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DIREITO DAS COISAS – AULA 04 
 
PROPRIEDADE 
Art. 1.228. O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da 
coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a 
possua ou detenha. 
§ 1º O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as 
suas finalidades econômicas e sociais e de modo que sejam 
preservados, de conformidade com o estabelecido em lei especial, a 
flora, a fauna, as belezas naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio 
histórico e artístico, bem como evitada a poluição do ar e das águas. 
§ 2º São defesos os atos que não trazem ao proprietário qualquer 
comodidade, ou utilidade, e sejam animados pela intenção de prejudicar 
outrem. 
§ 3º O proprietário pode ser privado da coisa, nos casos de 
desapropriação, por necessidade ou utilidade pública ou interesse 
social, bem como no de requisição, em caso de perigo público iminente. 
§ 4º O proprietário também pode ser privado da coisa se o imóvel 
reivindicado consistir em extensa área, na posse ininterrupta e de boa-
fé, por mais de cinco anos, de considerável número de pessoas, e estas 
nela houverem realizado, em conjunto ou separadamente, obras e 
serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico 
relevante. 
§ 5º No caso do parágrafo antecedente, o juiz fixará a justa indenização 
devida ao proprietário; pago o preço, valerá a sentença como título para 
o registro do imóvel em nome dos possuidores. 
Art. 1.229. A propriedade do solo abrange a do espaço aéreo e subsolo 
correspondentes, em altura e profundidade úteis ao seu exercício, não 
podendo o proprietário opor-se a atividades que sejam realizadas, por 
terceiros, a uma altura ou profundidade tais, que não tenha ele interesse 
legítimo em impedi-las. 
Art. 1.230. A propriedade do solo não abrange as jazidas, minas e demais 
recursos minerais, os potenciais de energia hidráulica, os monumentos 
arqueológicos e outros bens referidos por leis especiais. 
Parágrafo único. O proprietário do solo tem o direito de explorar os 
recursos minerais de emprego imediato na construção civil, desde que 
não submetidos a transformação industrial, obedecido o disposto em lei 
especial. 
Art. 1.231. A propriedade presume-se plena e exclusiva, até prova em 
contrário. 
Art. 1.232. Os frutos e mais produtos da coisa pertencem, ainda quando 
separados, ao seu proprietário, salvo se, por preceito jurídico especial, 
couberem a outrem. 
 
 
 
 
DIREITO DAS COISAS – AULA 04 
 
CONCEITO 
Nos termos do art. 5.º, XXII, da Constituição Federal, a propriedade é tratada e garantida 
como um direito fundamental. 
Logo em seguida, o inciso XXIII dispõe que “a propriedade atenderá a sua função social”. 
Portanto, o direito de propriedade consiste no direito real de usar, gozar ou fruir, 
dispor e reivindicar a coisa, nos limites da sua função social. 
Propriedade plena  Quando o proprietário reúne todas essas faculdades (ou poderes). 
O § 2.º do art. 1.228 do CC proíbe os denominados atos emulativos, ou seja, aqueles que 
não trazem ao proprietário qualquer comodidade, ou utilidade, e sejam animados pela 
intenção de prejudicar outrem. Em outras palavras, esta norma veda o abuso do direito 
de propriedade. 
 
