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introdução à antropologia

Livro didático sobre Introdução à Antropologia: aborda pré‑história da disciplina, contexto social e influência colonial; escolas clássicas e biografias de teóricos; práticas de trabalho de campo, métodos/entrevistas e exercício etnográfico; inclui QR Codes/GIO.

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Indaial – 2023
Prof.ª Isadora de Assis Bandeira
2a Edição
Introdução à 
AntropologIA
Elaboração:
Prof.ª Isadora de Assis Bandeira
Copyright © UNIASSELVI 2023
Revisão, Diagramação e Produção:
Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI
Impresso por:
B214t
Bandeira, Isadora de Assis
 
 Introdução à Antropologia. / Isadora de Assis Bandeira – Indaial: 
UNIASSELVI, 2023.
 
 182 p.; il.
 ISBN 
 ISBN Digital 
 
 1. Antropologia. - Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da 
Vinci.
 CDD 301
Na Unidade 1, abordaremos a respeito da pré-história da antropologia. 
Compreenderemos o contexto social em que nossa disciplina esteve inserida e os reflexos 
desse momento de formação até os dias atuais. Entenderemos como os primeiros estudos em 
antropologia eram produzidos, desde o entendimento de quem eram os sujeitos que tinham 
consigo a legitimidade e condições de desenvolver suas pesquisas e teorias, assim como 
de que modo realizavam suas investigações. Iremos entender a passagem da antropologia 
feita no escritório para a investigação, longe das populações estudadas, e as mudanças 
com a prática do trabalho de campo no ofício do antropólogo. Por fim, aprofundaremos a 
respeito da influência do contexto colonial em nosso campo de conhecimento tanto no 
momento de nascimento da disciplina como atualmente. 
Em seguida, na Unidade 2, estudaremos as diferentes escolas clássicas da 
antropologia. As teorias e concepções em torno do pensamento clássico, diferenças e 
similaridades entre as escolas. Uma vez que essas escolas formaram a base teórica de 
fundação de nossa disciplina. Assim como conheceremos alguns dos nomes dos teóricos 
e fundadores de nossa disciplina, intelectuais largamente conhecidos em nosso campo de 
conhecimento. Não apenas serão trazidas para a discussão as suas teorias, como também 
partes de suas biografias. Seguindo a mesma prática de pensar a antropologia clássica 
desde uma perspectiva crítica contemporânea, aprenderemos a respeito de seus efeitos 
em termos de teoria e prática na discussão antropológica da atualidade. 
Por fim, na Unidade 3, aprenderemos a respeito da consolidação e 
transformações em relação à prática do trabalho de campo em nossa disciplina. Faremos 
algumas comparações em relação ao pensamento presente na antropologia clássica e 
contemporânea, sobretudo, em volta do tema de métodos e técnicas. Compreenderemos 
a respeito de possibilidades de uso de ferramentas como entrevistas, dentre outras. 
Conheceremos os principais paradigmas de nossa disciplina e realizaremos um primeiro 
exercício experimental em termos etnográficos! 
A proposta de nosso livro é compreender, desde o contexto pré-histórico, ou 
seja, aquele em que as primeiras inspirações antropológicas estavam se formando, e 
sua fundação enquanto disciplina científica, abordando as principais escolas clássicas 
e as práticas de nosso ofício. Objetivando sempre fazer conexões entre a antropologia 
clássica e contemporânea, assim como propondo um horizonte que ofereça um olhar 
crítico e sensível a respeito da teoria e prática antropológica. Aproveitem ao máximo este 
momento, pois esta pode ser vista como uma das etapas mais instigantes e fecundas 
de sua formação. Bons estudos! 
Prof.ª Isadora de Assis Bandeira
APRESENTAÇÃO
Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a 
você – e dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, a UNIASSELVI disponibiliza materiais 
que possuem o código QR Code, um código que permite que você acesse um conteúdo 
interativo relacionado ao tema que está estudando. Para utilizar essa ferramenta, acesse 
as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar essa facilidade 
para aprimorar os seus estudos.
GIO
QR CODE
Você lembra dos UNIs?
Os UNIs eram blocos com informações adicionais – muitas 
vezes essenciais para o seu entendimento acadêmico 
como um todo. Agora, você conhecerá a GIO, que ajudará 
você a entender melhor o que são essas informações 
adicionais e por que poderá se beneficiar ao fazer a leitura 
dessas informações durante o estudo do livro. Ela trará 
informações adicionais e outras fontes de conhecimento que 
complementam o assunto estudado em questão.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os 
acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina. A partir 
de 2021, além de nossos livros estarem com um novo visual 
– com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a 
leitura –, prepare-se para uma jornada também digital, em que 
você pode acompanhar os recursos adicionais disponibilizados 
através dos QR Codes ao longo deste livro. O conteúdo 
continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada 
com uma nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo 
o espaço da página – o que também contribui para diminuir 
a extração de árvores para produção de folhas de papel, por 
exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto 
de ações sobre o meio ambiente, apresenta também este 
livro no formato digital. Portanto, acadêmico, agora você tem a 
possibilidade de estudar com versatilidade nas telas do celular, 
tablet ou computador. 
Junto à chegada da GIO, preparamos também um novo 
layout. Diante disso, você verá frequentemente o novo visual 
adquirido. Todos esses ajustes foram pensados a partir de 
relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os 
materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, 
possa continuar os seus estudos com um material atualizado 
e de qualidade.
ENADE
LEMBRETE
Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma 
disciplina e com ela um novo conhecimento. 
Com o objetivo de enriquecer seu conheci-
mento, construímos, além do livro que está em 
suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, 
por meio dela você terá contato com o vídeo 
da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementa-
res, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de 
auxiliar seu crescimento.
Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que 
preparamos para seu estudo.
Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!
Acadêmico, você sabe o que é o ENADE? O Enade é um 
dos meios avaliativos dos cursos superiores no sistema federal de 
educação superior. Todos os estudantes estão habilitados a participar 
do ENADE (ingressantes e concluintes das áreas e cursos a serem 
avaliados). Diante disso, preparamos um conteúdo simples e objetivo 
para complementar a sua compreensão acerca do ENADE. Confira, 
acessando o QR Code a seguir. Boa leitura!
SUMÁRIO
UNIDADE 1 - FORMAÇÃO DA ANTROPOLOGIA, CONTEXTO SOCIAL E COLONIALISMO .... 1
TÓPICO 1 - PRÉ-HISTÓRIA DA ANTROPOLOGIA ..................................................................3
1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................3
2 PRIMEIROS PASSOS: ANTROPOLOGIA E OBSERVAÇÃO .................................................5
 2.1 O “EU” E O “OUTRO” NA ANTROPOLOGIA ......................................................................................8
2.1.1 A disciplina da antropologia e o eurocentrismo .................................................................12
2.2 ETNOCENTRISMO .............................................................................................................................. 14
2.3 UMA BREVE APRESENTAÇÃO DAS LINHAS DE INVESTIGAÇÃO 
 EM ANTROPOLOGIA ........................................................................................................................... 16
RESUMO DO TÓPICO 1 ........................................................................................................ 20
AUTOATIVIDADE ..................................................................................................................eram fruto 
dos relatos especificamente construídos pelos gregos. Esse povo, particularmente, era 
conhecido desde a Antiguidade por ter como tradição viajar e desbravar os mares. Não 
à toa, considerados os pais da filosofia, os gregos tinham como costume, no momento 
de relatar suas viagens, incrementá-las e florear ao máximo com considerável dose 
de fantasia, mitologia e fábula.  De fato, pouco se sabia sobre o mundo, culturas e 
populações de modo geral, estando restrita até mesmo a Europa em alguma medida 
ao seu próprio continente e algum mínimo conhecimento a respeito da África e Ásia. 
Esse desconhecimento não se dava pela falta de interesse em conhecer e explorar seus 
continentes vizinhos. No entanto, mesmo sendo uma civilização extremamente desejosa 
de empreender pelos mares afora, suas embarcações e ferramentas técnicas ainda 
eram insuficientes para garantir segurança e sucesso para realizarem grandes viagens. 
Limitando, assim, as possibilidades de desbravar os mares e tomar conhecimento sobre 
outros territórios e povos.
27
No entanto, nada poderia ser mais motivador que os interesses políticos, 
econômicos e territoriais que estavam em jogo. As chances de obter vantagens 
econômicas e territoriais eram suficientes para motivar esses possíveis viajantes 
desbravadores. Desse modo, com um forte investimento de recursos dos mais variados, 
desde matéria-prima, mão de obra especializada e aporte financeiro, foram viabilizadas 
as construções de um número considerável de embarcações (NOVAIS, 1969). Sendo 
essas, mais seguras, espaçosas e resistentes, permitindo, assim, a efetivação do plano 
de realizar grandes incursões marítimas. Assim, a partir do século XV, as primeiras 
embarcações de grande porte europeias, com destinos dos mais distantes imagináveis, 
começaram a desbravar os mares rumo as possibilidades de exploração.
FIGURA 6 – GRANDES EMBARCAÇÕES EUROPEIAS
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
Como já sabemos, muitos dos registros escritos desde os viajantes europeus 
que faziam parte das grandes embarcações, eram compostos por impressões pessoais e 
fabulações da imaginação humana. Dessa maneira, a confiabilidade dos registros desse 
período, de modo geral, era relativamente baixa. Não eram raros os registros que conflitavam 
entre si, mesmo que feitos por homens que haviam chegado a um mesmo território. No 
entanto, de nenhuma maneira esses registros perdem sua validade e importância, veremos 
sua importância científica logo à frente! Esses contatos, conflitos, registros e perspectivas 
culturais acabaram por, indiretamente, compor grande parte do arcabouço metodológico 
de nossa disciplina. É importante que se faça uma análise crítica a respeito desse período, 
todavia, de modo algum podemos descartar sua importância.
No próximo subtópico, dando continuidade ao tema dos viajantes e seus 
registros, compreenderemos a importância em termos de pesquisa empírica que esses 
registros tiveram tanto no passado como em nossos dias atuais, para a antropologia, 
nosso ramo de conhecimento. 
DICA
Para conhecer um pouco mais sobre as grandes embarcações assista ao 
vídeo “Como eram as caravelas, as naus e os juncos: as embarcações das 
grandes navegações”. Disponível em: https://bit.ly/3LS3f91.
28
2.1 O CONTEXTO DAS GRANDES EMBARCAÇÕES E 
OS ESTUDOS EMPÍRICOS 
Mesmo que os registros dos viajantes apresentassem diferenças consideráveis 
quando contestados com a realidade, ainda assim esses escritos foram de extrema 
importância para aquele período histórico, assim como para o desenvolvimento da 
pesquisa empírica, e, em especial, para a antropologia. Você deve se perguntar: o que é a 
pesquisa empírica? Pois bem, a pesquisa empírica é um modo de investigar um espaço, 
acontecimento ou situação a partir da experiência de coletar os dados em campo 
(seja este qual for), ou seja, é necessário ir até o local e observar o fenômeno do qual a 
pesquisa será realizada. Portando, com essa aproximação e observação, o pesquisador 
obtém material suficiente para sustentar suas hipóteses e alcançar conclusões.
No período das embarcações, essa maneira empírica de pesquisar acontecia 
justamente quando se estabeleciam contatos entre observador (viajantes) e 
observados (nativos), resultando em relatos e registros, ou seja, material de pesquisa 
empírica. Esse modo de coletar dados que, até os dias atuais, é de suma importância 
em nossa área de trabalho. Em boa parte de nossas análises e pesquisas, coletaremos 
dados de modo empírico. 
DICA
Para conhecer um pouco mais sobre a pesquisa empírica, consulte o 
artigo “O trabalho do antropólogo: olhar, ouvir e escrever”. Produção 
contemporânea de máxima importância para nosso ofício enquanto 
antropólogos. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/41616179. 
Além disso, era a partir desses relatos que muito do que era conhecido nessas 
viagens ganhavam repercussão pública. Aqueles que não estavam presentes nessas 
viagens, por diversos motivos, poderiam ter acesso, de certo modo, aos acontecimentos 
daquele contexto. Essas viagens tampouco eram acessíveis para a maior parte da 
população, que permanecia em solo europeu, e, graças às narrativas dos registros 
feitos pelos viajantes, poderiam conhecer parcialmente esses novos territórios e suas 
populações. Registros esses que combinavam impressões pessoais, perspectivas 
culturais e juízos morais a respeito daquilo que presenciaram e sentiam, seja nos mares 
e sobretudo nos territórios e interações ainda pouco conhecidos. 
De acordo com Sant’Anna Neto (2006), os relatos desses cronistas (viajantes) dos 
séculos XVI e XVII eram carregados do contexto social e político daquele tempo, do modo 
como concebiam o mundo e as dinâmicas sociais. Constavam nesses relatos, conceitos 
de natureza estética, religiosa e morais compartilhados pela civilização europeia. 
29
Mesmo que, em sua maioria, esses relatos coadunavam preconceitos e toda a 
sorte de julgamentos em relação aos povos dos quais estavam estabelecendo contato, 
ainda assim esses registros contribuem significativamente nossa compreensão a 
respeito do período histórico da fundação de nossa disciplina. Essa possibilidade de 
análise representava uma verdadeira abertura de visão de mundo em relação a culturas e 
territórios ainda desconhecidas e abundantes em termos de diversidade e cultura, sendo 
esse um movimento de absoluta importância, sobretudo para o pensamento crítico.
FIGURA 7 – PESQUISA EMPÍRICA EM CAMPO: O CONTATO DIRETO
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
Assim, iniciou-se um movimento representativo nas mais diversas áreas do 
conhecimento. Outros ramos do conhecimento passaram a apropriar-se do método 
empírico de pesquisa para compreender fenômenos de seus interesses científicos. 
A pesquisa de campo passou a ser uma metodologia de interesse compartilhado 
por vários campos de conhecimento. Obviamente ainda experimental, esse modo 
de pesquisa sofreu uma série de críticas e transformações. No entanto, quanto mais 
áreas do conhecimento mostrassem interesse em aplicar essa metodologia, maiores 
eram os avanços em termos científicos. Sendo assim, sua ampliação passou a ser de 
grande importância. Nesse período, as bases do pensamento científico começam a 
mudar consideravelmente. O mundo passa a observar os esquemas e fenômenos das 
mais infinitas áreas muito mais pelos olhos da razão e não mais apenas pela religião. A 
empiria na pesquisa científica representa uma mudança representativa em termos de 
pesquisa e ciência. Com o passar do tempo, a ciência conquista avanços consideráveis 
e de suma importância para a humanidade graças à aplicação da pesquisa empírica nos 
mais amplos espaços de investigação. 
No próximo subtópico, iremos refletir a respeito das diferenças culturais 
presentes entre diferentes grupos.Abordaremos o fenômeno da alteridade nas situações 
de contato entre viajantes e nativos. Ficou curioso? Vamos nessa! 
30
2.1.1 Cultura e alteridade: aproximações e diferenças
Acadêmico! É central que você compreenda que o objeto privilegiado da 
antropologia, nossa disciplina, é o fenômeno da diferença. Sim, as diferenças e suas 
variantes! Podemos pensar nas diferenças presentes entre sujeitos, comunidades, 
sociedades, sendo essas questões de suma importância em nosso trabalho. 
A partir de nossas observações antropológicas encontramos um solo fértil 
para investigar a questão das diferenças sociais e culturais. São as diferenças que 
constituem e compõem muitas das questões analisadas pela antropologia em termos 
sociais e culturais. Em nosso trabalho, a diferença sempre será uma presença constante 
e de máxima importância em nossas observações, análises e registros. Cada vez mais 
as diferenças entre pessoas, grupos e espaços, de modo geral, terão especial destaque 
no modo pelo qual você observa o mundo e reflete a seu respeito.
Essas diferenças plurais são parte constitutiva da existência humana, devido 
à diversidade de territórios e de povos existentes. A partir das diferenças presentes 
em nossos contextos, adotamos comportamentos, visões e dinâmicas de existência 
das mais variadas. É possível encontrar esses pontos de divergência desde a maneira 
como os diferentes grupos culturais e sociais organizam e estabelecem suas relações 
de parentesco, regimes econômicos, padrões de comportamento, organizações 
políticas, sistemas de distribuição e divisão de recursos, dentre outros. Por meio dessas 
diferenças entre sujeitos e comunidades é que podemos compreender parte do modo 
com que se organizam socialmente e de seu arcabouço cultural. Fato são as diferenças 
consomem parte significativa de nossos esforços crítico epistêmicos, desde o período 
pré-antropológico até os dias atuais. Ao longo da história da antropologia foram 
aplicados os mais intensos investimentos materiais e intelectuais para compreender 
essas diferenças. 
 A partir do contexto das grandes navegações exploratórias empreitadas pela 
Europa, essas diferenças tornaram-se visíveis facilmente. Com a aproximação entre 
sujeitos de diferentes territórios e culturas, começaram a surgir uma infinidade de 
perspectivas e interrogações culturais. 
Pigmentando o cenário daquele contexto histórico, consequentemente 
impulsionaram o pensamento crítico até os dias atuais. Como consequência dessas 
aproximações, umas séries de estranhamentos foram surgindo entre esses sujeitos 
pertencentes às culturas diferentes. Essa situação culminou em complexos e intensos 
choques culturais. Situações que muitas das vezes culminavam em atos de violência 
letal, ceifando majoritariamente a vida das populações nativas, aquelas que não 
pertenciam ao continente europeu.
31
FIGURA 8 – POVOS NATIVOS
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
Uma vez que se tratava de um cenário onde estava em xeque a afirmação de 
valores que constituíam o “eu” e, em contrapartida, as discordâncias decorrentes dos 
valores que constituíam o “outro” não faltaram conflitos e divergências de toda ordem 
imaginável. Nesse momento, a alteridade presente na constituição dos sujeitos e grupos 
sociais estava radicalmente colocada em xeque, fato que impactava intensamente as 
relações entre indivíduos e grupos de diferentes culturas.  Tratava-se, sobretudo, da 
abertura para um “outro mundo”, abundante em todos os sentidos, assim como conflituoso. 
Ufa, quantas informações! No entanto, agora, se você está pensando que esse 
modelo inaugurado de fazer pesquisa ficou para trás, está enganado. A pesquisa empírica, 
as diferenças e conflitos ainda constituem parte considerável do cenário atual de nosso 
trabalho. Entretanto, uma coisa é fato, com o passar do tempo, muitas mudanças e 
avanços surgiram no campo da antropologia. Que tal dar um salto das embarcações para 
as redes de internet e conhecer um pouco dos avanços de nossa disciplina?
Acadêmico, existe um mundo de alteridades, ou seja, um mundo repleto 
de diferenças que, por vezes, resultam em conflitos em nosso meio social. 
As diferenças devem ser consideradas ponto central das relações entre os 
seres humanos. A partir das diferenças podemos aprender muito sobre nós 
mesmos e sobre os outros. Lembre-se: a diferença é conhecimento. Assista ao vídeo 
“Antropologia: alteridade e o convívio social” e procure buscar, a partir das diferenças com 
outros sujeitos, possibilidades de crescimento pessoal e aprendizado social e cultural! 
Acesse: https://bit.ly/3p3ZzXK.
DICA
32
2.2 UM GIRO ANTROPOLÓGICO: DAS TRAVESSIAS OCEÂNICAS 
ÀS CONEXÕES ON-LINE 
Acadêmico, nossos esforços neste momento serão no sentido de pensar as 
mudanças e avanços em nossa disciplina ao longo do tempo. Se no passado, durante 
o contexto histórico das grandes embarcações europeias (século XVI), era necessário 
atravessar o oceano de um lado ao outro para observar outras realidades e coletar 
informações, atualmente, nossa disciplina e consequentemente nosso campo de 
pesquisa mudaram consideravelmente. 
Verdadeiras mudanças paradigmáticas fazem com que nossos objetos de 
pesquisa possam ser observados em absolutamente qualquer espaço social, sejam 
estes presenciais ou não. Atualmente, é possível observar e registrar fenômenos 
antropológicos sem que seja necessário tamanho deslocamento, ou melhor, podemos 
nos deslocar de outras maneiras (OLIVEIRA, 1994). Você deve se perguntar como isso 
é possível. Vamos entender junto como é possível substituir distâncias transatlânticas 
por um click! 
Em nosso momento atual, podemos desenvolver nossa pesquisa de campo, 
assim como desenvolver nossas análises e práticas profissionais sem ao mesmo ser 
necessário nos deslocarmos fisicamente. Imagine só o quanto a disciplina passou por 
mudanças e se reinventou para que isso seja possível! 
Existe uma demanda cada vez maior por parte do mercado de trabalho na busca 
por profissionais qualificados para atuar nos campos da tecnologia e ciências sociais, 
existe uma infinidade de possibilidades de atuação, desde a tecnologia e a antropologia 
(DOMINGUES, 2004). Podemos elencar exemplos que se referem a profissionais 
capacitados em realizar análises de mercado nos setores de compra, venda e procura 
por produtos específicos, consultorias virtuais dos mais diversos temas, construção 
e implementação de programas sociais no ambiente das redes, enfim, uma série de 
possibilidades estão abertas para unir nossos conhecimentos teóricos em antropologia 
aos campos de trabalho em tecnologia. 
Navegando no mundo da internet, é possível desenvolver pesquisas, prestar 
assessorias técnicas e realizar observações e análises desde sua própria casa. Com 
apenas um computador e sinal de internet um mundo se abre ao nosso acesso. As 
infinitas relações sociais cada vez mais acontecem a partir de interações virtuais. 
Obviamente, é indispensável que você tenha uma sólida formação em 
antropologia, mas essa tarefa já está sendo cumprida! Veja que interessantes são as 
mudanças e avanços presentes em nossa disciplina. Outrora era necessário investir tempo 
e uma variedade de recursos para realizar as observações e registros antropológicos, e, 
atualmente, a tecnologia alargou consideravelmente nossas possibilidades de atuação 
profissional e pesquisa científica ao longo do tempo.
33
FIGURA 9 – TRABALHO DE CAMPO VIRTUAL, PESQUISA E TECNOLOGIA
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
Com o passar dos anos, cada vez mais o mercado de trabalho está aberto a 
antropólogos dispostos a trabalhar com questões de tecnologia que carecem de análises 
antropológicas. Se os analistas e programadores têm a capacidade de criar programas e 
aplicativos, são os antropólogos que conseguem, através de suas pesquisas, descobrirem 
as necessidades, desejos e anseios decada grupo social. Além disso, por termos uma 
formação que propicia conhecimentos relativos às diversas técnicas de observação, 
podemos contribuir cientificamente em todas as áreas do conhecimento. Seja na área 
da educação (GUSMÃO, 1997), saúde (HEILBORN, 2004), questões raciais (BANDEIRA, 
2020) e tantas outras possíveis e imagináveis. Nossas possibilidades de trabalho podem 
ser compreendidas como de alcance ilimitado, visto que em todos os espaços existem 
diferenças, relações sociais e culturais, questões de máxima importância em nosso 
trabalho. Desse modo, é necessário extrair das produções clássicas questões que 
podem contribuir em nossas pesquisas até os dias de hoje, como a observação, registro, 
estranhamento, dentre outros temas, assim como é indispensável que tenhamos claro 
o marco histórico clássico de nossa disciplina, para que seja possível seguir avançando 
e ampliando o escopo de nossa área de conhecimento, bem como ampliando cada 
vez mais as possibilidades de atuação de nossa área de trabalho. O contexto social 
da fundação de uma disciplina condensa a base de nossos conhecimentos enquanto 
entusiastas de uma teoria crítica a respeito do fazer antropológico. 
Estamos avançando muito na história da antropologia clássica, todavia, não 
podemos nos esquecer das críticas pertinentes a nossa área de conhecimento. No 
próximo tópico, refletiremos a respeito da antropologia e sua base colonial, assim como 
as possibilidades de ruptura dessa prática antropológica. 
34
IMPORTANTE
Agora que você já sabe que é possível realizar pesquisas em antropologia 
na internet, que tal se arriscar a fazer o registro de uma observação. 
Você pode observar, descrever e registrar uma rede social de sua 
preferência, uma página que usuários interajam em relação a compra 
de produtos ou serviços. Enfim, fique a vontade, mas faça um registro 
de algum espaço virtual, lembre-se, a observação e a escrita envolvem 
dedicação e treinamento. Boa sorte! 
35
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• O contexto das grandes embarcações foi fundamental para a fundação da 
antropologia, sobretudo seu desenvolvimento enquanto disciplina científica, uma vez 
que os registros produzidos nesse contexto contribuíram significativamente para a 
reflexão do homem sobre o próprio homem. 
• A partir dos contatos e estranhamentos provenientes da interação social, a alteridade 
aparece em cena. E é a partir da compreensão da importância da alteridade presente 
no centro de nossas diferenças, aprendemos a conviver e respeitar a pluralidade de 
pessoas, ideias e culturas que compõe a humanidade. 
• Os conhecimentos a respeito da fundação de uma disciplina são indispensáveis para 
a formação de um antropólogo, uma vez que os avanços e mudanças ao longo da 
história desenham os rumos da disciplina tanto no presente, quanto no futuro. 
• A ampliação dos espaços de atuação dos antropólogos está diretamente relacionada 
à base da formação da disciplina, uma vez que as mesmas ferramentas do período 
clássico ainda são ferramentas de atuação nos dias de hoje, como a observação, 
registro, contato. Obviamente com avanços significativos tanto das técnicas quanto 
dos métodos de pesquisa.
36
1 O período em que os viajantes das grandes embarcações iniciaram o movimento de 
aproximação de culturas diversas e começaram a criar os primeiros registros escritos 
a respeito desses contatos, é chamado de: 
a) ( ) Período pré-etnográfico.
b) ( ) Período pré-histórico.
c) ( ) Período pré-antropológico. 
d) ( ) Período pré-filosófico.
2 Considerando o contexto social e cultura vigente no continente europeu no momento 
em os esforços em viabilizar as grandes embarcações e, consequentemente, os 
primeiros registros a partir das observações dos viajantes, reflita a respeito dos 
impactos daquela realidade social nas produções escritas por esses viajantes. Com 
base nessa realidade, analise as sentenças a seguir:
I- Como o objetivo principal da Europa era de se aproximar para explorar os demais 
continentes, os registros feitos pelos viajantes eram usados como meio de falsear 
as realidades das diferentes culturas, assim como utilizados enquanto ferramentas 
de legitimação da dominação e exploração em relação aos povos pertencentes aos 
demais territórios.
II- Os registros dos viajantes são descrições neutras a respeito da cultura e território 
daqueles considerados “outros”, assim como se prestavam a engrandecer os 
conhecimentos de fundo social e cultural. 
III- A partir dos relatos dos viajantes, houve um aumento de interesse por sistematizar 
as observações e investir esforços para transformar essas práticas em uma 
disciplina científica, a antropologia, fato que só aconteceu a partir do começo do 
século XIX.
 
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.
AUTOATIVIDADE
37
3 Os primeiros registros realizados pelos viajantes a respeito das culturas que não 
pertenciam ao continente Europeu, carregavam consigo questões que não mais 
fazem parte de nossa prática antropológica na atualidade. Com base nisso, classifique 
V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas:
( ) Estavam presentes nos registros questões de cunho comparativo e hierárquico 
entre as diferentes culturas.
( ) Os registros apontavam para a diversidade cultural enquanto uma questão positiva 
e importante para o desenvolvimento e evolução da humanidade.
( ) Esses registros eram puramente descritivos, sobretudo com relação a hábitos, 
costumes e práticas culturais.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – F – F.
b) ( ) V – F – V.
c) ( ) F – V – F.
d) ( ) F – F – V.
4 Faça um levantamento de algumas cartas dos cronistas (viajantes) e, a partir de 
uma dessas cartas, faça uma pesquisa bibliográfica que contenha uma análise 
crítica de um historiador sobre o mesmo contexto relatado na carta. A partir dessas 
duas perspectivas de observação, descreva as questões que divergem entre ambos 
em um exercício comparativo de observação documental. Como já sabemos, é de 
extrema importância que tenhamos a capacidade de desenvolver uma perspectiva 
crítica sobre diferentes pontos de vista, assim como realizar pesquisas autônomas.
5 Considerando os conflitos culturais presentes no período colonial, realize uma pesquisa 
que considere essas divergências no cenário atual. Busque uma situação em que uma 
mesma questão social seja concebida de maneiras diferentes entre países diferentes. 
Discorra a respeito das perspectivas (científicas, morais, religiosas) acionadas para 
defender ou acusar as diferentes visões. Exemplo: a questão do aborto em países como 
Brasil e Argentina.
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39
TÓPICO 3 - 
ANTROPOLOGIA E COLONIALIDADE
1 INTRODUÇÃO
Atualmente, a antropologia está associada à luta por direitos sociais, bem 
como políticas públicas das mais diversas áreas como: saúde, educação, segurança, 
habitação, impactos ambientais causados por exploração de mineração, dentre outros 
temas que impactam diretamente nas questões públicas. Contudo, é preciso avaliar 
essa mudança em termos de pesquisa antropológica enquanto uma conquista social 
coletiva. Nossa disciplina sofreu uma série de mudanças e transformações ao longo dos 
mais de cinco séculos desde sua fundação, uma vez que, inicialmente, ela servia aos 
interesses da elite europeia. 
Tanto a fundação quanto uma parte considerável de seu período inicial, nossa 
disciplina era utilizada para legitimar violências e atender a interesses privados de uma 
pequena porcentagem da população europeia. Os modos de construção das narrativas 
sobre os territórios e povos desconhecidos cumpriam duas funções: descrever e 
estereotipar. E por meio desses estereótipos eram construídos personagens da história 
carregados de inverdades que por si só justificavam uma sériede violências coloniais. 
Felizmente, na atualidade, nossa disciplina está majoritariamente relacionada com as 
lutas por direitos, reconhecimento da importância da diversidade de pessoas, ideias e 
culturas, bem como buscando contribuir para uma mudança de pensamento em termos 
de respeito a diversidade.
Em nosso Tópico 3, compreenderemos como a antropologia serviu aos 
interesses do colonialismo, bem como essa realidade ainda permeia algumas práticas 
antropológicas atualmente. Assim como conheceremos um horizonte no qual se 
debruça a antropologia decolonial, ou seja, um modo de pensar a antropologia que 
preste a contribuir no cenário da diversidade, pluralidade e horizontalidade em termos 
de direitos sociais e direito à vida. Existe uma série de pesquisas que carregam consigo 
a resistência em termos de direitos sociais. 
Aproveite ao máximo essa possibilidade de desenvolver uma visão crítica de sua 
área de atuação. É papel central do ofício do antropólogo zelar pela ética na pesquisa, 
bem como respeito aos direitos sociais coletivos. Bons estudos! 
UNIDADE 1
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2 A ANTROPOLOGIA E SUA HERANÇA COLONIAL
 
Acadêmico, neste momento, você chegou a uma parte do percurso de seus 
estudos de extrema importância, agora que conhece tanto os aspectos da fundação 
da antropologia quanto algumas questões centrais da disciplina. É chegada a hora de 
avançar em sua jornada de pesquisa e ter clareza a respeito da herança colonial de 
nossa disciplina. Existe uma extensa bibliografia que aborda criticamente a serventia 
da antropologia no contexto da colonização. Você deve se perguntar: mas qual é a 
relação existente entre antropologia e colonização? Pois bem, agora você irá conhecer 
esse passado um tanto obscuro de nossa disciplina. Não se assuste todas as áreas 
de conhecimento acumulam com o passar dos tempos erros e acertos ao longo de 
suas jornadas. É de suma importância ter consciência das falhas e prejuízos causados 
pelo nosso ramo do conhecimento para que assim seja possível reduzir os danos que 
ainda possam atravessar nossa realidade, bem como não mais repetir os erros. Vamos 
entender melhor essas questões?
FIGURA 10 – CRISTOVÃO COLOMBO: NAVEGADOR E EXPLORADOR
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
Em primeiro lugar, é necessário entender que o investimento e interesse 
europeu em desbravar outros territórios e aproximar-se de “outros” povos não se 
tratava de desejos inocentes, ou simplesmente uma vontade genuína em conhecer 
outros contextos, povos e culturas. Essa ânsia por aproximar-se desses “outros” estava 
diretamente relacionada à possibilidade de dominar e explorar, tanto os territórios 
quanto as suas populações.
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Desse modo, esses exploradores encontraram na possibilidade narrativa, um 
modo de criar um “outro” perigoso, desumano e, por consequência, passível de sofrer 
violências e agressões das mais variadas. Nesses registros eram descritos equívocos 
absurdos em termos de narrativa a respeito desses povos e territórios que serviam como 
justificativa para a legitimação de roubos, assim como modos degradantes de expor 
essas populações, sendo essas das mais diversas e imagináveis. Uma vez que o objetivo 
final era o de dominar esses povos, explorar seus territórios, bem como seus recursos 
naturais, toda e qualquer maneira de justificar essas ações eram válidas. Todos os meios 
necessários eram empregados para atingir a finalidade desejada: roubar e dominar. Por 
trás desse encontro de mundos, existia um obscuro plano violento baseado no interesse 
das mais diversas naturezas, seja territorial, econômico, religioso, dentre outros. 
Segundo Pereira (2005), os desenvolvimentos da ciência antropológica e da 
empresa colonial aconteceram simultaneamente, uma vez que a primeira justifica e 
viabiliza a segunda. Houve guerras, massacres, tráfico de pessoas, violências sexuais, 
incêndios criminosos e toda a sorte de violências para se alcançar os ideais do projeto 
europeu de colonização. As crônicas das viagens em muito diziam o que seria a 
antropologia, ao menos durante o período de colonização. Sim, uma antropologia que 
servia de base para justificar as atrocidades coloniais, obviamente, a disciplina por si 
só não tinha esse poder, no entanto, era manobrada de maneira que parecesse que a 
ciência fornecia o se aval para os absurdos presentes no regime colonial. 
É de suma importância ter clara a dimensão colonizadora da antropologia no 
contexto de colonização. Sobretudo, por se tratar de uma situação de dominação, 
que mesmo com o passar de mais de cinco séculos ainda reflete em nossa realidade 
contemporânea. O projeto de dominação por parte dos europeus visava a submissão dos 
povos nativos para a livre exploração de seu território, matérias-primas e populações. 
Essas possibilidades de obter vantagens econômicas era a maior de todas as forças 
impulsoras que motivaram investimentos e esforços por parte da Europa para conseguir 
ter êxito nas viagens exploratórias.
Os registros e narrativas, que vieram a ser considerados materiais de cunho 
antropológico acabavam por falsear a realidade dos povos nativos, para que, desse 
modo, fossem legitimadas violências coloniais para com os povos em processo de 
dominação. Parece complexo?! Vamos entender. 
Em resumo, aqueles que faziam os registros escritos justificavam o uso da 
violência para com os povos nativos tenho como desculpa o fato de que os primeiros 
não eram humanos como os europeus, faziam uso de juízos morais para legitimar a 
exploração dos recursos. Os modos de justificar os roubos, violências e atrocidades para 
com os povos nativos eram dos mais diversos, e esses registros antropológicos sobre as 
diferenças entre os povos eram o fundo que legitimava essas práticas. 
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DICA
Saiba, acadêmico, é muito importante que você compreenda o caráter 
internacional da antropologia, uma vez que cada vez mais estamos 
conectados uns aos outros. Para compreender um pouco mais sobre o 
movimento de desconstruir o caráter colonial da antropologia assista ao 
vídeo “Almir Cabral Biografado pelo Antropólogo Angolado Antonio Tomas”. 
Neste vídeo, o professor aborda questões de antropologia e colonialismo. 
Acesse em: https://bit.ly/3H18kIo.
No próximo subtópico, você compreenderá como a diferença cultural era utilizada 
para legitimar o uso de violência e um regime de exploração. Quem imaginaria que nossa 
disciplina poderia ter um passado tão passível de críticas? Vamos entender melhor! 
2.1 ANTROPOLOGIA, COLONIALIDADE E DOMINAÇÃO 
No contexto colonial as ditas "diferenças" entre povos e culturas tomavam cada 
vez mais espaço e importância dentro de um cenário que objetivava a dominação e 
submissão de territórios e povos. Uma vez que existiam interesses em disputa, essas 
supostas diferenças eram utilizadas para justificar o projeto de dominação, ou seja, de 
modo simples o seguinte pensamento reinava: “minha cultura é a correta, aqueles que 
forem diferentes de mim não são humanos como eu e posso violentá-los o quanto me 
parecer pertinente”. Esse era o modo de atuação da lógica colonial.
É interessante buscar sempre realizar um exercício de aproximação daquilo que 
aprendemos e estabelecer relações com nosso contexto histórico presente. Mesmo 
contemporaneamente, o uso de registros e narrativas ainda são utilizados para justificar 
massacres, violências e exploração.  Basta fazer uma pesquisa para perceber como 
justificativas culturais, religiosas e políticas servem de fundo para legitimar práticas de 
massacres entre países, que, quando pesquisados com profundidade, apontam essas 
práticas como modos de atingir objetivos de dominação e exploração. O tempo passa, 
mas as práticas coloniais seguem vigorosamente até nossos dias atuais. 
No contexto de colonização, algumas dessas supostas diferenças eram 
transformadas em questionamentos de maior importância, ou melhor, o fundo desses 
questionamentosera justamente as questões utilizadas para a legitimação das inúmeras 
possibilidades de práticas exploratórias (BALANDIER, 1993). Esses questionamentos 
diziam respeito, sobretudo, à lógica do pensamento teológico e filosófico, perspectivas 
de mundo vigentes e de extremo alcance e refutação da época. Dentre esses 
questionamentos, destaca-se a interrogação pela existência ou não da alma desses 
sujeitos tomados como sendo “outros”, “diferentes”, assim como inquietações a respeito 
da constituição do pensamento e razão desses povos.
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Em síntese, o que supostamente se investigava era o fato desses sujeitos serem 
considerados humanos ou não. Uma vez que essa humanidade não fosse constatada, não 
haveria nada que impedisse a exploração total de seus recursos, bem como a possibilidade 
de lhes infringir as violências e explorações mais intensas e imagináveis possíveis. 
Essas interrogações antecedem ao surgimento da antropologia enquanto uma 
disciplina científica, no entanto, eram centrais para os interesses do período colonial. 
Essas questões ocupavam um lugar central nos registros que outrora serviram para o 
desenvolvimento das pesquisas e perspectivas antropológicas. É preciso reconhecer 
que parte significativa da antropologia produzida durante o período de fundação da 
disciplina é extremamente passível a críticas das mais diversas ordens. Devemos levar 
em conta o fato de que se trata de um ramo do conhecimento que nasce enraizado nos 
valores e prejuízos morais de seu contexto histórico, territorial e político. 
Entre as questões que até os dias de hoje atravessam as relações sociais e 
estavam fortemente presentes em nossa disciplina, podemos destacar o racismo, 
xenofobia, violência de gênero, desigualdade social, eurocentrismo, dentre outras. No 
entanto, cabem a nós, sujeitos críticos e pensantes, compreendermos a realidade do 
projeto colonial vigente no período, os interesses políticos que atravessaram o contexto 
histórico e desenvolver uma crítica substantiva a respeito dessas práticas, uma vez que 
assim podemos garantir que a antropologia não seja mais usada como essa ferramenta 
de dominação e exploração (VIEGAS; PINA-CABRA, 2014). 
 
