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FU N D A M EN TO S D A G ESTÃ O PÚ B LIC A M A R C U S V IN IC IU S G O N Ç A LV ES D A SILVA Código Logístico 58932 Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6537-0 9 7 8 8 5 3 8 7 6 5 3 7 0 Fundamentos da Gestão Pública IESDE 2019 Marcus Vinicius Gonçalves da Silva © 2019 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito do autor e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Fellip Agner/061 Filmes/Diego Grandi Shutterstock Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ S581f Silva, Marcus Vinicius Gonçalves da Fundamentos da gestão pública / Marcus Vinicius Gonçalves da Silva. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE Brasil, 2019. 146 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-6537-0 1. Administração pública. I. Título. 19-60838 CDD: 351 CDU: 351 Marcus Vinicius Gonçalves da Silva Doutorando em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Mestre em Planejamento e Governança Pública pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Especialista em Gestão Pública pela Universidade do Centro-Oeste (Unicentro). Bacharel em Administração pela Universidade Estadual do Paraná (Unespar). Subtenente de Infantaria do Exército Brasileiro, formado pela Escola de Sargentos das Armas (ESA/1994). Sumário Apresentação 7 1 Introdução à gestão pública 9 1.1 Estado, governo e gestão pública 9 1.2 Serviços públicos 16 1.3 O controle na administração pública 18 1.4 Ética na administração pública 23 2 Organização do Estado e da administração pública 31 2.1 Organização político-administrativa do Brasil 31 2.2 Órgãos da administração pública 40 3 Modelos de gestão pública 49 3.1 Modelo patrimonialista 49 3.2 Modelo burocrático 51 3.3 Modelo gerencial 55 3.4 Governança pública 57 4 Políticas públicas no Brasil 65 4.1 Conceitos de políticas públicas 65 4.2 Tipos de políticas públicas 67 4.3 Modelos de análises de políticas públicas 71 4.4 O ciclo das políticas públicas 76 5 Orçamento público 89 5.1 O que é orçamento público? 89 5.2 O papel do orçamento na gestão pública 90 5.3 O processo orçamentário 92 5.4 O Plano Plurianual 97 5.5 As Leis de Diretrizes Orçamentárias 97 5.6 A Lei do Orçamento Anual 98 6 Lei de Responsabilidade Fiscal 103 6.1 A Lei de Responsabilidade Fiscal 103 6.2 Limites de gastos na LRF 106 6.3 Crimes e penalidades contra as Finanças Públicas 109 7 Empreendedorismo e inovação no setor público 115 7.1 O empreendedorismo no setor público 115 7.2 O gestor público empreendedor 120 7.3 A inovação no setor público 121 8 Indicadores de desempenho da gestão pública 129 8.1 Conceituando indicadores 129 8.2 O uso de indicadores na gestão pública 131 8.3 Fonte de dados para a elaboração de indicadores na gestão pública 134 8.4 O uso dos indicadores nas políticas públicas 135 8.5 O uso dos indicadores na gestão pública municipal 137 8.6 Tecnologias disponíveis para a tomada de decisão dos gestores públicos e o acompanhamento do desempenho no controle social 138 Gabarito 143 Apresentação O termo gestão pública, apesar de utilizado de modo bastante amplo, pode ser brevemente definido como o conjunto de atividades que envolvem a aplicação dos conhecimentos teóricos da administração, no setor público ou no processo de interação de outros atores com o setor público. Sob a (multi)interdisciplinaridade da gestão pública, são colocados diferentes enfoques, que vão desde uma perspectiva mais ampla de entender a relação entre o Estado e a sociedade até os mecanismos mais instrumentais. Por fatores como pressão social por transparência, pelo bom uso dos recursos públicos e demanda institucional por melhores resultados, observa-se uma crescente complexidade nas organizações públicas. Tal complexidade tem exigido o uso de conhecimentos e ferramentas de melhoria gerencial, visando ao alcance dos objetivos organizacionais. Dentro da lógica política, a gestão pública deve mediar a expressão de vontades e encontrar valores para conduzir suas ações, traduzidas em políticas públicas. Nessa perspectiva, a análise da gestão pública é indissociável da análise do papel do Estado, historicamente assumido em diferentes contextos. Desse modo, a gestão pública deve ser (re)pensada em relação à sua evolução histórica e às tendências ou possibilidades de seu desenvolvimento futuro, permitindo, assim, a reflexão sobre o papel que se espera que o Estado desempenhe no momento atual. Nesse contexto, apresentamos, no capítulo 1, um breve panorama dos conceitos e elementos do Estado, tratando ainda sobre a teoria da tripartição dos poderes, os Sistemas de Governo, o Controle e a Ética na Administração Pública. No capítulo 2, discutimos a organização político-administrativa do Brasil, os órgãos da administração pública e a redefinição do papel do Estado brasileiro, ocorrida nas últimas décadas, marcada pela descentralização do poder. O capítulo 3 trata da evolução dos modelos mais recentes da gestão pública brasileira, que são o burocrático, o gerencial e a governança pública, os quais buscaram ajustar o status quo nas organizações públicas. Na sequência, no capítulo 4, abordamos as políticas públicas no Brasil, bem como o envolvimento e a participação dos diversos atores que têm a capacidade de influenciar as decisões e ações públicas, quer sejam agentes públicos ou políticos, empresários do setor privado ou do terceiro setor e, sobretudo, o principal beneficiário das políticas públicas, o cidadão-usuário-cliente-colaborador. No capítulo 5, trataremos sobre o orçamento público, instrumento utilizado pelos governos para gerenciar as receitas e despesas públicas, a fim de auxiliar o processo decisório sobre o destino Fundamentos da Gestão Pública8 do dinheiro público, de acordo com as demandas de serviços e políticas públicas que foram definidas pela sociedade, por meio das escolhas de seus representantes eleitos. No capítulo 6, abordamos a Lei Complementar n. 101/2000 (BRASIL, 2000), conhecida como Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), considerada um marco na gestão pública brasileira, a qual estabelece normas de finanças públicas voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal. No capítulo 7, discutimos sobre o empreendedorismo e a inovação no setor público, considerados fundamentais nos atuais modelos de gestão pública na era do conhecimento. Por fim, no capítulo 8, estudamos os indicadores de desempenho na gestão pública e as ferramentas que devem ser utilizadas rotineiramente para avaliar o desempenho em relação aos investimentos e às políticas de um órgão público. Ao término da disciplina, esperamos que você tenha alicerçadas as bases para a formação profissional, que, na medida de seu interesse e dedicação, será futuramente complementada por meio do bom exercício de sua atividade profissional, desempenhado com responsabilidade, moral e ética. Estimamos sucesso em sua aprendizagem! 1 Introdução à gestão pública As atividades desenvolvidas pelo setor público são de grande importância para o funcionamento eficiente da economia e, principalmente, para o atendimento das necessidades básicas de uma sociedade. Os termos gestão pública e administração pública têm sido utilizados como sinônimos, no entanto alguns autores optam pela primeira expressão, a fim de demarcar o rompimento com a administração pública tradicional, ao serem adotadas ferramentas da gestão do mundo dos negócios privado, ampliando, assim, seu significado. Neste primeiro capítulo, em razão de utilizarmos a abordagem de autores renomados no estudo da res pública, serão utilizados ambos os termos. De modo amplo, a gestão pública pode ser definida como o conjunto de atividades quea União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos, nos termos desta Constituição” (BRASIL, 1988). Ainda, conforme o artigo 1º da CF/88, “a República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito” (BRASIL, 1988). A fragmentação do território brasileiro em estados e municípios decorreu da necessidade de dividir a administração e o controle do país e das regiões. Nesse contexto, abordaremos, neste capítulo, como o Brasil é organizado, além das competências inerentes a cada ente federativo. É importante salientar que, durante a leitura, serão feitas indicações de outros artigos da Constituição Federal, que caberá a você realizar a consulta como atividade complementar. Na organização político-administrativa do Brasil, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios são caracterizados como entidades autônomas, ficando a União com a função de exercer a soberania do Estado brasileiro no contexto internacional. Art. 18. A organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos, nos termos desta Constituição. § 1º Brasília é a Capital Federal. § 2º Os Territórios Federais integram a União, e sua criação, transformação em Estado ou reintegração ao Estado de origem serão reguladas em lei complementar. § 3º Os Estados podem incorporar-se entre si, subdividir-se ou desmembrar-se para se anexarem a outros, ou formarem novos Estados ou Territórios Federais, mediante aprovação da população diretamente interessada, através de plebiscito, e do Congresso Nacional, por lei complementar. § 4º A criação, a incorporação, a fusão e o desmembramento de Municípios, far- -se-ão por lei estadual, dentro do período determinado por Lei Complementar http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm Organização do Estado e da administração pública 33 Federal, e dependerão de consulta prévia, mediante plebiscito, às populações dos Municípios envolvidos, após divulgação dos Estudos de Viabilidade Municipal, apresentados e publicados na forma da lei. Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público; II – recusar fé aos documentos públicos; III – criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si. (BRASIL, 1988, grifos nossos) Por meio da CF/88, o município passou a adotar diversas estruturas, pois ora se organiza segundo suas próprias normas, ora é organizado pelo Estado-membro. No entanto, ainda assim, é o município que assume, sempre, “todas as responsabilidades na ordenação da cidade, na organização dos serviços públicos locais e na proteção ambiental de sua área” (MEIRELLES, 2007, p. 35). Desse modo, os municípios são os principais responsáveis pelos espaços urbanos; situam-se nos estados, mas são autônomos em relação a eles. Cidade diferencia-se do termo município, pois considera-se cidade a sede do município, onde se estabelece seu governo (prefeitura e câmara municipal). (BRASIL, 1938) Atualmente, o número de municípios brasileiros é de 5.564, distribuídos nos 26 estados componentes da Federação. O Quadro 1 apresenta o número de municípios por unidade federativa. Quadro 1 – Número de municípios por unidade federativa UF Nº de municípios Minas Gerais 853 São Paulo 645 Rio Grande do Sul 496 Bahia 417 Paraná 399 Santa Catarina 293 Goiás 246 Piauí 224 Paraíba 223 Maranhão 217 Pernambuco 185 Ceará 184 (Continua) Fundamentos da Gestão Pública34 UF Nº de municípios Rio Grande do Norte 167 Pará 143 Mato Grosso 141 Tocantins 139 Alagoas 102 Rio de Janeiro 92 Mato Grosso do Sul 78 Espírito Santo 78 Sergipe 75 Amazonas 62 Rondônia 52 Acre 22 Amapá 16 Roraima 15 UF: 26 Municípios: 5.564 1. O site do IBGE inclui o Distrito Federal como município, embora seja um estado-membro anômalo, uma vez que a Constituição da República veda que o seu território seja dividido em municípios. Entretanto, o governo do DF exerce uma competência tributária dupla, pois arrecada impostos próprios dos estados (ICMS) e dos municípios (IPTU). (TRIGUEIRO, 2015, p. 9) Fonte: IBGE, 2010 apud TRIGUEIRO, 2015, p. 9. Os municípios, assim como a União e os Estados-membros, possuem competências. Algumas delas são comuns, outras específicas, mas ambas devem estar de acordo com a Constituição Federal e com a Constituição Estadual. Abordaremos mais à frente tais competências. 2.1.1 Dos estados federados No Brasil, há 26 estados, sendo que os mais novos foram criados na Constituição de 1988. São eles: o estado do Tocantins, desmembrado de Goiás, os antigos territórios federais, Amapá e Roraima, e, finalmente, o arquipélago de Fernando de Noronha, que foi incorporado ao estado de Pernambuco. Art. 25. Os Estados organizam-se e regem-se pelas Constituições e leis que adotarem, observados os princípios desta Constituição. § 1º São reservadas aos Estados as competências que não lhes sejam vedadas por esta Constituição. § 2º Cabe aos Estados explorar diretamente, ou mediante concessão, os serviços locais de gás canalizado, na forma da lei, vedada a edição de medida provisória para a sua regulamentação. § 3º Os Estados poderão, mediante lei complementar, instituir regiões metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões, constituídas por agrupamentos de municípios limítrofes, para integrar a organização, o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum. (BRASIL, 1988) Cláusula pétrea Dispositivo constitucional que não pode ser alterado nem mesmo por Proposta de Emenda à Constituição (PEC). As cláusulas pétreas inseridas na Constituição do Brasil de 1988 estão dispostas em seu artigo 60, § 4º. São elas: a forma federativa de Estado; o voto direto, secreto, universal e periódico; a separação dos Poderes; e os direitos e garantias individuais. (BRASIL, 2019) Organização do Estado e da administração pública 35 UF Nº de municípios Rio Grande do Norte 167 Pará 143 Mato Grosso 141 Tocantins 139 Alagoas 102 Rio de Janeiro 92 Mato Grosso do Sul 78 Espírito Santo 78 Sergipe 75 Amazonas 62 Rondônia 52 Acre 22 Amapá 16 Roraima 15 UF: 26 Municípios: 5.564 1. O site do IBGE inclui o Distrito Federal como município, embora seja um estado-membro anômalo, uma vez que a Constituição da República veda que o seu território seja dividido em municípios. Entretanto, o governo do DF exerce uma competência tributária dupla, pois arrecada impostos próprios dos estados (ICMS) e dos municípios (IPTU). (TRIGUEIRO, 2015, p. 9) Fonte: IBGE, 2010 apud TRIGUEIRO, 2015, p. 9. Os municípios, assim como a União e os Estados-membros, possuem competências. Algumas delas são comuns, outras específicas, mas ambas devem estar de acordo com a Constituição Federal e com a Constituição Estadual. Abordaremos mais à frente tais competências. 2.1.1 Dos estados federados No Brasil, há 26 estados, sendo que os mais novos foram criados na Constituição de 1988. São eles: o estado do Tocantins, desmembrado de Goiás, os antigos territórios federais, Amapá e Roraima, e, finalmente, o arquipélago de Fernando de Noronha, que foi incorporado ao estado de Pernambuco. Art. 25. Os Estados organizam-se e regem-se pelas Constituições e leis que adotarem, observados os princípios desta Constituição. § 1º São reservadas aos Estados as competências que não lhes sejam vedadas por esta Constituição. § 2º Cabe aos Estados explorar diretamente, ou mediante concessão, os serviços locais de gás canalizado, na forma da lei, vedada a edição de medida provisória para a sua regulamentação. § 3º Os Estados poderão, mediante lei complementar, instituir regiões metropolitanas,aglomerações urbanas e microrregiões, constituídas por agrupamentos de municípios limítrofes, para integrar a organização, o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum. (BRASIL, 1988) Cláusula pétrea Dispositivo constitucional que não pode ser alterado nem mesmo por Proposta de Emenda à Constituição (PEC). As cláusulas pétreas inseridas na Constituição do Brasil de 1988 estão dispostas em seu artigo 60, § 4º. São elas: a forma federativa de Estado; o voto direto, secreto, universal e periódico; a separação dos Poderes; e os direitos e garantias individuais. (BRASIL, 2019) Nossa Carta Magna fixa, em seu § 4º, art. 60, “que não será objeto de deliberação a proposta de emenda que tende a abolir a forma federativa de Estado, ou seja, é uma cláusula pétrea” (BRASIL, 1988). No entanto, cabe a reflexão se o federalismo tem contribuído para o desenvolvimento nacional, ou qual tem sido sua contribuição para mitigar as demandas sociais latentes que ainda possuímos, como nas áreas da educação, saúde e saneamento. Por certo, podemos assegurar que o federalismo no Brasil é estável, mas sua eficiência para a sociedade ainda é um tema bastante discutível. 2.1.2 Dos municípios O município reger-se-á por Lei Orgânica1, votada em dois turnos, com o interstício mínimo de dez dias, e aprovada por dois terços dos membros da Câmara Municipal, que a promulgarão, atendidos os princípios estabelecidos nesta Constituição, na Constituição do respectivo Estado (art. 29/CF-88) e os seguintes preceitos: I – eleição do Prefeito, do Vice-Prefeito e dos Vereadores, para mandato de quatro anos, mediante pleito direto e simultâneo realizado em todo o País; II – eleição do Prefeito e do Vice-Prefeito realizada no primeiro domingo de outubro do ano anterior ao término do mandato dos que devam suceder, aplicadas as regras do art. 77, no caso de Municípios com mais de duzentos mil eleitores; III – posse do Prefeito e do Vice-Prefeito no dia 1º de janeiro do ano subsequente ao da eleição; Constitui crime de responsabilidade do Prefeito Municipal (§ 2º, Art. 29-A): I – efetuar repasse que supere os limites definidos neste artigo; II – não enviar o repasse até o dia vinte de cada mês; ou III – enviá-lo a menor em relação à proporção fixada na Lei Orçamentária. Constitui crime de responsabilidade do Presidente da Câmara Municipal o desrespeito ao § 1o deste artigo (§3º). (BRASIL, 1988) Art. 29-A. § 1o A Câmara Municipal não gastará mais de setenta por cento de sua receita com folha de pagamento, incluído o gasto com o subsídio de seus Vereadores. (BRASIL, 1988, grifos nossos) 1 Você conhece a Lei Orgânica do seu município? No site da Câmara Municipal, você irá encontrá-la. Fundamentos da Gestão Pública36 2.1.2.1 Competências dos municípios Os municípios brasileiros, de acordo com o artigo 23 da Constituição Federal de 1988, possuem competências comuns aos demais entes estatais, além das chamadas competências privativa e suplementar. Tais competências são expressas nos incisos I a IX do artigo 30 da CF/88, conforme se observa no Quadro 2. Quadro 2 – Competências e funções dos municípios Inciso Competência Conteúdo I Legislar sobre assuntos de interesse local. Poder Legislativo II Suplementar a legislação federal e a estadual no que couber. III Instituir e arrecadar os tributos de sua competência, bem como aplicar suas rendas, sem prejuízo da obrigatoriedade de prestar contas e publicar balancetes nos prazos fixados em lei. Poder Executivo/ Financeiro IV Criar, organizar e suprimir distritos, observada a legislação estadual. Poder Executivo/ Administrativo V Organizar e prestar, diretamente ou sob regime de concessão ou permissão, os serviços públicos de interesse local, incluído o de transporte coletivo, que tem caráter essencial. Poder Executivo/ Administrativo VI Manter, com a cooperação técnica e financeira da União e do Estado, programas de educação infantil e de ensino fundamental. Poder Executivo/ Administrativo VII Prestar, com a cooperação técnica e financeira da União e do Estado, serviços de atendimento à saúde da população. Poder Executivo/Administrativo VIII Promover, no que couber, adequado ordenamento territorial, mediante planejamento e controle do uso, do parcelamento e da ocupação do solo urbano. Poder Executivo/ Administrativo IX Promover a proteção do patrimônio histórico-cultural local, observada a legislação e a ação fiscalizadora federal e estadual. Poder Executivo/ Administrativo Fonte: Silva, 2017, p. 34. Depreende-se das competências e funções do município que a gestão pública requer modernização nas estruturas, nos métodos, processos flexíveis, descentralização, intersetorialidade, agilidade, além de visão e pensamento estratégicos. Essas demandas, por sua vez, sinalizam para governantes e gestores a necessidade de aperfeiçoar os meios de gerir e integrar ações de governo, lançando mão de métodos e estratégias diferenciadas e inovadoras (WOSNIAK; REZENDE, 2012; SILVA, 2017). 2.1.2.2 Autonomia municipal A autonomia municipal é assegurada pelos arts. 18 e 29 e pela União no art. 34, VII, c, da Constituição. Para Silva (2000), a autonomia municipal se assenta em quatro capacidades: (a) capacidade de auto-organização, mediante a elaboração de lei orgânica própria; (b) capacidade de autogoverno, pela eletividade do Prefeito e dos Vereadores às respectivas Câmaras Municipais; Organização do Estado e da administração pública 37 (c) capacidade normativa própria, ou capacidade de autolegislação, mediante a competência de elaboração de leis municipais sobre áreas que são reservadas à sua competência exclusiva e suplementar; (d) capacidade de autoadministração (administração própria, para manter e prestar os serviços de interesse local). (SILVA, 2000, p. 546) Autogoverno do município Conforme determinado na Constituição Federal de 1988, o autogoverno dos municípios é exercido pelo Prefeito, chefe do Poder Executivo Municipal, e pelos Vereadores, que compõem seu Poder Legislativo, todos eleitos diretamente. Nesse sentido, assim como ocorre com a União e com os Estados-membros, o autogoverno em âmbito municipal é exercido de modo totalmente independente. Auto-organização do município A auto-organização dos municípios, por força do contido no artigo 29 da Constituição Federal, ocorrerá por lei orgânica e pelas legislações que adotar, ante a capacidade de autolegislação. No entanto, a lei orgânica elaborada pelo município, principal instrumento de sua auto-organização, deverá observar, além da Constituição Federal, como ocorre com o Estado-membro, a Constituição Estadual. No que tange às leis comuns, estas se limitam à competência legislativa estabelecida constitucionalmente. Disso decorre que, “hierarquicamente, a lei orgânica municipal se situa acima das leis municipais (ordinárias e complementares) e abaixo da Constituição da República e da Constituição do respectivo Estado-membro” (BRASIL, 1988). Portanto, a auto-organização dos municípios, mesmo subordinada à Constituição Estadual, encontra espaço próprio na Constituição Federal, o qual não pode ser invadido pela União nem pelos Estados-membros. Autoadministração do município Os municípios exercem sua autoadministração por meio das competências constitucionais não legislativas que lhes foram outorgadas constitucionalmente e que podem ser privativas, supletivas e comuns. Essa competência não legislativa, de execução material de atividades, delimita o campo de atuação político-administrativa do município e diz respeito, principalmente, à capacidade decisória, sem qualquer subordinação, quanto aos interesses locais, conforme decidiu o Supremo Tribunal Federal na Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 1.842. A competência privativa é aquela exercida sem concorrência com Estados-membros e União e está prevista no artigo 30, V, da Constituição Federal, que diz respeito à organização e prestação dos serviços públicos de interesselocal (ver Quadro 2). A competência suplementar é aquela exercida em observância às competências da União e dos Estados-membros, estando previstas, principalmente, nos incisos IV, VI, VII, VIII e IX do artigo 30 da Constituição Federal (ver Quadro 2). Fundamentos da Gestão Pública38 A competência comum, por sua vez, refere-se a atividades que visam à cooperação com a União e os Estados-membros, estando delimitadas, conforme mencionado outrora, no artigo 23 da Constituição Federal. Considerado o interesse local, isto é, aquele em que predomina o interesse do município em detrimento dos interesses dos Estados e da União, e as competências conferidas pela Constituição, os municípios poderão exercer, de modo autônomo, sua administração. Autolegislação do município A autolegislação é decorrência lógica da auto-organização, visto que o município também se organiza segundo as leis que adotar, as quais têm âmbito de incidência própria delineada constitucionalmente, podendo essa competência legislativa ser encarada sob os seguintes ângulos: expressa, de interesse local e suplementar (RAMALHO, 2017). A competência legislativa expressa se encontra em diversos dispositivos constitucionais, destacando-se os artigos 156, 182 e 211 (CF/88), que preveem matérias que cabem aos municípios tratarem por suas próprias leis. Art. 156 Compete aos Municípios instituir impostos sobre [...] Art. 182 A política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder Público municipal [...] Art. 211 A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime de colaboração seus sistemas de ensino. (BRASIL, 1988) Em relação à competência legislativa sobre interesse local, prevista no artigo 30, I, da Constituição Federal, trata-se – à semelhança daquilo informado sobre a competência administrativa dos municípios – do poder de legislar sobre assuntos cuja preponderância dos interesses seja do município. Apesar de os municípios não estarem elencados ao lado da União e dos Estados-membros no artigo 24 da Constituição Federal, que se refere à competência concorrente, aqueles, ao lado destes, possuem competência legislativa suplementar, a qual diz respeito, mais uma vez, a assuntos de interesse local (art. 30, II, da Constituição Federal). Dessa forma, Ramalho (2017) aponta que o critério adotado pela Constituição Federal de 1988 para caracterizar um ente como federativo foi a existência de autonomia, a qual é existente na União, nos Estados-membros e nos Municípios, podendo-se afirmar, portanto, que os municípios, em decorrência disso, são considerados entes federativos na federação brasileira. Todavia, isso não significa que a autonomia dos municípios é idêntica a dos demais entes federativos, tendo em vista que, no desenho constitucional, cada entidade federativa tem um campo específico de atuação e características próprias que a diferenciam das demais, sem, contudo, retirar-lhe a importância desempenhada na federação (RAMALHO, 2017). Organização do Estado e da administração pública 39 2.1.2.3 Fiscalização dos municípios Atuando sobre o município, os órgãos de controle desempenham importante papel nas relações entre Estado e sociedade, contribuindo para a garantia do regime democrático. O Art. 31 da CF/88 descreve que a fiscalização do Município será exercida pelo Poder Legislativo Municipal, mediante controle externo, e pelos sistemas de controle interno do Poder Executivo Municipal, na forma da lei. § 1º O controle externo da Câmara Municipal será exercido com o auxílio dos Tribunais de Contas dos Estados ou do Município ou dos Conselhos ou Tribunais de Contas dos Municípios, onde houver. § 2º O parecer prévio, emitido pelo órgão competente sobre as contas que o Prefeito deve anualmente prestar, só deixará de prevalecer por decisão de dois terços dos membros da Câmara Municipal. § 3º As contas dos Municípios ficarão, durante sessenta dias, anualmente, à disposição de qualquer contribuinte, para exame e apreciação, o qual poderá questionar-lhes a legitimidade, nos termos da lei. § 4º É vedada a criação de Tribunais, Conselhos ou órgãos de Contas Municipais. (BRASIL, 1988) Nota-se que o município, ao submeter seus atos aos sistemas de controle, resguarda tanto a atuação da própria administração pública quanto os direitos e as garantias coletivas. 2.1.3 Do Distrito Federal No Distrito Federal, está situada Brasília, a capital federal. Ele não se divide em municípios, sendo considerado uno. Desse modo, os eleitores do Distrito Federal votam apenas para governador, pois não são realizadas eleições municipais. As cidades-satélites são administradas por autoridades nomeadas pelo governador do Distrito Federal, que exercem funções atribuídas a estados e municípios. Conforme o art. 32 da CF/88: ao Distrito Federal é vedada sua divisão em Municípios, reger-se-á por lei orgânica, votada em dois turnos com interstício mínimo de dez dias, e aprovada por dois terços da Câmara Legislativa, que a promulgará, atendidos os princípios estabelecidos nesta Constituição. § 1º Ao Distrito Federal são atribuídas as competências legislativas reservadas aos Estados e Municípios. § 2º A eleição do Governador e do Vice-Governador, observadas as regras do art. 77, e dos Deputados Distritais coincidirá com a dos Governadores e Deputados Estaduais, para mandato de igual duração. § 3º Aos Deputados Distritais e à Câmara Legislativa aplica-se o disposto no art. 27. § 4º Lei federal disporá sobre a utilização, pelo Governo do Distrito Federal, das polícias civil e militar e do corpo de bombeiros militar. Em síntese, conforme a Constituição Federal de 1988; i) o Distrito Federal rege-se por lei orgânica, e não por uma constituição estadual; ii) acumula as competências legislativas reservadas aos estados e municípios; iii) observa-se o caráter híbrido do Distrito Federal na sua Câmara Legislativa, pois há a mistura do Poder Legislativo Municipal e Poder Legislativo Estadual. (BRASIL, 1988) Fundamentos da Gestão Pública40 2.1.4 Dos territórios Territórios são considerados porções de terra pertencentes à União sem autonomia política. Portanto, não são considerados entes políticos e não são unidades federativas. Contudo, constituem a organização político-administrativa do Estado nacional. Conforme estudamos atualmente, não existem territórios brasileiros, pois os últimos foram extintos pela Constituição de 1988, nos casos de Roraima, Amapá e Fernando de Noronha. Todavia, de acordo com a Constituição Federal de 1988, é possível a criação de novos territórios, desde que seja realizada por meio de plebiscito, e a criação mediante lei complementar, a partir da subdivisão ou desmembramento dos Estados já existentes. Art. 33. A lei disporá sobre a organização administrativa e judiciária dos Territórios. § 1º Os Territórios poderão ser divididos em Municípios, aos quais se aplicará, no que couber, o disposto no Capítulo IV deste Título. § 2º As contas do Governo do Território serão submetidas ao Congresso Nacional, com parecer prévio do Tribunal de Contas da União. § 3º Nos Territórios Federais com mais de cem mil habitantes, além do Governador nomeado na forma desta Constituição, haverá órgãos judiciários de primeira e segunda instância, membros do Ministério Público e defensores públicos federais; a lei disporá sobre as eleições para a Câmara Territorial e sua competência deliberativa. (BRASIL, 1988) Na atual conjuntura socioeconômica, é incerta a possibilidade de criação de novos territórios via plebiscito. No ano de 2011, o Estado do Pará viveu a experiência da tentativa de um desmembramento. A população foi às urnas para votar sobre a criação de mais dois Estados: Carajás e Tapajós. Houve uma rejeição das duas propostas com um pouco mais de 66% dos votos. A tese dos separatistas é que, com a criação de novos Estados, haveria o fortalecimento da desigualdade regional, acentuaria a dependência da União em termos de recursos financeiros e permitiriaque o Estado ampliasse o número de cargos na máquina administrativa e criasse novas estruturas, ou seja, um discurso totalmente na contramão de um Estado mais enxuto e ao mesmo tempo mais eficiente. 2.2 Órgãos da administração pública Pelo critério federativo enunciado pela Carta Federal, existem as Administrações Públicas Federal, Estadual e Municipal. As expressões Administração Direta e Indireta foram consolidadas pelo artigo 4º do Decreto n. 200/1967. Art. 4º A Administração Federal compreende: I – A Administração Direta, que se constitui dos serviços integrados na estrutura administrativa da Presidência da República e dos Ministérios. II – A Administração Indireta, que compreende as seguintes categorias de entidades, dotadas de personalidade jurídica própria: a) Autarquias; Vídeo Organização do Estado e da administração pública 41 b) Empresas Públicas; c) Sociedades de Economia Mista; d) Fundações públicas (Incluído pela Lei n. 7.596, de 1987). (BRASIL, 1967, grifos nossos) 2.2.1 Administração Direta Todos os entes que compõem a Administração Direta são considerados pessoas jurídicas de direito público, estando sujeitos ao regime jurídico-administrativo e sendo dotados de autonomia. O Quadro 3 apresenta os órgãos que compõem a Administração Direta por esferas de governo. Quadro 3 – Organização da Administração Direta Esfera Órgãos Federal Presidência da República e respectivos Ministérios, o Senado Federal, a Câmara dos Deputados, o Supremo Tribunal Federal, Ministério Público Federal, Tribunal de Contas da União, Tribunais Regionais Federais, e os Juizados Federais e seus respectivos órgãos. Estadual Governador e respectivas Secretarias Estaduais, a Assembleia Legislativa, o Tribunal de Justiça, Tribunais de Conta do Estado, o Ministério Público Estadual, os Juizados Estaduais as respectivas repartições. Municipal Prefeito e os respectivos Secretários Municipais, a Câmara Municipal e o Procurador do Município, se houver. Fonte: Elaborado pelo autor. No âmbito municipal, não há a presença de Poder Judiciário, sendo que as causas são processadas pelos órgãos estaduais. 2.2.2 Administração Indireta A Administração Pública Indireta caracteriza-se pela descentralização dos serviços, por meio de lei (cria ou autoriza), para uma pessoa jurídica de direito público ou privado à qual se atribui a titularidade e a execução de determinado serviço público. Nos termos do art. 4º, II, do Decreto Federal n. 200/1967, a Administração Indireta compreende: a) Autarquias; b) Empresas Públicas; c) Sociedades de Economia Mista; e d) Fundações Públicas. As entidades compreendidas na Administração Indireta vinculam-se ao ministério em cuja área de competência estiver enquadrada sua principal atividade. Todas agem por outorga do serviço ou pela delegação da execução. As pessoas jurídicas que integram a Administração Indireta possuem em comum as seguintes características: • criação por lei específica • personalidade jurídica • patrimônio próprio As entidades da Administração Indireta exercem suas atividades de maneira descentralizada e encontram-se vinculadas aos órgãos da Administração Direta. Via de regra, os órgãos que prestam serviços públicos são denominados autarquias ou fundações, e os que exploram atividades econômicas são conhecidos como Empresas Públicas e Sociedades de Economia Mista. Fundamentos da Gestão Pública42 Quadro 4 – Entidades da Administração Pública Indireta F Fundação Pública IV – entidade dotada de personalidade jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, criada em virtude de autorização legislativa, para o desenvolvimento de atividades que não exijam execução por órgãos ou entidades de direito público, com autonomia administrativa, patrimônio próprio gerido pelos respectivos órgãos de direção, e funcionamento custeado por recursos da União e de outras fontes. (BRASIL, 1967) Exemplo: Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ). A Autarquia I – serviço autônomo, criado por lei, com personalidade jurídica, patrimônio e receita próprios, para executar atividades típicas da Administração Pública, que requeiram, para seu melhor funcionamento, gestão administrativa e financeira descentralizada. (BRASIL, 1967) Exemplos: INSS, Incra, Banco Central, CVM. S Sociedade de Economia Mista III – entidade dotada de personalidade jurídica de direito privado, criada por lei para a exploração de atividade econômica, sob a forma de sociedade anônima, cujas ações com direito a voto pertençam em sua maioria à União ou à entidade da Administração Indireta. (BRASIL, 1967) Exemplo: Petrobras. E Empresa Pública II – entidade dotada de personalidade jurídica de direito privado, com patrimônio próprio e capital exclusivo da União, criado por lei para a exploração de atividade econômica que o Governo seja levado a exercer por força de contingência ou de conveniência administrativa, podendo revestir-se de qualquer das formas admitidas em direito. (BRASIL, 1967) Exemplos: Correios, Caixa Econômica Federal, EMBRAPA etc. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Brasil, 1967 (grifos nossos). 2.2.2.1 Consórcios públicos A Lei n. 11.107/2005, que apresenta os delineamentos do instituto do consórcio público, nasce com a finalidade de ser o marco regulatório do art. 241 da Constituição de 1988. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios disciplinarão por meio de lei os consórcios públicos e os convênios de cooperação entre os entes federados, autorizando a gestão associada de serviços públicos, bem como a transferência total ou parcial de encargos, serviços, pessoal e bens essenciais à continuidade dos serviços transferidos. (BRASIL, 1988, grifo nosso) A Lei 11.107/05 é consentânea com os novos princípios que norteiam a Administração Pública, pautada principalmente pela eficiência e pela moralidade, e com o modelo estatal que prega e estimula parcerias entre o privado e o público. (BORSALI, 2010) A Lei n. 11.107/2005 (BRASIL, 2005) dispôs sobre as normas gerais para a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios contratarem consórcios públicos para a realização de objetivos de interesse comum. Conforme nossas normas, os consórcios públicos são constituídos por associação pública ou pessoas jurídicas de direito privado, cujo contrato a ser celebrado dependerá da prévia subscrição de protocolo de intenções. Organização do Estado e da administração pública 43 Modalidades de consórcios Para o Decreto n. 6.017/2007, trata-se de pessoa jurídica formada exclusivamente por entes da Federação para estabelecer relações de cooperação federativa, inclusive a realização de objetivos de interesse comum, constituída como associação pública, com personalidade jurídica de Direito Público e natureza autárquica, ou como pessoa jurídica de Direito Privado sem fins econômicos. Portanto, conforme a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), tem-se duas modalidades de consórcios (Quadro 5): Quadro 5 – Modalidades de consórcios públicos Consórcio Administrativo Constituído antes da Lei 11.107/2005; Pacto de mera colaboração (ausência de vínculo contratual); Sem personalidade jurídica ou no formato de associação civil; Inexistência de obrigações recíprocas e de sanções por inadimplência; Ampla liberdade de participar e se retirar. Consórcio Público Constituído após a Lei 11.107/2005; Formado exclusivamente por entes federativos; Constitui direitos e deveres recíprocos entre os participantes; Possui personalidade jurídica (pública ou privada); Depende de autorização legislativa e celebração de vínculo contratual. Fonte: CNM, 2016, p. 26 (grifos no original). Dada a relevância do assunto, o IBGE pesquisou as articulações interinstitucionais pactuadas entre União, Estados, Distrito Federal e Municípios e constatou que 4.175 municípios participavam de algum tipo de consórcio, o que corresponde a 75% de todos os municípios brasileiros. Desse contingente, 2.903 municípios declararam participar de consórcio público intermunicipale 679 de consórcio administrativo intermunicipal (IBGE, 2012 apud CNM, 2016), tal qual se observa na Figura 1. Figura 1 – Número de municípios participantes de consórcios2. 3.295 2.097 Total Intermunicipal Consórcio público Consórcio administrativo Estadual Federal 2.903 1.421 964 1.519 679 1.796 Fonte: IBGE, 2012 apud CNM, 2016, p. 27. 2 Saiba mais sobre Consórcios Públicos Intermunicipais em: http://www.cnm.org.br/biblioteca/download/2472 Fundamentos da Gestão Pública44 Mesmo após a edição da Lei n. 11.107/2005, ainda existem consórcios administrativos. Há quem defenda a inconveniência de se manter consórcios administrativos pela instabilidade e precariedade dos laços institucionais que influenciam na execução dos projetos e ações de médio a longo prazo, já que não há garantia de que as obrigações serão cumpridas ou que haja responsabilização pelo eventual descumprimento. As lacunas jurídicas também provocam conflitos com os órgãos de controle externo (Tribunais de Contas, Ministério Público etc.) na tratativa do recurso público destinado a essas associações. Embora possam seguir existindo, o Decreto n. 6.017/2007 (BRASIL, 2007), no Art. 41, previu a possibilidade de que os consórcios constituídos na modalidade administrativa possam ser convertidos em consórcios públicos de direito público ou privado, desde que atendam aos requisitos de celebração de Protocolo de Intenções e de sua ratificação por lei de cada ente da federação consorciado. Se a opção for converter em consórcio público de direito público, a eficácia da alteração estatutária não dependerá de sua inscrição no registro civil das pessoas jurídicas. A transformação, além de garantir maior estabilidade e segurança jurídica às relações interfederativas, é essencial para angariar recursos federais, pois o art. 39 do Decreto n. 6.017/2007 estabeleceu que “a partir de 1º de janeiro de 2008 a União somente celebrará convênios com consórcios públicos constituídos sob a forma de associação pública ou que para essa forma tenham se convertido” (BRASIL, 2007). A previsão legislativa do art. 39 supracitado reforça ser mais vantajoso adotar a modalidade de consórcio público com personalidade jurídica de direito público, em vez de direito privado. Outras vantagens se fazem presentes na conversão de consórcio administrativo para consórcios públicos, tais como: • gozar de imunidade tributária (no caso de aditar personalidade jurídica de direito público); • prazo em dobro para todas as suas manifestações processuais (art. 183 no novo Código de Processo Civil); e • vantagens nos processos licitatórios (aumento de limites de valores para determinação das modalidades de licitação, dispensa de licitação na celebração do contrato de programa). Embora existam vantagens na conversão do consórcio administrativo para o consórcio público, em algumas situações, o formato de consórcio administrativo pode se mostrar mais interessante. Por exemplo: nos projetos com uma finalidade específica e cuja execução seja de curto prazo, sem a necessidade de receber transferências voluntárias da União. Tal vantagem decorre da maior flexibilidade, agilidade e efetividade da ação do consórcio administrativo. Campanhas de prevenção e combate de epidemias são um bom exemplo dessa possibilidade. Organização do Estado e da administração pública 45 Considerações finais Neste capítulo, observarmos o protagonismo dado aos municípios, a partir da Constituição de 1988, que foi decorrente da organização política do Estado, principalmente em relação às funções gerenciais, que culminaram no rompimento das formas clássicas de ação governamental, importando na evolução do relacionamento entre os entes federativos. Observamos, no entanto, que a gestão fiscal e financeira municipal não acompanhou a descentralização política, pelo contrário, manteve a centralização financeira nas mãos da União e dos Estados. Como consequência, a dependência desses entes ocasionou a fragilização da capacidade de formulação e implementação de políticas públicas para o desenvolvimento no âmbito local. Em síntese, as obrigações do município ampliaram de maneira desigual a capacidade financeira e operacional da população, principalmente daqueles com menor capacidade de arrecadação. Diante desses desafios, é fundamental que as organizações públicas passem a adotar uma postura empreendedora, a fim de aumentar o nível de desempenho da gestão no Brasil. Isso implica em que tanto instituição quanto servidor público disponham de comportamento mais criativo e inovador. Ampliando seus conhecimentos • MAZZUCATO, M. O Estado empreendedor: desmascarando o mito do setor público x setor privado. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2014. No livro O Estado empreendedor (2014), Mariana Mazzucato busca enfatizar o papel ativo do Estado na formação da economia do conhecimento, tanto em relação ao desenvolvimento das tecnologias quanto na formação de empresas e criação das oportunidades e condições de mercado. A obra é constituída de significativos exemplos históricos sobre a importância do setor público no desenvolvimento de inovações tecnológicas. Sumariamente, a autora pretende desmascarar o mito de que o Estado é um paquiderme burocrático, sem mobilidade e ineficiente como gestor de negócios. • GETÚLIO. Direção de João Jardim. Brasil: Globo Filmes, 2014. 1 DVD. (100 min.). Getúlio (2014) é um filme que relata as entranhas do poder nos últimos dias de vida de Getúlio Vargas, mostrando as conspirações e tramas nos bastidores para que o presidente fosse deposto ou renunciasse. O filme revela muito sobre a velha política brasileira, assim como a nova, expondo o hábito das negociatas, do lobby e das alianças ilícitas. Também mostra o perfil das autoridades que visam seus interesses pessoais em detrimento do bem-estar do país e a razão pela qual desejam se perpetuar no sistema político, a fim de obter vantagens econômicas e políticas. Fundamentos da Gestão Pública46 Atividades 1. Caso o governo de Estado brasileiro decida subdividi-lo, quais requisitos constitucionais deverão ser cumpridos? 2. Quais são as capacidades relacionadas à autonomia municipal, assegurada pelos arts. 18 e 29 da CF/88? 3. Caso um prefeito municipal descumpra os requisitos definidos na CF/88, ele responderá por crime de responsabilidade. Conforme o texto e dispositivo constitucional, quais são esses requisitos? Referências BORSALI, A. F. Os consórcios públicos na Lei nº 11.107/2005. Aspectos jurídicos relevantes. Revista Jus Navigandi, Teresina, ano 15, n. 2541, 16 jun. 2010. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/15035. Acesso em: 24 out. 2019. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Presidência da República. Casa Civil. Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao. htm. Acesso em: 24 out. 2019. BRASIL. Decreto-Lei n. 311, de 02 de março de 1938. Dispõe sobre a divisão territorial do país e dá outras providências. Presidência da República. Casa Civil. Brasília, DF, 1967. Disponível em: http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/decreto-lei/1937-1946/Del0311.htm. Acesso em: 24 out. 2019. BRASIL. Decreto-Lei n. 200, de 25 de fevereiro de 1967. Dispõe sobre a organização da Administração Federal, estabelece diretrizes para a Reforma Administrativa e dá outras providências. Presidência da República. Casa Civil. Brasília, DF, 1967. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del0200.htm. Acesso em: 24 out. 2019. BRASIL. Decreto n. 6.017, de 17 de janeiro de 2007. Regulamenta a Lei n. 11.107, de 6 de abril de 2005, que dispõe sobre normas gerais de contratação de consórcios públicos. Presidência da República. Casa Civil. Brasília, DF, 2007. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2007/Decreto/ D6017.htm. Acesso em: 24 out. 2019. BRASIL. Lei n. 11.107, de 06 de abril de 2005. Dispõe sobre normas gerais de contratação de consórciospúblicos e dá outras providências. Presidência da República. Casa Civil. Brasília, DF, 2005. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Lei/L11107.htm. Acesso em: 24 out. 2019. BRASIL. Cláusula pétrea. Senado Federal. Brasília, DF, 2019. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/ noticias/glossario-legislativo/clausula-petrea. Acesso em: 11 dez. 2019. CNM. Confederação Nacional de Municípios. Consórcios Públicos Intermunicipais: Uma Alternativa à Gestão Pública – Brasília, 2016. 108 p. IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo 2010. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/ pesquisas. Acesso em: 24 out. 2019. MEIRELLES, H. L. Direito Municipal Brasileiro. 15. ed. São Paulo: Malheiros, 2007. PAULO, V.; ALEXANDRINO, M. Direito Constitucional Descomplicado. 4. ed. São Paulo: Método, 2009. Organização do Estado e da administração pública 47 RAMALHO, H. D. A caracterização do município como entidade federativa. Conteúdo Jurídico, Brasília, DF, 2017. Disponível em: https://conteudojuridico.com.br/consulta/Artigos/50698/a-caracterizacao-do- municipio-como-entidade-federativa. Acesso em: 24 out. 2019. SILVA, J. A. Curso de Direito Constitucional Positivo. 18. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2000, 624 p. SILVA, M. V. G. Intraempreendedorismo e governança pública: a relação entre o comportamento empreendedor e o desempenho da governança na gestão pública municipal. Dissertação (Mestrado em Planejamento e Governança Pública). UTFPR, Curitiba, 2017. TRIGUEIRO, M. M. Organização do Estado. Belo Horizonte: Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, Escola do Legislativo, 2015. 24 p. WOSNIAK, F. L.; REZENDE, D. A. Gestão de estratégias: uma proposta de modelo para os governos locais. Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro, v. 46, n. 3, p. 795-816, maio/jun. 2012. Disponível em: http://www.spell.org.br/documentos/ver/7581. Acesso em: 24 out. 2019. 3 Modelos de gestão pública As discussões que cercam a administração pública nos últimos anos têm sido balizadas pela evolução de modelos que têm buscado o ajustamento ao status quo nas organizações públicas, conforme as mudanças nelas ocorridas. Nesse sentido, este capítulo tem como objetivo oferecer uma base teórica para a compreensão dos modelos mais recentes da gestão pública brasileira, ou seja, os modelos burocrático, gerencial e governança pública. 3.1 Modelo patrimonialista Capobiango et al. (2013) descrevem que, ainda que o aparelho estatal tenha evoluído, passando do modelo burocrático para o modelo gerencial, as práticas da administração patrimonialista, típicas dos períodos (Quadro 1) que antecederam o avanço do capitalismo industrial, ainda são comuns no cotidiano da administração pública brasileira, em todos os três níveis de governo e poderes. Quadro 1 – Modelos de administração no Brasil Período 1821-1930 1930-1994 A partir de 1995 Modelo Patrimonialista Burocrático Gerencial Fonte: Elaborado pelo autor. O modelo patrimonialista se fundamenta na não distinção entre a res publica (coisa pública) e a res principis (coisa do príncipe), sendo o papel do Estado o de mero complemento. No entendimento de Bresser-Pereira (1996), o patrimonialismo trata da incapacidade ou resistência do príncipe (governante) em reconhecer e respeitar a diferença entre o patrimônio público e seus bens privados. Cardoso e Teixeira (2018, p. 34) apontam que o patrimonialismo é caracterizado pela forte presença das seguintes características: “nepotismo, corrupção, ineficiência, improviso, falta de profissionalismo, ausência de métodos de trabalho, falhas de planejamento, entre outros”. Acunha (2013, p. 26) descreve que: No patrimonialismo, não é possível afirmar que existe coisa pública em sentido contemporâneo, uma vez que o próprio Estado se confunde com o patrimônio do soberano, sendo mera extensão daquilo que lhe pertence. O interesse perseguido é sempre o de quem detém o aparelho de Estado em suas mãos, não se podendo falar, nesse momento, de institutos básicos da moderna Administração Pública, como a ideia de supremacia e indisponibilidade do interesse público, separação do servidor de seu cargo, entre outros. status quo: do latim, significa o estado atual das coisas. Vídeo Fundamentos da Gestão Pública50 As características que mais evidenciam o patrimonialismo são observadas no Quadro 2. Quadro 2 – Características principais do modelo patrimonialista Nepotismo Agente público que usa de sua posição de poder para nomear, contratar ou favorecer um ou mais parentes. O nepotismo é vedado, primeiramente, pela própria Constituição Federal, pois contraria os princípios da impessoalidade, moralidade e igualdade. Algumas legislações, de maneira esparsa, como a Lei n. 8.112, de 1990 (BRASIL, 1990) também tratam do assunto, assim como a Súmula Vinculante n. 13, do Supremo Tribunal Federal. Corrupção É o mau desempenho intencional ou a negligência de uma obrigação reconhecida, ou o exercício indevido do poder, com o objetivo de se obter alguma vantagem mais ou menos pessoal. Clientelismo Tipo de relação política em que uma pessoa (o patrão) dá proteção à outra (o cliente) em troca de apoio, estabelecendo-se um laço de submissão pessoal que, por um lado, não depende de relações de parentesco e, por outro, não tem conotação jurídica. Fisiologismo Trata-se da busca de ganhos ou vantagens pessoais, em lugar de ter em vista o interesse público. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Brooks, 1909; Paludo, 2013; e CGU, 2019. Um período marcante do modelo patrimonialista foi a política do café com leite, no período da República Velha (1889-1930). Na política do café com leite os políticos paulistas e mineiros alternavam-se na cadeira de Presidente da República, por isso o nome do acordo. As economias paulista e mineira eram o café e o leite, respectivamente, mantinha-se assim a ordem política e econômica favoráveis a esses Estados, mas principalmente aos oligarcas locais. (VELASCO, 2014) No entanto, o Supremo Tribunal Federal tem buscado remediar os resquícios de patrimonialismo. A Súmula Vinculante n. 13, de 2008, assim dispõe, in verbis: A nomeação de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, da autoridade nomeante ou de servidor da mesma pessoa jurídica investido em cargo de direção, chefia ou assessoramento, para o exercício de cargo em comissão ou de confiança ou, ainda, de função gratificada na administração pública direta e indireta em qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, compreendido o ajuste mediante designações recíprocas, viola a Constituição Federal. (STF, 2008) A edição da Súmula Vinculante n. 13 decorreu do decidido pelo Plenário do STF no RE 579.951, rel. Min. Ricardo Lewandowski, de 23 de outubro de 2008, quando se fixou o entendimento de que a vedação ao nepotismo1 é consequência lógica do caput do art. 37 da CF/88, em obediência, notadamente, aos princípios da moralidade e da impessoalidade. O acórdão do julgado foi assim ementado, in verbis: 1 O nepotismo, no âmbito do Poder Executivo Federal, foi regulamentado pelo Decreto n. 7.203, de junho de 2010. Modelos de gestão pública 51 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. VEDAÇÃO NEPOTISMO. NECESSIDADE DE LEI FORMAL. INEXIGIBILIDADE. PROIBIÇÃO QUE DECORRE DO ART. 37, CAPUT, DA CF. RE PROVIDO EM PARTE. I – Embora restrita ao âmbito do Judiciário, a Resolução 7/2005 do Conselho Nacional da Justiça, a prática do nepotismo nos demais Poderes é ilícita. II – A vedação do nepotismo não exige a edição de lei formal para coibir a prática. III – Proibição que decorre diretamente dos princípios contidos no art. 37, caput, da Constituição Federal. IV – Precedentes. V – RE conhecido e parcialmente provido para anular a nomeação do servidor, aparentado com agente político, ocupante, de cargo em comissão. (STF. Súmula Vinculante n. 13. 2008) 3.2 Modelo burocráticoA administração pública burocrática teve o escopo de substituir a administração patrimonialista, a qual era caracterizada pelas monarquias absolutas, em que o patrimônio público e o privado eram confundidos. Foi necessário então desenvolver um tipo de administração que distinguisse entre o político e o administrador público (BRESSER-PEREIRA, 1996). O modelo burocrático é atribuído a Max Weber, por ele ter analisado e sintetizado suas principais características e disseminado o modelo nas administrações públicas de todo o mundo durante o século XX (SECCHI, 2009). “O modelo burocrático começou a ser adotado nos principais países europeus no final do século XIX, e nos Estados Unidos no começo do século XX”. No Brasil, teve início em 1936 por meio da primeira reforma administrativa no governo brasileiro, no Estado Novo da era Vargas (BRESSER-PEREIRA; SPINK, 2005, p. 241). Matias-Pereira (2006) explica que o governo de Getúlio Vargas, visando suprimir a administração patrimonialista no Brasil e estruturar o aparelho do Estado, implanta uma burocracia nos moldes weberianos. Para isso, é criado, em 1936, o Departamento de Administração do Setor Público (DASP). O DASP teve grande influência nas políticas governamentais de Vargas, incumbido, inclusive, da elaboração e do controle do orçamento federal, de definir e executar as políticas para o pessoal civil, de promover a racionalização de métodos no serviço público nas três esferas (federal, estadual e municipal), além de ter a função de qualificar o funcionalismo, incluindo a inédita prática da admissão mediante concurso público (WAHRLICH, 1974, p. 29). No entanto, as práticas patrimonialistas resistiram, mesmo com a criação do DASP, conforme se observa no relato a seguir, extraído de uma análise da Câmara Federal de Reforma do Estado: Nesse período, a Administração Pública já se encontrava em acelerado processo de profissionalização e burocratização, sob o impacto de uma racionalidade formal, implementada pelos esforços do Departamento Administrativo do Serviço Público – DASP, criado em 1936. Não obstante, o patrimonialismo, embora em processo de transformação, mantinha sua força no quadro político brasileiro. O coronelismo dava lugar ao clientelismo e ao fisiologismo. (BRASIL, 1995, p. 19) Vídeo Fundamentos da Gestão Pública52 Em 1904, no livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Max Weber (1930) fazia referências ao burocrata como profissional e à disseminação do modelo burocrático em países ocidentais, suas características de especialização, controle, e, sobretudo, o racionalismo. [...] Na sua descrição sobre os modelos ideais típicos de dominação, Weber identificou o exercício da autoridade racional-legal como fonte de poder dentro das organizações burocráticas. Nesse modelo, o poder emana das normas, das instituições formais, e não do perfil carismático ou da tradição. (SECCHI, 2009, p. 350, grifos nossos) Secchi (2009, p. 351, grifos nossos) aponta que “a partir desse axioma fundamental derivam-se as três características principais do modelo burocrático: formalidade, impessoalidade e profissionalismo”. Quadro 3 – Características principais do modelo burocrático Formalidade “Impõe deveres e responsabilidades aos membros da organização, a configuração e legitimidade de uma hierarquia administrativa, as documentações escritas dos procedimentos administrativos, a formalização dos processos decisórios e a formalização das comunicações internas e externas. As tarefas dos empregados são formalmente estabelecidas de maneira a garantir a continuidade do trabalho e a estandardização dos serviços prestados, para evitar ao máximo a discricionariedade individual na execução das rotinas.” Impessoalidade “Prescreve que a relação entre os membros da organização e entre a organização e o ambiente externo está baseada em funções e linhas de autoridade claras. O chefe ou diretor de um setor ou departamento tem a autoridade e responsabilidade para decidir e comunicar sua decisão. O chefe ou diretor é a pessoa que formalmente representa a organização. A impessoalidade implica que as posições hierárquicas pertencem à organização, e não às pessoas que a estão ocupando. Isso ajuda a evitar a apropriação individual do poder, prestígio, e outros tipos de benefícios, a partir do momento que o indivíduo deixa sua função ou a organização.” Profissionalismo “Intimamente ligado ao valor positivo atribuído ao mérito como critério de justiça e diferenciação. As funções são atribuídas a pessoas que chegam a um cargo por meio de competição justa na qual os postulantes devem mostrar suas melhores capacidades técnicas e conhecimento.” Fonte: Adaptado de Secchi, 2009, p. 351. Destaca-se que o profissionalismo visa atacar os efeitos negativos do nepotismo, que dominava o modelo pré-burocrático patrimonialista (MARCH, 1961; BRESSER-PEREIRA, 1996). Assim, a promoção do empregado depende da experiência na função, conforme o seu desempenho e competências com base na meritocracia (SECCHI, 2009). O modelo burocrático preocupa-se com a eficiência organizacional, no tocante ao uso racional dos recursos e das pessoas dentro da estrutura organizacional. De outro modo, a eficiência administrativa leva a sujeição aos preceitos formais das tarefas, em outras palavras, preocupações com o “como as coisas são feitas” (SECCHI, 2009). Muitos autores teceram críticas ao modelo organizacional burocrático. Dentre eles, Robert Merton (1949), que analisou os efeitos negativos do modelo sobre as organizações. Veja, a seguir, no Quadro 4. Modelos de gestão pública 53 Quadro 4 – Efeitos negativos do modelo burocrático segundo Merton (1949) Disfunções burocráticas “O impacto da prescrição estrita de tarefas sobre a motivação dos empregados, resistência às mudanças, e o desvirtuamento de objetivos provocado pela obediência acrítica às normas.” Abuso da senioridade “Segundo o pesquisador, pode frear a competição entre funcionários e fomentar um senso de integridade e corporativismo entre os funcionários, causando um destacamento dos interesses dos destinatários/clientes dos serviços da organização.” Impessoalidade “Pode levar a organização a não dar atenção a peculiaridades das necessidades individuais.” Arrogância funcional em relação ao público destinatário (em especial no serviço público) “Em muitos casos, o funcionalismo público goza de situação de monopólio na prestação de serviços. Tais disfunções podem ser ainda mais prejudiciais em organizações que dependem da criatividade e da inovação.” Fonte: Elaborado pelo autor com base em Secchi, 2009. Em relação às disfunções burocráticas, Paludo (2013) elenca as mais comuns, apresentadas no Quadro 5. Quadro 5 – Disfunções burocráticas Disfunções Características Apego exagerado às regras e regulamentos internos “O servidor burocrático era mais valorizado por conhecer as regras e procedimentos do que pelos conhecimentos técnico-profissionais. Fato decorrente é que se transformam essas regras em objetivos a perseguir, deixando em segundo plano os fins visados pela organização.” Formalismo exagerado e excesso de papelório “Todos os atos deveriam ser formais e escritos (documentados), o que gerava uma enorme quantidade de pastas contendo documentos, em grande parte desnecessários.” Resistência a mudanças “Uma vez aprendidas as regras que determinam como fazer, o servidor burocrata reage contrário a novas formas de se fazer, visto que lhe causam insegurança.” Desconsideração à pessoa do servidor “São observados os cargos existentes na estrutura hierárquica da organização, sem consideração ao pessoal que o ocupa: o relacionamento torna-se impessoal.” Rigidez e falta de flexibilidade “A necessidade de atuar sempre de acordo com as normas previamente estabelecidas não permite agilidade e flexibilidade, ou seja, a administração burocrática não permite criar e inovar.” Desconsideração do cidadão “A burocracia é insulada, gosta de guiar-sepor si mesma, e considera mais importante atender a seus interesses do que aos dos cidadãos.” Decisões distantes da realidade “As decisões são sempre tomadas pela alta administração (ainda que tecnicamente desconheça o assunto), e esta se encontra distante da realidade da execução, sendo que muitas delas são completamente inadequadas.” Fonte: Paludo, 2013, p. 67-68. Resumidamente, ao observar as disfunções burocráticas, em que pesem seus aspectos positivos, constata-se que a burocracia, na prática, ainda não atingiu os níveis de excelência conforme a sua proposta de ser eficiente e impessoal. Fundamentos da Gestão Pública54 Em 1967, após o golpe de 1964, o governo militar tenta uma nova reforma por meio do Decreto-Lei n. 200 (BRASIL, 1967), com o objetivo de superar a rigidez burocrática. Esse Decreto é considerado como um primeiro vislumbre da administração gerencial no Brasil, quando a ênfase foi dada à descentralização mediante a autonomia da administração indireta, a partir do pressuposto da rigidez da administração direta e da maior eficiência da administração descentralizada. (BRESSER-PEREIRA, 1996, p. 7) A burocracia no Estado, com a consequente criação de novos órgãos, cargos e funções, transformou a máquina pública em uma estrutura bastante complexa. Em tese, “o que se ganhou em eficiência administrativa se perdeu em eficácia política, sobretudo com a tendência ao insulamento burocrático em alguns setores de decisão” (PAIVA, 2009, p. 792). Assim, a partir da década de 1970, inicia-se a crise do modelo burocrático de administração do Estado, por conta das dificuldades do modelo em lidar com as novas ideias e tecnologias decorrentes da globalização. Abrucio (1997) destaca ainda quatro fatores responsáveis pela derrocada dos modelos burocráticos de administração: crise econômica, iniciada em 1973, na primeira crise do petróleo. crise fiscal, entendida como a dificuldade dos governos em financiar seus déficits. crise de governabilidade, entendida como a incapacidade do governo em atender às demandas dos cidadãos. globalização, que transformou a lógica do setor produtivo e transferiu para as grandes empresas multinacionais o poder de ditar a política macroeconômica que antes cabia ao Estado. (ABRUCIO, 1997, p. 9-10) No início dos anos 1980 ocorre uma nova tentativa de reformar a burocracia brasileira, buscando orientá-la na direção da administração pública gerencial, com a criação do Ministério da Desburocratização e do Programa Nacional de Desburocratização (PrND) (BRASIL, 1995, p. 20). Em princípio, as ações do PrND dedicaram-se ao combate à burocratização dos procedimentos e, em seguida, concentraram-se no desenvolvimento do Programa Nacional de Desestatização, em um esforço para conter os excessos da expansão da administração descentralizada, estimulada pelo Decreto-Lei n. 200/1967 (BRASIL, 1995, p. 20). Conforme Bresser-Pereira (1996, p. 7), instituíram-se como princípios “a racionalidade administrativa, o planejamento e o orçamento, a descentralização e o controle dos resultados [...] possibilitando a transferência das atividades de produção de bens e serviços para autarquias, fundações, empresas públicas e sociedades de economia mista”. Com a adoção do modelo burocrático, buscou-se uma alternativa ao modelo patrimonialista de administração do Estado. Porém, o pressuposto da eficiência não foi cumprido a contento e surgiu a necessidade de novas reformas, como a adoção do modelo gerencial. Modelos de gestão pública 55 3.3 Modelo gerencial Conforme estudamos, a crise do Estado de 1970 serviu de ponto de partida para o desenvolvimento de um novo modelo de administração pública na década de 1980, que buscasse melhorar a eficiência da ação estatal por meio da aplicação de métodos empresariais ou empreendedores de gestão (MARINI, 2005). Martins (1996) acredita que a administração pública gerencial surge como uma nova proposta, capaz de resolver os problemas decorrentes da burocracia por meio da adoção de métodos de gestão contemporâneos, que atribuem maior ênfase nos resultados e nos princípios de governança corporativa, ao passo que busca proporcionar ao Estado maior capacidade de gerenciar com efetividade e eficiência, visando oferecer melhores serviços ao cidadão e redução dos custos. Outro diferencial decorre do fato de que a administração burocrática se preocupa em manter o controle dos procedimentos a priori (ex-ante) e a gerencial estipula indicadores de desempenho, inclusive para a avaliação dos contratos de gestão, aferindo os resultados a posteriori (ex-post) (BRASIL, 1995). Figura 1 – Controle na administração burocrática e gerencial Ex-ante é uma expressão em latim que significa algo com base em prognóstico e em suposição, sendo fundamentalmente subjetivo e estimativo. Ex-post é algo com base em conhecimento, observação, análise e fundamentalmente objetivo e factual. Fonte: Elaborada pelo autor. O modelo gerencial foi pensado como um estágio superior da administração burocrática, tendo como principal objetivo aumentar a eficiência e a qualidade dos serviços públicos, orientando-os para o cidadão-cliente. De Angelis (2015) ressalta que algumas funções públicas foram organizadas segundo critérios estabelecidos pela burocracia e aperfeiçoados pelo modelo gerencial ao criar as carreiras de Estado, as quais, depois, o próprio mentor do modelo, Bresser-Pereira (1996), admite que foram isoladas do processo decisório. Foi criada a carreira dos gestores públicos (especialistas em políticas públicas e gestão governamental) – uma carreira de altos administradores públicos, que obviamente fazia falta no Brasil, mas que recebeu uma orientação rigorosamente burocrática, voltada para a crítica do passado patrimonialista, ao invés de voltar-se para o futuro e para a modernidade de um mundo em rápida mudança, que se globaliza e se torna mais competitivo a cada dia. (BRESSER- PEREIRA, 1996, p. 13) Vídeo Fundamentos da Gestão Pública56 Essa assertiva é corroborada por Paes de Paula (2005), ao afirmar que a administração pública gerencial tem as seguintes características: administração profissional, autônoma e organizada em carreiras; descentralização administrativa; maior competição entre as unidades administrativas; disciplina e parcimônia no uso dos recursos; indicadores de desempenho transparentes; maior ênfase nos resultados; e ênfase no uso de práticas originadas no mercado. (PAES DE PAULA, 2005, p. 131-132) Um dos objetivos do modelo gerencial diz respeito à definição da forma de propriedade e gestão das instituições públicas. Consideram-se estatal: • núcleo estratégico: que corresponde ao governo, em sentido lato; • atividades exclusivas: serviços que só o estado pode realizar; • serviços não exclusivos: setor em que o Estado atua simultaneamente com outras organizações públicas não estatais e privadas; • produção de bens e serviços para o mercado: caracterizado pelas atividades econômicas voltadas para o lucro que ainda permanecem no aparelho do Estado. (BRASIL, 1995) 3.3.1 O novo gerencialismo Ao se analisar a estrutura do aparelho do Estado pós-reforma gerencial, constata-se uma clara concentração do poder no núcleo estratégico, não se vislumbrando canais que permitam a inserção das demandas populares, nem mecanismos para que ocorra o controle e a transparência esperados. Esse movimento trouxe uma nova concepção – a administração gerencial chamada New Public Management (NPM) ou Nova Gestão Pública (NGP), em português. Segundo Secchi (2009, p. 354), a NPM corresponde a um modelo “normativo pós-burocrático para a estruturação e a gestão da administração pública baseado em valores de eficiência, eficácia e competitividade”. Paes de Paula (2005) propõe que a administração pública gerencial deve ter as seguintes características: administração profissional, autônoma e organizada em carreiras; descentralização administrativa; maior competição entre as unidades administrativas; disciplinae parcimônia no uso dos recursos; indicadores de desempenho transparentes; maior ênfase nos resultados; e ênfase no uso de práticas originadas no mercado. (PAES DE PAULA, 2005, p. 131-132) No entanto, a autora aponta as seguintes limitações da NGP: • constituição de uma nova elite burocrática, • centralização do poder nas instâncias executivas, • inadequação da aplicação das técnicas e práticas advindas do setor privado no setor público, Modelos de gestão pública 57 • dificuldade em lidar com a complexidade dos sistemas administrativos e a dimensão sociopolítica da gestão e, • incompatibilidade entre a lógica gerencialista e o interesse público. (PAES DE PAULA, 2005) 3.4 Governança pública Conforme alguns teóricos, a governança trata de um conjunto de boas práticas de gestão que auxiliam os países democráticos a aperfeiçoar o seu desenvolvimento econômico e social. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial exigem uma boa governança2 como requisito para países em via de desenvolvimento receberem recursos econômicos e apoio técnico. As áreas de aplicação das boas práticas de governança são aquelas envolvidas na melhoria da eficiência administrativa, da accountability3, e de combate à corrupção, como exemplos de “elementos essenciais de um framework no qual economias conseguem prosperar” (IMF, 2003, p. 1 apud SECCHI, 2009, p. 358). Conforme Silva (2017), no que se refere ao setor público, a crise fiscal dos anos 80 exigiu um novo arranjo econômico e político internacional, com a intenção de tornar o Estado mais eficiente, propiciando a discussão da governança na esfera pública. Isso resultou no estabelecimento dos princípios básicos que norteiam as boas práticas de governança nas organizações públicas (IFAC, 2001); são elas: transparência, integridade e prestação de contas. Em linhas gerais, a governança no setor público representa a inserção de mecanismos para afinar as relações entre Estado e Sociedade. Quadro 6 – Tendências da governança pública Governança pública • Preconizar a ampliação de formas de relacionamento entre diferentes atores no âmbito da gestão pública, seja entre Estado e sociedade, agentes privados e governo ou entre sociedade e iniciativa privada. • Incrementar o controle e a accountability na construção de políticas públicas por meio de mecanismos de participação democráticos e deliberativos, que impactam no aperfeiçoamento da gestão e da oferta de serviços públicos. Fonte: Adaptado de Silva, 2017, p. 31. Em uma visão reducionista, Araújo (2002, p. 6 apud SILVA, 2017) descreve que a governança no setor público pode ser definida como a capacidade que um determinado governo tem para formular e implementar suas políticas. A fonte dessa governança são os agentes públicos ou servidores do Estado que possibilitam a formulação/implementação correta das políticas públicas e representam a face deste diante da sociedade civil e do mercado, no setor de prestação de serviços diretos ao público (grifos nossos). 2 Combinação de boas práticas de gestão pública. 3 Na gestão pública, accountability refere-se à responsabilização ou prestação de contas permanente dos gestores públicos pelos atos praticados em decorrência do uso do poder. Vídeo Fundamentos da Gestão Pública58 Em contrapartida, o Banco Mundial, com uma visão mais ampliada, descreve que governança é o conjunto das tradições e instituições por meio das quais a autoridade de um país é exercida. Conforme o World Bank (2013 apud SILVA, 2017, p. 63), essa autoridade inclui a “capacidade do governo de formular e implementar políticas sólidas de forma eficaz, e o respeito dos cidadãos e do Estado pelas instituições que governam as interações econômicas e sociais entre eles”. Edwards et al. (2012) retratam que a governança pública pode ser dividida em subcategorias, conforme o quadro a seguir. Quadro 7 – Subcategorias da governança pública Subcategorias Descrição Sociopolítica Governança das relações sociais. Política pública Governança do processo de políticas públicas. Administrativa Governança do negócio do governo. De contratos ou terceirização Governança de contratos de prestação de serviços públicos. Em rede Governança de redes estatais e não estatais envolvidas na elaboração de políticas e na prestação de serviços públicos. Fonte: Edwards et al., 2012 apud SILVA, 2017, p. 63. 3.4.1 Princípios da governança pública Em 2001, a Federação Internacional de Contadores (IFAC) publicou o trabalho “Governança no Setor Público” (Governance in the Public Sector: A Governing Body Perspective), no qual redefiniu os princípios da governança para aplicabilidade nas organizações públicas. A partir dessa publicação, temos as seguintes definições: • Transparência (Disclosure): necessidade de os altos dirigentes das organizações públicas exporem toda informação relevante aos interessados e se colocarem à disposição para esclarecimentos, de modo que os interessados confiem nos processos de tomada de decisão, na gestão e nos agentes públicos (BRASIL, 2014). • Participação: a participação popular pode se dar de inúmeras formas. Uma delas é por meio da participação nas eleições para escolha dos representantes do povo, no âmbito dos entes federados. Outra possibilidade está na participação nas diversas modalidades de conselhos participativos, formadas por representantes do poder público e da sociedade civil (PISA, 2014). • Integridade (Integrity): necessidade de os altos dirigentes serem honestos e objetivos, adotando voluntariamente altos padrões de comportamento que conduzam os interessados ao reconhecimento de que seu comportamento é probo e apropriado. O cumprimento desse princípio depende da efetividade do modelo de controle e do profissionalismo dos agentes públicos (BRASIL, 2014). • Prestação de contas (Accountability): necessidade de que os altos dirigentes assumam integralmente a responsabilidade por decisões e ações de sua alçada e prestem contas por elas, inclusive pelos resultados alcançados. Para que esse princípio seja cumprido, é essencial haver uma clara definição de papéis e responsabilidades dos agentes públicos (BRASIL, 2014). Modelos de gestão pública 59 • Legalidade (Compliance): seu princípio hermenêutico está na solidariedade entre meios e fins, em que a razoabilidade da atividade administrativa, submetida, então, a uma avaliação de sua eficiência, diz respeito ao cumprimento das leis e regulamentos prescritos para a administração pública (FERRAZ JUNIOR, 2009). • Equidade (Fairness): preocupa-se com o abuso de poder, o desperdício de recursos e quaisquer outras questões que envolvam corrupção ou má gestão, ou seja, que impactem negativamente na adequada prestação de serviços aos cidadãos (IIA, 2012). • Efetividade: entendida como o grau em que se atingiu o resultado esperado, ou seja, um conceito de avaliação qualitativa dos serviços públicos (OSBORNE et al., 1994; ABRUCIO, 1997). Apesar dessas especificidades, de acordo com o IFAC (2001), transparência, integridade e responsabilidade são princípios importantes e que devem ser evidenciados no setor público, incluindo: os governos locais, como as cidades; as entidades governamentais, como agências, diretorias e comissões; e as empresas do governo, independente de os grupos governantes serem eleitos ou apontados e de eles incluírem ou não um grupo de pessoas ou um indivíduo. Em 2013, a IFAC, em conjunto com o CIPFA (The Chartered Institute of Public Finance and Accountancy), publicou o framework “Boa Governança no Setor Público” (Good Governance in the Public Sector: Consultation Draft for an International Framework), no qual definiu governança como as estruturas postas em prática para garantir que os resultados pretendidos pelas partes interessadas sejam definidos e alcançados (IFAC, 2013). Nos termos da IFAC, a função fundamental da boa governança no setor público é garantir que as suas organizações alcancem os resultados pretendidos, agindo sempre emprol do interesse da sociedade. A Figura 2 ilustra a relação entre os princípios-chave da boa governança. Figura 2 – Relação entre os princípios da boa governança no setor público Compromisso com a integridade, os valores éticos e respeito às leis. Garantir transparência e o engajamento das partes interessadas Definir resultados econômicos, sociais e ambientais sustentáveis Boas práticas de transparência e prestação de contas eficaz Resultados econômicos e sustentáveis Gerenciar os riscos e desempenho e forte controle interno e de gestão financeira Intervenção na otimização dos resultados pretendidos Fonte: Silva, 2017, p. 68. Fundamentos da Gestão Pública60 Segundo a OCDE (Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento), a consolidação e a promoção da boa governança dependem de avaliações consistentes da implementação de políticas públicas, de modo a permitir que “a sociedade, os formuladores de políticas e os agentes públicos tenham condições de avaliar os efeitos das ações adotadas e identifiquem eventuais medidas corretivas a serem adotadas” (OCDE, 2011, p. 17). Considerações finais Desde os anos 1980, conforme Kettl (2005, p. 75), “praticamente todos os governos têm empreendido esforços para modernizar e agilizar a administração pública”, notadamente em dois eixos principais: reduzir o alcance do governo e instigá-lo a funcionar melhor. Isso implicou na introdução de mudanças na orientação gerencial, por meio da observação de modelos, técnicas e ferramentas da gestão privada. A própria avaliação do desempenho na administração pública se altera, passando a ser balizada por critérios utilizados pela administração privada. Conforme observamos, a NPM objetiva uma gestão com foco em resultados e a qualidade dos serviços prestados. Porém, verifica-se que, em termos de desempenho gerencial, a adesão ao reformismo da NPM não tem conduzido a mudanças significativas de eficiência e melhorias na qualidade dos serviços públicos, o que conduziria, por conseguinte, à promoção do bem-estar social. Nesse contexto, propostas alternativas de reformas contemporâneas, como a governança pública, têm enfatizado a necessidade de se ampliar os instrumentos democráticos, tanto no sistema político, de modo amplo, quanto no âmbito dos processos decisórios na alocação dos recursos públicos, em conformidade com a demanda social. Isso revela a necessidade de se criar sinergias positivas entre Estado e sociedade como forma de enfrentar os desafios complexos da atualidade. Ampliando seus conhecimentos • GOVERNANÇA Pública - o que é? 1 vídeo (4:19’). Publicado pela canal Tribunal de Contas da União, 19 nov. 2013. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kGYdT1mJ- 0c&feature=youtu.be. Acesso em 26 dez. 2019. Quer saber mais sobre governança pública? Assista ao vídeo produzido pelo Tribunal de Contas da União. Note que governança e gestão são funções complementares. Enquanto a gestão maneja os recursos colocados à disposição da organização e busca o alcance dos objetivos estabelecidos, a governança provê direcionamento, monitora e avalia a atuação da gestão, com vistas ao atendimento das necessidades dos cidadãos e demais partes interessadas. Modelos de gestão pública 61 Atividades 1. Abrucio (1997) aponta quatro fatores que foram responsáveis pela derrocada dos modelos burocráticos de administração. Quais são eles? 2. O Supremo Tribunal Federal, por meio da Súmula Vinculante n. 13, tem buscado remediar os resquícios de patrimonialismo, principalmente uma das suas características. Qual é essa característica e o que descreve a Súmula? 3. Acesse o Decreto n. 9.203/2017, disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ Ato2015-2018/2017/Decreto/D9203.htm, e descreva quais são os princípios da governança pública elencados pela Administração Pública Federal. Referências ABRUCIO, F. L. O impacto do modelo gerencial na administração pública. In: Brasil (Ministério do Planejamento) Escola Nacional de Administração Pública. Cadernos ENAP, Brasília, v. 10, 1997. Disponível em: http://antigo.enap.gov.br/downloads/ec43ea4fAbrciocad%2010.pdf. Acesso em: 4 nov. 2019. ACUNHA, F. J. A administração Pública Brasileira no Contexto do Estado Democrático de Direito. Brasília: CEAD/UNB, 2013. BRASIL. Decreto n. 9.203, de 22 de novembro de 2017. Dispõe sobre a política de governança da administração pública federal direta, autárquica e fundacional. Presidência da República. Casa Civil. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Decreto/D9203.htm. Acesso em: 31 ago. 2019. BRASIL. Decreto-Lei n. 200, de 25 de fevereiro de 1967. Dispõe sobre a organização da Administração Federal, estabelece diretrizes para a Reforma Administrativa e dá outras providências. Presidência da República. Casa Civil. Brasília, DF, 1967. BRASIL. Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado. Câmara da Reforma do Estado. Brasília: MARE. Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado. 1995, 86 p. Disponível em: http://www. biblioteca.presidencia.gov.br/publicacoes-oficiais/catalogo/fhc/plano-diretor-da-reforma-do-aparelho-do- estado-1995.pdf. Acesso em: 26 ago. 2019. BRASIL. Tribunal de Contas da União (TCU). Relatório. TC 020.830/2014-9. 2014. BRESSER-PEREIRA, L. C. G.; SPINK, P. K. (orgs.). 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Internationalenvolvem a aplicação dos conhecimentos teóricos da Administração e das Ciências Gerenciais no setor público ou no processo de interação com essa área. Garson e Overman (1983) observam que a administração pública é um campo de estudos interdisciplinar, que captura, de um lado, as tensões entre uma orientação racional instrumental – voltada para a ampliação da eficácia e da eficiência – e, de outro, uma orientação política – que considera as questões dos valores e visa promover interesse público. Para Tostes (2004, p. 94, grifos nossos), a administração pública, em sentido institucional, é o conjunto de órgãos responsáveis pela consecução dos objetivos do governo; em sentido funcional, é o conjunto das funções necessárias aos serviços públicos em geral; e, em sentido operacional, é o desempenho perene e sistemático, legal e técnico dos serviços próprios do Estado ou por ele assumidos em benefício da coletividade. 1.1 Estado, governo e gestão pública É comum haver certa confusão entre as concepções de Estado, governo e gestão pública. Assim, nesta seção, buscaremos clarificar o entendimento desses conceitos. Por Estado, entende-se o conjunto de instituições públicas que representa, organiza e busca atender aos anseios da população que habita o seu território. No rol dessas instituições, podemos mencionar as escolas públicas, os hospitais públicos, os órgãos de segurança pública, dentre outras. O conceito de Estado moderno está estreitamente vinculado à noção de poder institucionalizado, isto é, “o Estado se forma quando o poder se assenta em uma instituição, e não em um indivíduo. Assim, podemos dizer que no Estado moderno, não há poder absoluto, pois mesmo os governantes devem se sujeitar ao que está estabelecido na Lei” (CÂMARA DOS DEPUTADOS, s.d.). res pública: do latim, significa coisa pública. Vídeo Fundamentos da Gestão Pública10 1.1.1 Elementos fundamentais do Estado Para existir, o Estado necessita de alguns elementos. Vejamos quais são eles: • Governo: sistema político que dirige um Estado com poder soberano. Utiliza-se do exercício do poder como mecanismo de controle da população para o cumprimento das normas como condição para a convivência social. • Povo: conjunto de habitantes de determinado local. • Território: extensão de terra que está sob a direção de um governo. Alguns autores ainda acrescentam um quarto elemento: • Soberania: poder absoluto de organizar-se e de fazer cumprir as suas decisões, inclusive pela força, se necessário. O Estado, por intermédio de seu governo, executa ações, programas e projetos, com a prerrogativa de limitar a ação dos indivíduos em prol do bem comum e até mesmo de empregar a força física (coerção) para fazer valer suas decisões. Compõem o Estado, ainda, a Constituição, os servidores públicos, os bens públicos, a máquina pública etc. A sociedade precisa dessas instituições, que são estáveis e impessoais, que não devem estar sujeitas às mudanças de governo no processo eleitoral, e que precisam ser republicanas, isto é, pertencentes ao conjunto da sociedade, e não aos interesses de quem está no poder. Dessa forma, nota-se que o governo é apenas uma das instituições que compõem o Estado e tem como função administrá-lo. Diferentemente dos Estados, que são estáveis, ele possui as características de ser transitório, apresentar-se de diferentes formas e mudar de um lugar para outro. 1.1.2 Teoria dos Três Poderes Montesquieu (1689-1755), no seu livro Espírito das leis (1748), defendeu que o Estado deveria dividir seu poderes em três: Legislativo, Executivo e Judiciário. Assim, a cada Poder caberiam funções e atribuições do Estado. Bastos et al. (2009) assinalam que a teoria da tripartição dos poderes inspirou a elaboração da Constituição dos Estados Unidos da América e teve o objetivo de não permitir interferências recíprocas nem a transferência ou delegação de poderes. A Revolução Francesa teve seu grande momento na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), que serviu de preâmbulo à Constituição de 1791, primeira Carta Constitucional da Europa continental. A Democracia Moderna, fundada no Estado Democrático de Direito e no constitucionalismo, não se utiliza da separação de poderes apenas para a divisão de funções, mas tem nela, também, um mecanismo de Figura 1 – Montesquieu W ik im ed ia C om m on s Introdução à gestão pública 11 autocontrole do Estado, permitindo a independência e a atribuição de fiscalização recíproca entre os poderes. No Brasil, o art. 2º da Constituição Federal (BRASIL, 1988) assim estabelece: “São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário”. Veja, a seguir, uma breve descrição das funções de cada um deles. • Poder Legislativo: tem o poder de legislar, isto é, de criar leis. Na maioria das repúblicas e monarquias, esse Poder é constituído por congressos, parlamentos, assembleias ou câmaras. Além disso, os legisladores têm a atribuição de fiscalizar as ações do Poder Executivo. • Poder Executivo: tem como competência a gestão das ações e dos recursos públicos, visando ao bem comum. • Poder Judiciário: tem o objetivo de julgar, dirimindo conflitos de interesses ou intervindo, se necessário, nos atos dos ocupantes do Legislativo ou do Executivo em relação ao cumprimento da legislação. Conforme observamos, embora o poder do Estado seja uno, existe uma separação das funções entre os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário). Assim, para atingir seus objetivos, o Estado se vale desses poderes, sendo que para dois deles os titulares são eleitos diretamente pela população: para o Poder Executivo, elegem-se o prefeito, o governador e o presidente da República; e, para o Poder Legislativo, nomeiam-se os vereadores, os deputados estaduais, os deputados federais e os senadores. Quadro 1 – Poderes no Brasil Níveis Poder Executivo Legislativo Judiciário Federal Presidente da República, vice-presidente e ministros de Estado Congresso Nacional (Câmara dos Deputados e Senado Federal) Supremo Tribunal Federal, Superior Tribunal de Justiça, Tribunais Regionais e Juízes Federais de 1ª instância Estadual Governadores, vice-governador e secretários Assembleias legislativas Tribunais e juízes estaduais de 1ª instância Municipal Prefeitos Câmaras municipais - Fonte: Elaborado pelo autor. A teoria da tripartição dos poderes busca assegurar a moderação em suas ações. Nesse sentido, um poder refrearia os abusos e as arbitrariedades de outro por meio dos chamados sistemas de freios e contrapesos (checks and balance systems). O sistema de freios e contrapesos, ao mesmo tempo em que limita a atuação dos poderes, garante a total liberdade política dos indivíduos. Permite, do mesmo modo, a formação do Estado de Direito, na medida em que previne o abuso de governos e governados, submetendo-os às Fundamentos da Gestão Pública12 normas e aos processos legais, de acordo com os quais ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, senão em virtude de lei. 1.1.3 Governo O governo pode ser entendido em três sentidos diferentes. Em sentido institucional, é o conjunto de poderes e órgãos constitucionais; em sentido funcional, é o complexo de funções estatais básicas; e, em sentido operacional, é a condução política dos negócios públicos. Meirelles (1990, p. 61) faz uma distinção conceitual entre governo e administração: governo é atividade política e discricionária; administração é atividade neutra, normalmente vinculada à lei ou à forma técnica. Governo é a conduta independente; administração é conduta hierarquizada. O governo comanda com responsabilidade constitucional e política, mas sem responsabilidade profissional pela execução; administração executa sem responsabilidade constitucional ou política, mas com responsabilidade técnica e legal pela execução. A administração é o conjunto instrumental de que dispõe o Estado para pôr em prática as opçõesFederation of Accountants. Good Governance in the Public Sector. Consultation Draft for na International Framework, jun. 2013. IFAC. International Federation of Accountants. Governance in the public sector: a governing body perspective. PSC, Study 13, 2001. Disponível em: https://www.ifac.org/publications-resources/study-13- governance-public-sector. Acesso em: 27 ago. 2019. IIA. Institute of Internal Auditors. Supplemental guidance: the role of auditing in public sector governance. 2. ed. 2012. Disponível em: https://na.theiia.org/standards-guidance/Public%20Documents/Public_Sector_ Governance1_1_.pdf. Acesso em: 30 ago. 2019. KETTL, D. F. 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Dessa forma, pretende-se, neste capítulo, que você perceba as duas grandes faces da política pública: a resultante do planejamento racional, realizado pelo Estado (policy), e a referente às ações dos atores políticos, visando à defesa dos seus interesses e valores (politics). 4.1 Conceitos de políticas públicas Diversos estudos sobre políticas públicas tentam apresentar um conceito próximo daquilo que poderia ser considerado um consenso universal. Entretanto, eles acabam por reafirmar que o tema é muito abrangente, englobando pesquisas no mundo todo, que buscam adequar a teoria à prática das políticas públicas. A definição mais conhecida para política pública é dada por Thomas Dye (1984 apud Souza, 2006, p. 30), que a define como “tudo aquilo que os governos decidem fazer ou deixar de fazer”1. As políticas públicas definem o fornecimento de benefícios, as medidas regulatórias e a arrecadação de impostos, necessários frente aos problemas de determinada sociedade. O foco de estudo da política, embora componha o termo, distingue-se do foco de estudo das políticas públicas. Enquanto a primeira tenta orientar o comportamento humano em direções aceitáveis, por meio das relações de poder, a segunda pode ser considerada a prática de promover o bem comum entre os cidadãos. Por isso, seus formuladores interferem nos valores sociais e seus conflitos, determinando intenções, metas, planos, programas e escolhas a serem feitos sobre a vida pública. Além de Dye, outros autores merecem destaque quando tratamos de políticas públicas. Dentre eles estão: Harold Laswell, que introduziu no ambiente acadêmico a expressão análise política; Robert Simon, que estudou a racionalidade limitada dos decisores de políticas; Charles Lindbom, que incorporou outras variáveis às políticas públicas, como as relações de poder; e David Easton, que definiu políticas públicas como sistema de grupos de interesses (SOUZA, 2006). Laswell contribuiu também com alguns questionamentos bastante comuns para políticas públicas: para ele, trata-se de quem ganha o quê, por quê e que diferença isso faz. 1 O simples fato de o governo decidir não agir sobre determinado tema é considerado uma política pública. Por isso, do mesmo modo que um problemacuja solução não dispõe de alternativas por si só está resolvido, fazer ou deixar de fazer algo a respeito da vida pública resulta em adoção de uma política pública. Vídeo Fundamentos da Gestão Pública66 Conforme afirma Queiroz (2009), outra forma de se conceituar política pública é defini-la como o processo de escolha dos meios para a realização dos objetivos da sociedade, processos estes geridos pelo governo. Assim, o autor reafirma que as políticas públicas devem estar sujeitas aos preceitos da Constituição Federal. Embora sofram críticas quanto à forma de cooperação que deva existir entre governos e outras instituições e grupos sociais, em última instância, as políticas públicas são decididas dentro do governo. No entanto, conforme estudaremos, “qualquer teoria da política pública precisa também explicar as inter-relações entre Estado, política, economia e sociedade” (SOUZA, 2006, p. 25). Historicamente, houve um boom na análise de políticas públicas no Brasil nos anos 1980. Isso ocorreu devido à transição democrática, aos obstáculos à consecução de políticas sociais e à ideia de reforma do aparelho do Estado, mas, principalmente, devido à necessidade de restrições de gastos durante o fim do Governo Militar. Quando entramos em contato com a literatura nacional dessa área, percebemos o uso expressivo de conceitos em inglês, os quais possuem traduções próximas da nossa realidade. Termos como polity, que é usado para denominar instituições políticas; politics, que se refere aos processos políticos; e policy, cujo foco está no conteúdo da política, ou seja, nas configurações dos programas políticos, são utilizados nesse contexto. Tais conceitos, normalmente, aglutinam-se no processo de policy analysis (análise política), mas, dado o campo de pesquisa vasto e inovador, o assunto não se limita à dedução teórica, sendo exigidos estudos empíricos sobre cada campo político (FREY, 2000). Polity Politics Policy Instituições políticas Processos políticos Conteúdo da política Contudo, o pesquisador se obriga a considerar as dimensões polity e politics como independentes, otimizando um programa de ação com base em estruturas políticas e em relações de poder preexistentes. Dificilmente ele poderá separar completamente essas duas dimensões, uma vez que, ao buscar a gênese dos programas políticos, tem de lidar com os processos políticos administrativos. As políticas públicas estão presentes em diversas áreas: nas instruções normativas da área econômica, na questão da livre concorrência, no caso de agências reguladoras e na área social, como no estabelecimento de transferência de renda, por exemplo. Nota-se, ainda, que algumas políticas públicas visam arrecadar recursos da sociedade por meio de tributos, regular comportamentos e conflitos, além de distribuir benefícios e serviços à sociedade civil. 4.1.1 Políticas públicas: de Estado ou de Governo? Na prática, a sociedade civil não percebe as diferenças entre políticas públicas de Estado e de Governo. Normalmente, essas diferenças são apresentadas em períodos eleitorais, quando candidatos defendem as políticas públicas implementadas em governos anteriores ou as que irão Políticas públicas no Brasil 67 implementar, caso sejam eleitos, assim como as que manterão em vigor. Contudo, algumas políticas se tornam símbolo de campanha e podem soar como iniciativa partidária, quando, na verdade, são obrigações dos governos. Para Souza (2006, p. 30), as políticas públicas de Estado possuem “caráter particularmente estável e inflexível e obrigariam todos os governos de um Estado em particular a implementá-las, independentemente dos mandatos que os eleitores lhes confiassem, em momentos históricos distintos”. Com isso, é possível compreender que as políticas públicas de Governo, ao contrário das de Estado, possuem caráter transitório, conforme os interesses do governo vigente e das pressões dos atores envolvidos. As políticas públicas de Estado independem das ideologias partidárias dos governos que a antecedem ou a sucedem, pois já estão perpetuadas no regimento do Estado. Como exemplo, temos a educação obrigatória do ensino fundamental e médio, a ser disponibilizada para todos os cidadãos, e o Sistema Único de Saúde (SUS), de caráter universal. Já as políticas públicas de Governo estão atreladas à ideologia partidária e às propostas de campanha. Nos últimos anos, algumas políticas nacionais governamentais geraram um grande debate na sociedade, como os programas Mais Médicos e Bolsa Família. O programa Bolsa Família, criado pela Lei Federal n. 10.836, de 9 de janeiro de 2004, está regulamentado pelo Decreto n. 5.209, de 17 de setembro de 2004 e objetiva contribuir com a redução da pobreza e desigualdade no país. Ele está consubstanciado em três eixos: complemento da renda, acesso a direitos e articulação com outras ações. 4.2 Tipos de políticas públicas Nesta seção, veremos as tipologias de políticas públicas e suas classificações, que permitem a compreensão e a análise com base em diferentes variáveis. Primeiramente, estudaremos na perspectiva de Theodore Lowi (1964) e, posteriormente, em outras abordagens. Inicialmente, cabe apontar que nenhuma das tipologias encontradas na literatura dá conta de abordar todos os aspectos das políticas públicas. Secchi (2012) explica que as tipologias de políticas públicas são termos que visam classificar os atores, os estilos e as instituições no processo de políticas públicas. Uma tipologia é um esquema de interpretação e análise de um fenômeno baseado em variáveis e categorias analíticas. Uma variável é um aspecto discernível de um objeto de estudo que varia em qualidade ou quantidade. Uma categoria analítica é Figura 1 – SUS Figura 2 – Bolsa Família Vídeo Fundamentos da Gestão Pública68 um subconjunto de um sistema classificatório usado para identificar as variações em quantidade ou qualidade de uma variável. (SECCHI, 2012, p. 16) As arenas políticas, portanto, são formadas a partir das preferências de cada um dos atores e suas alianças e das expectativas dos resultados atingidos na solução de um problema. 4.2.1 Tipologias conforme Lowi As tipologias mais conhecidas sobre políticas públicas foram elaboradas por Theodore Lowi (1964). O autor defende que cada tipo de política pública encontra diferentes formas de apoio e de rejeição e que cada uma de suas decisões passa por diferentes arenas. Lowi (1964) identifica quatro tipos de políticas públicas, sendo que cada uma corresponde a uma arena (politics) à qual a policy deu origem, a partir das expectativas dos atores, conforme observaremos a seguir. 4.2.1.1 Políticas públicas distributivas As decisões tomadas pelo governo, ao desconsiderar os seus recursos limitados, podem acabar gerando para os atores alguns impactos individuais. Ao privilegiar determinados grupos sociais ou regiões do país, mediante recursos provenientes de toda a coletividade, as políticas desenvolvidas podem não chegar, ou seja, ser distribuídas a todos de maneira equânime (SOUZA, 2006). As políticas públicas distributivas dificilmente despertam rejeição “porque alocam recursos para bens e serviços que são essenciais à população, tais como hospitais, escolas, estradas, pontes, casas, cestas básicas, vacinas aplicadas, medicamentos distribuídos, livros didáticos etc.” (RUA, 2009, p. 77). 4.2.1.2 Políticas públicas regulatórias O segundo tipo são as políticas regulatórias, ou seja, políticas que estabelecem regulamentos em vez de proporcionar bens ou serviços. Compreendem forte capacidade de conflito, porque implicam delimitar as regras para a implantação de empreendimentos, para a obtenção de determinados recursos, fixando critérios, estabelecendo interdições, definindo sanções etc. Devido ao grande número de interesses envolvidos, as demandas são fortemente fragmentadas em um sistema decisório altamente concentrado, envolvendo burocratas, políticos e grupos de interesse, sendo mais visíveis ao público.São exemplos de políticas regulatórias o Código de Trânsito, o Código Florestal, a Legislação Trabalhista etc. 4.2.1.3 Políticas públicas redistributivas Essas políticas alcançam um número maior de pessoas, pois são consideradas políticas sociais universais. Por exemplo: o sistema tributário, a reforma agrária e o sistema previdenciário, sendo este último o melhor e mais atual, ou seja, é a política de mais difícil encaminhamento por abranger todas as diferentes classes sociais. Políticas públicas no Brasil 69 4.2.1.4 Políticas públicas constitutivas São políticas que estabelecem competências, normas de disputa política e elaboração das demais políticas públicas. Para Secchi (2012, p. 18), tais políticas “são denominadas meta-policies2, porque se encontram acima dos outros três tipos de políticas e comumente moldam a dinâmica política nessas outras arenas”. Conhecida como estruturadora, de acordo com Rua (2013, p. 74), as políticas constitutivas dizem respeito à esfera da própria política e suas instituições; faz referência à criação e modelagem de novas instituições, à modificação do sistema de governo ou do sistema eleitoral, à determinação e configuração dos processos de negociação, de cooperação e de consulta entre os atores políticos. São exemplos de políticas constitutivas as seguintes regras: de distribuição de competência entre os três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário); do sistema político eleitoral; de relações intergovernamentais; e da participação da sociedade civil nas decisões políticas (SECCHI, 2012). 4.2.1.5 Outras tipologias Outras tipologias de políticas públicas foram desenvolvidas, como a de Wilson (1973 apud RUA; ROMANINI, 2013), que contestou as políticas de Lowi, adotando critérios de distribuição dos benefícios e dos custos da policy. As modalidades são apresentadas no quadro a seguir. Quadro 1 – Políticas públicas quanto ao padrão de distribuição e custos da policy Políticas clientelistas Têm benefícios concentrados e custos dispersos, pois toda sociedade arca com seu custo para que alguns poucos grupos tenham benefícios. Ex.: subsídios, renúncias fiscais etc. Políticas majoritárias Os custos e benefícios são distribuídos pela coletividade. Ex.: serviços de saúde, educação, energia etc. Políticas empreendedoras Os benefícios são coletivos, e os custos ficam concentrados sobre certas categorias. As mudanças oneram alguns em benefício de todos. Ex.: reforma administrativa, política ambiental etc. Políticas de grupos de interesses Os custos e benefícios estão concentrados sobre certas categorias, ou seja, alguns grupos arcam com todo o custo e outros recebem todo o benefício. Ex.: reforma agrária, política tributária etc. Fonte: Adaptado de Rua; Romanini, 2013, p. 5. Teixeira (2002 apud MERIGO; ANDRADE, 2010) qualifica as políticas públicas quanto à sua abrangência, conforme demonstrado no Quadro 2. 2 É uma abordagem de sistemas e contexto. Seu escopo é a macroescala e sua interpretação do problema é, geralmente, de natureza estrutural. Seu objetivo é explicar os fatores contextuais do processo político, i.e., quais são os fatores políticos, econômicos e socioculturais que o influenciam. Fundamentos da Gestão Pública70 Quadro 2 – Políticas públicas quanto à abrangência Políticas universais Que alcançam a todos os cidadãos. Ex.: SUS. Políticas segmentais Aquelas caracterizadas por um fator determinado (idade, condição física, gênero etc.). Ex.: Estatuto da Criança e do Adolescente, Política de Cotas no Ensino Superior etc. Políticas fragmentadas Destinadas a grupos específicos dentro de cada segmento da sociedade. Ex.: Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PET). Fonte: Teixeira, 2002, apud Merigo; Andrade, 2010. Analisando as políticas públicas por outra dimensão e com base em outro critério de tipificação, Gustafsson (1983 apud RUA; ROMANINI, 2013, p. 7) sugere que as políticas públicas sejam divididas de acordo com: a) A intenção dos governantes de implementar a policy; e, b) A disponibilidade de conhecimento para sua formulação e implementação. Com base nessas variáveis, são identificados os tipos discriminados no Quadro 3. Quadro 3 – Dimensões das políticas públicas Políticas reais Aquelas que os governantes têm a intenção efetiva de implementar e possuem o conhecimento para isso. Selecionam-se as estratégias e alocam-se os recursos com a finalidade de que os problemas políticos sejam, de fato, resolvidos. Políticas simbólicas Aquelas que, mesmo em posse do conhecimento necessário, os governantes não têm a intenção de implementar. Elas até são formuladas, contudo não há compromisso por parte dos governantes para sua implementação. Pseudopolíticas Os governantes têm a real intenção de implementar, mas não dispõem do conhecimento necessário. Especialistas em formulação de projetos e consultores participam para elaborar e implementar políticas efetivas, porém enfrentam baixa capacidade de gestão, comprometendo a efetividade das demandas por políticas públicas. Políticas sem sentido Os governantes não pretendem implementar. São propostas sem cabimento, fundamentos técnicos; são usadas somente como discurso político, descompromissadas com o atendimento das demandas. Fonte: Adaptado de Rua; Romanini, 2013, p. 7. Em relação às políticas sociais, as políticas públicas são conceituadas em dois tipos: Políticas compensatórias: são implementadas com o propósito de minimizar distorções sociais profundas. Ex.: políticas de cotas, políticas de demarcação de terras indígenas etc. Políticas emancipatórias: aquelas que se dirigem ao empoderamento e à autonomização dos grupos sociais inicialmente vulneráveis, de modo a promover sua independência frente à ação do Estado. Ex.: reforma agrária, qualificação profissional etc. (RUA; ROMANINI, 2013, p. 9, grifos no original) Uma outra tipificação possui características setoriais, além de aspectos administrativos. Nela, as organizações, os atores, seus objetivos e recursos são do interesse de cada área (RUA; ROMANINI, 2013). Elas podem ser classificadas conforme é apresentado no Quadro 4. Políticas públicas no Brasil 71 Quadro 4 – Políticas públicas quanto às características setoriais Políticas sociais Destinadas a prover o exercício de direitos sociais, como educação, seguridade social (saúde, previdência e assistência), habitação etc. Políticas econômicas Gestão da economia interna e promoção da inserção do país na economia externa. Ex.: política cambial, monetária, fiscal, agrícola, industrial etc. Políticas de infraestrutura Asseguram as condições para a implementação e a consecução dos objetivos das políticas econômicas e sociais. Ex.: energia elétrica, combustíveis, petróleo e gás, oferta de água, comunicações, saneamento básico, mobilidade urbana etc. Políticas de Estado Visam garantir o exercício da cidadania, a ordem interna, a defesa externa e as condições essenciais à soberania nacional. Ex.: política de segurança pública, defesa, relações exteriores etc. Fonte: Adaptado de Rua; Romanini, 2013, p. 10. Com base no exposto, observamos que as políticas de Estado são distintas das políticas de Governo. Enquanto as primeiras tratam de policies, ou seja, vão além do período que um governo exerce o poder (mandato eletivo), as políticas de Governo são passageiras e vigoram somente no mandato de seus formuladores. Estudamos que as políticas públicas são um amplo e diferenciado universo e que não há uma única tipologia capaz de abordar todos os seus aspectos. Em tese, o foco de análise da política pública está na identificação do tipo de problema que esta visa corrigir, bem como as regras que irão se adequar à sua decisão e à sua implementação. Isso permite compreender melhor o problema para o qual ela foi delineada, seus possíveis conflitos, o percurso seguido, assim como o papel que os indivíduos e os grupos envolvidos terão na decisão e quais instituições serão impactadas por determinada política pública (SOUZA,2006). 4.3 Modelos de análises de políticas públicas Para Heidemann e Salm (2009), a transformação das políticas públicas em ações e mudanças efetivas depende de teorias e modelos que auxiliem os agentes a pensá-la e operacionalizá-la. Dye (2009) descreveu alguns modelos que influenciaram a análise de políticas públicas ao longo do século XX. Nesta seção, veremos quais são eles. 4.3.1 Modelo institucional Políticas públicas e instituições governamentais possuem uma relação muito próxima, pois uma política não se torna pública enquanto não for adaptada, implementada e executada por alguma instituição governamental, ou seja, o governo precisa dar legitimidade a ela. Cabe ressaltar que, uma vez que as instituições podem provocar importantes consequências na política, se torna relevante, para a formulação desta, a abordagem estrutural no modelo institucional. Vídeo Fundamentos da Gestão Pública72 4.3.2 Modelo de processo Pode-se entender o processo político como uma série de atividades políticas de identificação de problemas, definição e formação da agenda, formulação, tomada de decisão, legitimação, implementação e avaliação. O modelo de processo é útil para ajudar a compreender as diversas atividades envolvidas na elaboração das políticas públicas. Nesse modelo, deve-se ter em mente as seguintes etapas: • Identificação dos problemas. • Formação da agenda ou agenda setting (capturar a atenção dos formuladores de políticas). • Formulação de propostas (elaborar e selecionar as alternativas políticas). • Legitimação da política (junto ao poder legislativo). • Implementação das políticas públicas (por meio da burocracia, investimentos públicos, cumprimento das leis). • Avaliação das políticas públicas. O modelo sugere apontar como os processos se dão a partir do comportamento dos atores políticos, posto que esse modelo permita entender como as políticas são formuladas. Pouco se descreve sobre seu conteúdo (DYE, 2009). 4.3.3 Modelo racional Diz-se que a política é racional quando é mais eficiente, ou seja, se a relação entre os valores obtidos e os recursos expendidos é positiva e maior que qualquer preferência concebida para o alcance de objetivos determinados. Essa ideia de eficiência envolve o cálculo dos valores sociais, políticos e econômicos sacrificados ou alcançados pela política pública. O modelo racional tem como premissa que nenhuma política deve ser adotada se seus custos excederem os seus benefícios (RUA, 2009). Na escolha de uma política de modo racional, os decisores políticos devem, a princípio, seguir as etapas descritas na Figura 3, a seguir. Figura 3 – Etapas para a escolha racional de uma política pública Conhecer todas as consequências de cada alternativa política Conhecer todas as alternativas políticas disponíveis Selecionar a alternativa política mais eficiente Calcular a relação de benefícios para os custos de cada alternativa política Saber as preferências da sociedade, os valores e seus pesos relativos Fonte: Elaborado pelo autor. Políticas públicas no Brasil 73 Rua (2009) identifica que nesse modelo há algumas limitações, como a capacidade moderada de explicar a autonomia e o poder discricionário dos indivíduos dentro das organizações. Do mesmo modo, é enorme a quantidade de variáveis econômicas, políticas, sociais e culturais envolvidas no processo de elaboração de políticas públicas, o que torna impossível aos decisores manipulá-las completamente. 4.3.4 Modelo incremental A visão da política pública como um processo incremental foi desenvolvida por Lindblom (1979) e Caiden e Wildavsky (1980). Esse modelo a vê como uma continuação das atividades do governo do passado, com modificações apenas incrementais, além de reconhecer a natureza impraticável da formulação de política “racional abrangente”. Descreve, ainda, um processo mais conservador de tomada de decisão. O incrementalismo é importante na redução de conflitos, mantendo a estabilidade e a preservação do próprio sistema político. Nele, os tomadores de decisão aceitam a legitimidade dos programas estabelecidos e concordam em dar continuidade às políticas já existentes, pois para desenvolver novas políticas demandam-se tempo, competências e recursos, que nem sempre estão disponíveis para os decisores (RUA, 2009). Politicamente, o incrementalismo é conveniente, haja vista que os acordos tendem a ser mais fáceis quando as questões se referem somente ao acréscimo ou à redução de orçamentos ou a mudanças no programa. Para Souza (2006), no incrementalismo, as decisões anteriores inibem as decisões futuras e restringem a capacidade dos governos de assumir novas políticas públicas ou de redirecionar o caminho das políticas atuais. 4.3.5 Modelo da teoria dos grupos Nesse modelo, o processo de equilíbrio entre os interesses de diferentes grupos da sociedade inicia com a suposição de que a interação entre eles é fundamental nas políticas públicas. Assim, os grupos pressionam os governos para o atendimento de suas demandas, de modo que a tarefa do sistema político é de: • estabelecer as regras do jogo na luta do grupo; • organizar compromissos e equilibrar interesses; • promulgar compromissos na forma de políticas públicas; • fazer cumprir os compromissos promulgados. Nesse contexto, a influência dos grupos é determinada por suas riquezas, sua força organizacional, sua liderança, seus números, seu acesso aos tomadores de decisão e de coesão interna. Nessa teoria, o cerne da política pública é o equilíbrio alcançado na luta entre os diversos interesses. Fundamentos da Gestão Pública74 4.3.6 Modelo da teoria dos jogos A teoria dos jogos tem como escopo de análise situações em que o resultado da ação de indivíduos, grupos ou instituições depende essencialmente das ações dos outros envolvidos, isto é, cuida de situações em que nenhum indivíduo pode, proveitosamente, tomar decisão sem considerar as possíveis decisões dos outros. Conforme afirma Figueiredo (1994), a teoria dos jogos foi cunhada por von Neumann, em 1928, por meio do teorema minimax3. Entretanto, só veio chamar a atenção do público no ano de 1944, ao propor a análise do comportamento econômico via perspectiva do “jogo de estratégia”, em parceria com Morgenstern. A defesa de von Neumann se deu no sentido de reformular a teoria econômica, propondo uma vertente inovadora, denominada processo competitivo, em que os agentes econômicos atuariam estrategicamente (VON NEUMANN; MORGENSTERN, 1972). A teoria dos jogos é um modelo abstrato de policy making que não retrata como as pessoas verdadeiramente tomam decisões, mas como elas se estabelecem diante de circunstâncias competitivas. 4.3.7 Modelo de elite Nesse modelo, supõe-se que as elites rotineiramente moldam – ou até mesmo manipulam – a opinião pública, fazendo com que a comunicação seja realizada de cima para baixo (downward). Isso decorre do fato de que as pessoas, usualmente, são mal informadas sobre política pública e os administradores cumprem as decisões daqueles que ocupam posições de poder, uma vez que as demandas não provêm das massas, mas sim das elites (RUA, 2009). Nesse sentido, as eleições e os partidos têm apenas um valor simbólico, que faz a ligação entre os cidadãos e o sistema político ao oferecer-lhes a prerrogativa de serem eleitores e de escolherem um partido com o qual se identifiquem. 4.3.8 Modelo da escolha pública (public choice) Essa teoria pressupõe que todos os atores procuram maximizar os seus benefícios pessoais na política e no mercado. A teoria reconhece que o Governo deve desempenhar determinadas funções com as quais o mercado é incapaz de lidar, ou seja, ele deve resolver certas falhas de mercado. Essa teoria pode ser entendida como uma ampliação de métodos próprios da análise econômica à política. Nesse sentido, a escolha pública pode ser entendida sob uma perspectiva econômica, ao mesmo tempo que a tomada de decisões ocorre por meio de processos não sujeitos diretamenteà dinâmica do mercado. A teoria busca, ainda, explicar por que os candidatos e os partidos políticos, de modo geral, não conseguem oferecer alternativas políticas transparentes em campanhas eleitorais, visto que o interesse maior é vencer as eleições. Eles formulam suas propostas para ganhar eleições, não ganham as eleições para formular políticas. 3 O Teorema Minimax, de John von Neumann, é um método para minimizar a perda máxima (minmax) ou maximizar o ganho mínimo (maxmin). Políticas públicas no Brasil 75 4.3.9 Modelo sistêmico Dye (2009) trata do modelo sistêmico com base na teoria dos sistemas, proposta por David Easton. Esse modelo investiga como o ambiente e o sistema político interferem no conteúdo da política pública e como esta afeta a dinâmica do sistema político por meio de processos de feedback (SANTOS, 2012). O conceito de sistema implica uma série de instituições e atividades na sociedade que caminham para modificar demandas em decisões imperativas, interpondo esteio legitimador da sociedade como um todo. Sendo assim, nesse modelo, a política é definida conforme as forças que são geradas no ambiente de um sistema político (RUA, 2009). As forças que influenciam o sistema político são os inputs, e o ambiente é alguma situação ou conjuntura fixada como fronteira externa ao sistema político. Os outputs do sistema político são distribuições categóricas de valores do sistema, declaradas como decisões e políticas públicas; já os inputs ocorrem em múltiplos níveis sistêmicos, por exemplo, o sistema internacional global, que envolve nações, blocos regionais, organismos internacionais, atores transnacionais (sistema financeiro global, organizações multinacionais, ONGs etc.) (RUA, 2009). Um dos elementos do sistema internacional/global são as sociedades nacionais, que formam, cada uma delas, um sistema nacional composto de diversos subsistemas (Figura 4). Figura 4 – Subsistemas nacionais Subsistema econômico Subsistema social Subsistema cultural Subsistema político Relações de produção, troca, circulação de bens e serviços Relações de classe, gênero, etnia, gerações etc. Manifestações artísticas, religiosas etc. Instituições do Executivo, do Legislativo, do Judiciário. Instituições de representação de interesses, quadro administrativo público e forças de segurança pública Fonte: Adaptado de Rua, 2009. Fundamentos da Gestão Pública76 O processamento dos inputs no subsistema político engloba algumas ações, como a elaboração da agenda governamental, a definição das alternativas para responder às demandas, a tomada de decisão e a execução das políticas. É nele que se criam e revelam-se os withinputs4. O modelo sistêmico, representado na Figura 5, ilustra as demandas do sistema político e as características que o capacitam para transformá-las em decisões e políticas públicas (RUA, 2009). Figura 5 – Modelo sistêmico político Sistema Internacional Global Sistema Nacional (Social, econômico, cultural etc.) Sistema político withinputs INPUTS OUTPUTS Demandas Apoio Decisões Ações Retroalimentação (feedback) Fonte: Elaborado pelo autor com base em Easton, 1969; Rua, 2009; Santos, 2012. Ao mesmo tempo, o modelo procura explicar como os inputs afetam o conteúdo da política pública e, por meio de processos de feedback, como ela afeta o ambiente e a dinâmica do sistema político. Esse modelo possibilita compreender de modo mais substantivo como as demandas surgem, se estruturam e são direcionadas pelo governo em situações específicas (RUA, 2009). 4.4 O ciclo das políticas públicas Elaborar políticas públicas envolve etapas interdependentes e nem sempre sequenciais, que, juntas, formam o ciclo de política pública. Embora haja diversas propostas de ciclos, apresentaremos o ciclo dividido em sete fases, que são: i) identificação do problema, ii) formação da agenda, iii) formulação de alternativas, iv) tomada de decisão, v) implementação, vi) avaliação; e vii) extinção (SECCHI, 2012). 4 Expressa demanda e apoio. Distingue-se dos inputs pelo fato de que são provenientes do próprio sistema político: dos agentes do Executivo (ministros, burocratas, tecnocratas etc.), dos parlamentares, dos governadores de Estado, do Judiciário (RUA, 2009). Vídeo Políticas públicas no Brasil 77 Figura 6 – Ciclo das políticas públicas Extinção Identificação do problema Formação da agenda Formulação de alternativas Tomada de decisão Implementação Avaliação Fonte: Adaptado de Secchi, 2012. Muitas vezes, as fases não são perceptivamente definidas como na teoria, dadas as suas dinâmicas. Embora apresentadas sequencialmente, as etapas podem ocorrer concomitantemente e misturadas, sem a necessidade de conclusão de uma para que a outra se inicie. No entanto, compreender o ciclo contribui para uma melhor análise dos preceitos que envolvem o desenvolvimento das políticas públicas. O ciclo político enfoca um quadro de análise processual, evidenciando a forma como os governos agem em cada etapa, modelando e remodelando as políticas públicas. Visto assim, podemos concluir que o ciclo é gerido pelo governo sob os preceitos institucionais vigentes, mas outros atores impactam diretamente nas decisões de cada etapa. 