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Indaial – 2023
AntropologiA e 
SociologiA
Prof. Kelvin Custódio Maciel
Prof.a Luciane da Luz
Prof. Pedro Fernandes Leite da Luz
3a Edição
Copyright © UNIASSELVI 2023
Elaboração:
Prof. Kelvin Custódio Maciel
Prof.a Luciane da Luz
Prof. Pedro Fernandes Leite da Luz
Revisão, Diagramação e Produção:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri 
UNIASSELVI – Indaial.
Impresso por:
M152a
Maciel, Kelvin Custódio
Antropologia e sociologia. / Kelvin Custódio Maciel; Luciane da Luz; 
Pedro Fernandes Leite da Luz. – Indaial: UNIASSELVI, 2023.
192 p.; il.
ISBN
ISBN Digital
1. Antropologia filosófica. - Brasil. I. Maciel, Kelvin Custódio. II. Luz, 
Luciane da. III. Luz, Pedro Fernandes Leite da. IV. Centro Universitário Leonardo 
Da Vinci.
CDD 128
ApreSentAção
Prezado acadêmico! Bem-vindo ao estudo de Antropologia e Socio-
logia, que vai lhe auxiliar em uma melhor compreensão do que consiste a 
Ciência Antropológica, como se situa no campo das Ciências Sociais, quais 
são seus objetos de estudo e quais os métodos de que se vale para o entendi-
mento dos fenômenos relativos aos seres humanos. 
Também é nosso objetivo familiarizá-lo com as teorias antropológicas, 
as principais discussões nesta área de conhecimento e como se enfocam e 
refletem acerca da dimensão religiosa da vida humana. 
Na Unidade 1 nós definiremos o que é Antropologia, explicitaremos 
as etapas do fazer antropológico, os principais conceitos da área e o método 
específico desta disciplina. 
Na Unidade 2, nós travaremos contato com as principais teorias 
antropológicas e veremos como elas se relacionam com o desenvolvimento 
histórico da disciplina, também veremos alguns dos principais temas 
relacionados à investigação da Antropologia. 
Na unidade 3, será abordado as principais discussões acerca da 
antropologia filosófica, desde os gregos antigos até as formulações modernas. 
Serão privilegiados, nesta unidade, autores e textos considerados “clássicos” 
no percurso da história da filosofia, embora não exista uma lista universal que 
forneça quais seriam os “clássicos”. Com certeza, os autores, aqui apresentados, 
contribuem muito para o objetivo desta unidade: discutir uma visão geral sobre 
a perspectiva histórica da antropologia filosófica no ocidente. 
A terminologia antropologia é um conceito recente na história da 
filosofia, mas que abarca uma amplitude de pensamento que se inicia na 
Grécia Antiga, há mais de dois mil anos, nas primeiras civilizações do ocidente. 
A consolidação do termo se deu graças ao filósofo alemão Immanuel Kant, 
que intitulou uma de suas obras Anthropologie in Hinsicht (Antropologia de 
Um Ponto de Vista Pragmático), de 1798. Kant define a antropologia como a 
doutrina do conhecimento do homem ordenada sistematicamente. 
Portanto, quando nos referimos à antropologia filosófica, temos que 
ter em mente que se trata de uma ciência que tem, por objeto, o homem, em 
seus fundamentos últimos. Há dois usos clássicos do termo antropologia que 
fazem parte de outros campos do conhecimento. Por exemplo, as Unidades 
1 e 2 tratam da antropologia sob a perspectiva etnológica, cultural, ou seja, 
quando olhamos para o homem sob o ponto de vista da sua origem histórica, 
e a antropologia física ou empírica, que tem, por prerrogativa, o estudo do 
homem sob o ponto de vista físico-somático. Evidente que existem muitas 
teorizações sobre a antropologia, haja vista a polissemia do termo, além do 
seu emprego nas ciências humanas. 
Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para 
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há 
novidades em nosso material.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é 
o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um 
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. 
O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova 
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também 
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.
Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, 
apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade 
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. 
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para 
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto 
em questão. 
Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas 
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa 
continuar seus estudos com um material de qualidade.
Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de 
Desempenho de Estudantes – ENADE. 
 
Bons estudos!
NOTA
Nesta última unidade, iremos nos orientar sob o sentido filosófico 
do termo antropologia, cuja tarefa primordial é responder à pergunta: O 
que é o homem? Propomos a você, acadêmico, um convite a embarcar nessa 
aventura antropológica, que se inicia a partir do seu esforço em estranhar, 
pôr em questão o mundo que se apresenta como “natural”, ou seja, 
produto do processo de socialização dos homens em um tempo e espaço 
específicos. Nesse sentido, além de apresentar diferentes visões de homem 
sob a perspectiva da antropologia filosófica, você terá a liberdade de pensar 
e compreender sobre si mesmo, uma experiência verdadeiramente filosófica.
Prof. Kelvin Custódio Maciel
Prof.a Luciane da Luz
Prof. Pedro Fernandes Leite da Luz
Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela 
um novo conhecimento. 
Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro 
que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá 
contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementares, 
entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento.
Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.
Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!
LEMBRETE
Sumário
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO .....................................................1
TÓPICO 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA ....................................................................................... 3
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 3
2 A ANTROPOLOGIA ENQUANTO CIÊNCIA .............................................................................. 7
3 A ANTROPOLOGIA NA PRÁTICA ................................................................................................ 9
RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 12
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 13
TÓPICO 2 — ETNOGRAFIA, ETNOLOGIA, ANTROPOLOGIA CULTURAL E 
ANTROPOLOGIA SOCIAL ...................................................................................... 15
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 15
2 ETNOGRAFIA .................................................................................................................................... 15
3 ETNOLOGIA ...................................................................................................................................... 18
4 ANTROPOLOGIA CULTURAL .....................................................................................................refletem as diversas 
abordagens da disciplina ao problema colocado pela existência humana. Esta 
pode ser analisada a partir de diferentes enfoques, considerando-se a cultura 
como o conjunto de ideias que apresentamos, relativa, portanto ao domínio do 
conhecimento e da filosofia; as crenças que professamos, ligadas aos sistemas 
religiosos e as superstições; os valores que nos guiam, dizendo respeito ao campo 
da ideologia e da moral; as normas que seguimos, relacionadas aos costumes 
e as leis; nossas atitudes, reveladoras dos nossos preconceitos e postura diante 
do outro; os padrões de conduta usuais de nossa sociedade; a abstração do 
comportamento, isto é, os símbolos expressivos para nós; as instituições sociais, 
como família e sistema econômico; as técnicas, referente a nossa habilidade e arte 
e por fim os artefatos que produzimos (MARCONI; PRESOTTO, 2001).
A cultura determina nossos comportamentos e crenças.
FIGURA 31 – RITO RELIGIOSO DOS POVOS XINGUANOS
Fonte: . Acesso em: 24 abr. 2015.
38
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
Aqui, prezado acadêmico, é preciso ter em mente que a cultura é algo que 
nos distingue enquanto espécie e que ela mesma é fruto das pressões evolutivas 
que nos forjaram. Ou seja, a cultura é algo próprio do ser humano, foi no processo 
de nos tornarmos humanos, através das mutações genéticas que levaram ao 
surgimento de nossa espécie, que nós desenvolvemos este extraordinário 
mecanismo adaptativo que é a cultura. Entretanto, foi esta mesma cultura que 
nos permitiu escapar dos determinismos biológicos. 
 
Assim o ser humano voa sem ter asas, cruza os oceanos sem ter escamas 
nem barbatanas, nada embaixo d´água sem ter guelras, mora no ártico sem ter 
pelagem espessa e realiza uma série de atividades para as quais sua natureza 
biológica não o preparou, mas cuja possibilidade se abriu a partir da cultura.
 
Para Hoebel e Frost (2006) a cultura consistiria em um sistema integrado 
de padrões comportamentais aprendidos na vida social e que são típicos de 
uma determinada formação social, não sendo, portanto, fruto de uma herança 
biológica. Isto coloca a questão de a cultura ser, em sua essência, não instintiva, 
ou seja, as diferentes expressões culturais não são inatas, mas totalmente 
arbitrárias, isto é, fruto do engenho e do desejo humano. Muito embora a cultura 
seja comportamento apreendido, ela é também, como dissemos antes, parte de 
nossa natureza, tanto quanto o andar bípede e a postura ereta que nos distingue.
 
Entre nós seres humanos a cultura sobrepuja inteiramente os instintos, é 
através do processo de socialização, no convívio com outros seres humanos, que 
nós aprendemos como satisfazer nossas necessidades básicas e é a cultura que 
determina a forma pela qual nós o faremos. Somente vivendo em sociedade que 
podemos desenvolver as habilidades necessárias à nossa sobrevivência, através 
do aprendizado de uma determinada cultura.
 
Vamos dar um exemplo para tentar clarificar este ponto para você 
acadêmico da UNIASSELVI. 
 
Todos os seres vivos têm que se alimentar, esta é uma necessidade 
básica inescapável, procurar alimento é instintivo em todas as espécies. Mas e 
entre nós? Embora seja um imperativo da natureza ingerir alimentos, aquilo 
que nós consideramos como um alimento próprio, as maneiras pelas quais nós 
os ingerimos, quando, na companhia de quem, de que forma e outras tantas 
variáveis, são aprendidas em sociedade pelo processo de endoculturação, isto é, 
através da introjeção no indivíduo da cultura da qual ele faz parte. 
 
Desta forma enquanto que em certos países asiáticos é perfeitamente 
lícito e desejável comer carne de cachorro, nos países do ocidente este fato é 
fortemente condenado pela cultura dos membros destas sociedades. Se em nosso 
país jamais ingeriríamos carne de caracol, na França esta é uma iguaria apreciada. 
Em determinados países africanos come-se com as mãos, enquanto que entre 
nós faz-se o uso de talheres, já na China come-se com o auxílio de duas varetas. 
TÓPICO 3 — CULTURA, ETNOCENTRISMO E RELATIVISMO CULTURAL
39
Se entre nós comer sozinho é um ato normal, entre os Hüpda (povo indígena 
da Amazônia) ingerir algum alimento sem a companhia, ou o oferecimento a 
outrem, é uma ofensa grave. Nas grandes cidades é costume almoçar ao meio 
dia, já nos seringais do Acre o almoço é uma refeição tomada por volta das 10 h 
da manhã. Nenhum destes comportamentos é instintivo, mas antes determinado 
pela cultura dos diferentes povos que os apresentam.
A cultura determina nossa alimentação, não os instintos.
FIGURA 33 – BANCA DE INSETOS VENDIDOS COMO ALIMENTO NA TAILÂNDIA
FONTE: . 
Acesso em: 28 abr. 2015.
Esperamos que sua compreensão de cultura por agora seja suficiente para 
nós aprofundarmos alguns assuntos relacionados com este tema. 
 
Um importante aspecto da cultura está em seu caráter simbólico, que 
se transmite preferencialmente através da linguagem, o método propriamente 
humano, não instintivo de transmitir ideias, emoções e desejos (HOEBEL; 
FROST, 2006, p. 19). Desta forma a cultura se expressa por meio de um conjunto 
de símbolos significantes que dão conteúdo a cultura da qual fazemos parte e que 
são aprendidos no processo de se adquirir a cultura de nosso grupo.
 
Nós seres humanos adquirimos a cultura da sociedade em que vivemos 
e a compreensão dos símbolos que dão expressão a ela, através de um processo, 
já mencionado aqui anteriormente, denominado de endoculturação. Mas no que 
ela consiste?
40
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
FIGURA 34 – A CULTURA ADQUIRE-SE DURANTE A VIDA SOCIAL DO INDIVÍDUO. EM NOSSA 
SOCIEDADE A ESCOLA É UM DOS ESPAÇOS PRIVILEGIADOS NESTE PROCESSO
FONTE: . 
Acesso em: 28 abr. 2015.
Endoculturação consiste no processo que se dá desde a infância e por 
toda a vida, nunca cessando, de aprendizado da cultura que fazemos parte e que 
estrutura o condicionamento de nossa conduta, conferindo assim estabilidade 
aquela cultura a qual pertencemos (MARCONI; PRESOTTO, 2001). É através 
do processo de endoculturação que a sociedade controla os atos, atitudes e 
comportamentos de seus membros, impedindo que ajamos de forma diferenciada 
em relação à nossa cultura, mas antes de acordo com ela. 
 
Todos nós adquirimos as crenças, o modo de vida, os valores e 
comportamentos da cultura a qual pertencemos, mas não dominamos todos 
os aspectos dela, uma vez que participamos diferentemente de nossa cultura, 
conforme nossa faixa etária, classe social, educação recebida, grupos sociais dos 
quais fazemos parte e trajetória de vida, entre outros condicionantes.
 
Desta forma embora faça parte de nossa cultura tocar violão, jogar 
futebol ou fazer cálculos matemáticos, nem todos temos estas habilidades ou as 
desenvolvemos plenamente. Entretanto, todos nós adquirimos ao longo da vida 
certos conhecimentos básicos de nossa cultura que nos permite socializar com 
seus diferentes membros. 
 
Consistindo a cultura em normas comportamentais ou de costumes, 
conforme Marconi e Presotto (2001), poderíamos classificar as normas em três 
classes distintas, condicionadas pelo nível de participação dos indivíduos nestas. 
Desta forma teríamos normas universais, especializadas, alternativas e aquelas 
sujeitas à variabilidade individual. 
 
Variando de uma sociedade a outra os padrões de conduta de uma 
determinada cultura apresentam coerência e coesão para todos os membros da 
sociedade no nível das normas universais desta cultura. Seriam aquelas normas 
determinantes de ideias, costumes, reações emocionais e comportamentos que se 
apresentam em comum para todos os membros daquela cultura. Nas sociedades 
TÓPICO 3 — CULTURA, ETNOCENTRISMO E RELATIVISMOCULTURAL
41
simples estas normas são predominantes e se expressam através da língua, dos 
padrões morais dominantes e dos valores que orientam a vida social naquele 
grupo. As normas culturais universais, isto é, comum a todos os membros de uma 
determinada cultura, abarcam assim as tradições, os usos, as ideias, os costumes 
e as práticas que são compartilhados igualmente por todos.
FIGURA 35 – O CUMPRIMENTO, UMA NORMA COMPARTILHADA POR TODOS EM NOSSA CULTURA
FONTE: . Acesso em: 28 abr. 2015.
Já as normas especializadas consistiriam naquelas que são praticadas e 
seguidas por um determinado grupo que compõe aquela sociedade. Estas normas 
podem até ser aceitas e de conhecimento dos outros membros daquela cultura, 
mas não são praticadas, em função deles não pertencerem a grupos específicos que 
formam o tecido social. Estas normas condicionam padrões de comportamento 
de um determinado segmento especializado daquela cultura, consistindo em 
capacidades e conhecimentos interdependentes, de forma recíproca, associados 
a partes distintas da sociedade. Seriam os conhecimentos técnicos diversos e as 
diferentes habilidades necessárias ao funcionamento da sociedade apresentadas 
por segmentos especializados desta, como o xamã, ou curandeiro, a liderança 
política, ou, nas sociedades complexas, o médico, o engenheiro, ou o músico, 
por exemplo. Este conjunto de conhecimentos e habilidades, embora não sejam 
compartilhados por todos, são aceitos e conhecidos por toda a sociedade e 
possibilita a esta desenvolver as atividades necessárias à sua manutenção. Assim 
vemos que um indivíduo jamais poderá adquirir todos os elementos que fazem 
parte de sua cultura, participando diferentemente destes conforme sua faixa 
etária, gênero, profissão etc. (MARCONI; PRESOTTO, 2001).
42
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
FIGURA 36 – O SACERDOTE, UM PAPEL SOCIAL ESPECIALIZADO NAS DIFERENTES CULTURAS
FONTE: . Acesso em: 28 abr. 2015.
Existem igualmente certas normas ou padrões de cultura que não são 
universais, nem restritos a grupos especializados, mas que antes se apresentam 
como alternativas a todos os membros daquela sociedade em determinadas 
situações onde elas se admitem. Estas alternativas variam e são sujeitas à livre 
escolha do indivíduo consistindo naquele espaço de manobra dentro de uma 
determinada cultura à expressão do indivíduo que dela faz parte. A cultura 
fornece várias alternativas de conduta diante de certas situações, fica a critério do 
indivíduo sua adesão a elas ou não. Quanto maior e mais complexa a sociedade, 
maior as possiblidades alternativas que apresenta a seus membros. Poderíamos 
exemplificar com a possibilidade, em nossa cultura, de aderirmos a uma dieta 
vegetariana ou não.
 
Por fim todos nós apresentamos condutas e comportamentos que são frutos 
de nossa vivência própria de nossa cultura e que são condicionados por nossa 
trajetória individual, consistindo nas diferentes peculiaridades do indivíduo, em 
nossas características pessoais, não sendo compartilhadas por outras pessoas de 
nosso grupo. 
 
Em uma determinada cultura os universais e as especialidades 
apresentam maior estabilidade e constituem no núcleo da cultura (MARCONI; 
PRESOTTO, 2001) determinando a coesão e coerência desta através do 
equilíbrio entre estes dois aspectos. Notamos, entretanto, que as alternativas 
comportamentais são de grande importância para uma dada cultura, 
possibilitando sua renovação e transformação, fazendo parte assim de sua 
dinâmica de maneira definitiva e determinante.
 
Um dos aspectos da cultura é no que consiste e que tem uma existência 
espaço-temporal, localizando-se conforme sua qualidade. Vamos tentar tornar 
isto mais claro para você, nosso leitor. 
 
TÓPICO 3 — CULTURA, ETNOCENTRISMO E RELATIVISMO CULTURAL
43
Aqueles aspectos da cultura que consistem em conceitos, crenças, atitudes, 
emoções, no imaginário, e semelhantes, têm uma localização intraorgânica, ou 
seja, estão dentro do organismo humano. 
 
Já os aspectos relacionais da cultura, as diferentes formas de interação que 
apresentamos entre nós na vida social, localizam-se interorganicamente, ou seja, 
entre os organismos humanos. 
 
Por fim, as expressões materiais da cultura, os diferentes aparatos 
tecnológicos que compõem esta, como machados, computadores etc., situam-se 
fora dos organismos humanos, são localizados extraorganicamente, portanto.
 
Vimos até aqui que a cultura essencialmente consiste em ideias, abstrações 
e comportamento. Vamos clarificar um pouco mais o que são estes do ponto de 
vista antropológico.
 
Para Marconi e Presotto (2001, p. 46) as ideias que apresentamos seriam as 
“... concepções mentais de coisas concretas ou abstratas, ou seja, toda a variedade 
de conhecimentos e crenças teológicas, filosóficas, científicas, tecnológicas, 
históricas etc.” Estas autoras dão como exemplo do campo de ideias as diferentes 
línguas humanas, a arte as mitologias que são próprias de nossa espécie.
FIGURA 37 – NOSSAS IDEIAS, ASPECTO DESTACADO DE NOSSAS CULTURAS
FONTE: . Acesso em: 28 abr. 2015.
Já as abstrações que consistem na cultura seriam aqueles aspectos não 
materiais, não observáveis e não palpáveis do domínio de nossa mente, lembrando 
que a capacidade de abstrair é exclusiva de nossa espécie e componente distintivo 
da cultura, que se expressa por meio de diferentes abstrações, que adquirem 
significado e lhe dão sentido.
 
44
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
Por fim, um dos aspectos essenciais da cultura está nos comportamentos 
que ela determina, entendidos aqui enquanto maneiras de agir, ou conjunto 
de reações e atitudes comuns aos indivíduos em função de sua pertença a uma 
determinada cultura, sendo, portanto, não instintivos, mas antes resultado 
da invenção social e transmitidos e aprendidos através da linguagem e do 
aprendizado (MARCONI; PRESOTTO, 2001). 
 
Toda cultura pode ser classificada em diferentes aspectos, uma 
classificação amplamente aceita desta seria aquela que a divide entre material, 
imaterial, real e ideal. 
 
A cultura material consiste em coisas materiais propriamente, ou seja, 
em bens tangíveis (MARCONI; PRESOTTO, 2001), o que incluiria artefatos, 
instrumentos e todos os demais objetos que têm em comum o fato de serem 
produto do engenho humano, da criação humana e que refletem a tecnologia 
de uma dada sociedade. A cultura material abrangeria igualmente as 
técnicas e realizações humanas que decorrem das normas e costumes de uma 
determinada cultura.
FIGURA 38 – ALGUNS DOS ARTEFATOS CULTURAIS REPRESENTANTES DA CULTURA NEOLÍTICA
FONTE: . Acesso em: 28 abr. 2015.
Já a cultura imaterial abarca todos os elementos intangíveis da cultura, 
ou seja, aqueles que não têm substância material, a saber: as crenças, os 
conhecimentos, hábitos, aptidões, normas, valores e significados apresentados 
por uma determinada cultura e que são compartilhados por seus membros e 
tidos como verdadeiros e reais (embora sejam de fato arbitrários). 
TÓPICO 3 — CULTURA, ETNOCENTRISMO E RELATIVISMO CULTURAL
45
FIGURA 39 – ALGUNS DOS VALORES PREGADOS PELAS GRANDES RELIGIÕES
FONTE: . Acesso em: 28 abr. 2015.
A cultura classifica-se ainda como real e ideal, onde a cultura real seria 
aquela efetivamente vivenciada por seus membros no cotidiano. A cultura real 
seria a expressão na prática de uma determinada cultura, como ela se efetiva no 
mundo, através das ações de seus membros, é a cultura no plano concreto.
 
Já a cultura ideal é a cultura tal como a mesma se apresenta no discurso de seus 
membros, consistindo no conjuntode ações idealizadas por aqueles que compõem 
uma dada cultura, revelando aqueles comportamentos tidos como bons, desejáveis e 
perfeitos pelo grupo, mas que podem ou não serem efetivamente praticados. 
Embora o altruísmo seja valorizado por nossa cultura, muitas vezes nos 
comportamos de maneira egoísta. Na foto uma mulher indiana compartilha o 
pão com um morador de rua.
FIGURA 40 – CULTURA IDEAL
FONTE: . Acesso em: 28 abr. 2015.
46
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
Prezado acadêmico, já dissemos aqui anteriormente que para os membros 
de uma determinada cultura seus preceitos são tidos como reais e verdadeiros e 
que a sua cultura parece ser superior às demais. Esta atitude é universal, sendo 
uma característica própria de todos os grupos humanos. Tal fato chamou a atenção 
da Antropologia que cunhou um termo para designar este tipo de postura. Está na 
hora de nos aprofundarmos no que consiste o etnocentrismo.
3 ETNOCENTRISMO
Hoebel e Frost (2006, p. 446) definem etnocentrismo como: “Visão das 
coisas segundo a qual os valores e o modo de ser do próprio grupo são o centro 
de tudo, e todas as outras são avaliadas e julgadas com referência a ela”.
 
Para Marconi e Presotto (2001) o etnocentrismo consistiria na atitude do 
indivíduo de supervalorizar sua própria cultura contra todas as outras. Estas 
autoras prosseguem dizendo que a atitude etnocêntrica tem como característica 
o julgamento das outras culturas a partir da perspectiva da cultura da qual o 
indivíduo faz parte. Em situações extremas o etnocentrismo pode levar ao 
sentimento de superioridade e a hostilidade, e algumas vezes a agressão, àqueles 
que são diferentes por pertencerem a outra cultura. 
 
Entretanto, o etnocentrismo teria um papel positivo para o próprio grupo, 
favorecendo o ajuste individual à cultura e a coesão social, por levar os membros 
de uma determinada cultura a “considerar e aceitar o seu modo de vida como o 
melhor, o mais saudável...” (MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 52-53).
 
Toda cultura tende a considerar seus valores, crenças, hábitos, práticas 
e comportamentos como bons, justos e verdadeiros, e até mesmo naturais. Para 
os membros de uma determinada cultura aquilo que eles acreditam e praticam 
é, não só o que é certo, mas o que é natural. Desta forma as maneiras e jeitos dos 
outros grupos são inferiores, imperfeitos e até antinaturais.
Etnocentrismo.
TÓPICO 3 — CULTURA, ETNOCENTRISMO E RELATIVISMO CULTURAL
47
FIGURA 41 – PARA OS MEMBROS DE UMA RELIGIÃO AS OUTRAS PARECEM ABSURDAS
FONTE: . Acesso em: 29 abr. 2015.
Ora, mas como tem se posicionado a Antropologia face ao etnocentrismo? 
Já vimos aqui que para os antropólogos não existe nenhuma cultura superior ou 
melhor que outra. Esta perspectiva antropológica levou a disciplina a desenvolver 
um conceito e uma postura metodológica que foi denominada de relativismo 
cultural. Vamos ver o que é isto?
4 RELATIVISMO CULTURAL
Para Hoebel e Frost (2006) embora as culturas possam ter certas 
características gerais em comum, elas sempre variarão em determinados pontos 
de seus postulados básicos. De fato, as culturas diferem umas das outras em 
muitos aspectos, e algumas vezes muito significativamente. 
 
Sabemos que a humanidade é uma só, mas a variabilidade cultural é 
imensa. Povos ocupando o mesmo habitat ecológico podem apresentar crenças e 
comportamentos tão diversos entre si como aqueles de povos habitando regiões 
muito distantes uma da outra. 
 
Todas as culturas, entretanto, mostram-se suficientes para dar conta 
de orientar seus membros em suas relações com o meio ambiente e com 
os outros membros de sua e de outras sociedades, fornecendo um sistema 
coerente que modela seu comportamento e as crenças, valores e ideologias 
que lhes dão sustentação. 
 
Sob este aspecto todas as culturas são iguais e devem ser igualmente 
respeitadas e admiradas. Não que a cultura seja sempre coerente, funcional e 
harmônica, mas sempre serve como normatizadora e mediadora dos conflitos 
que por acaso apresente.
 
48
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
A Antropologia não discrimina entre as diferentes culturas, entendendo 
todas como fundamentalmente iguais em seu papel adaptativo para nossa 
espécie. A compreensão antropológica deste fato levou ao desenvolvimento do 
conceito de relativismo cultural. 
 
Segundo Hoebel e Frost (2006, p. 22), o relativismo cultural é consequência 
direta do método comparativo em Antropologia. De acordo com estes autores: “O 
conceito de relatividade cultural afirma que os padrões do certo e do errado (valores) e 
dos usos e atividades (costumes) são relativos à cultura da qual fazem parte”. 
 
 Uma consequência disto é que cada prática ou costume cultural é correto 
e válido nos termos de sua própria cultura. 
 
Para o antropólogo isto tem implicações tremendas, determinando neste 
profissional uma postura firme no sentido de não exercer um juízo sobre a cultura 
que estuda, mas antes que procure entender e ver o mundo de acordo com o povo 
pesquisado, tendo empatia por ele (como decorrência da visão humanística inerente ao 
relativismo), sem perder o rigor científico, entretanto (HOEBEL; FROST, 2006).
 
Hoebel e Frost (2006, p. 22) chegam a afirmar que sem renunciar ao 
etnocentrismo e adotar o relativismo cultural ninguém pode vir a ser um 
antropólogo, ou seja, alguém capaz de “... assumir o papel de observadores 
objetivos e não de apologistas, condenadores ou convertedores”.
Para estes autores o relativismo cultural confere determinadas 
características aos antropólogos: “sabem rir com o povo, não rir dele”, sendo 
necessário para a prática da Antropologia um respeito real e profundo pelo ser 
humano, seja ele quem for.
 
Para Marconi e Presotto (2001) o relativismo cultural fundamenta-se no 
princípio de que os indivíduos são fruto dos condicionamentos culturais (que 
determinam seu modo de vida próprio), apresentando estes assim valores e 
identidades relativos à cultura a qual pertencem. 
 
Desta forma suas crenças, costumes e práticas devem ser vistas sempre 
em relação à cultura da qual fazem parte, como partes integradas de um sistema 
que fornece o mapa para a ação e reflexão dos indivíduos ali endoculturados.
 
A postura relativista implica em considerar os padrões e os valores do 
que seja certo ou errado, dos usos e costumes, das crenças e discursos, sempre em 
relação à cultura na qual estão inseridas, e não a partir da cultura do observador.
 
Para Laraia (2004) toda cultura tem uma lógica própria e cada hábito 
cultural apresenta coerência em relação ao sistema do qual faz parte. Devemos, 
portanto, compreender cada cultura a partir de sua lógica interna.
Devemos compreender cada costume a partir da lógica da cultura onde se 
apresenta. Para as muçulmanas usar o véu é um valor positivo de sua religião e cultura.
TÓPICO 3 — CULTURA, ETNOCENTRISMO E RELATIVISMO CULTURAL
49
FIGURA 42 – RELATIVISMO CULTURAL
FONTE: . Acesso em: 30 abr. 2015.
Prezado acadêmico, para tentar facilitar sua compreensão dos 
conceitos de etnocentrismo e relativismo cultural, vamos dar um exemplo 
que ilustra bem estes dois conceitos e que é fruto de nossa experiência como 
antropólogo em campo.
 
Estivemos durante um ano e quatro meses vivendo entre um grupo 
nômade coletor-caçador do noroeste amazônico, conhecidos na literatura 
antropológica como Hüpda.
 
Neste período de nosso trabalho de campo tivemos a oportunidade de 
presenciar inúmeros deslocamentos que os Hüpda realizaram dentro de seu 
território, por motivos diversos.
 
Nestasocasiões os homens Hüpda levavam consigo apenas seus arcos 
e flechas, zarabatanas e demais armas de que dispunham, enquanto que as 
mulheres carregavam todo o peso, os pertences, víveres, utensílios e demais bens 
“carregáveis” do grupo, em cestos que portavam as costas.
 
Ao observar tal costume um desavisado poderia, a partir de uma atitude 
etnocêntrica, julgar os homens Hüpda preguiçosos, por não carregarem peso, e 
machistas, por fazerem suas mulheres carregarem o mesmo.
 
Mas um antropólogo treinado é capaz de observar este mesmo costume 
com uma posição relativista, isto é, contextualizando o mesmo na cultura Hüpda, 
para entendê-lo de acordo com a lógica desta. 
 
Assim vai perceber que durante os deslocamentos na floresta equatorial 
úmida, onde habitam, os Hüpda ficam expostos ao ataque de seus inimigos e 
de predadores deste ambiente, fazendo todo sentido, de acordo com a cultura 
Hüpda, que os homens viagem com as mãos livres, para que assim possam dispor 
rapidamente de suas armas.
 
50
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
Desta forma um ato aparentemente machista em relação às mulheres, de 
acordo com nossa cultura, revela-se um ato de cuidado e altruísmo em relação a 
elas, de acordo com a cultura Hüpda.
FIGURA 43 – ÍNDIO HÜPDA PREPARA O IPADÚ DE ACORDO COM OS COSTUMES DE SUA CULTURA
FONTE: . Acesso em: 4 maio 2015.
51
RESUMO DO TÓPICO 3
• Neste tópico nós estudamos o conceito de cultura, vendo como ele é central na 
Antropologia e como tem se modificado ao longo da história. Vimos também 
como a cultura é um mecanismo adaptativo próprio de nossa espécie, como 
determina nossas crenças, discursos, práticas, hábitos e comportamentos, nos 
orientando em nossa vida social e em nossa relação com o meio ambiente.
 
• Também discutimos o que é o etnocentrismo, vendo-o tanto pelo seu aspecto 
positivo, de conferir coesão à sociedade e adesão do indivíduo, bem como 
pelo seu lado negativo, a saber: de gerador de preconceito e hostilidade em 
relação àqueles que apresentam uma cultura diferente. Capacitamo-nos ainda 
na compreensão de que etnocentrismo consiste fundamentalmente em julgar 
as outras culturas a partir dos valores e crenças de nossa própria cultura.
 
• Igualmente foi alvo de nossa reflexão a questão do relativismo cultural, que 
compreendemos aqui como a atitude metodológica própria da Antropologia, 
fruto de seu método comparativo, de levar em conta as diferentes culturas a 
partir de sua lógica interna, despindo o olhar antropológico dos preconceitos e 
valores do observador, mas tornando-o capaz de iluminar a compreensão dos 
componentes de uma cultura.
52
Responda às seguintes perguntas:
1 É correto afirmar que o determinismo biológico é inescapável?
2 Como chamamos a atitude de julgar as outras culturas a partir das crenças 
e valores de nossa própria cultura?
3 Qual o conceito desenvolvido pela Antropologia, decorrência de seu método 
comparativo, que permite ao antropólogo estudar um traço cultural a partir 
da lógica interna da cultura do qual faz parte?
AUTOATIVIDADE
53
TÓPICO 4 — 
UNIDADE 1
O TRABALHO DE CAMPO E A 
OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE
1 INTRODUÇÃO
Prezado acadêmico, já vimos anteriormente como a Antropologia se 
inscreve entre as Ciências Sociais, destacando-se em razão de sua abordagem 
própria do fenômeno humano. 
 
Se outros ramos do conhecimento apresentam o mesmo objeto da 
Antropologia, a saber: o ser humano, é o saber antropológico que vai primar por 
uma aproximação empírica deste.
 
De fato, a Antropologia adquire sua especificidade face às outras ciências 
que tratam do ser humano, não só pelo recorte total que lhe dá, mas principalmente 
por se valer da investigação empírica em seus estudos.
 
Se em seus primórdios a Antropologia lançava mão do relato de terceiros, 
com sua evolução histórica enquanto disciplina científica a Antropologia passa 
a fazer do trabalho de campo sua marca distintiva e verdadeira “prova de fogo” 
para o exercício da profissão. 
 
Atualmente o trabalho de campo não diminuiu de importância no estudo e 
na prática da Antropologia, mas adquiriu novas dimensões, com o espaço virtual 
e outras inovações tecnológicas no relacionamento humano.
O espaço virtual apresenta-se hoje como um novo espaço de interação 
social, onde as pessoas podem interagir através de seus avatares.
FIGURA 44 – ESPAÇO VIRTUAL
FONTE: . 
Acesso em: 4 maio 2015.
54
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
Mas no que consiste, afinal, o trabalho de campo? Vamos descobrir juntos, 
prezado aluno?
2 TRABALHO DE CAMPO
Para Gomes (2013) a pesquisa, ou trabalho, de campo consiste no 
deslocamento até onde se encontra o objeto da pesquisa, para lá aplicarem-se as 
diferentes técnicas e métodos de pesquisa próprias da Antropologia.
 
De acordo com Espina Barrio (2005, p. 37), o trabalho de campo implica o 
contato prolongado e pessoal do antropólogo com o povo que estuda e deve se orientar 
pela investigação das inter-relações sociais, com o mínimo de interferência possível 
por parte do antropólogo, concentrando os esforços empíricos deste numa parcela da 
humanidade e representando um verdadeiro rito de iniciação do pesquisador. 
 
Segundo este autor ainda o trabalho de campo ultrapassa a dimensão de 
ser uma observação despida de preconceitos de uma comunidade estranha à do 
observador, mas constitui-se igualmente em uma imersão essencial na maneira 
de ser do grupo estudado.
 
Hoebel e Frost (2006, p. 5) chamam a atenção para o fato de o trabalho 
de campo ser uma característica distintiva da Antropologia, sendo ocasião da 
obtenção dos dados e teste das hipóteses desta disciplina. As Ciências Sociais 
assim têm a oportunidade de, através do trabalho de campo realizado pelos 
antropólogos, coletar informações por observação de situações existentes na 
prática, e não aquelas idealizadas experimentalmente, como em outros ramos do 
conhecimento, notadamente nas ciências exatas. 
 
O trabalho de campo confere assim cientificidade à investigação 
antropológica, através da observação empírica de seu objeto.
FIGURA 45 – O ANTROPÓLOGO BRASILEIRO DARCY RIBEIRO FAZENDO TRABALHO DE 
CAMPO ENTRE UM GRUPO INDÍGENA DO BRASIL
FONTE: . 
Acesso em: 4 maio 2015.
TÓPICO 4 —O TRABALHO DE CAMPO E A OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE
55
Trabalho de campo consiste assim em uma etapa importante do fazer 
antropológico, sendo uma verdadeira iniciação do profissional desta área na 
prática característica de sua profissão, representando o momento de coleta 
empírica dos dados com os quais o antropólogo irá trabalhar e implicando 
necessariamente o contato profícuo com o povo alvo de sua investigação.
 
O trabalho de campo antropológico destaca-se, outrossim, pelo emprego 
de uma técnica da disciplina igualmente importante no conferimento de 
especificidade face a outras ciências humanas e que se convencionou chamar de 
“observação participante”.
 
Mas no que ela consistiria exatamente, você saberia dizer, Prezado acadêmico?
O antropólogo deve procurar viver o maior número de aspectos possíveis 
da cultura estudada. Aqui um antropólogo participa de rito religioso do povo 
que investiga.
FIGURA 46 – OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE
FONTE: . Acesso em: 4 maio 2015.
3 OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE
Para Marconi e Presotto (2001) seria através da observação participante que 
o antropólogo teria a chance de viver entre o grupo estudado, podendo assim tomar 
parte de suas conversas, ritos e atividades e observar o conjunto de manifestações 
de caráter ideológico e material deste povo, bem como as maneiras pelas quais os 
indivíduos da sociedadepesquisada reagem aos estímulos psicológicos e ainda os 
mecanismos adaptativos e o sistema de valores de sua cultura. 
 
Segundo estas autoras (MARCONI; PRESOTTO, 2001), a observação 
participante implica na disponibilidade do antropólogo em permanecer em 
campo durante largos períodos, ou o suficiente, pelo menos, para a compreensão 
da cultura estudada. 
 
56
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
Esta prática demandaria do pesquisador argúcia, objetividade e uma 
atitude relativista quanto à cultura pesquisada. As técnicas associadas à 
observação participante seriam o registro sistemático das atividades e práticas 
observadas, tanto por meio do diário de campo do pesquisador, quanto de fichas, 
fotografias, gravações, filmes e demais meios disponíveis.
 
Para Gomes (2013) a observação participante seria o método mais 
associado à Antropologia e distinção desta entre as ciências humanas. Para este 
autor malgrado o método de observação participante ser difícil de aplicar, seria 
de grande importância para nossa disciplina e representaria a própria diferença 
entre ser ou não antropólogo.
 
Segundo Gomes (2013, p. 53), observação participante consiste em “o 
pesquisador buscar compreender a cultura pela vivência concreta nela, ou seja, 
morar com os ‘nativos’, participar de seus cotidianos, comer suas comidas, se 
alegrar em suas festas e sentir o drama de ser de outra cultura - tudo isso na 
medida do possível.”
 
A ideia por detrás deste método, tão característico da Antropologia, está 
em considerar que o estudo de uma determinada cultura é privilegiado (ou 
em última análise, somente possível) através da imersão nesta mesma cultura. 
Assim, não seria suficiente observar os fenômenos sociais e anotar os comentários 
dos que deles participam, tampouco basta conhecer a produção documental e 
ideológica da cultura pesquisada, é preciso, antes de tudo, vivenciá-la!
 
Fundamental para a vivência profícua e empática junto a outro povo é 
o relativismo cultural, somente através dele pode o antropólogo pretender se 
despir de seus preconceitos e adotar uma atitude objetiva que resulte em dados 
proveitosos para a reflexão antropológica.
 
A observação participante demanda a contínua presença do antropólogo 
junto a seus informantes, num contato próximo que exige confiança, 
reciprocidade e compromisso por parte do pesquisador e que tem o potencial 
de gerar compreensão solidariedade e expectativas entre ele e o povo estudado 
(GOMES, 2013). 
 
Para a apreensão do sentido de uma cultura para seus membros é 
necessária a interação da subjetividade do antropólogo com a de seus informantes, 
este momento se dá na observação participante. Esta exige autoconhecimento 
por parte do antropólogo e renova o mesmo através da pressão de viver em 
outra cultura. 
 
Num primeiro momento a observação participante pode implicar um 
desconforto em face da cultura observada que é chamado de “choque cultural”, 
resultado das diferenças entre a cultura do antropólogo e àquela que ele estuda. 
Parte da vivência do campo, esta fase é superada pelo treinamento antropológico 
e pela postura relativista.
 
TÓPICO 4 —O TRABALHO DE CAMPO E A OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE
57
Para Gomes (2013) é imprescindível na observação participante o registro 
dos fatos observados no cotidiano em um diário de campo, bem como a anotação 
neste dos sentimentos suscitados no pesquisador por suas diversas interações 
sociais junto ao grupo pesquisado. Junto com esta técnica deve-se também lançar 
mão da fotografia, filmagens, gravações etc.
 
Podemos dizer que a observação participante forja o antropólogo, 
iniciando-o em uma prática fundamental da disciplina e capacitando-o para 
seu exercício, estando implicada nesta o fazer etnográfico e o olhar próprio 
da Antropologia.
 
Para o antropólogo a observação participante fornece a convicção de que 
não basta viver com um povo para compreendê-lo, mas é preciso viver como este 
povo vive. É preciso estar entregue ao maior número de práticas culturais da 
população estudada para poder-se chegar a uma compreensão desta cultura que 
seja próxima à daqueles que dela fazem parte.
 
Através da observação participante que, mais do que se adquirir dados 
de valor científico (por estarem livres do etnocentrismo), se estabelecem laços 
humanos com a população estudada, laços estes que se mostrarão fundamentais 
para a compreensão de sua cultura.
 
É preciso que o antropólogo esteja consciente de algumas implicações da 
observação participante (VALLADARES, 2007), uma delas é o longo período de 
tempo que a mesma demanda, uma vez que para se travar conhecimento e ter-se 
compreensão do comportamento dos indivíduos e grupos é preciso observá-los 
por um período considerável de tempo. 
 
Outro aspecto a ser levado em conta é que geralmente chega-se no grupo 
sem um conhecimento prévio deste e de suas relações internas, então parte da 
observação participante é gasta somente em mapear-se o território social do 
grupo pesquisado. 
 
Como a observação participante implica a interação pesquisador/
pesquisados a qualidade da informação recolhida pelo primeiro dependerá de 
seu comportamento em relação aos segundos. 
 
Em nenhum momento o antropólogo deve procurar negar sua identidade 
de pesquisador durante a observação participante, mas antes assumi-la numa 
postura honesta e sincera em face de seus pesquisados, ainda que procurando 
participar de todas as formas na sua cultura. 
 
Para facilitar a observação participante é preciso travar relações 
privilegiadas com um membro do grupo estudado que tenha um bom trânsito 
entre este e demonstre entendimento do trabalho do antropólogo, é o que se 
chama no jargão da profissão de “informante-chave”. 
 
58
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
Para realizar uma observação participante eficaz é preciso estar com os 
sentidos aguçados e saber ouvir e escutar o povo pesquisado, aprendendo tanto 
com os silêncios, quanto com suas falas. 
 
Manter uma rotina de atividades cotidianas relacionadas com a pesquisa 
e a investigação da cultura estudada é fundamental para uma observação 
participante bem-sucedida, devendo a mesma estar conciliada com as ações 
diárias da população observada. 
 
As gafes, enganos e erros cometidos em relação à cultura estudada são 
momentos importantes do aprendizado. A reprovação social é extremamente 
representativa da cultura que a exerce, desta forma a observação participante 
deve também se dar nestes momentos. 
 
As amizades e laços feitos durante a observação participante acompanham o 
antropólogo por toda a sua vida e acontecem concomitantemente à cobrança do povo 
estudado dos resultados e benefícios resultantes da pesquisa realizada.
Na figura abaixo, o antropólogo Darcy Ribeiro vivendo entre os 
índios Kadiwéu.
FIGURA 47 – O ANTROPÓLOGO FAZENDO OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE
FONTE: . Acesso em: 6 maio 2015.
TÓPICO 4 —O TRABALHO DE CAMPO E A OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE
59
O QUE É ANTROPOLOGIA?
Antropologia é muitas vezes considerada uma coleção de fatos curiosos, 
que fala sobre a aparência peculiar de povos exóticos e descreve seus estranhos 
costumes e crenças. É encarada como uma divertida aventura, aparentemente 
sem nenhuma preocupação com a conduta de vida das comunidades civilizadas. 
Esta opinião é falsa. Mais do que isso, espero demonstrar que uma 
compreensão clara dos princípios de antropologia ilumina os processos sociais 
do nosso próprio tempo e podem mostrar-nos, se estivermos prontos para ouvir 
seus ensinamentos, o que fazer e o que evitar. 
Para provar minha tese devo explicar resumidamente o que os 
antropólogos estão tentando fazer. 
Pode parecer que o domínio da antropologia, a "ciência do homem", 
está preocupada com uma série de ciências. Oantropólogo que estuda a forma 
corporal é confrontado pelo anatomista que passou séculos em pesquisas 
sobre a forma bruta e minuciosa da estrutura do corpo humano. O fisiologista 
e o psicólogo dedicam-se a investigações sobre o funcionamento do corpo e da 
mente. Existe, portanto, alguma justificativa para que o antropólogo afirme que 
ele pode acrescentar algo ao nosso conhecimento? 
Existe uma diferença entre o trabalho do antropólogo e aquele do 
anatomista, fisiologista e psicólogo. Eles lidam principalmente com a forma 
e função típica do corpo humano e da mente. As pequenas diferenças, 
como aparecem em qualquer conjunto de indivíduos são negligenciadas ou 
consideradas como peculiaridades sem significado particular, embora por vezes 
sugestivas de sua ascensão a partir de formas inferiores. O interesse centra-
se sempre no indivíduo como um tipo, e no significado de sua aparência em 
funções de um ponto de vista morfológico, fisiológico ou psicológico.
Para o antropólogo, ao contrário, o indivíduo aparece apenas como um 
importante membro de um grupo racial ou social. A distribuição e a escala das 
diferenças entre indivíduos, e as características determinadas pelo grupo a que 
cada indivíduo pertence são os fenômenos a serem investigados. A distribuição 
das características anatômicas, das funções fisiológicas e das reações mentais são 
o objeto dos estudos antropológicos. 
Pode-se dizer que antropologia não é uma única ciência, pois o antropólogo 
pressupõe um conhecimento da anatomia, da fisiologia e da psicologia do indivíduo, 
e aplica esse conhecimento aos grupos. Cada uma dessas ciências pode ser e está 
sendo estudada a partir de um ponto de vista antropológico. 
LEITURA COMPLEMENTAR
60
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
O grupo, e não o indivíduo, é sempre a principal preocupação do 
antropólogo. Podemos investigar uma raça ou grupo social no que diz respeito 
à distribuição do tamanho do corpo, medido pelo peso e estatura. O indivíduo é 
importante apenas como um membro do grupo, pois nós estamos interessados 
nos fatores que determinam a distribuição de formas ou funções no grupo. O 
fisiologista pode estudar o efeito do exercício extenuante sobre a função do 
coração. O antropólogo aceita esses dados e investiga um grupo em que as 
condições gerais de vida provocam um exercício extenuante. Ele está interessado 
no seu efeito sobre a distribuição da forma, função e comportamento entre os 
indivíduos que compõem o grupo ou em relação ao grupo como um todo. 
O indivíduo se desenvolve e atua como um membro de uma raça ou 
um grupo social. Sua forma física é determinada pela sua ancestralidade e 
pelas condições em que ele vive. As funções do corpo, quando controladas pela 
configuração corporal, dependem das circunstâncias externas. Se as pessoas 
vivem por opção ou necessidade, em uma dieta exclusiva de carne, as suas funções 
corporais serão diferentes das de outros grupos com a mesma constituição que 
vivem com uma dieta puramente vegetal; ou, inversamente, diferentes grupos 
raciais que se alimentam da mesma forma pode mostrar um certo paralelismo no 
comportamento fisiológico. Muitos exemplos podem ser dados para demonstrar 
que as pessoas essencialmente com a mesma descendência se comportam 
diferentemente em diferentes tipos de configuração social. As reações mentais 
dos indígenas do planalto ocidental, um povo de cultura simples, difere das dos 
antigos mexicanos, um povo da mesma raça, mas de organização mais complexa. 
Os camponeses europeus diferem dos habitantes de grandes cidades; os 
norte-americanos descendentes dos imigrantes diferem de seus antepassados 
europeus; os Noruegueses Vikings diferem dos fazendeiros dos estados 
noruegueses; o romano republicano de seus degenerados descendentes do 
período imperial; o camponês russo antes da revolução do mesmo camponês 
após a atual revolução. 
Os fenômenos da anatomia, da fisiologia e da psicologia são favoráveis a 
um tratamento individual não antropológico, pois parece teoricamente possível 
isolar o indivíduo e formular os problemas de variação de forma e função, de tal 
maneira que o fator social ou racial é aparentemente excluído. Isto é absolutamente 
impossível em fenômenos basicamente sociais em seu conjunto, tais como a vida 
econômica, a organização social de um grupo, ideias religiosas e artísticas. 
O psicólogo pode tentar investigar os processos mentais da criação 
artística. Embora os processos possam ser fundamentalmente o mesmo em toda 
a parte, o próprio ato de criação implica que não estamos a lidar apenas com o 
artista como um criador, mas também com a sua reação à cultura na qual ele vive, 
e de seus companheiros para os quais o seu trabalho foi criado. 
TÓPICO 4 —O TRABALHO DE CAMPO E A OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE
61
O economista que tenta desvendar os processos econômicos deve analisar 
o grupo social, e não os indivíduos. O mesmo se pode dizer do pesquisador da 
organização social. É possível tratar a organização social a partir de um ponto de 
vista puramente formal, para demonstrar, através de uma análise cuidadosa, os 
conceitos fundamentais que lhe são subjacentes. Para o antropólogo é este o ponto 
de partida para uma reflexão dos efeitos dinâmicos da organização tal como se 
manifestam na vida do indivíduo e do grupo. 
O pesquisador em linguística pode investigar a "norma" de expressão 
linguística num determinado momento e os processos mecânicos que dão origem a 
alterações fonéticas; a atitude psicológica expressada na língua; e as circunstâncias 
que causam mudanças de significado. O antropólogo é mais profundamente 
interessado no aspecto social do fenômeno linguístico, na linguagem como um 
meio de comunicação e na inter-relação entre linguagem e cultura. 
Em suma, quando se discutem as reações do indivíduo aos seus 
companheiros somos obrigados a concentrar a nossa atenção sobre a sociedade 
em que vive. Não podemos tratar o indivíduo como uma unidade isolada. Ele 
deve ser estudado em seu ajuste social, e a questão é relevante se as generalizações 
possíveis através de uma relação funcional entre dados sociais gerais e os padrões 
e expressão de vida individual podem ser descobertas; ou seja, se alguma lei 
existente geralmente válida governa a vida da sociedade. 
Uma investigação científica deste tipo está preocupada apenas com as 
inter-relações entre os fenômenos observados, da mesma forma que a física e a 
química estão interessados nas formas de equilíbrio e movimento da matéria, tal 
como aparecem aos nossos sentidos. A questão da utilidade do conhecimento 
adquirido é totalmente irrelevante. O interesse do físico e do químico centra-se 
no desenvolvimento de uma completa compreensão da complexidade do mundo 
exterior. A descoberta tem valor só do ponto de vista do lançamento de nova 
luz sobre os problemas gerais destas ciências. A aplicabilidade da experiência 
de problemas técnicos não diz respeito ao físico. O que pode ser de grande valor 
em nossa vida prática, não necessita ser interessante para ele, e o que não tem 
qualquer valor em nossas ocupações diárias lhe pode ser de grande valor. A única 
avaliação das descobertas que podem ser admitidas pela ciência pura é o seu 
significado na solução de problemas abstratos gerais. 
Embora este ponto de vista da ciência pura seja igualmente aplicado 
aos fenômenos sociais, é facilmente reconhecido que estes se referem a nós 
mesmos, pois quase todos os problemas antropológicos tocam na maioria de 
nossas intimidades. 
O curso do desenvolvimento de um grupo de crianças depende de sua 
ascendência racial, da condição econômica dos seus pais e de seu bem-estar 
geral. O conhecimento da interação desses fatores pode dar-nos o poder de 
controlar o crescimento e garantir as melhores condições de vida para o grupo. 
Todas as estatísticas vitais e sociais estão tão intimamente ligadas às políticas a 
62
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
serem adotadas ou a serem descartadosque não é muito difícil perceber por que 
o interesse em nossos problemas, quando considerados apenas a partir de um 
ponto de vista científico, está relacionado com a prática valores que atribuímos 
aos resultados. 
É objeto de as páginas seguintes discutir problemas da vida moderna à 
vista dos resultados dos estudos antropológicos a partir de um mero ponto de 
vista puramente analítico. Para isso, será necessário adquirir clareza em relação a 
dois conceitos fundamentais: raça e estabilidade da cultura. Estes serão discutidos 
nos seus devidos lugares.
FONTE: BOAS, Franz. O que é antropologia? Revista Ensaios: “Extensões”, n. 5, v. 1, 2º semestre 
de 2011. Disponível em: . Acesso em: 28 maio 2015. Texto traduzido por Breno Rodrigo de Oliveira 
Alencar e extraído do livro Anthropology and Modern Life de Franz Boas, editado em 1962 pela 
W. W. Norton & Company, Inc., Nova York. 
63
RESUMO DO TÓPICO 4
• Neste tópico nós aprendemos que o trabalho de campo é um importante 
aspecto do ofício do antropólogo, verdadeiro rito de iniciação da profissão, e 
consiste em recolher dados empíricos acerca da cultura estudada in loco, isto é, 
em seu local de ocorrência.
 
