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DIREITO DAS COISAS – AULA 04 PROPRIEDADE Art. 1.228. O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha. § 1º O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais e de modo que sejam preservados, de conformidade com o estabelecido em lei especial, a flora, a fauna, as belezas naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico, bem como evitada a poluição do ar e das águas. § 2º São defesos os atos que não trazem ao proprietário qualquer comodidade, ou utilidade, e sejam animados pela intenção de prejudicar outrem. § 3º O proprietário pode ser privado da coisa, nos casos de desapropriação, por necessidade ou utilidade pública ou interesse social, bem como no de requisição, em caso de perigo público iminente. § 4º O proprietário também pode ser privado da coisa se o imóvel reivindicado consistir em extensa área, na posse ininterrupta e de boa- fé, por mais de cinco anos, de considerável número de pessoas, e estas nela houverem realizado, em conjunto ou separadamente, obras e serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico relevante. § 5º No caso do parágrafo antecedente, o juiz fixará a justa indenização devida ao proprietário; pago o preço, valerá a sentença como título para o registro do imóvel em nome dos possuidores. Art. 1.229. A propriedade do solo abrange a do espaço aéreo e subsolo correspondentes, em altura e profundidade úteis ao seu exercício, não podendo o proprietário opor-se a atividades que sejam realizadas, por terceiros, a uma altura ou profundidade tais, que não tenha ele interesse legítimo em impedi-las. Art. 1.230. A propriedade do solo não abrange as jazidas, minas e demais recursos minerais, os potenciais de energia hidráulica, os monumentos arqueológicos e outros bens referidos por leis especiais. Parágrafo único. O proprietário do solo tem o direito de explorar os recursos minerais de emprego imediato na construção civil, desde que não submetidos a transformação industrial, obedecido o disposto em lei especial. Art. 1.231. A propriedade presume-se plena e exclusiva, até prova em contrário. Art. 1.232. Os frutos e mais produtos da coisa pertencem, ainda quando separados, ao seu proprietário, salvo se, por preceito jurídico especial, couberem a outrem. DIREITO DAS COISAS – AULA 04 CONCEITO Nos termos do art. 5.º, XXII, da Constituição Federal, a propriedade é tratada e garantida como um direito fundamental. Logo em seguida, o inciso XXIII dispõe que “a propriedade atenderá a sua função social”. Portanto, o direito de propriedade consiste no direito real de usar, gozar ou fruir, dispor e reivindicar a coisa, nos limites da sua função social. Propriedade plena Quando o proprietário reúne todas essas faculdades (ou poderes). O § 2.º do art. 1.228 do CC proíbe os denominados atos emulativos, ou seja, aqueles que não trazem ao proprietário qualquer comodidade, ou utilidade, e sejam animados pela intenção de prejudicar outrem. Em outras palavras, esta norma veda o abuso do direito de propriedade. PROPRIEDADE, DOMÍNIO E DIREITO À PROPRIEDADE No texto do Código Civil de 2002 é possível constatar que as palavras “propriedade” e “domínio” são usadas, em diversas passagens, como sinônimas. A título de exemplo, observe-se que o parágrafo único do art. 39 e o art. 98 do CC/2002. Todavia, em uma visão clássica, as palavras também encontram distinção. Conforme observam os talentosos amigos NELSON ROSENVALD e CRISTIANO CHAVES DE FARIAS: Para aqueles que operam uma distinção entre os dois vocábulos, a palavra propriedade seria mais genérica, referindo-se a todos os direitos suscetíveis de apreciação pecuniária. A propriedade compreenderia o domínio que é um direito de propriedade sobre coisas. Como consequência de sua maior amplitude, seria possível falar de propriedade literária, científica, artística ou industrial para aludir a situações complexas e absolutamente alheias ao domínio. Mestre PAULO LÔBO: Há quem distinga propriedade e domínio, pois “a propriedade contemporânea possui elementos de ordem real e pessoal a conviver em um mesmo instituto” (Aronne, 1999, p. 34). Segundo essa concepção o direito de propriedade contém um elemento interno (domínio, composto dos direitos de usar, gozar e dispor da coisa) e um elemento externo (regime de