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1 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.3, p. 01-12, 2024 jan. 2021 O desenvolvimento das competências socioemocionais através da educação física escolar na educação infantil The development of socio-emotional skills through physical education in early childhood education El desarrollo de las habilidades socioemocionales através de la educación física escolar en la educación infantil DOI: 10.55905/revconv.17n.3-197 Originals received: 02/12/2024 Acceptance for publication: 02/27/2024 Adnalyne da Silva Guimarães Teles Mestranda em Ciências da Educação Instituição: Absoulute Christian University (ACU) Endereço: Caucaia - Ceará, Brasil E-mail: adnalyneteles@gmail.com RESUMO Os estudos sobre as competências socioemocionais na educação infantil estão cada vez mais em evidência, devido à crescente compreensão da importância do desenvolvimento integral das crianças. Essas competências abrangem habilidades ligadas à inteligência emocional, tais como autoconhecimento, regulação emocional, empatia, habilidades sociais e resiliência, desempenhando um papel fundamental no bem-estar e no sucesso acadêmico e pessoal ao longo da vida. Considerando que o componente curricular Educação Física desempenha um papel crucial nesse processo, este trabalho tem como objetivo destacar, por meio da consulta a obras de diversos autores que abordam o desenvolvimento infantil, a contribuição que a Educação Física pode oferecer na construção das competências socioemocionais em crianças de zero a seis anos. Palavras-chave: educação infantil, educação física, competências socioemocionais. ABSTRACT Studies on socio-emotional competencies in early childhood education are increasingly in evidence due to the growing understanding of the importance of children's holistic development. These competencies encompass skills linked to emotional intelligence, such as self-awareness, emotional regulation, empathy, social skills and resilience, playing a fundamental role in well- being and academic and personal success throughout life. Considering that the Physical Education curriculum component plays a crucial role in this process, this paper aims to highlight, by consulting the works of various authors who address child development, the contribution that Physical Education can make to building socio-emotional skills in children aged zero to six. Keywords: early childhood education, physical education, socio-emotional skills. 2 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.3, p. 01-12, 2024 jan. 2021 RESUMEN Los estudios sobre competencias socioemocionales en la educación infantil son cada vez más frecuentes debido a la creciente comprensión de la importancia del desarrollo holístico de los niños. Estas competencias engloban habilidades vinculadas a la inteligencia emocional, como el autoconocimiento, la regulación emocional, la empatía, las habilidades sociales y la resiliencia, desempeñando un papel fundamental en el bienestar y el éxito académico y personal a lo largo de la vida. Considerando que el currículo de Educación Física desempeña un papel crucial en este proceso, este trabajo pretende destacar la contribución que la Educación Física puede hacer para la construcción de competencias socioemocionales en niños de cero a seis años, consultando las obras de diversos autores que tratan del desarrollo infantil. Palabras clave: educación infantil, educación física, competencias socioemocionales. 1 INTRODUÇÃO Sabe-se que a prática da educação física na idade escolar é de grande importância no desenvolvimento motor do indivíduo. Por ser essa prática muito apreciada entre os alunos, cabe ao educador físico um trabalho detalhado das valências físicas dentro de suas atividades, afim de que esse aluno vivencie múltiplas experiências de movimento e tenha um desenvolvimento corporal sadio e satisfatório. Além do desenvolvimento motor a educação física é um componente curricular de grande importância para o desenvolvimento das habilidades sociais pois oferece uma oportunidade única para os alunos aprenderem e praticarem habilidades interpessoais, ao mesmo tempo em que se envolvem em atividades físicas e esportivas não se limitando apenas à saúde do corpo físico, mas também oferece um ambiente propício para o aprimoramento das competências socioemocionais. Durante as aulas, os alunos têm a oportunidade de interagir com os colegas, praticar o respeito mútuo, aprender sobre colaborar por um objetivo