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Clínica Médica de Cães e Gatos Neurologia na rotina clínica Exame clínico → Os objetivos durante o exame clínico são entender os achados neurológicos do paciente, localizar a lesão (encéfalo, medula, nervos), avaliar se há uma enfermidade não neurológica concomitante (por exemplo a síndrome vestibular decorrente de otite) e se há diagnósticos diferenciais ⚠Agente infeccioso, defeito congênito, intoxicação e trauma → Histórico e anamnese: animal preferencialmente vai estar solto no consultório e é possível analisar a atitude mental, comportamento e andadura. Somado à isso, analisamos as reações posturais, por meio de testes como carrinho de de mão (também chamado de bipedal), hemissaltitamento (torácico e pélvico direito ou esquerdo), testes dos saltos e propriocepção. Também observamos os reflexos nervosos espinhais e reflexos nervosos craniais ⚠É necessário para realizar o exame instrumentos como pinça, martelo, lanterna e placas antiderrapantes de fácil higienização ⚠Nomenclaturas: Paraparesia é a perda de movimentos reversível, de acordo com os testes / Paraplegia é uma paralisia irreversível ⚠Passo a passo do exame físico do exame neurológico: 1) estado mental / comportamento, 2) andadura / locomoção, 3) reações posturais, 4) reflexos nervosos espinhais e craniais Crise Epiléptica Introdução → Ocorrência transitória de sinais e/ou sintomas decorrentes de excesso ou atividade neuronal síncrona no cérebro. Mecanismos gerais: ● Alteração da membrana neuronal levando a uma despolarização excessiva ● Alteração da permeabilidade da membrana (altera a condução) ● Diminuição neurotransmissores inibitórios (GABA - ácido gama amino glutinimo) ● Aumento neurotransmissores excitatórios (Glutamato) → Estágios da Crise Epiléptica: ● 1) Pré-ictal: precede a crise epiléptica, animal muda o seu comportamento, há início de sinais sensoriais, como inquietação e sialorréia, e pode levar horas ou dias ● 2) Icto: corresponde a crise epiléptica propriamente dita ● 3) Pós-ictal: alterações comportamentais horas ou dias após uma crise, como apatia, animal pode parecer que não enxerga e desorientado, às vezes há agressividade ⚠Esses estágios são importantes para definir como vai tratar o paciente, uma vez que a cada crise há destruição neuronal, que dependendo do grau o paciente não volta mais a consciência, e também para diferenciar de Discinesia Paroxística (nessa enfermidade não há alteração da consciência) ⚠Crise epiléptica é sinal clínico e a epilepsia é a doença (deve ser colocada na suspeita clínica) Tipos de Crise → Parciais: ● Motor (espasmos da musculatura facial ou movimentos rítmicos repetidos de uma extremidade) ● Autonômico (pupilas dilatadas, sialorréia ou vômito) ● Comportamental (ansiedade, inquietação, medo inexplicável, reações ou busca anormal de atenção/“apego” ao responsável) → Generalizadas: alteração da consciência acoplado com sinais motores bilaterais de natureza tônico-clônica, tônica, mioclônica ou até atônica Terminologia → Crise Epilética: definidas como “breves” ou “prolongadas”, com duração menor que 5 minutos → Cluster: mais de duas crises autolimitantes durante um período de 24 horas (apresenta a crise, retorna a consciência e ocorre novamente outra crise) → Status Epilepticus: mais de uma crise sequencial sem recuperação completa da consciência entre as mesmas, com duração menor de 30 minutos (é a mais grave) ⚠ Tempo limite de 5 minutos: ● Minimizar o risco de problemas sistêmicos e complicações cerebrais associadas à atividade contínua atingindo até 30 minutos ● Prevenir piora do prognóstico e resistência aos medicamentos associado ao aumento da duração da atividade convulsiva descontrolada ● Limitar quaisquer resultados desfavoráveis e efeitos adversos associada à administração prolongada de múltiplas terapêuticas → Epilepsia: um distúrbio do cérebro caracterizado por uma predisposição duradoura para gerar crises epilépticas e pelas consequências neurobiológicas, cognitivas, psicológicas e sociais dessa condição (ILAE) Classificação Idiopática: causa genética ou desconhecida, com predisposição racial (Pastor Alemão, Beagle, Setter, Poodle, Cocker, Husky, Retriever, Border). A primeira crise epiléptica ocorre em jovens adultos (6 meses a 6 anos), geralmente do tipo generalizada Estrutural: causa relacionada a uma enfermidade cerebral. A primeira crise epiléptica ocorre em qualquer idade ⚠Dosar a glicose é importante pois a crise causa hipoglicemia: durante a crise há gasto de energia (“atividade física”) e utiliza-se glicose e o animal pode ficar hipoglicêmico Diagnóstico Exame clínico: → Histórico e anamnese anterior, somado ao episódios convulsivos (sendo necessário as datas, períodos, duração e descrição - períodos pré-ictal (aura), ictal, pós-ictal e interictal (entre as crises)) → Anormalidades pós-ictais: perda visual, marcha em círculos, paresia, desorientação profunda alterações de personalidade, sendo importante a duração Exames complementares: → Hemograma completo, perfil bioquímico e urinálise // Testes sorológicos (principalmente gatos, pois não possuem tremor clônico, porém diferente dos cães costumam vocalizar) → Exames de imagem (TC ou RM, a primeira para tecido duro e segunda melhor por ser tecido mole) → Líquido Céfalo Espinhal (LCE - escolha mais barata, porém invasiva) Diferencial: → Aplicado nas enfermidades neurológicas (sigla VITAMIN D) Tratamento → Objetivo de diminuir o número das crises epilépticas, a intensidade das crises epilépticas, as complicações pós-ictais e aumente o período interictal → Quando começar a terapia antiepiléptica? ● Período interictal ≤ 6 meses (por exemplo 2 ou mais em 6 meses - ACVIM 2015) ● Aumento na frequência e gravidade dos ataques ● Status epilepticus / Sinais pós-ictais graves ● Sinais de agressividade durante ou após o ataque → Fármacos de primeira escolha: Fenobarbital (é o principal e barato, lembrar que o paciente vai usar a vida inteira), Brometo de potássio e Diazepam (não é recomendado, somente para uso emergencial SOS em casos de status epilepticus). Fármacos de segunda escolha, Primidona, Imepitoína, Levetiracetam (Keppra, tempo de ação mais rápido do que o fenobarbital na concentração sérica, mas não há muitos trabalhos que indiquem como primeira escolha e o custo é bem mais caro) e Zonisamida → O que fazer quando o cão entra em crise: ficar calmo e não colocar a mão na boca do animal, colocar o animal em um local ventilado (pois o animal geralmente fica hipertérmico) e seguro (longe de itens que podem machucar o animal) e