titularidade, composto pelos deveres do sujeito passivo universal e pelos deveres funcionais do titular em relação à sociedade como um todo e, em especial, a certos particulares). Pontes de Miranda (2012, v. 11, p. 95 e 131) tem a propriedade como gênero, do qual são espécies o domínio e os demais direitos reais, sendo que o domínio é o mais abrangente dos direitos reais, ou “o mais amplo poder que se pode exercer sobre a coisa”, cabendo à lei dar o conteúdo da propriedade e do domínio. DIREITO DAS COISAS – AULA 04 Além disso, há de se destacar que, muitas vezes, utiliza-se a expressão “domínio” com um significado de controle físico sobre a coisa, não necessariamente como um direito de propriedade. A priori, é possível, sim, fazer a distinção clássica entre as expressões “propriedade” e “domínio”, compreendida a primeira como um direito mais amplo, abrangente de bens materiais e imateriais, que legitima a titularidade do sujeito, ao passo que a segunda, restrita a bens corpóreos, traduz uma perspectiva material de poder, de submissão da coisa. E, na medida em que o domínio é compreendido no ângulo do próprio conteúdo do direito de propriedade, não pode ser confundido com a mera situação fática da posse, em que não se discute domínio ou sequer propriedade. Todavia, mesmo admitindo a distinção teórica, há de se convir que ela não é tão relevante na prática, diante da própria legislação positivada, como aqui já demonstrado, podendo, inclusive, gerar confusão. É relevante também distinguir o “direito de propriedade” do “direito à propriedade”. Tratando desta distinção, ensina o grande PAULO LÔBO: Além do direito de propriedade, há o direito à propriedade ou o direito de acesso à propriedade, com fundamento na Constituição (exemplos, o direito à moradia e o direito à aquisição por usucapião especial de tempo breve) e na legislação infraconstitucional (exemplos: no Código Civil, o art. 1.228, §§ 4.º e 5.º, e na Lei n. 11.977/2009, do Programa Minha Casa, Minha Vida). Para Rodrigo Xavier Leonardo (2004, p. 280), o direito à propriedade detém conteúdo diverso do direito de propriedade, vez que se trata de um direito fundamental de acesso à propriedade, de bens voltados para possibilitar a efetivação dos direitos fundamentais anteriores – previstos no mesmo caput do art. 5.º - referentes à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança, que não podem ser garantidos sem um mínimo de propriedade que lhes garanta o acesso real ou a manutenção de uma real condição de dignidade. No plano internacional, o direito à propriedade está enunciado no art. 17 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. É notável que a Declaração não aluda ao direito “de” propriedade, mas “à” propriedade. Como diz Eduardo Novoa Monreal (1979, p. 134), o fundamental dentro do texto contido na Declaração é propugnar que todo homem deve ter acesso à propriedade, que é mais importante que dar garantia aos atuais titulares, de modo a que a propriedade se difunda coletivamente entre todos os homens, seja ela individual ou coletiva. Tal distinção se mostra importante justamente para o reconhecimento do “direito à propriedade” como um direito fundamental, podendo o “direito de propriedade” ser suprimido, quando não atender à sua função social. Esclarecidos esses aspectos, explicitaremos, no próximo tópico, para efeito didático, os elementos constitutivos da propriedade. DIREITO DAS COISAS – AULA 04 ELEMENTOS CONSTITUTIVOS (PODERESINERENTES À PROPRIEDADE) Ao conceituarmos o direito de propriedade como o direito real de usar, gozar ou fruir, dispor e reivindicar a coisa, nos limites da sua função social, já apresentamos ao leitor os seus elementos constitutivos, que são justamente os poderes inerentes à propriedade. São eles: a) Jus utendi: direito de tirar do bem todos os seus proveitos, sem que haja alteração em sua substância, ou seja, usar a propriedade de todas as formas previstas ou não vedadas em lei; b) Jus fruendi: direito de perceber os frutos e de utilizar os produtos da coisa, ou seja, de fruir ou gozar todos os benefícios lícitos que a propriedade possa proporcionar; c) Jus abutendi ou disponendi: direito de dispor da coisa. Por dispor, entenda-se a prerrogativa de transferir o bem, a qualquer título, o que também abarca a possibilidade de consumi-lo. Esclareça-se, de