• Também vimos que uma prática distintiva do fazer antropológico é a observação 
participante, que consiste em viver como o povo, e não somente com o povo, 
estudado, procurando o antropólogo vivenciar o maior número possível de 
aspectos da cultura que estuda, participando junto com a população pesquisada 
das atividades desempenhadas por ela.
Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem 
pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao 
AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.
CHAMADA
64
Responda às seguintes perguntas:
1 O trabalho de campo é o momento daquilo que acontece na pesquisa 
antropológica?
2 Qual a atitude necessária por parte do antropólogo em relação à cultura 
que pesquisa que se mostra fundamental para um bom exercício da 
observação participante?
AUTOATIVIDADE
65
UNIDADE 2 — 
AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E 
OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir desta unidade você será capaz de:
• apresentar as diferentes escolas antropológicas e suas múltiplas aborda-
gens, por meio de uma perspectiva cronológica;
• destacar os principais representantes das escolas antropológicas e suas 
principais contribuições ao campo de estudo; 
• apresentar as principais questões da Antropologia e como elas contri-
buem para a compreensão do fenômeno da vida em sociedade.
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você 
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.
TÓPICO 1 – ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO, 
DIFUSIONISMO E ESCOLA DA CULTURA E 
PERSONALIDADE
TÓPICO 2 – ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: FUNCIONALISMO, 
ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO, ESTRUTURALISMO, 
NEOEVOLUCIONISMO E PÓS-MODERNISMO
TÓPICO 3 – GRANDES TEMAS DA ANTROPOLOGIA: UNIÃO, 
CASAMENTO E PARENTESCO
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos 
em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá 
melhor as informações.
CHAMADA
66
67
UNIDADE 2
TÓPICO 1 — 
ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO, 
DIFUSIONISMO, E ESCOLA DA CULTURA 
E PERSONALIDADE
1 INTRODUÇÃO 
Como pudemos verificar na Unidade 1 deste caderno de estudos, a 
Antropologia é uma ciência social que estuda o comportamento humano e seu 
desenvolvimento, tanto do ponto de vista cultural quanto social e biológico. Ela é 
uma ciência relativamente nova, que se institucionalizou somente no século XIX, 
mas que possui raízes que datam das primeiras grandes navegações.
Desde as primeiras incursões para as novas terras conquistadas, os 
viajantes realizaram registros de seus achados, tanto do ponto de vista dos 
aspectos físicos e ambientais, quanto da cultura dos povos. Elementos como a 
língua, a religião, a cor da pele, os hábitos alimentares, foram sendo descritos, 
pelos colonizadores, a partir de um olhar de estranhamento e comparação com 
a sua cultura própria, ou seja, a partir de um olhar etnocêntrico. Esse período é 
conhecido como Literatura Etnográfica e durou entre os séculos XVI e XIX.
Literatura Etnográfica: Trata-se de relatos de viagens (cartas, diários, relatórios 
etc.) feitos por missionários, viajantes, comerciantes, exploradores, militares, administradores 
coloniais etc. Descrições das terras (fauna, flora, topografia) e dos povos “descobertos” 
(hábitos e crenças). Primeiros relatos sobre a alteridade. Fonte: Texto adaptado de: 
Disponível em: . Acesso em: 20 jul. 2015.
NOTA
Para compreender o desenvolvimento da Antropologia como disciplina 
e como campo de conhecimento, é necessário conhecer a origem histórica destes 
estudos e suas diferentes matrizes teóricas. Assim como outras ciências sociais, a 
Antropologia possui objetos e métodos próprios que foram sendo construídos ao 
longo de sua trajetória. Por este motivo, neste tópico vamos nos concentrar nas 
principais correntes teóricas, iniciando pelo Evolucionismo. 
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
68
2 A ESCOLA EVOLUCIONISTA 
Você já ouviu falar sobre a Teoria da Evolução das Espécies do naturalista 
Charles Darwin? Esta foi uma das teorias que mais influenciou o campo das 
Ciências Sociais, no século XIX. Vejamos a seguir:
A Escola Evolucionista é fortemente influenciada pelas descobertas das 
outras ciências, como o caso da biologia. As teses de Charles Darwin (1809-1882), 
por exemplo, sobre a Evolução das Espécies, a partir de pesquisas efetuadas nas 
ilhas Galápagos – Oceano Pacífico –, influenciaram profundamente as ciências 
sociais no século XIX, entre elas a antropologia. Darwin concluiu que para 
sobreviverem as espécies animais se adaptavam ao meio em que viviam e que os 
mais fortes seriam aqueles que melhor se adaptassem, e os mais fracos estariam 
condenados a se extinguirem. Pesquisando os animais dessas ilhas, chegou à 
conclusão de que geneticamente poderiam todos os seres vivos descender de 
uma única existência microbiana primária e que na luta pela sobrevivência se 
transformariam biologicamente de forma que se passaria essa herança genética 
às próximas gerações. Portanto, essas teses agradavam ao homem europeu, que 
se enxergava como mais desenvolvido e civilizado, no topo da escala de uma 
linha de evolução única que selecionava o mais forte. As comunidades diferentes 
dos territórios colonizados eram, nesta escala, inferiores e, portanto, passíveis de serem 
dominados e explorados. Na melhor das hipóteses, essas comunidades inferiores 
nos mostravam como havíamos evoluído e como poderíamos, se assim 
desejássemos, auxiliá-los a se desenvolverem para se equipararem a nosso 
estágio de evolução.
Evidentemente, desde cedo os antropólogos mais isentos e 
comprometidos com o estudo empírico desses povos perceberam que o 
“diferente” não evidenciava exatamente “inferioridade”, mas mais uma forma 
específica de se adaptar ao meio natural circundante. Ainda assim, por muito 
tempo, ficou a ideia de que, se tivessem condições ambientais propícias, esses 
grupos humanos avançariam na escala de desenvolvimento técnico e cultural 
até chegarem ao status dos povos europeus “mais desenvolvidos”. A Escola 
Evolucionista está profundamente envolvida com esta ideia de que, em certas 
condições de convívio com a natureza, os grupos humanos se desenvolvem 
mais ou menos rapidamente em uma mesma direção, do mais simples para o 
mais complexo, do inferior para o superior, do atrasado para o desenvolvido, 
sendo esta direção sempre determinada pelas tecnologias que se conseguem 
desenvolver na inexorável luta pela sobrevivência material. 
Fonte: Disponível em: . 
Acesso em: 30 jul. 2015.TÓPICO 1 — ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO, DIFUSIONISMO, E ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE
69
Na Antropologia, o pensamento evolucionista é inaugurado no final do 
século XIX, mas antes disso, alguns estudiosos já discutiam elementos relativos 
ao desenvolvimento das culturas, como Platão, Lucrécio, Vico, Hegel e outros. 
Eles acreditavam que as culturas se desenvolviam por meio de um processo 
evolutivo. Essa informação indica que a semente do pensamento evolucionista é 
ainda anterior à teoria da evolução das espécies de Darwin.
De maneira geral, o conceito de Evolucionismo se refere a uma corrente de 
pensamento que compreende a reprodução das sociedades humanas como resultado 
de um processo evolutivo, que tem como base mudanças progressivas que ocorrem 
lentamente e que são influenciadas pelo meio ambiente no qual habitam.
UNI
Desta maneira, todas as sociedades estariam inseridas em uma única 
narrativa histórica e em um único processo de desenvolvimento social. Lembrando 
que este desenvolvimento estava baseado no padrão de sociedade europeia. Dessa 
maneira, os estágios se dariam sempre de culturas mais atrasadas, consideradas 
selvagens/primitivas, para culturas intermediárias e, na sequência, para as 
sociedades mais desenvolvidas, como a europeia. Ou seja, esses estágios eram 
diferenciados a partir da comparação da sociedade europeia com as “outras”, nas 
mais diferentes instituições sociais, como a religiosidade, os sistemas políticos, a 
economia, a tecnologia e outras.
As instituições sociais e os costumes diferentes do modelo europeu eram 
considerados como “sobrevivência” do passado, como atraso na escala evolutiva.
Como exemplo de desenvolvimento evolutivo, podemos pensar a alteração 
gradativa de sociedades caçadoras e coletoras para sociedades agricultoras, 
ou podemos imaginar o processo de mudanças ocorridas desde os primeiros 
instrumentos utilizados para a agricultura, em relação aos instrumentos atuais. 
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
70
FIGURA 1 - REPRESENTAÇÃO DO EVOLUCIONISMO SOCIAL
FONTE: . Acesso em: 20 jul. 2015.
3 PRINCIPAIS ANTROPÓLOGOS EVOLUCIONISTAS E 
SUAS TEORIAS SOCIAIS
3.1 LEWIS HENRY MORGAN
Um dos mais conhecidos antropólogos evolucionistas era norte-americano 
e chamava-se Lewis Henry Morgan. Ele nasceu em uma fazenda no Estado de 
Nova York no ano de 1818. Ele se formou em Direito e teve papel ativo na política 
local. Foi um dos primeiros defensores dos índios americanos, especialmente os 
iroqueses, com os quais conviveu durante algum tempo. 
Os iroqueses foram um grupo nativo da América do Norte que viveu na região 
dos Grandes Lagos, ao sul de Ontário, no Canadá, onde hoje é o Estado de Nova York, nos 
Estados Unidos. Eram cinco nações — caiugas, mohawks, oneidas, onondagas e sênecas — 
que constituíam a Confederação Iroquesa. Disponível em: . Acesso em: 21 jul. 2015.
UNI
Por conhecer a realidade dos índios e também do fluxo de imigração de 
europeus para o país, compreendeu que logo a cultura dos nativos poderia ser 
extinta. Por este motivo, realizou estudos e registros de boa parte da cultura iroquesa. 
Atualmente é considerado um dos fundadores da Antropologia Moderna.
TÓPICO 1 — ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO, DIFUSIONISMO, E ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE
71
FIGURA 2 - LEWIS HENRY MORGAN
FONTE: . 
Acesso em: 25 jul. 2015.
A obra que destaca sua tendência evolucionista e também a mais importante 
se chama Ancient Society – A Sociedade Primitiva, de 1877. Neste livro, Morgan 
descreve detalhadamente a história da humanidade e a evolução da sociedade. A 
partir da descoberta de restos humanos junto com ossos de animais extintos, em 
meados do século XIX, ele mostrou que a existência da espécie humana era muito 
anterior ao que se pensava até então. Nesse livro, Morgan se dispôs a reconstruir 
a pré-história. 
Para levar a cabo a reconstrução da história da humanidade, Morgan 
partiu de dois pressupostos:
1- A história poderia ser reconstruída por deduções teóricas, obedecendo a um 
padrão lógico de transformação das instituições. Por exemplo, a promiscuidade 
tinha sido necessária na história da humanidade para que houvesse o surgimento 
da família nuclear e monogâmica, como o resultado de um processo evolutivo.
2- O conhecimento disponível sobre os selvagens contemporâneos representa 
evidências do passado das nações civilizadas.
Seu livro organiza o passado cultural da humanidade em três grandes 
etapas evolutivas: Selvageria, barbárie e civilização. A estas etapas Morgan 
acrescenta subetapas, que utiliza para compreender o processo evolutivo das 
sociedades, tomando por base as técnicas de subsistência que eram utilizadas de 
forma progressiva nas diferentes culturas. Vejamos a seguir o quadro adaptado 
do Manual de Antropologia Cultural, de Barrio (2005).
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
72
QUADRO 1 - ETAPAS EVOLUTIVAS DE LEWIS HENRY MORGAN.
Flechas
Fonte: Adaptado de Barrio (2005, p. 74).
Morgan ainda divide as duas primeiras fases de desenvolvimento em três, 
sendo configurado seu esquema evolutivo da humanidade em sete períodos:
Selvageria 
I- Etapa inferior de selvageria: desde a infância da humanidade até o início do 
próximo período.
II- Estágio intermediário de selvageria: Refere-se à aquisição de uma base de 
subsistência (pesca) e conhecimento do uso do fogo.
III- Estágio superior de selvageria: Refere-se ao período em que ocorre a invenção 
de artefatos de caça e pesca, como o arco e a flecha.
Barbárie
IV- Estágio da barbárie, que se refere à invenção da arte da cerâmica.
V- Estágio intermediário da barbárie, que se refere à domesticação de animais 
no hemisfério oriental e ocidental, a partir de cultivo de milho e plantas para 
irrigação, com o uso de adobe e pedra.
VI- Estágio superior da barbárie, que se refere ao período a partir da invenção de 
fundição de minérios de ferro e do uso de instrumentos de ferro.
Civilização
VII- Estágio que ocorre desde a invenção do alfabeto fonético e do uso da escrita, 
até o presente momento.
Nesse sentido, Morgan vai demarcando os processos pelos quais 
as sociedades menos evoluídas realizam a passagem para estágios mais 
desenvolvidos.
Além disso, Morgan parte da hipótese de que os seres humanos seriam 
inicialmente promíscuos sexualmente e que essa conduta foi sendo alterada 
de acordo com o processo evolutivo. Vejamos o que diz Barrio (2005) sobre a 
interpretação de Morgan:
TÓPICO 1 — ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO, DIFUSIONISMO, E ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE
73
Se os primatas em grande parte são promíscuos, e o homem 
civilizado é estritamente monogâmico, a evolução não pôde ser 
mais que uma progressiva limitação das possibilidades de escolha 
sexual humana. O tabu do incesto é crucial neste desenvolvimento 
e se irá opondo e ampliando devido a que, segundo Morgan, as 
sociedades se foram dando conta das vantagens genéticas de não 
realizar matrimônios consanguíneos e por isso foram desprezando 
e proibindo. (BARRIO, 2005, p. 75).
Morgan compreende que houve alteração nas relações de matrimônio, 
passando de relações poligâmicas para relações monogâmicas. Nesse sentido, a 
interpretação dos sociólogos clássicos, Karl Marx e Friedrich Engels, nos ajuda a 
compreender o fenômeno, quando eles afirmam que a introdução do pastoreio e 
da propriedade privada contribuiu para a afirmação das relações monogâmicas, 
uma vez que a poligamia geraria divisão de propriedades, com as demais famílias. 
Morgan exerceu influência considerável sobre a antropologia posterior, 
especialmente sobre os estudos relacionados com o parentesco, 
mas também sobre os materialistas culturais americanos e outros 
antropólogosevolucionistas no século XX. Sociólogos também o liam, 
porém, quando Marx, quase no fim de sua vida, descobriu Morgan, 
ele e seu companheiro Friedrich Engels tentaram integrar as ideias 
de Morgan em sua própria teoria revolucionária, pós-hegeliana. Os 
resultados incompletos desta tentativa foram publicados por Engels 
em The Origin of the Family, Private Property, and the State, em 1884, o 
ano seguinte à morte de Marx. (ERIKSEN, 2012, p. 31).
Ao mesmo tempo em que Morgan realizava seus estudos em antropologia, 
outros autores também estavam concentrados em compreender as diferentes 
sociedades humanas e seu desenvolvimento. Alguns trabalhos eram muito 
similares ao que Morgan desenvolvia e outros eram completamente diferentes. 
Na Europa, os países que se destacaram nos estudos antropológicos neste 
período foram Alemanha e Inglaterra. Vejamos a seguir os estudos de Tylor, um 
dos grandes teóricos do evolucionismo inglês.
3.2 EDWARD BURNET TYLOR 
Um dos grandes antropólogos deste período foi Edward Burnet Tylor. 
Ele era britânico, nascido em Londres, em uma família abastada de comerciantes. 
Tylor não concluiu os estudos devido às suas convicções religiosas (Educação 
Quaker). Trabalhou no comércio com seu pai e irmão durante algum tempo, mas 
logo, acometido de uma doença, viajou para recuperação em Cuba. Lá conheceu 
o etnólogo Henry Christy e com ele viajou por Cuba e México por alguns anos, 
realizando observações e estudos. 
Mais tarde, quando retornou à Inglaterra, em 1896, foi nomeado o primeiro 
professor britânico de Antropologia na Universidade de Oxford. 
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
74
FIGURA 3 - EDWARD BURNET TYLOR
FONTE: . Acesso em: 26 jul. 2015.
Tylor definiu a antropologia como a ciência da cultura e desenvolveu 
uma teoria para compreender como ocorre o processo de desenvolvimento 
dela. Para o autor, a cultura evolui num processo linear e uniforme, sendo que 
algumas culturas não conseguem acompanhar esse processo e permanecem 
paradas. Enquanto outras estariam em pleno auge do progresso, como a 
sociedade europeia. 
A partir da ideia de linearidade e uniformidade, de acordo com Barrio 
(2005), Tylor procura explicar o desenvolvimento cultural religioso, analisando o 
processo de crença e religiosidade dos povos. 
Tylor acreditava que todas as religiões ou crenças, das sociedades ditas 
civilizadas (fossem do passado ou do presente), possuíam seu equivalente nos 
grupos humanos considerados primitivos ou arcaicos. Para Tylor, na prática, isso 
significava que as sociedades civilizadas não haviam inventado nada novo nas 
religiões, mas sim apenas realizado pequenas adaptações em crenças já existentes 
de seus antepassados, de tempos remotos.
Um exemplo disso diz respeito à ideia de reencarnação da alma. Para 
Tylor, de acordo com Rosa (2010), “a metempsicose, ou seja, a transmigração 
da alma, era uma crença que se encontrava tanto em povos selvagens, da 
África, como em populações civilizadas da Ásia meridional, por exemplo”. 
Tylor reconhecia e enfatizava esses fundamentos como a pré-história da fé. O 
que se pode perceber é que não havia a alteração/substituição de uma crença 
por outra, mas a permanência de mesmas crenças, com pequenas adaptações, 
éticas, morais etc.
Para compreender a gênese da religião, ou seja, a ideia que fundamentou 
a religião primitiva, Tylor se baseou em um conceito chamado animismo.
TÓPICO 1 — ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO, DIFUSIONISMO, E ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE
75
Para Tylor, o animismo nasceu como culto aos antepassados mortos 
para passar depois a ser culto a todo o tipo de alma ou espírito 
abstrato. Da experiência do sonho em que o corpo permanece imóvel 
e inerte, mas em que se dão experiências às vezes muito vívidas, 
o primitivo “devia” inferir que depois da morte, embora o corpo 
fosse destruído, poderia continuar a existir sob alguma forma. Esta 
crença na existência de espíritos imateriais é a base do animismo 
que, segundo Taylor, foi se generalizando cada vez mais até que 
se foram associando os espíritos a algum fenômeno da natureza. O 
culto à natureza, rios, fontes, raios, vento, fogo, etc., é outro estágio 
dentro da evolução das crenças que deu origem, por progressiva 
antropomorfização, ao politeísmo característico de sociedades como 
a egípcia, grega e romana. Do politeísmo passa, finalmente, ao 
monoteísmo por depuração e progressiva racionalização da ideia de 
divindade. (BARRIO, 2005, p. 79).
O termo animismo vem da palavra latina “ânima”, que significa “alma”. 
Esse termo remete à ideia de que todas as crenças, religiões e demais expressões 
espirituais possuem uma característica fundamental comum, que é a presença da 
“alma”. Dito de outra forma, Rosa (2010) relata que Tylor acreditava que, entre 
todos os artigos de fé, o elemento “alma” tinha constituído na pré-história uma 
espécie de protótipo a partir do qual tinham sido forjadas todas as outras crenças. 
Por meio de suas inúmeras pesquisas etnográficas, Tylor fez o levantamento 
das ideias relativas ao termo alma, entre as variadas tribos e grupos sociais com 
os quais teve contato, conforme descreve Rosa (2010, p. 300):
Alma é uma imagem humana, imaterial, uma espécie de vapor, 
uma nuvem, uma sombra. É a causa da vida e do pensamento no 
indivíduo que ela anima. É dona da consciência e da vontade do seu 
possuidor corporal, presente ou passado. Pode deixar o corpo junto 
de si e viajar rapidamente. É geralmente impalpável e invisível, mas 
também suscetível de manifestar alguma propriedade física. Aparece 
aos homens durante o sono, como um fantasma separado do corpo, 
mas conservando a sua aparência. Após a morte do corpo, ela continua 
a existir e a aparecer e tem a faculdade de entrar, dominar e agir no 
corpo de outros homens, animais e mesmo em objetos inanimados.
Havia duas concepções básicas para a construção da ideia de alma, na 
visão de Tylor:
1- A personificação da natureza, na medida em que se atribui alma aos elementos 
externos, como animais, plantas, montanhas, terra etc.
2- Noção de espírito/alma separado do corpo.
De maneira geral, em sua obra mais importante, Primitive Culture – 
Cultura Primitiva (1871), ele propôs uma síntese da sua teoria evolucionista, 
que em muitos pontos se aproximava dos pensamentos de Morgan, uma vez 
que os dois se apoiavam na explicação material para compreender o processo 
evolutivo das diferentes culturas. Uma das contribuições mais importantes 
de Taylor para os antropólogos atuais é o conceito de cultura, que permanece 
coerente ainda hoje.
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
76
CULTURA, ou civilização, tomada em seu sentido amplo, 
etnográfico, é aquele todo complexo que inclui conhecimento, crença, 
arte, moral, lei, costume e quaisquer outras capacidades e hábitos 
adquiridos pelo homem como membro da sociedade. (ERIKSEN; 
NIELSEN, 2012, p. 35).
Outros autores evolucionistas poderiam ser discutidos neste tópico, 
mas acreditamos que as perspectivas de Morgan e Tylor foram suficientes 
para compreender o sentido e as principais características da Antropologia 
Evolucionista ou Evolucionismo Social.
4 A ESCOLA DIFUSIONISTA 
O Difusionismo teve início no início do século XIX e refere-se a um 
conjunto de teorias que criticou a teoria evolucionista e opôs-se ao entendimento 
de que as culturas se desenvolvem de forma linear para todas as sociedades. 
Os antropólogos difusionistas acreditavam que a cultura se constrói de forma 
multidimensional e provém de outras culturas. 
Difusão é um processo, na dinâmica cultural, em que os elementos 
ou complexos culturais se difundem de uma sociedade para outra. As 
culturas, quando vigorosas, tendem a se estender a outras, sob a forma 
de empréstimo mais ou menos consistente. A difusão de um elemento 
da cultura pode realizar-se por imitação ou por estímulo, dependendo 
das condições sociais,favoráveis ou não, à difusão. O tipo mais 
significativo de difusão é o das relações pacíficas entre os povos, numa 
troca contínua de pensamentos e invenções. (MARCONI, 2001, p. 64). 
Para reconhecer a escola difusionista é necessário levar em conta três 
postulados básicos. São eles: 
a) Método Histórico: A antropologia difusionista trabalha com o método de 
reconstituição histórica, que observa o passado e o presente.
b) Pesquisa de Campo: Ocorre de forma extensiva e é altamente aplicada, por 
meio de coleta de dados, principalmente de dados primários.
c) Formulação de Conceitos: Enriquecimento da teoria e surgimento de vários 
termos/conceitos, utilizados ainda hoje na antropologia.
O difusionismo predominou entre os anos 1900 a 1930, sendo que na 
década de 20 teve expressivo reconhecimento. Essa escola antropológica pode 
ser dividida em três correntes de pesquisa: A escola hiperdifusionista inglesa, 
que possui como expoentes os autores G. E Smith e W. J. Perry; a escola histórico-
cultural alemã-austríaca, que tem como defensores os autores F. Grabner e W. 
Schmidt; e a escola histórico-cultural norte-americana, que possui como referência 
o importantíssimo antropólogo Franz Boas.
TÓPICO 1 — ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO, DIFUSIONISMO, E ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE
77
4.1 O DIFUSIONISMO INGLÊS: A ESCOLA HIPERDIFUSIONISTA
Os primeiros a criticar a corrente evolucionista e também os mais 
importantes autores da escola hiperdifusionista, ou heliocêntrica, foram: J. Perry 
e Elliot Smith. Esta escola é considerada hiperdifusionista, porque muitos de 
seus integrantes defendiam que havia um só foco cultural para todas as culturas 
avançadas da Terra, a egípcia. 
Essa premissa baseava a atividade de pesquisa de J. Perry, pois, de acordo 
com Barrio (2005), “ele concebeu uma teoria segundo a qual há 4000 mil anos todas 
as culturas do planeta possuíam uma mesma cultura, pouco desenvolvida”. Para 
o autor, à beira do rio Nilo, devido a condições climáticas propícias, a agricultura, 
foi possível uma revolução cultural, que aos poucos se espalhou para outras 
culturas, por meio de um processo de difusão. 
Esses autores foram influenciados pelas descobertas arqueológicas no 
Egito, que demonstravam uma cultura bastante desenvolvida. Além disso, por 
compreender que os egípcios viajavam grandes distâncias à procura de ouro e 
pedras preciosas, presumiram que os egípcios também difundiam aspectos de 
sua cultura e suas invenções a outros locais do planeta, alcançando lugares como 
a América Central e ilhas do Oceano Pacífico. Por fim, sem um critério rigoroso de 
avaliação, concluíram que os costumes egípcios foram amplamente difundidos 
por todo o mundo.
Muito embora os autores tenham aprofundado seus estudos da difusão 
cultural, o mesmo não fizeram com relação ao contexto histórico, do ponto de 
vista da cronologia dos eventos ocorridos. Por este motivo, talvez, não tiveram 
tantos adeptos. 
Vejamos a seguir os dogmas que fundamentam a teoria de Elliot Smith, de 
acordo com Barrio (2005):
1- A cultura surge só sob circunstâncias exepcionalmente favoráveis, já que o 
homem é pouco criativo. É quase impossível que haja culturas distintas de 
modo independente. 
2- As circunstâncias descritas se deram no antigo Egito, por isso a cultura 
de outras regiões, excetuando aspectos singelos, deve-se ao resultado da 
difusão desta superior civilização.
3- A civilização se vai diluindo ao propagar-se a zonas marginais. A decadência 
é uma fase importante na história humana.
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
78
A teoria difusinista da cultura, de Elliot Smith, foi criticada principalmente 
pelo dogmatismo de seus pressupostos e também por ser pouco empírica. Por 
outro lado, pode-se depreender que o hiperdifusionismo foi uma teoria alternativa 
importante ao modelo evolucionista de interpretar a constituição das diferentes 
sociedades. Para o hiperdifusionismo, a cultura era interpretada como o resultado 
da difusão de elementos culturais provenientes de um centro único, o Egito.
4.2 DIFUSIONISMO ALEMÃO-AUSTRÍACO
A escola difusionista alemã-austríaca também pode ser chamada de 
histórico-cultural, histórico-geográfica e alemã. Seus principais representantes 
são: Friedrich Ratzel, Willi Foy, Fritz Graebner e Pe. Wilhelm Schmidt. Para este 
estudo vamos nos ater às contribuições de Grabner e Schmidt.
A principal caracterítica desta escola é a compreensão de que a difusão 
da cultura ocorre partindo de diversos focos culturais e não apenas de um foco, 
como preconizou a escola hiperdifusionista. Conforme destacam Marconi e 
Presotto (2001), a característica principal do difusionismo alemão-austríaco é a 
visão pluralista da origem da cultura, aceitando vários locais de evolução, que 
deram origem à sua totalidade.
Vejamos o que diz Fritz Graebner, importante representante desta escola, 
sobre a difusão da cultura: “Nesses limitados centros primários, isolados uns dos 
outros, e desenvolvendo-se independentemente, aparece uma série de complexos 
culturais que denomina “círculos”. Por difusão estes “círculos” começam a 
expandir-se, sobrepor-se e, inclusive, destruir-se”. (BARRIO, 2005, p. 88).
Graebner defendia que a cultura humana se desenvolveu por meio das 
determinações históricas e geográficas das combinações de elementos básicos 
chamados Kulturkreise (círculos culturais). Para ele, a cultura se desenvolveu em 
alguma parte do interior da Ásia, o que chamou de Urkultur (centro da cultura). 
Esse desenvolvimento ocorreu por um processo de difusão do centro, para as 
sociedades mais distantes, por meio de círculos, cada vez mais amplos, através 
do processo de imigração.
Schmitdt, em seus estudos, também descreveu a cultura atual como o 
resultado de uma difusão bastante complexa, que, em sentido contrário, poderia 
reconstruir os círculos originais primários. O esquema de Schmidt apresenta três 
fases distintas, subdivididas em nove. Este esquema apresenta certa semelhança 
com o esquema trazido pelo evolucionista Lewis Henry Morgan. Vejamos o 
quadro a seguir, adaptado de Marconi e Presotto (2001, p. 260).
TÓPICO 1 — ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO, DIFUSIONISMO, E ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE
79
QUADRO 2 – TEORIA SOBRE A DIFUSÃO DA CULTURA DE SCHMIDT
Fases Representantes
Três fases primitivas ou arcaicas Povos pigmeus, esquimós e aborígenes australianos
Três fases primeiras Povos coletores e nômades pastoris
Três fases secundárias Povos agricultores
FONTE: Adaptado de Marconi e Presotto (2001, p. 260)
A principal contribuição desta corrente de pensamento difusionista 
foi o desenvolvimento da noção de “circulos culturais”, compreendidos como 
“um conjunto de traços associados com um sentido”, podendo ser isolados e 
identificados na história cultural, difundidos por meio das trocas.
Por outro lado, houve muitas críticas em relação a essa perspectiva 
teórica. Alguns autores enfatizam que os “círculos de cultura” tratavam-se de 
generalizações e que, na maioria das vezes, não foram devidamente comprovados. 
De acordo com os críticos, os autores difusionistas não demonstraram qual 
a origem dos círculos culturais, quando e onde existiram e como puderam ser 
difundidos por áreas tão distantes.
4.3 DIFUSIONISMO NORTE-AMERICANO: FRANZ BOAS E 
O HISTORICISMO OU PARTICULARISMO HISTÓRICO
O Difusionismo norte-americano também recebeu o nome de historicismo 
ou Particularismo Histórico. Essa corrente difusionista concentrou seus estudos 
antropológicos na história da cultura e defendeu a história da cultura como 
elemento de compreensão dela mesma. Dito de outra forma, Particularismo 
Histórico refere-se ao entendimento de que toda a cultura possui sua própria 
história, que é única, e que somente pode ser compreendida a partir do estudo de 
sua própria organização. 
Alguns conceitos importantes, como traço cultural, complexo cultural, 
padrão cultural e área cultural, que são utilizados até hoje pela antropologia,21
5 ANTROPOLOGIA SOCIAL ............................................................................................................ 25
RESUMO DO TÓPICO 2..................................................................................................................... 28
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 29
TÓPICO 3 — CULTURA, ETNOCENTRISMO E RELATIVISMO CULTURAL ..................... 31
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 31
2 CULTURA ............................................................................................................................................ 32
3 ETNOCENTRISMO .......................................................................................................................... 46
4 RELATIVISMO CULTURAL ........................................................................................................... 47
RESUMO DO TÓPICO 3..................................................................................................................... 51
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 52
TÓPICO 4 — O TRABALHO DE CAMPO E A OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE ................. 53
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 53
2 TRABALHO DE CAMPO ................................................................................................................. 54
3 OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE ................................................................................................... 55
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 59
RESUMO DO TÓPICO 4..................................................................................................................... 63
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 64
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS 
DA DISCIPLINA ..................................................................................................... 65
TÓPICO 1 — ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO, DIFUSIONISMO, 
E ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE ................................................ 67
1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................. 67
2 A ESCOLA EVOLUCIONISTA ...................................................................................................... 68
3 PRINCIPAIS ANTROPÓLOGOS EVOLUCIONISTAS E SUAS TEORIAS SOCIAIS ....... 70
3.1 LEWIS HENRY MORGAN .......................................................................................................... 70
3.2 EDWARD BURNET TYLOR ....................................................................................................... 73
4 A ESCOLA DIFUSIONISTA ........................................................................................................... 76
4.1 O DIFUSIONISMO INGLÊS: A ESCOLA HIPERDIFUSIONISTA ........................................ 77
4.2 DIFUSIONISMO ALEMÃO-AUSTRÍACO ............................................................................... 78
4.3 DIFUSIONISMO NORTE-AMERICANO: FRANZ BOAS E O HISTORICISMO OU 
PARTICULARISMO HISTÓRICO ................................................................................................. 79
4.3.1 As duas principais comunidades estudadas por Franz Boas ....................................... 81
5 A ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE OU CONFIGURACIONISMO 
CULTURAL ......................................................................................................................................... 84
5.1 PRINCIPAIS REPRESENTANTES DA ESCOLA DE CULTURA E PERSONALIDADE ........ 85
5.1.1 Edward Sapir (1884-1939) ................................................................................................... 85
5.1.2 Ruth Benedict (1887-1948) .................................................................................................. 86
5.1.3 Margaret Mead (1901-1978) ................................................................................................ 87
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 89
RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 91
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 92
TÓPICO 2 — ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: FUNCIONALISMO, 
ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO, ESTRUTURALISMO, 
NEOEVOLUCIONISMO E PÓS-MODERNISMO ............................................... 93
1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................. 93
2 AS ESCOLAS FUNCIONALISTA E ESTRUTURAL-FUNCIONALISTA ............................. 93
2.1 A ESCOLA SOCIOLÓGICA FRANCESA – OS PRECURSORES DO 
FUNCIONALISMO E ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO ................................................... 94
2.2 A ESCOLA FUNCIONALISTA E SEU PRINCIPAL REPRESENTANTE: 
BRONISLAW MALINOWSKI ..................................................................................................... 95
2.2.1 Mas o que é Kula? ............................................................................................................... 96
2.3 TEORIA DAS NECESSIDADES HUMANAS DE MALINOWSKI ........................................ 98
2.4 A ESCOLA ESTRUTURAL-FUNCIONALISTA: RADCLIFFE-BROWN .............................. 99
2.5 CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE A ESCOLA FUNCIONISTA 
E ESTRUTURAL-FUNCIONALISTA ...................................................................................... 102
3 A ESCOLA ESTRUTURALISTA: CLAUDE LÉVI-STRAUSS ................................................. 103
3.1 PRINCIPAL REPRESENTANTE DA ESCOLA ESTRUTURALISTA: CLAUDE 
LÉVI-STRAUSS ........................................................................................................................... 104
3.2 RELAÇÕES SOCIAIS, ESTRUTURA E MODELOS............................................................... 105
3.2.1 Natureza e história ............................................................................................................ 106
3.2.2 Culturas simples e complexas ........................................................................................ 107
3.2.3 O que seriam os modelos consciente e inconsciente que Lévi-Strauss utiliza? ........ 107
4 A ESCOLA NEOEVOLUCIONISTA ............................................................................................ 108
4.1 LESLIE A. WHITE ....................................................................................................................... 108
5 ANTROPOLOGIA PÓS-MODERNA .......................................................................................... 110
5.1 PRINCIPAIS AUTORES ............................................................................................................ 111
RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 113
AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 114
TÓPICO 3 — GRANDES TEMAS DA ANTROPOLOGIA: UNIÃO, CASAMENTO 
E PARENTESCO ........................................................................................................ 115
1 INTRODUÇÃO ...............................................................................................................................foram formulados pelo difusionismo norte-americano. 
Os principais representantes desta corrente científica são Franz Boas, Clark 
Wissler e Alfred L. Kroeber. Neste caderno de estudos vamos tratar especialmente 
de Franz Boas, que foi, sem dúvida, o principal representante dessa escola.
Franz Boas ainda é considerado um antropólogo muito importante na 
escola da Antropologia Cultural nos Estados Unidos e na Antropologia de modo 
geral. Filho de comerciantes abastados, ele nasceu na Alemanha, de onde saiu para 
passar anos em expedições pelo norte e oeste do Canadá. Após suas incursões por 
estes países, ao invés de voltar à Alemanha, Boas decidiu permancer na América, 
provavelmente porque ficaria mais perto das comunidades estudadas por ele.
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
80
FIGURA 4 - FRANZ URI BOAS
FONTE: . Acesso em: 4 jul. 2015.
Em 1899, depois de ter trabalhado como editor de uma revista e, na 
sequência, em uma pequena universidade, Franz Boas tornou-se professor de 
antropologia na importante Universidade de Colúmbia, em Nova York. Boas, 
assim como muitos antropólogos de sua época, via com desconfiança as teorias 
evolucionistas, e, como havia trabalhado com professores alemães, tinha certa 
simpatia pelo difusionismo alemão.
Assim como outros estudiosos alemães, Boas defendia que para 
compreender o processo de desenvolvimento cultural era necessário parar de 
fazer suposições e generalizações, como no modelo evolucionista, mas observar 
empiricamente a realidade. Para ele, a tarefa do antropólogo era observar, 
coletar e sistematizar detalhadamente as culturas de forma individual. Somente 
após este extensivo trabalho de campo e análise seria possível fazer alguma 
generalização teórica. 
Ao contrário da Antropologia inglesa, que substituiu o conceito de cultura 
pelo de sociedade, Franz Boas permanceu com a ideia de cultura desenvolvida por 
Tylor. Para Boas, cultura é um conceito muito mais amplo do que o de sociedade. 
Vejamos o que diz Eriksen (2012) sobre a opinião de Boas.
Se a sociedade é constituída de normas sociais, instituições e relações, 
a cultura consiste em tudo o que os seres humanos criaram, inclusive 
a sociedade – fenômenos materiais (um campo, um arado, uma 
pintura...) condições sociais (casamento, famílias, o Estado...) e 
significado simbólico (lingua, ritual, crença...). (grifo da autora) 
A antropologia – a ciência da humanidade – dizia respeito, bem 
literalmente, a tudo o que fosse humano (ERIKSEN, 2012, p. 53)
Por este motivo, Boas dividia a abordagem antropológica em quatro 
campos distintos, sendo eles: 
Linguística, antropologia física, arqueologia e antropologia cultural. Seus 
alunos estudavam os quatro campos da antropologia e depois podiam escolher a 
área na qual aprofundariam seus estudos. Obviamente que os estudos do próprio 
Boas eram proeminentes, principalmente na área da antropologia cultural. 
TÓPICO 1 — ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO, DIFUSIONISMO, E ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE
81
Antropologia cultural: Abrange o estudo dos homens/mulheres como 
seres culturais. Investiga a cultura dos povos, considerando tempo, espaço, origem e 
desenvolvimento. Compara e analisa suas diferenças e semelhanças. Se preocupa com a 
maneira como o comportamento humano é reproduzido e os processos de aprendizagem.
UNI
Franz Boas era um professor atento e generoso. Ao contrário da maioria 
dos antropólogos, não realizava suas pesquisas de campo de modo individual, 
mas coletivamente com seus alunos e parceiros. Normalmente não permaneciam 
muito tempo no campo, como alguns antropólogos faziam, uma “imersão” 
prolongada na cultura de alguma sociedade. Franz Boas preferia retornar 
muitas vezes ao longo dos anos, nas comunidades estudadas. Trabalhou por 
muitos anos com pesquisas de campo com os inuítes e os kwakiutls da costa 
noroeste americana. 
4.3.1 As duas principais comunidades estudadas 
por Franz Boas 
a) SOCIEDADE INUÍTE
Os inuítes, também chamados pelos visitantes de esquimós, são povos 
que habitam a Ilha Baffin, localizada em território canadense, no Ártico. A 
origem deste grupo data de 4.000 anos. As relações que desenvolveram com o 
ambiente inóspito resultaram em uma cultura enraizada, que os fez desenvolver 
conhecimentos, habilidades e tecnologias próprias, adaptadas ao ambiente 
em que vivem. No período em que foram pesquisados por Boas, ainda viviam 
exclusivamente da caça, da pesca e do comércio de peles com alguns europeus. 
Até 1940 ainda tinham pouco contato com o restante do Canadá, mas atualmente 
recebem apoio em todas as esferas institucionais, como escolas, saúde e governo. 
Sua atividade econômica está mais variada, trabalham em vários setores, incluindo 
o setor de construção, as mineradoras, as empresas de extração de petróleo e 
gás. Além disso, possuem atividades administrativas e no governo. No entanto, 
muitos inuítes continuam a realizar a caça e pesca como incremento na renda.
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
82
FIGURA 5 - SOCIEDADE INUÍTE
FONTE: . 
Acesso em: 20 jul. 2015.
b) SOCIEDADE KWAKIUTL OU KWAKWAKA'WAKW
Os kwakiutl são índios norte-americanos, que vivem no Canadá, ao 
longo das margens dos cursos de água entre a Ilha de Vancouver e o continente. 
O nome kwakiutl foi difundido por Franz Boas, e é normalmente utilizado 
por pessoas de fora da sociedade. As 15 tribos que a compõem se denominam 
Kwakwaka'wakw (aqueles que falam a língua Kwak’wala) - Tradicionalmente 
os Kwakiutls subsistiram principalmente pela pesca, caça e coleta. Além disso, 
eles possuem uma tecnologia baseada em madeira, como o entalhe de canoas, 
de totens e das fachadas das casas, ornadas com elementos de sua cultura. Sua 
sociedade foi estratificada por categoria, que foi determinada, principalmente, 
pela herança de nomes e privilégios. Os indivíduos hierarquicamente superiores 
possuem o direito de cantar certas canções, usar determinadas cristas e máscaras 
cerimoniais. Em 2014, as 15 nações e faixas que compõem o Kwakwaka'wakw 
contavam com cerca de 7.700 pessoas.
FIGURA 6 - TRIBO KWAKIUTLS
FONTE: . Acesso em: 4 ago. 2015.
TÓPICO 1 — ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO, DIFUSIONISMO, E ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE
83
Franz Boas via valor intrínseco na pluralidade das práticas culturais no 
mundo e era profundamente cético com relação a qualquer tentativa política ou 
acadêmica de interferir nessa diversidade. Ao escrever sobre a dança kwakiutl, 
por exemplo, ele diz que:
A dança é um exemplo da relação da cultura com o ritmo, e por isso 
ela não deve ser reduzida a uma mera “função” da sociedade (como 
pareciam preferir os antropólogos sociais ingleses). Em vez disso, 
é preciso perguntar o que esse ritmo é para a pessoa que dança, e a 
resposta só pode ser encontrada examinando os estados emocionais 
que geram a são gerados pelo ritmo. (ERIKSEN, 2012, p. 54).
Por compreender as culturas como fenômenos autônomos, Franz Boas 
abandonou as perspectivas deterministas sobre as influências biológicas na 
composição da cultura. Nesse sentido, o autor contribuiu de forma significativa 
à causa multiculturalista, uma vez que escreveu artigos sobre a questão do 
negro nos EUA. Além disso, em suas pesquisas influenciou estudiosos de boa 
parte do mundo a desenvolverem trabalhos com a perspectiva relativista, na 
perspectiva de que o que diferencia os grupos humanos são os determinantes 
culturais e não biológicos.
 Para aprofundamento desta 
temática, sugerimos o documentário 
“Estranhos no Exterior: as correntes 
da tradição”, que trata sobre a vida 
e o trabalho de Franz Boas com 
a sociedade inuíte. Disponível em: 
. Acesso 
em: 20 jun. 2015.
DICASFranz Boas deixou um legado muito importante para os acadêmicos 
que trabalharam com ele. Muitos continuaram seus estudos e outros fundaram 
novas escolas de pensamentos. Ruth Benedict, por exemplo, foi sua sucessora 
na Universidade de Colúmbia e organizadora da “Escola da Cultura e 
Personalidade”. Além dela, uma importante antropóloga, conhecida como 
Margaret Mead, continuou a obra de Benedict e se tornou a figura pública mais 
influente da história da antropologia americana. Vejamos a seguir um pouco mais 
sobre a Escola de Cultura e Personalidade.
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
84
5 A ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE OU 
CONFIGURACIONISMO CULTURAL
A Escola da Cultura e Personalidade, ou Configuracionismo Cultural, é 
a quarta escola de orientação antropológica em sequência histórica. Ela recebe 
forte influência do Particularismo Histórico de Franz Boas, sendo considerada 
um prolongamento do difusionismo norte-americano, porque também 
representa uma abordagem de culturas particulares, conforme Boas defendia 
(uma unidade singular e individual de estudos). Seus principais representantes 
foram alunos de Franz Boas. São eles Edward Sapir, Ruth Benedict e Margareth 
Mead. Além da influência de Boas, essa corrente antropológica também sofreu 
influências de Sigmund Freud (considerado o pai da psicanálise) e do filósofo 
Friedrich Nietzsche. 
A corrente historicista, sobre a qual foi fundada a Escola da Cultura e 
Sociedade, se diferencia das escolas funcionalista e estruturalista, como poderemos 
verificar ao longo deste tópico, porque ela julga importante reconstruir a história 
das culturas, para poder analisá-la e compreendê-la, o que não ocorre nas escolas 
citadas, que acreditam que observando o presente em uma sociedade é possível 
compreendê-la. Já a Escola da Cultura e Personalidade procurou explicações para 
a individualidade das culturas particulares. Chamou a atenção para os autores 
desta corrente antropológica o fato de que, mesmo que duas culturas diferentes 
tomem de empréstimo um padrão cultural, em cada uma delas ele sofrerá 
transformações, ou seja, o padrão cultural adquirirá traços específicos de cada 
cultura, o que pode ser compreendido como um processo de personalização do 
padrão cultural. Vejamos o que diz Mello (2013, p. 237):
De certo modo, os configuracionistas não desprezam a cultura. Apenas 
reconhecem os indivíduos como sujeitos e objetos da cultura. Dessa 
forma, as características dos indivíduos deveriam ser idênticas às 
características da cultura a que pertencem. Assim como, no indivíduo, 
não existem separadamente princípios religiosos, econômicos, 
políticos, jurídicos, etc., mas uma resultante, uma configuração, um 
“gênio”, um estilo de ser que dirige e conforma o comportamento de 
todos os membros desta cultura.
A Escola da Cultura e Personalidade busca a integração e a singularidade 
do todo, tendo como tema básico a INTEGRAÇÃO DA CULTURA. 
Para a Escola da Cultura e Personalidade, a CULTURA seria um 
conjunto integrado de elementos culturais encontrados em determinado tempo 
e espaço, cujas partes devem estar de tal modo entrelaçadas que formem um 
todo coeso e uniforme, pois se uma das partes for afetada, automaticamente 
afetará as demais.
TÓPICO 1 — ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO, DIFUSIONISMO, E ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE
85
Seus principais representantes desta escola tentaram interpretar as 
culturas em termos psicológicos de personalidade básica. O seu paradigma 
central é que uma personalidade básica é partilhada por todos os membros 
de uma cultura. Os autores estabelecem uma tipologia cultural, na qual 
haveria culturas com padrões diferenciados. Ruth Benedict compreende que 
haveria dois padrões típicos de culturas: dionisíacas (centradas no êxtase) e 
apolíneas (estruturadas no desejo de moderação). Já a antropóloga Margaret 
Mead identifica três tipos de cultura. São elas: pré-figurativas, pós-figurativas 
e cofigurativas. Sobre essas diferentes noções de cultura, veremos a seguir. 
5.1 PRINCIPAIS REPRESENTANTES DA ESCOLA DE 
CULTURA E PERSONALIDADE
5.1.1 Edward Sapir (1884-1939)
Este autor foi o primeiro representante desta Escola a defender a ideia 
de que todo comportamento cultural tem uma configuração inconsciente, que 
nem sempre é comunicada à mente, mas que dá à cultura um feitio próprio. 
Acrescentou, também, que todo comportamento é simbólico, ou seja, tem como 
base os sentidos, que são compreendidos e comunicados entre os diferentes 
elementos de uma sociedade. 
Para Sapir, as culturas não são entidades verdadeiramente objetivas, 
mas configurações abstratas de ideias e padrões de ação, que têm significados 
infinitamente diferentes para os vários indivíduos do grupo em questão. 
Os comportamentos culturais são simbólicos; a cultura, como a linguagem, 
baseia-se em significações partilhadas por todos os membros de uma 
determinada sociedade. 
O autor leva em consideração a linguagem dos povos, propondo, em 
1921, uma nova perspectiva para a linguagem, ao sugerir que ela influencia 
a forma como os indivíduos pensam. Essa ideia foi adotada e desenvolvida 
durante a década de 1940 por seu ex-aluno Benjamin Lee Whorf (1897-1941), 
dando origem à hipótese de Sapir-Whorf. 
Para Sapir, a percepção de um observador sobre o mundo ao seu redor é 
controlada de alguma forma fundamental pela linguagem que ele usa. Por exemplo, 
o conceito de tempo nos tempos verbais (presente, passado, futuro). Na língua 
hopi não há tempos verbais, mas marcas de diferenciação sobre relato de fatos, 
expectativas e verdades gerais. Também para Benjamin Lee Whorf, a linguagem 
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
86
pode restringir o pensamento, ou seja, a linguagem funda a realidade. Nomes de 
cores, por exemplo, podem variar enormemente. Em navajo, cinza e azul têm uma 
só palavra; em hebraico, há uma palavra para azul do céu e outra para azul do mar. 
Texto adaptado da fonte: . 
Acesso em: 10 ago. 2015.
5.1.2 Ruth Benedict (1887-1948)
A estadunidense nascida em Nova York, Ruth Benedict, foi a principal 
representante da Escola da Cultura e Personalidade. Inicialmente formou-se em 
Literatura Inglesa e chegou a escrever alguns livros de poemas. No entanto, ao 
se dedicar aos estudos antropológicos, conheceu Franz Boas e interessou-se pelos 
seus estudos. Desta forma, começou a trabalhar também com os índios norte-
americanos. A obra que melhor representa suas convicções acadêmicas chama-se 
“Esquemas de Cultura”, publicada em 1934. Além dessa, outras obras podem 
ser destacadas, incluindo “O Crisântemo e a Espada”, que será tratada na leitura 
complementar sugerida ao final deste tópico. 
FIGURA 7 – RUTH BENEDICT
FONTE: . Acesso em: 24 jul. 2015.
Para Benedict, o todo não é apenas a soma das partes. Cada cultura 
possui propósitos próprios ou molas mestras emocionais e intelectuais 
que entranham o comportamento e as instituições de uma sociedade. Uma 
região, por exemplo, deve ser observada como uma configuração cultural 
de instituições, costumes, tradições, meios de transporte etc., dentro de 
certa área geográfica, com caráter próprio.
TÓPICO 1 — ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO, DIFUSIONISMO, E ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE
87
Benedict consagrou a expressão padrão cultural (cultural pattern), 
empregando-a num sentido muito mais global do que Sapir. Para a autora, 
a unidade significativa que a Antropologia deve estudar é a configuração 
cultural. Cada cultura é caracterizada por configurações particulares, que se 
infiltram em todas as instituições, toda a vida social, todos os comportamentos 
individuais. Mas um indivíduo numa cultura domina somente o que lhe é 
necessário para desempenhar papéis definidos, ocupar posições determinadas. 
Em seu estudo com os índios norte-americanos Kwakiutl(o mesmo 
grupo estudado por Franz Boas), Ruth Benedict (1971; 1977), seguindo ao 
filósofo Nietszche, distinguiu dois tipos de culturas:
CULTURAS DE TIPO “APOLÍNEO” CULTURAS DE TIPO “DIONISÍACO”
• Ex.: Índios “pueblo” os zuni.
• Conformistas.
• Pacíficos.
• Solidários.
• Respeitadores de outrem.
• Comedidos na expressão dos seus 
sentimentos. 
• Símbolo da lógica, a razão e a ordem. 
• Destacam-se pelo seu equilíbrio.
• Ex.: Índios das planícies, os kwakiutl.
• Ambiciosos.
• Individualistas.
• Agressivos e violentos em ocasiões.
• Desmesura em termos afetivos. 
• Símbolos da emoção, a apreciação dos 
excessos e o prazer. 
• Destacam o êxtase. 
5.1.3 Margaret Mead (1901-1978)
A antropóloga Margaret Mead graduou-se (1923-1929) na 
Universidade de Colúmbia, em Nova York, onde estudou com o antropólogo 
Franz Boas (1858-1942) e trabalhou no Museu Americano de História Natural 
(1926-1969). Além de uma pesquisa de campo (1925) sobre a adolescência 
em Samoa, estudou os povos ágrafos da Oceania e complexas sociedades 
contemporâneas e foi pioneira na utilização da fotografia para documentação 
de pesquisa etnográfica. 
Seu interesse concentrou-se em vários aspectos da psicologia e da 
cultura, inclusive a infância e a adolescência, o condicionamento cultural do 
comportamento sexual, o caráter nacional e a mudança cultural. Publicou 
importantes obras, tais como O caráter balinês (Balinese Character, 1940), um 
marco na história da antropologia, da antropologia visual em especial, 
Adolescência, sexo e cultura em Samoa (1928), Crescendo na Nova Guiné (1930), 
Sexo e temperamento em três sociedades primitivas (1935), e Masculino e feminino 
(1949). Em seus estudos, Margaret Mead identificou três tipos de culturas:
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
88
a) Culturas pós-figurativas: onde os filhos aprendem, em primeiro lugar, 
com os pais. O novo é uma continuação e repetição do velho, negando-
se a mudança. Os velhos e os avôs têm muita importância. A mobilidade 
social é reduzida e o passado forma um continuum com o presente e o 
futuro. Cultura da família extensa. 
b) Culturas cofigurativas: quebram o sistema pós-figurativo. Os jovens 
rejeitam o modelo dos adultos e aprendem formas culturais inovadoras. 
Os adultos acabam por verificar que os seus métodos são insuficientes ou 
pouco adequados à formação do jovem e à sua integração na vida adulta. Os 
jovens conseguem a mobilidade social por si desejada; ignoram os padrões 
dos adultos ou são-lhes indiferentes. Cultura da família nuclear. Os velhos 
e os seus conhecimentos deixam de ser pensados como necessários. 
c) Culturas pré-figurativas: os adultos aprendem com os seus filhos. Nesta 
nova sociedade, só os jovens estão à vontade, pois dominam os progressos 
científicos. Em extremo, os adultos não têm descendentes e os filhos não têm 
antepassados. O futuro é agora e produz-se uma quebra entre uns e outros. 
O que interessava aos adultos já não interessa aos jovens. 
Texto adaptado da fonte: . Acesso em: 10 ago. 2015.
 
89
LEITURA COMPLEMENTAR
CONTRIBUIÇÕES DE RUTH BENEDICT EM SEU ESTUDO: 
"O CRISÂNTEMO E A ESPADA"
Neste livro, Ruth Benedict realiza um estudo antropológico sobre o Japão 
e seus costumes. Alguns autores acreditam que este estudo foi encomendado 
pelo governo dos Estados Unidos no período da II Guerra Mundial, para que 
fosse possível compreender o povo contra o qual estavam combatendo.
 