assim que acabar a crise ligar para o veterinário ★ Fenobarbital → Dose em cães: 2,5 mg/kg, BID, VO, concentração sérica 15 a 35 mcg/ml // Dose em gatos: 2-5 mg/kg, BID, VO, concentração sérica 23 a 30 mcg/ml. Demora 7 a 18 dias para alcançar a concentração plasmática de equilíbrio → Acompanhamento da dosagem sérica (concentração de fenobarbital na corrente sanguínea): 2 semanas, 6 semanas e a cada 6 meses ⚠A primeira coisa a se fazer quando o animal está em tratamento e tem a crise epiléptica é dosar a concentração sérica. Se a dosagem estiver baixa (ex 12 mg dL), deve-se aumentar a dose de fenobarbital, assim como se estiver acima deve-se diminuir, e se estiver dentro do limite deve-se associar com brometo → Efeitos adversos: ● Não diminuir a dose inicial se forem observados sinais de sedação ou alterações comportamentais após início do tratamento ● Acrescentar um segundo fármaco somente quando há permanência das crises epilépticas, mesmo quando o fenobarbital se encontra em concentrações séricas terapêuticas ★ Brometo de potássio → Dose em cães: 40 mg/kg, SID, solução 200mg/ml, concentração sérica 150-200 mg/dl → Acompanhamento: 6 semanas, 12 semanas e anualmente ★ Diazepam → Somente para casos de status epilepticus (emergencial), uso principalmente na via retal na dose 2 mg/kg→ Não pode ser usado a longo prazo, o animal desenvolve resistência ★ Sucesso terapêutico → Foi definido como ausência de crises por menos ou igual a três vezes o intervalo entre crises pré-tratamento mais longo e pelo menos três meses (sucesso terapêutico completo) - Potschka, 2015 ⚠Fatores de precipitação de convulsão em cães com epilepsia idiopática: fatores mais frequentemente relatados incluíram situações relacionadas ao estresse (festas), privação de sono, clima e fatores hormonais. Além da terapia anticonvulsivante, reconhecer e evitar fatores precipitantes de convulsões poderia ajudar os veterinários a alcançar melhores resultados de tratamento Discinesia Paroxística Canina Introdução → Corresponde a distúrbios do movimento canino (movimento involuntário sem alteração de consciência) → Difícil de identificar e incluem uma série de distúrbios do movimento nos quais há um episódio recorrente de movimento anormal e involuntário Classificação Hereditária: mutação genética Adquirida: sensibilidade ao glúten (ao fazer a exclusão com dieta, melhora) Diagnóstico → Importante enfermidade que apresenta distúrbios do movimentos que precisa ser diferenciada de crise epilética (descartamos o sinal clínico) ● Não tem alteração em Eletroencefalograma (EEG), nas crises possuem alterações ● Ausência de sinais autonómicos (dilatação da pupila, sialorréia) ● Ausência de alterações pós-ictais após os episódios ● Sem perda da consciência durante os episódios! ⚠ As primeiras perguntas que devemos fazer são sobre a consciência e sobre o antes e depois da crise Tratamento → Fármacos antiepilépticos, triptofano (alimentação/ suplementação) e dieta (sensibilidade ao glúten) → A resposta terapêutica é variável, deve-se evitar fatores desencadeantes → Hereditárias: geralmente benignas e auto-limitantes Doença do Disco Intervertebral (DDIV) Introdução Hansen tipo I: extrusão do núcleo pulposo (imagem B) - deficiência na conformação → Acomete geralmente raças condrodistróficas (predisposição: Basset dachshund) e mais jovens. Nessas raças, a expressão de um retrogene do fator de crescimento de fibroblastos 4 (FGF4) no cromossomo 12 está associada à degeneração acelerada do disco intervertebral Hansen tipo II: protrusão do disco (imagem C) - desgaste do anel → Acomete geralmente animais mais velhos, independente da raça ⚠Os animais possuem 13 vértebras torácicas e 6/7 vértebras lombares. É preciso tentar localizar a lesão, a tomografia é o exame de eleição mas requer o animal anestesiado (não basta uma sedação), então, às vezes só é possível fazer a radiografia Características gerais → Frequente na clínica neurológica de cães ⚠As top três doenças neurológicas são epilepsia, doença do disco intervertebral e síndrome vestibular. Região toracolombar é a de maior ocorrência → Cães de raças condrodistróficas são mais acometidos, principalmente os Dachshunds → Não há predisposição de gênero e a idade média varia entre três e seis anos (paciente adulto) Sinais clínicos → DDIV cervical: ● Dor cervical aguda ou crônica de forma espontânea ou durante a palpação da musculatura do pescoço. Continua a se movimentar, mas com restrição do movimento cervical, vocalização e fasciculações da musculatura cervical ● Deficiências neurológicas: um ou ambos os membros torácicos, ou os membros pélvicos, ocasionando hemiparesia ou tetraparesia. Tetraplegia e hipoventilação também podem ocorrer, porém são menos frequentes → DDIV toracolombar: ● Dor local é menos intensa do que na cervical, com relutância em correr ou pular ● Deficiências neurológicas: leve ataxia (incoordenação, costuma estar ligada a lesão cerebelar em outros casos, na DDIV está relacionada a lesão no neurônio motor) e paraparesia (paresia - pode retornar) a paraplegia (paralisia) com ausência de nocicepção (dor profunda = lesão grave) Diagnóstico → Exame clínico: histórico e anamnese (comparar o animal antes e depois, analisar se há controle por parte dos responsáveis, como apoio por meio de objetos como bancos) e exame físico com a palpação da região medular (lembrar que deve haver uma mão de apoio na região abdominal para realizar a compressão da medula - preconiza-se na palpação renal vir lateralmente por baixo para não confundir lesões medulares com renais) ● Alterações comportamentais (comparativo - como o animal era antes e atualmente) ● Alterações de andadura - observar deangulação e realizar os testes de reações posturais: carrinho de mão (bipedal pélvico e torácico), hemissaltitamento, testes dos saltos e posicionamento proprioceptivo - em local liso pode haver deslizamento do paciente (realizar sobre tapete) → Sinais clínicos: função motora, tônus muscular, atrofia muscular e reflexos espinhais ★ Neurônio motor superior (NMS): conexão com o SNC e modula o NMI (regula a intensidade dos impulsos) = movimento inadequado / paresia espástica, ausência de atrofia muscular ou moderada, reflexos segmentares mantidos ★ Neurônio motor inferior (NMI): leva o impulso propriamente dito para os membros = paresia flácida ou paralisia, atrofia muscular rápida e grave, perda ou diminuição dos reflexos segmentares ⚠ O NMS parte do cérebro para a medula e o NMI, da medula para os membros. Normalmente quando há movimentação, mesmo que espástica = lesão no NMS / quando