comum, resolver conflitos de forma construtiva e desenvolver habilidades de liderança e comunicação. Isso incentiva os alunos a aprenderem a se comunicar efetivamente, a confiar uns nos outros e a entender a importância de cada indivíduo dentro do grupo. A educação física também pode ajudar os alunos a desenvolver habilidades sociais como empatia, autocontrole e resiliência. Ao enfrentar desafios físicos e competições esportivas, os alunos aprendem a lidar com a pressão, a controlar suas emoções e a desenvolver uma mentalidade positiva diante de dificuldades. Segundo GUIMARÃES et. al, 2001: 3 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.3, p. 01-12, 2024 jan. 2021 A educação física, como qualquer outra disciplina, tem responsabilidade na concretização do processo de formação e desenvolvimento de valores e atitudes, por essa razão, deveria considerá-lo como parte de seus conteúdos de ensino. Mais especificamente caberia ao professor o papel de coordenar de perto tudo isso, proporcionando durante suas aulas momentos em que, dentro de seu planejamento prévio, aproveitaria para torná-los educativos, discutindo e refletindo sobre cada situação ou fato ocorrido. (GUIMARÃES et al., 2001, p. 19). Uma aula bem planejada, que traga o aluno a possibilidade de ser ativo em seu próprio desenvolvimento, pode proporcionar um ambiente inclusivo, onde todos os alunos têm a oportunidade de participar e contribuir de acordo com suas habilidades e interesses. Isso promove o senso de pertencimento e acessibilidade, contribuindo para um clima escolar mais positivo. O objetivo desse trabalho é trazer luz às aulas de educação física como ferramenta de construção das competências socioemocionais na educação infantil, na busca por estudantes que no futuro possam se tornar cidadãos capazes de ter um olhar crítico, mediar conflitos aumentando suas perspectivas de sucesso futuro nos âmbitos pessoal, acadêmico e profissional. A metodologia adotada no presente trabalho é a pesquisa de abordagem qualitativa, do tipo bibliográfica com caráter descritivo onde utilizou-se artigos de congressos nacionais e internacionais, relatórios de pesquisa, manuais nacionais, revistas indexadas, livros, sites e publicações científicas sobre as competências socioemocionais e sua relação com as aulas de educação física escolar na educação infantil buscando perceber o quanto a educação física pode ser um componente curricular de importância significativa para a construção das competências socioemocionais e desenvolvimento de habilidades sociais na infância. 2 DESENVOLVIMENTO 2.1 O QUE SÃO COMPETÊNCIAS SOCIOEMOCIONAIS Segundo o Instituto Ayrton Senna (IAS 2020, p. 06), instituto referência no desenvolvimento das competências socioemocionais no Brasil, competências socioemocionais podem ser entendidas como um “conjunto de habilidades que capacitam uma pessoa a gerenciar suas próprias emoções de forma eficaz e interagir de maneira positiva com os outros e com o ambiente ao seu redor.” Essas aptidões desempenham um papel crucial no crescimento pessoal e social, impactando diretamente o sucesso acadêmico, profissional e pessoal de um indivíduo. 4 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.3, p. 01-12, 2024 jan. 2021 CASEL1(2005) traz o seguinte conceito de competências socioemocionais: a capacidade de compreender, gerir e expressar os aspectos sociais e emocionais da vida de cada um de forma a lidar adequadamente com situações interpessoais e a possibilitar a prossecução bem-sucedida de tarefas como a aprendizagem, o estabelecimento e manutenção de relações positivas, o tomar decisões responsavelmente, resolver problemas do dia-a-dia e a adaptar-se às exigências do crescimento e desenvolvimento. (CASEL; 2005 apud COELHO; SOUSA; MARCHANTE, 2014, p.15-16) Dada a crescente importância das habilidades socioemocionais na sociedade contemporânea, especialmente considerando a expectativa de vida mais longa e, consequentemente, os desafios interpessoais ampliados tanto em casa quanto no ambiente de trabalho, é essencial que tais habilidades sejam cultivadas desde cedo, sobretudo no ambiente escolar. Há uma ênfase significativa no desenvolvimento da inteligência emocional (como proposto por Goleman em 1995) e das inteligências múltiplas (conforme Gardner em 1984). Por essa razão, muitas escolas estão adotando uma abordagem estruturada para incluir ações que promovam esse desenvolvimento em seus currículos. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento que estabelece os conhecimentos, competências e habilidades essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo da educação básica no Brasil. Uma das principais ênfases da BNCC (2018) é promover o desenvolvimento integral dos estudantes, indo além do aspecto puramente acadêmico para abranger também suas dimensões socioemocionais, culturais, físicas e éticas. Isso significa reconhecer que a educação não se resume apenas à transmissão de conteúdos cognitivos, mas também deve capacitar os alunos para uma participação ativa e significativa na sociedade. Tais conceitos dialogam com a abordagem construtivista que destaca o papel ativo do aluno na construção do conhecimento. De acordo com essa perspectiva, os estudantes não são meros receptores passivos de informações, mas sim agentes ativos na formação do seu próprio entendimento por meio de interações com o ambiente e reflexões sobre suas experiências. Jean Piaget (1979) propõe seu modelo construtivista de desenvolvimento cognitivo, baseado em evidências empíricas, no qual o sujeito é visto como um construtor ativo de suas próprias estruturas cognitivas por meio da interação com o mundo ao seu redor. VICHESSI 1 CASEL - Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning. Comunidade – abrangendo salas de aula e órgãos governamentais – para tornar a aprendizagem social e emocional (SEL) parte de uma educação equitativa e de alta qualidade para todos. 5 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.3, p. 01-12, 2024 jan. 2021 (2022) diz em seu artigo para a Revista Nova Escola enfatiza que a “Base não fala sobre ‘como ensinar’, mas é possível interpretá-la e trabalhar com as competências e as habilidades considerando a perspectiva piagetiana”. Já Lev Vygotsky (1998) em seus aspectos histórico-culturalistas, influenciado por Marx, buscou oferecer uma resposta integral para as funções psicológicas superiores humanas, evitando o dualismo mente-corpo. Seu modelo de aprendizagem procurava ser uma alternativa marxista à concepção construtivista piagetiana, que se concentra no indivíduo. Ainda sobre a desconstrução do modelo tradicional de transmissão de conhecimento, FREIRE (1992), em sua obra Pedagogia da Autonomia traz a ideia de que o aluno pode e deve participar do seu próprio desenvolvimento, ter seus saberes considerados, apropriando – se não apenas do saber cognitivo (racional), mas relacionando – o ao não cognitivo (emocional) na busca pelo desenvolvimento integral do aluno. É preciso, sobretudo, e aí já vai um destes saberes indispensáveis, que o formando, desde o princípio mesmo de sua experiência formadora, assumindo-se como sujeito também da produção do saber, se convença definitivamente de que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção. (FREIRE, 1992, p. 13) KRAMER (1989), corroborando com essa construção da autonomia dos estudantes no processo educacional versa: o trabalho pedagógico precisa se orientar por uma visão das crianças como seres sociais, indivíduos que vivem em sociedade, cidadãs e cidadãos. Isso exige que levemos em consideração suas diferentes características, não só em termos de histórias de vida ou de região geográfica, mas também de classe social, etnia e sexo. Reconhecer as crianças como seres sociais que são implica em não ignorar as diferenças. (KRAMER, 1989, p. 19) As competências socioemocionais e a abordagem construtivista na educação estão intimamente ligadas, pois ambas reconhecem a importância do desenvolvimento integral do aluno, incluindo não apenas aspectos cognitivos, mas também emocionais e sociais. O Instituto Ayrton Senna (IAS) tem se destacado principalmente por suas iniciativas relacionadas à educação básica, e nos últimos anos teve um aumento significativo de interesse e pesquisa em relação ao desenvolvimento socioemocional dos estudantes. 6 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.3, p. 01-12, 2024 jan. 2021 Nesse contexto de estímulo à construção da autonomia do estudante, as competências socioemocionais desempenham um papel crucial, pois influenciam a forma como o aluno interage com o ambiente, como processa as informações e como constrói significados. O IAS (2020), defende as competências socioemocionais no ambiente educacional quando diz que as mesmas também podem ser descritas como “capacidades individuais que se manifestam de modo consistente em padrões de pensamentos, sentimentos e comportamentos, favorecendo o desenvolvimento pleno de estudantes e expandindo as oportunidades de aprendizagem