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GRADUAÇÃO 
PROCESSO PENAL 
PROFA. RAFAELA ALBAN 
 
AULA 02 
NORMAL PROCESSUAL PENAL 
 
 
 
# IDENTIFICAÇÃO DA NORMAL PROCESSUAL PENAL: 
 
1. INTRODUÇÃO: 
• A vida em sociedade requer determinados comportamentos, sob pena de sanção. Há, 
portanto, uma adequação forçada que se materializa através de normas, que podem ser 
impostas de forma difusa (questões morais, religiosas, etc.) ou institucionalizada (questões 
jurídicas). 
• Normas difusas, ao serem transgredidas, possuem sanções também difusas (p.ex., 
desprezo, reprovação e censura social). Normas institucionalizadas, por sua vez, possuem 
sanções institucionalizadas. Essa que nos interessa aqui, a norma jurídica, aquela que traz 
consigo uma sanção institucionalizada, imposta pelo Estado. 
• Mas o que caracteriza a norma jurídica não é apenas a existência de uma sanção 
institucionalizada, pois existem normas jurídicas sem sanção prevista para a sua 
transgressão, mas que, segundo Kelsen, são jurídicas porque formam um todo, um sistema 
para que outras normas sejam aplicadas (ex. CF art. 1º x art. 5º, XLIV). As normas podem 
ter função complementar ou interpretativa e, assim, não possuir sanção. 
 
2. CONCEITO: 
• As normas processuais penais são normas jurídicas, que, segundo Frederico Marques, 
devem possuir as seguintes características: 
a) São normas de Direito Público; 
b) Servem para permitir, mover, a jurisdição penal; 
c) São instrumentais, pois servem para atuação do direito material – para que a lei penal 
seja aplicada - e para a tutela das garantias constitucionais do réu – “nulla poena sine 
judicio”. Logo, verifica-se que a norma processual envolve dois aspectos: é 
tipicamente técnica (formal) e serve para estabelecer o modo de aplicação da norma 
penal. 
 
 
 
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3. CLASSIFICAÇÃO DAS NORMAS PROCESSUAIS PENAIS: 
a) Normas processuais penais propriamente ditas: aquelas que dizem respeito ao 
desenvolvimento do processo. Essas podem ser: 
▪ Norma penal processual pura: são normas de cunho meramente processual (não 
tocam no Direito Penal material e nem no Direito Constitucional). Ex. normas que 
estabelecem os requisitos do mandato, da denúncia e da sentença, sob pena do ato ser 
considerado atípico (levando-o à nulidade, anulabilidade ou inexistência, conforme o 
caso). 
▪ Norma penal processual material ou híbrida: são normas que não perdem o seu caráter 
processual, mas que estão relacionadas ao direito material ou aos princípios 
constitucionais. A norma é híbrida quando “toca” o direito material ou constitucional. 
Alguns exemplos de normas e institutos híbridos: 
 Art. 88, da Lei 9.099/95: trata da representação, que é uma condição específica de 
procedibilidade e que possui um prazo decadencial de 06 meses. Decadência é 
instituto de Direito Penal. 
 Prisão preventiva: a norma é processual, mas prisão é instituto de direito material 
e que está associada a direitos constitucionais, pois se relaciona com a privação de 
liberdade. 
 Fiança (art. 323, CPP): contra-cautela processual que também trata de restrição 
de liberdade e, portanto, “toca” o Direito Constitucional. 
 Queixa Crime (art. 41, CPP): a queixa é uma peça processual, que tem que ser 
interposta em prazo decadencial de 06 meses, logo instituto de Direito Penal. 
 Normas que definem meios de provas: são processuais porque tratam do 
convencimento do juiz, mas estão associadas a aspectos constitucionais da ampla 
defesa. 
 Recursos: normas processuais que tratam de uma garantia constitucional ao duplo 
grau de jurisdição. 
 
b) Normas de organização judiciária: aquelas que têm um caráter mais administrativo do 
que processual. Ex. normas da Lei de Organização Judiciária (Lei 3.731/79), que são 
processuais em razão da matéria (forma e estrutura do judiciário), não sendo, portanto, 
norma de caráter administrativo propriamente dito. 
 
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c) Normas procedimentais: são normas de atos pré-processuais, já que, como não há ainda 
processo, essas normas não podem ser propriamente processuais. Ex. normas que tratam 
do Inquérito Policial. 
 
# VALIDADE DA NORMA PENAL NO TEMPO 
 
1. INTRODUÇÃO: 
• As regras de sucessão das leis processuais penais no tempo dependem, inicialmente, da 
natureza da norma jurídica a ser analisada (ou seja, se é pura ou mista). 
 
2. NORMAS PROCESSUAIS PENAIS PURAS OU FORMAIS: 
• Sendo pura, não há de se falar em retroatividade ou irretroatividade, fala-se em “tempus 
regit actum”, ou seja, no tempo em que o ato vai ser praticado. A lei nova atinge o 
processo na fase em que ele se encontra (CPP, art. 2º e LICPP, art. 1º). 
 
Art. 2º, CPP. A lei processual penal aplicar-se-á desde logo, sem prejuízo 
da validade dos atos realizados sob a vigência da lei anterior. 
 
• Sendo assim, tudo que foi produzido pelas leis anteriores será considerado válido, mas os 
novos atos serão submetidos à nova legislação. A questão central, portanto, é a 
imediatidade da aplicação da lei nova em vigor. 
 
VEJA BEM! 
Não se pode falar em norma processual penal pura mais ou menos benéfica ao réu, esta 
é meramente técnica, formal. Logo, se houver benefício ou malefício ao réu numa 
eventual mudança da lei, estaremos diante de uma norma processual penal material ou 
híbrida, não de uma norma processual pura ou formal. 
 
3. NORMAS PROCESSUAIS PENAIS HÍBRIDAS, MATERIAIS OU MISTAS: 
• No caso de normas penais processuais materiais ou híbridas, a regra é outra, pois se aplica 
o previsto para a sucessão de leis penais no tempo no Direito Penal. A lei aplicável é a do 
momento da ação ou omissão (teoria da atividade – “tempus delicti”), mas a norma mais 
 
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branda estará sujeita à retroatividade e tem ultra-atividade (art. 2º do CP c/c art. 2º do 
LICPP e art. 5º, XL, da CF). 
 
Art. 2º, CP. Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de 
considerar crime, cessando em virtude dela a execução e os efeitos penais 
da sentença condenatória. 
Parágrafo único - A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, 
aplica-se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença 
condenatória transitada em julgado. 
 
• Com a incidência do Código Penal, as regras serão: 
a) Retroatividade da lei mais benéfica: a norma processual penal híbrida mais benéfica 
irá retroagir em processos em curso. Logo, num aspecto penal, a sentença 
condenatória forma coisa julgada relativa, podendo ser objeto de ação revisional a 
qualquer tempo (art. 621, CPP). No entanto, a sentença absolutória será totalmente 
imutável quando transita em julgado, fazendo coisa julgada absoluta. 
b) Ultra-atividade da lei mais benéfica: a norma processual penal híbrida mais benéfica 
tem ultra-atividade, ou seja, uma lei antiga, mesmo que revogada, incide nos processos 
de delitos cometidos sob a sua égide, permitindo ao juiz, no momento da sentença, 
reportar-se a uma lei já revogada, desde que esta seja mais benéfica. A ultra-atividade 
relaciona-se à irretroatividade da lei mais grave. VEJA BEM! Sendo a lei mais 
benéfica revogada e tendo o fato ocorrido após a sua revogação, não há ultra-
atividade, aplicando-se ao fato a lei nova. 
• Exemplos: 
▪ Ex. 1: Com a nova Lei de Drogas (11.343/06), o uso de drogas possui pena mais 
branda na lei nova, logo, retroage a todos os fatos anteriores à sua vigência. No 
aspecto processual, como não há mais prisão, todos os usuários, mesmo que 
condenados, serão liberados da prisão (despenalização). 
▪ Ex. 2: Quando entrou em vigor o art. 88 da Lei 9.099/95, todos os autos foram 
baixados para a 1ª instância, a fim de que fosse colhida a representação (art. 91), 
mediante notificação da vítima, no prazo de 30 dias. Assim, surgem as seguintes 
situações: 
 Vítima notificada apresenta representação tempestivamente: processo segue. 
 Vítima notificada não apresentarepresentação ou apresenta intempestivamente: 
ocorre a decadência e o consequente arquivamento dos autos. 
 
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 Vítima não é notificada: o processo fica aguardando o término do prazo 
prescricional (não há suspensão). 
▪ Ex. 3: Com a Lei Anticrime e a previsão do Acordo de não Persecução Penal, os 
processos, mesmo com denúncia oferecida, deveriam ser enviados ao MP para análise 
de eventual acordo, já que essa possibilidade é mais benéfica. 
▪ Ex. 4: Com a Lei Anticrime e a estipulação de prazo de 90 dias para a revisão da 
prisão preventiva, todas as prisões em curso, com mais de 90 dias, deveriam ser 
revisadas pelo juiz. 
 
# VALIDADE DA NORMA PENAL NO ESPAÇO 
 
Art. 1o. O processo penal reger-se-á, em todo o território brasileiro, por este 
Código, ressalvados: 
I - os tratados, as convenções1 e regras de direito internacional; 
II - as prerrogativas constitucionais do Presidente da República, dos 
ministros de Estado, nos crimes conexos com os do Presidente da República, 
e dos ministros do Supremo Tribunal Federal, nos crimes de 
responsabilidade (Constituição, arts. 86, 89, § 2o, e 100); 
III - os processos da competência da Justiça Militar; 
IV - os processos da competência do tribunal especial (Constituição, art. 
122, no 17); 
V - os processos por crimes de imprensa (Vide ADPF nº 130). 
 
 
 
1. PRINCÍPIO DA TERRITORIALIDADE: 
• Diferentemente do que ocorre com as normas de Direito Penal material (que podem ser 
aplicadas a fatos ocorridos no exterior, com amparo nas disposições de 
extraterritorialidade condicionada e incondicionada no art. 7º do CP), as normas 
processuais penais são regidas pelo princípio da territorialidade. 
• De acordo com o princípio da territorialidade, a lei processual penal de um Estado só 
impera dentro dos limites territoriais. 
• O que é território nacional? 
a) Território em sentido estrito: “o território do Estado é todo espaço de terra, mar e ar 
sujeitos à sua plena e absoluta soberania” (Tourinho Filho). Ou seja: 
 Solo e subsolo; 
 Águas territoriais (rios, lagos e mares internos); 
 
1 Ex. Decretos 56.435/65 e 61.078/67. 
 
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 Mar territorial (Lei nº. 8.617/93): compreende uma faixa de 12 milhas contadas da 
preamar. Logo, não se confunde com a plataforma continental (200 milhas), que 
serve para determinar a soberania para efeitos de exploração e aproveitamento de 
recursos naturais, não serve para efeitos de jurisdição. 
 Espaço aéreo: compreende uma faixa de 100km acima do solo e água, após o qual 
se encontra o espaço cósmico. No espaço cósmico, não há exercício de poder 
soberano fixo, assim, a competência será determinada pelo país que corresponder à 
bandeira da aeronave ou da plataforma espacial. 
b) Território por extensão ou flutuante (art. 5º, § 1º, CP): uma extensão territorial que 
compreende: 
 As embarcações e aeronaves militares, bem como as civis de propriedade ou a 
serviço do Estado, por este diretamente utilizadas (ao seu serviço), em qualquer 
lugar que estejam: aquele será território nacional, sendo a recíproca verdadeira (em 
relação a estas aeronaves estrangeiras). 
 As embarcações e aeronaves de outra espécie, quando em alto mar ou em seu 
espaço aéreo correspondente (regiões que não pertencem a qualquer Estado): ou 
seja, aeronaves/embarcações privadas brasileiras que saiam do nosso Estado e 
ainda não alcançaram o território de outro país. 
 
2. PRINCÍPIO PROCESSUAL PENAL DA “LEXI FORI”: 
• A lei processual penal, pouco importando a sua natureza, não terá extraterritorialidade. 
Dessa forma, o processo penal será regido, quanto à sua aplicação no espaço, pela lei do 
lugar da infração (princípio da “lex fori”). Aplica-se, no âmbito processual, a lei do 
local da infração. 
 
2.1. EXCEÇÕES AO PRINCÍPIO DA “LEX FORI”: 
• Nesses casos, a lei poderá ser aplicada fora do país por suas próprias autoridades: 
a) Território nulluis; 
b) OTAN: nestes casos, havendo crime militar, não haverá “transladamento” do 
criminoso, que será julgado no país do lugar da infração, com base na lei do seu país 
de origem. 
c) Guerra: desde que o território esteja ocupado. 
 
 
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2.2. HIPÓTESES DE NÃO APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA “LEX FORI” (CPP, 
ART. 1º): 
• Nas seguintes hipóteses, dentro do território nacional, o CPP não será aplicado (salvo 
subsidiariamente): 
a) Os tratados, as convenções e regras de direito internacional: algumas convenções 
assinadas por diversos países ensejam essa “perda de soberania”, por exemplo, o 
Decreto 56.435/65 (Convenção de Viena sobre assuntos Diplomáticos) e o Decreto 
61.078/67 (Convenção de Viena sobre assuntos de relações consulares). 
b) Prerrogativas constitucionais: por questões políticas, determinadas pessoas, enquanto 
estejam no exercício de determinado cargo, mandato ou função, terão prerrogativas 
de serem julgados originariamente por um Tribunal. A competência por prerrogativa 
de função enseja uma ação penal originária com procedimento específico regido pela 
Lei 8.038/90. 
c) Processos da competência da Justiça Militar: serão aplicadas as regras do CPM e do 
CPPM para todos os crimes militares próprios e impróprios, seja no âmbito Federal 
(CF, art. 124) ou Estadual (CF, art. 125, §§ 3º a 5º). 
d) Processos de competência dos tribunais especiais: este dispositivo não foi 
recepcionado pela CF/88, apesar de ainda constar no CPP. 
e) Processos por crimes de imprensa: aplicavam-se as disposições procedimentais da 
legislação específica nos crimes de imprensa. Mas, a ADPF 130-7 declarou a 
inconstitucionalidade da legislação específica no que se refere à parte criminal e, 
atualmente, essa previsão do CPP está tacitamente revogada. 
 
3. ATOS DE COOPERAÇO INTERNACIONAL: 
• Os atos de cooperação internacional não excepcionam o princípio da “lex fori”, na verdade, 
o reafirmam, pois serão aplicados os procedimentos processuais do país de 
processamento/cumprimento. 
• Exemplos: 
a) Extradição: tratado em que um país permite a extradição do preso ao país de origem. 
Só é possível após processo perante o STF, com ampla defesa aos extraditados (Lei 
13.445/17 – Lei da Imigração). 
 
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b) Homologação de sentença estrangeira: para ser homologada, a sentença terá que 
depender da decisão do STJ, ser homologada segundo as nossas leis e ter uma dessas 
finalidades (art. 9º, CP): aplicação de medida de segurança ou reparação de dano. 
c) Carta rogatória: carta do rogante para o rogado, obedecendo as formas do CPP e 
dependendo de homologação do STJ. 
 
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# INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO DA NORMA PROCESSUAL PENAL 
 
Art. 3o A lei processual penal admitirá interpretação extensiva e aplicação analógica, bem 
como o suplemento dos princípios gerais de direito 
 
▪ Segundo o art. 3º do CPP: “a lei processual penal admitirá interpretação extensiva e 
aplicação analógica, bem como o suplemento dos princípios gerais de direito”. 
▪ Interpretação extensiva é aquele em que se amplia o conteúdo da lei, quando ela disse 
menos do que deveria. Exemplo de interpretação extensiva: art. 254, CPP, indica causas 
de suspeição relativas a juízes, mas devem ser igualmente aplicadas aos jurados (juízes 
leigos). 
▪ Interpretação analógica é aquela em que se aplica em fato não regido disposição referente 
a fato semelhante. Exemplo de interpretação analógica: ônus da sucumbência nas ações 
penais privadas para condenação do querelado a custas processuais e honorários 
advocatícios em analogia ao CPC. Outro exemplo: complementação ao art. 41 do CPP 
para exigência de requisitos básicos do art. 282 do CPC para elaboração de denúncia ou 
queixa. Outro exemplo: possibilidade de substituição de testemunha não localizada 
(previsão no art. 408, CPC).

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