há paralisia = lesão no NMI. Tudo que é mais grave costuma resultar de quando o impulso que deveria chegar no membro não está chegando (lesões no NMI). Os sinais variam de acordo com local da lesão: C1-C5 = NMS // C6-T2 = NMI // T3-L3 = NMS // L4-S3 = NMI ⚠Avaliar o tônus muscular (varia de acordo com a raça) e reflexos (dígito-digital e depois com a pinça) ● Reflexos proprioceptivos: membro torácico = reflexo tricipital (nervo radial - C7-T2) e membro pélvico = reflexo patelar (nervo femoral - L4-L6) ● Reflexos nociceptivos: reflexo flexor pélvico (nervos periféricos - C6-T2), reflexo flexor pélvico (nervo ciático - L6-S2) e reflexos perianais (nervos perineal/pudendo - S1-S3) ● Reflexos nervosos craniais: → Exames complementares: radiografia, mielografia, tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM) ● RM: exame ouro, sensibilidade diagnóstica > 98,5%, com desempenho diagnóstico aprimorado sobre TC e melhor diferenciação entre extrusão do disco e protrusão ● TC: rápida, menor custo e uma sensibilidade diagnóstica de 81% a 100% em cães condrodistróficos com discos mineralizados, assim como na diferenciação do disco mineralizado extrusado agudo do crônico. É menos preciso em cães mais velhos (> 5 anos) e menores (cerebral e suas projeções para a medula espinhal e o cérebro) → A síndrome vestibular se desenvolve secundariamente à disfunção no sistema vestibular, possui como sinais clínicos a ataxia, rolamento, queda, inclinação da cabeça (head tilt) e nistagmo - o paciente continua andando, não há paraparesia. Conseguimos reverter a clínica, o grande desafio é descobrir a causa ⚠SNC gera afeção da parte mental, que não ocorre no SNP Etiologias → Otite média e interna: que surgem a partir da otite externa crônica em cães - comunicação do ouvido interno e médio com o sistema nervoso (e sistema respiratório, podendo haver sintomas concomitantes) → Distúrbios idiopáticos: causas desconhecidas (principalmente em gatos) → Deficiência de tiamina (B1): muitas vezes no tratamento já solicitamos juntamente → Encefalopatia isquêmica, meningite/meningoencefalomielite → Infartos vasculares, neoplasias, malformações congênitas Diagnóstico → Exame clínico: histórico e anamnese, exame físico para avaliar a região auricular - otoscopia, citologia e possibilidade de contraste no ouvido (para identificar rompimento de membrana timpânica) → Exames complementares: hemograma (inflamação/infecção) e bioquímica (prescrição de medicamentos, lesões renais/hepáticas, hipertireoidismo), exames de imagem (tomografia computadorizada, ressonância magnética e exame radiográfico) e análise do líquor → A síndrome vestibular é definida pela maioria dos especialistas como um distúrbio vestibular periférico agudo a superagudo, que melhora naturalmente e não causa dor que frequentemente afeta gatos de qualquer idade e cães geriátricos Tratamento → O tratamento para doenças vestibulares é de suporte: Anti-eméticos (Maropitant - Cerenia na dose 1 mg/kg, SID, para cães e gatos, a náusea pode afetar o apetite do animal) e Propentofilina (vasodilatador para cães: 3 mg/kg, BID) ⚠Vasodilatador para os cães se dá principalmente por afetar mais idosos, como nos gatos a idade não interfere na doença, o vasodilatador não é indicado em primeira instância → Prognóstico/evolução: animais com doença vestibular idiopática, otite média/interna e doença cerebrovascular geralmente apresentam resposta em poucos dias e melhora em 2 a 3 semanas Disfunção Cognitiva Introdução → Síndrome neurodegenerativa semelhante à doença de Alzheimer em humanos, muita observada em animais idosos - gatos acima de 10 anos e cães nos últimos 25% da expectativa de vida (padrão é 7 anos), alterando a expectativa de vida. Possui prevalência de 14 a 35% em cães com mais de 8 anos de idade → Mecanismo: dano oxidativo ➡ alterações vasculares ➡ formação de placas senis (ß amilóide) ➡ atrofia cerebral e perda neuronal → Sinais clínicos: alterações no sono e vigília, vocalização (sinal predominante), perda de direção (apoio em objetos), alteração no local de micção e defecação (podendo ocorrer por lesão articular ou disfunção) ● Alterações de comportamento (grande prevalência acima de 16 anos), memória e aprendizado - animal chorando, dormindo durante o dia e acordado durante a noite, não atende ao seu nome ● DISCA: D (desorientação), I (interação intra e interespécies), S (alterações no ciclo sono-vigília), C (perda do treino aprendido em casa) e A (alteração nas atividades) - em inglês DISHA → Durante o exame clínico: queixas com os sinais de desorientação, alterações do sono e déficit de memória e aprendizagem. O diagnóstico é presuntivo (só definitivo no post mortem) Tratamento → Uso de fármacos: ● Selegilina (cão na dose 0,5-1 mg/kg, SID, VO // gato na dose 0,25-1 mg/kg, SID, VO) - antidepressivo tricíclico, que inibe a MAO, administrar preferencialmente pela manhã ● Vasodilatadores cerebrais: Propentofilina (dose 3 mg/kg, BID, VO) e Nicergolina (dose 0,25-0,5 mg/kg, SID, VO) - dose para cão → Suplementação, dieta, enriquecimento ambiental e lembrar da importância de “cuidar do cuidador” Enfermidades na Oftalmologia Introdução → Considerações da Semiologia veterinária: ambiente (necessita de uma sala iluminada e uma escura para realização de testes), material, examinador e animal → Sinais clínicos na clínica oftalmológica: prurido (animais levam as patas nos olhos), oftalmorréia (termo técnico de secreção ocular) purulenta, escurecida, serosa, mucosa ou hemorrágica, diminuição da fissura palpebral (abertura diminuída, olho fica fechado), nistagmo (associado ao quadro neurológico), blefaroespasmo (animal pisca repetidamente o olho, podendo indicar dor), edema palpebral ⚠Epífora ou Dacriorréia: secreção que permanece um tempo no animal (nome popular é lágrima ácida), que com o tempo gera odor fétido e dermatite perceptível pelo responsável ⚠Animal sênior com lesão oftálmica tem muita miíase, por isso orienta-se manter o animal tosado. A Ceratoconjuntivite seca (CCS) é uma enfermidade que deve ser tratada a vida inteira Anatomia → Cães só possuem cílios na pálpebra superior (e não possuem pálpebra inferior), já gatos não têm cílios → Conjuntiva faz um saco conjuntival ⚠Na receita de um colírio, deve-se escrever no receituário “instilar“ (pingar) 1 gota (apenas, pois essa é a capacidade de absorção) em ambos olhos no saco conjuntival superior (o mais superior possível) e a pomada oftálmica no saco conjuntival inferior, sendo que o colirio deve ser aplicado primeiro do que a pomada → Esclera: parte branca do olho que faz conexão