PROPRIEDADE, DOMÍNIO E DIREITO À PROPRIEDADE 
No texto do Código Civil de 2002 é possível constatar que as palavras “propriedade” e 
“domínio” são usadas, em diversas passagens, como sinônimas. 
A título de exemplo, observe-se que o parágrafo único do art. 39 e o art. 98 do CC/2002. 
Todavia, em uma visão clássica, as palavras também encontram distinção. 
Conforme observam os talentosos amigos NELSON ROSENVALD e CRISTIANO CHAVES 
DE FARIAS: 
Para aqueles que operam uma distinção entre os dois vocábulos, a 
palavra propriedade seria mais genérica, referindo-se a todos os direitos 
suscetíveis de apreciação pecuniária. A propriedade compreenderia o 
domínio que é um direito de propriedade sobre coisas. Como 
consequência de sua maior amplitude, seria possível falar de 
propriedade literária, científica, artística ou industrial para aludir a 
situações complexas e absolutamente alheias ao domínio. 
Mestre PAULO LÔBO: 
Há quem distinga propriedade e domínio, pois “a propriedade 
contemporânea possui elementos de ordem real e pessoal a conviver 
em um mesmo instituto” (Aronne, 1999, p. 34). Segundo essa concepção 
o direito de propriedade contém um elemento interno (domínio, 
composto dos direitos de usar, gozar e dispor da coisa) e um elemento 
externo (regime de titularidade, composto pelos deveres do sujeito 
passivo universal e pelos deveres funcionais do titular em relação à 
sociedade como um todo e, em especial, a certos particulares). Pontes 
de Miranda (2012, v. 11, p. 95 e 131) tem a propriedade como gênero, do 
qual são espécies o domínio e os demais direitos reais, sendo que o 
domínio é o mais abrangente dos direitos reais, ou “o mais amplo poder 
que se pode exercer sobre a coisa”, cabendo à lei dar o conteúdo da 
propriedade e do domínio. 
DIREITO DAS COISAS – AULA 04 
 
Além disso, há de se destacar que, muitas vezes, utiliza-se a expressão “domínio” com um 
significado de controle físico sobre a coisa, não necessariamente como um direito de 
propriedade. 
A priori, é possível, sim, fazer a distinção clássica entre as expressões “propriedade” e 
“domínio”, compreendida a primeira como um direito mais amplo, abrangente de bens 
materiais e imateriais, que legitima a titularidade do sujeito, ao passo que a segunda, 
restrita a bens corpóreos, traduz uma perspectiva material de poder, de submissão 
da coisa. 
E, na medida em que o domínio é compreendido no ângulo do próprio conteúdo do direito 
de propriedade, não pode ser confundido com a mera situação fática da posse, em que não 
se discute domínio ou sequer propriedade. 
Todavia, mesmo admitindo a distinção teórica, há de se convir que ela não é tão relevante 
na prática, diante da própria legislação positivada, como aqui já demonstrado, podendo, 
inclusive, gerar confusão. 
É relevante também distinguir o “direito de propriedade” do “direito à propriedade”. 
Tratando desta distinção, ensina o grande PAULO LÔBO: 
Além do direito de propriedade, há o direito à propriedade ou o direito 
de acesso à propriedade, com fundamento na Constituição (exemplos, 
o direito à moradia e o direito à aquisição por usucapião especial de 
tempo breve) e na legislação infraconstitucional (exemplos: no Código 
Civil, o art. 1.228, §§ 4.º e 5.º, e na Lei n. 11.977/2009, do Programa Minha 
Casa, Minha Vida). Para Rodrigo Xavier Leonardo (2004, p. 280), o direito 
à propriedade detém conteúdo diverso do direito de propriedade, vez 
que se trata de um direito fundamental de acesso à propriedade, de bens 
voltados para possibilitar a efetivação dos direitos fundamentais 
anteriores – previstos no mesmo caput do art. 5.º - referentes à vida, à 
liberdade, à igualdade, à segurança, que não podem ser garantidos sem 
um mínimo de propriedade que lhes garanta o acesso real ou a 
manutenção de uma real condição de dignidade. 
No plano internacional, o direito à propriedade está enunciado no art. 17 
da Declaração Universal dos Direitos Humanos. É notável que a 
Declaração não aluda ao direito “de” propriedade, mas “à” propriedade. 
Como diz Eduardo Novoa Monreal (1979, p. 134), o fundamental dentro 
do texto contido na Declaração é propugnar que todo homem deve ter 
acesso à propriedade, que é mais importante que dar garantia aos atuais 
titulares, de modo a que a propriedade se difunda coletivamente entre 
todos os homens, seja ela individual ou coletiva. 
Tal distinção se mostra importante justamente para o reconhecimento do “direito à 
propriedade” como um direito fundamental, podendo o “direito de propriedade” ser 
suprimido, quando não atender à sua função social. 
Esclarecidos esses aspectos, explicitaremos, no próximo tópico, para efeito didático, os 
elementos constitutivos da propriedade. 
 
