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Direito Civil – Parte Geral
Professora: Carla Froener
E-mail: carlafroener@gmail.com
AULA 12
NEGÓCIO JURÍDICO
Defeitos e invalidade
SUMÁRIO DA AULA
1. Defeitos do negócio jurídico - continuação
1.1. Vícios da vontade (aula passada)
1.2. Vícios sociais
1.2.1. Simulação
1.2.2. Fraude contra credores
2. Invalidade do negócio jurídico
DEFEITOS (OU VÍCIOS) DO NEGÓCIO JURÍDICO
São imperfeições que podem surgir no negócio jurídico, decorrentes de
anomalias na formação da vontade ou na sua declaração.
Como o problema atinge a vontade, repercute na validade do negócio
jurídico celebrado.
Estão previstos nos art. 138 a 165 e 167 do CC.
CLASSIFICAÇÃO DOS DEFEITOS
Os vícios ou defeitos do negócio jurídico são divididos em duas
modalidades:
* Vícios da vontade ou do consentimento: - erro ou ignorância
- dolo
- coação
- estado de perigo
- lesão
* Vícios sociais: - simulação
- fraude contra credores
SIMULAÇÃO (art. 167 CC)
É uma declaração falsa de vontade com a finalidade de aparentar negócio
jurídico diverso do efetivamente desejado (aparência contrária à realidade).
É produto de um conluio entre os contratantes (desconformidade
consciente da declaração de vontade), com o objetivo de enganar terceiros ou
fraudar a lei. Ex: formaliza-se um contrato de compra e venda quando, na
verdade, ocorre uma doação (objetivo de pagar menos imposto).
A simulação acarreta nulidade absoluta.
Espécies de SIMULAÇÃO
* Simulação absoluta: situação em que, aparentemente, existe um negócio
jurídico celebrado pelas partes, mas que na essência inexiste qualquer
negócio. As partes apenas fingem para criar uma aparência (ilusão externa),
sem que na verdade desejem a realização do ato.
Ex: transferência de bens a um amigo para diminuir a participação do cônjuge
na partilha.
* Simulação relativa: situação em que, aparentemente, as partes celebram
um determinado negócio jurídico, mas que na essência vigora outro negócio.
Ex: simulação de compra e venda, quando ocorre uma doação; valor lançado
na escritura inferior ao real.
Art. 167 CC. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se
dissimulou, se válido for na substância e na forma. - se o negócio realmente
ocorreu, pode ser mantido.
§ 1 o Haverá simulação nos negócios jurídicos quando:
I - aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às
quais realmente se conferem, ou transmitem; - ex. cônjuge que transfere bens a
um amigo para que eles não entrem na partilha da separação.
II - contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; - ex.
declaração de valor inferior ao verdadeiro na escritura.
III - os instrumentos particulares forem antedatados, ou pós-datados. - falsidade
na data.
FRAUDE CONTRA CREDORES (art. 158-165 CC)
É a atuação maliciosa do devedor (intenção de prejudicar credores), em
estado de insolvência ou na iminência de assim tornar-se, que dispõe de
maneira gratuita ou onerosa o seu patrimônio, para afastar a possibilidade de
seus bens responderem por obrigações assumidas em momento anterior à
transmissão (prejuízo aos credores).
Está baseado no princípio de que o patrimônio do devedor responde por
suas obrigações.
Insolvência: ocorre quando o passivo supera o ativo, ou seja, quando as dívidas de
uma pessoa são maiores do que o seu patrimônio.
Ação para fraude contra credores
A ação que deverá ser proposta denomina-se Revocatória ou Pauliana.
Apenas os credores que já o eram ao tempo dos atos de fraude podem
pleitear a anulação deles (art. 158, §2º CC) – insolvência anterior ao negócio
jurídico fraudado.
Legitimados passivos (art. 161 CC): a ação poderá ser proposta contra o
devedor insolvente, a pessoa que celebrou com ele a estipulação considerada
fraudulenta ou terceiros adquirentes que tenham agido de má-fé.
Art. 164 CC. Presumem-se, porém, de boa-fé e valem os negócios ordinários
indispensáveis à manutenção de estabelecimento mercantil, rural, ou
industrial, ou à subsistência do devedor e de sua família.
Ex.: o dono de uma loja pode continuar vendendo as mercadorias expostas
nas prateleiras de seu estabelecimento, mas não poderá vender o próprio
estabelecimento.