escolar. (IAS, 2020a p. 06)” A partir de 2012, o IAS deu início a estudos e pesquisas sobre competências socioemocionais e sua importância no contexto educacional. Como resultado desses estudos, o instituto classificou essas competências em cinco macro competências, que se desdobram em dezessete competências distintas. Essas competências estão diretamente relacionadas ao desempenho escolar, ao senso de pertencimento, à prevenção da violência escolar, incluindo situações como bullying, e também contribuem para o bem-estar e a saúde mental dos estudantes. As cinco macro competências identificadas são: autogestão, engajamento com os outros, amabilidade, resiliência emocional e abertura ao novo. Entre as ações desenvolvidas pelo IAS destacam – se os programas de formação de professores, desenvolvimento de materiais educativos e realização de pesquisas para avaliar o impacto das intervenções socioemocionais nas escolas. Esses esforços visam não apenas promover o ensino e a aprendizagem de conteúdos acadêmicos, mas também fortalecer as habilidades socioemocionais dos alunos, como resiliência, empatia, autocontrole e habilidades de relacionamento interpessoal. 2.2 A EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR COMO ALIADA NA SAÚDE MENTAL E EMOCIONAL DAS CRIANÇAS Na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a Educação Física é percebida como mais do que apenas o aprimoramento de habilidades motoras e competências físicas. Ela é reconhecida como um elemento curricular essencial para a formação completa do indivíduo, estimulando não apenas a saúde física, mas também o progresso cognitivo, socioemocional e cultural. 7 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.3, p. 01-12, 2024 jan. 2021 A Educação Física escolar também desempenha um papel significativo na promoção da saúde mental das crianças, pois proporciona uma variedade de benefícios que contribuem para obem-estar psicológico aliado ao emocional. Entre esses benefícios, pode-se destacar a redução do estresse e da ansiedade através do exercício físico que promove a liberação de endorfinas, neurotransmissores que ajudam a melhorar o humor e reduzir a ansiedade, proporcionando uma sensação de bem-estar geral. Participar de atividades físicas e esportivas na escola pode ajudar os alunos a desenvolverem uma autoimagem corporal positiva, melhorando sua autoestima e autoconfiança que, ao adquirirem tais habilidades podem melhorar seu desempenho físico, ganhar confiança em si mesmos e em suas capacidades, proporcionando um ambiente propício para o desenvolvimento de habilidades sociais importantes, como cooperação, trabalho em equipe, comunicação e resolução de conflitos. Palma e Peixoto (2022) asseveram que alcançar sucesso na vida e aprimorar o desempenho físico em uma modalidade esportiva, por exemplo, é uma tarefa que envolve o desenvolvimento de habilidades não apenas físicas, mas também psicológicas. Isso significa que além do treinamento físico para melhorar a técnica e o condicionamento físico, também é essencial trabalhar aspectos psicológicos como a concentração, a autoconfiança, a gestão do estresse e a resiliência. Essas habilidades psicológicas são fundamentais para enfrentar desafios, lidar com pressões e superar obstáculos, tanto nos campos esportivo quanto na vida cotidiana. Portanto, o desenvolvimento holístico, que abrange aspectos físicos e mentais, é fundamental para alcançar o sucesso em diferentes áreas da vida. Já sobre a transferência dessas habilidades adquiridas, para outros contextos da vida os autores supracitados defendem que “[...] quando essas habilidades são ensinadas de forma que o aprendiz compreenda que elas podem ser utilizadas em outras áreas da vida, bem como a maneira de fazê-lo, a transferência pode ser mais eficiente.” A Educação Física também desempenha um papel importante na promoção de hábitos de vida saudáveis, como a prática regular de exercícios físicos, a adoção de uma alimentação equilibrada e a importância do descanso adequado. Esses hábitos saudáveis são essenciais para o bem-estar mental e emocional a longo prazo. Além disso, durante as aulas de educação física escolar, as crianças têm a oportunidade de experimentar uma variedade de emoções, como alegria, frustração, excitação e superação. 