Além disso, o livro explora o trabalho do antropólogo cultural e suas 
pesquisas. Sabe-se que, por conta da guerra, Ruth Benedict ficou impossibilitada 
de trabalhar diretamente no Japão, por isso a autora desenvolveu um método de 
trabalho à distância. Ao escrever sobre ele ela defende que existem outras opções 
eficazes para fazer a pesquisa antropológica, além do trabalho de campo. Esta 
obra, publicada em 1946, descreve como compreender uma cultura diferente, 
por meio de sua literatura, recortes de jornais, filmes e arquivos, entrevistas com 
imigrantes etc. 
Num momento em que a II Guerra Mundial estava ocorrendo, muitos 
antropólogos impossibilitados de visitar países como a Alemanha nazista ou o 
Japão de Hirohito, valeram-se de tais materiais culturais e puderam produzir 
estudos à distância. Eles tentavam entender os padrões culturais que deveriam 
orientar seu ataque e esperavam encontrar pontos fracos ou maneiras de persuadi-
los de que haviam perdido.
O Japão, assim como outros países, tem as suas particularidades, e 
Benedict explica que para entendê-los é preciso caminhar por todas as áreas, e ela 
completa que “teria que observar a maneira como conduziam a guerra, e considerá-la, 
por ora, não como um problema militar, e sim como um problema cultural” (BENEDICT, 
p. 12), a partir desse ponto se poderia encontrar as respostas procuradas. Sobre o 
trabalho do antropólogo nesse caso, ela explica que “o antropólogo cultural dispõe 
de certas habilitações, resultantes de sua formação, que o motivam a acrescentar 
a sua própria contribuição num campo rico em estudiosos e observadores”. São 
abordadas as diferenças e como o antropólogo vai se acostumando com essas 
diferenças entre sua cultura e a do outro, para que se use essa diferença como 
base do estudo.
A princípio, os americanos consideravam muito natural os prisioneiros 
de guerra quererem que suas famílias soubessem que estavam vivos, e ficarem 
calados quando inquiridos sobre o movimento das tropas etc. Enquanto isso, 
prisioneiros de guerra japoneses, aparentemente, davam informações desse tipo 
facilmente e não tentavam contatar suas famílias. Por que isso? Por que, além 
disso, os asiáticos não tratavam os japoneses como libertadores do colonialismo 
ocidental, nem aceitavam seu suposto óbvio lugar numa hierarquia na qual o 
Japão ocupava o topo?
90
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
Benedict desempenhou um papel fundamental na compreensão 
do lugar do Imperador do Japão na cultura popular japonesa, e formulou 
ao presidente Franklin D. Roosevelt uma recomendação segundo a qual, 
“permitir a perpetuação do governo imperial seria imprescindível para uma 
eventual rendição”.
Desse texto pode-se ver uma nova maneira de se fazer a pesquisa 
antropológica com eficácia, mesmo sem conseguir ir a campo buscar informações. 
Benedict nos mostra como às vezes entrevistas com pessoas que já tiveram a 
experiência ou leituras de outros autores podem ser suficientes para o estudo. 
Outro ponto refere-se a saber o que faz do outro diferente e saber como lidar com 
essas diferenças. Quais são as características (sejam elas culturais, físicas) que 
nos fazem distintos de outros e o que faz um país realmente pertencer a aquele 
povo. “Sua finalidade é um mundo assegurado para as diferenças, onde os Estados Unidos 
possam ser inteiramente americanos sem ameaçar a paz do mundo, a França possa ser 
França e o Japão possa ser Japão nessas mesmas condições”. (BENEDICT, p. 20).
Quando o livro foi publicado, um crítico escreveu que “O Crisântemo e a 
Espada” “não tem credenciais, já que Benedict não teve qualquer experiência direta no 
Japão”, e descreveu o livro como “considerado superficial e claramente racista". No 
entanto, o embaixador japonês fez a seguinte declaração em público: "Em 1946, 
Ruth Benedict, reconhecida antropóloga cultural americana, publicou um livro sobre o 
Japão intitulado “O Crisântemo e a Espada”, que tem sido leitura obrigatória para muitos 
estudiosos de temas japoneses."
Esse livro nos faz pensar as possibilidades do trabalho antropológico, 
especialmente diferentes perspectivas do trabalho de campo.
Texto adaptado - Fonte: . Acesso: 9 ago. 2015.
91
Neste tópico, você aprendeu que:
• Quatro das principais escolas de pensamento que fundamentam a Antropologia. 
São elas: a escola Evolucionista, Difusionista,o Particularismo Histórico e a 
Escola da Cultura e Personalidade.
• A escola Evolucionista teve início no final do século XIX e se refere a uma 
corrente de pensamento que compreende a reprodução das sociedades 
humanas como resultado de um processo evolutivo. Seus principais expoentes 
foram: Lewis Henry Morgan e Edward Burnet Tylor.
• O Difusionismo teve início do início do século XIX e refere-se a um processo, na 
dinâmica cultural, em que os elementos ou complexos culturais se difundem 
de uma sociedade para outra.
• O Difusionismo pode ser dividido em três escolas: O Difusionismo Inglês, ou 
escola hiperdifusionista/heliocêntrica; a Escola alemã-austríaca ou histórico-
cultural ou histórico-geográfica; e a Escola Norte-americana, também chamada 
de historicismo ou Particularismo Histórico. 
• O principal representante da Escola Norte-americana foi Franz Boas, que 
trabalhou por muitos anos com os inuítes e os kwakiutls.
• A Escola da Cultura e Personalidade, ou Configuracionismo Cultural, recebe 
influência de Franz Boas, pois seus principais representantes (Edward Sapir, 
Ruth Benedict e Margaret Mead) foram seus alunos. Além disso, também 
sofreram influências de Sigmund Freud e do filósofo Friedrich Nietzsche. 
• Esta escola concebe a cultura como detentora de uma “Personalidade de base”, 
partilhada por todos os membros. Os autores estabelecem uma tipologia 
cultural, na qual haveria culturas com padrões diferenciados.
RESUMO DO TÓPICO 1
92
1 Do ponto de vista das escolas antropológicas, o Evolucionismo foi a primeira 
corrente de pensamento a teorizar sobre o desenvolvimento das sociedades 
humanas, enfatizando a cultura como um elemento impulsionador das 
mudanças dos padrões culturais. Nesse sentido, Morgan foi um importante 
colaborador ao desenvolver a teoria do processo evolutivo das sociedades, 
que consiste em organizar as fases do desenvolvimento da cultura em três 
períodos: Selvageria, Barbárie e Civilização. Com base nessas informações, 
analise as sentenças a seguir e classifique V para as sentenças verdadeiras e 
F para as falsas.
( ) O estágio da civilização ocorre desde a invenção do alfabeto fonético e do 
uso da escrita, até o presente momento.
( ) A selvageria é uma etapa que ocorre desde a infância da humanidade até 
a invenção de artefatos de caça e pesca, como o arco e a flecha.
( ) O estágio da barbárie ocorre a partir do surgimento da linguagem, dos 
símbolos e da escrita até a idade moderna.
( ) A selvageria se refere ao período que vai da invenção da arte da cerâmica 
até a fundição de minérios e instrumentos de ferro.
Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA.
a) ( ) V – F – V – F. 
b) ( ) V – V – F – V.
c) ( ) F – V – V – F. 
d) ( ) V – F – F – F. 
2 O difusionismo é uma escola de pensamento antropológico que surgiu no 
século XIX e que se refere a um conjunto de teorias críticas ao evolucionismo, 
corrente antropológica anterior a ela. De maneira geral, pode-se afirmar 
que os estudiosos da escola difusionista opõem-se à ideia de que as culturas 
se desenvolvem de forma linear para todas as sociedades, e defendem a 
noção de difusão das características culturais. Com base nesses argumentos 
e de sua interpretação nesta unidade, conceitue o termo Difusão.
AUTOATIVIDADE
93
UNIDADE 2
TÓPICO 2 — 
ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: FUNCIONALISMO, 
ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO, ESTRUTURALISMO, 
NEOEVOLUCIONISMO E PÓS-MODERNISMO
1 INTRODUÇÃO 
Neste segundo tópico daremos continuidade à apresentação das 
diferentes escolas antropológicas que ajudaram a construir o campo de estudos 
da disciplina de Antropologia. Devemos lembrar que o desenvolvimento das 
ciências, de maneira geral, sofreu alterações ao longo da história e os estudos 
antropológicos também refletem estas mudanças, conforme poderemos verificar 
ao longo deste tópico.
2 AS ESCOLAS FUNCIONALISTA E 
ESTRUTURAL-FUNCIONALISTA 
O desenvolvimento da perspectiva Funcionalista e Estrutural-
Funcionalista na Antropologia foi profundamente marcado pela influência 
dos sociólogos franceses Émile Durkheim e Marcel Mauss, que adotavam uma 
postura sincronicista em seus estudos. Logo, esta postura também foi se impondo 
nos estudos de vários antropólogos, principalmente de Malinowski e Radcliffe-
Brown, os principais representantes das Escolas Funcionalista e Estrutural-
Funcionalista. Esses autores compreendiam a cultura como sistemas sociais inter-
relacionados, compondo um todo funcional.
Para os autores, o estudo da sociedade deveria ser pensado como 
um organismo, observando como ocorrem os processos de interação e 
interdependência, como suas partes desempenham suas funções e mantêm o 
organismo (sociedade) em contínua existência.
Para o funcionalismo, a permanência de hábitos culturais ao longo do 
tempo só ocorre, e só pode ser explicada, pela função que eles realizam na sociedade 
como um todo. Ou seja, diferentemente do evolucionismo, o funcionalismo não 
acredita que alguns traços sociais resistam por conta de um atraso na “escala 
social evolutiva”, mas que essa resistência é resultado da importância da sua 
função para a organização social.
94
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
Para os seguidores da Escola Funcionalista e Estrutural-Funcionalista, 
cada costume é socialmente significativo, uma vez que integra uma 
ESTRUTURA, participando de um sistema organizado de atividades. Uma 
cultura não é simplesmente um organismo, mas um SISTEMA. Suas partes 
não podem ser plenamente compreendidas separadamente do todo, e o todo 
deve ser compreendido em termos de suas partes, suas relações umas com 
as outras e com o sistema sociocultural em conjunto. Qualquer traço cultural 
ou costume, qualquer objeto material ou qualquer ideia, como o fogo, uma 
peça de cerâmica, a noção de deus ou deuses etc., que existem no interior 
das sociedades, têm funções específicas e mantêm relações com cada um dos 
outros aspectos da cultura para a manutenção do seu modo de vida total. Cada 
costume é socialmente significativo, já que integra uma estrutura, participando 
de um sistema organizado de atividades. 
Fonte: . Acesso em: 20 jul. 2015.
2.1 A ESCOLA SOCIOLÓGICA FRANCESA – 
OS PRECURSORES DO FUNCIONALISMO E 
ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO
Émile Durkheim não possui trabalhos de cunho etnográfico, exceto sua 
monografia sobre o totemismo australiano, mas influenciou muitos antropólogos 
de sua época. Ele entendia a cultura como um organismo coletivo, cujos órgãos 
seriam as instituições sociais. 
Na sua área acadêmica, Durkheim escreveu, entre outros, os textos 
“Da divisão do Trabalho Social” (1983) e “As regras do método sociológico” 
(1895). Estas obras representaram um verdadeiro choque teórico para a 
comunidade das Ciências Sociais, pois Durkheim compreendia que os fatos 
sociais deviam ser explicados em termos de variáveis sociais e não por meio 
da psicologia ou da biologia. Para ele, o fato social expressa um interesse 
verdadeiramente social, mesmo que esteja relacionado a elementos afetivos, 
fisiológicos ou comportamentais. 
Marcel Mauss, que era sobrinho e parceiro de trabalho de Durkheim, 
também partilhava desta mesma concepção teórica. Marcel Mauss compreendia 
o fato social como um fato total, que só pode ter significado a partir de outros. 
Este autor refere-se à sociologia como uma ciência que estuda os comportamentos 
das sociedades humanas. Em seu artigo “Ensaio sobre o dom” (1924), ele escreve 
sobre o que seria um “princípio-chave” para compreender as relações sociais, que 
ele chama de princípio da reciprocidade. Esse conceito será retomado mais tarde 
por outro antropólogo bastante conhecido: Lévi-Strauss. 
TÓPICO 2 – ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: FUNCIONALISMO, ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO, ESTRUTURALISMO, 
NEOEVOLUCIONISMO E PÓS-MODERNISMO
95
2.2 A ESCOLA FUNCIONALISTA E SEU PRINCIPAL 
REPRESENTANTE: BRONISLAW MALINOWSKI
O antropólogo Bronislaw Malinowski era natural de Cracóvia,uma cidade 
polonesa, com cerca de 853 mil habitantes. Seu pai era filólogo, motivo pelo qual 
se interessou pela literatura desde cedo. Doutorou-se em Física e ficou por algum 
tempo no famoso laboratório de Leipzig, na Alemanha. Mais tarde, Malinowski 
se apaixonou pela antropologia, principalmente devido ao seu contato com a 
temática do parentesco. 
Logo ele começa a realizar expedições às ilhas Trobriand, na Nova Guiné, 
e de lá extrai importantes dados etnográficos. Em 1916 ele publicou, pela primeira 
vez, um estudo intitulado: “Baloma, os espíritos da morte nas ilhas Trobriand”. 
Neste livro ele descreve as relações existentes entre os espíritos dos defuntos 
(Baloma) e a vida simbólica e festiva do povo trobriandês. 
FIGURA 8 - BRONISLAW MALINOWSKI NAS ILHAS TROBRIAND, NA MELANÉSIA
Fonte: . Acesso em: 20 jul. 2015.
Na definição de Malinowski, conforme destaca BARRIO (2005, p. 115), 
“cultura refere-se ao conjunto de tradições e objetos materiais a partir dos quais 
o grupo social se mantém coeso e organizado e a partir do qual o indivíduo é 
moldado”. De acordo com o autor, a cultura possui uma série de princípios 
organizativos que ele compreende como conceito de “função”. De acordo com 
Barrio (2005, p. 116), este conceito atua em três âmbitos principais: “a) No 
âmbito das relações dos costumes e instituições entre si; b) No âmbito dos efeitos 
teleológicos de um costume ou prática e c) No âmbito da conjunção de todas as 
práticas em favor da preservação do sistema social”. 
Malinowski definiu o conceito de Função em dois níveis fundamentais: 
por um lado, o conceito de função refere-se às respostas que a cultura oferece para 
solucionar as necessidades básicas das pessoas, e por outro lado, as respostas que 
fornece para as necessidades sociais do grupo, como, por exemplo, as relações 
maritais, a maternidade e a paternidade e todas as outras relações sociais que 
ocorrem no grupo. Para Malinowski, a cultura humana é o alicerce das sociedades.
96
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
2.2.1 Mas o que é Kula? 
De acordo com Barrio (2005), o Kula consiste em um intercâmbio circular 
de objetos simbolicamente valiosos que propicia contatos entre as tribos das ilhas 
da Nova Guiné. No sentido horário circulam os colares de conchas vermelhas, 
que os nativos chamam de soulava, e no sentido anti-horário circulam braceletes 
de conchas brancas chamados de mwali. As canoas nas quais navegam esses 
objetos valiosos são delicadamente decoradas, assim como os tripulantes que 
levam os presentes. 
FIGURA 9 – A CERIMÔNIA KULA
FONTE: . Acesso em: 20 ago. 2015.
Malinowski entendia que por meio deste intercâmbio estaria organizada 
uma rede de relações e rituais complicados que conformariam a cultura dos 
povos novaguineanos. Para Malinowski, a cultura destas sociedades compunha 
um mosaico, que, por qualquer parte que se iniciasse a compreender, se chegava 
à compreensão do todo. 
Malinowski representou para a Antropologia um marco de passagem na 
qualificação e rigor da pesquisa de campo, pois até o momento a etnografia não 
estava completamente consolidada. Foram vários os caminhos propostos para a 
pesquisa etnográfica, desenvolvidos por Malinowski. 
Outra de suas importantes obras foi escrita em Londres em 1922, com 
o título “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”. Nessa obra, o autor explica o 
funcionamento da economia das ilhas melanésias por meio do estudo de uma 
instituição fundamental, chamada o anel “Kula”.
TÓPICO 2 – ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: FUNCIONALISMO, ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO, ESTRUTURALISMO, 
NEOEVOLUCIONISMO E PÓS-MODERNISMO
97
O primeiro refere-se à busca pela organização da tribo e pela anatomia 
de sua cultura, que devem ser delineadas através do método da documentação 
concreta e estatística, já que o objetivo fundamental da pesquisa de campo 
é delinear o esquema básico da vida tribal. Por isso, torna-se importante 
observar todos os aspectos da cultura nativa e anotar o maior número possível 
de manifestações concretas do que é observado em um diário de campo. 
O segundo caminho completa o primeiro, ao tratar dos imponderáveis 
da vida real, referido aos fenômenos cotidianos que devem ser observados 
por meio do acompanhamento contínuo da tribo. Assim, os diversos tipos de 
comportamentos podem ser coletados através de observações detalhadas e 
minuciosas, possibilitadas apenas pelo contato íntimo com a vida nativa. 
O terceiro passo é denominado de corpus inscriptionum, referido à coleta 
de narrativas típicas, palavras e expressões características da mentalidade nativa 
que contribuem para a compreensão da sua visão de mundo. Assim, para além do 
esqueleto da vida nativa, composto pelo corpo e sangue da tribo, ou melhor, pelas 
descrições das manifestações, comportamentos e costumes habituais, o antropólogo 
deve ser capaz de apreender o seu espírito, ou seja, o ponto de vista nativo. 
Procurando descobrir os modos de pensar e sentir típicos à cultura estudada.
 
A partir da aplicação prática destes princípios, Malinowski rompe 
com uma “antropologia de gabinete” e inaugura um novo estilo de pesquisa, 
pautado em um constante diálogo entre a observação participante e as 
descrições etnográficas. O método proposto por Malinowski compreende 
uma investigação aprofundada da vida nativa, de modo que o etnógrafo 
possa compreender a organização social da vida tribal, sintetizada através da 
compreensão do ponto de vista nativo. 
Disponível em: . Acesso em: 15 ago. 2015.
Malinowski passou anos com as comunidades pesquisadas e realizou 
suas observações de forma a interferir minimamente em suas atividades. 
Ele não se preocupou tanto com a compreensão dos fenômenos observados, 
quanto com a própria observação, sistematizada e descritiva. Mesmo sem 
compreender as atividades do grupo, seu objetivo foi realizar o registro, para 
somente depois interpretá-las. 
98
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
2.3 TEORIA DAS NECESSIDADES HUMANAS DE MALINOWSKI
Na concepção de Malinowski, os seres humanos fazem parte de 
uma mesma espécie animal, e, portanto, somente sobrevivem porque suas 
necessidades biológicas são satisfeitas por meio da cultura em que vivem. Nesse 
sentido, as ideias de cultura e natureza humana estão imbricadas, na medida em 
que, por meio das culturas, se desenvolvem instrumentos e estratégias em busca 
da sobrevivência humana e social. Por isso Malinowski elaborou uma teoria 
universal das necessidades humanas, segundo a qual teríamos três categorias de 
necessidades fundamentais. São elas:
QUADRO 3 – NECESSIDADES HUMANAS - MALINOWSKI
Categorias de Necessidades Humanas Tipos de Necessidades Humanas
Primárias ou biológicas Nutrição, defesa, excreção etc.
Derivadas ou instrumentais Organização Econômica, educação etc.
Integrativas ou sintéticas Magia, religião, arte e outras
FONTE: Adaptado de Marconi e Presotto (2001, p. 264)
Para Malinowski, a cultura se desenvolve por meio das instituições sociais 
para dar resposta às diferentes necessidades psicológicas das pessoas. Por este 
motivo é que as instituições emergem na cultura, como elementos coletivos 
voltados às necessidades individuais (Necessidades Humanas).
 
Para Malinowski, são as instituições, precisamente, os elementos reais da 
cultura, e não apenas as relações ou os traços culturais, porque eles só ocorrem 
devido à sua relação com as instituições à qual pertencem. 
Por fim, com Malinowski, a Antropologia se torna uma ciência que 
adquire um caráter de respeito aos diferentes. As perspectivas etnocêntricas tão 
presentes na teoria antropológica evolucionista chegam ao fim com a introdução 
do pensamento de Malinowski, que considera toda a cultura como um sistema 
perfeitamente organizado em si mesmo. Para ele, as diferentes sociedades 
possuíamo mesmo status, descartando a ideia de sociedades atrasadas ou 
primitivas, mas enfatizando as diferenças como elementos importantes para a 
constituição da organização social de cada grupo.
TÓPICO 2 – ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: FUNCIONALISMO, ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO, ESTRUTURALISMO, 
NEOEVOLUCIONISMO E PÓS-MODERNISMO
99
FIGURA 10 - BRONISLAW MALINOWSKI NAS ILHAS TROBRIAND, NA MELANÉSIA
FONTE: . 
Acesso em: 20 ago. 2015.
Para aprofundamento desta temática, sugerimos o documentário “Estranhos no 
exterior: fora da varanda”, que trata sobre a vida e o trabalho de Bronislaw Malinowski com os 
habitantes de uma ilha ao leste da Nova Guiné, chamados trobriandeses. Fonte: Disponível em: 
. Acesso em: 19 ago. 2015.
DICAS
2.4 A ESCOLA ESTRUTURAL-FUNCIONALISTA: 
RADCLIFFE-BROWN
O antropólogo Alfred Reginald Radcliffe-Brown nasceu em Birmingham, 
na Inglaterra (1881-1955). Filho de família operária, com esforço formou-se 
antropólogo na Universidade de Oxford, e teve como referência os antropólogos 
da época, especialmente Rivers, importante antropólogo difusionista. Realizou 
seu primeiro estudo nas Ilhas Andaman, no Golfo de Bengala, Índia, com forte 
influência da escola difusionista. No entanto, com o passar do tempo, a influência 
dos trabalhos de Durkheim, como veremos adiante, fez com que Radcliffe-Brown 
abandonasse o difusionismo, fundando no decorrer de sua vida acadêmica a 
Escola Estrutural-Funcionalista. 
100
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
FIGURA 11 – ALFRED REGINALD RADCLIFFE-BROWN
FONTE: . Acesso em: 3 set. 2015.
Da mesma forma como Malinowski, Radcliffe-Brown compreende 
a sociedade como um sistema, no qual as relações sociais ocorrem de forma 
interdependente. No entanto, a posição deste antropólogo pode ser entendida 
como intermediária entre o funcionalismo e o estruturalismo. A perspectiva 
teórica de Radcliffe-Brown se diferencia parcialmente da perspectiva de 
Malinowski porque ele considera, além da função, a estrutura social como 
elemento fundamental para a manutenção do equilíbrio social. Além disso, de 
acordo com Mello (2015, p. 254), “o pensamento de Radcliffe-Brown oferece uma 
perspectiva mais sociológica, enquanto Malinowski apresenta uma perspectiva 
mais eclética, considerando especialmente os aspectos psicológicos (teoria das 
necessidades) na compreensão da realidade social”. 
Os conceitos básicos da teoria de Radcliffe-Brown são “estrutura” e 
“função” e sua perspectiva teórica é muito semelhante à de Émile Durkheim, 
especialmente quando se refere a estes dois conceitos. Na sua compreensão sobre 
estrutura e função, o autor realiza uma analogia com organismos vivos. Vejamos 
a seguir o que diz Mello (2013, p. 255).
Para maior elucidação do conceito (função) é conveniente 
empregarmos a analogia entre vida social e vida orgânica. Como todas 
as analogias, isto deve ser feito com cautela. O organismo animal é 
uma aglomeração de células e fluidos intersticiais dispostos uns em 
relação com os outros, não como um todo integrado [...]. O sistema 
de relações pelo qual essas unidades se relacionam é a estrutura 
orgânica. Tal como os termos são empregados aqui, o organismo não 
é em si a estrutura; é um acúmulo de unidades (células e moléculas) 
dispostas numa estrutura, isto é, numa série de relações; o organismo 
tem uma estrutura [...]. A estrutura deve, pois, ser definida como 
uma série de relações entre entidades. (A estrutura de uma célula é, 
no mesmo sentido, uma série de relações entre elétrons e prótons). 
Na medida em que vive, o organismo mantém certa identidade de 
TÓPICO 2 – ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: FUNCIONALISMO, ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO, ESTRUTURALISMO, 
NEOEVOLUCIONISMO E PÓS-MODERNISMO
101
suas partes constituintes. Perde algumas moléculas, ganha outras, 
mas a disposição estrutural das unidades continua a mesma [...]. O 
conceito de “função” tal como é aqui definido implica, pois, a noção 
de uma estrutura constituída de uma série de relações entre entidades 
unidades, sendo mantida a continuidade da estrutura por um processo 
vital constituído das atividades integrantes [...].
De acordo com Mello (2013), portanto, o que se pode depreender a respeito 
do conceito de “função” é que se refere às contribuições que uma atividade do 
sistema proporciona à atividade total da qual faz parte. 
Dito de outra forma, a estrutura social representa as maneiras como os 
grupos e indivíduos estão organizados e relacionados entre si na entidade funcional, 
que é a sociedade. No centro da teoria sistêmica de Radcliffe-Brown está o conceito 
de sociedade, por meio do qual, segundo Marconi e Presotto (2001), “a função de 
um elemento é o papel que ele representa em toda a vida social, razão mesma da 
manutenção da estrutura e da integração social. Sobre o conceito de Estrutura Social, 
vejamos a seguir o que nos informa Cassiano (2012, p. 1): 
Brown define Estrutura social como sendo a rede de relações complexa 
que cria laços entre os seres humanos. Essas relações se dão em um 
todo integrado, o qual ele chamou de organismo social, fazendo uma 
analogia ao organismo dos seres vivos, estudado nas ciências naturais. 
Em outras palavras, a estrutura social é estabelecida por uma série 
de relações sociais entre os indivíduos, em um todo integrado de 
maneira organizada, com a finalidade de garantir a estabilidade e a 
sobrevivência de um determinado grupo ou de uma determinada 
sociedade. Ele considera dois aspectos relevantes para se caracterizar 
o termo “estrutura social”. São eles: (a) As relações sociais de pessoa 
a pessoa, como, por exemplo, a relação de parentesco, estudada 
pelo próprio Radcliffe-Brown’; (b) A diferenciação de indivíduos e 
de classes e seu papel social. Na concepção browniana nos estudos 
de estrutura social, a realidade concreta que se deve apreender é o 
conjunto de relações existentes sincronicamente que cria laços entre os 
seres humanos, formando assim uma rede complexa de relacionamento 
integrado dentro de um organismo social. 
Para demonstrar suas análises sobre função e estrutura social, Radcliffe-
Brown escreveu um dos seus mais importantes estudos, intitulado: “Estrutura 
e Função na Sociedade Primitiva”. Nesse estudo a tendência sincronicista se 
acentua, assim como a perspectiva sociológica baseada em Durkheim. Radcliffe-
Brown procurou verificar as relações básicas entre as sociedades, procurando 
interpretar o significado dos mitos, religiões, rituais, e suas influências na 
manutenção da sociedade.
Para compreender o objetivo de um determinado ritual, é importante 
buscar seu significado, ou seja, verificar com o grupo pesquisado os motivos 
pelos quais revivem os rituais, quais suas motivações e sentimentos, para 
posteriormente identificar sua função social. 
102
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
As concepções de Radcliffe-Brown sobre os sistemas de sentimento, em 
seu trabalho “Estrutura e Função na Sociedade Primitiva”, assemelham-se à 
ideia de “representações coletivas” de Émile Durkheim, conforme destacado no 
texto a seguir.
Para Radcliffe-Brown, os sistemas de sentimentos regulam a atuação 
dos indivíduos de acordo com as necessidades da sociedade; tais sentimentos, 
que não são inatos, são desenvolvidos e expressos no indivíduo pela ação 
da sociedade sobre eles. A sociedade mantém-se coesa por força de uma 
estrutura de normas morais e regras civis regulatórias do comportamento 
que são independentes dos indivíduos que as reproduzem. Estas normas e 
regras atuam então como uma espécie de ‘consciência coletiva’. Desse modo, o 
indivíduo submete-se aos desígnios da sociedade e é o seu produto.
Assim, para Radcliffe-Brown, os indivíduos são apenas a expressão da 
estrutura social. Aí reside a grande diferença que o separa de Malinowski, apesarde comungarem princípios funcionalistas (ou pelo menos compartilharem a 
rubrica de ‘funcionalista’). Enquanto considera de mais relevante os princípios 
da estrutura social e os mecanismos de integração social, Malinowski detém-se 
nas motivações humanas e define a função dos elementos culturais segundo as 
necessidades biológicas do indivíduo.
FONTE: . 
Acesso em: 15 ago. 2015.
2.5 CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE A ESCOLA 
FUNCIONISTA E ESTRUTURAL-FUNCIONALISTA
Como forma de demonstrar sinteticamente a contribuição das 
Escolas Funcionalista e Estrutural-Funcionalista, podemos levantar algumas 
características principais, a partir da adaptação da leitura de Marconi e Presotto 
(2001, p. 266). São elas:
a) O entendimento de que a cultura é um todo sistêmico e que deve ser 
observado no tempo presente. 
b) Compreensão de que a cultura se constitui de partes interdependentes 
que se integram, formando um sistema sociocultural.
c) Criação de uma teoria das necessidades humanas.
d) Reconhecimento e valorização da função dos elementos da cultura 
como mantenedores da estrutura social.
e) Para Malinowski, a unidade de análise são as instituições sociais, e para 
Radcliffe-Brown, é a estrutura-funcional.
TÓPICO 2 – ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: FUNCIONALISMO, ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO, ESTRUTURALISMO, 
NEOEVOLUCIONISMO E PÓS-MODERNISMO
103
3 A ESCOLA ESTRUTURALISTA: CLAUDE LÉVI-STRAUSS
Na segunda metade do século XX inicia-se uma nova corrente científica, 
o “Estruturalismo”, que acabou influenciando muito fortemente as Ciências 
Sociais, e, portanto, também a Antropologia. Esta é a Escola Antropológica 
mais recente, que se desenvolveu paralelamente ao funcionalismo, tendo seu 
apogeu entre as décadas de 1940 e 1950. O estruturalismo adotou uma posição 
teórica própria, levando em conta principalmente os elementos subjetivos do 
estudo das culturas. Mesmo tendo adquirido uma postura autêntica em relação 
à compreensão do fenômeno cultural, não deixou de dialogar com as outras 
perspectivas antropológicas, especialmente com a corrente funcionalista. Na 
compreensão de alguns autores, conforme destacam Marconi e Presotto (2001), 
o estruturalismo chegaria a ser uma “espécie de refinamento do funcionalismo”. 
Que pontos poderiam ser considerados convergentes entre o 
Estruturalismo e o Funcionalismo? Vejamos a seguir:
1- A ideia de que a cultura se desenvolve de forma sincrônica.
2- A ideia de que o fenômeno cultural possuiu propriedades sincrônicas.
3- A dimensão globalizante do fenômeno da cultura.
4- A adoção do termo estrutura (ainda que tenha sido utilizado com 
perspectivas distintas).
5- Influência da Escola Antropológica Francesa.
De maneira geral, pode-se dizer que o Estruturalismo possui duas 
dimensões distintas quanto ao seu conceito. Ele pode ser compreendido como 
um conjunto de teorias sobre a cultura, mas também pode ser tomado como um 
método de análise, conforme poderemos verificar mais adiante.
De maneira geral, pode-se dizer que as Escolas Funcionalista e Estrutural-
Funcionalista foram importantes para a Antropologia, principalmente porque 
valorizaram a pesquisa de campo, como um elemento fundamental do fazer 
antropológico, valorizando a aproximação entre pesquisador e pesquisado. Estas 
escolas descontruíram a ideia de culturas superiores e inferiores e, por meio do 
relativismo cultural, interpretaram as culturas estudadas a partir dos parâmetros 
desenvolvidos por elas próprias, sem os valores e pré-noções dos observadores.
Neste tópico foram trabalhadas juntas, porque, apesar de terem alguns embates 
acadêmicos, os pensamentos de Radcliffe-Brown e Malinowski são similares.
104
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
3.1 PRINCIPAL REPRESENTANTE DA ESCOLA 
ESTRUTURALISTA: CLAUDE LÉVI-STRAUSS 
O antropólogo Claude Lévi-Strauss foi o mais importante representante da 
escola estruturalista do século XX e ainda é muito respeitado no meio acadêmico. 
Este antropólogo nasceu na Bélgica e mais tarde mudou-se para a França, 
formando-se em Filosofia e Direito. Depois de ter realizado trabalhos em muitos 
países, incluindo EUA e Brasil, foi condecorado com a medalha de ouro do “Centre 
National de la Recherche Scientifique”, na França.
O autor recebeu influências de pelo menos quatro áreas de conhecimento 
distintas, como a corrente antropossociológica (inglesa e francesa), o campo 
linguístico, a corrente sociológica marxista e a psicanálise de Freud.
Com relação aos autores antropossociológicos, podemos identificar o 
pensamento de Morgan, Malinowski e Radcliffe-Brown. No entanto, para Lévi-
Strauss é a sociologia francesa com a qual melhor se conecta o desenvolvimento 
de seu trabalho, tendo Marcel Mauss e Émile Durkheim como suas principais 
referências. É, inclusive, a partir da concepção de Marcel Mauss sobre o 
“inconsciente social e a regra do dom” que Lévi-Strauss vai desenvolver uma 
de suas principais obras, chamada “As estruturas Elementares do Parentesco”. 
Além das influências sociológicas e antropológicas, a linguística, especialmente 
o trabalho do linguista Saussure, foi importante para o desenvolvimento do 
pensamento de Lévi-Strauss. Outras referências ainda podem ser identificadas 
como a psicanálise, o marxismo e o existencialismo de Sartre. 
De maneira geral, Lévi-Strauss é considerado um antropólogo brilhante. 
Sua extensa obra é considerada bastante complexa e de difícil interpretação para 
aqueles que não estão envolvidos com as suas posições conceituais.
“Estruturas Elementares do Parentesco”, de 1949, é considerada uma das 
suas mais importantes obras. Este título refere-se aos sistemas de parentesco, 
que ele estuda profundamente durante suas atividades de pesquisa, como uma 
organização social que ocorre a partir do casamento. 
Outras obras também foram importantes em sua carreira de pesquisador, 
uma delas, bem conhecida e considerada uma de suas obras-primas, é a chamada 
“Tristes Trópicos”, escrita a partir de seus estudos realizados no Brasil, no período 
em que Lévi-Strauss lecionou na Universidade de São Paulo (USP), a convite de 
uma missão universitária francesa.
No Brasil, ele ficou de 1935 até 1939 e nesse período estudou algumas 
comunidades indígenas do interior do país. Os registros apreendidos a partir dos 
encontros resultaram no seu livro “Tristes Trópicos”. 
TÓPICO 2 – ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: FUNCIONALISMO, ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO, ESTRUTURALISMO, 
NEOEVOLUCIONISMO E PÓS-MODERNISMO
105
FIGURA 12 – CLAUDE LÉVI-STRAUSS E A CAPA DE SEU LIVRO “TRISTES TRÓPICOS”
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 19 jul. 2015.
Em seus escritos, Lévi-Strauss demonstrava claramente o repúdio à ideia de 
que haveria uma superioridade inata de algumas sociedades em relação a outras. 
Na sua concepção de humanidade, ele defendia que a mente dos “selvagens” era 
equivalente à mente de qualquer pessoa de sociedades mais complexas. 
3.2 RELAÇÕES SOCIAIS, ESTRUTURA E MODELOS
A partir do modelo estrutural desenvolvido por Ferdinand de Saussure, 
para a área de linguística, Lévi-Strauss adaptou para a área de antropologia e 
passou a utilizá-lo. Ele utilizou as ideias de Saussure para desenvolver o sentido 
do termo “estrutura”. Para Lévi-Strauss, a estrutura social não se confunde com 
a realidade empírica. A estrutura seria um modelo de análise construído a partir 
da observação da realidade social. Ou seja, não se pode confundir estrutura social 
com relações sociais, porque, conforme destacam Marconi e Presotto (2001), “as 
relações sociais são a matéria-prima empregada para a construção dos modelos 
que tornam manifesta a própria estrutura social”. Nesse sentido, compreende-se 
que o objeto de estudo do estruturalismo são as relações sociais. Vejamos a seguir 
o conceito de estrutura, descrito por Marconi e Presotto (2001, p. 271):
O conceitode estrutura se refere a um sistema que reflete a realidade 
social ou cultural, seu funcionamento, as alterações regulares a que 
está sujeita, o rumo das transformações provocadas por fatores 
externos à cultura e as previsões de reação quando alguma de suas 
partes for afetada.
106
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
3.2.1 Natureza e história
Com relação a este tema, as contribuições de Marx foram, sem dúvida, 
muito importantes. De toda forma, deve-se deixar claro a distinção entre os 
pensamentos de Lévi-Strauss e Marx. Embora ambos considerassem a estrutura 
consciente de uma cultura, ou seja, considerassem que na cultura ocorrem regras 
e padrões como elementos de reprodução da vida social, ou seja, de preservação 
da sua realidade objetiva, Lévi-Strauss privilegia a natureza e a ordem natural 
ao avaliar as culturas. Para ele, a história é produto da natureza. Marx, por sua 
vez, considera a história como elemento de construção e aperfeiçoamento das 
condições humanas.
Para receber a denominação de estrutura, na concepção de Lévi-Strauss, 
os modelos estruturais devem satisfazer a quatro condições básicas. São elas: 
1- A ideia de estrutura deve estar vinculada à ideia de sistema. A estrutura 
de caráter sistêmico indica que qualquer elemento que eventualmente for 
modificado implicará a modificação de todos os outros (aqui se sobressai a 
noção de interdependência).
2- Todo modelo pertence a um grupo de transformações, cada uma das quais 
corresponde a um modelo da mesma família, de modo que o conjunto destas 
transformações constitui um grupo de modelos. 
3- As propriedades indicadas acima permitem prever de que modo reagirá o 
modelo, em caso de modificação de um de seus elementos.
4- O modelo deve ser construído de tal modo que seu funcionamento possa 
explicar todos os fatos observados.
O pensamento de Lévi-Strauss é bastante complexo, no entanto, Lévi-
Strauss consegue adaptar as diferentes perspectivas teóricas para a compreensão 
do fenômeno cultural, procurando compreender uma realidade mais profunda 
no comportamento e nos condicionantes culturais. Conforme destacam Marconi 
e Presotto (2001), “o que importa não é a maneira como os homens veem a 
realidade, mas sim o modo como podemos explicar a sua maneira de ver e agir”. 
Nesse sentido, Lévi-Strauss nos permite conhecer uma realidade muito 
mais profunda, que diz respeito mesmo aos condicionamentos inconscientes dos 
grupos/indivíduos pesquisados. 
TÓPICO 2 – ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: FUNCIONALISMO, ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO, ESTRUTURALISMO, 
NEOEVOLUCIONISMO E PÓS-MODERNISMO
107
3.2.2 Culturas simples e complexas 
Para melhor compreender e apresentar as estruturas mentais inconscientes 
básicas de uma sociedade/cultura humana, Lévi-Strauss organizou as culturas 
em dois tipos, que ele chamou de culturas quentes e culturas frias.
a) Culturas frias: Por sociedades frias, Lévi-Strauss convencionou chamar as 
sociedades que estão mais próximas do estado de natureza, ou seja, aquelas 
que apresentam estruturas simples, que são pequenas, que aparentemente 
vivem em harmonia e que dificilmente se abrem a novos elementos culturais. 
Estas sociedades, de acordo com o autor, oferecem melhores condições de 
observação das suas estruturas mentais inconscientes.
b) Culturas quentes: Por sociedades quentes o autor convencionou chamar as 
sociedades mais complexas, mais antigas e industrializadas. São sociedades 
que estão em transformação constante e que aparentam um estado de 
desorganização e falta de harmonia. Para Lévi-Strauss, as sociedades 
quentes apresentam maior desafio para a compreensão de suas estruturas 
mentais inconscientes.
3.2.3 O que seriam os modelos consciente e 
inconsciente que Lévi-Strauss utiliza?
A partir de modelos anteriores, Lévi-Strauss procura desenvolver um 
método capaz de captar os modelos inconscientes que condicionam e explicam 
os modelos conscientes.
a) Por modelo consciente ele denomina as normas/padrões de comportamento 
que existem em uma determinada sociedade/cultura. De acordo com Lévi-
Strauss, o modelo consciente é um dos mais simples que existe, porque sua 
função é perpetuar as crenças, os usos e os costumes, mas não explicar os 
motivos de sua existência. Por este motivo ele afirma que o modelo consciente 
é a parte da cultura facilmente observada. 
b) Já o modelo inconsciente é o que Lévi-Strauss chama de “Estrutura Profunda”, 
ou seja, é precisamente aquilo que explica as causas das representações 
conscientes, concretas de um grupo humano. Dito de outra maneira, o modelo 
inconsciente é aquilo que não se pode verificar de forma objetiva, mas sim o 
que é possível verificar por trás de uma atitude/comportamento/norma social, 
aquilo que está camuflado.
Para interpretar a realidade objetiva, podemos dizer que, enquanto método 
de análise, o estruturalismo possui alguns elementos básicos fundamentais para 
a sua caracterização. São eles: 
108
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
1- Visão sincrônica e sistêmica da cultura.
2- Visão globalizante do fenômeno cultural, ou seja, o conhecimento do todo leva 
à compreensão das partes.
3- Adoção dos conceitos de Estrutura Social e Relações Sociais.
4- Utilização de modelos na análise cultural.
5- Unidades de análise: estruturas mentais inconscientes.
6- Compreensão ampla da realidade cultural.
 
Por fim, para concluir a discussão sobre estruturalismo, destacamos que a 
fragilidade do estruturalismo de Lévi-Strauss está justamente na preocupação de 
que, ao querer observar as características subjetivas dos padrões culturais de um 
grupo social, o pesquisador faça uso de sua subjetividade.
4 A ESCOLA NEOEVOLUCIONISTA
Após a Segunda Guerra Mundial e a descolonização de muitos países do 
Terceiro Mundo, a antropologia tomou um novo rumo, procurando interessar-se 
pelas próprias culturas e não somente pelas sociedades tribais, distantes e pouco 
conhecidas. Nesse bojo, assim como outras escolas, o neoevolucionismo vai em 
busca de rever as interpretações clássicas do evolucionismo.
Para os teóricos neoevolucionistas, a evolução social está relacionada ao 
processo de evolução tecnológica. Seus teóricos descrevem o desenvolvimento 
da cultura por meio de estágios, muito semelhantes aos estágios evolutivos de 
Morgan, como vimos no Tópico 1 desta unidade.
Os principais representantes desta escola são Lesli A. White, V. Gordon 
Childe e Julian Steward. Trataremos brevemente dos trabalhos de White.
4.1 LESLIE A. WHITE
O antropólogo Lesli A. White retornou nos métodos da antropologia 
desenvolvida por Morgan, na qual consistia em elaborar generalizações relativas 
à evolução cultural. Ele seguiu o esquema de Morgan, mas estabeleceu outros 
critérios para a compreensão da evolução cultural. 
Para White, o nível de desenvolvimento cultural deve ser medido pela 
quantidade de energia de que uma sociedade dispõe. Desse modo, os que obtêm 
progresso seriam definidos levando em consideração o domínio sempre maior de 
fontes de energia cada vez mais abundantes e diversificadas. Dito de outra forma, 
conforme Barrio (2005, p. 146): 
TÓPICO 2 – ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: FUNCIONALISMO, ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO, ESTRUTURALISMO, 
NEOEVOLUCIONISMO E PÓS-MODERNISMO
109
QUADRO 4 – ESQUEMA DE WHITE
Períodos Estágios
Selvageria (Baixo) Energia do próprio corpo, salvo exceções no emprego do fogo, do vento 
e da água.
Barbárie (Médio) Energia na domesticação dos animais e cultivo das plantas; na fabricação e uso 
de instrumentos e de ferramentas; na invenção do calendário e da escrita.
Civilizado (Alto) Energia na descoberta e aplicação da máquina a vapor (Revolução Industrial).
FONTE: Adaptado de Marconi e Presotto (2001, p. 257)
Para White, o nível de uma cultura e sua complexidade dependem 
basicamente do poder mecânico de que ela dispõe para controlar o 
mundo e para produzir meios de vida mediante técnicas particulares 
(força animal, aproveitamento dascorrentes fluviais, máquinas a 
vapor etc.). Por isso, “concentrações maiores de energia e formas 
elevadas de organização produzem níveis mais altos de cultura”. A 
quantidade de energia de que se dispõe per capita nos dá o nível de 
desenvolvimento de uma cultura, que se concretiza em: quantidade 
de alimento, moradia, transportes, comunicações, meios de defesa e 
domínio sobre as enfermidades.
Depreende-se, portanto, que para perpetuar sua espécie e satisfazer 
suas necessidades básicas, os humanos, por meio da utilização de ferramentas 
e tecnologias, produzem/reproduzem sua própria cultura (organização social, 
sistemas de parentesco, instituições sociais, crenças, e outras). Conclui-se, 
portanto, que quanto mais desenvolvimento/tecnologias, maior a evolução das 
sociedades humanas. 
A exemplo de Morgan, vejamos a seguir o esquema de White, das três 
principais etapas da evolução, no qual ele levou em conta a energia dos homens 
como elemento de delimitação dos estágios evolutivos.
Observando este quadro de White, pode-se perceber grande semelhança 
com o quadro evolutivo de Morgan. Portanto, é correto interpretar que ambos 
pretenderam estabelecer os mecanismos evolutivos para compreender o 
desenvolvimento das sociedades de forma geral. Por este motivo é que muitos 
autores destacam que White representa a permanência dos estudos de Morgan 
em nossa época. 
No entanto, White sabe que as culturas/sociedades não de desenvolvem 
de maneira idêntica, como pensavam os primeiros evolucionistas. White defende 
que existe uma série de tendências gerais na sucessão das formas culturais.
110
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
5 ANTROPOLOGIA PÓS-MODERNA
De maneira geral, o pensamento pós-moderno é um movimento que 
ocorre em todas as ciências, especialmente nas ciências sociais. Na antropologia, 
este movimento manifesta-se por meio de uma postura crítica em relação aos 
discursos etnográficos clássicos. Ou seja, coloca-se em xeque os discursos 
antropológicos produzidos sobre os “outros”. Mas, para compreender melhor 
o debate da antropologia pós-moderna, é necessário compreender o conceito 
de pós-modernidade. Vejamos a seguir o que diz Eriksen (2012, p. 169) sobre o 
conceito de Pós-modernidade:
O termo pós-moderno foi definido primeiramente na filosofia pelo 
filósofo francês Jean-François Lyotard em sua La Condition postmoderne 
(1979; The Post-modern Condition, 1984). Para Lyotard, a condição 
pós-moderna era uma situação em que não havia mais nenhuma 
“grande narrativa” abrangente que pudesse ser invocada para dar 
sentido ao mundo como um todo. Diferentes vozes competiriam 
por atenção, mas nunca se integrariam... Ele descrevia uma situação 
histórica específica no Ocidente (a que outros se referiram de formas 
variadas como “sociedade da informação”, “sociedade de consumo” 
ou mesmo “sociedade pós-industrial”), em que o domínio era 
exercido por novas tecnologias, por novas relações de poder e por 
ideologias. Mas o pós-modernismo era ele próprio uma ideologia, 
uma perspectiva analítica e uma estética que descrevia o mundo 
como descontínuo e fragmentado.
Essa noção de mundo, enquanto um ambiente de fragmentação, de 
descontinuidade e fluidez, vai assumir na antropologia, especialmente na 
antropologia norte-americana, uma posição de relativismo cultural, levada ao 
extremo. Os antropólogos desta escola defendem que todas as culturas/sociedades 
são iguais, desde que não tentem dominar umas às outras. Essa postura fez 
com que muitos autores colocassem em questão o próprio fazer antropológico 
até o momento, e muitos estudos passaram a ser realizados sobre os clássicos 
anteriores, como os trabalhos de Franz Boas e outros. 
Além das influências dos autores pós-modernos, a antropologia sofreu 
outras influências. Uma delas foi o movimento pós-colonial, nas artes e nas 
ciências humanas, que questionou o direito dos intelectuais da metrópole 
de definir quem eram e como eram “os nativos”, questionando os discursos 
e julgamentos metropolitanos. Alguns autores questionaram as pesquisas 
desenvolvidas sobre os negros, outros autores desqualificaram as narrativas 
sobre a vida dos indígenas norte-americanos, outros ainda denunciaram os 
estereótipos das culturas orientais. Muitos desses autores eram provenientes 
destes grupos minoritários, que finalmente tinham espaço nas academias 
para falar em primeira pessoa sobre a própria cultura. Vejamos um exemplo 
destacado por Eriksen e Nielsen (2012, p. 173):
TÓPICO 2 – ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: FUNCIONALISMO, ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO, ESTRUTURALISMO, 
NEOEVOLUCIONISMO E PÓS-MODERNISMO
111
Vine Deloria, um nativo Sioux dacota, é professor de Estudos Nativos 
Americanos, teólogo, advogado e ativista. Seu livro Custer Died for 
Your Sins (1970), muito debatido, foi um ataque apaixonado a todos os 
tipos de autoridades que falavam sobre os norte-americanos nativos 
e em nome deles, impedindo-os assim de efetivamente falarem por si 
mesmos. Deloria estava especialmente furioso com os antropólogos 
boasianos, cujo relativismo condenava os nativos americanos ao 
eterno exotismo e os impedia de chegar à igualdade com os brancos.
Esses e outros argumentos instigaram ainda mais a perspectiva pós-
moderna da antropologia e a autocrítica em relação ao campo de estudos. A 
antropologia se voltou para o conhecimento e interpretação de sua prática até 
então. Tanto que muitos dos artigos e monografias desenvolvidos nesta época 
(década de 1980) tratavam exclusivamente da revisão crítica de estudos clássicos. 
5.1 PRINCIPAIS AUTORES 
A safra de autores que enveredaram para o movimento pós-moderno 
não era tão grande e nem todos eram antropólogos. Os principais foram James 
Clifford, que era historiador, Stephen Tyler, George Marcus, Michael Fischer, 
Renato Rosaldo e Paul Rabinow. 
Apesar das diferenças, eles possuíam algumas características comuns, em 
relação à antropologia. A principal delas era o sentimento de vergonha frente 
ao posicionamento da antropologia em relação às culturas pesquisadas, que 
desconsiderava a “voz do outro”. Por este motivo, alguns autores, como Clifford 
e Marcus, desta escola, desenvolveram estudos experimentais procurando 
envolver as comunidades pesquisadas como agentes da pesquisa, na qual alguns 
informantes participavam, contribuindo na construção do conhecimento.
Além disso, os autores pós-modernos criticavam a antropologia boasiana, 
construída por um conceito de cultura integrada, com raízes antigas e profundas. 
Ao invés disso, chamavam-lhes a atenção os estudos de Foucault, Marx e Gramsci 
e as possibilidades de interpretação das representações e de poder nos diferentes 
textos etnográficos.
Em 1986 foram publicados dois livros fundamentais para o movimento. 
O primeiro foi Anthropology as Cultural Critique, de George Marcus e Michael 
Fischer. Esse livro destacou que a antropologia sofria uma grave crise de 
representação, por todos os motivos já citados acima. Por conta disso, o livro 
propunha um processo de reflexão sobre os fundamentos do trabalho do 
antropólogo. O livro recomendava que os trabalhos etnográficos deveriam 
possuir uma perspectiva crítica em relação à própria “casa”, isso é, as pesquisas 
deveriam ser realizadas no ambiente cultural do próprio pesquisador, focando 
as questões históricas e econômicas da sociedade. Para que este objetivo 
112
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
fosse alcançado, os autores sugeriam que os pesquisadores passassem por 
um processo de “desfamiliarização” de sua cultura. Por outro lado, pediam 
que na comparação da cultura dos outros com a sua houvesse uma ação de 
estranhamento de seus próprios parâmetros culturais. 
No mesmo ano foi editado o volume Writing Culture, dos autores Clifford 
e Marcus, um livro com 12 capítulos, desenvolvidos por autores de diferentes 
posições da escola pós-moderna, mas que de forma unânime desconstruiu o 
conceito de cultura como um todo integrado,visão predominante na antropologia 
até então. Dois anos após, Clifford publicou The Predicament of Culture, que pode 
ser resumido como ”um longo argumento contra o essencialismo”.
Todas estas posturas críticas frente ao trabalho do antropólogo 
contribuíram para o aprofundamento do relativismo cultural, que só foi possível 
compreender levando em conta o contexto social dos norte-americanos naquele 
momento histórico. Um país que acabava de sair de um processo de escravidão, 
que tinha passado por uma história de genocídio das suas comunidades 
indígenas e que foi construído por imigrantes de vários países. Isso tudo somado 
à desestruturação da estabilidade mundial na década de 80, da perda do sentido 
das grandes teorias sociais explicativas, do movimento pós-colonial, representou 
um caldeirão de mudanças sociais que a antropologia tentou explicar por meio 
das etnografias experimentais.
113
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:
• A Escola Funcionalista teve como principal representante o antropólogo 
Bronislaw Malinowski. Esta escola compreende a sociedade como um 
organismo, como um todo complexo e interdependente, que desempenha suas 
funções e mantém vivo o organismo (sociedade).
• O Estrutural-Funcionalismo tem como principal representante o antropólogo 
Radcliffe-Brown. O pensamento deste autor é bastante semelhante ao de 
Malinowski, no entanto, ele é um dos primeiros pesquisadores a trazer à 
discussão o conceito de estrutura social.
• A Escola Estruturalista é uma das mais importantes do nosso tempo. Ela 
tem como principal representante o antropólogo Claude Lévi-Strauss. Esse 
autor ampliou o campo de discussão na antropologia, construindo ao mesmo 
tempo um conjunto de teorias sobre a cultura e também um método de análise 
utilizado até os dias atuais.
• A Escola Neoevolucionista buscou fazer uma revisão dos estudos clássicos 
evolucionistas. Para os neoevolucionistas, o desenvolvimento das sociedades 
ocorre por meio da evolução das tecnologias. Seus teóricos procuram explicar 
esse processo por meio de estágios evolutivos, semelhante à teoria de Morgan.
• A Escola Antropológica Pós-moderna refere-se a uma postura crítica dos 
antropólogos atuais em relação ao fazer antropológico dos antropólogos 
clássicos. A principal crítica refere-se ao excesso de “autoridade” que tiveram 
alguns antropólogos clássicos, ao falar sobre a cultura dos “outros”, idealizando 
e essencializando essas culturas, sem permitir que seus representantes (os 
nativos) falassem por si mesmos.
114
1 Ao estudarmos as Escolas Antropológicas, verificamos que cada uma delas 
possui seus principais expoentes, ou seja, aquelas que melhor representaram 
sua perspectiva teórica. Diante disso, levando em conta as escolas descritas 
a seguir: Funcionalista, Estrutural-Funcionalista e Estruturalista, assinale a 
alternativa que apresenta os principais representantes de cada uma delas, 
respectivamente. 
a) ( ) Radcliffe-Brown – Bronislaw Malinowski – Claude Lévi-Strauss.
b) ( ) Bronislaw Malinowski – Radcliffe-Brown – Claude Lévi-Strauss.
c) ( ) Claude Lévi-Strauss – Radcliffe-Brown – Bronislaw Malinowski.
2 Na leitura realizada até o momento, podemos verificar que a Antropologia, 
assim como a ciência em geral, passou por mudanças e adaptações 
com o objetivo de compreender as transformações históricas e sociais. 
São as chamadas Escolas Antropológicas. Caracterize duas delas, a 
Neoevolucionista e Pós-Moderna.
AUTOATIVIDADE
115
UNIDADE 2
TÓPICO 3 — 
GRANDES TEMAS DA ANTROPOLOGIA: UNIÃO, 
CASAMENTO E PARENTESCO
1 INTRODUÇÃO 
A antropologia é um campo de pesquisa que se ocupa da organização e do 
desenvolvimento das sociedades humanas. Por este motivo, ao longo do tempo 
tem discutido várias dimensões da vida humana, como as instituições sociais, os 
modelos políticos e de governo, a economia, a religião, enfim, a cultura de uma 
forma geral. Mas para compreender essas dimensões, as escolas antropológicas, 
por meio de seus estudos, ao longo do tempo foram construindo conceitos que 
utilizam instrumentos analíticos para interpretar as sociedades pesquisadas.
Neste tópico, por necessidade de limitar os conhecimentos trabalhados, 
optamos por apresentar os temas: União, Casamento e Parentesco. 
2 UNIÃO 
Todas as sociedades humanas, em menor ou maior grau, sofrem 
cerceamento de seus impulsos sexuais. Por meio da cultura se estabelecem 
limitações na conduta das relações sexuais, no sentido de direcioná-la para um 
caminho preestabelecido, que demarca como, quando e com quem o sexo é 
permitido. Por esse motivo, o fato de ser humano, ou seja, viver em sociedade e 
pertencer a uma cultura, é estar sujeito a algum tipo de inibição sexual.
De acordo com Hoebel e Frost (2006), “a união é o ajuntamento de 
indivíduos de sexo oposto sob a influência do impulso sexual”. 
Pode-se dizer que atualmente o conceito de união inclui outras 
possibilidades de relacionamento, que não apenas de indivíduos de sexo oposto. 
Mas vamos tomar, por enquanto, o conceito de união dos autores citados. E 
complementam afirmando que a união sexual é um fenômeno de natureza 
basicamente instintiva, mas que é profundamente marcado pelos padrões e 
normas sociais.
116
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
A união dos seres humanos pode ocorrer apenas no plano biológico, como 
ocorre com os animais, sem implicar em casamento. Mas, na maioria das vezes, a 
união (relação sexual) acaba implicando um certo grau de permanência do par. O 
que não quer dizer que pode ser confundido com o casamento, pois pode haver 
casamento sem união.
3 CASAMENTO
O casamento é uma instituição social que serve para organizar a relação 
de um par, em uma determinada sociedade. Vejamos o que dizem Hoebel e Frost 
(2006, p. 176): 
O casamento é o complexo das normas sociais que definem e controlam 
as relações de um par unido um com o outro, com seus parentes, com 
sua prole e com a sociedade em geral. Ele define todos os direitos 
institucionais, deveres, privilégios e imunidades do par como marido 
e mulher. Ele determina a forma e atividades da associação conhecida 
como a família.
Para seguirmos com as discussões sobre o casamento, é necessário conhecer 
alguns termos importantes que utilizaremos como ferramentas analíticas para 
compreender como ocorrem as diferentes modalidades de casamento. São eles: 
Exogamia e Endogamia.
3.1 Exogamia
O Termo exogamia refere-se à regra social que determina que os 
casamentos ocorram fora da família, ou seja, com pessoas de outros grupos 
familiares. Existem dois tipos distintos de exogamia, a simples e a restrita. 
Vejamos como podem ser definidas:
a- Exogamia Simples: Ocorre quando a proibição do casamento se dá para todos 
os membros genéticos da família, sem exceção.
b- Exogamia Restrita: Ocorre quando o casamento é restrito a certas categorias 
de parentes e a outras categorias é permitido e até mesmo incentivado. Na 
maioria das vezes, mesmo possuindo laços consanguíneos, culturalmente, o 
parente não é definido como parente. Podendo ocorrer o casamento com o 
filho do irmão da mãe, ou com o filho da irmã do pai.
TÓPICO 3 — GRANDES TEMAS DA ANTROPOLOGIA: UNIÃO, CASAMENTO E PARENTESCO
117
3.2 Endogamia
Ocorre de maneira contrária à exogamia. A endogamia refere-se a uma 
regra social que determina que os casamentos ocorram dentro da própria 
organização familiar, ou grupo social, considerado de pertencimento. 
A endogamia ocorre muito menos frequente do que a exogamia, mas 
muitos países do Oriente Médio e África orientam os matrimônios por meio 
dessa regra social. Além disso, algumas sociedades indígenas da América do Sul 
e América do Norte também têm suas relações definidas pela endogamia. Um 
sistema bem conhecido é o que ocorre na Índia. Uma organização antiquíssima, 
com mais de duas mil castas e subcastas, que não permite que casem entre si, 
com a justificativa de que a união com castas inferiores denigre os membros das115
2 UNIÃO .............................................................................................................................................. 115
3 CASAMENTO .................................................................................................................................. 116
3.1 EXOGAMIA ................................................................................................................................. 116
3.2 ENDOGAMIA ............................................................................................................................. 117
4 MODALIDADES DE CASAMENTOS ........................................................................................ 117
4.1 PREÇO POR PROGÊNIE OU RIQUEZA DA NOIVA .......................................................... 118
4.2 PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DO PRETENDENTE À FAMÍLIA......................................... 119
4.3 TROCA DE PRESENTES .......................................................................................................... 119
4.4 CAPTURA ................................................................................................................................... 120
4.5 MATRIMÔNIO POR AFINIDADE, SUBSTITUIÇÃO OU CONTINUAÇÃO: 
O LEVIRATO E O SORORATO ................................................................................................ 120
4.6 FUGA COM O AMADO ............................................................................................................ 121
4.7 ADOÇÃO ..................................................................................................................................... 121
5 SISTEMA DE PARENTESCO ....................................................................................................... 122
5.1 CONCEITUANDO SISTEMA DE PARENTESCO ................................................................. 122
5.2 ELEMENTOS QUE COMPÕEM O PARENTESCO ............................................................... 123
LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................................... 125
RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 131
AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 132
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA ............................. 133
TÓPICO 1 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA CULTURA GREGA ................................... 135
1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 135
2 O HOMEM NA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA ....................................................................... 136
3 OS SOFISTAS E A ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA .............................................................. 138
4 A ANTROPOLOGIA SOCRÁTICA-PLATÔNICA ................................................................... 141
5 A ANTROPOLOGIA ARISTOTÉLICA ....................................................................................... 144
RESUMO DO TÓPICO 1................................................................................................................... 148
AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 150
TÓPICO 2 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NO PERÍODO CRISTÃO-MEDIEVAL ......... 153
1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 153
2 A CULTURA MEDIEVAL: O HOMEM SEGUNDO A TRADIÇÃO BÍBLICA .................. 153
3 ANTROPOLOGIA PATRÍSTICA ................................................................................................ 156
4 ESCOLÁSTICA E A CONCEPÇÃO TOMISTA DE PESSOA ................................................. 159
RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 164
AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 165
TÓPICO 3 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA MODERNIDADE ...................................... 167
1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 167
2 O HOMEM NO RACIONALISMO DE DESCARTES ............................................................. 168
3 A ANTROPOLOGIA NA IDADE CARTESIANA .................................................................... 171
4 A ÉPOCA DA ILUSTRAÇÃO: KANT E A ANTROPOLOGIA PRAGMÁTICA ................ 176
LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................................... 180
RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 186
AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 189
REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 191
1
UNIDADE 1 — 
O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO 
E MÉTODO
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• levar o(a) acadêmico(a) a compreender o que é Antropologia, Etnologia 
e Etnografia;
• proporcionar ao(à) aluno(a) elementos para que distinga Antropologia 
Social e Antropologia Cultural;
• instrumentalizar o(a) acadêmico(a) com os conceitos fundamentais da 
disciplina, notadamente o de cultura;
• tornar o(a) aluno(a) capaz de caracterizar e utilizar o método antropológico.
Esta unidade está dividida em quatro tópicos. No decorrer da unidade, você 
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.
TÓPICO 1 – O QUE É ANTROPOLOGIA
TÓPICO 2 – ETNOGRAFIA, ETNOLOGIA, ANTROPOLOGIA 
CULTURAL E ANTROPOLOGIA SOCIAL
TÓPICO 3 – CULTURA, ETNOCENTRISMO E RELATIVISMO CULTURAL
TÓPICO 4 – O TRABALHO DE CAMPO E A OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos 
em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá 
melhor as informações.
CHAMADA
2
3
TÓPICO 1 — 
UNIDADE 1
O QUE É ANTROPOLOGIA
1 INTRODUÇÃO
Prezado acadêmico, bem-vindo ao estudo da disciplina Antropologia 
Geral e da Religião. Nesta primeira unidade nós veremos o que é Antropologia, 
seu objeto e método. 
 
Inscrita na tradição do conhecimento científico, embora tendo se 
constituído enquanto ciência somente no final do século XIX, a Antropologia, ramo 
tardio das Ciências Sociais, irá nos servir em nossa caminhada na compreensão 
dos fenômenos humanos, notadamente, no caso deste Caderno de Estudos, no 
que diz respeito à Religião.
 
Para utilizarmos a Antropologia como ferramenta para nossa prática 
profissional e crescimento pessoal, é preciso saber no que consiste exatamente, 
quais as pretensões e alcance deste saber e como o mesmo pode nos ajudar a 
entender o fenômeno religioso. 
 
Como toda ciência, a Antropologia apresenta um objeto que lhe é próprio 
e uma abordagem metodológica característica. Também se constrói por etapas e 
apresenta diversos campos de investigação, como veremos nesta unidade.
 
Aqui apresentaremos a você, nosso(a) atento(a) leitor(a), não só as 
definições mais aceitas desta disciplina, explicitando do que ela se ocupa (qual o 
objeto de sua investigação), mas também as maneiras pelas quais a Antropologia 
se aproxima da realidade que ela pretende elucidar, como se constrói o edifício do 
saber antropológico (com suas diversas etapas), quais seus campos de pesquisa 
e ainda alguns de seus conceitos mais importantes e a maneira própriacastas superiores. 
Castas são sistemas tradicionais, hereditários ou sociais de estratificação, ao 
abrigo da lei ou da prática comum, com base em classificações tais como a raça, a cultura, 
a ocupação profissional etc. Disponível em: . Acesso em: 10 set. 2015.
UNI
De maneira geral, os casamentos que ocorrem dentro de grupos fechados, 
ou dentro das famílias, possuem o objetivo de nivelar seus membros dentro de 
uma mesma cultura, protegendo suas características e regras sociais, incluindo 
o sentido de raça. Normalmente isso ocorre quando um determinado grupo 
considera que o seu modo de vida, seus valores e sua raça são importantes demais 
para expô-los a outras culturas.
4 MODALIDADES DE CASAMENTOS
Neste subtópico vamos focar nas modalidades de casamento, levantadas 
pelos antropólogos com base nas diferentes sociedades pesquisadas. Ainda que 
atualmente, nas sociedades ocidentais, muitos casamentos ocorram de forma que 
os pares escolhem por si próprios seus cônjuges, isso não funciona desta maneira 
em muitas sociedades, nas quais os casamentos são arranjados ou dependem de 
prévio exame e consentimento das famílias.
Por este motivo, para entender como funciona essa instituição social, 
especialmente os casamentos primitivos, é necessário entender o seu conceito. Vejamos 
o que dizem Hoebel e Frost (2006, p. 193) sobre os princípios básicos de um casamento: 
118
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
O casamento constitui uma aliança entre dois grupos de parentesco, 
nos quais o casal interessado é meramente o vínculo mais importante. 
Todo homem aprende, mais cedo ou mais tarde, que quando ele se 
casa com uma “única pessoa”, casa-se não somente com ela, mas com 
seus parentes. As noivas, naturalmente, têm a mesma experiência.
Por este motivo, quando nos referimos ao casamento, estamos nos 
referindo não só aos interesses do casal, mas também aos interesses sociais 
relativos ao evento. A sociedade em geral e os parentes, em particular, têm uma 
participação bastante direta no matrimônio. Por este motivo, veremos a seguir 
algumas modalidades formalizadas do processo de casamento. 
Das sete modalidades para se “conseguir” uma mulher, apenas duas delas 
não possuem participação direta da família. São elas: o casamento por captura e 
o casamento por fuga, as demais envolvem participação direta da família. De 
acordo com Hoebel e Frost (2006), as sete modalidades são: preço por progênie, 
ou riqueza da noiva; pelo serviço do pretendente; por troca de presentes; por 
captura; por afinidade, substituição ou continuação; por fuga; por adoção.
4.1 PREÇO POR PROGÊNIE OU RIQUEZA DA NOIVA
A troca de bens/presentes por esposas é uma prática comum nas sociedades 
primitivas, especialmente em grande parte do território africano. Os presentes 
são sempre oferecidos pela família do noivo, à família da noiva e normalmente o 
pagamento é feito em cabeças de gado.
Não se pode pensar que a noiva é mero objeto de negociação entre as famílias, 
mas, ao contrário, pagar pela mulher significa que a posição da mulher em termos 
de prestígio e poder é valorizada, além do que, e principalmente, a mulher, como 
progenitora, tem muito valor como um membro de um grupo de parentesco. 
Significa dizer que a mulher casada, dependendo do valor pago, suponhamos, 
20 vacas, possui mais poder que uma mulher a quem se tenha pago 10 vacas. Na 
sociedade indígena Yurok, na Califórnia, essa regra era tão comum que o valor social 
de um homem era determinado pelo preço da progênie pago à sua mãe.
Vejamos o que dizem Hoebel e Frost (2006, p. 194) sobre os nativos Vezos 
Sakalavas, de Madagascar, onde o preço da progênie é regulado na dimensão das leis.
Em caso de divórcio não é socialmente permissível nem a devolução 
do gado pago, nem a substituição por outra mulher. A mulher 
divorciada pode casar-se novamente, mas só com a permissão de seu 
antigo marido. Esta permissão era concedida sob juramento, por parte 
da mulher e seu futuro marido, que os primeiros filhos deles (até o 
limite de três) seriam transferidos por escritura ao primeiro marido, 
que foi quem pagou o preço da progênie à sua família. A mulher cria 
e toma conta das crianças até a desmama, quando eles serão entregues 
ao seu primeiro marido e se tornam seus legítimos herdeiros, sem as 
formalidades de adoção... entre os primitivos, a paternidade legal é, 
geralmente, de maior significado do que a paternidade biológica.
TÓPICO 3 — GRANDES TEMAS DA ANTROPOLOGIA: UNIÃO, CASAMENTO E PARENTESCO
119
Além da sociedade Vezos Sakalavas, existem outras que desenvolvem 
estratégias de organização e controle sobre os preços e pagamentos de progênie, 
como os bavendas da África do Sul: entre eles, se os preços da progênie são pagos 
em prestações, as crianças não passam para o grupo de parentesco do marido 
enquanto a dívida não for quitada.
4.2 PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DO PRETENDENTE À FAMÍLIA
Refere-se à possibilidade de casamento na qual o noivo coloca-se à 
disposição para trabalhar para a família da noiva. Pode ser considerada uma 
forma mais barata de conseguir uma esposa, sem pagar de uma vez só o preço da 
progênie. Essa prática foi encontrada em diversas tribos espalhadas pelo mundo 
todo. Para ter direito a uma esposa e ter filhos com ela, o noivo se submete a 
trabalhar para os familiares da noiva, sendo que muitas vezes esse trabalho pode 
ocorrer por um longo tempo, até que se tenha considerado quitado o débito. 
4.3 TROCA DE PRESENTES 
Em algumas sociedades, ao invés do pagamento da progênie, o que se 
faz é a troca equivalente entre as famílias dos noivos. Essa não é prática tão 
comum nas sociedades pesquisadas, mas é uma possibilidade de negociação 
para o casamento. 
Uma comunidade em que esse tipo de matrimônio pode ser identificado 
é na sociedade dos índios Cheyennes, da grande região de Minnesota. Conforme 
destacam Hoebel e Frost (2006, p. 195): 
Um menino que se apaixonava por uma determinada menina 
conversava sobre o assunto com a sua família. Se a família achava que 
a escolha era boa, depois de levar em consideração não somente as 
qualidades da menina, mas também o caráter de sua família, exibia os 
seus bens mais valiosos transferíveis para colocá-los à disposição da 
jovem namorada. Eles eram cuidadosamente carregados num lindo 
cavalo. Em seguida, chamavam uma respeitada mulher de idade para 
levar o cavalo ao tipi do irmão mais velho da moça. Ali ela ficava 
parada para que todo o acampamento visse, enquanto entrava na 
cabana para expor a pretensão do seu afilhado. O irmão mais velho 
convocava seus primos para uma reunião de família. Se decidissem 
que a proposta era aceitável, descarregavam o cavalo e distribuíam 
os presentes entre si, ficando o cavalo com o irmão. Então todos se 
dispersavam para suas cabanas para discutir o que cada um ia oferecer 
em troca. Esperava-se que cada um deles levasse no dia seguinte, ou, 
no máximo, dentro de dois dias, alguma coisa de valor igual ao que 
tinham recebido.... Assim, com referência ao valor econômico, os 
presentes eram exatamente iguais.
120
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
O objetivo das trocas para os Cheyennes não era o valor das coisas, mas 
sim a possibilidade de reafirmar e reforçar os laços de amizade e, principalmente, 
de demonstrar o apreço pelo compromisso entre os noivos confirmado.
4.4 CAPTURA 
A ideia de capturar uma noiva parece ser um pouco duvidosa e nos lembra 
algumas histórias em quadrinhos ou desenhos animados sobre os casamentos 
dos “homens das cavernas”, nos quais o homem captura a mulher com uma 
paulada na cabeça e a arrasta para a sua casa. Na verdade, o casamento por 
captura foi uma das primeiras maneiras de compreender o princípio da evolução 
social, pelos antropólogos clássicos, mas hoje ganhou nova interpretação, o que 
não quer dizer que não tenha existido. Além disso, não se pode dizer que foi uma 
técnicadominante, em tempos mais remotos. 
O fato é que o casamento por captura, do ponto de vista da sobrevivência 
social, possui muitas desvantagens, sem contar o risco de ser morto por membros 
da família da moça. Além disso, como o casamento é uma instituição social que 
promove a aliança entre grupos, capturar uma esposa não traz vantagem alguma 
para o noivo, que não terá o apoio da família da noiva, sob nenhum aspecto. Não 
compartilhará a propriedade da família, seus filhos não terão o status da família, 
porque não serão reconhecidos por ela.
Por esse motivo, o casamento por captura só ocorria em ocasiões em que 
não se podia recorrer a outros meios. De maneira geral, mesmo sem recursos, um 
homem procurava casar primeiro pelos meios tradicionais de sua sociedade. 
4.5 MATRIMÔNIO POR AFINIDADE, SUBSTITUIÇÃO OU 
CONTINUAÇÃO: O LEVIRATO E O SORORATO 
Em algumas sociedades é comum encontrarmos matrimônios que 
ocorrem devido à morte de um dos cônjuges. Esse tipo de casamento é chamado 
de matrimônio por afinidade, substituição ou continuação e pode ocorrer em 
duas modalidades, o Levirato e o Sororato. A função deste tipo de casamento é 
proporcionar a continuação dos laços de parentesco entre as famílias dos cônjuges 
originais, e garantir que os filhos do matrimônio original permaneçam na família.
a) Levirato: Esse termo é utilizado para identificar os casamentos que ocorrem 
entre uma mulher e seu cunhado. É o casamento por afinidade mais conhecido 
no mundo. No caso do levirato simples, ocorre quando o irmão do marido 
falecido se casa com a mulher viúva. No caso do levirato júnior, somente o 
irmão mais novo do falecido pode herdar sua esposa. Essa prática ocorre em 
todas as partes do mundo, em diferentes sociedades.
TÓPICO 3 — GRANDES TEMAS DA ANTROPOLOGIA: UNIÃO, CASAMENTO E PARENTESCO
121
b) Sororato: Da mesma forma que o levirato, o sororato serve para dar continuidade 
aos laços familiares, mas neste caso, ao invés do irmão tomar o lugar do irmão 
falecido, é a mulher que assume o posto da irmã falecida, ou seja, casa-se com 
o cunhado.
De igual forma, tanto o sororato quanto o levirato possuem um 
objetivo comum, que é o de perpetuar o casamento realizado entre o par, mas 
essencialmente dar continuidade ao vínculo de parentesco entre as duas famílias 
que se aproximaram por meio do casamento original. O compromisso da esposa, 
ou do esposo, que assumiram o casamento, não é somente com os viúvos, mas 
sim com todos os parentes deles.
4.6 FUGA COM O AMADO
Como vimos, a maior parte dos casamentos das sociedades primitivas 
é mediada, em maior ou menor grau, pelas regras sociais e pelas famílias dos 
noivos. No entanto, pode-se verificar, em quase todas as sociedades conhecidas, 
que muitos pares escapam às regras e fogem para ficarem juntos.
Com o advento do amor romântico isso aconteceu com as sociedades 
ocidentais, mas, mesmo quando não estão sob o efeito do amor romântico, a fuga 
para casar ocorre em várias sociedades. Isso porque, embora muitas sociedades 
primitivas não se orientem pelo ideal de amor romântico, o fato é que todos os 
primitivos têm suas preferências amorosas e as suas aversões. 
Nesse sentido, a fuga ocorre quando há uma reprovação familiar em 
relação ao pretendente que se deseja muito, restando a fuga como elemento 
de salvação. 
4.7 ADOÇÃO
A adoção é uma estratégia de casamento utilizada por países como 
a Indonésia e o Japão. O homem pode obter uma esposa, sendo adotado pela 
família dela, especialmente quando o sogro não possui filhos homens. Neste caso, 
o genro adotado passa a ser filho. 
Essa medida é tomada porque possui uma necessidade social importante 
para justificá-la. Uma família patrilinear que adota o genro pode manter sua 
linhagem, mesmo quando não há filhos homens biológicos.
Tornando-se filho na família de sua esposa, os filhos de sua relação com 
ela pertencerão automaticamente à família dela. Um aspecto que chama a atenção 
é que, tornando-se filho de seu sogro, sua esposa será ao mesmo tempo sua irmã.
122
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
5 SISTEMA DE PARENTESCO
Apesar do sistema de parentesco ter adquirido maior destaque no final do 
século XX, como um dos elementos centrais das análises antropológicas, ele tem 
sua origem na história da antropologia. Os primeiros antropólogos já percebiam 
que as relações biológicas tinham um papel importante na compreensão da 
organização social, porque permitiam distinguir as relações entre uma pessoa e o 
seu grupo de origem. Podemos tomar como exemplo a relação entre mãe e filho, 
pai e mãe, irmão e irmão, entre outras. Essas relações biológicas são transferidas 
para o plano cultural e adquirem significados diferentes para cada cultura, o 
que para os antropólogos possibilita compreender a posição social de cada um 
em relação ao coletivo, e também lhes permite compreender/demonstrar o que 
denominam o “sistema de parentesco” de cada grupo social. 
Os primeiros estudos sobre o parentesco surgiram no início do século 
passado, quando os antropólogos, ao estudar as sociedades tribais, perceberam 
diferentes maneiras de classificar os parentes. Essas diferenças na classificação 
também indicavam o estabelecimento de um complexo de relações entre eles.
Para os antropólogos, desenvolver um sistema de parentesco seria a 
possibilidade de efetuar comparações, verificar diferenças e semelhanças entre 
as diversas tribos/comunidades pesquisadas. O parentesco foi uma ferramenta 
de análise antropológica fundamental para o desenvolvimento da antropologia.
Edward Tylor foi um dos primeiros a perceber as relações de parentesco 
como um elemento importante para os estudos antropológicos. Ele chamou estas 
relações de “adesões”. Morgan também influenciou na concepção do termo. 
Ele estudou o processo evolutivo das diferentes configurações de parentesco, 
compreendendo que os tipos de casamento é que os determinam. Rivers também 
foi um nome importante para a ampliação desta discussão, ele aperfeiçoou a 
metodologia etnográfica, coletou arranjos de parentesco e elaborou os sistemas 
ideais, que Morgan havia iniciado. Além desses, outros antropólogos, como 
Lowie, Lévi-Strauss, Malinowski, Radcliffe-Brown e outros contribuíram com 
estas discussões.
5.1 CONCEITUANDO SISTEMA DE PARENTESCO
Como o Sistema de Parentesco é um dos temas mais complexos trabalhados 
pela antropologia, também sobre ele foram descritos vários conceitos explicativos, 
que vamos tentar explicitar aqui. No entanto, o que é mais importante dizer é 
que, de forma geral, os diferentes conceitos convergem para um sentido mais ou 
menos homogêneo, como se pode perceber nas palavras de Marconi e Presotto 
(2001, p. 116): 
TÓPICO 3 — GRANDES TEMAS DA ANTROPOLOGIA: UNIÃO, CASAMENTO E PARENTESCO
123
O sistema de parentesco, segundo Murdock, refere-se a um sistema 
estrutural de relações, no qual os indivíduos encontram-se unidos 
entre si por um complexo interligado de laços ramificados. Para 
Rivers, sistema de parentesco consiste no “reconhecimento social de 
laços biológicos”. As relações de parentesco consistem em “funções 
interagentes, atribuídas, segundo o costume, por um povo, aos 
diferentes status de relacionamento”, afirmam Hoebel e Frost. 
A partir da citação anterior, podemos compreender que o sistema de 
parentesco, de maneira geral, é compreendido como a organização social das 
relações familiares nas sociedades estudadas pelos antropólogos.
5.2 ELEMENTOS QUE COMPÕEM O PARENTESCO
Os diferentes tipos de sistema de parentesco, assim como sua composição, 
são variados e complexos, o que impossibilita uma ampla exposição neste 
caderno de estudos. Por este motivo, nosso objetivo, ao trabalhar o parentesco, 
é aproximá-los desta temática de forma introdutória, procurando familiarizá-los 
com o assunto.
De toda maneira, podemos dizer que o elemento que dá origem à análise 
do parentesco é a família nuclear, composta por pai, mãe e filhos. Ela pode ser 
constituídade três maneiras: 
1- Famílias por afinidade (Marital ou Legal) – Laço criado pelo casamento. Por 
meio dele o homem contrai laços de afinidade com a esposa e seus familiares: 
pai, irmãos, irmãs etc.
2- Consanguinidade (Biológico) – Relação entre pais e filhos.
3- Fictício ou Pseudoparentes (Adotivos) – Muitas sociedades aceitam uma 
terceira categoria de relações, denominada fictícia, incluindo-se crianças 
adotadas, escravos, compadrio e parentesco ritual (irmãos de sangue). 
Nas diferentes sociedades é possível verificar que cada familiar assume 
um papel diferente em tempos distintos. Por exemplo, a mulher desempenha o 
papel de filha, mãe e esposa, assim como o homem assume papéis masculinos 
equivalentes. Para cada papel também são estabelecidos diferentes tipos de 
relações familiares, ou seja, de parentesco.
124
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
QUADRO 5 – REPRESENTAÇÃO DE PARENTESCO
FONTE: . Acesso em: 10 set. 2015. 
A origem do sistema de parentesco refere-se ao fato de que um sujeito, 
por meio do matrimônio, faz parte de duas famílias nucleares ao mesmo tempo. 
De acordo com Marconi e Presotto (2001), ele participa da família de Orientação 
e de Procriação. A família de Orientação é aquela na qual ele nasceu e a família 
de Procriação é aquela que ele adquire, por meio do casamento. Ao fazer parte 
de dois núcleos familiares distintos, o sujeito promove a interação entre eles. Ao 
fazer isso, a ramificação desses elos familiares vai unindo uma família à outra, 
por meio dos laços de parentesco.
 
125
LEITURA COMPLEMENTAR
AS ESTRUTURAS ELEMENTARES DO PARENTESCO, DE CLAUDE 
LÉVI-STRAUSS, POR SIMONE DE BEAUVOIR
Há bastante tempo estava a sociologia francesa adormecida. É necessário 
saudar o livro de Lévi-Strauss como um evento que marca um brilhante despertar. 
Os esforços da escola durkheimiana para organizar de uma maneira inteligível os 
fatos sociais revelaram-se decepcionantes, pois se baseavam em hipóteses 
metafísicas contestáveis e em postulados históricos não menos duvidosos; como 
reação, a escola americana pretendeu abster-se de toda especulação: ela se limitou 
a acumular fatos, sem elucidá-los. Herdeiro da tradição francesa, porém formado 
de acordo com os métodos americanos, Lévi-Strauss desejou retomar a tentativa 
de seus mestres, evitando seus defeitos; ele também supôs que as instituições 
humanas são dotadas de significação; mas procurará a chave desta na humanidade 
própria daquelas; ele conjura os espectros da metafísica, mas não aceita, por outro 
lado, que este mundo seja apenas contingência, desordem, absurdo; seu segredo 
será tentar pensar o dado sem a intervenção de um pensamento que seja 
estrangeiro a este: no coração da realidade ele descobrirá o espírito que a habita. 
Assim ele nos reconstitui a imagem de um universo que não tem a necessidade de 
refletir o céu para ser um universo humano. Não me pertence a tarefa de criticar 
– e sim a de apreciar – esta obra especializada: mas não é somente aos especialistas 
que ela se dirige. Que o leitor que abra o volume por acaso não se deixe intimidar 
pela misteriosa complexidade dos diagramas e gráficos; na verdade, quando o 
autor discute minuciosamente o sistema matrimonial dos Murngin ou dos 
Katchin, é o mistério da sociedade como um todo, o mistério do homem, que ele 
se esforça por descobrir. O problema ao qual ele se dedica é o mais fascinante e o 
mais desconcertante de todos os que têm mobilizado etnógrafos e sociólogos: 
trata-se do enigma colocado pela proibição do incesto. A importância deste fato e 
sua obscuridade resultam da situação única que ele ocupa no conjunto dos fatos 
humanos. Estes se dividem em duas categorias: os fatos da natureza e os fatos da 
cultura; certamente nenhuma análise permite descobrir entre eles o ponto de 
passagem. Mas eles se distinguem sob um critério seguro: os primeiros são 
universais; os segundos obedecem a normas. A proibição do incesto é o único 
fenômeno que escapa dessa classificação: pois ela aparece em todas as sociedades, 
sem exceção, e ao mesmo tempo é uma regra. As diferentes interpretações 
tentadas até então se esforçaram todas para mascarar essa ambiguidade. Alguns 
pensadores evocaram os dois aspectos – natural e cultural – da lei; mas eles 
apenas estabeleceram entre eles uma relação intrínseca; supuseram que um 
interesse biológico teria engendrado a interdição social; outros viram na exogamia 
um fato puramente natural: ela seria ditada por um instinto; outros, enfim, dentre 
os quais Durkheim, consideraram-na exclusivamente um fenômeno cultural. 
Esses três tipos de explicação têm conduzido a impossibilidades e contradições. 
Na verdade, se a proibição do incesto é de tão grande interesse, é porque ela 
representa o momento mesmo da passagem da natureza para a cultura. “É o 
processo pelo qual a natureza ultrapassa a ela mesma”. Essa singularidade 
126
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
decorre do caráter particular da sexualidade mesma: é normal que a dobradiça 
entre natureza e cultura se encontre no terreno da vida sexual, pois esta, extraída 
da biologia, coloca imediatamente outrem em jogo; no fenômeno da aliança se 
desenvolve essa dualidade: pois enquanto o parentesco é dado, a natureza impõe 
a aliança, mas não a determina. Podemos extrair daqui a maneira pela qual o 
homem, assumindo sua condição natural, define sua humanidade. Pela proibição 
do incesto se expressam e se realizam as estruturas fundamentais sobre as quais 
se funda a sociedade humana como tal. Primeiramente a exogamia manifesta que 
não haveria sociedade sem o reconhecimento de uma Regra. Contrariamente aos 
mitos e às inverdades liberais, a intervenção não está somente relacionada a 
alguns regimes econômicos: ela é tão original quanto a humanidade mesma. A 
distribuição dos valores entre os membros da coletividade sempre foi e será um 
fenômeno cultural; porém – como o alimento ao qual ela é estreitamente associada 
–, a mulher é um produto escasso e essencial à vida do grupo: em muitas 
civilizações primitivas, o solteiro é econômica e socialmente um pária; o primeiro 
cuidado da coletividade será assim impedir que se estabeleça um monopólio de 
mulheres. Este é o sentido profundo da proibição do incesto; afirma-se que não é 
sobre a base de sua repartição natural que as mulheres devem receber um uso 
social; se ao homem se impede escolher seus aliados entre os seus parentes, se 
“congelamos” as mulheres no seio da família, é porque a distribuição se faz sobre 
o controle do grupo e não em regime privado. A despeito de seu aspecto negativo, 
a Regra tem na verdade um sentido positivo; a interdição implica imediatamente 
uma organização: pois para renunciar a seus parentes, é necessário que o 
indivíduo seja assegurado de que a renúncia simétrica de outro lhe conceda 
aliados; ou seja, a regra é a afirmação de uma reciprocidade; a reciprocidade é a 
maneira imediata de integrar a oposição entre mim e outrem: sem uma tal 
integração, a sociedade não existiria. Porém, tal relação não existiria se 
permanecesse abstrata; sua tradução concreta é a troca: a transferência de valores 
de um indivíduo a outro os transforma em parceiros; somente sob essa condição 
pode se estabelecer um “mitsein” humano. A característica fundamental destas 
estruturas se revela claramente no estudo da psicologia infantil: a criança faz o 
aprendizado de si mesma e do mundo aprendendo a aceitar a arbitragem de um 
outro, quer dizer, a Regra, que a faz descobrir a reciprocidade, descoberta à qual 
ela reage imediatamente pelo dom e pela exigência. Essa noção de troca – cuja 
importância Mauss já havia estabelecido no seu ensaio sobre o dom, e que envolve 
as noções de regra e de reciprocidade – nos fornece a chave do mistério da 
exogamia: proibir uma mulher aos membrosde um dado grupo é colocá-la 
imediatamente à disposição de outro homem; a proibição se duplica em obrigação: 
aquela de dar sua filha, sua mulher, a outro homem; a parenta que se rejeita, se 
oferece; o fato sexual, ao invés de fechar-se sobre si, abre um vasto sistema de 
comunicação. A proibição do incesto se confunde com a instauração da ordem 
humana. Os homens em toda parte procuraram estabelecer um regime 
matrimonial tal que a mulher faça parte dos dons pelos quais se expressa a relação 
de cada um ao outro e se afirma a existência social. Uma observação extremamente 
importante impõe-se aqui: não é entre os homens e as mulheres que aparecem as 
relações de reciprocidade e de troca; elas se estabelecem por meio das mulheres, 
entre os homens; existe e sempre existiu entre os sexos uma profunda assimetria 
 
127
e o “Reino das mulheres” é um mito superado; qualquer que seja o modo de 
descendência, quer os filhos sejam incluídos no grupo do pai ou naquele da mãe, 
as mulheres pertencem aos machos e fazem parte do conjunto de prestações que 
eles se consentem. Todos os sistemas matrimoniais implicam que as mulheres 
sejam dadas por certos machos a outros machos. Há um caso onde a relação entre 
o casamento e a troca aparece claramente: é o das organizações dualistas; estas 
apresentam analogias tão fortes entre si que se tentou às vezes lhes dar uma 
origem única: segundo Lévi-Strauss, sua convergência se explica pela identidade 
de seu caráter funcional. Não é o sistema dualista que faz nascer a reciprocidade: 
ele antes a exprime de uma forma concreta. É esta mesma perspectiva que 
permitirá explicar as formas de sociedade mais complexas: elas não são o resultado 
de acasos históricos e geográficos; todas elas manifestam uma mesma e profunda 
intenção: a de impedir o grupo de se fechar em si mesmo e de mantê-lo diante de 
outros grupos com os quais a troca seja possível. O autor buscará a confirmação 
dessas ideias em uma minuciosa análise de realidades sociais dadas; é esse estudo 
que constitui a parte mais importante de seu trabalho. Não seria questão aqui de 
repassar os complicados meandros; tentarei somente indicar o método, já que é 
na sua aplicação metódica que uma hipótese manifesta sua fecundidade. A forma 
do casamento que fornece o verdadeiro experimentum crucis do estudo das 
proibições matrimoniais é o casamento entre primos cruzados. Em um grande 
número de sociedades primitivas o casamento é proibido entre primos paralelos 
– aqueles provenientes de dois irmãos ou duas irmãs – e recomendado entre 
primos cruzados – isto é, advindos de um irmão e uma irmã; o extremo interesse 
desse costume provém do fato de que graus de parentesco biologicamente 
equivalentes são considerados de um ponto de vista social como radicalmente 
dessemelhantes: torna-se patente que não é a natureza quem dita suas leis à 
sociedade; compreendendo-se a origem dessa assimetria tem-se a explicação da 
proibição do incesto. O casamento entre primos cruzados implica uma organização 
dualista da coletividade: eles distribuem-se de fato como se pertencessem a duas 
metades diferentes; mas não se deve crer que seja esta a divisão que define as 
regras de exogamia; os primitivos não começam estabelecendo classes: a classe é 
um elemento analítico, como o conceito; o homem pensa antes que o lógico 
apreenda o pensamento enquanto forma; assim a sociedade se organiza antes de 
definir os elementos separados que essa organização trará à tona; lá onde são 
encontradas as classes – e isso não é por toda parte –, elas são menos um grupo 
de indivíduos concebidos em extensão que um sistema de posição, no qual 
somente a estrutura é constante e onde os indivíduos podem se deslocar, desde 
que as relações sejam respeitadas. O princípio da reciprocidade age de duas 
maneiras complementares: constituindo classes que delimitam em extensão os 
cônjuges ou determinando uma relação que permita dizer se um indivíduo é ou 
não um cônjuge possível: no caso dos primos cruzados, esses dois aspectos do 
princípio se recobrem; mas não é seu pertencimento a dois grupos diferentes que 
os destina a se aliar entre si; ao contrário, a razão de ser do sistema que os opõe é 
a possibilidade de uma troca. As mulheres aparecem imediatamente como 
destinadas a serem trocadas e esta perspectiva cria imediatamente uma oposição 
entre dois tipos de mulheres: a irmã e a filha que devem ser cedidas e a esposa 
que é adquirida, ou seja, a parente e a aliada. Não se trata aqui, como pensava 
128
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
Frazer, da solução de um problema econômico: os processos econômicos não são 
isoláveis; é um ato de consciência primitivo e indivisível que faz apreender a filha 
e a irmã como um valor ofertável e a filha e a irmã de outrem como um valor 
exigível. Antes mesmo que a coisa a trocar se apresente, a relação de troca já está 
dada: antes do nascimento de sua filha, o pai sabe que deverá entregá-la ao 
homem – ou ao filho do homem – de quem recebeu a irmã em casamento. Os 
primos cruzados são provenientes de famílias que se encontram em posições 
antagônicas, em um desequilíbrio dinâmico que somente a aliança pode resolver; 
ao contrário, duas irmãs ou dois irmãos, pertencentes ao mesmo grupo, têm entre 
eles uma relação estática e seus filhos serão considerados como fazendo parte de 
um mesmo conjunto; eles não portam um em relação ao outro o sinal da alteridade, 
necessário ao estabelecimento das alianças. Porém, se nos limitarmos a considerar 
a troca sob essa forma restrita – ou seja, na medida em que ela estabelece uma 
reciprocidade entre um certo número de pares de unidades trocadoras, classes, 
seções ou subseções –, percebemos que ela não permite dar conta da integralidade 
dos fatos. É o que se evidencia, por exemplo, na análise dos fatos australianos. É 
sob sua forma generalizada que a ideia de troca pode servir de chave para o 
estudo de todas as sociedades. A troca generalizada é aquela que estabelece 
relações de reciprocidade entre um número qualquer de parceiros: assim, se um 
homem do grupo A esposa necessariamente uma mulher B, ao passo que um 
homem B esposa uma mulher C, o homem C uma mulher D, e o homem D uma 
mulher A, está-se diante de um sistema de troca generalizada; é o que se produz, 
entre outros, no caso em que o casamento é matrilateral, ou seja, o homem deve 
desposar a filha de seu tio materno. Essa regra estabelece o desenvolvimento de 
um ciclo aberto no qual cada indivíduo deve ter confiança: quando o grupo A 
cede uma mulher ao B, trata-se de uma especulação de longo prazo, pois ele deve 
contar que B cederá uma mulher a C, e deste a D, e este a A; tal cálculo comporta 
riscos e é por isso que à troca generalizada frequentemente se superpõem novas 
fórmulas de aliança, como o matrimônio por compra, que permite integrar fatores 
irracionais, sem destruir o sistema. A aplicação desses princípios diretores permite 
a Lévi-Strauss depreender a significação de regimes matrimoniais que pareciam 
até então contingentes e ininteligíveis. A conclusão destas análises que nos 
transportam à Austrália, à China, às Índias e às Américas é que existem dois tipos 
essenciais de exogamia. À troca direta corresponde o casamento bilateral, o 
indivíduo podendo desposar a filha de seu tio materno ou de sua tia paterna; à 
troca indireta (ou generalizada) corresponde o casamento matrilateral que 
autoriza a aliança exclusivamente com a filha do tio materno [a autora não 
considera que Lévi-Strauss também toma o casamento com a prima cruzada 
patrilateral como um modo de troca generalizada]. O primeiro sistema só é 
possível nos regimes desarmônicos, ou seja, onde a residência e a filiação seguem 
uma linha paterna e o outro a linha materna; o segundo aparece nos regimes 
harmônicos, onde residência e filiação seguem a mesma linha; o primeiro possui 
uma grande fecundidade em relação ao número de sistemas que é capaz de 
fundar, mas sua fecundidade funcionalé relativamente fraca; o segundo é, ao 
contrário, um princípio regulador fecundo que conduz a uma maior solidariedade 
orgânica no seio do grupo; no caso da troca restrita, é a inclusão ou a exclusão 
dentro ou fora da classe que faz o papel principal; no caso da troca indireta, o 
 
129
grau de parentesco, ou seja, a natureza da relação, tem uma importância 
preponderante; os sistemas desarmônicos têm assim evoluído na direção de 
organizações de classes matrimoniais, enquanto o contrário é produzido nos 
sistemas harmônicos. Estes constituem um ciclo aberto, longo, aqueles um ciclo 
curto; o casamento bilateral é uma operação mais segura; mas o casamento 
matrilateral oferece virtualidades inesgotáveis, a extensão do ciclo estando na 
razão inversa de sua segurança. É por isso que um fator alógeno se sobrepõe 
quase sempre às formas simples da troca generalizada; entre grupos que se 
lançam nessa grande aventura sociológica, nenhum é liberado inteiramente da 
inquietude engendrada pelos riscos do sistema, e eles mantêm um certo coeficiente 
ou mesmo um símbolo de patrilateralidade. Nenhum sistema é puro: ele é 
simultaneamente simples e coerente, porém cercado por outros sistemas. Resta 
acrescentar que a estrutura de troca não é solidária da prescrição de um cônjuge 
preferencial; entre outras, a substituição do direito sobre a prima pela compra da 
mulher permite à troca se desembaraçar de suas formas elementares. Mas quer 
seja indireta ou direta, global ou específica, concreta ou simbólica, é sempre a 
troca que nós encontramos na base das instituições matrimoniais. Vê-se então se 
confirmar a ideia de que a exogamia visa assegurar a circulação total e contínua 
das mulheres e das filhas; seu valor não é negativo, mas positivo: não é que haja 
um perigo biológico no casamento consanguíneo, mas um benefício social resulta 
do casamento exogâmico. A proibição do incesto é por excelência a lei do dom: é 
a instauração da cultura no seio da natureza. “Todo casamento é um encontro 
dramático entre a natureza e a cultura, entre a aliança e o parentesco... Já que se 
deve ceder à natureza para que a espécie se perpetue e com ela a aliança social, é 
necessário ao menos negá-la ao mesmo tempo em que acedemos a ela”. Em um 
sentido, todo casamento é um incesto social, já que o marido absorve em si algum 
bem ao invés de desviá-lo na direção de outrem [no original, s’échapper vers 
autrui]; ao menos a sociedade exige que no centro desse ato egoísta a comunicação 
com o grupo seja mantida: é por isso que, ainda que mulher seja outra coisa além 
de um signo, ela é, todavia, como a palavra, uma coisa que se troca. A relação do 
homem com a mulher é também fundamentalmente uma relação com outros 
homens – com outras mulheres. Os enamorados nunca estão sozinhos no mundo. 
O evento mais íntimo para cada um, o ato sexual é também um evento público: 
ele coloca em questão, ao mesmo tempo, o indivíduo e a sociedade inteira; é daí 
que vem seu caráter dramático; aqueles que se escandalizam com o ardente 
interesse que lhe dão os homens hoje em dia demonstram grande ignorância: a 
extrema importância conferida aos tabus sexuais nos mostra que esta preocupação 
é velha como o mundo; e ela está longe de ser supérflua, já que, pela maneira 
como assume sua sexualidade, o homem define sua humanidade. Certamente 
essa escolha que ele faz não é fruto de uma deliberação refletida. Mas o primeiro 
mérito do estudo de Lévi-Strauss é precisamente o de recusar o velho dilema: ou 
os fatos humanos são intencionais ou não possuem significação. O autor os define 
como estruturas nas quais o todo precede as partes e cujo princípio regulador 
possui um valor racional mesmo quando não seja racionalmente concebido. De 
onde provêm estrutura e princípio? Lévi-Strauss não se permite aventurar sobre 
o terreno filosófico, não se separa jamais de uma rigorosa objetividade científica; 
mas seu pensamento se inscreve evidentemente na grande corrente humanista 
130
UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS DA DISCIPLINA
que considera a existência humana como contendo em si sua própria razão. Não 
se poderia ler suas conclusões sem se lembrar das palavras do jovem Marx: “A 
relação do homem com a mulher...” Entretanto o livro não desperta apenas 
ressonâncias marxistas; ele me pareceu muitas vezes reconciliar de modo feliz 
Engels e Hegel: pois o homem nos aparece originalmente como uma antiphysis; 
e o que realiza sua intervenção é a posição concreta de um eu face a um outro eu, 
sem o qual o primeiro não saberia se definir. Também fui singularmente 
surpreendida pela concordância de algumas descrições com as teses sustentadas 
pelo existencialismo: a existência, ao se colocar, coloca suas leis, em um único 
movimento; ela não obedece a nenhuma necessidade interior, entretanto escapa à 
contingência por assumir as condições de seu brotar. Se a proibição do incesto é 
universal e normativa ao mesmo tempo, é porque ela traduz uma atitude original 
do existente: ser homem é se escolher como homem, definindo suas possibilidades 
sobre a base de uma relação recíproca com o outro; a presença do outro nada tem 
de acidental: a exogamia, bem longe de se limitar a registrá- la, ao contrário, a 
constitui; através dela se expressa e se realiza a transcendência do homem; ela é a 
recusa da imanência, a exigência de ultrapassá-la; aquilo que os regimes 
matrimoniais asseguram ao homem, pela comunicação e pela troca, é um 
horizonte em direção ao qual ele possa se projetar; sob sua aparência barroca, eles 
lhe asseguram um além-humano. Mas seria trair um livro tão imparcial pretender 
fechá-lo dentro de um sistema de interpretação: sua fecundidade está precisamente 
em convidar cada um a repensá-lo à sua maneira. É por isso também que nenhuma 
resenha lhe faria justiça; uma obra que nos apresenta os fatos, que instaura um 
método, e que sugere especulações, merece que cada um renove a descoberta: é 
preciso lê-la. 
Tradução: Marcos P. D. Lanna (UFSCar) e Aline Fonseca Iubel (PPGAS/UFPR). As Estruturas 
Elementares do Parentesco, de Claude Lévi-Strauss. Texto original: Simone de Beauvoir. 1949. 
“Les Structures Élémentaires de la Parenté, par Claude Lévi-Strauss”. Les Temps Modernes 
7(49): 943-9 (October). Disponível em: .
131
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:
• Vários são os temas estudados pela Antropologia, mas para o terceiro tópico 
foram selecionados: união, casamento e parentesco.
• O conceito de união refere-se às possibilidades de relacionamento sexual entre 
pessoas do sexo oposto, que tem como base o instinto, mas que normalmente é 
cerceado por normas e padrões culturais. É comum seguir para o casamento.
• O casamento é um dos mais antigos complexos de normas sociais, que tem 
por objetivo organizar a relação de um par. É o que possibilita e normatiza a 
constituição da família. 
• A exogamia refere-se à regra que determina que os casamentos ocorram fora 
da família. Pode ser dividida em exogamia simples e restrita. É uma regra 
encontrada em muitas sociedades.
• A endogamia é uma regra social encontrada em poucas sociedades e refere-se 
a uma regra social que obriga que os casamentos ocorram dentro do círculo 
familiar, ou do grupo a que se considera de pertencimento.
• Existem sete tipos de modalidades de casamento. São eles: preço por progênie, 
ou riqueza da noiva; pelo serviço do pretendente; por troca de presentes; por 
captura; por afinidade, substituição ou continuação; por fuga e por adoção.
• Por Sistema de Parentesco podemos denominar a organização social das 
relações familiares em uma determinada cultura. 
• O que dá origem ao sistema de parentesco é a família nuclear, que pode 
ser constituída de três maneiras: por afinidade, consanguinidade e por 
pseudoparentes (adotivos). 
Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem 
pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, quelevará ao 
AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.
CHAMADA
132
1 A antropologia discute vários temas relacionados à existência humana em 
sociedade. Um dos elementos é a união. Caracterize este termo. 
2 Conforme pudemos verificar neste Caderno de Estudos, para 
compreendermos como ocorrem as diferentes modalidades de casamento é 
necessário conhecer os conceitos de exogamia e endogamia. Conceitue-os:
AUTOATIVIDADE
133
UNIDADE 3 — 
FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA 
FILOSÓFICA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
•	 compreender	as	principais	concepções	de	homem	na	história	da	filosofia;
•	 refletir	sobre	a	perspectiva	histórica	da	antropologia	filosófica	no	ocidente;
•	 compreender	os	diferentes	conceitos	formulados	pelos	filósofos	ao	longo	da	
história,	desde	os	gregos	antigos	até	os	pensadores	modernos;
•	 analisar	criticamente	as	diferentes	concepções	sobre	o	homem	no	decorrer	
da	história	da	filosofia;
•	 ampliar	a	visão	sobre	o	homem,	sobre	o	mundo	e	o	transcendente.	
Esta	 unidade	 está	 dividida	 em	 três	 tópicos.	 No	 decorrer	 da	 unidade,	 você	
encontrará	autoatividades	com	o	objetivo	de	reforçar	o	conteúdo	apresentado.
TÓPICO	1	–	A	CONCEPÇÃO	DE	HOMEM	NA	CULTURA	GREGA	
TÓPICO	2	–	A	CONCEPÇÃO	DE	HOMEM	NO	PERÍODO	 
CRISTÃO-MEDIEVAL
TÓPICO	3	–	A	CONCEPÇÃO	DE	HOMEM	NA	MODERNIDADE
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos 
em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá 
melhor as informações.
CHAMADA
134
135
UNIDADE 3
TÓPICO 1 — 
A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA 
CULTURA GREGA
1 INTRODUÇÃO
A	história	da	nossa	civilização	se	inicia	com	a	história	da	civilização	dos	
gregos.	Os	filósofos	gregos	foram	os	primeiros	seres	humanos	a	indagar	sobre	si	
e	Sobre	o	mundo	(cosmos)	de	maneira	lógica-racional.	Desde	os	pré-socráticos	até	
a	modernidade,	a	pergunta:	o	que	é	o	homem?	Não	se	exauriu.	Ao	contrário,	ela	
tomou	força	na	modernidade,	e	continua	fazendo	parte	das	discussões	filosóficas	
contemporâneas.	 A	 antropologia	 filosófica	 é	 o	 ramo	 da	 filosofia	 que	 busca	
investigar	a	estrutura	essencial	do	homem,	isto	é,	o	que	faz	do	homem,	homem.	
Quais	 são	 as	 propriedades	 essenciais	 que	 permitem	 diferenciar	 o	 homem	 de	
outros	animais?	A	sua	razão?	A	alma	(psyché)?	A	linguagem?	O	corpo?	Ao	longo	
da	história	da	filosofia,	diversos	filósofos	formularam	sua	compreensão	do	que	é	
o	homem.	Isso	nos	mostra	que	a	nossa	compreensão	de	homem	ocidental	nasce	
na	civilização	Grega	Antiga,	há	mais	de	2	mil	anos.	
A	civilização	grega	é	o	berço	do	humanismo.	Os	filósofos	gregos	tinham,	
por	 obsessão,	 caracterizar,	 definir	 uma	 ideia	 de	 homem.	 Para	 Jaeger	 (1994),	
esse	 ímpeto	não	se	deu	a	partir	do	eu	subjetivo,	mas	de	uma	ideia	universal	e	
normativa.	O	homem	é	o	centro	do	pensamento	grego.	Isso	pode	ser	evidenciado	
nas	produções	artísticas,	nas	esculturas	antigas	e	nas	reflexões	filosóficas.	Desde	o	
problema	do	cosmo,	da	busca	da	arché	(princípio	primeiro),	até	a	constituição	do	
Estado	grego,	os	antigos	se	preocupavam	com	a	ideia	de	homem.	
Apresentaremos,	 neste	 tópico,	 as	 principais	 ideias	 sobre	 a	 concepção	
clássica	 de	 homem,	 dada	 pelos	 primeiros	 filósofos	 do	 ocidente,	 há	 mais	 de	
2	mil	 anos.	 Trataremos,	 num	primeiro	momento,	 da	 cultura	 grega	 arcaica,	 na	
qual	se	situam	os	filósofos	pré-socráticos	(antes	de	Sócrates)	do	século	VIII	e	VII	
a.C.	Atravessando	pelo	período	de	ouro	da	antiguidade	grega,	denominado	de	
clássico,	encontramos	Sócrates,	Platão	e	Aristóteles,	a	partir	do	século	V	e	IV	a.C.	
Bons estudos!
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
136
2 O HOMEM NA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
Inicialmente,	os	primeiros	filósofos	gregos,	conhecidos	como	“cosmólogos”,	
“naturalistas”	ou	“físicos”,	se	ocupavam	com	o	problema	filosófico	de	ordem	do	cosmos	
(universo,	 astros).	A	 totalidade	do	 real	 era	 compreendida	 como	physis	 (natureza)	 e	
cosmos.	Os	filósofos	pré-socráticos	se	questionavam:	como	surgiu	o	cosmos?	Quais	são	
as	forças	que	geram	e	movem	o	cosmos?	Portanto,	para	pensar	a	individualidade	do	
homem,	segundo	os	primeiros	filósofos,	era	necessário	primeiro	compreender	a	physis 
e	a	ordem	do	mundo.	
O	primeiro	filósofo	a	abordar	um	pensamento	antropológico	definido	é	
Diógenes	de	Apolônia	(440	a.C.).	Influenciado	diretamente	pela	escola	jônica,	o	
filósofo	grego	propõe	uma	visão	finalista	do	mundo.	Para	Diógenes,	o	homem	
é	superior	aos	outros	animais.	 Isso	se	verifica	na	própria	constituição	física	do	
homem,	pois	segundo	o	filósofo,	a	condição	vertical,	a	sua	marcha	e	o	seu	olhar	para	
o	alto,	corresponde	à	aptidão	humana	para	a	contemplação	dos	astros.	Portanto,	
ao	contemplar	os	astros,	a	ordem	cósmica,	há	uma	profunda	correspondência,	e,	
desta	correspondência,	nasce	o	sentimento	religioso	diante	do	cosmos. 
Nesse	 sentido,	 para	 Diógenes,	 as	 mãos	 também	 ocupam	 um	 papel	
fundamental	na	constituição	humana,	pois	as	habilidades	das	mãos	produzem,	
são	dotadas	de	téchne¸	são	obreiras,	e,	por	sua	vez,	são	manifestação	da	linguagem	
e	 do	 pensamento	 (logos).	 Desse	 modo,	 o	 filósofo	 pré-socrático	 constrói,	 pela	
primeira	vez,	uma	ideia	de	homem	como	estrutura	corporal-espiritual,	na	qual	a	
sua	natureza	se	manifesta	na	cultura	por	meio	das	suas	obras,	seus	feitos.	Assim,	
o	homem	é	visto	como	ordenado	finalisticamente	em	si	mesmo	e	para	o	qual	se	
ordena a própria ordem do cosmos (VAZ,	1991).
Você sabia que um dos primeiros filósofos jônicos independentes foi Heráclito 
de Éfeso (500 a.C.). Heráclito foi um dos principais filósofos da Antiguidade pré-socrática. 
A obra do filósofo caracterizou-se por iniciar um movimento de ruptura na filosofia pré-
socrática que, com as ideias dos eleatas, desembocaria nas filosofias socrática, platônica 
e aristotélica. Heráclito defende que não há unidade natural no mundo, mas duelos e 
dualidade constante. “O mundo é um eterno devir”, afirma o filósofo, querendo dizer que 
há uma constante mudança, imprevisível, que caracteriza a natureza. O pensador despreza 
a noção de essência e defende que existe uma mutabilidade, surgida de vários processos 
contínuos, que resulta no que é o mundo. Essa relação é composta pelo duelo entre os 
contrários, o qual gera novas características. Por pensar assim, Heráclito é considerado o 
“pai” da dialética. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/heraclito.htm.
DICAS
TÓPICO 1 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA CULTURA GREGA
137
FIGURA 1 – DIÓGENES DE APOLÔNIA (440-423 A.C.)
FONTE: . Acesso em: 24 jun. 2020.
Diógenes	é	considerado	o	filósofo	que	marca	uma	linha	de	transição	com	
a	primeira	filosofia	pré-socrática	do	século	VI,	a.C.,	conhecida	pelo	problema	da	
physis	 e	pela	busca	do	princípio	primeiro	 (arché).	Sua	 teorização	gira	em	torno	
da	 necessidade	 de	 resgatar	 o	monismo	 do	 princípio,	 pois,	 para	 o	 filósofo,	 os	
princípios	da	natureza	não	poderiam	ser	diferentes	entre	si,	e	agir	uns	sobre	os	
outros.	Nesse	sentido,	o	filósofo	naturalista	constata	que	o	ar	infinito	é	o	primeiro	
princípio,	 cuja	 todas	 as	 coisas	derivam	e	 se	 transformam.	Com	 isso,	Diógenes	
sustenta	 que	 a	 nossa	 alma	 é	 ar-pensamento,	 pois	 é	 dotada	 de	 inteligência.	A	
inteligência	como	princípio-ar	move	todas	as	coisas,	e,	portanto,	exala-se	com	o	
último	suspiro,	quando	não	há	mais	vida.
Diógenes	 influenciou	 diretamente	 o	 pensamento	 de	 Sócrates	 com	 sua	
visão	finalística	de	mundo	e	homem	como	estrutura	corporal-espiritual.	A	noção	
de	homem	indissociável	do	cosmo	se	prolongou	na	teoria	do	conhecimento	de	
Empédocles	e	de	Demócrito,	e	mais	tarde,	na	filosofia	de	Aristóteles.	
No	desenrolar	do	século	V	a.C.,	o	problema	antropológico	aparece	com	
maior	 evidência,	 sobrepondo-se	ao	problema	do	 cosmos.	O	período	em	que	o	
interesse	 filosófico	 grego	 se	 volta	 para	 o	 problemado	 homem,	 é	 chamado	de	
humanismo.	 Esse	 novo	 horizonte	 de	 pensamento	 coincide	 com	 a	 última	 fase	
da	filosofia	naturalista	e	sua	consequente	dissolução.	Os	responsáveis	por	essa	
virada	de	pensamento	são	os	sofistas	e,	sobretudo	Sócrates,	que,	pela	primeira	
vez	na	história	do	pensamento	ocidental,	busca	determinar	a	essência	do	homem.	
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
138
3 OS SOFISTAS E A ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
Os	sofistas	aparecem	na	história	da	filosofia	ocidental,	como	um	grupo	de	
intelectuais	itinerantes,	considerados	“sábios”,	especialistas	do	saber.	A	acepção	
do	 termo	 sofista	 (sophistês),	 engloba	 o	 saber	 teórico	 e	 as	 habilidades	 práticas,	
revelando	um	deslocamento,	um	novo	campo	de	problematização,	que	tem	como	
perspectiva	o	homem	e	suas	capacidades.	As	práticas	utilizadas	pelos	sofistas	se	
baseavam	nas	sutilezas	da	retórica,	com	objetivos	de	obter	lucro	e	vantagens.	Sem	
o	interesse	pela	verdade	(alethéia),	os	sofistas	ensinavam	aos	seus	estudantes	a	arte	
da	persuasão,	 técnicas	de	discurso	que	explorava	o	 sentimentalismo,	 essencial	
para	quem	aspirasse	o	campinho	da	vida	pública	(política).
FIGURA 2 – OS SOFISTAS
FONTE: . Acesso em: 24 jun. 2020.
O	método	e	o	objetivos	das	técnicas	dos	sofistas	foram	duramente	criticados	
por	filósofos	como	Sócrates,	Platão	e	Aristóteles.	Contudo,	historiadores	como	Werner	
Jaeger,	Reale	e	Antiseri	consideram	que	os	sofistas	são	tão	necessários	quanto	Sócrates	
e	Platão.	Segundo	Reale	e	Antiseri	(1990,	p.	73),	“os	sofistas	operaram	uma	verdadeira	
revolução	espiritual,	deslocando	o	eixo	da	reflexão	filosófica	da	physis e do cosmos para 
o	homem	e	aquilo	que	concerne	a	vida	do	homem	como	membro	de	uma	sociedade”.	
Nesse	sentido,	é	correto	afirmar	que,	com	os	sofistas,	 inicia-se	uma	discussão	sobre	
temas	 fundamentais,	 como	 a	 ética,	 a	 política,	 a	 arte,	 a	 retórica,	 a	 educação,	 cuja	
preocupação	central	é	a	cultura	do	homem.	
Para	 Vaz	 (1991),	 algumas	 ideias	 que	 constituíram	 o	 arcabouço	 na	
concepção	do	homem	ocidental	são	formuladas	pela	primeira	vez	no	contexto	do	
pensamento	dos	sofistas	em	Atenas.	Algumas	 ideias-chave	para	se	pensar	essa	
revolução	cultural	protagonizada	pelos	sofistas,	segundo	Vaz	(1991,	p.	33),	são:
TÓPICO 1 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA CULTURA GREGA
139
a)	 o	conceito	de	uma	natureza	humana	(anthropinê physis) com seus 
predicados	próprios	e	com	as	exigências	que	lhe	são	essenciais;
b)	 o	 conceito	 de	 narração	 histórica	 pela	 investigação,	 seriação	 e	
julgamento	dos	fatos,	na	qual	emergem	a	consciência	do	pluralismo	
das	 culturas	 (Heródoto)	 e	 se	 revelam	 as	 constantes	 e	 fins	 que	
sustentam	 e	 movem	 o	 agir	 humano	 em	 situações	 consideradas	
típicas	(Tucídides);
c)	 a	 oposição	 entre	 a	 convenção	 (nómos)	 e	 a	 natureza	 (physis)	 na	
organização	 da	 cidade	 e	 nas	 normas	 do	 agir	 individual,	 dando	
origem	às	primeiras	teorias	do	convencionalismo	jurídico;
d)	 individualismo	 relativistas,	 acompanhado	 das	 primeiras	
formulações	céticas	do	conceito	de	verdade;
e)	 a	 concepção	 de	 um	 desenvolvimento	 progressivo	 da	 cultura,	
exposta,	sobretudo,	no	famoso	mito	de	Protágoras	que	Platão	nos	
transmitiu	no	diálogo	homônimo	(Prot.	320	c-322d);
	f)	 a	análise	do	homem	como	ser	de	necessidade	e	carência,	ao	qual	
compete	 suprir	 com	a	cultura	o	que	 lhe	é	negado	pela	natureza,	
tema	esse	que	alimentará	o	pensamento	antropológico	ao	longo	de	
toda	a	sua	história;
g)	 finalmente,	 a	 ideia	 fundamental	 do	homem	 como	 ser	 dotado	de	
logos	 (zôon logikón),	 ou	 seja,	 da	 palavra	 e	 do	 discurso	 capaz	 de	
demonstrar	e	persuadir.
Com	 a	 dissolução	 do	 pensamento	 “físico”	 sobre	 a	 physis e as intensas 
manifestações	 sociais,	 econômicas	 e	 culturais	 na	 Grécia	 Antiga,	 os	 sofistas	
encontram	um	terreno	fértil	para	o	exercício	de	suas	atividades.	Podemos	destacar	
como	elementos	de	mudanças	na	Grécia,	no	século	V	a.C.,	a	crise	da	aristocracia	e	
o	consequente	crescimento	do	poder	do	demos (povo);	a	entrada	de	estrangeiros	às	
cidades,	sobretudo	em	Atenas,	ampliando	as	zonas	de	comércio	e	de	navegação;	
a	 difusão	 de	 conhecimentos	 e	 experiências	 dos	 viajantes	 que	 compartilhavam	
saberes	 de	 outras	 culturas,	 costumes	 e	 leis	 helênicos.	 Todos	 esses	 elementos	
contribuíram	de	modo	efetivo	para	o	emergir	da	problemática	sofística.
A	crise	da	aristocracia	implicou	também	na	crise	da	antiga	areté, os 
valores	 tradicionais,	 que	 eram	 precisamente	 os	 valores	 apreciados	
pela	 aristocracia.	 A	 crescente	 afirmação	 do	 poder	 do	 demos e a 
ampliação	 da	 possibilidade	 de	 aceder	 ao	 poder,	 a	 círculos	 mais	
vastos,	 fizeram	 cair	 a	 convicção	 de	 que	 a	 areté	 estivesse	 ligada	 à	
nascença,	isto	é,	que	se	nascia	virtuoso	e	não	se	tornava,	colocando	
em	primeiro	plano	a	questão	de	como	se	adquire	a	“virtude	política”	
(REALE;	ANTISERI,	1990,	p.	74).
Os	sofistas	se	destacaram	no	mundo	grego,	sobretudo	porque	souberam	
compreender	as	mudanças	nas	pólis	gregas.	Os	valores	tradicionais	transmitidos	
pela	velha	geração	de	pensadores	não	satisfaziam	mais	os	interesses	da	juventude.	
Os	 sofistas	 aparecem	 como	 guias,	 como	 pensadores	 esclarecidos,	 conhecidos	
também	 como	 os	 “iluministas	 gregos”.	 Dentre	 os	 sofistas,	 podemos	 destacar	
alguns,	como	Protágoras,	Górgias,	Pródico,	Hípias,	Élida	e	Antifonte.
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
140
O	sofista	mais	destacado	e	que	teve	maior	visibilidade	no	mundo	grego	foi	
Protágoras.	Nascido	em	Abdera	(491	a.C.),	o	pensador	viajou	por	toda	a	Grécia,	
alcançando	um	enorme	sucesso.	Era	bem	visto	por	políticos,	como	Péricles	que	
lhe	deu	a	missão	de	fazer	a	legislação	para	a	nova	colônia	de	Turi,	em	444	a.C.	
Sua	principal	obra,	As Antilogias,	foi	conhecida	apenas	por	testemunhos	(REALE;	
ANTISERI,	1990).
FIGURA 3 – PROTÁGORAS
FONTE: . 
Acesso em: 25 jun. 2020.
Segundo	o	pensamento	de	Protágoras,	“o	homem	é	a	medida	de	todas	as	
coisas,	daquelas	que	são	por	aquilo	que	são	e	daquelas	que	não	são	por	aquilo	
que	 não	 são”	 (REALE;	ANTISERI,	 1990,	 p.	 76).	 Para	 o	 filósofo,	 “medida”,	 diz	
respeito	à	“norma	de	juízo”,	enquanto	“todas	as	coisas”	refere-se	a	todos	os	fatos	
e	experiências	em	geral.
Protágoras	é	considerado	o	fundador	do	relativismo	ocidental.	Haja	vista	
que	 com	 sua	 teoria,	 ele	 busca	 negar	 a	 existência	 de	 um	 critério	 absoluto	 que	
discrimine	ser	e	não	ser,	verdadeiro	e	falso,	sendo	apenas	o	homem	individual,	o	
critério	que	deve	ser	seguido.	Assim,	segundo	a	teoria	de	Protágoras:	para	quem	
está	com	frio,	é	frio;	para	quem	não	está,	não	é;	não	existe	uma	verdade	absoluta	
a	respeito	do	frio,	mas	cada	homem	possui	a	sua	verdade,	 logo,	ninguém	está	
errado	(REALE;	ANTISSERI,	1990).
Deste	modo,	podemos	dizer	que	com	os	sofistas	aparecem	as	raízes	da	
concepção	de	homem	como	animal	racional,	que	será	desenvolvida	com	maior	
profundidade	no	período	clássico	da	filosofia	ocidental.
TÓPICO 1 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA CULTURA GREGA
141
4 A ANTROPOLOGIA SOCRÁTICA-PLATÔNICA
A	figura	de	Sócrates	representa	a	inflexão	decisiva	que	orienta	até	hoje	o	
pensamento	antropológico.	A	sua	contribuição	no	campo	da	filosofia,	da	ética,	
da	política,	da	moral,	do	direito,	é	sentida	até	hoje.	O	filósofo	nasceu	em	Atenas	
em	 470/469	 a.C.	 e	 morreu	 em	 399	 a.C.,	 em	 decorrência	 de	 uma	 condenação	
de	 “impiedade”,	 coordenada	 por	 membros	 políticos	 de	 Atenas.	 Acusado	 de	
corromper	os	jovens	e	de	não	crer	nos	deuses	da	cidade,	havia	também	por	trás	das	
acusações,	ressentimentos	e	manobras	políticas.	Sócrates	tinha	origem	humilde,	
filho	de	um	escultor	e	uma	obstetriz	(parteira).	Seu	legado	é	conhecido	por	outros	
filósofos,	pois	não	deixou	nada	escrito,	e,	também,	não	fundou	nenhuma	escolafilosófica	 como	 fizeram	 seus	 sucessores.	 Os	 seus	 ensinamentos	 se	 deram	 em	
espaços	públicos,	como	ginásios	e	praças,	no	qual	chamava	a	atenção	e	causava	
fascínio	de	jovens	até	pessoas	de	mais	idade,	o	que	lhe	custou	muitas	inimizades	
(REALE;	ANTISSERI,	1990).
FIGURA 4 – SÓCRATES
FONTE: . 
Acesso em: 24 jun. 2020.
Sócrates	é	considerado	o	fundador	da	Antropologia	Filosófica,	bem	como	
da	filosofia	moral.	A	visão	de	homem,	segundo	o	pensamento	de	Sócrates,	só	tem	
sentido	ou	explicação	se	olharmos	para	o	seu	interior,	ou	seja,	a	sua	dimensão	de	
interioridade	presente	em	cada	homem,	pois	é	nessa	dimensão	que	encontramos	
a	“alma”	(psyché).	Para	o	filósofo	ateniense,	a	alma	é	uma	espécie	de	 lugar,	de	
morada para a areté	 (excelência	 ou	 virtude),	 que	 possibilita	 medir	 o	 homem,	
segundo	 a	 dimensão	 interior	 na	 qual	 reside	 a	 verdadeira	 grandeza	 humana.	
Nesse	sentido,	é	na	alma	que	se	encontra	a	opção	profunda	que	orienta	a	vida	
humana,	que	faz	do	homem	justo	ou	injusto,	bom	ou	mau,	honesto	ou	desonesto,	
virtuoso	 ou	 corrompido	pelos	 vícios.	 É	 na	 alma,	 portanto,	 que	 se	 “constitui	 a	
verdadeira	essência	do	homem,	sede	de	sua	verdadeira	areté”	(VAZ,	1991,	p.	34).	
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
142
Segundo	Vaz	(1991	p.	34-35),	as	ideias	centrais	da	antropologia	filosófica	
de	Sócrates	são:
a)	 A	 teologia	 do	 bem	 e	 do	 melhor	 como	 via	 de	 acesso	 para	 a	
compreensão	do	mundo	e	do	homem,	e	sobre	a	qual	se	funda	
a	 natureza	 ética	 da	 psyqué.	 As	 páginas	 célebres	 da	 suposta	
autobiografia	 de	 Sócrates	 transmitida	 por	 Platão	 são	 o	
melhor	testemunho,	não	obstante	os	elementos	propriamente	
platônicos	 da	 narração,	 dessa	 transposição	 socrática	 do	
finalismo	de	Anaxágoras.	
b)	 A	valorização	ética	do	indivíduo	que	encontrou	sua	expressão	mais	
conhecida	na	interpretação	socrática	do	preceito	délfico	“conhece-
te	a	ti	mesmo”	(gnôthi soutón)	do	qual	resulta	da	necessidade	da	
Cura	e	do	cuidado	com	a	“vida	interior”,	noção	que	faz	sua	primeira	
aparição	na	história	da	antropologia	e	da	espiritualidade.	Segundo	
a	interpretação	socrática,	o	preceito	délfico	ordena	a	investigação	
(zêtesis)	 conduzida	metodicamente	 (donde	 os	 três	momentos	 do	
método	socrático,	a	ironia,	a	indução	e	a	maiêutica),	que	deve	levar	
a	sabedoria	e	com	ela,	necessariamente,	à	verdadeira	areté	(teoria	
da	virtude-ciência).
c)	 A	 primazia	 da	 faculdade	 intelectual	 no	 homem	 donde	 procede	
o	 chamado	 intelectualismo	 socrático	 inspirando	 a	 doutrina	 da	
virtude-ciência:	ao	exaltar	o	homem	como	portador	do	logos	e	ao	
fazer	da	relação	dialógica	a	relação	humana	fundamental,	Sócrates	
é	provavelmente	a	fonte	principal	da	definição	do	homem	como	
zôon logikón;	 enfim,	os	 traços	do	homem	socrático	 se	 completam	
com	a	transposição	do	utilitarismo	sofístico	ao	plano	do	finalismo	
moral,	quando	a	noção	de	bem,	inerente	à	nova	concepção	de	areté, 
é	apresentada	sob	a	luz	da	utilidade	que	resulta	da	prática	do	bem	
(é	mais	útil	e	melhor	ser	justo	que	injusto).
Enquanto	para	 Sócrates	 o	 homem	 teria	 como	missão	moral	 suprema	o	
cuidado	com	a	alma,	ou	seja,	o	sujeito	deveria	realizar	essa	arte	do	cuidado	sobre	
si,	 buscando	 sempre	 a	 verdadeira	 areté, Platão	 insere	 um	 elemento	místico,	 o	
cuidado	da	alma,	segundo	ele,	significa	“purificação	da	alma”.	Nesse	sentido	o	
filósofo	grego,	discípulo	de	Sócrates,	estabeleceu	uma	síntese	entre	a	“tradição	
pré-socrática	da	relação	do	homem	com	o	cosmos,	a	tradição	sofística	do	homem	
como	ser	de	cultura	(paideía)	destinado	à	vida	política	e	à	herança	dominante	de	
Sócrates	do	“homem	interior”	e	da	“alma”	(psyqué)”	(VAZ,	1991,	p.	36).	
Platão,	considerado	o	fundador	da	metafísica	ocidental,	nasceu	em	Atenas	
por	volta	de	428/427	a.C.,	cujo	nome	verdadeiro	era	Aristócles.	Alguns	estudiosos	
suspeitam	que	o	seu	apelido	derivou	do	seu	vigor	físico	ou	a	amplitude	de	seu	
estilo	ou,	ainda,	o	tamanho	da	sua	testa	(em	grego,	platos	refere-se	a	amplitude,	
largueza	ou	extensão).	Não	há	dúvidas	que	desde	a	juventude,	Platão	era	dotado	
de	muita	inteligência	e	aptidões	pessoais,	o	que	o	levou	a	se	interessar	desde	cedo	
pela	política.	Algumas	obras	importantes	deixadas	por	Platão	foram:	Apologia a 
Sócrates, Fédon, Teeteto, A Política, O Banquete, Fedro, Menon, Criton, A República	etc.
TÓPICO 1 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA CULTURA GREGA
143
FIGURA 5 – PLATÃO
FONTE: . Acesso em: 24 jun. 2020.
O	pensamento	antropológico	de	Platão	deriva	de	 sua	 teoria	do	mundo	
das	ideias,	no	qual	concebe	uma	separação	radical	entre	corpo	e	alma	(psyché).	
Segundo	 a	 perspectiva	metafísica	 de	 Platão,	 essa	 oposição	 entre	 alma	 e	 corpo	
existe	porque	o	corpo	é	entendido	como	uma	“tumba”	da	alma,	uma	espécie	de	
“cárcere",	no	qual	o	homem	está	condenado	a	pagar	as	suas	penas.	Essa	visão	
negativa	do	corpo	é	derivada	do	elemento	religioso	presente	do	Orfismo,	que	tem	
grande	influência	no	pensamento	de	Platão.
Segundo Abbagnano (2007), o Orfismo consistiu numa seita filosófico-religiosa 
difundida na Grécia, a partir do século VI a.C., e que se julgava fundada por Orfeu. Segundo 
a crença fundamental dessa seita, a vida terrena era uma simples preparação para uma vida 
mais elevada, que podia ser merecida por meio de cerimônias e de ritos purificadores, que 
constituíam o arcabouço secreto da seita. Essa crença passou para várias escolas filosóficas 
da Grécia Antiga (Pitágoras, Empédocles, Platão), mas a importância que alguns filólogos 
e filósofos dos primeiros decênios do século XX atribuíram ao O., na determinação das 
características da filosofia grega, já não é reconhecida por ninguém.
NOTA
Segundo	o	dualismo	antropológico	de	Platão,	o	corpo	pertence	ao	mundo	
sensível,	 marcado	 pela	 materialidade,	 corruptibilidade,	 relações	 efêmeras,	
paixões	 desordenadas,	 ignorância,	 discórdias,	 inimizades,	 loucuras,	 ou	 seja,	 o	
corpo	não	é	visto	como	parte	da	essência	humana,	mas	como	raiz	de	todo	o	mal.	
Já	a	alma	(psyché)	pertence	ao	mundo	a	ser	buscado	constantemente,	o	mundo	
suprassensível	ou	inteligível,	no	qual	se	encontra	as	ideias	perfeitas,	caracterizado	
pela	imutabilidade	e	eternidade.
 
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
144
Reale	 e	 Antiseri	 (1990)	 apresentam	 dois	 paradoxos	 presentes	 no	
pensamento	antropológico	de	Platão.	
O	primeiro	refere-se	ao	paradoxo	do	corpo	–	encontrado	especialmente	
na	 obra	 Fédon	 de	 Platão	 –,	 no	 qual	 a	 alma	 deve	 procurar	 fugir	 do	 corpo	
sempre	que	possível.	Nesse	sentido,	o	verdadeiro	filósofo	é	aquele	que	deseja	
a	morte,	 e	 a	 verdadeira	 filosofia	 é	 o	 exercício	 de	morte.	A	morte	 está	 ligada	
ontologicamente	ao	corpo,	 isso	quer	dizer	que	apenas	o	corpo	é	afetado	pela	
morte,	a	alma	(psyché),	por	outro	lado,	é	imortal	e	incorruptível.	Segundo	esse	
paradoxo,	a	morte	não	representa	dano	à	alma,	mas	é	fonte	de	benefícios,	pois	
permite	ao	homem	(filósofo)	viver	uma	vida	voltada	para	si	mesmo,	uma	vida	
unida	ao	inteligível,	sem	os	limites	do	corpo.	Em	outras	palavras,	“isso	significa	
que	a	morte	do	corpo	representa	a	abertura	para	a	verdadeira	vida	da	alma”	
(REALE;	ANTISERI,	1990,	p.	155).
O	segundo	paradoxo,	diz	respeito	à	 fuga	do	mundo,	ou	seja,	o	homem	
deve	tornar-se	virtuoso	e	se	assemelhar	a	Deus.	Para	isso,	deve-se	buscar	sempre	
fugir	das	ilusões	e	malefícios	que	o	mundo	sensível	produz,	pois	o	mal	é	o	oposto	
e	contrário	do	bem,	e	sempre	estará	presente	na	terra	junto	a	natureza	mortal	do	
homem.	Já	no	mundo	inteligível	o	mal	não	existe,	pois	não	habita	entre	os	deuses.	
Logo,	fugir	do	mundo	representa	fugir	de	todo	o	mal	que	o	mundo	representa,	
realizando	essa	fuga	através	da	virtude	e	do	conhecimento	para	cada	vez	mais	se	
assemelhar	a	Deus	(REALE;	ANTISERI,	1990).
Assim,	a	antropologia	platônica	baseia-se	no	seu	dualismo	metafísico,	no	
qual	a	alma	éapresentada	como	movendo-se	a	 si	mesma	 (autokínêton)	 e	 como	
princípio	de	movimento	(arché kinêseôs),	provocando	uma	ruptura	da	noção	da	
antropologia	 como	 “alma	 mundo”	 e	 princípio	 do	 movimento	 cósmico	 (VAZ,	
1991).	O	pensamento	platônico	é,	 sem	dúvidas,	 a	mais	poderosa	 influência	na	
concepção	clássica	de	homem,	inspirando	uma	geração	de	filósofos	e	pensadores	
que	 se	 apoiaram	nas	 formulações	metafísicas	 do	 seu	pensamento.	Até	 hoje	 os	
traços	de	suas	ideias	estão	presentes,	sobretudo	no	pensamento	religioso,	do	qual	
serve-se	 da	 inspiração	 do	 neoplatonismo	 de	 Santo	Agostinho	 de	Hipona	 (354	
d.C.)	para	embasar	sua	doutrina.
5 A ANTROPOLOGIA ARISTOTÉLICA
O	filósofo	grego	Aristóteles,	discípulo	de	Platão,	nasceu	em	384/383	a.C.	
em	Estagira,	na	fronteira	da	macedônica.	Com	18	anos,	o	jovem	que	já	havia	ficado	
órfão,	 viajou	 para	Atenas	 e	 ingressou	 na	Academia	 de	 Platão.	 Na	Academia,	
Aristóteles	consolidou	sua	visão	filosófica	de	mundo,	conheceu	grandes	cientistas	
da	época,	como	o	célebre	Eudóxio,	permanecendo	durante	vinte	anos,	até	a	morte	
de	Platão	em	347	a.C.	Após	a	morte	de	Platão,	Aristóteles	não	ficou	satisfeito	com	
TÓPICO 1 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA CULTURA GREGA
145
os	rumos	que	a	Academia	platônica	tinha	tomado	sob	a	direção	de	Espêusipo	e	
decidiu	viajar	para	Ásia	Menor.	Na	companhia	de	seu	célebre	colega	Xenócrates,	
o	filósofo	fundou	uma	escola	em	conjunto	com	os	platônicos	Erasto	e	Corisco.	Por	
volta	de	342	a.C.	Aristóteles	passou	a	integrar	a	corte	de	Felipe	da	Macedônia,	
com	o	objetivo	de	cuidar	da	educação	do	filho	do	rei,	cujo	nome	era	Alexandre	
(REALE;	ANTISERI,	1990).	
FIGURA 6 – ARISTÓTELES
FONTE: . Acesso em: 24 jun. 2020.
Você sabia que o filósofo Aristóteles foi contratado para cuidar da educação de 
Alexandre, o Grande? Recentemente, a escritora Annabel Lyon lançou um livro que recria a 
relação entre O Filósofo e o Imperador, colocando o foco na vida de Aristóteles, reconhecido 
como um dos fundadores da filosofia ocidental. A narrativa tem início quando Aristóteles se 
vê forçado a adiar o sonho de suceder Platão como o líder da Academia em Atenas, para 
atender ao pedido de Filipe, da Macedônia, tornando-se tutor de seu filho, Alexandre. No 
início, o filósofo fica horrorizado com a perspectiva de ficar preso naquele lugar distante e 
atrasado de sua infância, mas logo se sente atraído pelo potencial intelectual do menino e 
por sua capacidade de surpreender. O que não sabe é se suas ideias seriam páreo para a 
cultura guerreira incutida em Alexandre desde menino. O Filósofo e o Imperador investiga 
como o gênio de Aristóteles afetou o garoto que iria conquistar o mundo conhecido. 
Que tal aprofundar sua leitura nesse romance? Acesse o site: https://www.bonde.com.br/
entretenimento/literatura/livro-recria-relacao-entre-aristoteles-e-alexandre-158061.html.
INTERESSANTE
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
146
Aristóteles	 é	 considerado	 um	 dos	 fundadores	 da	 antropologia	 como	
ciência,	 sendo	 o	 primeiro	 a	 realizar	 uma	 síntese	 científico-filosófica	 em	 sua	
concepção	 de	 homem.	 Em	 termos	 gerais,	 pode-se	 dizer	 que	 a	 concepção	 de	
homem	 em	 Aristóteles,	 caminhou	 desde	 um	 platonismo	 da	 psyché	 até	 um	
monismo	hilemórfico	(alma	como	forma	do	corpo).	
Embora	o	termo	“antropologia”	seja	cunhado	somente	na	modernidade,	
Aristóteles	também	é	o	responsável	por	uma	antropologia	no	sentido	estrito,	ou	
seja,	uma	filosofia	das	coisas	humanas.	Portanto,	o	objeto	de	estudo	de	Aristóteles	
também	é	o	homem,	que	só	pode	ser	compreendido	no	horizonte	da	physis.	Deste	
modo,	a	noção	antropológica	Aristóteles	considera	que	o	homem	tem	o	seu	lugar	
definido	na	hierarquia	da	natureza	(physis),	ao	contrário	da	concepção	finalista	
de	seu	mestre	Platão,	que	situara	o	homem	no	plano	do	inteligível	(mundo	ideal).
Entretanto,	 Aristóteles	 não	 deixa	 de	 lado	 sua	 inspiração	 platônica,	
no	que	diz	 respeito	à	capacidade	do	homem	de	se	elevar,	através	da	 theoría,	 à	
contemplação	das	realidades	transcendentes	e	eternas	(VAZ,	1991).	Segundo	Vaz	
(1991),	Aristóteles	define	sua	antropologia	filosófica	a	partir	de	quatro	aspectos	
fundamentais:	 a	 estrutura	 biopsíquica	do	homem	ou	 teoria	da	psyché;	 homem	
como zôon logikón;	homem	como	ser	ético-político;	e,	por	fim,	homem	como	ser	de	
paixão	e	de	desejo.
Você sabia que o termo "teoria" provém do verbo grego theorein? O substantivo 
correspondente é theoria. Essas palavras têm, de próprio, uma significação superior e 
misteriosa. Os gregos pensavam, isto é, recebiam da própria língua grega e, de uma maneira 
única, seu modo de estar e ser no ser. Por isso, junto ao lugar mais alto atribuído à theoria 
pelo ser vivente (bios) grego, eles costumavam escutar ainda uma outra coisa na palavra. É 
que os dois étimos thea e horaw podem ter outra acentuação: theá e ora. Theá é a deusa. 
Foi como deusa que a aletheia apareceu ao pensador originário Parmênides. Traduzimos 
aletheia pelo latim veritas, verdade, e pelo alemão wahrheit. A palavra grega ora significa 
o respeito que temos, diz a honra e a consideração que damos. Se pensarmos na palavra 
theoria a partir das últimas significações, a theoria se torna a consideração respeitosa da 
revelação do vigente. Em sentido antigo, originário, mas de forma alguma antiquado, a 
teoria é a visão protetora da verdade (HEIDEGGER, 2002).
NOTA
No	 que	 diz	 respeito	 ao	 homem,	 pensado	 a	 partir	 de	 sua	 estrutura	
biopsíquica,	o	homem	é	um	ser	 composto	de	psyché e de sôma, sendo a psyché 
o	 princípio	 vital,	 o	 ato	 ou	 a	 perfeição	 do	 corpo	 organizado.	 Nesse	 sentido,	
Aristóteles	 compreende	 que	 há	 uma	 hierarquia	 na	 natureza	 (physis),	 que	 é	
gradativa,	e	caminha	de	acordo	com	a	função	comum	a	todos	os	seres	vivos.	A	
nutrição	é	a	função	primária	e	comum	a	todos	os	seres	vivos;	a	sensação	é	uma	
função	próprias	dos	seres	superiores;	e	a	função	intelectiva	é	a	função	exclusiva	
do	homem	(VAZ,	1991).
TÓPICO 1 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA CULTURA GREGA
147
O	 segundo	 aspecto	 da	 antropologia	 aristotélica,	 refere-se	 ao	 homem	
como zôon logikón,	 ou	 seja,	 o	 homem	 é	 um	 animal	 racional.	 A	 racionalidade	
distingue	o	homem	de	todos	os	seres	encontrados	na	natureza.	Esse	é	o	aspecto	
específico	e	peculiar	do	homem,	ser	racional.	Portanto,	segundo	Vaz	(1991,	p.	40),	
“enquanto	ser	dotado	de	 logos	 (da	fala	e	do	discurso),	o	homem	transcende	de	
alguma	maneira	a	natureza	e	não	pode	ser	considerado	um	simples	ser	natural”.	
Aristóteles	estuda	intensamente	o	aspecto	racional	do	homem,	especialmente	nos	
tratados: De Anima, De Sensu et Sensibili, De Memoria et Reminiscentia, De Vita et 
Morte,	em	seus	livros	sob	o	título	de	Órganon.
O	 terceiro	 ponto	 constitutivo	 da	 antropologia	 aristotélica,	 o	 homem	 é	
pensado	como	ser	ético-político.	Aristóteles	é	o	primeiro	filósofo	a	realizar	uma	
sistematização	 da	 Ética	 e	 da	 Política	 como	 dimensões	 fundamentais	 do	 saber	
do	 homem	 sobre	 si	 mesmo.	 Essa	 unidade	 revela-se,	 segundo	 Aristóteles,	 no	
fato	de	que	o	homem,	na	sua	expressão	acabada,	ou	seja,	o	homem	helênico,	é	
essencialmente	destinado	à	vida	em	comum	na	pólis.	Somente	na	pólis	o	homem	
se	realiza	enquanto	ser	racional.	Pode-se	dizer	então,	que	o	homem	é	um	zôon 
politikón	(animal	político)	porque	é,	também,	zôon logikón,	sendo	a	vida	ética	e	a	
vida	política	artes	de	viver	segundo	a	razão	(VAZ,	1991).	
O	último	aspecto	da	antropologia	aristotélica,	o	homem	é	compreendido	
como	 ser	 de	 paixão	 e	 de	 desejo.	 Essa	 dimensão	 está	 presente	 na	 estrutura	 da	
psyché,	que	é	a	sede,	da	paixão	(pathê)	e	do	desejo	(órexis)	e,	faz	parte	da	vertente	
irracional	da	psyché,	na	qual	interfere	diretamente	no	agir	ético,	como	também,	no	
agir	político	do	homem.	Portanto,	a	dimensão	do	desejo	e	da	paixão	também	são	
partes	constitutiva	da	atividade	humana,	sendo	um	tema	muito	discutido	entre	
osgregos,	especialmente	nas	escolas	filosóficas	que	se	desenvolveram	na	idade	
helênica,	como	a	do	epicurismo	e	do	hedonismo.
A	 antropologia	 de	Aristóteles	 influenciou	 diretamente	 a	 concepção	 de	
homem	ocidental,	contribuindo	diretamente	para	a	fundação	e	o	desenvolvimento	
de	diversas	áreas	do	conhecimento,	por	exemplo,	a	 lógica	 formal	e	a	zoologia.	
Segundo	Russell	 (1957,	p.	185),	“desde	o	princípio	do	século	XVII,	quase	 todo	
o	progresso	 intelectual	 importante	 tinha	de	começar	com	um	ataque	a	alguma	
doutrina	de	Aristóteles;	na	lógica,	isso	ocorre	ainda	em	nossos	dias”.	Embora	a	
maioria	dos	escritos	do	filósofo	tenham	se	perdido,	os	seus	tratados	filosóficos	
técnicos	 ficaram	 conservados	 e	 foram	 compilados	 no	Corpus Aristotelicum.	As	
aporias	levantadas	por	Aristóteles	entorno	da	pergunta	sobre	o	que	é	o	homem	e	
as	categorias	utilizadas	para	resolvê-las	são	objeto	de	estudo	até	hoje.	
148
Neste tópico, você aprendeu que:
•	 Inicialmente,	 os	primeiros	filósofos	 gregos,	 conhecidos	 como	“cosmólogos”,	
“naturalistas”	ou	“físicos”,	ocupavam-se	com	o	problema	filosófico	de	ordem	
do	cosmos	(universo,	astros).
•	 Para	os	primeiros	filósofos,	a	totalidade	do	real	era	compreendida	como	physis 
(natureza)	e	cosmos.
•	 O	 primeiro	 filósofo	 a	 abordar	 um	 pensamento	 antropológico	 definido	 foi	
Diógenes	de	Apolônia	(440	a.C.).
•	 Para	Diógenes,	 o	 homem	 é	 superior	 aos	 outros	 animais.	 Isso	 se	 verifica	 na	
própria	constituição	física	do	homem.
•	 Diógenes	 constrói,	 pela	 primeira	 vez,	 uma	 ideia	 de	 homem	 como	 estrutura	
corporal-espiritual,	na	qual	a	sua	natureza	se	manifesta	na	cultura	por	meio	
das	suas	obras,	seus	feitos.	
•	 Diógenes	 é	 considerado	o	filósofo	que	marca	uma	 linha	de	 transição	 com	a	
primeira	filosofia	pré-socrática	do	século	VI,	a.C.,	conhecida	pelo	problema	da	
physis	e	pela	busca	do	princípio	primeiro	(arché).
•	 Os	 sofistas	 aparecem	 na	 história	 da	 filosofia	 ocidental,	 como	 um	 grupo	 de	
intelectuais	itinerantes,	considerados	“sábios”,	especialistas	do	saber.
•	 As	práticas	utilizadas	pelos	sofistas	se	baseavam	nas	sutilezas	da	retórica,	com	
objetivos	de	obter	lucro	e	vantagens.
•	 Os	 sofistas	 não	 tinham	 interesse	 pela	 verdade	 (alethéia),	 eles	 ensinavam	aos	
seus	 estudantes	 a	 arte	 da	 persuasão,	 técnicas	 de	 discurso	 que	 explorava	 o	
sentimentalismo.
•	 Para	Protágoras,	“o	homem	é	a	medida	de	todas	as	coisas,	daquelas	que	são	
por	aquilo	que	são	e	daquelas	de	não	são	por	aquilo	que	não	são”.
•	 Sócrates	é	considerado	o	fundador	da	Antropologia	Filosófica,	bem	como	da	
filosofia	moral.
•	 Para	Sócrates,	a	alma	é	uma	espécie	de	lugar,	de	morada	para	a	areté	(excelência	
ou	virtude),	que	possibilita	medir	o	homem,	segundo	a	dimensão	interior	na	
qual	reside	a	verdadeira	grandeza	humana.
RESUMO DO TÓPICO 1
149
•	 O	pensamento	 antropológico	 de	 Platão	 deriva	 de	 sua	 teoria	 do	mundo	das	
ideias,	no	qual	concebe	uma	separação	radical	entre	corpo	e	alma	(psyché).
•	 Na	perspectiva	metafísica	de	Platão,	a	oposição	entre	alma	e	corpo	existe	porque	
o	corpo	é	entendido	como	uma	“tumba”	da	alma,	uma	espécie	de	“cárcere",	no	
qual	o	homem	está	condenado	a	pagar	as	suas	penas.
•	 No	dualismo	antropológico	de	Platão,	 o	 corpo	pertence	 ao	mundo	 sensível,	
marcado	 pela	 materialidade,	 corruptibilidade,	 relações	 efêmeras,	 paixões	
desordenadas,	ignorância,	discórdias	etc.
•	 A	alma	(psyché),	no	dualismo	antropológico	de	Platão,	pertence	ao	mundo	a	
ser	buscado	constantemente,	o	mundo	suprassensível	ou	inteligível,	no	qual	se	
encontra	as	ideias	perfeitas,	caracterizado	pela	imutabilidade	e	eternidade.
•	 Aristóteles	é	considerado	um	dos	fundadores	da	antropologia	como	ciência,	
sendo	o	primeiro	a	realizar	uma	síntese	científico-filosófica	em	sua	concepção	
de	homem.
•	 A	 concepção	 antropológica	Aristóteles	 considera	 que	 o	 homem	 tem	 o	 seu	
lugar	definido	na	hierarquia	da	natureza	(physis),	ao	contrário	da	concepção	
finalista	de	seu	mestre	Platão,	que	situara	o	homem	no	plano	do	inteligível	
(mundo	ideal).
•	 Na	visão	de	Aristóteles,	o	homem	é	um	ser	composto	de	psyché e de sôma, sendo 
a psyché	o	princípio	vital,	o	ato	ou	a	perfeição	do	corpo	organizado.
•	 Para	Aristóteles,	o	homem	é	zôon logikón,	ou	seja,	o	homem	é	um	animal	racional.
150
1	 A	civilização	grega	é	o	berço	do	humanismo.	Nesse	sentido,	os	filósofos	
gregos	buscavam	definir	e	caracterizar	uma	ideia	de	Homem.	O	Homem	era	
o	centro	do	pensamento	grego.	Isso	se	evidenciava	nas	produções	artísticas,	
nas	esculturas	antigas	e	nas	reflexões	filosóficas.	Sobre	o	primeiro	filósofo	a	
abordar	um	pensamento	antropológico,	assinale	a	alternativa	CORRETA:
a)	(			)	O	 primeiro	 filósofo	 pré-socrático	 a	 elaborar	 um	 pensamento	
antropológico	foi	Protágoras.	Para	ele,	“o	homem	é	a	medida	de	todas	
as	coisas,	daquelas	que	são	por	aquilo	que	são	e	daquelas	que	não	são	
por	aquilo	que	não	são”.
b)	(			)	O	primeiro	filósofo	a	abordar	um	pensamento	antropológico	definido	
foi	Aristóteles.
c)	 (			)	O	primeiro	filósofo	pré-socrático	a	abordar	um	pensamento	antropológico	
definido	foi	Diógenes	de	Apolônia	 (440	a.C.).	Para	o	filósofo,	o	homem	
é	 visto	 como	 estrutura	 corporal-espiritual,	 na	 qual	 a	 sua	 natureza	 se	
manifesta	na	cultura	por	meio	das	suas	obras	e	seus	feitos.
d)	(			)	O	primeiro	filósofo	a	abordar	um	pensamento	antropológico	definido	
foi	Platão.
2	 Os	 sofistas	 foram	 um	 grupo	 de	 intelectuais	 itinerantes,	 considerados	
“sábios”,	 especialistas	 do	 saber.	 As	 práticas	 utilizadas	 pelos	 sofistas	
se	 baseavam	 nas	 sutilezas	 da	 retórica,	 com	 objetivos	 de	 obter	 lucro	 e	
vantagens.	Os	sofistas	não	demonstravam	interesse	pela	busca	da	verdade	
(alethéia),	mas	ensinavam	aos	seus	alunos	a	arte	da	persuasão,	técnicas	de	
discurso	 que	 explorava	 o	 sentimentalismo.	 Sobre	 os	 sofistas,	 analise	 as	
seguintes	sentenças:
I-	 Dentre	os	sofistas	podemos	destacar	alguns	como:	Protágoras,	Górgias,	
Pródico,	Hípias,	Élida	e	Antifonte.	
II-	 O	sofista	mais	destacado	e	que	teve	maior	visibilidade	no	mundo	grego	
foi	Protágoras.	
III-	O	 método	 e	 o	 objetivos	 das	 técnicas	 dos	 sofistas	 foram	 duramente	
criticados	por	filósofos	como:	Sócrates,	Platão	e	Aristóteles.	
IV-	Com	os	sofistas	inicia-se	uma	discussão	sobre	temas	fundamentais,	como	
a	ética,	a	política,	a	arte,	a	retórica,	a	educação,	cuja	preocupação	central	é	
a	cultura	do	homem.	
Agora,	assinale	a	alternativa	CORRETA:
a)	(			)	As	afirmativas	I,	II	e	III	estão	corretas.
b)	(			)	As	afirmativas	I	e	III	estão	corretas.
c)	 (			)	As	afirmativas	II	e	IV	estão	corretas.
d)	(			)	Todas	as	afirmativas	estão	corretas.
AUTOATIVIDADE
151
3	 Sócrates	foi	um	filósofo	nascido	em	Atenas,	em	469/470	a.C.	e	morreu	em	
399	a.C.,	em	decorrência	de	uma	condenação	de	“impiedade”	coordenada	
por	membros	políticos	de	Atenas.	Além	disso,	Sócrates	sofreu	acusações	de	
corromper	os	jovens	e	de	não	crer	nos	deuses	da	cidade,	havia	também	por	
trás	das	acusações,	ressentimentos	e	manobras	políticas.	O	filósofo	grego	
não	deixou	nada	escrito	e	não	fundou	nenhuma	escola	filosófica.	Sobre	a	
antropologia	filosófica	socrática,	analise	as	sentenças	a	seguir:
I-	 Na	visão	de	Sócrates	o	homem	teria	como	missão	moral	suprema	a	busca	
pelos	prazeres	e	a	ausência	da	dor.
II-	 Sócrates	é	considerado	o	fundador	da	antropologia	filosófica,	bem	como	
da	filosofia	moral.	
III-	 Para	 Sócrates,	 a	 alma	 é	uma	 espécie	de	 lugar,	 de	morada	para	 a	 areté	
(excelência	 ou	 virtude),	 que	 possibilita	 medir	 o	 homem	 segundo	 a	
dimensão	interior	na	qual	reside	a	verdadeira	grandeza	humana.
IV-	 Segundo	a	antropologia	filosófica	de	Sócrates,	é	na	alma	que	se	constitui	
a	verdadeira	essência	do	homem,	sede	de	sua	verdadeira	areté.
Agora,	assinale	a	alternativa	CORRETA:
a)	(			)	As	afirmativas	I,	II	e	III	estão	corretas.
b)	(			)	As	afirmativas	II,	III	e	IV	estão	corretas.
c)	 (			)	As	afirmativas	II	e	IV	estão	corretas.
d)	(			)	Todas	as	afirmativas	estãodeste 
conhecimento científico proceder na elucidação dos problemas de que trata (seu 
método característico). 
 
Assim, no Tópico 1 definiremos Antropologia, a partir de sua fundação 
enquanto ciência, na visão dos praticantes e teóricos deste saber, para levar você, 
acadêmico(a), a ser capaz de refletir criticamente acerca do fazer antropológico.
 
No Tópico 2 veremos as diferentes etapas e áreas deste conhecimento, para 
que você, estudante da UNIASSELVI, seja familiarizado com o campo semântico 
da disciplina e o alcance deste saber, a partir da análise de como este se forja e do 
que se ocupa.
 
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
4
No Tópico 3 trataremos de alguns dos conceitos mais importantes da 
Antropologia, conceitos estes que são fundamentais para a compreensão da 
especificidade do olhar antropológico e de seu objeto, para que você aprofunde 
seu entendimento do que trata a Antropologia.
 
Por fim, no Tópico 4 nós veremos a Antropologia na prática, o método 
próprio desta ciência, que a distingue das demais Ciências Sociais, para que você, 
nosso(a) aluno(a), possa saber como se faz, afinal, o conhecimento antropológico.
 
Esperamos que esta primeira unidade vá despertar sua curiosidade e 
interesse em saber mais a respeito da Antropologia e de como ela pode nos ajudar 
a compreender este fenômeno complexo que é o ser humano.
Aqui utilizaremos ser humano em vez de “homem” para nos referirmos ao 
“anthropos” (o objeto da Antropologia) por entendermos, dentro da visão antropológica do 
fenômeno humano, que nossa espécie apresenta uma enorme diversidade de gêneros (às 
vezes dentro de uma mesma sociedade) o que torna o termo “homem” inapropriado para 
definir o conjunto dos seres humanos.
NOTA
FIGURA 1 – REPRESENTAÇÃO DE POPULAÇÃO PRÉ-HISTÓRICA DO NORDESTE BRASILEIRO
FONTE: . Acesso em: 31 mar. 2015.
A partir de seu próprio nome, Antropologia, podemos inferir do que se 
ocupa esta disciplina, que, de agora em diante, será alvo de seus estudos, Prezado 
acadêmico da UNIASSELVI. De fato, este nome de origem grega é revelador do 
foco desta ciência.
 
TÓPICO 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA
5
Vejamos: o mesmo compõem-se de dois substantivos daquela língua 
clássica, a saber, anthropos, o ser humano, e logos, estudo (ou ainda razão e lógica). 
 
Antropologia trata-se assim do “Estudo do Ser Humano”, definição que 
a põe inserida na tradição científica, no campo das Ciências Humanas, próxima, 
portanto, da Sociologia e da Economia, por exemplo. Nesta perspectiva, a mesma 
investiga a constituição e a dinâmica da experiência humana, tanto em suas 
relações internas, quanto aquelas com o meio circundante. 
 
De acordo com Gomes (2013, p. 11), outra tradução possível para 
Antropologia seria “Lógica do Ser Humano”, o que colocaria alguns dos focos 
e análises desta matéria em sintonia com determinadas áreas da Filosofia, como 
a Lógica, a Metafísica e a Hermenêutica, na busca do sentido da experiência 
humana em sua especificidade. 
FIGURA 2 – REPRODUÇÃO DA LINHAGEM QUE CONSTITUIU NOSSA ESPÉCIE
FONTE: . 
Acesso em: 8 abr. 2015.
Gomes (2013) chama a atenção para o fato de que, embora a origem do 
nome seja grega, não foram os gregos que inventaram a Antropologia, ainda 
que eles não se furtassem a especular sobre a condição humana. Isto devido ao 
etnocentrismo deste povo, que se julgava superior às demais nações de seu tempo.
Etnocentrismo: conceito fundamental da Antropologia, no qual nos 
aprofundaremos mais adiante, mas que aqui adiantamos tratar-se da tendência natural de 
toda cultura humana de considerar-se superior as demais.
NOTA
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
6
Ora, para o fazer antropológico é preciso a superação do entrave 
colocado pelo etnocentrismo e se admitir a unidade da espécie humana. É 
necessário reconhecer que, apesar de nossas imensas diferenças culturais, 
somos uma só humanidade. 
 
Esta perspectiva, que possibilita a reflexão antropológica, só se coloca 
numa época mais recente da humanidade, a partir do Iluminismo, quando começa 
a especulação filosófica, a princípio, acerca das possibilidades da existência e da 
ação humana (GOMES, 2013). 
FIGURA 3 – FILÓSOFOS ILUMINISTAS REUNIDOS EM DEBATE
FONTE: . 
Acesso em: 8 abr. 2015.
Desta maneira, de um ângulo filosófico, a Antropologia seria uma forma 
de se pensar a diversidade da experiência humana, que se reflete nas diferentes 
culturas. Posteriormente, com a introdução da teoria da evolução, a Antropologia 
aproxima-se mais do campo científico, procurando integrar a especificidade do 
ser humano em um contínuo com a natureza.
 
Assim, a Antropologia comporta dois aspectos, tanto como Filosofia da 
cultura, quanto ciência do ser humano, procurando ora interpretar, ora explicar 
as características próprias da humanidade. 
 
Mais recentemente, com o desconstrucionismo pós-moderno do fazer 
antropológico, a Antropologia tem sido considerada como uma forma particular 
de literatura, sendo, portanto, tida como uma arte. Um dos autores que advoga 
este ponto de vista é James Clifford, que junto com George E. Marcus foi 
responsável por um livro emblemático da visão pós-moderna em Antropologia 
(Writing Culture: The Poetics and Politics of Ethnography, University of California 
Press, 1986), sendo os dois os principais autores a realizar a desconstrução das 
etnografias clássicas em Antropologia. 
 
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TÓPICO 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA
7
Dentro da perspectiva destes autores a Antropologia seria a arte da 
crítica cultural, onde a cultura reveste-se de um caráter polissêmico, sendo que a 
interpretação do antropólogo é apenas uma das possíveis, junto com aquelas de 
seus interlocutores, membros das culturas estudadas.
FIGURA 4 – OS DOIS PRINCIPAIS AUTORES DA CORRENTE PÓS-MODERNA EM ANTROPOLOGIA, 
JAMES CLIFFORD (À ESQUERDA DA FOTO) E GEORGE E. MARCUS EM UMA PRAÇA PARISIENSE
FONTE: Disponível em: . Acesso: 9 abr. 2015.
2 A ANTROPOLOGIA ENQUANTO CIÊNCIA
Arte, Filosofia ou Ciência? Você deve estar se perguntando, querido(a) 
acadêmico(a). Bom, você já deve ter percebido que a Antropologia comporta 
diferentes aspectos da realidade dos grupos sociais. Neste Caderno de Estudos 
nos concentraremos na dimensão científica da Antropologia.
 
Neste sentido, a exemplo de Marconi e Presotto (2001), consideramos 
que a Antropologia, dentro do campo científico, comporta três aspectos, em 
virtude de sua abordagem própria (que procura ver o fenômeno humano com 
um todo), a saber:
a) Enquanto Ciência Social, procurando conhecer o ser humano em sua dimensão 
de participante de grupos sociais organizados diversos, como uma determinada 
sociedade, por exemplo.
b) Enquanto Ciência Humana, voltando-se para a totalidade da experiência 
humana, como sua história, usos e costumes, linguagem e demais fenômenos 
relacionados ao ser humano.
c) Enquanto Ciência Natural, a Antropologia investiga as características 
psicossomáticas do ser humano e sua evolução no mundo natural.
 
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UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
8
Vemos assim que a abordagem antropológica do ser humano pretende ser 
total, contemplando sua dimensão física, sociocultural e ainda filosófica. Em suas 
investigações procura a Antropologia captar e transmitir o modo de vida dos 
povos que estuda em todos os aspectos possíveis. 
 
Desta maneira a Antropologia tem como objetivo conhecer o ser humano 
em sua totalidade, tanto em seu aspecto biológico (através dos estudos da evolução 
de nossacorretas.
 
4	 O	filósofo	grego	Aristóteles,	discípulo	de	Platão,	nasceu	em	384/383	a.C.	
em	Estagira.	Aristóteles	é	considerado	um	dos	fundadores	da	antropologia	
como	ciência,	 sendo	o	primeiro	filósofo	a	 realizar	uma	síntese	científico-
filosófica	em	sua	concepção	de	homem.	Sobre	a	antropologia	aristotélica,	
assinale	a	alternativa	CORRETA:
a)	(			)	A	 antropologia	platônica	 se	 fundamenta	no	dualismo	metafísico,	 no	
qual	a	alma	é	apresentada	como	movendo-se	a	si	mesma	(autokínêton)	
e	como	princípio	de	movimento	(arché	kinêseôs).
b)	(			)	A	noção	antropológica	de	Aristóteles	 considera	que	 a	 alma	 (psyché)	
pertence	 ao	 mundo	 a	 ser	 buscado	 constantemente,	 o	 mundo	
suprassensível	ou	inteligível,	no	qual	se	encontra	as	Ideias	perfeitas.
c)	 (			)	A	noção	antropológica	de	Aristóteles	 considera	que	o	homem	tem	o	
seu	lugar	definido	na	hierarquia	da	natureza	(physis),	ao	contrário	da	
concepção	finalista	de	seu	mestre	Platão,	que	situara	o	homem	no	plano	
do	inteligível	(mundo	ideal).	
d)	(			)	A	noção	antropológica	de	Aristóteles	deriva	de	sua	teoria	do	mundo	das	
ideias,	no	qual	concebe	uma	separação	radical	entre	corpo	e	alma	(psyché).
152
153
UNIDADE 3
TÓPICO 2 — 
A CONCEPÇÃO DE HOMEM NO 
PERÍODO CRISTÃO-MEDIEVAL
1 INTRODUÇÃO
A	concepção	de	homem	no	período	cristão-medieval	se	situa	no	século	VI	
ao	século	XV,	desdobrando-se	em	duas	principais	vertentes:	a	tradição	bíblica	e	
a	tradição	filosófica	grega.	Nesse	período,	a	noção	de	homem	está	estritamente	
vinculada	 ao	 pensamento	 teológico	 cristão.	 O	 pensamento	 teológico	 cristão	 é	
aprofundado	por	dois	principais	filósofos-teólogos	da	igreja,	Santo	Agostinho	e	
São	Tomás	de	Aquino.	
Para	 compreender	 a	 concepção	 de	 homem	 no	 período	 medieval,	 é	
necessário	entender	que,	nesse	período,	o	homem	é	olhado	como	criatura	de	Deus,	
como	um	ser	definido	na	relação	com	o	transcendente.	O	homem	é	pensando	sob	
a	perspectiva	teológica-cristã,	e,	portanto,	toda	a	cultura	se	estrutura	em	torno	de	
uma	racionalidade	bíblica,	no	qual	a	atividade	filosófica	deveria	estar	submetida	
aos	desígnios	da	fé.	
Nesse	 contexto,	 veremos	 as	 principais	 correntes	 teológicas	 que	
influenciaram	a	visão	de	homem	neste	período	e	os	principais	desdobramentos	
que	contribuíram	para	a	dissolução	desse	pensamento	até	o	emergir	da	renascença.	
Vamos	embarcar	nessa	jornada?	
2 A CULTURA MEDIEVAL: O HOMEM SEGUNDO A 
TRADIÇÃO BÍBLICA 
O	 sistema	 social	 vigente	 das	 sociedades	 medievais	 era	 o	 feudalismo,	
ou	seja,	um	sistema	baseado	na	servidão	e	na	obediência	aos	senhores	 feudais	
(grandes	 proprietários	 de	 terras,	 donos	 dos	 feudos).	 Nesse	 sentido,	 o	 Estado	
medieval	era	constituído	por	uma	rede	hierárquica,	representado	pela	seguinte	
estrutura:	os	nobres	(senhores	feudais),	o	clero	(religiosos)	e	os	servos	(mão	de	
obra,	camponeses).	Esse	sistema	social,	político	e	econômico	perdurou	até	o	fim	
da	Idade	Média,	atingindo	o	seu	apogeu	no	século	XIII.	No	final	do	século	XIII,	o	
feudalismo	começa	a	desaparecer	em	alguns	países	da	Europa,	como	na	França,	
nos	 Países	 Baixos	 e	 na	 Itália.	 Com	 a	 expansão	 dos	 mercadores,	 contribuindo	
para	o	surgimento	de	uma	nova	atividade	econômica,	o	comércio,	ascende	uma	
nova	classe	política,	a	burguesia,	que	será	determinante	para	a	desintegração	do	
feudalismo	no	século	XV.	
154
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
Nas	sociedades	medievais	o	feudalismo	estava	integrado	ao	cristianismo,	
sendo	 que	 a	 Europa	 inteira	 se	 considerava	 cristã	 e	 se	 organizava	 entorno	 de	
dois	chefes:	o	chefe	espiritual	–	o	papa	–,	e	o	chefe	temporal	–	o	imperador.	Na	
Idade	Média,	o	papa	não	apenas	ocupava	um	cargo	religioso	 importante,	mas	
era	também	uma	autoridade	política	suprema	na	Europa.	A	busca	pela	unidade	
cristã	europeia,	através	do	imperador	e	o	papado	não	se	consolidou	efetivamente	
ao	 longo	da	 Idade	Média,	havendo	 inúmeras	disputas	e	divergências	políticas	
entre	essas	duas	figuras	importantes	na	dinâmica	das	sociedades	medievais.
A	 influência	 da	 Igreja	medieval	 na	 cultura	 europeia	 era	 incontestável.	
A	 Igreja	detinha	o	monopólio	da	 cultura,	 através	das	 atividades	 intelectuais	 e	
da	 imposição	dos	 seus	dogmas,	 não	havia	 abertura	para	um	pensamento	 que	
contestasse	 a	 visão	 de	 mundo	 construída	 através	 da	 narrativa	 bíblica.	 Nas	
universidades	do	século	XIII,	estudava-se:	filosofia,	teologia,	direito,	medicina	e	
letras.	Não	havia	ainda	as	ciências	empíricas,	ou	seja,	as	ciências	que	necessitam	
de	 um	 método	 científico	 para	 comprovar	 uma	 determinada	 teoria.	 Todos	 os	
conhecimentos	estudados,	eram	guiados	pelo	método	filosófico.	A	filosofia	servia	
para	 explicar	 as	 causas,	 os	 princípios	 das	 coisas,	mas	 esbarrava	 nas	 verdades	
supremas,	 nas	 quais	 era	 impossível	 conhecer	 através	 da	 razão,	 somente	 pela	
revelação	divina.	
Nesse	sentido,	a	noção	de	homem	no	mundo	medieval	estava	associada	
à	revelação divina.	A	cultura	medieval	aceitava	a	supremacia	da	revelação	e	da	
fé	 sobre	 a	 razão.	A	verdade,	portanto,	 era	Deus,	 e	 o	homem	deveria	 se	voltar	
para	Ele	para	melhor	viver	em	sociedade.	A	religião	cristã,	e	somente	esta,	era	
o	norte	da	moralidade	e	da	cultura	medieval.	A	cultura	na	Idade	Média	era,	por	
excelência,	teocêntrica,	ou	seja,	Deus	era	a	centralidade	de	todas	as	ações,	o	valor	
supremo	e	o	motor	da	história.	
Deste	 modo,	 constituiu-se,	 na	 cultura	 da	 Idade	 Média,	 um	 discurso	
sobre	o	homem	cuja	 origem	 se	 situa	numa	 fonte	 transcendente.	Pode-se	dizer	
que	na	 Idade	Média	há	uma	teologia	bíblica	do	homem	que	busca	delinear	os	
traços	fundamentais	da	antropologia	bíblica.	Vaz	(1991)	apresenta	alguns	traços	
fundamentais	da	antropologia	bíblica:	
•	 A	unidade	radical	do	ser	do	homem	numa	perspectiva	soteriológica.	Portanto,	
essa	unidade	do	homem	se	desdobra	em	três	momentos	que	se	articulam	como	
um	itinerário	salvífico.	O	primeiro	momento	refere-se	à unidade	de	origem,	
representada	pelos	temas	da	criação,	da	queda	e	da	promessa,	que	se	encontram	
no	livro	de	Gênesis;	o	segundo	momento,	diz	respeito	à	unidade	de vocação, 
representada	pelo	tema	da	Aliança	que	atravessa	todo	o	Antigo	Testamento	e	se	
consuma	no	acontecimento	do	Verbo	feito	carne	no	Novo	Testamento;	o	último	
momento	é	a	unidade	de	fim,	que	se	expressa	no	tema	da	vida	na	presença	de	
Deus	(AT)	e	da	vida	em	Deus	(NT).	Portanto,	na	concepção	bíblica,	o	homem	
é	 “carne”,	 na	medida	 em	que	 se	 revela	 a	 fragilidade	 e	 a	 transitoriedade	da	
existência	humana;	 o	homem	é	 “alma”,	na	medida	 em	que	 essa	 fragilidade	
TÓPICO 2 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NO PERÍODO CRISTÃO-MEDIEVAL
155
inerente	é	recompensada	nele	pelo	vigor	de	sua	vitalidade;	é	“espírito”,	isto	
é,	manifestação	superior	da	vida	e	do	conhecimento	que	permite	estabelecer	a	
relação	com	Deus;	é	“coração”,	ou	seja,	o	interior	do	homem,	sede	dos	afetos	
e	das	paixões,	em	que	se	enraízam	inteligência	e	vontade,	sendo	o	 lugar	do	
pecado,	mas	também	da	conversão	a	Deus.	
Afinal, o que é Soteriologia? Soteriologia é basicamente a doutrina da salvação. 
Isto significa que a soteriologia é a área da teologia que estuda a salvação em todos os seus 
aspectos. A palavra “soteriologia” vem dos termos gregos soteria, “salvação” ou “livramento”; 
e logos, “palavra”. Há subdivisões dentro da soteriologia que abordam a salvação em seus 
diferentes aspectos, tais como: um plano eterno e obra remidora de Deus; a expiação no 
sangue de Cristo; a operação da graça divina; o estado do homem em relação ao pecado; 
a obra do Espírito Santo; e o destino final do homem. Disponível em: https://estiloadoracao.
com/o-que-e-soteriologia-a-doutrina-da-salvacao/.
NOTA
•	 A	manifestação	progressiva	do	ser	e	do	destino	do	homem através	do	próprio	
desenrolar	da	história	da	salvação.	Nesse	sentido,	a	concepção	bíblica	de	homem	
não	é	uma	teoria	que	se	expressa	num	discurso	organizado	conceitualmente,	
como	acontece	na	filosofia.	A	concepção	bíblica	de	homem	acontece	pormeio	da	
narração	de	uma	história	da	revelação	e	dos	sinais	salvíficos	de	Deus,	que	revela	
progressivamente	a	unidade	profunda	do	seu	ser-para-Deus.	A	antropologia	do	
Novo	Testamento	apresenta	uma	visão	das	situações	existenciais	elementares	
do	homem,	resgatando	os	temas	da	carne,	da	alma,	do	espírito	e	do	coração	
presentes	 no	Antigo	 Testamento,	 mas	 sob	 uma	 perspectiva	 cristológica.	 Os	
livros	do	Novo	Testamento	recebem	a	influência	direta	da	cultura	grega,	seja	
através	da	koiné	filosófica	grega,	 como	da	presença	de	 termos	e	 sistemas	da	
filosofia	platônica,	como	é	o	caso	da	tricotomia:	sôma, psiqué, pneûma.	O	Novo	
Testamento	é	a	fonte	primeira	da	compreensão	bíblico-cristã	do	homem	que	
influenciará	o	pensamento	cristão	sobre	o	homem	durante	longos	séculos.
Você sabia que o Novo Testamento foi escrito orinariamente em grego? Todos 
os livros do Novo Testamento (Evangelhos, Atos dos Apóstolos, Epístolas, e Apocalipse), à 
exceção do Evangelho de S. Mateus, foram redigidos primeiramente em grego. O grego 
bíblico, porém, difere em muitas particularidades do grego clássico. Com a expansão da 
civilização helênica pelo mundo oriental, a língua grega se difundiu tão universalmente, 
através dos povos conquistados, que veio a se chamar língua comum ou koiné (dialeto). 
INTERESSANTE
156
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
A koiné era um idioma eclético (vinda de várias fontes), proveniente da fusão dos vários 
dialetos. Predominava, contudo, o dialeto Ático. Os livros do Novo Testamento foram 
escritos não na koiné erudita usada pelos escritores aticistas, como Plutarco e Luciano, mas 
na koiné popular, diferente da primeira. Distingue-se, no uso e seleção das palavras, S. Lucas 
e S. Paulo. As obras de maior perfeição estilística são a “Epístola aos Hebreus” e a “Epístola 
de S. Tiago; as que mais se afastam da pureza de linguagem são o Evangelho de S. Marcos 
e as obras de S. João, sobretudo, o Apocalipse. 
FONTE: . Acesso em: 25 jun. 2020.
3 ANTROPOLOGIA PATRÍSTICA 
A	 antropologia	 patrística	 desenvolve-se	 nos	 dois	 primeiros	 séculos	 da	
civilização	ocidental	em	oposição	a	algumas	correntes	filosóficas	que	tinham	como	
base	o	Gnosticismo.	O	Gnosticismo	representava	um	desafio	para	a	antropologia	
patrística,	pois	pregava	um	dualismo	que	implicava	na	condenação	da	matéria,	
como	um	princípio	do	mal.	Além	disso,	colocava	em	xeque	a	tradicional	visão	
cristã	 do	 mistério	 da	 Encarnação,	 que	 tinha	 como	 fundamento	 o	 tema	 da	
“imagem	e	semelhança”.	Nesse	sentido,	o	primeiro	teólogo	a	combater	as	heresias	
preconizadas	pelas	 correntes	gnósticas,	 foi	Santo	 Irineu	de	Lião	 (século	 II),	no	
qual	expõe	em	sua	obra	Adversus Haereses	(Contra	Heresias)	o	tema	do	homem	
como	reflexo	da	glória	de	Deus	(VAZ,	1991).
O termo Gnosticismo consistiu em algumas correntes filosóficas que se 
difundiram nos primeiros séculos depois de Cristo no Oriente e no Ocidente. O G. é uma 
primeira tentativa de filosofia cristã, feita sem rigor sistemático, com a mistura de elementos 
cristãos míticos, neoplatônicos e orientais. Em geral, para os gnósticos, o conhecimento era 
condição para a salvação. Esse nome foi adotado pela primeira vez pelos Ofitas ou Sociedade 
da Serpente, que, mais tarde, dividiram-se em numerosas seitas. Os principais gnósticos dos 
quais temos notícia são: Basílides, Carpócrates, Valentim e Bardesane, cujas doutrinas são 
conhecidas pelas refutações feitas por Clemente de Alexandria, Irineu e Hipólito. Uma das 
teorias mais típicas do G. é o dualismo dos princípios supremos (admitido, por exemplo, 
por Basílides), ligado a concepções orientais. A tentativa de união entre os dois princípios, 
bem e mal, tem como resultado o mundo, no qual as trevas e a luz se unem, mas com 
predomínio das trevas (ABBAGNANO, 2007).
IMPORTANTE
TÓPICO 2 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NO PERÍODO CRISTÃO-MEDIEVAL
157
O	 pensamento	 patrístico	 se	 desdobra	 em	 duas	 principais	 vertentes:	 a	
patrística	grega	e	a	patrística	latina.	Trataremos	em	especial	da	patrística	latina,	
na	qual	se	situa	a	obra	de	Santo	Agostinho	 (354-430),	cuja	concepção	cristã	do	
homem	tornou-se	um	marco	decisivo	na	história	da	cultura	ocidental.	Agostinho	
foi	o	maior	filósofo	da	época	patrística,	sua	contribuição	se	estendeu	para	o	campo	
da	filosofia,	teologia,	dogmática,	teologia	moral	e	mística,	do	direito	político	e	da	
política	eclesiástica.	Mas	quem	foi	Santo	Agostinho?
Aurélio	Agostinho,	nasceu	em	354	em	Tagaste	 (hoje	Argélia),	cidade	de	
Numídia,	norte	da	África.	Seu	pai,	Patrício,	era	um	pequeno	proprietário	de	terras	
ligado	ao	paganismo.	Já	sua	mãe,	Mônica,	era	uma	cristã	fervorosa.	A	formação	
cultural	de	Agostinho	se	deu	inteiramente	na	língua	e	autores	latinos,	nos	quais	
Cícero	era	uma	referência.	Agostinho	ocupou	o	ofício	de	professor,	 lecionando	
em	Tagaste	 (374),	Cartago,	Roma	e	em	Milão,	assumindo	o	cargo	de	professor	
oficial	de	retórica	da	cidade.	Nos	anos	de	384	e	386	em	Milão,	o	jovem	professor	
amadureceu	a	sua	conversão	ao	cristianismo	e	abandonou	o	ofício	de	professor	
para	se	dedicar	a	fé	cristã.	Em	387,	Agostinho	foi	batizado	pelo	bispo	Ambrósio,	
sendo	que	no	ano	seguinte,	voltou	para	Tagaste	para	fundar	uma	comunidade	
religiosa	(REALE;	ANTISERI,	1990).
Rapidamente	 Agostinho	 adquiriu	 notoriedade	 pela	 santidade	 de	 sua	
vida,	 sendo	 ordenado	 sacerdote	 em	 Hipona,	 na	 África,	 no	 ano	 de	 391.	 Em	
395,	Agostinho	 foi	 consagrado	bispo	da	 cidade	de	Hipona.	Neste	período,	 ele	
desenvolveu	suas	mais	importantes	obras,	travando	batalhas	importantes	contra	
heréticos	e	cismáticos.	Com	sua	produção	intensa	e	sua	atuação	à	frente	da	Igreja,	
Agostinho	provocou	uma	reviravolta	decisiva	na	história	da	Igreja	e	da	filosofia	
ocidental.	Suas	principais	obras	foram:	Contra os acadêmicos, A vida feliz, A ordem, 
A imortalidade da alma, A Trindade, Confissões, A Cidade de Deus, O Mestre, Sobre 
o Livre Arbítrio, A verdadeira religião,	entre	outras.	O	filósofo,	teólogo	e	bispo	da	
Igreja	morreu	em	430.
FIGURA 7 – SANTO AGOSTINHO DE HIPONA
FONTE: . Acesso em: 24 jun. 2020.
158
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
A	 antropologia,	 ou	 seja,	 a	 visão	 de	 homem	 formulada	 por	 Santo	
Agostinho	 pode	 ser	 sintetizada	 em	 três	 fontes	 principais:	 o	 neoplatonismo,	 a	
antropologia	paulina	e	a	antropologia	da	narração	bíblica	da	criação.	Essas	três	
fontes	constituem	a	antropologia	agostiniana.	O	neoplatonismo,	Agostinho	teve	
acesso	 especialmente	 através	 de	 textos	 de	 Plotino,	 Porfírio	 e	 do	 neoplatônico	
latino	 Mário	 Vitorino.	 A	 influência	 neoplatônica,	 encontra-se	 em	 especial	 no	
livro	VII	das	Confissões,	e	constitui	a	elaboração	do	tema	da	estrutura	do	homem	
interior,	no	qual	Deus	está	presente	no	“interior	do	homem”,	mas,	também,	como	
ser	superior	(interior intimo et superior summo, Conf.	III,	6)	(VAZ,	1991).
A	antropologia	paulina,	ou	seja,	a	visão	de	homem	do	Apóstolo	Paulo,	
fornece	 a	Agostinho	 a	 perspectiva	 de	 homem	 soteriológica,	 a	 partir	 do	 qual	
o	 teólogo	 elabora	 a	 doutrina	 do	 pecado	 original,	 da	 graça	 e	 o	 problema	 da	
liberdade	 e	 do	 livre	 arbítrio.	A	 antropologia	 da	 narração	 bíblica	 da	 criação,	
constitui	um	dos	temas	mais	querido	das	meditações	de	Agostinho.	Na	fonte,	
Agostinho	aborda	o	tema	do	homem	enquanto	imagem de	Deus,	que	servirá	de	
base	para	a	antropologia	patrística	sobre	o	homem.	Também,	é	a	partir	do	tema	
da imagem	que	o	 teólogo	 fará	as	análises	psicológicas	a	 respeito	do	mistério	
trinitário	(VAZ,	1991).
O	que	destaca	Agostinho	de	todos	os	outros	pensadores	antigos,	é	que	para	
ele,	a	busca	da	verdade	nasce	no	íntimo	de	uma	experiência	pessoal	que	aparece	
atrelada	à	própria	expressão	teórica	da	verdade,	ou	seja,	é	o	primeiro	pensador	
a	afirmar	que	o	pensamento	do	ser	éinseparável	da	descoberta	do	Eu.	Segundo	
Vaz	 (1991),	 a	antropologia	de	Agostinho,	 entende	o homem como ser uno;	na	
criação	do	homem	e	de	todo	o	universo	segundo	a	narração	do	Gêneses,	implica	
a	superação	radical	do	dualismo	maniqueísta;	a	encarnação	do	Verbo,	a	partir	do	
qual	todas	as	coisas	foram	criadas,	resultando	na	assunção	do	corpo	na	unidade	
da	natureza	humana	na	qual	o	Verbo	se	encarnou;	e	por	fim,	a	ressureição de 
Cristo,	que	implica	a	restituição	escatológica	da	unidade	do	homem.	
Você já ouviu falar em Maniqueísmo? O Maniqueísmo consistiu em uma 
doutrina do sacerdote persa Mani, que viveu no século III e proclamou-se o Paracleto, 
aquele que devia conduzir a doutrina cristã a perfeição. O M. é uma mistura imaginosa 
de elementos gnósticos, cristãos e orientais, sobre as bases do dualismo da religião de 
Zoroastro. Admite dois princípios: um do bem, ou princípio da luz, e outro do mal, ou 
princípio das trevas. No homem, esses dois princípios são representados por duas almas: 
a corpórea, que é a do mal, e a luminosa, que é a do bem. Pode-se chegar ao predomínio 
da alma luminosa através de uma ascese particular, que consiste em três selos: abstenção 
de alimentar-se de carne e de manter conversas impuras; abstenção da propriedade e do 
trabalho; abster-se do casamento e do concubinato. O M. foi muito difundido no Oriente e 
no Ocidente; aqui durou até o século VII. O grande adversário do M. foi S. Agostinho, que 
dedicou grande número de obras a sua refutação (ABBAGNANO, 2007).
NOTA
TÓPICO 2 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NO PERÍODO CRISTÃO-MEDIEVAL
159
A	antropologia	agostiniana	compreende	o	homem como ser itinerante, 
cuja	visão	está	associada	à	concepção	de	tempo	como	caminho	para	a	eternidade.	
A	 concepção	 de	 homem	 como	 ser	 itinerante	 é	 essencial	 na	 antropologia	 de	
Agostinho,	pois	é	a	representação	do	itinerário	da	humanidade	simbolizado	na	
figura	das	duas	cidades,	da	obra	A Cidade de Deus (De Civitate Dei).	Para	Vaz	(1991,	
p.	66),	“a	leitura	teológica	da	história	humana	apoia-se	aí	numa	visão	linear	do	
tempo,	 não	 como	mera	 sucessão	 cronológica,	mas	 segundo	 o	modelo	da	 vida	
humana,	 como	 crescimento	 para	 a	 consumação	 final	 da	 segunda	 e	 definitiva	
manifestação	 do	 Cristo”.	 Logo,	 para	Agostinho,	 a	 concepção	 de	 história	 está	
orientada	radicalmente	para	Deus.	
O	terceiro	tópico	essencial	da	antropologia	de	Agostinho,	concebe	o homem 
enquanto ser-para-Deus,	ou	seja,	o	homem	é	pensado	como	ser-para-Deus	em	
razão	do	caráter	dinâmico	de	sua	estrutura	de	imagem,	em	que	a	ordenação	para	
Deus	aparece	como	linha	fundamental	da	atividade	do	homem	interior,	segundo	
o	 ritmo	 triádico	 de	 sua	 vida	 (memória,	 inteligência,	 vontade).	 Deste	modo,	 a	
antropologia	 de	Agostinho	 representa	 uma	 transposição	da	 tradição	platônica	
para	a	tradição	bíblica	e	a	tradição	cristã	da	patrística	primitiva.	O	pensamento	
acerca	 do	 homem	de	Agostinho	 impactou	 fortemente	 a	 cultura	medieval,	 sua	
influência	se	estende	até	os	dias	de	hoje,	constituindo	uma	referência	fundamental	
no	pensamento	antropológico	ocidental	(VAZ,	1991).
4 ESCOLÁSTICA E A CONCEPÇÃO TOMISTA DE PESSOA
A	 antropologia	 medieval	 se	 alicerça	 em	 três	 fontes	 principais:	 as	
Sagradas	Escrituras;	os	Padres	da	Igreja,	nos	quais	se	destaca	Sto.	Agostinho	de	
Hipona;	e	os	filósofos	e	escritores	gregos	e	latinos.	A	filosofia	de	Aristóteles	teve	
forte	influência	na	concepção	de	homem	da	civilização	medieval,	sobretudo	no	
século	XIII,	com	os	escritos	do	filósofo	e	teólogo	Sto.	Tomás	de	Aquino.	Para	Vaz	
(1991),	 em	Aquino,	 encontra-se	a	 síntese	mais	bem-sucedida	da	antropologia	
medieval.	Quem	foi?	Quais	são	suas	contribuições	para	a	concepção	de	homem	
no	período	medieval?
160
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
FIGURA 8 – SÃO TOMÁS DE AQUINO
FONTE: . Acesso em: 24 jun. 2020.
São	 Tomás	 de	 Aquino,	 conhecido	 como	 ‘O	 Doutor	 da	 Igreja’,	 ou	
simplesmente	 ‘O	Aquinate’,	 foi	um	expoente	da	escolástica,	considerado	gênio	
dos	metafísicos,	sua	obra	ainda	hoje	é	muito	estudada,	sendo	referência	para	os	
candidatos	 ao	 sacerdócio	 que	 aspiram	 as	 ordens	 sagradas.	 Tomás	 nasceu	 em	
1221	em	Roccasecca,	no	sul	de	Lácio,	na	Itália.	Era	discípulo	do	frade	dominicano	
alemão	Alberto	Magno,	que,	desde	cedo,	enxergava	em	Aquino	um	grande	talento	
especulativo.	Em	uma	ocasião,	 convidado	por	Alberto	para	 expor	 sua	opinião	
sobre	uma	questão,	Aquino,	que	 era	 chamado	de	 “boi	mudo”,	pois	 era	muito	
reservado,	expôs	o	problema	com	tanta	maestria,	que	levou	Alberto	a	exclamar:	
“este	moço,	que	nós	chamamos	de	‘boi	mudo’,	mugirá	tão	forte	que	se	fará	ouvir	
no	mundo	inteiro!”	(REALE;	ANTISERI,	1990,	p.	553).
Em	 1252,	 sob	 a	 indicação	 de	Alberto	Magno,	 Tomás	 de	Aquino	 inicia	
sua	 carreira	 acadêmica	 na	Universidade	 de	 Paris.	Após	 a	 sua	 experiência	 em	
Paris,	Aquino	passou	por	diversas	universidades	da	Europa	(Colônia,	Bolonha,	
Roma,	Nápoles).	 Foi	 em	 Roma	 que	 o	 Doutor	 da	 Igreja	 começou	 o	 seu	maior	
empreendimento, a Summa Theologiae	(Suma Teológica).	A	maior	obra	de	Aquino,	
que	não	foi	terminada	devido	ao	seu	estado	de	saúde.	Tomás	de	Aquino	morreu	
aos	cinquenta	e	três	anos,	em	7	de	março	de	1274,	num	mosteiro	em	Fossanova,	
quando	 viajava	 para	 Lião,	 para	 participar	 do	 Concílio	 de	 Lião	 (REALE;	
ANTISSERI,	1990).
TÓPICO 2 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NO PERÍODO CRISTÃO-MEDIEVAL
161
O que é a Suma Teológica? Suma Teológica é o título da obra básica de São 
Tomás de Aquino, frade, teólogo e santo da Igreja Católica, um corpo de doutrina que se 
constitui numa das bases da dogmática do catolicismo e considerada uma das principais 
obras filosóficas da escolástica. Foi escrita entre os anos de 1265 a 1273. Na obra, Aquino 
trata da natureza de Deus, das questões morais e da natureza de Jesus. Disponível em: 
https://pt.aleteia.org/2017/04/17/sim-a-suma-teologica-inteira-de-graca/.
IMPORTANTE
Vale	 ressaltar	 que	 a	 filosofia	 tomista,	 no	 início	 de	 sua	 elaboração,	 teve	
forte	 oposição	da	 Igreja	 e	das	Universidades	medievais,	 justamente	porque	 se	
apresentava	como	novidade	em	se	opor	à	tradição	agostiniana	(filosofia	de	Sto.	
Agostinho),	 que	 era	marcada	 pelo	 platonismo.	O	maior	 aspecto	 da	 rejeição	 e,	
também,	do	espanto	referente	à	filosofia	de	Tomás	de	Aquino	deriva	do	fato	da	
dificuldade	 de	 conciliar	 as	 conclusões	 da	 filosofia	 aristotélica	 com	 os	 dogmas	
revelados	da	tradição	bíblica	cristã.	Entretanto,	isso	não	impediu	que	a	filosofia	
tomista	 se	 tornasse,	mais	 tarde,	 a	 filosofia	 oficial	 da	 Igreja	Católica,	 e	 a	 Suma	
Teológica	fosse	considerada	a	expressão	máxima	e	acabada	da	possível	conciliação	
entre	Fé	e	Razão	(REZENDE,	1986).
Duas	 correntes	 de	 ideais	 influenciaram	 radicalmente	 a	 antropologia	
tomista:	 o	 agostianismo	 (doutrina	 da	 Sto.	Agostinho)	 e	 o	 aristotelismo.	Nesse	
sentido,	a	antropologia	apresentada	por	Tomás	de	Aquino	pode	ser	situada	em	
três	aspectos	importantes:	
1-	a	concepção	clássica	de	homem	como	animal	rationale	(animal	racional);
2-	a	 concepção	 neoplatônica	 do	 homem	 na	 hierarquia	 dos	 seres,	 como	 ser	
fronteiriço	entre	o	espiritual	e	o	corporal;
3-	a	concepção	bíblica	do	homem	como	criatura,	imagem	e	semelhança	de	Deus.
Sobre	 a	 perspectiva	 clássica	 de	 homem	 (animal	 racional),	 Tomás	 de	
Aquino	se	defronta	com	o	problema	da	unidade	do	homem	ou	da	relação	da	alma	
racional	com	o	corpo,	que	por	conseguinte	é	um	dos	temas	mais	polêmicos	da	
filosofia	medieval.	A	tese	mais	adequada,	defendida	na	época,	era	a	da	pluralidade	
das	 formas	substanciais	hierarquizadas	no	mesmo	composto.	Contudo,	Tomás	
de	Aquino	discorda	dessa	tese,	concordando	com	Aristóteles,	quando	afirma	a	
unidade	da	forma	substancial	e,	portanto,	a	unidade	hilemórfica	do	homem.	
162
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
O hilemorfismo é a doutrina que Aristóteles concebeu paraopor-se, 
simultaneamente, ao idealismo platônico (notadamente em sua doutrina das Ideias) e 
ao materialismo adotado por filósofos pré-socráticos, entre os quais figuram, de modo 
proeminente, Demócrito e Leucipo, fundadores do Atomismo, Empédocles e Anaxágoras. 
 Na perspectiva hilemorfista, a forma é um dos constituintes metafísicos primários 
de toda substância individual (ou composto de matéria e forma: τὸ σύνολον ou τὸ ἐξ ἀμφοῖν), 
que governa e determina o outro constituinte metafísico básico, a matéria (em grego: ὕλη). 
Aristóteles se distingue do platonismo, que postulava, ao contrário, a existência separada das 
ideias relativamente aos objetos sensíveis que delas participam. O hilemorfismo aristotélico 
se demarca de todas as tentativas de explicação puramente material dos objetos que nos 
circunda. Disponível em: http://filosofia.fflch.usp.br/node/1070.
NOTA
Além	disso,	Tomás	de	Aquino	defende	a	espiritualidade	da	alma.	Nesse	
sentido,	 ele	 concebe	 a	 essência	 transcendente	 da	 alma	 sobre	 a	 matéria	 e	 sua	
criação	imediata	por	Deus.	Sendo	que	a	anima	(alma)	intelectiva	é	a	única	forma	
substancial	do	composto	humano,	“a	diferença	específica	rationale	da	definição	
clássica	determina	todo	o	homem,	assegurando	a	unidade	antropológica	exigida	
pela	tradição	bíblico-cristã”	(VAZ,	1991,	p.	69).	
Na	antropologia	 tomista,	a	alma	 intelectiva	é	o	ato	que	 integra	o	corpo	
na	 perfeição	 essencial	 do	 ser-homem.	 Nesse	 sentido,	 ela	 é	 a	 plena	 realização	
da	 perfeição	 humana.	 Da	 sua	 unicidade	 deriva	 a	 unidade	 do	 agir	 e	 do	 fazer	
do	homem.	Esse	 aspecto	 é	muito	 importante	 para	 ética	de	Tomás	de	Aquino.	
Da	 unidade	 profunda	 do	 homem,	 brota	 suas	 faculdades	 de	 agir	 e	 fazer,	 que	
para	Aquino	são	distintas	da	alma,	 sendo	a	alma	sempre	o	princípio	primeiro	
da	unidade	e	da	perfeição	do	homem,	o	ato	puro.	“O	rationale, como diferença 
específica	do	 homem,	designa	primeiramente	 a	 razão	discursiva	 (ratio),	 forma	
do	conhecimento	intelectual	inferior	à	inteligência	propriamente	dita	(intellectus)	
que	 é	 própria	 dos	 espíritos	 puros,	mas	 da	 qual	 também	 o	 homem	 participa”	
(VAZ,	1991,	p.	69).
Pode-se	 dizer	 que	 na	 antropologia	 de	 Tomás	 de	Aquino	 o	 homem	 se	
situa	na	hierarquia	dos	seres,	 justamente	por	sua	característica	específica	que	é	
a	sua	natureza	racional.	É	por	possuir	essa	natureza	racional,	que	o	homem	se	
diferencia	dos	outros	seres	e	ocupa	uma	posição	privilegiada	na	hierarquia	de	
todos	os	seres.	Deste	modo,	é	através	da	racionalidade	que	o	homem	encontra	seu	
espaço	na	natureza	e	se	propõe	a	buscar	sua	finalidade.	A	conclusão	de	Tomás	
de	que	a	Eudaimonia	do	homem	deve	ser	proporcionada	a	sua	razão,	entra	em	
conflito	com	a	revelação	cristã	da	finalidade	sobrenatural	do	homem.
TÓPICO 2 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NO PERÍODO CRISTÃO-MEDIEVAL
163
Você sabia que a palavra Eudaimonia se refere a uma doutrina que prega 
a felicidade como a finalidade da vida humana? Segundo Aristóteles, a felicidade é uma 
finalidade (telos) maior e comum a todos os seres racionais. 
 Nessa concepção teleológica (que busca apontar finalidades para as ações 
práticas), todas as ações humanas ocorrem visando alcançar algum estágio de felicidade. 
Essa busca, porém, não dá, ao ser humano, a plena liberdade de ação, pois essa deve estar 
em conformidade com a felicidade dos outros. Disponível em: https://mundoeducacao.bol.
uol.com.br/filosofia/eudaimonia.htm.
NOTA
Na	visão	de	Vaz	(1991),	na	perspectiva	da	antropologia	tomista,	o	homem	
está	situado	na	fronteira	do	espiritual	e	do	corporal,	do	tempo	e	da	eternidade.	
Nesse	sentido,	o	homem	é horizon et confinium	(horizonte	e	fronteira),	sendo	que	
essa	sua	posição	mediadora	permite	definir	sua	relação	com	a	ordem	do	cosmos,	
com	o	tempo	e	com	a	história.	
Assim,	pode-se	dizer	que	Tomás	de	Aquino	 realizou	uma	 importante	
e	 profunda	 síntese	 da	 tradição	 clássica	 e	 da	 tradição	 cristã	 no	 campo	 da	
antropologia.	 Os	 séculos	 que	 se	 seguiram	 até	 o	 fim	 da	 Idade	Média,	 foram	
marcados	 por	 novas	 tendências	 do	 pensamento	 filosófico	 e	 teológico.	 Essas	
tendências	 se	 colocaram	 em	 oposição	 à	 síntese	 antropológica	 de	 Tomás	 de	
Aquino,	como	o	voluntarismo	de	Duns	Escoto	no	século	XIV,	o	nominalismo	
que	 perdurou	 no	 século	 XV	 que	 buscou	 dissolver	 a	 síntese	 medieval	 entre	
filosofia	e	teologia,	preparando	o	terreno	para	a	chegada	da	filosofia	moderna	
que	irá	elaborar	uma	nova	concepção	de	homem.	
Você sabia que Duns Escoto foi beatificado, em 1993, pelo Papa João Paulo 
II? Foi um filósofo e teólogo escocês, membro da Ordem Franciscana e professor da 
Universidade de Paris. Formou-se na Universidade de Oxford e, no desenvolvimento da sua 
obra, ergueu importantes contrapontos ao pensamento de Santo Tomás de Aquino. É um 
dos mais importantes pensadores de toda a escolástica, tendo sido mentor de Guilherme de 
Ockham e precursor de uma longeva tradição filosófica chamada de escotismo. Disponível 
em: https://ecclesiae.com.br/index.php?route=product/author&author_id=1483.
NOTA
164
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:
•	 Nas	 sociedades	 medievais,	 o	 feudalismo	 estava	 integrado	 ao	 cristianismo,	
sendo	que	a	Europa	inteira	se	considerava	cristã	e	se	organizava	entorno	de	
dois	chefes:	o	chefe	espiritual	–	o	papa	–,	e	o	chefe	temporal	–	o	imperador.
•	 Na	Idade	Média,	o	papa	não	apenas	ocupava	um	cargo	religioso	importante,	
mas	era	uma	autoridade	política	suprema	na	Europa.
•	 A	noção	de	homem	no	mundo	medieval	estava	associada	à	revelação	divina.
•	 A	cultura	medieval	aceitava	a	supremacia	da	revelação	e	da	fé	sobre	a	razão.
•	 A	cultura,	na	Idade	Média,	era,	por	excelência,	teocêntrica,	ou	seja,	Deus	era	a	
centralidade	de	todas	as	ações,	o	valor	supremo	e	o	motor	da	história.
•	 A	 antropologia	 patrística	 se	 desenvolve	 nos	 dois	 primeiros	 séculos	 da	
civilização	ocidental	em	oposição	a	algumas	correntes	filosóficas	que	tinham	
como	base	o	Gnosticismo.
•	 A	visão	de	homem	formulada	por	Santo	Agostinho	pode	ser	sintetizada	em	três	
fontes	principais:	o	neoplatonismo,	a	antropologia	paulina	e	a	antropologia	da	
narração	bíblica	da	criação.
•	 A	antropologia	de	Agostinho	entende	o	homem	como	ser	uno	e	como	ser	itinerante.
•	 A	antropologia	de	Agostinho	concebe	o	homem	enquanto	ser-para-Deus.
•	 A	 antropologia	 de	 Agostinho	 representa	 uma	 transposição	 da	 tradição	
platônica	para	a	tradição	bíblica	e	a	tradição	cristã	da	patrística	primitiva.
•	 Em	 Tomás	 de	 Aquino,	 encontra-se	 a	 síntese	 mais	 bem-sucedida	 da	
antropologia	medieval.
•	 São	Tomás	de	Aquino,	conhecido	como	‘O	Doutor	da	Igreja’	ou	simplesmente	‘O	
Aquinate’,	foi	um	expoente	da	escolástica,	considerado	gênio	dos	metafísicos.
•	 Tomás	de	Aquino	defende	a	espiritualidade	da	alma.	Ele	concebe	a	essência	
transcendente	da	alma	sobre	a	matéria	e	sua	criação	imediata	por	Deus.
•	 Na	antropologia	de	Tomás	de	Aquino,	o	homem	se	 situa	na	hierarquia	dos	
seres	justamente	por	sua	característica	específica	que	é	a	sua	natureza	racional.
•	 Na	perspectiva	da	antropologia	tomista,	o	homem	está	situado	na	fronteira	do	
espiritual	e	do	corporal,	do	tempo	e	da	eternidade.
•	 Tomás	 de	Aquino	 realizou	 uma	 importante	 e	 profunda	 síntese	 da	 tradição	
clássica	e	da	tradição	cristã	no	campo	da	antropologia.
165
1	 A	concepção	de	homem	no	período	cristão-medieval	se	situa	no	século	VI	ao	
século	 XV,	 desdobrando-se	 em	 duas	 principais	 vertentes:	 a	 tradição	 bíblica	
e	a	tradição	filosófica	grega.	Nesta	época,	a	concepção	de	homem	está	ligada	
ao	pensamento	teológico	cristão.	Diante	do	exposto,	assinale	a	alternativa	que	
apresenta	os	dois	principais	filósofos-teólogos	da	igreja	deste	período:
a)	 (			)	Aristóteles	e	São	Tomás	de	Aquino.
b)	(			)	Platão	e	Agostinho.
c)	 (			)	Santo	Agostinho	e	São	Tomás	de	Aquino.	
d)	(			)	Agostinho	e	Duns	Escoto.
2	 O	 pensamento	 patrístico	 desdobra-se	 em	 duas	 principais	 vertentes:	 a	
patrísticagrega	e	a	patrística	latina.	Dentro	da	patrística	latina,	encontramos	
o	pensamento	de	Santo	Agostinho	(354–430).	Sobre	a	vida	e	obra	de	Santo	
Agostinho,	analise	as	sentenças	a	seguir:
I-	 A	antropologia	de	Santo	Agostinho	pode	ser	sintetizada	em	três	 fontes	
principais:	o	neoplatonismo,	a	antropologia	paulina	e	a	antropologia	da	
narração	bíblica	da	criação.	
II-	 Agostinho	nasceu	em	354	em	Tagaste	(hoje	Argélia),	cidade	de	Numídia,	
norte	da	África.	
III-	 A	antropologia	agostiniana	compreende	o	homem	como	ser	itinerante.
IV-	 A	 antropologia	de	Agostinho	 representa	uma	 transposição	da	 tradição	
platônica	para	a	tradição	bíblica	e	a	tradição	cristã	da	patrística	primitiva.	
Agora,	assinale	a	alternativa	CORRETA:
a)	(			)	As	afirmativas	I,	II	e	III	estão	corretas.
b)	(			)	As	afirmativas	I	e	III	estão	corretas.
c)	 (			)	As	afirmativas	II	e	IV	estão	corretas.
d)	(			)	Todas	as	afirmativas	estão	corretas.
3	 São	Tomás	de	Aquino	(1221–1274),	conhecido	como	‘O	Doutor	da	Igreja’	
ou	simplesmente	‘O	Aquinate’,	foi	um	expoente	da	escolástica,	considerado	
gênio	 dos	 metafísicos,	 sua	 obra	 ainda	 hoje	 é	 muito	 estudada,	 sendo	
referência	para	os	candidatos	ao	sacerdócio	que	aspiram	às	ordens	sagradas.	
Sobre	a	duas	correntes	de	pensamento	que	influenciou	significativamente	a	
antropologia	tomista,	assinale	a	alternativa	CORRETA:
a)	(			)	Duas	 correntes	 de	 ideias	 influenciaram	 a	 antropologia	 tomista:	 o	
neoplatonismo	e	o	agostianismo.
b)	(			)	Duas	 correntes	 de	 ideais	 influenciaram	 radicalmente	 a	 antropologia	
tomista:	o	agostianismo	(doutrina	da	Sto.	Agostinho)	e	o	aristotelismo.
c)	 (			)	As	 correntes	 de	 pensamento	 que	 influenciaram	 significativamente	 a	
antropologia	de	Tomás	de	Aquino	foram:	o	epicurismo	e	o	aristotelismo.
d)	(			)	A	antropologia	tomista	é	influenciada	apenas	pelas	Escrituras	sagradas,	
e	sua	produção	está	associada	à	inspiração	divina.
AUTOATIVIDADE
166
167
UNIDADE 3
TÓPICO 3 — 
A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA MODERNIDADE
1 INTRODUÇÃO
No	fim	do	século	XVII,	vemos	duas	correntes	moderna	de	pensamento	
consolidadas:	o	racionalismo	e	o	empirismo.	Também,	evidencia-se	a	superação	
da	 cultura	medieval,	 ainda	que	muitos	filósofos	modernos	 cultivam	 interesses	
em	 questões	 da	 Idade	 Média.	 O	 mais	 evidente	 dessa	 ruptura	 com	 a	 cultura	
medieval,	 refere-se	à	 secularização	da	 cultura,	 isto	 é,	os	filósofos	 racionalistas,	
como	 Descartes,	 Leibniz,	 Malebranche	 não	 falam	mais	 do	 Deus	 da	 revelação	
judaico-cristã,	mas	do	Deus	da	Razão.	No	caso	dos	filósofos	empiristas,	como	em	
Locke	ou	em	Hume,	a	distância	cultural	com	relação	ao	período	medieval	é	ainda	
mais	evidente.	
O	racionalismo	e	o	empirismo	estabeleceram	as	bases	para	o	desenvolvimento	
do	pensamento	idealista	de	Immanuel	Kant	e	de	outros	pensadores	alemães.	A	partir	
desses	pressupostos	 iniciais,	pode-se	situar	aspectos	do	pensamento	de	Kant	(1724-
1804),	 que	 como	 Copérnico	 (1473–1543)	 instaurou	 uma	 perspectiva	 revolucionária	
no	 que	 concerne	 as	 concepções	 de	 universo,	 advindas	 do	 sistema	 ptolomaico	 do	
mundo	 antigo,	 associado	 à	 perspectiva	 criacionista	 judaico-cristã	medieval.	Assim,	
como	Copérnico	propõe	o	heliocentrismo,	Kant	 instaura	a	 revolução	no	campo	do	
conhecimento,	modificando	os	rumos	da	filosofia	ocidental.	
Nesse	contexto,	o	homem	é	visto	como	sujeito	e	objeto	do	conhecimento.	
O	homem	moderno	ocupa	o	centro	da	cena	da	história	e	passa	a	ser	a	matriz	das	
concepções	contemporâneas	que	se	formularão	nos	séculos	XIX	e	XX.	Veremos	as	
principais	concepções	de	homem	na	sua	expressão	filosófica	que	predominaram	
o	discurso	filosófico	moderno.	
Bons estudos!
168
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
2 O HOMEM NO RACIONALISMO DE DESCARTES
A	Renascença	foi	o	período	que	se	estendeu	do	século	XIV	ao	século	XVI,	
caracterizando-se	 como	uma	 época	do	Humanismo.	A	 valorização	do	 homem	
através	 da	 literatura	 clássica,	 sobretudo	 latina,	 e	 a	 defesa	 do	 valor	 da	 razão	
humana	para	descobrir	a	verdade,	bem	como	a	exaltação	da	natureza	física	e	a	
vida	 terrena.	A	 antropologia	na	Renascença	 também	 se	 caracteriza	 como	uma	
antropologia	 de	 ruptura	 e	 de	 transição.	 Ruptura	 com	 a	 imagem	 de	 homem	
judaico-cristã	do	período	medieval	e	 transição	para	a	 imagem	racionalista	que	
predominará	os	séculos	XVII	e	XVIII.
A	partir	do	 século	XVI,	 tem-se	o	fim	da	Renascença	 e	 o	 início	de	uma	
nova	forma	de	pensar	e	sentir	que	será	expressado	em	diversas	formas	de	criação	
cultural.	 Segundo	Vaz	 (1991),	 esse	novo	modo	de	pensar	 e	 sentir	 é	herdeiro	 e	
devedor	do	humanismo	 renascentista	 e	dele	 receberá	 influência	direta	 através	
de	importantes	pensadores	moralistas	da	França	do	século	XVI,	por	exemplo,	o	
filósofo	e	humanista	Michel	de	Montaigne	(1553–1592).
Michel de Montaigne (1553–1592) era humanista e defendia um certo número 
de teses sobre as quais sempre retoma em seus Ensaios. Tendo uma vida dividida entre 
uma carreira jurídica e administrativa (foi prefeito de Bordeaux, França), aproveitava-se dos 
retiros em seu castelo para se isolar e escrever. O tema: a sabedoria. Ensaios é sua obra-
prima, que floresceu após 20 anos de reflexão. Consiste em um modo de pensar crítico 
à sociedade do século XVI, embora aborde temas variados. Algumas de suas teses são: 
1- Toda ideia nova é perigosa; 2- Todos os homens devem ser respeitados (humanismo); 3- 
No domínio da educação, deve-se respeitar a personalidade da criança. Montaigne adotou 
o princípio grego “conhece-te a ti mesmo”. Portanto, segundo ele, a escrita é um meio de 
chegar a esse conhecimento de si. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/
as-ideias-michel-montaigne.htm.
NOTA
Com	o	filósofo	René	Descartes	 (1596–1650),	 a	 antropologia	 racionalista	
moderna	encontrará	sua	expressão	paradigmática,	de	modo	que	poderá	falar	do	
homem	 racionalista	 ou	 do	 homem	 cartesiano.	O	 filósofo	 descendia	 de	 família	
nobre	e,	aos	oito	anos	de	idade,	órfão	de	mãe,	é	enviado	para	o	Colégio	Real	da	
la	Flèche	na	cidade	de	Pais,	onde	se	revela	um	excelente	aluno.	Foi	nessa	escola	
que	 Descartes	 recebeu	 uma	 sólida	 formação	 filosófica	 e	 científica,	 de	 acordo	
com a Ratio Studiorum	da	época,	que	pedagogicamente	orientava	para	o	estudo	
matemático	e	humanístico,	inspirado	nos	princípios	da	filosofia	escolástica.
TÓPICO 3 —A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA MODERNIDADE
169
Esse	 ambiente	 formativo,	 de	 orientação	 jesuítica	 e	 de	 abertura	 para	 as	
ciências	e	a	matemática,	causou	insatisfação	e	confusão	em	Descartes.	Em	pouco	
tempo,	 o	 estudante	 francês	 já	 visualizava	 o	 abismo	 que	 existia	 entre	 aquela	
orientação	cultural	da	época	e	as	novidades	científicas	e	filosóficas	que	estavam	
brotando	em	 toda	Europa.	Descartes,	 logo	percebeu	“a	 ausência	de	uma	 séria	
metodologia,	capaz	de	instituir,	controlar	e	ordenar	as	ideias	existentes	e	guiar	a	
buscar	da	verdade”	(REALE;	ANTESERI,	1990,	p.	354).
FIGURA 9 – RENÉ DESCARTES
FONTE: . Acesso em: 24 jun. 2020.
O	filósofo,	matemático	e	físico	francês,	propôs	através	da	sua	filosofia	uma	
fundamentação	para	uma	ordem	racional,	sócio-política	que	não	desembocasse	
no	ateísmo	ou	no	materialismo.	Essa	fundamentação,	portanto,	não	se	encontrava	
a	 luz	 da	 fé,	 mas	 através	 da	 razão.	 Deste	 modo,	 Descartes,	 tentou	 provar	
racionalmente	 a	 existência	de	Deus	 e	 a	 existência	da	 alma	 enquanto	princípio	
diverso	 do	 corpo.	 Com	 sua	 obra	 intitulada,	Discurso do Método,	 publicada	 em	
1637,	Descartes	provocou	uma	revolução	no	pensamento	ocidental.	Além	disso,	
Descartes	 escreveu	 outras	 duas	 obras	 muito	 importantes,	 Meditações sobre a 
Filosofia Primeira	 (1641),	e	Regras para a direção do Espírito,	publicada	após	a	sua	
morte,	em	1701.
A	principal	preocupação	de	Descartes	é	encontrar	uma	maneira	do	homem	
chegar	à	verdade.	Por	isso,o	filósofo	francês	sugere	que	o	primeiro	passo	é	fazer	
um	trabalho	prévio	de	limpeza	do	terreno,	ou	seja,	duvidar	de	tudo	aquilo	em	que	
acreditamos.	Somente	após	essa	limpeza,	o	homem	começará	a	procurar,	através	
do	método	 da	 dúvida	 (dúvida	metódica),	 a	 verdade	 primeira	 ou	 as	 verdades	
primeiras,	que	são	evidentes	por	si	e	das	quais	não	se	pode	duvidar.	Elas	serão	o	
fundamento	pelo	qual	se	pode	construir	todo	o	edifício	do	conhecimento.
170
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
Segundo	o	método	de	Descartes,	é	por	meio	da	busca	pelo	conhecimento	
verdadeiro,	que	o	homem	se	voltar	para	si	mesmo.		Para	ele,	a	única	maneira	clara	
e	distinta	do	eu	pensar	a	alma	é	como	princípio	de	pensamento,	ou	seja,	como	
res cogitans;	e	a	única	maneira	de	se	pensar	o	corpo	é	concebê-lo	como	extensão,	
isto	é,	como	res extensa.	Assim,	procedendo,	Descartes	concebe	a	realidade	como	
dualista:	 pois	 de	 um	 lado	 há	 a	 substância	 pensante	 (res cogitans)	 –	 mente	 ou	
espírito	–,	e	de	outro	há	a	substância	–	corpo	ou	matéria.	
Esse	dualismo	característico	da	ideia	racionalista	do	homem	se	apresenta	
de	maneira	diversa	do	dualismo	clássico,	pensado	por	Platão	(mundo	das	ideias	
versus mundo	sensível).	No	dualismo	de	Descartes,	o	espírito	(res cogitans)	separa-
se do corpo como res extensa,	não	para	elevar-se	à	contemplação	do	mundo	das	
ideais	 (como	 na	 teoria	 platônica),	 mas	melhor	 conhecer	 e	 dominar	 o	mundo.	
Deste	modo,	a	antropologia	de	Descartes	se	apresenta	como	uma	metafísica	do	
espírito	e	uma	física	do	corpo:	a	ideia	adequada,	isto	é,	clara	e	distinta	das	duas	
substâncias,	mostra-se	 como	 “naturezas	 completas”	 que	 podem	 subsistir	 uma	
sem	a	outra.	Segundo	Vaz	(1991,	p.	83):
A	 formação	 da	 antropologia	 cartesiana	 parece	 acompanhar,	
assim,	 os	 estágios	 da	 formação	 de	 uma	 nova	 ideia	 de	 razão	
que	 presidirá	 ao	 desenvolvimento	 da	 filosofia	 moderna	 até	
Kant	e	mostrará	sua	fecundidade	na	construção	da	ciência	de	
Galileu	Galilei.	O	núcleo	gerador	dessa	nova	ideia	de	razão	é	
justamente	a	ideia	de	método	sobre	o	qual	Descartes	fundará	
toda	a	sua	filosofia.	
Galileu Galilei (1564–1642) foi um físico, matemático, astrônomo e filósofo 
italiano. Foi uma personalidade fundamental na revolução científica. Desenvolveu os 
primeiros estudos sistemáticos do movimento uniformemente acelerado e do movimento 
do pêndulo. Descobriu a lei dos corpos e enunciou o princípio da inércia e o conceito 
de referencial inercial, ideias precursoras da mecânica newtoniana. Galileu melhorou 
significativamente o telescópio refrator e, com ele, descobriu as manchas solares, as 
montanhas da Lua, as fases de Vénus, quatro dos satélites de Júpiter, os anéis de Saturno, 
as estrelas da Via Láctea. Essas descobertas contribuíram decisivamente na defesa do 
heliocentrismo. Contudo, a principal contribuição de Galileu foi para o método científico, 
pois a ciência assentava numa metodologia aristotélica. O método empírico, defendido por 
Galileu, constitui um corte com o método aristotélico mais abstrato utilizado nessa época, 
devido a ele, Galileu é considerado como o "pai da ciência moderna". Disponível em: http://
www.filosofia.seed.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe.php?foto=532&evento=6.
NOTA
TÓPICO 3 —A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA MODERNIDADE
171
Na	 obra	 Discurso do método	 (1637),	 Descartes	 explicita	 a	 estrutura	
fundamental	da	 antropologia	 racionalista.	Nela,	 segundo	o	filósofo,	 há	de	um	
lado	o	 “espírito”,	 cujo	 existir	 se	manifesta	na	 existência	do	Cogito, e de outro, 
tem-se	o	corpo	obedecendo	aos	movimentos	e	às	leis	que	impelem	à	máquina	no	
mundo.	Na	ideia	do	Cogito,	está	implicado	uma	nova	relação	do	“espírito”	com	
o	mundo	que	define	uma	nova	concepção	de	homem:	a	concepção	moderna	de	
homem.	Deste	modo,	o	mundo	não	é	mais	identificado	com	a	physis	(natureza)	
antiga	dotada	de	um	princípio	imanente	de	movimento,	mas	é	(na	modernidade)	
uma	grande	máquina	capaz	de	ser	analisada	pela	razão	e	por	ela	reproduzida	
na	 forma	de	 um	modelo	matemático.	Na	 visão	 de	Vaz	 (1991,	 p.	 84-85),	 “uma	
consequência	importante	da	antropologia	racionalista	é	o	progressivo	atenuar-se	
da	distinção	entre	“natural”	e	“artificial	(entre	physis e a téchne)	que	era	um	dos	
fundamentos	da	visão	aristotélica	do	mundo”.
No	 âmbito	 da	 antropologia	 racionalista,	 o	 corpo	 humano	 passa	 a	 ser	
integrado	no	conjunto	dos	artefatos	e	das	máquinas,	 sendo	que	a	presença	do	
espírito,	 manifestado,	 sobretudo	 através	 da	 linguagem,	 constitui	 o	 elemento	
essencial	 que	 separa	 o	 homem	do	 “animal-máquina”.	Além	disso,	 no	 tratado:	
As paixões da alma (1649),	Descartes	evidencia	de	modo	profundo	e	original,	uma	
ruptura	com	a	concepção	clássica	de	homem,	sistematizada	por	Tomás	de	Aquino.	
3 A ANTROPOLOGIA NA IDADE CARTESIANA
A	revolução	cartesiana	no	campo	da	filosofia	e	a	 revolução	promovida	
pelos	estudos	de	Galileu	Galilei	no	campo	da	ciência	dão	origem	a	uma	nova	ideia	
de	razão	que	transforma	radicalmente	a	autocompreensão	do	homem,	abrindo	o	
espaço	epistemológico	no	qual	 irão	 se	 constituir	 as	 ciências	do	homem.	Nesse	
sentido,	o	século	XVII	é	o	palco	do	Classicismo,	definido	segundo	os	cânones	da	
razão	cartesiana,	dando	forma	a	um	verdadeiro	estilo	de	civilização.	Segundo	Vaz	
(1991),	o	homem	da	idade	cartesiana	será	marcado	por	dois	traços	fundamentais:	
o moralismo,	advindo	da	tradição	do	filósofo	e	humanista	Montaigne,	continuada	
pelos	importantes	moralistas	do	século	XVII	como:	La Bruyère e La Rochefoucauld;	
e, o humanismo devoto,	 que	 expressará	 uma	 nova	 sensibilidade	 religiosa	 em	
virtude	da	razão	cartesiana	e	da	divisão	religiosa	da	Europa.
Uma	das	obras	que	melhor	representa	as	transformações	na	maneira	de	
conceber	o	homem	no	limiar	da	idade	moderna	é	a	de	Blaise	Pascal	(1623–1662).	
A	obra	de	Pascal	é	atravessada	pela	 tensão	entre	o	estudo	da	matemática	e	da	
ciência	 física	 consagrada	 em	 sua	 juventude,	 e	 o	 “estudo	do	homem”,	 no	 qual	
passa	 a	 se	ocupar	 após	 sua	“conversão”,	dentro	do	 seu	 importante	projeto	de	
redigir	uma	apologia	da	religião	cristã.	Em	suas	obras,	entre	elas	Pensées (1670),	
Pascal	coloca	em	oposição	o	estudo	das	“ciências	abstratas”	e	o	estudo	do	homem.	
“A	dramática	experiência	de	Pascal	torna-se,	assim,	uma	antecipação	e	como	que	
um	paradigma	da	experiência	do	homem	moderno”	(VAZ,	1991,	p.	84).
172
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
Em 1654, depois de quase morrer em um acidente de carruagem e passar por 
uma experiência mística, Pascal decidiu se consagrar a Deus e à religião. Elegeu, como seu 
guia espiritual, o padre jansenista Singlin e, em 1665, recolheu-se à abadia de Port-Royal 
des Champs, centro do jansenismo. Nesse período, elaborou os princípios de sua doutrina 
filosófica, centrada na contraposição dos dois elementos básicos e não excludentes do 
conhecimento: de um lado, a razão com suas mediações que tendem ao exato, ao lógico 
e discursivo (espírito geométrico). Do outro lado, a emoção ou o coração, que transcende 
o mundo exterior, intuitiva, capaz de aprender o inefável, o religioso e o moral (espírito de 
finura). Pascal resumiu sua doutrina filosófica na frase que a humanidade repete há séculos, 
na qual nomeia os dois elementos do conhecimento – a razão e a emoção. Disponível em: 
https://www.ebiografia.com/blaise_pascal/>.
DICAS
FIGURA 10 – BLAISE PASCAL “O CORAÇÃO TEM RAZÕES QUE A PRÓPRIA RAZÃO DESCONHECE"
FONTE: . Acesso em: 24 jun. 2020.
Na	concepção	antropologia	de	Pascal,	o	homem	tem	diante	de	si	a	ordem	
eterna	da	natureza	e	contempla	os	dois	abismos	do	 infinitamente	grande	e	do	
infinitamente	pequeno.	Por	outro	 lado,	o	homem	é	chamado	a	 conhecer	a	 sua	
miséria	que	se	manifesta	através	da	corrupção	da	sua	natureza	e	na	operação,	
fonte	de	engano	das	suas	faculdades.	Nesta	dialética	existencial,	Pascal	demonstra	
a	 situação	 dramática	 do	 homem	 da	 idade	 cartesianano	 limiar	 dos	 tempos	
modernos:	“recolhida	à	intimidade	do	Cogito,	sua	subjetividade	deve	enfrentar	
um	universo	despojado	de	suas	qualidades	sensíveis	e	 reduzido	a	um	modelo	
matemático	de	figuras,	movimentos	e	forças”	(VAZ,	1991,	p.	85).	
 
Nesse	sentido,	o	Cogito	na	concepção	de	Pascal	é	a	marca	da	“grandeza	
do	 homem”.	 Assim,	 tanto	 para	 Pascal	 como	 para	 Descartes,	 a	 dignidade	 do	
homem	 reside	 no	 pensamento.	 Entretanto,	 o	 Cogito	 pascaliano	 não	 se	 volta	
para	 a	 dominação	do	mundo,	mas	 sim	na	 busca	 pelas	 descobertas	 das	 regras	
TÓPICO 3 —A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA MODERNIDADE
173
do bien peser (bem	 pensar):	 descobrindo	 sua	 dimensão	moral.	 Diferentemente	
de	Descartes,	a	proposta	antropológica	de	Pascal,	 constrói-se	 tendo	em	vista	a	
situação	do	homem	e	não	a	verdade	na	ciência.	
“Entre	os	dois	infinitos	espaciais,	o	lugar	do	homem	na	natureza	é	ínfimo	
e	 quase	 imperceptível;	 mas,	 pelo	 pensamento	 ele	 se	 eleva	 sobre	 os	 abismos	
espaciais	da	grandeza	e	da	pequenez,	e	compreende	esse	mesmo	universo	que	o	
engole	como	um	ponto”	(VAZ,	1991,	p.	85).
Com	isso,	Pascal	anuncia	a	grande	aporia	que	acompanhará	à	antropologia	
racionalista:	a	oposição	entre	a	Natureza	e	o	Espírito.	A	antropologia	racionalista	
cartesiana	é	guiada	por	um	otimismo	com	relação	ao	respeito	à	natureza	humana,	
bem	como	pela	capacidade	humana	de	conhecer	e	agir.	Neste	âmbito,	a	concepção	
de	homem	de	Pascal,	insere-se	numa	situação	à	luz	do	trágico,	isto	é,	o	homem	
não	 está	mais	 subordinado	 à	 ordem	 cósmico-teológica	 da	 visão	 judaico-cristã	
medieval	do	mundo,	nem	voltado,	como	o	homem	cartesiano,	para	o	senhorio	e	
posse	da	natureza	(VAZ,	1991).
Outro	filósofo	importante,	contemporâneo	de	Pascal,	cujo	pensamento	se	
situa	na	esteira	do	racionalismo	é	Thomas	Hobbes	(1588–1679).	Hobbes	postula	a	
aplicação	do	racionalismo	mecanicista	à	compreensão	do	homem	e	da	sociedade.	
A	obra	de	Hobbes	gira	em	 torno	do	problema	de	 se	encontrar	uma	expressão	
racional	rigorosa	e	obediente	aos	cânones	do	mecanismo	para	a	ideia	de	corpo,	
que	se	apresenta	como	uma	categoria	essencial	para	pensar	a	natureza,	o	homem	
e	a	sociedade.	Assim,	em	seu	projeto	filosófico,	Hobbes	propõe	desenvolver	as	
aplicações	da	noção	de	corpo	para	as	grandes	ordens	da	realidade.	
A filosofia de Hobbes foi muito influenciada pelas ideias de Francis Bacon (1561–
1626), de quem foi secretário pessoal durante alguns anos, e Galileu Galilei (1564–1642). Como 
estes, abandonou as grandes pretensões metafísicas (a busca pela essência do ser) e buscou 
investigar as causas e propriedades das coisas. A filosofia, para ele, seria a “ciência dos corpos”, isto 
é, tudo aquilo que tem existência material. Os corpos se dividem em “corpos naturais” (filosofia 
da natureza) e “corpo artificial” ou “Estado” (filosofia política). Assim, tudo o que não é corpóreo 
seria excluído da filosofia como não filosofia. Hobbes é considerado como o primeiro materialista 
moderno. Para o filósofo inglês, toda a realidade poderia ser explicada a partir de dois elementos: 
do “corpo”, entendido como elemento material que existe, independentemente do nosso 
pensamento, e do “movimento”, que pode ser determinado matemática e geometricamente. 
Assim, a qualidade das coisas seriam “fantasmas do sensível”, ou seja, efeitos dos corpos e de seus 
movimentos. As principais características do empirismo hobbesiano são, portanto, o “materialismo” 
e o “mecanicismo”. Disponível em: https://conhecerepensar.wordpress.com/2016/11/07/thomas-
hobbes-materialismo-natureza-humana-e-politica/.
DICAS
174
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
FIGURA 11 – THOMAS HOBBES
FONTE: . 
Acesso em: 24 jun. 2020.
O	 racionalismo	 de	 Hobbes	 é	 tão	 rigoroso	 quanto	 o	 racionalismo	 de	
Descartes,	 entretanto	 uma	 diferença	 fundamental	 separa	 os	 dois	 projetos	
filosóficos,	uma	vez	que	Hobbes	não	atribui	ao	Cogito	a	dignidade	ontológica	
primordial.	Nesse	sentido,	o	materialismo	de	Hobbes	é	radical	e	integral.	Para	ele	
apenas	o	corpo,	ocupando	o	lugar	no	espaço	existe	como	tal.	Deste	modo,	Hobbes	
não	admite	qualquer	prova	da	existência	de	Deus,	além	de	recusar-se	a	atribuir-
lhe	qualquer	função	política	ou	epistemológica.	Na	filosofia	hobbesiana,	Deus	é	
objeto	de	crença	e	não	de	ciência.	
Assim,	Hobbes	se	recusa	a	aceitar	os	predicados	que	a	tradição	filosófica	
reconhece	no	homem,	por	exemplo,	a	imortalidade	da	alma,	o	livre	arbítrio,	
a	reta	razão	etc.	Com	isso,	o	filósofo	inglês	busca	a	peculiaridade	do	homem	
na	própria	imposição	de	sua	natureza,	isto	é,	a	tarefa	de	ser	o	artífice	da	sua	
própria	humanidade.	Tal	tarefa	exige	que,	num	primeiro	momento,	o	homem	
saia	do	seu	“estado	de	natureza”	para	encaminhar-se	para	o	“estado	civil”,	
fazendo	da	sociedade	e	do	Estado	o	terreno	e	o	horizonte	da	sua	realização	
humana	(VAZ,	1991).
	A	partir	 da	 obra	de	Hobbes,	 desenvolver-se-á	 uma	 importante	 versão	
do	 racionalismo,	 sobretudo	 na	 Inglaterra,	 exercendo	 uma	 forte	 influência	 na	
ética	e	na	política	moderna.	Trata-se	do	empirismo	inglês,	que	influenciado	pela	
ênfase	antropológica	de	Hobbes,	caracterizou-se	como	uma	filosofia	do	homem	
em	sua	capacidade	cognoscitiva,	em	seu	agir	moral	e	em	sua	vida	política.	Nesse	
sentido,	a	concepção	empirista	do	pensamento	antropológico	que	se	desenvolveu	
na	 Inglaterra	no	 século	XVII,	 contrapõe-se	 fortemente	à	metafísica	 racionalista	
dominante	no	continente.	
A	obra	que	expõe	os	fundamentos	do	empirismo	racionalista	inglês	é	a	
do	 filósofo	 John	 Locke	 (1632–1704).	 Locke	 foi	 o	 teórico	 da	 Revolução	 Inglesa,	
tornando-se	o	pensador	que	 traçou	 com	maior	 exatidão	 a	 imagem	do	homem	
que	prevaleceria	na	cultura	europeia	durante	os	séculos	XVIII	e	XIX:	a	imagem	
do	“homem	liberal”	ou	do	“burguês”.	Sua	tese,	sustentava-se	em	seu	otimismo	
naturalista	 (que	 postulava	 a	 bondade	 natural	 do	 homem)	 e	 na	 afirmação	 da	
sociedade	natural	(contrário	a	tese	de	Hobbes),	isto	é,	a	tendência	da	convivência	
harmônica	e	pacífica	dos	indivíduos	no	“estado	de	natureza”.	
TÓPICO 3 —A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA MODERNIDADE
175
John Locke (1632–1704) foi um dos principais empiristas britânicos com Thomas 
Hobbes, George Berkeley e David Hume. Sua filosofia reconhece a experiência como a única 
fonte válida de conhecimento. Segundo ele, a sensação ou a experiência externa, e a reflexão 
ou a experiência interna, constituem duas fontes de conhecimento, originando-se ideias 
simples, produtos da sensação, e ideias complexas, provenientes da reflexão. John Locke negava 
radicalmente que existiam ideias inatas, tese defendida por Descartes. Argumentava ele, que 
quando se nasce, a mente é uma página em branco que a experiência vai preenchendo. Sua 
teoria do conhecimento foi exposta em sua obra fundamental: Ensaio Sobre o Conhecimento 
Humano. Disponível em: https://www.ebiografia.com/john_locke/.
DICAS
FIGURA 12 – JOHN LOCKE
FONTE: . Acesso em: 24 jun. 2020.
John	Locke	tece	sua	crítica	a	teoria	cartesiana	das	ideias	inatas	que	afirma	
existirem	no	homem	todas	as	disposições	naturais	para,	usando	de	suas	próprias	
capacidades,	chegar	ao	conhecimento	de	Deus,	da	natureza	e	de	si	mesmo	como	
ser	moral.	 Entretanto,	 o	 naturalismo	de	Locke	 não	 se	manifesta	 em	 confronto	
ao	 cristianismo.	Ao	 contrário,	 Locke	 se	 mostra	 um	 propagador	 da	 tolerância	
religiosa	 e	 se	 esforçará	 para	 evidenciar	 o	 caráter	 razoável	 do	 cristianismo,	
preparando	 o	 caminho	 para	 o	 desenvolvimento	 do	 deísmo	 no	 século	 XVIII.	
A	 antropologia	 de	 John	Locke	 se	 fundamenta,	 portanto,	 através	 de	 sua	 teoria	
empirista	do	conhecimento.	Segundo	Vaz	(1991),	a	rejeição	das	ideias	inatas	tem	
como	 consequência	 direta	 a	 crítica	 do	 Cogito	 cartesiano	 e	 uma	 concepção	 de	
consciência de si	como	manifestação	da	identidade	pessoal	quepõe	em	destaque	
a	 sua	 estrutura	 psicológica	 em	 âmbitos	muito	mais	 amplos	 do	 que	 os	 limites	
apodíticos	do	Eu	penso.	
176
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
Desse	 modo,	 o	 empirismo	 de	 Locke,	 com	 a	 primazia	 conferida	 ao	
indivíduo,	também	é	o	fundamento	de	sua	teoria	política,	na	qual	 influenciará	
fortemente	 o	 pensamento	 liberal	 moderno.	 Há	 um	 paradoxo	 presente	 no	
pensamento	político	de	Locke:	por	um	lado,	há	o	indivíduo	que	na	sua	condição	
de	soberano	deve	renunciar	a	sua	absoluta	soberania,	pois	alguns	de	seus	direitos	
serão	transferidos	para	o	Estado	ou	serão	limitados	pela	soberania	da	lei.	Nesse	
sentido,	para	Locke,	a	 sociedade	política	que	garante	o	bem	de	 todos,	aparece	
como	um	liame	nocivo	para	cada	indivíduo,	em	contraste	à	sociedade	harmônica	
e	pacífica	do	“estado	de	natureza”.	Nessas	condições,	não	restará	ao	indivíduo	
outra	opção	para	reencontrar	sua	autonomia,	senão	recolher-se	ao	isolamento	de	
sua	vida	privada	(VAZ,	1991).
4 A ÉPOCA DA ILUSTRAÇÃO: KANT E A ANTROPOLOGIA 
PRAGMÁTICA
A	 Ilustração	 ou	 Iluminismo	 compreende	 o	 movimento	 de	 ideias	 que	
predominou	na	Europa	do	 século	XVIII	 e	 que	 se	 estendeu	 ao	 campo	político,	
religioso,	filosófico,	científico,	 literário	e	artístico,	definindo	um	espírito	 (Geist)	
que	 marcou	 toda	 uma	 época	 e	 conferiu	 uma	 identidade	 própria	 a	 toda	 uma	
civilização,	 designada	de	 civilização	 da	 Ilustração.	Nesse	 sentido,	 a	 Ilustração	
abarca	 vários	 aspetos,	 mas	 o	 centro	 que	 unifica	 todos	 esses	 aspectos	 é	 uma	
concepção	do	homem,	como	da	história	humana	e	de	seu	sentido,	que	se	afasta	
radicalmente	da	concepção	dominante	nos	séculos	cristãos.	
A	 época	 da	 Ilustração	 (Iluminismo)	 se	 caracterizou	 não	 como	 um	
consistente	 	 sistema	 doutrinário,	mas	 como	 um	movimento,	 cujo	 fundamento	
era	 a	 confiança	 na	 razão	 humana,	 em	 que	 o	 desenvolvimento	 representava	
o	progresso	da	humanidade	 e,	por	 consequência,	 a	 libertação	dos	vínculos	da	
tradição	 judaico-cristã	medieval,	que	na	visão	dos	 iluministas,	caracterizava-se	
pela	ignorância,	pela	manifestação	de	superstições,	de	visões	míticas	e	opressivas	
em	 relação	 a	 novas	 ideias	 e	 concepções	de	mundo	 e	do	 ser	 humano	 (REALE;	
ANTISERI,	1990).
Portanto,	a	Razão	para	os	pensadores	iluministas	representava	a	defesa	
do	conhecimento	científico,	da	técnica,	enquanto	instrumentos	de	transformação	
do	mundo	 e	de	melhoria	progressiva	das	 condições	 espirituais	 e	materiais	 da	
humanidade.	 Sob	 tais	 pressupostos,	 o	 iluminismo	 pode	 ser	 considerado	 uma	
aposta	na	potência	da	Razão	humana,	com	o	objetivo	de	superar	os	problemas	
sociais,	 pedagógicos	 e	políticos	da	 sociedade.	Assim,	 os	 iluministas	 situam	na	
base	 desse	 projeto	 de	 progresso	 espiritual,	material	 e	 político,	 o	 uso	 crítico	 e	
construtivo	da	razão.	
Na	visão	do	filósofo	alemão	Immanuel	Kant,	o	uso	da	razão	 iluminista	
é	o	uso	público.	Segundo	ele,	o	uso	público	da	razão	deve	ser	livre	em	qualquer	
tempo	e	só	ele	pode	concretizar	o	iluminismo	entre	os	homens.	Deste	modo,	a	
razão	na	perspectiva	iluminista	não	desconsidera	nenhum	campo	de	investigação,	
TÓPICO 3 —A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA MODERNIDADE
177
ela	 é	 uma	 razão	 que	 diz	 respeito	 à	 natureza	 e,	 ao	mesmo	 tempo,	 ao	 homem.	
“[...]	O	homem	não	se	reduz	à	razão,	mas	tudo	aquilo	que	lhe	diz	respeito	pode	
ser	 indagado	 através	 da	 razão:	 princípios	 do	 conhecimento,	 comportamentos	
éticos,	estruturas	e	instituições	políticas,	sistemas	filosóficos	e	crenças	religiosas”	
(REALE;	ANTISERI,	1990,	p.	674).
FIGURA 13 – IMMANUEL KANT
FONTE: . Acesso em: 24 jun. 2020.
Immanuel	Kant	nasceu	em	Königsberg,	na	Prússia	Oriental,	(hoje,	a	cidade	
se	chama	Kaliningrado	e	pertence	a	um	território	que	se	encontra	sob	a	soberania	
russa)	no	ano	de	1724	e	morreu	na	mesma	cidade,	em	1804.	O	filósofo	prussiano	
jamais	 saiu	 dos	 limites	 de	 sua	 cidade.	Descendia	 de	 uma	 família	 humilde	 de	
artesões,	provavelmente	de	origem	escocesa.	O	seu	pai	era	seleiro	e	sua	mãe	dona	
de	casa.	Era	de	uma	família	numerosa,	que	foi	duramente	provada,	pois	seis	filhos	
morreram	em	tenra	idade.	Kant	menciona	que	seus	pais	lhe	deram	uma	excelente	
educação	e	eram	exemplo	de	honestidade	e	probidade.	
Kant	estudou	na	Universidade	de	sua	cidade	natal,	foi	professor	particular,	
participando	 de	 atividades	 universitárias;	 mas	 somente	 no	 ano	 de	 1770	 foi	
nomeado	professor	ordinário	de	Lógica	e	Metafísica.	Até	1797,	permaneceu	na	
condição	de	professor	em	sua	cátedra,	que	abandonou	por	debilidade	seis	anos	
antes	de	morrer.	O	filósofo	sempre	teve	saúde	delicada,	e	apesar	disso,	era	muito	
metódico,	tranquilo	e	extremamente	bondoso.	A	sua	vida	inteira	constitui-se	por	
uma	paixão	pela	verdade.
A	obra	de	Kant	representa	uma	das	importantes	correntes	da	Ilustração	
(Iluminismo).	É	também	na	obra	de	Kant	que	se	encontra	os	prenúncios	de	uma	
nova	época	que	será	dominada	pelo	Romantismo,	do	qual	o	Idealismo	alemão	
será	a	vertente	filosófica.	Lima	Vaz	(1991),	traça	duas	linhas	de	pensamento	da	
concepção	kantiana	de	homem:
 
178
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
1-	A	linha	propriamente	antropológica,	que	está	inserida	no	curso	de	Metafísica	
professado	 por	 Kant.	 Nesta	 linha,	 Kant	 introduz,	 a	 partir	 de	 1762,	 uma	
modificação	 decisiva	 no	 melhor	 estilo	 da	 Ilustração,	 colocando	 no	 início	 o	
estudo	empírico	do	homem	do	qual	fornece	o	título	de	Antropologia.	
2-	A	 linha	 crítica	 que	 segue	 o	 desenvolvimento	 da	 reflexão	 crítica	 a	 partir	 da	
Dissertação	 de	 1770;	 essa	 tarefa	 crítica	 abrange	 três	 atividades	 superiores	
do	 homem:	 a	 razão	 teórica,	 a	 razão	 prática	 e	 a	 faculdade	 de	 julga.	 Essas	
três	 atividades	 constituem	 uma	 nova	 imagem	 do	 homem	 transmitida	 pelo	
racionalismo	clássico.
Desse	modo,	a	 relação	entre	essas	duas	 linhas	de	pensamento,	expõe	a	
subordinação	da	Antropologia,	cuja	base	é	empírica,	à	Metafísica	dos	Costumes,	
que	procede	a	priori	e	permite	definir	a	essência	verdadeira	do	homem.	Nesse	
sentido,	na	visão	de	Vaz	(1991),	os	dois	planos	epistemológicos	sobre	os	quais	se	
constrói	a	concepção	kantiana	de	homem	são:	o	plano	de	uma	ciência	de	observação	
que	utiliza	o	procedimento	analítico	para	unificar	os	dados	da	observação	por	
meio	de	uma	teoria	das	faculdades,	cujo	núcleo	conceitual	é	a	representação	do	
Eu	exprimindo-se	em	consciência	de	si;	e	o	plano	de	uma	ciência	a	priori	que	se	
encontra	no	campo	da	Ética	ou	da	Metafísica	dos	Costumes	a	possibilidade	de	
determinação	da	essência	do	homem.
No	 último	 texto	 antropológico	 de	 Kant:	 Antropologia desde o ponto de 
vista pragmático	 (1798),	 delineia-se	 melhor	 a	 ideia	 kantiana	 de	 antropologia.	
Para	Kant,	a	antropologia	é	a	ciência	cuja	finalidade	é	preparar	o	homem	para	o	
conhecimento	do	“mundo”.	Nesse	sentido,	o	conhecimento	do	homem	se	funda	
no	senso	comum	e	tem	em	vista	as	relações	que	se	estabelecem	entre	os	homens.	
Desse	modo,	a	Antropologia	se	insere	no	âmbito	da	“filosofia	popular”	no	sentido	
dado	a	essa	expressão	no	século	XVIII:	é	destinada	ao	uso	das	pessoas	do	mundo,	
sendo	sua	característica	fundamental	é	ser	pragmática.	
Em	Kant,	 o	 conceito	 de	Antropologia	 ganha	 uma	 amplitude	 e	 tende	 a	
ocupar	o	centro	do	sistema	filosófico.	Desta	forma,	a	Antropologia desde do ponto 
de vista pragmático refere-se	 a	 uma	 intenção	 típica	 da	 Ilustração	 alemã:	 tornar	
a	 filosofia	 útil	 para	 a	 vida,	 e	 ela	 constitui	 um	 dos	 aspectos	 fundamentais	 da	
concepção	 kantiana	 do	 homem,	 aquele	 pelo	 qual	 ele	 participa	 do	movimento	
pedagógico	Iluminista.	
Nesse	 sentido,	no	que	 se	 refere	à	 concepção	do	homem,	o	pensamento	
crítico	de	Kant	se	sustenta	na	tradição	dualista	própria	da	antropologia	racionalista.	
Vaz	(1991)	estabelece	os	principais	traços	da	ideia	de	homem	kantiano:
1-	Linha	 da	 estrutura	 sensitivo-racional,	 que	 acompanha	 o	 homemcom	 ser	
cognoscente.	
2-	Linha	 da	 estrutura	 físico-pragmática,	 que	 acompanha	 o	 homem	 como	 ser	
natural	 ou	mundano,	 físico	designando	o	que	 a	Natureza	opera	no	homem	
e	 pragmático	 o	 que	 o	 homem	 faz	 de	 si	 mesmo	 e	 da	 estrutura	 prática	 que	
acompanha	o	homem	como	ser	livre	e	capaz	de	responder.	
TÓPICO 3 —A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA MODERNIDADE
179
3-	Linha	da	estrutura	histórica	ou	do	destino	do	homem,	que	o	acompanha	em	
duas	direções	fundamentais:	religiosa,	que	aponta	para	o	fim	último	do	homem;	
e	a	pedagógica-política	que	Kant	desenvolveu	em	seus	numerosos	opúsculos	
sobre	Filosofia	da	história,	política	e	pedagogia.	
Assim,	 para	 o	 filósofo	 alemão,	 o	 homem,	 que	 na	 Razão	 pura	 revela-
se	 fenomênico	 (objeto	 do	 conhecimento),	 finito,	 mas	 dotado	 (como	 razão)	 de	
estrutural	abertura	para	o	infinito	(as	ideias)	e	de	uma	necessidade	incontrolável	
de	infinito,	na	Razão	prática,	o	homem	revela-se	também	destinado	ao	infinito.	
Portanto,	o	destino	do	homem	é	o	infinito.	Essas	posições,	constituíram	o	horizonte	
da	época	da	Ilustração	(iluminismo),	desembocando	no	Romantismo,	que	em	sua	
poesia	e	filosofia,	estará	voltado	precisamente	para	o	infinito.
180
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
LEITURA COMPLEMENTAR
RESPOSTA À PERGUNTA: “O QUE É O ILUMINISMO?”
Apresentação
	O	opúsculo	de	I.	Kant	Resposta à pergunta: Que é o iluminismo? (1784)	é,	
como	se	sabe,	um	texto	clássico.	Por	razões	várias.	
É	um	dos	manifestos	mais	 ‘interessantes’	da	Ilustração	europeia.	Como	
tal,	figura	não	só	como	um	dos	mais	contundentes	apelos	ao	exercício	autônomo	
da	 razão,	 à	 liberdade	 de	 pensamento,	 mas	 constitui,	 ainda,	 uma	 expressão	
sintomática	 de	 um	 momento	 fundamental	 na	 estruturação	 da	 consciência	
moderna,	com	o	seu	afã	de	novidade,	de	expansão	e	conquista	do	mundo	e	da	
natureza,	de	destruição	da	ordem	estática	das	sociedades,	mas	também	com	o	seu	
desprezo	da	tradição,	com	a	vertigem	do	solipsismo.	
É,	 por	 outro	 lado,	 um	 texto-alvo	 no	 recente	 debate	 sobre	 o	 projeto	 da	
modernidade	 e	 a	 reação	 pós-moderna	 (assim	 na	 obra	 de	M.	 Foucault	 e	 de	 J.	
Habermas,	entre	outros).	
Propõe,	 ainda,	 de	 certo	 modo,	 um	 ideal	 imperativo	 e	 inatingível	 –	
precisamente	a	consecução	da	genuína	e	plena	ilustração	intelectual	–	e	disso	
Kant	parece	dar-se	conta	no	final	do	ensaio,	embora	permaneça,	contra	o	que	
promove,	enredado	nos	preconceitos	da	sua	época,	a	 saber,	uma	versão	algo	
abstrata	 da	 razão	 arrancada	 ao	 húmus	 da	 história,	 encarada	 sem	 os	 nexos	
relacionais	que	 ligam	os	seres	humanos	no	seu	destino;	a	 inatenção	ao	papel	
quase	transcendental	da	linguagem	na	estruturação	do	pensamento;	a	falta	de	
consideração	do	vínculo	entre	razão	e	autoridade	(nas	suas	múltiplas	formas),	
além	da	pedante	convicção	de	que	as	idades	anteriores	aos	tempos	modernos	
mergulhavam	na	‘menoridade	culpada’.	
Estas	 observações,	 e	muitas	 outras	 que	 se	 poderiam	 aduzir,	 não	 serão	
um	 obstáculo	 para	 apreciar	 a	 luminosidade	 deste	 opúsculo,	 merecidamente	
famoso;	mesmo	apesar	dos	seus	limites,	encerra	ainda	uma	exigência	moral	de	
autoiluminação,	que	nunca	é	bastante.
RESPOSTA À PERGUNTA: “QUE É O ILUMINISMO?” (1784)
(3	dez.,	1783,	p.	516)
Immanuel	Kant
	lluminismo	é	a	saída	do	homem	da	sua	menoridade	de	que	ele	próprio	
é	culpado.	A	menoridade	é	a	incapacidade	de	se	servir	do	entendimento	sem	a	
orientação	de	outrem.	Tal	menoridade	é	por	culpa	própria,	se	a	sua	causa	não	
residir	na	carência	de	entendimento,	mas	na	falta	de	decisão	e	de	coragem	em	
se	servir	de	si	mesmo,	sem	a	guia	de	outrem.	Sapere aude!	Tem	a	coragem	de	te	
servires	do	teu	próprio	entendimento!	Eis	a	palavra	de	ordem	do	Iluminismo.
 
181
	A	 preguiça	 e	 a	 cobardia	 são	 as	 causas	 de	 os	 homens	 em	 tão	 grande	
parte,	após	a	natureza	os	 ter	há	muito	 libertado	do	controlo	alheio	 (naturaliter 
maiorennes),	[482]	continuarem,	todavia,	de	bom	grado	menores	durante	toda	a	
vida;	e	 também	de	a	outros	se	tornar	tão	fácil	assumir-se	como	seus	tutores.	É	
tão	cômodo	ser	menor.	Se	eu	tiver	um	livro	que	tem	entendimento	por	mim,	um	
diretor	espiritual	que,	em	vez	de	mim,	tem	consciência	moral,	um	médico	que,	por	
mim,	decide	da	dieta	etc.,	então,	não	preciso	de	eu	próprio	me	esforçar.	Não	me	
é	forçoso	pensar,	quando	posso	simplesmente	pagar;	outros	empreenderão	por	
mim	essa	tarefa	aborrecida.	Porque	a	imensa	maioria	dos	homens	(inclusive	todo	
o	belo	sexo)	considera	a	passagem	à	maioridade	difícil	e	também	muito	perigosa,	
é	que	os	tutores	de	bom	grado	tomaram	a	seu	cargo	a	superintendência	deles.	
Depois	de	 terem,	primeiro,	embrutecido	os	 seus	animais	domésticos	e	evitado	
cuidadosamente	que	estas	criaturas	pacíficas	ousassem	dar	um	passo	para	fora	
da	 carroça	 em	que	 as	 encerraram,	mostram-lhes,	 em	 seguida,	 o	perigo	que	 as	
ameaça	se	tentarem	andar	sozinhas.	Ora,	este	perigo	não	é	assim	tão	grande,	pois	
acabariam	por	aprender	muito	bem	a	andar.	Só	que	um	tal	exemplo	intimida	e,	
em	geral,	gera	pavor	perante	todas	as	tentativas	ulteriores.
 
É,	pois,	difícil	a	cada	homem	desprender-se	da	menoridade	que	para	ele	
se	tomou	[483]	quase	uma	natureza.	Até	lhe	ganhou	amor	e	é	por	agora	realmente	
incapaz	de	se	servir	do	seu	próprio	entendimento,	porque	nunca	se	lhe	permitiu	
fazer	semelhante	tentativa.	Preceitos	e	fórmulas,	instrumentos	mecânicos	do	uso	
racional	 ou	 antes	do	mau	uso	dos	 seus	dons	naturais	 são	 os	 grilhões	de	uma	
menoridade	perpétua.	Mesmo	quem	deles	se	soltasse	só	daria	um	salto	inseguro	
sobre	o	mais	pequeno	fosso,	porque	não	está	habituado	ao	movimento	livre.	São,	
pois,	muito	poucos,	apenas	os	que	conseguiram	mediante	a	transformação	do	seu	
espírito,	arrancar-se	a	menoridade	e	encetar	então	um	andamento	seguro.	
É	perfeitamente	possível	que	um	público	a	si	mesmo	se	esclareça.	Mais	
ainda,	 é	 quase	 inevitável,	 se	 para	 tal	 lhe	 for	 concedida	 a	 liberdade.	 Sempre	
haverá,	de	fato,	alguns	que	pensam	por	si,	mesmo	entre	os	tutores	estabelecidos	
da	grande	massa	que,	após	terem	arrojado	de	si	o	jugo	da	menoridade,	espalharão	
a	sua	volta	o	espírito	de	uma	estimativa	racional	do	próprio	valor	e	da	vocação	de	
cada	homem	para	pensar	por	si	mesmo.	Importante	aqui	é	que	o	público,	antes	
por	eles	 sujeito	a	 este	 jugo,	os	obriga	doravante	a	permanecer	 sob	ele	quando	
por	alguns	dos	seus	tutores,	pessoalmente	incapazes	de	qualquer	ilustração,	é	a	
isso	[484]	incitado.	Semear	preconceitos	é	muito	danoso,	porque	acabam	por	se	
vingar	dos	que	pessoalmente	ou	os	seus	predecessores,	 foram	os	seus	autores.	
Por	conseguinte,	um	público	só	muito	lentamente	consegue	chegar	à	ilustração.	
Por	meio	de	uma	revolução	talvez	se	possa	levar	a	cabo	a	queda	do	despotismo	
pessoal	e	da	opressão	gananciosa	ou	dominadora,	mas	nunca	uma	verdadeira	
reforma	do	modo	de	pensar.	Novos	preconceitos,	 justamente	como	os	antigos,	
servirão	de	rédeas	à	grande	massa	destituída	de	pensamento.	
182
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
Para	essa	ilustração,	nada	mais	se	exige	do	que	a	liberdade;	e,	claro	está,	
a	mais	inofensiva	entre	tudo	o	que	se	pode	chamar	liberdade,	a	saber,	a	de	fazer	
um	uso	público	da	sua	razão	em	todos	os	elementos.	Agora,	porém,	de	todos	os	
lados	ouço	gritar:	não	raciocines!	Diz	o	oficial:	não	raciocines,	mas	faz	exercícios!	
Diz	o	funcionário	de	Finanças:	não	raciocines,	paga!	E	o	clérigo:	não	raciocines,	
acredita!	 (apenas	 um	 único	 senhor	 no	 mundo	 diz:	 raciocinai	 tanto	 quanto	
quiserdes	e	sobre	o	que	quiserdes,	mas	obedecei!).	Por	toda	a	parte	se	depara	
com	a	 restrição	da	 liberdade.	Qual	 é	 a	 restrição	que	 se	opõe	ao	 Iluminismo?	
Qual	a	restrição	que	o	não	impede,	antes	o	fomenta?	Respondo:	—	o	uso	público	
da	própria	razão	deve	sempre	ser	 livre	e	só	ele	pode,	entre	os	homens,	 levar	
a	 cabo	 a	 ilustração	 [485];	 mas	 o	 uso	 privado	 da	 razão	 pode,	 muitas	 vezes,	
coarctar-se	 fortemente	sem	que,	no	entanto,	 se	entrave	assim	notavelmente	o	
progressoda	ilustração.	Por	uso	público	da	própria	razão	entendo	aquele	que	
qualquer	um,	enquanto	erudito,	dela	faz	perante	o	grande	público	do	mundo	
letrado.	Chamo	uso	privado	aquele	que	alguém	pode	fazer	da	sua	razão	num	
certo	cargo	público	ou	função	a	ele	confiado.	Ora,	em	muitos	assuntos	que	têm	
a	 ver	 com	o	 interesse	 da	 comunidade,	 é	 necessário	 um	 certo	mecanismo	 em	
virtude	do	qual	alguns	membros	da	comunidade	se	comportarão	de	um	modo	
puramente	passivo	com	o	propósito	de,	mediante	uma	unanimidade	artificial,	
serem	 orientados	 pelo	 governo	 para	 fins	 públicos	 ou	 de,	 pelo	menos,	 serem	
impedidos	de	destruir	tais	fins.	
No	 caso,	 não	 é	 decerto	 permitido	 raciocinar,	mas	 tem	 de	 se	 obedecer.	
Na	medida,	porém,	em	que	esta	parte	da	máquina	se	considera	também	como	
elemento	de	uma	comunidade	total,	e	até	da	sociedade	civil	mundial,	portanto,	na	
qualidade	de	um	erudito	que	se	dirige	por	escrito	a	um	público	em	entendimento	
genuíno,	pode,	certamente,	raciocinar	sem	que	assim	sofram	qualquer	dano	os	
negócios	a	que,	em	parte,	como	membro	passivo,	encontra-se	sujeito.	Seria,	pois,	
muito	pernicioso	 se	um	oficial,	 a	 quem	o	 seu	 superior	 ordenou	algo,	 quisesse	
em	 serviço	 sofismar	 em	 voz	 alta	 [486]	 acerca	 da	 inconveniência	 ou	 utilidade	
dessa	ordem;	tem	de	obedecer,	mas	não	se	lhe	pode	impedir	de	um	modo	justo,	
enquanto	perito,	fazer	observações	sobre	os	erros	do	serviço	militar	e	expô-las	ao	
seu	público	para	que	as	julgue.	
O	 cidadão	 não	 pode	 recusar-se	 a	 pagar	 os	 impostos	 que	 lhe	 são	
exigidos;	e	uma	censura	 impertinente	de	 tais	obrigações,	 se	por	ele	devem	ser	
cumpridas,	pode	mesmo	punir-se	como	um	escândalo	(que	poderia	causar	uma	
insubordinação	geral).	Apesar	disso,	não	age	contra	o	dever	de	um	cidadão	se,	
como	erudito,	ele	expuser	as	suas	 ideias	contra	a	 inconveniência	ou	também	a	
injustiça	de	tais	prescrições.	Do	mesmo	modo,	um	clérigo	está	obrigado	a	ensinar	
os	instruindo	de	catecismo	e	a	sua	comunidade	em	conformidade	com	o	símbolo	
da	Igreja,	a	cujo	serviço	se	encontra,	pois	ele	foi	admitido	com	esta	condição.	Como	
erudito,	tem	plena	liberdade	e	até	a	missão	de	participar	ao	público	todos	os	seus	
pensamentos	cuidadosamente	examinados	e	bem-intencionados	sobre	o	que	de	
errôneo	há	naquele	símbolo,	e	as	propostas	para	uma	melhor	regulamentação	das	
matérias	que	respeitam	à	religião	e	à	igreja.	Nada	aqui	existe	que	possa	constituir	
um	peso	na	consciência.	Com	efeito,	o	que	ele	ensina	em	virtude	da	sua	função,	
 
183
como	ministro	da	Igreja,	expõe-no	como	algo	em	relação	[487]	ao	qual	não	tem	o	
livre	poder	de	ensinar	segundo	a	sua	opinião	própria,	mas	está	obrigado	a	expor	
segundo	a	prescrição	e	em	nome	de	outrem.	Dirá:	a	nossa	Igreja	ensina	isto	ou	
aquilo;	são	estes	os	argumentos	comprovativos	de	que	ela	se	serve.
 
Em	seguida,	 ele	 extrai	 toda	 a	utilidade	prática	para	 a	 sua	 comunidade	
de	preceitos	que	ele	próprio	não	subscreveria	com	plena	convicção,	mas	a	cuja	
exposição	se	pode,	no	entanto,	comprometer,	porque	não	é	de	todo	impossível	que	
neles	resida	alguma	verdade	oculta.	De	qualquer	modo,	porém,	não	deve	neles	
haver	coisa	alguma	que	se	oponha	à	religião	interior,	pois	se	julgasse	encontrar	
aí	 semelhante	 contradição,	 então	 não	 poderia	 em	 consciência	 desempenhar	
o	 seu	ministério;	 teria	de	 renunciar.	 Por	 conseguinte,	 o	uso	que	um	professor	
contratado	faz	da	sua	razão	perante	a	sua	comunidade	é	apenas	um	uso	privado,	
porque	ela,	por	maior	que	seja,	é	sempre	apenas	uma	assembleia	doméstica;	e	no	
tocante	a	tal	uso,	ele	como	sacerdote	não	é	livre	e	também	o	não	pode	ser,	porque	
exerce	uma	incumbência	alheia.	Em	contrapartida,	como	erudito	que,	mediante	
escritos,	fala	a	um	público	genuíno,	a	saber,	ao	mundo,	por	conseguinte,	o	clérigo,	
no	uso	público	da	 sua	 razão,	goza	de	uma	 liberdade	 ilimitada	de	 se	 servir	da	
própria	razão	e	de	falar	em	seu	nome	próprio.	É,	de	facto,	um	absurdo,	que	leva	
à	perpetuação	dos	absurdos,	que	os	tutores	do	povo	[488]	(em	coisas	espirituais)	
tenham	de	ser,	por	sua	vez,	menores.	
Não	deveria	 uma	 sociedade	de	 clérigos,	 por	 exemplo,	 uma	 assembleia	
eclesiástica	 ou	 uma	 venerável	 classis	 (como	 a	 si	mesma	 se	 denomina	 entre	 os	
Holandeses)	estar	autorizada	sob	juramento	a	comprometer-se	entre	si	com	um	
certo	 símbolo	 imutável	 para	 assim	 se	 instituir	 uma	 interminável	 supertutela	
sobre	cada	um	dos	seus	membros	e,	por	meio	deles,	sobre	o	povo,	e	deste	modo	
a	eternizar?	Digo:	isso	é	de	todo	impossível.	Semelhante	contrato,	que	decidiria	
excluir	para	sempre	toda	a	ulterior	ilustração	do	gênero	humano,	é	absolutamente	
nulo	e	sem	validade,	mesmo	que	fosse	confirmado	pela	autoridade	suprema	por	
parlamentos	e	pelos	mais	solenes	tratados	de	paz.	Uma	época	não	se	pode	coligar	
e	conjurar	para	colocar	a	seguinte	num	estado	em	que	se	 tornará	 impossível	a	
ampliação	dos	seus	conhecimentos	(sobretudo	os	mais	urgentes),	a	purificação	
dos	erros	e,	 em	geral,	o	avanço	progressivo	na	 ilustração.	 Isso	 seria	um	crime	
contra	a	natureza	humana,	cuja	determinação	original	consiste	justamente	neste	
avanço.	E	os	vindouros	 têm	 toda	a	 legitimidade	para	 recusar	 essas	 resoluções	
decretadas	de	um	modo	 incompetente	e	criminoso.	A	pedra	de	 toque	 [489]	de	
tudo	o	que	se	pode	decretar	como	lei	sobre	um	povo	reside	na	pergunta:	poderia	
um	povo	impor	a	si	próprio	essa	lei?	
Seria	decerto	possível,	na	expectativa,	por	assim	dizer,	de	uma	lei	melhor,	
por	um	determinado	e	curto	prazo,	para	introduzir	uma	certa	ordem.	Ao	mesmo	
tempo,	 facultar-se-ia	 a	 cada	 cidadão,	 em	 especial	 ao	 clérigo,	 na	 qualidade	 de	
erudito,	 fazer	 publicamente,	 isto	 é,	 por	 escritos,	 as	 suas	 observações	 sobre	 o	
que	há	de	errôneo	nas	 instituições	anteriores;	 entretanto,	a	ordem	 introduzida	
continuaria	em	vigência	até	que	o	discernimento	da	natureza	de	 tais	 coisas	 se	
tivesse	de	tal	modo	difundido	e	testado	publicamente	que	os	cidadãos,	unindo	
184
UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
as	suas	vozes	(embora	não	todas),	poderiam	apresentar	a	sua	proposta	diante	do	
trono	a	fim	de	protegerem	as	comunidades	que,	de	acordo	com	o	seu	conceito	
do	 melhor	 discernimento,	 se	 teriam	 coadunado	 numa	 organização	 religiosa	
modificada,	sem	todavia	 impedir	os	que	quisessem	ater-se	à	antiga.	É	de	 todo	
interdito	coadunar-se	numa	constituição	religiosa	pertinaz,	por	ninguém	posta	
publicamente	em	dúvida,	mesmo	só	durante	o	tempo	de	vida	de	um	homem	e	
deste	modo	aniquilar,	por	assim	dizer,	um	período	de	 tempo	no	progresso	da	
humanidade	para	o	melhor	e	torná-lo	infecundo	e	prejudicial	para	a	posteridade.	
Um	homem,	para	a	sua	pessoa,	[490]	e	mesmo	então	só	por	algum	tempo,	pode,	
no	que	lhe	incumbe	saber,	adiar	a	ilustração,	mas	renunciar	a	ela,	quer	seja	para	
si,	quer	ainda	mais	para	a	descendência,	significa	lesar	e	calcar	aos	pés	o	sagrado	
direito	da	humanidade.	
O	que	não	é	 lícito	a	um	povo	decidir	em	relação	a	si	mesmo	menos	o	
pode	ainda	um	monarca	decidir	sobre	o	povo,	pois	a	sua	autoridade	legislativa	
assenta	precisamente	no	fato	de	a	sua	vontade	unificar	a	vontade	conjunta	do	
povo.	Quando	ele	vê	que	 toda	a	melhoria	verdadeira	ou	presumida	coincide	
com	a	ordem	civil,	pode	então	permitir	que	em	tudo	o	mais	os	seus	súbditos	
façam	por	 si	mesmos	o	que	 julguem	necessário	 fazer	para	 a	 salvação	da	 sua	
alma.	Não	é	isso	que	lhe	importa,	mas	compete-lhe	obstar	a	que	alguém	impeça	
à	força	outrem	de	trabalhar	segundo	toda	a	sua	capacidade	na	determinação	e	
fomento	da	mesma.	Constitui	até	um	dano	para	a	sua	majestade	imiscuir-se	em	
tais	assuntos,	ao	honrar	com	a	inspeção	do	seu	governo	os	escritos	em	os	seus	
súbditos	procuram	clarificar	as	suas	ideias,	quer	quando	ele	faz	isso	a	partir	do	
seu	discernimento	superior,	pelo	que	se	sujeita	à	censura	‘Caesar non est supra 
grammaticos’	quer	também,	e	ainda	mais,	quando	rebaixa	o	seu	poder	supremo	a	
ponto	de,	no	seu	Estado,	apoiar	o	despotismo	espiritual	de	alguns	tiranosespécie), quanto cultural (investigando seu comportamento, vida social 
e produção cultural). De acordo com Marconi e Presotto (2001) em nenhuma outra 
disciplina científica encontraríamos uma investigação tão sistemática e unificada 
das manifestações e atividades humanas.
 
Enquanto Ciência da Humanidade e da Cultura, a Antropologia apresenta 
um enorme campo de investigação, abrangendo todo o planeta habitado e na 
dimensão temporal, pelo menos há dois milhões de anos (quando surgiram os 
primatas que acabaram evoluindo no ser humano moderno), procurando cobrir 
ainda todas as sociedades de que se tem registro (MARCONI; PRESOTTO, 2001).
A distribuição da humanidade através do tempo.
FIGURA 5 – MAPA MOSTRANDO A DISTRIBUIÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DO SER HUMANO
FONTE: . Acesso em: 9 abr. 2015.
Prezado acadêmico, certamente, pelo que dissemos até agora, você já deve 
intuir que a Antropologia é um discurso humano (literário, científico e filosófico, 
simultaneamente) acerca de tudo o que diz respeito à experiência humana, e 
sua singularidade. Contribui assim a Antropologia para a compreensão teórica 
do que é ser humano, em todos os sentidos e dimensões que dizem respeito 
à humanidade, em si e para si, a partir de si mesma, de seu logos, sua razão 
autorreflexiva. 
 
TÓPICO 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA
9
E a Antropologia faz isso à sua própria maneira, com seus métodos 
e teorias produzidas e utilizadas neste campo da ciência, que lhe dão uma 
exclusividade legitimadora diante do conhecimento humano. Procuraremos 
esclarecer neste caderno, ao máximo a você aluno(a) da UNIASSELVI, com o 
intuito de ajudá-lo(a) a refletir criticamente a respeito da experiência humana, 
notadamente a experiência religiosa.
O êxtase religioso, experiência humana do divino.
FIGURA 6 – XAMÃ, VESTINDO MÁSCARA, EM TRANSE DURANTE RITO DE SUA CULTURA
FONTE: . 
Acesso em: 10 abr. 2015.
3 A ANTROPOLOGIA NA PRÁTICA
Mas seria só isso? A Antropologia limitar-se-ia a ser mais uma teoria (com 
sua especificidade, bem verdade) em meio a outras que procuram dar conta do 
que somos nós? 
 
Sendo a Ciência do ser humano e da cultura por excelência (MARCONI; 
PRESOTTO, 2001), a Antropologia conjuga ao aspecto teórico, também a dimensão 
prática. Ela nos ajuda não só a pensarmos acerca de nós mesmos, mas igualmente 
nos auxilia em efetivarmos mudanças para melhor em nossa vivência no mundo 
e darmos conta, de maneira mais eficaz, das questões que nos são próprias.
 
Se os teóricos puros em Antropologia buscam atingir aquele conhecimento 
total (ou idealmente total) do ser humano, que resulte em uma compreensão mais 
apurada da humanidade, o fazem com o intuito de levar este saber a aplicações 
práticas que tragam benefícios efetivos para as diferentes populações humanas 
com as quais trabalham.
 
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
10
Os antropólogos estão conscientes e zelam para que a aplicabilidade do 
conhecimento que produzem seja pautada por determinados princípios que são 
imprescindíveis e indissociáveis de um exercício ético da profissão. É importante 
que você, nosso(a) aluno(a), conheça que princípios são estes.
 
O mais importante é o respeito à diversidade cultural e aos diferentes 
valores que cada cultura apresenta. Dentro desta perspectiva, a ação do 
antropólogo e a aplicação de seu saber deve conduzir-se pelo reconhecimento da 
autonomia dos grupos humanos e o direito destes à autodeterminação. 
 
Todos os povos têm de ter reconhecido e garantido o direito de 
produzirem sua própria cultura, tê-la para si e mudá-la a partir de sua própria 
dinâmica e lógica interna. Os membros das diferentes culturas têm o direito de 
ter suas crenças, hábitos, costumes e ideologias próprios, que lhes conferem 
suas identidades. 
 
A partir desta perspectiva os conhecimentos antropológicos podem e 
devem ser aplicados de maneira prática, visando o bem-estar das populações. 
Desta forma, a Antropologia aplicada teria os seguintes papéis (MARCONI; 
PRESOTTO, 2001):
a) Contribuir para a solução de problemas causados em função da diversidade 
cultural, minimizando conflitos resultantes de desequilíbrios e tensões 
que se originam nas diferenças culturais, procurando garantir o respeito às 
especificidades culturais.
b) Colocar o conhecimento antropológico a serviço da solução de problemas de 
fundo social, político e econômico dos diferentes povos.
FIGURA 7 – REPRESENTAÇÃO DA DIVERSIDADE CULTURAL DO BRASIL POR REGIÕES
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 10 abr. 2015.
TÓPICO 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA
11
Efetivamente a Antropologia tem contribuído para a solução de problemas 
e desafios colocados pelo colonialismo, advogando pelos direitos dos povos 
nativos e zelando pela preservação cultural destas populações. 
O conhecimento antropológico tem ajudado na implantação de projetos 
de desenvolvimento em diversas áreas (colonização de terras, reforma agrária, 
fortalecimento comunitário e da economia local etc.) e ainda na promoção da 
coexistência pacífica em nações multiculturais e na garantia de territórios de 
povos indígenas e quilombolas.
 
A Antropologia igualmente tem dado sua contribuição às sociedades 
complexas e industrializadas, não só ajudando-as a conviver de maneira justa 
e equânime com outros povos, mas também procurando apresentar soluções à 
crise colocada pelas relações sociais próprias das nações capitalistas.
FIGURA 8 – VISTA AÉREA DA COMUNIDADE DA ROCINHA, UMA DAS MAIORES FAVELAS DA 
AMÉRICA LATINA, TENDO AO FUNDO O BAIRRO DE SÃO CONRADO, DE ALTO PODER AQUISITIVO
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 10 abr. 2015.
Prezado acadêmico, a esta altura de nosso Caderno de Estudos nós 
esperamos que você já seja capaz de definir, a partir do que expusemos, o que 
seja Antropologia. Vejamos agora, em nosso próximo tópico, as etapas do fazer 
antropológico e as principais áreas deste saber.
Mobile User
12
• Neste Tópico nós vimos o escopo da Antropologia, no que consiste e do que se 
ocupa, caracterizando-a enquanto um discurso racional e sistemático acerca de 
nós mesmos, na nossa especificidade enquanto seres vivos.
 
• Também contemplamos a Antropologia sob a ótica científica, localizando-a 
neste campo do conhecimento e caracterizando-a enquanto Ciência Humana, 
na área das Ciências Sociais.
 
• Igualmente nos ocupamos em especificar as atividades desenvolvidas pelos 
antropólogos, explanando a utilidade prática do conhecimento antropológico 
e como vem sendo empregado em nosso país.
RESUMO DO TÓPICO 1
13
Responda às seguintes perguntas:
1 O que é Antropologia?
2 O que foi preciso superar, e quando isto se deu, para que a Antropologia 
tivesse gênese?
3 Como a Antropologia se coloca enquanto Ciência Social?
4 Cite uma das aplicações práticas do conhecimento antropológico.
AUTOATIVIDADE
14
15
TÓPICO 2 — 
UNIDADE 1
ETNOGRAFIA, ETNOLOGIA, ANTROPOLOGIA 
CULTURAL E ANTROPOLOGIA SOCIAL
1 INTRODUÇÃO
Prezado acadêmico, neste segundo tópico de nosso Caderno de Estudos 
veremos as diferentes etapas do fazer antropológico, a saber, a etnografia e a 
etnologia, e os dois principais campos da Antropologia, ou seja, aqueles que 
investigam os domínios cultural e social de nossa espécie.
 
Aqui cabe um esclarecimento: a exemplo de Lévi-Strauss (1967 apud 
MARCONI; PRESOTTO, 2001), consideraremos a etnografia e a etnologia como 
etapas distintas da construção da Antropologia enquanto ciência. 
 
Dizemos isso por que outros autores (ver GOMES, 2013, p. 63) consideram 
a etnografia e a etnologia como ramos da ciência da cultura, enquanto que alguns 
antropólogos[491]	
contra	os	demais	súbditos.
	Se,	pois,	se	fizer	a	pergunta	–	Vivemos	nós	agora	numa	época	esclarecida?	
–	a	resposta	é:	não,	mas	vivemos	numa	época	do	Iluminismo.	Falta	ainda	muito	
para	que	os	homens	tomados	em	conjunto,	da	maneira	como	as	coisas	agora	estão,	
se	encontrem	já	numa	situação	ou	nela	se	possam	apenas	vir	a	pôr	de,	em	matéria	
de	religião,	se	servirem	bem	e	com	segurança	do	seu	próprio	entendimento,	sem	
a	orientação	de	outrem.	Temos	apenas	claros	indícios	de	que	se	lhes	abre	agora	o	
campo	em	que	podem	atuar	livremente,	e	diminuem	pouco	a	pouco	os	obstáculos	
à	 ilustração	geral	ou	à	saída	dos	homens	da	menoridade	de	que	são	culpados.	
Assim	considerada,	esta	época	é	a	época	do	Iluminismo,	ou	o	século	de	Frederico.	
Um	príncipe	que	não	acha	indigno	de	si	dizer	que	tem	por	dever	nada	
prescrever	aos	homens	em	matéria	de	religião,	mas	deixar-lhes	aí	a	plena	liberdade,	
que,	 por	 conseguinte,	 recusa	 o	 arrogante	 nome	 de	 tolerância,	 é	 efetivamente	
esclarecido	e	merece	ser	encomiado	pelo	mundo	grato	e	pela	posteridade	como	
aquele	que,	pela	primeira	vez,	 libertou	o	género	humano	da	menoridade,	pelo	
menos	por	parte	do	governo,	e	concedeu	a	cada	qual	a	liberdade	de	se	[492]	servir	
da	própria	 razão	em	 tudo	o	que	é	assunto	da	consciência.	Sob	o	 seu	auspício,	
clérigos	veneráveis	podem,	sem	prejuízo	do	seu	dever	ministerial	e	na	qualidade	
 
185
de	 eruditos,	 expor	 livre	 e	 publicamente	 ao	mundo	 para	 que	 este	 examine	 os	
seus	juízos	e	as	suas	ideias	que,	aqui	ou	além,	afastam-se	do	símbolo	admitido;	
mas,	mais	permitido	 é	 ainda	 a	 quem	não	 está	 limitado	por	nenhum	dever	de	
ofício.	Este	 espírito	de	 liberdade	difunde-se	 também	no	exterior,	mesmo	onde	
entra	 em	 conflito	 com	obstáculos	 externos	de	um	governo	que	 a	 si	mesmo	 se	
compreende	mal.	Com	efeito,	perante	tal	governo	brilha	um	exemplo	de	que,	no	
seio	da	liberdade,	não	há	o	mínimo	a	recear	pela	ordem	pública	e	pela	unidade	
da	comunidade.	Os	homens	libertam-se	pouco	a	pouco	da	brutalidade,	quando	
de	nenhum	modo	se	procura,	de	propósito,	conservá-los	nela.	
Apresentei	 o	 ponto	 central	 do	 Iluminismo,	 a	 saída	 do	 homem	 da	 sua	
menoridade	 culpada,	 sobretudo	 nas	 coisas	 de	 religião,	 porque	 em	 relação	 às	
artes	e	às	ciências	os	nossos	governantes	não	têm	interesse	algum	em	exercer	a	
tutela	sobre	os	seus	súbditos;	por	outro	lado,	a	tutela	religiosa,	além	de	ser	mais	
prejudicial,	é	também	a	mais	desonrosa	de	todas.	O	modo	de	pensar	de	um	chefe	
de	Estado,	que	favorece	a	primeira,	vai	ainda	mais	além	e	discerne	que	mesmo	no	
tocante	a	sua	legislação	[493]	não	há	perigo	em	permitir	aos	seus	súbditos	fazer	
uso	público	da	sua	própria	razão	e	expor	publicamente	ao	mundo	as	suas	ideias	
sobre	 a	 sua	melhor	 formulação,	 inclusive	 por	meio	 de	 uma	 ousada	 crítica	 da	
legislação	que	já	existe;	um	exemplo	brilhante	que	temos	é	que	nenhum	monarca	
superou	aquele	que	admiramos.	
Também	só	aquele	que,	 já	 esclarecido,	não	 receia	as	 sombras	 e	que,	 ao	
mesmo	tempo,	dispõe	de	um	exército	bem	disciplinado	e	numeroso	para	garantir	
a	ordem	pública	–	pode	dizer	o	que	a	um	Estado	 livre	não	é	permitido	ousar:	
raciocinai	tanto	quanto	quiserdes	e	sobre	o	que	quiserdes;	mas	obedecei!	Revela-
se	 aqui	 um	 estranho	 e	 não	 esperado	 curso	 das	 coisas	 humanas;	 como,	 aliás,	
quando	 ele	 se	 considera	 em	 conjunto,	 quase	 tudo	 nele	 é	 paradoxal.	Um	 grau	
maior	da	liberdade	civil	afigura-se	vantajosa	para	a	liberdade	do	espírito	do	povo	
e,	 no	 entanto,	 estabelece-lhe	 limites	 intransponíveis;	 um	 grau	menor	 cria-lhe,	
pelo	contrário,	o	espaço	para	ela	se	alargar	segundo	toda	a	sua	capacidade.	Se	a	
natureza,	sob	este	duro	invólucro,	desenvolveu	o	germe	de	que	delicadamente	
cuida,	a	saber,	a	tendência	e	a	vocação	para	o	pensamento	livre,	então	ela	atua	
também	gradualmente	sobre	o	modo	do	sentir	do	povo	(pelo	que	este	se	tornará	
cada	vez	mais	 [494]	capaz	de	agir	segundo	a	 liberdade)	e,	por	fim,	até	mesmo	
sobre	os	princípios	do	governo	que	acha	salutar	para	si	próprio	tratar	o	homem,	
que	agora	é	mais	do	que	uma	máquina,	segundo	a	sua	dignidade.
FONTE: Adaptado de KANT, I. Resposta à pergunta: “O que é o Iluminismo?”. Tradução de Artur 
Morão. 2020. Disponível em: http://www.lusosofia.net/textos/kant_o_iluminismo_1784.pdf. 
Acesso em: 15 abr. 2020.
186
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:
•	 A	 Renascença	 foi	 o	 período	 que	 se	 estendeu	 do	 século	 XIV	 ao	 século	 XVI,	
caracterizando-se	como	uma	época	do	humanismo.
•	 Com	o	filósofo	René	Descartes	(1596–1650),	a	antropologia	racionalista	moderna	
encontrará	sua	expressão	paradigmática,	de	modo	que	poderá	falar	do	homem	
racionalista	ou	do	homem	cartesiano.
•	 A	principal	preocupação	de	Descartes	 é	 encontrar	uma	maneira	do	homem	
chegar	à	verdade.
•	 A	 única	maneira	 clara	 e	 distinta	 do	 eu	 pensar	 a	 alma	 é	 como	 princípio	 de	
pensamento	(res cogitans)	e	a	única	maneira	de	se	pensar	o	corpo	é	concebê-lo	
como	extensão	(res extensa).
•	 A	realidade	para	Descartes	é	dualista:	de	um	lado	tem-se	a	substância	pensante	
(res cogitans)	–	mente	ou	espírito	–,	e	de	outro	lato	tem-se	a	substância	–	corpo	
ou	matéria.	Desta	forma,	se	constitui	o	dualismo	cartesiano.
•	 A	 antropologia	 de	Descartes	 se	 apresenta	 como	 uma	metafísica	 do	 espírito	
e	 uma	 física	 do	 corpo:	 a	 ideia	 adequada,	 isto	 é,	 clara	 e	 distinta	 das	 duas	
substâncias,	mostra-se	como	“naturezas	completas”	que	podem	subsistir	uma	
sem	a	outra.
•	 Segundo	Descartes,	há,	de	um	lado,	o	“espírito”,	cujo	existir	se	manifesta	na	
existência	do	Cogito,	e	de	outro,	tem-se	o	corpo	obedecendo	aos	movimentos	e	
às	leis	que	impelem	à	máquina	no	mundo.
•	 Para	 Descartes,	 na	 ideia	 do	 Cogito,	 está	 implicada	 uma	 nova	 relação	 do	
“espírito”	 com	 o	 mundo,	 que	 define	 uma	 nova	 concepção	 de	 homem:	 a	
concepção	moderna	de	homem.
•	 Na	antropologia	racionalista,	o	corpo	humano	passa	a	ser	integrado	no	conjunto	
dos	artefatos	e	das	máquinas,	sendo	que	a	presença	do	espírito,	manifestado	
sobretudo	através	da	 linguagem	constitui	o	elemento	essencial	que	separa	o	
homem	do	“animal-máquina”.
• O homem da idade cartesiana será marcado por dois traços fundamentais: o 
moralismo	e	o	humanismo	devoto.
187
•	 Uma	das	obras	que	representa	fortemente	o	espírito	da	transformação	da	ideia	do	
homem	ocidental	no	limiar	da	idade	moderna	é	a	de	Blaise	Pascal	(1623–1662).
•	 Na	concepção	de	Pascal,	o	Cogito	é	a	marca	da	“grandeza	do	homem”.
•	 Tanto	para	Pascal	como	para	Descartes,	a	dignidade	do	homem	reside	
no	pensamento.
•	 O	Cogito,	na	visão	de	Pascal,	não	se	volta	para	a	dominação	do	mundo,	mas	sim	
na	busca	pelas	descobertas	das	regras	do	bien peser	(bem	pensar):	descobrindo	
sua	dimensão	moral.
•	 Na	 antropologia	 de	 Pascal,	 o	 homem	 não	 está	 mais	 subordinado	 a	 ordem	
cósmico-teológica	da	visão	 judaico-cristã	medieval	do	mundo,	nem	voltado,	
como	o	homem	cartesiano,	para	o	senhorio	e	posse	da	natureza.
•	 Hobbes	 postula	 a	 aplicação	 do	 racionalismo	mecanicista	 à	 compreensão	 do	
homem	e	da	sociedade.
•	 Para	Hobbes,	a	filosofia	seria	a	“ciência	dos	corpos”,	isto	é,	tudo	aquilo	que	tem	
existência	material.	Os	corpos	se	dividem	em	“corpos	naturais”	 (filosofia	da	
natureza)	e	“corpo	artificial”	ou	“Estado”	(filosofia	política).
•	 Hobbes	 não	 atribui,	 ao	 Cogito,	 a	 dignidade	 ontológica	 primordial.	 O	
materialismo	de	Hobbes	é	radical	e	integral.
•	 A	 obra	 que	 expõe	 os	 fundamentos	 do	 empirismo	 racionalista	 inglês	 é	 a	 do	
filósofo	John	Locke	(1632–1704).
•	 John	Locke	 tece	sua	crítica	diante	da	 teoria	cartesiana	das	 ideias	 inatas,	que	
afirma	existirem	no	homem	todas	as	disposições	naturais	para,	usando	de	suas	
próprias	capacidades,	chegar	ao	conhecimento	de	Deus,	da	natureza,	e	de	si	
mesmo	como	ser	moral.
•	 A	antropologia	de	John	Locke	se	fundamenta	através	de	sua	teoria	empirista	
do	conhecimento.
•	 A	razão,	para	os	pensadores	iluministas,	representavatêm a etnografia e a etnologia como métodos procedimentais da 
disciplina Antropologia.
2 ETNOGRAFIA
Afinal, o que seria Etnografia? Vejamos a origem etimológica da palavra 
para tentar entendê-la. Etnografia vem do grego έθνος, ethno - nação, povo 
e γράφειν, graphein – escrever. Literalmente “etnografia” tem o sentido de 
“escrever sobre os povos” (HOEBEL; FROST, 2006, p. 8). 
FIGURA 9 – O ETNÓGRAFO E ANTROPÓLOGO BRASILEIRO ROQUETTE-PINTO EM CAMPO
FONTE: . 
Acesso em: 10 abr. 2015.
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16
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
Assim, etnografia seria a maneira pela qual a Antropologia coletaria os 
dados de que lança mão em suas especulações, sendo resultado do contato entre 
a subjetividade do antropólogo e aquela dos membros das culturas que estuda. 
Podemos, desta maneira, afirmar que a etnografia consiste em um “estudo 
descritivo das sociedades humanas” (HOEBEL; FROST, 2006, p. 8-9). 
 
Aqui cabe destacar que as primeiras etnografias não foram feitas por 
antropólogos, de fato, muito antes da constituição da Antropologia enquanto 
Ciência já tínhamos descrições de outros povos feitas por pensadores de 
diferentes culturas. 
 
Em seus primórdios, mesmo a Antropologia trabalhava com relatos 
acerca de populações nativas feitos por exploradores, missionários, funcionários 
administrativos, viajantes, comerciantes, soldados e demais indivíduos que 
tiveram contato com povos distintos e os descreveram. Somente a partir do 
final do século XIX que os antropólogos passaram a ir a campo e realizarem as 
descrições dos povos por eles investigados.
FIGURA 10 – O ANTROPÓLOGO MALINOWSKI RECOLHENDO INFORMAÇÃO ACERCA DOS 
TROBIANDESES ENTRE ESTES
FONTE: . 
Acesso em: 10 abr. 2015.
Presentemente grande parte das etnografias são realizadas por 
antropólogos que passaram por treinamento nas diferentes técnicas antropológicas 
contemporâneas de coleta de dados e registro de culturas distintas, técnicas que 
implicam o convívio empático e participativo junto aos povos por eles estudados 
(HOEBEL; FROST, 2006).
 
De fato, uma das grandes “provas iniciáticas” da Antropologia está 
em realizar a etnografia da cultura acerca da qual o antropólogo pretende 
refletir. Idealmente todo antropólogo deveria iniciar sua carreira produzindo 
uma descrição etnográfica de algum povo, cultura, ou grupo social, alvo de 
suas pesquisas.
 
TÓPICO 2 — ETNOGRAFIA, ETNOLOGIA, ANTROPOLOGIA CULTURAL E ANTROPOLOGIA SOCIAL
17
Embora tenha um caráter prático, a etnografia não é livre da influência 
das teorias produzidas em Antropologia, uma vez que toda etnografia é 
informada por certo referencial teórico que lhe dá uma estrutura e enfoque 
próprio, muito embora as descrições etnográficas não se ocupem de problemas 
teóricos, nem formulem hipóteses ou teses acerca dos fenômenos sociais e 
culturais que descreve.
FIGURA 11 – O ETNÓGRAFO DE ORIGEM ALEMÃ CURT NIMUENDAJÚ (AO CENTRO DA 
IMAGEM, SENTADO) RECOLHENDO DADOS EM CAMPO
FONTE: . Acesso em: 10 abr. 2015.
Vemos assim que etnografia originalmente designa a descrição e o estudo 
de uma determinada cultura ou povo, sendo, de preferência, sistemática e 
abrangente, contemplando todos os aspectos, da religião à economia, dos povos 
que investiga (GOMES, 2013), sendo um documento que é a base empírica da 
legitimação da Antropologia enquanto ciência.
 
Lévi-Strauss (1967, p. 14 apud MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 27) diz 
que a etnografia: 
consiste na observação e análise de grupos humanos considerados em 
sua particularidade (frequentemente escolhidos, por razões teóricas 
e práticas, mas que não se prendem de modo algum à natureza da 
pesquisa, entre aqueles que mais diferem do nosso), e visando à 
reconstituição, tão fiel quanto possível, da vida de cada um deles.
 
Assim o etnógrafo seria aquele especialista no conhecimento “exaustivo” 
da cultura dos povos que investiga, realizando a observação, descrição, 
reconstituição e análise de diferentes populações nativas, coletando material 
de forma abrangente acerca de todos os aspectos culturais possíveis de serem 
observados e descritos por ele para a compreensão dos povos pesquisados 
(MARCONI; PRESOTTO, 2001).
18
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
FIGURA 12 – O ANTROPÓLOGO FRANCÊS LÉVI-STRAUSS FAZENDO ETNOGRAFIA ENTRE OS 
NAMBIKWARA, GRUPO INDÍGENA BRASILEIRO DO MATO GROSSO E RONDÔNIA
FONTE: . 
Acesso em: 10 abr. 2015.
3 ETNOLOGIA
Prezado acadêmico, agora você já deve estar ciente de que a etnografia, 
isto é, a descrição científica de um determinado povo, grupo social ou cultura, é 
a primeira etapa do fazer antropológico. Mas qual seria a etapa seguinte? Esta, 
querido(a) estudante, seria a Etnologia. Mas o que ela vem a ser?
FIGURA 13 – CAPAS DE ALGUNS DOS PRIMEIROS ESTUDOS EM ETNOLOGIA PRODUZIDOS NO BRASIL
FONTE: Capa 1: . Acesso em 10 abr. 2015. 
Capa 2: . Acesso em: 10 abr. 2015.
Capa 3: . Acesso em: 10 abr. 2015.
TÓPICO 2 — ETNOGRAFIA, ETNOLOGIA, ANTROPOLOGIA CULTURAL E ANTROPOLOGIA SOCIAL
19
Dentro do ponto de vista que adotamos aqui podemos dizer que a 
etnologia é a etapa seguinte da edificação do saber antropológico, após o 
levantamento de dados e informações feitas na fase da etnografia. Seria, assim, 
a etnologia a reflexão, ou estudo baseado nos fatos documentados no registro 
de uma cultura, tendo em vista a apreciação analítica e sua comparação com 
dados semelhantes de outras culturas.
 
Etnologia define-se também por seu método próprio, denominado por 
Espina Barrio (2005, p. 37) como “método comparativo transcultural”, tendo por 
base os dados empíricos levantados na etnografia, comparam-se as informações 
particulares de cada povo com o intuito de inferir algo a respeito da humanidade. 
 
Trata-se de, a partir de estudos aprofundados em uma determinada 
população humana, de caráter empírico, revelar algo da humanidade em geral, 
pela comparação entre os diferentes povos, remetendo então ao campo da teoria 
acerca do ser humano.
 
Espina Barrio (2005, p. 21) chama a atenção para o fato de a etnologia 
ir além das descrições das diferentes culturas, feitas pela etnografia, com o 
intuito de, pela comparação entre as diversas etnografias, “analisar as constantes 
variáveis que se dão entre as sociedades humanas, e estabelecer generalizações e 
reconstruções da história cultural”.
 
Etnologia, desta forma, apresenta-se como o estudo dos diferentes povos, 
como a palavra, de origem grega, revela: éthnos, povo; logos, estudo. Mas, como 
já dissemos em relação à etnografia, foi somente a partir do Iluminismo que se 
estabeleceu um estudo de cunho verdadeiramente científico da humanidade, a 
partir da comparação entre os povos. Embora já na antiguidade clássica alguns 
autores comparassem os costumes das diferentes populações humanas de seu 
tempo, somente com a ideia de unidade da espécie humana constitui-se a ciência 
da Antropologia.
 
De fato, a primeiro emprego moderno do termo etnologia é do final do 
século XVIII, o chamado século das luzes, e foi de Kóllar, jurista e etnólogo na 
corte do império Austro-Húngaro. Este autor definia etnologia como: "a ciência 
das nações e povos, ou, o estudo dos eruditos no qual investigam nas origens, 
línguas, costumes e instituições das várias nações, e finalmente, na pátria e 
antigas sedes para poder julgar melhor as nações e povos de seus próprios 
tempos". (FONTE: Disponível em: . 
Acesso em: 14 abr. 2015).
 
Definição que deixa claro as bases científicas da prática etnológica, fundada 
em dados empíricos, na comparação ena concepção de uma humanidade única.
Na figura abaixo, o autor Adam František Kollár de Keresztén.
20
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
FIGURA 14 – KÓLLAR AUTOR QUE CUNHOU E DEFINIU O TERMO “ETNOLOGIA”
FONTE: . Acesso em: 14 abr. 2015.
Enquanto etapa do fazer antropológico, a etnologia insere-se no campo 
da ciência da cultura, consistindo em, a partir de dados coletados e registrados 
em uma etnografia, comparar as informações concernentes a diversas culturas 
e analisá-los e interpretá-los, tendo em vista as semelhanças e diferenças 
apresentadas, na tentativa de compreender o ser humano em suas inter-relações e 
relações com o meio ambiente. Procura igualmente o etnólogo ver e analisar o ser 
humano, tanto enquanto indivíduo, quanto como membro de uma determinada 
sociedade ou cultura, ao mesmo tempo em que tenta revelar como operam e se 
modificam. (MARCONI; PRESOTTO, 2001).
 
Para Gomes (2013) a etnologia teria um estatuto científico superior à 
etnografia, consistindo em um “estudo comparativo de etnografias” estudo 
este que facilitaria a reflexão mais aprofundada dos temas e traços comuns aos 
povos comparados, lançando bases, desta maneira, a produção de teorias mais 
amplas, de caráter antropológico. Este autor vê assim uma hierarquia entre os 
termos etnografia-etnologia-antropologia, que ele diz ser amplamente aceita 
pelos antropólogos.
 
A etnologia, análise científica dos povos, suas culturas e suas trajetórias, 
enquanto tal, ao longo do tempo, supera a preocupação etnográfica buscando, 
dentro da perspectiva da ciência, revelar e compreender as relações que as 
diferentes populações estabelecem com o ambiente, natural e social, onde vivem, 
bem como a relação dos seres humanos com os grupos dos quais fazem parte e 
das culturas entre si e suas diferenças (HOEBEL; FROST, 2006).
As diferenças culturais e a unidade da espécie humana.
TÓPICO 2 — ETNOGRAFIA, ETNOLOGIA, ANTROPOLOGIA CULTURAL E ANTROPOLOGIA SOCIAL
21
FIGURA 15 – REPRESENTAÇÃO DA DIVERSIDADE CULTURAL E APELO À CONSCIENTIZAÇÃO 
DA UNIDADE DA HUMANIDADE
FONTE: . 
Acesso em: 14 abr. 2015.
Esperamos ter deixado claro a você, Prezado acadêmico, o que é etnologia. 
A partir de agora veremos dois dos campos principais da Antropologia, dois 
enfoques distintos desta ciência, que representam duas tradições diferentes da 
mesma, a saber: a Antropologia Cultural e a Antropologia Social.
4 ANTROPOLOGIA CULTURAL
A princípio, dentro da tradição norte-americana, a Antropologia divide-
se em quatro grandes áreas de investigação, a saber: 
a) A Antropologia Física ou Biológica, que estuda o ser humano em suas 
características biológicas, procurando determinar a origem e evolução de 
nossa espécie (a partir do achado de fósseis de hominídeos e pré-hominídeos), 
sua anatomia, fisiologia e características fenológicas, tanto em populações 
humanas atuais, quanto nas antigas.
FIGURA 16 – ANTROPÓLOGO FÍSICO EXAMINA RESTOS DE OSSADAS HUMANAS NA ESPANHA
FONTE: . Acesso em: 14 abr. 2015.
22
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
b) A Arqueologia, que investiga a evolução das sociedades humanas ao longo da 
história, focando exclusivamente naquelas extintas e sem escrita, e tendo por 
base os vestígios arqueológicos, isto é, os objetos, utensílios, pinturas, restos 
de habitações e demais sinais da ocupação humana de um determinado local, 
revelados por escavações sistemáticas e de acordo com a metodologia desta 
ciência, tentando reconstruir nosso passado.
FIGURA 17 – ARQUEÓLOGOS ESCAVANDO ANTIGO SÍTIO DE OCUPAÇÃO HUMANA
FONTE: . 
Acesso em: 22 maio 2015. 
c) A Linguística, que se ocupa das línguas humanas, no que diz respeito à 
sua estrutura interna, suas conexões, história, dinâmica de mudança e, 
notadamente, o significado que estas conferem à cultura e à expressão do ser 
humano em uma dada sociedade, dentro da perspectiva que é a língua o meio 
privilegiado pelo qual nossa espécie apreende o mundo e lhe dá sentido.
FIGURA 18 – CHARGE DEMONSTRANDO A VARIEDADE LINGUÍSTICA E CULTURAL BRASILEIRA
FONTE: Disponível em: . 
Acesso em: 14 abr. 2015.
d) Por fim a Antropologia Cultural, na qual nos aprofundaremos a seguir.
TÓPICO 2 — ETNOGRAFIA, ETNOLOGIA, ANTROPOLOGIA CULTURAL E ANTROPOLOGIA SOCIAL
23
É possível, Prezado acadêmico, que você tenha visto em outros livros de 
Antropologia uma divisão diferente da que aqui apresentamos. Isto é natural, 
uma vez que estas divisões refletem visões e tradições diferentes da disciplina. 
Nenhuma está mais correta que a outra, mas todas ajudam a sistematizar o campo 
e ilustrar o imenso escopo da Antropologia, que, como você já deve ter percebido, 
procura dar conta da totalidade da experiência humana. 
 
A Antropologia Cultural igualmente pode ser definida de diversas 
maneiras e, conforme a tradição na qual se insere o autor que dela trata, pode 
abarcar diferentes aspectos da realidade que procura elucidar.
 
Espina Barrio (2005, p. 19) define Antropologia Cultural como “... o estudo 
e descrição dos comportamentos aprendidos que caracterizam os diferentes 
grupos humanos”. Este autor prossegue informando que o ofício do antropólogo 
cultural consiste em investigar os feitos e obras materiais e sociais criados por 
nossa espécie ao longo de sua história e que nos possibilitou nos relacionarmos 
entre nós nas diversas sociedades e a se apropriar e transformar o meio ambiente 
de maneira a garantir nossa sobrevivência.
 
Para Marconi e Presotto (2001) a Antropologia Cultural apresentaria 
o maior e mais abrangente campo da ciência antropológica. Comportaria, 
na visão das autoras, o estudo do ser humano enquanto ser cultural, isto é, 
produtor de cultura. 
Mais adiante nos deteremos mais aprofundadamente no conceito de cultura 
dentro da perspectiva antropológica.
ESTUDOS FU
TUROS
O antropólogo cultural investigaria as diferentes culturas humanas, ao 
longo do tempo e em todo o espaço ocupado por nossa espécie, levantando a 
origem e desenvolvimento destas, suas semelhanças e diferenças. Seu interesse 
primordial está em conhecer o comportamento humano em sua dimensão 
cultural, ou seja, as formas pelas quais nós agimos em função da cultura da qual 
fazemos parte. 
 
Este aspecto da pesquisa das maneiras pelas quais se apresenta o 
comportamento humano também é destacado por Hoebel e Frost (2006, p. 7) em 
relação à Antropologia Cultural: “... trata das características do comportamento 
civilizado nas sociedades humanas passadas, presentes e futuras.”
 
24
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
Podemos ver que a Antropologia Cultural foca preferencialmente na 
pesquisa acerca do desenvolvimento das sociedades humanas no mundo, ao 
longo de toda sua história. Ela investiga os comportamentos apresentados pelos 
diferentes grupos humanos, pesquisando, entre outros temas, os costumes, 
hábitos, práticas e convenções de origens sociais e culturais, o surgimento e 
desenvolvimento das diferentes instituições que apresentamos, como a família, a 
religião e outros, bem como a evolução das diferentes técnicas que nossa espécie 
desenvolveu para lidar com o mundo natural e prover nossas necessidades.
A cultura determina nosso comportamento. 
FIGURA 19 – MULHERES GANESAS PARTICIPANDO DE RITO DE SUA CULTURA
FONTE: . Acesso em: 17 abr. 2015.
De uma maneira geral a Antropologia Cultural está mais ligada à tradição 
norte-americana da ciência antropológica. Mais adiante neste caderno iremos ver 
como a gênese e o desenvolvimento da Antropologia nos E. U. A. ficoumarcada 
pelo conceito de cultura, cujo papel fundamental na reflexão antropológica norte-
americana pode ser visto ao longo da história da antropologia neste país nas 
diversas escolas da disciplina que lá floresceram.
Na imagem a seguir, Franz Boas, fundador da Antropologia norte-americana.
TÓPICO 2 — ETNOGRAFIA, ETNOLOGIA, ANTROPOLOGIA CULTURAL E ANTROPOLOGIA SOCIAL
25
FIGURA 20 – O ANTROPÓLOGO FRANZ BOAS DEMONSTRA UM RITO DO POVO QUE ESTUDOU
FONTE: . 
Acesso em: 18 abr. 2015
Já a Antropologia Social está indelevelmente ligada à tradição britânica da 
Antropologia, mas no que consiste esta última?
5 ANTROPOLOGIA SOCIAL
Para Espina Barrio (2005) a Antropologia Social se ocuparia de problemas 
relativos à estrutura social, a saber: aqueles referentes às relações que os 
membros de uma determinada sociedade estabelecem entre si, e com os de fora, 
e as diferentes instituições sociais humanas, como a família, o parentesco, os 
diferentes grupos sociais de caráter político e semelhantes, que determinam a 
forma e o conteúdo destas relações.
 
Marconi e Presotto (2001) chamam a atenção para o fato de a Antropologia 
Social focar seus estudos naqueles processos culturais e da estrutura social 
manifestos na sociedade e nas instituições sociais. 
 
Segundo estas autoras o ofício do antropólogo social centra-se na análise 
das diferenças e semelhanças observáveis entre os diversos grupos humanos, 
no que tange às maneiras pelas quais estes inculcam, regulam e normatizam as 
relações sociais que os indivíduos estabelecem entre si, enquanto membros de 
uma dada sociedade. 
 
Neste sentido a Antropologia Social privilegia aqueles aspectos da vida 
social que são relativos à família e ao parentesco e ainda ao domínio do econômico, 
do político, do religioso e do jurídico, entendendo-os enquanto partes de um todo 
articulado que os determina, a saber: a sociedade. 
 
26
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
Desta forma (MAIR, 1972 apud MARCONI; PRESOTTO, 2001), caberia ao 
antropólogo social fazer a observação das relações sociais entre os membros de 
uma sociedade, em sua totalidade. Observando e estudando a sociedade como 
um todo, a partir de suas diferentes instituições, o antropólogo social seria capaz 
de chegar a determinar a estrutura e organização de dada sociedade.
 
Para Hoebel e Frost (2006) a principal característica da Antropologia Social 
está em seu enfoque sincrônico e sua recusa à diacronia, isto é, a Antropologia 
Social não se preocupa com a reconstituição histórica das instituições que 
observa em uma dada sociedade, mas antes privilegia a comparação com outras 
observáveis em outras sociedades. Para estes autores os antropólogos sociais são 
especialistas nas relações sociais manifestas na família e no parentesco, bem como 
nos diferentes grupos etários, na organização política e jurídica e nas atividades 
econômicas, aquilo que eles denominam como estrutura social.
Religião, uma instituição social que estrutura a sociedade.
FIGURA 21 – RITO RELIGIOSO DOS INDÍGENAS DO NOROESTE AMAZÔNICO
FONTE: . Acesso em: 18 abr. 2015.
Prezado acadêmico, esperamos que você já seja capaz de diferenciar a 
Antropologia Cultural da Antropologia Social. Já deu para perceber que uma 
privilegia a cultura e a outra a sociedade em seus estudos. Mas isto coloca um 
problema, pois as diferenças entre “social” e “cultural”, como coloca Marconi 
e Presotto (2001), não seriam tão substanciais assim. As diferenças estariam, 
não tanto no conteúdo, mas antes nas tendências e enfoques teóricos, onde a 
Antropologia Cultural se vincula à tradição norte-americana, enquanto que a 
Antropologia Social à britânica da Antropologia.
 
Para Espina Barrio (2005) enquanto que a Antropologia norte-americana foi 
mais influenciada pelo conceito de cultura, na Antropologia britânica teve mais peso o 
conceito de sociedade. Se os antropólogos norte-americanos estavam mais preocupados 
com os valores dos povos que estudavam, seus colegas britânicos privilegiavam as 
“vinculações concretas”, isto é, as relações sociais, que os constituíam. 
Radcliffe-Brown, antropólogo britânico seminal que influenciou todas as 
gerações seguintes de antropólogos na Grã-Bretanha.
TÓPICO 2 — ETNOGRAFIA, ETNOLOGIA, ANTROPOLOGIA CULTURAL E ANTROPOLOGIA SOCIAL
27
FIGURA 22 – CHARGE DE RADCLIFFE-BROWN OBSERVANDO NATIVOS AFRICANOS
FONTE: . Acesso em: 18 abr. 2015.
Prezado acadêmico, esperamos que esta leitura do segundo tópico de 
nosso Caderno de Estudos tenha-lhe sido proveitosa, proporcionando-lhe aquele 
conhecimento básico que o(a) guiará daqui para frente na busca do conhecimento 
antropológico e despertando sua curiosidade. 
 
Chegou a hora de nos aprofundarmos na investigação daqueles conceitos 
fundamentais da disciplina que orientam o olhar e o interesse, a saber: os conceitos de 
cultura, etnocentrismo e relativismo cultural, que faremos em nosso próximo tópico.
FIGURA 23 – CHARGE REPRESENTANDO AS DIFERENTES RELIGIÕES PRESENTES EM NOSSO 
PAÍS E O ARTIGO DA CONSTITUIÇÃO QUE GARANTE A LIBERDADE RELIGIOSA NO BRASIL
FONTE: . 
Acesso em: 18 abr. 2015.
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RESUMO DO TÓPICO 2
• Neste tópico vimos o que é etnografia, caracterizando-a enquanto registro total 
e pormenorizado de um determinado povo, procurando descrever todos os 
aspectos da vida social e da sua cultura.
 
• Também contemplamos neste tópico o que é etnologia, definindo-a enquanto 
estudo comparativo dos diferentes povos, a partir das etnografias disponíveis, 
procurando destacar as semelhanças e diferenças, de maneira a esclarecer a 
especificidade da experiência humana no mundo.
 
• Igualmente nos ocupamos em discorrer acerca da Antropologia Cultural e da 
Antropologia Social, associando a primeira aos estudos acerca das diferentes 
culturas, em suas expressões próprias e em sua influência nos diferentes 
domínios da ação e reflexão humanas, e a segunda as investigações que dizem 
respeito às instituições sociais e a estrutura da sociedade, a partir das relações 
sociais presentes nos diversos grupos humanos organizados.
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Responda às seguintes perguntas:
1 Quais são as características que fazem de um relato acerca de um 
determinado povo uma etnografia?
2 Qual a base sobre a qual se dá a reflexão etnológica e no que consiste?
3 Qual o foco privilegiado do olhar do antropólogo cultural?
4 O que procura determinar a Antropologia Social e a partir do que ela 
constrói sua reflexão?
AUTOATIVIDADE
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31
TÓPICO 3 — 
UNIDADE 1
CULTURA, ETNOCENTRISMO E RELATIVISMO CULTURAL
1 INTRODUÇÃO
Prezado acadêmico, já falamos anteriormente em cultura aqui neste 
Caderno de Estudos, você certamente já ouviu esta palavra e deve ter uma ideia 
do que seria isto. Mas será que o conceito antropológico de cultura corresponde 
ao que o senso comum diz a respeito dela? 
 
Todos nós já ouvimos falar de alguém que este seria “culto”, ou que 
determinada pessoa não teria nenhuma cultura, ou ainda que a população de um 
determinado bairro não tem acesso à cultura. 
 
Será que o uso desta palavra nestes casos tem alguma correspondência 
com a aplicação que o antropólogo faz dela?
FIGURA 24 – O SENSO COMUM TENDE A CONFUNDIR CULTURA COM AS MANIFESTAÇÕES 
ARTÍSTICAS, QUE, PARA O ANTROPÓLOGO, SERIAM APENAS EXPRESSÕES DESTA
FONTE: . 
Acesso em: 24 abr. 2015.
Bom, será disto que trataremos aqui neste tópico, procurando esclarecer a 
você, nosso atento e curioso acadêmico, no que consiste a Cultura, de acordo com 
o emprego científico deste léxico sob o ponto de vista da Antropologia.
 
Assim nós conceituaremosa palavra cultura de acordo com a visão 
antropológica, caracterizando e vendo o alcance deste conceito para a compreensão 
do ser humano sob a ótica desta ciência.
 
32
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
Igualmente trabalharemos outros conceitos correlatos que ajudam e 
complementam o entendimento do que seja cultura para a Antropologia e que a 
distinguem em sua compreensão própria do ser humano. 
 
Dentro desta perspectiva analisaremos no que consiste o etnocentrismo, 
uma característica universal de nossa espécie, e como a Antropologia desenvolveu, 
e com que fim emprega, o conceito de relativismo cultural.
 
Desta forma nós travaremos contato com o campo semântico relacionado 
ao conceito antropológico de cultura e o alcance teórico que tem para a disciplina, 
bem como as limitações que ele lhe impôs ao longo de sua história.
2 CULTURA
Se nós antropólogos tivéssemos que nomear aquele que seria nosso 
“conceito básico e central”, conforme afirmou Leslie A. White (In: KAHN, 1975, 
p. 129 apud MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 42), este seria, sem dúvida alguma, 
o conceito de cultura.
 
Como já mencionamos anteriormente, o senso comum difere da visão 
científica da Antropologia em sua compreensão do que seja cultura. De um modo 
geral as pessoas tendem a identificar cultura com o domínio do conhecimento 
acerca dos diferentes campos artístico e intelectual que se adquire pela instrução, 
desta forma alguém pode ser “culto” ou “inculto” na visão popular. 
 
Isto é algo que não se coaduna com a visão antropológica, que não 
emprega o termo com este sentido e nem faz juízo de valor em relação às diferentes 
culturas. Para a Antropologia todo o povo possui cultura, nenhuma cultura é 
qualitativamente superior à outra, nem pode alguém ser destituído de cultura. 
De fato, é a cultura que nos faz humanos, sendo ela uma característica distintiva 
de nossa espécie.
 
No sentido antropológico, cultura (ver MARCONI; PRESOTTO, 2001, 
p. 42) tem um significado mais amplo, designando o termo as maneiras 
pelas quais as pessoas orientam seu comportamento e suas crenças e que são 
aprendidos e transmitidos através da vida social no seio de um determinado 
grupo humano ou sociedade.
 
Ora, você, querido acadêmico, já deve, pelo exposto, ter intuído a 
importância que o conceito antropológico de cultura tem para a Antropologia e 
que, portanto, se desenvolveu junto com ela. 
 
De fato, isto se deu, ao longo de sua história a Antropologia vem elaborando 
e reelaborando o conceito de cultura, a partir das diferentes perspectivas teóricas 
que a disciplina desenvolveu para a compreensão do fenômeno humano.
 
TÓPICO 3 — CULTURA, ETNOCENTRISMO E RELATIVISMO CULTURAL
33
O relativamente longo período em que a Antropologia floresceu e se 
desenvolveu a possibilitou refinar, aprimorar e adaptar o conceito de cultura 
às necessidades explicativas da disciplina, conforme as teorias que nasceram 
neste campo de reflexão e aos problemas relativos ao ser humano sobre os 
quais ela se deteve.
 
Então, conforme o período histórico e a orientação teórica do antropólogo, 
o conceito de cultura adquire diferentes feições, sem deixar, entretanto, sua 
centralidade e certas características que acompanham sua evolução.
 
De uma maneira geral têm os antropólogos compreendido cultura 
enquanto comportamento adquirido, enquanto abstração do comportamento, 
enquanto ideias, enquanto objetos imateriais, materiais ou ambos (MARCONI; 
PRESOTTO, 2001).
 
Inicialmente a definição de cultura foi aquela dada pelo antropólogo 
britânico Edward B. Tylor, que assim se referia: “Cultura... é aquele todo complexo 
que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os 
outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade.”
FIGURA 25 – O ANTROPÓLOGO EDWARD B. TYLOR, O PRIMEIRO A CONCEITUAR DE 
MANEIRA CIENTÍFICA CULTURA
FONTE: . 
Acesso em: 24 abr. 2015.
Seguindo Marconi e Presotto (2001) daremos aqui algumas definições 
de cultura aventadas por diferentes antropólogos ao longo da história da 
Antropologia que servem para ilustrar as mudanças que houve neste conceito e 
os diferentes vieses teóricos que orientavam os pesquisadores.
 
34
UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
Para Ralph Linton (apud MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 43) a cultura 
consistiria “... na soma total de ideias, reações emocionais condicionadas a padrões 
de comportamento habitual que seus membros adquirem por meio da instrução 
ou imitação e de que todos, em maior ou menor grau, participam”. Desta forma, 
em um sentido geral, para este autor a cultura representa “a herança social total 
da humanidade”.
FIGURA 26 – O ANTROPÓLOGO AMERICANO RALPH LINTON
FONTE: . Acesso em: 24 abr. 2015.
Segundo Franz Boas (apud MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 43), cultura 
seria “a totalidade das reações e atividades mentais e físicas que caracterizam o 
comportamento dos indivíduos que compõem um grupo social”.
FIGURA 27 – O ANTROPÓLOGO DE ORIGEM ALEMÃ FRANZ BOAS EM CAMPO ENTRE OS 
INUIT, VESTINDO ROUPA TÍPICA DESTE POVO
FONTE: . Acesso em: 24 abr. 2015.
TÓPICO 3 — CULTURA, ETNOCENTRISMO E RELATIVISMO CULTURAL
35
De acordo com Malinowski (apud MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 43) 
poderíamos conceituar cultura como “o todo global consistente de implementos e 
bens de consumo, de cartas constitucionais para os vários agrupamentos sociais, 
de ideias e ofícios humanos, de crenças e costumes”.
FIGURA 28 – O ANTROPÓLOGO DE ORIGEM POLONESA MALINOWSKI ENTRE OS 
NATIVOS TROBIANDESES
FONTE: Disponível em: . Acesso em: 24 abr. 2015.
Na visão de Kroeber e Kluckhohn (apud MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 
43) cultura se considera como “uma abstração do comportamento concreto, mas 
em si própria não é comportamento”.
FIGURA 29 – O ANTROPÓLOGO AMERICANO KROEBER, À ESQUERDA DA FOTO, COM UM DE 
SEUS PRINCIPAIS INFORMANTES, O INDÍGENA ISHI
FONTE: . 
Acesso em: 24 abr. 2015.
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UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO
Definida por Leslie White cultura seria “quando coisas e acontecimentos 
dependentes de simbolização são considerados e interpretados num contexto 
extrassomático, isto é, face a relação que têm entre si, ao invés de com 
organismos humanos”.
FIGURA 30 – O ANTROPÓLOGO NORTE-AMERICANO LESLIE WHITE
FONTE: . Acesso em: 24 abr. 2015.
Uma definição mais recente seria aquela proposta por Clifford Geertz, 
onde “cultura deve ser vista como um conjunto de mecanismos de controle – 
planos, receitas, regras, instituições – para governar o comportamento”.
FIGURA 31 – O ANTROPÓLOGO ESTADUNIDENSE CLIFFORD GEERTZ
FONTE: . Acesso em: 24 abr. 2015.
TÓPICO 3 — CULTURA, ETNOCENTRISMO E RELATIVISMO CULTURAL
37
Podemos ver, através destas definições dadas como exemplo, a 
variabilidade do conceito antropológico de cultura ao longo da evolução da 
disciplina, variabilidade esta que revela as transformações que se deram nos 
paradigmas da Antropologia e que são sintomáticas das diversas escolas teóricas 
forjadas neste campo de conhecimento.
 
Assim cultura é vista ora como ideias, ora como abstrações do 
comportamento, ora como comportamento, ora como algo extra somático, ora 
como os elementos materiais e imateriais do conhecimento humano e ainda como 
um mecanismo de controle do comportamento (MARCONI; PRESOTTO, 2001).
 
Desta forma podemos ver que as definições de cultura

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