Prazo – FRAUDE CONTRA CREDORES
É de quatro anos o prazo para requerer a anulação do negócio jurídico por
fraude contra credores, contado do dia em que se realizou o negócio.
Artigo 178, inciso II, do Código Civil.
Relembrando...
Art. 104 CC. A validade do negócio jurídico requer:
I - agente capaz;
II - objeto lícito, possível, determinado ou determinável;
III - forma prescrita ou não defesa em lei.
INVALIDADE DO NEGÓCIO JURÍDICO (art. 166 - 184 CC)
A expressão invalidade em sentido amplo é empregada para designar o
negócio que não produz os efeitos desejados pelas partes envolvidas.
Dependendo da natureza do vício e da contaminação que ele traz ao
negócio, será considerado:
1- inexistente
2- nulo (nulidade absoluta)
3- anulável (nulidade relativa ou anulabilidade).
1- NEGÓCIO JURÍDICO INEXISTENTE
Não há previsão expressa no Código Civil Brasileiro, sendo uma classificação
adotada pela doutrina e jurisprudência.
O negócio inexistente é aquele que não gera efeitos no âmbito jurídico, pois
não preencheu os requisitos mínimos constantes do seu plano de existência:
partes, vontade, objeto e forma.
Assim, são considerados como se nunca tivessem existido. Ex: casamento
celebrado por autoridade incompetente.
2- NEGÓCIO JURÍDICO NULO (nulidade absoluta)
É a sanção imposta pela lei que determina a privação dos efeitos jurídicos
do ato negocial, praticado em desobediência ao que ela prescreve.
Na nulidade absoluta o negócio jurídico não produz efeitos pela ausência
dos requisitos para o seu plano de validade. Ex.: negócio celebrado por
absolutamente incapaz.
As nulidades podem ser alegadas por qualquer interessado ou pelo
Ministério Público, quando lhe couber intervir (art. 168 CC).
O negócio jurídico nulo não é suscetível de confirmação, nem convalesce
pelo decurso do tempo (art. 169 CC).
Art. 166. É nulo o negócio jurídico quando:
I - celebrado por pessoa absolutamente incapaz sem a devida representação
(art. 3º CC). Ex. Contrato assinado por pessoa de 15 anos de idade.
II - for ilícito - aquele que é contrário à lei, ex. drogas proibidas
impossível - aquele que não pode ser realizado, ex. compra de um terreno no
céu ou herança de pessoa viva
ou indeterminável o seu objeto - aquele que não é especificado, por ex.
compra de um carro sem especificar as placas ou Renavan.
Art. 166. É nulo o negócio jurídico quando (cont.):
III - o motivo determinante, comum a ambas as partes, for ilícito - o “motivo”
é ilícito e não o “negócio jurídico”. Ex. a venda de um automóvel para que seja
utilizado num sequestro; o empréstimo uma arma para matar alguém; e o
aluguel de uma casa para a exploração da prostituição. Nestes exemplos, a
venda, o comodato e o aluguel não são negócios que contrariem o Direito, mas
o motivo determinante deles, comum a ambas as partes (sequestrar, matar e
explorar a prostituição), é ilícito.
IV - não revestir a forma prescrita em lei; ex. casamento exige o processo de
habilitação.
Art. 166. É nulo o negócio jurídico quando (cont.):
V - for preterida alguma solenidade que a lei considere essencial para a sua
validade; Ex. o negócio será nulo se não respeitar o art. 108 CC que diz que a
escritura pública é uma forma indispensável para a compra de imóveis com
valor superior a trinta salários mínimos.
VI - tiver por objetivo fraudar lei imperativa; - fraudar a imposição da lei.
VII - a lei taxativamente o declarar nulo, ou proibir-lhe a prática, sem cominar
sanção. Ex. art. 426 CC proíbe contrato de herança de bens de pessoa viva.
Art. 167 CC. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se
dissimulou, se válido for na substância e na forma.
Resumo:
• Simulação absoluta -> o negócio é nulo
ex. homem que passa bens para um amigo para não dividir na partilha da
separação.
• Simulação relativa -> o negócio pode ser mantido, se feitas as correçõesex. pai que doa imóvel ao filho, mas simula uma compra e venda; ou escritura
pública que é lavrada com o valor do imóvel inferior ao real.
3- NEGÓCIO JURÍDICO ANULÁVEL (nulidade relativa ou anulabilidade).