8 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.3, p. 01-12, 2024 jan. 2021 Aprendendo a lidar com essas emoções de forma saudável e construtiva durante as atividades físicas, as crianças desenvolvem habilidades importantes de gerenciamento emocional que podem ser aplicadas em outras áreas de suas vidas. Ghiraldelli Júnior (1991), citado por Guimarães et. al, versa que: A educação física pedagogicista é, pois, a concepção que vai reclamar da sociedade a necessidade de encarar a educação física não somente como uma prática capaz de promover saúde ou de disciplinar a juventude, mas de encarar a educação física como uma prática eminentemente educativa (Ghiraldelli Júnior apud Guimarães et. al 2001, p. 18). Ao contemplar a Educação Física Escolar sob uma concepção fenomenológica, sociológica e cultural, é possível perceber que as crianças durante as atividades físicas, esportivas, recreativas ou de psicomotricidade priorizam suas percepções, emoções e significados atribuídos às vivências corporais. Nessa abordagem, o foco está na experiência subjetiva da criança, considerando seus sentimentos, pensamentos e sensações corporais como aspectos fundamentais para a aprendizagem e o desenvolvimento integral. Sobre isso, Barbieri et.al. versa que: Em âmbito escolar, essa abordagem tem como foco o movimentar-se humano e a relação do indivíduo com o meio: sujeito-espaço, sujeito-tempo, sujeito-objeto, etc. Busca-se nas aulas de Educação Física desenvolver a capacidade de tomada de decisão e autonomia dos alunos, bem como propiciar a estes uma prática lúdica, de cooperação e socialização com os demais colegas de classe. (Barbieri et. al., 2008, p. 227) Arruda (2003) em sua obra defende a ideia de que na escola, as crianças e jovens encontram um ambiente rico em experiências que moldam sua formação emocional. Lá, vivenciam uma variedade de emoções, como amor, ódio, cooperação, competição, medo, raiva e amizade. Essas experiências são fundamentais para o desenvolvimento emocional e social dos indivíduos, refletindo os padrões emocionais que contribuem para sua formação ao longo da vida. É possível dizer que a abordagem fenomenológica, sociológica e cultural na Educação Física Escolar apresenta afinidades marcantes com a construção das competências socioemocionais através das aulas, pois ambas as abordagens valorizam o reconhecimento do indivíduo como um ser completo, cujas experiências, interações sociais e contexto cultural são elementos fundamentais. 9 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.3, p. 01-12, 2024 jan. 2021 2.3 O DESENVOLVIMENTO DAS COMPETÊNCIAS SOCIOEMOCIONAIS ATRAVÉS DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL A Educação Física é essencial para o desenvolvimento das competências socioemocionais nas crianças de zero a seis anos, pois proporciona uma ampla gama de experiências motoras, sociais e emocionais que afetam o crescimento integral dos pequenos. Durante essa fase do desenvolvimento infantil, a prática de atividades físicas e esportivas não apenas promove a saúde física, mas também estimula o desenvolvimento de habilidades socioemocionais essenciais. Sobre o jogo na Educação Infantil, Braga, Araújo e Haas versam que: jogo, por ocorrer em situações sem pressão, em atmosfera de familiaridade, segurança emocional e ausência de tensão ou perigo, proporciona condições para aprendizagem das normas sociais em situações de menor risco. O comportamento lúdico oferece oportunidades para experimentar vivências que, em situações normais, jamais seriam tentadas pelo medo do erro ou da punição (2015, p. 2). A Educação Física oferece oportunidades para a interação social e o desenvolvimento de habilidades de comunicação e colaboração. Fischer 2009 apud SCHREIBER et al, 2005 assevera que as atividades de Educação Física podem atuar no comportamento do aluno, nas suas atitudes e até mesmo em sua personalidade. As crianças têm a oportunidade de interagir com colegas, trabalhar em equipe, aprender a compartilhar e respeitar as regras do jogo, o que contribui para o desenvolvimento de habilidades sociais, como empatia, cooperação e resolução de conflitos. Além disso, a prática de atividades físicas promove o desenvolvimento emocional das crianças, ajudando a lidar com emoções como alegria, frustração, medo e confiança. Durante as atividades físicas, as crianças aprendem a lidar com desafios, a superar obstáculos e a desenvolver a autoconfiança e a autoestima. O ambiente lúdico e sonoro da Educação Física também proporciona um espaço seguro para as crianças expressarem suas emoções e desenvolverem habilidades de autorregulação emocional, oferecendo uma importante contribuição para o desenvolvimento cognitivo das crianças, estimulando