DIREITO DAS COISAS – AULA 04 
 
ELEMENTOS CONSTITUTIVOS (PODERESINERENTES À PROPRIEDADE) 
Ao conceituarmos o direito de propriedade como o direito real de usar, gozar ou fruir, 
dispor e reivindicar a coisa, nos limites da sua função social, já apresentamos ao leitor os 
seus elementos constitutivos, que são justamente os poderes inerentes à propriedade. São 
eles: 
a) Jus utendi: direito de tirar do bem todos os seus proveitos, sem que haja alteração em 
sua substância, ou seja, usar a propriedade de todas as formas previstas ou não vedadas 
em lei; 
b) Jus fruendi: direito de perceber os frutos e de utilizar os produtos da coisa, ou seja, de 
fruir ou gozar todos os benefícios lícitos que a propriedade possa proporcionar; 
c) Jus abutendi ou disponendi: direito de dispor da coisa. Por dispor, entenda-se a 
prerrogativa de transferir o bem, a qualquer título, o que também abarca a possibilidade de 
consumi-lo. 
Esclareça-se, de logo, que inexiste um “direito ao abuso”, como a expressão jus abutendi 
pode equivocadamente soar na primeira leitura (e consistiria em uma violação ao já 
explicado princípio da vedação ao abuso de direito), mas, sim, apenas o exercício de um 
direito de disposição da coisa; 
d) Jus reivindicatio ou rei vindicatio: direito que tem o proprietário de buscar o bem de 
quem injustamente o detenha. 
Observe-se que os poderes ou faculdades são oponíveis erga omnes. 
E todos eles são limitados pela principiologia dos direitos reais, notadamente a função 
social, dada a impossibilidade jurídica de se falar em direitos absolutos na 
contemporaneidade, inclusive da propriedade. 
 
CARACTERÍSTICAS 
Principais características do direito de propriedade é: 
a) complexo: pois é formado por um conjunto de poderes ou faculdades, sendo o mais 
completo de todos os direitos reais; 
b) absoluto: a oponibilidade é erga omnes, podendo o seu titular desfrutar do bem como 
lhe aprouver, sujeitando-se às limitações constitucionais e legais; 
c) perpétuo: não se extingue, simplesmente, pelo não uso, podendo ser transmitido 
indefinidamente por gerações; 
d) exclusivo: ressalvadas certas situações, a exemplo do condomínio e da 
multipropriedade, o poder dominial de alguém exclui o de outrem, concomitantemente, 
sobre a mesma coisa, sendo essa, portanto, a regra geral; 
e) elástico: pode ser distendido ou contraído na formação de outros direitos reais sem 
perder sua essência. 
DIREITO DAS COISAS – AULA 04 
 