com a íris (composta por músculo circular e radial - midríase (dilatação) e miose (constrição)⚠Humor aquoso é responsável por lubrificar a córnea → Globo ocular: ● Camada externa ou fibrosa (esclera e córnea) ● Camada média ou vascular (íris, corpo ciliar, coróide) ● Camada interna ou nervosa (retina) ● Corpo vítreo e lente (cristalino) → Filme lacrimal (pré-corneal): saliva responsável pela lubrificação ● Lipídica (externa) - glândula tarsais ● Aquosa (média) - glândula lacrimal + glândula terceira pálpebra ● Mucosa (interna) - células conjuntiva → Aparelho Nasolacrimal - avaliação da produção lacrimal Quantitativo: ● Teste Lacrimal de Schirmer (TLS) ○ Normal: cão = 13-23mm/min; gato = 10-20mm/min (fita milimétrica) ○ Medida abaixo de 6mm já se considera um diagnóstico de diminuição da produção = ceratoconjuntivite seca inicial ● Teste de Pressão Intraocular (Tonometria) - Tonopen®: avalia a PIO ao encostar na córnea do animal anestesiado com a caneta (valor normal de 15-25 mmHg) Qualitativo: ● Tempo de Ruptura do Filme Lacrimal (Fluoresceína) ○ Após pingar o corante de fluoresceína (tem avidez pelo estroma), ele tem que desaparecer do olho do animal a partir de 20 segundos (normal = ocorre a ruptura do filme lacrimal, ou seja, a lágrima dispersou) ○ Dispersão abaixo deste deste tempo indica uma deficiência lacrimal ○ Para diagnóstico de úlcera, deve-se instilar e em seguida fazer a lavagem com soro fisiológico, ao ter o colírio retido é um indício que a camada mais externa da córnea foi lesionada (primeiro forma-se estrutura mais opaca e depois corada) ⚠Toda vez que for prescrever colírio com base de corticosteróide, deve fazer esse teste antes para identificar se há uma úlcera pequena não identificada (esses tipos de colírio agravam as úlceras) ● Teste de Robert Jones: avalia a drenagem lacrimal (fluoresceína sai pelo nariz) Terapêutica oftálmica → Antibióticos: Aminoglicosídeos (Tobramicina, gentamicina, neomicina), Quinolonas (Ciprofloxacina), Cloranfenicol e Tetraciclinas (pomada) → Antiinflamatórios: ● AIEs: dexametasona, prednisolona, betametasona, fluormetolona, hidrocortisona, rimexolona e loteprednol ● AINEs: diclofenaco de sódio, cetorolaco de trometamina, flurbiprofeno, bronfenaco, indometacina, pranoprofeno e nepafenaco Enfermidades Entrópio: → Relacionado à pálpebra - bordo palpebral voltado para dentro (normalmente inferior), podendo estar inclusive edemaciado. Tratamento cirúrgico, preconizado quando está lesando estrutura próxima à córnea Ectrópio:→ Bordo palpebral voltado para fora, podendo ocorrer infecção das glândulas localizadas no bordo → Tratamento: cirúrgico, especialmente havendo lesão Cílio ectópico, distiquíase e triquíase: → Cílio ectópico é o cílio se projetando para o olho, ao invés de para fora do olho, Distiquíase é o cílio voltado para dentro e Triquíase são os pelos encostando na estrutura oftálmica → Identifica-se uma estrutura preta localizada na conjuntiva, podendo haver blefaroespasmo, edema e inflamação no olho Epífora (Cromodacriorreia): → Superprodução lacrimal - anormalidades ou deficiências da função palpebral ou obstrução do sistema de drenagem nasolacrimal, causando irritação → Sondagem e lavagem ducto nasolacrimal: irrigação normógrada, cateter 20 a 24 (sem estilete) Blefarite: → Inflamação da pálpebra, pode ter causa alérgica, parasitária, infecciosa e autoimune → Sinais clínicos: edema, hiperemia, blefaroespasmo → Tratamento: limpeza, antibiótico e anti-inflamatório (local e sistêmico) - lembrar do teste de úlcera Conjuntivite: → Inflamação da conjuntiva, pode ter causa infecciosa, alérgica e processo irritativo local - pensar inicialmente em trauma → Sinais clínicos: hiperemia, quemose, secreção, blefaroespasmo e prurido → Tratamento: antibiótico e anti-inflamatório tópicos, antivirais (Idoxuridina 0,1% colírio), colar elizabetano (atenção, adjuvante para evitar trauma, precisa ser limpo e lavado, retirar durante a alimentação) Ceratite: → Inflamação da córnea (superficial ou ulcerada), pode ter causa de trauma, produção lacrimal reduzida, lesões químicas, pré-disposição racial ⚠Córnea é límpida, transparente e avascular, ao modificar algum destes parâmetros, existe algo errado → Ceratite superficial: sinais clínicos como edema, granulação, pigmentação e vasos - em gatos chama-se de ceratite herpética (causada por herpes vírus) → Ceratite ulcerada: caso grave, sinais clínicos como edema, granulação, pigmentação, vasos, úlcera - classificada como rasas (1/3 estroma), moderadas (1/2 estroma) e profundas (2/3 estroma) → Tratamento: antibiótico tópico, AIEs tópicos (somente superficial), vitamina A, colar elizabetano (apenas indicado se paciente estiver em tratamento medicamentoso pois é um agravador de estresse) Ceratite Eosinofílica (Ceratoconjuntivite proliferativa): → Enfermidade comum em felinos, de causa imunomediada, mas parece que o herpes vírus (FHV-1) está envolvido no desenvolvimento da enfermidade e da infiltração corneal por eosinófilos → Sinais clínicos: lesão de aspecto granular localizadas no quadrante temporal superior do limbo → Tratamento: corticoesteroides tópicos, ciclosporina tópica 1,5% Sequestro corneano: → O sequestro da córnea é uma enfermidade comum em felinos, afetando o estroma da córnea. Relato de acometimento maior em persas (braquicefálicos) - não há úlcera, córnea opaca com vascularização → Sinais clínicos: alteração na coloração da córnea (âmbar a preto opaco), geralmente unilaterais/ bilateral → Tratamento: cirúrgico (ceratectomia lamelar - está sendo utilizada pele de tilápia no lugar do flap para realizar a cirurgia) Ceratoconjuntivite Seca (CCS): → Pode ter como causas congênitas, lesões glandulares (lacrimal, meibomiana/ tarsal, conjuntiva), trauma cirúrgico, fármacos (Sulfa+Trimetoprim em superdose), hipovitaminose A, auto-imunes, idiopáticas → Sinais clínicos: blefarospasmo, secreção ocular mucóide/mucopurulenta persistente, ulceração (córnea exposta), conjuntivite ou ceratite crônicas, vascularização corneana e pigmentação, córnea opaca, eritema conjuntival e narinas secas → Diagnóstico: histórico, anamnese, exame físico e exame TLS = cães: menos de 9mm/min e gatos: menos de 6mm/min; Fluoresceína; Rosa bengala é utilizado para pacientes no limiar entre sadio e alterado, especialmente para aqueles desidratados (“border line” = 10-13mm) → Tratamento: lubrificantes, antibiótico e antiflamatório tópicos, antibiótico sistêmico, imunossupressores BID-TID com resultados de 2-3 meses - Ciclosporina (0,2-2%), Tacrolimus (0,03%) e Pimecrolimus (1%) Uveíte: → Inflamação da