logo, que inexiste um “direito ao abuso”, como a expressão jus abutendi pode equivocadamente soar na primeira leitura (e consistiria em uma violação ao já explicado princípio da vedação ao abuso de direito), mas, sim, apenas o exercício de um direito de disposição da coisa; d) Jus reivindicatio ou rei vindicatio: direito que tem o proprietário de buscar o bem de quem injustamente o detenha. Observe-se que os poderes ou faculdades são oponíveis erga omnes. E todos eles são limitados pela principiologia dos direitos reais, notadamente a função social, dada a impossibilidade jurídica de se falar em direitos absolutos na contemporaneidade, inclusive da propriedade. CARACTERÍSTICAS Principais características do direito de propriedade é: a) complexo: pois é formado por um conjunto de poderes ou faculdades, sendo o mais completo de todos os direitos reais; b) absoluto: a oponibilidade é erga omnes, podendo o seu titular desfrutar do bem como lhe aprouver, sujeitando-se às limitações constitucionais e legais; c) perpétuo: não se extingue, simplesmente, pelo não uso, podendo ser transmitido indefinidamente por gerações; d) exclusivo: ressalvadas certas situações, a exemplo do condomínio e da multipropriedade, o poder dominial de alguém exclui o de outrem, concomitantemente, sobre a mesma coisa, sendo essa, portanto, a regra geral; e) elástico: pode ser distendido ou contraído na formação de outros direitos reais sem perder sua essência. DIREITO DAS COISAS – AULA 04 A propriedade é “elástica” porque certos poderes ou faculdades que lhe são inerentes poderão ser destacados, para que sejam formados outros direitos, sem que isso implique sua destruição. Assim, há, na propriedade, uma peculiar elasticidade estrutural, conforme se lhe subtraiam ou reintegrem poderes destacáveis. Exemplo: mediante ajuste de vontades e o devido registro, podem ser destacadas as faculdades de usar e fruir um imóvel, em favor do usufrutuário, permanecendo o titular com um direito limitado de propriedade (nua-propriedade). Uma vez extinto o usufruto, aquelas faculdades retornam, consolidando o direito pleno de propriedade. Diferença entre “propriedade resolúvel” e “ad tempus”. Observa ORLANDO GOMES: A perpetuidade é um dos caracteres do direito de propriedade. Daí se dizer que a propriedade é irrevogável: “Semel dominus semper dominus”. Normalmente, a propriedade tem duração ilimitada. É perpétua. Por exceção, admite-se propriedade revogável que se configura quando, no próprio título de sua constituição, por sua própria natureza ou pela vontade do agente ou das partes, se contém condição resolutiva. Diz-se, então, que a propriedade é resolúvel como acontece, no fideicomisso, com a propriedade do fiduciário, e, na retrovenda, com a propriedade do comprador. Não são casos de propriedade resolúvel aqueles nos quais a revogação se funda em causa superveniente à aquisição. (RA) Restou aberto (do art. 1.361 a 1.368) capítulo especial no CCB de 2002 para tratar da propriedade fiduciária, hipótese de propriedade resolúvel de coisa móvel infungível que o devedor transfere ao credor com escopo de garantia (RA). Assim, propriedade resolúvel é aquela que tem, em seu próprio título constitutivo, um elemento que limita potencialmente a sua duração, como uma condição resolutiva. A propriedade fiduciária, por sua vez, foi tratada, pelo CC/2002, em capítulo próprio. Já a propriedade ad tempus tem características próprias, embora esteja tratada, em nosso Código, no capítulo dedicado à propriedade resolúvel. Trata-se de uma modalidade de propriedade que, a priori, é constituída para ser definitiva e perpétua. Todavia, por um fato superveniente, ocorre a sua extinção, como é o caso da revogação da doação por ingratidão do donatário. Confira-se, a respeito desse instituto, o art. 1.360, do Código Civil: Art. 1.360. Se a propriedade se resolver por outra causa superveniente, o possuidor, que a tiver adquirido por título anterior à sua resolução, será considerado proprietário perfeito, restando à pessoa, em cujo benefício houve a resolução, ação contra aquele cuja propriedade se resolveu para haver a própria coisa ou o seu valor. DIREITO DAS COISAS – AULA 04 EXTENSÃO A propriedade do solo, a teor do art. 1.229, abrange a do espaço aéreo e subsolo correspondentes, em altura e profundidade