A propriedade é “elástica” porque certos poderes ou faculdades que lhe são inerentes 
poderão ser destacados, para que sejam formados outros direitos, sem que isso implique 
sua destruição. 
Assim, há, na propriedade, uma peculiar elasticidade estrutural, conforme se lhe subtraiam 
ou reintegrem poderes destacáveis. 
Exemplo: mediante ajuste de vontades e o devido registro, podem ser destacadas as 
faculdades de usar e fruir um imóvel, em favor do usufrutuário, permanecendo o titular com 
um direito limitado de propriedade (nua-propriedade). Uma vez extinto o usufruto, aquelas 
faculdades retornam, consolidando o direito pleno de propriedade. 
Diferença entre “propriedade resolúvel” e “ad tempus”. 
Observa ORLANDO GOMES: 
A perpetuidade é um dos caracteres do direito de propriedade. Daí se 
dizer que a propriedade é irrevogável: “Semel dominus semper 
dominus”. Normalmente, a propriedade tem duração ilimitada. É 
perpétua. Por exceção, admite-se propriedade revogável que se 
configura quando, no próprio título de sua constituição, por sua própria 
natureza ou pela vontade do agente ou das partes, se contém condição 
resolutiva. Diz-se, então, que a propriedade é resolúvel como acontece, 
no fideicomisso, com a propriedade do fiduciário, e, na retrovenda, com 
a propriedade do comprador. Não são casos de propriedade resolúvel 
aqueles nos quais a revogação se funda em causa superveniente à 
aquisição. (RA) Restou aberto (do art. 1.361 a 1.368) capítulo especial no 
CCB de 2002 para tratar da propriedade fiduciária, hipótese de 
propriedade resolúvel de coisa móvel infungível que o devedor transfere 
ao credor com escopo de garantia (RA). 
Assim, propriedade resolúvel é aquela que tem, em seu próprio título constitutivo, um 
elemento que limita potencialmente a sua duração, como uma condição resolutiva. 
A propriedade fiduciária, por sua vez, foi tratada, pelo CC/2002, em capítulo próprio. 
Já a propriedade ad tempus tem características próprias, embora esteja tratada, em nosso 
Código, no capítulo dedicado à propriedade resolúvel. 
Trata-se de uma modalidade de propriedade que, a priori, é constituída para ser definitiva 
e perpétua. Todavia, por um fato superveniente, ocorre a sua extinção, como é o caso da 
revogação da doação por ingratidão do donatário. 
Confira-se, a respeito desse instituto, o art. 1.360, do Código Civil: 
Art. 1.360. Se a propriedade se resolver por outra causa superveniente, 
o possuidor, que a tiver adquirido por título anterior à sua resolução, 
será considerado proprietário perfeito, restando à pessoa, em cujo 
benefício houve a resolução, ação contra aquele cuja propriedade se 
resolveu para haver a própria coisa ou o seu valor. 
 
 
 
DIREITO DAS COISAS – AULA 04 
 
EXTENSÃO 
A propriedade do solo, a teor do art. 1.229, abrange a do espaço aéreo e subsolo 
correspondentes, em altura e profundidade úteis ao seu exercício, não podendo o 
proprietário opor-se a atividades que sejam realizadas, por terceiros, a uma altura ou 
profundidade tais, que não tenha ele interesse legítimo em impedi-las. 
MARIA HELENA DINIZ, referindo-se ao proprietário: 
Não pode impedir que um avião passe por sobre sua casa ou a 
colocação de cabos aéreos de energia elétrica ou, ainda, que perfurem 
o subsolo para a instalação de condutos subterrâneos de serviço de 
utilidade pública (CC, art. 1.286) ou de metrô, pois não tem nenhum 
interesse em impugnar a realização de trabalhos que se efetuem a uma 
certa altura e a profundidade tal que não acarrete risco para a sua 
segurança138. 
Vale destacar uma interessante aplicação do art. 1.229 realizada no seguinte julgado do 
Superior Tribunal de Justiça: 
DIREITO CIVIL. DIREITO DE PROPRIEDADE DE SUBSOLO. 
No caso em que o subsolo de imóvel tenha sido invadido por tirantes 
(pinos de concreto) provenientes de obra de sustentação do imóvel 
vizinho, o proprietário do imóvel invadido não terá legítimo interesse 
para requerer, com base no art. 1.229 do CC, a remoção dos tirantes nem 
indenização por perdas e danos, desde que fique constatado que a 
invasão não acarretou prejuízos comprovados a ele, tampouco 
impossibilitou o perfeito uso, gozo e fruição do seu imóvel. Dispõe o art. 
1.229 do CC que a “propriedade do solo abrange a do espaço aéreo e 
subsolo correspondentes, em altura e profundidade úteis ao seu 
exercício, não podendo o proprietário opor-se a atividades que sejam 
realizadas, por terceiros, a uma altura ou profundidade tais, que não 
tenha ele interesse legítimo em impedi-las”. Ou seja, o normativo legal, 
ao regular o direito de propriedade, ampara-se especificamente no 
critério de utilidade da coisa por seu titular. Por essa razão, o direito à 
extensão das faculdades do proprietário é exercido contra terceiro tão 
somente em face de ocorrência de conduta invasora e lesiva que lhe 
traga dano ou incômodo ou que lhe proíba de utilizar normalmente o 
bem imóvel, considerando suas características físicas normais. Como 
se verifica, a pretensão de retirada dos tirantes não está amparada em 
possíveis prejuízos devidamente comprovados ou mesmo no fato de os 
tirantes terem impossibilitado, ou estarem impossibilitando, o perfeito 
uso, gozo ou fruição do imóvel. Também inexistem possíveis obstáculos 
a futuras obras que venham a ser idealizadas no local, até porque, caso 
e quando se queira, referidos tirantes podem ser removidos sem 
nenhum prejuízo para quaisquer dos imóveis vizinhos. De fato, ao 
proprietário compete a titularidade do imóvel, abrangendo solo, subsolo 
e o espaço aéreo correspondentes. Entretanto, referida titularidade não 
é plena,estando satisfeita e completa apenas em relação ao espaço 
físico sobre o qual emprega efetivo exercício sobre a coisa. Dessa 
forma, não tem o proprietário do imóvel o legítimo interesse em impedir 
a utilização do subsolo onde estão localizados os tirantes que se 
pretende remover, pois sobre o referido espaço não exerce ou 
DIREITO DAS COISAS – AULA 04 
 