Infelizmente, essa dívida histórica da colonização que resultou em massacres, 
genocídios e outros tipos de violência que aconteceram ao longo do período da 
colonização ainda é tida como sinônimo de orgulho para determinados grupos. Um mar 
de sangue foi derrubado com sangue negro e indígena e, até os dias atuais, existem 
monumentos como o da Figura 11, que reiteram uma mentalidade colonialista por parte 
de um continente. É de suma importância que você, acadêmico, conheça a história 
geral, assim como o desenvolvimento de sua disciplina, pois, dessa maneira, você 
sempre terá responsabilidade ética em seu trabalho e perspectiva crítica sobre os fatos.
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INTERESSANTE
Realize uma pequena busca pela internet por matérias de jornais de países 
que são considerados potências mundiais e se encontram em guerra com 
países considerados subdesenvolvidos, e entendam a lógica do registro 
como um modo de legitimação do uso da violência. Nossa ferramenta de 
trabalho é, sobretudo, a escrita, e seu uso intencional pode representar um 
grande perigo em contextos de interesse político. Também aprenderemos 
a importância da diversidade cultural. Fiquem atentos! 
2.1.1 Da antropologia colonial ao novo sujeito crítico
Acadêmico, depois de ir muito longe para compreender a fundação de nossa 
disciplina, neste momento, vamos colocar nossos pés no tempo presente. Vamos 
entender a importância dos conhecimentos que adquirimos a respeito da tradição 
clássica da antropologia para fazer um contraponto com práticas contemporâneas de 
nossa disciplina. Se no passado nossa disciplina serviu aos interesses de uma minoria 
privilegiada, atualmente, a busca por equidade de direitos civis é um dos marcos de 
nossas práticas antropológicas. Vamos juntos?
FIGURA 11 – MONUMENTO EM HOMENAGEM AO EXPLORADOR CRISTÓVÃO COLOMBO, CIDADE DE HULVA, 
ESPANHA
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
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Uma das razões de conhecermos a antropologia clássica se dá pelo fato de que ela 
nos fornece material mais do que suficiente para perceber mudanças e avanços de nossa 
disciplina. É de suma importância que uma área de conhecimento sofra mudanças ao longo 
de sua história, característica que evidencia sua evolução enquanto ramo do conhecimento. 
Imagine se atualmente a antropologia se prestasse às mesmas ideias que em seu contexto 
de fundação? Quanta diversidade não seria desconsiderada em nome de interesses 
menores, seria uma lastima se igual. Contemporaneamente, temos a oportunidade de 
aprender uma infinidade de culturas, saberes, povos e perspectivas que nos ensinam tanto 
a respeito da existência coletiva e diversa. Quando se respeita e valoriza a diversidade, a 
visão de mundo se amplia de um modo significativo e enriquecedor!
Outrora, apenas os homens brancos e europeus tinham legitimidade enquanto 
sujeitos pensantes, dotados de racionalidade para pesquisar e produzir antropologia. 
Além disso, se tratava de uma tarefa que exigia investimento de tempo e recursos 
financeiros altíssimos, possibilidade que não se mostrava viável para a maior parte das 
pessoas. No período de fundação de nossa disciplina era necessário viajar ao longo de 
distâncias transatlânticas, por espaços de tempo que se alongavam. Desbravar mares 
para poder se aproximar e registrar, sistematizar e constituir análises de territórios e 
culturas diversas era uma possibilidade que apenas sujeitos determinados logravam. 
Atualmente, é possível perceber uma amplitude em relação à mudança e 
diversidade de pessoas de gêneros, etnias, camadas sociais e grupos raciais que 
produzem uma antropologia da mais alta qualidade e relevância social. O cenário de nossa 
disciplina está cada vez mais diversos e interessante, característica que potencializa 
significamente nossa área de atuação, ou seja, mudando a cara do pesquisador, muda 
também a cara da disciplina! 
Destaca-se que, além da mudança em relação ao próprio sujeito que articula 
e produz a antropologia, as metodologias também sofreram mudanças positivas. Cada 
vez mais se amplia um movimento de pensar sujeito e objeto de pesquisa de um modo 
horizontal e não mais vertical como outrora. Não acreditamos nas hierarquias entre 
as culturas e sim no respeito mútuo entre a diversidade cultural presente em nossa 
realidade. O respeito pelos conhecimentos e saberes dos povos pesquisados têm sido 
cada dia mais parte central de nosso trabalho. 
  Na atualidade, é possível, inclusive dentro da antropologia, conhecer 
trabalhos que são produzidos por sujeitos que compõem os grupos sociais que 
pesquisam (KOPENAWA; ALBERT, 2019). Esse tipo de pesquisa e produção enriquecem 
consideravelmente nossa disciplina, uma vez que levam em conta sujeitos, territórios e 
cultura desde uma compreensão da própria realidade, assim como tecendo relações de 
respeito e consideração sem igual.
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INTERESSANTE
Para conhecer um trabalho atual produzido a partir da relação entre 
antropólogo e nativo, recomenda-se a leitura do livro “A queda do céu”, dos 
autores Davi Kopenawa e Bruce Albert. A obra evidencia a importância do 
respeito e ética no trabalho de campo, bem como na produção de saberes 
compartilhado. Vale muito a pena conhecer esse universo apresentado 
por esses autores! Aproveite a leitura!
Se no passado a antropologia serviu de ferramenta para domínio e exploração 
de povos, culturas e territórios, contemporaneamente, o movimento crítico vigente visa, 
sobretudo, excluir hierarquias, estreitar relações e pautar a pesquisa tendo na ética um 
dos aspectos centrais da prática antropológica. 
Enfim acadêmico, chegamos ao final da Unidade 1 de nosso livro. Espero que esta 
viagem pelos mares e redes de internet tenha sido de grande valia e uma oportunidadede conhecimento para todos. Cabe a você pesquisar com mais profundidade sobre os 
temas propostos, bem como começar o processo de observação e registro do mundo 
a sua volta. Lembre-se, um bom antropólogo é aquele que observa, registra e reflete 
criticamente a respeito das questões sociais. Tenha a ética como uma ancora em sua 
jornada dentro da antropologia, é esperado que você respeite a diversidade de ideias e 
culturas e direcione sua carreira de modo crítico. 
A seguir, você terá a oportunidade de ler a “Carta de Pero Vaz de Caminha” 
e conhecer um pouco mais sobre esses registros, bem como perspectivas culturais 
presentes nos escritos dos viajantes. Boa leitura! 
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A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA
Pero Vaz de Caminha 
Senhor: 
Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam 
a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que ora nesta navegação 
se achou, não deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como 
eu melhor puder, ainda que – para o bem contar e falar – o saiba pior que todos fazer. 
Tome, Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem 
por certo que, para aformosear nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e 
me pareceu. 
Da marinhagem e singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, 
porque o não saberei fazer, e os pilotos devem ter esse cuidado. Portanto, Senhor, do 
que hei de falar começo e digo:
A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março. 
Sábado, 14 do dito mês, entre as oito e nove horas, nos achamos entre as Canárias, mais 
perto da Grã- Canária, e ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de 
três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, 
houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, ou melhor, da ilha de S. Nicolau, segundo o dito 
de Pero Escolar, piloto. 
Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de 
Ataíde com sua nau, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. 
Fez o capitão suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não apareceu mais! 
E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que, terça-feira 
das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, estando da dita Ilha obra de 660 ou 
670 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram 
muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim 
como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, 
topamos aves a que chamam fura-buxos.
LEITURA
COMPLEMENTAR
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Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum 
grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra 
chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome – o Monte Pascoal e à 
terra – a Terra da Vera Cruz.
Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças; e ao sol posto, obra de 
seis léguas da terra, surgimos âncoras, em dezenove braças — ancoragem limpa. Ali 
permanecemos toda aquela noite. E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos 
em direitos à terra, indo os navios pequenos diante, por dezessete, dezesseis, quinze, 
catorze, treze, doze, dez e nove braças, até meia légua da terra, onde todos lançamos 
âncoras em frente à boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas 
pouco mais ou menos.
Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo 
disseram os navios pequenos, por chegarem primeiro.
Então lançamos fora os batéis e esquifes, e vieram logo todos os capitães das 
naus a esta nau do Capitão-mor, onde falaram entre si. E o Capitão-mor mandou em 
terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou de ir para 
lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao 
chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte homens.
Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. 
Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau 
Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram. 
Ali não pôde deles haver fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar 
na costa. Somente deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava 
na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave, 
compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e 
outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer de 
aljaveira, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza, e com isto se volveu 
às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.
Na noite seguinte, ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus, 
e especialmente a capitânia. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, 
por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar âncoras e fazer vela; e fomos ao 
longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados à popa na direção do norte, para 
ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nos demorássemos, para tomar 
água e lenha. Não que nos minguasse, mas por aqui nos acertarmos.
 Quando fizemos vela, estariam já na praia assentados perto do rio, obra de 
sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali poucos e poucos. Fomos de 
longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que seguissem mais chegados à terra 
e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem. 
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E, velejando nós pela costa, obra de dez léguas do sítio donde tínhamos levantado 
ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e 
muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. As naus 
arribaram sobre eles; e um pouco antes do sol posto amainaram também, obra de uma 
légua do recife, e ancoraram em onze braças.
E estando Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, por 
mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife 
a sondar o porto dentro; e tomou dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons 
corpos, que estavam numa almadia. Um deles trazia um arco e seis ou sete setas; e na 
praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas de nada lhes serviram. Trouxe-os 
logo, já de noite, ao Capitão, em cuja nau foram recebidos com muito prazer e festa.
A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons 
narizes, bem-feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de 
mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos 
traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, 
de comprimento duma mão travessa, da grossura dum fuso de algodão, agudos na 
ponta como um furador. 
Metemonos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço 
e os dentes é feita como roque de xadrez, ali encaixado de tal sorte que não os molesta, 
nem os estorva no falar, no comer ou no beber. 
Os cabelos seus são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que 
de sobrepente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia 
por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas 
de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que 
lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena, com uma 
confeição branda como cera (mas não o era), de maneira que a cabeleira ficava mui 
redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.
O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem-vestido, 
com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. 
Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós outros que 
aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. 
Entraram. Mas não fizeram sinalde cortesia, nem de falar ao Capitão nem a ninguém. 
Porém um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de acenar com a mão para a 
terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para 
um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal 
como se lá também houvesse prata.
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Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no 
logo na mão e acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes 
um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha, quase tiveram medo dela: 
não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram como que espantados. 
Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos 
passados. Não quiseram comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provaram, logo a 
lançaram fora. Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram 
nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes a água em uma albarrada. Não beberam. Mal 
a tomaram na boca, que lavaram, e logo a lançaram fora.
Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem, folgou 
muito com elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e 
acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do Capitão, como dizendo 
que dariam ouro por aquilo. 
Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que 
levaria as contas e mais o colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho 
havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhas dera. 
Então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir, sem buscarem maneira de 
cobrirem suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam 
bem rapadas e feitas. O Capitão lhes mandou pôr por baixo das cabeças seus coxins; e 
o da cabeleira esforçava-se por não a quebrar. E lançaram-lhes um manto por cima; e 
eles consentiram, quedaram-se e dormiram.
Ao sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, e fomos demandar a 
entrada, a qual era mui larga e alta de seis a sete braças. Entraram todas as naus dentro; 
e ancoraram em cinco ou seis braças – ancoragem dentro tão grande, tão formosa e tão 
segura, que podem abrigar-se nela mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus 
quedaram ancoradas, todos os capitães vieram a esta nau do Capitão-mor. 
E daqui mandou o Capitão a Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias que fossem em 
terra e levassem aqueles dois homens e os deixassem ir com seu arco e setas, e isto 
depois que fez dar a cada um sua camisa nova, sua carapuça vermelha e um rosário de 
contas brancas de osso, que eles levaram nos braços, seus cascavéis e suas campainhas. 
E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de D. João Telo, a que 
chamam Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a 
mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim de frecha direitos à praia. 
Ali acudiram logo obra de duzentos homens, todos nus, e com arcos e setas nas mãos. 
Aqueles que nós levávamos acenaram-lhes que se afastassem e pousassem os arcos; e 
eles os pousaram, mas não se afastaram muito. E mal pousaram os arcos, logo saíram os 
que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles. E saídos não pararam mais; nem 
esperavam um pelo outro, mas antes corriam a quem mais corria. E passaram um rio que 
por ali corre, de água doce, de muita água que lhes dava pela braga; e outros muitos com 
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eles. E foram assim correndo, além do rio, entre umas moitas de palmas onde estavam 
outros. Ali pararam. Entretanto foi-se o degredado com um homem que, logo ao sair do 
batel, o agasalhou e o levou até lá. Mas logo tornaram a nós; e com ele vieram os outros 
que nós leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças.
Então se começaram de chegar muitos. Entravam pela beira do mar para os 
batéis, até que mais não podiam; traziam cabaços de água, e tomavam alguns barris que 
nós levávamos: enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todos 
chegassem à borda do batel. Mas junto a ele, lançavam os barris que nós tomávamos; 
e pediam que lhes dessem alguma coisa. Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. 
E a uns dava um cascavel, a outros uma manilha, de maneira que com aquele engodo 
quase nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas por sombreiros e 
carapuças de linho ou por qualquer coisa que homem lhes queria dar. 
Dali se partiram os outros dois mancebos, que os não vimos mais.
Muitos deles ou quase a maior parte dos que andavam ali traziam aqueles bicos 
de osso nos beiços. E alguns, que andavam sem eles, tinham os beiços furados e nos 
buracos uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha; outros traziam três 
daqueles bicos, a saber, um no meio e os dois nos cabos. Aí andavam outros, quartejados 
de cores, a saber, metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, a modos 
de azulada; e outros quartejados de escaques. Ali andavam entre eles três ou quatro 
moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, 
e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito 
bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha. Ali por então não houve mais fala ou 
entendimento com eles, por a barbaria deles ser tamanha, que se não entendia nem 
ouvia ninguém.
Acenamos-lhes que se fossem; assim o fizeram e passaram-se além do rio. 
Saíram três ou quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris de 
água que nós levávamos e tornamonos às naus. Mas quando assim vínhamos, acenaram-
nos que tornássemos. Tornamos e eles mandaram o degredado e não quiseram que 
ficasse lá com eles. Este levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas 
para lá as dar ao senhor, se o lá houvesse. Não cuidaram de lhe tomar nada, antes o 
mandaram com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, ordenando 
que lhes desse aquilo. E ele tornou e o deu, à vista de nós, àquele que da primeira vez 
agasalhara. Logo voltou e nós trouxemo-lo. [...]
FONTE: Adaptada de . Acesso em: 21 
fev. 2022.
52
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• A antropologia, sobretudo em seu período clássico, serviu aos interesses coloniais. 
Todavia, atualmente, em nossa disciplina existe uma crítica pertinente a respeito 
desse momento histórico.
• O investimento europeu em desbravar os mares e conhecer continentes ainda 
desconhecidos estava totalmente pautado no interesse por controle, dominação e 
exploração. E foi a partir dessa lógica que a antropologia se fundou. 
• A fundação de nossa disciplina testemunhou uma série de violências como 
guerras, massacres, tráfico de pessoas e toda a sorte de agressões, desde as 
prerrogativas coloniais.
• Atualmente, devido às mudanças e avanços em nossa disciplina, é possível realizar 
uma pesquisa pautada na observação e registro sem ao menos deslocar-se. Situação 
que se opõem ao contexto das grandes embarcações, berço de nossa disciplina. 
Existe um amplo espaço para a atuação do antropólogo com questões relacionadas 
à tecnologia.
53
1 Atualmente, existe um movimento de mudanças consideráveis em termos de 
pertencimento cultural em relação aos antropólogos. Não existe uma identidade 
única em relação a quem possui legitimidade para trabalhar com antropologia. Com 
base nisso, assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Existe uma diversidade de pessoas em termos raciais e regionais atuando na 
antropologia contemporânea, produzindo, assim, pesquisas extremamente 
relevantes e pertinentes. 
b) ( ) A entrada de pessoas de diferentes culturas acaba por empobrecer as produções 
antropológicas, uma vez que esses sujeitos não têm capacidade crítica desejada. 
c) ( ) Existe uma produção antropológica feita por sujeitos pertencentes às próprias 
comunidades estudadas, todavia, essa produção não é considerada científica. 
d) ( ) Na atualidade, a identidade do pesquisadorem antropologia ainda é a mesma do 
período clássico. 
2 Pensando na prática da observação, registro e reflexão antropológicas contemporâneas 
e nos temas relacionados à diversidade de pessoas e ideias, culturas e modos de 
organização presentes em nosso trabalho. Acerca do exposto, analise as sentenças 
a seguir:
I- O antropólogo tem responsabilidade ética com relação ao desenvolvimento de suas 
pesquisas, levando em conta questões como respeito ao grupo pesquisado, bem 
como valorização da diversidade. 
II- Atualmente, a antropologia preza pelos direitos sociais dos grupos diversos, levando 
em conta a importância da igualdade e diversidade.
III- Cabe ao antropólogo atender aos interesses das elites nacionais, visto que são 
estes os detentores dos recursos econômicos necessários para o desenvolvimento 
de pesquisas.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.
AUTOATIVIDADE
54
3 O projeto de colonização visava explorar e dominar povos e territórios. Em seu período 
inicial a antropologia serviu a esse projeto de modo a legitimar práticas de violência 
e exploração. Atualmente, nossa disciplina caminha em sentido oposto, buscando, 
inclusive, operar de modo a diminuir os danos desse passado colonial. Com base 
nisso, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas:
( ) Ainda atualmente, existem práticas antropológicas que atendem a interesses 
particulares, no entanto, a prática majoritária de nosso trabalho gira em torno de 
interesses coletivos. 
( ) Os direitos sociais são responsabilidades do Estado, enquanto antropólogos não 
temos nenhuma responsabilidade com essas questões. 
( ) A antropologia busca desenvolver análises neutras, não levando em conta questões 
de direitos sociais. 
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – F – F.
b) ( ) V – F – V.
c) ( ) F – V – F.
d) ( ) F – F – V.
4 Agora você já conhece o contexto social e cultural da fundação da antropologia 
desde seu período pré-antropológico. Para que você consiga ter domínio sobre esse 
tema de tamanha importância em nossa disciplina, descreva com suas palavras o 
cenário de surgimento de nossa disciplina.
5 Aponte as similaridades como a prática do trabalho de campo, aproximação com as 
populações nativas, registro das observações e de diferenças, como a necessidade 
de realização das grandes viagens para o campo (atualmente, possíveis de serem 
realizadas na própria comunidade do pesquisador), inovações tecnológicas em 
termos de registros, presentes no período clássico e contemporâneo em relação 
aos modos de trabalhar dos antropólogos. Visando uma reflexão a respeito dessas 
diferenças e aproximações, em síntese, apontar para as heranças do período clássico 
de nossa disciplina e seus avanços.
55
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sites/16/2016/07/HILAINE-DE-MELO-YACCOUB.pdf. Acesso em: 22 fev. 2022. 
58
59
ESCOLAS CLÁSSICAS
UNIDADE 2 — 
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• apresentar as diferentes escolas clássicas da antropologia e suas perspectivas 
teóricas centrais;
• compreender e aprofundar seus estudos a respeito da escola evolucionista, escola 
difusionista, escola culturalista;
• conhecer os principais teóricos clássicos considerados fundadores das escolas 
antropológicas do período clássico; 
• introduzir uma reflexão geral sobre as correntes teóricas clássicas e seus impactos 
no desenvolvimento histórico da disciplina de antropologia.
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dela, você encontrará 
autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.
TÓPICO 1 – EVOLUCIONISMO
TÓPICO 2 – DIFUSIONISMO
TÓPICO 3 – CULTURALISMO
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure 
um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.
CHAMADA
60
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A TRILHA DA 
UNIDADE 2!
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TÓPICO 1 — 
EVOLUCIONISMO
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Olá, acadêmico! Parabéns por ter concluído a Unidade 1 de nosso Livro Didático, 
o caminho que você percorreu até agora é de extrema importância para os próximos 
passos que você dará em termos de conhecimento e reflexão a respeito da formação e 
consolidação das escolas clássicas da antropologia. 
Nesta fase do aprendizado, você já está preparado para conhecer, refletir 
e apresentar, as diferentes perspectivas críticas presentes nas teorias e críticas que 
compõem as escolas antropológicas pertencentes ao período clássico, de maneira 
clara, concisa e assertiva. Além do mais, agora será possível desenvolver e sistematizar 
os conhecimentos obtidos em torno dessas escolas, seus contextos históricos de 
fundação, assim como desenvolver críticas embasadas nos conhecimentos teóricos 
adquiridos anteriormente. 
A soma dos conhecimentos obtidos nas Unidades 1 e 2 permitirão não apenas 
conhecer as escolas clássicas, mas também olhar criticamente o desenvolvimento da 
história da antropologia enquanto uma disciplina que se propõe a compreender aspectos 
complexos da humanidade e suas diferentes formas de organização.
A partir desta etapa de nossos estudos, você conhecerá algumas das 
mudanças, análises e avanços de nossa disciplina, a partir dos conceitos e reflexões 
presentes nas escolas do pensamento clássico. É muito importante que você tenha 
claro que o estabelecimento da antropologia enquanto uma disciplina científica e suas 
transformações presentes no período clássico são referenciais teóricos até mesmo para 
o momento contemporâneo, assim como mesmo frente a processos de ampliação e 
transformação da perspectiva teórica, bem como questões práticas de nosso campo de 
conhecimento antropológico, as mudanças em nossa disciplina não necessariamente 
configuram um processo de anulação do pensamento clássico. 
Uma vez que, até os dias atuais, ainda existem antropólogos pautando suas 
pesquisas, métodos, técnicas e práticas antropológicas desde as perspectivas clássicas. 
Trata-se da multiplicidade de possibilidades e escolhas teóricas que coexistem em uma 
mesma área de atuação profissional.
62
Em nossa disciplina, contemporaneamente, acordamos de chamar as diferentes 
perspectivas teóricas presentes na antropologia de escolas antropológicas. Essas escolas 
tratam do pensamento predominante vigente em determinado período e contexto histórico 
específico, ou seja, essas escolas antropológicas não são espaços físicos onde as pessoas 
ensinam e aprendem antropologia, mas se referem à constituição de diferentes maneiras 
metodológicas e teóricas de analisar e compreender os fenômenos culturais.
Lembrando que, como estudamos na Unidade 1, mesmo que a antropologia 
tenha múltiplas linhas de pesquisa, no Brasil, ao nos referirmos à antropologia, 
majoritariamente estamos falando da antropologia cultural. E é a respeito da antropologia 
cultural que estamos estudando em nosso livro!
Com o passar do tempo, as interações sociais, tensões e choques entre culturas 
e sociedades, bem como as reflexões teóricas a respeito desses acontecimentos da 
ordem do social e cultural, resultaram no nascimento de escolas teóricas (fundadas 
por estudiosos da área) com diferentes interpretações antropológicas a respeito das 
situações socioculturais. Portanto, um mesmo acontecimento social e cultural pode ser 
interpretado de diferentes maneiras, baseados em escolas antropológicas com olhares 
que, por vezes, se aproximam e se diferenciam a respeito de um mesmo tema da ordem 
da cultura e da sociedade. 
Cabe a você, acadêmico, conhecer e se apropriar teórica e metodologicamente 
das escolas antropológicas, utilizar as teorias e ferramentas metodológicas que mais 
fazem sentido para suas pesquisas e campos de atuação profissional, apropriando-
se desse arcabouço de conhecimentos da melhor forma possível. Assim como é de 
suma importância conhecer um pouco a respeito daqueles que foram os fundadores 
dessas escolas clássicas, suas realidades sociais e contextos históricos, uma vez que, 
essas teorias nos fornecem material suficiente para refletir criticamente a respeito dos 
movimentos intelectuais em questão. 
Esperamos que você possa aproveitar ao máximo todos os conhecimentos 
contidos neste material, para que, assim, ao final de seus estudos, possa ser capaz de 
reconhecer, apresentar e formar críticas construtivas a respeito das escolas clássicas, 
de modo tranquilo e exitoso. Bons estudos!
2 O ESTABELECIMENTO DA ESCOLA EVOLUCIONISTA 
Acadêmico, você já parou para pensar no motivo das pessoas insistentemente 
acreditarem na existência de uma superioridade de certos grupos e/ou sociedades em 
relação a outros? 
63
A antropologia clássica, sobretudo a teoria da escola evolucionista, pode 
responder uma parte considerável da origem dessas questões ligadas a existência de 
falsas hierarquias entre as populações humanas. Mesmo que a teoria evolucionista 
clássica seja um pensamento que há muito tempo tenha sido cientificamente superado, 
é possível, ainda nos dias de hoje, encontrar suas heranças sociais em nossas práticas 
e relações cotidianas.Vamos entender melhor essas questões? 
Foi a partir da definição da antropologia enquanto uma disciplina científica que as 
diferentes perspectivas antropológicas foram sendo desenvolvidas e formalmente instituídas 
enquanto escolas antropológicas. Sendo a antropologia evolucionista, a primeira grande 
escola antropológica consolidada enquanto uma corrente teórica hegemônica presente na 
história da antropologia (CASTRO, 2005). Mesmo sendo uma escola teórica pertencente à 
grande área de conhecimento da antropologia, atualmente, está estabelecida no campo das 
humanidades, a antropologia evolucionista pode ser lida enquanto um saber de fundação 
interdisciplinar, no sentido de que suas fontes de observação e análise eram inicialmente 
desenvolvidas e refletidas por intelectuais das mais diversas áreas disciplinares. Somado 
a isso, deve-se levar em conta o fato de que a separação das áreas de conhecimento em 
campos disciplinares se trata de uma perspectiva moderna de organizar e compreender os 
diferentes campos do conhecimento.
Acontece que, a escola de antropologia evolucionista está baseada em 
aspectos ligados ao que se entendia enquanto “evolução” biológica e cultural, sobretudo 
da humanidade, e em menor escala de importância a respeito de outros primatas (o 
centro da análise estava no homem, todavia outros organismos vivos eram estudados 
como elementos de segunda ordem e tendo menor importância), ou seja, se a escola 
evolucionista fosse fundada em nossos dias atuais, ela pertenceria aos campos das 
ciências naturais e ciências sociais, concomitantemente. Observe acadêmico, como é 
interessante conhecer o período clássico de nossa disciplina, uma vez que aprendemos 
inclusive a respeito dos aspectos interdisciplinares presentes no campo de conhecimento 
de nossa disciplina que, de modo geral, não são explícitos, ou seja, estudar antropologia 
representa investigar um campo interdisciplinar dos conhecimentos científicos! 
Fundada no século XIX, a hegemonia da escola evolucionista e sua perspectiva 
científica vigorou por volta dos anos 1870 e 1908. O período de vigência de uma escola 
teórica nunca pode ser pensado como uma data precisa, no entanto, essas datações 
referem-se muito mais ao tempo em que essas teorias tiveram mais adeptos, visibilidade 
e espaço no campo científico. É importante que você saiba que, na história da ciência, 
existe uma tendência por parte dos estudiosos de pensar, estudar, pesquisar e produzir 
teoria em torno dos assuntos de maior relevância para o momento histórico. 
A ciência sempre caminha junto com a realidade. Portanto, a escola evolucionista, 
foi fortemente inspirada pelas reflexões e trabalhos do então naturalista Charles Darwin 
(1809-1882), uma vez que sua teoria da evolução estava em alta entre os estudiosos 
daquele período (DOMINGUES; SÁ, 2003). Assim como inspirada pelo filósofo, “biólogo 
e antropólogo”, Herbert Spencer (1820-1903), que, por sua vez, buscou aplicar as leis 
64
da evolução para absolutamente todas as atividades humanas. Darwin e Spencer se 
diferenciavam, sobretudo, ao modo como compreendiam a evolução, para o naturalista 
existiam diversas possibilidades de evolução entre os seres vivos, em contrapartida, 
Spencer necessariamente apoiava sua teoria na perspectiva de uma linearidade 
evolutiva, ou seja, uma única escala progressista de evolução. Em termos de linearidade 
evolutiva, existia uma forte similaridade entre o pensamento de Spencer e a teoria da 
escola evolucionista.
NOTA
Antes mesmo da própria noção de evolucionismo estabelecido na antropologia, 
o filósofo inglês Herbert Spencer (1820-1903) foi um dos principais intelectuais 
responsáveis por inspirar a teoria evolucionista, uma vez que sua teoria da evolução 
era muito abrangente. Para o estudioso, a evolução se tratava de um conceito de 
desenvolvimento, sobretudo, progressivo, que abarcaria: sociedade e cultura humana 
(singular), organismos biológicos, mundo físico, mente humana e ciência. 
Podemos visualizar, na Figura 1, uma ilustração daquilo que seria considerado 
evolução desde uma perspectiva contemporânea. Para a teoria clássica evolucionista 
e seus adeptos existiriam passos de desenvolvimento humano. É muito importante 
compreender que o topo dessa suposta evolução humana seria ocupado pelo homem 
civilizado, detentor da capacidade de leitura e escrita, ou seja, o próprio antropólogo. 
E quem poderia alcançar o ofício de antropólogo? O modelo de indivíduo considerado 
ideal no século XIX: homem branco, letrado, proprietário, socializado segundo o padrão 
europeu de civilização. 
FIGURA 1 – PERSPECTIVA EVOLUCIONISTA
FONTE: . Acesso em: 2 dez. 2021.
É muito importante acadêmico, que você conheça os pioneiros de nossa disciplina, 
bem como o contexto social do qual esses estudiosos estavam inseridos. Assim sendo, os 
principais precursores e pioneiros da escola evolucionista foram os estudiosos: Lewis Henry 
Morgan (1818-1881), Edward Burnett Tylor (1832-1917) e James George Frazer (1854-1941), 
cada qual com suas formações e interesses de pesquisa, com temas que, por vezes, se 
assimilam e em outros momentos se diferenciavam (CASTRO, 2005). 
65
Todos esses estudiosos foram institucionalmente reconhecidos e amplamente 
vistos como antropólogos da mais alta relevância intelectual. Esses três estudiosos, 
pesquisaram e produziram materiais que, até os dias de hoje, servem como base para 
trabalhos antropológicos, mesmo que suas teorias sejam fortemente criticadas pelos 
antropólogos contemporâneos. É importante ter em mente que, mesmo as críticas 
em relação a essas produções teóricas são fundamentais para a reflexão a respeito da 
história da antropologia, assim como seus usos contemporâneos. Os estudos, pesquisas 
e produções desses intelectuais são de suma importância para a fundação, formalização 
e consolidação de nossa disciplina, a antropologia. Suas formações, empreendimentos 
de pesquisa e produções bibliográficas, tanto no âmbito institucional quanto pessoal, 
estão situadas em diferentes áreas do campo do conhecimento. Todavia, seus interesses 
pelos estudos em antropologia, os aproximaram teoricamente, bem como os tornaram 
consolidados intelectualmente no campo antropológico.
De modo resumido, a teoria antropológica evolucionista, primeira corrente de 
pensamento formalmente estabelecido na disciplina da antropologia, compreendia a 
existência de uma linearidade evolutiva na humanidade. Portanto, acreditava-se que 
toda a humanidade, independente do período ou região do qual pertenciam, deveriam 
necessariamente passar pelas mesmas etapas de desenvolvimento. Era como se 
os diferentes povos saíssem de um mesmo ponto de partida e, necessariamente, 
precisassem alcançar os mesmos objetivos, padrões de comportamento e organização 
social (FRAZER, 2014). Sendo assim, toda a humanidade estaria distribuída em diferentes 
graus de evolução social, e como vimos na Unidade 1 de nosso livro, essa prática 
abria espaço para a criação de hierarquias sociais e a abertura de possibilidades que 
justificariam estratégias de exploração e domínio entre os povos considerados evoluídos 
em relação àqueles considerados menos evoluídos. Todavia, antes de avançar nossa 
compreensão a respeito da escola evolucionista, é importante conhecer um pouco 
a respeito daqueles que foram considerados os fundadores dessa corrente teórica. 
Como você sabe, os estudos clássicos necessariamente exigem o conhecimento de 
certos nomes e biografias parciais daquele que são considerados os fundadores das 
disciplinas. Vamos conhecer um pouco a respeito desses pensadores que foram e ainda 
são nomes famosos de nossa disciplina?
DICA
Conheça um pouco mais a respeito da Teoria Evolucionista assistindo ao 
vídeo “Antropologia Evolucionista – Antropológica”. Neste vídeo a antropóloga 
e professora Mariane da Silva Pisani, apresenta um quadro geral sobre a 
escola evolucionista. Disponível em: https://bit.ly/3IctqVC.
66
2.1 PRINCIPAIS TEÓRICOS21
TÓPICO 2 - VIAJANTES ...................................................................................................... 25
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 25
2 GRANDES NAVEGAÇÕES: A IMPORTÂNCIA DOS CONTATOS E REGISTROS ............... 26
2.1 O CONTEXTO DAS GRANDES EMBARCAÇÕES E OS ESTUDOS EMPÍRICOS ........................28
2.1.1 Cultura e alteridade: aproximações e diferenças ...............................................................30
2.2 UM GIRO ANTROPOLÓGICO: DAS TRAVESSIAS OCEÂNICAS ÀS CONEXÕES ON-LINE ....32
RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................................ 35
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 36
TÓPICO 3 - ANTROPOLOGIA E COLONIALIDADE .............................................................. 39
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 39
2 A ANTROPOLOGIA E SUA HERANÇA COLONIAL ............................................................ 40
2.1 ANTROPOLOGIA, COLONIALIDADE E DOMINAÇÃO ....................................................................42
2.1.1 Da antropologia colonial ao novo sujeito crítico .................................................................44
LEITURA COMPLEMENTAR .................................................................................................47
RESUMO DO TÓPICO 3 ........................................................................................................ 52
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 53
REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 55
UNIDADE 2 — ESCOLAS CLÁSSICAS ..................................................................................59
TÓPICO 1 — EVOLUCIONISMO ............................................................................................. 61
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 61
2 O ESTABELECIMENTO DA ESCOLA EVOLUCIONISTA  ................................................... 62
2.1 PRINCIPAIS TEÓRICOS FUNDADORES: LEWIS HENRY MORGAN .............................................66
2.2 PRINCIPAIS TEÓRICOS FUNDADORES: EDWARD BURNETT TYLOR ......................................68
2.3 PRINCIPAIS TEÓRICOS FUNDADORES: JAMES GEORGE FRAZER .........................................71
2.4 ASPECTOS CENTRAIS DA ANTROPOLOGIA EVOLUCIONISTA .................................................. 73
3 IMPACTOS SOCIAIS DA ANTROPOLOGIA EVOLUCIONISTA ...........................................74
3.1 EVOLUCIONISMO E CONTEMPORANEIDADE ............................................................................... 76
RESUMO DO TÓPICO 1 .........................................................................................................78
AUTOATIVIDADE ..................................................................................................................79
TÓPICO 2 - DIFUSIONISMO .................................................................................................81
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................81
2 ESCOLA DIFUSIONISTA: BASE DO PENSAMENTO ......................................................... 82
2.1 ESCOLA DIFUSIONISTA E O FENÔMENO DA DIFUSÃO CULTURAL ..........................................86
2.1.1 O trabalho de campo .................................................................................................................89
2.2 FUNCIONALISMO: BRONISLAW KASPER MALINOWSKI E SUA OBRA “ARGONAUTAS 
 DO PACÍFICO OCIDENTAL” (1922) .................................................................................................... 91
2.3 RADCLIFFE-BROWN E O ESTRUTURAL FUNCIONALISMO ......................................................95
RESUMO DO TÓPICO 2 .........................................................................................................97
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 98
TÓPICO 3 - CULTURALISMO .............................................................................................. 101
1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 101
2 FRANZ BOAS E A INTERDISCIPLINARIDADE NA FORMAÇÃO 
 DE UM DOS FUNDADORES DA ANTROPOLOGIA: DA FÍSICA À ANTROPOLOGIA ..........102
2.1 ILHA DE BAFFIN E SUBJETIVIDADE NA PESQUISA ANTROPOLÓGICA ...............................104
2.1.1 Descobertas do campo: topografia nativa ........................................................................108
2.2 ESCOLA CULTURALISTA .................................................................................................................110
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................... 112
RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................... 116
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................117
REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 119
UNIDADE 3 — CAMPO, MÉTODOS E TÉCNICAS DE PESQUISA 
 EM ANTROPOLOGIA CLÁSSICA .................................................................123
TÓPICO 1 — O DESPERTAR PARA A PESQUISA ................................................................125
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................125
2 SOBRE TORNAR-SE ANTROPÓLOGO: TEORIA E TRABALHO DO CAMPO .................... 127
2.1 TRABALHO DE CAMPO: PESQUISADOR, RELAÇÕES DE CONFIANÇA 
 E ALGUNS EXEMPLOS PRÁTICOS ..................................................................................................130
2.2 EM CAMPO: OBSERVAÇÃO E NOTAS  .......................................................................................... 134
2.2.1 O campo estendido e multifocal  ........................................................................................ 136
2.3 ESTRANHANDO O FAMILIAR: O TRABALHO DE CAMPO 
 EM SUA PRÓPRIA COMUNIDADE  .................................................................................................138
RESUMO DO TÓPICO 1 ...................................................................................................... 140
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................ 141
TÓPICO 2 - MÉTODOS E TÉCNICAS EM PESQUISA ..........................................................143
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................143
2 A FUNDAÇÃO DA OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE  ........................................................ 144
2.1 A PRÁTICA DA OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE (DE PERTO E DE DENTRO) ..........................146
2.1.1 O uso de entrevistas ................................................................................................................ 147
2.2 SOBRE A ESCRITA ANTROPOLÓGICA: ETNOGRAFIA .............................................................. 149
2.3 PESQUISA ANTROPOLÓGICA: O USO DE MÉTODOS ............................................................... 152
3 TEMA E PESQUISA ..........................................................................................................156FUNDADORES: 
LEWIS HENRY MORGAN
 