úvea (camada média do globo ocular), relacionada a enfermidades sistêmicas, principalmente em felinos. Pode ter como causas traumáticas, metabólicas, infecciosas, auto-imunes, idiopáticas - pode ocorrer devido erlichiose, cinomose, neoplasia, FIV/FeLV ou PIF → Sinais clínicos: conjuntivite (hiperemia), dor (um dos sinais clínicos mais notáveis, pode ter fotofobia e blefaroespasmo - diminuição da fissura palpebral), miose, íris edemaciada, hifema (presença de sangue)/ hipópio (presença de secreção purulenta na câmara anterior) e humor aquoso turvo (flare aquoso) → Diagnóstico: histórico, anamnese, exame físico (atenção a íris, notar a definição de fibras oculares e se há celularidade no humor aquoso), ultrassom oftálmico e testes sorológicos (principalmente em gatos) → Tratamento: AIES tópico (atenção, descartar se há úlcera), AIES sistêmico (Prednisona 0,5-2mg/kg/SID), AINES sistêmico (se não for AlES), antibiótico, midriático* (colírio de atropina 1%, SID ou TID - atenção, não usar casos de glaucoma e ceratite ulcerada por CCS) e manter paciente em baixa luminosidade Glaucoma: → Ocorre o aumento da pressão intraocular (PIO) na câmara anterior. Pode ser classificado em: ● Congênito primário: má formação do ângulo de drenagem (goniodigenesia) - comum em humanos ● Secundário: uveíte, neoplasia intraocular, catarata e luxação de cristalino → Sinais clínicos: edema corneano, blefaroespasmo, hiperemia conjuntival, congestão episcleral, midríase (atuação do sistema simpático e gera dor, não pode usar midiático*), buftalmia (aumento do tamanho do globo ocular) e comportamento sugestivo de dor (palpação dígito digital endurecida e não soft) → Diagnóstico: PIO normal é de 15-30mmHG. Tratamento: ● Diminuição da produção humor aquoso = Inibidores da anidrase carbônica: Dorzolamida 2% (1 gota /TID) ou Brinzolamida 1% (1 gota /TID) // Bloqueadores ß-adrenérgicos: Timolol (1 gota solução 0,25%/SID ou TID) ● Melhorar a drenagem = Pilocarpina 2% (TID-QID - alcalóide parassimpaticomimético) - atenção: não usar em casos de glaucoma secundário à uveíte*) ● Diminuição do volume intra-ocular = Manitol (1-2mg/kg, IV lento) Geriatria na rotina clínica Introdução → “Envelhecimento é o conjunto de alterações progressivas e irreversíveis que ocorrem após a maturidade, desencadeando diminuição na habilidade de responder às demandas do ambiente" (Derry, 2007) → Padronização do paciente sênior: o cão é considerado sênior a partir de 9 anos (últimos 25% de vida) e os gatos são considerados com mais de 10 anos de vida → Pilares fundamentais para o bem-estar do paciente: 1) Rotina nutricional e ambiente, 2) Prevenção e detecção precoce das enfermidades, 3) Imunoprofilaxia (analisar a condição de vida, os guidelines recomendam até o final da vida mas o clínico deve decidir a melhor conduta) → Objetivo da clínica geriática é oferecer qualidade de vida para dar longevidade que o animal merece- gerenciar a saúde e o bem-estar do animal idoso é uma tarefa importante da prática clínica ● Parceria fundamental entre o paciente, responsável (cuidado com o cuidador) e equipe veterinária ● A senilidade não é a enfermidade. O papel da equipe veterinária inclui a prestação de cuidados médicos e apoio aos animais de estimação idosos para manter a sua qualidade de vida, bem como apoiar e educar os clientes sobre os cuidados adequados com os animais idosos e abordar quaisquer equívocos sobre o processo de envelhecimento." 2023 AAHA Senior Care Guidelines for Dogs and Cats. *Dra. Mary Gardner é especialista mais famosa em geriatria ⚠Atenção as diversas particularidades: buldogue (CCS, síndrome do braquicefálico, hemivértebra, dermatite), pastor alemão (displasia coxofemoral, piodermite, otite), shitzu (CCS grave), gatos (DRC, hipertireoidismo, doença articular, doenças infecciosas, cardiomiopatiahipertrófica por tromboembolismo) O paciente sênior → Fragilidade: o paciente apresenta uma reserva funcional diminuída que leva a um déficit fisiológico e cognitivo (declínio da capacidade) → Imunosenescência: remodelação de órgãos linfóides, levando a alterações na função imunológica dos idosos, relacionado ao desenvolvimento de infecções, doenças autoimunes e tumores malignos → Inflamação: processo crônico normal pela oxidação celular, podendo ter associação a obesidade Síndrome Geriátrica canina → Avaliação da presença de mudanças físicas, mudanças funcionais, mudanças comportamentais, alterações metabólicas e candidatos a biomarcadores, fragilidade, doença clínica associada à idade (infecção, imunomediada e neoplasia) e se há qualidade de vida e sobrecarga do cuidador → Manejo do paciente geriatra: ● Manter a saúde e o peso ideal de acordo com a idade ● Impedir ou tornar mais lenta a progressão de enfermidade ● Minimizar ou melhorar sinais clínicos das enfermidades existentes Exame clínico: → Histórico/anamnese pela observação do responsável sobre: ingestão de água, apetite, defecação/micção, peso corporal, atividade física, alterações cutâneas/nódulos, alterações comportamentais - porém, deve-se ir além das informações do responsável → Uso de questionários: auxiliam a identificar problemas que o responsável pode não ter notado de outra forma. Fornecer às famílias um quadro de metas de cuidados também é útil → Exame físico: lembrar de pontos importantes de acordo com a necessidade (aferição de pressão) Exames complementares: → Exames laboratorias: hemograma completo, bioquímica e urinálise → Diagnóstico por imagem: ultrassonografia, radiografia e ECG → Exame coproparasitológico: em cães é indicado 1-4 vezes por ano e em gatos 1-2 vezes por ano → Dosagem hormonal em felinos é importante (devido ao hipertireoidismo) Manejo alimentar: → Deve-se considerar a frequência do alimento para manter o peso e massa muscular ideal e consistência (por exemplo se há lesão odontológica). Antes de recomendar qualquer mudança na dieta, deve ser realizada uma avaliação nutricional ⚠Sarcopenia: perda de peso e massa muscular X Caquexia: é a mesma perda envolvendo peso e massa envolvendo enfermidade associada (por exemplo DRC). Os cães sênior passam a perder 1-3% de massa por ano, enquanto que os gatos senior perdem 33% de massa por ano ⚠Obesidade sarcopênica: paciente obeso com perda de massa, substituida por tecido adiposo → Uma dieta para idosos pode incluir aumentos leves com proteínas de qualidade para compensar a perda → Gatos idosos saudáveis: dietas com maior densidade calórica e ricas em proteínas com maior digestibilidade e melhor palatabilidade alimentados em menores quantidades com mais frequência para ajudá-los a