4.4.1 Identificação do problema Os problemas sociais podem ter origem recente, como catástrofes naturais, por exemplo, ou estarem presentes há muito tempo em determinado território, mesmo que não tenham sido definidos anteriormente como tal; mas, a partir do momento que um assunto ganha destaque como problema social, ele passa a tomar espaço nos canais de comunicação da sociedade a ponto de compor os debates políticos. Quando recebe um notório reconhecimento, a solução para um problema social passa a interferir no cenário político, em que se buscam soluções por intermédio de políticas públicas. Por isso, esse é considerado o primeiro passo do ciclo, visto que as políticas públicas se embasam no montante de problemas presentes. Para Rua (2009), existem três tipos de demandas, as quais podem ser vistas como identificação de problemas. São elas: Fundamentos da Gestão Pública78 • as demandas novas, que resultam do surgimento de novos problemas ou atores expressivos e passam a pressionar o sistema político e exigir soluções, como o caso da questão ambiental, que, por décadas, durante a industrialização do país, não representou efetivamente um problema; • as demandas recorrentes, que expressam problemas rotineiros no debate político e não receberam o devido tratamento no passado. Uma demanda recorrente do país é a reforma urbana, problema advindo do século XX, para o qual as legislações recentes buscaram solução; porém o debate continua expressivo; e • as demandas reprimidas, que se referem às insatisfações sem forças para mobilizar atores governamentais. Rua (2009) menciona tais demandas como “estado de coisas” que se arrastam por um longo tempo sem evidência. Figura 7 – Formação de um problema Recorrentes Problema Novas Estado de coisas Demandas Reprimidas Sociedade/Governo Fonte: Adaptado de Rua, 2009. A caracterização do problema se dá a partir do momento em que há engajamento de determinados atores que possibilitam a sua identificação ou, ainda, da mudança de outros fatores sociais. Como exemplo, no primeiro caso, a igualdade de gêneros é colocada em foco pela iniciativa de movimentos sociais. No segundo caso, tem-se que questões sobre melhores condições de trabalho possuem maior impacto quando o desemprego não está em alta. Nem sempre as políticas públicas são capazes de solucionar completamente um problema, mas ela podem possibilitar a minimização de seus impactos. Além disso, nem todos os problemas sociais são solucionados por iniciativas de políticas públicas, dadas às limitações do governo diante da sobrecarga de demandas. Assim, este passa a escolher os problemas sociais que receberão tratamento, que são, assim, incluídos em sua agenda política. Políticas públicas no Brasil79 4.4.2 Formação da agenda No momento da definição da agenda política, ocorrem conflitos para o estabelecimento de prioridades a serem atendidas pelo governo. Dada a impossibilidade de atendimento universal dos problemas públicos em um mesmo momento, o governo passa a formar sua agenda com base nos problemas que considera primordiais. Uma agenda política pode ser definida como a lista de prioridades assumidas pelo governo com base em um processo competitivo entre os atores. Tal como observamos no estudo sobre políticas públicas de Governo e de Estado, é comum ouvirmos referências a respeito da existência de uma agenda de Estado e uma agenda de Governo (RUA, 2009). A diferença entre ambas é a abrangência: a agenda de Estado trata de problemas universais permanentes, como a universalização da educação; já a governamental abrange especificamente problemas que um governo optou por tratar. Os motivos que levam o governo a interferir nos problemas sociais são diversos, normalmente embasados em filosofias políticas, ideologias ou promessas de campanha. Kraft e Furlong (2010) apontam três principais motivações de ação: i) políticas, ii) éticas ou morais e de iii) economia e falha de mercado. Por motivações políticas se entende as mudanças de opiniões públicas, expostas através dos meios de comunicação. Nesse ponto, a mídia possui grande peso de interferência por ter acesso a uma grande quantidade de pessoas e possuir o poder de evidenciar ou inibir assuntos expostos em sua rede. O crescente uso de ferramentas virtuais, como redes sociais ou endereços eletrônicos, por meio dos quais se pode saber a opinião pública, também são extremamente relevantes. Por exemplo, ambos interferiram na opinião pública a respeito dos recentes combates contra a corrupção pública. Quanto aos motivos éticos e morais, o governo pode ser pressionado por grupos para agir em prol da coisa certa a se fazer, como combate à pobreza e à violação de direitos humanos. A formação de movimentos ou as mobilizações sociais na busca de ações dos políticos são um exemplo de agentes de pressão, capazes de modelar as opiniões da elite política5. Um exemplo são os movimentos sociais em busca de igualdade de gênero ou de liberdade religiosa. Quanto à interferência na economia, a maioria dos economistas defendem a mínima intervenção do governo no mercado, mas apoiam também que o governo precisa atuar em suas falhas, ou seja, na ineficiência mercadológica, principalmente frente aos casos de monopólio6, externalidades negativas, tal como poluição, falha de informação entre compradores e vendedores e indisponibilidade do mercado em fornecer o bem coletivo, em que o governo tenta manter recursos comuns e preços acessíveis de produtos essenciais. 5 Considera-se elite política os atores detentores de cargos políticos nos poderes Executivo e Legislativo, como presidente, governador, deputados etc. 6 Monopólio é a exploração sem concorrente de um negócio ou indústria; a posse ou o direito em caráter exclusivo. No Brasil, o órgão responsável pela fiscalização da livre concorrência do mercado é o Conselho Administrativo de Defesa Econômica – CADE. Fundamentos da Gestão Pública80 A importância do estudo sobre agenda política nas últimas décadas surge frente às novas visões de políticas neoliberais, como as restrições de gastos e o grau de intervenção do Estado nas políticas econômicas e sociais. Assim, o desafio do Estado é conciliar políticas de incentivo ao desenvolvimento econômico com políticas sociais que visem uma sociedade mais justa. Outro ponto que se faz pertinente é que os países de democracia recente, como os da América Latina, ainda não conseguiram formar coalizões políticas capazes de promover a economia e a inclusão social (SOUZA, 2006). A cultura política no Brasil, como estudamos, é regida pela tese de “cada cabeça uma sentença”, ou seja, do individualismo acerbado. A conjuntura demonstra que os atores estão preocupados, primeiramente, com seus interesses individuais, para, posteriormente, pensar no conjunto social. Por isso, são necessárias pressões sociais dos diversos atores, na busca de uma agenda política inclusiva. 4.4.3 Formulação de alternativas Posteriormente à construção da agenda política, os esforços se movem para a busca de soluções para os problemas inclusos nela. A formulação de alternativas envolve estudos sobre as possibilidades de solução disponíveis e os possíveis impactos causados por elas, caso sejam escolhidas. As alternativas se originam da imaginação de um cenário futuro e das formas para alcançá-lo por meio de diferentes recursos. Primeiramente, estabelecem-se objetivos sobre o que se espera com a solução do problema. Em seguida, vem a etapa de construção de alternativas, visto que um resultado pode ser alcançado de diversas formas. A melhor forma pode determinar os maiores impactos positivos, tanto para a sociedade civil quanto para o governo, o qual receberá reconhecimento público. Dentre as técnicas de construção de alternativas, destacam-se as constantes no Quadro 5. Quadro 5 – Técnicas de construção de alternativas Brainstorming Análise do campo de forças Diagrama de árvore de decisão Encadeamento de ideias pela suspensão do julgamento e a reação em cadeia. Objetiva primeiro assegurar a quantidade de alternativas, e não a qualidade. Para cada situação existem forças propulsoras que estimulariam o comportamento e as forças restritivas que se oporiam àquele comportamento. Se uma força for maior que a outra, influenciará o comportamento nessa direção. Busca detalhar e desdobrar cada decisão possível, permitindo a visualização gráfica das alternativas. Formado por uma hierarquia de nós internos e externos conectados em ramos, semelhantes a uma árvore. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Rennó, 2013. A construção de alternativas também envolve um número considerável de atores, de acordo com a abertura possibilitada pelo governo. Nesse contexto, além dos atores políticos, os burocratas podem participar do processo de formulação de alternativas munidos de suas experiências profissionais, que transcendem gestões políticas. A sociedade civil pode ser incluída nas discussões por intermédio de fóruns. Políticas públicas no Brasil 81 As alternativas são identificadas para servir como leque de opções ao tomador de decisão, que identificará suas preferências de acordo com uma sequência de alternativas possíveis ou não, dependendo do custo/benefício. 4.4.4 Tomada de decisão Após a formulação das alternativas de solução, tem início a etapa de escolha de alternativas que visam solucionar determinado problema social. O processo decisório depende tanto das características do tomador de decisão quanto da situação em que se constitui a tomada de decisão, que envolve os atores, as instituições e os recursos disponíveis. No setor público, a escolha está concentrada nas mãos dos gestores públicos, em um cenário de certeza, incerteza ou risco. A certeza é a situação em que possuímos informações seguras e confiáveis que nos permitem saber quais serão os resultados. Em situação de risco, podemos calcular a probabilidade de algum resultado. Já na incerteza, essa probabilidade inexiste. Quadro 6 – Cenário geral da decisão Certeza Incerteza Risco Resultado previsto Resultado provável Resultado improvável Fonte: Elaborado pelo autor. Para Secchi (2012), a dinâmica da escolha de alternativas pelos tomadores de decisão envolve três possibilidades: i) aqueles que têm problemas e buscam soluções; ii) os que ajustam os problemas às soluções e vice-versa; e iii) os que possuem soluções e buscam aplicá-las aos problemas que se encaixem nelas. 4.4.4.1 Busca de soluções para problemas existentes Com o problema e o objetivo a ser alcançado já definidos, a escolha basear-se-á nas alternativas apropriadas em relação aos seus custos/benefícios, como em relação ao recurso financeiro, rapidez ou qualquer outro critério adotado. O modeloracional parte da ideia de que os gestores tomam decisões lógicas, isto é, utilizando somente a razão. Essa tese deriva das premissas de que o problema seria bem definido, que o gestor possuiria todas as informações e seria lógico e que os critérios seriam bem definidos. Infelizmente, isso não ocorre na realidade, pois as pessoas são racionais até determinado ponto. Por isso, Herbert Simon desenvolveu o modelo de racionalidade limitada, que identifica que as pessoas se baseiam na razão e na intuição ao mesmo tempo (RENNÓ, 2013). Assim, leva em consideração que algumas limitações podem surgir, como restrição de tempo, poucas informações, dificuldade de processamento de informações etc. Porém, a intuição não é o oposto de racionalidade, pois se baseia em experiências anteriores, em hábitos e em reflexões do gestor, captando os aspectos essenciais do problema a ser resolvido. Fundamentos da Gestão Pública82 4.4.4.2 Ajuste entre problemas e soluções disponíveis A origem dos problemas, tal como das soluções, ocorre simultaneamente, em um processo de “comparações sucessivas limitadas” (LINDBLOM, 1959 apud SECCHI, 2012, p. 52); ou seja, para tal teoria, alguns problemas e algumas soluções estão disponíveis ao alcance dos tomadores de decisões, os quais realizam uma análise combinatória desses elementos. Lindblom propõe um modelo, denominado incrementalismo, para a tomada de decisão, que é diferente do modelo racional; ele leva em consideração o elemento político, em que se inclui as pressões dos stakeholders. O modelo incremental sugere que as decisões atuais são diretamente dependentes das decisões tomadas no passado e estão dependentes dos interesses dos atores envolvidos. Ele se fundamenta na ideia de que decisões de governos passados frustram decisões dos governos atuais em inovar, especialmente com relação à estrutura organizacional e aos recursos financeiros já comprometidos. 4.4.4.3 Busca de problemas para soluções existentes O gestor público mobiliza esforços para modificar a opinião pública, a fim de que a solução disponível se transforme em política pública. Por isso, parte da tese de dependência dos fluxos dos problemas em relação à atenção dada pelo público. Nesse contexto, o modelo Garbage Can, de March e Olsen (1972 apud SOUZA, 2006), descreve que as escolhas de políticas públicas são feitas como se estivessem em uma lata de lixo, sendo que existem vários problemas para poucas soluções. As decisões seriam tomadas pelo encontro entre problemas, soluções e oportunidade. Do modelo Garbage Can deriva o modelo proposto por Secchi (2012), denominado janela de oportunidade. A janela abriria no instante em que o gestor público passasse a dispor da possibilidade de agir em relação a determinado problema, quando houvesse o encontro entre três fluxos: problema, solução e condição política (Figura 8). Figura 8 – Janela de oportunidade Evidência Tempo Janela de oportunidade Problema Solução Condição política Fonte: Adaptado de Secchi, 2012. Políticas públicas no Brasil 83 4.4.5 Implementação Finalmente, com a decisão sobre a alternativa a ser tomada, acontece a implementação da política pública, quando as intenções dos gestores públicos são executadas. A implementação é formada pelo momento do planejamento e da implementação do planejado. Seu estudo colabora com o entendimento sobre os motivos de sucesso ou fracasso de uma política pública. As formas de implementação de políticas públicas são diversas. Sem percebermos, estamos diariamente sujeitos a esse processo, como quando compramos um produto no supermercado ou frequentamos uma universidade pública. A implementação está presente nos recolhimentos de impostos, na aplicação de leis e na prestação de serviços públicos, por exemplo. Um dos primeiros trabalhos com foco na implementação foi feito por Pressman e Wildavsky, em 1973, e teve como objetivo analisar como acontece a implementação em países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Desde então, verifica-se na literatura três evoluções sobre o tema: a primeira, sobre a falta de debate acerca de implementação; a segunda, que buscou construir teorias baseadas em casos; e a terceira, que associou conceitos e empirismo, ao invés de criar modelos. Sem modelo determinado, muitas políticas públicas no Brasil falham ou resultam em impactos negativos durante as suas implementações. Um dos motivos apontados sobre as falhas é a dissociação entre a elaboração do planejamento e a implementação daquilo que foi planejado, em que a avaliação se limita à confecção, a considerar que, se o planejamento for bom, o resultado será bom. Não considera então os problemas ao longo da implementação. Por isso, uma das discussões que ainda persiste é se o planejamento deve ser realizado de cima para baixo (top-down) ou de baixo para cima (bottom-up). Defensores desse último modelo relatam que a população afetada pela política e os burocratas mais próximos dela deveriam influenciar o processo. Já os contrários ao modelo afirmam que esses atores não possuem uma visão sistêmica do todo. Burocratas, conforme estudamos, são os atores detentores de cargos públicos. Quando tratamos de implementação de políticas públicas, observamos que eles possuem papel primordial, pois realizam o elo entre as intenções políticas e as reações da sociedade civil. Os exemplos são diversos, mas podemos destacar as ações dos professores nas políticas públicas de educação, policiais nas políticas públicas de segurança ou engenheiros civis na área de infraestrutura. No modelo top-down, embora os políticos deem o encaminhamento por meio do planejamento da política pública, são os burocratas que normalmente realizam as suas implementações, por intermédio de seus órgãos, instituições e recursos (técnicos, financeiros, materiais etc.). Secchi (2012) descreve que tal processo é conhecido na literatura como deslocamento da culpa. Por esse conceito, podemos concluir que a falha de uma política pública é de culpabilidade dos burocratas, que realizaram uma má implementação do que foi planejado pelos políticos. Figura 9 – Modelo top-down Pl an ej am en to Políticos Burocratas Implementação Fonte: Elaborado pelo autor. Fundamentos da Gestão Pública84 Já o modelo bottom-up prescreve uma maior liberdade aos burocratas para planejar a implementação da política pública, por estarem em maior contato com o problema social combatido e participarem efetivamente da implementação. Posteriormente ao planejamento e à implementação pelos agentes mais próximos da ação, os políticos legitimariam tais práticas. Uma alternativa para equilibrar os dois modelos seria o modelo de mudança integrada, ilustrado na Figura 10. Nesse modelo, o planejamento realizado pelos políticos não seria rigidamente seguido, podendo ser (re) modelado pelos burocratas no momento da implementação, diante das disfunções enfrentadas. 4.4.6 Avaliação A implementação culmina no processo de avaliação da política, que pode ser realizada tanto pelos burocratas e políticos quanto pelos demais atores influenciados ou indiretamente responsáveis por elas. Nessa etapa final, busca-se saber se as políticas atingiram o objetivo proposto e quais foram as suas consequências (DYE, 2011). Ala-Harja e Helgason (2000 apud TREVISAN; BELLEN, 2008) definem avaliação como a análise dos resultados em relação aos objetivos propostos. Desse modo, o objetivo da avaliação seria a otimização do processo de tomada de decisão por meio do acesso às informações, as quais podem ser usadas, pelo governo, como boas notícias ou, por oposições, como críticas aos governos. A avaliação, comumente, não é observada como processo indispensável à gestão, sendo dificultada por conflitos de interesses, mudança de encarregados ou mudanças de condições externas. Se superadas as dificuldades, a avaliação pode servir como meio para divulgação de resultados, para alteração da implementação, para mobilizar apoios diversos ou como forma deesclarecimento para a sociedade civil (TREVISAN; BELLEN, 2008). A metodologia de avaliação tem sido realizada em função do seu momento: antes, durante ou depois (ex ante, in itinere e ex post). A avaliação ex ante objetiva fatores técnicos, orçamentários etc.; a in itinere se refere ao aprendizado contínuo; enquanto a avaliação ex post serve para levantar impactos das políticas públicas. Figura 10 – Modelo bottom-up Pl an ej am en to Políticos Burocratas Implementação Fonte: Elaborado pelo autor. Figura 11 – Modelo de mudança integrada Pl an ej am en to Políticos Burocratas Implementação Pl an ej am en to Fonte: Elaborado pelo autor. Políticas públicas no Brasil 85 Figura 12 – Momento da avaliação de políticas públicas Ex ante Ex post Implementação da política pública In itinere Fonte: Adaptado de Secchi, 2012. A aplicação de critérios de avaliação varia, sendo que os mais comuns são quanto à eficiência, eficácia e efetividade. Os atores avaliadores podem ser internos (político e burocratas) ou externos (mídia, sociedade civil, Tribunal de Contas etc.). A avaliação vai determinar a última etapa do ciclo, que é a continuidade, substituição ou extinção da política pública. 4.4.7 Extinção As políticas públicas têm como etapa final a análise sobre a suas continuidades, substituições ou extinções. Algumas políticas públicas já nascem com prazo de validade, enquanto outras vencem no decorrer de suas implementações e resultados. Conforme Secchi (2010), são três as causas de extinção: • O problema que originou a política pública foi resolvido; • A política pública foi ineficaz; • O problema deixou de ser importante e saiu da agenda política. Embora criadas com vigência de longo prazo, a dificuldade de extinção de algumas políticas públicas evidencia a ineficiência de suas implementações, já que a continuidade demonstra que o problema social originário ainda persiste, tal como políticas públicas de distribuição de renda, que se fazem contínuas, dadas as diferenças sociais persistentes. Ampliando seus conhecimentos • SOUZA, Y. H.; SECCHI, L. Extinção de políticas públicas. Síntese teórica sobre a fase esquecida do policy cycle. Cadernos Gestão Pública e Cidadania, [s.l.]. v. 20, n. 66, jan. 2015. ISSN 2236-5710. Disponível em: http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/cgpc/ article/view/39619. Acesso em: 28 nov. 2019. A fase de extinção de política pública é pouco estudada no Brasil, embora tenha caráter tão importante quanto as demais fases do ciclo. Para saber mais sobre essa fase, leia o artigo Extinção das Políticas Públicas. Síntese Teórica sobre a Fase Esquecida do Policy Cycle, de Souza e Secchi. • ABU-EL-HAJ, J. Robert Dahl (1915-2014): poder político, liberalização e contestação nas democracias. Rev. Bras. Ciênc. Polít., Brasília , n. 13, p. 7-17, Abr. 2014 . Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-33522014000100001&lng =en&nrm=iso. Acesso em: 28 Nov. 2019. Robert Dahl é o autor do livro Quem governa? Democracia e poder em uma cidade americana. Essa obra, relacionada à área de ciência política americana, foi publicada em Fundamentos da Gestão Pública86 1961, pela Yale University Press. Apesar de ter sido escrita na década de 60 e no contexto americano, é um tema bastante atual, pois a visão de Dahl de promover a igualdade política como princípio fundamental da democracia continua viva e necessária. Quer saber mais sobre Dahl? Leia o artigo Robert Dahl (1915-2014): poder político, liberalização e contestação nas democracias. Atividades 1. Lowi (1964) classificou as políticas públicas em quatro tipos. Identifique e descreva quais são elas. 2. Quanto à sua abrangência, as políticas públicas são classificadas em três tipos. Descreva e exemplifique cada uma delas. 3. O ciclo de políticas públicas é dividido em sete fases. Enumere e descreva resumidamente o significado de cada uma delas. Referências CAIDEN, N.; WILDAVISKY, A. Planning and budgeting in developing countries. New York: John Wiley, 1980. DYE, T. R. Mapeamento dos modelos de análise de política públicas. In: HEIDEMANN, F. G.; SALM, J. F. (Org.). 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Nele, incluímos os nossos desejos de consumo, como comprar um carro ou uma casa, cursar uma faculdade, fazer uma viagem etc., e quando somamos os respectivos valores, definimos esses desejos como despesa ou investimento. Ao mesmo tempo, nossos recursos provêm de uma renda, ou seja, daquilo que recebemos como salário, rendimentos financeiros etc., o que definimos aqui como receita. A partir desses valores, confrontamos o valor das receitas e a estimativa de gastos. Muitas vezes, nossos desejos de consumo são superiores às nossas receitas. Por essa razão, nos damos conta de que devemos planejar e definir as despesas prioritárias, deixando de lado, ou para outra oportunidade, aquelas que não são essenciais, ou seja, consideradas supérfluas. No setor governamental, esse planejamento é consubstanciado em lei e recebe o nome de orçamento público. O orçamento público é utilizado pelos governos das três esferas da União – federal, estadual e municipal – e consiste no planejamento de como utilizar o dinheiro arrecadado por meio dos tributos. Assim, o planejamento é um elemento essencial para oferecer serviços públicos de qualidade e prestar contas à sociedade sobre os gastos e investimentos priorizados pelos poderes. Tributo é o conjunto de impostos, taxas, contribuições e empréstimos compulsórios que formam a receita da União, dos Estados e Municípios. Partindo de uma linguagem comumente utilizada, o orçamento público estima as receitas que o governo espera arrecadar e fixa as despesas que deverão ser sanadas. Assim, as receitas são estimadas porque os tributos arrecadados, e outras fontes de receita, variam a cada ano; por sua vez, as despesas são fixadas para garantir que o governo não gaste mais do que arrecada (BRASIL, 2019a). Autores renomados das áreas de finanças públicas e contabilidade governamental consolidaram alguns conceitos de orçamento público, conforme estudaremos nos parágrafos seguintes. Vídeo Fundamentos da Gestão Pública90 Piscitelli, Timbó e Rosa (1999, p. 38) mencionam que orçamento público é o “instrumento que dispõe o Poder Público (em qualquer de suas esferas) para expressar, em determinado período, seu programa de atuação, discriminando a origem e o montante dos recursos a serem obtidos, bem como a natureza e o montante dos dispêndios a serem obtidos”. O orçamento público também pode ser entendido como: o planejamento feito pela Administração Pública para atender, durante determinado período, aos planos e programas de trabalho por ela desenvolvidos, por meio da planificação das receitas a serem obtidas e pelos dispêndios a serem efetuados, objetivando a continuidade e a melhoria quantitativa e qualitativa dos serviços prestados à sociedade. (LIMA; CASTRO, 2000, p. 19) Para Baleeiro apud Harada (2004, p. 78), nos países democráticos, o orçamento público é considerado “o ato pelo qual o Poder Executivo prevê e o Poder Legislativo autoriza, por certo período, a execução das despesas destinadas ao funcionamento dos serviços públicos e outros fins adotados pela política econômica ou geral do país, assim como a arrecadação das receitas já criadas em lei.” Já de acordo com Abrucio e Loureiro (2004, p. 21), o orçamento público é: um instrumento fundamental de governo, é seu principal documento de políticas públicas. Através dele os governantes selecionam prioridades, decidindo como gastar os recursos extraídos da sociedade e como distribuí-los entre diferentes grupos sociais, conforme seu peso ou força política. Portanto, nas decisões orçamentárias os problemas centrais de uma ordem democrática como representação e accountability estão presentes. Os conceitos anteriores permitem-nos observar que o orçamento é um instrumento de grande importância para que o gestor público possa planejar e executar suas atividades. 5.2 O papel do orçamento na gestão pública As atividades do administrador público devem ser orientadas por instrumentos que legitimem suas ações, e o principal deles é o orçamento público. Trata-se de uma ferramenta gerencial imposta pela Constituição Federal de 1988 (CF/88), mais especificamente do artigo 165 ao 169. A gestão orçamentária tem como objetivo garantir a utilização dos recursos públicos de modo sustentável, legal e transparente. As pessoas envolvidas com a gestão orçamentária devem possuir, a priori, habilidades denominadas tecnopolítica, isto é, habilidades que combinem a expertise da área de gestão com a política, para, assim, arbitrarem a disputa pelos recursos públicos. A gestão orçamentária é regrada pela CF/88 e por normas das finanças públicas, sendo, ainda, regida por um conjunto de princípios, os quais estudaremos a seguir. 5.2.1 Princípios orçamentários Os princípios orçamentários são regras consolidadas ao longo do tempo para otimizar o cumprimento de sua principal finalidade: auxiliar o controle parlamentar sobre os Executivos. Vídeo Orçamento público 91 Essas regras ou princípios foram incorporados na legislação, basicamente na Constituição Federal, na Lei n. 4.320/1964 e nas Leis de Diretrizes Orçamentárias. “Os princípios orçamentários são premissas a serem observadas na concepção da proposta orçamentária” (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2004). A Lei n. 4.320/1964, que estabelece as normas gerais para a elaboração dos orçamentos públicos e para o controle das finanças públicas, define no seu artigo 2º que a Lei do Orçamento conterá a discriminação da receita e da despesa de modo a evidenciar a política econômica financeira e o programa de trabalho do governo, obedecidos os princípios de unidade, universalidade e anualidade (BRASIL, 1964, grifos nossos). Gouveia (2002) aponta que os princípios elencados na Lei n. 4.320/64 são instrumentos que possibilitam o controle sobre o orçamento. A unidade refere-se ao conjunto das receitas e despesas reunidas em um único documento; a universalidade é o princípio que descreve que a aprovação do orçamento pelo Poder Legislativo deve ser realizada a partir de uma visão de totalidade das contas públicas; e a anualidade corresponde à limitação de tempo para a execução orçamentária. Outros princípios são encontrados na literatura, os quais o administrador pode utilizar como pilares para o seu planejamento, conforme observaremos na sequência. exclusividade orçamento bruto não afetação das receitas discriminação ou especialização programação publicidade equilíbrio Pires (2016) descreve cada um desses pilares, apontados pelo autor como facilitadores e que servem de referências para as políticas orçamentárias, conforme podemos analisar no Quadro 1. Quadro 1 – Princípios orçamentários Princípios Características Exclusividade Estabelece que no orçamento não devem constar elementos estranhos à receita e à despesa, para evitar que a gestão dos recursos financeiros enverede para assuntos que não sejam essenciais. Orçamento bruto Postula que os valores do orçamento devem ser apresentados em dimensão bruta, ou seja, sem qualquer tipo de dedução, conforme o artigo 6º da Lei n. 4.320/1964. A finalidade é evitar que as deduções sejam utilizadas para a fuga ao controle. Não afetação ou vinculação das receitas Preconiza que a receita tributária não pode ser vinculada a nenhum tipo de gasto, conforme a CF/88, Artigo 167, Inciso IV, a fim de se evitar o engessamento das despesas públicas e anular a priorização dos gastos pelos governantes, de acordo com as necessidades e os acordos estabelecidos com seus eleitores. No entanto, existem algumas vinculações previstas na CF/88, por exemplo, o artigo 21 – Ensino, e o parágrafo 2º do artigo 168 – Saúde). Discriminação ou especialização Impõe a especificação detalhada das receitas e as dotações autorizadas para as despesas, evitando-se que existam receitas ou despesas globais sob título muito genérico. O objetivo é dar clareza na identificação das origens e dos destinos dos recursos públicos. (Continua) Fundamentos da Gestão Pública92 Princípios CaracterísticasProgramação Insere a técnica orçamentária por programas, tornando o orçamento um instrumento de gestão, mais do que de controle. Esse princípio assenta que as despesas sejam estruturadas de modo coerente com os objetivos do governo, vinculando os meios (recursos financeiros) com os fins (objetivos e metas governamentais). Publicidade Determina que as informações sobre o orçamento sejam levadas a conhecimento público. Ultimamente, esse princípio foi reforçado pela transparência e a participação popular, requisitos básicos dos governos democráticos. Equilíbrio Estabelece que os governos gastem menos do que sua capacidade de arrecadar, em razão de que frente aos déficits orçamentários e endividamentos, devem perseguir superávits para evitar desequilíbrios. Fonte: Adaptado de Pires, 2016, p. 25-27. A Constituição Federal de 1988, no inciso III do art. 167, ainda adota um princípio denominado Regra de Ouro. Tal regra constitui norma fundamental para a gestão orçamentária, que “veda a realização de operações de crédito que excedam o montante das despesas de capital” (BRASIL, 1988). Excetuam-se à regra de ouro as despesas autorizadas mediante créditos suplementares ou especiais com finalidade precisa, aprovados pelo Poder Legislativo por maioria absoluta. Quadro 2 – Tipos de créditos adicionais Suplementares Especiais Extraordinários Destinados ao incremento dos valores aprovados na Lei Orçamentária, quando considerados insuficientes. Destinados às despesas para as quais não haja previsão orçamentária específica. Destinados às despesas urgentes e imprevisíveis. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Brasil, 1964. Os créditos adicionais suplementares terão vigência limitada ao exercício financeiro em que foram autorizados, sendo proibida sua prorrogação. Os créditos especiais e extraordinários terão vigência no exercício financeiro em que forem autorizados, salvo se o ato de autorização for promulgado nos últimos quatro meses daquele exercício, caso em que, reabertos nos limites de seus saldos, serão incorporados ao orçamento do exercício financeiro subsequente (BRASIL, 1988). 5.3 O processo orçamentário O processo de elaboração do orçamento no Brasil abrange inúmeras prioridades, em razão de sua extensão territorial e o número de habitantes. Se todos nós temos a experiência de planejar e controlar nossos gastos domésticos e familiares, imagine o quão complexo é o planejamento de ações para um país do tamanho do nosso. Apesar dessa dificuldade, o planejamento é essencial para a melhor aplicação dos recursos públicos (BRASIL, 2019a). O sistema orçamentário é o conjunto de instrumentos de gestão dos recursos financeiros de um governo, estruturado para que as decisões atendam às demandas sociais e coletivas, que visa à economicidade do uso do dinheiro público e à sua execução controlada e avaliada. Vídeo Orçamento público 93 O sistema orçamentário brasileiro elenca três importantes dimensões, todas de interesse diretamente para a sociedade, conforme o Quadro 3. Quadro 3 – Dimensões do sistema orçamentário Dimensões Descrição Jurídica O orçamento público tem caráter e força de lei e define limites a serem respeitados pelos governantes e agentes públicos, no tocante à realização de despesas e à arrecadação de receitas. A elaboração e a aprovação do orçamento público seguem o processo legislativo de discussão, emenda, votação e sanção presidencial como qualquer outra lei. Econômica O orçamento público é basicamente o instrumento por meio do qual o governo extrai recursos da sociedade e os injeta em áreas selecionadas. Esse processo de redistribuição não é neutro do ponto de vista da eficiência econômica e da trajetória de desenvolvimento de longo prazo. Tanto os incentivos microeconômicos e setoriais quanto as variáveis macroeconômicas relativas ao nível de inflação, endividamento e emprego na economia são diretamente afetados pela gestão orçamentária. Política Se o orçamento público tem um inequívoco caráter distributivo, o processo de elaboração, aprovação e gestão do orçamento embute necessariamente perspectivas e interesses conflitantes que se resolvem em última instância no âmbito da ação política dos agentes públicos e dos inúmeros segmentos sociais. Fonte: Elaborado pelo autor com base em UNIFESP, 2015, p. 3. Essas dimensões demonstram que o sistema orçamentário brasileiro não é composto apenas de aspectos legais, mas sim de toda uma estrutura institucional constituída por vários elementos. 5.3.1 Orçamento da Despesa As despesas que o governo tem utilizando-se do dinheiro arrecadado por meio de impostos ou outras fontes são categorizadas. As categorizações nos permitem compreender e acompanhar os gastos do dinheiro público. 5.3.1.1 Categorização por estrutura programática A categorização por estrutura programática detalha o programa e a ação orçamentária. Esses aspectos delimitam o tema da política pública em consonância com os objetivos propostos. O governo organiza as ações em programas temáticos, como o Bolsa Família, programas de gestão, manutenção e serviços do Estado e os programas de operações especiais, por exemplo, os que tratam dos gastos com a dívida pública brasileira (BRASIL, 2019b). 5.3.1.2 Categorização por natureza de despesa A natureza da despesa é uma categorização que identifica o tipo de gasto realizado a partir de uma visão econômica, contábil e financeira e ajuda a compreender e definir se os recursos serão aplicados em serviços, obras ou compras, por exemplo (BRASIL, 2019b). A seguir serão apresentados alguns subníveis de categorização por natureza da despesa. Elemento de despesa São os insumos que serão utilizados ou adquiridos. Pelo elemento de despesa, é possível, por exemplo, saber quanto o governo gasta com obras, instalações e contratação de serviços terceirizados (BRASIL, 2019b). Fundamentos da Gestão Pública94 Grupo de despesa Os elementos de despesas são dispostos em seis Grupos de despesa: i) pessoal e encargos sociais; ii) juros e encargos da dívida; iii) outras despesas correntes; iv) investimentos; v) inversões financeiras; e vi) amortização da dívida (BRASIL, 2019b). Modalidade de aplicação É uma classificação que busca promover a fiscalização. Esse critério permite identificar o responsável pelo uso do dinheiro público e, mais além, se foi um eventual mau uso do recurso, é possível, por meio de um processo administrativo, disciplinar e requerer o ressarcimento ao erário. 5.3.2 Orçamento da Receita A receita pública é o recurso, ou seja, o dinheiro que o governo possui para manter sua estrutura e proporcionar bens e serviços à sociedade, como hospitais, escolas, iluminação, saneamento etc. Para tanto, é necessário que o governo arrecade dinheiro, por meio de impostos, venda de bens, prestação de serviços, venda de títulos do Tesouro Nacional, recebimento de indenizações etc. (BRASIL, 2019c). Da mesma forma como ocorre na despesa, o governo administra o orçamento para prever quanto receberá de cada uma das fontes arrecadadoras, por meio de uma classificação. Ainda do mesmo modo como nas despesas, o processo de previsão de receitas é organizado em fases, que auxiliam o planejamento e o monitoramento de sua execução. A seguir, apresentamos as etapas de arrecadação e as classificações das receitas. 5.3.2.1 Estimativas e arrecadação da receita As receitas do governo são estimadas com base no fato de que as arrecadações sofrem variações anualmente. Entretanto, o governo busca realizar a previsão de receitas, permitindo-se, assim, planejar o quanto poderá ser gasto e definir quais ações poderá realizar para promover o bem-estar da população (BRASIL, 2019c). O governo planeja suas ações com base em um orçamento inicial, que, posteriormente, será atualizado, o que permite diferenciar o valor estimado do efetivamente arrecadado. O orçamento inicial é elaborado no ano anterior, enquanto o orçamento atualizado considera as mudanças que o influenciaram,políticas do governo (grifos nossos). O termo administração envolve a atividade superior de planejar, organizar, dirigir e controlar como a atividade subordinada de executar. Por sua vez, a expressão administração pública é utilizada comumente nos sentidos subjetivo e objetivo. Nesse contexto, Di Pietro (2002, p. 53) aponta como a administração pública atua: Subjetivamente ou no sentido formal, a administração pública deve ser entendida como sendo os entes que exercem atividade administrativa, tais quais as pessoas jurídicas, os órgãos e os agentes públicos incumbidos de exercer uma das funções tripartites da atividade estatal, qual seja, a função administrativa. Objetivamente ou no sentido material, a administração pública designa a natureza da atividade exercida pelos entes citados acima – a função administrativa – predominantemente incumbida ao Poder Executivo, abrangendo o fomento, a polícia administrativa e o serviço público. (grifos nossos) 1.1.3.1 Sistemas de Governo • Parlamentarismo: o chefe de estado ocupa a posição mais alta de representação, mas não participa das decisões políticas. Um chefe de governo, a convite do chefe de estado, compõe o governo. Se for aprovado pelo Parlamento, recebe o título de Primeiro-Ministro (Inglaterra), Chanceler (Alemanha) ou Presidente do Conselho (Espanha). Caso haja uma crise, o Parlamento tem o poder de substituir o chefe de governo. • Presidencialismo1: é o sistema de governo do Brasil, em que o chefe do Poder Executivo cumpre um mandato de governo de quatro anos e acumula as funções de chefe de Estado e chefe de governo. Não há dependência alguma em relação ao Poder Legislativo. 1 No Brasil, foi realizado, em 21 de abril de 1993, um plebiscito que demandava escolher entre os sistemas de governo parlamentarismo ou presidencialismo. Com 55,67% dos votos válidos, foi consolidado o sistema de governo atual. Introdução à gestão pública 13 No presidencialismo, é possível governar mesmo sem ter a maioria no Poder Legislativo. No Parlamentarismo, os membros podem escolher apoiar o chefe de governo, mas também podem optar por antecipar a eleição do novo chefe de governo. Assim, no parlamentarismo, o chefe do governo depende da maioria da Câmara para continuar no poder. No presidencialismo, os parlamentares buscam se aproximar do governo, seja por razões ideológicas ou pelo interesse em obter vantagens junto ao poder executivo. No Brasil, o cientista político Sérgio Abranches criou o termo presidencialismo de coalizão, que consiste no ato de fechar acordos e fazer alianças entre partidos políticos/forças políticas em busca de um objetivo específico. 