Como já visto, os estudiosos considerados fundadores da escola evolucionista 
são: Lewis Henry Morgan (1818-1881), Edward Burnett Tylor (1832-1917) e James 
George Frazer (1854-1941), pesquisadores com formações, experiências de mundo e 
perspectivas antropológicas com algumas similaridades e diferenças. No entanto, 
esses três estudiosos despertaram seus interesses teóricos e dedicaram suas vidas e 
carreiras de modo comprometido com as questões da antropologia. É muito importante 
conhecer e compreender as formações institucionais, perspectivas sociais, contextos 
culturais e produções teóricas daqueles que foram os pioneiros de nossa disciplina. Esse 
conhecimento é fundamental para entender os caminhos, avanços e desenvolvimento 
da área de conhecimento que pretendemos atuar, assim como a relação com o contexto 
histórico em que as teorias e hipóteses científicas foram desenvolvidas. Neste momento, 
acadêmico, você conhecerá um pouco a respeito da história de nossos precursores na 
antropologia clássica.
Vamos começar por Lewis Henry Morgan, nascido no dia 21 de outubro do ano 
de 1818, em uma pequena cidade pertencente ao estado de Nova York, nos Estados 
Unidos da América, filho de um proprietário rural. No ano de 1842, Morgan formou-se 
no curso de direito no Union College. Desde seu período de formação universitária, a 
política sempre foi um de seus temas de grande interesse, chegando a conseguir se 
eleger senador estadual. Durante o tempo da faculdade, fez parte de uma associação 
de estudantes chamada “Ordem de Nó Gordio”, que tinha como interesse central os 
estudos clássicos. Com o passar do tempo, por conta de sua aproximação com o tema, 
Morgan dedicava-se cada vez mais com afinco e responsabilidade à associação, bem 
como a suas pesquisas clássicas. 
Entusiasta pela temática da etnologia, o jovem estudante propôs uma mudança 
de nome da associação, tal qual uma aproximação e dedicação com seu grande interesse 
de pesquisa: os iroqueses, grupo de povos nativos da região. Ainda segundo suas 
sugestões, o grupo passou a se chamar “Grande Ordem dos Iroqueses”. Com o passar 
do tempo, sob forte influência de Morgan, o tema ganhou cada vez mais importância e 
dedicação por parte dos membros da associação. Inclusive, em determinado momento, 
esses membros passaram a usar uniformes inspirados naquilo que eles consideravam 
como costumes e rituais iroqueses. Os membros da associação passaram cada vez 
mais a reproduzir formas e figuras de linguagem pretensamente iroquesa, do mesmo 
modo que estudar a história desses povos nativos.
67
FIGURA 2 – LEWIS HENRY MORGAN
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
Em 1844, por decorrência de sua profissão, o ainda jovem advogado, Morgan, 
mudou-se para Rochester e abriu seu escritório de advocacia. Nesse período, após um 
encontro do acaso, sua vida passou por uma grande mudança. Para sua sorte, em uma 
visita a uma livraria na cidade de Albany, Morgan acabou por conhecer um indígena, para 
sua surpresa, esse jovem era filho de um chefe Iroquês. Sim, esse mesmo grupo que 
Morgan tanto se interessava em conhecer e pesquisar. Depois de uma longa conversa 
e algumas trocas, Ely Parker (filho do chefe Iroquês) aceitou mediar uma conversa entre 
Morgan e algumas das lideranças Iroquesas, fazendo com que o jovem conseguisse 
se aproximar e compreender um pouco mais a respeito da realidade dessas pessoas e 
sua cultura. Como resultado desse encontro, outros tantos encontros foram possíveis, 
experiência que rendeu muito aprendizado para o estudante e entusiastas dos estudos 
clássicos, os conhecimentos adquiridos a partir desses contatos foram centrais para a 
continuidade da formação do jovem aspirante a antropólogo.
Convidados por Parker, Morgan e alguns de seus colegas da associação, 
visitaram e conheceram as reservas dos povos Iroquês. Após certo grau de relação e 
estabelecimento de confiança, no ano de 1846, Morgan foi intitulado como guerreiro 
Seneca do clã Falcão, ganhando certo grau de importância e respeito entre os nativos. 
Todavia, seu trânsito no território Iroquês dependia do respeito que ele deveria conservar 
em relação a algumas ressalvas, por exemplo, a impossibilidade de acompanhar rituais 
secretos. Algum tempo desses encontros e acontecimentos movidos por necessidades 
pessoais e profissionais, os membros da associação que Morgan participava acabaram 
deixando a associação fazendo com que fosse dissolvida. No entanto, o interesse de 
Morgan pelas populações Iroquesas jamais diminuiu ou deixou de existir. 
O estudioso seguiu exemplarmente estudando a respeito desses povos 
(ALMEIDA, 2010). Desse modo, Morgan tornou-se uma referência norte-americana em 
termos de pesquisas e conhecimento na temática dos povos Iroqueses, publicando 
livros e organizando coleções de objetos indígenas no New York Museum.
68
É muito interessante conhecer um pouco a respeito dos autores clássicos 
de nossa disciplina. Entender como figuras de tamanha importância trilharam seus 
caminhos na antropologia, assim como perceber as aproximações entre nós e nossas 
referências. Afinal de contas, todos nós precisamos começar nossa jornada nas 
pesquisas antropológicas desde um ponto de partida. Agora que já conhecemos Lewis 
Henry Morgan e um pouco de sua biografia, experiências pessoais e institucionais, que 
tal conhecermos Edward Burnett Tylor, também considerado um dos fundadores da 
escola evolucionista. Bora lá?! 
IMPORTANTE
Acadêmico, em nossa Unidade 2 do Livro Didático, há mais do que uma 
introdução de assuntos relevantes em termos antropológicos, você está 
avançando teoricamente e conhecendo as escolas clássicas do pensamento 
antropológico. Sendo assim, é chegada a hora de colocar em prática aquilo 
que combinamos na Unidade 1. Você se recorda? Nosso combinado era o de que você 
começaria a fazer pesquisas de modo autônomo. Que tal começar a buscar materiais em 
plataformas virtuais que tragam um pouco a respeito dos contextos e debates da escola 
evolucionista, assim como seus principais fundadores. Busque por filmes, podcasts, 
vídeos, materiais audiovisuais de modo geral. Desafie a você mesmo e ultrapasse limites 
nunca antes imaginados, quando você busca por conhecimentos de maneira livre e 
autônoma você está construindo sua carreira enquanto antropólogo, uma vez que a 
pesquisa será sua principal ferramenta de trabalho. Bom trabalho!
2.2 PRINCIPAIS TEÓRICOS FUNDADORES: 
EDWARD BURNETT TYLOR
 Edward Burnett Tylor nasceu no dia 2 de outubro do ano de 1832, em 
Londres, Reino Unido. Desde sua juventude trabalhou com seu pai em uma fundição de 
bronze, uma vez que se tratava do negócio de sua família. Tylor não cursou a universidade 
ao longo de sua vida. No entanto, sua produção intelectual foi amplamente reconhecida 
enquanto pesquisa e abordagem teórica, consolidada nos estudos em antropologia, 
também foi considerado o fundador da antropologia cultural. Uma das questões 
de grande interesse para o estudioso era justamente definir o contexto científico da 
antropologia com base nos estudos evolucionistas presentes naquele período, esse 
tema e perspectiva teórica aparecem em seu reconhecido livro “Cultura primitiva”, de 
1871. Suas pesquisas e produções contribuíram consideravelmente para a consolidação 
da antropologia enquanto uma disciplina teórica formalmente estabelecida no campo 
do conhecimento.
69
INTERESSANTE
Acadêmico, muitos dos textos clássicos de nossa disciplina não estão traduzidos 
para o português. Todavia, para além do conteúdo disponível no Livro Didático, 
é importante que você busque fazer leituras dos textos escritos pelos próprios 
autores. Nada mais interessante e potente do que conhecer um pensador a partir de sua 
própria produção teórica. Dessa maneira, recomenda-se a leitura do livro “A ciência da 
cultura”, do evolucionista Edward Burnett Tylor. Disponível em: https://bit.ly/36yhfV9.
Uma vez que as vidas pessoal e profissional se encontram estreitamenterelacionadas, alguns infortúnios e situações pessoais acabaram por fazer com que Tylor 
fosse de encontro com a antropologia. Ainda durante sua juventude, o jovem britânico 
perdeu seus pais e precisou, juntamente com seu irmão, assumir os negócios de sua 
família. No entanto, para sua surpresa, foi acometido de sintomas que pareciam evidenciar 
o início de uma tuberculose, fazendo com que fosse necessário seu afastamento dos 
negócios. Nesse momento, os médicos o aconselharam há passar algum tempo em 
uma região com clima quente, diferente daquele presente na Europa. Assim, no ano 
de 1855 o jovem deixou a Inglaterra e seguiu viagem para o México e América Central. 
Com as experiências da viagem, despertou para o interesse em buscar compreender as 
culturas que naquele momento eram estranhas a sua realidade. Por ocasião da viagem, 
acabou conhecendo Henry Christy (1810-1865), etnólogo e arqueólogo, resultando em 
uma aproximação fundamental para os rumos que a vida de Tylor tomaria a partir desse 
momento (SILVA, 2009).
FIGURA 3 – EDWARD BURNETT TYLOR
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
70
Segundo Castro (2005), resultou desse encontro o interesse de Tylor pela área 
da antropologia, uma vez que a vivência com Christy e sua área de atuação lhe abriu os 
olhos para vários assuntos em torno de questões antropológicas, assim como questões 
a respeito da pré-história. 
A primeira publicação de Tylor em livro versava sobre observações levantadas 
em sua viagem ao México, acompanhado pelo etnólogo Christy no ano de 1856, a obra 
intitulada “Anahuac: ou, México, antigo e moderno”, de 1861, foi publicada após seu 
retorno à Inglaterra. Esse livro trazia uma série de notas em torno das práticas e crenças 
que se observavam no México. No entanto, o interesse de Tylor não parou por aí, dando 
continuidade em seus estudos a respeito de costumes e crenças tribais, seu interesse 
abarcava um raio de temporalidade que tomava tanto os estudos pré-históricos, quanto 
aqueles de seu tempo presente. Assim, no ano de 1865, publicou um segundo livro 
intitulado “Pesquisas sobre a antiga história e o desenvolvimento da civilização”. E pouco 
tempo depois, publicou aquele que seria seu trabalho mais conhecido, “Cultura primitiva: 
pesquisas sobre o desenvolvimento da mitologia, filosofia, religião, linguagem, arte e 
costume”, de 1871. Tylor além de ampliar o escopo dos estudos a respeito da civilização 
humana, também foi de suma importância em termos de teoria e contribuição para o 
contexto de fundação da antropologia. Suas pesquisas, publicações e aulas, instruíram 
e influenciaram uma geração de pesquisadores jovens e entusiastas do campo da 
antropologia, com destaque, por exemplo, ao renomado antropólogo James George 
Frazer (1854-1941). 
No ano de 1883, o autor era considerado a maior autoridade em antropologia na 
Grã-Bretanha, sendo então nomeado conservador do museu da Universidade de Oxford. 
Nos próximos anos, foi ganhando outros espaços e cargos dentro da universidade, 
assim como consolidou uma reconhecida carreira intelectual. No ano de 1896, tornou-
se o primeiro professor em antropologia em Oxford, cargo de maior relevância dentro 
da universidade, publicando, nesse período, um livro intitulado “Sobre um método 
de investigar o desenvolvimento das instituições, aplicado às leis de casamento e 
descendência”. No ano de 1909, Tylor se aposentou e recebeu o título de professor 
emérito, infelizmente nesse período se encontrava em condições mentais que não lhe 
permitia sobriedade a respeito da vida. No ano de 1917, veio a falecer. 
Estamos avançando um bom tanto em relação aos teóricos evolucionistas! Cada 
um desses estudiosos representa parte considerável da teoria dessa escola antropológica. 
Esses pensadores representam a base do desenvolvimento da antropologia enquanto 
uma disciplina científica formalmente estabelecida. Agora, vamos conhecer o pesquisador 
James George Frazer?
71
DICA
Para conhecer um pouco mais a respeito do renomado antropólogo Edward 
Burnett Tylor, é interessante assistir ao vídeo “Edward Burnett Tylor’’. Para 
aqueles que não dominam o idioma do inglês, vá em configurações e coloque a 
opção de legendas ativadas em português. Disponível em: https://bit.ly/3JFv2r2. 
2.3 PRINCIPAIS TEÓRICOS FUNDADORES: 
JAMES GEORGE FRAZER 
No ano de 1854 nasceu James George Frazer, na cidade de Glasgow, Escócia. 
Filho de um farmacêutico, pertencente a uma família de classe média. Estudou na 
Universidade de Glasgow e sequenciou seus estudos no Trinity College, em Cambridge, 
formando-se em estudos clássicos, Frazer era um aluno de destaque. Passou a maior 
parte de sua vida associado institucionalmente à universidade. Nos anos de 1907 e 1908 
esteve na Universidade de Liverpool. Com grande interesse pelos estudos clássicos, 
sobretudo de autores gregos e romanos, lidos desde suas obras originais. Recebeu uma 
bolsa-prêmio da universidade com duração aproximada de seis anos e, no ano de 1895, 
essa bolsa de estudos se tornou vitalícia. Mesmo não sendo uma grande fortuna, esse 
financiamento permitiu sua dedicação exclusiva e por toda a vida ao campo dos estudos.
Segundo Ackerman (2019), mesmo que os projetos de pesquisa de Frazer 
nascessem com certa modéstia, sua obstinação pela pesquisa fazia com que se 
tornassem grandiosas produções teóricas. Naquele período, o trabalho de campo não 
era uma prática corriqueira dos estudiosos, sobretudo na vida de Frazer, suas pesquisas 
eram grandemente baseadas em questionários enviados a missionários e funcionários 
imperiais nas mais diferentes partes do mundo. Seu interesse pela área da antropologia 
social estava fortemente ligado à leitura da obra “Cultura primitiva” do então antropólogo 
Tylor (sim, esse mesmo que acabamos de estudar), assim como influenciado por um 
amigo, William Robertson Smith (1846-1894), que era teólogo e antropólogo. Smith 
estava pesquisando a história das religiões do Oriente Médio, sobretudo, a partir dos 
elementos do Antigo Testamento. Com a morte prematura de Smith, Frazer converteu-se 
no estudo da antropologia, no entanto, seus interesses nos temas clássicos o seguiram 
ao longo de toda a sua vida. Frazer foi o primeiro intelectual a escrever detalhadamente 
a relação entre mitos e ritos, tema de grande relevância. É possível conhecer sua teoria, 
sobretudo ao que se refere à relação entre mito e rito em sua obra “O ramo de ouro” 
(FRAZER; DOUGLAS, 1978). 
72
FIGURA 4 – JAMES GEORGE FRAZER
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
O teórico evolucionista foi amplamente reconhecido enquanto um estudioso 
dos estudos modernos da mitologia e religião, uma vez que desenvolveu trabalhos 
em que abordava as similaridades entre crenças mágicas e religiosas entre diferentes 
populações. De modo resumido, sua perspectiva apontava para uma progressão de 
estágios da crença humana: magia primitiva que progredia para religião e finalmente 
à vida científica. Inclusive, essa lógica linear aponta e demostra sua perspectiva de 
análise desde um prisma evolucionista. No ano de 1930 sua visão estava severamente 
comprometida, dificultando, assim, sua produção escrita. Sua obra mais conhecida 
e amplamente divulgada foi “O ramo de ouro”, de 1890, na qual explicava o tema da 
mitologia clássica, obra de fôlego com um total de aproximadamente 800 páginas. Após 
reedições, diálogos com outros pesquisadores, reflexões e pesquisa, a terceira edição 
da obra tinha um total de 13 volumes e 4.569 páginas. No ano de 1922, o autor produziu 
uma versão sintetizada que se tornou um best-seller.
Quanto conhecimento teórico é possível adquirir a partir da biografia daqueles 
que foram considerados os fundadores de nossa disciplina! Agora que já conhecemos 
alguns dos nomes de maior representatividade no período de fundação da escola 
evolucionista, que aprofundar um pouco nossos conhecimentos na referida corrente 
teórica. Vamos seguir nossa trilha de conhecimento antropológico! 
DICAPara conhecer um pouco mais a respeito do renomado antropólogo James 
George Frazer, assista ao vídeo “James George Frazer’’. Para aqueles que 
não dominam o idioma do inglês, vá em configurações e coloque a opção 
de legendas ativadas em português. Disponível em: https://bit.ly/3BUnvSV.
73
2.4 ASPECTOS CENTRAIS DA ANTROPOLOGIA EVOLUCIONISTA
Conforme apresentado anteriormente, os três grandes nomes da escola 
evolucionista, Lewis Henry Morgan (1818-1881), Edward Burnett Tylor (1832-1917) e James 
George Frazer (1854-1941) contribuíram de diferentes maneiras para o desenvolvimento 
da escola evolucionista. Cada qual com suas formações e interesses específicos, 
portanto, produções teóricas voltadas para os temas que lhes chamavam a atenção e 
estavam em voga naquele período histórico. Destaca-se que, no centro do pensamento 
da escola evolucionista, estava presente a ideia de que as diferenças culturais entre os 
diversos grupos humanos eram reduzidas a diferenças de carácter temporal, ou seja, 
esses pesquisadores compreendiam o desenvolvimento da humanidade a partir de uma 
linha cronológica linear, na qual a evolução humana se daria de igual modo entre todas 
as populações, independente da região ou período analisado. Portanto, os esforços 
teóricos caminhavam para que, dessa maneira, fosse possível estabelecer um modelo 
de estágio evolutivo que apontasse para uma suposta evolução histórica presente em 
todos os grupos humanos. 
Em outras palavras, havia uma compreensão de que as populações 
pertencentes às mais diversas culturas, costumes, religiões, crenças e organizações 
sociais, simplesmente fariam parte de uma mesma linha evolutiva. Independente das 
diferenças entre as populações, os teóricos evolucionistas acreditavam que toda a 
humanidade percorreria aquilo que se acordou definir como os “estágios da evolução”. 
Segundo esse pensamento, os estágios evolutivos de organização social abarcariam 
todas as populações, uma vez que teriam o início de seu desenvolvimento em um mesmo 
ponto em comum, passando por vários estágios de desenvolvimento e evolução, e por 
fim alcançariam o último  e mais desenvolvido estágio, aquele considerado o estado 
civilizatório. Esse seria então o modelo civilizatório baseado no tipo ideal europeu de 
organização social da civilização. Assim, as práticas, costumes, economia, organização 
do parentesco, religião, economia, dentre outros aspectos pertencentes à cultura e a 
sociedade estariam baseados no modelo europeu, considerada ideal de civilização e 
desenvolvimento (LAPLANTINE, 1988). 
Portanto, os grupos considerados primitivos e selvagens (como já aprendemos 
na unidade anterior) eram os sujeitos que estariam sendo “observados” e analisados. 
Culturalmente diferentes do modelo europeu de organização social, a esses grupos 
equivaleria a fase inicial na escala evolutiva da humanidade, enquanto, no topo desse 
processo de evolução, estariam os “observadores” ou seja, as sociedades das quais 
fariam parte os antropólogos.
Em resumo, o homem evoluído e por consequência parte do modelo civilizatório 
europeu, era pertencente à religião cristã, detentor de conhecimento formal e 
proprietário, estaria então no topo da pirâmide de evolução. Em contrapartida, as 
populações indígenas estariam em sua base ou por vezes nos primeiros estágios, uma 
vez que não eram sujeitos letrados, proprietários e de religião cristã. Essa perspectiva 
74
que colocava toda a humanidade em uma escala evolutiva compreendia, em sua teoria, 
que todas as populações deveriam seguir um mesmo padrão de desenvolvimento, 
baseados em valores, práticas, dinâmicas e comportamentos europeus, considerado 
até então o modelo ideal de sociedade. 
De acordo com essa análise, seria possível criar uma classificação para essas 
culturas ainda desconhecidas em uma espécie de plano temporal de evolução. Uma 
linha cronológica com passos evolutivos. Assim, aqueles que antes eram lidos enquanto 
opostos (selvagens), por terem hábitos, costumes e práticas diferentes daquelas do 
modelo europeu (modelo civilizatório ideal), a partir do estabelecimento do modelo de 
escala evolutiva, não mais seriam tomados como opostos, mas sim ganharam certo grau 
de familiaridade, na medida em que eram lidos enquanto humanos similares, todavia em 
estágios menos evoluídos. 
Uma vez consideradas populações em estágios menos evoluídos, as mais 
diversas práticas de imposição de crenças, costumes, valores e até mesmo domínio e 
exploração estaria legitimada pela suposta inferioridade evolutiva. Deu para entender? 
Vamos retomar de modo a simplificar a teoria: se antes (período pré-antropológico), 
quando os europeus (observadores) se encontravam com os diversos grupos culturais 
não europeus (observados) acontecia um choque de cultura entre observador e 
observado e essas populações eram consideradas diferentes ou opostas, a partir 
da fundação da escola evolucionista essas diferenças culturais ganharam outro 
carácter. A partir da perspectiva da escola evolucionista, o observador passa a tomar o 
observado como familiar, mesmo que distante. O observado, que antes era considerado 
antagonicamente oposto, se torna similar, no entanto, considerando que esse “outro” 
se encontra em um grau de evolução muito abaixo do seu, ou seja, o observado estava 
para trás em termos de evolução quando comparado ao observador.
Contudo, ainda precisamos mergulhar um pouco mais a fundo para entender 
qual o interesse por trás da teoria da evolução. A ciência é usada para atender a 
interesses políticos e econômicos. Desse modo, vamos refletir um pouco mais a respeito 
do impacto social da antropologia evolucionista? 
3 IMPACTOS SOCIAIS DA ANTROPOLOGIA EVOLUCIONISTA
Ao passo que a antropologia evolucionista se ampliou entre os estudiosos da 
época, algumas questões impactaram diretamente no contexto social vigente, sobretudo, 
no contexto das relações entre as populações europeias e norte-americanas para com 
o restante do mundo e os diversos povos e culturas. Nesse momento, as diferenças 
culturais ocasionadas pela diversidade de povos, territórios e organizações sociais, não 
eram vistas como pontos positivos presentes na humanidade. Essas diferenças eram 
categorizadas enquanto hierarquias evolutivas presentes na humanidade. 
75
Sim, acadêmico, os pensadores da escola clássica evolucionista acreditavam 
que toda a humanidade se desenvolvia da mesma maneira, saindo de um mesmo 
ponto de partida e chegando a um estágio em comum, e não apenas eles, mas muitas 
pessoas foram adeptas dessa corrente de pensamento teórico (pasmem, algumas ainda 
são até os dias de hoje). De acordo com a tabela feita pelo antropólogo Lewis Henry 
Morgan, a humanidade, como um todo, estaria dividida em períodos evolutivos, e a cada 
período equivaleria uma definição específica, determinadas condições e status. Por fim, 
os comportamentos, dinâmicas e a organização social seriam compreendidas como 
equivalentes a determinado estágio específico de evolução. Esses estágios seriam 
sucessivos e necessariamente obrigatórios a todas as diferentes sociedades humanas. 
Vamos conhecer esses períodos? São eles: períodos da selvageria, período 
da barbárie e período da civilização. Dessa maneira, durante os dois períodos iniciais 
(selvageria e barbárie) existiriam três momentos distintos: inicial, intermediário e final. E 
o terceiro e último período seria compreendido como relativo ao estágio da civilização, 
correspondente ao ápice da evolução humana (notem: modelo ideal de civilização 
europeia). Interessante marcar que esse período final era apontado como sendo 
responsável pela capacidade de criação, uso e instrumentalização da escrita, ou seja, o 
modelo europeu de civilização.
IMPORTANTE
No período equivalente ao pensamento evolucionista, duas questões eram muito latentes 
e influenciaram o pensamento dos estudiosos da escola evolucionista, sendo eles: 
determinismo biológico e determinismo geográfico. Vamos entender um pouco melhor 
estes temas?Quanto ao determinismo biológico, estaria baseado na ideia de que as 
pessoas teriam consigo uma questão genética que determinava seus comportamentos e 
práticas culturais, ou seja, não se levava em conta a questão da cultura e a influência dela 
em nossas vidas. Exemplo de práticas racistas desde uma perspectiva de determinismo 
biológico: negros eram naturalmente mais fortes e por isso deveriam ser escravizados, 
ou seja, trata-se de uma prática de violência e exploração. Quanto ao determinismo 
geográfico, estava baseado na ideia de que os espaços geográficos e suas nuances 
(clima, solo, flora etc.) determinavam os comportamentos dos grupos. Na prática, 
morando no Brasil, por exemplo, as práticas de higiene pessoal deveriam ser 
diferentes daquelas de países com clima frio. Portanto, a geografia determinaria 
todos os costumes e hábitos. Todavia, os cuidados com higiene pessoal são 
diversos, uma vez que, menos do que o clima, o que define essas práticas 
são as perspectivas culturais, por isso, os moradores de um mesmo país têm 
costumes higiênicos dos mais variados. Ambas as teorias caíram por terra e 
foram superadas científicamente. 
Para a escola evolucionista existia a compreensão de que os estágios de evolução 
eram equivalentes às fases de vida do homem, portanto, aquele que era considerado 
selvagem na fase inicial equivaleria em termos comparativos à fase da primeira infância e 
assim sucessivamente em termos evolutivos. 
76
Essa lógica evolutiva não por acaso atendia a interesses muito específicos 
em termos de poder, dominação e exploração. Uma vez que o continente europeu se 
autointitulou enquanto pertencente ao ápice da evolução humana, assim como modelo 
civilizatório para o restante da humanidade. Essa suposta superioridade em termos 
evolutivos justificava e legitimava suas tentativas e práticas de dominação e exploração 
em relação a outros povos. Assim, o projeto de colonização de povos e territórios estaria 
apoiado em uma falsa afirmação evolutiva de suposta base científica que justificaria as 
práticas coloniais (SOILO, 2014). 
Em resumo, enquanto suposto continente mais evoluído, e, por consequência, 
superior em termos absolutos, a Europa poderia colonizar os demais povos para que 
dessa forma fosse possível contribuir na evolução dessas populações. Todavia, a 
verdade é que essa linha evolutiva se tratou de uma concepção errônea que acabava 
por legitimar a exploração e dominação de populações e territórios. 
A cada sociedade, grupo ou etnias correspondem processos sociais e culturais 
diferentes, assim como temporalidades distintas. De fato, as diferentes populações 
humanas não são constituídas das mesmas práticas, perspectivas e organização 
social. Inclusive, essas diferenças tornam a vida humana rica e interessante! Enquanto 
humanos pertencentes a culturas diferentes, não partimos de um mesmo ponto de 
saída, tampouco necessitamos alcançar os mesmos objetivos. A diversidade cultural 
demonstra o quanto as culturas são plurais e dinâmicas, e se encontram em constante 
mudança e transformação, essa multiplicidade de perspectivas, modelos de organização 
e práticas culturais representam uma das características mais interessantes da 
humanidade.
Assim como já aprendemos que a ciência está sempre relacionada com as questões 
do contexto histórico do qual ela pertence, essa mesma ciência impacta consideravelmente 
o desenvolvimento da história. Vamos entender esse processo juntos?
3.1 EVOLUCIONISMO E CONTEMPORANEIDADE 
O pensamento presente na escola evolucionista que compreendia as culturas 
enquanto uma escala de estágios evolutivos está superada em termos acadêmicos. 
Atualmente, é notoriamente difundida e reconhecida a compreensão de que as culturas 
são diferentes umas das outras e que não existem hierarquias entre as populações 
humanas e seus modos de organização social. No entanto, mesmo na atualidade, ainda 
vigora em nossas práticas e relações cotidianas a ideia da existência de hierarquias 
entre as diferentes culturas do mundo.
77
Você deve estar se perguntando: como assim? Pois é, até os nossos dias, 
existem indivíduos e sociedades que acreditam pertencerem a uma cultura superior às 
demais, e essa pretensa superioridade pode estar ligada a uma infinidade de questões. 
Vamos conhecer algumas dessas situações que ilustram essa crença em uma suposta 
hierarquia social?!
A intolerância religiosa, por exemplo, aponta para essa perspectiva de uma 
suposta existência de hierarquias culturais, uma vez que a religião é um dos aspectos 
de grande importância em termos de cultura e pertencimento (NOGUEIRA, 2020). 
No Brasil, por exemplo, não são poucas as notícias que mostram violências contra 
povos e espaços de culto a religiões de origens africanas. Essas práticas apontam para 
a presença do racismo, questão originada na crença de hierarquias entre indivíduos e 
sociedades (FERNANDES, 2017). Essas violências evidenciam essa hierarquia presente 
no pensamento de muitas pessoas, reiterado por determinadas lideranças políticas. 
Outro fenômeno social que pode ser observado e que comprova a vigência 
dessa perspectiva social de hierarquias culturais está na prática da xenofobia. Você 
sabe o que é xenofobia? Pois bem, este tema é bem importante em nossa disciplina 
de maneira geral e ampla, assim como para esse momento de reflexão em específico. 
A xenofobia é o ódio, medo e aversão a todo aquele que é, ou mesmo não sendo ainda 
assim é lido, como um estrangeiro, uma pessoa vinda de outro país (CABECINHAS, 
2008). Portanto, esse sujeito considerado como “outro/diferente” a depender de sua 
localidade de origem (lembrando que os países europeus sempre foram e seguem 
sendo considerados enquanto modelo ideal de sociedade, superestimados por parte 
considerável dos demais continentes) sofre uma série de violências das mais diversas 
ordens, podendo ser violências psicológicas, discriminatórias, criminalizadas, morais ou 
até mesmo físicas. Essa prática também demonstra o quanto ainda existe, tanto de 
sujeitos como sociedades que consideram haver hierarquias entre diferentes culturas 
a ponto de considerarem legítimo o uso da violência contra indivíduos considerados 
“outros/estrangeiros”. 
Em resumo, essas hierarquias foram e são utilizadas enquanto mecanismos que 
justificariam inúmeras explorações, violências e tentativas de domínio entre indivíduos 
e sociedades. É papel do antropólogo apontar essas diferenças culturais enquanto 
aspectos centrais da diversidade cultural presente na humanidade, assim como 
pesquisar e produzir materiais que atuem na contramão dessas práticas baseadas na 
falsa crença da existência de hierarquias entre culturas diferentes (OLIVEN, 1990). Não 
existem graus de evolução social, tampouco hierarquias entre povos e culturas. O que 
podemos observar são diferenças e similaridades entre as mais diversas sociedades 
humanas e a importância dessas diversidades em termos de riqueza cultural e 
pluralidade de pensamentos e culturas que em muito somam positivamente para o 
desenvolvimento da humanidade.
78
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• A escola evolucionista foi à primeira escola hegemônica na antropologia, e foi 
fortemente inspirada nas pesquisas e produções dos estudos evolucionistas do 
naturalista Charles Darwin. 
• Os principais teóricos fundadores da escola evolucionista foram os estudiosos 
Lewis Henry Morgan (1818-1881), Edward Burnett Tylor (1832-1917) e James George 
Frazer (1854-1941) cada qual com seus interesses de pesquisa, todavia, todos eram 
atravessados pelos interesses nos estudos em antropologia. 
• A teoria evolucionista acreditava que toda a humanidade era composta por indivíduos 
e sociedades que necessariamente deveriam seguir os mesmos estágios evolutivos e 
o ponto de evolução máxima seria baseado no modelo ideal de sociedade civilizatória 
europeia. 
• Mesmo que academicamente a escola evolucionista já tenha sido superada, até os 
dias atuais,práticas como intolerância religiosa, racismo, xenofobia, dentre outras, 
apontam para a perpetuação de uma falsa crença na existência de hierarquias sociais 
entre as diversas culturas humanas.
79
1 Segundo a teoria clássica, sobretudo aquela do pensamento pertencente à 
escola evolucionista, toda a humanidade estaria sujeita a períodos evolutivos que 
necessariamente deveriam ser percorridos por todas as culturas. Sobre esses 
períodos, assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) A diversidade cultural era vista de maneira positiva, assim as diferenças entre 
culturas eram respeitadas e valorizadas.
b) ( ) Cada sociedade com sua cultura, costumes, práticas e organizações eram 
analisadas em sua totalidade a partir da própria cultura e não em um modelo 
comparativo entre culturas diferentes.
c) ( ) A escola evolucionista compreendia que todas as sociedades deveriam 
passar pelos mesmos estágios de evolução e alcançar o modelo de civilização 
considerado ideal, ou seja, o modelo de sociedade europeia. 
d) ( ) Para os pensadores evolucionistas não existiam graus de desenvolvimento, cada 
cultura deveria desenvolver-se de acordo com seus pressupostos culturais.
2 Durante o período clássico e a vigência da escola evolucionista, existia a percepção da 
existência de uma hierarquia social entre as diversas culturas observada ao redor do 
mundo. Ainda hoje podemos observar essa crença em uma hierarquia entre culturas 
presente em situações cotidianas da convivência social. Com base no exposto, 
analise as sentenças a seguir:
I- Nas situações em que a intolerância religiosa está presente no dia a dia de nossa 
sociedade é possível perceber a crença em hierarquias sociais, uma vez que 
determinados sujeitos e grupos acreditam serem superiores a outros, com especial 
destaque a situações com a presença de racismo. 
II- No momento em que a diversidade cultural é respeitada e a pluralidade de ideias é 
valorizada, essas hierarquias estão presentes. 
III- A prática da xenofobia é uma clara demonstração da ideia de superioridade entre 
sociedades e culturas, e é de extrema importância que essas práticas sejam 
combatidas, a antropologia pode contribuir consideravelmente para a diminuição 
ou mesmo o fim dessas práticas que causam tantas violências. 
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.
AUTOATIVIDADE
80
3 Baseado nos conhecimentos adquiridos a respeito da fundação, hegemonia, duração 
do pensamento da escola evolucionista, bem como suas perspectivas teóricas. Com 
base nisso, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas:
( ) Fundada no século XIX, a hegemonia da escola evolucionista e sua perspectiva 
científica vigorou por volta do ano 1870 e 1908. 
( ) A escola evolucionista acreditava que cada sociedade se desenvolvia de acordo 
com seus padrões e marcadores temporais próprios.
( ) A escola evolucionista foi fortemente inspirada pelos pensadores Charles Darwin e 
Herbert Spencer.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – F – F.
b) ( ) V – F – V.
c) ( ) F – V – F.
d) ( ) F – F – V.
4 O centro do pensamento da escola evolucionista está na percepção de uma unidade 
humana em termos evolutivos, ou seja, acreditava-se que o modelo europeu de 
civilização seria o ideal cultural e social a ser atingido pelas demais culturas humanas. 
A respeito desse modelo, escreva sobre as características ideais europeias, assim 
como os interesses por trás dessa lógica de modelo civilizatório ideal. 
5 Compreendendo que a teoria do naturalista Charles Darwin foi uma das principais 
inspirações teóricas do período de fundação da antropologia clássica, sobretudo para 
o desenvolvimento da escola evolucionista. Disserte, de modo resumido, a respeito 
das questões presentes tanto na escola evolucionista como na teoria da evolução de 
Charles Darwin, sobretudo em relação a evolução dos homens. 
81
DIFUSIONISMO
1 INTRODUÇÃO
Acadêmico, a escola difusionista é uma das correntes teóricas que compõem 
o período do pensamento clássico na antropologia, essa teoria, surge logo após a 
escola evolucionista. É muito importante que você saiba que uma escola teórica se 
diferencia das demais escolas que existiam antes dela, no entanto, as mudanças e 
chamadas viradas de pensamento (os novos paradigmas científicos), de certo modo, 
sempre seguem uma lógica. A centralidade do pensamento científico gira em torno das 
principais reflexões teóricas que estão em alta naquele determinado período histórico. 
Assim como a cultura, a teoria antropológica está em constante movimento 
de avanços e transformações, é de suma importância compreender que uma escola 
teórica, em nosso caso, a escola difusionista, nunca está descolada da realidade 
histórica e política do período em que ela está inserida, ou seja, a ciência é produzida 
sempre a partir das necessidades da própria realidade social. É possível perceber esses 
reflexos entre a teoria antropológica e a realidade sociocultural ao refletir a respeito 
da legitimidade no fazer científico, uma vez que, no século XIX, apenas os homens 
brancos pertencentes a uma classe mais abastada eram considerados aptos a produzir 
ciência. Nesse período, a Europa, sob uma série de pretextos, inclusive a necessidade 
de pesquisa e avanços científicos, realizava grandes investimentos coloniais, ou seja, 
suas expedições marítimas desbravavam e exploravam territórios e populações mundo 
afora. Dessa maneira, (como estudamos na unidade anterior), a ciência (produzida pelos 
próprios europeus) era utilizada como instrumento de legitimação de todas as violências 
e atrocidades feitas pelos colonizadores em benefício do continente europeu. 
Portanto, sendo a escola difusionista criada posteriormente à escola 
evolucionista, parte de seu arcabouço teórico reflexivo, era inspirado no pensamento 
evolucionista, majoritariamente aceito pela comunidade científica daquele período. 
Nesse momento, os pensadores difusionistas buscavam analisar as diversas inovações, 
sejam elas materiais ou imateriais, desenvolvidas pelo homem. Essa perspectiva de 
análise era baseada em uma reflexão apoiada na teoria evolucionista, sua antecessora 
em termos de teoria antropológica. O interesse dos teóricos difusionistas estava na 
compreensão da origem das inovações, assim como na hipótese de que existiria uma 
suposta difusão dessas inovações entre as diferentes culturas. 
UNIDADE 2 TÓPICO 2 - 
82
O objetivo dessa análise era de que assim seria possível compreender as 
supostas evoluções culturais (herança da escola evolucionista) presentes nos diversos 
grupos socioculturais, por meio da observação dessas inovações e sua difusão. Para 
esses teóricos da escola difusionista, as inovações humanas, das mais diversas ordens, 
estariam relacionadas à cultura de um modo amplo. A partir delas seria possível 
explicar parte considerável da organização social, assim como da suposta evolução 
das sociedades, sendo esse o interesse central da teoria difusionista. Durante o início 
do século XIX essa corrente teórica foi explorada principalmente na Alemanha, sendo 
estudada por Wilhelm Schmidt (1868-1954) e Fritz Graebner (1877-1934) e na Grã-
Bretanha por G. Elliot Smith (1871-1937) e William J. Perry (1887-1949). Todavia, as teorias 
difusionistas nessas duas localidades compreendiam o fenômeno da inovação e difusão 
como acontecimentos que se davam de diferentes maneiras. Segundo a perspectiva da 
escola alemã, as inovações e difusões se davam em diferentes culturas e se espalharam 
mundo afora, em contrapartida, para os estudiosos da Grã-Bretanha, o centro cultural 
do mundo seria o Egito, portanto as inovações nasciam naquela localidade específica e 
depois se difundiam para outras culturas.
Acontece que, a escola difusionista não foi uma escola proeminente, de modo 
que sua permanênciano meio científico durou pouco tempo. Todavia, é interessante e 
muito importante compreender que a brevidade em termos científicos do pensamento 
difusionista, acabou por dar espaço a reflexão teórica necessária para a fundação da 
escola funcionalista e estrutural-funcionalista. Em seguida, conheceremos o centro do 
pensamento dessas escolas, seus principais teóricos e a relação dessas escolas com o 
período histórico daquele momento. 
Note o quanto a ciência é de suma importância em nossas vidas, uma vez uma 
teoria sofre uma quantidade de críticas consideráveis e não consegue sustentar-se, esse 
mesmo processo de reflexão acaba por originar o desenvolvimento de outras teorias. 
Você deve estar curioso para entender esses movimentos e mudanças presentes na 
história da antropologia. Feitas as introduções necessárias, vamos avançar um pouco 
mais? Bons estudos! 
2 ESCOLA DIFUSIONISTA: BASE DO PENSAMENTO
Acadêmico, sempre que um novo desafio em termos de conhecimento se coloca 
a frente, é preciso, antes mesmo de iniciar os estudos, definir certas questões que devem 
ser compreendidas. Portanto, você já se perguntou qual a questão mais relevante que 
precisamos levar em conta quando falamos das diversas escolas teóricas presentes na 
antropologia? A questão central de uma escola teórica está no modo como as diferentes 
escolas do pensamento buscam explicar a realidade sociocultural, podendo variar entre 
análises do momento presente, passado e até mesmo em possíveis reflexões a respeito 
de fenômenos futuros. 
83
Essas observações acontecem a partir de um determinado recorte de análise, 
em nosso campo de conhecimento essa prática de pesquisa pode se dar a partir 
de fenômenos como religião, parentesco, trabalho, dentre outros (SILVA, 2000). É 
importante destacar que a antropologia não busca por verdades absolutas ou mesmo 
tentativa de adivinhação do futuro, distantes disso, os esforços de nossa disciplina 
estão concentrados em analisar aspectos da cultura, baseados na realidade presente 
em nosso meio social e cultural.
Sendo assim, sempre que você se depara com uma escola teórica, seja do período 
clássico ou contemporâneo, a questão a ser observada e compreendida é a seguinte: qual 
é o tema central (interesse) que essa escola teórica se dedica a compreender? Quando 
você consegue responder a essa interrogação, torna-se muito mais fácil entender 
toda a reflexão teórica presente nas escolas do pensamento antropológico. Assim 
como é de suma necessidade que você pesquise minimamente a respeito do período 
histórico no qual essa escola foi fundada, ou seja, quais os principais acontecimentos 
mundiais e regionais que estavam se passando naquele momento, como, por exemplo, 
guerras, empreendimentos coloniais, dentre outros acontecimentos. Como já dissemos 
anteriormente, as teorias científicas estão sempre intimamente ligadas à realidade social 
da qual estão inseridas. E o motivo é simples, a ciência deve atender às necessidades 
sociais da coletividade humana, sobretudo a antropologia!
Portanto, o primeiro passo que devemos dar é o seguinte: entender o centro do 
pensamento da escola difusionista, ou seja, qual o recorte de análise que essa escola 
se propôs a fazer para analisar as diferentes realidades sociais. Vamos entender juntos?! 
Pois bem, o centro do pensamento da escola difusionista, estava voltado para analisar as 
similaridades (semelhanças) presentes nas diversas culturas humanas, especificamente 
ao que se referia à questão das inovações. Você deve estar se perguntando, como assim 
inovações? Um passo por vez... Acontece que as inovações, são todas as construções 
humanas, materiais ou imateriais criadas pelo homem para atender as suas mais 
variadas necessidades. O objetivo principal da escola difusionista era justamente o de 
entender as dinâmicas que estavam por trás dessas inovações sociais e seus reflexos 
nas diversas culturas presentes no globo terrestre. Esses teóricos acreditavam que, 
ao compreender o modo como essas dinâmicas culturais presentes nas inovações 
refletiam no interior das culturas, seja por meio de imitação, aprendizado ou conquistas, 
se espalhavam mundo afora, dessa maneira, esses estudiosos acreditavam que seria 
possível entender em profundidade a existência humana (HOEFLE, 2007).
 
Essas inovações variam imensamente quanto a suas categorias, podendo ser: 
materiais ou imateriais, crenças, hábitos, religião, organização política ou qualquer outra 
prática humana imaginável em relação à cultura e suas dinâmicas. Vamos entender 
melhor esse tema, a partir de exemplos práticos?! 
84
Começando pelos exemplos relacionados às inovações materiais, uma vez que 
a antropologia desde sua fundação sempre foi uma disciplina científica utilizada para 
compreender questões de ordem da existência humana, cultura e suas diversidades. 
Portanto, os exemplos materiais ilustram, de modo apropriado, o esquema teórico da escola 
difusionista, pois esses exemplos estão presentes em muitos espaços da vida cotidiana. 
Aos exemplos! Algumas das inovações materiais são as ferramentas de trabalho 
utilizadas na agricultura, como: facas, machados, enxadas, facões, foices, serras, todas 
essas ferramentas são consideradas tecnologias criadas pelo homem para atender a 
determinadas necessidades de subsistência, alimentação, assim como a construção 
de abrigos, dentre outras coisas. Também é possível pensar na criação da roda, luz 
elétrica, computador e assim por diante. Da mesma maneira, partindo para os exemplos 
imateriais, é possível pensar nas relações humanas presentes nas diversas situações 
como: casamento, namoro, amizade, coletivos e organizações de classes. Uma vez 
que esses arranjos humanos também têm como intuito atender a determinadas 
necessidades de sobrevivência, sendo essas: proteção, cuidado, segurança, trocas, 
colaborações, afetos etc. 
Dentre os exemplos das religiões, podemos pensar na reunião de pessoas 
com o fim de exercer coletivamente fé em algo, criação de coletivos de pessoas com 
fins comuns. É possível, também, pensar nos movimentos sociais, objetivando trocas, 
proteção, apoio, segurança. Quanto aos hábitos, podemos exemplificar com o simples 
costume de trancar a porta de nossas casas todos os dias antes de dormir, que também 
se trata de uma prática de proteção e cuidado, tomar banho diariamente, frequentar 
uma praça, praticar um esporte, dentre outras coisas. Você deve estar se perguntando: 
sim, essas práticas humanas são óbvias e naturais, mas o que isso tem em relação à 
escola difusionista? 
Agora que já refletimos a respeito de uma vastidão de inovações humanas, 
vamos entender a relação entre todas essas situações e o nosso interesse teórico, 
a escola difusionista. Portanto, interessava grandemente aos pensadores dessa 
escola antropológica, observar e compreender essas inovações da vida cotidiana 
e sua relação e impactos com a própria cultura humana. Podemos ouvir daqui você 
dizendo: “o que essas coisas comuns e cotidianas têm de inovação?” Isto é um engano, 
acadêmico! Todas essas práticas são menos comuns do que imaginamos. Você ainda 
está pensando: “mas essas coisas acontecem naturalmente desde sempre!”. Este é o 
ponto que gostaríamos de chegar, essas práticas não acontecem desde sempre, todas 
as construções (materiais) e práticas humanas (imateriais) são construções sociais, 
portanto, inovações, e essas inovações não são, de modo algum, questões naturais. 
Mesmo que o ser humano tenha consigo o instinto de sobrevivência e sempre 
procure atender as suas necessidades básicas, todos os comportamentos e hábitos são 
construções sociais! Parece que estamos complicando ainda mais? Calma, a partir de 
agora iniciamos um mergulho profundo em termos de aprendizado a respeito da teoria 
clássica, juntos vamos conseguir responder a todas essas dúvidas. 
85
Em realidade, nenhuma prática proveniente da organização social humana é 
natural: todas as dinâmicas e costumes humanos são criados pelo homem, desse modo,trata-se de construções sociais. A cada cultura humana (grupos socioculturais), cabem 
construções sociais com suas particularidades, assim como ao longo do tempo sofrem 
diversas mudanças e transformações. Essas diferenças entre os diversos grupos, por 
vezes, estão ligadas a questões regionais e climáticas, assim como políticas, dentre 
outras, sendo esses fenômenos que influenciam nosso modo de existência. Nada é 
determinado por uma causa específica, mas a soma de vários fatores resulta em modos 
específicos de existência e sobrevivência humana.
Então, agora que entendemos que as práticas humanas não são naturais e sim 
construções humanas, vamos compreender como essas práticas eram vistas pelos 
teóricos da escola difusionista. 
Para os pensadores do período clássico (especificamente da escola difusionista) 
analisar essas construções sociais era o ponto central para a compreensão das culturas 
humanas. Essas construções eram lidas por esses teóricos enquanto resultantes da 
evolução humana. Sendo essas inovações (materiais, imateriais e todas as possibilidades 
desde a cultura) compreendidas enquanto supostamente difundidas entre as diversas 
culturas humanas presentes no mundo (SANTANA-TALAVERA, 2000). 
Portanto, na prática, uma inovação seria criada em uma única cultura e 
difundida para as demais. É importante lembrar que esse era um período de descobertas 
e colonizações, portanto, se tratava de uma compreensão de mundo diferente da que 
temos hoje, ou seja, muitas culturas e territórios ainda eram desconhecidos por esses 
estudiosos, assim como toda a sorte de exploração e domínio eram vistas como uma 
prática socialmente aceita. 
Acadêmico, perceba o quanto avançamos: agora sabemos que é fundamental 
entender a importância de conhecer o centro do pensamento de uma escola teórica, 
aprendemos a respeito das inovações socioculturais humanas e o que elas representam 
para a escola difusionista, e entendemos que todas essas inovações são construções 
sociais, ou seja, nada é natural, tudo que existe se trata de uma construção humana. 
Agora vamos juntos avançar um pouco mais? 
A escola difusionista carrega este nome, justamente pelo fato de que 
essa corrente de pensamento tinha como objetivo central observar e analisar a difusão 
das inovações (construções sociais) pelas mais diversas culturas humanas existente 
naquele período histórico. Você deve estar se perguntando: o que é essa difusão? Qual a 
importância antropológica da difusão para essa escola clássica? Qual o motivo que levou 
os teóricos a desenvolverem essa teoria a respeito da difusão das inovações? Estamos 
esquentando nossos motores do conhecimento! Neste momento, vamos avançar um 
pouco mais e compreender mais a fundo o que seria essa suposta difusão, vamos lá
86
DICA
Conheça um pouco mais a respeito da escola difusionista assistindo ao vídeo 
“Difusionismo, funcionalismo e estrutural funcionalismo – antropológica’’, no 
qual a professora Mariane da Silva Pisani fala um pouco a respeito dessas e 
outras escolas. Disponível em: https://bit.ly/36mswaU.
2.1 ESCOLA DIFUSIONISTA E O FENÔMENO DA 
DIFUSÃO CULTURAL
Agora que você já sabe que todas as inovações humanas são construções 
sociais e essas inovações informam a respeito da cultura, vamos entender a importância 
dessas inovações para os estudiosos da escola difusionistas. Para esses teóricos, todas 
as inovações anteriormente exemplificadas e tantas outras possíveis e imagináveis 
deveriam necessariamente nascer em uma única cultura e local. Independentemente 
de quais inovações, variando desde ferramentas, religiões e demais questões criadas 
pelo ser humano, necessariamente eram entendidas como originais de uma cultura 
específica. E, após serem desenvolvidas nessa cultura específica, necessariamente 
seriam difundidas (espalhada) para o restante das culturas.
De fato, esses teóricos não faziam ideia do tamanho do planeta Terra, tampouco 
dimensionavam o quanto diversas eram as populações que povoavam o mundo. Essa 
ausência de entendimento em relação a dimensão da terra, bem como a densidade 
populacional, eram fatores que influenciavam fortemente o pensamento da teoria 
difusionista. Visto que, as reais escalas planetárias estavam muito distantes da 
compreensão desses estudiosos, contribuindo então para a ideia de que toda e qualquer 
inovação nasceria em uma cultura única e seria difundida para as demais. 
Vamos voltar à prática do uso de exemplos, assim podemos ilustrar nossa 
imaginação e tornar mais simples a compreensão da teoria difusionista. A roda, por 
exemplo, esse item utilizado em tantos veículos e demais ferramentas de uso comum ao 
homem (inovação humana), ela pode ser usada para entender essa lógica de inovação 
e difusão presente no pensamento difusionista. 
Caso os teóricos da escola difusionista fossem analisar a roda, eles iriam 
compreender que a roda teria sido criada por uma determinada população específica e as 
demais populações do restante do mundo, por imitação, assimilação ou aprendizado, teriam 
copiado a roda e passaram a utilizá-la para seu benefício. Essa era a maneira pela qual 
esses pensadores imaginavam que todas as inovações humanas passavam. Obviamente 
não apenas a roda, mas todas as inovações imagináveis (materiais ou imateriais) presentes 
na humanidade. Segundo o pensamento vigente na escola difusionista, sempre existia uma 
sociedade em que originalmente eram criadas as inovações, e depois, seja por imitação ou 
qualquer outro modo, essa inovação seria apropriada e replicada pelas demais sociedades.
87
Nesse período histórico, esses teóricos não compreendiam que essas inovações 
aconteciam a todo o tempo nas mais diversas sociedades existentes no mundo. Como 
já aprendemos (nunca é demais relembrar) para os difusionistas essas criações tinham 
sempre um ponto de partida específico, ou seja, uma sociedade criava uma inovação e em 
sequência essas inovações eram difundidas (espalhadas) para o restante das sociedades 
humanas (REIS, 2004). O que essa teoria não levava em conta, era justamente o fato 
de que a humanidade, de modo geral, independentemente do grupo que fosse, tinha 
necessidades relativamente similares, portanto, as culturas diversas iriam buscar criar 
inovações para atender as suas necessidades de maneiras similares nas mais diferentes 
partes do mundo. Complicou? Nada disso, vamos entender juntos!
Partindo novamente para os exemplos: agora vamos usar as casas! As casas 
são espaços de abrigo e proteção utilizados pela humanidade de maneira geral, 
obviamente nossas casas apresentam muitas diferenças. É possível encontrar casas 
que se diferenciam consideravelmente em uma mesma rua, bairro ou cidade, assim 
como apresentam ainda mais diferenças caso façamos uma comparação entre casas 
de continentes diferentes. Dentre essas diferenças, as casas podem oscilar em seus 
tamanhos, formatos, materiais ou técnicas de construção. No entanto, uma coisa é certa, 
todos os seres humanos, independente da cultura a qual pertença, sente a necessidade 
de se proteger em um abrigo (uma casa), seja este fixo ou temporário. Acontece que, as 
mudanças e variações climáticas, como o sol, vento, chuva, frio, dentre outros, acabam 
por exigir que tenhamos um abrigo. 
Sendo assim, variando em formato, material ou estrutura, toda a humanidade 
de um modo ou de outro criou suas habitações, uma vez que a necessidade de proteção 
é um fenômeno comum a todos. Obviamente, não foi uma cultura específica que 
criou a ideia de casa e teve essa inovação replicada pelas demais culturas, todavia, as 
diferentes populações sentiram a necessidade do abrigo e criaram suas casas com as 
especificidades dadas a suas realidades. 
Portanto, acadêmico, não é muito difícil de imaginar que a necessidade de 
construir habitações para o abrigo e proteção não estava presente em apenas uma 
sociedade. Uma vez que conhecemos a dimensão territorial do planeta e a proporção da 
população mundial, não faz sentido imaginar que apenas um determinadopovo sentiu 
Acadêmico, até o presente momento muito conhecimento já foi adquirido, 
uma dica importante é que você comece a anotar as informações de uma 
maneira que você possa retomar os conteúdos em um segundo momento. 
Pode ser uma sistematização em formato de tabela, mapa mental, gráfico, 
da maneira que for mais compreensível para você. Escrever é uma das 
melhores opções para entender e fixar os conteúdos!
ATENÇÃO
88
a necessidade de construir sua habitação, e após essa inovação feita, todas as outras 
culturas as imitaram. No entanto, a realidade do século XIX, em termos informacionais, 
era totalmente diferente da nossa realidade atual. Atualmente, reconhecemos que o 
mais pertinente e apropriado é a perspectiva de que, conforme as necessidades dos 
diferentes grupos, cada qual a sua maneira criou seu próprio espaço de habitação, 
sem necessariamente precisar se inspirar em uma única cultura. Esse é apenas um 
exemplo para compreender a falha contida na ideia de “criação e replicação” presente 
na escola difusionista. É claro que, tanto no passado como nos dias de hoje, é possível 
perceber influências em vários aspectos da sociedade entre uma cultura e outra, todavia 
não necessariamente as inovações acontecem em uma sociedade específica e são 
replicadas para as demais. Sendo as necessidades humanas relativamente parecidas, 
as criações também têm certo grau de similaridade. Agora ficou mais claro? Espero que 
sim. Pois bem, vamos seguir! 
Para a escola difusionista, qualquer questão da ordem das necessidades humanas 
poderia ser analisada pelos pensadores difusionistas nessa dupla mão: inovação e difusão, 
ou seja, uma sociedade inova (cria algo) e isso é difundido (espalhado) para as demais 
sociedades. Como já falamos, existiam relações pontuais entre uma escola teórica e sua 
escola sucessora, assim, seguindo a lógica de um suposto movimento de evolução, para 
os difusionistas, uma sociedade alcança certo grau de evolução ao imitar e replicar as 
inovações de outras sociedades, assim como ao potencializar aquelas inovações.
É muito importante levar isso em conta: existe uma forte influência no 
pensamento de uma escola antropológica na escola que nasce e se desenvolve 
em seguida. Uma vez que não se trata de uma ruptura completa do pensamento e 
perspectiva teórica, mas muito mais de mudanças, transformações e avanços teóricos, 
é sempre possível enxergar aspectos de uma escola em sua escola sucessora. Assim, 
mesmo que o centro de suas análises estivesse no interesse pela compreensão da 
inovação, os difusionistas, de certa forma, ainda carregaram em suas teorias um fundo 
da perspectiva evolucionista. 
Assim, cada escola antropológica procurou, a seu modo, explicar as questões 
presentes na organização social, relações sociais e cotidianas das diversas culturas 
humanas. No entanto, a escola difusionista, por sua notória falta de solidez teórica que 
explicasse de fato as situações culturais, assim como por acreditar que as ações humanas 
se desenvolviam em uma sociedade e seriam replicadas no restante no mundo, acabou por 
ter sua teoria superada em pouco tempo. Isso mesmo, a escola difusionista rapidamente 
foi substituída por outras duas escolas teóricas. Sendo essas, a escola funcionalista e a 
escola estrutural-funcionalista. Ambas as teorias surgiram no começo do século XX, em 
contrapartida das teorias evolucionistas e difusionistas. Os nomes mais importantes dessas 
teorias eram: Bronislaw Malinowski (1884-1942) (escola funcionalista) e Alfred Radcliffe-
Brown (1881-1955) (escola estrutural-funcionalismo). Novamente acontece mais uma virada 
no pensamento antropológico clássico!
89
Diferente da perspectiva teórica da escola difusionista, essas duas correntes 
que nasceram no início do século XX, de modo resumido, apresentam as seguintes 
mudanças: em síntese para esses estudiosos o método de análise de cada sociedade 
se dava com o olhar desde dentro da própria sociedade estudada, e não em um 
movimento de comparação em relação a outras sociedades. As comparações que 
ambos os estudiosos faziam se dava em relação a uma análise histórica e evolutiva 
das próprias sociedades analisadas, levando em conta os elementos funcionais que 
faziam parte dessas sociedades. Elementos funcionais (gravem este termo) seriam 
todos os meios de organização social que exerceriam determinadas funções dentro da 
sociedade, sobretudo em relação a seu equilíbrio funcional. Fiquem tranquilos, iremos 
nos aprofundar desse respeito mais à frente. 
Dessa forma, em nosso próximo subtópico, entenderemos um pouco mais a 
respeito de um dos temas centrais na antropologia: o trabalho de campo! Uma das 
maiores novidades em termos antropológicos está no fato de que os antropólogos 
Malinowski e Radcliffe-Brown tinham como parte de seu ofício, enquanto antropólogos, 
a prática do trabalho de campo. Para ambos, os pesquisadores necessariamente 
precisariam estar em campo para o desenvolvimento de suas pesquisas, levando em 
consideração o contato, observação e registros sistemáticos feitos diretamente a partir 
da aproximação com os grupos dos quais se propunham a estudar. 
2.1.1 O trabalho de campo
Como aprendemos na Unidade 1, os antropólogos, em sua maioria, seguiam um 
perfil padrão. Majoritariamente se tratava de homens brancos europeus, pertencentes 
a uma classe média, proprietários e com algum grau de instrução formal e que se 
sobressaiam aos demais cidadãos. Esses homens, letrados e estudiosos foram, então, 
os fundadores das primeiras escolas antropológicas, especialmente durante o período 
clássico da antropologia. 
É muito importante, acadêmico, que você leve essas informações em conta, 
uma vez que o perfil dos fundadores de uma disciplina, sobretudo a antropologia, 
diz muito a respeito do próprio desenvolvimento da disciplina. Além disso, as críticas 
cabíveis às teorias e pesquisas antropológicas referentes ao período clássico estão 
ligadas ao perfil de seus teóricos fundadores. Como já aprendido na unidade anterior, as 
informações, dados e período histórico que atravessam nossa disciplina não podem ser 
simplesmente tomados como fontes dadas, ou seja, é necessário ter em mente que o 
olhar crítico é indispensável à pesquisa e estudos antropológicos. 
 Voltando aos primórdios de nossa disciplina. Lembre-se, acadêmico, mesmo no 
período da escola evolucionista, não era uma prática comum a realização do trabalho de 
campo por parte do antropólogo, ou seja, as teorias eram constituídas a partir de relatos 
de terceiros (GUERRA, 2012). Desse modo, não se estabelecia nenhum tipo de relação 
90
ou aproximação entre o antropólogo e o espaço em que se pretendia pesquisar, muito 
menos com as pessoas que habitavam essas regiões distantes (distantes da Europa, 
uma vez que esse era considerado o centro do mundo) e suas realidades socioculturais.
 