manter a massa muscular adequada e peso corporal ⚠Cuidado com a aversão alimentar Manejo higiênico: → Tendência de formação de cálculos dentários no quarto pré-molar superior (dente carniceiro, maior dente da maxila) e face lingual (interior) do incisivo inferior → Cuidados dentários rotineiros: escovação é considerada um dos meios mais eficazes de remoção de placa. Associar com enxaguatórios, aditivos de água e géis, brinquedos adequados para mastigar também podem ajudar a impedir o acúmulo de placa e cálculo dentário - indicação de produtos: Periovet e produtos da Virbac → Pele e pelagem: escovar; aparar pelos, principalmente nas patas traseiras, cauda e ao redor da vulva, pênis e ânus; usar lenços umedecidos ou lenços medicamentosos para manter o paciente limpo entre os banhos; monitorar pele e unhas em busca de vermelhidão, erupções cutâneas e inchaço Manejo ambiental: → Cuidados como piso antiderrapante, colchões e rampas; fornecer roupa de cama de boa qualidade e adequadamente acolchoada; cobrir pisos escorregadios com tapetes e tapetes seguros para tração → Evitar mudanças acentuadas no ambiente (principalmente se há um déficit visual) → Animais de estimação com mobilidade reduzida precisam de cuidados adicionais de enfermagem, incluindo serem levados para passear ou virar a cada poucas horas - indicar sling de suporte canino Considerações → Terapêutica: o essencial é não prejudicar o paciente e avaliar os medicamentos (apresentações, administração, se há interação medicamentosa e temperamento do animal - “polifarmácia”) - a atuação do clínico é fundamental para acompanhar a evolução do paciente → Detecção o mais breve possível de enfermidades - evitar o desenvolvimento de doenças, reduzir o impacto das enfermidades na saúde e melhorar a qualidade de vida, por meio de um conjunto de técnicas realizadas no tempo presente, em função dos riscos projetados para o surgimento ou agravamento de uma enfermidade no futuro Cuidados Paliativos Aumento da expectativa de vida dos animais → Mudança do perfil do animal na família (do quintal para o quarto) → Medicina preventiva e diagnóstico precoce de doenças → Dietas balanceadas e evolução da indústria farmacêutica pet → Capacitação dos médicos veterinários (baseada em evidências científicas e estudos clínicos) Envelhecimento → A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o envelhecimento como um processo sequencial, individual, cumulativo, irreversível, universal, não patológico de deterioração de um organismo maduro, próprio a todos os membros de uma espécie, de maneira que o tempo o torne menos capaz de fazer frente ao estresse do meio ambiente → Envolve: fatores genéticos e raça, fatores intrínsecos do indivíduo, fatores do ambiente, exposição à doenças e lesões, estresse e nutrição → Senescência: é o conjunto de fenômenos associados ao processo natural do envelhecimento → Senilidade: processo patológico do envelhecimento, marcado pela presença de doenças crônicas e outros fatores que comprometem a funcionalidade e qualidade de vida Doenças progressivas e doenças crônicas → Doença Renal Crônica, Neoplasia, ICC, Artropatias, Doenças endócrinas → Síndrome Disfunção Cognitiva, Epilepsia, Doenças congênitas e Doenças imunomediadas Qualidade de vida e dor → A qualidade de vida na veterinária deve considerar os sentimentos do animal, a forma como é mantido, a dieta, ambiente, apetite, e a presença de dor, desconforto, tédio e os tratamentos instituídos. Segundo a OMS, saúde é um “estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades” → A dor é entendida como uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada, ou semelhante àquela associada, a uma lesão tecidual real ou potencial Eutanásia → Surge com a necessidade de antecipar a morte (do grego “morrer bem” ou “boa morte”) → Já é uma possibilidade dentro da veterinária, apesar de ser o último recurso objetivado, sendo uma decisão conjunta entre o responsável e o MV (não deve ser imediata) → Fatores que influenciam na decisão: gravidade da doença; complexidade dos cuidados; custo do tratamento; grau de vínculo emocional; aspectos espirituais → Outros termos: ● Distanásia: adiamento da morte (prolongar a morte), geralmente pela utilização de fármacos e aparelhagens que, muitas vezes, proporcionam sofrimento desnecessário ● Ortotanásia: morte natural, é a escolha por não submeter um paciente com doença de grave ameaça a vida a procedimentos invasivos que adiam sua morte, mas, ao mesmo tempo, comprometem sua qualidade de vida. Utiliza todos os recursos terapêuticos para aliviar dor e qualquer outro desconforto, mantendo a dignidade do viver e do morrer ● Kalotanásia: movimento hospice (a morte bela e nobre), é uma morte natural englobando a família, os aspectos sociais e emocionais, e não somente a dor ⚠Cuidados paliativos vão mais para a ortotanásia e kalotanásia ⚠Diretrizes antecipadas de vontade sobre o que fazer em situações de emergência (ex ressuscitação) → Muitos responsáveis não retornam à clínica após ter um pet que morreu com eutanásia no local (Hélio Autran,2020) - referem que foi uma experiência ruim e há dificuldade no processo de luto. O procedimento de eutanásia pode ser na clínica/hospital ou em casa → Pontos essenciais segundo Dra. Mary Gardner - “LOVE” ● As pequenas coisas se referem à recepção do animal, acomodação dos responsáveis e à necessidade de uma sala reservada. O responsável deve ser o foco do MV neste momento. Deve ter uma voz calma, com comunicação empática e objetiva, explicando somente o necessário e nada a mais. Deve-se exceder as expectativas, após a eutanásia nada deve ser decidido, tudo precisa ser combinado previamente para não haver estresse para os responsáveis após o ato ● "Ao cuidar de uma doença você pode ganhar ou perder. Ao cuidar de um paciente você sempre ganha” - Patch Adams Finitude e Cuidados paliativos → Cuidado paliativo é a abordagem que promove qualidade de vida de pacientes e seus familiares diante de doenças que ameaçam a continuidade da vida, por meio da prevenção e alívio do sofrimento. Requer a identificação precoce, avaliação e tratamento impecável da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual - devem começar desde o diagnóstico de uma doença grave que ameaça a vida a curto ou longo prazo ⚠ É um equívoco pensar que os cuidados paliativos se resumem apenas aos cuidados dispensados à fase final da vida, quando “não há mais nada a fazer” (nenhuma terapia resolve) ⚠ Referências em cuidados paliativos: Cicely Saunders e Elizabeth Kluber Ross. A Dra. Cicely Saunders cria o