Paraplegia é uma paralisia irreversível Passo a passo do exame físico do exame neurológico: 1) estado mental / comportamento, 2) andadura / locomoção, 3) reações posturais, 4) reflexos nervosos espinhais e nervos cranianos Crise Epiléptica Introdução → Ocorrência transitória de sinais e/ou sintomas decorrentes de excesso ou atividade neuronal síncrona no cérebro. Mecanismos gerais: ● Alteração da membrana neuronal levando a uma despolarização excessiva ● Alteração da permeabilidade da membrana (altera a condução) ● Diminuição neurotransmissores inibitórios (GABA - ácido gama amino glutinimo) ● Aumento neurotransmissores excitatórios (Glutamato) → Estágios da Crise Epiléptica: ● 1) Pré-ictal: precede a crise epiléptica, animal muda o seu comportamento, há início de sinais sensoriais, como inquietação e sialorréia, e pode levar horas ou dias ● 2) Icto: corresponde a crise epiléptica propriamente dita ● 3) Pós-ictal: alterações comportamentais horas ou ditas após uma crise, como apatia, animal pode parecer que não enxerga e desorientado, as vezes há agressividade Esses estágios são importantes para definir como vai tratar o paciente, uma vez que a cada crise há destruição neuronal, que dependendo do grau o paciente não volta mais a consciência, e também para diferenciar de Discenesia Paroxística (além dessa enfermidade não há alteração da consciência) Crise epiléptica é sinal clínico e a epilepsia é a doença (deve ser colocada na suspeita clínica) Tipos de Crise → Parciais: ● Motor (espasmos da musculatura facial ou movimentos rítmicos repetidos de uma extremidade) ● Autonômico (pupilas dilatadas, sialorréia ou vômito) ● Comportamental (ansiedade, inquietação, medo inexplicável, reações ou busca anormal de atenção/“apego” ao responsável) → Generalizadas: alteração da consciência acoplado com sinais motores bilaterais de natureza tônico-clônica, tônica, mioclônica ou até atônica. Terminologia → Crise Epilética: definidas como “breves” ou “prolongadas”, com duração menor que 5 minutos → Cluster: mais de duas crises autolimitantes durante um período de 24 horas (apresenta a crise, retorna a consciência e ocorre novamente outra crise) → Status Epilepticus: mais de uma crise sequencial sem recuperação completa da consciência entre as mesmas, com duração menor de 30 minutos (é a mais grave) Tempo limite de 5 minutos: ● Minimizar o risco de problemas sistêmicos e complicações cerebrais associadas à atividade contínua atingindo até 30 minutos ● Prevenir piora do prognóstico e resistência aos medicamentos associado ao aumento da duração da atividade convulsiva descontrolada ● Limitar quaisquer resultados desfavoráveis e efeitos adversos associada à administração prolongada de múltiplas terapêuticas → Epilepsia: um distúrbio do cérebro caracterizado por uma predisposição duradoura para gerar crises epilépticas e pelas consequências neurobiológicas, cognitivas, psicológicas e sociais dessa condição (ILAE) Classificação Idiopática: causa genética ou desconhecida, com predisposição racial (Pastor Alemão, Beagle, Setter, Poodle, Cocker, Husky, Retriever, Border). A primeira crise epiléptica ocorre em jovens adultos (6 meses a 6 anos), geralmente do tipo generalizada Estrutural: causa relacionada a uma enfermidade cerebral. A primeira crise epiléptica ocorre em qualquer idade Dosar a glicose é importante pois a crise causa hipoglicemia: durante a crise há gasto de energia (“atividade física”) e utiliza-se glicose e o animal pode ficar hipoglicêmico Diagnóstico Exame clínico: → Histórico e anamnese anterior, somado ao episódios convulsivos (sendo necessário as datas, períodos, duração e descrição - períodos pré-ictal (aura), ictal, pós-ictal e interictal (entre as crises)) → Anormalidades pós-ictais: perda visual, marcha em círculos, paresia, desorientação profunda alterações de personalidade, sendo importante a duração Exames complementares: → Hemograma completo, perfil bioquímico e urinálise // Testes sorológicos (principalmente gatos, pois não possuem tremor clônico, porém diferente dos cães costumam vocalizar) → Exames de imagem (TC ou RM, a primeira para tecido duro e segunda melhor por ser tecido mole) → Líquido