Nesse período inicial da antropologia, as pesquisas e produções teóricas 
antropológicas desses estudiosos eram constituídas a partir de: relatos dos viajantes, 
questionários pré-estruturados e registros de outrem. Esses registros utilizados pelos 
antropólogos eram feitos por militares, comerciantes, missionários, exploradores, dentre 
outros. Portanto, a base das escolas evolucionistas e difusionistas eram pautadas 
por registros, feitos por terceiros. Assim, as teorias dessas escolas nasciam desde a 
leitura, análise e reflexão desses registros, somados aos conhecimentos adquiridos em 
formações de outras áreas de conhecimento, uma vez que a antropologia ainda não se 
tratava de uma disciplina estabelecida no cenário científico. 
Esse modo de pesquisar e desenvolver teorias e reflexões antropológicas 
acontecia desde uma prática que passou a ser conhecido como “antropologia de gabinete”, 
ou seja, os primeiros estudiosos dedicados a área da antropologia e posteriormente 
considerados enquanto antropólogos, desde o interior de seus escritórios, desenvolviam 
as teorias antropológicas (LAGE, 2009). 
Essa primeira geração deestudiosos da antropologia não se deslocava até 
o campo (campo é um nome genérico utilizado para definir qualquer espaço onde o 
antropólogo faça suas observações e registros a respeito de determinada situação social 
e cultural) para colher os dados in lócus (no lugar, “campo”) onde as situações aconteciam, 
eles utilizavam esses registros produzidos por terceiros para desenvolver suas teorias 
científicas. Essa prática sofreu grandes mudanças com o passar dos tempos.
FIGURA 5 – MALINOWSKI EM TRABALHO DE CAMPO
FONTE: . Acesso: 22 fev. 2022. 
91
Malinowski inaugurou a prática da pesquisa de campo em antropologia, 
obviamente como aprendemos, mesmo que anteriormente a ele, outros sujeitos já 
estiveram presentes nessas “regiões distantes" e escrito registros, essa prática, com fim 
específico em adquirir conhecimentos para fins específicos em análises antropológicas, 
nasceu com Malinowski, sobretudo ao que se refere à observação participante. Em 
verdade, Malinowski acabou por lançar um novo modelo de pensar e produzir teoria 
e prática antropológica, tratando assim de uma maneira vanguardista em termos da 
técnica de investigação, métodos de interpretação das situações e dados a partir da 
pesquisa de campo em antropologia. 
A prática do trabalho de campo inaugurada pelo antropólogo e estudioso 
Malinowski se trata de uma questão de avanço sem igual na história de nossa disciplina. 
Nesse momento, é importante conhecer um pouco desse antropólogo de destaque, 
assim como sua obra mais importante, “Argonautas do Pacífico Ocidental”, de 1922. 
Preparados para avançar ainda mais em nossos conhecimentos?! 
INTERESSANTE
Para conhecer mais da história do ofício de antropólogo, trabalho de 
campo e etnografia, faça a leitura da obra de 1922, “Argonautas do Pacífico 
Ocidental”, de Malinowski. É possível encontrar imagens e vídeos a respeito 
desse livro. Lembre-se, um bom antropólogo sempre está interessado em 
pesquisar e aprofundar seus conhecimentos, nunca é demais aprender a 
respeito de nosso ofício! 
2.2 FUNCIONALISMO: BRONISLAW KASPER MALINOWSKI E 
SUA OBRA “ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL” (1922)
É muito importante acadêmico, que você saiba que uma das maneiras de conhecer 
a história da antropologia clássica é justamente a partir da leitura das obras clássicas 
produzidas nesse período de nossa disciplina, ou seja, as publicações escritas pelos teóricos 
que foram as principais referências daquele determinado momento do desenvolvimento da 
antropologia. Uma vez que esses sujeitos não apenas estavam buscando responder a certas 
questões de ordem social, como também viviam naquele período histórico específico, ou 
seja, eram verdadeiras testemunhas da história que estava acontecendo, as descobertas 
territoriais, as interações sociais, dentre outros. A escola funcionalista é a corrente teórica 
desenvolvida na contrapartida das escolas evolucionistas e difusionistas. Essa teoria 
funcionalista desenvolvida em um primeiro momento pelo estudioso Malinowski buscava 
compreender a integração funcional dos elementos nas próprias sociedades, ou seja, a 
comparação não era mais um ponto a ser analisado, e sim a integralidade dos elementos 
que tinham como objetivo compor as sociedades. O antropólogo observava e analisava 
as sociedades levando apenas a própria sociedade observada enquanto referência social 
(SAMAIN, 1995). Vamos entender como Malinowski colocou em prática essa teoria?!
92
Como dito anteriormente, as obras clássicas são fundamentais para a 
compreensão das escolas teóricas clássicas. Uma das obras mais conhecidas e 
referenciadas em termos de antropologia clássica, assim como da própria história da 
antropologia foi a publicação de Malinowski, intitulada “Argonautas do Pacífico Ocidental”, 
de 1922. Em sua introdução, é possível conhecer os elementos que constituíam a base 
de sua pesquisa, sobretudo no que se refere ao trabalho de campo desenvolvido pelo 
estudioso em questão. Uma das questões mais interessantes ao nos debruçarmos 
nessa obra, é o fato de que mesmo sendo uma pesquisa e reflexão teórica em formato 
de livro, muitos dos parâmetros utilizados para a pesquisa de campo ainda são vigentes 
até os nossos dias atuais. Imaginem só, uma obra centenária que, ainda nos dias de 
hoje, contribui solidamente para a produção científica, antropológica, sobretudo em 
termos de trabalho de campo e etnografia. 
Etnografia? Pois bem, mesmo que a compreensão dessa ferramenta de trabalho 
antropológica seja profundamente estudada em nossa próxima unidade, vamos tomar 
uma pequena nota. 
NOTA
Etno (etnia) + grafia (escrita): de modo geral a etnografia corresponde a escrita 
a respeito das etnias. Portanto, uma etnografia é o resultado dos registros 
observados a respeito de determinadas etnias (PEIRANO, 1995). 
É importante acadêmico, que você saiba que a etnografia, inaugurada por 
Malinowski está presente até os dias de hoje em nossas práticas em pesquisa, assim como 
se trata de uma ferramenta de suma importância em nosso ofício enquanto antropólogos. 
Em breve, vocês também irão escrever suas etnografias e, assim, contribuir 
substancialmente para o estudo das culturas humanas, dinâmicas e processos sociais 
que estão em nosso entorno.
FIGURA 6 – BRONISŁAW MALINOWSKI
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
93
“Argonautas do Pacífico Ocidental” foi uma das publicações de Malinowski de 
grande envergadura em termos de pesquisa, assim como resultou em um trabalho de 
muita importância para a disciplina da antropologia, sendo essa uma leitura obrigatória 
para todos aqueles que decidem se dedicar ao ofício de antropólogo. Uma vez que 
essa pesquisa foi resultado de um trabalho de considerável investimento, não apenas 
financeiro, mas também pessoal, emocional, intelectual, de relevância prática e teórica. 
Parte considerável dessa obra é composta por uma etnografia densa (aprofundaremos 
nossos estudos a respeito de etnografia na Unidade 3 de nosso livro), considerada pioneira 
em nossa disciplina, amplamente conhecida entre a comunidade científica daquele 
período, assim como respeitada até mesmo atualmente. Sua pesquisa é reconhecida 
tanto dentro da antropologia como em outras áreas de conhecimento, especialmente 
nas ciências humanas e sociais, assim como essa obra tem uma importância central 
para a reflexão de nossa disciplina.
A pesquisa de Malinowski resultou em uma situação em que, pela primeira 
vez na história da antropologia, aconteceu a seguinte união: métodos de pesquisa 
(usados por Malinowski), somados a uma bagagem teórica substancial, juntamente a 
um tempo considerável de permanência em campo para a realização de observações 
antropológicas, resultando, assim, em interações sociais e registros de suma importância, 
destaca-se: registros etnográficos. Desta feita, resultou o aprendizado de Malinowski na 
língua dos povos nativos das Ilhas Trobriand, assim como um extenso compartilhamento 
de situações cotidianas entre pesquisador e população nativa. 
Esse estudioso, dedicou parte de sua vida em viver próximo aos nativos que 
optou por pesquisar, criando, assim, um considerável registro a respeito das situações 
que presenciou e experimentou estando em trabalho de campo, junto aos povos nativos 
daquelas localidades. Portanto, nessa prática de estar conjuntamente com as populações 
e tendo a oportunidade de compartilhar situações e experiências particulares, resultou 
naquilo que posteriormente se acordou chamar de “observação participante”. 
O livro “Argonautas do Pacífico Ocidental” mudou completamente a visão dos 
intelectuais daquele período a respeito das sociedades tribais, sobretudo entre os 
estudiosos e interessados no tema das populações nativas. Uma vez que, anteriormente 
a essa publicação, esses grupos eram vistos enquanto um tema do passado, sobretudo 
associados e relacionados à ideia de fósseis, artigos de museus, povos extintos, 
irracionalidade e todo tipo de pensamento colonizador possívelde se imaginar. Portanto, 
a pesquisa de Malinowski foi crucial para evidenciar o fato de que essas culturas nativas 
estavam vivas, faziam parte do tempo presente e, sobretudo, compunham o horizonte 
da humanidade. Obviamente é indispensável que se leve em conta o fato de que o 
antropólogo Malinowski, durante e depois de sua estadia em campo, tinha uma série de 
limitações em termos de análise, todavia, os deméritos de suas práticas de modo algum 
anulam a importância de seu trabalho e produção teórica. Malinowski teve, e ainda tem, 
destaque em nossa disciplina, a antropologia, assim como é fortemente reconhecido 
em outros campos de conhecimento.
94
Desde a perspectiva funcionalista, Malinowski demonstra a vida e complexidade 
dos povos das Ilhas Trobriand, em uma tentativa de evidenciar suas práticas desde o 
“ponto de vista nativo” (questão fortemente criticada), mas que carrega importância 
central para o contexto histórico do qual estava submerso, em especial no pensamento 
antropológico. Uma das tentativas do autor era a de mostrar o sentido de mundo, 
organização social, experiência no mundo e complexidade cultural desses povos. E para 
alcançar esses objetivos, o antropólogo considerou a relação entre as funções desses 
fenômenos pensados em uma totalidade dentro da própria sociedade analisada. 
O interesse central de Malinowski era o de entender como as instituições 
socialmente estabelecidas funcionavam diante dos indivíduos diante de situações de 
adversidade. Como assim? Em outras palavras, trazendo alguns pequenos exemplos 
para compreensão, o antropólogo Malinowski analisava questões como a necessidade 
de reprodução, alimentação, proteção (dentre muitas outras) eram resolvidas com o 
casamento, trocas de colheitas e os conceitos de parentesco, ou seja, para a reprodução 
estaria o casamento, para a alimentação estariam as trocas de alimentos e para a 
proteção a própria concepção de família. 
Em resumo, o interesse estava em observar e compreender como os arranjos 
culturais (das mais diversas ordens) cumpriam uma função social que atendia às 
necessidades fisiológicas do indivíduo. Além das necessidades diversas, existiriam 
quatro necessidades fixas da ordem da cultura, sendo essas: controle social, economia, 
organização política e educação. E a essas necessidades caberiam instituições estáveis 
baseadas em normas pré-estabelecidas que cumpririam funções em relação ao 
indivíduo e ao todo social. 
Malinowski oferece ao mundo verdadeiras sessões metodológicas, princípios 
científicos e modos de operar de um pesquisador em campo nunca conhecidos com 
tamanha complexidade. O intelectual oferece uma descrição densa e abundante em 
detalhamento a respeito das práticas cotidianas das populações pertencentes à Ilha de 
Trobriand, Melanésia. Um dos fenômenos descritos cuidadosamente pelo estudioso era 
a cerimônia do Kula, que materialmente resultava em um sistema de trocas intertribais 
que circulavam entre as ilhas do norte ao leste e extremo oriental da Nova Guiné, ao 
longo de todo o ano (SILVA, 1998). 
Em resumo, o sistema Kula era baseado na troca de colares e braceletes, todavia 
mesmo que em termos financeiros essas peças não carregassem valores consideráveis, 
esses objetos carregavam em si valores de cunho moral que circulavam entre essas 
ilhas. A essas trocas eram necessárias viagens relativamente longas em um circuito 
marítimo tradicionalmente pré-determinado. Dentro desse sistema de trocas, cabiam 
papéis sociais e status específicos, questões que aparecem descritas na citada obra. 
95
O Kula era um ritual de importância central entre os habitantes dessas ilhas. 
Uma vez que, o Kula carrega consigo a função social de construir e carregar laços sociais 
por longos períodos. Malinowski e seu modo de realizar pesquisa foi revolucionário em 
termos antropológicos, uma vez que criou o método da observação participante e 
presenteou a comunidade antropológica com a demonstração da importância central 
do trabalho de campo em nossos ofícios, enquanto estudiosos, pesquisadores e 
antropólogos (CORDEIRO, 2013). A contribuição desse estudioso para a antropologia 
é imensa, assim como inaugurou um novo modo de fazer antropologia, estabelecer 
relações com os grupos nativos e não menos importante, observar a totalidade da 
existência humana e suas práticas e dinâmicas culturais. O maior diferencial de 
Malinowski, sem dúvidas, foi o uso do método etnográfico, questão que iremos estudar 
na Unidade 3 de nosso Livro Didático.
DICA
Conheça mais a respeito da vida e pesquisa do antropólogo e estudioso 
Malinowski, assistindo ao vídeo “A antropologia funcionalista de Malinowski”, do 
professor Marcos Henrique Amaral. Disponível em: https://bit.ly/3BOQOWU.
2.3 RADCLIFFE-BROWN E O ESTRUTURAL FUNCIONALISMO 
Radcliffe-Brown foi um antropólogo da escola de antropologia social britânica. 
Desenvolvendo suas pesquisas, em um primeiro momento, nas ilhas Andaman, no Golfo 
de Bengala, ao leste da Índia, e na Austrália. O destaque e centralidade de suas pesquisas 
estavam justamente em compreender os sistemas de parentesco e a organização social 
dos povos aborígenes dos quais ele se aproximou em trabalho de campo. 
Uma vez que o antropólogo tomava o parentesco como um elemento central na 
análise da organização social, uma vez que carregava consigo um sistema de normas 
e regras fundamentais para o ordenamento social. Parte considerável de sua pesquisa 
estava empenhada em compreender esse sistema e suas resultantes no todo social 
(OLIVEIRA; SANTANA; ALVES, 2014). 
96
FIGURA 7 – RADCLIFFE-BROWN
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
O centro do pensamento da escola estrutural-funcionalista estava baseado 
em entender a função específica que cada instituição exercia na sociedade, assim 
como entendia que seu mau funcionamento representava uma desregulação da 
própria sociedade. Essa perspectiva apresentava as sociedades com uma abordagem 
mecanizada dentro que compunha uma estrutura. Sua perspectiva também levava em 
conta a importância da realização de trabalho de campo.
O antropólogo e estudioso não acreditava em comparações evolutivas entre 
sociedades, e sim, apoiava-se na compreensão da totalidade da sociedade observada. 
Desse modo, as partes (instituições) reunidas formavam o todo que resultaria na 
estabilidade social. Portanto, Malinowski diferenciava seu pensamento de Brown, 
ao passo que levava em conta sobretudo as necessidades individuais, enquanto no 
estrutural funcionalismo, as análises sociais estruturais eram os objetos privilegiados de 
investigação, no entanto, ambos levavam em conta a questão da função (funcionalismo) 
e sua importância em termos de organização social.
97
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• A questão central da escola difusionista estava pautada na ideia de evolução humana 
por meio da difusão das inovações, ou seja, uma inovação era criada em determinada 
sociedade (inovação esta material ou imaterial) e copiada, portanto, difundida pelas 
demais sociedades, essa corrente de pensamento não levava em conta o fato de que 
as necessidades humanas são similares, portanto, as inovações para atender a essas 
necessidades são desenvolvidas nas diversas sociedades.
• A escola difusionista, devido a suas limitações teóricas, não teve proeminência no meio 
científico. Essa escola clássica teve poucos adeptos ao seu pensamento, assim como 
uma breve duração em termos de pesquisas. As escolas funcionalistas e estrutural-
funcionalista rapidamente tomaram seu lugar em termos teóricos e científicos.
• O antropólogo Bronislaw Malinowski e seu trabalho de campo foram de suma 
importância para o estabelecimento das novas bases metodológicas para o trabalho 
de campo em antropologia, sua obra “Argonautas do Pacífico Ocidental”, de 1922, é 
uma referência em termos de pesquisa em campo até os dias atuais. A inauguração 
do uso do método etnográfico foi uma das questões de destaque centralRESUMO DO TÓPICO 2 .......................................................................................................159
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................160
TÓPICO 3 - ANTROPOLOGIA E OS NOVOS PARADIGMAS................................................163
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................163
2 DESCENTRANDO “O MUNDO”: ANTROPOLOGIA EM CONTEXTOS 
 LATINO-AMERICANOS ....................................................................................................164
2.1 A QUESTÃO DA LEGITIMIDADE DO CONHECIMENTO ANTROPOLÓGICO .............................. 166
2.2 A ANTROPOLOGIA E AS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS ...........................................................168
LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................170
RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................... 176
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................ 177
REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 179
1
UNIDADE 1 -
 FORMAÇÃO DA 
ANTROPOLOGIA, CONTEXTO 
SOCIAL E COLONIALISMO
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• compreender a “pré-história” da antropologia a partir do contexto social e histórico 
de formação da disciplina; 
• apontar as dinâmicas e relevância dos registros dos viajantes para o fazer antropológico 
do período clássico;
• descrever a respeito do fazer antropológico produzido em gabinete e suas diferenças 
e limitações frente à pesquisa feita em campo;
• refletir criticamente o caráter colonial da antropologia, sobretudo em sua fase de 
formação disciplinar.
Esta unidade está dividida em cinco tópicos. No decorrer dela, você encontrará 
autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.
TÓPICO 1 – PRÉ-HISTÓRIA DA ANTROPOLOGIA
TÓPICO 2 – VIAJANTES
TÓPICO 3 – ANTROPOLOGIA E COLONIALIDADE
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure 
um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.
CHAMADA
2
CONFIRA 
A TRILHA DA 
UNIDADE 1!
Acesse o 
QR Code abaixo:
3
PRÉ-HISTÓRIA DA ANTROPOLOGIA
1 INTRODUÇÃO
Boas-vindas, acadêmico! Uma das formas mais interessantes para conhecer 
uma disciplina está justamente no conhecimento da história de sua formação. Levando 
em conta aspectos como seu contexto social, bem como as mudanças que passou 
ao longo de seu desenvolvimento. Nesse momento, convido você a embarcar em 
uma das viagens mais interessantes que poderia imaginar, trata-se de conhecer um 
pouco da história da antropologia clássica, tema que pode parecer muito distante de 
nossa realidade, mas que, em verdade, compõe muito de nossa atividade intelectual e 
profissional na atualidade.
Veremos que muitas das inspirações teóricas e questões práticas do 
período clássico, ainda servem como base para as reflexões de nossa disciplina 
contemporaneamente. É necessário conhecer a fundo esse período, pois se trata da 
base de nosso ramo de conhecimento. As correntes teóricas clássicas permitem que 
nossa visão enquanto antropólogos seja refinada por um olhar que, ao mesmo tempo, 
contextualiza e analisa criticamente a realidade atual da disciplina. Um dos fatos mais 
interessantes relacionados a nossa escolha, por trabalhar com a antropologia, é que 
somos movidos pela curiosidade, essa inesgotável de ânsia por conhecimento presente 
em nossas vidas. 
A curiosidade é um impulso que movimenta nossas pesquisas e nos enche de 
energia vital para investir todos os esforços necessários e obter realização em nosso 
ofício enquanto antropólogos. Portanto, independentemente da pesquisa que estamos 
fazendo, estamos sempre motivados a compreender mais e mais a respeito dos temas 
que se apresentam de interesse pertinente a antropologia. Portanto, neste tópico, você 
compreenderá a relevância da dimensão histórica de nossa disciplina, sendo essa de 
amplitude ilimitada. Apenas para atiçar a curiosidade, adiantamos que, antes mesmo 
de consolidar-se enquanto uma disciplina teórico-científica, as práticas de observação 
e registro de fundo antropológico já haviam conquistado adeptos que, com o tempo, 
fariam verdadeiras transformações em nossa área de conhecimento.
Você deve se perguntar: como isso é possível? Em nosso trabalho, temos 
como tarefas centrais a observação de situações sociais e culturais, bem como seu 
registro e sistematização. 
TÓPICO 1 - UNIDADE 1
4
Desde o período inicial das grandes embarcações (século XVI) motivadas por 
seus interesses geopolíticos, a Europa enviou navegantes, exploradores, militares, 
comerciantes, dentre outros, em travessias transatlânticas. Esses sujeitos passaram a 
escrever registros escritos a respeito dessa nova realidade que estavam conhecendo. 
Obviamente esses escritos eram feitos a partir de um modo muito particular, a visão de 
mundo europeia vigente naquele momento. Nesse contexto começam a ser cada vez 
mais frequentes as chamadas “cartas” dos viajantes, registros esses que continham 
descrições a respeito do território que estavam desbravando com intenções de 
exploração, bem como os hábitos e costumes de seus habitantes. Esses registros eram 
repletos de impressões pessoais e julgamentos morais desses viajantes a respeito dos 
povos e cultura do continente que mais tarde veio a ser conhecido como América. 
É necessário um olhar atento e extremamente crítico, pois durante esse período 
inicial da escrita dos registros, eles eram impregnados por questões que atualmente 
não fazem parte de nosso modo de atuar enquanto antropólogos. Começando pelo 
fato de que atualmente compreendemos a diversidade de pessoas e culturas, assim 
como valorizamos essas diferenças. Outrora, valores de uma cultura (europeia) se 
sobrepunham às demais culturas, originando julgamentos morais e hierarquias sociais 
entre sujeitos e territórios diferentes que não existiam na realidade. Nós apenas 
conseguimos corrigir os erros do passado ou mesmo reduzir seus danos e pensar 
criticamente nossas práticas antropológicas quando ampliamos nossos horizontes e 
almejamos uma pesquisa e prática antropológicas consciente dos erros do passado e 
disposta a repensar o fazer antropológico. 
No próximo subtópico, aprenderemos a importância da observação antropológica, 
assim como as possibilidades e alcances do ofício do antropólogo. Esperamos que você 
aproveite este momento para compreender a importância do período de fundação de 
nossa disciplina e que, ao final, esteja pronto para articular críticas e apresentar questões 
de antropologia clássica com maestria! 
Acadêmico, em linhas gerais a antropologia se debruça a estudar as diferenças 
presentes nos diversos contextos culturais e sociais da humanidade. Um erro 
recorrente do período da fundação da disciplina era o fato de que aqueles 
que se dedicaram a escrever os primeiros relatos sobre contextos distintos de 
sua realidade acabavam por contaminar esses registros com preconceitos e 
juízos morais. No trabalho antropológico é tarefa de suma importância despir-
se de preconceitos e se abrir para a ampliação de noções como diversidade e 
respeito ao diferente. Lembrando, as diferenças não são de modo algum um 
problema e todo e qualquer tipo de preconceito deve ser combatido!
GIO
5
2 PRIMEIROS PASSOS: ANTROPOLOGIA E OBSERVAÇÃO 
Acadêmico! Ao escolher a antropologia como sua carreira, é necessário ter em 
mente que existem momentos históricos importantes no desenvolvimento da disciplina 
e estes são fundamentais uma formação sólida. Por acaso, você já se perguntou como 
é possível que uma disciplinana obra 
do antropólogo. 
 
• Para Radcliffe-Brown as instituições representam que as sociedades deveriam ser 
analisadas em seu todo, sem comparativos evolutivos com outros grupos. A união 
das instituições resulta no equilíbrio e estabilidade social. O antropólogo britânico 
também apostava e realizou pesquisa de campo, sendo um dos nomes de grande 
importância do período clássico de nossa disciplina, assim como uma referência até 
os dias de hoje.
98
1 Segundo a escola difusionista, pertencente ao período clássico da antropologia, a 
evolução da humanidade se dá a partir da difusão das inovações. Para essa corrente 
de pensamento, a inovação é criada em uma determinada sociedade e copiada, 
por consequência, difundida para as demais. Qual era a principal questão ignorada 
por essa escola antropológica em termos de análise antropológica? Sobre essas 
questões, assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) A evolução não necessariamente acontece a partir das inovações culturais, mas 
sim com o advento das relações entre culturas e os aprendizados consequências 
dessas relações.
b) ( ) Ignorar o fato de que a humanidade tem necessidades de sobrevivência 
similares, independente da cultura a que se pertença, portanto, suas inovações 
acontecem nas mais diversas culturas, e não apenas em uma e replicada nas 
demais sociedades.
c) ( ) A escola difusionista centrava a evolução no pressuposto da inovação material, 
desconsiderando as inovações imateriais, e, por consequência, todos os 
avanços sociais.
d) ( ) Não existem pressupostos de evolução cultural, uma vez que as sociedades são 
formadas de avanços e retrocessos cotidianos que impedem um padrão único 
de evolução cultural.
2 Para o estudioso Malinowski o trabalho de campo se tratava de uma parte 
extremamente importante do trabalho do antropólogo. Em sua obra “Argonautas do 
Pacífico Ocidental”, de 1922, o antropólogo compilou algumas de suas observações 
colhidas em campo. Sobre essas questões, assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Para Malinowski era de suma importância que o antropólogo, por meio da 
observação de dois ou mais povos, realizasse uma descrição densa e comparativa 
entre os diferentes grupos observados, para assim poder apontar as diferenças 
em termos evolutivos. 
b) ( ) Em seu trabalho de campo, Malinowski optou por apenas observar os povos 
das ilhas que se estendiam desde o norte ao leste e extremo oriental da Nova 
Guiné, todavia, apontou para o fato de que a todo momento era necessário se 
resguardar de possíveis interações sociais para com os nativos daquelas ilhas, 
evitando, assim, o envolvimento afetivo com aquelas pessoas, sendo, então, 
possível realizar uma observação neutra. 
c) ( ) A questão da observação participante dizia respeito aos ensinamentos que o 
antropólogo repassava aos nativos das ilhas, uma vez que, enquanto um homem 
europeu pertencia a uma sociedade mais evoluída, seus conhecimentos eram 
muito importantes para as evoluções dos povos tribais. 
AUTOATIVIDADE
99
d) ( ) Para Malinowski era importante tomar o próprio grupo estudado enquanto 
referência, ou seja, para o antropólogo a evolução estava presentes nas próprias 
práticas internas das comunidades estudadas, a totalidade do próprio grupo 
deveria ser o ponto de observação e não a buscas por hierarquias e possíveis 
comparações em termos de evoluções entre grupos diferentes. 
3 Dentro do sistema de trocas intitulado Kula, descrito pelo antropólogo Malinowski, 
circulavam entre as ilhas do norte ao leste e extremo oriental da Nova Guiné, ao longo 
de todo o ano, colares e braceletes. Essa prática se tratava de um circuito marítimo 
tradicionalmente pré-determinado que envolvia uma série de questões relacionadas 
à organização social dos habitantes dessas ilhas. Sobre essas questões relacionadas 
ao sistema Kula, assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) O antropólogo Malinowski observou e registrou que essas trocas carregavam 
consigo questões morais, valores de importância social para aqueles que faziam 
parte dessas trocas, bem como resultaram no estabelecimento e permanência 
de relações que poderiam perdurar ao longo dos tempos. 
b) ( ) O sistema de trocas Kula era baseado em trocas de colares e braceletes que 
aconteciam a cada biênio entre os habitantes dessas ilhas, onde o que importava 
eram as quantidades de objetos oferecidos por cada parte. 
c) ( ) Independente dos objetos levados para a realização das trocas, o que de fato 
importava eram as relações pré-estabelecidas entre as famílias presentes no 
ritual, uma vez que os objetos eram apenas simbólicos e os encontros era o que 
verdadeiramente moviam o cerimonial do Kula. 
d) ( ) Os valores monetários tinham importância central dentro do cerimonial do Kula, 
uma vez que essas práticas de trocas moviam parte considerável da economia 
local dos habitantes dessas ilhas. 
4 Por vezes, erroneamente, costumamos enxergar as práticas e dinâmicas de outras 
culturas como sendo muito diferentes das práticas e dinâmicas de nossa própria 
cultura. Vamos pensar em similaridades entre certas práticas culturais. Portanto, ao 
pensar no sistema Kula, vemos a circulação de colares e braceletes entre as ilhas 
do norte ao leste e extremo oriental da Nova Guiné, enquanto um sistema de trocas 
materiais e imateriais, uma vez que coaduna em si uma série de questões como: 
relações, afetos, economia etc. No entanto, em datas culturalmente estabelecidas 
como Natal, aniversários, festas de casamento etc., também é comum a troca de 
presentes que carregam consigo relações, afetos, economia etc. Desse modo, 
baseado na prática de trabalho de campo de Malinowski, faça um registro escrito 
(pode incluir áudios, imagens, vídeos, dentre outros recursos) a respeito das trocas 
de presentes que acontecem em nossa cultura, busque por meio da observação e 
registro destacar os elementos que extrapolam os presentes materiais, todavia fazem 
parte desses momentos simbólicos. 
5 Pensando na questão central do funcionalismo, sobretudo ao que se relaciona com o 
equilíbrio social, com suas palavras, descreva uma prática que pode ser lida enquanto 
um dispositivo de desequilíbrio social.
100
101
TÓPICO 3 - 
CULTURALISMO
1 INTRODUÇÃO
Acadêmico, agora imagine a possibilidade de um fio condutor cabível e aplicável 
a todas as observações e análises de uma área de conhecimento. Um tema central que 
atravessa uma disciplina por completo, uma chave que tem a capacidade de abrir todas 
as discussões de nossa disciplina. Essa questão resultaria em uma verdadeira explosão 
de informações das mais interessantes e inimagináveis possíveis, uma infinidade de 
possibilidades condensadas em um mesmo tema. 
Está curioso? Muito bem, a partir deste momento nos aprofundaremos nossos 
estudos no tema da cultura e seus múltiplos atravessamentos. De agora em diante, 
ao ouvir a palavra cultura, todos os seus sentidos serão aguçados às mais intensas 
reflexões e análises críticas. A palavra cultura, nunca mais será a mesma, após esta 
fase de seus estudos clássicos, a partir de agora, você alcançará a compreensão da 
importância científica da cultura para a nossa disciplina e para o mundo! 
Uma das maiores potências de nossa área de conhecimento repousa no fato 
de que os conteúdos adquiridos em nossa disciplina podem ser observados por toda 
a parte da vida cotidiana. O mundo inspira e exala antropologia! Desde antes do nosso 
nascimento, em todas as partes do planeta Terra, a cultura está presente em suas mais 
diversas formas. Com o estudo e reflexão deste terceiro tópico, você terá prova dessa 
afirmação, assim como será capaz de ver a cultura em todas as suas possibilidades e 
dimensões. Portanto, vamos juntos explorar o maior tema de nossa disciplina, a cultura! 
 Acontece que, a cultura, sobretudo desde a antropologia estudada no Brasil 
(como vimos na Unidade 1 de nosso livro), ocupa o centro de nossa disciplina, a 
antropologia social, esta é a corrente teórica predominantementeestudada no Brasil. 
Em território brasileiro, falar de antropologia é falar de cultura, falar de cultura é falar 
de antropologia. A cultura está presente em absolutamente todas as esferas da vida 
humana. Seja na linguagem, relações, política, parentesco, alimentação, dentre outros, 
podemos observar a cultura e seu impacto na organização social da humanidade. 
E essa escola clássica chamada de teoria culturalista esteve dedicada a 
observar, analisar e compreender essas diversas dinâmicas da cultura. É impossível 
tornar-se apto a trabalhar com a antropologia sem conhecer com certa profundidade a 
cultura e suas infinitas possibilidades de reflexão. Bons estudos! 
UNIDADE 2
102
2 FRANZ BOAS E A INTERDISCIPLINARIDADE 
NA FORMAÇÃO DE UM DOS FUNDADORES 
DA ANTROPOLOGIA: DA FÍSICA À ANTROPOLOGIA 
Acadêmico, é muito enriquecedor para a jornada de estudos de um bom 
antropólogo que ele tenha interesse em buscar conhecimentos relacionados ao período 
clássico de nossa disciplina. Infelizmente, por questões diversas, na atualidade, os temas 
clássicos de nossa disciplina recebem pouca ou nenhuma atenção, sendo deixados 
como assuntos de segunda importância. No entanto, através dos estudos sobre a vida 
e obra dos principais teóricos clássicos  de nossa disciplina, é possível compreender 
questões epistemológicas que se fazem presentes na atualidade, sobretudo no que 
toca a pesquisa de campo. O cientista alemão Franz Boas (1858-1942), é considerado 
um dos fundadores da antropologia, sem sombra de dúvidas se trata de um desses 
conceituados intelectuais que oferece reflexões fundamentais para nossa disciplina, 
assim como para a própria prática do fazer antropológico contemporâneo (BOAS, 2004). 
Esse antropólogo foi e ainda é uma grande referência nos estudos culturalistas, suas 
observações e teorias até os dias de hoje se mostram extremamente pertinentes para 
a pesquisa antropológica. 
FIGURA 8 – FRANZ BOAS
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
Franz Boas nasceu no ano de 1942 em uma pequena cidade chamada Minde, 
na Alemanha. Filho de comerciantes medianos e bem estabelecidos, a possibilidade 
de frequentar escolas formais, bem como os estudos superiores lhe foi oferecida. O 
proeminente pesquisador acabou sendo popularmente conhecido como “Pai da 
Antropologia Americana”, título este conquistado desde suas importantes pesquisas, 
bem como o lugar onde estabeleceu sua carreira intelectual. 
Assim como a própria disciplina da antropologia (contemporaneamente), a 
carreira e interesses pessoais e científicos de Boas foram percorrendo um caminho 
muito interessante, desde uma perspectiva de análise interdisciplinar, fato que, em 
muito, influenciou seus estudos e pesquisas em antropologia. 
103
No ano de 1881, com apenas vinte e três anos, o jovem estudioso concluiu sua 
primeira formação universitária na área da física, na Universidade de Kiel, localizada 
na Alemanha. Pela ocasião de sua formação em física, Boas defendeu um trabalho a 
respeito da absorção da luz pela água. No entanto, as possibilidades da carreira de físico 
não supriam seus interesses e necessidades pessoais e profissionais, causando-lhe 
certa insatisfação para com sua área de formação. 
Em busca de alcançar êxito e realização em sua carreira, o jovem pesquisador 
passou a estudar uma série de disciplinas e temas que despertaram sua atenção 
naquela época. Logo após sua titulação em física, decidiu começar a estudar e refletir 
a respeito da área da Geografia. Essa passagem não se deu pelo acaso da vida, esse 
interesse foi motivado e influenciado pelo geógrafo Theobald Fischer (1846-1910), que 
compunha o quadro de professores da Universidade de Kiel. Com o passar do tempo, 
ambos começaram a nutrir uma amizade. Nesse momento, Boas precisou prestar o 
serviço militar obrigatório pelo período de um ano, e em seu retorno, optou por se mudar 
para Berlim, ocasião em passou a ter os primeiros contatos com a antropologia. 
Na capital alemã, teve a oportunidade de conhecer e se aproximar de Adolf 
Bastian (1826-1905) que na época era diretor do Museu do Folclore de Berlim. Durante 
um período breve, Boas inclusive ficou ligado à instituição. Nesse primeiro contato entre 
Boas e a antropologia, seus interesses o aproximavam da área da antropologia física 
(ramo da antropologia contemporaneamente relacionada à arqueologia), estudando, 
por algum tempo, técnicas de medição. Interessante marcar que, nos dias de hoje, 
sobretudo no Brasil, a antropologia cultural domina a cena da antropologia produzida 
em nosso país, todavia, naquele período, a antropologia física tinha maior visibilidade. 
Essa experiência de trabalho junto ao museu, despertou no jovem pesquisador 
um grande interesse pela área dos estudos culturais, bem como geográficos. Motivado em 
realizar uma expedição à Ilha de Baffin, localizada no Canadá, Boas inicia uma jornada pela 
busca por financiamento para a realização da pretendida expedição. Uma das pretensões 
centrais de seu empreendimento era o de entender a relação entre os esquimós com o meio 
ambiente, assim como seus costumes, linguagens e práticas cotidianas. 
Após muitos esforços, uma oportunidade lhe foi oferecida, estabeleceu, então, 
uma barganha com um jornal de grande porte da capital. O acordo estabelecido era de 
que, em contrapartida a recursos financeiros suficientes para patrocinar a expedição 
pretendida, o jovem deveria entregar ao jornal uma série de artigos a respeito das 
experiências da viagem. Desse modo, entre os anos de 1883 e 1884, o ainda entusiasta 
dos estudos em antropologia consegue realizar sua viagem a Ilha de Baffin.
A interdisciplinaridade da carreira de Boas serve para mostrar o quanto nossa 
área de estudos é aberta a diálogos com todas as áreas de conhecimento. Enquanto 
antropólogo, é possível trabalhar e pesquisar nos mais diversos contextos e com os mais 
variados temas. Sendo a cultura o centro de nossas análises, não existe espaço onde 
a antropologia não seja uma ferramenta de trabalho possível e de grande relevância. 
104
Estudar antropologia implica necessariamente em estudar a vida, sendo assim, a 
prática antropológica é viável em todas as esferas da vida humana. Em nosso próximo 
subtópico vamos conhecer um pouco mais a respeito do trabalho de campo realizado 
por Boas. Uma vez que o trabalho de campo enquanto uma prática de pesquisa estava 
em sua fase de desenvolvimento inicial e Boas é, até os dias de hoje, uma referência no 
assunto (MOURA, 2006). Vamos conhecer um pouco a respeito das situações, questões 
e reflexões a respeito do trabalho de campo pioneiro realizado por Boas na Ilha de Baffin?! 
NOTA
Franz Boas, na ocasião de sua morte, fez justiça ao seu próprio legado de 
pesquisador e professor da Universidade de Columbia, local onde lecionou 
por parte considerável de sua vida. Em uma confraternização na própria 
universidade, Boas morreu próximo de um de seus alunos que veio a se tornar uma 
referência em nossa disciplina, Claude Lévi-Strauss. Como já aprendemos, a antropologia 
nos acompanha ao longo de todas as situações de nossas vidas, no caso de Boas, a 
disciplina, de certa forma, o acompanhou até o momento de sua morte. 
2.1 ILHA DE BAFFIN E SUBJETIVIDADE NA PESQUISA 
ANTROPOLÓGICA 
Inicialmente, as motivações de Boas em realizar a expedição à Ilha de Baffin 
(1883-1884) eram atravessadas por interesses relacionados à Geografia, pois nesse 
período essa área de estudos era seu mais recente interesse em termos disciplinares. 
O objetivo principal do pesquisador, era o de mapear as áreas costeiras da Ilha de 
Baffin, sendo esse um trabalho pioneiro naquela localidade; ou, melhor, uma prática 
pioneira no sentido de uma produção científica europeia, visto que os próprios nativos 
já confeccionavam seus próprios mapas. Inclusive, as técnicas de mapeamento e 
desenho dos esquimós eram muito similares ao modelo topográfico europeu. Afinal de 
contas, quem melhor que os próprios habitantes de uma localidade paracompreender 
a respeito de seu território? 
ATENÇÃO
É fundamental que um antropólogo sempre exerça um olhar crítico a respeito 
das informações que recebe, sobretudo ao que se refere a sua área de 
conhecimento. Não é incomum que os mais diversos autores escrevam com 
naturalidade que determinadas práticas foram pioneiras, todavia, é necessário levar 
algo em conta, sobretudo quando se trata de questões que envolvem conhecimentos e 
práticas de antropólogos em contrapartida aos conhecimentos e práticas nativas. Busque 
realizar a seguinte análise: determinado sujeito foi de fato pioneiro na realização de uma 
105
prática específica ou outros sujeitos já haviam realizado essa ação, mas não receberam o 
devido reconhecimento e legitimidade por não se tratar de pessoas com nível formal de 
ensino? Boas, por exemplo, foi pioneiro entre os europeus na confecção de mapas dessa 
região, no entanto, antes dele, os próprios nativos já desenhavam os seus próprios mapas. 
No momento da realização desta expedição, o interesse pelo tema da cultura, 
suas dinâmicas e nuances já estava presente nas reflexões do jovem pesquisador, 
todavia, isso ainda se tratava de uma questão de segunda ordem em seu planejamento 
de viagem. Com a chegada em campo, e sua aproximação com os povos nativos, 
bem como com as possibilidades das situações que teve a oportunidade de observar 
(práticas e costumes cotidianos dos nativos) sua perspectiva de pesquisa e trabalho na 
ilha mudaram consideravelmente, e, dessa maneira, a antropologia foi ganhando cada 
vez mais interesse por parte do pesquisador. Todavia, mesmo com as muitas mudanças 
em relação aos caminhos a serem traçados ao longo do período da expedição, Boas 
dedicou-se à produção dos mapas com o devido cuidado e responsabilidade esperados. 
Dessa maneira, fez o primeiro mapa de precisão do Canal de Cumberland e o Estreito 
de Davis. Mesmo as questões de fundo antropológico, relativas a essa expedição, 
sobretudo em relação à vida dos esquimós, tenham ganhado maior relevância, seus fins 
geográficos, bem como seus resultados materiais (especialmente os mapas), tiveram 
sua devida relevância reconhecida naquele período. 
 