conceito de dor total, reiterando a importância da dor emocional em um diagnóstico e no processo de desenvolvimento de uma doença, tanto para o paciente quanto para os responsáveis → O paciente nunca é terminal, deve-se pensar em paciente elegível para cuidados paliativos, com prognóstico de vida supostamente encurtado a meses ou anos. Comum em doenças de progressão lenta como o Mal de Alzheimer, algumas síndromes neurológicas e determinados tipos de tumor, mas o paciente CP na verdade é qualquer paciente com doenças que ameaçam a continuidade da vida. O paciente em processo de morte é aquele que apresenta sinais de rápida progressão da doença, com prognóstico estimado de semanas de vida a mês → Ação paliativa: qualquer medida terapêutica, sem intenção curativa, que visa a diminuir, em ambiente hospitalar ou domiciliar, as repercussões negativas da doença sobre o bem-estar do paciente. É parte integrante da prática do profissional de saúde, independente da doença ou de seu estágio de evolução → A terapia modificadora da doença (tratamentos e fármacos) tem como objetivo a cura da doença, mas à medida que ela não é mais efetiva, a intensidade e importância dos cuidados paliativos aumenta → Pontos-chave dos cuidados paliativos: ● Afirmar a vida e considerar a morte como um processo normal da vida ● Garantir a qualidade da vida e do morrer ● Cuidar dos aspectos clínicos, psicológicos, sociais, (espirituais) dos pacientes e familiares ● Priorizar sempre o melhor interesse do paciente ● Avaliar o custo-benefício de cada atitude médica assumida ● Repudiar futilidades (diagnóstica e terapêutica): um tratamento é considerado fútil quando a continuação do tratamento atual ou um novo tratamento não altera a evolução clínica do paciente, mesmo que tal tratamento leve a algum benefício ao responsável ⚠ ⚠Alguns responsáveis querem tratar demais (“overtreat”) seus pets devido a: ● Otimismo pouco realista. Incapacidade ou relutância em perceber o sofrimento do animal; ● Julgamento equivocado do que seria o melhor para o animal; ● Achar que parar de tentar "salvar" com medidas extremas seria abandonar ou desistir do animal; ● Ter certeza de que fez absolutamente tudo pelo animal; ● Incapacidade ou relutância em deixar o animal ir Escala de qualidade de vida: → Melhora a captação de informações sobre o paciente doente e são importantes em diversas situações clínicas, e é especialmente útil para auxiliar nas decisões clínicas/terapêuticas de pacientes com doenças que ameaçam a continuidade da vida - “5H2M de Alice Villalobos”: Hurt (sofrimento), Hunger (fome), Hidratação, Higiene, Happiness (felicidade), Mobilidade e Mais dias bons do que ruins → Comunicação: é uma ferramenta terapêutica, deve demonstrar segurança e empatia, gerenciar a angústia da família, escute as expectativas dos responsáveis, esclareça as possíveis formas de resolução do caso, apresente o plano terapêutico (e registre no prontuário), tire dúvidas e dê tempo para o entendimento ● É importante ficar atento para: a família compreende suas explicações? As expectativas do responsável são realistas? Há apoio psicológico, estrutura familiar, grau de ansiedade pela separação? Sua equipe está preparada para receber esse responsável, desde a recepção até a enfermagem e limpeza? ● Existem técnicas para conversar sobre as expectativas de vida: Guia para conversas difíceis e Protocolo “SPIKES” - sempre documente todas as recomendações ● Setting (S): conheça o caso, quem é esse cão/gato na família, escolha um local tranquilo para conversar, sem interrupções ● Perception (P): descubra o que o tutor já sabe sobre a situação do animal, o que ele acha que vai acontecer, evite pré-julgamentos ● Invitation (I): convide para a conversa, pergunte ao tutor o quanto de detalhes ele quer saber sobre a doença, ele gosta de saber detalhes ou quer só saber o que deve fazer ● Knowledge (K): já tendo ouvido o que o tutor sabe e o quanto ele quer saber, fale sobre a doença, situação do paciente, opções, sempre checando se está sendo entendido, evite termos técnicos ● Empatia (E): valide os sentimentos do tutor, chorar/ter raiva é uma reação normal com más notícias. Ofereça esperanças possíveis: terá o melhor tratamento, estar junto com vocês nessa jornada ● Strategy e Summary (S): explique quais os próximos passos, se houver mais de uma opção, deixe o tutor participar das decisões, resuma a situação e já agende a próxima consulta (sempre protocolar) Controle da dor: tratar mesmo que o medicamento abrevie a vida - bloqueio regional e infusão contínua Controle de outros sinais: vômito, náusea, diarréia, dispnéia - avaliar a manutenção do tratamento da doença de base, se houver Cuidados na enfermagem: prevenção de escaras (em animais que não levantam - úlcera de pressão contínua) e massagem para redução do edema, compressão vesical (em animais que não conseguem mais eliminar urina) e higiene Na internação: → Lembranças do ambiente familiar: objetos próprios, cama, brinquedos, roupa dos donos → Permitir maior frequência de visitas e tempo de visitas; Fornecer alimentos mais palatáveis → Estimulação mental: passeios, música, brincadeiras Terapia complementares: acupuntura, fisioterapia e hidroterapia - medicina baseada em evidências Tratamento domiciliar (home care): verificar a possibilidade, avaliando a capacidade emocional e técnica do responsável e a qualidade de vida do paciente Após a morte → Destinação do cadáver: cemitério para animais, enterro em ambiente familiar ou cremação → Doação de vasilhas, caminhas, medicações fechadas para instituições de caridade → Rituais são importantes: apoio após a morte, palavras de condolências e mural de de fotos → Famílias com crianças: orientação de ajuda psicológica e de livros “Céu dos Cachorros” e “Quando Seu Animal de Estimação Morre”. O livro O Menino, a Toupeira, A Raposa e o Cavalo diz: “ o que fazer quando nosso coração dói? nós o acolhemos com amizade, lágrimas compartilhadas e tempo, até que volte a despertar esperançoso e feliz. Às vezes o simples ato de se levantar e seguir em frente é algo corajoso e grandioso” Luto: é um processo único, pessoal, cada relação tem uma história, a reação a perda é única, pessoal e intransferível, não tendo certo ou errado e não sendo comparável - lembrete do autocuidado: todos os sentimentos são válidose devem ser respeitados Aula Prática - Estudo de casos clínicos Caso 1: Teo, cão, 2 anos, york, 5 kg, recém adotado → Histórico e anamnese: não tem histórico, tutor nunca teve cachorro, não sabe se foi vacinado ● Mora em apto, não é castrado, costumava