Céfalo Espinhal (LCE) (escolha mais barata, porém invasiva) Diferencial: → Aplicado nas enfermidades neurológicas Tratamento → Objetivo de diminuir o número das crises epilépticas, a intensidade crises epilépticas, as complicações pós-ictais e o período interictal → Quando começar a terapia antiepiléptica? ● Período interictal ≤ 6 meses (por exemplo 2 ou mais em 6 meses - ACVIM 2015) ● Aumento na frequência e gravidade dos ataques ● Status epilepticus ● Sinais pós-ictais graves ● Sinais de agressividade durante ou após o ataque → Fármacos de primeira escolha: Fenobarbital (é o principal e barato, lembrar que o paciente vai usar a vida inteira), Brometo de potássio e Diazepam (não é recomendado, somente para uso emergencial SOS em casos de status epilepticus). Fármacos de segunda escolha, Primidona, Imepitoína, Levetiracetam (Keppra, tempo de ação mais rápido do que o fenobarbital na concentração sérica, mas não há muitos trabalhos que indiquem como primeira escolha e o custo é bem mais caro) e Zonisamida → O que fazer quando o cão entra em crise: fique calmo e não colocar a mão na boca do animal, colocar o animal em um local ventilado (pois o animal geralmente fica hipertérmico) e seguro (longe de itens que podem machucar o animal) e assim que acabar a crise ligar para o veterinário ★ Fenobarbital → Dose em cães: 2,5 mg/kg, BID, VO, concentração sérica 15 a 35 mcg/ml // Dose em gatos: 2-5 mg/kg, BID, VO, concentração sérica 23 a 30 mcg/ml. Demora 7 a 18 dias para alcançar a concentração plasmática de equilíbrio → Acompanhamento da dosagem sérica (concentração de fenobarbital na corrente sanguínea): 2 semanas, 6 semanas e a cada 6 meses A primeira coisa a se fazer quando o animal está em tratamento e tem a crise epiléptica é dosar a concentração sérica. Se a dosagem estiver baixa (ex 12 mg dL), deve-se aumentar a dose de fenobarbital, assim como se estiver acima deve-se diminuir, e se estiver dentro do limite deve-se associar com brometo → Efeitos adversos: ● Não diminuir a dose inicial se forem observados sinais de sedação ou alterações comportamentais após início do tratamento ● Acrescentar um segundo fármaco somente quando há permanência das crises epilépticas, mesmo quando o fenobarbital se encontra em concentrações séricas terapêuticas ★ Brometo de potássio → Dose em cães: 40 mg/kg, SID, solução 200mg/ml, concentração sérica 150-200 mg/dl → Acompanhamento: 6 semanas, 12 semanas e anualmente ★ Diazepam → Somente para casos de status epilepticus (emergencial), uso principalmente na via retal na dose 2 mg/kg → Não pode ser usado a longo prazo, o animal desenvolve resistência ★ Sucesso terapêutico → Foi definido como ausência de crises por menos ou igual a três vezes o intervalo entre crises pré-tratamento mais longo e pelo menos três meses(sucesso terapêutico completo) - Potschka, 2015 Fatores de precipitação de convulsão em cães com epilepsia idiopática: fatores mais frequentemente relatados incluíram situações relacionadas ao estresse (festas), privação de sono, clima e fatores hormonais. Além da terapia anticonvulsivante, reconhecer e evitar fatores precipitantes de convulsões poderia ajudar os veterinários a alcançar melhores resultados de tratamento Discinesia Paroxística canina Introdução → Corresponde a distúrbios do movimento canino (movimento involuntário sem alteração de consciência) → Difícil de identificar e incluem uma série de distúrbios do movimento nos quais há um episódio recorrente de movimento anormal e involuntário Classificação Hereditária: mutação genética Adquirida: sensibilidade ao glúten (ao fazer a exclusão com dieta, melhora) Diagnóstico → Importante enfermidade que apresenta distúrbios do movimentos que precisa ser diferenciada de crise epilética (descartamos o sinal clínico) ● Não tem alteração em Eletroencefalograma (EEG), nas crises possuem alterações ● Ausência de sinais autonómicos (dilatação da pupila, sialorréia) ● Ausência de alterações pós-ictais após os episódios ● Sem perda da consciência durante os episódios! As primeiras perguntas que devemos fazer são sobre a consciência e sobre o antes e depois da crise Tratamento → Fármacos antiepilépticos, triptofano (alimentação/ suplementação) e dieta (sensibilidade ao glúten) → A resposta terapêutica é variável, deve-se evitar fatores desencadeantes → Hereditárias: geral/ benignas e auto-limitantes Doença do Disco Intervertebral (DDIV) Introdução Hansen tipo I: extrusão do núcleo pulposo (imagem B) - deficiência na conformação → Acomete geralmente raças condrodistróficas (predisposição: Basset dachshund) e mais jovens. Nessas raças, a expressão de um retrogene do fator de crescimento de fibroblastos 4 (FGF4) no cromossomo 12 está associada à degeneração acelerada do disco intervertebral Hansen tipo II: protrusão do disco (imagem C) - desgaste do anel → Acomete geralmente animais mais velhos, independente da raça Os animais possuem 13 vértebras torácicas e 6/7 vértebras lombares. É preciso tentar localizar a lesão, a tomografia é o exame de eleição mas requer o animal anestesiado (não basta uma sedação), então, às vezes só é possível fazer a radiografia Características gerais → Frequente na clínica neurológica de cães As top três doenças neurológicas são epilepsia, doença do disco intervertebral e síndrome vestibular. Região toracolombar é a de maior ocorrência → Cães de raças condrodistróficas são mais acometidos, principalmente os Dachshunds → Não há predisposição de gênero e a idade média varia entre três e seis anos (paciente adulto) Sinais clínicos → DDIV cervical: ● Dor cervical aguda ou crônica de forma espontânea ou durante a palpação da musculatura do pescoço. Continua a se movimentar, mas com restrição do movimento cervical, vocalização e fasciculações da musculatura cervical ● Deficiências neurológicas: um ou ambos os membros torácicos, ou os membros pélvicos, ocasionando hemiparesia ou tetraparesia. Tetraplegia e hipoventilação também podem ocorrer, porém são menos frequentes → DDIV toracolombar: ● Dor local é menos intensa do que na cervical, com relutância em correr ou pular ● Deficiências neurológicas: leve ataxia (incoordenação, costuma estar ligada a lesão cerebelar em outros casos, na DDIV está relacionada a lesão no neurônio motor) e paraparesia (paresia - pode retornar) a paraplegia (paralisia) com ausência de nocicepção (dor profunda = lesão grave) Diagnóstico → Exame clínico: histórico e anamnese (comparar o animal antes e depois, analisar se há controle por parte dos responsáveis, como apoio por meio de objetos como bancos) e exame físico com a palpação da região medular (lembrar que deve haver uma mão de apoio na região abdominal para realizar a compressão da medula - preconiza-se na palpação renal vir lateralmente por baixo para não confundir lesões medulares com renais) ● Alterações comportamentais (comparativo - como o animal era antes e atualmente) ● Alterações de andadura - observar deangulação e realizar os testes de reações posturais: carrinho de mão (bipedal pélvico e torácico), hemissaltitamento, testes dos saltos e posicionamento proprioceptivo - em local liso pode haver deslizamento do paciente (realizar sobre tapete) → Sinais clínicos: função motora, tônus muscular, atrofia muscular e reflexos espinhais ★ Neurônio motor superior (NMS): conexão com o SNC e modula o NMI (regula a intensidade dos impulsos) = movimento inadequado / paresia espástica, ausência de atrofia muscular ou moderada, reflexos segmentares mantidos ★ Neurônio motor inferior (NMI): leva o impulso propriamente dito para os membros = paresia flácida ou paralisia, atrofia muscular rápida e grave, perda ou diminuição dos reflexos segmentares O NMS parte do cérebro para a medula e o NMI, da medula para os membros. Normalmente quando há movimentação, mesmo que espástica = lesão no NMS / quando há paralisia = lesão no NMI. Tudo que é mais grave costuma resultar de quando o impulso que deveria chegar no membro não está chegando (lesões no NMI). Os sinais variam de acordo com local da lesão: C1-C5 = NMS // C6-T2 = NMI // T3-L3 = NMS // L4-S3 = NMI Avaliar o tônus muscular (varia de acordo com a raça) e reflexos (dígito-digital e depois com a pinça) ● Reflexos proprioceptivos: membro torácico = reflexo tricipital (nervo radial - C7-T2) e membro pélvico = reflexo patelar (nervo femoral - L4-L6) ● Reflexos nociceptivos: reflexo flexor