É muito valioso, acadêmico, que você saiba que o trabalho de campo começa muito 
antes de nossa chegada até o local em que pretendemos realizar nossas pesquisas. Definir o 
tema da pesquisa, estabelecer um cronograma de trabalho, arrecadar os fundos financeiros 
necessários para a estadia, organizar uma série de coisas para alcançar êxito em nosso 
trabalho de campo, fazem parte dos elementos do pré-campo, e são indispensáveis para a 
realização de uma pesquisa. Essas questões estiveram presentes nas jornadas dos autores 
clássicos de nossa disciplina, bem como ainda fazem parte de nossa realidade. Obviamente, 
com o passar do tempo, o surgimento de novas tecnologias e possibilidades (inclusive 
virtuais) de realizar essa empreitada, sofreram mudanças consideráveis, no entanto, nunca 
foi uma tarefa simples realizar um trabalho de campo de sucesso, assim como os percalços 
sempre estiveram presentes em nosso ofício. 
Para Boas, desde o transporte até chegar à Ilha de Baffin, já se tratava de uma 
tarefa complexa, sendo esse trabalho de campo um investimento de considerável 
fôlego. A única possibilidade para chegar ao local de realização de sua pesquisa era por 
meio de uma viagem de navio, além de que seria apenas possível realizar essa travessia 
marítima unicamente durante a época do degelo. De modo algum se tratava de um 
deslocamento simples e seguro, os riscos e esforços para alcançar o objetivo de chegar 
na localidade pretendida eram representativos em termos de dedicação e planejamento. 
Assim, a chegada a ilha, acontecimento que hoje em dia pode ser visto como uma tarefa 
106
simples, graças aos meios de transportes disponíveis, para aquele período se tratava 
de uma grande feita. O reconhecimento da importância do trabalho prático e teórico de 
Boas, envolve não apenas suas reflexões críticas, mas o todo que envolveu a realização 
de sua pesquisa (RUBIM, 2011).
FIGURA 9 – ILHA DE BAFFIN
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
Uma vez que, as pesquisas antropológicas necessariamente atravessam nossas 
vidas pessoais, o falso paradigma de uma possível neutralidade científica já caiu por terra 
há muitos anos em nossa disciplina. Portanto, pesquisar antropologia necessariamente é 
pesquisar cultura e humanidade, e as questões que transbordam esses temas acabam, 
de um modo ou outro, nos tomando pessoalmente. Trabalhar com antropologia de modo 
algum permite ao sujeito uma perspectiva neutra e descolada do contexto social do qual 
está inserido, muito pelo contrário, ser antropólogo é necessariamente fazer parte, assim 
como ser afetado (FAVRET-SAADA, 2005) pelos diferentes contextos sociais. O ofício de 
antropólogo requer dedicação em questões de ordem teórica e a devida sensibilidade às 
mais diversas realidades culturais. O impacto do campo no antropólogo não é um fato 
novo em nossa disciplina, inclusive podemos observar essa questão em vários relatos 
pessoais de autores clássicos. 
O próprio Franz Boas, durante o mesmo momento em que escrevia os artigos 
para o jornal que havia patrocinado sua viagem, escreveu uma espécie de diário 
pessoal contendo um número considerável de cartas para sua noiva, seu objetivo 
era o de presentear a jovem amada no momento de sua volta de trabalho de campo. 
Essas cartas resultaram em um generoso registro a respeito de muitas das sensações 
experimentadas pelo pesquisador ao longo de seu período de trabalho de campo. Em 
especial, seus anseios, dificuldades, desgostos, solidão, dentre outros sentimentos. É 
de suma importância que você, acadêmico e futuro antropólogo, tenha claro que tais 
sentimentos e sensações estão presentes até os dias atuais em nossas pesquisas e 
trabalhos de campo. Esse registro em formato de cartas, escrito por um dos nomes de 
Yellowkinife
107
maior relevância de nossa disciplina, nos auxilia a compreender e ponderar a respeito 
das questões de ordem pessoal e subjetiva que atravessam o dia a dia daqueles que se 
dedicam à pesquisa antropológica, na qual, muitas das vezes, é comum deparar-se com 
situações das mais adversas. 
Estar em campo é, sem sombra de dúvidas, um dos pontos mais altos da prática 
do antropólogo, no entanto, não se pode negar que, em muitos momentos, os sentimentos 
mais ambíguos tomam por completo aqueles que se dedicam à pesquisa em culturas e 
localidades diferentes das suas de origem. Mesmo que durante um período considerável 
de formação em antropologia o estudante receba todas as ferramentas teóricas para 
a realização de pesquisa de campo, as surpresas e infortúnios são uma possibilidade 
iminente ao trabalho de campo. O contato com culturas diversas coloca os sentimentos 
e subjetividades do antropólogo em cena, tornando-o suscetível a muitos sentimentos 
e sensações durante e após o trabalho de campo. Diversas são as tensões, choques e 
possibilidades de aprendizado que nascem ao longo desse momento de observação 
e coleta de dados. Podemos estranhar questões da ordem dos alimentos, práticas de 
higiene, relações interpessoais, dentre muitas outras questões das quais o campo se 
distingue de nossa realidade cotidiana e cultural. Assim como é possível aprender um 
idioma, adquirir habilidades técnicas, conhecer lugares novos, enfim, estar em campo é 
expandir o próprio horizonte, pessoal e profissional (MARTINS; MENDES, 2016). 
Nesse período em que Boas realizava sua primeira expedição, a antropologia 
ainda era um campo de conhecimento em construção e existia uma infinidade de 
possibilidades a serem refletidas. Assim que estabeleceu contato com os nativos da ilha, 
o jovem estudioso passou a despertar para as questões relacionadas à cultura e suas 
dinâmicas, ou seja, a antropologia. Assim, aos poucos, seus interesses anteriores à viagem 
foram sendo deixados de lado, abrindo cada vez mais espaço para as observaçõesde 
fundo antropológico. Uma vez que as situações cotidianas presenciadas no então novo 
contexto regional e cultural em que estava inserido, acabaram por influenciar a visão de 
mundo do mais novo entusiasta em assuntos relacionados à cultura e suas dinâmicas. 
Em campo, o fascínio de Boas concentrou-se em torno de assuntos relacionados ao 
comportamento humano. 
GIO
No período inicial da antropologia, era uma prática comum que os jovens 
antropólogos fossem realizar suas pesquisas de campo acompanhados de alguém 
de sua confiança, uma pessoa que pudesse fazer a tradução do idioma nativos e/ou 
até mesmo uma pessoa que lhe prestasse serviços gerais, alguém que hoje seria lido 
enquanto um empregado doméstico ou um assistente de pesquisa. Por recomendação 
e insistência de seu pai, Boas foi acompanhado de um empregado de sua família. Essa 
informação deve ser absorvida com a devida importância, visto que os créditos não 
são reconhecidos a esses “assistentes” de viagens, todavia, suas presenças são de 
importância para a ida e permanência dos antropólogos do período clássico em seus 
108
campos de pesquisa. O desenvolvimento das pesquisas científicas de uma forma ou de 
outra sempre dependem de uma comunidade de pessoas, seja para discussões teóricas 
ou questões de ordem da vida prática e o reconhecimento dessas participações se trata de 
honestidade e ética intelectual. 
Mesmo com certo grau de dificuldade, o pesquisador, por inúmeras vezes, 
colocou-se a realizar tarefas cotidianas que faziam parte da vida dos povos esquimós. 
A caça, por exemplo, era uma dessas tarefas. Além dos conhecimentos técnicos, tal 
prática despertava grandemente a curiosidade e interesse do jovem cientista em 
termos culturais. Boas considerava-se, de certo modo, parte do grupo do qual havia ido 
realizar sua pesquisa, tratava-se de um estudioso muito dedicado ao seu ofício. Um dos 
grandes diferenciais de sua empreitada em pesquisar a respeito do Ártico, sobretudo 
dos povos da Ilha de Baffin, foi o interesse em aprender o idioma local, sendo essa uma 
prática incomum entre os pesquisadores daquela época. 
O estudioso percorreu quase cinco mil quilômetros ao longo do ano em que 
permaneceu em campo, pelos mais diversos meios de locomoção. O impacto de seu 
trabalho de campo e reflexão teórica foram cruciais em termos de mudança de paradigma 
a respeito do modo com que as diferentes culturas passaram a ser vistas, sobretudo 
pela comunidade de cientistas e entusiastas dos estudos da cultura daquela época. 
Boas inclusive chamou a atenção aos olhos para a maneira como a própria sociedade 
da qual ele pertencia enxergava a si mesma. Uma vez que observar e refletir a respeito 
do “outro” implica em olhar para si mesmo. E esse modo de pesquisar, assim como 
as reflexões implicadas na análise antropológica eram totalmente modernas. Vamos 
em frente para entender um pouco a respeito das questões levantadas em campo a 
respeito da cultura dos povos das Ilhas Baffin, assim como a respeito das reflexões que 
passou a fazer a partir de sua própria cultura?! 
2.1.1 Descobertas do campo: topografia nativa 
Atrelando os interesses pessoais (conhecer os povos) e profissionais (mapear a 
localidade) de Boas em seu tempo em campo, foi possível para o pesquisador reconhecer 
rapidamente a abundância em termos de conhecimentos geográficos por parte dos 
esquimós. O então entusiasta da disciplina da Geografia, assim como dos temas da 
cultura, espantava-se ao perceber a sofisticação em termos topográficos que os nativos 
tinham a respeito de sua região. Diferentemente do que se imaginava, tratava-se da 
sistematização do conhecimento topográfico de modo profundo, detalhado e complexo. 
O próprio estudioso reconheceu uma série de falhas presentes em sua formação 
em Geografia, uma vez que a observação da vida dos nativos do Ártico comprovou 
o quanto essas populações extrapolavam as questões do determinismo geográfico 
presente na disciplina da Geografia. 
109
Mesmo que os mapas de Boas tenham sido reconhecidos como os primeiros 
mapas detalhados da região, o próprio pesquisador relata a respeito dos mapas feitos 
pelos povos nativos da ilha, bem como as habilidades com desenho dos povos nativos. 
A sagacidade antropológica de Boas fez com que ele pedisse aos esquimós 
que desenhassem os mapas de seu território em papel. Esses mapas eram verdadeiros 
tesouros em termos etnográficos, material esse que o jovem trouxe consigo em seu 
retorno de campo. A similaridade entre os mapas dos esquimós e aqueles feitos pelo 
jovem geógrafo eram impressionantes. 
Destacando o fato de que esses povos conseguiam desenhar na própria neve 
seus mapas, apontando para conhecimentos e habilidades de importância considerável, 
assim como qualidade e precisão. Deve-se levar em conta também o fato de que a área 
em questão era de extensão considerável, fato que em nada impedia a precisão dos 
esquimós em relação ao conhecimento de sua região. 
Outro ponto interessante observado em campo por Boas era o fato de que, para 
os esquimós, era possível medir a distância de um território ao outro a partir do tempo 
gasto para realizar essa travessia, mostrando, assim, a complexidade desse sistema de 
conhecimento em termos de mapas e territorialidade. 
Desde seus conhecimentos em Geografia, o determinismo geográfico apontava 
para o fato de que o ambiente (nesse caso dos esquimós) determinava consideravelmente 
a respeito da vida, práticas e dinâmicas sociais de sua população. Todavia, com o passar 
do tempo, ao longo de seu trabalho de campo, o pesquisador observou a impossibilidade 
prática da comprovação dessa teoria. 
INTERESSANTE
Mesmo que a linguagem escrita seja o centro de nosso modo de adquirir 
conhecimentos e desenvolver nossas pesquisas na antropologia, existem 
outras maneiras extremamente interessantes para aumentar nossos 
conhecimentos. Documentários e demais aportes audiovisuais são muito 
valiosos para uma sólida formação em antropologia. Sendo assim, para conhecer e 
aproximar-se um pouco mais do antropólogo e intelectual Franz Boas, recomenda-se 
assistir ao documentário “Estranhos no exterior: as correntes da tradição (Franz Boas)”, a 
respeito da vida e pesquisa de um dos pioneiros de maior relevância para o nosso ofício 
enquanto antropólogos. Disponível em: https://bit.ly/36mjTx2.
110
2.2 ESCOLA CULTURALISTA 
Franz Boas, pouco tempo depois de seu retorno da Ilha de Baffin e após alguns 
descontentamentos com suas possibilidades profissionais na Alemanha, muda-se para 
os Estados Unidos da América, localidade onde residia sua noiva. Nesse momento seu 
interesse estava totalmente voltado para as questões antropológicas e etnográficas. 
Realizou outros trabalhos de campo de grande importância em sua carreira. Elaborou 
outras expedições já direcionadas ao campo antropológico, confirmando suas hipóteses 
iniciadas em seu primeiro trabalho de campo, onde compreendeu que o determinismo 
geográfico não se sustenta, frente a observação empírica de povos e culturas que viviam 
em contexto regionais das mais diversas condições geográficas e climáticas.
No ano de 1887, enquanto um antropólogo estabelecido, passou a trabalhar 
como editor assistente na revista científica Science. Revista esta recém-inaugurada e 
que perdura até os dias de hoje. E, em 1889, tornou-se professor da Clark University. 
Ambos os cargos foram temporários, todavia foram de importância central na vida 
do antropólogo. Em sua participação na citada revista, Boas compreendeu a importância 
da formação de uma revista científica capaz de reunir e estreitar pesquisas com interesses 
semelhantes, permitindo, assim, o estabelecimento e expansão de discussões a respeito de 
temas e interesses de pesquisas de uma mesma área de conhecimento.
Outro trabalho de impacto na carreira de Boas foi no Museum of Natural History, 
concomitantemente a oportunidade de lecionar na Columbia University. Para o trabalho 
do museu, o antropólogo realiza trabalho de campo, ondecoleta dados e peças para o 
museu. Em 1905, ao adquirir estabilidade na universidade, sai do museu, dedicando sua 
vida a pesquisa e docência. 
Boas é conhecido como o “Pai da Teoria Culturalista”, todavia curiosamente 
diferente da tradição dos intelectuais de sua época, o estudioso não estabelece uma 
definição concreta para o termo cultura. A cultura para o antropólogo não poderia ser lida 
enquanto uma união de partes fragmentadas de uma sociedade, tampouco separada da 
natureza. Os esforços do estudioso estavam concentrados em compreender a cultura 
enquanto um todo e não enquanto partes fragmentadas de um sistema. Entre suas 
grandes áreas de interesse para compreender a cultura repousavam as questões de 
linguagem e da arte. A importância do tema das linguagens e arte eram repassados 
veementemente a seus alunos. 
Para Boas era necessário compreender a fundo a importância da linguagem 
para as culturas, assim como entender uma cultura a partir dela mesma e não mais 
tendo a cultura europeia como modelo ideal. Outra questão presente em seu trabalho 
era a importância da separação entre cultura e raça, questões que perpetuaram ao 
longo de boa parte da fundação da antropologia. 
111
 Em sua teoria, Boas abre as discussões a respeito do relativismo cultural, ou 
seja, em contrapartida do pensamento vigente no período em que vivia, sua perspectiva 
analisa as diversas culturas desde suas diferenças e não tendo como base uma 
pseudo-hierarquia entre culturas. Sua teoria apontava para o fato de que as culturas 
eram constituídas de diferentes modos de organização social, diferentemente do que 
se acordava compreender naquela época em que se acreditava que as culturas partiam 
de um modelo simples, podendo desenvolver-se para um sistema complexo. O trabalho 
de campo era visto pelo antropólogo enquanto uma parte indispensável à pesquisa 
antropológica. Enquanto professor universitário, incentivava intensamente seus alunos 
a realizarem trabalho de campo para o desenvolvimento de suas pesquisas. Essas 
perspectivas teóricas em muito influenciavam sua vida pública e política, política no 
sentido de sua visão a respeito dos diferentes contextos socioculturais presentes em 
diferentes territórios (BARBOSA, 2016). 
112
ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL: UM RELATO DO EMPREENDIMENTO 
E DA AVENTURA NOS ARQUIPÉLAGOS DA NOVA GUINÉ
Bronisław Malinowski 
INTRODUÇÃO
Tema, métodos e objetivos desta pesquisa
I
Com raras exceções, as populações costeiras das ilhas do sul do Pacífico são – 
ou foram, antes de sua extinção – constituídas de hábeis navegadores e comerciantes. 
Muitas delas produziram excelentes variedades de canoas grandes para navegação 
marítima, usadas em expedições comerciais a lugares distantes ou incursões de guerra 
ou conquistas. 
Os papua-melanésios, habitantes da costa e das ilhas periféricas da Nova Guiné, 
não são exceção a esta regra. São todos, de maneira geral, navegadores destemidos, 
artesãos laboriosos, comerciantes perspicazes. Os centros de manufatura de artigos 
importantes – tais como artefatos de cerâmica, implementos de pedra, canoas, cestas 
finas e ornamentos de valor – encontram-se em localidades diversas, de acordo 
com a habilidade dos habitantes, a tradição herdada por cada tribo e as facilidades 
especiais existentes em cada distrito. Destes centros os artigos manufaturados são 
transportados a diversos locais, por vezes a centenas de milhas de distância, a fim de 
serem comerciados. 
Encontram-se, entre as várias tribos, formas bem definidas de comércio ao 
longo de rotas comerciais específicas. Entre os motu de Port Moresby as tribos do golfo 
Papua encontram-se uma das mais notáveis formas de comércio. Os motu navegam 
centenas de milhas em suas toscas e pesadas canoas, chamadas lakatoi, munidas das 
características velas em forma de "pinça de caranguejo". Trazem artefatos de cerâmica e 
ornamentos feitos de conchas e, em épocas anteriores, lâminas de pedra aos habitantes 
do golfo Papua, deles obtendo em troca o sagu e os pesados troncos escavados que são 
mais tarde usados pelos motu na construção de suas canoas lakatoi.
Mais para o leste, na costa sul, vivem os mailu, população laboriosa e navegadora 
que, através de expedições feitas anualmente, servem de elo entre o extremo leste da 
Nova Guiné e as tribos da costa central.
LEITURA
COMPLEMENTAR
113
Há, finalmente, os nativos das ilhas e arquipélagos, espalhados no extremo leste 
que também se encontram em constantes relações comerciais uns com os outros. No 
livro do Professor Seligman o leitor encontrará uma excelente descrição sobre o assunto, 
especialmente no que se refere às rotas comerciais mais próximas existentes entre as 
várias ilhas habitadas pelos massim meridionais. A par desse tipo de comércio, existe, 
entretanto, outro sistema, bastante extenso e altamente complexo, que abrange, em 
suas ramificações, não só as ilhas próximas ao extremo leste da Nova Guiné, mas também 
as Lusíadas, a ilha de Woodlark, o arquipélago de Trobriand, e o grupo d'Entrecasteaux; 
penetra no interior da Nova Guiné e exerce influência indireta sobre vários distritos 
circunvizinhos, tais como a ilha de Rossel e algumas porções dos litorais sul e norte 
da Nova Guiné. Esse sistema de comércio, o Kula, é o que me proponho a descrever 
neste volume como veremos mais adiante, trata-se de um fenômeno econômico de 
considerável importância teórica. Ele assume uma importância fundamental na vida 
tribal sua importância é plenamente reconhecida pelos nativos que vivem no seu círculo, 
cujas ideias, ambições, desejos e vaidades estão intimamente relacionadas ao Kula.
II
Antes de iniciarmos aqui o relato sobre o Kula, será interessante apresentar 
uma descrição dos métodos utilizados na coleta do material etnográfico. Os resultados 
da pesquisa científica, em qualquer ramo do conhecimento humano, devem ser 
apresentados de maneira clara e absolutamente honesta. Ninguém sonharia em fazer 
uma contribuição às ciências físicas ou químicas sem apresentar um relato detalhado 
de todos os arranjos experimentais, uma descrição exata dos aparelhos utilizados, a 
maneira pela qual conduziram as observações, o número de observações, o tempo a 
elas devotado e, finalmente, o grau de aproximação com que se realizou cada uma das 
medidas. Nas ciências menos exatas, tais como a biologia e a geologia, isso não se pode 
fazer com igual rigor, mas os estudiosos dessas ciências não medem esforços no sentido 
de fornecer ao leitor todos os dados e condições em que se processou o experimento 
e se fizeram as observações. A etnografia, ciência em que o relato honesto de todos os 
dados é talvez ainda mais necessário que em outras ciências, infelizmente nem sempre 
contou no passado com um grau suficiente deste tipo de generosidade. Muitos dos seus 
autores não utilizam plenamente o recurso da sinceridade metodológica ao manipular 
os fatos e apresentar-nos ao leitor como que extraídos do nada. 
Facilmente poderíamos citar muitas obras de grande reputação e cunho 
aparentemente científico, nas quais se fazem as mais amplas generalizações, sem que 
os autores nos revelem algo sobre as experiências concretas que os levaram as suas 
conclusões. Em obras desse tipo, não há nenhum capítulo ou parágrafo destinado ao relato 
das condições sob as quais foram feitas as observações e coletadas as informações.
Um trabalho etnográfico só terá valor científico irrefutável se nos permitir 
distinguir claramente, de um lado, da observação direta e das declarações e 
interpretações nativas e, resultados de outro, as inferências do autor, baseadas em 
seu próprio bom senso e intuição psicológica. O resumo que apresento mais adiante 
114
(seção VI deste capítulo) ilustra a linha de pesquisa a ser observada. É necessária a 
apresentação desses dados para que os leitores possam avaliar com precisão, não 
passar de olhos, quão familiarizado está o autor com os fatos que descreve e sob 
que condições obteve as informações dos nativos. Nasciências históricas, como 
já foi dito, ninguém pode ser visto com seriedade se fizer mistério de suas fontes e 
falar do passado como se o conhecesse por adivinhação. Na etnografia, o autor é, 
ao mesmo tempo, o seu próprio cronista e historiador; suas fontes de informação 
são, indubitavelmente, bastante acessíveis, mas também extremamente enganosas 
e complexas; não estão incorporadas a documentos materiais fixos, mas sim ao 
comportamento e memória de humanos. Na etnografia, é frequentemente imensa a 
distância entre a apresentação final dos resultados da pesquisa e o material bruto das 
informações coletadas pelo pesquisador através de suas próprias observações, das 
asserções dos nativos, do caleidoscópio da vida tribal. O etnógrafo tem que percorrer 
esta distância ao longo dos anos laboriosos que transcorrem desde o momento em 
que pela primeira vez pisa numa praia nativa e faz as primeiras tentativas no sentido de 
comunicar-se com os habitantes da região, até à fase final dos seus estudos, quando 
redige a versão definitiva dos resultados obtidos. Uma breve apresentação acerca das 
tribulações de um etnógrafo – as mesmas por que passei – pode trazer mais luz à 
questão do que qualquer argumentação muito longa e abstrata.
III
Imagine-se o leitor sozinho, rodeado apenas de seu equipamento, numa praia 
tropical próxima a uma aldeia nativa, vendo a lancha ou o barco que o trouxe afastar-se 
no mar até desaparecer de vista. Tendo encontrado um lugar para morar no alojamento 
de algum homem branco – negociante ou missionário – você nada tem para fazer a não 
ser iniciar imediatamente seu trabalho etnográfico. Suponhamos, além disso, que você 
seja apenas um principiante, sem nenhuma experiência, sem roteiro e sem ninguém que 
o possa auxiliar – pois o homem branco está temporariamente ausente ou, então, não se 
dispõe a perder tempo com você. Isso descreve exatamente minha iniciação na pesquisa 
de campo, no litoral sul da Nova Guiné. Lembro-me bem das longas visitas que fiz às aldeias 
durante as primeiras semanas; do sentimento de desespero e desalento após inúmeras 
tentativas obstinadas, mas inúteis para tentar estabelecer contato real com os nativos e 
deles conseguir material para a minha pesquisa. Passei por fases de grande desânimo, 
quando então me entregava à leitura de um romance qualquer, exatamente como um 
homem que, numa crise de depressão e tédio tropical, se entrega à bebida. 
Imagine-se entrando pela primeira vez na aldeia, sozinho ou acompanhado de 
seu guia branco. Alguns dos nativos se reúnem ao seu redor – principalmente quando 
sentem cheiro de tabaco. Outros, os mais velhos e de maior dignidade, continuam 
sentados onde estão. Seu guia branco possui uma rotina própria para tratar os nativos; 
ele não compreende e nem se preocupa muito com a maneira como você, o etnógrafo, 
terá que aproximar-se deles. A primeira visita o enche da esperança de que, ao voltar 
sozinho, as coisas lhe serão mais fáceis. Era isso, pelo menos, que eu esperava.
115
Realmente, voltei como planejara. Logo reuniram-se os nativos ao meu redor. 
Trocamos alguns cumprimentos em inglês pidgin, dei-lhes um pouco de tabaco e assim 
criou-se entre nós uma atmosfera de mútua cordialidade. Tentei, então, dar início ao 
meu trabalho. Primeiro, comecei por "fazer" tecnologia, a fim de não entrar diretamente 
em assuntos que pudessem levantar suspeitas entre os nativos. Alguns deles estavam 
absortos em suas ocupações, fabricando este ou aquele objeto. Foi fácil observá-los e 
deles obter os nomes dos instrumentos que estavam usando, e até mesmo algumas 
expressões técnicas relativas aos seus métodos de trabalho; mas ficou nisso o assunto. 
Devemos ter em mente que o inglês pidgin é um instrumento muito imperfeito como 
veículo de comunicação.
FONTE: Adaptada de MALINOWSKI, B. Argonautas do pacífico ocidental: um relato do empreen-
dimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné Melanésia. Tradução de 
Anton P. Carr e Lígia Aparecida Cardieri Mendonça. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. Disponível em: 
https://bit.ly/3828rYf Acesso em: 22 fev. 2022.
116
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• As escolas teóricas sempre estão ligadas à realidade do contexto social e cultural 
em que estão inseridas, não sendo possível, assim, estudar uma teoria antropológica 
sem levar em conta os aspectos sociais a sua volta. Questões históricas, bem como 
interesses políticos, sempre estão, de algum modo, impactando nas perspectivas 
teóricas vigentes. 
• Franz Boas foi considerado um dos fundadores da antropologia, em especial 
a antropologia cultural. Suas pesquisas foram cruciais para a compreensão da 
diversidade de culturas e suas nuances. O intelectual foi crucial para os estudos 
culturais, bem como para uma análise de fundo interdisciplinar na disciplina 
da antropologia.
• A escola culturalista buscou romper com a hierarquização entre culturas diversas. O 
determinismo geográfico foi combatido por Boas e sua teoria culturalista. O relativismo 
cultural entra em cena a partir da teoria culturalista. 
• O trabalho de campo constitui uma parte de muita importância no ofício do antropólogo. 
É necessário uma série de planejamentos e organizações para empreender um 
trabalho de campo com êxito. O antropólogo, necessariamente, será afetado pelas 
situações observadas em campo e essas experiências atravessam diretamente seu 
fazer antropológico.
117
1 Franz Boas, ao realizar sua pesquisa de campo na Ilha de Baffin, deparou-se com 
questões que despertaram sua atenção para o contexto cultural dos esquimós. Sua 
teoria culturalista apontava para as diversas culturas existente. De acordo com o 
exposto, assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As culturas estariam divididas em diferentes pontos de evolução, portanto as 
diversidades culturais poderiam ser sistematizadas enquanto diferentes graus 
de evolução cultural. 
b) ( ) Segundo Boas, apenas a cultura europeia deveria ser o modelo cultural para as 
demais culturas, uma vez que era a cultura que se encontrava em maior nível de 
desenvolvimento. 
c) ( ) As diferenças culturais eram maneiras de comprovar a existência de culturas 
simples e culturas complexas, no entanto, com o tempo, essas diferenças 
poderiam diminuir consideravelmente. 
d) ( ) Ao desenvolver seu trabalho de campo, Boas observou que não existiam 
hierarquias entre culturas. Um dos exemplos que envolve essa questão é o fato 
de que os mapas de Boas e os mapas dos esquimós eram similares, portanto, 
trata-se da questão das diferenças e não das hierarquias. 
2 O trabalho de campo se trata de uma prática de considerável importância em nosso 
trabalho enquanto antropólogos, todavia, algumas questões devem ser levadas em 
conta durante o momento em que estamos em campo. Desde os relatos de Boas, 
é possível perceber que, durante esse período, o antropólogo passa por questões 
como. Acerca disso, assinale a resposta CORRETA: 
a) ( ) O antropólogo compreende a importância de sua presença no local a ser 
pesquisado, uma vez que, por optar em pesquisar determinada localidade, ele 
está contribuindo diretamente para aquele território. 
b) ( ) Cabe ao antropólogo manter-se neutro em absolutamente todas as questões 
que aparecerem ao longo do trabalho de campo, uma vez que se espera por 
parte do profissional tal comportamento. 
c) ( ) Ao estar em campo, as situações observadas tocam diretamente o antropólogo 
que as observa. Sendo necessário estar teoricamente preparado para passar por 
essas situações, todavia, deve-se levar em conta que o campo, de uma forma ou 
outra, afeta o antropólogo.
d) ( ) Ao chegar no campo o antropólogo deve despir-se de todos os seus valores 
morais e viver e sentir de igual maneira que seus interlocutores de pesquisa. 
AUTOATIVIDADERESUMO DO TÓPICO 3
118
3 Imagine uma pesquisa realizada desde a antropologia, na qual o trabalho de campo 
em uma localidade distante seja necessário.A partir desse exemplo, busque descrever 
alguns dos elementos que devem ser organizados durante o período de pré-campo, 
levando em conta questões como: deslocamento, hospedagem, idioma falado na 
localidade e recursos materiais. Lembre-se que o trabalho de campo é uma prática 
de grande importância para o ofício do antropólogo, uma boa organização antes da 
viagem em si é indispensável para o sucesso de sua pesquisa.
4 A formação interdisciplinar de Franz Boas impactou diretamente em sua carreira 
intelectual. O antropólogo realizou sua primeira expedição com fins geográficos, 
todavia, com o passar do tempo e suas experiências em campo, seus interesses 
foram se aproximando cada vez mais da antropologia. Uma vez que essa diversidade 
de conhecimentos afetou sua carreira no sentido de que. Acerca disso, assinale a 
alternativa CORRETA: 
a) ( ) Com os conhecimentos adquiridos na física o intelectual teve facilidade em 
trabalhar com a antropologia física. Permanecendo, ao longo de sua vida, 
refletindo e produzindo a respeito de tal linha de pesquisa.  
b) ( ) Graças aos seus conhecimentos em Geografia, Boas pôde mapear a Ilha de 
Baffin e, assim, conquistar a confiança de seus interlocutores, uma vez que 
produzir mapas daquelas localidades representou uma grande contribuição para 
aquela população. 
c) ( ) A formação interdisciplinar de Boas permitiu que o antropólogo realizasse seu 
trabalho de campo com um olhar expandido a respeito das questões topográficas 
e culturais presentes na região explorada, bem como no cotidiano de seus 
interlocutores.
d) ( ) A interdisciplinaridade da formação do antropólogo em nada afetou sua carreira, 
uma vez que seu trabalho estava ancorado nas possibilidades econômicas 
mais rentáveis. 
 
5 Acadêmico, a respeito da antropologia clássica, você se encontra preparado para 
desenvolver críticas sobre determinadas práticas antropológicas. Baseado no 
trabalho de campo realizado por Franz Boas e a questão do assistente de pesquisa, 
explique com suas palavras a importância de efetivamente reconhecer a participação 
da figura do assistente para a realização da pesquisa de Boas.
119
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122
123
CAMPO, MÉTODOS E 
TÉCNICAS DE PESQUISA EM 
ANTROPOLOGIA CLÁSSICA
UNIDADE 3 — 
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• compreender a importância do trabalho de campo no ofício do antropólogo, tendo 
clareza em relação às heranças do período clássico da antropologia e sua importância 
contemporânea;
• apresentar os principais métodos e técnicas da antropologia, tais como: trabalho de 
campo, etnografia, entrevista, pesquisa quantitativa e qualitativa, dentre outros. 
• elencar o paradigma moderno a respeito do fazer antropológico desde uma 
perspectiva latino-americana, trazendo os novos horizontes da disciplina;
• realizar um trabalho de campoexperimental e produzir uma primeira etnografia.
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dela, você encontrará 
autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.
TÓPICO 1 – O DESPERTAR PARA A PESQUISA
TÓPICO 2 – MÉTODOS E TÉCNICAS EM PESQUISA
TÓPICO 3 – ANTROPOLOGIA E OS NOVOS PARADIGMAS
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure 
um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.
CHAMADA
124
CONFIRA 
A TRILHA DA 
UNIDADE 3!
Acesse o 
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125
TÓPICO 1 — 
O DESPERTAR PARA A PESQUISA
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Acadêmico, depois de uma longa e frutífera jornada de conhecimentos 
antropológicos em temas pertinentes ao período clássico de nossa disciplina, 
chegamos em nossa terceira e última unidade do Livro Didático. A antropologia é uma 
das disciplinas mais plurais em termos de horizontes de pesquisa, dentro do universo 
científico, seja em relação ao seu conteúdo ou formato. Estudar, pensar e discutir 
antropologia, é, sobretudo, um movimento que exige de nós um olhar voltado para a 
pluralidade de pessoas, espaços, ideias e contextos culturais e sociais. É parte valiosa 
do ofício do antropólogo, desenvolver um olhar atento e sensível para essa pluralidade 
de existências. Pesquisar e trabalhar com antropologia, é necessariamente enxergar e 
experimentar o mundo sempre no plural, jamais no singular. Essa afirmação, de modo 
algum, sugere que as individualidades sejam deixadas de lado em nossa disciplina, ou 
mesmo desconsideradas, pelo contrário, essa perspectiva de mundo plural refere-se 
justamente ao reconhecimento e respeito a todas as diferenças.
FIGURA 1 – TRABALHO DE CAMPO
FONTE: . Acesso em: 23 fev. 2022.
126
Essa pluralidade de ideias, pessoas e culturas, presente em nosso cotidiano, pode 
ser observada a partir dos mais diferentes pontos de vista, com interesse privilegiado de 
nossa disciplina uma vez que a formação em antropologia, oferece diversas ferramentas 
para realizar essa observação e análise. Uma das etapas mais instigantes e interessantes 
de prática acadêmica e profissional do antropólogo está justamente na necessidade e 
possibilidade da realização de uma pesquisa de campo. Assim, ao final do período de 
formação em antropologia, ao escolher um tema de pesquisa para realizar o trabalho 
de campo, muitas questões devem ser levadas em conta para a tomada dessa decisão, 
tamanha a sua importância. 
Além disso, durante a completude das tarefas exigidas em nosso ambiente 
profissional, o trabalho de campo é uma peça fundamental do nosso ofício do 
antropólogo, tarefa essa que requer uma série de cuidados, preparos e ações para a 
execução da atividade antropológica requerida. 
A antropologia se trata do estudo do ser humano, suas dinâmicas sociais, 
questões de diversidade e nuances culturais. Para levantar nossos dados, o trabalho 
de campo é parte crucial de nossa pesquisa, assim como os métodos e técnicas que 
conformam essa prática antropológica, independente da escolha do espaço e tema de 
pesquisa. Portanto, vamos entender juntos a respeito da prática da pesquisa de campo, 
refletindo a respeito de suas heranças provenientes da teoria clássica. Também iremos 
compreender a relação entre o antropólogo e o espaço onde se realiza o trabalho de 
campo, as questões que atravessam e envolvem a pesquisa, e as inúmeras possibilidades 
de temas dentro da pesquisa antropológica. Adiantamos, acadêmico, que o sucesso de 
nosso trabalho, está relacionado com a nossa capacidade de desenvolver a pesquisa de 
campo e os levantamentos dos dados. De igual modo, precisamos incorporar em nossa 
prática diária, enquanto pesquisadores, a capacidade de organização e sistematização 
dos dados oriundos da pesquisa de campo. 
Em nosso próximo subtópico, vamos entender um pouco mais a respeito do 
trabalho de campo, tal como a herança e tradição da pesquisa de campo no contexto 
clássico e seus impactos em nossa prática profissional até os dias atuais. Bons estudos!
DICA
Acadêmico, para aprofundar um pouco mais seus conhecimentos a respeito 
da história de nossa disciplina, sobretudo no que se refere à questão da 
diversidade cultural no contexto brasileiro desde um olhar antropológico, 
leia o artigo “A antropologia e a diversidade cultural no Brasil”, de Ruben 
George Oliven. Disponível em: https://bit.ly/3HiDN8R.
127
2 SOBRE TORNAR-SE ANTROPÓLOGO: TEORIA 
E TRABALHO DO CAMPO
Acadêmico, você deve ter percebido que em algumas passagens de nosso Livro 
Didático, tanto na primeira unidade quanto na segunda, o tema do trabalho de campo 
por diferentes vezes foi trazido para a reflexão. Seja na pré-história da antropologia, 
ou nos estudos das escolas clássicas de nossa disciplina, o trabalho de campo, de um 
modo ou outro, faz-se presente em nossos estudos, uma vez que ele é parte central de 
nosso ofício. Desenvolver uma pesquisa antropológica está diretamente ligada à prática 
do trabalho de campo, sendo esta uma parte indispensável ao nosso trabalho. Esse 
tema exige muito espaço reflexivo e a devida atenção. 
Neste momento, buscaremos entender e refletir em torno desse tema, tamanha 
sua importância teórica e metodológica. Acontece que é impossível pensar, refletir e 
falar em antropologia, sem trazer a questão do trabalho de campo para a discussão 
(BRANDÃO, 2007). 
O trabalho de campo está para o antropólogo, assim como os ingredientes estão 
para um cozinheiro, sendo parte central e indispensável de nosso dia a dia enquanto 
pesquisadores. E assim como os antropólogos atravessam e impactam, de algum modo, 
o local onde realizam suas pesquisas, esses locais e suas dinâmicas e questões também 
atravessam e impactam o antropólogo. 
Como já estudamos na Unidade 2 de nosso livro, os teóricos clássicos como 
Franz Boas (1858) Bronislaw Malinowski (1884-1942), Alfred Radcliffe-Brown (1881), 
dentre outros, durante o período de fundação e estabelecimento da antropologia 
(conjuntamente com suas próprias formações individuais), enquanto uma disciplina 
científica, inauguraram e empreenderam as primeiras experiências de trabalho de 
campo. Essa prática, originada no período clássico de nossa disciplina, carrega consigo 
demasiada importância e centralidade em nossa área de estudos e profissão até os dias 
atuais. Obviamente, aconteceram uma série de mudanças e avanços em torno dessa 
prática, com o passar do tempo, todavia, sua importância e seu reconhecimento por 
parte da comunidade científica, sobretudo antropológica, segue sendo unânime. 
No período clássico, as primeiras viagens a campo (final do século XIX e início do 
século XX) demandaram questões diferentes das atuais. Por exemplo, o primeiro grande 
passo necessário para o trabalho de campo (visto que nesse momento as pesquisas 
eram feitas em locais de considerável distância) estava no planejamento do percurso 
até o local desejado. Uma vez que, nesse período, os antropólogos não dispunham das 
tecnologias que dispomos atualmente, tornando assim esses deslocamentos um tanto 
quanto mais demorados e trabalhosos. Uma viagem que hoje pode ser feita em algumas 
horas com o uso de uma ou duas viagens de avião, naquele período poderia demandar 
dias, semanas, ou até mesmo meses, em longos trajetos marítimos. 
128
Desse modo, somado ao fato de que as pesquisas tinham como foco as 
populações que viviam em locais muito distantes (daqueles em que moravam os 
antropólogos, Europa e América do Norte), com as possibilidades de transporte daquele 
período, o próprio deslocamento, já se tratava de um grande feito! Outro tema, era a 
questão da estadia nessas localidades. Uma vez que as habitações, muitas das vezes, 
deveriam ser feitas levando em conta que a permanência do antropólogo no local seria 
provisória, assim como deveria estar ajustada aos materiais disponíveis na própria 
localidade. Na Figura 2, podemos ver a fotografia de uma barraca que serviu de habitação 
para o antropólogoMalinowski, durante um de seus trabalhos de campo:
FIGURA 2 – BARRACA UTILIZADA POR MALINOWSKI DURANTE SEU TRABALHO DE CAMPO NA PRAIA 
DE NU’AGASI
FONTE: . Acesso em: 23 fev. 2022. 
Certamente, as condições atuais, tanto de deslocamento quanto de habitação 
para o momento da realização do trabalho de campo, sofreram mudanças consideráveis. 
Todavia, as questões ligadas ao pré-campo (questões pertinentes ao período anterior 
ao campo) seguem sendo muito importantes. Quando o trabalho de campo é 
realizado em um local do qual a realidade regional e social é muito diferente da nossa, 
fazem-se necessários alguns cuidados especiais. De maneira geral, é necessário o 
estabelecimento de um cronograma, organização financeira, pesquisa básica a respeito 
das condições climáticas do território, conhecimentos acerca de questões relacionadas 
à saúde pública, dentre outros. Esses cuidados são indispensáveis para tornar o tempo 
de trabalho de campo minimamente seguro e viável ao antropólogo. 
O devido preparo de uma viagem pode colaborar consideravelmente com as 
chances da obtenção de êxito em relação aos resultados esperados. Uma vez que, 
em campo, nosso tempo se torna muito precioso. É importante tê-lo o mais livre 
possível, evitando assim a necessidade de investi-lo em questões que poderiam ter 
sido previamente organizadas. O ideal, é que o tempo e a concentração do pesquisador, 
esteja focada no que realmente importa: as observações do campo, bem como a coleta 
e os registros dos dados e materiais para a pesquisa. 
129
É fundamental que você compreenda a função do trabalho de campo, uma 
vez que, a partir dele, é possível extrair os dados necessários para a pesquisa, fazer 
observações antropológicas e desenvolver reflexões críticas a respeito do tema 
investigado (ANDRADE, 2019). Esse momento deve ser aproveitado ao máximo, uma vez 
que, por vezes, não temos a oportunidade de repetir essa feita, ou mesmo a realidade do 
local pode sofrer mudanças consideráveis, podendo ocasionar inclusive, em prejuízos 
para a pesquisa. Cada oportunidade de realizar trabalho de campo é única.
Mesmo que a antropologia seja uma disciplina que demande muita dedicação 
ao estudo de suas teorias, é apenas quando experimentamos as situações práticas 
(trabalho de campo) que os conhecimentos anteriormente adquiridos passam a fazer 
real sentido em nossas pesquisas (MAGNANI, 2003). Portanto, são a partir das situações 
cotidianas presentes no trabalho de campo que conseguimos encontrar o real significado 
das teorias antropológicas, sejam essas clássicas ou contemporâneas. Independente 
da localidade (comunidades próximas, desconhecidas, distantes, familiares a nossa 
realidade ou mesmo espaços virtuais) em que desejamos realizar nossas pesquisas, o 
campo é sempre o norte de nossa atuação profissional e acadêmica.
É muito importante que você, futuro antropólogo, compreenda o espaço de cada 
elemento que constitui sua prática de pesquisa e atuação profissional. Erroneamente, 
muitos estudantes buscam encaixar as realidades observadas em campo com as teorias 
que lhes foram ensinadas durante o momento de suas formações em antropologia. 
Esse é um erro comum e, por vezes, fatal em termos de pesquisa antropológica. Em 
realidade, o movimento de ser inverso, as teorias é que devem servir como ferramentas 
analíticas para compreender com ainda mais profundidade e sofisticação as situações 
observadas em campo (BRANDÃO, 2007). 
Em outras palavras, o trabalho de campo é a questão central e de maior 
importância da jornada de um antropólogo. As observações feitas em campo de modo 
algum devem sofrer cortes ou ajustes para se encaixarem nos pressupostos teóricos. 
E sim, as observações pertinentes ao trabalho de campo devem direcionar as reflexões 
teóricas. A teoria antropológica pode ser interpretada como uma caixa de ferramentas, 
e essas ferramentas servem para contribuir com a pesquisa. 
Se é a partir do trabalho de campo que coletamos os dados da pesquisa, 
realizamos nossas observações antropológicas e compreendemos o sentido prático das 
teorias anteriormente estudadas, em nosso próximo subtópico, vamos entender de que 
maneira devemos direcionar nossa prática de pesquisa de campo. Vamos lá? 
130
DICA
É interessante conhecer um pouco mais sobre nossos referenciais 
teóricos, sobretudo quando estes vivem nos mesmos tempos que nós. 
Portanto, para aprofundar um pouco mais a respeito das relações entre 
a antropologia contemporânea e suas práticas (trabalho de campo), bem 
como o momento atual da antropologia e as possibilidades em termos 
de produções antropológicas, assista a aula “Antropologia e cidade” do 
professor José Guilherme Magnani. Disponível em: https://bit.ly/3scKEwx.
2.1 TRABALHO DE CAMPO: PESQUISADOR, RELAÇÕES 
DE CONFIANÇA E ALGUNS EXEMPLOS PRÁTICOS
Enquanto centro do trabalho antropológico, o trabalho de campo pode ser, 
também, um dos momentos mais complexos e difíceis do trabalho do antropólogo. 
Acontece que, na maioria das profissões, existe em algum grau etapas pré-definidas 
que tornam viáveis a execução das tarefas necessárias. No dia a dia da carreira do 
antropólogo, normalmente esses caminhos precisam ser viabilizados pelo próprio 
pesquisador. Essa questão parece de difícil compreensão? Sem problemas, vamos 
entender melhor esse tema? 
Os exemplos práticos costumam facilitar a visualização de determinadas 
situações. Desse modo, vamos imaginar a seguinte cena: um fiscal sanitário precisa fazer 
o trabalho de averiguação do cumprimento de leis e normas sanitárias no interior de um 
restaurante. Ele então se desloca até o local, apresenta sua credencial e imediatamente 
as portas do espaço são abertas para sua inspeção, assim como uma ou mais pessoas 
são colocadas a sua disposição, para responder a todas as perguntas pertinentes e 
necessárias à ocasião. Esta sequência de passos, permite ao sanitarista realizar seu 
trabalho com alguma facilidade, resultando, assim, na completude de sua função. 
Em contrapartida, quando escolhemos (pesquisa individual), ou somos 
atribuídos a uma tarefa (decorrente da profissão), e o trabalho de campo é uma das partes 
indispensáveis a esse processo, nossa credencial enquanto antropólogo, dificilmente 
faz com que as portas nos sejam abertas. Seja no sentido figurado ou real, normalmente 
os espaços não nos são abertos, tampouco as informações facilmente fornecidas. 
É necessário que o próprio antropólogo crie maneiras e se encarregue da 
viabilização de sua pesquisa. Essa entrada em campo e diálogo, na maioria esmagadora 
dos casos, se deve aos esforços pessoais do próprio pesquisador. Sendo muitas vezes 
necessário o estabelecer de contato, bem como um nível mínimo de confiança para com 
as pessoas que formam a comunidade do local, pretende-se fazer o trabalho de campo 
e desenvolver a pesquisa antropológica.
131
Desse modo, na maioria das vezes, é necessário um investimento de tempo e 
esforços consideráveis por parte do antropólogo. Além disso, para estabelecer essas 
relações de confiança, é necessário atender previamente a uma série de questões, 
essas costumam aparecer ao longo das tentativas de entrada e aproximação do 
antropólogo para com o local e as pessoas envolvidas na pesquisa (SILVA, 2000). Não 
é possível definir com precisão o que de fato é necessário para conquistar a confiança 
das pessoas, uma vez que esse é um tema em relacionado à ordem da subjetividade e 
intersubjetividade (MOREIRA, 2020). Aliás, (como vimos na Unidade 1 de nosso livro) a 
subjetividade e a intersubjetividade são temas que em muito refletem e interferem em 
nossas pesquisas. O espaço em que se pesquisa e suas dinâmicas socioculturais são 
elementos que devem ser levados em conta, no momento de buscar estabelecer essas 
relações de aproximação e confiança. 
Os riscos e tensões presentes nos mais diversos campos de pesquisa, são fatores 
que influenciam consideravelmente para o andamento e desenvolvimento da pesquisa 
antropológica.Por exemplo, se o antropólogo deseja pesquisar festas (MAGALHÃES, 
2017) o espaço oferecerá um tipo de abertura muito diferente daquela encontrada ao 
tentar realizar uma pesquisa em um ambiente prisional (PADOVANI, 2018). 
Não se trata de uma divisão que coloca o primeiro exemplo como sendo propício 
para realizar pesquisas e o segundo inapropriado. Acontece que, a cada espaço social, 
cabem dinâmicas e questões morais, assim como uma infinidade de atravessamentos 
próprios de cada espaço social. Portanto, obviamente, a entrada e confiança por parte 
das pessoas de cada território envolvem tempos e intensidades diferentes, visto que as 
questões e riscos envolvidos são diferentes. É possível desenvolver pesquisas a partir 
da antropologia em absolutamente todos os espaços sociais, respeitando obviamente 
as regras do próprio local, assim como preservando a integralidade daqueles que 
pertencem ao local. 
Voltando aos exemplos, vamos pensar nos passos necessários para a realização 
de uma pesquisa de campo. Exemplo: uma empresa multinacional responsável pela 
produção de produtos cosméticos de uso feminino decide inaugurar uma linha 
direcionada ao público masculino. 
Produzir cosméticos para consumidores de um outro gênero requer muita 
pesquisa, dados os investimentos e riscos envolvidos nessa operação comercial. 
Esse lançamento equivale a uma proposta de grandes proporções, graças a uma 
série de fatores como: gastos em publicidade, custos de produção, investimento no 
desenvolvimento desses novos produtos, dentre outros custos. Nesse momento, uma 
equipe multidisciplinar é contratada para avaliar as possibilidades, impactos e riscos 
financeiros que envolvem essa operação. Dentre os diversos profissionais contratados 
para levantar os dados requeridos pela multinacional em questão, um antropólogo é 
convidado para contribuir com a pesquisa. 
132
Nessa equipe, cada profissional é incumbido de tarefas diferentes que devem 
ser executadas em um tempo específico. O antropólogo precisa, a partir do público de 
frequentadores de barbearias, coletar certas informações de pesquisa como: interesse 
em consumir produtos de beleza, quais produtos esse público sente a ausência no 
mercado de cosméticos, quais proporções de tempo e investimento financeiro poderiam 
ser empregados nesses produtos por parte desse público, dentre outras questões. 
Essa parece ser uma tarefa simples, no entanto, caso o antropólogo optasse por 
realizar entrevistas estruturadas (vamos estudar a respeito em um subtópico um pouco 
a frente) com aqueles sujeitos que são o foco de sua pesquisa, as respostas poderiam 
ser diferentes daquelas alcançadas com conversas supostamente informais (DUARTE, 
2005). Acontece que parte considerável das pessoas costumam responder a entrevistas 
do modo com o qual elas imaginam ser a resposta ideal e esperada pelo entrevistador. Em 
contrapartida, em conversas informais, e estando em um ambiente considerado seguro e 
acolhedor, as pessoas costumam responder com sua verdadeira opinião. Dessa maneira, 
enquanto parte do método de trabalho de campo, a segunda opção (diálogos informais) 
pode ser muito mais frutífera para esse antropólogo em questão. 
Todavia, cabe a ele encontrar soluções para coletar essas informações e 
sistematizá-las. Como isso é possível? Apenas o próprio antropólogo, após realizar uma 
série de análises a respeito do espaço pretendido para a realização de sua pesquisa, é 
que pode definir a melhor maneira para desenvolver seu trabalho de campo e demais 
funções pertinentes a sua tarefa. Espero que você tenha conseguido entender como a 
confiança é um elemento de grande importância para a pesquisa antropológica, assim 
como cada espaço de pesquisa exige estratégias e escolhas específicas. 
O trabalho de campo é uma prática antropológica que apresenta desafios novos 
a cada local, situação e tempo. É preciso fôlego e persistência para alcançar os objetivos 
previamente traçados. 
Algumas vezes o antropólogo organiza um cronograma, levanta hipóteses 
e uma série de questões, para a realização de seu trabalho de campo, das quais, no 
momento de colocar em prática, acabam perdendo todo o sentido, ou seja, existem 
situações que não podem ser previstas e que, apenas em campo, são respondidas ou 
mesmo demandam mudanças pequenas ou de proporções consideráveis. 
Um outro exemplo interessante é pensar na seguinte situação: um antropólogo 
é contratado pela prefeitura de uma cidade para realizar o levantamento de informações 
a respeito de um bairro. Após uma breve investigação, ele define que o centro de sua 
pesquisa se dará a partir de conversas com uma determinada liderança comunitária, 
sujeito natural do bairro em questão, assim como uma referência em termos de tradição 
dos costumes locais,  uma figura de grande respeito entre os moradores e visitantes 
do local. O antropólogo então, busca por essa liderança, apresenta sua proposta de 
pesquisa e é prontamente atendido. A liderança comunitária aceita colaborar para com 
sua pesquisa, levando em conta aspectos positivos que essa feita pode trazer ao bairro. 
133
Em seu cronograma, o antropólogo separa dias específicos para entrevistas, 
passeios pelo bairro, almoços compartilhados em comércios importantes, assim, todas 
essas situações são pensadas para que as entrevistas sejam extensas o suficiente 
para o levantamento das informações pertinentes a sua tarefa. Com todo o plano de 
pesquisa organizado, duas semanas antes do início desses encontros e entrevistas, 
o antropólogo recebe a triste notícia do falecimento dessa liderança, o homem já em 
idade avançada sofreu um infarto e veio a falecer. Ninguém gostaria de estar no lugar 
desse pesquisador, não é verdade?
Todavia, é necessário compreender que situações como essa são possíveis de 
acontecer e de fato acontecem. Portanto, precisamos estar preparados com um plano 
B, C, D e assim por diante, para que esse tipo de acontecimento desafortunado não seja 
o motivo de impedimento do curso de nossas pesquisas. O bairro, do exemplo anterior, 
não deixou de existir, tampouco as demandas de informações por parte da prefeitura da 
cidade se esgotaram devido à morte da liderança. Cabe então, ao pesquisador, definir 
um novo cronograma de pesquisa, avaliar a possibilidade de buscar por outras figuras 
de importância local, pesquisar fontes documentais, quando disponíveis, enfim, esgotar 
todas as aberturas possíveis para a realização de sua pesquisa. O antropólogo, em 
última instância, precisa não apenas saber realizar pesquisas, mas também viabilizá-las. 
Os locais e demandas de pesquisa podem variar consideravelmente entre si, 
todavia a confiança sempre será um dos elementos que podem contribuir ou mesmo 
encerrar um trabalho de campo (MIRANDA, 2001). É central que o pesquisador tenha 
uma postura ética em relação às pessoas das quais irá se aproximar ao longo de seu 
tempo em campo. 
Preservar a identidade dos interlocutores é uma das questões de grande 
relevância na pesquisa antropológica. A depender das informações coletadas em 
campo, pessoas, instituições e organizações sociais (dentre outros) podem acabar 
sofrendo retaliações e, essa não deve ser, de forma alguma, o objetivo ou resultado de 
uma pesquisa antropológica. 
Sendo assim, acadêmico, sempre tenha em mente que o respeito pelo local e 
pelas pessoas que lá se encontram é parte indispensável do ofício do antropólogo. Em 
alguns casos, acabamos pesquisando junto a um mesmo grupo por décadas, ou quem 
sabe, toda uma vida. Sendo assim, lembre-se: não existe nada mais frutífero para uma 
boa relação entre o pesquisador e os sujeitos envolvidos na realidade de sua pesquisa 
do que o respeito mútuo. 
134
DICA
Acadêmico, para pensar um pouco a respeito do trabalho de campo, 
possibilidades e dificuldades, recomenda-se a leitura da obra “Sociedade de 
esquina” do sociólogo William Foote Whyte, obra contemporânea de grande 
importância para os estudos que envolvem o trabalho de campo.
Em nosso próximoalcance absolutamente todas as esferas da vida social 
como a antropologia consegue alcançar? 
Olhem que interessante, em todos os espaços da experiência humana a 
antropologia está presente. É possível realizar uma observação antropológica e produzir 
um trabalho etnográfico a respeito de absolutamente todos os lugares, pessoas e 
situações sociais que se dispõem no mundo. 
DICA
Para entender mais sobre observação e registro é interessante aproximar-
se do método etnográfico, assista ao vídeo “O que é ETNOGRAFIA e como 
fazer? – Antropológica”. Neste vídeo, a professora Mariane da Silva Pisane 
apresenta de forma simples e descomplicada um pouco do trabalho de 
campo e a etnografia. Acesse em: https://bit.ly/3LRrNPl.
Em nossa área de atuação existe uma infinidade de possibilidades para o 
desenvolvimento de pesquisas, prestação de consultorias e demais fornecimento 
de serviços a partir de nossa formação em antropologia! Podemos trabalhar junto a 
comunidades tradicionais dos povos indígenas (SEEGER; DA MATTA; DE CASTRO, 1979), 
ribeirinhas (SILVA, 2014), rurais (ALMEIDA, 2007), espaços urbanos (SOUZA, 2016) ou 
até mesmo no universo sem fronteiras da internet, a partir das redes sociais (GOMES, 
2020), passando por empresas de distribuição de energia elétrica (YACCOUB, 2010) ou 
laboratórios (DORNELLES, 2013), podemos atuar em todos os lugares (CUNHA, 1955). 
Em nosso ofício, na maior parte do tempo, articulamos técnicas de observação 
e registro, atreladas a discussões teóricas e questões práticas observadas durante 
nosso trabalho de campo. Inclusive, essas ferramentas metodológicas, a cada dia, têm 
se expandido e sofisticado cada vez mais com o passar do tempo. 
Ao longo dos anos, é possível ver antropólogos trabalhando em diversos 
segmentos de atuação profissional, produzindo materiais da mais alta relevância técnica 
e intelectual, situações que, no período clássico de nossa disciplina, eram sem sombra 
de dúvidas impensáveis. Com a evolução das tecnologias e avanços sociais, nossa 
disciplina também evoluiu consideravelmente.
6
 Todavia, é muito importante que tenhamos claro o fato de que a antropologia 
que dispomos atualmente não é a mesma daquela de seu período de fundação. Nossa 
disciplina sofreu uma série de mudanças ao longo da história. Assim como segue 
transformando-se até os dias de hoje. Durante o momento que se acordou chamar de 
período “pré-antropológico” (século XVI) a antropologia nem mesmo era considerada 
uma ciência (LAPLANTINE, 2003). Nessa ocasião, as análises e registros que hoje 
entendemos como tendo caráter antropológico, eram originalmente produzidas a partir 
de relatos de viajantes das mais diferentes profissões e ocupações. 
Entre esses viajantes, encontravam-se missionários, comerciantes, 
administradores, militares, viajantes, exploradores, indivíduos que atravessaram os 
oceanos e traziam em suas bagagens, temperos, iguarias, ouro, pedras preciosas, 
entre outras coisas, assim como muitos registros daquilo que presenciaram durante 
suas viagens (acadêmico, você conhecerá melhor esse contexto dos viajantes no 
Tópico 2 desta unidade). No entanto, durante esse período, a antropologia ainda não era 
reconhecida como tendo um caráter científico, para estabelecer-se enquanto área do 
conhecimento foi necessário algum tempo.
As modificações e avanços na própria disciplina de antropologia decorrem de 
mudanças paradigmáticas construídas ao longo do tempo e esforços crítico reflexivos 
que vão muito além de seu território de nascimento. A teoria crítica da antropologia tem 
cada vez mais ganhado espaço na América Latina e Caribe.
É de conhecimento público que, atualmente, através dos conhecimentos em 
antropologia, é possível observar, registrar e analisar questões sociais das mais variadas 
instâncias. Essa infinidade de possibilidades da disciplina é, inclusive, um dos fatores de 
maior relevância em nossos campos de atuação profissional. 
Em todas as esferas de nossa vida a antropologia está presente, mesmo que, 
inicialmente, você ainda não consiga perceber tamanha relevância. No entanto, muito 
em breve, a partir dos conhecimentos que iremos adquirir em torno da antropologia, o 
mundo que enxergamos não será o mesmo, e, ao caminhar e observar os espaços e 
relações interpessoais, sociais e institucionais a nossa volta, será possível perceber com 
facilidade a presença da antropologia no espaço social. 
A partir de agora, assim como outrora fizeram os viajantes, teremos a oportunidade 
de desbravar um mundo que se ampliará diante de nossos olhos. Passaremos a ter cada 
vez mais sede por novas descobertas. A antropologia transforma nossa experiência de 
vida, trata-se de uma amplitude de perspectivas sociais e culturais infinitas que alargam 
nossa capacidade de ver o mundo a nossa volta.
7
Segundo Laplantine (2003), o costume de observar nasceu juntamente com a 
própria humanidade, desde que o homem existe, ele observa a si e ao outro. Tal prática 
sucedeu e segue repetindo-se desde os tempos mais longínquos até os dias atuais. 
Não existe comunidade ou continente em que os indivíduos não carregam consigo esse 
costume rotineiro que está na capacidade e prática cotidiana de observar. Seja nas 
Américas, Europa, África, Ásia ou Oceania a observação é inerente aos indivíduos. 
Convidamos, neste momento, você, acadêmico, a se tornar um explorador 
do mundo a sua volta, tomando notas e registros. Sejam escritos ou fotográficos, 
o importante é registrar, sobretudo as situações que lhes parecerem socialmente 
relevantes. É fato, uma coisa sempre esteve presente na história da antropologia, assim 
como na nossa própria história enquanto humanidade, a prática da observação. 
FIGURA 1 – OBSERVAÇÃO, PRÁTICA ANTROPOLÓGICA
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
Com o passar dos anos as possibilidades de atuação daqueles que se dedicam 
à antropologia se alargam consideravelmente, essa abertura é fruto de mudanças 
decorrentes do próprio estabelecimento da disciplina científica. Sendo assim, é de suma 
importância conhecer a história da antropologia, não apenas tomando-a uma questão 
do passado, mas compreendendo seu impacto no tempo presente. Ao longo do tempo, 
nossa disciplina conquistou uma amplitude considerável em termos de investigação 
antropológica e relevância social (LARAIA, 2001). É necessário ter em mente que o 
passado da disciplina revela muito do momento presente, assim como o tempo presente, 
um dia se tornará passado e impactará grandemente no que hoje entendemos como o 
futuro. Neste momento, embarcamos juntos na grande aventura e compromisso social 
de nosso ofício, observar e registrar o mundo a nossa volta. A história consegue cobrar 
as incoerências cometidas ao longo do tempo utilizando-se dos registros. Lembre-se: a 
partir de agora, você se tornou uma testemunha dos acontecimentos do mundo! 
 