demonstra quaisquer utilidades. Precedente citado: REsp 1.233.852-RS, 
TERCEIRA TURMA, DJe de 1.º-2- 2012. REsp 1.256.825-SP, rel. Min. João 
Otávio de Noronha, julgado em 5-3-2015, DJe 16-3-2015. 
A propriedade do solo, por sua vez, a teor do art. 1.230, não abrange as jazidas, minas e 
demais recursos minerais, os potenciais de energia hidráulica, os monumentos 
arqueológicos e outros bens referidos por leis especiais. 
O proprietário do solo, todavia, tem o direito de explorar os recursos minerais de emprego 
imediato na construção civil, desde que não submetidos a transformação industrial, 
obedecido o disposto em lei especial. 
 
OBJETO 
Em geral, o objeto da propriedade é uma coisa especificamente determinada, entendida 
como um bem corpóreo móvel ou imóvel. 
A questão, porém, não é tão simples assim. Conforme ensinou ORLANDO GOMES: 
O objeto do direito de propriedade não é definido em termos 
incontroversos. Tradicionalmente, afirma-se que hão de ser os bens 
corpóreos, mas, contra essa doutrina, que foi pacífica, levantou-se 
corrente doutrinária que o estende aos bens incorpóreos. Seus 
partidários admitem a existência de propriedade literária, artística e 
científica, que, recaindo nas produções do espírito humano, teria como 
objeto bens imateriais. Outros vão adiante, sustentando que os direitos 
podem ser objeto de propriedade. Recentemente, o conceito de 
propriedade alarga-se abrangendo certos valores, como o fundo de 
comércio, a clientela, o nome comercial, as patentes de invenção e 
tantos outros. Fala-se, constantemente, em propriedade industrial para 
significar o direito dos inventores e o que se assegura aos industriais e 
comerciantes sobre as marcas de fábricas, desenhos e modelos. Chega-
se até a admitir a propriedade de cargos e empregos. 
O fenômeno da propriedade incorpórea explica-se como reflexo do valor 
psicológico da ideia de propriedade, mas, embora esses direitos novos 
tenham semelhança com o de propriedade, porque também são 
exclusivos e absolutos, com ela não se confundem. A assimilação é 
tecnicamente falsa. Poderiam enquadrar-se, contudo, numa categoria à 
parte, que, alhures, denominamos quase-propriedade. 
Com efeito, temos que, em geral, a propriedade tem por objeto bens corpóreos – ou seja, 
coisas – embora se admita a propriedade de bens imateriais, a exemplo de valores 
mobiliários (ações) ou obras do intelecto, posto, nesses últimos casos, não se possa afirmar 
que estejamos diante de uma concepção tradicional de propriedade. 
 