viajar muito (região dos lagos - saquarema) ● Costumava ser animado, mas agora está um pouco mais quieto (pode ser a mudança de donos) ● Fezes e urina normais, bebe água (não sabe se é o suficiente) ● Tutora deixou ração num pote, não sabe a marca, já seu pele de frango - indicar ração → Exame físico: ● Aferição da PAS: 120 mmHg (normal) ● Coloração de mucosas: normocoradas / TPC: 2 segundos / Temperatura: 38,5 - 39,5 ● Cavidade oral sem sinal de gengivite ou tártaro / olhos sem secreção, nem opacidade ● Pavilhão auricular com cerume. Ausculta cardíaca: sem alterações, FC: 100 bpm / pulmonar: limpa mas com estertores (ruído de via aérea superior) ● Palpação: linfonodos sem alteração, lado direito (fígado), lado esquerdo (baço) se estiver aumentado geralmente ultrapassa o arco costal, bexiga se estiver repleta e alças intestinais → Solicitação de hemograma completo e bioquímica ● Resultado: foram observadas no esfregaço larvas de microfilária (provavelmente de dirofilaria) ● Teste confirmatório: teste rápido de diro → 4DXPlus: teste rápido de doenças transmitidas por artrópodes ● Canto superior esquerdo = controle (teste funcionando normalmente) ● Meio = Anaplasma platys (Erlichiai plats) e Anaplasma fagocitophylo ● Canto inferior direito = Dirofilaria (antígeno de verme fêmea madura) ● Canto inferior esquerdo: Ehrlichia canis e ewingii / embaixo = Borrelia (não tem no brasil) ** Ideal fazer um ecocardiograma se houver muita sintomatologia ** A prevenção é essencial (oral, tópico, injetável = fazer o teste e se der negativo pode aplicar o ProHeart - como preventivo a cada 1 ano, e como tratamento a cada 6 meses ** Anaplasma: o teste é de anticorpo, logo, indica exposição não necessariamente o animal está doente e no hemograma não observamos nenhuma alteração → Tratamento alternativo da dirofilariose: Doxiciclina durante 30 dias VO (diminuir a Wolbachia, bactéria endossimbionte da filária), importante oferecer com alimentação (principalmente em gatos, que pode ter esofagite). Fora do Brasil, utiliza-se o Diroban, 1 vez ao mês associamos a uma lactona macrocíclica, a mais eficaz atualmente é a moxidectina (advocate - tópico / pro-heart - injetável, como tratamento a cada 6 meses ) ou retirada cirúrgica de microfilárias associada com exame de imagens (“pescaria” -extração dos vermes adultos, risco é o rompimento de vermes e formação de trombos). Obs: Wolbachia é sensível a tetraciclinas ● Depois da melhora, realizar uma dose da vacina polivalente e vacina da raiva ● Acompanhamento do tratamento a cada 6 meses repete o antígeno, so negativa o animal com dois resultados negativos com intervalo de 6 meses, ou seja com 1 ano meio de tratamento Caso 2: Lino, gato, 5 kg, recém adotado → Histórico e anamnese: animal com feridas na pele, possui outros gatos (quando adotou zezinho é testado, luizinho e fred não sabe - disseram pra ela que eram negativos) ● Pegou o gato há 1 semana, disse que está isolado dos outros gatos, disse que aplicou um “spray” (Rifocina, talvez, usou da receita do outro gato, disse que ficou manchado) ● Animal com feridas no membro pélvico, arisco e medroso, come normal ração ● Tutora relata que não está com feridas e que os outros gatos não estão também → Suspeita de esporotricose: ● Apresenta lesões em narina e orelhas (pavilhão auricular) ● Foi feita citologia por imprint e corou com panóptico: observamos conídios de Sporothrix ** PCR não funciona para esporo e cultura demora muito → Tratamento: ● Itraconazol (10mg Kg, se o gato for muito pequeno diminui a dose)por no mínimo 6 meses até a cura clínica e depois por mais 2 meses no mínimo. ● Sempre dar junto com o alimento para melhor absorção e fazer acompanhamento das enzimas hepáticas (pois é hepatotóxico) e acompanhamento mensal (qualquer outra alteração trazer o animal na clínica antes). Manter o animal isolado. Se tiver FELV dificulta o prognóstico Durante a consulta: → Palpação de órgãos: Fígado do lado direito e Baço do lado esquerdo, ambos no limite do gradil costal. Em casos de hepatomegalia ou esplenomegalia, os órgãos ultrapassam o gradil. Estômago, na região epigástrica, em baixo do esterno. Alças intestinais e bexiga na região hipogástrica (bem caudal). → Doenças que causam hipertensão em cães: hipercortisolismo e DRC ● Terapêutica em cão: Benazepril (inibidor da ECA) → Doenças que causam hipertensão em gatos: hipertiroidismo e DRC ● Terapêutica em gato: Anlodipino e Losartana (mas pode ter efeito colateral de cegueira) - em gato hipertireoideo caso a frequência cardiovascular esteja aumentando pode usar beta bloqueador (Atenolol) ** Os inibidor da ECA e bloqueador de canais de cálcio possuem efeito renoprotetor diminui pressão intraglomerular ** Se tiver uma azotemia grave ocorre diminuição da taxa de filtração e deve parar de usar. Por isso, após uma semana de administração de iECA tem que fazer o acompanhamento da creatinina e uréia, e esse aumento não pode ultrapassar 30% em animais que não tem problema renal e 10% em animal doente renal. Ou seja, não usar iECA acima de creatina 5 ** Órgãos que podem ter acometimento pela hipertensão são rins, olhos, coração e cérebro Exercícios sobre oftalmologia → Quando houver miose, utilizamos um colírio que causa midríase (oposto), e quando houver midrise utilizamos colírio que causa miose. Quando há casos de glaucoma secundário à uveíte o ideal é não utilizar colírio que interfira na pupila, uma vez que a uveíte causa miose e o glaucoma causa midríase → Caso 1: Um cão da raça Shih Tzu foi atendido com quadro clínico de conjuntivite. Foi realizado tratamento adequado (AIES e AB tópicos) com melhora dos sinais clínicos, entretanto responsável ainda relata a presença de oftalmorréia discreta. O que deverá ser avaliado neste paciente? R: se há lesões ciliares e úlcera, obstrução de ducto, CCS (braquicefálico), se há ulcera → Caso 2: Um felino com diagnóstico de ceratite eosinofílica começaria o tratamento tópico com anti-inflamatório esteroide. Entretanto, durante o exame físico oftálmico, foi verificado ceratite profunda (úlcera). Este tratamento, inicialmente, proposto e recomendado? Justifique. R: Não, pois diminui a cicatrização → Caso 3: Um felino com diagnóstico de uveíte foi submetido a diferentes exames complementares para pesquisa de enfermidades sistêmicas. A conduta está correta? Justifique. R: O trato uveal é a camada vascular e responde → Caso 4: Um cão foi encaminhado para atendimento com relato de sinais clínicos de dor nos olhos (oftalmalgia). Quais enfermidades são sugeridas inicialmente? R: uveíte, conjuntivite e glaucoma