pélvico (nervos periféricos - C6-T2), reflexo flexor pélvico (nervo ciático - L6-S2) e reflexos perianais (nervos perineal/pudendo - S1-S3) ● Reflexos nervosos craniais:: (ADD QUADROS abaixo) → Exames complementares: radiografia, mielografia, tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM) ● RM: exame ouro, sensibilidade diagnóstica > 98,5%, com desempenho diagnóstico aprimorado sobre TC e melhor diferenciação entre extrusão do disco e protrusão ● TC: rápida, menor custo e uma sensibilidade diagnóstica de 81% a 100% em cães condrodistróficos com discos mineralizados, assim como na diferenciação do disco mineralizado extrusado agudo do crônico. É menos preciso em cães mais velhos (> 5 anos) e menores (mental, que não ocorre no SNP Etiologias → Otite média e interna: que surgem a partir da otite externa crônica em cães - comunicação do ouvido interno e médio com o sistema nervoso (e sistema respiratório, podendo haver sintomas concomitantes) → Distúrbios idiopáticos: causas desconhecidas (principalmente em gatos) → Deficiência de tiamina (B1): muitas vezes no tratamento já solicitamos juntamente → Encefalopatia isquêmica, meningite/meningoencefalomielite Infartos vasculares, neoplasias, malformações congênitas Diagnóstico → Exame clínico: histórico e anamnese, exame físico para avaliar a região auricular - otoscopia, citologia e possibilidade de contraste no ouvido (para identificar rompimento de membrana timpânica) → Exames complementares: hemograma (inflamação/infecção) e bioquímica (prescrição de medicamentos, lesões renais/hepáticas, hipertireoidismo), exames de imagem (tomografia computadorizada, ressonância magnética e exame radiográfico) e análise do líquor → A síndrome vestibular é definida pela maioria dos especialistas como um distúrbio vestibular periférico agudo a superagudo, que melhora naturalmente e não causa dor que frequentemente afeta gatos de qualquer idade e cães geriátricos Tratamento → O tratamento para doenças vestibulares é de suporte: Anti-eméticos (Maropitant - Cerenia na dose 1 mg/kg, SID, para cães e gatos, a náusea pode afetar o apetite do animal) e Propentofilina (vasodilatador para cães: 3 mg/kg, BID) Vasodilatador para os cães se dá principalmente por afetar mais idosos, como nos gatos a idade não interfere na doença, o vasodilatador não é indicado em primeira instância → Prognóstico/evolução: animais com doença vestibular idiopática, otite média/interna e doença cerebrovascular geralmente apresentam resposta em poucos dias e melhora em 2 a 3 semanas Disfunção Cognitiva Introdução → Síndrome neurodegenerativa semelhante à doença de Alzheimer em humanos, muita observada em animais idosos - gatos acima de 10 anos e cães nos últimos 25% da expectativa de vida (padrão é 7 anos), alterando a expectativa de vida. Possui prevalência de 14 a 35% em cães com mais de 8 anos de idade → Mecanismo: dano oxidativo alterações vasculares formação de placas senis (ß amilóide) atrofia cerebral e perda neuronal → Sinais clínicos: alterações no sono e vigília, vocalização (sinal predominante), perda de direção (apoio em objetos), alteração no local de micção e defecação (podendo ocorrer por lesão articular ou disfunção) ● Alterações de comportamento (grande prevalência acima de 16 anos), memória e aprendizado - animal chorando, dormindo durante o dia e acordado durante a noite, não atende ao seu nome ● DISCA: D (desorientação), I (interação intra e interespécies), S (alterações no ciclo sono-vigília), C (perda do treino aprendido em casa) e A (alteração nas atividades) - em inglês DISHA → Durante o exame clínico: queixas com os sinais de desorientação, alterações do sono e déficit de memória e aprendizagem. O diagnóstico é presuntivo (só definitivo no post mortem) Tratamento → Uso de fármacos: ● Selegilina (cão na dose 0,5-1 mg/kg, SID, VO // gato na dose 0,25-1 mg/kg, SID, VO) - antidepressivo tricíclico, que inibe a MAO, administrar preferencialmente pela manhã ● Vasodilatadores cerebrais: Propentofilina (dose 3 mg/kg, BID, VO) e Nicergolina (dose 0,25-0,5 mg/kg, SID, VO) - dose para cão → Suplementação, dieta, enriquecimento ambiental e lembrar da importância de cuidar do cuidador