CLASSIFICAÇÃO 
Pensando especificamente no exercício do direito de propriedade, cogitamos a existência 
de duas classificações fundamentais, tomando como parâmetro a extensão do direito e a 
perpetuidade do domínio. 
DIREITO DAS COISAS – AULA 04 
 
 
 
 
QUANTO À EXTENSÃO DO DIREITO DO TITULAR (ALCANCE SUBJETIVO) 
Quando todos os elementos constitutivos da propriedade (ou seja, seus poderes inerentes) 
se acham reunidos na pessoa do titular, tem-se a modalidade que se convencionou chamar 
de propriedade plena. 
Todavia, quando ocorre o desmembramento de elementos, passando um ou alguns de seus 
poderes para o exercício de outrem, fala-se em propriedade limitada ou restrita. 
É o caso, por exemplo, do chamado “nu-proprietário”, no usufruto, porquanto se despoja de 
poderes inerentes ao domínio (usar e fruir), para constituir um direito real na coisa alheia. 
 
QUANTO À PERPETUIDADE DO DOMÍNIO (ALCANCE TEMPORAL) 
A propriedade não se extingue pelo não uso, uma vez que o domínio subsiste 
independentemente de exercício, enquanto não sobrevier causa extintiva legal ou oriunda 
da própria vontade do titular. 
Com efeito, a propriedade é, em essência, perpétua, com duração ilimitada, podendo ser 
transmitida indefinidamente, por gerações. 
Todavia, por exceção, pode-se falar também de uma propriedade resolúvel, entendida como 
aquela que encontra, no seu próprio título constitutivo, uma razão de sua extinção. 
“É resolúvel a propriedade passível de ser extinta ou por força de uma condição (evento 
acidental, futuro e incerto) ou pelo termo (evento acidental do negócio jurídico futuro e certo) 
ou, finalmente, pelo surgimento de uma causa superveniente juridicamente apta a pôr fim 
ao direito de propriedade”, segundo o talentoso ROBERTO FIGUEIREDO. 
É o que se dá no pacto de retrovenda (arts. 1.140 a 1.143, CC/2002), com o domínio do 
comprador. 
Sobre a propriedade resolúvel, destacamos o art. 1.359: 
Art. 1.359. Resolvida a propriedade pelo implemento da condição ou 
pelo advento do termo, entendem-se também resolvidos os direitos 
reais concedidos na sua pendência, e o proprietário, em cujo favor se 
opera a resolução, pode reivindicar a coisa do poder de quem a possua 
ou detenha. 
A título de complementação, merece referência a distinção entre fideicomisso e propriedade 
resolúvel, feita por PAULO LÔBO: 
A distinção entre fideicomisso e propriedade resolúvel em nosso 
sistema jurídico se impõe. O fideicomisso estabelece a sucessão no 
direito de propriedade, mas atribui, desde logo, a propriedade, sem 
entrega de bens, ao fideicomissário, e propriedade plena ao fiduciário, 
enquanto na propriedade resolúvel, advindo o termo, ou realizando-se a 
DIREITO DAS COISAS – AULA 04 
 
condição, a propriedade deixa de ser do atual titular para ser de outro, 
pois o sistema jurídico brasileiro concebeu a superposição de 
propriedades no tempo. No fideicomisso, o fideicomissário não 
substitui o fiduciário, porque ambos são herdeiros do de cujus ou 
legatários. O fideicomissário sucede diretamente o de cujus, da mesma 
forma que o fiduciário. São direitos paralelos, justapostos, razão por 
que não é correta a expressão “substituição fideicomissária”. No 
fideicomisso, há o elemento fidúcia, ou confiança em que o fiduciário 
conservará o bem para ser entregue ao seu destinatário principal. Na 
propriedade resolúvel, diferentemente, o primeiro titular é substituído 
pelo segundo titular, que podem, inclusive, ser designados em 
testamento, “pelo implemento da condição ou pelo advento do termo” 
(CC, art. 1.359), ficando resolvidos os direitos ao primeiro concedidos. 
Não há o elemento fidúcia, pois cada titular, no seu tempo sucessivo, 
exercerá plenamente seu direito e no seu próprio interesse. 
 