 No próximo subtópico, aprenderemos a construção do “eu” e do “outro”. 
Conheceremos a quebra do paradigma científico, em que o homem deixa de ser apenas 
sujeito de conhecimento e passa a ser objeto científico. Vamos lá! 
8
 2.1 O “EU” E O “OUTRO” NA ANTROPOLOGIA 
Neste momento de nossos estudos, é importante que você, acadêmico, 
conheça e compreenda a virada crucial na história da antropologia clássica. Trata-se 
de um momento de suma importância em nossa disciplina, uma vez que a base do 
pensamento antropológico começa a despontar. 
O homem estabelece uma nova relação com a ciência. Uma vez que, até pouco 
antes do final do século XVIII, o sujeito pensante limitava-se a produzir conhecimento 
científico a respeito do mundo a sua volta, como se fosse ele o centro do mundo e 
tudo o que estivesse disposto no universo existisse para servir a seus interesses e 
necessidades. O indivíduo não levava sua própria existência enquanto mais uma das 
tantas vidas disposta no mundo, muito menos que sua existência também erasubtópico, buscaremos compreender um pouco mais dos 
elementos que atravessam o trabalho de campo: usos, sentidos e percepções. Este 
caminho, em termos antropológicos, está cada vez mais interessante! Vamos seguir 
juntos no aprendizado?! 
2.2 EM CAMPO: OBSERVAÇÃO E NOTAS 
Acadêmico, é preciso considerar o fato de que todas as coisas têm o seu 
devido tempo, não seria diferente em nossa disciplina. A prática do trabalho de campo, 
completa, atualmente, pouco mais de um século, logo, muitas mudanças aconteceram 
ao longo desse período. 
Assim como as transformações e avanços em nossa disciplina carecem de 
certo período, nosso aperfeiçoamento em relação à prática de observação e registro 
das situações experimentadas e levantadas em campo também demanda de algum 
tempo e experiência. 
Com algum tempo e um pouco de prática na tarefa de realizar um trabalho 
de campo, adquirimos a capacidade de aguçar alguns dos “sentidos antropológicos” 
aprendidos durante o momento de nossas formações em antropologia. Esses sentidos 
referem-se à capacidade de observar, ver, ouvir (e inclusive sentir) uma série de 
questões que, quando reunidas, tornam-se parte considerável da base reflexiva de 
nossa pesquisa antropológica (OLIVEIRA, 1998). Ser antropólogo, necessariamente, é 
ser um observador do mundo! 
O olhar atento às questões a nossa volta é também atravessado por uma série de 
fatores de ordem individual e coletiva. Inclusive, é importante marcar que, por mais que a 
pesquisa de campo seja uma prática individual, a reflexão sobre os pontos observados e 
os dados coletados da experiência de campo costumam ser motivo de reflexão coletiva. O 
conhecimento é sempre produto de trocas e análises conformadas entre nós e nossos pares 
de profissão. Portanto, levamos nossas pesquisas para congressos, seminários e demais 
encontros de pesquisadores. Assim, a partir dos diálogos estabelecidos com colegas de 
ofício, avançamos em nossas análises, sobretudo em nossa própria capacidade analítica. É 
preciso saber: a produção de conhecimento é sim uma questão coletiva! 
135
FIGURA 3 – MALINOWSKI EM CAMPO – ILHAS TROBRIAND
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
Em se tratando da pesquisa antropológica, um dos conceitos de alta relevância 
durante o trabalho de campo é o da alteridade (GUSMÃO, 1999), que, em termos gerais, 
trata-se do reconhecimento (e respeito) à diferença ou às diferenças. Estar em campo 
é necessariamente experimentar o compartilhamento de situações com pessoas que 
podem se diferenciar consideravelmente de nós, antropólogos e pesquisadores. É 
preciso respeitar essas diferenças e buscar não criar juízos de valores a partir de nosso 
regime de crenças e perspectivas culturais. Claramente, o antropólogo não pode se 
despir de sua própria cultura quando se defronta com questões culturais diferentes 
das suas, todavia, o respeito à diferença é um dos pontos centrais de nosso ofício. Os 
registros, observações e análises, devem necessariamente levar em conta a pluralidade 
e diversidade cultural.
Outro fator marcante é, após a realização do trabalho de campo, a experiência 
então adquirida, de modo algum ela se torna apenas uma memória de um acontecimento, 
encerrada em uma produção escrita. O trabalho de campo segue produzindo efeitos 
ao longo de nossa vida e carreira (RIBEIRO, 2017). Trata-se de uma prática intensa e 
extensa, ou seja, é necessário aproximação, estreitamento de laços e certo tempo de 
permanência para a realização de um trabalho de campo proveitoso. 
Uma vez que parte significativa de nossas pesquisas, sobretudo em relação 
à coleta dos dados, necessariamente passa pelo estabelecimento de relações com 
as pessoas que vem a ser as interlocutoras (pessoas que compõem o espaço que 
pesquisamos) da pesquisa, portanto, é necessário um tempo mínimo de permanência 
em campo, para que, desse modo, exista a possibilidade da criação de uma relação com 
algum grau de confiança (como falamos no subtópico anterior). Ser um antropólogo não 
é uma tarefa simples, mas, sem sombra de dúvidas, é recompensadora! 
136
É preciso atentar-se ao fato de que esses registros devem ser feitos de modo 
ponderado e sistematizado. Enquanto antropólogos, uma das ferramentas de grande 
importância de nosso dia a dia é o caderno de campo. Uma caderneta de porte médio 
que deve acompanhar o antropólogo em todos os lugares e momentos em que estiver, 
uma vez que, além de registrar os dados observados no campo, é possível que, em uma 
situação totalmente diferente de nosso campo, tenhamos uma ideia pontual a respeito 
de algo relacionado à pesquisa e é neste caderno que faremos as anotações pertinentes. 
O caderno de campo é uma espécie de diário, tanto da pesquisa quanto do pesquisador, 
sendo um material pessoal e de importância central em nossa prática antropológica. 
Toda pesquisa antropológica apresenta uma série de possibilidades frutíferas, 
assim como limites específicos ao campo, sejam estes causados pelo contexto social 
do local, tempo disponível para a pesquisa, dentre outras questões. No entanto, mesmo 
depois de publicada, uma pesquisa sempre é passível de revisões, ampliações e críticas. 
Sendo a cultura dinâmica, nossas produções antropológicas não poderiam, de modo 
algum, tratar-se de verdades absolutas e inquestionáveis. É preciso dedicar-se ao 
máximo na pesquisa, todavia, tendo claro o fato de que em um momento breve ou 
distante, nossas análises serão superadas, essa é uma das maiores riquezas da ciência: 
seguir sempre avançando! 
Em nosso próximo subtópico, iremos ponderar a respeito das possibilidades 
expandidas de realizar trabalho de campo, dentre elas, mais de um local de pesquisa, 
expansão do campo, e situações que por vezes passam despercebidas de nosso olhar. 
Vamos avançar! 
DICA
Aprofunde seus conhecimentos a respeito do trabalho de campo lendo o 
texto “O velho e bom caderno de campo” de José G. C. Magnani. Disponível 
em: https://bit.ly/3IeQiDX.
2.2.1 O campo estendido e multifocal 
Além daquilo que definimos enquanto o local propriamente dito para a realização 
do trabalho de campo, existem espaços tomados inclusive pelos próprios antropólogos 
enquanto “locais de passagem”, que, na maioria das vezes, acabam sendo desprezados 
enquanto potências analíticas possíveis de gerar bons frutos para a pesquisa de modo 
geral (MAGNANI, 2012). É importante estar atento a esses espaços. Vamos pensar em 
um exemplo dessas possíveis situações? 
137
Um antropólogo é contratado por uma estatal de energia elétrica, com a seguinte 
tarefa: entender o motivo que leva pessoas de uma determinada comunidade a optarem 
pela instalação de sistemas de fornecimento de energia elétrica do tipo "gato", ou seja, 
fornecimento de energia elétrica por sistemas improvisados e ilegais. Esse modelo de 
instalação, apresenta altos níveis de riscos de curtos-circuitos e perigos iminentes. 
Acontece que os moradores seguem optando por este serviço, mesmo que o serviço 
autorizado oferecido pela estatal tenha a opção de pagamento de um valor de taxa 
social, ou seja, um custo monetário baixíssimo que oferece uma instalação segura e 
com garantia legal do serviço prestado. Obviamente, o espaço central da pesquisa de 
campo do antropólogo está localizado no bairro periférico, assim como será necessário 
estabelecer um contato e diálogo com os moradores daquele território. 
As observações para a pesquisa ocorreram majoritariamente naquele espaço. 
Todavia, as principais linhas de transporte público utilizadas para o deslocamento dos 
moradores podem configurar locais ricos em termos de possibilidade de observação 
e circulação de informações. Em um primeiro momento, esses espaços secundários 
podem parecer apenas locais de passagem, mas com um olhar e ouvidos atentos, 
estes pontos podem ser extremamente enriquecedores para a pesquisa antropológica, 
seja oferecendo informações concretas, ou mesmo pistas importantes que apontam 
possíveis direções para onde o antropólogo podeconseguir dados pertinentes a sua 
pesquisa. O trabalho de campo, não se trata de um recorte espacial previamente definido 
e fechado em si mesmo, trata-se da escolha de um ponto privilegiado de observação, 
todavia esse ponto pode (e costuma) transbordar para muito além do que se define como 
sendo o espaço em si. É preciso estar atento aos sinais do próprio campo, uma vez que, 
muitas das vezes, o caminho que escolhemos enquanto sujeitos externos ao local, nem 
sempre é a melhor opção. Nada mais pertinente à prática da pesquisa antropológica, do 
que um antropólogo atento ao seu campo e as informações que nele circulam. 
Outra abordagem de igual importância está na possibilidade de um trabalho de 
campo multifocal, isto significa pensar que, não necessariamente, uma pesquisa deve 
estar tracejada em um único espaço. Um exemplo se trata da pesquisa de doutoramento 
de Mallart (2021), o pesquisador faz seu trabalho de campo na cidade de São Paulo, 
investigando um número considerável de instituições de controle social. Esse modo 
de realizar o trabalho de campo exige um mergulho intenso, dedicado e comprometido 
por parte do pesquisador, todavia, sem dúvidas, seus resultados são os mais sólidos 
e completos possíveis e imagináveis. Essa prática antropológica pode abocanhar 
uma série de dinâmicas sociais que dialogam entre si em espaços diversos, sendo na 
pesquisa anteriormente citada, a cidade e algumas de suas instituições, o palco dessas 
observações e análises. 
Por mais que um antropólogo se dedique ao estudo das teorias antropológicas 
clássicas e contemporâneas, é na prática da pesquisa que, de fato, alcançamos 
compreender as nuances das questões socioculturais. 
138
Nenhum manual metodológico poderá oferecer fórmulas prontas que sejam 
possíveis de aplicar em uma pesquisa, para desse modo, alcançar êxito. É pertinente e 
necessário, unir as teorias antropológicas ao exercício incansável do trabalho de campo. 
Aguçamos nossos sentidos antropológicos apenas com a experiência da pesquisa empírica.
No próximo subtópico, vamos entender um pouco das possíveis questões 
e tensões que envolvem o trabalho de campo realizado em um ambiente familiar ao 
antropólogo, suas nuances e ponderações. 
NOTA
O campo estendido pode ser considerado todos os caminhos até o espaço 
de pesquisa em si, e o campo multifocal acontece em vários espaços 
separados, que, por motivos diversos, se relacionam e podem ser pontos 
apropriados para a observação antropológica. 
2.3 ESTRANHANDO O FAMILIAR: O TRABALHO DE CAMPO 
EM SUA PRÓPRIA COMUNIDADE 
Aprendemos que, durante o período clássico de nossa disciplina, os 
antropólogos escolhiam localidades distantes das suas, ou mesmo tribos isoladas 
para o desenvolvimento de suas pesquisas, ou seja, o contexto cultural em que faziam 
suas observações, registros e análises eram totalmente diferentes da cultura da qual 
pertenciam. Assim como é importante relembrar que existia um perfil específico de 
antropólogo: homem branco, civilizado, segundo o modelo europeu e norte-americano, 
letrado e de classe econômica abastada (LAPLANTINE, 1988).
Com o passar do tempo, tanto as questões que inspiram a escolha do tema e o 
local da pesquisa, mudaram consideravelmente. Também tivemos um deslocamento 
representativo em relação ao perfil do antropólogo/pesquisador. Uma vez que, no período 
clássico de nossa disciplina, o “exótico/diferente” despertava grande interesse por parte dos 
estudiosos, atualmente, existe um movimento cada vez maior de pessoas pertencentes a 
uma comunidade, optarem por estudar algum dos temas desse espaço do qual pertencem 
(REDON, 2008). Essa situação, pode ser extremamente potente para a pesquisa, uma vez 
que a aproximação com o espaço, de certo modo, oferece algumas facilidades. 
Questões da ordem da economia e da política atravessam o trabalho de campo, 
o próprio antropólogo e, em última instância, a disciplina da antropologia. Não é mais 
sustentável que uma disciplina seja ocupada unicamente por um perfil específico de 
sujeitos, devemos e precisamos ter olhares e presenças plurais em nossa disciplina. De 
fato, não é do dia para a noite que alcançamos êxito na mudança e reconhecimento da 
importância desses novos sujeitos no cenário antropológico.
139
A experiência da pesquisa de campo é, sem sombra de dúvidas, singular 
(SILVA, 2000). Além disso, um mesmo local e tema, pesquisado por antropólogos 
com diferentes marcadores sociais da diferença (raça, classe, gênero, sexualidade e 
idade) serão observados de maneira totalmente diferente em campo, além do que, 
suas próprias perspectivas culturais farão com que uma mesma situação seja vista de 
ângulos distintos. 
Em nosso próximo tópico, aprenderemos os métodos e as técnicas disponíveis 
para a realização do trabalho de campo. Estamos cada vez mais próximos de uma 
prática antropológica! 
140
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• O trabalho de campo é uma parte central do trabalho do antropólogo, uma vez que os 
dados, observações e reflexões da pesquisa nascem dessa experiência. Fundado no 
período clássico, essa tradição perdura até os dias atuais. 
• Os elementos do pré-campo são uma parte indispensável do trabalho de campo, 
visto que se trata, de modo geral, da organização que viabiliza a execução dessa 
etapa da pesquisa. 
• O estabelecimento de uma relação de confiança entre o antropólogo e as pessoas 
pertencentes ao seu local de trabalho de campo exige um certo grau de profundidade 
e permanência (tempo e esforços), uma vez que, sem essa confiança, a pesquisa de 
campo não ultrapassa a superficialidade da realidade analisada.
• A experiência do trabalho de campo atravessa o antropólogo em termos pessoais. Não 
é possível neutralizar a própria existência em campo, uma vez que as subjetividades 
(antropólogo e interlocutor) estão a todo o tempo colocadas em relação.
141
1 Dentre as diversas questões que devem ser levadas em conta na pesquisa 
antropológica, o tema da subjetividade, costumeiramente, é trazido para a discussão 
do fazer antropológico. Esse tema foi motivo de reflexão e produção teórica desde o 
período clássico até o momento contemporâneo. A respeito desse tema, assinale a 
alternativa CORRETA: 
a) ( ) A subjetividade é uma demonstração de falta de profissionalismo por parte do 
antropólogo, devendo ser prontamente combatida quando se faz presente na 
pesquisa antropológica.
b) ( ) As questões de subjetividade acontecem quando o interlocutor, desprovido de 
conhecimentos antropológicos, busca estreitar os laços com o antropólogo, cabendo 
ao segundo ignorar essas questões devido a questões profissionais. Do contrário, o 
antropólogo pode sofrer punições por parte da associação de antropólogos.
c) ( ) A subjetividade é parte constitutiva da pesquisa antropológica, uma vez que é 
tarefa impossível para o antropólogo despir-se de sua perspectiva de mundo no 
momento da realização de sua pesquisa, essa questão deve ser trabalhada de 
modo ético durante a pesquisa. 
d) ( ) O tema das subjetividades não deve ser considerado, uma vez que as questões 
de neutralidade devem ser os pressupostos básicos da pesquisa antropológica. 
Subjetividade e ciência são temas que não podem conviver em um mesmo espaço.
2 O trabalho de campo é uma das etapas de maior importância para a execução das 
pesquisas em antropologia. Cabe ao antropólogo realizar uma pesquisa anterior a sua ida 
a campo, para que, de certa forma, possa organizar questões de ordem prática e, assim, 
viabilizar a execução de sua pesquisa. Esse levantamento de informações anteriores ao 
campo chama-se pré-campo. Sobre o exposto, analise as sentenças a seguir:
I- Pré-campo é a prática de ir a campo uma vez em um período breve para conhecer, 
de maneira introdutória, a realidade do espaço e poder criar um plano de ação para 
o momento do trabalho de campo. 
II- Pré-campo é o levantamento de informações a respeito do local a ser visitado, 
sobretudo emrelação aos preços de moradia, uma vez que essa é a questão 
de maior importância para o antropólogo que se desloca até o local em que se 
pretende pesquisar. 
III- Pré-campo é o conjunto de elementos que viabilizarão a execução da pesquisa. 
Dentre esses elementos estão um cronograma de pesquisa, levantamento de 
fundos necessários para arcar com os custos em campo, breve pesquisa a respeito 
da localidade etc.
AUTOATIVIDADE
142
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.
3 O antropólogo precisa estabelecer um tipo específico de relação com os interlocutores 
de sua pesquisa, uma vez que serão essas pessoas que lhe fornecerão as informações 
necessárias para sua pesquisa. Classifique V para as sentenças verdadeiras e F para 
as falsas:
( ) Relação profissional. 
( ) Relação de confiança. 
( ) Relação de troca.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – F – F.
b) ( ) V – F – V.
c) ( ) F – V – F.
d) ( ) F – F – V.
4 Neste momento, percorremos um longo caminho em termos de conhecimentos em 
antropologia clássica, trabalho de campo e teoria antropológica. Em nossa primeira 
unidade, você realizou um exercício de observação de um espaço, sendo sua primeira 
experiência antropológica de prática de trabalho de campo. Daquele momento até 
agora seu horizonte antropológico se ampliou consideravelmente, portanto, você 
deverá escolher um espaço que não lhe seja familiar. Pode ir a um bairro que não 
conhece, uma instituição que ainda não teve a oportunidade de entrar (exemplo: 
fórum da sua cidade), um local de lazer que tem curiosidade de ir, dentre outros. Leve 
consigo um pequeno caderno para anotações e após baseado nos conhecimentos 
adquiridos até o momento (lembre-se da leitura complementar do tópico anterior, 
ela será de grande ajuda) faça uma observação a respeito das dinâmicas deste 
local ainda desconhecido. Ao final de seu exercício, compare-o com aquele feito na 
primeira unidade de nosso livro e perceba o quanto sua capacidade de percepção do 
ambiente, sistematização das informações e escrita antropológica avançaram.
5 Levando em consideração as similaridades e diferenças em torno das questões 
pertinentes às pesquisas realizadas em um contexto social familiar, portanto, próximo 
em relação a um contexto social totalmente desconhecido e distante do pesquisador, 
descreva essas diferenças para o momento do pré-campo.
143
MÉTODOS E TÉCNICAS EM PESQUISA
1 INTRODUÇÃO
Acadêmico, uma vez que todo o conhecimento adquirido até o momento e 
ao longo da formação em antropologia deverá ser aplicado no dia a dia do trabalho 
antropológico. Em nosso Tópico 2, as teorias, serão como chaves, pois permitirão o 
entendimento e, em linhas gerais, o modo de atuar profissional de um antropólogo 
frente a algumas situações práticas que acabam surgindo no cotidiano das pesquisas 
e trabalhos antropológicos. Somos pesquisadores por excelência e nossa pesquisa 
está localizada, em grande parte, nos espaços públicos, nas relações interpessoais e 
institucionais, nas situações do cotidiano, de modo geral. Onde está presente a cultura 
(todos os lugares), ou melhor, as culturas, estão presentes, também, as possibilidades 
latentes do desenvolvimento de pesquisa antropológica. 
Todavia, para que possamos efetivamente realizar essas pesquisas, é necessário 
que estejamos munidos das ferramentas metodológicas adequadas. Cada campo de 
conhecimento (seja a Antropologia, Geografia, Sociologia, História, dentre outros) desenvolve 
metodologias que melhor se adequam a seus objetivos de pesquisa. Inclusive, é possível que 
um mesmo método seja aplicado por diferentes profissionais em seus campos de atuação. 
Desse modo, é muito importante, acadêmico, que você tome notas, pesquise, reflita e se 
dedique com muito afinco a este momento de seu aprendizado. 
Os métodos podem ser pensados enquanto a ponte que separa as teorias 
adquiridas ao longo de seu curso de graduação com as pesquisas que você irá 
efetivamente desenvolver, ou seja, os métodos são indispensáveis para nossa carreira, 
sem o uso adequado destes, não é possível o desenvolvimento de sua pesquisa e 
carreira dentro da antropologia. 
Considerando o fato de que percorremos um longo percurso a respeito da 
história da antropologia, sobretudo ao que se refere à teoria antropológica clássica, é 
chegada a hora de dar um passo considerável em sua formação. Abordaremos, então, 
situações cotidianas para que você possa refletir a respeito dos conhecimentos e 
possibilidades práticas em termos de antropologia contemporânea, permitindo a você, 
uma ampla visão entre a antropologia clássica e contemporânea. 
UNIDADE 3 TÓPICO 2 - 
144
Neste momento, buscaremos unir aquilo que já aprendemos anteriormente 
a respeito das teorias clássicas a partir da exemplificação e reflexão sobre a prática 
cotidiana do trabalho do antropólogo, ou seja, quais os efeitos e, sobretudo possibilidades 
de aplicação dos conhecimentos acumulados até o momento presente em nosso dia a 
dia enquanto antropólogos (pesquisadores e estudiosos). Sem dúvidas, essa é uma das 
partes mais interessantes de seus estudos, assim como será central para seu futuro 
enquanto um antropólogo! 
Em nosso próximo subtópico, vamos juntos pensar a respeito da observação 
participante, em seu período de fundação? 
2 A FUNDAÇÃO DA OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE 
 