1.1.4 Gestão pública A administração pública inclui os três níveis de governo – federal, estadual e municipal – e visa essencialmente o bem comum (COSTIN, 2010). Ela abrange as atividades exercidas por entidades, órgãos e agentes incumbidos de atender concretamente às necessidades coletivas. Na definição de Meirelles (2004, p. 64), a administração pública, em sentido formal, é o conjunto de órgãos instituídos para a consecução dos objetivos do governo; em sentido material, é o conjunto das funções necessárias aos serviços públicos em geral; em acepção operacional, é o desempenho perene e sistemático, legal e técnico, dos serviços próprios do Estado ou por ele assumidos em benefício da coletividade. Numa visão global, a administração é, pois, todo o aparelhamento do Estado pré-ordenado à realização de serviços, visando à satisfação das necessidades coletivas. (MEIRELLES, 2004 apud CAVALHEIRO; FLORES, 2007, p. 14, grifos nossos) A natureza da administração pública é a de um múnus público, pois quem a exerce tem a incumbência de defesa, conservação e aprimoramento dos bens, serviços e interesses da coletividade. Em sentido amplo, Matias-Pereira (2010, p. 10) entende que gestão pública é todo o sistema de governo, todo o conjunto de ideias, atitudes, normas, processos, instituições e outras formas de conduta humana, que determinam: (i) como se distribui e se exerce a autoridade política; (ii) como se atendem aos interesses públicos. Assim, a gestão pública pode ser entendida como a estrutura do Poder Executivo, que tem a missão de coordenar e implementar as políticas públicas. Apresenta-se como um conjunto de atividades diretamente destinadas à execução concreta das tarefas consideradas de interesse público ou comum numa coletividade ou numa organização estatal. Toda atividade do gestor público deve ser orientada para um único objetivo: o bem comum da coletividade administrada. Se o agente político se desvia desse objetivo, corrompe o mandato do qual está investido, porque seus eleitores confiaram-no a gestão como meio de se atingir o bem-estar social. A palavra múnus tem origem no latim e significa dever, obrigação etc. O múnus público é uma obrigação imposta por lei, em atendimento ao poder público, que beneficia a coletividade e não pode ser recusado, exceto nos casos previstos em lei. Fundamentos da Gestão Pública14 Nascimento (2014, p. 3) destaca como características principais da nova gestão pública: • a busca pela revitalização da função pública e a profissionalização dos servidores governamentais; • a busca pela competência institucional, com ênfase na regulação e na proteção social; • o foco em resultados, mediante avaliação permanente; • o direcionamento da administração para o cidadão-usuário; • a simplificação de procedimentos; • a transparência e o acesso às informações públicas; • os arranjos institucionais que visam à representação dos interesses coletivos e ao controle social; • a utilização, pelo Estado, de tecnologias emergentes de informação (e-government); • a promoção de um empreendedorismo digital; • a busca pela equidade e diminuição de desigualdades sociais patrocinadas pela ação governamental. (grifo do original) 1.1.4.1 Princípios da Administração Pública O art. 37 da CF/88 elenca os princípios que norteiam a administração pública: • Legalidade: associa-se à gestão pública em todas as suas atividades, vincula os gestores públicos aos mandamentos da lei, sendo inafastáveis, sob pena de nulidade do ato administrativo e da responsabilização ao seu autor. • Impessoalidade: as ações e políticas públicas devem ser iguais a todos os cidadãos, sem que gerem benefícios individuais ou sejam discriminatórios a determinadas classes ou grupos sociais. • Moralidade: os atos e as atividades públicas devem obedecer aos princípios morais, ou seja, devem promover o melhor e o que é mais útil para o interesse público, sem visar satisfazer privilégios pessoais. • Publicidade: refere-se à divulgação dos atos administrativos e de outros documentos elaborados pelo administrador público, com o objetivo de torná-los de conhecimento público, controlar suas ações e dar o início aos seus efeitos. O instrumento oficial destinado à publicação dos atos são, em geral, os Diários Oficiais. • Eficiência: considerado o mais moderno princípio da função administrativa, visa investir mínimos recursos ao mesmo tempo em que gera resultados maximizados para a sociedade. Os termos Legalidade – Impessoalidade – Moralidade – Publicidade – Eficiência formam o acrônimo LIMPE 1.1.4.2 Administração pública direta e indireta A administração pública, de acordo com a Constituição Federal, está dividida em direta e indireta. Introdução à gestão pública 15 Administração direta Inclui os serviços desempenhados pela estrutura administrativa do chefe do Executivo (presidente da república, governador ou prefeito), dos ministérios (no nível federal) e das secretarias (nos níveis estadual e municipal). Estão presentes na estrutura da administração direta, portanto, os órgãos responsáveis pelo atendimento das necessidades básicas da população, como saúde, educação, lazer, assistência social, transportes, segurança pública, entre outras. As principais características dos órgãos da administração direta são: (i) a ausência deajustando os valores para cima ou para baixo. Nesse processo, há as receitas extraorçamentárias, referentes aos recursos que entram nos cofres da União temporariamente (BRASIL, 2019c). Como não compõem o orçamento, esses recursos não podem ser empregados nas ações do governo. 5.3.2.2 Classificação da receita Do mesmo modo como é feito na despesa, as receitas são classificadas a fim de identificar a procedência dos recursos segundo o fato gerador. As classificações da receita são categoria econômica, origem, espécie e desdobramento (BRASIL, 2019c). Orçamento público 95 Categoria econômica Essa categoria classifica a receita em corrente e de capital. A receita corrente é formada pelos recursos que incrementam o patrimônio do Estado, como prestação de serviços, impostos, taxas e contribuições (BRASIL, 2019c). A receita de capital refere-se aos recursos arrecadados por meio de empréstimos e da venda do patrimônio público. Origem A origem permite conhecer a fonte da receita, ou seja, se a receita corrente é originada dos impostos, da indústria ou de serviços; ou se o recurso provém da venda de bens ou de empréstimos (BRASIL, 2019c). Espécie A espécie faz o detalhamento de cada uma das origens da receita. A espécie de receita permite identificar se uma receita é proveniente do serviço de transportes, saúde ou alguma atividade financeira etc. (BRASIL, 2019c). Desdobramento As particularidades de cada receita podem ser observadas por meio do detalhamento ou desdobramento da receita. Um desdobramento bastante conhecido são as receitas provenientes do Imposto de Renda sobre a Pessoa Física (IRPF) (BRASIL, 2019c). 5.3.3 O Sistema Orçamentário Brasileiro Conforme os artigos 165 a 169 da CF/88, o sistema orçamentário brasileiro é composto de três partes: o Plano Plurianual (PPA), a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei do Orçamento Anual (LOA). A Figura 1 ilustra os prazos correspondentes à execução de cada um dos documentos do processo orçamentário. Figura 1 – Prazos no processo orçamentário PPA [ 4 ANOS ] 31 de agosto Data limite para o Executivo enviar o projeto de cada lei para o Congresso Nacional Data limite para o Congresso devolver os projetos para sanção 22 de dezembro LDO [ ANUAL ] 15 de abril 17 de julho LOA [ ANUAL ] 31 de agosto 22 de dezembro Fonte: Elaborada pelo autor. Sanches (1993) declara que o processo orçamentário é um ciclo que se repete a cada ano, contendo as seguintes etapas: Fundamentos da Gestão Pública96 • elaboração da proposta orçamentária; • discussão parlamentar, votação e aprovação legislativa; • execução, com controle interno; • controle externo e avaliação. A seguir, são descritas as quatro fases circulares do processo orçamentário. Figura 2 – Fases do processo orçamentário 1. ELABORAÇÃO 4. CONTROLE 3. EXECUÇÃO 2. APROVAÇÃO Cabe ao Poder Executivo a elaboração do Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA), com base no planejamento estabelecido no Plano Plurianual (PPA) e na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) vigentes. O Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, por meio da Secretaria de Orçamento Federal (SOF), faz a captação e consolidação das propostas de cada Ministério e dos demais Poderes, utilizando o Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (SIOP). Posteriormente, o PLOA deve ser encaminhado ao Poder Legislativo para aprovação. Existem dois sistemas de controle da execução orçamentária: interno e externo. O controle interno é realizado pelo órgão no âmbito da própria Administração, dentro de sua estrutura, com supervisão técnica do Ministério da Transparência e da Controladoria-Geral da União. O controle externo é realizado por instituição independente e autônoma; no caso da União, é exercido pelo Congresso Nacional, auxiliado pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Após a publicação do Orçamento, o Poder Executivo tem até 30 dias para editar o Decreto de Programação Orçamentária e Financeira. Esse Decreto e suas alterações visam adequar os valores da LOA à realidade de cada ano, assegurando, assim, o equilíbrio entre receitas e despesas previsto na LDO (meta de resultado primário). Quando o Decreto estipula limitação de despesas, ocorre o contingenciamento. Tanto as receitas como as despesas devem ser revistas ao longo do ano. Na fase de execução, os valores aprovados na Lei Orçamentária podem ser insuficientes ou pode ocorrer a necessidade de realização de despesas não computadas ou insuficientemente dotadas. Diante de tais situações, a LOA poderá ser alterada no decorrer de sua execução por meio de créditos adicionais. Após o envio do projeto de lei para o Congresso Nacional (CN), os Deputados Federais e Senadores, na Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização (CMO) examinam, discutem, ajustam, votam e aprovam a proposta orçamentária. O relatório da CMO é apreciado pelo plenário do CN. Os Deputados e Senadores podem, sob determinadas condições, propor alterações à proposta orçamentária (emendas parlamentares). O PLOA poderá ser vetado ou sancionado pelo Presidente da República. Em caso de vetos, caberá ao Congresso Nacional apreciá-los, podendo rejeitá-los ou não. Após sancionado pelo Presidente da República, o PLOA se transforma na Lei Orçamentária Anual (LOA). Fonte: Elaborado pelo autor com base em Brasil, 2018 (grifo nosso). As emendas parlamentares são prerrogativas constitucionais que o Poder Legislativo possui para alterar o PLOA enviado pelo Poder Executivo. Podem ser relativas à previsão de receita, ao texto da lei ou à autorização de despesas (apropriação, cancelamento ou remanejamento de despesa) (BRASIL, 2018). Orçamento público 97 5.4 O Plano Plurianual Conforme a Constituição Federal, o planejamento é um dever do Estado, é determinante para o setor público e indicativo para o setor privado. De acordo com o art. 174, “como agente normativo e regulador da atividade econômica, o Estado exercerá, na forma da lei, as funções de fiscalização, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para o setor privado” (BRASIL, 1988, grifos nossos). No tocante à função planejamento, o § 1º do inciso XI do art. 167 da Constituição Federal assevera a importância que os constituintes deram ao planejamento no Brasil: “nenhum investimento cuja execução ultrapasse um exercício financeiro poderá ser iniciado sem prévia inclusão no plano plurianual, ou sem lei que autorize a inclusão, sob pena de crime de responsabilidade” (BRASIL, 1988, grifos nossos). Resumidamente, o PPA expressa a visão estratégica da gestão pública. Nele, declara-se o conjunto das políticas públicas de governo para um período de 4 (quatro) anos, com base nos compromissos firmados durante as campanhas eleitorais, além de definir o percurso a ser trilhado para viabilizar as metas definidas no plano. Em síntese, o PPA1 estabelece, de maneira regionalizada, as diretrizes, os objetivos e as metas da administração pública federal para as despesas de capital e outras delas decorrentes para os programas de duração continuada (BRASIL, 1988). 5.5 As Leis de Diretrizes Orçamentárias Uma das funções da LDO é estabelecer parâmetros necessários à alocação dos recursos no orçamento anual, de modo a garantir a realização das metas e objetivos contemplados no PPA (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2019). Cabe ainda à LDO ajustar as ações de governo conforme a realidade do caixa do Tesouro Nacional e selecionar dentre os programas incluídos no PPA aqueles que terão prioridade na execução do orçamento subsequente. Conforme o art. 165, § 2º, a lei de diretrizes orçamentárias compreenderá as metas e prioridades da administração pública federal, incluindo as despesas de capital para o exercício financeiro subsequente, orientará a elaboração da lei orçamentária anual, disporá sobre as alterações na legislação tributária e estabelecerá a política de aplicação das agências financeiras oficiais de fomento(BRASIL, 1988, grifos nossos). Em geral, as prioridades são definidas com base nos critérios de gravidade ou urgência para mitigar os pontos de estrangulação. Também é relevante considerar o empreendimento para a realização de objetivos estratégicos da política econômica e social. Em síntese, a LDO define as metas e prioridades do governo a serem realizadas no ano seguinte. É a LDO que estabelece a ligação entre o PPA e a LOA. 1 A versão vigente do PPA (2016-2019) pode ser acessada no Portal do Ministério da Economia. Disponível em: http:// www.planejamento.gov.br/assuntos/planeja/plano-plurianual. Vídeo Vídeo http://www.planejamento.gov.br/assuntos/planeja/plano-plurianual http://www.planejamento.gov.br/assuntos/planeja/plano-plurianual Fundamentos da Gestão Pública98 5.6 A Lei do Orçamento Anual A LOA estima receitas e fixa as despesas para determinado exercício financeiro. Permite avaliar as fontes de recursos públicos e quem são os beneficiários desses recursos. Postula o § 5º do artigo 165 da Constituição de 1988 que a LOA compreenderá: I – o orçamento fiscal referente aos Poderes da União, seus fundos, órgãos e entidades da administração direta e indireta, inclusive fundações instituídas e mantidas pelo Poder Público; II – o orçamento de investimento das empresas em que a União, direta ou indiretamente, detenha a maioria do capital social com direito a voto; III – o orçamento da seguridade social, abrangendo todas as entidades e órgãos a ela vinculados, da administração direta ou indireta, bem como os fundos e fundações instituídos e mantidos pelo Poder Público (BRASIL, 1988). Conforme elencado na CF/88, o orçamento federal é um documento único, constituído por três partes – o Orçamento Fiscal, o Orçamento de Investimento das Empresas Controladas pela União e o Orçamento da Seguridade Social – e apresenta as características apresentadas no Quadro 4. Quadro 4 – Partes constituintes do orçamento federal Orçamento Fiscal e da Seguridade O Orçamento Fiscal abrange os três poderes, seus órgãos, autarquias, fundações, empresas públicas, sociedades de economia mista, e demais que recebam quaisquer recursos do Tesouro Nacional. Excetuam-se aqueles que percebam, unicamente, sob a forma de participação acionária, pagamento de serviços prestados, ou fornecimento de bens, pagamento de empréstimo e financiamento concedidos e transferências para aplicação em programa de financiamento. Consulte o art. 195 da CF/88 e saiba quais são as contribuições sociais que correspondem ao orçamento da seguridade social. Orçamento da Seguridade Social Esse orçamento abrange todas as entidades e órgãos vinculados à seguridade social, da administração direta e indireta, bem como fundos e fundações instituídas e mantidas pelo Poder Público. Constitui a especificação das receitas vinculadas aos gastos da seguridade social – especialmente as contribuições sociais nominadas no art. 195 da Constituição. Compreende ainda as contribuições transferidas pelo orçamento fiscal e as programações relativas à saúde, previdência e assistência social que serão financiadas por tais receitas (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2019). Orçamento de Investimento das Estatais As despesas de custeio das empresas estatais vinculadas ao Executivo (empresas públicas e as sociedades de economia mista, subsidiárias, controladas) têm seus orçamentos organizados e acompanhados pelo Ministério de Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG), mas não são apreciadas pelo Legislativo. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Câmara dos Deputados, 2019. Vídeo Orçamento público 99 O Quadro 5 apresenta a proposta do orçamento fiscal, da seguridade social e de investimento das empresas estatais para o ano de 2019. Quadro 5 – Proposta do orçamento para 2019 Orçamento Fiscal 2,2 trilhões No Orçamento Fiscal estão incluídas as despesas dos Poderes Legislativo (Congresso Nacional e Tribunal de Contas da União), Executivo (Presidência, Ministérios e outros órgãos) e Judiciário (Fóruns e Tribunais), do Ministério Público da União e da Defensoria Pública da União, além dos gastos com pagamento e rolagem da dívida pública federal. Orçamento da Seguridade Fiscal 1,1 trilhão O Orçamento da Seguridade Social contém as despesas com previdência e assistência social, bem como ações e serviços públicos de saúde. Os pagamentos de aposentadorias, pensões e benefícios, assim como os gastos com hospitais, medicamentos e Bolsa-Família, são exemplos de despesas desse orçamento. Orçamento de Investimento das Empresas Estatais 119,6 bilhões O Orçamento de Investimento das Empresas Estatais engloba os investimentos das empresas em que a União, direta ou indiretamente, detém a maioria do capital social com direito a voto e que não necessitam de recursos fiscais para manter ou ampliar suas atividades. São exemplos: Petrobras, Eletrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Brasil, 2018, p. 7. Apesar dos instrumentos que compõem o sistema orçamentário, Silva (2007) constatou no seu estudo a falta de consonância e integração entre o PPA, a LDO e a LOA. Dentre as principais inconsistências encontradas, o autor alude a: a) falta de coerência entre o que foi planejado no PPA e as metas físicas estabelecidas na LDO; b) execução orçamentária de programas do orçamento de investimento das estatais acima da dotação autorizada na LOA; c) divergências entre as metas prioritárias estipuladas pelo Governo na LDO e as efetivamente registradas na LOA; e d) programas prioritários que não foram executados (SILVA, 2007 apud CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2009). A despeito da existência desses problemas, pode-se afirmar que o orçamento público continua sendo um importante e imprescindível instrumento de planejamento da administração pública. Considerações finais Estudamos neste capítulo que o orçamento público é tido como o principal instrumento da função alocativa do governo, pois viabiliza a implementação das políticas públicas. O acolhimento dos direitos e necessidades públicas se materializa com a opção do administrador público de alocar os recursos provenientes do orçamento público nas três esferas do governo. Um planejamento sem a necessária estimativa de recursos não passa de uma declaração banal de aspirações políticas; constitui-se na aplicação arbitrária dos recursos, atendendo de modo improvisado às demandas sociais conforme cada conjuntura. Enfim, conclui-se que realizar a elaboração do orçamento público sem um planejamento prévio e racional é assumir o risco da ineficiência, ao mesmo tempo em que elaborar um planejamento que não tenha repercussão no orçamento é acreditar na ineficácia do plano. Fundamentos da Gestão Pública100 Ampliando seus conhecimentos • BRASIL. Ministério da Economia. Secretaria Especial de Fazenda. MTO 2020 – Manual Técnico do Orçamento. Brasília: 2019. Disponível em: https://www1.siop.planejamento. gov.br/mto/doku.php/mto2020. Acesso em: 3 out. 2019. O Manual Técnico de Orçamento (MTO) é um instrumento de apoio aos processos orçamentários da União. Acesse e conheça o MTO para o exercício 2020. • Acesse o Portal de Transparência da prefeitura do seu município e faça uma leitura no PPA, na LDO e na LOA, verificando se os documentos atendem aos pressupostos teóricos que vimos neste capítulo. • CÂMARA dos deputados. PLP 18/2019 - Projeto de Lei Complementar. 12 fev. 2019. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2191570. Acesso em: 3 out. 2019. Está em trâmite na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei Complementar 18/2019 que obriga a adoção do orçamento impositivo nos municípios. Sabia que você pode acompanhar o andamento do processo e encaminhar um e-mail para os parlamentares envolvidos no projeto para dar a sua opinião? Atividades 1. Quais são os tipos de créditos adicionais? Descreva cada um deles. 2. Descreva, sucintamente, as quatro fases do processoorçamentário. 3. Conforme o Art. 165 da CF/88, a LOA compreende quais orçamentos? REFERÊNCIAS ABRUCIO, F. L.; LOUREIRO, M. R. Finanças Públicas, Democracia e Accountability: debate teórico e o caso brasileiro. Pesquisa apresentada no XXIX Encontro da Anpocs. São Paulo: Núcleo de Publicações e Pesquisas – Fundação Getúlio Vargas, 2004. Disponível em: http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/ handle/10438/3104/P00298_1.pdf?sequence=1. Acesso em: 26 set. 2019. BRASIL. Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão. Secretaria de Orçamento Federal. Orçamento Cidadão: Projeto de Lei Orçamentária Anual – PLOA 2019. Brasília, 2018. 48 p. BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Constituição da República Federativa do Brasil. 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm. Acesso em: 25 set. 2019. https://www1.siop.planejamento.gov.br/mto/doku.php/mto2020 https://www1.siop.planejamento.gov.br/mto/doku.php/mto2020 https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2191570 http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/3104/P00298_1.pdf?sequence=1 http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/3104/P00298_1.pdf?sequence=1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm Orçamento público 101 BRASIL. Lei n. 4.320, de 17 de março de 1964. Estatui normas gerais de direito financeiro para elaboração e controle dos orçamentos e balanços da União, dos Estados, dos Municípios e do Distrito Federal. Diário Oficial da União. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4320.htm. Acesso em: 27 set. 2019. BRASIL. Orçamento público. Portal da Transparência. Controladoria-Geral da União. 2019a. 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Orçamento Participativo, Controle Social e o Poder Público Municipal: a experiência de União da Vitória/PR – (1997-2000). 2002. 128 f. Dissertação (Mestrado em Educação), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002. HARADA, K. Direito Financeiro e Tributário. 12. ed. Atlas: São Paulo, 2004. LIMA, D. V.; CASTRO, R. G. Contabilidade Pública: Integrando União, Estados e Municípios. São Paulo: Atlas, 2000. PIRES, V. Introdução à Gestão Orçamentária: sistema, processo, metodologias, normas e desafios. In: Academia Brasileira de Ciências Contábeis et al. (org.). PROCONTAB: Contabilidade Pública: programa de atualização em Contabilidade. Porto Alegre: Artmed Panamericana; 2016. p. 9-58. PISCITELLI, R. B.; TIMBÓ, M. Z. F.; ROSA, M. B. Contabilidade Pública: uma abordagem da Administração Financeira Pública. 6ª ed. rev. e atual. São Paulo: Atlas, 1999. SANCHES, O. M. O ciclo orçamentário: uma reavaliação à luz da constituição de 1988. 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Quase diariamente, vemos nas mídias escândalos que envolvem desvio de dinheiro e má utilização de recursos ou bens públicos. Diante disso, tem- -se buscado soluções para amenizar condutas impróprias dos gestores públicos, na tentativa de aprimorar e melhorar as ações de controle e acompanhamento. Nesse panorama, iremos discorrer, neste capítulo, sobre a Lei Complementar n. 101/2000 (BRASIL, 2000a), conhecida como Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), considerada um marco na gestão pública brasileira, a qual estabelece normas de finanças públicas voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal. 6.1 A Lei de Responsabilidade Fiscal A LRF foi criada a partir da Constituição Federal de 1988 devido à necessidade de regulamentar os artigos 163 e 169, que tratam sobre a administração pública. No entanto, houve, antes, algumas tentativas de implementação do mecanismo de controle de gastos públicos. Em 27 de março de 1995, o Governo Federal sancionou a Lei Complementar n. 82 (BRASIL, 1995), conhecida como a Lei Camata, em deferência ao nome da autora do projeto, a ex- deputada Rita Camata. A lei visava disciplinar os limites das despesas com o funcionalismo público. A LC/1982 encerrou-se com a sanção da Lei Complementar n. 96, de 31 de maio de 1999 (BRASIL, 1999), que tratava do mesmo assunto. A nova lei, no entanto, também não foi efetiva, o que ocasionou na necessidade de outra legislação que tratasse do assunto de modo mais abrangente. Em 25 de janeiro de 2000 foi apresentado à Câmara dos Deputados um Projeto de Lei Complementar (PL) que disciplinava as finanças públicas e a limitação de gastos com pessoal, sendo posteriormente aprovado como a Lei Complementar n. 101, de 4 de maio de 2000 (Lei de Responsabilidade Fiscal – LRF), que revogou a LC/1996. Na elaboração da LRF, foram incorporados princípios de modelos de outros países, conforme veremos no Quadro 1. Quadro 1 – Modelos utilizados como referência para a elaboração da LRF Referência Características FMI – Fiscal Transparency Dentro do setor público, as funções de política e de gestão devem ser bem definidas e divulgadas ao público, informando sobre as atividades fiscais passadas, presentes e programadas – transparência dos atos. A documentação orçamentária deve especificar objetivos da política fiscal, estrutura macroeconômica, políticas orçamentárias e riscos fiscais – planejamento. As contas fiscais devem serapresentadas periodicamente ao Legislativo e ao público – publicidade, prestação das contas e relatórios fiscais. Vídeo (Continua) Fundamentos da Gestão Pública104 Referência Características Tratado de Maastricht (Tratado da União Europeia de 1992: Alemanha, Bélgica, Dinamarca, França, Grécia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Portugal, Espanha e Reino Unido) Definição de critérios para verificação da sustentação financeira de cada governo, como em uma confederação. Estados membros conduzem suas políticas com relativa independência, convergindo para critérios acordados. Além disso, os estados membros devem evitar déficits excessivos. Comissão monitorará o orçamento e o estoque da dívida para identificar desvios: há metas e punições. Pacto de estabilidade e crescimento de 1997 – cada estado membro é responsável por sua política orçamentária, subordinada às disposições do Tratado. Budget Enforcement Act (BEA) (Lei de Execução Orçamentária de 1990) Estados Unidos Contempla apenas o Governo Federal – cada unidade da federação tem suas regras. Congresso fixa metas de superávit e mecanismos de controle de gastos, aplicações de regras adotadas pelo BEA. Sequestration – limitação de empenho para garantir limites e metas orçamentárias. Pay as you go – compensação orçamentária: qualquer ato que provoque aumento de despesas deve ser compensado por meio da redução de outras despesas ou do aumento de receitas. Fiscal Responsibility Act (Lei de Responsabilidade Fiscal de 1994) Nova Zelândia Estado unitário e parlamentarista. Congresso fixa princípios e exige forte transparência do Executivo, que tem a liberdade para orçar e gastar. Princípios de gestão fiscal responsável: reduzir débito total da Coroa (dívida pública) a níveis prudentes. Alcançar e manter níveis de patrimônio líquido da Coroa que a protejam contra fatores imprevistos. Gerenciar prudentemente riscos fiscais da Coroa. O Fiscal Act difere dos programas anteriores porque não prevê metas fiscais; admite afastamentos temporários, desde que com previsão de meios para retorno; considera perigosa a perda de credibilidade pelo não cumprimento de metas; e teme pela manipulação de informação para ajustá-las às metas fixadas. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Tesouro Nacional, 2019, p. 6-7. 6.1.1 Objetivos da LRF A LRF foi criada para tratar de assuntos pertinentes ao campo das finanças e da gestão pública conforme descreve seu artigo 1º: “Esta Lei Complementar estabelece normas de finanças públicas voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal, com amparo no Capítulo II do Título VI da Constituição” (BRASIL, 2000a, grifos nossos). Ao se definir responsabilidade na gestão fiscal, estabeleceram-se os seguintes postulados: • ação planejada e transparente; • prevenção de riscos e correção de desvios que afetem o equilíbrio das contas públicas; • garantia de equilíbrio nas contas, via cumprimento de metas de resultados entre receitas e despesas, com limites e condições para a renúncia de receita e a geração de despesas com pessoal, seguridade, dívida, operações de crédito, concessão de garantia e inscrição em restos a pagar. (BRASIL, 2000a, p. 13) Lei de Responsabilidade Fiscal 105 Assim, a LRF exige dos governos a obediência a orçamentos objetivos, o respeito às metas fiscais, a compensação orçamentária (gastos devem vir de fontes correlatas de financiamento) e o equilíbrio entre receitas e despesas, tudo com foco em médio e longo prazo, a fim de não prejudicar as finanças públicas. No tocante à gestão fiscal da LRF, Queiroz (2000, p. 50, grifos nossos) observa que: gestão fiscal significa a gestão financeira e patrimonial das entidades públicas nos três níveis de governo, nos três poderes e no Ministério Público, com senso de responsabilidade e fiel observância dos preceitos constitucionais legais: previnem os déficits nas contas públicas, interrompem o processo de endividamento público, impedem que se assumam obrigações e encargos sem correspondente fonte de receita ou a redução de despesas e impõem a imediata correção dos desvios na conduta fiscal, de modo a assegurar o ajuste fiscal definitivo e a manutenção de finanças públicas equilibradas, como sonha a sociedade brasileira, como exige o processo de desenvolvimento econômico social. A LRF é um código de conduta para os administradores públicos, que compreende os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, nas esferas de governo federal, estadual e municipal. 6.1.2 Pilares da LRF Ao longo dos anos, várias reformas foram criadas com o intuito de melhorar o processo de administração pública, como a Lei n. 4.320/1964 (BRASIL, 1964), que continua regendo o ciclo orçamentário. Contudo, ela não tratava de modo específico sobre a responsabilidade na gestão fiscal. Para Reis (2001), a LRF foi estruturada em quatro pilares: planejamento, controle, transparência e responsabilidade, apresentados no Quadro 2, a seguir. Quadro 2 – Pilares da LRF Pilares Descrição Planejamento O objetivo é fazer com que a administração desenvolva, através de políticas e ações previamente formuladas para atender às necessidades coletivas e públicas, visando, assim, o cumprimento da missão do Estado de executar metas físicas concretas, conjugadas com aquelas de caráter financeiro (receitas e custos). Controle Função que deve estar presente em todas as atividades da organização, buscando fazer com que a missão do Estado seja cumprida sem solução de continuidade, mediante a concretização das políticas e ações respectivas, tendo em vista a economicidade, a eficiência, a eficácia e a efetividade, conceitos de caráter gerencial, na utilização dos recursos que lhe foram destinados. Transparência Deve ser a característica básica das informações orçamentárias e contábeis que têm como alvo o cidadão e todas aquelas pessoas que transacionam com a União, estados e municípios, Distrito Federal e respectivos órgãos da administração indireta e fundacional. Responsabilidade Deverá ser evidenciada nos atos praticados pelos gestores no trato das receitas, das despesas e dos valores pertencentes ou confiados à guarda e à custódia da Fazenda Pública. Fonte: Reis, 2001, p. 14. Fundamentos da Gestão Pública106 Destaca-se, então, na Figura 1, que a LRF é alicerçada em quatro pilares. Figura 1 – Pilares da Lei de Responsabilidade Fiscal Planejamento TransparênciaControle Responsabilização Fonte: Elaborada pelo autor com base em Reis, 2001. Esses pilares respaldam a aplicação da LRF a fim de proporcionar um controle mais efetivo das ações inerentes à gestão dos recursos públicos, acarretando efeitos punitivos aos gestores que conduzem sua administração de maneira irresponsável e ímproba. 6.2 Limites de gastos na LRF A LRF determina limites para despesas com pessoal e para dívida pública, além de estabelecer que sejam criadas metas para controlar receitas e despesas. De acordo com essa lei, nenhum governante pode criar uma nova despesa continuada (com mais de dois exercícios)sem informar sua fonte de receita ou sem reduzir outras despesas já existentes (MEPDG, 2019; TESOURO NACIONAL, 2019). Os limites de gastos com pessoas, preconizados na LRF, como percentual das receitas, para os três Poderes da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, são os distribuídos no Quadro 3, a seguir. Quadro 3 – Limites de gastos com pessoal previstos na LRF Poder Limite máximo Percentual das Receitas União 50% da Receita Corrente Líquida - 2,5% para o Legislativo, incluindo o Tribunal de Contas. - 6% para o Judiciário. - 0,6% para o Ministério Público da União. - 3% para custeio de despesas do DF e de ex-territórios. - 37,9% para o Poder Executivo. Estados 60% da Receita Corrente Líquida - 3% para o Legislativo, incluindo o Tribunal de Contas. - 6% para o Judiciário. - 2% para o Ministério Público. - 49% para as demais despesas de pessoal do Executivo. Municípios 60% da Receita Corrente Líquida - 6%para o Legislativo, incluindo o Tribunal de Contas, se houver. - 54% para o Executivo. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Brasil, 2000a. Vídeo Lei de Responsabilidade Fiscal 107 Como em toda lei, na LRF existem prazos e limites previstos para a ação dos governantes, bem como recomendações, no caso de os governantes estarem no limite ou terem ultrapassado o previsto em lei, como a obrigatoriedade dos gestores de efetuar reduções de despesas, principalmente de contenções no último ano de mandato. Se o gestor verificar que ultrapassou os limites previstos para a despesa de pessoal, ele precisará, no prazo de oito meses, tomar as providências cabíveis. Se após esse prazo os excessos persistirem ou não forem corrigidos, são aplicadas as sanções previstas. Nos termos do § 1º do art. 19 da LRF, para fins de verificação dos limites definidos na LRF, não serão computadas as seguintes despesas: I – de indenização por demissão de servidores ou empregados; II – relativas a incentivos à demissão voluntária; III – derivadas da aplicação do disposto no inciso II do § 6º do art. 57 da Constituição; IV – decorrentes de decisão judicial e da competência de período anterior ao da apuração a que se refere o § 2º do art. 18; V – com pessoal, do Distrito Federal e dos Estados do Amapá e Roraima, custeadas com recursos transferidos pela União na forma dos incisos XIII e XIV do art. 21 da Constituição e do art. 31 da Emenda Constitucional n. 19; VI – com inativos, ainda que por intermédio de fundo específico, custeadas por recursos provenientes: a) da arrecadação de contribuições dos segurados; b) da compensação financeira de que trata o § 9º do art. 201 da Constituição; c) das demais receitas diretamente arrecadadas por fundo vinculado a tal finalidade, inclusive o produto da alienação de bens, direitos e ativos, bem como seu superávit financeiro. (BRASIL, 2000a) Se a despesa total com pessoal exceder a 95% do limite (prudencial), nos termos do parágrafo único do art. 22 da LRF (BRASIL, 2000a), são vedados ao Poder ou órgão que houver incorrido no excesso: I – concessão de vantagem, aumento, reajuste ou adequação de remuneração a qualquer título, salvo os derivados de sentença judicial ou de determinação legal ou contratual, ressalvada a revisão prevista no inciso X do art. 37 da Constituição; II – criação de cargo, emprego ou função; III – alteração de estrutura de carreira que implique aumento de despesa; IV – provimento de cargo público, admissão ou contratação de pessoal a qualquer título, ressalvada a reposição decorrente de aposentadoria ou falecimento de servidores das áreas de educação, saúde e segurança; V – contratação de hora extra, salvo no caso do disposto no inciso II do § 6º do art. 57 da Constituição e as situações previstas na Lei de Diretrizes Orçamentárias. (BRASIL, 2000a) Fundamentos da Gestão Pública108 Havendo extrapolação dos limites previstos, além das medidas previstas citadas anteriormente, relativas ao limite prudencial, o gestor ficará obrigado a eliminar o percentual excedente nos dois quadrimestres seguintes, devendo ser, pelo menos, um terço no primeiro. Assim, serão adotadas as providências previstas nos §§ 3º e 4º do art. 169 da Constituição Federal: Redução de pelo menos 20% das despesas com cargos em comissão e funções de confiança (§ 3º) Exoneração dos servidores não estáveis (§ 3º) Exoneração de servidor estável, desde que ato normativo motivado de cada um dos Poderes especifique a atividade funcional, o órgão ou unidade administrativa objeto da redução de pessoal (§ 4º). (BRASIL, 1988) A Lei Complementar n. 164, de 2018 (BRASIL, 2018) incluiu no texto da LRF que as restrições previstas no § 3º do art. 169 não se aplicam ao município em caso de queda de receita real superior a 10% (dez por cento), em comparação ao correspondente quadrimestre do exercício financeiro anterior, devido à: I – diminuição das transferências recebidas do Fundo de Participação dos Municípios decorrente de concessão de isenções tributárias pela União; e II – diminuição das receitas recebidas de royalties1 e participações especiais. (BRASIL, 2018, grifos nossos) A LRF prevê que se não alcançada a redução nos prazos previstos e enquanto perdurar o excesso, o ente não poderá: a) Receber transferências voluntárias, ressalvadas as destinadas à saúde, à educação e à assistência social; b) Obter garantia, direta ou indireta, de outro ente; c) Contratar operações de crédito, ressalvadas as destinadas ao refinanciamento da dívida mobiliária e as que visem à redução das despesas com pessoal. (BRASIL, 2000a). 6.2.1 Exceções aos prazos para redução das despesas com pessoal Conforme disposto no art. 65, caput e parágrafo único da LRF, quando ocorrer situações de calamidade pública, reconhecida pelo Congresso Nacional, no caso da União, ou pelas Assembleias Legislativas, na hipótese dos estados e municípios ou estado de defesa e de sítio decretado na forma da Constituição, ficarão suspensas à contagem dos prazos previstos na Lei Complementar n. 101/2000. 1 Royalty se refere a uma importância cobrada pelo proprietário de uma patente de produto, processo de produção, marca, entre outros, ou pelo autor de uma obra, para permitir seu uso ou comercialização. No caso do petróleo, os royalties são cobrados das concessionárias que exploram a matéria-prima, de acordo com sua quantidade. O valor arrecadado fica com o poder público. Segundo a atual legislação brasileira, estados e municípios produtores – além da União – têm direito à maioria absoluta dos royalties do petróleo. A divisão atual é de 40% para a União, 22,5% para estados e 30% para os municípios produtores. Os 7,5% restantes são distribuídos para todos os municípios e estados da federação (BRASIL, 2019). Lei de Responsabilidade Fiscal 109 Ainda, reconhecido o crescimento real baixo ou negativo do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, regional ou estadual, por período igual ou superior a quatro trimestres, os prazos do artigo serão duplicados, nos termos do art. 66 da LRF. 6.3 Crimes e penalidades contra as Finanças Públicas A LRF indica expressamente em seus artigos 73 e 73-A quais são os diplomas legais que deverão ser utilizados para fins de responsabilização das infrações: Art. 73. As infrações dos dispositivos desta Lei Complementar serão punidas segundo o Decreto-Lei n. 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal); a Lei n. 1.079, de 10 de abril de 1950; o Decreto-Lei n. 201, de 27 de fevereiro de 1967; a Lei n. 8.429, de 2 de junho de 1992; e demais normas da legislação pertinente. Art. 73-A. Qualquer cidadão, partido político, associação ou sindicato é parte legítima para denunciar ao respectivo Tribunal de Contas e ao órgão competente do Ministério Público o descumprimento das prescrições estabelecidas nesta Lei Complementar. (BRASIL, 2000a) As legislações e as punições para os agentes que cometem crime contra as finanças públicas são elencadas no Quadro 4. Quadro 4 – Crimes contra as finanças públicas Decreto-Lei n. 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal) Crimes Penas Ordenar, autorizar ou realizar operação de crédito, interno ou externo, sem prévia autorização legislativa. Pena: reclusão, de 1 (um) a 2 (dois) anos. Ordenar ou autorizar a inscrição em restos a pagar, de despesa que não tenha sido previamente empenhada ou que exceda limite estabelecido em lei. Pena: detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos. Ordenar ou autorizar a assunção de obrigação, nos dois últimos quadrimestres do último ano do mandato ou legislatura, cuja despesa não possa ser paga no mesmo exercício financeiro ou, caso reste parcela a ser paga no exercício seguinte, que não tenha contrapartida suficiente de disponibilidade de caixa. Pena: reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos. Ordenar despesa não autorizada por lei. Pena: reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos. Prestar garantia em operação de crédito sem que tenha sido constituída contragarantia em valor igualou superior ao valor da garantia prestada, na forma da lei. Pena: detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano. Deixar de ordenar, de autorizar ou de promover o cancelamento do montante de restos a pagar inscrito em valor superior ao permitido em lei. Pena: detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos. Ordenar, autorizar ou executar ato que acarrete aumento de despesa total com pessoal, nos cento e oitenta dias anteriores ao final do mandato ou da legislatura. Pena: reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos. Ordenar, autorizar ou promover a oferta pública ou a colocação no mercado financeiro de títulos da dívida pública sem que tenham sido criados por lei ou sem que estejam registrados em sistema centralizado de liquidação e de custódia. Pena: reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos. Vídeo (Continua) Fundamentos da Gestão Pública110 Decreto-Lei n. 201, de 27 de fevereiro de 1967 Crimes Penas Deixar de ordenar a redução do montante da dívida consolidada, nos prazos estabelecidos em lei, quando o montante ultrapassar o valor resultante da aplicação do limite máximo fixado pelo Senado Federal. Pena: detenção, de 3 (três) meses a 3 (três) anos. Perda de cargo e a inabilitação, pelo prazo de cinco anos, para o exercício de cargo ou função pública, eletivo ou de nomeação, sem prejuízo da reparação civil do dano causado ao patrimônio público ou particular. Ordenar ou autorizar a abertura de crédito em desacordo com os limites estabelecidos pelo Senado Federal, sem fundamento na lei orçamentária ou no crédito adicional ou com inobservância de prescrição legal. Deixar de promover ou de ordenar, na forma da lei, o cancelamento, a amortização ou a constituição de reserva para anular os efeitos de operação de crédito realizada com inobservância de limite, condição ou montante estabelecido em lei. Deixar de promover ou de ordenar a liquidação integral de operação de crédito por antecipação de receita orçamentária, inclusive os respectivos juros e demais encargos, até o encerramento do exercício financeiro. Ordenar ou autorizar, em desacordo com a lei, a realização de operação de crédito com qualquer um dos demais entes da Federação, inclusive suas entidades da administração indireta, ainda que na forma de novação, refinanciamento ou postergação de dívida contraída anteriormente. Captar recursos a título de antecipação de receita de tributo ou contribuição cujo fato gerador ainda não tenha ocorrido. Ordenar ou autorizar a destinação de recursos provenientes da emissão de títulos para finalidade diversa da prevista na lei que a autorizou. Realizar ou receber transferência voluntária em desacordo com limite ou condição estabelecida em lei. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Brasil, 1940; 1967. Constitui infração administrativa contra as leis de finanças públicas, previsto no Art. 5º da Lei n. 10.028, de 19 de outubro de 2000. I – deixar de divulgar ou de enviar ao Poder Legislativo e ao Tribunal de Contas o relatório de gestão fiscal, nos prazos e condições estabelecidos em lei; II – propor lei de diretrizes orçamentárias anual que não contenha as metas fiscais na forma da lei; III – deixar de expedir ato determinando limitação de empenho e movimentação financeira, nos casos e condições estabelecidos em lei; IV – deixar de ordenar ou de promover, na forma e nos prazos da lei, a execução de medida para a redução do montante da despesa total com pessoal que houver excedido a repartição por Poder do limite máximo. (BRASIL, 2000b, grifos nossos). As punições previstas no art. 5º para quem comete infração administrativa contra as leis de finanças públicas correspondem a: multa de trinta por cento dos vencimentos anuais do agente que lhe der causa, sendo o pagamento da multa de sua responsabilidade pessoal (§ 1º). As infrações cometidas no Art. 5º serão processadas e julgadas pelo Tribunal de Contas a que competir a fiscalização contábil, financeira e orçamentária da pessoa jurídica de direito público envolvida (§ 2º). (BRASIL, 2000b, grifos nossos). Lei de Responsabilidade Fiscal 111 Nota-se que não há motivo para que o gestor público descumpra os preceitos constantes na LRF, pois ela prevê aos infratores punições rigorosas caso não haja observância. Considerações finais Como vimos, a LRF constitui um marco inovador e revolucionário no aprimoramento das finanças públicas brasileiras para que os governos possam se dedicar à correta aplicação dos recursos públicos e ao controle dos gastos. As discussões sobre finanças públicas não se esgotam neste capítulo. Há várias publicações sobre o tema que você pode buscar, a fim de complementar e/ou ampliar seu conhecimento, conforme o tema de seu interesse do campo da administração pública. Ampliando seus conhecimentos • ENTENDA o que são as pedaladas fiscais. 2015. 1 Vídeo (1 min. 42 seg.). Publicado pelo canal Nexo Jornal. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LuIzZXHCrPg. Acesso em: 5 dez. 2019. Você já deve ter ouvido sobre o termo pedalada fiscal, principalmente, por ter sido a causa do impeachment da ex-presidente Dilma, em 2016, por ter cometido crime de responsabilidade. De acordo com os juristas, esses empréstimos foram concedidos em afronta ao art. 36 da LRF, que proíbe a tomada de empréstimo pela União de entidade do sistema financeiro por ela controlada. Assista ao vídeo e saiba um pouco mais sobre as pedaladas fiscais. • O passo a passo do processo de impeachment. 2016. 1 Vídeo (3 min.). Publicado pelo canal DW Brasil. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=GvQZ2USGgFM. Acesso em: 5 dez. 2019. Impeachment é um termo em inglês que significa impedimento e corresponde a um processo instaurado por denúncia à Câmara dos Deputados, para apurar a responsabilidade do Presidente da República, Ministros de Estado, Ministros do Supremo Tribunal Federal ou contra o Procurador-Geral da República, por grave delito ou má conduta no exercício de suas funções, cabendo ao Senado Federal, se procedente a acusação, aplicar ao infrator a pena de destituição do cargo. No Brasil, dois presidentes foram afastados do cargo pela Lei do Impeachment (Lei n. 1.079/1950), Fernando Collor de Mello (1992) e Dilma Rousseff (2016). No caso de Collor, foi a primeira vez na história republicana do Brasil que um presidente eleito pelo voto direto foi afastado por vias democráticas. Assista ao vídeo indicado e saiba mais sobre esse processo. https://www.youtube.com/watch?v=LuIzZXHCrPg https://www.youtube.com/watch?v=GvQZ2USGgFM Fundamentos da Gestão Pública112 Atividades 1. Na esfera municipal, a despesa total com pessoal, em cada período de apuração, não poderá exceder quais percentuais da receita corrente líquida? 2. Se a despesa total com pessoal exceder a 95% do limite, nos termos do parágrafo único do art. 22 da LRF, o que será vedado ao Poder ou órgão que houver incorrido no excesso? 3. A LRF prevê que, caso haja o crescimento real baixo ou negativo do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, regional ou estadual, alguns prazos poderão ser duplicados. Quais são os prazos e os artigos da LRF que se referem a essa possibilidade? Referências BRASIL. Decreto-Lei n. 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Rio de Janeiro, RJ, 7 dez. 1940. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848.htm. Acesso em 6 dez. 2019. BRASIL. Lei n. 1079, de 10 de abril de 1950. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Rio de Janeiro, RJ, 10 abr. 1950. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l1079.htm. Acesso em: 6 dez. 2019. BRASIL. Lei n. 4.320, de 17 de março de 1964. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 17 mar. 1964. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4320.htm. Acesso em: 6 dez. 2019. BRASIL. Constituição Federal (1988). Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm.Acesso em: 6 dez. 2019. BRASIL. Lei Complementar n. 82, de 27 de março de 1995. Diário Oficial da União. Poder Legislativo, Brasília, DF, 27 mar. 1995. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/Lcp82.htm. Acesso em: 6 dez. 2019. BRASIL. Lei Complementar n. 96, de 31 de maio de 1999. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 31 maio 1999. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/LCP/Lcp96.htm. Acesso em: 6 dez. 1996. BRASIL. Lei Complementar n. 101, de 4 de maio de 2000. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 4 maio 2000a. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp101.htm. Acesso em: 6 dez. 2019. BRASIL. Lei n. 10.028, de 19 de outubro de 2000. Diário Oficial Eletrônico, Poder Executivo, Brasília, DF, 19 out. 2000b. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l10028.htm. Acesso em: 6 dez. 2019. BRASIL. Lei Complementar n. 164, de 18 de dezembro de 2018. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 18 dez. 2018. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/Lcp164.htm. Acesso em: 6 dez. 2019. MEPDG. Lei de Responsabilidade Fiscal. 2019. Disponível em: http://www.planejamento.gov.br/assuntos/ planeja/orcamento-federal/lei-de-responsabilidade-fiscal/dicas/080807_pub_lrf_dicas_port.pdf. Acesso em: 5 dez. 2019. http://www.planejamento.gov.br/assuntos/planeja/orcamento-federal/lei-de-responsabilidade-fiscal/dicas/080807_pub_lrf_dicas_port.pdf http://www.planejamento.gov.br/assuntos/planeja/orcamento-federal/lei-de-responsabilidade-fiscal/dicas/080807_pub_lrf_dicas_port.pdf Lei de Responsabilidade Fiscal 113 PEDALADAS Fiscais. Senado Notícias, 2019. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/entenda- o-assunto/pedalada-fiscal. Acesso em: 5 dez. 2019. QUEIROZ, C. H. Lei de Responsabilidade Fiscal: enfim, uma esperança. Revista Conjuntura Econômica, Rio de Janeiro, v. 54, n. 12, p. 50-52, dez. 2000. Disponível em: http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rce/ article/view/32533. Acesso em: 5 dez. 2019. REIS, H. C. Impactos da LRF sobre a Lei 4.320. Rio de Janeiro: IBAM, 2001. TESOURO NACIONAL. Lei de Responsabilidade Fiscal. 2019. Disponível em: http://tesouro.fazenda.gov.br/ web/stn/lei-de-responsabilidade-fiscal. Acesso em: 5 dez. 2019. https://www12.senado.leg.br/noticias/entenda-o-assunto/pedalada-fiscal https://www12.senado.leg.br/noticias/entenda-o-assunto/pedalada-fiscal http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rce/article/view/32533 http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rce/article/view/32533 http://tesouro.fazenda.gov.br/web/stn/lei-de-responsabilidade-fiscal http://tesouro.fazenda.gov.br/web/stn/lei-de-responsabilidade-fiscal 7 Empreendedorismo e inovação no setor público Estudos sobre o empreendedorismo, tanto no setor privado quanto no público, têm sido realizados há algumas décadas na área da administração com enfoques comportamentais e econômicos. O empreendedor é o indivíduo que inicia um negócio a partir de uma ideia e, por meio de outras competências, como criatividade, conhecimento, habilidades e atitudes, explora as oportunidades decorrentes das mudanças ambientais e externas. Em ambos os setores, o empreendedorismo tem como características a inovação e a proatividade. Para que os gestores possam alcançar seus objetivos e metas, seja pela ação individual ou em organizações, é essencial desenvolver essas características empreendedoras. Neste capítulo trataremos sobre o empreendedorismo e a inovação no setor público como elementos fundamentais nos atuais modelos de gestão pública na era do conhecimento. Nesse contexto, é necessário implantar uma cultura organizacional para que ocorra a sensibilização e qualificação dos servidores públicos, possibilitando a troca de conhecimentos e o incentivo à criatividade e inovação. 7.1 O empreendedorismo no setor público O comportamento do indivíduo e a estrutura do ambiente não determinam sozinhos o resultado do processo empreendedor, havendo a necessidade de se estudar o fenômeno do empreendedorismo de uma forma holística, considerando os traços individuais, a organização e os fatores ambientais e a sua relevância no cenário econômico (BOUCHIKHI, 1993). De modo geral, o empreendedorismo é comum tanto no universo das organizações públicas quanto das privadas. Porém, as organizações públicas possuem características próprias (rotinas, hierarquia excessiva, descontinuidade, paternalismo etc.) que constituem verdadeiros obstáculos às inovações e mudanças, se opondo ao empreendedorismo. Silva (2017) destaca que as organizações públicas são: • assinaladas pela ausência de mercados econômicos e influências para a redução de custos; • influenciadas fortemente por questões políticas; • marcadas pela multiplicidade de conflitos entre os agentes (públicos e políticos); • centralizadas, isto é, os gestores têm poder limitado de autonomia, decisão e flexibilidade, com menos incentivos, riscos e recompensas; • bem como, têm como suposições a equidade, responsabilidade, franqueza e transparência aos usuários. Vídeo Fundamentos da Gestão Pública116 Nesse contexto, o empreendedorismo na organização pública parte da premissa de que há um desejo de mudança, de adaptação, de afeição ao risco e inovação, utilizado para explorar oportunidades e criar valor. Na literatura, o empreendedorismo público se apresenta de três formas: i) como cultura empreendedora dentro das organizações públicas e em parcerias público-privadas; ii) por meio das políticas públicas ou como política inovadora dentro do setor público; e iii) na criação de empresas estatais (SILVA, 2017). Esse é o mesmo entendimento apresentado por Mori (1998, p. 39) ao dizer que os empreendedores são pessoas que perseguem um benefício, trabalham individual ou coletivamente. Podem ser definidos como indivíduos que inovam, identificam e criam oportunidades de negócios, montam e coordenam novas combinações de recursos (funções de produção), para extrair os melhores benefícios de suas inovações em um meio incerto. Desse modo, os indivíduos são motivados pelo desejo de mudança e possuem as características empreendedoras, como apresentadas na Figura 1. Figura 1 – Características empreendedoras Busca de oportunidades Conhecimento do mercado Conhecimento do produto Inovação Criatividade Riscos Iniciativa Liderança Necessidade de realização Proatividade Visão Fonte: Elaborada pelo autor. Considerando que o serviço público deve ser oferecido com qualidade e adequado às necessidades da comunidade, alguns perfis são relevantes e inerentes ao empreendedor público, conforme elencados no Quadro 1. Empreendedorismo e inovação no setor público 117 Quadro 1 – Perfil do empreendedor público Conceitos O empreendedor público é um indivíduo que se compromete a iniciar e manter uma ou mais organizações do setor público. O empreendedor público pode ser definido a partir de quatro características: autonomia, visão pessoal do futuro, sigilo e tomada de risco. O empreendedor público é um indivíduo que gera, projeta e implementa ideias inovadoras no domínio público. O empreendedor público é definido por dois fatores: sua vontade de tomar medidas de risco e sua capacidade de coordenar as ações de outras pessoas para cumprir metas. O empreendedor público é um líder que amplia metas, mandatos, funções e poder de suas organizações de maneira não prevista pelos agentes públicos. Ele constrói coalizões políticas para usufruir as oportunidades empreendedoras na organização. Fonte: Adaptado de Valadares et al., 2012. Para Guimarães (2000), o empreendedorismo como competência na gestão pública implica que a organização estabeleça objetivos estratégicos e faça da inovação uma prática cotidiana. Desse modo, as características do comportamento empreendedor encontram relação com as competências necessárias do gestor público, verificadas no Quadro 2. Quadro 2 – Competências empreendedorasnecessárias ao gestor público Autor Competências necessárias Zarifian (2001) Capacidade de atuar em rede, comunicação, pluralidade, assumir responsabilidade, tomar iniciativa e inovar, automobilização, capacidade de trabalhar com projetos. Moore (2002) Inovação, criatividade, visão aberta, trabalhos em alianças e redes, gestão estratégica, gestão operacional, gestão do entorno político. Pacheco (2002) Competência partidária, representatividade, confiança (lealdade, afinidade pessoal), técnica (reputação e expertise), competências de direção, agente transformador/inovador, capacidade de liderança, habilidade política, habilidade de comunicação. Martins (2004) Capacidade de formular e implementar políticas públicas, capacidade de decidir, inteligência estratégica, capacidade para a função de planejamento, equidade, orientação desenvolvimentista, construção de consenso. Nogueira (2003) Gerenciar a incerteza, humanizar e dirigir a mudança, integrar a sociedade, impulsionar as capacidades comunitárias, liderar, responsabilização, consciência ético-política, planejamento e coordenação, foco nos recursos humanos, democracia substantiva. Fonte: Feger; Fischer; Nodari, 2009, p. 224. No entanto, ser empreendedor no setor público não é tão simples assim, pois há fatores limitadores que impedem o desenvolvimento de uma cultura empreendedora no setor público, como se observa a seguir. Fundamentos da Gestão Pública118 Fatores limitadores para o empreendedorismo público: • processos burocráticos; • exposição de projetos frustrados na mídia; • baixa competição; • baixo controle dos recursos; • regulação massiva dos custos; • julgamento constante das verbas e resultados; • multiplicidade e ambiguidade de objetivos; • contínuo retorno financeiro governamental; • necessidade constante de consulta ao governo; • intervenção política na administração; • emprego restrito de políticas e escalas rígidas de salários; • aversão ao risco; • bônus ineficientes aos empreendedores; • sistema de punição aos erros; • fraca disciplina financeira. Fonte: Adaptado de Sadler 2000 apud Morais Silva, 2015, p. 41. Entende-se que a organização pública sofre pressões para a utilização mais eficaz dos recursos disponíveis para atender com mais qualidade aos cidadãos. Compreender as necessidades da sociedade e criar alternativas adequadas necessitam de colaboradores com perfil condizente. Em relação às políticas públicas, o policy entrepreneur ganhou destaque em meados dos anos 1980, sendo John Kingdon (2003) um dos primeiros a apontar a centralidade da ação empreendedora em processos de rápida mudança em políticas públicas. Kingdon (2003) destaca três características de um empreendedor público: • possui legitimidade resultante da expertise no tema e área em questão, tem habilidade na comunicação e se posiciona no processo decisório; • relaciona-se com as conexões políticas a partir de habilidades de negociação; • investe recursos pessoais como tempo e dedicação. Kingdon destaca a ação do empreendedor na formulação da política, porém, para ele, os empreendedores não controlam os processos de mudança, pois as mudanças na agenda se efetivam e são influenciadas por grandes eventos e pelas estruturas, e não especificamente pela vontade de um indivíduo em particular (CAPELLA, 2016). Empreendedorismo e inovação no setor público 119 7.1.1 Empreendedorismo institucional Introduzido por Eisenstadt (1980), o termo empreendedorismo institucional passou a ser utilizado nas discussões associadas à criação e mudança de instituições. Os empreendedores institucionais promovem inovações, modificam arranjos institucionais enraizados e implantam novas práticas para a ação (DIMAGGIO, 1988). Para eles, a habilidade de enxergar “fora da caixa” e propor caminhos alternativos para o futuro, ao invés de apenas reproduzirem velhos paradigmas, são características essenciais. Baez e Abolafia (2002) sugerem que as mudanças institucionais podem ser realizadas de algumas maneiras: • keying: a mudança institucional ocorre, mas são mantidas suas regras; • improvisation: quando se utiliza do improviso para resolver um problema encontrado na instituição, que não pode se resolvido por métodos conhecidos; • reprise: reestruturação do ambiente após uma mudança resultante de um improviso. Nessa perspectiva, Scott (2008) desenvolveu um modelo estratificado para tratar seus estudos sobre as instituições. Para o autor, a estrutura se assenta sobre três pilares: regulativo, normativo e cultural-cognitivo. Esses pilares não apenas enfatizam a natureza simbólica dos elementos institucionais, mas a sua influência sobre o comportamento das organizações (Quadro 3). Quadro 3 – Pilares institucionais Referência Características Pilar regulativo Evidencia as regras e mecanismos de controle. Muitos tipos de regulamentos habilitam as organizações e suas ações, conferindo licença e poder para atuar. Pilar normativo Mostra a dimensão prescritiva, avaliativa e obrigatória da vida social. Sistemas normativos incluem valores e normas (concepções do desejável padrão de comportamento). A concepção de papéis é relevante para entender o pilar normativo, pois eles são formalmente construídos e as normas inerentes aos papéis evocam sentimentos como vergonha e orgulho. Pilar cultural-cognitivo Enfatiza as concepções compartilhadas que constituem a natureza da realidade social. Sistemas culturais cognitivos incluem símbolos, palavras, sinais e gestos, significados que são atribuídos a objetos e a atividades. Fonte: Elaborado com base em Scott, 2008, p. 48. A compreensão das instituições públicas deve ser feita de modo analítico, ou seja, a partir de uma combinação entre os pilares. Percebe-se que o empreendedorismo institucional é concebido pelas intenções dos atores responsáveis por fomentar os recursos necessários para modificar ou criar uma nova instituição. Fundamentos da Gestão Pública120 7.1.2 Intraempreendedorismo O papel do empreendedor interno na organização ajusta-se aos conceitos de empreendedorismo corporativo ou intraempreendedorismo, destacando a importância de processos que estimulem a criatividade e a iniciativa dos colaboradores das organizações. O termo intraempreendedorismo (intrapreneurship) se estabeleceu a partir de organizações que se destacaram pelo sucesso adquirido por meio das inovações e de colaboradores que criaram melhores processos na organização a que pertenciam, de modo a trazer mudanças e novas oportunidades de negócio. O intraempreendedor é o indivíduo que busca inovar e criar oportunidades de negócios na organização onde trabalha, ao invés de abrir seu próprio negócio. Em relação ao setor público, o intraempreendedorismo consiste nas ações decorrentes da inovação ou na transformação significativamente melhorada de um negócio, de um processo ou de um produto, por meio do qual um colaborador busca otimizar os resultados da organização, podendo ser uma autarquia, uma fundação pública, uma empresa estatal etc. De acordo com Filion (2004, p. 74) os intraempreendedores são pessoas que “desempenham um papel empreendedor dentro de organizações”. Eles possuem características semelhantes aos empreendedores, salvo no que se refere a assumir riscos, pois considera-se o fato de que os intraempreendedores se utilizam do dinheiro e de recursos da organização à qual pertencem, sendo o risco pessoal bem menor em comparação aos empreendedores. (SILVA, 2017) No entanto, observa-se que no setor público a cultura empreendedora pode ser inibida pelo alto grau de burocratização. A organização pública pode fomentar a estagnação dos funcionários diante de um rígido controle, o que resulta na diminuição da prática intraempreendedora. Nesse viés, para Pinchot III (1989), as organizações não podem resistir por muito tempo com pessoas sem iniciativa, desmotivadas, presas a normas e burocracias. Por essa razão, tem-se a necessidade de estimular o intraempreendedorismo no serviçopúblico. De tal modo, se faz necessário investir na capacitação, sensibilização e qualificação dos servidores públicos, possibilitando o compartilhamento dos conhecimentos e o estímulo à criatividade e inovação, entre outras, que tanto o governo quanto os gestores públicos sejam empreendedores. 7.2 O gestor público empreendedor O termo governo empreendedor (GE) foi introduzido na administração pública por meio do pensamento neoliberal e se consolidou com o surgimento do modelo de administração pública gerencial, denominado New Public Management (SILVA, 2017). Marini (2004, p. 5), sugere que o New Public Management deu “os primeiros sinais da introdução da cultura baseada no empreendedorismo, inspirada nas práticas da gestão empresarial”. Vídeo Empreendedorismo e inovação no setor público 121 Os precursores do GE foram Osborne e Gaebler (1992), com a publicação do livro Reinventando o Governo, ao afirmarem que o pragmatismo da administração pública se consolidaria a partir dos conceitos do empreendedorismo. Uma definição de gestão empreendedora que se alinha a esse entendimento, é apontada por Martins (2007, p. 2): A gestão empreendedora é a orientação governamental para transformar a burocracia pública e melhorar a governança. O propósito da gestão pública empreendedora é reduzir custos e melhorar a qualidade dos serviços prestados. Seu princípio básico é a introdução de um novo paradigma gerencial no governo, voltado para resultados, focado no cliente/cidadão, baseado em parcerias, compromisso, responsabilização, autonomia, risco, iniciativa, aprendizado conjunto e trabalho em rede. A visão orientadora desse princípio é a formação de um serviço público eficaz, eficiente, flexível, transparente, altamente capacitado e profissionalizado. A gestão empreendedora surgiu como alternativa ao modelo da burocracia ortodoxa, isto é, de métodos e técnicas de administração utilizados em empresas privadas, e ao modelo liberal, caracterizado pela menor presença do Estado em uma administração pública atuante, guiada por critérios de eficiência empresarial. No Brasil, a partir dos anos 2000, os órgãos da administração pública federal passaram a adotar a gestão empreendedora, fundamentada nas ações de quatro programas, citados por Martins (2007). São eles: • redução de custos e ampliação dos resultados para os cidadãos; • qualidade dos serviços públicos; • desburocratização; • valorização do servidor público, ampliando a autonomia e a responsabilização. As mudanças nos padrões de gestão das instituições têm permeado as discussões em torno das reformas no mecanismo do Estado, pois o modelo burocrático não atende às demandas sociais de um estado, que deve ser mais eficiente e voltado para o cidadão. 7.3 A inovação no setor público Muito se tem falado de inovação na gestão pública, porém esse não é um termo novo. Desde o início dos anos 80 se discute a respeito da inovação, a qual é amplamente conhecida como nova gestão pública. No entanto, outras palavras eram utilizadas no lugar de inovação, como desburocratização, gestão por resultados, informatização etc., de modo que toda uma geração passou a questionar antigos padrões e a modificar a arte de governar, de organizar e administrar, ou seja, começou a inovar quanto aos processos e à organização. No setor público, a inovação significa mudanças de processos voltados para a gestão eficiente, buscando a democratização da ação estatal, tanto no aumento do volume de serviços Vídeo Fundamentos da Gestão Pública122 oferecidos à população quanto na ampliação da participação popular na formulação, instituição e controle das políticas públicas (FARAH, 2010). Com a escassez de recursos para atender às demandas crescentes da sociedade, a inovação tem sido apontada como requisito necessário para a solução dos desafios e problemas enfrentados pela administração pública. O Manual de Oslo (2005), estudo publicado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) define quatro tipos de inovação que incluem produtos ou métodos novos ou significativamente melhorados, conforme o Quadro 4. Quadro 4 – Tipos de inovação Tipos de inovação Descrição Inovação de produto Introdução de um bem ou serviço, incluindo melhoramentos significativos em especificações técnicas, componentes e materiais, softwares incorporados, facilidade de uso ou outras características funcionais. Inovação de processo Implementação de um método de produção ou distribuição, incluindo mudanças significativas em técnicas, equipamentos e/ou softwares utilizados para produzir bens e serviços. Inovação de marketing Implementação de um novo método de marketing com mudanças significativas na concepção do produto ou em sua embalagem, no posicionamento do produto, em sua promoção ou na fixação de preços. Inovação organizacional Implementação de um novo método organizacional nas práticas de negócios da empresa, na organização do seu local de trabalho ou em suas relações externas. Fonte: Manual de Oslo 2005 apud Silva; Ribas; Meza, 2019, p. 76. Silva, Ribas e Meza (2019) revelam que, dos quatro tipos de inovação, destacam-se as inovações de produto e de processo. Nesses dois tipos percebem-se as inovações denominadas incrementais, que são as mais adequadas para analisar o ambiente das organizações de serviços. A inovação incremental é a mais comum, pois tem o escopo de gerar novos conhecimentos e melhorar produtos e processos existentes; são mudanças pontuais. Já a inovação radical relaciona- -se à substituição de um produto por outro, mediante a criação de características superiores aos existentes no mercado (SILVA; RIBAS; MEZA, 2019). Por estarmos tratando de organizações, é oportuno diferenciar inovação organizacional de mudança organizacional, destacando que: “mudança organizacional é considerada a adoção de uma nova ideia ou comportamento por uma organização. A inovação organizacional é a adoção de uma ideia ou comportamento que é novo para o setor, mercado ou ambiente geral da organização” (DAFT, 2014 apud SILVA et al., 2019, p. 77, grifos nossos). A relação entre empreendedorismo público e inovação ocorre a partir de duas dimensões identificadas por Kearney (2007): • interna: que se refere à estrutura/formalidade, decisões/controle, cultura, tomada de risco e proatividade; e • externa: que abrange o ambiente político, complexidade, munificência e mudanças provenientes do ambiente externo ao setor. Empreendedorismo e inovação no setor público 123 No contexto das inovações na gestão pública, Cavalcante e Camões (2015, p. 12) descrevem que há um conjunto de tendências: • Mecanismos de transparência, governança de dados abertos e accountability; • Governo eletrônico (e-government) como estratégia de ampliação e facilitação do acesso e da participação cidadã na administração pública; • Novos arranjos de políticas públicas que permitam maior participação dos cidadãos na produção de bens público; • Redes e parcerias público-privadas; • Tecnologia de Informação e Comunicação (TICs) para ampliar a qualidade e eficiência na prestação de serviços públicos. Conforme essas tendências, a inovação tende a transbordar os limites das organizações e dos setores socioeconômicos. Nesse escopo, entre os conceitos de maior destaque estão o da inovação aberta e da inteligência coletiva, que procuram orientar a atuação face a tal transbordamento. O termo inovação aberta foi cunhado por Henry Chesbrough (2003), referindo-se à abertura das fronteiras das organizações, no sentido de permitir o uso de ideias internas e externas nos processos de inovação por essas organizações. Para Lévy (2003, p. 28), a inteligência coletiva é “distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências”. O autor afirma que os intelectuais coletivos só poderão se reunir em um mesmo ambiente a partir da mediação das tecnologias da informação e comunicação.Com essas tecnologias, os saberes dos indivíduos poderão estar em sinergia. Isso significa que a inteligência coletiva se encontra plenamente associada aos planos social, político e econômico, corroborando o revelado por Lévy (2003), ao considerar que a inteligência coletiva é uma proposta global e que vai além do plano cognitivo. Depreende-se que os serviços e políticas públicas exigem dedicação profissionalizada em ambientes propícios às atividades inovadoras em formato aberto e que o gestor público deve organizar-se e consolidar-se no centro da inovação governamental, para incrementar iniciativas e inteligência coletivas. 7.3.1 Barreiras para a inovação no setor público De fato, existem inúmeras barreiras no setor público para que a inovação possa acontecer, seja de ordem legal, administrativa, cultural ou mesmo políticas. Scherer (2015, p. 8-9) identificou algumas dessas barreiras, as quais merecem ser constantemente combatidas para que sejam minimizadas nas organizações públicas. • Falta de visão das lideranças públicas e políticas – as lideranças não têm a percepção da importância de estruturar a inovação e quais são seus impactos positivos. • Falta de incentivos aos servidores – limitação legal ou política de recursos humanos que não incentiva a participação e promoção da criatividade. • Resistência dos servidores – decorrente da visão que inovar significa mais responsabilidades ou desperdício de trabalho sem que os retornos sejam mensuráveis. Fundamentos da Gestão Pública124 • Excesso de burocracia – torna o processo de inovação lento ou restringe a possibilidade de execução de projetos com maior grau de incerteza. • Escassez de recursos – insuficiência de planejamento ou disponibilidade de recursos humanos ou financeiros que possam ser alocados em projetos inovadores. • Aversão ao risco – baixa aceitação ao risco e necessidade de previsibilidade no desenvolvimento dos projetos. • Resultados rápidos – o fator tempo leva muitos gestores a desejarem desenvolver projetos que proporcionem resultados políticos no mais curto prazo possível. Observa-se em tais barreiras a existência de um custo político (tempo) que os governantes não estão dispostos a assumir em seus mandatos de 4 anos. No setor público, o gestor deve levar em consideração essas barreiras e estabelecer um conjunto de práticas que permita que a visão empreendedora baseada na inovação se torne realidade. 7.3.2 Oportunidades de inovação no setor público Diante do que estudamos até o momento, é interessante iniciar este tópico com a seguinte questão: é possível ser empreendedor no setor público? Para responder a essa questão, é importante lembrarmos o que observamos até o momento, que a gestão pública requer que suas estruturas sejam modernizadas, que se criem métodos e processos flexíveis e que se tenha pensamento estratégico ágil. Tais demandas sinalizam que os gestores devem aperfeiçoar os meios para gerir e integrar suas ações com métodos e estratégias inovadoras. Para Matias-Pereira (2008), a gestão pública no Brasil carece de uma cultura empreendedora para que tanto instituição quanto servidor público tenham uma postura mais flexível e criativa. No Brasil, algumas iniciativas têm sido criadas para enfrentar os desafios do setor público. Dentre essas iniciativas, estão os laboratórios de inovação, uma nova forma institucional e diferente na busca de soluções daquelas das abordagens tradicionais. O crescente número desses laboratórios enfatiza que se os governos estiverem dispostos a abrir suas portas para a inovação, eles precisam criar recursos, habilidades, espaços dedicados – reais ou virtuais – e suporte executivo para possibilitar que a inovação aconteça. Algumas dessas experiências têm se destacado na promoção da inovação no setor público brasileiro, como apresentado no Quadro 5. Quadro 5 – Laboratórios de inovação do setor público GNova Métodos oriundos do Design Thinking. Tem como estratégia a geração de soluções para diversas organizações públicas. Fábrica de Ideias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) Projeto piloto desenvolvido em uma agência reguladora do governo. Ministério da Educação (MEC) Utiliza a técnica crowdstorming para prospectar soluções inovadoras convergente com a tendência de inovação aberta. (Continua) Empreendedorismo e inovação no setor público 125 Rede InovaGov Por meio de desafios mobilizadores, tem gerado trabalhos colaborativos de diferentes instituições do governo federal. iGov SP Gestão do conhecimento e inovação. Busca promover diferentes iniciativas para criar condições para que a inovação ocorra nos órgãos públicos estaduais. GovLab Busca um papel ativo na utilização das tecnologias para melhorar a vida dos cidadãos. PENSA Rio Projetos de pesquisa multidisciplinares em áreas relevantes e estratégicas para o estado do Rio de Janeiro. LAB.Rio A plataforma funciona como uma rede social para discussão de ideias, a fim de propor, discutir e aprimorar as políticas públicas para o município do Rio de Janeiro. Laboratório de Políticas Públicas – FGV/RJ Debater sobre inovações no setor público, a fim de alinhar a teoria aprendida em sala à prática da realidade brasileira. Fonte: Adaptado de Cavalcante; Camões, 2017. Por meio dessa nova tendência, surgem duas novas formas de organizações públicas: as híbridas, com o escopo de formular políticas e desenhar programas públicos por meio de uma metodologia experimental; e as de inovação aberta, aproximando atores na busca de soluções de problemas complexos e a realização de testes sob novas abordagens. Considerações finais Nesse capítulo, verificamos que nas organizações públicas é possível empreender, porém que as ações são desestimuladas pelas normas regulatórias e os limites orçamentários. Ademais, instituições altamente burocráticas fazem com que os envolvidos tenham um comportamento empreendedor passivo, pois, em razão do cumprimento da lei, somente podem agir se estiverem autorizados. No entanto, frente aos desafios recentes, a inovação tem se mostrado necessária, a fim de ampliar a transparência governamental e aproximar a sociedade da gestão pública nos processos que demandem a elaboração e a formulação de políticas públicas e no processo decisório de alocação dos investimentos públicos. As novas configurações da gestão pública, como a governança da Era Digital e o e-government, devem ser orientadas a contribuir para o avanço na digitalização dos processos administrativos e na comunicação entre gestores e os cidadãos-usuários. Ampliando seus conhecimentos • ANDRADE, C. R.; CKAGNAZAROFF, I. B. Seleção e monitoramento de empreendedores públicos à luz da gestão por competências. Revista de Administração Pública. Rio de Janeiro, n. 52, v. 3, 469-485, maio – jun. 2018. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ rap/v52n3/1982-3134-rap-52-03-469.pdf. Acesso em: 11 dez. 2019. http://www.scielo.br/pdf/rap/v52n3/1982-3134-rap-52-03-469.pdf http://www.scielo.br/pdf/rap/v52n3/1982-3134-rap-52-03-469.pdf Fundamentos da Gestão Pública126 Criado pela Lei Delegada n. 174 de 2007, do estado de Minas Gerais, o cargo de Empreendedor Público (EP) foi destinado a atender aos encargos temporários do Programa Estado para Resultados. A ocupação dos cargos se dava por provimento em comissão, de recrutamento amplo. O modelo do EP é fundamentado em gestão por competências. Nesse artigo, Andrade e Ckagnazaroff fazem um estudo sobre o cargo de EP, à luz da gestão por competências, e de como ocorreram a seleção dos servidores designados como empreendedores públicos (EP). • SILVA, M. V. G.; RIBAS, J. A. N.; MEZA, M. L. F. G. Inovação nas Organizações Públicas: análise das ações premiadas pela Enap. Revista Desenvolvimento em Questão, v. 17, n. 46, p. 74-87, jan. – mar. 2019. Disponível em: https://www.revistas.unijui.edu.br/index.php/ desenvolvimentoemquestao/article/view/6706. Acesso em: 11 dez. 2019. O Concurso Inovação na Gestão Pública Federal,personalidade jurídica própria, pois todos compõem o poder executivo; e (ii) o financiamento, por parte do orçamento público, de sua estrutura funcional e de suas ações. Considerados os três níveis, cada governo pode criar, extinguir ou juntar quantos órgãos julgar necessários para cumprir sua função e atender aos interesses da população. Administração indireta Compreende as entidades que possuem personalidade jurídica, patrimônio próprio e que estejam vinculadas à administração direta. Nesse caso, vinculação não significa subordinação, que só é aplicável dentro da administração direta, refletindo uma hierarquia (COSTIN, 2010). Portanto, essas entidades não estão ligadas diretamente ao chefe do poder executivo. As entidades da administração indireta prestam serviços públicos apoiadas em legislação própria, sob regime de relações trabalhistas diferenciado em relação ao dos demais funcionários da administração direta (que ingressam por concurso público) no tocante às garantias e direitos vinculados à previdência social. Compreendem as autarquias, as fundações, as empresas públicas e as sociedades de economia mista (COSTIN, 2010; DIAS, 2017): a) Autarquias: são serviços autônomos, criados por lei específica, com personalidade de direito público, patrimônio e receitas próprios, que requerem, para seu melhor funcionamento, gestão administrativa e financeira descentralizada (BRASIL, 1967). São exemplos de autarquias: o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), o Banco Central do Brasil (BCB), a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (DNIT), a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), entre outros (TCU, 2007). b) Fundações: são as entidades dotadas de personalidade jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, criada em virtude de autorização legislativa, para o desenvolvimento de atividades que não exijam execução por órgãos ou entidades de direito público, com autonomia administrativa, patrimônio próprio gerido pelos respectivos órgãos de direção, e funcionamento custeado por recursos da União e de outras fontes (BRASIL, 1967). Constituem exemplos: a Fundação Nacional de Artes (FUNARTE), a Fundação Biblioteca Nacional, a Fundação da Universidade Estadual de Campinas (FUNCAMP), a Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Fundação Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), a Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor (PROCON), entre outras (TCU, 2007). Fundamentos da Gestão Pública16 c) Empresas públicas: entidades dotadas de personalidade jurídica de direito privado, com patrimônio próprio e capital exclusivo da União, do Estado ou do município, criadas para explorar a atividade econômica que o governo se vê obrigado a exercer por conveniência administrativa ou econômica (BRASIL, 1967). São exemplos a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (INFRAERO), a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Caixa Econômica Federal (CEF), a Companhia Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), entre outras (TCU, 2007). d) Sociedades de economia mista: entidades dotadas de personalidade jurídica de direito privado, criada por lei para a exploração de atividade econômica, sob a forma de sociedade anônima, cujas ações com direito a voto pertençam em sua maioria à União ou a entidade da Administração Indireta (BRASIL, 1967). São empresas estatais submetidas à lei da S. A., constituídas com a finalidade de explorar atividade econômica de interesse do Estado para cumprir seus fins. Essas entidades se distinguem das empresas públicas pela participação de acionistas, desde que minoritários, na direção e na gestão de seus negócios. São exemplos: a Empresa Brasileira de Petróleo (PETROBRAS), a Central Elétrica Brasileira (ELETROBRAS), o Banco do Brasil (BB), entre outras (TCU, 2007). 