QUANTO À LOCALIZAÇÃO E DESTINAÇÃO DA PROPRIEDADE (ALCANCE 
FINALÍSTICO) 
Uma importante classificação da propriedade diz respeito à sua localização e destinação. 
Com efeito, a distinção entre propriedade urbana e propriedade rural não deve ser feita 
somente com base na localização (se na cidade ou no campo), mas, sim, em função da sua 
destinação econômica. 
De fato, é possível se falar de uma propriedade urbana no interior do País, mesmo que 
isolada de um centro urbano, se a sua utilização for somente para a habitação e residência, 
sem destinação rural. 
E, por exceção, é possível se falar de uma empresa agrícola instalada em uma enorme 
fazenda, dentro de área urbana. 
E por que destacamos esses aspectos? 
Porque a caracterização como área rural ou urbana importará em um tratamento 
diferenciado, por exemplo, para a usucapião, conforme se verificará em capítulo próprio145, 
ou mesmo para incidência de tributos, a saber, IPTU ou ITR: 
A Primeira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) julgou recentemente o Recurso 
Especial n. 1.112.646 – SP (REsp), que versou acerca da incidência de Imposto Territorial 
Rural (ITR) em imóvel localizado em área urbana, desde que comprovadamente utilizado 
em exploração extrativa, vegetal, agrícola, pecuária ou agroindustrial. A Turma, que teve 
como relator o Ministro Herman Benjamim, decidiu, por unanimidade,dar provimento ao 
recurso. 
No caso apresentado, o cerne da questão está em se determinar se o imposto incidente 
sobre o imóvel é o Territorial Urbano (IPTU) ou o ITR. O Tribunal de Justiça de São Paulo, 
ao julgar o caso, decidiu que o tributo incidente era o IPTU. Inconformado, o recorrente 
apresentou o REsp sob análise, alegando que ocorreu ofensa ao art. 15, do Decreto-Lei 
DIREITO DAS COISAS – AULA 04 
 
n. 57/66, que submete o imóvel “que, comprovadamente, seja utilizado em exploração 
extrativa vegetal, agrícola, pecuária ou agroindustrial” ao pagamento do ITR. 
Em seu voto, o Ministro-Relator entendeu que o caso é de conflito de competência, devendo 
ser dirimido pela legislação complementar, nos termos do art. 146, I, da Constituição 
Federal. Sendo assim, não basta apenas considerar o disposto no art. 32, § 1.º, do Código 
Tributário Nacional, que adota o critério da localização do imóvel e considera área urbana 
àquela definida em legislação municipal, pois a questão também deve ser analisada sob a 
ótica do art. 15, do Decreto-Lei n. 57/66, que acrescentou o critério da destinação dada ao 
imóvel. Portanto, dada a destinação do imóvel em questão, entendeu o relator que o 
imposto incidente é o ITR. 
Observe-se, inclusive, que até mesmo para a incidência da legislação trabalhista, esta 
distinção é relevante, para saber se a hipótese é de um trabalhador urbano, regido pela 
CLT, ou de um trabalhador rural, regido pela Lei n. 5.889/73. 
 
SOBRE A FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE 
A funcionalização dos direitos é uma tendência inevitável da Ciência Jurídica da 
contemporaneidade. 
Todavia, se há um instituto jurídico em que a função social ganha maior destaque, este é o 
direito de propriedade. 
Com previsão constitucional expressa e específica (art. 5.º, XXIII, CF/88), a ideia de que “a 
propriedade atenderá a sua função social” é uma premissa inarredável do ordenamento 
jurídico brasileiro. 
Observa ORLANDO GOMES: 
A margem da consolidação da ideia nesses regimes políticos teve o 
respaldo da doutrina da Igreja no pensamento de Jacques Maritain, na 
doutrina personalista de Emmanel Mounier e em encíclicas que 
precederam à Mater et Magistra. Qualquer que tenha sido, no campo 
dessas influências, o impulso para a cristalização jurídica da ideia de 
função social, sua sobrevivência e difusão nos regimes pluralistas do 
pós-guerra explicam a sua força e sua “finalidade racional”. Essa 
energia moral da concepção de que a propriedade é uma função social 
não tem, entretanto, inspiração socialista, como se supõe, por 
desinformação, particularmente os socialistoides levianos ou 
contrabandistas de ideias. Muito pelo contrário. Se não chega a ser uma 
mentira convencional, é um conceito ancilar do regime capitalista, por 
isso que, para os socialistas autênticos, a fórmula função social, sobre 
ser uma concepção sociológica e não um conceito técnico-jurídico, 
revela profunda hipocrisia, pois “mais não serve do que para embelezar 
e esconder a substância da propriedade capitalística”. É que legitima o 
lucro ao configurar a atividade do produtor de riqueza, do empresário, 
do capitalista, como exercício de uma profissão no interesse geral. Seu 
conteúdo essencial permanece intangível, assim como seus 
componentes estruturais. A propriedade continua privada, isto é, 
exclusiva e transmissível livremente. Do fato de poder ser 
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desapropriada com maior facilidade e de poder ser nacionalizada com 
maior desenvoltura não resulta que a sua substância se estaria 
deteriorando. 
Trata-se, portanto, de uma inequívoca característica do sistema constitucional 
contemporâneo o respeito à função social, como forma de legitimação do próprio direito de 
propriedade. 
 