Em nossa disciplina existem alguns pontos altos em relação ao desenvolvimento 
da pesquisa. Um desses pontos, sem dúvidas, é a possibilidade de realização da 
observação participante durante o trabalho de campo (OLIVEIRA, 1996). A observação 
participante é um desses temas que irá acompanhar toda a sua formação, e, muito 
provavelmente, sua carreira profissional ao longo da vida toda. Portanto, não “passe os 
olhos” neste tema, dedique tempo e atenção a esta etapa de sua formação. 
O método da observação participante nasce ainda no período de formação de nossa 
disciplina, tendo sido desenvolvido, aplicado e sistematizado pelo antropólogo e estudioso 
Bronislaw Malinowski (1884-1942), um dos nomes de grande importância de nossa área. 
Essa prática, ainda nos dias de hoje, segue sendo usada como metodologia em nosso ofício, 
tendo um número grande de adeptos. Vale a pena investir esforços para aprofundar seus 
conhecimentos sobre esse assunto! Imagine só, acadêmico, uma prática metodológica de 
tamanha importância e eficácia que perdura por mais de um século. 
É fundamental que você saiba que a teoria clássica, de forma alguma, é algo 
dado apenas para o conhecimento histórico, uma vez que está presente em muitas 
práticas antropológicas atuais. Assim como reflete em nossas teorias e práticas 
contemporâneas. Valorizem, estudem, reflitam, critiquem e conheçam os temas 
clássicos de nossa disciplina!
Como já dito, Malinowski inaugurou o método da observação participante em seu 
trabalho de campo nas ilhas Trobriand, no ano de 1915 (sua pesquisa de campo perdurou 
até o ano de 1918) enquanto vivia junto dos povos moradores dessas ilhas (MALINOWSKI, 
2018). Essa nova metodologia impactou e revolucionou, consideravelmente, aquilo que 
seria um novo roteiro do fazer antropológico, após essa inovação, a antropologia nunca 
mais foi a mesma! 
145
ATENÇÃO
Malinowski aprendeu a língua dos nativos dos quais desenvolveu sua pesquisa 
nas ilhas Trobriand. O estudioso tinha uma certa facilidade com o tema dos 
idiomas. Todavia, essa facilidade não era fruto do acaso, seu pai era professor 
universitário, linguista, trabalhava com a história das línguas. Lembre-se, existia 
um perfil social dos antropólogos do período clássico, é sempre importante ficar atento 
a esses “detalhes” de nossa disciplina, é possível refletir e ler muitas questões da própria 
disciplina por entre essas entrelinhas de sua história! 
Em nossa Unidade 2, buscamos refletira respeito da teoria reflexiva de 
Malinowski, sendo assim, neste momento, vamos pensar um pouco a respeito das 
práticas de campo do antropólogo. Obviamente, também se trata de sua teoria, todavia, 
agora veremos desde o ângulo da teoria aplicada ao trabalho de campo. Uma das 
questões que embelezam seu trabalho e nos fazem pensar muito a respeito da prática 
antropológica, está justamente nas descrições a respeito de suas sensações em campo. 
De certa forma, todos nós, antropólogos, sentimos insegurança, medo, alegria, dentre 
outros sentimentos. Sobretudo, quando estamos em campo, sendo muito interessante 
a oportunidade que Malinowski nos ofereceu ao compartilhar suas sensações 
provenientes do campo em seus escritos. Evidentemente, o jovem antropólogo tinha 
suas controvérsias e vaidades, sendo estas características facilmente visualizáveis em 
suas produções, no entanto, esses deméritos de modo algum diminuem a importância 
intelectual desse estudioso. Sua trajetória antropológica foi de um brilhantismo sem 
igual, ao menos para o contexto em que estava inserido. Em todas as partes do mundo, 
estudantes foram influenciados pela pesquisa e métodos de Malinowski, suas produções 
ainda nos dias de hoje são amplamente difundidas e estudadas. 
Uma das questões que envolvem a escrita antropológica é o tema do estilo. 
Sim, existem escritas com estilo! Sem dúvidas um antropólogo que consiga imprimir sua 
personalidade em sua produção escrita será um pesquisador de destaque. E Malinowski 
carrega um forte estilo em sua escrita e modos de trabalhar com a antropologia. Para 
o estudioso, era central no ofício de antropólogo uma aproximação e conhecimento 
aprofundado da vida dos aborígenes (população de interesse central da antropologia daquele 
momento histórico). Em seu trabalho de campo assim buscou fazer, passando um período 
prolongado com os nativos e compartilhando das mais diversas situações cotidianas.
Como aprendemos na Unidade 1 de nosso Livro Didático, em um primeiro 
momento da antropologia, era comum que os antropólogos escrevessem suas teorias 
a partir de relatos de terceiro. Essa prática de aproximação, sobretudo por um longo 
período por parte de Malinowski, representava uma grande inovação em nossa disciplina. 
Essa foi uma das viradas mais importantes da história de nossa disciplina, do conforto 
do escritório para o campo!
Em nosso próximo subtópico, entenderemos de que maneira a prática da 
observação participante foi desenvolvida pelo pesquisador Malinowski!
146
IMPORTANTE
Como sabemos, é possível que determinadas dificuldades da pesquisa só 
sejam possíveis de serem visualizadas após nossa chegada em campo. 
Com o antropólogo Malinowski, essa questão não foi diferente. Antes de 
realizar aquela que se tornaria a pesquisa de maior visibilidade de sua vida, 
Malinowski havia estado em campo, todavia, não obteve êxito. Nessa primeira experiência 
compreendeu que deveria estar mais próximo aos nativos que desejava pesquisar (pois, 
nessa ocasião estava hospedado em uma casa grande, onde pretendia fazer sua pesquisa 
desde a varanda da habitação) e não falava a língua daquele povo. Sendo assim, mesmo 
não obtendo os resultados esperados, o estudioso tomou lições para a próxima pesquisa 
que iria realizar: viver entre os nativos, falar a língua nativa. Notem, mesmo com os erros, 
é possível aprender consideravelmente a aperfeiçoar o fazer antropológico. 
2.1 A PRÁTICA DA OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE (DE PERTO 
E DE DENTRO)
Então, nessa segunda tentativa de realizar uma pesquisa a partir do trabalho de 
campo, o estudioso faz algumas mudanças. Malinowski começou a participar da vida dos 
nativos dos quais fora pesquisar, sendo essa uma nova perspectiva em termos da prática 
antropológica. O antropólogo instalou-se em uma moradia comum, semelhante à dos 
povos nativos e passou a acompanhar essa população em suas atividades diárias. Essas 
atividades podiam variar entre a produção de algum objeto, preparo de alimentos ou 
mesmo trabalho, o antropólogo passou a estar presente nas atividades cotidianas 
desses povos nativos. Assim, era possível observar uma infinidade de questões da vida 
comum desses povos, desde a mudança das rotinas conforme as estações do ano, as 
divisões de trabalho, dentre outros sistemas. Todas as situações da vida cotidiana dos 
nativos passaram a ser objeto de observação do jovem estudioso, e, a partir dessas 
situações, começou a desenvolver suas teorias a respeito dos significados culturais 
dessa população. O interesse de Malinowski estava tanto na vida pessoal quanto social 
desses povos. Além de acompanhar o cotidiano dessas populações, o antropólogo então 
passou a interagir de diversas maneiras, até mesmo com a compra de ferramentas e 
artesanatos produzidos por esses povos. Nesse momento, o antropólogo começou a se 
atentar naquilo que futuramente iria sistematizar como a teoria do funcionalismo (tema 
que estudamos na unidade anterior). 
As cooperações e trocas observadas entre os povos nativos era um dos aspectos 
que mais chamavam a atenção do pesquisador. Olhem que interessante, é a partir do 
conhecimento das práticas de um estudioso que podemos compreender sua teoria com 
muito mais facilidade. 
147
DICA
Para explorar um pouco mais a respeito da observação participante, bem 
como do trabalho de campo feito pelo antropólogo Bronislaw Malinowski, 
assista ao documentário “Estranhos no exterior: Fora da varanda (Bronislaw 
Malinowski)”. Disponível em: https://bit.ly/3BHkVzv.
Caro acadêmico, em nosso próximo subtópico, aprenderemos a respeitos do 
uso das entrevistas na pesquisa antropológica, bem como seus pontos positivos e 
negativos. Vamos nessa?
2.1.1 O uso de entrevistas
Acadêmico, como você já pode perceber, existem uma série de métodos e técnicas 
para a coleta de dados de uma pesquisa, e uma delas é o uso de entrevistas. Isso mesmo, 
entrevistas! Você achava que apenas os jornalistas faziam uso dessa ferramenta? Pois 
bem, nós, antropólogos, também podemos optar por fazer o uso da entrevista em nossas 
pesquisas. Inclusive, muitas pesquisas antropológicas têm como uma de suas principais 
fontes de coleta de dados o uso de entrevistas. Vamos entender melhor como podemos 
construir essas entrevistas e sistematizar os dados que elas nos fornecem?!
A disciplina da antropologia pode ser considerada uma das disciplinas mais 
abrangentes do campo científico, sendo assim, vamos ao que importa, as entrevistas! 
Por vezes, buscamos informações específicas das quais não conseguimos coletar com 
as nossas observações em campo, e, assim, a depender da disposição das pessoas 
das quais estamos pesquisando, o uso de entrevistas pode elucidar essas questões 
(BONI; QUARESMA, 2005). Lembre-se, a entrevista também se trata de uma interação 
social entre o antropólogo e o entrevistado, por isso, quanto maior a confiança (como 
já estudamos anteriormente) entre ambas as partes, provavelmente as chances de 
conseguir as informações desejadas aumenta.
FIGURA 4 – ENTREVISTAS
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
148
Todavia, alguns cuidados são muito pertinentes no momento de preparar uma 
entrevista, entre eles: tempo, linguagem, local em que será realizada e obviamente o 
que será perguntado. Quanto ao tempo, é importante que uma entrevista tenha um 
mínimo de objetividade, assim como leve em conta o tempo disponível do entrevistado. 
Vamos imaginar a seguinte situação: o antropólogo prepara uma entrevista 
com 40 perguntas, e seu entrevistado se dispõe de apenas uma hora para a entrevista. 
Provavelmente, antes da décima pergunta o tempo terá se esgotado e as informações não 
terão sido obtidas, este é um erro clássico de pesquisadores jovens, lembre-se de ter sempre 
esse cuidado. Em relação à linguagem, cabe ao antropólogo levar em conta o contexto 
social de seu entrevistado, uma vez que, dependendo da linguagem usada na entrevista, 
oentrevistado dificilmente compreenderá as perguntas e isso acarretará uma situação 
constrangedora e pouco frutífera para a pesquisa, esse também é um erro comum por parte 
de pesquisadores iniciantes. Outro ponto relevante é a escolha do local em que a entrevista 
será realizada, considere este fator em seu trabalho, uma vez que, a depender do local onde 
você e seu entrevistado estiverem, ele pode se sentir inseguro, acuado ou desconfortável 
para responder a determinadas perguntas. Por fim, tenha cuidado e sensibilidade ao 
construir sua entrevista, suas perguntas de modo algum podem constranger, violentar 
ou desrespeitar o seu entrevistado, esse erro pode ser fatal para a entrevista e inclusive 
desenrolar-se em problemas futuros para sua pesquisa. 
De fato não podemos prever todos os problemas e dificuldades implicados em 
uma entrevista, todavia, alguns cuidados básicos, como esses anteriormente expostos, 
são fundamentais para garantir um mínimo de segurança em suas entrevistas. Por vezes, 
uma entrevista problemática, por assim dizer, pode fechar inclusive as possibilidades 
de fazer a pesquisa de campo em determinada localidade. Por exemplo, imagine que 
você está pesquisando junto a uma comunidade ribeirinha e, no momento de fazer 
uma entrevista com uma liderança comunitária, uma de suas perguntas seja ofensiva 
para essa liderança, ela então decide não mais lhe prestar as informações, assim como 
relata o ocorrido com os demais moradores da comunidade que também se ofendem e 
decidem não contribuir para a pesquisa. Imaginou? Um erro fatal para uma pesquisa por 
conta de uma pergunta pouco articulada e/ou ofensiva. 
De modo geral, as entrevistas podem contribuir grandemente para nossas 
pesquisas. Com o uso de entrevistas é possível coletar dados de caráter qualitativo 
(ALVES; SILVA, 1992) e quantitativo, ou ambos, a depender do interesse do pesquisador 
e disposição do entrevistador em prestar as informações. Todavia, como exposto, é 
sempre necessário ter planejamento e cautela, justamente por se tratar de um momento 
em que a interação antropólogo e entrevistado é colocada em jogo. 
Com tantas ferramentas, em nosso próximo subtópico vamos aprofundar 
nossos estudos na etnografia. 
149
2.2 SOBRE A ESCRITA ANTROPOLÓGICA: ETNOGRAFIA 
Acadêmico, chegamos em uma etapa muito interessante de nossos estudos, o 
momento de aprender acerca do método etnográfico. A partir de agora, vamos dar os 
primeiros passos em relação ao aprendizado a respeito do modo de escrever/produzir 
uma etnografia! Sendo este, um método e prática de discorrer sobre os registros do 
campo, desde um olhar antropológico a respeito de situações, relações, instituições, 
pessoas, dentre outras coisas. Entre os antropólogos, essa se trata de uma forte 
tradição em termos de metodologia e técnica, resultando em uma produção escrita que 
evidencia o pensar, fazer e registrar as pesquisas e produções antropológicas.
A partir da escrita etnográfica, situações e experiências de antropólogos, nos mais 
variados e interessantes trabalhos de campo espalhados mundo afora, já foram registradas, 
e segue sendo uma metodologia muito utilizada em nosso campo de estudos.
A etnografia trata-se de um método específico de escrita a respeito do registro 
do trabalho antropológico. Essa é uma das ferramentas de maior importância de 
nosso ofício (PEIRANO, 2008). Tendo sido sistematizada pelo antropólogo Bronislaw 
Malinowski, essa metodologia segue sendo o aporte central do trabalho do antropólogo. 
Atualmente, disciplinas como a Sociologia, Psicologia e Marketing buscam se inteirar e 
aplicar o método etnográfico em suas pesquisas. 
Uma vez que etno se refere às etnias; e grafia à escrita, etnografia, por alto, 
refere-se à escrita a respeito das diversas etnias. 
No período clássico de nossa disciplina, a etnografia de fato era reduzida à escrita 
a respeito das etnias diferentes daquela da qual pertencia o antropólogo pesquisador. 
No entanto, em uma perspectiva moderna da antropologia, poderíamos assimilar a 
etnografia como a escrita a respeito da diversidade cultural, sendo esta possível de se 
observar, inclusive entre pessoas de uma mesma etnia. 
Um grande exemplo dessa possibilidade é a própria antropologia urbana, tema de 
grande importância em nossa disciplina na atualidade. Inclusive, nas últimas décadas, a 
antropologia urbana tem ganhado cada vez mais espaço e importância em nossa disciplina. 
Uma vez que é capaz de contribuir para a compreensão de uma série de questões ligadas 
às dinâmicas das cidades, tema de grande interesse da antropologia contemporânea.
150
INTERESSANTE
Acadêmico, mesmo quando estudamos os temas dos estudos clássicos, é 
sempre importante que você busque fazer conexões, aproximações e críticas 
a respeito dos temas do passado e do presente. Ser um antropólogo é ser um 
observador do mundo, portanto, se trata também de desenvolver um olhar 
crítico a respeito desse mundo que se observa. Para pensar um pouco a respeito dos 
avanços e mudanças da antropologia, assim como do uso da etnografia nesses novos 
contextos (como a antropologia urbana, por exemplo), assista ao vídeo “Narradores 
urbanos, antropologia urbana e etnografia nas cidades brasileiras: Gilberto Velho”. 
Disponível em: https://vimeo.com/50699082.
Utilizamos da etnografia para coletar e registrar os dados de nossas pesquisas, a 
partir do contato (trabalho de campo) estabelecido entre nós (antropólogos) e os grupos 
dos quais estamos interessados em pesquisar (URIARTE, 2012). No entanto, é preciso 
marcar que, atualmente, a etnografia pode ser feita a partir das mais variadas situações 
de campo. Desde trabalhos que demandam a realização de longas viagens, pesquisa 
em espaços da própria cidade do pesquisador ou até mesmo a pesquisa a partir de um 
campo em formato virtual (SEGATA 2015). O importante é que essa produção seja escrita 
a partir do trabalho de campo (espaço pesquisado) do antropólogo, em que, de uma 
maneira ou outra, se aproxima dos sujeitos pesquisados, independentemente de seu 
formato (físico, virtual, documental etc.). Uma vez que nossa disciplina está diretamente 
relacionada com a cultura e suas infinitas nuances, a etnografia é também uma prática 
em constante movimento. Como sabemos, a cultura é viva, está presente em todos os 
espaços, assim o é, também, a possibilidade de etnografar. Deste modo, a antropologia e 
suas potencialidades em termos de pesquisa, não poderiam ir em outro sentido, se não o 
da constante mudança e avanços. 
IMPORTANTE
É viável realizar uma pesquisa com um grupo distante do seu, até mesmo do outro lado do 
Oceano Atlântico. Assim como é possível desenvolver uma pesquisa em uma instituição 
prisional em seu próprio bairro ou em um grupo de uma rede social da internet. Podemos 
pesquisar com crianças na faixa de cinco anos de idade, ou pessoas com mais de 80 anos. 
Nossa pesquisa pode ser planejada para ter uma duração de um ano, quando vamos 
morar entre as pessoas que pesquisaremos, ou mesmo podemos simplesmente visitar 
uma instituição uma vez na semana. Outra via de realizar nosso campo é acompanhando 
um grupo específico de uma rede social, do seu próprio computador, sem 
ao menos precisar sair de casa. A pesquisa antropológica nos forma para 
pesquisar nos mais variados ambientes. É muito importante que você entenda: 
todos os espaços de interação social são possibilidade para uma pesquisa 
antropológica. Basta que o pesquisador tenha respeito e ética em seu trabalho, 
bem como consiga instrumentalizar da melhor maneira o desenvolvimento de 
sua investigação!
151
Em nosso ofício buscamos entender os significados das diversas questões 
culturais. Em outras palavras, buscamos compreender o que determinadas coisas, 
comportamentos, rituais, situações, regras etc. significam para o grupo que estamos 
pesquisando. Vamos pensar em um exemplo?! 
Malinowski buscou compreender o significado integral da prática do Kula, 
lembram? Portanto, para a pesquisa desse antropólogoera importante entender 
a variedade de significados e questões relativos à organização social daquelas 
populações, sendo assim, sobretudo a partir do Kula, observou suas intencionalidades 
e efeitos socioculturais gerados desse sistema de trocas na composição e organização 
do todo social. De maneira semelhante, uma infinidade de antropólogos desenvolve 
suas pesquisas para que, a partir das mais variadas observações a respeito de questões 
culturais, seja possível compreender os significados e impactos sociais de determinadas 
práticas na própria cultura em questão. 
Para trazer a etnografia para mais perto de você, vamos fazer o seguinte 
exercício: imagine um texto com uma descrição generosa e muito detalhada a respeito 
de um local e de uma determinada situação que acontece nesse local (ex.: um culto 
religioso em uma igreja). Dessa maneira, o leitor desse texto consegue imaginar com 
riqueza de detalhes a respeito das práticas que lá acontecem, mesmo que nunca 
tenha estado naquele espaço. Existe uma série de variáveis implicadas nessas práticas 
culturais, e essas variáveis acabam por diferenciar os grupos culturais (culturas): 
sejam as vestimentas, modelos de habitação, rituais, religiões, regimes econômicos, 
performances corporais e infinitas outras questões. 
Para a produção de uma boa etnografia é preciso, então, sistematizar as 
observações feitas em campo, levando em conta não apenas aquilo que se observa, 
mas também aquilo que se escuta. Uma vez que as pessoas (pertencentes ao local eleito 
para realizar a pesquisa) dizem muito a respeito da própria cultura local, evidenciam 
quem elas são e o modo como se enxergam e se colocam no mundo. Portanto, é de 
importância central que o antropólogo não apenas tire suas conclusões a respeito da 
população que está estudando, mas que também tenha ouvidos abertos e atentos 
para aquilo que as pessoas falam a respeito delas mesmas e de seu ambiente. Os usos 
e sentidos de uma cultura estão dispostos a partir das próprias falas e diálogos das 
pessoas nativas da própria cultura (MUNANGA, 2015). 
Por fim, a etnografia se trata do registro sistemático a respeito de temas 
presentes em uma determinada cultura. Observando e registrando as situações, hábitos 
e práticas que estão voltados ao interesse específico da pesquisa a ser realizada. Esse 
levantamento acontece a partir da proximidade do antropólogo com o grupo em questão 
(independentemente de seu formato). 
152
O fator do tempo também deve ser levado em conta, uma vez que só é possível 
observar e compreender essas práticas culturais com alguma dedicação e tempo. Por 
último e não menos importante, a ética e o respeito pelas pessoas pesquisadas são 
elementos centrais, tanto para o estabelecimento dessa proximidade e relação como a 
produção escrita a respeito dessa pesquisa e experiência. 
Olhem o quanto estamos avançando e descobrindo um novo mundo em termos 
antropológicos! A partir desse momento, você já pode começar a escrever as suas 
primeiras etnografias.
Em nosso próximo subtópico, vamos aprender a respeito da pesquisa 
antropológica em relação aos métodos quantitativos e qualitativos. Vamos embarcar?
2.3 PESQUISA ANTROPOLÓGICA: O USO DE MÉTODOS 
Acadêmico, de um modo geral, os principais interesses da pesquisa antropológica 
se concentram naquilo que, em sentido amplo, engloba as questões da ordem humana 
e social, ou ainda mais especificadamente, cultural. Tanto para o desenvolvimento 
das pesquisas, quanto para sua posterior análise de dados, é preciso adotar critérios 
teórico-metodológicos. Essas escolhas fazem parte dos elementos constitutivos da 
pesquisa científica, importantes e definidores para o desenvolvimento e conclusão de 
uma investigação. Existe uma diversidade de métodos científicos possíveis e aplicáveis 
as nossas pesquisas, mesmo que, especialmente na área da antropologia, o método 
qualitativo seja historicamente o mais utilizado pela comunidade de antropólogos, 
sobretudo quando comparado ao uso do método quantitativo.  
Obviamente, a eleição do método (ou métodos) não se trata de uma preferência 
pessoal infundamentada por parte do antropólogo, uma vez que se trata de uma opção 
que compõe e interfere diretamente no andamento e resultado de nossas pesquisas, 
tanto em relação às questões de ordem geral quanto específicas. Essa escolha está 
relacionada ao tema de pesquisa, situação de campo e nuances da investigação, ou 
seja, opta-se pelo método que de fato faz sentido e contribui substancialmente para o 
desenvolvimento da pesquisa em questão, seja no momento da coleta de dados ou em 
sua análise e sistematização (CABRAL, 1998). 
Cada pesquisa científica é singular, mesmo que existam similaridades entre 
as investigações, especialmente quando essas são relacionadas a um mesmo tema. 
Todavia, a própria relação entre pesquisador (e como já vimos, seus marcadores sociais 
da diferença) e o campo, torna cada pesquisa fatidicamente única, cabendo então o 
uso planejado das metodologias científicas que, da melhor maneira, irão contribuir para 
o engrandecimento da pesquisa. 
153
Uma série de fatores são levados em conta para o desenvolvimento de 
uma pesquisa científica, dentre eles: teoria, metodologia e técnicas. Mesmo assim, 
uma questão deve ficar clara, não existe uma fórmula pronta para se fazer pesquisa 
antropológica. Cada contexto cultural, social, político, econômico, requer escolhas muito 
específicas (ESTRADA, 2004). Uma pesquisa realizada com estudantes universitários 
requer o uso de linguagens e opções metodológicas diferentes, por exemplo de uma 
pesquisa realizada com crianças de sete a dez anos, não se trata da existência de 
hierarquias sociais, mas sim da compreensão das diferenças existentes entre os mais 
diversos grupos de pessoas. 
 