úteis ao seu exercício, não podendo o proprietário opor-se a atividades que sejam realizadas, por terceiros, a uma altura ou profundidade tais, que não tenha ele interesse legítimo em impedi-las. MARIA HELENA DINIZ, referindo-se ao proprietário: Não pode impedir que um avião passe por sobre sua casa ou a colocação de cabos aéreos de energia elétrica ou, ainda, que perfurem o subsolo para a instalação de condutos subterrâneos de serviço de utilidade pública (CC, art. 1.286) ou de metrô, pois não tem nenhum interesse em impugnar a realização de trabalhos que se efetuem a uma certa altura e a profundidade tal que não acarrete risco para a sua segurança138. Vale destacar uma interessante aplicação do art. 1.229 realizada no seguinte julgado do Superior Tribunal de Justiça: DIREITO CIVIL. DIREITO DE PROPRIEDADE DE SUBSOLO. No caso em que o subsolo de imóvel tenha sido invadido por tirantes (pinos de concreto) provenientes de obra de sustentação do imóvel vizinho, o proprietário do imóvel invadido não terá legítimo interesse para requerer, com base no art. 1.229 do CC, a remoção dos tirantes nem indenização por perdas e danos, desde que fique constatado que a invasão não acarretou prejuízos comprovados a ele, tampouco impossibilitou o perfeito uso, gozo e fruição do seu imóvel. Dispõe o art. 1.229 do CC que a “propriedade do solo abrange a do espaço aéreo e subsolo correspondentes, em altura e profundidade úteis ao seu exercício, não podendo o proprietário opor-se a atividades que sejam realizadas, por terceiros, a uma altura ou profundidade tais, que não tenha ele interesse legítimo em impedi-las”. Ou seja, o normativo legal, ao regular o direito de propriedade, ampara-se especificamente no critério de utilidade da coisa por seu titular. Por essa razão, o direito à extensão das faculdades do proprietário é exercido contra terceiro tão somente em face de ocorrência de conduta invasora e lesiva que lhe traga dano ou incômodo ou que lhe proíba de utilizar normalmente o bem imóvel, considerando suas características físicas normais. Como se verifica, a pretensão de retirada dos tirantes não está amparada em possíveis prejuízos devidamente comprovados ou mesmo no fato de os tirantes terem impossibilitado, ou estarem impossibilitando, o perfeito uso, gozo ou fruição do imóvel. Também inexistem possíveis obstáculos a futuras obras que venham a ser idealizadas no local, até porque, caso e quando se queira, referidos tirantes podem ser removidos sem nenhum prejuízo para quaisquer dos imóveis vizinhos. De fato, ao proprietário compete a titularidade do imóvel, abrangendo solo, subsolo e o espaço aéreo correspondentes. Entretanto, referida titularidade não é plena,estando satisfeita e completa apenas em relação ao espaço físico sobre o qual emprega efetivo exercício sobre a coisa. Dessa forma, não tem o proprietário do imóvel o legítimo interesse em impedir a utilização do subsolo onde estão localizados os tirantes que se pretende remover, pois sobre o referido espaço não exerce ou DIREITO DAS COISAS – AULA 04 demonstra quaisquer utilidades. Precedente citado: REsp 1.233.852-RS, TERCEIRA TURMA, DJe de 1.º-2- 2012. REsp 1.256.825-SP, rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 5-3-2015, DJe 16-3-2015. A propriedade do solo, por sua vez, a teor do art. 1.230, não abrange as jazidas, minas e demais recursos minerais, os potenciais de energia hidráulica, os monumentos arqueológicos e outros bens referidos por leis especiais. O proprietário do solo, todavia, tem o direito de explorar os recursos minerais de emprego imediato na construção civil, desde que não submetidos a transformação industrial, obedecido o disposto em lei especial. OBJETO Em geral, o objeto da propriedade é uma coisa especificamente determinada, entendida como um bem corpóreo móvel ou imóvel. A questão, porém, não é tão simples assim. Conforme ensinou ORLANDO GOMES: O objeto do direito de propriedade não é definido em termos incontroversos. Tradicionalmente, afirma-se que hão de ser os bens corpóreos, mas, contra essa doutrina, que foi pacífica, levantou-se corrente doutrinária que o estende aos bens incorpóreos. Seus partidários admitem a existência de propriedade literária, artística e científica, que, recaindo nas produções do espírito humano, teria como objeto bens