TUTELA PROCESSUAL DA PROPRIEDADE 
Tal qual para a posse, também para a propriedade há uma tutela processual que precisa 
ser conhecida e compreendida. 
Quando o proprietário for totalmente privado de seu bem, será possível postular-se uma 
tutela específica, em sede de ação de reivindicação, que tem por fundamento justamente 
o direito de sequela, visando a retomar o bem que se encontra em poder de terceiro. 
Para tal postulação, é imprescindível, naturalmente, a comprovação da titularidade do 
domínio, o que se faz por meio do registro imobiliário correspondente, sendo pressuposto 
essencial, como deve soar óbvio, a descrição atualizada do bem, com os corretos limites e 
confrontações, de modo a possibilitar a sua exata localização. 
Em um jogo de palavras bastante didático, estar-se-á diante de uma postulação de um 
proprietário que tem título, mas não tem posse, em face de quem tem a posse, mas não 
tem título. 
Conforme escreve DIEGO OLIVEIRA: 
(...) em síntese, a ação reivindicatória, espécie de ação petitória, com 
fundamento no ius possidendi, é ajuizada pelo proprietário sem posse, 
contra o possuidor sem propriedade. Liga-se ao direito do proprietário 
conforme seus limites jurídicos, e não se presta em situações de 
confusão. Torna-se irrelevante a posse anterior do proprietário pois a 
ação se funda no ius possidendi e não no ius possessionis. 
Trata-se de uma postulação que não está submetida a prazo, pelo caráter de perpetuidade 
da propriedade, podendo, no entanto, ser suscitada, como matéria de defesa, a usucapião 
pelo possuidor, na forma prevista pela Súmula 237 (“A usucapião pode ser arguida em 
defesa.”) do Supremo Tribunal Federal. 
Ressalve-se que, se acolhida a usucapião como matéria de defesa na reivindicatória, a 
sentença de improcedência não é hábil, de per si, para operar a alteração do registro, 
exigindo-se a instauração do procedimento próprio da usucapião. 
Mas a tutela processual da propriedade não se limita à ação reivindicatória. 
Além disso, também podem ser deduzidas postulações de natureza declaratória (para, 
por exemplo, dissipar dúvidas concernentes ao domínio) ou mesmo indenizatórias (por ato 
ilícito ou mesmo por acontecimento natural, como no caso da avulsão). 
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Finalmente, por amor à tradição, há, ainda, a denominada ação publiciana, que seria uma 
reivindicatória sem título, vale dizer, seria o procedimento instaurado pelo proprietário 
desprovido da escritura pública devidamente registrada em seu nome. 
Figure-se o exemplo de quem já seja dono, por haver usucapido o terreno, embora não 
haja, ainda, obtido a sentença declaratória da usucapião e, por conseguinte, o título 
dominial (cartório) em seu nome. 
Em tal caso, em tendo o seu direito violado por terceiro, a par de poder ingressar com 
medida no juízo possessório – o que seria mais recomendável – poderia optar por ingressar 
no juízo petitório, intentando uma demanda publiciana (reivindicatória sem título).

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