É a sanção imposta pela lei aos atos e negócios jurídicos realizados por
pessoa relativamente incapaz ou eivados de algum defeito do negócio (vício
do consentimento {erro, dolo, coação, estado de perigo e lesão} ou vício social
{fraude contra credores}).
Por ser anulável, será considerado válido se o interessado se conformar
com os seus efeitos e não o reclamar nos prazos legais. Assim, caso não haja
decisão judicial declarando anulabilidade do negócio jurídico, o mesmo se
aperfeiçoará pelo tempo, convalidando-se – art. 177 CC.
Art. 171 CC. Além dos casos expressamente declarados na lei, é anulável o
negócio jurídico:
I - por incapacidade relativa do agente sem a devida representação.
Art. 4º CC: I - os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos; II - os
ébrios habituais e os viciados em tóxico; III - aqueles que, por causa
transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade; IV - os
pródigos.
II - por vício resultante de erro, dolo, coação, estado de perigo, lesão ou
fraude contra credores.
Prazos para anulação do negócio
Art. 178 CC. É de quatro anos o prazo de decadência para pleitear-se a
anulação do negócio jurídico, contado:
I - no caso de coação, do dia em que ela cessar;
II - no de erro, dolo, fraude contra credores, estado de perigo ou lesão, do dia
em que se realizou o negócio jurídico;
III - no de atos de incapazes, do dia em que cessar a incapacidade.
Art. 179 CC. Quando a lei dispuser que determinado ato é anulável, sem
estabelecer prazo para pleitear-se a anulação, será este de dois anos, a contar
da data da conclusão do ato.
EFEITOS DA DECLARAÇÃO DE INEFICÁCIA DOS NEGÓCIOS
JURIDICOS
1- Atos Inexistentes
Não há convalidação de atos inexistentes, pois não há como tornar válido
ato que nunca existiu para o Direito.
Ex: casamento celebrado por autoridade incompetente.
2- Atos Nulos
Atos nulos não produzem efeitos, porém a declaração de nulidade de um
ato não abrange, necessariamente, todo o negócio jurídico.
Assim, a declaração de nulidade de ato acessório não implica na nulidade
do principal. Entretanto, se o ato principal for nulo, assim também será o
acessório. Ex: empréstimo com juros não pactuados.
3- Atos Anuláveis
Atos anuláveis necessitam de decisão judicial para desobrigar as partes
envolvidas, que serão os únicos legitimados a ingressar com a ação.
O juiz não pode fazer a declaração de ofício (sem provocação das partes).
Os efeitos da sentença valerão a partir da decisão judicial (ex nunc – não
retroagem) e apenas para as partes (inter parts) – art. 177 CC.
O ato anulável é o único dos atos ineficazes em que pode ocorrer a sua
convalidação (art. 172 CC), que poderá se dar em decorrência do decurso do
tempo (sem que a parte a quem cabia propor a ação, alegar a existência do
vício) ou em decorrência de ratificação do ato pela parte (art. 173 CC).
CONVERSÃO DO NEGÓCIO JURÍDICO
Art. 169 CC. O negócio jurídico nulo não é suscetível de confirmação, nem
convalesce pelo decurso do tempo.
Art. 170 CC. Se, porém, o negócio jurídico nulo contiver os requisitos de
outro, subsistirá este quando o fim a que visavam as partes permitir supor que
o teriam querido, se houvessem previsto a nulidade.
Ex: Simulação de compra e venda para fins de doação.
NULIDADE
(Nulidade absoluta)
• Pode ser declarada ex officio pelo Juiz
(sem pedido da parte).
• Pode ser analisado a qualquer tempo e
grau de jurisdição.
• Não admite confirmação posterior por
representar afronta a matéria de
ordem pública.
• Reconhecimento culmina em efeitos ex
tunc (a invalidade dos efeitos retroage
à data de celebração do negócio).
ANULABILIDADE
(Nulidade relativa)
• Depende de manifestação pela parte
interessada ou pelo Ministério Público, nos
casos em que este pode intervir.
• Deve ser arguida pelo interessado no prazo
estipulado pela lei, sob pena de se convalidar.
• Pode ser confirmado posteriormente por
quem de direito.
• Reconhecimento culmina em efeitos ex nunc
(a invalidade dos efeitos ocorrem a partir da
data da declaração da anulação).
Direito Civil
Parte Geral
Professora: Carla Froener
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