imateriais. Outros vão adiante, sustentando que os direitos podem ser objeto de propriedade. Recentemente, o conceito de propriedade alarga-se abrangendo certos valores, como o fundo de comércio, a clientela, o nome comercial, as patentes de invenção e tantos outros. Fala-se, constantemente, em propriedade industrial para significar o direito dos inventores e o que se assegura aos industriais e comerciantes sobre as marcas de fábricas, desenhos e modelos. Chega- se até a admitir a propriedade de cargos e empregos. O fenômeno da propriedade incorpórea explica-se como reflexo do valor psicológico da ideia de propriedade, mas, embora esses direitos novos tenham semelhança com o de propriedade, porque também são exclusivos e absolutos, com ela não se confundem. A assimilação é tecnicamente falsa. Poderiam enquadrar-se, contudo, numa categoria à parte, que, alhures, denominamos quase-propriedade. Com efeito, temos que, em geral, a propriedade tem por objeto bens corpóreos – ou seja, coisas – embora se admita a propriedade de bens imateriais, a exemplo de valores mobiliários (ações) ou obras do intelecto, posto, nesses últimos casos, não se possa afirmar que estejamos diante de uma concepção tradicional de propriedade. CLASSIFICAÇÃO Pensando especificamente no exercício do direito de propriedade, cogitamos a existência de duas classificações fundamentais, tomando como parâmetro a extensão do direito e a perpetuidade do domínio. DIREITO DAS COISAS – AULA 04 QUANTO À EXTENSÃO DO DIREITO DO TITULAR (ALCANCE SUBJETIVO) Quando todos os elementos constitutivos da propriedade (ou seja, seus poderes inerentes) se acham reunidos na pessoa do titular, tem-se a modalidade que se convencionou chamar de propriedade plena. Todavia, quando ocorre o desmembramento de elementos, passando um ou alguns de seus poderes para o exercício de outrem, fala-se em propriedade limitada ou restrita. É o caso, por exemplo, do chamado “nu-proprietário”, no usufruto, porquanto se despoja de poderes inerentes ao domínio (usar e fruir), para constituir um direito real na coisa alheia. QUANTO À PERPETUIDADE DO DOMÍNIO (ALCANCE TEMPORAL) A propriedade não se extingue pelo não uso, uma vez que o domínio subsiste independentemente de exercício, enquanto não sobrevier causa extintiva legal ou oriunda da própria vontade do titular. Com efeito, a propriedade é, em essência, perpétua, com duração ilimitada, podendo ser transmitida indefinidamente, por gerações. Todavia, por exceção, pode-se falar também de uma propriedade resolúvel, entendida como aquela que encontra, no seu próprio título constitutivo, uma razão de sua extinção. “É resolúvel a propriedade passível de ser extinta ou por força de uma condição (evento acidental, futuro e incerto) ou pelo termo (evento acidental do negócio jurídico futuro e certo) ou, finalmente, pelo surgimento de uma causa superveniente juridicamente apta a pôr fim ao direito de propriedade”, segundo o talentoso ROBERTO FIGUEIREDO. É o que se dá no pacto de retrovenda (arts. 1.140 a 1.143, CC/2002), com o domínio do comprador. Sobre a propriedade resolúvel, destacamos o art. 1.359: Art. 1.359. Resolvida a propriedade pelo implemento da condição ou pelo advento do termo, entendem-se também resolvidos os direitos reais concedidos na sua pendência, e o proprietário, em cujo favor se opera a resolução, pode reivindicar a coisa do poder de quem a possua ou detenha. A título de complementação, merece referência a distinção entre fideicomisso e propriedade resolúvel, feita por PAULO LÔBO: A distinção entre fideicomisso e propriedade resolúvel em nosso sistema jurídico se impõe. O fideicomisso estabelece a sucessão no direito de propriedade, mas atribui, desde logo, a propriedade, sem entrega de bens, ao fideicomissário, e propriedade plena ao fiduciário, enquanto na propriedade resolúvel, advindo o termo, ou realizando-se a DIREITO DAS COISAS – AULA 04 condição, a propriedade deixa de ser do atual titular para ser de outro, pois o sistema jurídico brasileiro concebeu a superposição de propriedades no tempo. No fideicomisso, o fideicomissário não substitui o fiduciário, porque ambos são herdeiros do de cujus ou legatários. O fideicomissário sucede diretamente o de cujus, da mesma forma que o fiduciário. São direitos paralelos, justapostos, razão por que não é correta a expressão “substituição fideicomissária”. No fideicomisso, há o elemento fidúcia, ou confiança em que o fiduciário conservará o bem para ser entregue ao seu destinatário principal. Na propriedade resolúvel, diferentemente, o primeiro titular é substituído pelo segundo titular, que podem, inclusive, ser designados em testamento, “pelo implemento da condição ou pelo advento do termo” (CC, art. 1.359), ficando resolvidos os direitos ao primeiro concedidos. Não há o elemento fidúcia, pois cada titular, no seu tempo sucessivo, exercerá plenamente seu direito e no seu próprio interesse. QUANTO À LOCALIZAÇÃO E DESTINAÇÃO DA PROPRIEDADE (ALCANCE FINALÍSTICO) Uma importante classificação da propriedade diz respeito à sua localização e destinação. Com efeito, a distinção entre propriedade urbana e propriedade rural não deve ser feita somente com base na localização (se na cidade ou no campo), mas, sim, em função da sua destinação econômica. De fato, é possível se falar de uma propriedade urbana no interior do País, mesmo que isolada de um centro urbano, se a sua utilização for somente para a habitação e residência, sem destinação rural. E, por exceção, é possível se falar de uma empresa agrícola instalada em uma enorme fazenda, dentro de área urbana. E por que destacamos esses aspectos? Porque a caracterização como área rural ou urbana importará em um tratamento diferenciado, por exemplo, para a usucapião, conforme se verificará em capítulo próprio145, ou mesmo para incidência de tributos, a saber, IPTU ou ITR: A Primeira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) julgou recentemente o Recurso Especial n. 1.112.646 – SP (REsp), que versou acerca da incidência de Imposto Territorial Rural (ITR) em imóvel localizado em área urbana, desde que comprovadamente utilizado em exploração extrativa, vegetal, agrícola, pecuária ou agroindustrial. A Turma, que teve como relator o Ministro Herman Benjamim, decidiu, por unanimidade,dar provimento ao recurso. No caso apresentado, o cerne da questão está em se determinar se o imposto incidente sobre o imóvel é o Territorial Urbano (IPTU) ou o ITR. O Tribunal de Justiça de São Paulo, ao julgar o caso, decidiu que o tributo incidente era o IPTU. Inconformado, o recorrente apresentou o REsp sob análise, alegando que ocorreu ofensa ao art. 15, do Decreto-Lei DIREITO DAS COISAS – AULA 04 n. 57/66, que submete o imóvel “que, comprovadamente, seja utilizado em exploração extrativa vegetal, agrícola, pecuária ou agroindustrial” ao pagamento do ITR. Em seu voto, o Ministro-Relator entendeu que o caso é de conflito de competência, devendo ser dirimido pela legislação complementar, nos termos do art. 146, I, da Constituição Federal. Sendo assim, não basta apenas considerar o disposto no art. 32, § 1.º, do Código Tributário Nacional, que adota o critério da localização do imóvel e considera área urbana àquela definida em legislação municipal, pois a questão também deve ser analisada sob a ótica do art. 15, do Decreto-Lei n. 57/66, que acrescentou o critério da destinação dada ao imóvel. Portanto, dada a destinação do imóvel em questão, entendeu o relator que o imposto incidente é o ITR. Observe-se, inclusive, que até mesmo para a incidência da legislação trabalhista, esta distinção é relevante, para saber se a hipótese é de um trabalhador urbano, regido pela CLT, ou de um trabalhador rural, regido pela Lei n. 5.889/73. SOBRE A FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE A funcionalização dos direitos é uma tendência inevitável da Ciência Jurídica da contemporaneidade. Todavia, se há um instituto jurídico em que a função social ganha maior destaque, este é o direito de propriedade. Com previsão constitucional expressa e específica (art. 5.º, XXIII, CF/88), a ideia de que “a propriedade atenderá a sua função social” é uma premissa inarredável do ordenamento jurídico brasileiro. Observa ORLANDO GOMES: A margem da consolidação da ideia nesses regimes políticos teve o respaldo da doutrina da Igreja no pensamento de Jacques Maritain, na doutrina personalista de Emmanel Mounier e em encíclicas que precederam à Mater et Magistra. Qualquer que tenha sido, no campo dessas influências, o impulso para a cristalização jurídica da ideia de função social, sua sobrevivência e difusão nos regimes pluralistas do pós-guerra explicam a sua força e sua “finalidade racional”. Essa energia moral da concepção de que a propriedade é uma função social não tem, entretanto, inspiração socialista, como se supõe, por desinformação, particularmente os socialistoides levianos ou contrabandistas de ideias. Muito pelo contrário. Se não chega a ser uma mentira convencional, é um conceito ancilar do regime capitalista, por isso que, para os socialistas autênticos, a fórmula função social, sobre ser uma concepção sociológica e não um conceito técnico-jurídico, revela profunda hipocrisia, pois “mais não serve do que para embelezar e esconder a substância da propriedade capitalística”. É que legitima o lucro ao configurar a atividade do produtor de riqueza, do empresário, do capitalista, como exercício de uma profissão no interesse geral. Seu conteúdo essencial permanece intangível, assim como seus componentes estruturais. A propriedade continua privada, isto é, exclusiva e transmissível livremente. Do fato de poder ser DIREITO DAS COISAS – AULA 04 desapropriada com maior facilidade e de poder ser nacionalizada com maior desenvoltura não resulta que a sua substância se estaria deteriorando. Trata-se, portanto, de uma inequívoca característica do sistema constitucional contemporâneo o respeito à função social, como forma de legitimação do próprio direito de propriedade. TUTELA PROCESSUAL DA PROPRIEDADE Tal qual para a posse, também para a propriedade há uma tutela processual que precisa ser conhecida e compreendida. Quando o proprietário for totalmente privado de seu bem, será possível postular-se uma tutela específica, em sede de ação de reivindicação, que tem por fundamento justamente o direito de sequela, visando a retomar o bem que se encontra em poder de terceiro. Para tal postulação, é imprescindível, naturalmente, a comprovação da titularidade do domínio, o que se faz por meio do registro imobiliário correspondente, sendo pressuposto essencial, como deve soar óbvio, a descrição atualizada do bem, com os corretos limites e confrontações, de modo a possibilitar a sua exata localização. Em um jogo de palavras bastante didático, estar-se-á diante de uma postulação de um proprietário que tem título, mas não tem posse, em face de quem tem a posse, mas não tem título. Conforme escreve DIEGO OLIVEIRA: (...) em síntese, a ação reivindicatória, espécie de ação petitória, com fundamento no ius possidendi, é ajuizada pelo proprietário sem posse, contra o possuidor sem propriedade. Liga-se ao direito do proprietário conforme seus limites jurídicos, e não se presta em situações de confusão. Torna-se irrelevante a posse anterior do proprietário pois a ação se funda no ius possidendi e não no ius possessionis. Trata-se de uma postulação que não está submetida a prazo, pelo caráter de perpetuidade da propriedade, podendo, no entanto, ser suscitada, como matéria de defesa, a usucapião pelo possuidor, na forma prevista pela Súmula 237 (“A usucapião pode ser arguida em defesa.”) do Supremo Tribunal Federal. Ressalve-se que, se acolhida a usucapião como matéria de defesa na reivindicatória, a sentença de improcedência não é hábil, de per si, para operar a alteração do registro, exigindo-se a instauração do procedimento próprio da usucapião. Mas a tutela processual da propriedade não se limita à ação reivindicatória. Além disso, também podem ser deduzidas postulações de natureza declaratória (para, por exemplo, dissipar dúvidas concernentes ao domínio) ou mesmo indenizatórias (por ato ilícito ou mesmo por acontecimento natural, como no caso da avulsão). DIREITO DAS COISAS – AULA 04 Finalmente, por amor à tradição, há, ainda, a denominada ação publiciana, que seria uma reivindicatória sem título, vale dizer, seria o procedimento instaurado pelo proprietário desprovido da escritura pública devidamente registrada em seu nome. Figure-se o exemplo de quem já seja dono, por haver usucapido o terreno, embora não haja, ainda, obtido a sentença declaratória da usucapião e, por conseguinte, o título dominial (cartório) em seu nome. Em tal caso, em tendo o seu direito violado por terceiro, a par de poder ingressar com medida no juízo possessório – o que seria mais recomendável – poderia optar por ingressar no juízo petitório, intentando uma demanda publiciana (reivindicatória sem título).