1.2 Serviços públicos Nas últimas décadas, os serviços públicos passaram a ser continuamente ajustados às demandas e às necessidades da economia e da sociedade, passando a intensificar a remodelação de seus serviços, produtos e estrutura organizacional, bem como privilegiar a gestão de pessoas dotadas de conhecimentos e capacidades decisórias voltadas para o futuro e para o destino da organização. Matias-Pereira (2012, p. 10) afirma que o conceito de serviço público é influenciado pela época e pela noção de Estado, bem como pela relação que existe entre este e a sociedade. As mudanças de paradigmas no campo tecnológico, econômico, político e socioambiental estão refletindo fortemente na noção de serviço público no mundo contemporâneo. No Brasil – diferentemente do que ocorreu com outros sistemas, em que a titularidade foi transferida juntamente com a execução dos serviços –, os serviços públicos permanecem com a titularidade estatal. A Constituição Federal de 1988 define os limites da titularidade estatal, estabelecendo que a delegação dos serviços deve ocorrer apenas pelas formas previstas na própria carta constitucional: por meio da concessão, da permissão e da autorização2. O controle maior do Estado sobre a execução dos serviços públicos se apresenta como forma de garantir proteção às atividades que se revestem de especial interesse público. 2 Saiba mais sobre concessão, permissão e autorização em: https://www.migalhas.com.br/arquivos/2016/7/ art20160715-08.pdf. Vídeo https://www.migalhas.com.br/arquivos/2016/7/art20160715-08.pdf https://www.migalhas.com.br/arquivos/2016/7/art20160715-08.pdf Introdução à gestão pública 17 Para Meirelles (2004, p. 320-321), em um sentido amplo, serviço público é todo aquele prestado pela Administração ou por seus delegados, sob normas e controles estatais, para satisfazer necessidades essenciais ou secundárias da coletividade ou simples conveniências do Estado. Fora dessa generalidade não se pode, em doutrina, indicar as atividades que constituem serviço público, porque variam segundo as exigências de cada povo e de cada época. Nem se pode dizer que são atividades coletivas vitais que caracterizam os serviços públicos, porque ao lado destas existem outras, sabidamente dispensáveis pela comunidade, que são realizadas pelo Estado como serviço público. Os serviços públicos devem ser universais, isto é, disponíveis a todos os cidadãos, independentemente da renda, da capacidade física ou do grau de instrução. 1.2.1 Classificação dos serviços públicos no Brasil Os serviços próprios ou impróprios estão relacionados àqueles que são exercidos direta ou indiretamente pelo Estado. A forma direta ocorre quando os agentes executam a atividade, e a forma indireta, quando a realização da atividade é repassada a concessionários ou permissionários. Para Meirelles (1999, p. 296) serviços próprios são: aqueles que se relacionam intimamente com as atribuições do Poder Público (segurança, polícia, higiene, e saúde pública etc.) e para a execução dos quais a Administração usa da sua supremacia sobre os administrados. Tais serviços, por sua essencialidade, geralmente são gratuitos ou de baixa remuneração, para que fiquem ao alcance de todos os membros da coletividade. Os serviços impróprios não são assumidos pelo Estado, ao qual cabe apenas autorizar, regular ou fiscalizar sua execução. Esses serviços correspondem a atividades privadas, recebendo a denominação de serviço público por atenderem às necessidades gerais, dependendo, assim, de autorização do poder público. Serviço impróprio é definido da seguinte maneira por Meirelles (1999, p. 296): os que não afetam substancialmente as necessidades da comunidade, mas satisfazem interesses comuns de seus membros, e, por isso, a Administração os presta remuneradamente, por seusorganizado pela Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), conceitua inovação como mudanças em práticas anteriores, por meio da “incorporação de novos elementos na gestão pública ou de uma nova combinação dos mecanismos de gestão existentes, que produzam resultados positivos para o serviço público e para a sociedade” (ENAP, 2014, p. 9). Silva, Ribas e Meza (2019), no trabalho “Inovação nas Organizações Públicas: Análise das Ações Premiadas pela Enap”, analisaram as tendências das inovações na gestão pública baseadas no Concurso Inovação na Gestão Pública Federal, entre os anos de 1996 a 2014. Os casos foram analisados de acordo com as dimensões: tipos de inovação, classificação da inovação, áreas de ação, áreas de abrangência e áreas temáticas. Acesse o artigo e conheça quais foram as 351 ações premiadas nas 19 edições do concurso, os órgãos federais que inovaram em suas áreas de atuação e as iniciativas desses órgãos que contribuíram para a melhoria dos serviços públicos. Atividades 1. Que tal analisar se você tem perfil empreendedor? No Quadro 2 são apontadas algumas competências empreendedoras necessárias ao gestor público. Verifique as competências apontadas no quadro e selecione aquelas que você julga possuir. 2. Qual é a característica principal que diferencia o empreendedorismo do intra- empreendedorismo? 3. No contexto das inovações na gestão pública há um conjunto de tendências. Descreva quais são elas. https://www.revistas.unijui.edu.br/index.php/desenvolvimentoemquestao/article/view/6706 https://www.revistas.unijui.edu.br/index.php/desenvolvimentoemquestao/article/view/6706 Empreendedorismo e inovação no setor público 127 Referências BAEZ, B.; ABOLAFIA, M. Y. Bureaucratic Entrepreneurship and Institutional Change: A Sense Making Approach. Journal of Public Administration Research and Theory, v.12, n.4, p.525-552, 2002. BOUCHIKHI, H. A Constructivist Framework for Understanding Entrepreneurship Performance. Organization Studies, v.14, n.4, p.549-571, jul. 1993. CAPELLA, A. C. N. Um estudo sobre o conceito de empreendedor de políticas públicas: Ideias, Interesses e Mudanças. Cad. EBAPE.BR, v.14, Edição Especial, Artigo 5, Rio de Janeiro, jul. 2016. Disponível em: http:// www.scielo.br/pdf/cebape/v14nspe/1679-3951-cebape-14-spe-00486.pdf. Acesso em: 11 dez. 2019. 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Acesso em: 11 dez. 2012. 8 Indicadores de desempenho da gestão pública No âmbito da gestão municipal, a sociedade – de modo incipiente, mas crescente – tem buscado por informações, na expectativa de ser mais participativa nas decisões públicas. Porém, para que a sociedade seja devidamente informada, há a necessidade de tornar mais transparente os resultados do desempenho do gestor público, por meio de indicadores que sejam fáceis de serem analisados. A mensuração do desempenho na gestão pública pressupõe o entendimento de que metas devem ser atingidas, o esforço da organização pode ser quantificado em termos de insumos necessários para atingir tais metas e os impactos gerados estarão alinhados ao planejamento. O termo desempenho pode ser entendido como a soma de esforços na direção de resultados a serem alcançados (BRASIL, 2009). desempenho = esforços + resultados Nesse contexto, na gestão pública, os indicadores são ferramentas que devem ser utilizadas rotineiramente para avaliar o desempenho em relação aos investimentos e políticas públicas de um órgão público. 8.1 Conceituando indicadores Os atores que trabalham no setor público e que desejam compreender melhor os cenários atuais, como trabalho, pobreza, saúde, educação, segurança pública, impactos ambientais etc., e que precisam formular e implementar programas, projetos e ações nessas áreas, necessariamente, precisam compreender a elaboração e a utilidade dos Indicadores Socioeconômicos. A importância de se medir é indiscutível e o uso de indicadores para mensurar os resultados permite avaliar o desempenho em relação à meta e a outros referenciais, possibilitando o controle e a tomada de decisão gerencial. Outra importante função é a de induzir atitudes nas pessoas cujo desempenho está medido, pois os indivíduos tendem a modificar suas ações influenciadas pela forma como são avaliados. Conforme estudamosno capítulo 6, a partir da publicação da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), no ano 2000, teve início uma série de mudanças na administração pública, o que resultou na busca pela eficiência e efetividade na ação governamental voltada principalmente para a gestão de custos. A maioria das administrações públicas tem dedicado atenção para a capacidade de identificar oportunidades, elaborar estratégias e implementar as ações de acordo com os prazos e Vídeo Fundamentos da Gestão Pública130 as metas estabelecidos. Para que isso aconteça, devem ser elencados indicadores de desempenho que permitam traçar um diagnóstico apurado dos resultados obtidos. Os indicadores de desempenho são essenciais para analisar os processos e verificar se eles estão alinhados com a estratégia proposta. Porém, ainda existe uma grande dificuldade para os gestores públicos identificarem quais são as medidas e fatores relevantes e mais adequados para se definir como indicadores de desempenho. Na gestão pública, o desempenho constitui “um conjunto sistemático de ações que buscam definir o conjunto de resultados a serem alcançados e os esforços e capacidades necessários para seu alcance, incluindo-se a definição de mecanismos de alinhamento de estruturas implementadoras e de sistemática de monitoramento e avaliação” (BRASIL, 2009, p. 10). Para Ferreira, Cassiolato e Gonzales (2009, p. 24), o indicador é “uma medida, de ordem quantitativa ou qualitativa, dotada de significado particular e utilizada para organizar e captar as informações relevantes dos elementos que compõem o objeto da observação. É um recurso metodológico que informa empiricamente sobre a evolução do aspecto observado.” Ou seja, um indicador é um parâmetro utilizado para mensurar a diferença entre a situação desejada e a situação atual, isto é, a identificação de um problema. Os indicadores são, portanto, instrumentos fundamentais para o controle na administração privada e, sobretudo, na administração pública, por contribuírem com a transparência na gestão e promoverem o diálogo entre os diversos grupos sociais organizados. Por um lado, os indicadores são ferramentas gerenciais para a administração pública e, por outro, são instrumentos para que esta possa ser fiscalizada pelos movimentos populares. Grateron (1999, p. 10, grifos nossos) aponta que, de acordo com o objeto, os indicadores são reunidos segundo o alvo de medição ou avaliação: Indicadores de resultado – resultados obtidos em relação a resultados esperados ou desejados. Normalmente, referem-se a indicadores de eficácia, considerando a consecução dos objetivos fixados. Indicadores de processos – referem-se aos indicadores de eficiência e são utilizados normalmente quando não é possível utilizar indicadores de resultado. Indicadores de estrutura – procuram avaliar o custo e a utilização de recursos. Pela sua natureza, podem ser considerados como indicadores de economia. Indicadores estratégicos – procuram avaliar os aspectos não relacionados diretamente com as atividades desenvolvidas, mas que tenham efeito sobre os resultados dessas atividades. Normalmente, esses fatores são de caráter externo. De acordo com o âmbito de atuação, ainda segundo o autor supracitado, os indicadores são: • Internos – consideram variáveis de funcionamento interno da entidade ou organização. • Externos – consideram o efeito ou impacto, fora da entidade, das atividades e serviços prestados. Em relação à tipificação dos indicadores, Ferreira (2014, p. 39) os classifica da seguinte forma: • Indicadores estratégicos – informam o quanto a organização se encontra na direção da consecução de sua visão, refletindo o desempenho em relação aos fatores críticos do sucesso. Indicadores de desempenho da gestão pública 131 • Indicadores de produtividade (eficiência) – medem a proporção de recursos consumidos com relação às saídas dos processos. • Indicadores de qualidade (eficácia) – focam as medidas de satisfação dos clientes e as características dos produtos ou serviços. • Indicadores de efetividade (impacto) – focam as consequências dos produtos ou serviços. • Indicadores de capacidade – medem a capacidade de resposta de um processo por meio da relação entre as saídas produzidas por unidade de tempo. O uso de indicadores é fundamental no contexto do planejamento estratégico e da mensuração dos resultados. Segundo Jannuzzi (2001), a utilização dos indicadores na atividade pública se ampliou a partir da implantação do Welfare State (Estado de Bem-Estar Social). A Organização das Nações Unidas (ONU), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) também foram responsáveis pela exigência do uso de indicadores para a concessão de financiamentos de projetos dos governos de vários países. O Ministério de Planejamento, Orçamento e Gestão (BRASIL, 2012), ao citar a OCDE (2002), sugere que um bom indicador deve propor as propriedades e elementos observadas no Quadro 1. Quadro 1 – Propriedades e elementos de um bom indicador Propriedade Elementos Relevância para a formulação de políticas Representatividade Simplicidade Sensibilidade a mudanças Possibilidade de comparações em nível internacional Escopo abrangente Disponibilidade de valores de referência Adequação à análise Fundamentação científica Base em padrões internacionais e consenso sobre a sua validade Aplicação em modelos econômicos, de previsão e em sistemas de informação Mensurabilidade Viabilidade em termos de tempo e recursos Documentação adequada Atualização periódica Fonte: OCDE , 2002 apud Brasil, 2012, p. 18. Ante a gama de elementos disponíveis, na seleção dos indicadores, deve-se priorizar aqueles que tenham aderência às propriedades de uma boa medida de desempenho. 8.2 O uso de indicadores na gestão pública No âmbito do setor público, os indicadores têm o escopo de demonstrar a relação existente entre gastos e investimentos do poder público, com vistas a esclarecer as relações de causa e efeito. Vídeo Fundamentos da Gestão Pública132 Grateron (1999, p. 2) complementa que “a atividade do setor público deve ser medida e avaliada mediante a utilização de parâmetros ou indicadores que decorram da eficiência e eficácia, de modo que possam integrar os relatórios da entidade”. Uma das definições utilizadas pela ONU (1988) refere-se ao uso dos indicadores para auxiliar as atividades de planejamento governamental nas esferas federal, estadual e municipal, possibilitando o monitoramento das condições de vida e do bem-estar da população por parte do poder público e da sociedade civil. Além disso, os indicadores podem possibilitar, às pesquisas acadêmicas, elementos de análise sobre os fenômenos sociais. Para Jannuzzi (2014), no Sistema de Indicadores Sociais, a elaboração de diagnósticos propositivos em políticas públicas ocorre a partir do interesse programático que se quer investigar ou mensurar objetivamente, conforme o esquema apresentado na Figura 1. Figura 1 – Interesse programático aos interesses sociais Busca e combinação de dados de diferentes fontes e pesquisas Registros de Programas Sociais Pesquisas do IBGE e outras Instituições Cadastros públicos Taxa de cobertura de rede de abastecimento de água Taxa de mortalidade infantil Taxa de evasão Taxa de desemprego Exemplos de possíveis indicadores Melhorias das condições de vida Condições de moradia Situações de saúde Perfil educacional Inserção ocupacional Fonte: Adaptado de Jannuzzi, 2014, p. 23. Depreende-se que os indicadores têm relação direta com o objetivo programático, este viabilizado pelos dados administrativos e estatísticas públicas disponibilizadas. Se, na elaboração de diagnósticos socioeconômicos, os policy makers (decisores políticos) não tiverem o conhecimento técnico adequado das fontes e dados de determinada temática social, devem utilizar os indicadores formulados por instituições tradicionais e que tenham credibilidade, a exemplodo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Isso contribui para que os decisores políticos tenham, minimamente, alguma informação ou indicador sobre determinada dimensão social que conduza a análises ou à tomada de decisões acertadas. Indicadores de desempenho da gestão pública 133 No Brasil, há vários indicadores sintéticos, conforme mostrado no Quadro 2, com maior ou menor grau de refinamento metodológico, elaborados por instituições acadêmicas e de pesquisa e órgãos públicos movidos pela necessidade de atender às buscas de informação para a formulação de políticas públicas e tomada de decisões nas esferas públicas. De outro modo, a motivação incide pelo uso do IDH e seu impacto no uso de indicadores junto aos ambientes políticos. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é uma medida resumida do progresso a longo prazo em três dimensões básicas do desenvolvimento humano: renda, educação e saúde. Quadro 2 – Indicadores sintéticos Instituição Índice Fundação João Pinheiro (MG) IDH-M: Índice de Desenvolvimento Humano Municipal ICV: Índice de Condições de Vida Municipal Fundação CIDE (RJ) IQM: Índice de Qualidade Municipal – Verde IQM: Índice de Qualidade Municipal – Carências IQM: Índice de Qualidade Municipal – Necessidades Habitacionais IQM: Índice de Qualidade Municipal – Sustentabilidade Fiscal Fundação SEADE (SP) IPRS: Índice Paulista de Responsabilidade Social IVJ: Índice de Vulnerabilidade Juvenil IPVS: Índice Paulista de Vulnerabilidade Social Fundação Economia e Estatística (RS) ISMA: Índice Social Municipal Ampliado Sup. Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI-BA) IDS: Índice de Desenvolvimento Social IDE: Índice de Desenvolvimento Econômico Prefeitura Municipal de Belo Horizonte/PUC-Minas (MG) IQVU: Índice de Qualidade de Vida Urbana IVS: Índice de Vulnerabilidade Social Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais IDEB: Índice de Desenvolvimento da Educação Básica Fonte: Jannuzzi, 2014, p. 46. A aplicabilidade dos indicadores sintéticos está sujeita a alguns questionamentos, entre eles, o grau de arbitrariedade no qual são definidos os pesos dos indicadores no cômputo final e em relação às distorções na seleção de públicos-alvo para o uso desses indicadores, sobretudo, em casos de programas setoriais (GUIMARÃES; JANNUZZI, 2004). Apesar de as críticas serem coerentes, é preciso reconhecer que os indicadores sintéticos acabaram por se legitimar em diversos aspectos, seja pela visibilidade que eles têm conferido às questões sociais na mídia, bem como à instrumentalização política do movimento social e das ONGs no monitoramento dos programas sociais (JANNUZZI, 2005). Fundamentos da Gestão Pública134 8.3 Fonte de dados para a elaboração de indicadores na gestão pública Há uma diversidade de fontes de pesquisa que elaboram e publicam dados estatísticos e outros tipos de indicadores, porém muitas delas ainda são desconhecidas por acadêmicos, gestores públicos, tomadores de decisões e pelos formuladores de políticas públicas. O Brasil possui um sistema criado pela Lei nº 6.183/1974, conhecido como Sistema Estatístico e Cartográfico Nacional (SEN), cujo desenvolvimento teve como objetivo possibilitar o conhecimento da realidade econômica e social do país, especialmente para o planejamento governamental. 8.3.1 IBGE O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é um órgão federal que coordena o SEN por meio da integração dos subsistemas e da padronização de procedimentos, conceitos e classificações, sendo o principal fornecedor de estatísticas e indicadores para os mais diferentes segmentos da sociedade (BRASIL, 2012). Suas pesquisas abarcam estatísticas sociais, demográficas e econômicas (agropecuária, comércio, indústria, construção civil e serviços) e censos relacionados a preços, custos e contas nacionais (BRASIL, 2012). A seguir, no Quadro 3, estão descritos os principais tipos de pesquisas do IBGE. Quadro 3 – Pesquisas realizadas pelo IBGE1 Censo Demográfico Trata-se de um extenso diagnóstico da realidade social realizado a cada 10 anos pelo IBGE. Fornece informações de amplo escopo temático, alta desagregabilidade populacional e territorial, cobertura nacional e comparabilidade inter-regional. PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) É realizada anualmente nos períodos intercensitários e, com base em amostra estratificada, investiga temas como fecundidade, anticoncepção, migração, mobilidade social, educação, saúde, associativismo, participação política, bens de consumo, consumo de energia, trabalho, trabalho infantil, previdência, segurança alimentar, merenda escolar e acesso a programas de transferência de renda. PME (Pesquisa Mensal de Emprego) Avalia as flutuações e a tendência, a médio e a longo prazos, do mercado de trabalho e abrange informações referentes à condição de atividade e de ocupação, rendimento médio nominal e real, posse de carteira de trabalho assinada e outras, tendo como unidade de coleta os domicílios. POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) É direcionada principalmente para mensurar as estruturas de consumo das famílias e possibilita traçar um perfil das condições de vida da população a partir da análise de seus orçamentos domésticos. PMC (Pesquisa Mensal do Comércio) É realizada nas unidades da federação e produz indicadores que permitem acompanhar o comportamento conjuntural do comércio varejista. PIM/PF (Pesquisa Industrial Mensal de Produção Física) Acompanha a evolução do produto real da indústria no curto prazo, por meio do levantamento do volume físico de produtos selecionados representativos de diferentes atividades industriais. 1 Todo o conjunto de resultados dessas pesquisas pode ser consultado no portal do IBGE, disponível em: http://www.ibge.gov.br. Acesso em: 16 dez. 2019. Vídeo (Continua) Indicadores de desempenho da gestão pública 135 PAS (Pesquisa Anual de Serviços) Avalia a estrutura dos serviços empresariais não financeiros, detalhando a sua distribuição e configuração regional. MUNIC (Pesquisa de Informações Básicas Municipais) Investiga, na esfera municipal, temas como estrutura administrativa, participação e formas de controle social, planejamento municipal, justiça, segurança, cultura e lazer. AMS (Pesquisa Nacional de Assistência Médico-Sanitária) Realiza um censo dos estabelecimentos de saúde no país; volume e qualificação de pessoal; equipamentos e recursos disponíveis para o atendimento médico-sanitário da população. PNSB (Pesquisa Nacional de Saneamento Básico) Provê informações em nível municipal sobre abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana e sistema de drenagem urbana. Sistema de Contas Nacionais Apresenta, trimestralmente, os valores correntes e os índices de volume para o PIB, impostos sobre produtos, valor adicionado a preços básicos, consumo das pessoas e do governo, formação bruta de capital fixo, variação de estoques, exportações e importações de bens e serviços, permitindo uma visão de conjunto da nossa economia. Pesquisas de índices de preços ao consumidor Por meio do Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor é efetuada, mensalmente, a produção contínua e sistemática de índices de preços ao consumidor: INPC, IPCA e seus indexadores com objetivos específicos. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Brasil, 2012, p. 44-45. 8.4 O uso dos indicadores nas políticas públicas Para Antico e Jannuzzi (2006), os indicadores estão presentes não apenas na avaliação da gestão, mas ao longo de todo o processo de elaboração de políticas públicas, desde o diagnóstico, passando pela formulação de programas, pela execução e chegando, finalmente, à avaliação. As medidas coletadas possuem características e tipos diferentes, servindo às diferentes fases do processo de formulação e avaliação de políticas públicas. O Quadro 4 identifica as características das etapas propostas. Quadro 4 – Indicadores utilizados na elaboraçãodas políticas públicas Etapas Tipos e Propriedades Fontes de Dados Elaboração do diagnóstico Retratar a realidade social • Amplo escopo temático • Ampla desagregabilidade geográfica e populacional • Validade de constructo • Boa confiabilidade • Censos demográficos • Pesquisas amostrais Formulação de programas Seleção de alternativas que orientem a tomada de decisão • Indicadores sintéticos • Indicadores multicritérios • Tipologias de situações sociais • Censos demográficos • Pesquisas amostrais Implementação/Execução Processo de implementação dos programas formulados (eficiência) • Esforço (insumos/processos) • Atualidade/regularidade • Sensibilidade • Especificidade • Registros administrativos • Registros gerados nos procedimentos dos próprios programas (Continua) Vídeo Fundamentos da Gestão Pública136 Etapas Tipos e Propriedades Fontes de Dados Avaliação Revelar a eficácia e efetividade social dos programas • Resultados e impactos • Distância às metas Tipologias • Pesquisas amostrais • Registros administrativos • Grupos focais • Pesquisas de egressos participantes no programa Fonte: Antico e Jannuzzi, 2006 apud Langwinski, 2013, p. 28. Percebe-se que há diferentes características e finalidades entre os indicadores propostos no Quadro 4. Eles atendem, de maneira específica, a cada uma das diferentes fases do ciclo das políticas públicas, as quais variam em termos de escopo e amplitude de análise. Parte-se de uma observação menos específica e ampla, a partir da qual são propostas análises mais detidas sobre populações menores. Na visão de Bonnefoy e Armijo (2005), os indicadores podem ser classificados conforme sua aplicação nas diferentes fases do ciclo de gestão de uma política pública, ou seja, antes, durante ou depois de sua implementação, conforme o Quadro 5. Quadro 5 – Indicadores utilizados na elaboração das políticas públicas Fase Ciclo Descrição Antes Insumo Têm relação direta com os recursos a serem alocados, ou seja, com a disponibilidade dos recursos humanos, materiais, financeiros e outros a serem utilizados pelas ações de governo. Exemplos: médicos/mil habitantes e gasto per capita com educação. Durante Processo Medem o nível de utilização dos insumos alocados como, por exemplo, o percentual de atendimento de um público alvo e o percentual de liberação dos recursos financeiros. Depois Produto Expressam as entregas de produtos ou serviços ao público-alvo. Exemplo: o percentual de quilômetros de estrada entregues, de armazéns construídos e de crianças vacinadas em relação às metas estabelecidas. Resultado Expressam, direta ou indiretamente, os benefícios no público-alvo decorrentes das ações empreendidas no contexto de uma dada política e têm particular importância no contexto de gestão pública orientada a resultados. São exemplos as taxas de morbidade (doenças), taxa de reprovação escolar e de homicídios. Impacto Possuem natureza abrangente e multidimensional, têm relação com a sociedade como um todo e medem os efeitos das estratégias governamentais de médio e longo prazos. Na maioria dos casos estão associados aos objetivos setoriais e de governo. São exemplos o Índice Gini de distribuição de renda e o PIB per capita. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Brasil, 2009, s.p. Se um indicador não refletir a realidade social que se pretende mensurar ou não ser ponderado nos ciclos das políticas públicas e nos planos governamentais, pode ocasionar um desperdício de tempo e de recursos públicos. Indicadores de desempenho da gestão pública 137 8.5 O uso dos indicadores na gestão pública municipal Lubambo (2006) buscou investigar a associação existente entre o comportamento de alguns fatores específicos e a qualidade da gestão pública em municípios. Para tanto, a autora considerou cinco eixos de análise que podem ser utilizados tanto teoricamente quanto na prática, conforme o Quadro 6. Quadro 6 – Fatores de análise na gestão pública municipal Eixos Fatores Desempenho Fiscal A partir da evolução de alguns indicadores básicos como o grau de dependência das transferências governamentais (relação percentual entre as transferências correntes e as receitas totais apropriadas pelo município); o grau de comprometimento da receita (relação percentual entre a receita e as despesas com pessoal, incluindo encargos e receitas totais) e a capacidade de arrecadação (receita total e tributária per capita). Participação Popular Presença dos conselhos municipais nos vários setores, identificada em três níveis: I) até um conselho presente; II) até três conselhos presentes; e III) mais de quatro conselhos presentes. A presença de conselhos aparece como um indicador mais significativo quando se refere à possibilidade de a população influir na gestão das políticas municipais. Atributos Sociais da População Foram selecionados indicadores de características e qualidade de vida da população habitante no município: IDHM, grau de desigualdade (Índice de Theil – L2); percentual de pobres; taxa de mortalidade infantil; dimensão da receita municipal per capita; porte populacional do município; e, grau de urbanização. Atendimento em Serviços Públicos Foram selecionados dois indicadores fundamentais para os setores considerados: na área de educação, a evolução do nível de atendimento em pré-escolas municipais, considerando o contingente de crianças entre 3 e 6 anos. Na área da saúde, a evolução do nível de atendimento em internações hospitalares pediátricas no município. Descentralização de Programas Sociais Investigou o grau de participação dos municípios em programas sociais descentralizados, quer seja por uma adesão deliberada ou mediante uma avaliação de custo x benefício. Foi analisada a evolução da taxa de municipalização do Ensino Fundamental em três níveis: i) aumento, manutenção e redução e as condições de adesão ao PACS/PSF, observados em três estágios – ausente; PACS presente; e PACS e PSF presentes. Acrescentaram-se, como variáveis importantes neste eixo, a condição descontinuidade político-administrativa, em relação à gestão anterior e o partido político da gestão. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Lubambo, 2006, p. 102-105. Lubambo (2006) concluiu que no desempenho da gestão dos municípios, existe um conjunto de fatores capazes de interferir nesse desempenho, o que a autora denominou “associação multivariada”, não sendo possível avaliar o desempenho da gestão a partir da singularidade de um tipo de fator, que seja de natureza estrutural, político-institucional ou mesmo da ação política. 2 Mede a desigualdade na distribuição de indivíduos segundo a renda domiciliar per capita, excluídos aqueles com renda domiciliar per capita nula. É o logaritmo da razão entre as médias aritmética e geométrica da renda domiciliar per capita dos indivíduos, sendo nulo quando não existir desigualdade de renda entre eles e tendente ao infinito quando a desigualdade tender ao máximo (BOLSON; COSTA; MARQUES, 2019). Vídeo Fundamentos da Gestão Pública138 8.6 Tecnologias disponíveis para a tomada de decisão dos gestores públicos e o acompanhamento do desempenho no controle social A maior parte das fontes de indicadores provêm de bancos de dados que possibilitam acessos e cruzamentos de informações por meio de filtros realizados em campos de busca como localização geográfica, gênero, raça, faixa etária, entre outros. Várias tecnologias foram desenvolvidas para otimizar o armazenamento e a disponibilidade dos dados no âmbito da gestão pública, com destaque para as relacionadas no Quadro 7. Quadro 7 – Tecnologias disponíveis para a gestão pública e o controle social Tecnologia Utilidade Site (acesso em 16 dez. 2019) SIDRA (Sistema IBGE de Recuperação Automática) Ferramenta do IBGE para recuperação de um amplo espectro de informações territoriais e por áreas temáticas como agropecuária, comércio, contas nacionais, economia, indústria, meio ambiente, orçamento familiar, população,preços, saneamento básico, saúde, serviços, trabalho e renda. http://www.sidra.ibge.gov.br BME (Banco Multidimensional de Estatísticas do IBGE) Permite ao usuário – credenciado ou que adquiriu o serviço – escolher livremente as variáveis de seu interesse, o espaço geográfico e o período de tempo de referência das informações. http://www.bme.ibge.gov.br Séries Estatísticas & Séries Históricas Contempla um acervo de informações sobre a realidade brasileira em suas dimensões social, demográfica e econômica que, sem excluir dados de períodos recentes, cobrem longos períodos históricos. http://seriesestatisticas.ibge.gov.br Cidades@, Estados@, Paises@ Bancos de dados com informações – principalmente de ordem demográfica, social e econômica – sobre municípios, estados e países, que compõem a maior base de dados estatísticos da América Latina. http://www.ibge.gov.br/cidadesat http://www.ibge.gov.br/estadosat http://www.ibge.gov.br/paisesat WebCart Ferramenta do IBGE para criação de cartogramas a partir dos dados contidos no canal Cidades@. http://www.ibge.gov.br/webcart MUNIC Conjunto detalhado de informações sobre a estrutura, a dinâmica e o funcionamento das instituições públicas municipais, além das diferentes políticas e setores que envolvem os governos municipais, retratando o perfil dos municípios brasileiros. http://www.ibge.gov.br/home/ estatistica/economia/perfilmunic Ipeadata Banco de dados disponibilizado pelo IPEA que apresenta uma ampla gama de informações e indicadores macroeconômicos, regionais e sociais oriundas de múltiplas fontes. http://www.ipeadata.gov.br IpeaGeo Software de análises estatísticas e espaciais disponibilizado pelo IPEA. http://www.ipea.gov.br/ipeageo Vídeo (Continua) http://www.sidra.ibge.gov.br http://www.bme.ibge.gov.br http://seriesestatisticas.ibge.gov.br http://www.ibge.gov.br/cidadesat http://www.ibge.gov.br/estadosat http://www.ibge.gov.br/paisesat http://www.ibge.gov.br/webcart http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/perfilmunic http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/perfilmunic http://www.ipeadata.gov.br http://www.ipea.gov.br/ipeageo Indicadores de desempenho da gestão pública 139 Tecnologia Utilidade Site (acesso em 16 dez. 2019) IpeaMapas Sistema interativo de geração de mapas com base em dados de infraestrutura, assistência social, saúde, educação, entre outros. http://mapas.ipea.gov.br Edudatabrasil Banco de dados disponibilizado pelo INEP que permite acesso ao sistema de estatísticas educacionais. http://www.edudatabrasil.inep.gov.br Datasus Banco de dados disponível na página do Ministério da Saúde na Internet para acesso ao anuário e às informações básicas e complementares de saúde. http://www.datasus.gov.br Dataprev Banco de dados disponível na página da Previdência Social na Internet para acesso ao anuário, boletim estatístico, benefícios, segurança e saúde ocupacional. http://portal.dataprev.gov.br Matriz de Informação Social Banco de dados disponibilizado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome para acesso a informações e indicadores sociais, nos mais diversos níveis territoriais (inclusive municípios), dos principais programas e benefícios, a exemplo do Bolsa Família e dos Benefícios de Prestação Continuada (BPC). http://aplicacoes.mds.gov.br/sagi/ mi2007 Portal Brasil em Cidades Sistema que permite o acesso a um grande número de dados georreferenciados e indicadores socioeconômicos e político-administrativos de cada município brasileiro, além de mapas, imagens de satélite e informações sobre o andamento das ações no Ministério das Cidades nas áreas de saneamento, habitação e mobilidade urbana. http://www.brasilemcidades.gov.br Secretaria do Tesouro Nacional Portal de estatísticas da STN disponibiliza uma ampla base de dados relacionados a temas como: contabilidade governamental; execução financeira do Tesouro Nacional; dívida pública; haveres da união; despesas com pessoal; transferências voluntárias e constitucionais a Estados e Municípios; e dados orçamentários e financeiros de Estados e Municípios. http://tesouro.fazenda.gov.br/ estatistica Google Public Data Explorer Disponibiliza um conjunto de dados públicos de diversos países e oriundos de múltiplas fontes relacionados, entre outros, às questões sociais, econômicas e ambientais. http://www.google.com/publicdata Fonte: Brasil, 2012, p. 55-57. A elaboração dos indicadores não pode estar associada a processos padronizados e rígidos, pois a flexibilidade e adaptabilidade à política, objeto de monitoramento, é que asseguram a sua efetividade. Considerações finais Conforme estudamos, os indicadores são ferramentas que permitem subsidiar o processo decisório na gestão pública, aumentar a transparência e proporcionar um melhor controle social. http://mapas.ipea.gov.br http://www.edudatabrasil.inep.gov.br http://www.datasus.gov.br http://portal.dataprev.gov.br http://aplicacoes.mds.gov.br/sagi/mi2007 http://aplicacoes.mds.gov.br/sagi/mi2007 http://www.brasilemcidades.gov.br http://tesouro.fazenda.gov.br/estatistica http://tesouro.fazenda.gov.br/estatistica http://www.google.com/publicdata Fundamentos da Gestão Pública140 Utilizar os indicadores sem considerar os principais atores da gestão pública, o ambiente político, a realidade e as limitações na elaboração de uma política pública apresenta-se como um grande desperdício de recursos públicos, sendo mais proveitoso abdicar do seu uso do que continuar sustentando rotinas que não contribuem para o atendimento das demandas do povo. Portanto, neste capítulo demonstramos que a utilização dos indicadores sociais e econômicos não deve ser realizada sem um processo de envolvimento dos diversos atores públicos, políticos e a sociedade, os quais devem estar imersos na realidade social. O cuidado com a concepção de processos e rotinas que não agreguem a tomada de decisão pública e política deve ser permanente, sendo necessária a realização de uma revisão recorrente dos indicadores a fim de examiná-los se estão atendendo a essa condição. Ampliando seus conhecimentos • BRASIL. Tribunal de Contas da União, 2014. Governança em Políticas Públicas. Disponível em: https://portal.tcu.gov.br/governanca/governancapublica/politicas-publicas/. Acesso em: 16 dez. 2019. Em 2014, o Tribunal de Contas da União (TCU) publicou o Referencial de Avaliação de Governança em Políticas Públicas. Além desse documento, o governo federal também publicou uma série de guias orientativos para o aprimoramento da governança e gestão de políticas públicas. Ainda foi disponibilizado pelo TCU diversas bases de dados e sistemas, que podem ser consultados pelos gestores públicos, decisores políticos, avaliadores e a sociedade. • BRASIL. Guia Referencial para Medição de Desempenho de Gestão. Brasília, 2009. Disponível em: http://www.gespublica.gov.br/biblioteca?keys=guia+referencial. Acesso em: 16 dez. 2019. Esse guia, elaborado pelo MPOG, tem a finalidade de contribuir para a melhoria da gestão por meio de um conjunto de indicadores para as diversas dimensões da gestão, que possa ser utilizado por todas as organizações públicas, bem como o controle para o gerenciamento dos indicadores de eficiência, eficácia e de resultados do Programa Nacional de Desburocratização da Gestão Pública – GesPública (revogado pelo Decreto n. 9.094/2017). Acesse o Guia e conheça as metodologias abordadas, que podem ser utilizadas na gestão do desempenho, tanto em organizações públicas quanto privadas. Atividades 1. De acordo com o objeto, os indicadores são classificados conforme o alvo de medição. Descreva quais são eles. https://portal.tcu.gov.br/governanca/governancapublica/politicas-publicas/ Indicadores de desempenho da gestão pública 141 2. O Ministério de Planejamento, Orçamento e Gestão descreve as características de um bom indicador. Em relação à propriedade mensurabilidade, quais são os elementos? 3. Do interesseprogramático aos interesses sociais, Jannuzzi (2014) aponta que deve haver a combinação de dados de diferentes fontes e pesquisas. Quais são elas? Referências ANTICO, C.; JANNUZZI, P. M. Indicadores e a Gestão de Políticas Públicas. Revista da Fundação do Desenvolvimento Administrativo. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, nov. 2006. BONNEFOY, J. C.; ARMIJO, M. Indicadores de desempeño em el sector público. Instituto Latinoamericano y del Caribe de Planificación Económica y Social – ILPES. Santiago de Chile, nov. 2005. BRASIL. Indicadores – Orientações Básicas Aplicadas à Gestão Pública. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Brasília, 2012. BRASIL. Guia Referencial para Medição de Desempenho de Gestão. Brasília, 2009. Disponível em: http:// www.gespublica.gov.br/biblioteca?keys=guia+referencial. Acesso em: 16 dez. 2019. FERREIRA, A. R. Gestão de processos: módulo 3. Brasília: ENAP/DDG, 2014. FERREIRA, H.; CASSIOLATO, M.; GONZALEZ, R. Uma experiência de desenvolvimento metodológico para avaliação de programas: o modelo lógico do programa segundo tempo. Texto para discussão 1369. Brasília: IPEA, 2009. GUIMARÃES, J. R. S.; JANNUZZI, P. M. IDH, indicadores sintéticos e suas aplicações em políticas públicas: uma análise crítica. In: ENCONTRO NACIONAL DE ESTUDOS POPULACIONAIS, 14, set. 2004, Caxambu. Anais... Caxambu: Abep, 2004. Disponível em: http://www.abep.org.br/publicacoes/index.php/ anais/article/view/1451/1416. Acesso em: 16 dez. 2019. GRATERON, I. R. G. Auditoria de gestão: utilização de indicadores de gestão no setor público. Cad. estud., São Paulo , n. 21, p. 01-18, ago. 1999.Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S1413-92511999000200002. Acesso em: 16 dez. 2019. JANNUZZI, P. M. Indicadores socioeconômicos na gestão pública. 