a capacidade de concentração, atenção, tomada de decisões, resolução de problemas e pensar estrategicamente. Dialogando com a construção positiva do jogo e do brincar como recursos para desenvolver competências socioemocionais, Vygotsky (1989) destacava a importância de brincar no desenvolvimento infantil. Ele argumentou que o jogo é uma atividade na qual as crianças podem experimentar diferentes papéis sociais e explorar suas emoções de forma segura. Vygotsky via o jogo como uma ferramenta para o desenvolvimento de habilidades sociais e 10 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.3, p. 01-12, 2024 jan. 2021 emocionais, incluindo a regulação emocionale a resolução de conflitos. Destacou que, por meio dos jogos, as crianças são capazes de definir conceitos e criar situações para desenvolver seu desempenho em situações reais. Na Educação Física, o brincar desempenha um papel central, sendo uma ferramenta poderosa para estimular o aprendizado, promover a saúde e o bem-estar, além de desenvolver habilidades físicas, cognitivas, sociais e emocionais. É uma forma natural e espontânea de as crianças explorarem seu corpo, experimentarem movimentos e expressarem sua criatividade. Por meio de jogos, atividades recreativas e esportivas adaptadas, as crianças têm a oportunidade de desenvolver habilidades motoras fundamentais, como correr, pular, lançar e driblar, ao mesmo tempo em que se divertem e interagem com os colegas. O brincar na Educação Física estimula o desenvolvimento das habilidades sociais. Durante as atividades lúdicas, as crianças aprendem a compartilhar, a seguir regras, a resolver conflitos e a valorizar a diversidade, habilidades essenciais para a vida em sociedade, proporcionando um ambiente seguro e acolhedor para que as crianças expressem suas emoções, experimentem a superação de obstáculos. Ao se envolverem em atividades físicas e esportivas, as crianças desenvolvem a autoconfiança, a autoestima e a resiliência, aprendendo a lidar com frustrações e a transpor cada novo desafio. Educação Física e o brincar estão intrinsecamente ligados, representando uma abordagem pedagógica que valoriza o movimento, a diversão e a interação social como elementos essenciais para o desenvolvimento integral das crianças. Ao promover o brincar na Educação Física, os educadores contribuem não apenas para a formação de habilidades físicas, mas também para o desenvolvimento de indivíduos mais saudáveis, sociáveis e emocionalmente equilibrados. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS A Educação Física desempenha um papel fulcral na formação integral das crianças na educação infantil, sendo um forte aliado na construção de competências socioemocionais no ambiente escolar. Ao participarem de atividades físicas orientadas e contextualizadas, elas aprendem a lidar com desafios, a obter resultados positivos em grupo e a expressar suas emoções de forma saudável. 11 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.3, p. 01-12, 2024 jan. 2021 No entanto, apesar da importância evidente da Educação Física nesse aspecto, ainda são necessários mais estudos e pesquisas nesse campo de conhecimento para embasar práticas pedagógicas eficazes. Além disso, vale destacar a importância de a criança ser protagonista no seu próprio desenvolvimento sendo fundamental para promover um crescimento saudável, autônomo e significativo. Quando a criança é colocada no centro do processo de aprendizagem e tem a oportunidade de ser protagonista de suas próprias experiências, ela se torna mais engajada, motivada e responsável pelo seu próprio desenvolvimento. Para tanto, é essencial que a preocupação na educação infantil não se restrinja apenas ao aspecto cognitivo das crianças, mas abranja seu desenvolvimento integral como ser humano. Isso significa reconhecer a importância das habilidades socioemocionais para o sucesso acadêmico, social e emocional das crianças, e garantir que essas habilidades sejam cultivadas e fortalecidas desde cedo. Portanto, investir na Educação Física na educação infantil como meio de desenvolver competências socioemocionais é fundamental para o crescimento saudável e equilibrado das crianças. 12 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.3, p. 01-12, 2024 jan. 2021 REFERÊNCIAS ARRUDA L. A. A importância da inteligência emocional na Educação Física Escolar. Pesquisa em Educação Física. Jundiaí, vol. 1, n. 1, p. 157. Junho 2003. BARBIERI et. al. 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