A opção por métodos quantitativos ou qualitativos (também é possível unir os 
dois, trataremos a esse respeito mais a frente) além de estar diretamente implicada 
no tema central da pesquisa, também pode interferir de modo positivo ou negativo 
na apresentação da própria pesquisa. Afinal de contas, na maioria das vezes, nossas 
pesquisas não são feitas para responder a questões limitadas aos nossos interesses 
privados, uma vez que as produções científicas devem ser de conhecimento público, 
assim como objetivar os interesses coletivos, ao menos idealmente. 
DICA
Acadêmico, para aprofundar sua compreensão a respeito da possibilidade 
de unir os métodos quantitativos e qualitativos em uma mesma pesquisa, 
recomenda-se a leitura do artigo  “Quantitativo-qualitativo: oposição ou 
complementaridade?” de Maria Cecília de S. Minayo. Disponível em: https://
bit.ly/3Hc951q.
Independentemente do método utilizado, em uma investigação científica é 
importante que o pesquisador leve em conta um aspecto primordial: a compreensão 
por parte de terceiros dos resultados de sua pesquisa. Essa pode parecer uma questão 
básica, todavia não o é necessariamente. 
Existem pesquisas do mais alto rigor científico, embasadas em teorias sólidas, 
complexas e refinadas, que, todavia, são de difícil compreensão, sendo esse um 
problema relativamente comum no meio acadêmico. Muitas das vezes, não se leva 
em conta a necessidade de tornar compreensível o contexto, métodos e resultados da 
pesquisa científica, tornando-a, assim, pouco frutífera e/ou compreendida apenas por 
um pequeno grupo. Trocando em miúdos, a ideia é a seguinte: de pouco ou nada adianta 
uma pesquisa de alta qualidade, se os seus resultados não são compreensíveis. Sempre 
leve isso em conta em suas pesquisas e textos, seu texto deve ser compreensível pelo 
maior número de pessoas possíveis, isso é produção científica de qualidade!  
154
Os diferentes temas de pesquisas e, consequentemente, as situações de 
trabalho de campo, variam entre si. O método quantitativo, como seu próprio nome 
anuncia, se refere às quantidades. Assim sendo, uma pesquisa de caráter quantitativo 
é aquela em que se desenvolve uma base de levantamento de dados comprojeções 
a partir de indicadores numéricos (MUSSI et al., 2019). É possível, então, imaginar que 
essa escolha se refere ao modo como serão coletados e tratados os dados do campo. 
Essa opção pode enriquecer consideravelmente sua pesquisa, assim como oferecer à 
sociedade o levantamento de dados pertinentes e de uso público. Em contrapartida, 
mas não em sentido oposto, encontram-se as pesquisas qualitativas. Essa abordagem 
metodológica é pertinente ao campo dos sentidos, significados, símbolos e relações, 
dentre outras questões observadas nos diversos contextos de ordem socioculturais. 
Assim, a metodologia qualitativa é amplamente conhecida e aplicada sobretudo pelos 
estudiosos das chamadas ciências humanas e sociais. 
Essa opção metodológica é um pouco mais aberta às questões reflexivas de 
ordem teórica e crítica. Trata-se de uma abordagem que privilegia a análise de relações 
(interpessoais, coletivas e institucionais), fenômenos e processos (sociais e culturais) 
compartilhados nos diferentes espaços sociais (NEVES, 1996). Portanto, oferece material 
de ordem crítico reflexiva que em muito acrescentam em nossas pesquisas. Não existe 
uma hierarquia a respeito da importância ou qualidade de ambos os métodos de 
pesquisa, a cada um deles cabem possibilidades e potências metodológicas específicas. 
E, mesmo sendo abordagens metodológicas diferentes, é possível fazer a combinação 
dessas duas ferramentas de análise em uma mesma pesquisa. Veja que interessante! 
Vamos pensar nos exemplos? 
Exemplo: um antropólogo é contratado pelo Ministério da Educação para participar 
de uma das fases de avaliação de determinado material didático que está em 
processo de implementação. Trata-se de uma coleção de livros didáticos utilizados 
pelos alunos do 4º ano do Ensino Fundamental, sua tarefa essencial é a de observar 
e produzir relatórios a respeito da receptividade, uso, aproveitamento e adequação 
do material, tanto por parte dos alunos quanto dos professores. Desse modo, cabe 
ao pesquisador realizar seu trabalho de campo dentro da escola, nos ambientes 
de uso comum dos professores e sobretudo em sala de aula. Sendo essa, uma 
pesquisa de campo realizada ao longo de todo o ano letivo, em mais de uma turma 
de ensino fundamental e durante os turnos matutinos e vespertinos. Essa pesquisa 
exige aprofundamento teórico a respeito das questões de educação, em especial 
o tema da didática, um investimento considerável de tempo, estabelecimento 
de relações de confiança, cronograma e sistematização de dados coletados ao 
longo do trabalho de campo (observem como todos os temas que aprendemos até 
agora estão ganhando vida a partir de um exemplo concreto). Assim, no dia a dia, 
o antropólogo vai criando estratégias que facilitam a coleta dos dados necessários 
a sua pesquisa. 
155
ATENÇÃO
Notem que cabe ao antropólogo ser constantemente um estudioso. 
Acontece que, como desenvolvemos pesquisas nos mais diversos contextos, 
é necessário estudar e conhecer os contextos dos quais iremos realizar as 
investigações. No exemplo citado, o antropólogo precisou estudar a respeito 
de questões gerais da área da educação e especificamente sobre o tema da 
didática. Ser antropólogo é ser um eterno estudioso! 
Nesse caso específico da pesquisa contratada pelo Ministério da Educação, uma 
série de ferramentas metodológicas foram aplicadas pelo antropólogo ao longo de seu 
trabalho de campo, dentre elas: entrevistas semiestruturadas, observação participante, 
etnografia, (calma, um pouco à frente você conhecerá cada uma dessas técnicas de 
pesquisa) e questionários. Portanto, o antropólogo optou pelo uso tanto de métodos 
qualitativos, quanto quantitativos. Com todo o material levantado em sua pesquisa 
de campo e posteriormente analisado e sistematizado, foi possível desenvolver um 
relatório de qualidade admirável. Uma vez que desenvolveu um texto argumentativo a 
partir das observações, diálogos e situações vivenciadas no ambiente escolar (resultado 
da análise qualitativa), assim como ilustrou os dados com o uso de gráficos e tabelas 
(resultado da análise quantitativa) resultantes das entrevistas e questionários realizados 
com os alunos e professores da escola. Tanto no sentido teórico reflexivo, quanto 
material, sua pesquisa demonstrou ter sido feita de uma perspectiva crítica, organizada 
e sistematizada, tendo como produto um relatório consistente, claro e satisfatório. Esse 
material além de apresentar um texto claro, esclarece qualquer dúvida do leitor com o 
uso dos gráficos e tabelas. 
Não é necessário que todo pesquisador faça o uso combinado das duas 
metodologias (quantitativa e qualitativa), todavia, se lhe parecer apropriado, a 
combinação de ambas pode ser extremamente feliz para sua pesquisa. Como já dito, é 
muito importante que o pesquisador analise o espaço em que a pesquisa irá acontecer, 
assim como avalie qual ou quais metodologias que melhor serão desenvolvidas naquele 
determinado campo. Além disso, é totalmente possível e compreensível que, após 
definidos os métodos, no momento de sua aplicabilidade, não sejam obtidos o êxito 
imaginado. Em uma situação que isso aconteça, é importante que você repense parcial 
ou totalmente a pesquisa e faça os reajustes necessários. Lembre-se, a pesquisa é 
uma prática feita por pessoas humanas, passível de erros e reajustes, o importante é 
sempre seguir buscando aperfeiçoar seus métodos, técnicas, assim como estudando 
diariamente a respeito do tema interessado! 
Agora que já estudamos a respeito do trabalho de campo e parte significativa 
dos elementos que compõem essa pesquisa, vamos começar a projetar uma possível 
pesquisa. Nosso próximo subtópico será em torno da escolha do tema de pesquisa! 
156
3 TEMA E PESQUISA
Até o presente momento, estamos discorrendo sobre os métodos e técnicas de 
se fazer pesquisa em antropologia, assim sendo, é necessário que façamos um exercício 
que guiará nossa reflexão a partir de agora e para todo o sempre em nosso ofício de 
antropólogos. Esse exercício se trata de pensar e escolher um tema de pesquisa do qual 
temos interesse. A princípio, é preciso eleger uma questão norteadora para refinar nosso 
interesse, definir o tema e então aplicar a teoria estudada. 
Vamos juntos mergulhar no universo da pesquisa antropológica? Ao longo de 
toda a sua formação, você recebe uma série de conhecimentos teóricos em torno do 
pensamento crítico. Esses ensinamentos são de altíssima relevância, uma vez que será 
a partir deles que você irá atuar no ofício de antropólogo. No entanto, na disciplina de 
antropologia, toda essa bagagem de conhecimentos precisa ser direcionada para uma 
pesquisa, essa é a primeira fase da experimentação antropológica. Obviamente, neste 
momento, sua pesquisa será um experimento, uma primeira experiência científica no 
campo da antropologia. O tema de sua escolha preferencialmente deverá ser sobre um 
assunto que lhe interesse. Não se preocupe, não existe restrição para a escolha da 
questão norteadora. Vamos fazer o passo a passo da escolha de um tema? 
Em primeiro lugar, qual assunto desperta seu interesse pessoal? Algo que 
você conheça com profundidade ou mesmo que desconheça e gostaria de entender 
melhor? Vamos criar um exemplo fictício para que você possa entender como definimos 
essas escolhas. Exemplo de situação: supondo que você seja uma pessoa interessada 
no tema do ciclismo. Pode ser que você seja um ciclista ou mesmo um admirador da 
prática esportiva. Temos aí uma questão: ciclismo! Em sua cidade existe um grupo de 
ciclistas que realiza passeios coletivos todo primeiro sábado do mês. Temos então dois 
elementos: primeiro, seu interesse pelo ciclismo; e segundo, um grupo de ciclistas do 
qual você pode se aproximar para fazer seu trabalho de campo. Veja, questão norteadora 
e possibilidade de campo. 
Definida a questão e existindo uma possibilidade de campo, você, como um 
iniciante em antropologia, pode deslocar-se até o ponto de encontro desse grupo para 
começara fazer as primeiras observações de campo, é possível que você inclusive faça 
uma observação participante, caso queira. Você deve se perguntar: como é possível? 
Simples, leve sua bicicleta e acompanhe o grupo pelo circuito definido, ou, a depender 
de seu preparo físico, pedale uma parte do trajeto com esse grupo. Muito mais simples 
do que você esperava não? Uma vez que você compartilha da atividade realizada pelas 
pessoas de seu campo de pesquisa, está fazendo uma observação participante. 
157
Com o passar dos encontros, você começará a notar questões que despertaram 
seu interesse de pesquisa. Lembre-se, não é em uma saída de campo que você definiu 
seu tema, é necessário investir um certo tempo. Após algumas pedaladas, você começa 
a notar que o grupo é formado, em sua maioria, por homens, não sendo essa uma regra 
específica desse coletivo, mas que no entanto, na prática, poucas mulheres frequentam 
aquele espaço. 
Digamos que essa questão começa a se tornar uma interrogação na sua cabeça. 
E aí está, você acaba de definir um possível tema de pesquisa. Nesse momento, você 
precisará de uma pergunta norteadora para sua pesquisa, podendo ser a seguinte: “O 
que leva a ausência ou inferioridade do número de mulheres no grupo de ciclismo X.?” 
Veja que interessante! O campo da pesquisa antropológica está disposto por 
todas as partes, basta um olhar sensível e alguma dedicação de tempo e esforços. Para 
responder a sua pergunta inicial, você poderá usar uma série de recursos. 
Em primeiro lugar, você deve seguir acompanhando o grupo por um período 
prolongado. Após aproximar-se um pouco mais das pessoas que compõem esse grupo, 
você pode compartilhar seus interesses de pesquisa. É possível somar suas observações dos 
passeios de bicicleta, com entrevistas estruturadas ou semiestruturadas que possibilitem a 
compreensão dessa ausência de mulheres ciclistas naquele determinado coletivo.
Nessa pesquisa, é possível unir os dados quantitativos (número de mulheres) 
e qualitativos (opinião das ciclistas e dos ciclistas, observações a respeito da interação 
entre pessoas de diferentes gêneros nesse espaço, dentre outras possibilidades), dessa 
maneira sua pesquisa muito provavelmente será promissora e, ao final, oferecerá dados 
e informações de carácter e qualidade científica. 
O uso da etnografia deverá compor sua produção científica, bem como é possível 
que você acrescente imagens do grupo (desde que o uso da imagem das pessoas seja 
previamente autorizado por elas) e assim apresentar um trabalho de altíssima qualidade 
e estética admirável. 
Viram como é mais simples do que se imagina? Realizar pesquisa desde a 
antropologia, mais do que a união de métodos ou técnicas, trata-se de um investimento 
e esforço do pesquisador. É possível que muitos percalços apareçam ao longo de 
seu caminho na pesquisa, todavia, é necessário sempre retomar a pesquisa desde as 
possibilidades existentes e seguir firme em sua proposta de construir conhecimento a 
respeito de determinado assunto. 
158
IMPORTANTE
Não se esqueça, sempre que você começar a despertar para um tema de 
pesquisa de seu interesse, faça um pequeno levantamento de informações 
a respeito desse tema, buscando pelas principais produções bibliográficas 
sobre ele. Você não precisa ler uma biblioteca inteira, todavia, três ou quatro 
artigos podem despertar em seus olhos questões relevantes naquele 
determinado assunto, inclusive podem contribuir para que você comece a 
traçar um caminho de pesquisa. Mãos na massa, ou melhor, mãos nos livros! 
Espero que esses aprendizados tenham contribuído substancialmente para sua 
formação enquanto antropólogo e pesquisador. Coloque a mão na massa e comece a se 
arriscar nas primeiras vivências e experiências antropológicas! 
Em nosso próximo tópico, você aprenderá um pouco mais sobre os temas que 
têm ganhado mais espaço e interesse científico em nossa disciplina, vamos embarcar 
nessa? Quem sabe esses temas não despertem seu interesse para realizar a sua 
primeira pesquisa!
159
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• O trabalho de campo é parte central da pesquisa antropológica, todavia seu êxito 
depende dos métodos e técnicas escolhidas para o desenvolvimento dele.
• A pesquisa antropológica pode ser feita a partir de dois métodos científicos, sendo 
esse método qualitativo ou método quantitativo. É possível utilizar apenas um desses 
métodos, ou mesmo a junção de ambos. 
• A observação participante se trata de uma prática antropológica desenvolvida 
pelo antropólogo Bronislaw Malinowski, mesmo já tendo completado um século 
desde seu nascimento, segue sendo utilizada como ferramenta metodológica de 
grande importância.
• A etnografia trata-se de um registro a respeito das diferentes culturas. Sua escrita 
se dá a partir do contato entre antropólogo e grupo pesquisado, ou seja, ao longo 
trabalho de campo.
160
1 As entrevistas podem contribuir consideravelmente para uma pesquisa, inclusive 
são passíveis de coletar de informações qualitativas e quantitativas. Assim, sobre a 
situação que expõe o seu uso apropriado, assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) O antropólogo deseja documentar falas de pessoas e fazer o registro de seus nomes, 
para então ter a prova da validade das informações prestadas na pesquisa.
b) ( ) O antropólogo objetiva a coleta de informações que não foram possíveis de serem 
coletadas apenas com as observações realizadas com o trabalho de campo. 
c) ( ) O antropólogo busca por informações da vida pessoal das pessoas envolvidas 
em sua pesquisa, para seu uso anônimo. 
d) ( ) O antropólogo está fazendo um levantamento de dados para um canal jornalístico, 
sendo as entrevistas necessárias. 
2 Alguns textos trazem em seu corpo argumentativo dados numéricos em formato de 
gráficos, tabelas e/ou escalas, esse método pode ser extremamente esclarecedor 
para o leitor do texto. Essa prática de pesquisa e apresentação é chamada de:
I- Método qualitativo. 
II- Método quantitativo.
III- Método de variação.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.
3 A etnografia é uma das ferramentas metodológicas centrais para a sistematização 
da pesquisa em antropologia. Trata-se da escrita daquilo que se observou em um 
determinado momento do desenvolvimento da pesquisa. A partir dos conhecimentos 
obtidos, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas:
( ) Etnografia é o resultado do registro e sistematização de dados obtidos durante a 
pesquisa teórica.
( ) Etnografia é o resultado do registro e sistematização de dados obtidos durante o 
trabalho de campo.
( ) Etnografia é o resultado do registro e sistematização de dados obtidos durante o 
momento do pré-campo.
AUTOATIVIDADE
161
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – F – F.
b) ( ) V – F – V.
c) ( ) F – V – F.
d) ( ) F – F – V.
4 Com base na metodologia da observação participante, escreva um relatório/
observação a respeito de um local onde você, de alguma maneira, participe da 
dinâmica. Pode ser o seu trabalho, um restaurante que costuma frequentar, um curso 
que está fazendo, ou mesmo alguma atividade que você faz parte, como um centro 
comunitário de seu bairro ou qualquer outro local que exista interação entre pessoas e 
você. Lembrando, diferente dos outros exercícios de observação propostos em nosso 
Livro Didático, neste momento, é esperado que você também se coloque enquanto 
parte do espaço. Capriche na descrição! 
5 Pense em um tema de seu interesse e faça uma pequena pesquisa na internet a 
esse respeito. Por meio de um texto expositivo, escreva a respeito do que aprendeu 
sobre o tema, assim como faça apontamentos de carácter qualitativo e quantitativo, 
ou seja, além de desenvolver a respeito da pesquisa em questão e suasreflexões 
a esse respeito (qualitativo) traga dados (quantitativos) que ilustram essa pesquisa. 
Lembre-se, pesquisar, refletir e escrever sobre um tema é sempre um exercício para 
o momento futuro de sua carreira como antropólogo, invista nesse momento! 
162
163
TÓPICO 3 - 
ANTROPOLOGIA E OS NOVOS 
PARADIGMAS
1 INTRODUÇÃO
Acadêmico, veja que caminho longo e interessante você percorreu até agora 
em termos antropológicos! Em nossa primeira unidade do Livro Didático localizamos 
a antropologia desde o seu contexto pré-histórico, definimos as posições marcadas 
entre pesquisador e sujeito pesquisado, e refletimos a respeito de uma infinidade 
de elementos que constituem nossa disciplina. Já em nossa segunda unidade, 
mergulhamos profundamente nas escolas clássicas da antropologia, seus precursores 
e teorias. Veja bem, a Unidade 1 foi uma unidade introdutória que esclareceu e localizou 
nossa disciplina no tempo e espaço, dessa forma, compreender as teorias e práticas 
apresentadas na Unidade 2 fez todo o sentido em termos não apenas cronológicos, 
mas também críticos, históricos e localizados. Lembre-se, uma teoria, seja ela clássica 
ou contemporânea, jamais pode ser ensinada de modo solto e desamarrado de todo 
o contexto espacial, temporal, cronológico e social, é preciso definir e estabelecer um 
mapa visual e lógico em termos de aprendizado e conhecimento. 
Pois bem, agora que já conhecemos desde a pré-história de nossa disciplina, 
suas escolas teóricas e a questão central do trabalho de campo, métodos e técnicas em 
antropologia é chegada a hora de dar um passo adiante na abertura de nosso horizonte 
antropológico. Neste terceiro e último tópico de nosso livro, iremos aprender a respeito 
de alguns dos paradigmas da antropologia. Você pode se perguntar: qual a importância 
de aprender a respeito dos paradigmas atuais da antropologia em uma disciplina de 
antropologia clássica? Ótima pergunta! 
Acontece que a teoria clássica de modo algum pode estar descolada de nossa 
realidade contemporânea, ou seja, é necessário fazer conexões, pontos em comum e 
reflexões críticas a respeito dos reflexos da teoria clássica em nosso contexto atual. 
Uma vez que, muitas das questões presentes em nossa disciplina atualmente estão 
diretamente relacionadas ao período de fundação da disciplina e seus desdobramentos 
decorrentes desse período. Se nossa perspectiva não fosse desenvolver um olhar crítico 
e analítico, assim como se a antropologia clássica não afetasse diretamente as questões 
atuais de nossa disciplina, qual seria o sentido de estudá-la?! Os impactos do período 
clássico reverberam até hoje as nossas perspectivas teóricas e críticas. 
Neste momento, refletiremos a respeito dos paradigmas modernos de nossa 
disciplina, isto é, as questões pelas quais a antropologia tem se interessado pesquisar, 
os novos e promissores campos de pesquisa e as críticas contemporâneas. Imaginem 
que em nosso último tópico faremos um balanço geral a respeito dos conhecimentos 
UNIDADE 3
164
adquiridos desde uma visão crítica da ampliação e novas questões de nossa disciplina. 
Se durante o período clássico o objetivo dos antropólogos era de “conhecer os 
selvagens”, quais são os principais interesses dos antropólogos contemporaneamente?! 
Atente-se a essa oportunidade, uma análise da perspectiva antropológica clássica e 
contemporânea, esse movimento de conhecimento será dos mais interessantes! Vamos 
juntos? Bons estudos!
2 DESCENTRANDO “O MUNDO”: ANTROPOLOGIA 
EM CONTEXTOS LATINO-AMERICANOS
Acadêmico, em nossas Unidades 1 e 2, aprendemos conjuntamente a respeito 
da fundação e consolidação de nossa disciplina, a antropologia. Desse modo, precisamos 
ter em mente algumas das questões básicas e indispensáveis para uma reflexão 
a respeito da teoria crítica antropológica, tomando, assim, como tema de análise a 
legitimidade da produção de conhecimento em nossa disciplina. Uma vez que, mesmo 
que a antropologia ofereça seus primeiros frutos no continente europeu e se consolide 
entre a Inglaterra, França e Estados Unidos da América, existe uma vasta e considerável 
produção de conhecimento que vai muito além desse circuito acadêmico. Sobretudo 
em termos de antropologia contemporânea. Sendo assim, esse contexto de fundação 
impacta enormemente a produção antropológica até os dias de hoje. 
No entanto, pela própria dinâmica da ciência, assim como resultado de lutas 
sociais e perspectivas intelectuais que, para além do norte global, o contexto espacial 
e social de reflexão e produção antropológica tem mudado consideravelmente. Já 
estudamos o suficiente a respeito do período e contextos nórdicos e anglo saxônicos de 
nossa disciplina, sendo assim, é chegado o momento de conhecer um novo contexto 
social e práticas de produção antropológica, sobretudo localizada na América Latina. 
Essa é uma oportunidade e um convite para que você, estudante, possa expandir os 
seus conhecimentos e perspectivas críticas!
É chegado o estágio em que nossa reflexão precisa passar por um processo de 
expansão dos horizontes epistemológicos, ou seja, o momento em que intelectualmente 
direcionamos nossos interesses de estudo para o local onde estamos radicados, a 
gigantesca e expressiva: América Latina. 
Você deve estar se perguntando como isso será possível, uma vez que tudo o que 
aprendemos até o momento foi produzido pela Europa e Estados Unidos. Tudo bem, a 
partir de agora vamos despertar para um olhar crítico e sensível a respeito da antropologia 
latino-americana. Desfrutar dos conhecimentos e perspectivas antropológicas 
estabelecidas em solo latino-americano trata-se, sobretudo, de compreender as raízes 
históricas de nosso território, bem como os efeitos da colonização em nossa disciplina 
(e vida de modo geral). Que as cores, aromas, musicalidades e temperatura (em sua 
maioria) tropical, sejam um bojo promissor da mais bela reflexão antropológica, nossa 
antropologia latino-americana! 
165
FIGURA 5 – MAPA DA AMÉRICA LATINA
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
A tradição nórdica antropológica coloca toda a vasta produção de antropologias 
provenientes da América Latina enquanto produções menores, subdivididas e 
localizadas, ou seja, antropologia brasileira, antropologia colombiana, antropologia 
argentina e assim por diante (OLIVEIRA, 1994). Você deve estar estranhando o uso da 
antropologia enquanto desde uma separação territorial. Acontece que, assim como as 
escolas clássicas da antropologia são também perspectivas antropológicas diversas e 
plurais, existe uma pluralidade em termos de antropologia produzida no mundo. Assim 
também o são as produções contemporâneas, e, em especial, para o nosso momento e 
espaço de reflexão, trazemos as antropologias nascidas na América Latina.
Também existe uma série de diferenças quanto aos interesses e produções 
antropológicas do eixo norte e sul globais. Para começar, podemos pensar no fato 
de que a antropologia produzida na América Latina passa por um processo de 
subalternização em termos de legitimidade de sua produção de conhecimento, uma 
vez que é majoritariamente tomada como uma produção científica periférica (OLIVEIRA, 
1994). Essa é uma longa e instigante discussão, vamos nos aprofundar nesse tema?!
Agora que já sabemos que existe antropologia sendo produzida muito para 
além do eixo norte, vamos conhecer, em nosso próximo subtópico, um pouco da crítica 
a respeito da legitimidade do saber científico desde uma marcação territorial, portanto, 
também cultural da tradição antropológica. 
166
DICA
Para compreender melhor o tema da diferença de perspectiva crítica a 
respeito das produções antropológicas do eixo sul e norte globais, leia o 
artigo “O movimento dos conceitos na antropologia” de Roberto Cardoso de 
Oliveira. Disponível em: https://bit.ly/3LTzcgW.
2.1 A QUESTÃO DA LEGITIMIDADE DO CONHECIMENTO 
ANTROPOLÓGICO
Até agora já aprendemos que,historicamente, a antropologia desenvolvida 
no norte global, se apresenta enquanto uma disciplina válida e legítima. Em termos 
mundiais, a produção antropológica europeia e norte-americana se coloca e é vista 
enquanto uma perspectiva antropológica geral, ampla e universal. Assim como essas 
tradições de escolas antropológicas localizadas ao norte (é preciso saber que existem 
tradições de pensamento, ou seja, muito do que se acreditava na antropologia clássica 
ainda o é em nossos dias atuais) definem e localizam todo o restante da antropologia 
produzida no mundo, em especial a antropologia desenvolvida na América Latina. Os 
intelectuais nórdicos definem nossa produção epistemológica enquanto um ramo muito 
específico, limitado e localizado da antropologia. 
Essa perspectiva a respeito das diferenças entre as produções epistemológicas 
(conhecimento) do norte e sul globais, apontam para um pensamento reiterado em uma 
suposta superioridade, não intelectual, mas também cultural. Afinal de contas, qual 
o motivo que justificaria a crença de que a ciência produzida no norte global possa 
ser capaz de observar e desenvolver teorias antropológicas aplicáveis e em relação 
a todo o mundo, enquanto na América Latina nossas teorias antropológicas seriam 
produções de conhecimento limitadas a nossa própria localidade? Essa é mais uma 
das amarras colonialistas que perduram por mais de um século na tradição europeia e 
norte-americana, perspectivas essas disfarçadas de teoria do conhecimento (OLIVEIRA; 
OLIVEIRA, 2017).
Na contramão desse modo de definir e localizar os diversos conhecimentos 
antropológicos, existe a teoria crítica decolonial que desponta desde a América Latina. 
Uma vez que a antropologia clássica nasce no final do século XIX e início do século XX, 
com o contato entre europeus e norte-americanos e outras culturas diversas, o próprio 
contexto de sua formação abre um leque de questões passíveis de crítica desde o fato 
de que a disciplina tem como base fundante o regime colonial. Essa discussão envolve 
questões pertinentes ao campo da política, economia, cultura, estrutura de poder, 
dentre outros.
167
NOTA
A teoria crítica decolonial trata-se de uma produção teórica feita desde 
a América Latina, com especial atenção a questões do próprio território 
e culturas que aqui se encontrar. Um dos objetivos dessa perspectiva 
é justamente o mostrar a diversidade de pessoas, culturas e ideias 
espalhadas pelo globo, sobretudo em termos de América Latina, fazendo 
assim com que não seja reiterada a ideia de que a teoria é produzida 
apenas na Europa e América do Norte. Essa é uma questão sobretudo 
de reconhecimento e valorização da pluralidade de ideias e valorização 
das diversas experiências de mundo.
Sendo estabelecida a partir de uma base colonialista, em que o domínio e 
exploração eram os meios de expansão e legitimidade da disciplina, por parte de seus 
fundadores, cabe a ressalva de que até que ponto é possível estudar e desenvolver 
questões antropológicas sem fazer a devida crítica as questões pertinentes ao 
colonialismo e sua relação com a disciplina. Uma vez que todas as áreas de conhecimento 
devem ser constantemente revistas e criticadas, não seria diferente com a antropologia, 
sobretudo devido a seu contexto de fundação (VIRGILIO, 2020). 
Quando pensamos em teoria decolonial, mais do que respostas fixas, nos 
cabem perguntas: seria a antropologia latino-americana um contraponto à antropologia 
europeia e norte-americana? É possível pensar em uma base comum entre essas suas 
perspectivas de conhecimento? 
Compreendendo o contexto de colonização legitimador de nossa disciplina, 
seria razoável imaginar uma antropologia que se prestasse a combater sua herança 
colonial? Essa e tantas outras questões devem ser um chamado para você, futuro 
antropólogo que traça seu caminho desde o Brasil, ou seja, em território e perspectiva 
da América Latina. 
FIGURA 6 – UM MANIFESTO DA BELEZA LATINO-AMERICANA 
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
168
INTERESSANTE
Acadêmico, todas as manifestações culturais podem ser pensadas a partir 
da perspectiva antropológica. Portanto, conhecer as diversas manifestações 
culturais da América Latina é também aprofundar nossos conhecimentos 
antropológicos. A arte, teatro, dança, músicas e demais possibilidades artísticas 
são verdadeiras bibliotecas vivas para a antropologia. Sendo assim, uma vez que estamos 
refletindo sobre a questão da América Latina, é interessante conhecer um pouco de sua 
musicalidade. Ouçam a bela música “Latinoamérica”, da banda urbana de Porto Rico, Calle 
13, e atenção, acadêmico, aprecie o clipe com a devida sensibilidade. A estética da música 
e das imagens é também uma marcação do estilo latino-americano. Como já vimos, a 
produção escrita é carregada de sentidos, um modo dos modos mais interessantes 
de produzir e expressar a antropologia é a partir de uma escrita abundante em estilo 
e beleza, adjetivos mais do que abundantes em nossa América Latina. Disponível em: 
https://bit.ly/3JI7Lou.
2.2 A ANTROPOLOGIA E AS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS 
Uma vez que, desde os diferentes períodos de nossa disciplina tomaram 
determinados temas como assuntos de importância, vivemos em um momento em 
que as questões raciais têm cada vez mais ganhado espaço em nossa agenda política 
e científica. Os diferentes modos de atuação de nossa disciplina foram atravessados 
diretamente pelas questões relativas ao contexto social do qual esteve inserida. Essa 
mesma antropologia que outrora se colocou a serviço do colonialismo, atualmente, 
sobretudo na América Latina, se abre para os debates pertinentes ao nosso tempo e 
espaço atual.
Cada vez mais as questões em torno das relações étnico-raciais têm sido 
fatidicamente reclamadas pelos movimentos sociais e intelectuais contemporâneos. 
Estamos passando por um momento em que é reclamado um espaço para discussão e 
reflexão deste tema, uma vez que ele é caro a parte significativa da população latino-
americana (SILVA, 2016). E estas questões necessárias de reflexão e análise, são sem 
sombra de dúvidas, heranças de uma sociedade orientada pelo regime colonial. 
Mais do que um simples tema de interesse de pesquisa, os estudos a respeito das 
relações étnico-raciais trazem a necessidade urgente de uma discussão a partir da própria 
antropologia, em especial a antropologia brasileira a respeito de nossa base científica. Não à 
toa, vivemos em uma sociedade que, em pleno século XXI, aumenta, transborda e acumula 
em sua história, cada vez mais desigualdades étnico-raciais, oriundas dessa herança 
colonial, amontoando para si uma dívida impagável (SILVA, 2019). 
169
FIGURA 7 – A IMPORTÂNCIA DAS VIDAS E EPISTEMOLOGIAS NEGRAS 
FONTE: . Acesso: 19 jan. 2022.
Como sabemos, a produção científica, de modo algum pode estar afastada 
do contexto social ao qual está inserida. Portanto, cada vez mais as lutas sociais dos 
movimentos negros e indígenas cobram pela presença de uma crítica decolonial que 
aponte para a importância desses temas. Assim como outra questão de importância 
representativa, é a própria presença de pessoas negras e indígenas na formação 
do pensamento intelectual, seja na própria antropologia ou em outras áreas de 
conhecimento. O sujeito branco, europeu ou norte-americano, homem, dono de 
privilégios sociais, não mais pode ser o detentor da legitimidade do conhecimento. Afinal 
de contas, quem melhor do que os próprios indivíduos (negros e indígenas, por exemplo) 
para tratar a respeito de sua própria realidade? 
IMPORTANTE
Acadêmico, infelizmente, até os nossos dias atuais, as ementas e bibliografias dos cursos 
e formações tradicionais em antropologia ainda são compostas majoritariamente por 
autores homens e brancos, considerados os únicos detentores legítimos do 
conhecimento antropológico. É também parte de sua responsabilidade, contribuirpassível 
de ser compreendida enquanto objeto da ciência. Você deve, agora, se perguntar: como 
assim? Isso mesmo, o homem estudava absolutamente tudo que existia no mundo, 
menos as razões, dinâmicas e questões de sua própria existência. 
 Foi apenas a partir do começo do século XIX que o homem passou a conceber 
a si próprio também enquanto objeto de conhecimento, ou seja, uma vida que também 
poderia e deveria ser observada, analisada e refletida cientificamente. Desse modo, o 
homem passou a aplicar e fazer valer em sua própria existência, os métodos de análises 
que antes tinham seu uso limitado ao universo de conhecimento da física e biologia 
(LAPLANTINE, 2003). 
A partir de então é oficialmente inaugurada a história do pensamento do homem 
sobre o próprio homem. Esse acontecimento impactou fortemente o meio cientifico de 
modo geral, sua relevância repercute até mesmo atualmente. Esse modo de conceber 
a própria vida enquanto objeto da ciência gerou efeitos na própria experiência humana 
no mundo. Nesse momento da história, saímos de uma posição consolidada de sujeitos 
exclusivos de conhecimento e passamos a conceber nossa própria existência enquanto 
objetos da ciência. Sem sombra de dúvidas, esse é um dos acontecimentos de maior 
relevância na história, a vida humana passa a ser tema de investigação científica. 
Absolutamente tudo que diz respeito ao sujeito se torna passível de reflexão! 
É muito importante ressaltar que, neste momento inicial, quando o homem 
passa a pesquisar sobre as questões que envolvem a humanidade em sim, ele o faz 
de um modo muito particular. As práticas de pesquisa a respeito de sua existência 
em termos antropológicos se distinguem imensamente em relação ao modo como 
concebemos a análise antropológica contemporaneamente. Para começar, essas 
pesquisas eram feitas entre diferentes culturas. Isso mesmo, inicialmente, o homem, 
ressalta-se, homem branco europeu hegemônico, se dedicava a tomar como objeto da 
ciência os homens pertencentes a outros territórios, consequentemente tomando seus 
valores como base de análise de suas pesquisas. Estabelecendo, assim, uma separação 
pontual que diferenciava o sujeito “observador” (aquele que se considerava detentor 
do conhecimento e da legitimidade de seu uso) daquele que seria o sujeito “observado” 
9
(sujeito tomado como menos importante, passivo de análise), diferenciando e criando 
uma hierarquia de importância entre esses dois polos (ERIKSEN; NIELSEN, 2007). Assim 
é possível perceber que investigar a respeito da vida humana não se tratava de tomar 
qualquer homem enquanto objeto de estudo, muito menos buscar compreender sua 
própria sociedade as questões que a atravessam. 
Essas pesquisas eram feitas a partir de práticas de observações, reflexão 
(ancoradas em perspectivas morais) e registros. Desse modo, surgiram os primeiros 
registros a respeito da vida humana, que mais tarde foram tomados enquanto 
material de fundo antropológico. Extremamente marcadas por questões territoriais e 
geopolíticas, assim como regidas por um verdadeiro regime de moralidades, ou seja, 
as observações e registros eram marcantemente compostas por comparações entre 
culturas baseadas em valores morais da cultura dominante (Europa). Inclusive, esses 
juízos de valores contaminaram fortemente os primeiros registros a respeitos dos 
povos que não pertenciam ao continente Europeu, definidos como sendo os "outros". 
Os objetos empíricos, ou seja, os povos pertencentes aos continentes longínquos 
em relação à Europa eram considerados pelos exploradores europeus como sendo 
populações que se resumiam a “sociedades primitivas/simples”. Em contrapartida, os 
europeus se consideravam “sociedades civilizadas/complexas”. Em resumo, a Europa 
considerava simples/primitivo/selvagem todos os povos que não fazia parte de sua 
civilização, assim como não compartilhavam de uma mesma identidade étnica e racial, 
bem como aqueles que tinham hábitos, práticas, costumes e modos de organização 
diferentes dos seus, criando, assim, uma falsa hierarquia entre seu modo de conceber o 
mundo em relação aos demais modos. 
Assim, durante um longo período de tempo os primeiros registros e reflexões 
a respeito da vida humana foram realizados em relação a sociedades longínquas do 
continente europeu. Os chamados “viajantes” (embarcações compostas por diferentes 
sujeitos europeus – a respeito desse tema, veremos com mais profundidade à frente) 
percorriam grandes distâncias geográficas a fim de explorar territórios e toda a sorte 
de matéria (minérios, madeira, temperos etc.) encontrada nesses territórios, bem como 
dominar suas populações. 
Durante essas viagens exploratórias esses viajantes realizavam observações, 
análises e registros escritos, daqueles a que forjavam considerar como “os outros”. Vale 
reforçar que esses registros eram extremamente impregnados de valores preconcebidos 
e preconceitos de toda natureza imaginável. Esses “outros” eram sempre marcados 
enquanto inferiores, uma vez que o homem europeu se considerava o sujeito hegemônico 
e tomava a si e sua organização social enquanto modelo ideal de civilização (NOVAIS, 
1969). O homem europeu não enxergava sua sociedade enquanto apenas mais uma 
entre tantas outras existentes ou mesmo aquelas ainda desconhecidas. Não se tratava 
de realmente haver diferença culturais que exultavam em hierárquica entre povos e 
culturas, no entanto, a Europa forjava uma superioridade cultural em relação aos demais 
povos e continentes, essa superioridade apenas existia em sua própria visão de mundo.
10
FIGURA 2 – O OBSERVADOR E O OBSERVADO
FONTE: . Acesso em: 22 fev. 2022.
A partir dos novos contextos culturais e territoriais descobertos devido às 
viagens exploratórias feitas pelas grandes embarcações, iniciou-se um movimento de 
reflexão e esforços para descrever tanto os habitantes quanto os territórios e questões 
climáticas ainda desconhecidos. É importante considerar que a antropologia em seu 
período de fundação em muito serviu para os ideais da colonização. Essa é uma das 
tantas dívidas que a antropologia contraiu para com o mundo, sobretudo os povos que 
foram colonizados (a respeito desse tema, veremos com profundidade mais a frente). 
Mesmo que atualmente nosso ofício se diferencia amplamente de seu contexto de 
fundação, conhecer a história da disciplina é fundamental para não incorrer em erros 
supostamente já superados, como, por exemplo, a criação de falsas hierarquias sociais. 
Desde esse período, o homem começa a se interessar cada vez mais em 
observar, compreender e registrar questões pertinentes a existência humana e suas 
variáveis, sejam elas sociais, culturais, éticas, dentre outras. Para além do meio 
ambiente e dos fenômenos naturais a nossa volta, a vida humana passa a ser assunto 
de interesse público, passível de vantagens diversas. Mesmo que impregnada por uma 
série de prejuízos da própria lógica colonizadora, o status de objeto científico que o 
homem vai ganhando ao longo do tempo é de grande relevância para a humanidade 
(FRAZER; DOUGLAS, 1978). 
Observar a si próprio trata-se de uma prática relativamente recente, quando 
pensada em relação ao tempo histórico de nossa humanidade. Essa prática se encontra 
aberta a uma infinidade de possibilidades em termos de investigação científica, sobretudo 
hoje em dia, uma vez que o fenômeno da globalização engrandece a discussão sobre 
a diversidade cultural. Os avanços e ampliações de nossa área de pesquisa apenas 
são possíveis a partir do interesse e esforços daqueles que se dedicam ao ofício da 
antropologia. Acadêmico, a partir de agora, a responsabilidade de promover diálogos e 
maneiras de valorizar a diversidade cultural também é sua! 
11
Nós, seres humanos, somos extremamente inventivos em nossos modos de 
existir e nos organizar. A partir da antropologia, encontramos ferramentas metodológicas 
que nos permitempara a mudança desse regime de referências e citações. Busque pesquisar por 
intelectuais negros, indígenas, mulheres, latino-americanos, dente outras 
populações consideradas minorias étnicas, que, todavia, se trata da maioria 
de nossa população. Assista a entrevista da intelectual e antropóloga negra, 
latino-americana, Lélia Gonzalez, intitulada “CULTNE – Lélia Gonzalez” Disponível 
em: https://bit.ly/3Hd5oZa.
170
RACISMO E SEXISMO NA CULTURA 
Lélia Gonzalez 
I- Cumé que a gente fica?
[...] Foi então que uns brancos muito legais convidaram a gente prá 
uma festa deles, dizendo que era prá gente também. Negócio de 
livro sobre a gente, a gente foi muito bem recebido e tratado com 
toda consideração. Chamaram até prá sentar na mesa onde eles 
tavam sentados, fazendo discurso bonito, dizendo que a gente era 
oprimido, discriminado, explorado. Eram todos gente fina, educada, 
viajada por esse mundo de Deus. Sabiam das coisas. E a gente foi 
sentar lá na mesa. Só que tava cheia de gente que não deu prá 
gente sentar junto com eles. Mas a gente se arrumou muito bem, 
procurando umas cadeiras e sentando bem atrás deles. Eles tavam 
tão ocupados, ensinado um monte de coisa pro crioléu da platéia, 
que nem repararam que se apertasse um pouco até que dava prá 
abrir um espaçozinho e todo mundo sentar juto na mesa. Mas a festa 
foi eles que fizeram, e a gente não podia bagunçar com essa de chega 
prá cá, chega prá lá. A gente tinha que ser educado. E era discurso 
e mais discurso, tudo com muito aplauso. Foi aí que a neguinha que 
tava sentada com a gente, deu uma de atrevida. Tinham chamado ela 
prá responder uma pergunta. Ela se levantou, foi lá na mesa prá falar 
no microfone e começou a reclamar por causa de certas coisas que 
tavam acontecendo na festa. Tava armada a quizumba. A negrada 
parecia que tava esperando por isso prá bagunçar tudo. E era um tal 
de falar alto, gritar, vaiar, que nem dava prá ouvir discurso nenhum. Tá 
na cara que os brancos ficaram brancos de raiva e com razão. Tinham 
chamado a gente prá festa de um livro que falava da gente e a gente 
se comportava daquele jeito, catimbando a discurseira deles. Onde 
já se viu? Se eles sabiam da gente mais do que a gente mesmo? 
Se tavam ali, na maior boa vontade, ensinando uma porção de coisa 
prá gente da gente? Teve um hora que não deu prá agüentar aquela 
zoada toda da negrada ignorante e mal educada. Era demais. Foi aí 
que um branco enfezado partiu prá cima de um crioulo que tinha 
pegado no microfone prá falar contra os brancos. E a festa acabou 
em briga... Agora, aqui prá nós, quem teve a culpa? Aquela neguinha 
atrevida, ora. Se não tivesse dado com a língua nos dentes... Agora 
ta queimada entre os brancos. Malham ela até hoje. Também quem 
mandou não saber se comportar? Não é a toa que eles vivem dizendo 
que “preto quando não caga na entrada, caga na saída” [...].
A longa epígrafe diz muito além do que ela conta. De saída, o que se percebe 
é a identificação do dominado com o dominador. E isso já foi muito bem analisado por 
um Fanon, por exemplo. Nossa tentativa aqui é a de uma indagação do porquê dessa 
LEITURA
COMPLEMENTAR
171
identificação, ou seja, que foi que ocorreu, para que o mito da democracia racial tenha 
tido tanta aceitação e divulgação? Quais foram os processos que teriam determinado 
sua construção? Que é que ele oculta, para além do que mostra? Como a mulher negra 
é situada no seu discurso?
O lugar em que nos situamos determinará nossa interpretação sobre o duplo 
fenômeno do racismo e do sexismo. Para nós o racismo se constitui como a sintomática 
que caracteriza a neurose cultural brasileira. Nesse sentido, veremos que sua articulação 
com o sexismo produz efeitos violentos sobre a mulher negra em particular. 
Consequentemente, o lugar de onde falaremos põe um outro, aquele é que 
habitualmente nós vínhamos colocando em textos anteriores. E a mudança foi se dando 
a partir de certas noções que, forçando sua emergência em nosso discurso, nos levaram 
a retornar a questão da mulher negra numa outra perspectiva. Trata-se das noções de 
mulata, doméstica e mãe preta. 
Em comunicação apresentada no “Encontro Nacional da LASA (Latin American 
Studies Association), em abril de 1979 (GONZALES, 1979a), falamos da mulata, ainda que 
de passagem, não mais como uma noção de caráter étnico, mas como uma profissão. 
Tentamos desenvolver um pouco mais essa noção em outro trabalho, apresentado 
num simpósio realizado em Los Angeles (UCLA) em maio de 79 (GONZALES, 1979c). 
Ali, falamos dessa dupla imagem da mulher negra de hoje: mulata e doméstica. Mas ali 
também emergiu a noção de mãe preta, colocada numa nova perspectiva. Mas ficamos 
por aí.
Nesse meio tempo, participamos de uma série de encontros internacionais que 
tratavam da questão do sexismo como tema principal, mas que certamente abriam espaço 
para a discussão do racismo também. Nossa experiência aí foi muito enriquecedora. Vale 
ressaltar que a militância política no Movimento Negro Unificado se constituía como fator 
determinante de nossa compreensão da questão racial. Por outro lado, a experiência vivida 
enquanto membro do Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo 
permitiu-nos a percepção de várias facetas que se 225 constituiriam em elementos muito 
importantes para a concretização deste trabalho. E começaram a se delinear, para nós, 
aquilo que se poderia chamar de contradições internas. O fato é que, enquanto mulher 
negra, sentimos a necessidade de aprofundar nessa reflexão, ao invés de continuarmos na 
reprodução e repetição dos modelos que nos eram oferecidos pelo esforço de investigação 
das ciências sociais. Os textos só nos falavam da mulher negra numa perspectiva 
socioeconômica que elucidava uma série de problemas propostos pelas relações raciais, 
mas ficava (e ficará) sempre um resto que desafiava as explicações. Isso começou a nos 
incomodar. Exatamente a partir das noções de mulata, doméstica e mãe preta que estavam 
ali, nos martelando com sua insistência... 
172
Nosso suporte epistemológico se dá a partir de Freud e Lacan, ou seja, 
da Psicanálise. Justamente porque, como nos diz Miller, em sua Teoria da Alingua 
(1976, p. 17):
O que começou com a descoberta de Freud foi uma outra abordagem 
da linguagem, uma outra abordagem da língua, cujo sentido só veio à 
luz com sua retomada por Lacan. Dizer mais do que sabe, não saber o 
que diz, dizer outra coisa que não o que se diz, falar para não dizer nada, 
não são mais, no campo freudiano, os defeitos da língua que justificam 
a criação das línguas formais. Estas são propriedades inelimináveis e 
positivas do ato de falar. Psicanálise e Lógica, uma se funda sobre o que 
a outra elimina. A análise encontra seus bens nas latas de lixo da lógica. 
Ou ainda: a análise desencadeia o que a lógica doméstica.
Ora, na medida em que nós negros estamos na lata de lixo da sociedade 
brasileira, pois assim o determina a lógica da dominação, caberia uma indagação via 
psicanálise. E justamente a partir da alternativa proposta por Miller, ou seja: por que o 
negro é isso que a lógica da dominação tenta (e consegue muitas vezes, nós o sabemos) 
domesticar? E o risco que assumimos aqui é o do ato de falar com todas as implicações. 
Exatamente porque temos sido falados, infantilizados (infans, é aquele que não tem fala 
própria, é a criança que se fala na terceira pessoa, porque falada pelos adultos), que 
neste trabalho assumimos nossa própria fala, ou seja, o lixo vai falar, e numa boa. 
A primeira coisa que a gente percebe, nesse papo de racismo é que todo mundo 
acha que é natural. Que negro tem mais é que viver na miséria. Por quê? Ora, porque 
ele tem umas qualidades que não estão com nada: irresponsabilidade, incapacidade 
intelectual, criancice etc. e tal. Daí, é natural que seja perseguido pela polícia, pois 226 
não gosta de trabalho, sabe? Se não trabalha, é malandro e se é malandro é ladrão. 
Logo, tem que ser preso, naturalmente. Menor negro só pode serauxiliar, observar e compreender essas diferentes formas de estar no 
mundo, uma vez que temos na observação nosso método privilegiado. Essa capacidade 
analítica é de suma importância em nossa disciplina, uma vez que contribui para 
uma perspectiva de mundo multicultural. Mundo esse onde as mais diversas culturas 
convivem respeitosamente umas com as outras, bem como coexistem de modo 
igualitário. Essa visão de mundo oportuniza, em alguma medida, a coexistência de 
sociedades e coletividades das mais diversas culturas em um mesmo espaço e tempo. 
É importante lembrar que essas aproximações são extremamente ricas em termos de 
aprendizado e crescimento, afinal, o que é a cultura se não uma prática dinâmica em 
constante mudança e avanço?!
Precisamos levar em conta o fato de que “O conhecimento (antropológico) da 
nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos 
especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas 
não a única” (LAPLANTINE, 2003, p. 13). Assim, trabalharemos de modo a derrubar as 
construções de hierarquias sociais e buscar evidenciar a importância da existência da 
pluralidade de ideias, culturas e modos de ser e estar no mundo. 
No próximo subtópico, aprenderemos a constituição da antropologia enquanto 
uma disciplina científica. Iremos nos aproximar do conceito do eurocentrismo. Estamos 
aquecendo nossos motores do conhecimento! Seguimos! 
INTERESSANTE
Aqueles que desejam ter sucesso em suas carreiras devem levar a prática 
da observação e registro com muita seriedade. Normalmente fazemos esses 
registros à mão em um caderno, que, posteriormente, se torna nosso melhor 
amigo. Chamamos esse companheiro de “caderno de campo”. Por mais que 
a tecnologia tenha ganhado cada vez mais espaço em nossas vidas, o bom e 
velho caderno de papel tem uma importância central na vida daqueles que 
desejam dedicar-se a observar o mundo e as relações que nele existem. Tenha sempre 
consigo um pequeno caderno e uma caneta ou lápis, ao estudar a antropologia você 
passará a refletir criticamente sobre o espaço a sua volta. Essa prática cotidiana da escrita 
irá contribuir em suas pesquisas e estudos. Em breve, observar o mundo se tornará um 
vício pessoal, e você não pode deixar essas impressões e reflexões se perderem no tempo 
e na memória. Em determinado momento esses cadernos se tornarão, de certo modo, 
parte de sua biblioteca particular. 
12
2.1.1 A disciplina da antropologia e o eurocentrismo 
A partir da segunda metade do século XIX, o investimento na observação 
e registro dos homens na figura desses viajantes passa a ganhar certa rigorosidade 
científica, e a antropologia, aos poucos, se torna um ramo do conhecimento científico. 
Nossa disciplina passou a estabelecer determinados métodos e técnicas para com suas 
observações e sistematização dos registros oriundos dessas observações. 
A antropologia foi formalmente estabelecida enquanto disciplina científica 
desde o continente Europeu, e é muito importante que essa informação seja levada 
em conta, assim como o recorte temporal e geográfico desse momento de fundação. 
Esse contexto resultou em uma série de questões pertinentes ao panorama geral da 
própria disciplina, assim como ainda ressoa em questões em nosso campo de estudos 
contemporâneos. A ocasião do estabelecimento formal da antropologia, conjuntamente 
ao contexto da colonização, refletiu em suas escolas e tradições teóricas ao longo de 
toda a trajetória da disciplina. 
Em linhas gerais, a antropologia refere-se ao exercício de compreender outros 
modos de pensar e vivenciar a cultura que não aqueles dos quais aprendemos e somos 
assimilados desde o nosso nascimento, assim como território do qual fazemos parte. 
Essas observações e práticas foram iniciadas antes mesmo da própria antropologia se 
consolidar enquanto um campo científico. Atualmente, a antropologia constitui parte do 
campo das ciências sociais, sobretudo no Brasil. 
A cada localidade e tradição de estudos, cabem diferentes enfoques do campo 
de pesquisas em antropologia. Em outros países a antropologia pode estar mais próxima à 
arqueologia, linguística, dentre outras. Poderíamos até mesmo definir a antropologia como 
a ciência do estudo das diferenças, sejam essas das mais diversas naturezas ou contextos. 
Como dito anteriormente, em seu período inicial vigorava uma separação 
factual entre o observador e o objeto de observação, ou seja, o sujeito que observava se 
encontrava em oposição daquele que era observado. Desde uma separação, sobretudo 
territorial “eu” (europeu) e o “outro” (demais continentes) e cultural. Seguindo a lógica 
vigente do período, essa distinção acontecia baseada no estabelecimento de cisões 
geográficas, que obviamente eram atravessadas e carregadas de muitos outros 
elementos relacionados a valores morais e religiosos. Em verdade a marcação geográfica 
estava pautava na seguinte lógica: a Europa intitulava-se centro do mundo, e as demais 
sociedades eram projetadas e consideradas como menos importantes, periféricas. 
Dessa maneira:
13
 Assim, a dominação europeia durante a conquista e colonização culminou na 
formação da subjetividade da Europa ocidental como central, trazendo à consideração 
o eurocentrismo enquanto promulgação da normalidade e racionalidade, bem como a 
objetificação e negação das outras culturas e pessoas. Além do mais, o processo colonial 
das Américas foi primordial para o desenvolvimento de diversas estruturas hegemônicas, 
embora nem sempre essa relação seja reconhecida, que vão estar presentes ao longo 
dos anos nas sociedades latino-americanas (MAIA; DE FARIAS, 2020, p. 585).
Portanto, esse modo de observar e definir as diferentes sociedades desde uma 
perspectiva hierarquizada ocorria devido a uma prática que contemporaneamente 
conhecemos como “eurocentrismo”. Esse fenômeno coaduna em si a falsa ideia de que 
a Europa representaria o centro da cultura do mundo, uma referência de civilização em 
termos absolutos. Esse pensamento considerava o continente europeu e sua civilização 
enquanto um padrão social e modelo a ser seguido para os demais grupos existentes no 
mundo (LANDER, 2005). 
Nessa perspectiva não se levava em conta, tampouco consideravam e/ou 
respeitavam as diferenças culturais diversas. A criação de falsas hierarquias sociais 
constituía a lógica colonial. Obviamente essa é uma ilusão colonial que, mesmo 
atualmente, pode ser percebida enquanto pensamento vigente em determinados 
grupos sociais. Trata-se de uma superestima da cultura de um continente. 
É possível visualizar esse pensamento e práticas da herança colonial presente 
em nossa atualidade, desde a construção e permanência de monumentos públicos 
que demonstram a importância e a aprovação das práticas coloniais europeias, 
vejam (Figura 3):
FIGURA 3 – MONUMENTO EM HOMENAGEM AO DESCOBRIMENTO
FONTE: . Acesso em: 27 out. 2021
14
Uma vez que esses monumentos permaneçam erguidos nos espaços públicos 
das cidades, apontam para a valorização de uma perspectiva de dominação, violência 
e exploração por parte da população do local. É de suma importância que as violências 
que ocorreram no período colonial sejam devidamente elencadas, bem como não 
sejam de modo algum homenageadas. Os absurdos cometidos durante o contexto de 
colonização não devem ser esquecidos e seu lugar na história é o da análise reflexiva e 
não o da homenagem irrefletida. 
ATENÇÃO
Compreender as bases da formação de uma área de conhecimento é 
indispensável para nossas formações. A história da antropologia representa 
as nossas raízes do conhecimento da disciplina. Desfrutem desse mergulho 
no tempo! 
No próximo subtópico, vamos nos aprofundar no conceito de etnocentrismo, 
perspectiva que coloca uma cultura como sendo o centro do mundo e as demais como 
menores, inferiores e secundárias. Espero que você esteja aproveitando ao máximoessa oportunidade de entender as bases do pensamento antropológico, assim como as 
similaridades e diferenças da atual antropologia em comparação com o momento inicial 
de nossa disciplina! 
2.2 ETNOCENTRISMO 
Acadêmico, como é possível perceber, desde o momento da fundação de nossa 
disciplina até os dias atuais, mudanças significativas atravessaram a perspectiva científica 
da antropologia em relação ao mundo como um todo. Essas mudanças apontam para o 
fato de que, ao longo do tempo, os próprios antropólogos têm repensado sua disciplina, 
portanto, repensado o modo de conceber determinados temas e discussões. 
As mudanças de modo algum demonstram ausência de cientificidade na 
antropologia, muito pelo contrário, o fato de que os próprios estudiosos da área 
reconhecem os possíveis enganos, ou mesmo constatam erros e falhas ao longo da 
história da disciplina, demonstra que a constância em termos de pesquisa e reflexão, 
é parte central de nossas práticas intelectuais. Vamos entender um pouco melhor 
essas questões?!
Durante o período de fundação da antropologia, o etnocentrismo era uma 
forte presença no olhar do antropólogo em relação ao mundo a sua volta. A palavra 
etnocentrismo refere-se à prática de conceber sua própria etnia (ou cultura) enquanto o 
centro do mundo, ou seja, pessoas etnocêntricas são aquelas que acreditam pertencer 
a uma etnia/grupo/população/cultura que está no centro da própria humanidade, e que 
15
representa um modelo ideal de cultura. Mesmo que, atualmente, os debates antropológicos 
girem em torno da diversidade de culturas e pessoas e, por consequência da valorização 
dessa pluralidade, na fundação de nossa disciplina, o etnocentrismo era uma prática, 
sobretudo, dos estudiosos de nosso campo de conhecimento, ou mesmo daqueles que, 
com o tempo, foram considerados os primeiros antropólogos (lembrando que inicialmente 
nossa disciplina era formada de estudiosos de vários campos de conhecimento).
E como isso se dá na prática? Simples, as pessoas, em especial, os antropólogos, 
acreditavam que seus hábitos, práticas, regimes de moralidade, modos de estar e 
permanecer no mundo era o modelo ideal para o restante do mundo. Inacreditável, não? 
Pois bem, essa prática vigora por todo o momento de fundação de nossa disciplina, até que, 
alguns estudiosos, como Franz Boas (1958) e Bronislaw Malinowski (1884), interessados 
nos temas de nossa disciplina começaram a questionar essas visões de mundo. 
Esses pesquisadores passaram a observar e registrar os modos dos quais 
determinadas culturas se organizavam socialmente e percebiam que se tratava de 
modos diferentes e não inferiores de organização. Um pouco a frente de nosso livro, 
entenderemos mais como essas mudanças aconteceram, principalmente com as 
primeiras práticas de trabalho de campo. Esse modo equivocado (etnocêntrico) de 
conceber sua própria cultura como superior e a de outros grupos como inferior, 
obviamente causava e ainda causa, nos dias de hoje, grandes conflitos. 
Destaca-se que, majoritariamente no período pré-histórico e inicial de nossa 
disciplina, sobretudo, evidenciamos essa prática por parte dos estudiosos da cultura 
europeia e norte-americana, uma vez que tinham uma perspectiva etnocêntrica de 
mundo. Desse modo, acreditavam e justificavam as mais diversas violências (físicas, 
materiais e simbólicas) para com as demais culturas existentes no mundo. 
A colonização da América Latina e África, por exemplo, apontam como esse 
pensamento é produtor de violências diversas e perpétuas, uma vez que ainda vivemos 
sobre os efeitos da colonização. É possível enxergar os reflexos do etnocentrismo em 
nossas sociedades contemporaneamente. 
O racismo, xenofobia, machismo, dentre outras práticas de violência física e 
simbólica apontam para o etnocentrismo e suas raízes culturais em sociedades que 
sofreram com as diversas colonizações. Além disso, a prática do etnocentrismo está 
na desvalorização por parte daqueles que se consideram o modelo ideal, para com a 
maioria ou mesmo a totalidade dos elementos e pessoas das demais culturas. Segundo 
Rocha (2017, p. 5):
Etnocentrismo é uma visão de mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como 
centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através de nossos valores, 
nossos modelos, nossas definições do que é a existência. No plano intelectual pode ser 
visto como a dificuldade de pensarmos a diferença; no plano afetivo, como sentimentos 
de estranheza, medo, hostilidade etc. Perguntar sobre o que é etnocentrismo é, pois, 
16
indagar sobre um fenômeno onde se misturam tanto elementos intelectuais e racionais 
quanto elementos emocionais e afetivos. No etnocentrismo, estes dois planos do 
espírito humano – sentimento e pensamento – vão juntos compondo um fenômeno 
não apenas fortemente arraigado na história das sociedades como também facilmente 
encontrável no dia a dia das nossas vidas.
Portanto, trata-se de um regime que, no limite, está ligado à existência e 
experiência de mundo. O etnocentrismo também se trata de uma imposição cultural 
sobre as demais culturas ao seu entorno. 
O efeito devastador dessa prática esteve e ainda está presente em muitas 
situações cotidianas, com especial destaque aos países colonizados. Não à toa vivemos 
em uma sociedade que tem por costume superestimar os símbolos europeus e norte-
americanos, isso nada mais é do que alguns dos efeitos da formação de um estado 
nacional enraizado em um regime colonial. 
É comum que tradições da cultura popular brasileira sejam desvalorizadas 
pela própria população nacional em comparação a uma valorização exacerbada de 
culturas europeias e norte-americanas. Trabalhar com antropologia é estar a todo o 
tempo buscando formas de analisar o presente sem esquecer-se do passado. É preciso 
criticidade e sensibilidade para o ofício do antropólogo.
No próximo subtópico, conheceremos um pouco sobre cada uma das cinco 
linhas de investigação desenvolvidas dentro da disciplina da antropologia: antropologia 
biológica (ou física), antropologia pré-histórica, antropologia linguística, antropologia 
psicológica, antropologia cultural e social. Seguimos em frente! 
Para conhecer um pouco mais a respeito do fenômeno do etnocentrismo, 
assista ao vídeo “Alteridade, etnocentrismo e relativismo cultural”. Disponível 
em: https://bit.ly/3s9dBcO.
DICA
2.3 UMA BREVE APRESENTAÇÃO DAS LINHAS 
DE INVESTIGAÇÃO EM ANTROPOLOGIA 
Agora que você já conhece o contexto da “pré-antropologia” e o período de 
fundação de nossa disciplina, é importante que tenha conhecimento sobre as divisões 
presentes em nossa antropologia na contemporaneidade. 
17
Atualmente, a antropologia é dividida em cinco grandes áreas ou linhas de 
pesquisa: antropologia biológica (ou física), antropologia pré-histórica, antropologia 
linguística, antropologia psicológica, antropologia cultural e social. Essas linhas de 
pesquisa não necessariamente ocupam a mesma importância nos diferentes países 
do mundo. Como exemplo, no Brasil a linha de investigação da antropologia cultural e 
social está presente na maior parte dos centros de pesquisa em antropologia de nosso 
país, assim como é a que tem mais adeptos, assim como é a conhecida. No entanto, 
é importante que você, acadêmico, tenha ao menos uma noção básica a respeito das 
possibilidades de pesquisa em termos de antropologia (MARCONI; PRESOTTO, 2013). 
Todavia, corresponde a cada uma dessas vertentes antropológicas uma questão de 
aproximação, sendo essas a preocupação com distintos temas relacionados à existência 
e organização humana. Neste momento, faremos uma breve passagem por cada uma 
dessas linhas de pesquisa, para que, caso seja de interesse, possam buscar aprofundar 
suas pesquisas nas áreas a seguir. Vamos lá! 
Cabem à antropologia biológica ou antropologia física compreender a 
multiplicidade biológica presente nos mais diferentes contextos regionais, culturais, 
geográficos, sociais e ecológicos, variando no tempo e espaços. Ou seja, analisaalguns 
dos aspectos biológicos e físicos da humanidade em lugares e tempos diferentes ao 
longo de nossa história. 
Essa linha de pesquisa também analisa os impactos e atravessamentos entre os 
indivíduos e meio ambiente, assim como as consequências, mudanças e transformações 
decorrentes desse processo de influências recíprocas. Também investiga as diferenças 
biológicas presentes entre as populações pertencentes a contextos espaciais e 
temporais que se divergem.
FIGURA 4 – ANTROPOLOGIA BIOLÓGICA
FONTE: . Acesso: 22 fev. 2022.
18
Já ao que diz respeito à antropologia pré-histórica, a tarefa de investigar a partir 
de solos e registros todo e qualquer resquício de ação e/ou movimentação humana que 
já não esteja mais presente nos diversos territórios. O profissional que se dedica a essa 
área deve executar um trabalho minucioso de busca e análise por possíveis objetos 
presentes no solo, assim como tentar recuperar as questões ligadas a sociedades 
desaparecidas com o passar do tempo. Essa linha de estudo se aproxima fortemente 
da arqueologia. Os museus, por exemplo, são espaços onde podemos encontrar muitos 
materiais que foram encontrados e catalogados por antropólogos que se dedicam a 
essa linha de pesquisa, veja na Figura 5:
FIGURA 5 – PEDRA DO SOL, PATRIMÔNIO ASTECA. ACERVO DO MUSEU NACIONAL DE ANTROPOLOGIA, 
CIDADE DO MÉXICO
FONTE: . 
Acesso em: 22 fev. 2022.
Extremamente importante para o patrimônio imaterial da humanidade, 
estabelece-se a antropologia linguística. Esse ramo da antropologia tem como objetivo 
compreender, a partir da linguagem e suas expressões, o modo com que distintos grupos 
sociais/culturais evidenciam suas inquietudes, juízo de valores e demais questões 
que são da ordem da comunicação humana. Essa linha de investigação tem grande 
relevância em termos culturais e sociais. 
Já a antropologia psicológica tem como objeto de investigação o modo como 
opera, processa e se constituem as questões da psique humana. Sua análise leva em 
conta comportamentos, abarcando os fatores totais da existência humana, como a 
sociedade e a cultura. Essa linha de investigação é nutrida a partir da integração de 
sistemas culturais e sociais, bem como perspectivas de análises antropológicas sem as 
quais não seria possível desenvolver sua análise.
19
Como dito anteriormente, a antropologia social e cultural é a linha de 
investigação mais explorada no Brasil. Essa ramificação da antropologia representa uma 
amplitude de possibilidades investigativas em termos sociais e culturais. Não é possível 
esgotar suas áreas de pesquisa e atuação. Podemos pesquisar sistemas de parentesco, 
ordenamentos e questões políticas, regimes econômicos, arestas jurídicas, enfim, tudo 
o que se pode imaginar é possível de pesquisar dentro dessa linha de investigação 
antropológica. Dessa maneira, em termos de pesquisa antropológica no Brasil, na maior 
parte das vezes, as investigações científicas em antropologia abordam questões da área 
de antropologia social e cultural. 
Por fim, agora que refletimos questões centrais do contexto de fundação 
da antropologia e suas nuances, assim como as divisões das linhas de pesquisa em 
antropologia, neste momento, vamos avançar e, a partir do próximo tópico, conhecer 
um pouco mais as viagens exploratórias, tema de absoluta relevância para o nascimento 
de nossa disciplina. Espero que estejam preparados, viajaremos alguns séculos no 
contexto das embarcações transatlânticas! 
Um exercício extremamente importante em nossa carreira é a pesquisa. 
Deste modo, é fundamental que você desenvolva a capacidade e prática 
de realizar pesquisas de forma autônoma. Essa é uma tarefa simples, 
mas é preciso começar. Busque vídeos, podcasts, filmes e literatura que 
abordem questões antropológicas. Dessa maneira, a cada dia você estará 
mais familiarizado com a disciplina e seu olhar e sua capacidade de reflexão 
crítica irão se desenvolver cada vez mais e melhor!
IMPORTANTE
20
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• A prática da observação é própria da existência humana. A observação carrega uma 
importância central em termos de pesquisa em antropologia. Mesmo em um contexto 
de inúmeras mudanças e transformações em relação ao fazer antropológico, 
observar o mundo a nossa volta jamais deixou de ser parte fundamental de nosso 
ofício. Com o passar do tempo e os avanços em termos de pesquisa na área da 
antropologia, a amplitude de situações possíveis e necessárias de observação e 
registro antropológico vem ampliando-se consideravelmente.
• A antropologia floresce a partir de relações de estranhamento e diferença. Sendo 
essas questões observadas em um contexto de colonização. Nesse período a 
prática da observação e do registro escrito a respeito de povos e territórios, até 
então desconhecidos, era impregnada de juízos de valores morais presentes na 
mentalidade vigente dos viajantes, por consequência, esses valores faziam parte 
desses escritos que foram considerados as primeiras práticas de observação com 
fundo antropológico. 
• Inicialmente, a antropologia não possuía caráter disciplinar, no entanto, ao longo 
do tempo, interações e interesses múltiplos por parte dos exploradores, nossa 
disciplina obteve certa formalidade e carácter disciplinar. Desde então, se trata de 
uma disciplina em constante mudança e ampliação.
• A antropologia enquanto uma disciplina formal nasce no contexto da Europa, 
realidade que reflete diretamente em nossa área de conhecimento. Os povos 
europeus consideravam sua sociedade enquanto superior às demais sociedades 
presentes no mundo. Criaram uma falsa crença de que a Europa representava 
um modelo ideal de sociedade para todo o restante da humanidade. Esse fato 
influiu intensamente nos rumos da disciplina, tendo vestígios dessa realidade até 
mesmo atualmente. 
• Conhecemos brevemente as cinco linhas de investigação da antropologia. Dados 
interesses de pesquisa e o contexto social, a vertente com maiores investimentos 
e adeptos no Brasil é a antropologia social e cultural. No entanto, esta propicia uma 
infinidade de possibilidades a serem estudadas.
RESUMO DO TÓPICO 1
21
1 Desde o período de fundação da Antropologia, e de acordo com a Teoria Antropológica 
Clássica e suas bases fundacionais que consideravam a existência de um tipo ideia de 
modelo de sujeito e sociedade, com relação ao conceito de eurocentrismo, assinale a 
alternativa CORRETA:
a) ( ) Trata-se da capacidade europeia de sistematizar os conhecimentos sobre a 
diversidade cultural presente no mundo durante o contexto de formação da 
antropologia.
b) ( ) Perspectiva social e cultural equivocada que compreende a cultura europeia 
enquanto modelo e padrão de civilização que deve ser seguido pelo restante do 
mundo.
c) ( ) Visão de mundo que define o continente europeu enquanto espaço de pluralidade 
cultural e social. 
d) ( ) Disciplina científica que tem como objetivo estudar a Europa. 
2 O sujeito “observador” e o sujeito “observado” são definições europeias de base ideológica, 
uma vez que esses dois polos eram atravessados por falsas hierarquias e percepção de 
“si” e do “outro” errôneas, pautadas em um projeto de dominação e exploração. Com base 
nessa realidade, analise as sentenças a seguir:
I- O “observador” e o “observado” não se tratava de uma definição imutável, esses papéis 
variavam e se intercalavam de acordo com os interesses geopolíticos em pauta naquele 
período.
II- O europeu se considerava superior e, por consequência, legitimo sujeito “observador” 
enquanto atribuía aos demais povos o status passivo de sujeito “observado”. 
III- A prática da observação, sistematização de informações e registro escrito era inerente 
e compartilhada por todas as culturas.
 
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e IIestão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.
AUTOATIVIDADE
22
3 A disciplina de antropologia é dividida em linhas de pesquisa que variam em termos de 
interesse conforme os diferentes países em que a antropologia é estudada, em relação 
às diferentes linhas de pesquisa e investigação em antropologia, classifique V para as 
sentenças verdadeiras e F para as falsas:
( ) A antropologia social e cultural investiga a partir de solos e registros todo e qualquer 
resquício de ação e/ou movimentação humana em determinado território. Seu trabalho 
minucioso analisa possíveis objetos presentes no solo, assim como busca a partir de 
sua pesquisa recuperar questões ligadas a sociedades desaparecidas com o passar 
do tempo. Essa linha de estudos se aproxima fortemente da arqueologia. A entidade 
tem como objetivo a inserção da Engenharia de Produção na comunidade científica e 
produtiva no sentido de promover o desenvolvimento social. 
( ) Extremamente importante para o patrimônio imaterial da humanidade se estabelece 
a antropologia linguística. Esse ramo da antropologia procura compreender a partir 
da linguagem e suas expressões o modo com que distintos grupos sociais/culturais 
externalizam inquietudes, juízo de valores e demais questões que são da ordem dá 
comunicação humana.
( ) A antropologia linguística tem como objeto de investigação o modo como opera, 
processa e constitui as questões da psique humana. Trata-se da análise de 
comportamentos, levando em conta os fatores totais da existência humana como 
a sociedade e a cultura. Se nutre da integração de sistemas culturais e sociais, 
bem como perspectivas de análises antropológicas sem as quais não seria possível 
desenvolver sua análise.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – F – F.
b) ( ) V – F – V.
c) ( ) F – V – F.
d) ( ) F – F – V.
4 A observação é central na prática antropológica. Observamos o mundo a nossa volta 
desde o momento em que nascemos. Escolha um local de sua preferência, pode ser uma 
praça, mercado, praia, hospital, teatro, enfim, um espaço onde as pessoas transitem. Leve 
consigo um caderno e uma caneta. Pelo máximo de tempo possível observe o espaço. 
Procure atentar-se ao máximo sobre elementos do local. Observe o fluxo de pessoas, 
tempo de permanência, práticas compartilhadas (exemplo: em uma praça de esportes 
muitas pessoas andam de bicicleta), perfil geral dos frequentadores. Durante o tempo 
de observação, registre em seu caderno as questões observadas. Convide alguém 
de seu convívio social e leia sua descrição para essa pessoa. Não diga qual local está 
descrevendo, apenas faça a descrição. É importante que a pessoa escolhida também 
conheça o local que você realizou o exercício de observação. Ao final da leitura, pergunte 
a ela se a descrição lhe pareceu com algum lugar familiar. Observar e registrar são tarefas 
de suma importância em nosso trabalho. Sempre que possível repita o exercício, com o 
tempo você perceberá melhoras significativas em relação a essa prática. 
23
5 A observação e os registros em antropologia não são práticas exclusivas de nosso 
sentido visual. Os sons, cheiros, barulhos e imagens são elementos que constituem a 
observação. É importante que você, futuro antropólogo, consiga realizar observações 
e registros que incluam todos esses sentidos. Escolha um local de sua preferência e 
realize um exercício descritivo que inclua sons e aromas em seu exercício de observar. 
Enquanto antropólogos, observamos o mundo com os olhos, ouvidos, narizes e mãos. 
Extrapole a visão e crie uma descrição capaz de levar o leitor ao seu local de observação.
24
25
VIAJANTES
1 INTRODUÇÃO
Acadêmico, em nosso Tópico 2, você compreenderá a respeito dos impactos 
causados pelas grandes embarcações coloniais em nossa disciplina. Uma vez que, fruto 
dos interesses postos e das interações sociais emergidas nesse período, intensificam-se 
as especulações sobre as questões relacionadas às diferenças entre os homens e suas 
particularidades culturais e sociais, bem como a necessidade de situar e sistematizar 
conhecimentos científicos a respeito dessas populações consideradas “outras”. Assim, 
na medida em que aumentavam os questionamentos em torno dessas supostas 
diferenças, o cenário de pesquisa se mostrava cada vez mais promissor e necessário. 
Passando, assim, a apresentar um terreno fértil em relação às investigações movidas 
por interesses variados em termos de conhecimento, sobretudo, a respeito do homem 
e de sua cultura. 
Nesse período histórico, inaugura-se uma nova maneira de observar, registar e 
projetar o mundo e as diferenças presentes nas diversas regiões do globo terrestre. O 
homem, seus territórios e suas dinâmicas sociais e culturais passaram a ser observados 
por um olhar que hoje pode ser compreendido como uma perspectiva antropológica. 
Imagine só, um mundo ainda pouco conhecido, abundante em matérias primas de 
extremo valor, populações com hábitos e costumes consideravelmente diferentes e 
uma possibilidade de exploração sem fim. Esse era o palco perfeito para investimentos 
em ciência, projetando o controle e dominação dessas pessoas e territórios. Importante 
apontar que esses interesses de modo algum eram ingênuos. Estavam postos em 
jogo uma infinidade de relações de poder, dominação e exploração. Assim, movidos 
pelo entusiasmo e interesses econômicos nunca vistos, os viajantes e aqueles 
que patrocinavam essas embarcações, passaram a compor um novo contexto de 
descobertas, exploração e relações. 
Dessa maneira, durante o século XVI, conjuntamente ao surgimento do 
pensamento Renascentista e do contexto dos viajantes, houve uma ampliação na 
perspectiva científica a respeito do mundo; e, mesmo que o foco da antropologia esteja 
diretamente relacionado a temas culturais e sociais, é importante compreender que 
esse contexto histórico contribuiu substancialmente para uma série de transformações 
e avanços em termos científicos. 
UNIDADE 1 TÓPICO 2 - 
26
Essas viagens contribuíram de modo significativo para descobertas e 
sistematização de conhecimentos ligados à Geografia, Cartografia, Meteorologia, 
Biologia, dentre outros influenciados por esse momento, bem como devido às chances 
de observação propiciadas pelas viagens transatlânticas. Nossa disciplina tem consigo 
um forte caráter interdisciplinar, pois todas as outras disciplinas de uma maneira ou de 
outra incidem na cultura, tema central de nossas pesquisas. 
Você já imaginou qual a relevância prática do contexto das grandes navegações 
para nossa disciplina? Espero que tenham fôlego para tamanha viagem! Vamos lá?
2 GRANDES NAVEGAÇÕES: A IMPORTÂNCIA 
DOS CONTATOS E REGISTROS 
 
Neste momento, algumas das questões a muito tempo consolidadas em 
nosso imaginário irão cair por terra: isso mesmo, conheceremos uma realidade nunca 
imaginada! Existe uma narrativa social que aponta a Europa como responsável por 
inaugurar as grandes aventuras pelos mares, mas, acalme-se, esse é um erro clássico 
do senso comum. Trata-se de mais uma das tantas questões equivocadas que são 
reproduzidas ao longo do tempo a respeito das viagens exploratórias. Enquanto futuro 
antropólogo, é fundamental que você tenha sempre em vista o compromisso de verificar 
as informações que lhe chegam por meio de uma pesquisa criteriosa. É indispensável 
consultar as fontes, assim como sua confiabilidade. Seu ofício enquanto pesquisador 
em antropologia requer muita atenção e cuidado com relação aos processos culturais 
e sociais ao longo da história. Um antropólogo não deve, de modo algum, tomar nada 
como verdade, antes é necessário consultar minuciosamente os fatos e suas fontes. 
Segundo Souza (2007), antes de obterem sucesso em suas travessias 
oceânicas, muito do que se conheciam a respeito de terras que ficavam nos “além-
mares”, distantes da Europa, e, por consequência, ainda não exploradas,

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