3. ed. rev. atual. Florianópolis: Departamento de Ciências da Administração. UFSC: Florianópolis, 2014. JANNUZZI, P. M. Indicadores para diagnóstico, monitoramento e avaliação de programas sociais no Brasil. Revista do Serviço Público, Brasília, v. 56, n. 2, , 137-160, abr./jun., 2005. JANNUZZI. P. M. Indicadores sociais no Brasil: conceitos, fonte de dados e aplicações. Campinas: Alínea, 2001. LANGWINSKI, P. R. A utilização de indicadores e a medição de desempenho na gestão pública. Monografia (Especialização em Gestão Pública). Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, Rio Grande do Sul, 2013. LUBAMBO, C. W. Desempenho da gestão pública: que variáveis compõem a aprovação popular em pequenos municípios? Sociologias, Porto Alegre , n. 16, p. 86-125, dez. 2006. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/ S1517-45222006000200005. Acesso em: 16 dez. 2019. ONU. Organização das Nações Unidas. Handbook of social indicators. Nova York, 1988. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-92511999000200002 http://dx.doi.org/10.1590/S1517-45222006000200005 http://dx.doi.org/10.1590/S1517-45222006000200005 Gabarito 1 Introdução à gestão pública 1. Governo, povo, território e soberania. 2. Legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência (LIMPE). Esses princípios constam no artigo 37 da CF/88. 3. De acordo com Matias-Pereira (2010), o controle social é realizado por meio da participação dos cidadãos e da sociedade organizada na gestão pública, na fiscalização, no monitoramento e no controle das ações da Administração Pública. Além disso, apresenta-se como uma atividade essencial para a prevenção da corrupção e para o fortalecimento da cidadania e da democracia. 2 Organização do Estado e da administração pública 1. Conforme o § 3º do Art. 18 da CF/88, os Estados podem incorporar-se entre si, subdividir-se ou desmembrar-se para se anexarem a outros ou formarem novos Estados ou Territórios Federais, mediante aprovação da população diretamente interessada, por meio de plebiscito e do Congresso Nacional, por lei complementar. 2. a) capacidade de auto-organização, mediante a elaboração de lei orgânica própria; b) capacidade de autogoverno, pela eletividade do Prefeito e dos Vereadores às respectivas Câmaras Municipais; c) capacidade normativa própria, ou capacidade de autolegislação, mediante a competência de elaboração de leis municipais sobre áreas que são reservadas à sua competência exclusiva e suplementar; d) capacidade de autoadministração (administração própria, para manter e prestar os serviços de interesse local). 3. Conforme o § 2º do Art. 29-A, o Prefeito Municipal responderá por crimes de responsabilidade se: I – efetuar repasse que supere os limites definidos neste artigo; II – não enviar o repasse até o dia vinte de cada mês; ou, III – enviá-lo a menor em relação à proporção fixada na Lei Orçamentária. 144 Fundamentos da Gestão Pública 3 Modelos de gestão pública 1. Abrucio (1997) destaca quatro fatores responsáveis pela derrocada dos modelos burocráticos de administração: crise econômica, iniciada em 1973, na primeira crise do petróleo. crise fiscal, entendida como a dificuldade dos governos em financiar seus déficits. crise de governabilidade, entendida como a incapacidade do governo em atender às demandas dos cidadãos. globalização, que transformou a lógica do setor produtivo e transferiu para as grandes empresas multinacionais o poder de ditar a política macroeconômica que antes cabia ao Estado (ABRUCIO, 1997, p. 9-10). 2. A edição da Súmula Vinculante n. 13 decorreu do decidido pelo Plenário do STF no RE 579.951, rel. Min. Ricardo Lewandowski, de 23/10/08, quando se fixou o entendimento de caracterizar o nepotismo como prática ilícita. 3. Conforme o Decreto n. 9.203/2017, no seu Art. 3º, os princípios da governança pública na administração pública federal direta, autárquica e fundacional são: I. capacidade de resposta; II. integridade; III. confiabilidade; IV. melhoria regulatória; V. prestação de contas e responsabilidade; e VI. transparência. 4 Políticas públicas no Brasil 1. Distributivas, redistributivas, regulatórias e constitucionais. 2. Políticas Universais, Segmentais e Fragmentadas. 3. O ciclo de políticas públicas é dividido em sete fases. São elas: i) identificação do problema; ii) formação da agenda; iii) formulação de alternativas; iv) tomada de decisão; v) implementação; vi) avaliação; e vii) extinção. 5 Orçamento público 1. Suplementares, especiais e extraordinários. 2. Elaboração, Aprovação, Execução e Controle. 3. Fiscal, Investimentos das Empresas Estatais e Seguridade Social. Gabarito 145 6 Lei de Responsabilidade Fiscal 1. Não poderá exceder 60% da Receita Corrente Líquida, sendo 6% para o Legislativo, incluindo o Tribunal de Contas, se houver, e 54% para o Executivo. 2. I – concessão de vantagem, aumento, reajuste ou adequação de remuneração a qualquer título, salvo os derivados de sentença judicial ou de determinação legal ou contratual, ressalvada a revisão prevista no inciso X do art. 37 da Constituição; II – criação de cargo, emprego ou função; III – alteração de estrutura de carreira que implique aumento de despesa; IV – provimento de cargo público, admissão ou contratação de pessoal a qualquer título, ressalvada a reposição decorrente de aposentadoria ou falecimento de servidores das áreas de educação, saúde e segurança; V – contratação de hora extra, salvo no caso do disposto no inciso II do § 6º do art. 57 da Constituição e as situações previstas na Lei de Diretrizes Orçamentárias. 3. Reconhecido o crescimento real baixo ou negativo do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, regional ou estadual, os prazos dos artigos 23, 31 e 70 serão duplicados, nos termos do art. 66 da LRF. 7 Empreendedorismo e inovação no setor público 1. Você deverá fazer uma autoanálise conforme as características comportamentais empreendedoras apresentadas no Quadro 2, a fim de identificar se possui ou não perfil de empreendedor público. Caso identifique, no mínimo, três competências apontadas por cada um dos cinco autores apresentados no quadro, certamente você apresenta uma forte tendência de empreendedor público. 2. Os intraempreendedoressão pessoas que desempenham um papel empreendedor nas organizações em que trabalham, ao contrário dos empreendedores que possuem o seu próprio negócio ou empresa. Os intraempreendedores são menos propensos a assumir riscos, pois os recursos pertencem à empresa e não são próprios. 3. Conjunto de tendências para a inovação na gestão pública: • Mecanismos de transparência, governança de dados abertos e accountability. • Governo eletrônico (e-government) como estratégia de ampliação e facilitação do acesso e da participação cidadã na administração pública. • Novos arranjos de políticas públicas que permitam maior participação dos cidadãos na produção de bens públicos. • Redes e parcerias público-privadas. • Tecnologia de Informação e Comunicação (TICs) para ampliar a qualidade e eficiência na prestação de serviços públicos. 146 Fundamentos da Gestão Pública 8 Indicadores de desempenho da gestão pública 1. Indicadores de resultado, indicadores de processos, indicadores de estrutura e indicadores estratégicos. 2. Viabilidade em termos de tempo e recursos, documentação adequada e atualização periódica. 3. Cadastros públicos, pesquisas do IBGE e outras instituições e registros de programas sociais. FU N D A M EN TO S D A G ESTÃ O PÚ B LIC A M A R C U S V IN IC IU S G O N Ç A LV ES D A SILVA Código Logístico 58932 Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6537-0 9 7 8 8 5 3 8 7 6 5 3 7 0 Página em branco Página em brancoórgãos ou entidades descentralizadas (autarquias, empresas públicas, sociedades de economia mista, fundações governamentais), ou delega sua prestação a concessionários, permissionários ou autorizatários. Esses serviços, normalmente, são rentáveis e podem ser realizados com ou sem privilégio (não confundir com monopólio), mês sempre sob regulamentação e controle do poder Público competente. Cabe apontar que os serviços impróprios têm um grau de urgência de menor intensidade do que o dos serviços próprios. 1.2.2 Formas e meios de prestação dos serviços públicos Em relação às formas e aos meios de prestação, o serviço público pode ser executado de maneira centralizada, descentralizada, outorga, desconcentrada ou direta, conforme Quadro 2. Fundamentos da Gestão Pública18 Quadro 2 – Formas e meios de prestação dos serviços públicos Centralizada É de exclusiva responsabilidade do poder público a execução do serviço público, sendo que o exerce com seus próprios órgãos. Descentralizada O poder público transfere a outrem a titularidade ou a execução do serviço, sendo esta caracterizada com outorga ou delegação da execução, como as autarquias, as entidades paraestatais, as empresas privadas ou particulares, individualmente. Outorga A transferência do serviço é feita por meio de lei, enquanto a delegação configura a transferência mediante contrato (concessão) ou ato unilateral (permissão ou autorização). Desconcentrada É aquele em que a Administração Pública executa o serviço de maneira centralizada; no entanto, o distribui entre vários órgãos da mesma entidade, facilitando, assim, sua obtenção pelos usuários. Direta É aquela executada pelos meios da pessoa responsável por sua prestação. A execução indireta é a realizada por terceiros. Fonte: Elaborado pelo autor. Todo serviço público prestado pelas concessionárias e permissionárias deve obedecer às exigências de serviço adequado, previstas no art. 6º da Lei n. 8.987/1995 (BRASIL, 1995), quais sejam: regularidade, continuidade, eficiência, segurança, atualidade, generalidade, cortesia na sua prestação e modicidade das tarifas. 1.3 O controle na administração pública O controle na esfera administrativa basicamente representa a verificação do andamento das atividades em relação aos resultados originalmente esperados, sendo considerado, também, sinônimo de monitoramento. A origem das características do controle como conhecemos é remota, visto que consiste em uma atividade realizada desde as civilizações antigas. Havia, tanto na Grécia quanto em Roma, a instituição de medidas consideradas ações de controle de atividades sociais, realizadas por meio da apuração dos responsáveis por determinadas atividades, além de fiscalização de contas públicas. Na Idade Média, houve retrocessos nos aspectos sociojurídicos devido à fragmentação dos grandes impérios e à descentralização do poder nos feudos. Em seguida, houve a supressão de formas de controle da Antiguidade, com a “centralização do poder nas mãos dos monarcas e da instituição dos Estados absolutistas” (PIRES; NOGUEIRA, 2004, p. 246). Durante o absolutismo, foram criados tribunais de contas nos reinos, mas com o único propósito de servirem aos interesses dos monarcas. Foi somente após a Revolução Inglesa, a Francesa e a Americana, com o estabelecimento do Estado de Direito, que surgiram efetivamente os controles da administração. Por meio do Estado Democrático de Direito3, o controle passa a ser observado sob a égide dos interesses da sociedade – ou seja, o regime do governo muda de não democrático para democrático. 3 Saiba mais sobre o Estado Democrático de Direito em: https://goo.gl/LjLM2E. Vídeo Introdução à gestão pública 19 Assim, além de estabelecer-se em princípios legais, o Estado Democrático de Direito representa o reconhecimento do poder emanado do povo e da serventia do Estado para os interesses e as necessidades da sociedade. Dessa forma, Gasparini (2008, p. 947) afirma que o controle do Estado pode ser definido como “a atribuição de vigilância, orientação e correção de certo órgão ou agente público sobre a atuação de outro ou de sua própria atuação, visando confirmá-la ou desfazê-la, conforme seja ou não legal, conveniente, oportuna e eficiente”. O controle da administração pública é um meio de forçar os órgãos e entidades a seguirem rigorosamente o ordenamento jurídico, especificamente, no cumprimento dos princípios da legalidade e das ações voltadas para o interesse público. Do mesmo modo, o controle tem a função de aferir a legitimidade e a eficiência dos atos administrativos públicos. 1.3.1 O controle na Constituição Federal de 1988 Com o advento da redemocratização do país e o fim do Regime Militar, em 1988 foi instituída uma nova Constituição, que expande a previsão sobre o controle das atividades do Estado, começando pelo artigo 31, no qual constam instruções a respeito do controle nos municípios brasileiros: “Art. 31. A fiscalização do Município será exercida pelo poder legislativo Municipal, mediante controle externo, e pelos sistemas de controle interno do Poder Executivo Municipal, na forma da lei” (BRASIL, 1988). Já em seus artigos 70, 71 e 74, a Constituição de 1988 estabelece o controle realizado no âmbito da União, tal como feito na Constituição anterior, expandindo a obrigatoriedade de prestação de contas para qualquer pessoa jurídica ou privada que gerencie recursos públicos, bem como estende tais instruções a todos os Estados, ao Distrito Federal e aos municípios brasileiros. Também prescreve que as denúncias a respeito de irregularidades ou ilegalidades podem ser realizadas por qualquer cidadão, associação, partido político ou sindicato. Os artigos anteriormente citados expressam o monitoramento institucional das ações governamentais, ou seja, aquele controle realizado por organizações públicas ou privadas com o objetivo de verificação do cumprimento das normas e dos princípios que regem a administração pública. O controle institucional4 é realizado principalmente pelo Congresso Nacional, com o auxílio do Tribunal de Contas, em nível nacional, e por cada poder em nível interno. No governo federal, o controle em nível interno é realizado pela Controladoria Geral da União (CGU). Já nos Estados e nos municípios, o controle institucional é feito principalmente pelos respectivos poderes Legislativos e pelos próprios órgãos públicos em nível interno. No entanto, a principal inovação da Constituição de 1988 a respeito do controle foi o estabelecimento do controle social – em outras palavras, aquele realizado pela própria população. O documento elenca, assim, a participação social no controle público – em seu artigo 197, na 4 Saiba mais sobre Controle Social na Administração Pública Federal em: https://www.cgu.gov.br/assuntos/controle- social. Fundamentos da Gestão Pública20 área de saúde; no artigo 204, na área de assistência social; no artigo 216, na área de cultura, dentre outros –, fato que colaborou para a ampliação de instrumentos de controle para a sociedade. De acordo com Matias-Pereira (2010, p. 195): O controle social – realizado por meio da participação dos cidadãos e da sociedade organizada na gestão pública, na fiscalização, no monitoramento e no controle das ações da Administração Pública5 – apresenta-se também como uma atividade essencial para a prevenção da corrupção, fortalecimento da cidadania e da democracia. Logo, percebe-se que o controle social contribui para a fiscalização da aplicação dos recursos públicos e para o desenvolvimento da democracia do país. Em conjunto com o controle institucional, a sociedade civil passa a ter o poder de controlar as atividades realizadas pelos seus representantes eleitos, bem como de realizar denúncias sobre irregularidades e ilegalidades. 1.3.2 Controle interno e externo A função de controle na administração pública objetiva assegurar que os órgãos atuem em consonância com os princípios constitucionais, em particular osde legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. 1.3.2.1 Controle interno O controle interno é estruturado sob princípios de ordem administrativa e jurídica, mas possui também características políticas, estando atrelado à missão da organização e ao seu planejamento estratégico. O Departamento do Tesouro Nacional, por meio da Instrução Normativa n. 01, de 6 de abril de 2001, conceitua controle interno como o conjunto de atividades, planos, métodos e procedimentos interligados, estabelecidos com vistas a assegurar que os objetivos dos órgãos e entidades da Administração Pública sejam alcançados, de forma confiável e concreta, evidenciando eventuais desvios ao longo da gestão, até a consecução dos objetivos fixados pelo Poder Público. (BRASIL, 2001, p. 68) Os órgãos de controle interno das organizações públicas, previstos na Constituição Federal, são uma forma de controle institucional realizada por agentes internos à organização e têm como objetivo prevenir ações contrárias aos princípios da Constituição e às legislações infraconstitucionais. Por isso, os agentes do controle interno precisam possuir informações sobre todos os órgãos incluídos na organização. Os cargos existentes na Controladoria-Geral, principalmente o de Controlador, demandam comprovada capacidade técnica e profissional para o exercício das funções. Basicamente, na Administração Pública brasileira, o controle interno está presente nos municípios, nos estados e na União. 5 A Administração Pública Societal: um instrumento de controle e participação social. Leia mais em: http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/rppublica/article/viewFile/9237/5511. Introdução à gestão pública 21 Em cada ente, a Constituição prevê, em seu artigo 74, a existência de um sistema de controle interno dentro dos poderes Executivo (administração direta e indireta), Legislativo e Judiciário, prezando a harmonia e a independência dos poderes. É um sistema porque o controle interno transcende o órgão central instituído legalmente dentro de cada organização pública, passando a ser exercido, também, por todos os envolvidos na organização, como uma forma de autocontrole da administração pública (CAVALHEIRO; FLORES, 2007). “A Controladoria-Geral da União (CGU) é o órgão de controle interno do Governo Federal responsável por realizar atividades relacionadas à defesa do patrimônio público e ao incremento da transparência da gestão, por meio de ações de auditoria pública, correição, prevenção e combate à corrupção e ouvidoria.” (BRASIL, 2019) Dessa forma, o sistema de controle interno visa possibilitar aos cidadãos informações sobre as ações e as prestações de contas públicas, aplicando o conceito de accountability e, principalmente, respeitando os princípios constitucionais contidos no artigo 37: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Os objetivos do controle interno devem estar alinhados aos objetivos da organização e aos interesses da sociedade civil, além de, conforme descreve a cartilha do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG, 2012, p. 25): • assegurar que não ocorram erros potenciais, através do controle de suas causas, destacando-se conhecer as receitas, despesas, resultados históricos, estrutura administrativa, pessoal, patrimônio, observar as normas legais, instruções normativas, estatutos e regimentos; • acompanhar o desenvolvimento dos instrumentos de planejamento, como Planos Plurianuais (PPA), Lei das Diretrizes Orçamentárias (LDO), e Leis Orçamentárias Anuais (LOA); • buscar o equilíbrio nas contas públicas e a correta aplicação administrativa e financeira dos recursos públicos; • examinar os resultados quanto aos princípios da Administração, além de princípios de economicidade e eficácia; • prevenir ocorrência de fraudes, desvios e desperdícios cometidos por gestores e servidores. O controle interno alcançará a sua efetividade quando as suas práticas impedirem irregularidades que culminem na malversação dos recursos públicos ou em sua incorreta forma de destinação. Assim, ao regular o funcionamento da máquina pública, o controle interno satisfará às necessidades dos cidadãos. 1.3.2.2 Controle externo Os órgãos de controle externo, como o próprio nome diz, representam órgãos que exercem atividades de controladoria de outras organizações, às quais não estão subordinados ou diretamente vinculados. Para Pardini (2004 apud LIMA, 2011, p. 9), controle externo: Fundamentos da Gestão Pública22 é todo controle exercido por um Poder ou órgão sobre a administração de outros. Nesse sentido, é controle externo o que o Judiciário efetua sobre os atos dos demais Poderes. É controle externo o que a administração direta realiza sobre as entidades da administração indireta. É controle externo o que o Legislativo exerce sobre a administração direta e indireta dos demais Poderes. Os órgãos de controle externo, junto aos órgãos de controle interno, complementam o conjunto de controles incidentes na Administração Pública federal. Figura 2 – Órgãos de controle da Administração Pública Ministério Público Ações Civis Públicas Controle Jurisdicional Controle Social Controle Externo Sociedade TCU Gestão Pública Controle Interno Poder Judiciário Fonte: Lima, 2011, p. 45. No artigo 49 da CF/1988, são estabelecidas as competências exclusivas do Congresso Nacional, conhecidas como o exercício do controle direto, dentre elas: V – sustar os atos normativos do Poder Executivo que exorbitem do poder regulamentar ou dos limites de delegação legislativa; [...] IX – julgar anualmente as contas prestadas pelo Presidente da República e apreciar os relatórios sobre a execução dos planos de governo; X – fiscalizar e controlar, diretamente, ou por qualquer de suas Casas, os atos do Poder Executivo, incluídos os da administração direta; [...] XIII – escolher dois terços dos membros do Tribunal de Contas da União; [...] (BRASIL, 1988) Com relação às competências do Tribunal de Contas da União (TCU), elas constam nos artigos 33, entre os artigos 71 e 75 e no artigo 161 da CF/1988, que contribuem para o controle parlamentar indireto, com destaque para: • emitir parecer das contas anuais do governo da República; • julgar as contas dos administradores responsáveis por bens públicos; • apreciar questões a respeito de admissão, aposentadoria, reformas e pensões civis e Militares; • realizar auditorias por iniciativa própria ou por solicitação do Congresso Nacional; Introdução à gestão pública 23 • fiscalizar contas de empresas supranacionais; • fiscalizar a aplicação de recursos da União repassados para Estados, Distrito Federal e municípios; • Prestar informações ao Congresso Nacional sobre fiscalizações realizadas; • aplicar sanções e determinar correções; • apurar denúncias feitas por cidadãos, partidos políticos, sindicatos ou associações; • sustar, se não houver atendimento, a execução de ato impugnado, comunicando ao Parlamento. (BRASIL, 1988) O TCU possui múltiplos mecanismos e instrumentos que visam fiscalizar a aplicação dos recursos públicos federais. 1.4 Ética na administração pública No Brasil, a ética no serviço público é um tema bastante delicado de se abordar, pois trata-se de um assunto que tem provocado muitas discussões em virtude do grande número de escândalos recorrentes em todo o país e provocados por agentes públicos e políticos. Como estudamos, a principal finalidade do serviço público é promover o bem social; observa-se, entretanto, que muitas pessoas que trabalham nessa área têm se preocupado em buscar benesses pessoais, e essa é a principal discussão que existe em torno da ética no serviço público. Llatas e Silva Júnior (2005, p. 11, grifos do original) observam que: Moral vem do latim mores, que quer dizer costume, conduta, modo de agir, enquanto ética vem do grego ethos e, do mesmo modo, quer dizer costume, modo de agir. Essa identidade existente entre elas marca a tendênciade serem tratadas como a mesma coisa. Porém a Moral não pode ser considerada como ciência, mas sim como objeto dela e, dessa forma, é por ela estudada e investigada. Como sabemos, o ser humano não nasce com noções de caráter e costumes; essas características são adquiridas com o tempo, por influências da convivência em sociedade. A ética e a moral têm a ver com a realidade humana e o contexto das sociedades nas quais os seres humanos estão inseridos, porém ética e moral não são a mesma coisa. Igualmente, Vasquez (1975, p. 12) conceitua ética como “a ciência que estuda o comportamento moral dos homens na sociedade”. Srour (2000) afirma que moral refere-se ao conjunto de valores, normas, regras de comportamento, códigos de conduta que as coletividades compartilham, sejam elas uma nação, uma categoria social, uma comunidade religiosa ou uma organização. Nesse sentido, a ética é uma ciência, um campo da filosofia que estuda os assuntos morais, o modo de ser e agir dos seres humanos, seus comportamentos e o que motiva cada indivíduo a agir de determinada forma. Vídeo Fundamentos da Gestão Pública24 A moral expressa os costumes, os hábitos e os valores culturalmente estabelecidos das pessoas, que agem de acordo com os costumes e valores socialmente convencionados (BOFF, 2003). Ética → Ciência da moral, isto é, uma esfera do comportamento humano. Moral → Conjunto de regras (normativa) de uma sociedade, o qual orienta a convivência dentro dessa mesma sociedade. Boff (2003, p. 37) defende que uma pessoa pode ser “moral (segue os costumes, até por conveniência), mas não necessariamente ética (obedece a convicções e princípios)”. A atuação do servidor público é voltada para servir o cidadão. Essa é certamente uma vocação cuja rotina ética é requisito básico para aqueles que são aprovados em um concurso público, contratados temporariamente ou nomeados para o exercício de cargo em comissão. Ao servidor público é destinada a gestão da “coisa pública”. Seja por meio da elaboração das políticas públicas ou no desempenho de seu trabalho em níveis mais baixos na hierarquia, ao servidor cabe dedicar-se com zelo e moralidade à busca pelo bem comum. No entanto, a conduta dos agentes na prestação do serviço público vem sendo alvo de críticas e insatisfação pela sociedade. Esse desmerecimento a respeito do comportamento dos administradores públicos e da classe política por parte da opinião pública tem ocorrido em âmbito nacional, nas esferas municipal, estadual e federal. A ética no serviço público está intimamente associada com a conduta dos indivíduos que ocupam cargos públicos. Esses indivíduos devem agir em conformidade com determinado padrão ético, asseverando valores morais e outros princípios necessários para uma vida salutar no seio da sociedade. Conduta → Manifestação de comportamento do indivíduo, a qual pode ser boa ou ruim dependendo do código moral e ético do grupo em que aquele se encontra. Princípios → São norteadores que orientam as pessoas em diversas situações. Cada sociedade forma, ao longo de sua história, seus princípios. Os princípios são requisitos de otimização na aplicação das regras. A disponibilização de serviços públicos de qualidade, que sejam eficientes e promovam o bem social, é suplantada por ações constantes de educação, valores familiares e de convívio social, da legislação, do sistema judiciário e prisional, que contribuirão para a formação de bons cidadãos e, consequentemente, de bons servidores públicos. Essa formação moral e ética do cidadão proporcionada pelo Estado é que vai gerar pessoas éticas para trabalhar como servidores públicos, formando um grande ciclo. Em contrapartida, o servidor público deve assumir o compromisso de promover a igualdade social, de lutar para a criação de empregos, desenvolver a cidadania e de robustecer a democracia, colocando em prática virtudes que beneficiem o país e a comunidade em nível social, econômico e político (SECITEC, 2015). Introdução à gestão pública 25 De outro modo, temos a ética profissional, que estuda e regula o relacionamento do profissional com sua clientela, visando à dignidade humana e à construção do bem-estar no contexto sociocultural no qual exerce sua profissão (MONTEIRO; CHACON, 2005). Marques (2018) descreve que a ética no ambiente de trabalho proporciona ao profissional um exercício diário e prazeroso de honestidade, comprometimento, confiabilidade, entre outros, que conduzem o seu comportamento e a tomada de decisão em suas atividades, cuja recompensa não é somente ser reconhecido pelo seu trabalho, mas também por sua conduta exemplar. Ética Profissional → Conjunto de normas de conduta que deverão ser postas em prática no exercício de qualquer profissão. Seria a ação “reguladora” da ética agindo no desempenho das profissões, fazendo com que o profissional respeite seu semelhante quando no exercício da sua profissão (MONTEIRO et al., 2016, p. 30). A ética profissional corresponde às condutas sociais e técnicas requeridas de determinada classe e exigidas dos membros pertencentes a ela. 1.4.1 Aspectos legais sobre a ética na administração pública federal Desde meados da década de 1990, tem sido elaborada uma série de legislações sobre ética e temas afins no âmbito do Serviço Público federal, conforme se verifica no quadro a seguir. Quadro 3 – Legislação sobre ética no Setor Público Legislação Assunto Decreto n. 1.171, de 22.06.1994 (1) Aprova o Código de Ética Profissional do Servidor Público Civil do Poder Executivo Federal. Decreto de 26.05.1999 Cria a Comissão de Ética Pública (vinculada ao presidente da república). Código de Conduta da Alta Administração Federal, de 21.08.2000 Regulamenta: autoridades públicas abrangidas; declaração confidencial de informações (DCI); participação de autoridade pública em sociedade de economia mista, de instituição financeira ou de empresa que negocie com o poder público; favores de particulares; aceitação de presentes; conflito de interesses; conduta após a saída do cargo. Resolução CEP n. 02, de 24.10.2000 Regula a participação de autoridade pública abrangida pelo Código de Conduta da Alta Administração Federal em seminários e outros eventos. Resolução CEP n. 03, de 23.11.2000 Estabelece regras sobre o tratamento de presentes e brindes aplicáveis às autoridades públicas abrangidas pelo Código de Conduta da Alta Administração Federal. Resolução CEP n. 08, de 25.09.2003 Identifica situações que suscitam conflitos de interesses e dispõe sobre o modo de preveni-los. Decreto n. 6.029, de 01.02.2007 Institui o Sistema de Gestão da Ética do Poder Executivo Federal. Fundamentos da Gestão Pública26 Resolução CEP n. 10, de 29.09.2008 Estabelece as normas de funcionamento e de rito processual para as Comissões de Ética instituídas pelo Decreto n. 1.171, de 22 de junho de 1994, e disciplinadas pelo Decreto n. 6.029, de 1º de fevereiro de 2007. Fonte: Brasil, 2014. Nota: (1) O Decreto 1.171/1994 (BRASIL, 1994) é aplicável apenas aos servidores públicos dos órgãos da esfera federal do Poder Executivo (Administração Direta e Indireta). Verifica-se que, dentre as normas elaboradas sobre ética, no ano de 1994, foi aprovado o Código de Ética Profissional do Servidor Público Civil do Poder Executivo Federal, o qual estudaremos a seguir. 1.4.2 O que é um código de ética Código de ética é um padrão que serve de guia para a conduta de determinado grupo. É um conjunto de princípios assumidos publicamente e que orientam determinadas atividades de acordo com os anseios sociais por honestidade, solidariedade e correção (ENAP, 2008, p. 10). Um código de ética não pode se abstrair ou se sobrepor à lei manifestamente, ou seja, não pode servir de indulto ou meio para legitimar comportamentos proibidos pela lei. De modo análogo à empresa privada, as organizações públicas não poderiam deixar de adotar um documento que descreva os princípios e valores que devem orientar todos os servidores que prestamserviços para elas, direta ou indiretamente, de maneira clara, precisa e sistemática, bem como as normas éticas que todos devem aplicar no desempenho de suas funções. Tal documento propõe transparência na condução do serviço e no aperfeiçoamento do engajamento ético, elucidando os valores e princípios da conduta do funcionário público. O Código de Ética do Servidor Público Civil do Poder Executivo Federal lista uma série de regras referentes ao conjunto de princípios éticos especificamente voltados à observância dos princípios da moralidade e probidade administrativa. No Quadro 4, são elencados alguns requisitos a serem observados no processo de elaboração de um código de ética. Quadro 4 – Requisitos a serem observados no Código de Ética → Explicitar os valores afirmados por um grupo e, em seguida, dar uma concretude maior a eles por meio de normas que sirvam de instrumentos para realizar os valores afirmados. → Cuidar para não ser entendido, primariamente, como um instrumento disciplinar e repressivo. → Cuidar para que não esteja voltado exclusivamente para “quem não tem ética”. É bem provável que o inverso seja mais verdadeiro. → Articular princípios ou valores que frequentemente entram em choque, colocando-os sem perspectiva a fim de reconciliá-los ou priorizá-los. Isso pode ser útil na resolução de dilemas morais, vividos justamente por aqueles que procuram se conduzir eticamente. Fonte: ENAP, 2008, p. 11. Introdução à gestão pública 27 Para a Escola Nacional de Administração Pública (ENAP, 2008), quando se tratar de entidade ou órgão público, quatro questões devem ser abordadas em um código de ética: • A finalidade e as características mais gerais da entidade; • As relações internas entre os seus servidores e outros colaboradores; • As relações com outras entidades, públicas ou privadas; • As relações com o cidadão. 1.4.3 Comissão de Ética Pública O Decreto n. 1.171, de 22 de junho de 1994, prevê que deverá ser criada, em qualquer órgão ou entidade que exerça atribuições delegadas pelo poder público − Administração Pública Federal da administração direta, indireta, autárquica e fundacional −, uma Comissão de Ética, integrada por três servidores públicos e respectivos suplentes (Art. 2º). A Comissão de Ética é tratada nos incisos XVI, XVIII, XXII e XXIV do Decreto n. 1.171/94: XVI – Em todos os órgãos e entidades da Administração Pública Federal direta, indireta, autárquica e fundacional, ou em qualquer órgão ou entidade que exerça atribuições delegadas pelo poder público, deverá ser criada uma Comissão de Ética, encarregada de orientar e aconselhar sobre a ética profissional do servidor, no tratamento com as pessoas e com o patrimônio público, competindo-lhe conhecer concretamente de imputação ou de procedimento susceptível de censura. XVII – (Revogado pelo Decreto nº 6.029, de 2007). [...] XXI – (Revogado pelo Decreto nº 6.029, de 2007). XXII – A pena aplicável ao servidor público pela Comissão de Ética é a de censura e sua fundamentação constará do respectivo parecer, assinado por todos os seus integrantes, com ciência do faltoso. XXIII – (Revogado pelo Decreto nº 6.029, de 2007). XXIV – Para fins de apuração do comprometimento ético, entende-se por servidor público todo aquele que, por força de lei, contrato ou de qualquer ato jurídico, preste serviços de natureza permanente, temporária ou excepcional, ainda que sem retribuição financeira, desde que ligado direta ou indiretamente a qualquer órgão do poder estatal, como as autarquias, as fundações públicas, as entidades paraestatais, as empresas públicas e as sociedades de economia mista, ou em qualquer setor onde prevaleça o interesse do Estado. (BRASIL, 1994) Conforme observamos nesta unidade, a ética no serviço público é pré-requisito fundamental para a confiança pública, constituindo-se em marco fundamental para a boa governança. Considerações finais A sociedade brasileira, mais exigente e vigilante em relação ao funcionamento do Estado, tem clamado por serviços públicos que promovam de modo efetivo seus direitos, elencados na nossa Carta Magna e financiados pela arrecadação de tributos, impostos e contribuições legalmente instituídos. É de fundamental importância o papel estratégico que serviços públicos amplos e de Fundamentos da Gestão Pública28 qualidade podem desempenhar no estímulo ao desenvolvimento econômico com equidade social. Assim, a gestão eficiente dos entes públicos, por meio da implantação de políticas públicas que proporcionem direitos e serviços primordiais, é um desafio que envolve a formação e a capacitação dos servidores públicos, sua percepção sobre o papel do Estado e o seu trabalho, além da estrutura organizacional e operacional das instituições. Ampliando seus conhecimentos • MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. 1532. eBooksBrasil. Disponível em: http://www. ebooksbrasil.org/adobeebook/principe.pdf. Acesso em: 13 nov. 2019. Quando queremos dizer que alguém é astuto ou ardiloso, costumamos dizer que é maquiavélico. O responsável por esse adjetivo é Niccolò Machiavelli (ou Nicolau Maquiavel) (1469-1527), nascido em Florença, na época do Renascimento. A obra foi escrita durante algumas semanas, em 1513, quando o autor estava em exílio, acusado de conspirar contra o governo, mas foi publicada postumamente em 1532. Na obra, o filósofo tece considerações a respeito de como se deve organizar os Estados e agir um governante, ressaltando de modo crítico ações que levaram a sucessos e insucessos. • ÉTICA, corrupção, jeitinho brasileiro e exemplos – Mário Sérgio Cortella. 2017. 1 vídeo (6 min.). Publicado pelo canal Gualber Calado. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=OxO9mB6SqXY. Acesso em: 13 nov. 2019. Assista ao interessante vídeo Ética, corrupção e jeitinho brasileiro, do escritor, professor e filósofo Mário Sérgio Cortella. Atividades 1. Para que o Estado possa existir, são necessários alguns elementos. Cite quais são eles. 2. Quais são os princípios que norteiam a administração pública? Em qual artigo da CF/88 eles estão elencados? 3. Conceitue controle social. Referências BASTOS, I. L. G et al. Os princípios de governo, a natureza das leis e a tripartição de poderes segundo Montesquieu. In: Revista da Escola de Administração Pública do Amapá – Teorias Políticas e Gestão Pública, Escola de Administração Pública do Amapá, v. 1, n. 1, jan./dez., 2009. BOFF, L. Ética e moral: a busca dos fundamentos. Rio de Janeiro: Vozes, 2003. http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/principe.pdf http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/principe.pdf https://www.youtube.com/watch?v=OxO9mB6SqXY https://www.youtube.com/watch?v=OxO9mB6SqXY Introdução à gestão pública 29 BRASIL. Decreto-Lei n. 200, de 25 de fevereiro de 1967. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 27 mar. 1967. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del0200.htm. Acesso em: 13 nov. 2019. BRASIL. Constituição Federal (1988). Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Brasília, DF, 5 de outubro de 1988. BRASIL. Comissão de Ética Pública. Decreto 1.171, de 22 de junho de 1994. Disponível em: http://etica. planalto.gov.br/sobre-a-cep/legislacao/etica30. Acesso em: 13 nov. 2019. BRASIL. Lei n. 8.987, de 13 de fevereiro de 1995. Diário Oficial da União. Poder Legislativo, Brasília, DF, 14 fev. 1995. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8987compilada.htm. Acesso em: 13 nov. 2019. BRASIL. Ministério da Fazenda. Secretaria Federal de Controle Interno. Instrução Normativa n. 01, de 6 de abril de 2001. Brasília, DF, 2001. 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Diante desse contexto, a atuação dos municípios se sobressai, a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988, pois estes receberam destaque no cenário político-institucional à proporção que assumiram a execução de políticas públicas que outrora estavam a encargo da União ou dos Estados. Ainda que haja preponderância de concentração de poder no ente central, com a Constituição Federal de 1988, houve a anuência integral da autonomia política, financeira e administrativa aos entes federativos, cada qual passando a desempenhar seu papel na federação brasileira. Sendo assim, serão discutidos neste capítulo os arranjos político-administrativos e os papéis cabidos à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios. 2.1 Organização político-administrativa do Brasil No processo de formação dos Estados, uns foram estruturados no espaço geográfico em torno de um núcleo de poder central; em outros houve a formação de vários polos de poder em um mesmo território. Tal heterogeneidade deu origem às formas de estado e ao modo como o poder político é distribuído geograficamente. Há três formas de se classificar o estado: unitário, federado e confederado. O Estado unitário é caracterizado pela centralização política ou concentração de poder em apenas um único órgão localizado em certo ponto do território, do qual emanam as normas que devem ser observadas em todo o território. No entanto, nada impede que, no Estado unitário, haja uma descentralização administrativa ou político-administrativa, a fim de melhor atingir o bem comum (RAMALHO, 2017). O Estado confederado se caracteriza pela união dissolúvel de Estados soberanos, vinculados entre si por um tratado regido pelo Direito Internacional. Nesse tratado, estabelecem-se obrigações recíprocas a serem observadas pelos integrantes (RAMALHO, 2017). O Estado federado assume várias características que lhe são peculiares, as quais serão analisadas de modo mais detido adiante. Porém, a fim de traçar uma primeira distinção, o Estado Vídeo Fundamentos da Gestão Pública32 federado se apresenta composto de diversos entes dotados de autonomia político-administrativa e um único ente dotado de soberania (RAMALHO, 2017). O Estado é a pessoa jurídica constituída por Povo, Território, Governo e Soberania. Povo Governo Território Soberania Conforme Paulo e Alexandrino (2009, p. 254), o Estado “será federado (federal, complexo ou composto) se o poder político estiver repartido entre as diferentes entidades governamentais que coexistem em um mesmo território”. O Estado representa a ideia de uma sociedade politicamente organizada em um limite territorial, com vistas ao bem-estar de todos. Nos termos do artigo 18 da Constituição Federal, “a organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende